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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE


CENTRO REGIONAL DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ – CERES
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA

ALEXSANDRA ARAÚJO DE ANDRADE

A FEIRA LIVRE DE CAICÓ/RN: um cenário de tradição e resistência


às novas estruturas comerciais modernas

CAICÓ-RN
2015
1

ALEXSANDRA ARAÚJO DE ANDRADE

A FEIRA LIVRE DE CAICÓ/RN: um cenário de tradição e resistência


às novas estruturas comerciais modernas

Monografia apresentada ao Departamento de


Geografia da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em Geografia.

Orientador: Prof. Dr. João Manoel de


Vasconcelos Filho.

CAICÓ-RN
2015
2

Catalogação da Publicação na Fonte


Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN
Sistema de Bibliotecas – SISBI
Andrade, Alexsandra Araujo de.
A feira livre de Caicó RN : um cenário de tradição e
resistência às novas estruturas comerciais modernas / Alexsandra
Araujo de Andrade. - Caicó, 2016.
84f: il.

Orientador : João Manoel de Vasconcelos Filho Dr.


Monografia (Bacharel em Geografia) Universidade Federal do Rio
Grande do Norte. Centro Ensino Superior do Seridó – Campus Caicó.

1. Feira livre de Caicó. 2. Modernização. 3. Relações


socioeconômicas. I. Vasconcelos Filho, João Manoel de. II.
Título.
3

ALEXSANDRA ARAÚJO DE ANADRADE

A FEIRA LIVRE DE CAICÓ/RN: um cenário de tradição e resistência às novas


estruturas comerciais modernas

Monografia apresentada ao Departamento de


Geografia da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte, como requisito parcial para
obtenção do título de Bacharel em Geografia.

Aprovado em:_____/_____/________

BANCA EXAMINADORA

___________________________________________________________________
Prof. Dr. João Manoel de Vasconcelos Filho
Orientador

___________________________________________________________________
Profª. Drª. Jeane Medeiros Silva
Examinador

__________________________________________________________________
Prof. Dr. Gleydson Pinheiro Albano
Examinador
4

À minha filha Ana Beatriz, que ela


perceba que o caminho para um futuro
próspero é através da educação. Com
muito amor e carinho dedico-lhe este
trabalho.
5

AGRADECIMENTOS

Este é o momento que dispensa o rigor das formalidades, quero aqui


demonstrar meu carinho e gratidão as pessoas que contribuíram de modo direto e
indiretamente para a realização desse tão almejado momento.
Gostaria de iniciar agradecendo primeiramente a Deus, que permitiu que isso
tudo se realizasse, por ter me dado saúde e forças durante essa caminhada para
superar cada momento difícil que enfrentei. Não foi fácil a caminhada, e graças a
ele, eu consegui chegar até aqui.
À minha família, pelo carinho e dedicação. Sem o incentivo de vocês essa
caminhada teria sido mais difícil. Em especial aos meus pais, João Bôsco e
Marinalva, por terem sempre me educado no sentido da responsabilidade,
honestidade e justiça. Aos meus irmãos, Lucinho e Rosarinha pelo incentivo de
sempre.
Às minhas tias Maria e Julita que sempre lutaram para que eu e meus irmãos
tivéssemos um futuro próspero e brilhante. E por me acompanhar desde os
primeiros momentos de minha vida, minha eterna gratidão.
À minha filha Ana Beatriz, por compreender minha ausência durante o período
da graduação e por me incentivar a seguir sempre adiante, pois muitas vezes pensei
em não continuar, foi você que me encorajou a enfrentar dia após dia. Obrigada
amor da minha vida.
À minha avó materna Cleonice pelas suas orações e positividade.
A todos os professores da graduação, seus ensinamentos foram de grande
aprendizado. E aos colegas do curso de Geografia/Bacharelado (2012.1).
Ao meu orientador o Professor Drº. João Manoel, que mesmo não me
conhecendo, aceitou o desafio de me orientar. Sou muito grata, pela confiança, pelo
suporte, exigência, correção e incentivo.
Ao meu amigo Luciano, que nos meus momentos de estresse e inquietude,
sempre se mostrou paciente e compreensivo. Obrigada pela convivência e
cumplicidade. E também pelas contribuições nesta pesquisa.
Às minhas colegas de curso e grandes amigas, Lúbia e Abigail, com quem
divide minhas alegrias, angústias e vitórias. Em especial á Lúbia (xuxu) por todas as
6

contribuições durante a graduação, pelas incontáveis ajudas, pelo apoio e suporte.


Obrigada pela amizade de sempre, você é um anjo na minha vida.
Ao meu amigo Alysson Adi, pela atenção e presteza, pois sempre que precisei
do seu auxilio, esteve sempre disposto em me ajudar.
Ao setor de RH da empresa em que trabalho em especial á pessoa de
Francisca Marta, por reconhecer as minhas necessidades de se ausentar da
empresa, facilitando as minhas saídas, sabendo que era de fundamental importância
para a conclusão do curso, o meu muito obrigada.
Aos amigos de trabalho, em especial ao meu grande amigo e incentivador
Francimar, por nos meus momentos de fraqueza sempre me fez acreditar e nunca
desistir dos meus objetivos. Por sempre indicar o melhor caminho a ser percorrido.
A Diego, pela sua contribuição, disposição e paciência na elaboração dos
mapas. E a Helena, por ter intermediado o meu contato com o profº. Drº. João
Manoel, foi muito importante e decisiva sua intervenção, lhe sou muito grata.
E por fim, a todos qυе direto оυ indiretamente contribuíram para minha
formação, о mеυ muito OBRIGADA.
7

Ainda é madrugada no Sertão do Seridó, os intróitos raios do sol


encetam o despontar no horizonte, pincelando o espaço seridoense
com as luzes policromáticas do amanhecer. O cenário central dos
sítios urbanos começa a ser adornado e montado com as múltiplas
estruturas e funções que possibilitarão mais uma semana de
realização da feira livre (MORAIS; ARAÚJO, 2006, p. 245).
8

RESUMO

O presente trabalho se remete à feira livre do município de Caicó, tendo por objetivo
investigar a dinâmica e as transformações socioespaciais pelas quais a mesma vem
passando, e sua resistência às estruturas comerciais modernas, ou seja, os
supermercados. A partir do seu surgimento, a feira livre é o espaço das relações
econômicas, sociais e culturais. Esta atividade comercial teve importante
contribuição para a ocupação do território brasileiro, principalmente na região
Nordeste, onde foi responsável pelos primeiros núcleos populacionais da região. A
princípio as relações econômicas estavam voltadas para a comercialização do gado,
com as famosas feiras de gado. Com o passar dos anos, as feiras foram se
moldando, evoluindo para assumir essa configuração atual. Partindo para o recorte
empírico desta pesquisa, a feira livre do município de Caicó, esta é caracterizada
como espaço de múltiplas relações, que, nos últimos tempos, vêm resistindo e
persistindo no espaço em meio à modernização atual das formas de comércio (os
supermercados) local. Neste contexto, a feira livre se insere no circuito inferior da
economia urbana, por ser uma atividade tradicional, com componentes rústicos e
métodos tradicionais de venda e o intenso uso da mão-de-obra. Apesar dessas
considerações, a feira ainda tem uma importância econômica para a população
caicoense como também para os municípios vizinhos, tornando-se espaço de
comercialização e socialização. Diante das análises feitas, buscamos compreender
as relações existentes nesse espaço, como também a falta de investimentos por
parte da Prefeitura.

Palavras-chave: Feira livre de Caicó; Relações socioeconômicas; Modernização.


9

ABSTRACT

The present study refers to the street market in Caicó city by having goal was to
investigate the dynamics and the socio-spatial transformations that it has been
suffering and its resistance to modern business structures known as supermarkets.
From its inception, the street market is the space of economic, social and cultural
relations. This commercial activity had important contribution to the occupation of the
Brazilian territory, especially in the Northeastern where it was responsible for the first
settlements in the region. At beginning the economic relations were focused to cattle
trade with the famous cattle markets. Over the years the fairs were molding and
evolving to take this current configuration. Going to the empirical focus of this study,
the street market in Caico city is characterized as a space for multiple relationships
which in recent times have resisting and persisting in a space among the current
modernization of the local forms of trade (the supermarkets). In this context, the free
market is inserted in the lower circuit of the economy urban being a traditional activity
with rustic components and traditional methods of sale and intensive hand labor use.
Despite these considerations the free market still has an economical importance for
the caicoense population as well as to the neighboring counties becoming a
marketing space and socialization space. Based on the analyses made we tried to
understand the relationships that exist in that space as well as the lack of investment
by the City Hall.

Key words: Free market of Caicó; Socioeconomic relations; Modernization.


10

LISTA DE FIGURAS

01 – Formação espacial do território ........................................................................ 26


02 – Praça do Mercado ............................................................................................. 28
03 – Meio de transporte utilizado naquela época (jumento ou mula) ........................ 29
04 – Mercado Público Municipal edificado em 1918 ................................................. 30
05 – Expansão urbana de Caicó em 1970 ................................................................ 31
06 – Fluxos de pessoas na feira................................................................................ 35
07 – Utensílios domésticos pretéritos ........................................................................ 37
08 – Quem produz o espaço urbano ......................................................................... 41
09 – Família trabalhando na feira livre (avô e neta) .................................................. 50
10 – Mercadoria exposta no asfalto .......................................................................... 51
11 – Veículo como local de venda ............................................................................. 52
12 – Acondicionamento das aves na feira livre ......................................................... 56
13 – Carnes expostas sem nenhum equipamento de refrigeração ........................... 57
14 – Caixa de isopor para acondicionar o pescado ................................................... 58
15 – Supermercado próximo à feira livre ................................................................... 68
16 – Lixo acumulado após termino da feira ............................................................... 72
17 – Açougue Municipal ............................................................................................ 74
11

LISTA DE GRÁFICOS

01 – Tempo de atuação dos feirantes ....................................................................... 53


02 – Escolaridade dos feirantes ................................................................................ 54
03 – Maiores contrariedades encontradas na feira ................................................... 55
04 – Frequência que os consumidores vão à feira .................................................... 59
05 – Escolaridade dos consumidores ........................................................................ 60
12

LISTA DE MAPAS

01 – Localização do município de Caicó ................................................................... 25


02 – Localização da área de estudo .......................................................................... 34
03 – Municípios que estão sobre a influência de Caicó ............................................ 47
13

LISTA DE QUADROS

01 – Características dos circuitos espaciais da economia ........................................ 43


14

LISTA DE SIGLAS

IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística


REGIC Regiões de Influência das Cidades
SIG Sistema de Informações Geográficas
SIRGAS 2000 Sistema de Referência Geocêntrico para as Américas
STTR Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
15

