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PODER JUDICIÁRIO

COMARCA DE FOZ DO IGUAÇU – PARANÁ


2ª Vara da Fazenda Pública
Estado do Paraná
_________________

Autos n.º 0001128-90.2013.8.16.0030

Vara: 2ª VARA DA FAZENDA PÚBLICA DE FOZ DO IGUAÇU

Classe Processual: 7 - PROCEDIMENTO ORDINÁRIO

Assunto Principal: 10444 - POSSE

Nível de Sigilo: PÚBLICO

Requerentes: FRANCISCO BUBA JUNIOR E MYRIAM IRENE JACOBS BUBA

Requeridos: MARIA SOLANGE FELIPE E OUTROS

SENTENÇA

I. RELATÓRIO

FRANCISCO BUBA JUNIOR e MYRIAM IRENE JACOBS BUBA


ajuizaram a presente AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE com pedido liminar em
face de RÉUS DESCONHECIDOS.
Alegam os autores que são legítimos proprietários e possuidores de
diversos imóveis nesta comarca, tendo, a presente ação por objeto os imóveis localizados
na parte sul do município, os quais são cercados pelos bairros: Jardim Veraneio, Jardim
Guaíra, Ana Rouver e Jardim Morenitas. Que por se tratar de loteamentos populares, houve
diversas ameaças e tentativas de invasão aos imóveis. Salientaram que em 21 de dezembro
de 2012 foi confeccionado Boletim de Ocorrência para registrar esbulho ocorrido em 20
de dezembro de 2012. Que, novamente em 13 de janeiro de 2013 compareceu o autor
perante a autoridade policial para noticiar fato futuro. Aduziu que no dia 13 para 14 de
janeiro, no período noturno, houve enorme invasão, por aproximadamente duas mil
pessoas.
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Assim, culminaram, em sede de liminar, pela reintegração na posse e a


fixação de multa em caso de descumprimento. Pugnaram ao final, pela procedência do
pedido. Juntaram documentos.
Em decisão de ev. 11.1, houve a concessão da medida liminar requerida,
para o fim de determinar a desocupação voluntária dos imóveis em 30 (trinta) dias, sob
pena de expedição de mandado de reintegração de posse.
No mov. 39.1, o Instituto de Habitação de Foz do Iguaçu – FOZHABITA
informou que no local existem cerca de 800 (oitocentas) famílias.
Foi procedida a notificação para desocupação voluntária, conforme
certidão do oficial de justiça em ev. 40.1.
Designada audiência de conciliação foi formulada proposta de acordo, a
qual foi homologada pelo juízo (tela 140.1), pelo que houve a suspensão da liminar
concedida.
Tendo em vista a ausência de deslocamento voluntário dos invasores da
área, foi determinada a desocupação forçada (mov. 194.1).
Posteriormente, em decisão proferida pelo Órgão Especial do Tribunal
de Justiça do Estado, foi deferido o pedido de suspensão da liminar concedida nestes autos,
até a efetiva regularização do programa habitacional da Caixa Econômica Federal, com a
realocação das famílias em novo loteamento (mov. 229.1).
Na sequência, houve decisão em que declarou a incompetência da Vara
Cível, determinando-se à remessa a Vara da Fazenda Pública, sendo o feito distribuído
conforme mov. 243.1.
No mov. 293.1, pleiteou a parte autora a intimação dos terceiros
interessados para fins de que se manifestassem sobre os compromissos assumidos,
inclusive ratificando ou declinando seus interesses, assim como requereu o saneamento do
feito com a identificação de eventuais réus, para inclusão no polo passivo da lide, visando
eventual apresentação de defesa técnica por eles e posterior julgamento antecipado.
Diante das diligências infrutíferas para apresentação da lista atualizada
de ocupantes pela ADESP determinou-se a citação por edital, conforme tela 329.1.
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Após, publicação dos editais, a Defensoria Pública do Estado do Paraná


(seq. 340.1), manifestou-se solicitando a reconsideração da citação por edital, com a
concessão de 60 (sessenta) dias de prazo, para que apresentasse lista atualizada dos
moradores a ser realizada pela UNILA, com a finalidade de oportunizar a citação pessoal
dos referidos moradores, ante o interesse que fossem representados pela Defensoria
Pública.
O juízo concedeu o prazo postulado, conforme seq. 348.1. Inclusive,
manteve a citada decisão (mov. 365.1), quando os autores pleitearam a reconsideração,
visto que restou devidamente demonstrado pela Defensoria Pública os avanços da UNILA
na identificação dos ocupantes.
A Defensoria Pública apresentou a lista de moradores na seq. 385.1 e ss.
Sobreveio no mov. 392.1, decisão saneadora determinando a retificação
e exclusão do número de terceiros cadastrados, ainda com a ordem para que os autores
procedessem a emenda a petição inicial, com a finalidade de citação pessoal dos ocupantes
maiores de idade e minimamente identificados, posto que embora representados pela
Defensoria Pública, tal ato por si só não dispensaria a necessidade de citação pessoal.
A emenda foi apresentada na seq. 416.1.
Acolhida a emenda por este juízo com a determinação de inclusão dos
requeridos no polo passivo e ainda a expedição dos respectivos AR´s ou mandados via
Oficial de Justiça.
Anotação do Cartório Distribuidor tela 1261.1, certificando a inclusão de
845 pessoas no polo passivo da demanda.
Prolatada decisão interlocutória pelo juízo mov. 1264.1, designando
audiência pública de conciliação e mediação.
Termo de audiência acostado na seq. 1309.1, oportunidade inclusive que
a Defensoria Pública assumiu a defesa coletiva dos ocupantes, sendo-lhe concedido o prazo
de 90 (noventa) dias, para apresentação de contestação. Ademais, o juízo reconheceu como
válido os mandados de citação e edital expedidos anteriormente, sendo ainda determinado
o recolhimento dos demais mandados de citação.
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A Defensoria Pública do Estado do Paraná, apresentou na seq. 1316.1, a


