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Item do Plano:
Antipsiquiatria, reforma
Psiquiátrica...
Referência
Bibliográfica
Palavras-chave
“tese essencial da antipsiquiatria consiste na identificação da alienação mental com a alienação social. No
entanto, como defendem David Cooper, Ronald Laing e Aaron Esterson (...) em vez de prevenir a loucura, trata-
se de liberá-la, fazendo-a produzir sua própria verdade sem o controle do poder médico.” (Corbanezi, 2015, 74).
“[antipsiquiatras] se esforçam em demonstrar a impossibilidade de reduzir um determinado comportamento
desviante à objetividade científica que define o patológico; sabem, afinal, que a crítica epistemológica é também
política.” (Corbanezi, 2015, 76).
“[nota de rodapé 46] Foucault normalmente se refere à psiquiatria em suas diferentes formas, defindo-a como
‘tudo o que questiona o papel do psiquiatra outrora encarregado de produzir a verdade da doença no espaço
hospitalar’ (Foucault, 2006 (PP), p. 448, 2011 (Histoire de la folie at antipsychiatrie), p. 100).” (Corbanezi, 2015,
76).
“[Basaglia] o objetivo não é humanizar o hospital, mas sim negá-lo e superá-lo, distribuindo territorialmente
centros comunitários autossuficientes.” (Corbanezi, 2015, 77) nota de rodapé 51, ao fim dessa frase: “Com
efeito, apesar da postura revolucionária da tradição basagliana, não se assistiu à dissolução do poder
psiquiátrico, que permanece, sob justificativa científica, governando conduta para além do hospital.” (Corbanezi,
2015, 77).[minha tese!]

“Comumente, as literaturas sociológicas e psiquiátrica nomeiam o processo de esvaziamento dos hospitais


psiquiátricos de desinstitucionalização ou desospitalização (...).” (Siqueira, 2009, 41). [crise do manicômio:
prenuncio da crise da sociedade disciplinar, do esgotamento do regime disciplinar, como sinal de crise do poder
disciplinar. A partir daí, movimentos antipsiquiátricos como reação à esses modelos].
“No lugar de destruição, a crise que atravessou a psiquiatria [asilar, manicomial] teve como principal efeito a
expansão de seu governo para além dos espaços cerrados do manicômio. (...) psiquiatrizando a sociedade em
suas capilaridades.” (Siqueira, 2009, 42).
“As lutas antipsiquiátricas que emergiram em pequenos grupos na França, na Inglaterra e na Itália, por exemplo,
foram absorvidas pelo Estado e utilizadas como modelos para políticas públicas de Saúde Mental.” (Siqueira,
2009, 45). [captura das lutas antipsiquiátricas pelo Estado e pelo mercado].
“como ‘efeito colateral’ [do movimento antipsiquiátrico] alçar a psiquiatria para fora dos manicômios (...)”
(Siqueira, 2009, 46).

“nos anos 1960 (...). A Antipsiquiatria colocou em questão o saber psiquiátrico sobre a doença mental e agiu de
forma decisiva para esvaziar os manicômios ao lutar contra a instituição manicomial.” (Siqueira, 2011, 224).

“A partir dos anos 1960, as antipsiquiatrias, além de apontarem o caráter autoritário, segregador e de controle
social da psiquiatria, chegaram a colocar em cheque a própria validade científica do conceito de doença mental e
mostraram, por meio de experiências alternativas, a possibilidade de tratar fora dos muros do asilo os
estigmatizado como loucos.” (Siqueira, 2011, s/n).