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 16

1 UM OLHAR SOBRE A FEIRA LIVRE DE CAICÓ/RN: ESPAÇO E TEMPO .... 20

1.1 Uma síntese sobre o surgimento da feira livre ................................................ 20

1.2 A feira livre de Caicó: do surgimento á atualidade .......................................... 23

1.2.1 Localização do Município de Caicó/RN .......................................................... 24

2 A FEIRA LIVRE DE CAICÓ COMO ATIVIDADE INSERIDA NO CIRCUITO

INFERIOR DA ECONOMIA URBANA............................................................. 40

2.1 A dinâmica do circuito inferior da economia presente na feira livre ................ 48

2.2 Perfil e condições de trabalho dos feirantes ................................................... 53

2.3 Perfil do consumidor ....................................................................................... 58

3 A FEIRA LIVRE DE CAICÓ ENQUANTO UM CENÁRIO DE RESISTÊNCIA AS

NOVAS ESTRUTURAS CAPITALISTAS MODERNAS: OS

SUPERMERCADOS....................................................................................... 62

3.1 Uma breve discussão sobre o surgimento dos supermercados em Caicó

....................................................................................................................... 65

3.2 O poder público local e seu papel administrativo em relação á feira livre ...........

....................................................................................................................... 71

CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................ 75

REFERÊNCIAS .............................................................................................. 78

APÊNDICE A – FORMULÁRIO PARA O FEIRANTE ...................................... 82

APÊNDICE B – FORMULÁRIO PARA O CONSUMIDOR .............................. 83

ANEXO A – PROJETO DA PREFEITURA MUNICIPAL DE CAICÓ PARA


REVITALIZAÇÃO DA FEIRA LIVRE ............................................................... 84
16

INTRODUÇÃO

A feira livre está presente na cultura e costumes populares desde a


Antiguidade, como modelo de mercado periódico mais antigo e tradicional no
mundo, exercendo grande importância para o desenvolvimento econômico, social e
cultural. Um marco na passagem do modo feudal para o modelo capitalista.
A feira livre é um evento presente no Brasil desde o período colonial,
introduzida no Brasil pelos portugueses. Mas este tipo de atividade comercial teve
maior destaque na região Nordeste, principalmente nas cidades do sertão
nordestino. Com papel importante para a formação de núcleos urbanos, com as
famosas e tradicionais feiras de gado, uma vez que, no início da colonização,
tornaram-se responsáveis pela constituição de povoamento no interior dos Estados.
Esse fenômeno se desenvolveu por todo território do Brasil, exercendo um
expressivo papel no abastecimento dos mais variados produtos e a centralização de
boa parte da produção regional, para a população urbana e rural. Proporcionou ao
produtor rural a comercialização do seu excedente na sua produção. A feira não se
resume em espaço de comercialização de produtos, ela também se destaca como
espaço de socialização, promovendo o encontro e reencontro de indivíduos. No dia
de feira toda a dinâmica do local é modificada, o espaço é todo movimento com o
fluxo de pessoas da própria cidade, da zona rural e das cidades vizinhas. Essa
atividade se caracteriza pelo seu poder de alcance espacial, conseguindo ter um
alcance local e regional.
Inicialmente, o estudo surge de uma afinidade com o tema. Ser moradora da
cidade de Caicó, observar semanalmente a feira e perceber sua dinâmica induziu-
me a pensar nas evidentes transformações socioespaciais ocorridas nesse espaço
pelas quais a feira vem passando e a sua importância regional para o município.
Outro motivo é a carência, na cidade, de estudos científicos sobre essa
temática. São raras as pesquisas nessa área. No decorrer da pesquisa bibliográfica,
deparamo-nos com variadas referências sobre feiras livres em outros estados. Então
sentimos a necessidade de nos aprofundar na discussão sobre esse fenômeno no
município de Caicó.
Deste modo, o objetivo geral desta pesquisa foi investigar a dinâmica e as
transformações socioespaciais pelas quais vem passando a feira livre de Caicó, e
17

sua resistência frente às novas estruturas comerciais modernas: os supermercados.


E dentre os objetivos específicos, foi proposto:
a) Verificar como a feira livre vem resistindo ao avanço das redes de supermercados
presentes na cidade;
b) Averiguar a feira livre como atividade inserida no circuito inferior da economia;
c) Avaliar o seu grau de importância para a população local.
d) Investigar se o poder público local tem algum projeto ou alguma política pública
para a feira livre.
Considerando que esta é uma atividade comercial antiga e que ainda
permanece na atualidade, mantendo-se como espaço preferencial para uma boa
parte da população caicoense e das cidades circunvizinhas.
Para o desenvolvimento desta pesquisa, tendo como tema a feira livre de
Caicó, foram realizadas leituras de caráter científico, incluindo textos concentrados
sobre feira livre, o espaço urbano, os circuitos da economia urbana e globalização.
Foram feitos usos de várias fontes de pesquisa entre as quais obras de autores
renomados, teses, dissertações, monografias, artigos, revistas eletrônicas, sites,
entre outros, todos com o propósito de reunir informações para o desenvolvimento
da pesquisa.
As leituras foram relevantes para se entender o funcionamento e o processo
das relações econômicas e sociais da feira livre na contemporaneidade, assim se
fazendo a percepção da produção da feira livre na cidade. A pesquisa empírica
pretendeu decifrar o processo de comercialização existente na cidade de Caicó a
partir da feira livre. Compreendida como espaço de sociabilidade, a feira conserva
traços importantes da clássica vida cotidiana da região.
A pesquisa de campo foi feita através de observações do cotidiano na feira,
tomando como base o dia de sábado, quando foram elaborados formulários para
serem aplicados aos feirantes e consumidores da feira livre, incluindo questões
ligadas à origem deles, como relato sobre as dificuldades encontradas naquele
espaço, como também sugestões de melhorias.
As fotografias cumprem um papel importante para análise do espaço na
pesquisa. É através do registro fotográfico que se revelam as interpretações na
medida que é registrado o que ocorre no dia a dia da feira livre.
Para a construção dos mapas, o procedimento metodológico teve como etapa
inicial um levantamento cartográfico prévio da área de estudo, a etapa seguinte foi a
18

montagem de uma base cartográfica em ambientes de Sistema de Informação


Geográfica (SIG) para o armazenamento dos dados digitais utilizados nas
elaborações dos mapas e cartas imagens do referido estudo.
A etapa a seguir foi a produção de dois mapas, o primeiro de localização do
município de Caicó/RN e o segundo, um mapa dos municípios que estão sobre a
influência da cidade de Caicó. Para essas duas produções, foram utilizadas
shapefiles da malha digital municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) 2010, disponibilizadas gratuitamente no site do próprio instituto, de todos os
municípios envolvidos na presente análise.
Também foi elaborada uma carta imagem de satélite do ano de 2013,
disponibilizada gratuitamente pelo WebSIG Google Earth Pro®, onde a imagem foi
georeferenciada no sistema de coordenadas geográfica SIRGAS 2000, utilizando o
software ArcGIS v. 10.3 (Versão Acadêmica). Em seguida, com a utilização do
programa, foram criados vetores no formato de polígonos e linhas para delimitar a
localização da feira livre de Caicó. Os mapas de localização e influência também
foram gerados no mesmo software da produção da carta imagem.
No primeiro capítulo, denominado de "Um olhar sobre a feira livre de
Caicó/RN: espaço e tempo" buscamos fazer um breve histórico acerca da origem
das feiras livres no âmbito nacional, estadual e regional e, por fim, na cidade de
Caicó. Foi narrado o início dessa atividade comercial na cidade, demonstrando a
relação da feira com as atividades econômicas mais expressivas da época em que
Caicó exercia um desenvolvimento econômico e dinâmico através do binômio
pecuária e cotonicultura. Logo depois da decadência da cotonicultura, a cidade de
Caicó sobressai como centro regional através do setor terciário de comércio e
serviços. E, nesta mesma direção, a feira e a cidade se encontram no rastro da
produção econômica, criando uma interligação entre os demais ramos de atividade
comercial.
No segundo capítulo, "A feira livre de Caicó como atividade inserida no
circuito inferior da economia urbana", abordamos a teoria dos dois circuitos da
economia urbana, focando a dinâmica do circuito inferior da economia presente na
feira livre, ressaltando, deste modo, suas características tradicionais de trabalho.
Como a análise da pesquisa de campo e os formulários, traçamos o perfil e as
condições de trabalho dos feirantes e como também o perfil dos consumidores da
feira, relatando os principais problemas existentes no espaço da feira livre.
19

E, por último, no terceiro capítulo, "A feira livre de Caicó enquanto um cenário
de resistência as novas estruturas comerciais modernas: os supermercados",
fazemos uma abordagem sobre a globalização e os vetores modernos. Neste caso,
referimo-nos aos supermercados existentes na cidade, como a feira vem persistindo
e resistindo a esse comércio moderno. E, por fim, o papel do poder público local em
relação à feira livre.
20

1 UM OLHAR SOBRE A FEIRA LIVRE DE CAICÓ/RN: ESPAÇO E TEMPO

Antes de relatarmos sobre o processo geohistórico da feira livre de Caicó, sua


dinâmica e as transformações pela qual a mesma vem passando, faz-se importante
destacar, de modo breve, o surgimento dessa forma de comércio tradicional no
mundo, no Brasil e no Nordeste. Visto que as feiras se tornaram uma pratica social e
uma atividade de extrema importância econômica, social e cultural, sua área de
influência pode ser local ou regional.

1.1 Uma síntese sobre o surgimento da feira livre

As feiras livres ou mercado popular, na antiguidade (Idade Média), revelavam-


se como atividade comercial, que exercia o papel de trocas de mercadorias com
diferentes produtos entre os indivíduos de diversos lugares com o propósito de
abastecer as necessidades particulares de cada indivíduo. Essa prática comercial,
para Dantas (2007), enquadra-se como atividade comercial mais antiga e tradicional
no mundo. Primeiramente, essa atividade comercial teve seu início com as cruzadas,
sendo que era essencial um modelo comercial que satisfizesse as necessidades dos
que praticavam esse comércio. Nesse sentido, "a troca de produtos surgiu e se
desenvolveu na sociedade no momento em que passou a existir um excedente
regular de produção, fruto do desenvolvimento das forças produtivas" (DANTAS,
2008, p. 88), possibilitando a expansão dos excedentes, surgindo assim a figura do
comerciante.
A partir do crescimento da produção e da necessidade de se obterem novos
produtos, esse sistema de troca passou a exercer uma atividade importante para o
comércio, que, ao longo do tempo, unificou uma grande diversidade de produtos
disponíveis em um mesmo lugar. Neste período, "tanto os mercados como as feiras
européias tinham como objetivo serem centros abastecedores de produtos para a
população local e comerciantes vindos das mais diversas partes do continente"
(DANTAS, 2007, p. 25).
21