defesa coletiva dos ocupantes, por meio de seu Núcleo Itinerante das questões fundiária
e urbanísticas – NUFURB. Inicialmente, aduziu as preliminares de impugnação ao valor
atribuído a causa e a inadequação da via eleita posto que em sua inicial os autores apenas
informaram a condição de proprietário e nem mesmo (os autores) atribuem a si a referida
posse. No que tange ao mérito, salientaram a ausência absoluta de provas quanto ao
exercício de posse concomitante ao suposto esbulho, uma vez que somente juntaram
certidões imobiliárias comprobatórias da titularidade registral dos terrenos, constatação
esta que inclusive é apta a justificar a improcedência do pedido dos autores. Aduzem ainda
que das imagens extraídas do “Google Maps” é possível notar que a área em discussão “era
objeto de ostensiva especulação imobiliária, permanecendo sem qualquer função social
durante prolongado período de tempo”, logo narram os requeridos, que a demanda é
improcedente, “pela falta de alegação da condição de possuidores (dos autores), seja pela
ausência de provas de tal situação jurídica de vantagem, seja, ainda, pela demonstração
cabal de que inexistia qualquer ato de posse sobre o bem”. Os requeridos asseveraram a
impossibilidade de reintegração de posse, sob o fundamento de que as ocupações
consolidadas “merecem tratamento jurídico especial, pois envolvem valores que resultam
na limitação da atividade executiva, sem que isto vulnere os direitos patrimoniais, que são
tutelados de forma não específica”. Salientaram, o dever do Estado-juiz em garantir o
resultado justo do processo, porém devendo atentar-se a preservação dos direitos
fundamentais mínimos de todos os sujeitos envolvidos, inclusive o exercício da jurisdição
do Estado não pode contribuir para “o incremento da pobreza, da desigualdade social e da
marginalização, sobretudo porque tal conduta violaria os objetivos da República
Federativa do Brasil, fixados logo no artigo 3º da Constituição. Note-se que eventual
reintegração de posse afetará diretamente os direitos básicos e inalienáveis de inúmeras
famílias pobres, cuja situação de evidente risco social será seriamente agravada. Ademais,
dentre os possíveis atingidos pela decisão judicial postulada pelos autores estão grupos
de extrema vulnerabilidade, tais como crianças, idosos e mulheres”. Afirma ainda a
excepcionalidade do caso em discussão, já que as famílias estão no local a
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aproximadamente 04 anos, ou seja, “Significa dizer que suas vidas gravitam em torno
daquela base geográfica. [...] Além disso, 87% das famílias envolvidas são usuárias dos
equipamentos públicos locais e dele dependem para satisfação de suas necessidades
básicas. Neste percentual, estão incluídas 832 crianças, matriculadas em colégios e
creches da região”. Ressalva a possibilidade de controle judicial sobre a matéria, com a
criação de um paralelo com a desapropriação indireta, no qual “o Poder Público
simplesmente promove o desapossamento do particular, apropriando-se do bem para
conferir-lhe utilidade pública, sem, contudo, observar os requisitos da declaração e da
indenização prévia. Significa dizer que, confirmada a afetação de determinado bem a um
interesse público, surge ao proprietário o direito de justa reparação, ao qual corresponde
o dever de o Poder Público indenizar o particular”. Aliás, os requeridos asseguraram que
a solução adequada é a não remoção, posto que se a escolha for a de remoção, a nova
moradia deve atender uma série de requisitos, contudo a infraestrutura disponibilizada pela
Gleba Guarani é absolutamente carente, com serviços públicos distantes e escassos. Por
fim, argumentaram pela extinção sem resolução de mérito da demanda em decorrência da
inépcia ou também pela improcedência diante da ausência de provas a respeito da posse,
ou, finalmente pela desapropriação indireta fundada na afetação pública do bem. Juntaram
documentos.
Os autores apresentaram impugnação à contestação na seq. 1342.1,
oportunidade em que rebateram a impugnação ao valor da causa, aduzindo que, o critério
utilizado foi o valor da posse do período do dano e não o valor do imóvel, no que tange à
alegada ausência de interesse processual, salientaram que a matéria está preclusa, uma vez
que não houve insurgência no momento apropriado. No mérito, que não há que se falar em
ausência de comprovação da posse ou de exteriorização da sua defesa, eis que fora
informado na inicial a comunicação da ocorrência perante a autoridade policial, com seu
devido registro; esclareceram, ainda, que a área em questão era destinada a agricultura,
pelo que, não haviam residências instaladas antes da invasão. Que, além disso, a questão
possessória pode ser corroborada por prova testemunhal. Asseveraram que, a manutenção
da situação fática esbarra na discricionariedade do Poder Público e, é mais prejudicial pelo
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fato de que não houve o devido planejamento de um loteamento, o que dificulta a prestação
de serviços públicos e a locomoção dos cidadãos.
Posteriormente, com a manifestação das partes, vieram os autos
conclusos para o julgamento antecipado, pela desnecessidade de instrução probatória.
É o breve relato.
Decido.

II - FUDAMENTAÇÃO

II.1. DAS QUESTÕES PROCESSUAIS PENDENTES

A Defensoria Pública do Estado do Paraná suscita impugnação ao


valor da causa de R$ 20.000,00 (vinte mil reais) atribuído pelos requerentes,
argumentando que correto seria atribuir à causa o valor da totalidade do imóvel, a qual
entende ser R$ 71.071.000,00 (setenta e um milhões novecentos e setenta e um mil reais),
considerando o valor venal do imóvel.
A impugnação deve ser rejeitada.
De fato, se entende que o valor da causa “deve corresponder, em
princípio, ao do seu conteúdo econômico, considerado como tal o valor do benefício
econômico que o autor pretende obter com a demanda"1 que no caso das demandas
possessórias representa não o valor da propriedade, mas o conteúdo econômico do bem
da vida discutido nos autos, que, especificamente, e o da posse.
A posse, como mera situação de fato, tem conteúdo econômico diverso
da propriedade, tanto que dela pode ser destacada para fins de exploração econômica, de
forma que não há identidade entre o conteúdo econômico do bem disputado nos presentes
autos , reitere-se, a posse, e o valor venal do imóvel que podem, inclusive serem distintos.
Pois bem, no caso concreto, ainda que tenha a Defensoria Pública do
Estado do Paraná comprovado que a propriedade do imóvel possui valor certo, não o fez

1
STJ, REsp 730581/MG, Rel. Ministro TEORI ALBINO ZAVASCKI, PRIMEIRA TURMA, julgado em 19/04/2005, DJ 09/05/2005,
p. 315
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em relação à posse, motivo pelo qual, na ausência de elementos objetivos acerca do valor
efetivo da posse disputada no imóvel, é possível a fixação do valor da causa por mera
estimativa.
Nem mesmo o julgamento do REsp 1.230.839 firmou tese de que o
valor venal do imóvel há de ser o critério para a fixação do valor da causa nas
possessórias, mas sim, o seu conteúdo econômico de forma que em não sendo possível
a fixação imediata desse conteúdo, viável a sua adoção por estimativa do autor. Nesse
sentido:
AGRAVO DE INSTRUMENTO. POSSE.
BENS IMÓVEIS. AÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE.
IMPUGNAÇÃO AO VALOR DA CAUSA. VALOR DE
ALÇADA. Tratando-se de demanda possessória, o valor da
causa não precisa estar vinculado ao valor do bem, podendo ser
fixado até mesmo o valor de alçada. Manutenção do valor
atribuído. Decisão agravada mantida. Em decisão monocrática,
nego seguimento ao agravo de instrumento. (Agravo de
Instrumento Nº 70066335951, Vigésima Câmara Cível, Tribunal
de Justiça do RS, Relator: Glênio José Wasserstein Hekman,
Julgado em 01/09/2015)
Portanto, rejeito a impugnação ao valor da causa.