“A reforma psiquiátrica tomaria maior vulto no Brasil no final dos anos 1980 e concomitantemente à luta
antipsiquiatria, e derivações do seu arrefecimento (...) ocupariam o cômodo lugar da luta antimanicomial
negociada, como mostrou Passetti. § ‘O sistema loucura-doença mental, depois de problematizado pela
antipsiquiatria, passou, também, pela captura como os demais efeitos das lutas contra a ordem, sob a forma de
direitos que gradativamente compuseram a continuidade do manicômio com práticas a céu aberto dos cares
(...).’ (Passeti, 2012: 106-107 [grifos do autor]).” (Oliveira, 2014, s/n, grifos da autora).
PASSETTI, Edson (2012). “Loucura e transtornos: políticas normalizadoras”. In Revista Ecopolítica n. 2.
São Paulo: Nu-Sol - Projeto Temático Fapesp Ecopolítica, dez 2011-mar de 2012.
“No início do século XXI, consolidou-se a criação de uma gama de serviços substitutivos acompanhados de nova
legislação, para o que se passou a denominar de saúde mental, coroada em 2011 pela Lei da Reforma
Psiquiátrica (Lei n° 10.216, de 6 de abril de 2001). § Por volta de meia década depois a estimativa de leitos
psiquiátricos, só para se restringir aos credenciados pelo SUS, giravam em torno de 38.842 articulados à
ampliação exponencial dos CAPS distribuídos por todo o país, conjugados, na ocasião, a 479 Serviços Residenciais
Terapêuticos, 860 ambulatórios de saúde mental, cerca de 60 Centros de Convivência e Cultura e 2.741 usuários
do Programa de Volta para Casa². [nota 2: Conforme Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Outras
Drogas/ Ministério da Saúde. “Apresentação” In Saúde Mental em Dados, 2007; (4):4-5.
http://www.ccs.saude.gov.br/saude_mental/periodicos_smDados.html (...) [marquei como unidade de análise
para eu utilizar depois na caracterização do dispositivo psiquiátrico atual]]” (Oliveira, 2014, s/n).
“O setor ou a intersetorialidade jamais foram um avanço radical, como alardeia literalmente a Conferência de
Saúde Mental de 2010 no Brasil; são apenas a armadilha, a mais exata tradução do confinamento ampliado à
ordem, que derivou da psiquiatrização da ordem (FOUCAULT, 2001[AN]; 2006[PP]) (...).” (Oliveira, 2014, s/n).

Para encerrar parte da Reforma psiquiátrica:


“O setor não seria um outro modo, mais maleável, de fazer funcionar a medicina mental como uma higiene
pública, presente por toda a parte e sempre pronta a intervir? (...) nós caminhamos, com largas passadas, para
uma sociedade extrajurídica na qual a lei terá por papel autorizar intervenções coercitivas e reguladoras sobre os
indivíduos. A psiquiatria (...) foi um dos grandes fatores dessa transformação.” (Foucault, 1999, p. 297).
Michel Foucault. “O asilo ilimitado” In Problematizações do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise (Ditos e
escritos I). Tradução de Vera Lucia Avellar Ribeiro; organização de Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1999, pp. 294-297).

“O sistema loucura-doença mental, depois de problematizado pela antipsiquiatria, passou, também, pela captura
como os demais efeitos [106] das lutas contra a ordem, sob a forma de direitos que gradativamente
compuseram a continuidade do manicômio com práticas a céu aberto dos cares e metamorfoseou a luta
antipsiquiátrica em luta antimanicomial negociada.” (Passeti, 2012, 107, grifos do autor).