Com o declínio do feudalismo e o surgimento do modo de produção


capitalista, esse mercado comercial teve sua propagação ligada ao crescimento das
relações comerciais, ganhando uma nova configuração econômica. O comércio que
antes se mantinha através das trocas de mercadorias transformou-se na economia
de sistema monetário e em uma atividade comercial em expansão, exercendo um
papel essencial na introdução do dinheiro e na conservação do capitalismo, como
também no despontar de novas cidades.
Na busca de acumular capital, com o desenvolvimento das rotas comerciais,
surge um novo modelo para arrecadar lucro, o colonialismo, cujo propósito era
explorar as riquezas naturais dos territórios descobertos pelas grandes navegações.
Nesse caso podemos citar o Brasil.
As feiras livres existem no Brasil desde o período colonial, modelo de tradição
cultural e atividade comercial inserida pelos portugueses, que, quando aqui
chegaram, introduziram seus costumes e crenças, estabelecendo seus próprios
processos culturais: "As feiras constituíam uma inovação que era desconhecida da
população nativa" (MOTT, 1976, p. 82).
Posterior à colonização, as feiras surgiram como cópia do modelo dos
portugueses, que, há tempos, já conheciam e praticavam essa atividade, "quando o
Brasil foi descoberto, já de longa data que os portugueses estavam acostumados
com o comércio nas feiras e mercados" (MOTT, 1976, p. 84). Segundo esse mesmo
autor, no ano de 1548, o rei Dom João III ordenou que um dia de cada semana se
realizasse a feira livre, firmado assim a primeira feira livre no Brasil. Essa ordem foi
implantada para que os nativos viessem vender seus produtos, assim como também
comprar mercadorias. Mas a intenção não era abastecer a população local, a ordem
tinha o propósito de explorar certos produtos mais significativos que eram expostos
pelos índios, para exportarem para a Metrópole.
A feira foi se difundindo por diversas cidades no Brasil, tornando-se um fator
primordial para o crescimento das cidades e também para a fundação de tantas
outras que existem nesse país, onde também desempenhou um importante papel na
propagação da cultura local.
Na região Nordeste, as feiras estavam voltadas principalmente para o
comércio de gado, durante os séculos de XVIII e XIX, desempenhando um papel
importante para economia, constituindo uma atividade econômica que contribuiu
para a ocupação desse território, tornando-se responsável pela formação de
22

povoados e outros núcleos urbanos. Algumas cidades se transformaram em centros


comerciais econômicos e culturais.

Exemplos são as famosas e tradicionais feiras de gado, que no início da


nossa colonização foram responsáveis pela formação de algumas das
formas de povoamento que depois se transformaram em grandes cidades,
núcleos econômicos e culturais (LIMA; SAMPAIO, 2009, p. 7-8).

Daí o porquê de a pecuária ter sido uma atividade determinante para a fixação
da população no Nordeste, fazendo vigorar os primeiros centros de povoamento,
influenciando na formação da economia nordestina. O criatório de gado naquele
período difundia-se para o interior do Nordeste, "inúmeros núcleos estabeleceram ao
longo dos „caminhos de gado‟, o que influenciou a formação de praças de mercado e
das feiras como conhecemos atualmente" (DANTAS, 2007, p. 71), estimulando o
aumento populacional, obtendo um grande êxito em razão da própria formação
socioespacial desse território, do mesmo modo as condições socioeconômicas da
população. O povoamento do Nordeste se deu impulsionado pelos caminhos
descerrados pelo gado, permitindo o surgimento de vilas e povoados. Os currais de
gado foram o firmamento das futuras cidades, instituindo uma ligação direta com o
campo.
No interior do Nordeste, várias cidades se tornaram conhecidas, de acordo
com Lima e Sampaio (2009), devido às suas feiras de gados, no caso de Quixadá e
Baturité/CE, Campina Grande/PB e Feira de Santana/BA, tornando-se centros de
comércio de gado, inserindo essas cidades em um contexto regional.
A feira mantinha um papel importante para o desenvolvimento da cidade,
principalmente para aquelas cidades menores, pois assegurava a comercialização
da produção familiar, composta principalmente por produtos agrícolas, e, muitas
vezes, eram elas, as feiras, o principal local de comércio da população,
estabelecendo uma característica de comércio varejista ao ar livre, transformando-se
em um comércio fixo que se espalhou em direção a áreas centrais das cidades para
sua realização.

Como reflexo da feira de gado, inúmeros outros comerciantes


estabeleceram-se para comercializar sua produção e, desta forma, a grande
praça comercial que é a feira torna-se o dia de maior movimento da cidade,
onde se dá o verdadeiro encontro entre a vida rural e urbana (DANTAS,
2008, p. 96).
23

Nos Séculos XVI, XVII e XVIII, o Rio Grande do Norte teve sua região
ocupada pelos currais de gado, atividade que era secundária à cana-de-açúcar. Mas
foi a pecuária a principal economia da capitania naquele período. O início do
povoamento do seu interior dar-se no século XVIII, quando as primeiras concessões
de sesmarias prescrevem as primeiras criações de gado na região do Seridó,
estabelecendo uma estrutura fundiária sertaneja devido à valorização econômica da
terra por razão dessa atividade extensiva e a formação do território. A expansão
territorial para o interior faz surgir novos núcleos populacionais, como é o caso da
cidade de Caicó.

1.2 A feira livre de Caicó: do surgimento à atualidade

Seguindo uma visão geográfica, a cidade é uma realização humana, a


maneira que ela é gerada e produzida pela ação dos homens torna-se cenário da
produção material que molda as ações humanas, produto e obra, sendo inviável
presumir a cidade desagregada da sociedade. A cidade é o espaço da
movimentação humana, uma etapa histórica, construindo e reconstruindo no tempo
e espaço:

É um produto histórico-social e nesta dimensão aparece como trabalho


materializado, acumulado ao longo do processo histórico de uma série de
gerações. Expressão e significação da vida humana, obra e produto,
processo histórico cumulativo, a cidade contém e revela ações passadas, ao
mesmo tempo em que o futuro, que se constrói nas tramas do presente [...]
(CARLOS, 2007, p. 11).

A cidade de Caicó foi construída através de um processo histórico, produzido


pela ação do homem, marcada inicialmente pela pecuária, logo depois por, a
cotonicultura, atividades essas que contribuíram para o desenvolvimento econômico
e dinâmico da cidade, surgindo novas formas e funções, firmando alterações em seu
espaço geográfico.
24

1.2.1 Localização do município de Caicó/RN

O município de Caicó está localizado no centro-sul do Estado do Rio Grande


do Norte, mais precisamente na microrregião do Seridó Ocidental (Mapa 01). A
cidade está a 269 km de distância da capital Natal. Segundo o censo demográfico de
2010, realizado pelo Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a
população estimava 62.709 habitantes, dos quais 57.461 residiam na cidade e 5.248
no campo. Atualmente, Caicó tem sua população total estimada para o ano de 2015
de 67.259 habitantes.
Antes de relatarmos o processo de construção histórica da feira livre de
Caicó, cabe um breve histórico do surgimento do Município. Na metade do século
XVII, dar-se início ao processo de interiorização da Capitania do Rio Grande. Nesse
período, a Coroa Portuguesa faz concessão de terras a particulares (sesmarias),
destinando-as para a prática da pecuária, visto que essa atividade de criatório de
gado foi proibida pela Carta Régia em 1701 na costa do litoral para não intervir na
produção canavieira. A ocupação das sesmarias também foi um modo de ocupação
para povoar o interior da província.
A implantação da atividade extensiva, a pecuária, para o interior dessa região,
ocorreu devido esse território possuir condições ideal para a prática da mesma. De
modo que não há como desprender o processo de ocupação da região do Seridó
com a cidade de Caicó, pois ambos estão atrelados no mesmo processo histórico. "A
história da ocupação e do povoamento de Caicó confunde-se com a própria história
da região do Seridó" (MORAIS, 1999, p. 35).
Como a criação de gado não foi permitida no litoral, devido à expansão da
atividade canavieira, a pecuária passa a delinear uma nova geografia no interior da
então capitania do Rio Grande do Norte. As terras do interior passaram a ser
ocupadas pela prática extensiva de criatório. "A maioria dessas terras passam a ser
utilizadas como fazendas, onde o criatório é o cerne da economia, seguido por uma
agricultura de subsistência" (FARIA, 2011, p. 85).
25

Mapa 01 - Localização do município de Caicó/RN.

Fonte: Elaborado pelos autores com base na malha digital do IBGE, 2010.
26

Com essa nova configuração geográfica no território, dá-se o início do


povoamento. A pecuária foi conquistando cada vez mais as terras do espaço
caicoense, desse modo, sendo responsável pelo povoamento, tornando-se um
elemento econômico imprescindível. No ano de 1735, elevando-a como "Povoado de
Caicó", e, em seguida, a fundação de vila, que surge na época como subespaço de
permutas comerciais, repouso para os tropeiros1 e animais.
A pecuária dá início à formação territorial da cidade de Caicó (Figura 01),
inicialmente, como vila, em 1788, recebendo o topônimo de Vila Nova do Príncipe.
Nessa época, já era realizada a grande feira livre de Caicó, geralmente aos
sábados. A vila, em seguida, deu origem à cidade no dia 15 de Dezembro de 1868.
Como conclui Faria (2011), Caicó tem sua origem atada ao processo de colonização,
apresentando, como principais atividades, as fazendas de gado e a prática de
criação de gado. A futura cidade de Caicó tem sua origem marcada por um período
peculiar quando a pecuária e a agricultura se encontravam em vigor.

Figura 01 - Formação espacial do território.


Fonte: FARIA, 2011, p. 85.

Entre o século XIX e o início do século XX, a cidade de Caicó intensifica sua
economia através do desenvolvimento da cultura do algodão implantada no Seridó.
Ocorrida uma grande seca entre 1877 e 1879, a cotonicultura foi introduzida no
Seridó, sendo difundida pelo algodão mocó ou simplesmente o algodão Seridó.
Devido à grande seca, a pecuária não surtia mais o efeito para as ambições

1
Tropeiro – Condutor de tropas de animais; condutor de bestas de carga. Disponível em:
<http://www.dicio.com.br>. Acesso em: 05 ago. 2015.
27

capitalistas, passando uma atenção maior ao cultivo do algodão, por esse se inserir
no mercado facilmente.
Mas isso não implicou o fim da criação de gado, criou-se uma relação
paralela, simbiótica com o cultivo do algodão, "a coexistência dessas atividades foi
responsável pela conformação de um sistema em que, [...] a pecuária e o algodão
assumiram um caráter de complementariedade" (MORAIS, 1999, p. 53) de maneira
que o caroço e o restolho serviam de ração para a alimentação do gado.
Posteriormente, a cotonicultura suplantou a pecuária, dando um caráter dinâmico à
cidade a partir dos últimos decênios do século XIX:

A cidade, durante o período de pináculo econômico, que inicia nos anos 40


e penetra a década de 70 do século XX, passou por significativas
transformações, sendo beneficiada com os inovados objetos geográficos ou
equipamentos urbanos que passaram a ornar e/ou matizar as ruas
sinuosas, estreitas e acidentadas de Caicó (ARAÚJO, 2006, p. 39).