Suscitou ainda a Defensoria Pública do Estado do Paraná a falta de


interesse de agir por inadequação da via eleita dos autores alegando que os autores não
afirmam, em momento algum, a condição de possuidores do bem, mas tão somente a
condição de proprietários.
Pois bem, em se tratando de ação possessória, ainda que seja possível
aplicar o entendimento de que a sua ausência levaria a carência de ação por inadequação
da via eleita, é de se destacar que o art. 4º do Código de Processo Civil ao fixar como
norma fundamental do processo civil brasileiro o princípio da primazia do julgamento do
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mérito impõe ao julgador uma nova leitura de da alegação à luz dessa nova concepção
processual.
De fato, em se tratando de ação possessória não se pode dizer que a (in)
existência da posse possa ser considerada como condição da ação (na modalidade
adequação da via eleita), mas sim que ela representa o próprio mérito da demanda, de
forma que em sendo discutida essa questão, deve o julgador deixar de aplica-la como
condição da ação, e submete-la ao julgamento de mérito, resolvendo em definitivo a
questão. Como leciona Daniel Neves2:
“Tendo sido o objetivo do legislador ao criar o
processo ou fase de conhecimento um julgamento de mérito,
naturalmente essa forma de final é preferível à anômala
extinção sem tal julgamento, motivada por vícios formais.
Somente essa distinção entre fim normal e anômalo já seria
suficiente para demonstrar que há um natural interesse no
julgamento do mérito no processo ou fase de conhecimento,
considerando-se ser sempre preferível o normal ao anômalo. A
solução definitiva da crise jurídica, derivada da coisa julgada
material, que dependerá de uma decisão de mérito transitada
em julgado, é outra evidente vantagem no julgamento de
mérito quando comparado com a sentença terminativa.
Pelas óbvias razões apresentadas, cabe ao juiz
fazer o possível para evitar a necessidade de prolatar uma
sentença terminativa no caso concreto, buscando com todo o
esforço chegar a um julgamento do mérito.”
No caso, se trata de processo de enorme repercussão social para que se
possa resolve-lo por simples aplicação das condições da ação, veja-se, de que adianta
resolver a relação processual em que está envolvida diretamente a vida de mais de duas
mil pessoas em uma sentença meramente terminativa, quando, bastaria aos autores repetir

2
Neves, Daniel Amorim Assumpção. Novo Código de Processo Civil Comentado - Salvador: Ed. JusPodivm, 2016. P. 10-11
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mesmo pedido sob o nomen juris de ação petitória e submeter-se-ia novamente às partes
à nova relação processual, em violação fragrante ao art. 8º do Código de Processo Civil
que fixa como norma fundamental a eficiência.
Portanto, rejeito a preliminar de inadequação da via eleita, sem prejuízo
do retorno à questão da existência da posse do autor em juízo meritório.

II. 2. DO MÉRITO DA PRESENTE DEMANDA

Pois bem, a questão essencial em direito possessório diz respeito à


prova da posse por parte de quem alega ser titular desse direito. Para a tutela possessória
exige-se somente a prova da posse justa, independente de boa ou má-fé, e bastando que
não se esteja diante de mera detenção, bem a prova da existência do esbulho.
Ainda que se possa dizer que a posse é um dos efeitos da propriedade
(CCB, art. 1.228) não se pode deixar de considerar que posse é situação de fato (CCB,
art. 1.196) que constitui direito autônomo3 em relação ao direito de propriedade
(Enunciado 492 das Jornadas do CJF) por isso a simples comprovação da propriedade
não comprova, ipso facto, a existência da posse. Como leciona Silvio de Salvo Venosa4:
“A posse é, enfim, a visibilidade da
propriedade. Quem de fora divisa o possuidor, não o destingue
do proprietário. A exterioridade revela a posse, embora no
íntimo o possuidor possa ser também o proprietário.”
No mesmo sentido ensina Maria Helena Diniz5 leciona:
“Segundo Ihering a posse é a exteriorização ou
visibilidade do domínio, ou seja, a relação exterior intencional
existente normalmente entre a pessoa e a coisa, tendo em vista
a função econômica desta. O importante é o uso econômico ou
destinação econômica do bem, pois qualquer pessoa é capaz de

3
A posse constitui direito autônomo em relação à propriedade e deve expressar o aproveitamento dos bens para o alcance de interesses
existenciais, econômicos e sociais merecedores de tutela.
4
Direito civil: direito reais. 4ªed. São Paulo: Atlas, 2004. p. 58
5
Código civil anotado. 9ª ed. São Paulo: Saraiva, 2003. p. 751
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reconhecer a posse pela forma econômica de sua relação


exterior com a pessoa".
Portanto é mais que possível que o possuidor registral seja titular do
domínio sem que, somente por isso, seja titular da posse, devendo, para receber a tutela
possessória comprovar que além de proprietário também exerce os atos externos de uso
e gozo da coisa, tanto é verdade, que pode a tutela possessória ser exercida contra o
proprietário pelo possuidor. Como alertava Tito Fulgêncio, citado por Humberto
Theodoro Júnior6:
“A posse existe com a intenção de dono, mas
também pode existir sem ela, e até com o reconhecimento de
outro dono, e bem assim com o poder físico de dispor da coisa,
como sem ele; e se em geral sua defesa é exercida contra as
agressões de terceiro não raro o é contra as do dono,
reconhecido como tal pelo próprio possuidor”.
A posse é situação de fato, e como tal deve ser interpretada e
identificada em cada relação processual, à luz da realidade concreta dos autos e não de
meras teorizações. Na lição de San Thiago Dantas7:
“O que é necessário, portanto, para que se
reconheça a alguém a condição de possuidor, é, apenas, a
verificação de que este alguém se comporta, com relação à
coisa, com certa autonomia. Se alguém detém um objeto, mas
o detém de uma maneira passiva, de tal sorte que não se pode
perceber se está utilizando ou gozando, não se pode pretender
falar em posse, por isso que aquele ato, cuja prática todos
testemunharam, não pode ser chamado como um dos atos
inerentes ao domínio.

6
Curso de Direito Processual Civil – Procedimentos Especiais – vol. II – 50ª ed. rev., atual. e ampl. – Humberto Theodoro Júnior –
Rio de Janeiro: Forense, 2016, p. 115
7
DANTAS, San Thiago. Programa de Direito Civil, volume III, Editora Rio, 2ª edição, 977, página 56
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Quando existe autonomia no comportamento


do detentor, quando ele exterioriza algum dos poderes
atinentes ao domínio, dize-se que existe posse.”
A lição acima deixa claro que a posse não é somente a ocupação física
do imóvel, mas também o comportamento do seu titular, se há efetivo exercício de
qualquer dos poderes inerentes à propriedade na forma do art. 1.228 do Código Civil
Brasileiro:
Art. 1.228. O proprietário tem a faculdade de
usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de
quem quer que injustamente a possua ou detenha.
No caso dos autos, as fotos (movs. 1.10 e 1.11) que os autores fizeram
juntar aos autos demonstram de forma suficiente que exercia a posse, isto é, que mantinha
comportamento equivalente ao de proprietário sobre os referidos imóveis.
Da simples análise desses documentos se percebe que estão presentes
cerca de arame, às quais não há alegação de que tenham sido feitas pelos réus, a
demonstrar que os autores exerciam sobre a área os poderes inerentes à posse, não se
podendo afirmar que buscam a tutela possessória com base exclusivamente na
propriedade, mas sim, como decorrência natural desta, estando demonstrado o exercício
da posse anterior.
De outro lado, as mesmas fotos, bem como a ata notarial (mov. 42.2 à
42.6) demonstram a existência do esbulho por parte dos requeridos que, supostamente
influenciados pelos então vereadores Dilto Vitorassi e Paulo Rocha, teriam no dia 20 de
dezembro de 2012 ingressado nos imóveis disputados, lá instalando barracas, hoje
barracos, sem que tivessem fundamento de direito para tanto. Confirmando esse fato, a
postagem do ex-vereador Paulo Rocha em seu perfil do Facebook (mov. 42.2).
O art. 561 do Código de Processo Civil fixa quais são os requisitos
necessários para o deferimento da tutela possessória aos autores:
Art. 561. Incumbe ao autor provar:
I - a sua posse;
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II - a turbação ou o esbulho praticado pelo