“a crítica do asilo é praticamente contemporânea ao seu nascimento no final do século XVIII.” (Corbanezi, 2018b,
1). [Como à crítica à prisão constatada por F(VP)]
“em oposição à história convencional da psiquiatria, o sociólogo argumenta que não foi apenas recentemente,
no pós-guerra, que se tramou a desconstrução do paradigma tradicional da psiquiatria, dado que os anos 1860
iniciaram críticas ‘tão violentas e tão lúcidas como as dos modernos antipsiquiatras’ (CASTEL, 1978 [A gestão dos
riscos], 13).” (Corbanezi, 2018b, 3).
“dois blocos cuja experiências são essencialmente reformistas. Composto pela comunidade terapêutica inglesa e
pela psicoterapia institucional francesa, o primeiro bloco tem por característica comum a introdução de
modificações na instituição psiquiátrica, mantendo-a, porém. O segundo se constitui, por sua vez, pela
psiquiatria de setor francesa e pela psiquiatria comunitária ou preventiva norte-americana. Embora [3] enfatizem
a importância da redução do modelo hospitalarão do modelo hospitalar, ambas as experiências produziram uma
significativa extensão da psiquiatria no espaço social a partir de noções como prevenção e promoção da saúde
mental. De outro lado, contundo, apresentam-se duas experiências radicais dispostas a romper inteiramente
com o dispositivo psiquiátrico tradicional: a antipsiquiatria inglesa e a tradição basagliana, que fundamentou a
psiquiatria democrática italiana.” (Corbanezi, 2018b, 34).
“[nota 6] as críticas mais radicais à psiquiatria não se limitam a desconstrução do hospital psiquiátrico, mas se
dirigem também e de modo fundamental – à desmedida força conferida ao médico, da qual decorrem a
produção da verdade sobre a loucura e a consequente submissão do doente a tal verdade.” (Corbanezi, 2018b,
4).
“[comunidade terapêutica] (...). Com uma estrutura social horizontal e igualitária, o pressuposto fundamental
dessa prática consiste na ideia de tornar a função terapêutica uma tarefa relacional restrita não apenas à equipe
profissional, mas estendida também aos próprios internos, aos seus familiares e à comunidade. (...) a experiência
inglesa almejava desconstruir o princípio de autoridade médica do hospital psiquiátrico tradicional,
democratizando as relações (...).” (Corbanezi, 2018b, 5).
“[psicoterapia institucional] reorganizar a instituição psiquiátrica a partir do referencial psicanalítico (...). (...) a
experiência francesa não visa à eliminação do hospital psiquiátrico, mas ao início de um processo terapêutico
para recuperá-lo, fazendo funcionar a ideia de que todos – técnicos, pacientes e instituição – relacionados
indistintamente cumprem uma função terapêutica (...). (...) significativa inserção da psicanálise na instituição
psiquiátrica.” (Corbanezi, 2018b, 6).
“[psiquiatria de setor francesa] desdobramento da psicoterapia institucional (...) questiona (...) o uso exclusivo do
modelo hospitalar. (...) política oficial se saúde mental na França a partir de 1960. Embora ainda mantenha o
hospital como dispositivo intermediário e necessário para determinados casos, a novidade da política de setor
consiste na criação e implantação de centros de saúde mental distribuídos territorialmente (...) uma equipe
multiprofissional constituída de psiquiatras, psicólogos, enfermeiros e assistentes sociais, entre outros [nota 11:
(...) outros ‘equipamentos extra-hospitalares’ compõem a setorização, tais como albergues, apartamentos
terapêuticos, ateliês protegidos e visita a domicílio]. (...) [7] regionalização do atendimento (...) desconstrução do
modelo hospitalar tradicional (...) do poder exclusivo do médico psiquiatra. (...) a psiquiatria de setor
representou uma das atualizações (aggiornamento) da psiquiatria em sua função de controle social. (...)
pretensão de conduzir a psiquiatria à cidade (...) o fortalecimento do poder psiquiátrico, que atua então de
maneira contínua em todo território social. [nota 12: A gestão dos riscos: da antipsiquiatria à pós-psicanálise, de
Robert Castel (1987) (...) setorização francesa, designada criticamente pelo autor como aggiornamento
psiquiátrico – metáfora religiosa utilizada para desmistificar a ideia de ruptura e, desse modo, evidenciar a
atualização e a sofisticação do dispositivo psiquiátrico não restritas, porém, à política de setor, mas coextensivas