A história da feira livre de Caicó se confunde com a própria história de


desenvolvimento da cidade, pois não se sabe, com clareza, quando a feira surgiu na
cidade. A formação do núcleo urbano de Caicó desponta a partir da construção da
Matriz de Sant'Ana2, ao redor da qual casas foram edificadas e ruas foram
estruturadas tornando a igreja como referência central, de forma que foram
despontando outros espaços públicos essenciais para a constituição do meio social
da população. Até então, no século XIX, na cidade, eram inaugurados alguns órgãos
que prestavam serviços à sociedade: "Entre esses serviços, destaca-se a Agência
Postal, a 1ª escola Primária, a Comarca, o 1º Mercado Público Municipal, Prefeitura
Municipal e 1º Cartório Judiciário" (MORAIS 1999, p. 45-46 apud SANTOS 1974, p.
7), na qual a cidade se expandiu.
Nessa circunstância, tomamos de partida o 1º Mercado Público Municipal,
instalado na época na Praça do Mercado em 1870 (Figura 02), o primeiro em suas
mediações. Nesse local, era realizada, aos sábados, a grande feira livre de Caicó.
Durante o século XIX, ocorreu nas cidades brasileiras o movimento chamado
higienista3 que estabelecia, nessas cidades, locais mais apropriados para

2
"Para alguns historiadores, a cidade e a capela nasceram juntas, quando em 1748 foi criada a
Freguesia de Sant'Ana e lançadas as bases da construção da capela [...]" (MORAIS, 1999, p. 40).
3
Era uma nova mentalidade que surgiu a partir de médicos que relacionavam surtos epidêmicos de
algumas doenças aos hábitos da população. Os médicos higienistas tinham o dever de cuidar da
higiene e saúde da população.
28

comercializar os produtos alimentares. Assim foram criados os mercados públicos,


que tinham a finalidade de abrigar os comerciantes feirantes, os fregueses e os
produtos para o consumo alimentar da população.

É de fato que desde o século XIX, com o movimento higienista, as cidades


passam a determinar através das suas posturas urbanas os locais onde se
permitia a comercialização dos produtos alimentícios. Desde esse período
determinou-se que esse tipo de comércio só deveria se comercializar nos
mercados públicos (CARDOSO, 2010, p. 3).

O espaço do Mercado Público de Caicó foi adequado para a prática do


comércio, entre comerciantes e sua clientela, exibindo mercadorias que eram
inerentes à vida diária do consumidor. Nessa época, havia a necessidade de sortir
outras ausências de produtos que não fossem provenientes da pecuária, produtos
que eram fundamentais para o dia a dia. Além de possuir a função comercial, a feira
do mercado também se estabelecia como local de lazer e encontro para a
sociedade, pois, para a população, era dia de compras e vendas, de resolver
negócios, ir ao consultório médico e pôr em dia a conversa.

Figura 02 - Praça do Mercado.


Fonte: Álbum fotográfico: Caicó, ontem e hoje, 1994.

Em seguida, a denominação da praça foi modificado para Praça da


Liberdade4, que centralizou a feira livre de Caicó em cerca de 50 anos, onde os
comerciantes se concentravam aos sábados para a compra e venda de produtos,

4
A praça recebeu essa denominação, devido á mesma ser palco para a libertação dos escravos
caicoense, nesse espaço ocorreram às cerimônias de alforria.
29

que, na época, era centrada na pecuária e seus derivados, permitindo as


negociações comerciais entre comerciantes e consumidores.

Caicó, [...] tinha sua economia centrada de início na pecuária bovina, era o
gado que dava o couro, o leite, o queijo, a manteiga, a carne, entre outros
produtos que eram comercializados, não só na cidade, mas em regiões
circunvizinhas (NERY, 2006, p. 18).

Com o desenvolvimento econômico, surge a mendicância de se obter outros


produtos que eram importantes para o dia a dia da população, mas que não eram
produzidos na cidade. Assim os comerciantes passaram a buscar novos produtos
em outros lugares para serem vendidos em Caicó. Naquela época, o único meio de
transporte era o jumento ou mulas (Figura 03). Reuniam-se de 10 a 12 mulas e se
deslocavam para Mossoró para comprar produtos que chegavam de Fortaleza/CE
para serem vendidos na feira de Caicó.

Figura 03 - Meio de transporte utilizado naquela época (jumento ou mula).


Fonte: Álbum fotográfico: Caicó, ontem e hoje, 1994.

A feira, além de constituir um espaço de compras e vendas, tinha uma função


social muito expressiva, promovendo encontros entre amigos e familiares. O dia da
feira era um dia de festa, tornando-se uma atividade importante para o
desenvolvimento da cidade, gerando grande fluxo de pessoas, proporcionando a
alegria de adquirir tipos de mercadorias que eram raros de se encontrar nas casas
comerciais, também lhes dava a autonomia de especular, pechinchar preços
menores, com a finalidade de economizar, visto que a renda dos trabalhadores
rurais era inferior se comparados aos dos coronéis, fazendeiros e funcionários
30

públicos.
Na feira, vendiam-se produtos da nossa agricultura como feijão, arroz, milho,
bebidas, fumos, goma de mandioca, assim como também produtos vindos da zona
rural: ovos e queijos de manteiga e coalho. Existia uma grande quantidade de
utensílios domésticos fabricados do barro ou do alumínio, tendo em visto que,
naquela época, século XIX, não existia eletrodomésticos.
Desde o século XIX, a feira se faz presente na configuração espacial urbana
de Caicó. Além de comércio, a feira favorecia vários assuntos entre os compadres e
comadres. As diversas práticas esboçadas por esses indivíduos não faziam da feira
um simples local de compras e vendas de mercadorias, iam mais além, tornou-se
um local distinto de uma série de relações sociais, em que as relações humanas se
manifestavam com mais força e de formas diferenciadas produzidas no cotidiano
urbano da cidade.
No decorrer dos anos seguintes, o Mercado Público da antiga Praça da
Liberdade foi removido para onde é o seu local atual, construído em 23 de fevereiro
de 1918 (Figura 04), entre as avenidas Seridó e Coronel Martiniano, estabelecendo-
se como armazém comercial, mas tinha um aspecto sórdido, devido à
comercialização do gado. "O mercado municipal se constituía de um casarão cheio
de portas ao redor destinadas ao tráfego de consumidores e comerciantes" (NERY,
2006, p. 26). O então mercado foi construído pelo poder público com intuito de
proporcionar melhores condições, configurando uma nova forma de organização
urbana no espaço caicoense.

Figura 04 - Mercado Público Municipal edificado em 1918.


Fonte: Álbum fotográfico: Caicó, ontem e hoje, 1994.
31

Nas primeiras décadas do século XX, o perfil econômico de Caicó é altamente


agrário, delineando-se em nível de Estado, tornando-se centro de referência no
panorama da economia algodoeira. A cidade se tornará palco de novos objetos e
novas ações, assim se configurando em uma diversidade de formas e conteúdos,
fixos e fluxos.

Entre os anos de 1930 e 1970, a cidade cresceu entre as plumas de um


desenvolvimento marcado pela indústria usineira do beneficiamento do
“ouro branco”. A mancha urbana cresceu de forma impressionante e a
cidade avançou para além dos rios que antes a limitavam. Não foram
apenas as usinas, a cotonicultura em si e o beneficiamento das sementes
do algodão, mas muitas outras intencionalidades que despertaram para o
uso de um território dinamizado, a partir do capital cotonicultor (FARIA,
2011, p. 93).

A cotonicultura foi até o final da década de 1970 (Figura 05), uma importante e
principal fonte geradora de emprego e renda para o município, dando ênfase ao
processo de urbanização da cidade. Caicó alcançou o estado de principal cidade da
região do Seridó nesse período, devido ao dinamismo econômico desenvolvido pela
atividade algodoeira. "O desenvolvimento da cotonicultura, juntamente com a
implantação de políticas públicas [...] veio fortalecer o processo de modernização da
cidade, intensificando a urbanização de Caicó [...]" (ARAÚJO, 2008, p. 165).

Figura 05 - Expansão urbana de Caicó em 1970.


Fonte: FARIA, 2011, p. 95.
32

Entre a transição dos anos 1970 a 1980, a sua principal base econômica, a
cotonicultura passa por implicações entrando em decadência, afetando de modo
fatal sua estrutura econômica. A cidade de Caicó se (re)estrutura, (re)organiza seu
espaço urbano revertendo sua economia de base agrária para "uma economia
predominantemente urbana, baseada no setor terciário" (MORAIS, 1999, p. 170)
para reduzir os efeitos da crise algodoeira, ocasionando novo dimensionamento de
atividades já existentes e o aparecimento de novas estruturas produtivas,
favorecendo "a rearticulação do território através de novas relações campo-cidade e
cidades-região" (MORAIS, 2005, p. 10).
A instauração de novos serviços desencadeou o desenvolvimento da cidade.
Alguns desses serviços eram exclusivos, existindo somente em Caicó. Edificando a
cidade na condição de centro regional expandindo-se no setor terciário através dos
setores de comércio e prestações de serviços, Caicó ergue e dinamiza novamente a
sua economia, passando por mudanças. "Essas mudanças contracenadas, nos
proscênios caicoenses influenciaram a dinâmica da cidade, rebatendo nas suas
relações e, consequentemente, nas concatenações entretecidas no “universo” da
feira livre" (ARAÚJO, 2006, p. 39), de modo que, levando-se em conta as
modernizações introduzidas no espaço urbano da cidade, a expansão do comércio e
a forte formação de um setor terciário, fez-se com que a feira livre de Caicó
estabelecesse um laço forte com a economia local.
Então, nessa direção, a cidade e a feira livre, historicamente, encontram-se
no rastro da produção econômica. A feira se caracteriza do ponto de vista
econômico, um modelo de vazão da produção agrícola regional, criando uma
interligação entre os demais ramos de atividade comercial, como também elemento
primordial para a vida social: "A feira livre é a síntese das relações econômicas,
sociais e culturais que são estruturadas diariamente nos espaços da cidade"
(MEDEIROS, 2010, p. 16).
Por muitas décadas, a feira livre de Caicó ocupa as adjacências do Mercado
Público, que está situado na Avenida Coronel Martiniano, e do Açougue Municipal
localizado na Avenida Seridó, na área central da cidade, estruturando-se a partir das
ocupações dessas ruas. No dia de sábado, a feira livre se configura como corredor
comercial, por onde movimentam seus frequentadores num ritmo intenso e contínuo
de pessoas e veículos, transitando entre uma feira e outra. Consideramos, nesta
pesquisa, a feira livre localizada próximo ao Açougue Municipal, em vista de essa
33

ocorrer todos os dias da semana, enquanto a feira próxima ao Mercado Público é


realizada somente aos sábados.
Devido às condições precárias em que se encontrava o Mercado Público, em
2008, houve uma urgente reforma. Devido a essa reforma, a maioria dos feirantes
tiveram que se deslocar para a feira nos arredores do Açougue Público, ficando só
alguns poucos naquele local.
Atualmente a sua maior concentração está no entorno do Açougue Municipal,
mais precisamente entre a Avenida Seridó e a Rua Olegário Vale (Mapa 02), onde
encontramos a comercialização de produtos hortifrutigranjeiros, como também
produtos regionais, com destaque para os produtos da terra, como a carne de sol,
manteiga da terra, queijos de manteiga e coalho, biscoitos, doces caseiros e a
linguiça, que se tornaram uma particularidade da nossa cidade, produtos
reconhecidos no Nordeste pelo seu sabor inigualável. Com a pretensão de ampliar
novos horizontes de negócios para seus produtos: "Na tessitura de reinvenção das
relações mercantis seridoenses, a marca Seridó/Caicó se instituiu no mercado com
grande potencial e credibilidade" (MORAIS, 2005, p. 315).
Quando essas "velhas estruturas" são montadas, ainda é madrugada.
Quando os primeiros raios de sol apontam no horizonte, paulatinamente, as ruas vão
sendo ocupadas para mais uma realização da feira livre. "Hodiernamente, assentada
sobre um chão de concreto, todas as madrugadas e manhãs de sábado são
erguidas estruturas de madeira que formam as bancas [...]" (MORAIS; ARAÚJO,
2006, p. 246).
A feira livre de Caicó acontece todos os dias da semana, mas é aos sábados
que ela apresenta sua verdadeira essência, seu maior movimento, pois vários
sujeitos provenientes dos mais variados lugares, sejam os indivíduos feirantes ou
fregueses, procedentes de diversos recortes espaciais, locomovem-se com
regularidade. Esses atores sociais cruzam as estradas do sertão, as fronteiras
estaduais, regionais e municipais para comercializar seus produtos. São
mercadorias de vários tipos, desde produtos regionais, artesanais, alimentícios
dentre outros.
34

Mapa 02 - Localização da área de estudo.