réu;
III - a data da turbação ou do esbulho;
IV - a continuação da posse, embora turbada,
na ação de manutenção, ou a perda da posse, na ação de
reintegração.
De fato, é uma conclusão quase cartesiana que os autores provaram
todos os requisitos para a concessão da tutela possessória, com a ratificação da liminar
deferida pelo MM. Juiz de Direito da 2ª Vara Cível (mov. 11.1). acerca da lógica
cartesiana colho a lição de Fábio Roque da Silva Araújo8:
“A lógica que o preside é a obtenção de
determinados resultados a partir de constatações genéricas.
Em suma, o raciocínio dedutivo é um caminho percorrido do
geral ao particular. Assim, consoantes preconizados por
Descartes, por meio de verdades estabelecidas, encontram-se as
premissas, utilizando-se, para tanto, do raciocínio dedutivo.”
Contudo, o raciocínio dedutivo, em que obtém determinados resultados
a partir de constatações genéricas pode ser muito útil ás hipóteses e que todas as premissas
sejam simples o que, por certo não é o caso dos presentes autos, onde tudo pode ser dito,
menos que se trata de uma relação jurídica simples.
A chegada da sociedade pós-moderna9 altera a dinâmica das relações
interpessoais, altera a sociedade, que passa a ser regida por novos valores, novos métodos,
mas acima de tudo, traz incerteza, e aqui, incerteza é aplicada em sua concepção científica
de Heisenberg.

8
A ruptura do paradigma cartesiano e alguns dos seus reflexos jurídicos. in Revista CEJ, Brasília, Ano XIII, n. 46, p. 78-86, jul./set.
2009
9
“o nome aplicado às mudanças ocorridas nas ciências, nas artes e nas sociedades avançadas desde 1950, quando, por convenção, se
encerra o modernismo (1900- 1950).” ANTOS, J.F dos. O que é pós-moderno. Ed. Brasiliense, SP. 1986. P. 8
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Se a modernidade estava presa à leis imutáveis da natureza, à um


universo fixo e estável, a pós-modernidade não é certa, não é absoluta, não se limita ou é
limitada por silogismos. O paradigma da modernidade, para Boaventura dos Santos10
É totalitário porque não admite outras formas
de epistemologia que não se pautem pelos seus princípios.
Baseia-se na teoria heliocêntrica de Copérnico, nas leis das
órbitas dos planetas de Kepler, nas leis sobre a gravidade de
Galileu e em tantas outras, incluindo a da dúvida metódica de
Descartes.
Efetivamente, se aplicado a presente relação processual, o silogismo a
conclusão inexorável seria simplesmente a de determinação de imediato cumprimento da
liminar já deferida e imediata reintegração de posse dos requeridos.
Essa seria a conclusão de um juiz do século XIX, impregnado pelo
pensamento de Montesquieu de que o juiz é a boca da lei (Le juge bouche de la loi), mas
na pós-modernidade o Juiz que deve prevalecer, não é o que analisa das questões do ponto
de vista da estrita legalidade, mas reconhece que existem valores constitucionais e
convencionais que lhe são superiores.
Como assevera Otfried Höffe11, na obra, “O que é Justiça?” ao afirmar
que não basta ao Juiz o direito, não lhe basta conhecer juridicamente da matéria:
“Mas os conhecimentos jurídicos por si só não
qualificam para o exercício da magistratura. O juiz deve, além
disso, estar em condições de saber apreciar os casos que lhe são
propostos, em conformidade com a lei, isto é, deve saber ajuizar
o particular à luz do universal. De acordo com um
entendimento ingênuo da faculdade judicante, basta para tal
fim uma mera operação de subsunção, ou seja, a derivação
silogística, quase mecânica da sentença de duas orientações

10
Boaventura de Sousa Santos – “Um discurso sobre as Ciências” - reflexão crítica sobre a bra. Disponível em: goo.gl/F1kusk
acesso em 25/04/2017
11
Trad. Peter Naumann. Porto Alegre. EDIPUC, 2003, p. 65
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prévia claras: a da regra geral e a do caso particular. Na


verdade não existe “silogismo judicial”, pois a lei não pode
determinar normativamente a sentença judicial. (...) Muito
pelo contrário, um silogismo judicial é impossível judicial é
impossível, devido a uma razão de teoria do conhecimento,
segundo a qual as leis carecem de interpretação, sem com isso
estarem à disposição da ação do magistrado. Na fórmula de
Montesquieu, o juiz continua sendo a “boca da lei”. Porém, ele
não fala como um papagaio que fala sem penar; muito pelo
contrário, ele atua criativamente, embora tal criatividade se
manifeste menos na criação e mais na interpretação do direito.
Pois à diferença do legislador o juiz não pode criar um direito
novo, mas só lhe cabe interpretar o direito previamente dado.”
Essa mudança de paradigma de sociedade implica na mudança do papel
do direito e, com ele, do Juiz, que passa a reger a sua atividade judicante não com base
em silogismos, mas em um dever de materialização da Constituição e das normas
internacionais definidoras de direitos humanos. Se trata de um novo paradigma ao direito
onde o epicentro das normas jurídicas passa a ser a integral proteção dos direitos do
homem.
Como tive a oportunidade de escrever, em coautoria com Ana Paula
Bello Cunha12, no artigo “Da necessidade de harmonização do art. 554, §§ 1.º e 2.º do
novo CPC brasileiro (Lei federal 13.105/2015) com as garantias processuais do Pacto
Interamericano de Direitos Humanos: do necessário controle de convencionalidade”:
“Independente do status que se dê aos tratados
internacionais definidores de direitos humanos, se
constitucionais ou supralegais, se deve ter em conta que entre
os direitos fundamentais definidos pela Constituição da
República e os direitos humanos definidos nas normas

12
Publicado na Revista de Processo Comparado, Vol. 3, São Paulo, Ed. RT, p. 159-187
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internacionais não existe uma relação de oposição, mas sim de


complementariedade, de harmonização, tendo como meta final
a ampliação da proteção ao indivíduo. (...)

Tendo como ponto de partida e de chegada a


ampliação da proteção ao indivíduo há uma relevante mudança
no sistema de fontes do direito que não mais pode ser visto sob
o prisma formal, com uma hierarquia rígida, mas sim, sob o
ângulo da máxima proteção do indivíduo sendo que não a fonte
superior hierarquicamente deva ser aplicada, mas sim a fonte
que se mostrar mais eficaz à proteção. (...)