a outras experiências alternativa, tais como a psiquiatria comunitária, a psicoterapia institucional e a própria
antipsiquiatria].” (Corbanezzi, 2018b, 7).
“[psiquiatria comunitária e preventiva EUA] o deslocamento da terapêutica da doença mental para a promoção
da saúde mental. (...). presidente Kennedy formula essa nova política assistencial em 1963 (...) modelo indicado
mundialmente pela OMS [nota 13: (...) modelo extra-hospitalar e na substituição efetiva da doença mental pela
saúde mental (...)]. (...) atuação preventiva (...) três níveis: o primário, que consiste na tentativa de impedir o
desencadeamento da doença a partir da intervenção nas condições possíveis de sua formação no meio social ou
no próprio indivíduo; o secundário, que diz respeito ao diagnóstico e ao tratamento precoces do indivíduo; e o
terciário, relativo à reabilitação do indivíduo em sociedade após sua melhora. (...) prevenção primária (..)
fundamenta a obsolescência do asilo. (...) [7] (...) Decorre daí (...) uma de nossas intenções de mostrar a
anormalidade como uma importante proveniência da saúde mental, a despeito da distância histórica que separa
esses dois momentos da psiquiatria. Da caça aos ‘degenerados’ à caça aos ‘suspeito’, o procedimento é
praticamente o mesmo, não obstante a diferença teórica: trata-se de capturar o suposto devir-doença,
eliminando-o. § (...) aferindo a saúde e a doença a partir da adaptação ou desadaptação social, a psiquiatria
comunitária recorre à noção de desvio, cara à sociologia tanto quanto à psicologia behaviorista. (...) relação de
semelhança entre desvio social e doença mental (...). [8] (...) a pretexto de prevenção, torna-se possível intervir
em indivíduos suspeitos de portarem um estado ‘pré-patológico’ e, desse modo, promover a ‘saúde mental’,
compreendida strictu sensu como ajustamento social. Paradoxalmente, o efeito mais evidente do procedimento
que objetiva a promoção da saúde mental consiste na psiquiatrização da vida social para além dos muros asilares
[nota 17: (...) a psiquiatria preventiva desencadeou o que se convencionou denominar ‘desinstitucionalização’.
(...) mais associada ao processo de desospitalização (...). (...) o conceito de desinstitucionalização não significa
apenas desospitalização, mas sim uma desmontagem do dispositivo psiquiátrico que institucionalizou a loucura
como doença mental.], diluindo ainda mais a tênue fronteira entre o normal e o patológico. (...) mediante a
descentralização da função do médico psiquiatra, estendida então a psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros,
terapeutas ocupacionais e, no limite, à comunidade inteira, essa experiência produziu ‘subpsiquiatras’, isto é,
uma multiplicação da função-psiquiatra no tecido social.” (Corbanezi, 2018b, 9).
“[nota 17: o conceito de desinstitucionalização não significa apenas desospitalização, mas sim uma
desmontagem do dispositivo psiquiátrico que institucionalizou a loucura como doença mental.]” (Corbanezi,
2018b, 9).
“[antipsiquiatria inglesa] experiência (...) que pretendeu romper inteiramente com o dispositivo psiquiátrico. (...)
tese essencial da antipsiquiatria consiste na identificação da alienação mental com alienação social. (...) David
Cooper, Ronald Laing (...) [nota 19: (...) tomada de consciência a respeito da articulação [9] existente entre a
repressão psiquiátrica e outras formas de coerção.] (...) em [9] vez de prevenir a loucura, trata-se de liberá-la,
fazendo-a produzir sua própria verdade sem o controle do poder médico. (...) constatação antipsiquiátrica de
que a loucura não é um fato natural e, por isso, não constitui uma entidade nosológica. (...) ao contrário de
problema médico, a loucura seria produto social, motivo pelo qual seria necessário deixá-la manifestar-se em sua
verdade, a um só tempo terapêutica e reveladora. (...) desinstitucionalizar a doença mental – isto é, subtrair sua
problemática médica – para além da simples desospitalização. (...) o problema não residiria na suposta
irracionalidade do ‘doente’, mas antes na irracionalidade institucional da psiquiatria. § (...) questionamento
primordial concernente a relação de força que subjaz a relação terapêutica estabelecida pelo médico e