Fonte: Elaborado pelos autores com base no Google Earth, 2013.


35

Inserida no espaço urbano do centro de Caicó, a feira apresenta elementos


que se mesclam nesse "universo" onde tudo se mistura e se transforma arcaico e
moderno, campo e cidade, novo e velho, moderno e tradicional. Uma rede de
relações humanas é erguida, projetando, no espaço da feira, relações restritas e
conjuntas dos diversos usos dos atores sociais, dando significado à feira, trocando
conversas, saberes, brincadeiras, experiências, entre outros. As relações sociais são
compreendidas como elemento de ocupações, usos e representações que se
estabelecem sobre determinado espaço: "O uso deixa marcas profundas no espaço,
cria traços que organizam comportamentos, determinam gestos, explicitando-se
através das formas de apropriação dos lugares [...]" (CARLOS, 2007, p. 14).
Durante os sábados, a cidade acorda diferente, pois o fluxo de pessoas sejam
feirantes ou consumidores que chegam à feira para vender ou comprar suas
mercadorias é de movimento intenso. A feira se exibe como local entretido por
diversas classes sociais, de várias idades e gêneros. O movimento toma conta das
ruas (Figura 06).

Figura 06 - Fluxos de pessoas na feira.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

A feira começa por volta das 04h da manhã, quando chegam os primeiros
feirantes, e se estende até 13h da tarde. Alguns feirantes já têm sua barraca ou
banca fixada no local, cabendo apenas arrumar as mercadorias, outros estendem
lonas ou arrumam caixotes para colocar seus produtos para serem comercializados.
36

Por volta das 05h da manhã, começam a chegar os primeiros fregueses à procura
de comprar os melhores produtos.
Boa parte desses indivíduos chega em jejum e satisfazem sua fome nos
barracos que comercializam produtos voltados à cultura alimentar local. Há tapioca
com ovos, pastel com caldo de cana, café com bolo, pão com queijo de manteiga,
caldo acompanhado com cuscuz e batata doce, mungunzá, entre outros alimentos.
A feira agita todos os sentidos, que são colocados à prova: a visão, pois, de
longe, a feira já chama a atenção por seu cenário multicolor; o tato, para se escolher
pelo toque, apalpação, as melhores frutas, legumes e até a degustação dos
mesmos; o olfato sente-se o "cheiro" peculiar da feira; a audição ouve-se a
sonoridade ecoada pelos feirantes que, de maneira peculiar, divulgam seus produtos
na tentativa de atrair os consumidores.
Na feira, de tudo se vende, desde alimentos produzidos e cultivados na
região, como produtos agrícolas provenientes muitas vezes da zona rural do
município e de outras cidades da redondeza. Uma imagem bem comum é ver os
feirantes debulhando o feijão verde para ser vendido. Como também, é cada vez
mais comum encontrarmos uma multiplicidade de produtos populares
industrializados como calçados, roupas, têxteis em geral, CDs e DVDs piratas.
A distribuição das barracas é aleatória, seus locais são organizados pelos
próprios feirantes, onde elas são enfileiradas uma ao lado da outra. As barracas
demonstram estruturas diferentes, algumas são de madeiras outras com estruturas
improvisadas por caixas de plástico. Em uma barraca se vendem frutas, verduras e
hortaliças, temperos e chás, na barraca vizinha vendem-se carnes, frangos e
pescados, em outra, cereais, queijos, doces, biscoitos e manteigas. Não há uma
setorialização das barracas por tipo de mercadorias vendidas.
Ainda é notável, na feira, a permanência de alguns objetos e produtos que
são verdadeiras rugosidades. A feira "analisada é o resultado de um processo de
acumulação de tempos, em que o espaço se renova ao passo em que conserva
permanências" (FARIA, 2011, p. 80). Exemplo é a forma tradicional mantida de
comercializar os cereais, ensacados em sacos de algodão, vendidos a granel, com
caneco de flandre para regular a porção desejada pelos clientes, como também
barracas com produtos como utensílios domésticos (Figura 07) de alumínio, barro,
flandre e palha, colher de pau, abano para fogão a lenha feito de palha, instrumentos
para atividades rurais como arreios, chicotes, botas, chapéus, etc. Essas
37

mercadorias, na concepção de Carneiro (2014), corroboram de modo parcial para se


apresentar um mundo cultural de um passado vivido ainda presente no espaço.
No interior da feira, podemos perceber corredores de barracas abarrotados de
pessoas transitando entre uma barraca e outra, competindo os espaços em frente às
barracas para se escolherem as melhores frutas, verduras, os melhores produtos.
Nesse espaço, as pessoas circulam pechinchando ou à procura do que desejam
comprar. Alguns já têm seus feirantes preferidos, pois os conhecem de longa data, e
trocam aprendizados e conhecimentos vividos, que, somados às experiências do dia
a dia, tornam-se, muitas vezes, uma relação de amizade entre os feirantes e
consumidores.

Figura 07 - Utensílios domésticos pretéritos.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

A interação dos feirantes com os fregueses, expressam formas simbólicas de


comunicação, os feirantes são bem vistos pelos fregueses, muitas vezes pelo seu
modo de atendimento, performance de vender e jocosidade, apontando a melhor
mercadoria e fazendo aquele "preçinho" especial para ganhar a simpatia do freguês.

Os feirantes da feira livre [...] fazendo uso de sua "lábia comercial" faz da
sua fala um meio de comunicação e por meio de sua criatividade elabora
estratégias de atrair o freguês e de induzi-lo a comprar sua mercadoria,
como a promoção, baixa dos preços, ou anúncio da qualidade do produto.
São atos humanos diretamente ligados ao uso da fala e que remetem a
produção simbólica da própria feira livre [...] (ARAÚJO; CARNEIRO, 2014,
p. 148).
38

Desse modo, os fregueses são envolvidos pelos feirantes, estabelecendo,


com gestos de gentilezas, um contato pessoal, através das conversas, brincadeiras,
elogios aos fregueses e o bom humor. Essa proximidade torna o preço do produto
negociável, e é essencial para o negócio prosperar. E, como gratificação, o freguês
se torna um comprador fixo do feirante.
Além dessa relação com os fregueses, a relação entre os feirantes é algo a
ser realçado, pois eles, apesar de serem concorrentes, criam laços de amizades e
"mantêm relações afetivas, uns com os outros, [...] procuram e entender, evitando,
assim, conflitos, mantendo a harmonia entre os mesmos" (MAIA; CARNEIRO, 2014,
p. 114).
A realização da feira acontece em um espaço público, com autorização da
prefeitura, pois é realizada na área central da cidade, entre a Av. Seridó e a Rua
Olegário Vale (como mostra o mapa 02), que são vias de tráfego na cidade. No dia
de sábado, o fluxo de pessoas e veículos se torna intenso, tornando o tráfego
interrompido, congestionado, atraindo uma agitação e movimentação para essas
ruas do centro. É assim que a feira livre se transforma em espaço público, visível
para toda população, realizando seu papel simbólico, de trocas, vendas, compras e
encontros.
Para muitos, a prática de ir à feira é um momento não só de compras e
vendas, um espaço de comércio, é também um espaço de socialização onde os
indivíduos reveem amigos e parentes, pois muitos não se veem há muito tempo,
sabem notícias dos familiares, colocam a conversa em dia, discutem sobre os
assuntos recentes, discutem política e futebol, entre outros. Já outros indivíduos
visitam a feira apenas para perambular e jogar conversa fora.
Com aproximadamente um século e meio de existência, esta feira adquire
novos contextos espaciais, ligada à memória do lugar, com simbologias que se
alicerçam com uma nova organização espacial, atribuindo novos sentidos na
atualidade. "[...] a feira livre de Caicó, caracterizada como uma rugosidade flexível,
ainda permanece sendo o espaço preferencial de uma boa parte de caicoenses e
seridoenses no desenvolvimento e realização de atividades comerciais e sociais [...]"
(MORAIS; ARAÚJO, 2006, p. 248).
Todo esse universo de particularidades faz da feira livre de Caicó um meio de
garantia para o pequeno e médio produtor para comercializar seus produtos, visto
que esse tipo de atividade comercial gera benefícios aos consumidores, com
39

qualidade e garantia adequada aos seus hábitos alimentares.


Embora esse tipo de comércio tradicional tão antigo ocupe hoje uma menor
proporção no espaço geográfico, ao ser comparado as décadas anteriores, a feira
ainda resiste e persiste até hoje mantendo um papel importante para a economia do
município. Essa atividade exerce uma ligação entre os agricultores de pequeno e
médio porte e os consumidores tornando-se uma fonte geradora de empregos
diretos e indiretos, e geração de renda. Torna-se também um espaço relevante para
existência de relações sociais que se mantêm de geração para geração
colocando-se "como um valor simbólico existente na sociedade local" (MAIA;
CARNEIRO, 2014, p. 99).
A diante, discutiremos e analisaremos a feira enquanto um espaço de
persistência e resistência frente às novas formas comerciais, os supermercados que
se instalaram em Caicó, pois podemos considerar nessa perspectiva de que a feira,
como regra geral, representa aqueles espaços opacos considerados por Santos
(2003), já os supermercados, que ostentam alguns elementos que são indicadores
de modernidade, assemelham-se aos espaços luminosos.
40

2 A FEIRA LIVRE DE CAICÓ COMO ATIVIDADE INSERIDA NO CIRCUITO


INFERIOR DA ECONOMIA URBANA

Entendemos, por espaço urbano, uma teia de relações e influências entre


atores e agentes sociais que agem de forma direta ou indireta na construção e
reprodução do espaço. Esse é um produto social comandado sob a égide da
produção capitalista, sendo esse espaço fragmentado e por cada um manter
relações espaciais entre si e com os demais, criando forma, movimento e conteúdos.

O espaço urbano passa a ser entendido como um locus de produção, que é


ao mesmo tempo desigual e combinado, um campo de conflitos e lutas
sociais, repletos de símbolos e signos e de valores diferenciados, onde a
fragmentação espacial é forjada cotidianamente, criando, nesse sentido
uma espacialidade extremamente desigual, onde as classes sociais ao se
reproduzirem, o fazem segundo o poder que lhes competem, distinguindo-
se desse modo, pelo grupo social de maior ou menos status econômico
social (VASCONCELOS FILHO, 2003, p. 30).