A “pedra de toque” há de ser o princípio pro persona


(pro homine) segundo o qual, na existência de conflito entre
normas de direito interno e normas internacionais de proteção
dos direitos humanos, deve prevalecer aquela que implique em
um nível maior de proteção ao indivíduo. (...)

Se um direito está reconhecido tanto como direito


fundamental, tanto quanto direito humano, o papel do agente
do Estado, especialmente do Poder Judiciário, é o de aplicar
aquela norma ou interpretação que potencialize a garantia do
indivíduo, qualquer quer que seja a sua posição hierárquica.

Interessante sobre a matéria é o julgamento da Suprema Corte da Nação


mexicana sob a Tese Isolada n.º XIX/201113 (10ª), da primeira turma (sala) daquela corte,
que, em respeito ao art. 192 do Código de Processo Civil traduzo livremente

PRINCÍPIO PESSOA PRO. CRITÉRIOS DE SELEÇÃO


ESTADO DE DIREITO FUNDAMENTAL APLICAR "afirma que" [i]
de acordo com o texto atual do artigo 1. Constituição, alterado pelo

13
https://www.scjn.gob.mx/Primera_Sala/Tesis_Aisladas/TESIS%20AISLADAS%202011_PRIMERA%20SALA.pdf
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decreto de reforma constitucional publicada no Diário Oficial da


Federação em 10 de Junho de 2011, sobre os direitos fundamentais, o
sistema legal mexicano tem duas fontes originais: a) os direitos
fundamentais consagrados na Constituição os Estados Unidos
mexicanos; e b) todos os direitos humanos consagrados nos tratados
internacionais de que o Estado mexicano é uma festa.
Consequentemente, as regras de ambas as fontes são regras primordiais
de lei mexicana. Isto implica que os valores, princípios e direitos que
materializam deve permear toda a ordem jurídica, exigindo que todas
as autoridades para a sua implementação e nos casos em que for o caso,
sua interpretação. Agora, supondo que o mesmo direito fundamental
é reconhecido nas duas fontes supremas da lei, ou seja, a
Constituição e tratados internacionais, a escolha da norma aplica-
se aos direitos humanos -em-servirão critérios de favorabilidade do
indivíduo ou do que tem sido chamado princípio pró pessoa, de
acordo com as disposições do segundo parágrafo do artigo 1.
Constitucional. De acordo com esta abordagem interpretativa, se
houver uma diferença entre o âmbito ou normas de proteção
reconhecida destas diferentes fontes, deve prevalecer que
representam maior proteção para a pessoa ou envolvendo menos
restrição. Nessa lógica, a lista de direitos fundamentais não se limita
aos requisitos da Constituição, mas também inclui todos os direitos
contidos nos tratados internacionais ratificados pelo Estado mexicano."

Nos autos estamos diante de um efetivo e real conflito entre direitos, de


um lado temos o direito à propriedade dos autores, garantido tanto na Constituição da
República (Art. 5º, XXII) como no Pacto Interamericano de Direitos Humanos (Art.
21.1), mas de outro, a realidade construída da relação processual indica que também está
em julgamento o direito à moradia dos requeridos, também previsto na mesma fonte
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nacional (Art. 6º da CR) e no Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e


Culturais (Art. 11.1).
O grande conflito dos autos, a crise jurídica e social a ser solucionada
pela sentença não é quem tem direito, ambos, autores e réus, os tem, a questão maior é
como solucionar esse conflito sem que nenhum desses direitos seja anulado.
O choque entre direitos fundamentais, não pode ser resolvido pelos
critérios tradicionais (hierárquico, cronológico, especialidade, etc.) pois não se pode
conceber que um dos direitos seja anulado, o critério há de ser a regra da concordância
prática (praktische konkordanz), definido por Alexandre de Morais14:
“quando houver conflito entre dois ou mais
direitos e garantias fundamentais, o intérprete deve utilizar-se
do princípio da concordância prática ou da harmonização de
forma a coordenar ou combinar os bens jurídicos em conflito,
evitando o sacrifício total de uns em relação aos outros,
realizando uma redução proporcional do âmbito de alcance de
cada qual (contradição dos princípios) sempre em busca do
verdadeiro significado da norma e da harmonia do texto
constitucional com sua finalidade precípua.”
Além disso há uma dupla violação de direitos nos autos, na medida em
que, em certo grau, tanto os autores como os requeridos tem seus direitos fundamentais
violados pelo Estado do Paraná.
Veja-se que foi deferida liminar nestes autos, determinando, logo após
a invasão a imediata reintegração dos imóveis objeto da demanda, contudo, o Estado do
Paraná , em que pese intimado em janeiro de 2013 (mov. 18.1) por diversas oportunidades
não deu cumprimento ao comando judicial, somente respondendo ao ofício judicial (mov.
41.1) em fevereiro de 2013, simplesmente informando que, ao invés de fazer o que é seu
dever legal, cumprir a ordem judicial, estava encaminhando a questão à adeia de
comando.

14
MORAIS, Alexandre de. Curso de Direito Constitucional. 14 ed. São Paulo: Atlas, 2003. P. 61
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Posteriormente, em março de 2013 (mov. 65.1) o Estado do Paraná, por


meio do 14º Batalhão de Polícia Militar, reconhece a sua incompetência e afirma não
possuir efetivo para dar cumprimento aquilo que já havia sido determinado.
Mesmo diante da ordem de que fosse disponibilizado o efetivo em 72
horas (mov. 69.1) a resposta do Estado do Paraná (mov. 78.1) foi, já em abril de 2013, de
que estava submetendo a questão à cadeia Hierárquica.
Tal inércia absoluta do Estado do Paraná em cumprir a ordem levou o
então magistrado responsável pela condução do presente processo a determinar a
intimação pessoal do Comandante da Polícia Militar em Foz do Iguaçu (mov. 81.1) a dar
cumprimento a ordem, sob pena de multa pessoal. Ainda assim, a resposta do Estado do
Paraná (mov. 86.1) foi de ausência de contingente e impossibilidade de cumprimento à
ordem judicial.
Posteriormente, alegando o interesse em adquirir a área o Estado do
Paraná postulou a suspensão da liminar (mov. 91.1), tendo, novamente, pela 5ª vez,
informado não ter condições de cumprir a ordem (mov. 126.1).
O fato é que mesmo após duas audiências de conciliação, o Estado do
Paraná não cumpri a liminar nem realizou a desapropriação da área, violando o ente
público, tanto quanto os requeridos o direito de propriedade dos autores.
Esse mesmo Estado, que violou os direitos dos autores ao não dar
cumprimento à ordem de reintegração, viola também os direitos dos requeridos, posto
que não lhes materializa o direito humano fundamental da moradia, pois em todo o
período que os autos tramitaram não desapropriou a área nem providenciou outra.
Aqui se está diante de um caso de flagrante omissão do Estado, uma
dupla omissão que atinge duramente tanto autores como requeridos, e que, pelo princípio
da inércia da jurisdição, não pode ser sancionado, mas que demanda do julgador essas
considerações, ainda que obiter dictum.
Essa omissão do Estado do Paraná criou uma situação de fato, uma
verdadeira afetação pública para a área objeto da demanda, que não pode mais ser
analisada à luz dos elementos que teve o primevo magistrado da causa.
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Aquela invasão de poucas famílias, de barracos de lona demonstrada