sustentada pela instituição psiquiátrica. (...) [11] a crítica antipsiquiátrica assume uma dimensão mais política do
que epistemológica, ainda que esta não seja negligenciada pelos antipsiquiatras, que se esforçam em
demonstrar a impossibilidade de reduzir um determinado comportamento desviante à objetividade científica
que define o patológico (...).” (Corbanezi, 2018b, 11).
“[nota 21] (...) Foucault (...) se refere à antipsiquiatria em suas diferentes formas, definindo-a como ‘tudo o que
questiona o papel do psiquiatra outrora encarregado de produzir a verdade da doença no espaço hospitalar’
(FOUCAULT, 2006[PP]: 448 ...)].” (Corbanezi, 2018b, 11).
“[psiquiatria democrática italiana] processo de desativação do hospital psiquiátrico no país com a
implementação da lei 180 em 1978. (...) ‘lei Basaglia’. (...) pressupostos marxistas, Basaglia (1985 [BASAGLIA,
Franco. A instituição negada: relato de um hospital psiquiátrico. Trad. De Heloisa Jahn. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 1985.]) trata a questão psiquiátrica como um problema fundamentalmente político e econômico: ao
mesmo tempo em que é medicamente marcado por relações de poder, o hospital psiquiátrico também conserva
e reproduz a diferença de classe. (...) a própria doença é compreendida como decorrência da marginalização
socioeconômica, não sendo negada, porém, sua realidade psicopatológica, como o faz a antipsiquiatria de
Cooper e Laing. (...) [11] (...) diferentemente da comunidade terapêutica, da psicoterapia institucional e da
psiquiatria de setor – que servem, contundo, de forma intermediária para o propósito basagliano –, o objetivo
não é humanizar o hospital, mas sim negá-lo e superá-lo, distribuindo territorialmente centros comunitários
autossuficientes [nota 24: (...) Com efeito, apesar da postura revolucionária da tradição basagliana, não se
assistiu à dissolução do poder psiquiátrico, que permanece, sob justificativa científica, governando condutas para
além do hospital.]. (...) § (...) psiquiatria, cujo funcionamento é percebido como estritamente ideológico. (...) a
suposta neutralidade científica da psiquiatria teria subtraído a realidade concreta do doente para ocupar-se tão
só da doença enquanto categoria abstrata (...). (...) a sofisticação técnica do poder médico seria uma forma de
[12] ocultar e de mistificar sob a aparente finalidade terapêutica tanto a violência real e constitutiva da prática
psiquiátrica quanto a contradição das relações sociais. Tal como para a antipsiquiatria de Cooper e Laing, na
visão de Basaglia a violência também constitui o cerne da questão.” (Corbanezi, 2018b, 13).
“[contexto Reforma Psiquiátrica] as críticas e as transformações procedentes de uma nova percepção da
psiquiatria fazem parte de um momento histórico no qual, em países europeus e nos EUA, emergiam
movimentos contestatórios direcionados às formas tradicionais de autoridade e aos privilégios de classe, assim
como micropolíticas voltadas às mulheres, às normatividades sexuais, à questão racial, à delinquência, ao meio
ambiente, à toxicomania, às doenças mentais etc. E nesse contexto de ‘liberação’ – para o qual Maio de 1968 se
tornou paradigmático –, a psiquiatria se apresentava como um objeto privilegiado para evidenciar o desnível de
determinadas relações de poder e o caráter repressivo que daí decorria. (...). [13] (...) de maneira mais ou menos
radical, as psiquiatrias alternativas se voltam contra o poder médico institucionalizado a fim de lhe subtrair o
domínio exclusivo da loucura e torná-la novamente um problema social.” (Corbanezi, 2018b, 14).
“[psicanalização da psiquiatria] incorporação da psicanálise pela psiquiatria (...) supervalorização da
subjetividade, que caminha pari passu com o deslocamento das lutas políticas (...) capacidade de entrecruzar
liberação social e liberação pessoal. (...) uma forma de desmedicalizar a doença mental por meio do
reconhecimento do caráter exclusivamente relacional da patologia. (...) A importância atribuída à subjetividade,
percebida então como elemento político de liberação pessoal e social, (...) [14] (...) a banalização e a difusão de
uma complexa teoria no tecido social, tornando-a ‘um fenômeno cultural de massa’ (CASTEL, 1987 [A gestão dos
riscos]: 140).” (Corbanezi, 2018b, 15).