O espaço urbano é o reflexo da sociedade. "Expressão de processos sociais,


a cidade reflete as características da sociedade" (CORRÊA, 1997, p. 121), sendo
visivelmente fragmentado em áreas segregadas. É um reflexo e condição das ações
aglomeradas no tempo que além de desigual é mutável. Logo o espaço urbano não
é unicamente fragmentado, ele é conjuntamente articulado, isso implica dizer que,
embora possua natureza e intensidades diferentes, cada área da cidade mantém
relações entre si, tendo o centro da cidade como foco da articulação. É no centro da
cidade onde há a intensa circulação de pessoas, consumo, informações, dinheiro,
mercadorias, as tomadas de decisões etc.
A cidade é o espaço onde várias classes sociais habitam e se reproduzem, é
um produto social: "A cidade é uma realização humana, uma criação que vai se
construindo ao longo do processo histórico e que ganha materialização concreta,
diferenciada, em função de determinações históricas específicas" (CARLOS, 2009,
p. 57). Ao se pensar na cidade e na produção do seu espaço, é perceptível que seu
espaço urbano se produz diante dos processos sociais, através das ações de
agentes sociais. Portanto tais processos geram mudanças, movimentos e formas
sobre o espaço urbano. Esses processos são colocados em ação pelos agentes e
atores sociais que fazem e refazem a cidade (Figura 08). Possuindo cada agente
uma estratégia diferente, sendo responsáveis pela organização do espaço.
41

Figura 08 - Quem produz o espaço urbano.


Fonte: Elaborado pela autora, 2015.

 Os proprietários dos meios de produção – em razão do seu caráter de


atividades de grande dimensão, esses se tornaram grandes
consumidores de espaço. Instalam-se em espaços amplos e apropriados
estrategicamente para atividades de suas empresas.
 Os proprietários fundiários – estes são os senhores donos da terra,
tentam adquirir maior renda fundiária de suas propriedades, com interesse
no valor de troca e não em seu valor de uso da terra. Os mais poderosos
se aproveitam dos investimentos públicos para valorizarem suas terras,
sendo essas terras destinadas à população de status. Atuam alterando o
desenvolvimento demográfico da cidade.
 As empresas imobiliárias e de construção – atuam na administração
do capital na etapa de sua transformação em produto, no caso na
comercialização do imóvel. Não demonstram interesse em construção de
habitação popular, por esta não ser rentável.
 O Estado – atua também como promotor imobiliário. Opera diretamente
na implantação e manutenção da infra-estrutura de áreas mais distintas
da cidade, se tornando mais encarecido, causando a segregação
habitacional na cidade. Esse se apodera de terras públicas para fazer uso
futuro delas.
42

 Os grupos sociais excluídos – esses são vítimas da segregação


socioespacial, sua maior parte não possui renda, possui baixo nível de
escolaridade. Esse grupo não tem o direito a uma habitação decente,
dessa forma acabam ocupando as favelas e cortiços, moldando o espaço
urbano.
Esses agentes atuam de modo desigual na produção do espaço, refletindo na
paisagem urbana essa contradição. Percebe, na sua paisagem urbana, as
diferenças socioespaciais. Essas diferenças têm como característica segregar uma
vasta fração da população urbana, dos serviços como habitação, transportes,
infraestrutura, emprego, entre outros, que são essenciais e que proporcionam uma
condição melhor de vida e bem-estar social à população. É compreendido que a
população de uma cidade, seja qual for sua classe social, possua necessidades
desses serviços que são permanentes e necessários para a vida.
Na paisagem urbana da cidade de Caicó, são observadas claramente essas
diferenças socioespaciais, em que novas configurações são produzidas,
transformando esses espaços em lugares opacos e luminosos5, deixando bem
claras as diferenças sociais e econômicas desses lugares. O processo de
globalização, especialmente o econômico, ligado à ordem capitalista de produção
instaurou transformações expressivas nos modos de organização do espaço
geográfico.
Isso implica dizer que a posição que o sujeito ocupa no espaço geográfico
aponta a situação de consumo e atividades adaptado ao seu nível de renda,
evidenciando que, em cada classe social, há diferenças de consumo. Do ponto de
vista capitalista, a cidade é a centralização "[...] de pessoas exercendo, em função
da divisão social do trabalho, uma série de atividades concorrentes ou
complementares [...]" (CARLOS, 2009, p. 40).
De acordo com a renda e necessidade da população, esses exercem
atividades de diversos tipos, em sua maioria ocasionais de pequena dimensão, e
isso gera consumidores com necessidades diferentes, gerando atividades
comerciais que satisfazem essas diferenças. Como exemplos, podemos citar os

5
Lugares opacos estão relacionados à pobreza, a falta de estrutura, uma pequena inclusão na
modernização tecnológica e o desleixo do poder público nessas áreas. Já os luminosos são áreas
nobres da cidade com uma forte veemência tecnológica. "[...] opacidade e luminosidade fazem parte
de uma mesma totalidade, que se revela nos subespaços urbanos, como é o caso de Caicó em sua
formação territorial" (FARIA, 2011, p. 44).
43

serviços de baixa complexidade, pequenas fabricações artesanais, camelôs,


sapateiros, vendedores ambulantes, pequenas mercearias, feiras livres, entre outros.
A feira livre se insere no circuito inferior da economia por apresentar
componentes que se identifica e representam em sua essência formas tradicionais
de produção e de comercialização de produtos, além de formas arcaicas de compra
e venda por parte dos feirantes e clientes e, finalmente, por acolher, sobretudo, essa
parte da população excluída, desempregada e marginalizada do circuito produtivo.
Partindo de um ponto de vista econômico, a cidade se divide em dois setores
econômicos, interpretado por Santos (2008) como a teoria dos circuitos da economia
urbana: circuito superior e circuito inferior. O circuito superior seria a consequência
direta das modernizações tecnológicas, tendo como característica a propagação de
atividades modernas que favorece a poucos. Esse circuito é formado por atividades
de grande porte e serviços modernos. O circuito inferior surge do mesmo processo,
resultado indireto da modernização, mas, ao contrário do superior, os indivíduos são
favorecidos de modo parcial, ou não se beneficiam dessa modernização, esse é
formado por atividades de pequena dimensão, comércio e serviços não modernos,
ambulantes, como também as feiras livres. O Quadro 01 a seguir demonstra as
características importantes de cada circuito.

Quadro 01 - Características dos circuitos espaciais da economia.

CIRCUITO SUPERIOR CIRCUITO INFERIOR

VARIÁVEIS

Tecnologia Capital intensivo Trabalho intensivo

Inovação Em expansão Pouca

Emprego Reduzido Volumoso

Trabalho assalariado Crescente Reduzido

Crédito Bancário institucional Pessoal

Apoio estatal Importância crescente Quase nula ou nula

Organização Burocrática Primitiva

Capital Importante Reduzido


44

Estoques Grande quantidade e alta Pequeno, reduzido


qualidade

Preços Fixos Submetidos a negociação

Publicidade Essencial Reduzida ou nula

Relações com clientes Impessoais Personalizadas, diretas

Margem de lucro Elevado no volume e Pequeno no volume e


reduzido por unidade elevada por unidade

Reciclagem do material Inexistente Sempre


Circuito espacial da Internacional/ Nacional Local
produção
Fonte: Santos (2008, p.44). Adaptado.

Cada circuito cria relações intrínsecas no espaço urbano, representados pelas


atividades humanas de dimensões diferentes, e no seu consumo. No circuito
superior, suas atividades se organizam de forma burocrática, cumprindo leis que
regulam essas atividades para sua funcionalização. Tem apoio do Estado, utilizando
capital intensivo e crédito bancário. Possui grande concentração de mercadoria em
seu estoque e alta qualidade, com preços fixos e uma alta publicidade.
O circuito inferior tem como características as atividades de pequenas
dimensões de trabalho intenso e capital escasso com quase ou nenhum apoio
governamental. Suas margens de lucros são pequenas quando relacionadas ao
volume, relações diretas e pessoais com os consumidores. A propaganda fica por
conta do "boca a boca".
Essa teoria de Milton Santos tende a explicar a economia política das cidades
nos países subdesenvolvidos conforme a importância do capital, procurando
destacar a ligação entre pobreza e riqueza distinguindo o seu modo de organização,
a aplicação do capital e o uso da tecnologia, revelando que a configuração da cidade
parte das relações entre as classes sociais de alto status e os grupos sociais
excluídos ou, para fazer alusão a Martins (1997), os grupos sociais incluídos
marginalmente no processo produtivo, ambos formando a mesma sociedade,
produzindo novas configurações socioespaciais citadina.
A organização do espaço dos países subdesenvolvidos é qualificada por
grandes diferenças de renda, pois seguem uma força maior, tendem á
45

hierarquização de atividades de mesma ordem, mas que cumprem a função de


níveis distintos.
O espaço urbano dessas cidades é marcado pela grande disparidade de
nível de renda na sociedade. A concentração de atividades econômicas e de
prestação de serviços em um só local acaba impulsionando a uma desigualdade
social. Há atividades distintas na cidade que convivem e que estabelecem vínculos
diferenciados, implicando a subdivisão social e territorial do trabalho.
O grande número de atividades existentes no circuito inferior na cidade de
Caicó está voltado para a distribuição irregular de renda per capita. Enquanto a
maioria da população sobrevive de atividades ocasionais com um salário inferior
quando comparado a uma pequena parcela da população que é privilegiada com
salários altíssimos. "Cria-se, então, na cidade uma divisão entre os sujeitos que tem
acesso aos bens e serviços de forma permanente, oferecidos pelo mercado, e
aqueles que não têm mesmo dotados das mesmas necessidades" (MEDEIROS;
AZEVEDO, 2012, p. 238). Essa maioria se ver desprovido dos bens e serviços que
são necessários para sua sobrevivência.

A existência de uma massa de pessoas com salários muito baixos ou


vivendo de atividades ocasionais, ao lado de uma minoria com rendas muito
elevadas, cria na sociedade urbana uma divisão entre aqueles que podem
ter acesso de maneira permanente aos bens e serviços oferecidos e
aqueles que, tendo as mesmas necessidades, não tem condições de
satisfazê-las (SANTOS, 2008, p. 37).

As atividades de cada circuito da economia são organizadas de modos


diferentes em cidades distintas. A atividade moderna se desenvolve conforme o
tamanho e nível de desenvolvimento da cidade. É notável a superioridade
econômica de Caicó, em relação a alguns serviços prestados e suas tecnologias,
quando comparada a algumas cidades circunvizinhas da região do Seridó (Cruzeta,
Parelhas, Jardim do Seridó, Ouro Branco, São José do Seridó, São Fernando,
Jardim de Piranhas, Timbaúba dos Batistas, Serra Negra do Norte, Ipueira e São
João do Sabugi), e à cidade do Estado da Paraíba, (São Bento). Segundo
informações das Regiões de Influência das cidades - REGIC (2007), essas cidades
buscam por bens e serviços, recebendo influência direta de Caicó (Mapa 03), ao
analisarmos o circuito da economia urbana da cidade.
Caicó é um pólo regional que exerce uma intensa centralidade de atividades
46

na região do Seridó, que atrai pessoas oriundas de diversas cidades, e isso está
"associado à existência de uma certa infraestrutura urbana diferenciada em termos
regionais, e por oferecer os mais diversos tipos de serviços e comércio" (AZEVEDO,
2014, p. 83).