nas fotos do mov. 1.11, tiradas em dezembro de 2012, que em abril de 2013, já haviam
se transformado em casas de madeira ou mesmo de alvenaria, como revelam as fotos do
mov. 95.2 à 95.6, em maio de 2013 já possuía um rudimentar arruamento, conforme as
fotos do mov. 139.2.
Esse rudimentar arruamento restou transformado na maior ocupação
urbana do Estado do Paraná15, já havia se transformado em um bairro não oficial de Foz
do Iguaçu, mapeado e arruado, com logradouros (mov. 363.4), um aglomeramento urbano
irregular, mas formado por 706 (setecentos e seis) famílias residentes na localidade, que
computam o total de 2.006 (dois mil e seis) ocupantes, conforme relatório elaborado pela
Universidade da Integração Latino-americana-UNILA (mov. 385.2), dos quais 845
(oitocentos e quarenta e cinco) foram identificados e citados (mov. 1261.1).
Nesse quadro, se tentou novamente a conciliação, com a designação de
audiência pública de mediação e conciliação, inspirado em valores de justiça restaurativa,
e na busca da solução consensual para a demanda, e especialmente, para que as partes
pudessem cobrar do Estado do Paraná a solução para o problema.
A audiência teve também papel importante para que os requerentes não
fossem vistos somente como “os donos” e os requeridos somente como excluídos, mas
também que sejam vistos como cidadãos responsáveis por seus atos e que a sua conduta
não reste incólume às consequências jurídicas exclusivamente por conta de sua condição
de marginalizados. Como bem referiu o Justice da Corte Constitucional Sul-africana
Albie Sachs16 no julgamento do caso Município de Porto Elisabeth vs Varios Ocupantes17:
“Assim sendo, os que pleiteiam despejo devem
ser incentivados a não se filiar em conceitos de posseiros sem
rosto e anônimos como empecilhos sociais repugnantes que
devam ser automaticamente expulsos. Essa abordagem
estereotipada não tem lugar na sociedade preconizada pela

15
https://massanews.com/blogs/cotidiano/airton-jose/audiencia-de-conciliacao-e-mediacao-discute-maior-ocupacao-de-area-urbana-
no-pr.html
16
citado na obra “Vida e Direito: Uma estranha alquimia”Trad. Saul Tourinho Leal. Ed. Saraiva. 2016. p. 108
17
No original Port Elizabeth Municipality v Various Occupiers, disponível em, goo.gl/x9E5pp acesso em 27/04/2017
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Constituição; justiça e equidade requerem que todos sejam


tratados como pessoas possuidores de direitos que fazem jus ao
respeito à sua dignidade. Ao mesmo tempo, os que se virem
compelidos, pela pobreza e falta de moradia, a viver em barracos
na terra dos outros, não devem ser incentivados a se considerar
vítimas desamparadas, sem possibilidades de representação
moral pessoal.
A tenacidade e engenho que demonstram ao
construir casas com materiais descartados, encontrar trabalho
enviar seus filhos à escola são um tributo à sua capacidade de
sobrevivência e adaptação. A justiça e a equidade os compelem
a se valer dessa mesma desenvoltura na busca de solução para
suas dificuldades e explorar todas as possibilidades razoáveis
para conseguir acomodação alternativa satisfatória ou terra.”
Outro passo importante para que se possa chegar a uma solução justa
no presente processo foi a efetiva participação da Unila, por meio da “Escola Popular de
Planejamento da Cidade”, que em minucioso relatório (mov. 1316.10) identificou a
realidade atual da hoje chamada “Ocupação do Bubas”, que hoje já conta mais de 1.000
(mil famílias) ocupando a área, onde o relatório identificou as seguintes características da
área:
1- Tempo de moradia na região, no qual mais
de 40% da população já morava no Porto Meira-mesmo
estando há quatro anos na ocupação;
2- Pela presença da rede familiar na região,
sendo este item apontado como de grande importância para o
funcionamento do cotidiano das famílias.
3- Pelo grande número de equipamentos
públicos e assistenciais da região do Porto Meira, sendo estes:
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escolas, espaços de convivência para crianças e adolescentes ,


postos de saúde, parques, entre outros;
4-Pela proximidade do trabalho, no qual 66%
dos moradores afirmaram trabalhar na região do Porto Meira.
Essa evolução habitacional fica evidente quando comparadas as fotos
da mesma área tiradas em maio de 2013 (mov. 139.2), com as tiradas na atualidade pela
UNILA (mov. 1316.9)
Mov. 139.1

Mov. 1316.9

É evidente que não se está diante de poucos ocupantes, mas sim, de um


verdadeiro bairro criado diante do não cumprimento da liminar pelo Estado do Paraná ,
mas que é uma realidade palpável na cidade de Foz do Iguaçu, formada por milhares de
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pessoas, várias em situação de vulnerabilidade, como mulheres, crianças, idosos,


migrantes, pessoas com deficiência.
Nesse quadro, há de se considerar que a garantia do direito à moradia
dessa população que estava em situação de rua, e que não foi materializado pelo Estado
do Paraná, passa a ter uma predominância em relação ao direito de propriedade dos
autores.
Hoje, além do art. 6º da Constituição da República existem mais 12
textos diferentes da ONU que reconhecem o direito à moradia como um direito humano
básico.
Dentre eles ganha destaque o Comentário Geral nº 7 do Comitê dos
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU18 que explicita que os despejos
forçados, especialmente aqueles que envolvam um grande número de pessoas é dever dos
Estados nacionais se deve sempre evitar o uso da força, devendo serem buscadas soluções
alternativas (item 13) à força. Na sua literalidade (novamente, em tradução livre):
“13. Antes de realizarem quaisquer despejos
forçados, particularmente aqueles que envolvem grandes
grupos de pessoas, os Estados Partes deverão garantir que são
exploradas em consulta com todas as partes interessadas e
demais possibilidades de evitar ou pelo menos minimizar a
necessidade de recorrer à força. Devem ser estabelecidos os
recursos ou legal para as pessoas afetadas pelas ordens de
procedimentos de despejo. Os Estados Partes devem também
garantir que todas as pessoas afetadas têm direito à
indenização devido pelo pessoal e real, que é afetada. A este
respeito deve recordar-se o n.º 3 do artigo 2 do Pacto
Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos, que exige que
os Estados partes para garantir "um remédio eficaz" para os s
pessoas cujos direitos foram violados e que "autoridades