“a implantação dos serviços de portas abertas acabou por recriar a lógica do espaço especializado, ocultando o
corpo desviante às vistas da sociedade.” (Gerino, 2017, 22).
“a inclusão do corpo desviante na cidade se deu num estrato em que a psiquiatria e as terapias continuam
funcionando como aparelho de captura à normalização dos corpos desviantes. Arriscamos dizer que estamos
diante de uma bifurcação cujas práticas se dão num contínuo enclausuramento do corpo desviante em espaços
especializados para promoção da saúde mental, em programas cujo slogan é a política de inclusão (PELBART,
1995[“Os loucos, trinta anos depois.” In: Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, 42, pp. 171-176, jul 1995.]).”
(Gerino, 2017, 22).
“Mesmo com esforços visando a desinstitucionalização da loucura em meados do século XX, por meio das críticas
antimanicomiais, o revez-cárcere se faz presente. Inúmeros são os casos de manicômios reformados, com novas
nomenclaturas; infindáveis maneiras de estigmatizar a diferença; variadas práticas de segregar o corpo
desviante.” (Gerino, 2017, 26).
“Mesmo entrando em vigor a partir de 2001, a lei que fundamentou a reforma psiquiátrica brasileira –
10.216/2001 – parece não estar sendo suficiente para reduzir, progressivamente, a internação em hospitais
psiquiátricos; vemos o modelo asilar-[27]manicomial persistir e, com isso, constata-se não apenas sua resistência
à reforma, mas seu fortalecimento dado o número de serviços de características semelhantes às do manicômio
clássico. A novidade é que muitos espaços de tratamento ao corpo desviante estão disfarçadas sob a
nomenclatura de comunidades terapêuticas ou de clínicas psiquiátricas privadas, mas na verdade o capturam e
aprisionam sob a ideia de sofrimento mental.” (Gerino, 2017, 28).
“Há, ainda, muitos seres encerrados entre os muros das remanescentes e novas instituições psiquiátricas e
terapêuticas.” (Gerino, 2017, 28). [pesquisar esse número para minha tese?!].
“Entre o final do século XX e início do XXI, realiza-se um corte diante desse fluxo carcerário da loucura. (...)
antipsiquiatria (...) psiquiatria democrática italiana (...) luta antimanicomial (...). E por mais que os corpos
afetados pela loucura ganhassem espaços no meio urbano, esses novos locais serão construídos especificamente
para confiná-los não na forma do internamento clássico (de longa duração), mas numa fração pequena de
tempo. O corpo desviante enclausurado, [35] agora, pelo rótulo de portador de transtornos mentais, não mais
será comportado em dormitórios ou leitos psiquiátricos, celas, quartos e correntes; mas, por horas, dias, meses,
anos ou até o fim da vida, lhe serão designadas novas terapias e atividades desenvolvidas especificamente
nesses espaços restritos ao tratamento da saúde mental, lógica essa que mascara o estigma da loucura, mas não
o extermina.” (Gerino, 2017, 36).
“a clínica de La Borde, dirigida por Jean Oury e Félix Guattari, dispusera um modelo de institucionalização no qual
o espaço asilar propunha a convivência coletiva entre usuários do serviço e funcionários. Uma instituição de
portas abertas. As atividades estavam diluídas numa convivência entre pacientes, trabalhadores e a comunidade
local e estrangeira que estagiara nos [50] espaços clínicos. Via-se o paciente-motorista, o paciente-atendente de
lanchonete, entre outras funções que não diferenciavam o paciente do funcionário; instaurava-se um espaço
para todos, outra proposta de convivência com a loucura. Na França, não se instituiu a ideia de fechar as
instituições psiquiátricas, mas reformá-las em contraponto ao modelo manicomial (...) § O modelo asilar de La
Borde se caracterizava pela prática não violenta e inclusiva de coletivização das atividades da clínica. (...) La
Borde se manteve enquanto modelo privado de povoamento da loucura, no qual se seguiu a terapêutica
psicanalítica (...)” (Gerino, 2017, 51).
“Na Itália, não se almejou a manutenção do hospital psiquiátrico. (...) dada a realidade que o paciente enfrentava
no seu cotidiano (...) como constatou Basaglia (1985) ao chegar a Gorizia: perda da cidadania, abandono,