Alguns elementos da realidade caicoense nos levam a justificar tal recorte


empírico. Em primeiro lugar, no território norte-rio-grandense, Caicó se
apresenta como um centro regional, devido ao destaque que tem no tocante
aos serviços oferecidos, a sua dinâmica comercial e à infraestrutura urbana,
o que faz com que essa cidade exerça um papel de influência em relação a
várias cidades [...] (SALVADOR, 2012, p. 169).

Nesse caso, e referindo-se ao contexto do Seridó Potiguar, a cidade é


qualificada por um notável e dinâmico circuito superior, apresentando-se ágil e com
forte presença técnica. Mas que também transcorre em seu arranjo espacial um
amplo e dinâmico circuito inferior, que representa o espaço banal da cidade.
Considerando a dinâmica e a atuação desses dois circuitos para economia da
cidade, fica bem claro que um circuito depende do outro, pois ocasionam relações
de interdependência e concorrência. "Os dois circuitos da economia urbana se
constituem em dois subsistemas indissociáveis, contraditórios e solidários do
território que formam um só sistema urbano" (AZEVEDO, 2013, p. 1). Dessa
maneira, o modo de produção capitalista cria regiões dependentes de outras.
Neste contexto, a feira livre exerce um papel importante, tanto para a população
local como para os municípios circunvizinhos, pois esta abastece uma elevada parte
dessa população com uma grande diversidade de produtos hortifrutigranjeiros e
agropecuários. A cidade de Caicó é bem procurada devido às atividades e serviços
comerciais que oferece, em função disso, passa a ser considerada pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, um centro sub-regional categoria A, por
possuir um setor terciário dinâmico e moderno. Sendo assim, a feira cumpri um
papel fundamental para o abastecimento populacional conectado pelo consumo do
circuito inferior.
47

Mapa 03 - Municípios que estão sobre a influência de Caicó.

Fonte: Elaborado pelos autores com base na malha digital do IBGE, 2010.
48

Em se tratando da organização espacial de Caicó, não existe uma


homogeneização das atividades econômicas julgadas como moderna, pois ela não
atende a todos os grupos sociais na mesma intensidade e escala. A desigualdade na
renda e a falta de qualificação profissional da maioria da população caicoense levam
a uma tendência ao desenvolvimento de atividades de pequeno porte, que não lhes
garantem leis trabalhistas. Para Santos (2008), o trabalho no circuito inferior é uma
realidade de difícil esclarecimento, pois compreende tanto o emprego mal
remunerado como também o temporário ou instável.

2.1 A dinâmica do circuito inferior da economia presente na feira livre

O circuito inferior não é sinônimo de setor informal, mas o engloba. O setor


informal transmite a ideia de que as atividades que compõem esse sistema estejam
destinadas a formalização, no entanto esse é responsável por amparar
sucessivamente os trabalhadores, cuja falta de emprego formal causam ocupações
não assalariadas. De maneira que:

A adoção do termo “setor informal” leva a imaginar que todas as atividades


do circuito inferior deveriam ser “formalizadas”. A “formalização” causa um
grau elevado de falências no circuito inferior, pois, o dinheiro utilizado para o
pagamento de impostos é retirado da mesma fonte de dinheiro necessária à
sobrevivência pessoal e familiar dos agentes desse circuito (QUEIROZ;
AZEVEDO, 2012, p. 122).

A expansão do circuito inferior aponta como cursor, para a maioria dos


trabalhadores, que são dominados pelos agentes econômicos do circuito superior.
"O circuito inferior vem se consolidando enquanto abrigo e fornecedor de renda para
grande parte da população, ao mesmo passo em que se afirma como uma
manifestação da pobreza [...]" (MONTENEGRO, 2006, p. 31-32). O número
abundante de empregos gerados por esse circuito provoca uma verdadeira fuga
para a população mais carente, que não se introduz de modo fácil nas atividades do
circuito superior. Esses trabalhadores exercem várias atividades, que, na sua
maioria, são de pequeno porte e que não lhes garantem leis trabalhistas e nenhuma
renda expressiva. Esse circuito toma posse cada vez mais do espaço urbano e da
49

população que compartilham da dinâmica do espaço caicoense.


Discorrendo a respeito do nosso recorte espacial, a feira livre de Caicó se
insere como exemplo do circuito inferior. Pois a feira é considerada arcaica, um
evento socioespacial tradicional, com componentes rústicos e métodos de vendas
tradicionais, que são caracterizados pelo trabalho intensivo e por agregar indivíduos
pobres, com baixo nível de renda, os desempregados e os excluídos por este tipo de
comércio não seguir as normas do que processa no circuito superior da economia,
pois não obedece nenhum princípio burocrático para comercializar suas mercadorias
e por não existir um controle de quem pode ou não comercializar no local.

O comércio ocupa um número considerável de pessoas. Em parte pode-se


explicar isso pelo fato de que, para entrar nessa atividade, só se tem
necessidade de pequena soma em dinheiro ou em mercadorias; não é
necessário ter experiência e é fácil escapar ao pagamento de impostos
(SANTOS, 2008, p. 209).

A feira livre de Caicó é, muitas vezes, a única forma de sobrevivência e de


renda para várias famílias. Para se conseguir uma renda necessária para a
manutenção da família, a família toda se vê obrigada a trabalhar, até mesmo os
filhos e netos (Figura 09). Para esses, a atividade se desenvolve "a partir de
experiências cotidianas ou de conhecimentos que lhes são transmitidos por parentes
e/ou amigos" (SAVADOR, 2012, p. 176). Assim assegura um aumento da renda
familiar, evitando mais despesas, no caso de se contratar um empregado. E essa
forma de atividade tem forte importância familiar, passada de geração para geração.
Como é pautado por Santos (2008), o emprego de base familiar é constante nas
empresas de pequena extensão do circuito inferior da economia urbana.
Ao mesmo tempo em que essa atividade é o único modo de sobrevivência
para várias famílias, ela não garante leis trabalhistas, pois não tem um salário fixo,
carteira assinada, férias, décimo terceiro salário e nem garantia de aposentadoria.
Nesse ramo de atividade, o valor do capital é reduzido, pois o lucro adquirido é
reservado para a sobrevivência da família, "[...] o capital é muito pequeno, [...]. A
procura de dinheiro líquido é desenfreada" (SANTOS, 2008, p. 197-198).
50

Figura 09 - Família trabalhando na feira livre (avô e neta).


Fonte: Acervo da autora, 2015.

Devido à falta de recursos financeiros, esses comerciantes não realizam


propaganda do seu comércio, esse tipo de divulgação comercial é praticamente
nulo. Eles a fazem de forma simples, utilizando o contato pessoal com seus
fregueses e usam uma linguagem própria com um senso de familiaridade com
aqueles que frequentam a feira, garantido a venda do produto e uma freguesia
quase fixa.
Os feirantes trabalham com estoque reduzido, compram somente a
quantidade a ser vendida, isso por falta de uma infraestrutura adequada para
armazenar esses produtos, o que acaba obstruindo o estoque de muitos produtos
perecíveis, reabastecendo-se diariamente de pequena quantidade, devido à
necessidade de ter um estoque variado. Normalmente esses produtos ficam
encaixotados em caixas colocados na própria barraca para serem vendidos, não
possuindo instrumento adequado para conservar os gêneros perecíveis. Para não
haver perda total desses produtos, ao se aproximar o fim da feira, os feirantes
recorrem a promoções ou são obrigados a reduzirem o preço dos produtos evitando
um prejuízo maior.
Símbolo do sistema capitalista, o dinheiro é, na feira, um mecanismo de troca
de mercadoria, onde "o que predomina são as vendas à vista ou o crédito pessoal
conferido a parentes, amigos ou conhecidos, com registro da dívida em caderneta"
(SAVADOR, 2012, p. 182).
51

Estruturada a partir da ocupação das ruas e calçadas, a feira se estrutura de


maneira aleatória não seguindo um determinado padrão. Não existe setorização
para cada tipo de mercadoria ou produto comercializado, as barracas de frutas,
legumes, verduras e cereais se misturam com as barracas de carnes, pescados,
queijos, roupas e calçados.
Outra característica é a forma de organização dos feirantes arrumarem suas
mercadorias, pois as barracas não têm uma estrutura padronizada. Muitos expõem
seus produtos em lonas espalhadas no asfalto (Figura 10) ou em outros tipos de
suportes, como caixas plásticas e carrinho de mão. Há aqueles que fazem uso de
barracas, mas estas têm sua estrutura de madeira de modelo simples e rudimentar.
E outros utilizam o próprio veículo de transporte (Figura 11) como local de venda.

Figura 10 - Mercadoria exposta no asfalto.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

Os feirantes têm a responsabilidade de sempre conservar a mesma


metragem do espaço e localização da sua barraca na feira. Em relação aos
comerciantes, são eles próprios que vendem e administram a barraca. Os que não
possuem barraca própria pagam aluguel aos proprietários das barracas. A maioria
dos feirantes paga a terceiros para a montagem da barraca.
52

Figura 11 - Veículo como local de venda.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

Apesar de toda essa desorganização, a feira consegue ser, de certo modo,


organizada, pois cada feirante respeita o espaço do outro. Durante observações
feitas em campo, constatou-se o bom relacionamento entre os feirantes. Apesar de
serem concorrentes, existe um elo de respeito e amizade entre si.
Durante a pesquisa de campo, foram aplicados formulários (Apêndices) para
uma compreensão da opinião dos feirantes e consumidores da feira como apoio
básico. Procuramos colher, como informações, lugar de origem; tempo de feirante;
exercício de outra profissão além de feirante; produção ou compra da mercadoria;
horário de chegada e saída da feira como também as contrariedades encontradas
pelos feirantes para se trabalhar naquele local. Já para os que frequentam a feira,
foram abordadas as seguintes questões: se vem sempre a feira e com que
frequência; por que prefere comprar na feira e sugestões do que poderia ser
melhorado.
Dos 263 feirantes cadastrados, segundo a Secretaria de Infraestrutura, foram
ouvidos 30 feirantes, escolhidos aleatoriamente, e, a partir da compreensão dos
formulários, pode-se traçar o perfil e as condições de trabalho dos feirantes que
comercializam na feira livre de Caicó.
53

2.2 Perfil e condições de trabalho dos feirantes

Através da pesquisa de campo e dos formulários aplicados, evidenciamos


que, a respeito do local de residência, 82% dos feirantes são do município de Caicó,
principalmente da zona urbana, os que residem na zona rural de Caicó e dos
municípios circunvizinhos totalizaram 18%. A maioria dos feirantes com percentual
de 58% trabalham há mais de 30 anos na feira, ficando um percentual de 42% para
os que trabalham há mais de 10 anos, conforme ilustrado no gráfico 01.