18
http://pfdc.pgr.mpf.mp.br/atuacao-e-conteudos-de-apoio/legislacao/reforma-agraria/ComentarioGeral7_DESC
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competentes" cumprir "toda decisão que tenha considerado


procedente o recurso.”
Por sua vez, o item 10 do mesmo comentário determina aos Estados
parte um cuidado especial quando presente populações vulneráveis, especialmente
mulheres, crianças, jovens, idosos e populações indígenas, sendo que são, segundo
apontado pela UNILA justamente os grupos vulneráveis predominantes na área.
Ainda no campo dos Direitos Humanos, a refletir diretamente no juízo
de ponderação que se está realizando, o Comentário nº 4 do Comitê sobre os Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais da ONU19 estabelece que a segurança da posse é um dos
elementos essenciais para a garantia de uma moradia digna, afirmando:
“Segurança da posse: a moradia não é
adequada se os seus ocupantes não têm um grau de segurança
de posse que garanta a proteção legal contra despejos forçados,
perseguição e outras ameaças.”
Até agora, especialmente, pela inércia do Estado do Paraná as partes
viveram na mais absoluta insegurança acerca de sua posse, contudo, espera-se que a
presente sentença, materialize aos requeridos o mínimo de segurança contra a existência
de despejos forçados.
O direito à moradia tem assento nas normas de direitos humanos e na
Constituição da República, justamente por ser compreendido como reflexo direto da
dignidade da pessoa humana, da necessidade humana básica de proteção. Como leciona
Ingo Sarlet20:
“Com efeito, sem um lugar adequado para
proteger a si próprio e a sua família contra intempéries, sem
um lugar para gozar de sua intimidade e privacidade, enfim,
de um espaço essencial para viver com um mínimo de saúde e
bem-estar, certamente a pessoa não terá assegurada a sua

19
http://www.dhnet.org.br/direitos/sos/moradia/trabalhohabitacaopronto.html#8
20
SARLET, Ingo Wolfgang. Supremo Tribunal Federal, o direito à moradia e a discussão em torno da penhora do imóvel do fiador.
In: FACHIN, Zulmar (coord.). 20 anos de Constituição cidadã. São Paulo: Método, 2008. pp. 41-66.
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dignidade, aliás, a depender das circunstancias, por vezes não


terá sequer assegurado o direito a própria existência física, e,
portanto, o seu direito a vida. Não é por outra razão que o
direito a moradia, também entre nós- e de modo incensurável-
tem sido incluído até mesmo no elenco dos assim designados
direitos de subsistência, como expressão mínima do próprio
direito a vida.”
Nesse panorama, a ponderação entre o direito de propriedade dos
autores, materializado na liminar deferida, e o direito à moradia, tornado realidade fática
diante do não cumprimento da liminar deve pender para o lado da garantia do direito à
moradia dos requeridos, reflexo direto da sua dignidade humana.
Colho aqui novamente lição do Tribunal Constitucional da África do
Sul, não só pelo brilhantismo, mas pela necessidade de que a doutrina e jurisprudência
brasileira busquem inspiração em país com tradição constitucional jovem como o Brasil21,
e severos problemas sociais a serem resolvidos, como paradigma da construção de uma
sociedade de intérpretes da constituição (Häberle). Nas palavras do Justice Zak Yacoob,
quando do julgamento do caso Soobramoney vs Minister of Healht, KwaZulu-Natal
199822 (novamente em tradução livre):
“A racionabilidade deve ser também
compreendida no contexto da Declaração de Direitos como um
todo. O direito de acesso à moradia adequada já está arraigado,
porque valorizamos os seres humanos e queremos garantir que
suas necessidades básicas sejam atendidas. Uma sociedade
baseada na dignidade humana, na liberdade e na igualdade
deve procurar assegurar que as necessidades básicas da vida
sejam oferecidas a todos. Para serem razoáveis, as medidas não
podem deixar de levar em conta o grau e a extensão da negação

21
A Constituição da África do Sul data de 10 de dezembro de 1996
22
goo.gl/S4MSw7
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do direito que elas buscam efetivar. Aqueles cujas necessidades


são mais urgentes e cuja capacidade de gozar de todos os
direitos corre maior risco não devem ser ignorados pelas
medidas que visam atingir a realização do direito. Talvez não
seja suficiente para o teste de racionabilidade que as medidas
se mostrem capazes de representar um avanço estatístico na
efetivação dos direitos. Além disso, a Constituição exige que
todos devam ser tratados com cuidado e atenção. Se as
medidas, ainda que bem-sucedidas no aspecto estatístico,
falharem em responder às necessidades daqueles mais
desesperados, elas podem não passar no teste.”
Mas a essência da concordância prática é o entrelaçamento dos direitos
fundamentais de modo que, mesmo reduzida a sua amplitude, o direito não seja anulado
por completo, por isso, o simples reconhecimento do direito dos requeridos a permanecer
no imóvel não implicaria em efetiva harmonização dos direitos em debate, mas sim, uma
supressão disfarçada.
A realidade é que a formação de um bairro na área dos requerentes,
fruto, repita-se, de verdadeira omissão do Estado, omissão essa que, como salientado pela
Defensoria Pública do Estado do Paraná, afetou a área invadida, os fatos lhe deram
destinação social de moradia popular, o que, impede seja deferida a reintegração, mas
isso não significa que devam os autores ficarem destituídos de seus direitos fundamentais.
Essa afetação “de facto” da área, implica na impossibilidade de entrega
da posse novamente aos autores, mas não impede que seus direitos de propriedade sejam
garantidos, por meio da conversão da pretensão de reintegração em perdas e danos.
No caso concreto não há efetivamente possibilidade de cumprimento da
liminar, não há como se proceder a reintegração da área, hoje ocupada por mais de mil
famílias, sem violação direita de normas internacionais definidoras de direitos humanos,
especialmente os comentários 4 e 7 do Comitê sobre os Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais da ONU, específicos para as situações de despejo forçado.
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Dar cumprimento à liminar hoje, quase 4 (quatro) anos após a invasão


originária, quando a população da área passou de algumas dezenas para milhares de
pessoas é colocar em grave risco a integridade física daquelas pessoas, especialmente
aquelas em situação de vulnerabilidade social, seria anular por completo o seu direito
humano fundamental à moradia, ao desenvolvimento da sua personalidade de forma livre
e autônoma, enfim, seria aniquilar a sua dignidade humana.
Nesse sentido o Superior Tribunal de Justiça indeferiu intervenção
federal neste mesmo Estado do Paraná e também por inércia deste em cumprir a liminar,
determinado que a questão se resolveria em perdas e danos pela existência de verdadeira
afetação da área pelo Estado a ser resolvida pela ordinária da ação de desapropriação
indireta:
INTERVENÇÃO FEDERAL. ESTADO DO
PARANÁ. INVASÃO DE PROPRIEDADE RURAL PELO
MOVIMENTO DOS TRABALHADORES SEM TERRA.
REINTEGRAÇÃO DE POSSE DEFERIDA HÁ SEIS ANOS.
RECUSA DE CUMPRIMENTO A DECISÃO JUDICIAL.
MATÉRIA INFRACONSTITUCIONAL. COMPETÊNCIA
DESTE SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA.
DESOBEDIÊNCIA À ORDEM JUDICIAL TECNICAMENTE
CARACTERIZADA. ART. 34, VI, DA CF. INTERVENÇÃO
QUE PODE CAUSAR COERÇÃO OU SOFRIMENTO MAIOR
QUE SUA JUSTIFICAÇÃO INSTITUCIONAL. APLICAÇÃO
DO PRINCÍPIO DA PROPORCIONALIDADE. NECESSIDADE
DE PROMOVER A PAZ SOCIAL E A PROTEÇÃO DE
DIREITOS. CONFIGURADA, EM PRINCÍPIO, AFETAÇÃO
DA PROPRIEDADE POR INTERESSE PÚBLICO. PEDIDO DE
INTERVENÇÃO INDEFERIDO.
1. Hipótese na qual a ordem judicial de
reintegração de posse não foi cumprida e as sucessivas requisições
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de força policial foram igualmente malsucedidas, de tal modo que