violência, exclusão. (...) É ali que a sociedade deposita o que ela não deseja ver; é lá o local em que submete-se o
corpo desviante a relações coercitivas e excludentes, sob a ideia de tratamento psiquiátrico (...). Ali, o corpo
louco é tomado como algo sem história, sem vida social, sem nome; um território aberto para testar as mais
diversas tecnologias de contenção da loucura, seja por meio da camisa de força, da lobotomia, da
eletroconvulsoterapia, ou de velhas e novas drogas psiquiátricas, fazendo do manicômio um imperativo
terapêutico da violência. (...) §§ A ideia (...) destruir o manicômio e contribuir, num segundo passo, para a
construção de uma rede comunitária de serviços de portas abertas. [52] § § (...) a reforma psiquiátrica italiana
teve como característica central o descrédito à instituição asilar psiquiátrica, algo que não ocorreu na reforma
francesa. Não havia a possibilidade de afirmar o modelo manicomial, uma vez que nele se encontrava todo o
aparato repressivo que produzia e agrava o sofrimento psíquico do interno.” (Gerino, 2017, 53).
“baseado na redução de custos (desospitalização), colocaria o confinamento em xeque e o psicofármaco como
agente responsável pelo controle desses corpos e pela implementação da política de [56] desinstitucionalização
manicomial.” (Gerino, 2017, 57).
“A crise do manicômio e, consequentemente, a irrupção da reforma psiquiátrica estão inteiramente ligados à
atualização da máquina capitalista que, muito mais do que enxugar os custos com a saúde mental, fará do corpo
desviante um corpo-empresa, através de uma política internacional de inclusão. Esta política específica está
idealizada na participação de um número cada vez maior de seres humanos na vida ativa do capital (...). E trazê-
los para dentro da máquina, ao fazer do marginal excluído um cidadão de direitos; é colocá-los no circuito da
política participativa e de mercado; é fazer do corpo desviante, marginalizado, uma empresa com investimento,
responsabilidade social e lucro (...).” (Gerino, 2017, 57).
“a reforma psiquiátrica no Ocidente articula, pelo menos, duas conexões: a militância antimanicomial e a
atualização da máquina capitalista.” (Gerino, 2017, 59).
“Libera-se dos manicômios para um duplo jogo: a constituição de um novo povoamento capitalista (de loucos) a
serviço dessa máquina [capitalista]; e uma nova classe de consumidores cujo produto vital é, até o fim da vida, o
psicofármaco.” (Gerino, 2017, 60).
“Na pós-reforma [psiquiátrica], a nova ideia de liberdade (democrática) incluiu, por meio da
desinstitucionalização manicomial, pessoas com transtornos mentais na sociedade de controle (DELEUZE, 2013a
[PS]), onde tudo é mercadoria; tudo é empresa.” (Gerino, 2017, 69).
“nos serviços de portas abertas, como CAPS, Hospital-dia, (...). (...) os serviços de atenção psicossocial, tais como
os hospitais e as clínicas particulares, prestam-se a ouvir o discurso delirante. Entretanto, ouvem-no como uma
produção de verdade ligando-o à questões maquínicas: máquina-édipo, máquina-social, máquina-trauma,
máquina-violação, máquina-delírios. Há todo um saber específico para a análise da fala do outro, porém, ao
interpretá-la, altera-se o sentido da proposição discursiva.” (guerino, 2017, 145).
“É passando por este aparelho público [CAPS] que se assistirá a saúde mental do usuário no intuito de promover
sua integração ao trabalho, a família, a cidadania e aos laços comunitários. É sobre o desvio desse modelo que se
pratica a terapia para trazer o desviante aos círculos modulados da sociedade. Mas que tipo de relação
terapêutica é essa que, inclusiva, cria não mais o sujeito abandonado, mas um novo louco, por meio da
ascendente subjetividade destoante do portador de transtorno mental dependente dos serviços de portas
abertas para se comunicar e integrar à sociedade? § Apesar dos avanços nas políticas e discussões acerca da
loucura, não libertamos o exercício desviante às luzes da sociedade. (...) Apenas liberamos o corpo desviante ao
fluxo da máquina capitalista, transformando suas produções delirantes, por exemplo, em arte, nas oficinas de
arteterapia. Há de se vasculhar e extrair o que há de valor nos corpos desviantes.” (Gerino, 2017, 146).