o imóvel continua ocupado por integrantes do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra - MST.
2. Cabe ao Superior Tribunal de Justiça, a teor do
disposto nos arts. 34, VI e 36, II, da Constituição, o exame da
Intervenção Federal nos casos em que a matéria é
infraconstitucional e o possível recurso deva ser encaminhado a
esta Corte.
3. Evidenciado que o imóvel rural em foco foi
ocupado por trabalhadores rurais sem terra como forma de forçar
sua desapropriação para reforma agrária, mas as providências
administrativas do Poder Público local, demandadas para a
desocupação ordenada pelo Poder Judiciário, não foram atendidas
por seguidas vezes, resta tecnicamente caracterizada a situação
prevista no art. 36, II da CF, pois a recusa do Governador do Estado
configura desobediência à ordem "judiciária", o que justificaria a
intervenção para "prover a execução da ordem ou decisão judicial"
(art. 34, VI, da CF).
4. A remoção das 190 pessoas que ocupam o
imóvel, já agora corridos vários anos, constituindo cerca de 56
famílias sem destino ou local de acomodação digna, revelam
quadro de inviável atuação judicial, assim como não
recomendam a intervenção federal para compelir a autoridade
administrativa a praticar ato do qual vai resultar conflito social
muito maior que o suposto prejuízo do particular.
5. Mesmo presente a finalidade de garantia da
autoridade da decisão judicial, a intervenção federal postulada
perde a intensidade de sua razão constitucional ao gerar ambiente
de insegurança e intranquilidade em contraste com os fins da
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atividade jurisdicional, que se caracteriza pela formulação de juízos


voltados à paz social e à proteção de direitos.
6. Pelo princípio da proporcionalidade, não
deve o Poder Judiciário promover medidas que causem
coerção ou sofrimento maior que sua justificação institucional
e, assim, a recusa pelo Estado não é ilícita.
7. Se ao Estado não resta senão respeitar a
afetação pública do imóvel produzida pela ocupação de
terceiros sobre o bem particular com o intuito de ocupá-lo para
distribuí-lo, segue-se que, em razão da motivação identificada
nos autos, cuida-se de caso de afetação por interesse público a
submeter-se então ao regime próprio dessa modalidade
jurisprudencial de perda e aquisição da propriedade, que, no
caso, por construção, se resolverá em reparação a ser buscada
via de ação de indenização (desapropriação indireta)
promovida pelo interessado.
8. Pedido de intervenção indeferido.
(STJ, IF 111/PR, Rel. Ministro GILSON DIPP,
CORTE ESPECIAL, julgado em 01/07/2014, REPDJe 06/08/2014,
DJe 05/08/2014)
Não se pode deixar de considerar que a decisão do Superior Tribunal de
Justiça foi baseada na necessidade de preservar-se a moradia de 56 (cinquenta e seis)
famílias, a formar de forma ainda mais cristalina o convencimento judicial no sentido de
que é impossível a reintegração de posse no presente feito, onde a área é ocupada por
mais de 1.000 (mil) famílias, que seriam desalojadas sem que, apesar do tempo
transcorrido, tenham o Estado do Paraná e o Município de Foz do Iguaçu apresentado
qualquer proposta concreta para o reassentamento dessas pessoas, que, ao que tudo indica,
se confirmada a liminar, seriam colocadas na rua, sem qualquer proteção efetiva do
Estado.
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A verdade é que nesse caso, dar procedência ao pedido de reintegração


seria o judiciário seria aplicar a lei, mas ignora completamente a Justiça, afastando-se do
mínimo de humanidade que se demanda de um juiz constitucional e convencional. Por
outro lado, revogar-se a liminar, e manter os requeridos nos imóveis, significa aplicar
aquilo que o direito sul-africano chama “ubuntu” que representa a visão constitucional
de uma sociedade fundada na humanidade e solidariedade social. Como referiu a Justice
Ynovve Mokgoro, citada por Albie Sachs na obra “Vida e Direito: Uma estranha
alquimia”23 sobre o conceito de ubuntu:
“Em geral, ubuntu se traduz como
“humanidade”. Em seu sentido mais fundamental, traduz-se
como identidade pessoal e ‘moralidade’. Metaforicamente,
expressa-se como umuntu ngmuntu ngabantu, descrevendo a
importância da solidariedade do grupo do grupo quanto a
questões de sobrevivência tão centrais à sobrevivência das
comunidades. Embora abranja os valores fundamentais se
solidariedade do grupo, compaixão, respeito, dignidade
humana, conformidade com normas básicas e unidade coletiva,
em seu sentido fundamental denota humanidade e moralidade.
Seu espírito enfatiza respeito pela dignidade humana,
marcando a mudança da confrontação para a conciliação. (...)
Na herança cultural ocidental, o respeito e valor da vida
manifestados nos conceitos abrangentes de ‘humanidade’ e
‘menswaarding-heird’, também são altamente valorizados. São
valores como esses que [a Constituição] exige sejam
promovidos. Emprestam significado e textura aos princípios de
uma sociedade baseada na liberdade e igualdade.”
Assim, não resta outra solução ao presente caso que não a
improcedência do pedido de reintegração de posse, sem prejuízo, de que busquem os

23
Ed. Saraiva, São Paulo, 2016. P 106
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autores, nas vias próprias, a indenização junto ao Estado do Paraná pela afetação indevida
dos imóveis, causada por sua omissão em, no momento oportuno, dar cumprimento da
liminar.
III – DISPOSITIVO

Diante todo o exposto, revogo a liminar e JULGO IMPROCEDENTE


os pedidos formulados na inicial, com fundamento no artigo 487, inciso I do Código de
Processo Civil. Condeno os requerentes ao pagamento das custas e despesas processuais,
bem como honorários advocatícios que arbitro, considerando especialmente a
complexidade da demanda, em 15% sobre o valor da causa, verba a ser revertida em
favor do Fundo de Aparelhamento da Defensoria Pública do Estado do Paraná na forma do
art. 233 da Lei Complementar Estadual 136/2011.
Interposto recurso da presente sentença, intime-se a parte recorrida
para apresentar contrarrazões (CPC, art. 1.010, §1º), e após, independente de juízo de
admissibilidade (CPC, art. 1010, §3º) remetam-se os autos ao Eg. Tribunal de Justiça do
Estado do Paraná.
Cumpram-se as disposições do Código de Normas da Corregedoria-Geral
da Justiça.
Publique-se. Registre-se. Intime-se.
Foz do Iguaçu, 27 de abril de 2017.

assinado digitalmente

ROGERIO DE VIDAL CUNHA


Juiz de Direito Substituto