“a Reforma Psiquiátrica (...) um processo complexo, composto e articulado por quatro dimensões
simultaneamente articuladas e que se retroalimentam. Primeiramente (...) a construção e invenção de novas
estratégias e dispositivos de assistência e cuidado, (...) novos ‘lugares sociais’ para esses sujeitos em sofrimento
psíquico, (...) os centros de atenção psicossocial (CAPS), ambulatórios psiquiátricos, leitos psiquiátricos em
hospitais gerais, hospitais-dia, etc. (...) [segunda dimensão] de ordem epistemológica, (...) revisão e reconstrução
no próprio campo teórico da ciência em si, da psiquiatria e da saúde mental. (...) [terceira dimensão] no campo
jurídico-político, (...) a constituição e/ou mudança da legislação civil, penal e sanitária considerando os conceitos
de cidadania e direitos civis, sociais e humanos, (...) uma transformação da prática social e política em relação à
loucura. (...) [quarta dimensão] dimensão cultural relativa às construções de valores e princípios, ou melhor, do
‘imaginário social’ sobre a loucura (AMARANTE, 2001[Reforma Psiquiátrica. In: Textos: Mostra Inaugural
―Memória da Loucura ‖ Rio de janeiro: Centro Cultural d Saúde (CCS), 2001.]).” (CASAGRANDE, 2015).

“No Brasil, o processo de reforma psiquiátrica apresenta-se plural e descontínuo ao considerar-se peculiaridades
das redes loco-regionais de saúde.” (Barbosa, Caponi, Verdi, 2018, p. 179).

Corbanezi, 2018b.

Reforma da Comunidade Terapêutica inglesa


instituição
psiquiátrica
asilar/hospitalar Psicoterapia Institucional francesa
Reformistas

Redução modelo Psiquiatria de setor francesa


hospitalar
Expansão
Psiquiatria comunitária/preventiva EUA
Críticas à psiquiatria extramuros
tradicional, asilar,
manicomial, disciplinar,
médica-centrada.

Romper com Antipsiquiatria inglesa


dispositivo
Radicais
psiquiátrico Tradição basagliana
tradicional Psiquiatria democrática italiana

“Herdeiras bastardas da psicanálise


“Correndo por fora”, junto à politização Psicanalização da psiquiatria: (Castel, 1987 [A gestão dos riscos],
- supervalorização do subjetivo tecnologias sobre o “normal”,
da psiquiatria - liberação pessoal e social. potencializar o humano (bioenergia,
grito primal, Gestalt-terapia...)