Gráfico 01 - Tempo de atuação dos feirantes.

Tempo de atuação na feira livre

42%
Mais de 30 anos
Mais de 10 anos
58%

Fonte: Pesquisa de campo, 2015.

Isso exemplifica que a feira, para essa maioria que trabalha há muito tempo,
tornou-se uma atividade de ofício, sendo o principal meio de sobrevivência. Para
muitos, essa atividade se desenvolveu passando de geração a geração (avós, pais,
tios) uma continuidade do negócio familiar que se mantém conservada até os dias
de hoje. Mas também essa atividade surge como uma segunda alternativa, uma
oportunidade para complementar a renda, pois esses encontram na feira um modo
de escapar da pobreza.
A maior parte deles declarou que frequentam somente a feira livre de Caicó e
não exerce outra função a não ser a de feirante, participando semanalmente da feira,
dependendo dela para sobreviver. Entre os produtos comercializados, boa parte é
54

adquirida através de intermediários (esses trazem a mercadoria de Campina


Grande/PB ou da Bahia). Em menor número, existem aqueles que comercializam
seus próprios produtos, estes são os pequenos produtores da zona rural que vêm á
cidade vender seus excedentes na feira.
Uma justificativa para esse crescente número de feirantes que tem essa
atividade comercial como única forma de sobrevivência é o baixo índice de
escolaridade da maior parte dos feirantes (Gráfico 02). Dessa maneira, fica evidente
que o baixo nível de escolaridade implica de certa forma, a sua inclusão no circuito
inferior, pois, para se inserir nesse tipo de atividade, "nem sempre é necessário ter
frequentado uma escola [...]. É possível até que os analfabetos tenham mais
oportunidade de encontrar trabalho do que aqueles que passaram por uma escola"
(SANTOS, 2008, p. 205).

Gráfico 02 - Escolaridade dos Feirantes.

Escolaridade dos feirantes.

80%

15%
2% 3%

Analfabeto Ensino Fundamental Ensino Médio Ensino Médio


Incompleto Imcompleto Completo

Fonte: Pesquisa de Campo, 2015.

Indagados se possuem ajudantes, os feirantes responderam que as pessoas


que os auxiliam são membros da própria família, garantindo dessa forma que o
dinheiro ganho é para atender às necessidades familiares. Quando interrogados
sobre qual a maior contrariedade encontrada por eles para se trabalhar na feira, os
feirantes relataram opiniões diversas que vão desde a falta de segurança e
fiscalização, desorganização, infraestrutura até a padronização das barracas, como
sendo empecilhos maiores na feira, como demonstra o Gráfico 03 a seguir.
55

Gráfico 03 - Maiores contrariedades encontradas na feira.

50%
40% Falta de segurança e
fiscalização
30%
Padronização das
20% barracas
10% Infarestrutura
0% (banheiros)
Desorganização

Fonte: Pesquisa de campo, 2015.

Através das observações feitas na feira, notamos, a partir desses problemas,


que a falta de segurança e fiscalização é um dos maiores problemas para os
feirantes: a segurança, porque já aconteceram vários assassinatos na feira, e há
uma circulação intensa de pessoas embriagadas, pois o consumo de bebidas
alcoólicas no lugar é alto, uma vez que existem estabelecimentos que comercializam
constantemente tais produtos. Essas pessoas ficam ao redor das barracas,
importunando os feirantes e consumidores. Sem policiamento, tudo fica a mercê da
marginalidade.
Segundo diálogos mantidos, os feirantes estão insatisfeitos com os
representantes do órgão público local responsável por fiscalizar a feira, pois eles
deveriam manter um controle efetivo e fiscalizar sempre o local, mas isso não
acontece. E tal situação gera um sentimento de injustiça perante os feirantes. A
presença de ambulantes e feirantes não credenciados é constante na feira, reclama-
se que qualquer um pode chegar ali e vender. Os que são credenciados e pagam os
impostos cobrados pela prefeitura, relatam que não recebem nenhum benefício em
troca, que a prefeitura não apresenta nenhum projeto para melhor servi-los.
Já a desorganização e falta de padronização das barracas também foram
pontuados. Há uma desorganização pelo fato de a feira estar localizada em ruas de
tráfego intenso, ocorrendo um fluxo de motos e carros que transitam no espaço entre
uma barraca e outra. Os feirantes protestam por uma padronização das barracas em
razão da maioria das barracas apresentarem condições físicas precárias, como já
relatadas no primeiro capítulo desse trabalho. Citam construção de boxes, assim
56

teriam como guardar suas mercadorias.


Alguns feirantes se queixam que seria necessária uma melhor infraestrutura,
como, por exemplo, a falta de banheiros nas dependências da feira, visto que os que
existem estão localizados dentro do açougue público e os feirantes e consumidores
se vêem obrigados a utilizá-los, gerando desconforto para todos. Necessita-se
também de uma cobertura no local ou uma reforma no prédio do açougue público
para que os feirantes pudessem migrar para dentro do prédio. Pois, em período de
chuva, os problemas se agravam por não haver uma cobertura, assim a chuva
acaba molhando e estragando os produtos.
Apesar de todos esses problemas, os feirantes encontram vantagens em
comercializar na feira, pois os pagamentos que recebem dos fregueses, na maioria,
são á vista como também as relações de amizades que são produzidas.
Em nossas observações feitas durante a pesquisa de campo, a feira deveria
ser organizada em setores, separando as barracas que vendem carnes, aves e
pescados das que comercializam hortifrutigranjeiros, cereais, roupas e calçados,
formando um setor para cada tipo de mercadorias. A falta de setorização desses
produtos causa uma péssima impressão dos alimentos comercializados. Nas
barracas de aves, os feirantes arrumam os frangos sem refrigeração em utensílios
acondicionados em caixas plásticas sujas ou em esteiras de palhas ou lonas (Figura
12).

Figura 12 - Acondicionamento das aves na feira livre.


Fonte: Acervo da autora, 2015.
57

O mesmo procedimento acontece para as carnes (Figura 13) e pescados. Em


toda a feira não existe abastecimento de água e eletricidade, o que dificulta a
higienização desses alimentos, equipamentos e utensílios usados. Os principais
utensílios usados na feira são as facas, caixas plásticas ou de isopor, com aspecto
sujo e sem higienização.

Figura 13 - Carnes expostas sem nenhum equipamento de refrigeração.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

No local, não existe refrigerador ou freezer para armazenar esses produtos,


que ficam expostos à temperatura ambiente, expostos ao sol e à poeira, e esses
produtos expostos à temperatura inadequada pode contribuir para a contaminação
por microorganismo presentes em alimentos crus e que causam doenças alimentar.
Há aqueles que fazem uso das caixas de isopor com gelo (Figura 14) para a
refrigeração dos pescados, mas não é a forma mais adequada e segura para
conservar o alimento.
Durante o tempo de realização da feira, existe a carência da coleta do lixo,
pois todo resíduo gerado durante esse período é descartado no solo, lançado em via
pública. Esse incidente causa fedentina e contaminação no local, pois termina
atraindo insetos vetores de doenças e animais, colocando em risco a saúde de
todos.
58

Figura 14 - Caixa de isopor para acondicionar o pescado.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

Outro problema observado foi que, simultaneamente, os feirantes manipulam


os alimentos e dinheiro, destacando a ausência de um indivíduo disposto para
manusear o dinheiro, como também a falta de higienização do ambiente no manejo
dos produtos, pois não usam vestimentas adequadas como touca, luvas e avental.
A higienização dos alimentos e feirantes deve ser mantida sob controle para
não comprometer os alimentos, pois as condições sanitárias dos alimentos colocam
em risco a saúde da população, haja vista que também colaboram para a
insalubridade do espaço.

2.3 Perfil do consumidor

Do mesmo modo que buscamos identificar algumas particularidades que


diferem os feirantes que comercializam na feira em Caicó, também traçamos o perfil
do consumidor que faz uso da feira livre. É visível a quantidade de pessoas que se
deslocam de suas residências aos sábados para fazer suas compras semanais na
feira. No espaço de mais de sete horas que a feira tem de duração, o fluxo dessas
pessoas na feira é intenso, transformando aquele espaço de comércio em diversas
formas de interação e de relações sociais.
59

Em relação ao local de origem, 65% residem na área urbana de Caicó, 15%


são residentes da zona rural e 20% são consumidores provenientes das cidades
vizinhas (São Fernando, Timbaúba dos Batistas, Jardim de Piranhas, Serra Negra do
Norte, São José do Seridó, Jardim do Seridó, Cruzeta). Quanto à faixa etária dos
consumidores, apresentou-se a seguinte variação: com mais de 30 anos
corresponderam a 5%, com mais de 40 anos, 15%, e com mais de 50 anos, 80%.
Esse resultado demonstra que esse percentual maior das pessoas com a idade
acima de 50 anos tem razões culturais, visto que vem à feira desde a infância, cujo
costume tornou-se um hábito. Em relação aos mais jovens, estes já têm outros
hábitos, frequentando outro tipo comércio.
Procuramos evidenciar, com esses consumidores, a frequência que eles vão
a feira. Os que vão à feira semanalmente alcançam um total de 80%, os que
frequentam quinzenalmente, 15%, e aqueles que optaram por ocasionalmente,
registrou 5%, conforme demonstra o Gráfico 04.
Para esses consumidores que frequentam a feira semanalmente, ela é a
forma principal de abastecimento alimentício, que já se tornou um hábito ir à feira
todos os sábados para se abastecer dos mais variados produtos. Já os
consumidores que frequentam quinzenalmente vão para se abastecer de frutas,
legumes, verduras e carnes ou alguma mercadoria que exista exclusivamente lá.
Para outros, a feira é um fenômeno esporádico.

Gráfico 04 - Frequência que os consumidores vão á feira.

Frequência com que os consumidores vão á


feira livre
5%

15%
Semanalmente
Quinzenalmente
Ocasionalmente
80%

Fonte: Pesquisa de campo, 2015.


60

Quanto ao grau de instrução dos consumidores, estes apresentam um


elevado nível de escolaridade se comparado à dos feirantes: Ensino Fundamental
(13%), Ensino Médio (70%) e Ensino superior (17%) representados no Gráfico 05.
Isso significa que pessoas com o nível de escolaridade mais elevado são bem
informadas e demonstram maior aptidão para avaliar os produtos comercializados na
feira.

Gráfico 05 - Escolaridade dos consumidores.

Escolaridade Consumidor
80%
70%
60%
50%
40%
30% Escolaridade
20% Consumidor
10%
0%
Ensino Ensino Médio Ensino
Fundamental Superior
Completo

Fonte: Pesquisa de campo, 2015.

Ao serem indagados por que prefere comprar na feira, os frequentadores


responderam, como justificativa, que os alimentos são melhores, os preços mais
baixos e a eventualidade de poder negociar o preço do produto com o feirante, a
famosa pechincha. E que, com ou sem dinheiro, você leva a mercadoria, além da
variedade de produtos regionais e de sua boa qualidade, sem contar com a
possibilidade de encontrar um amigo ou parente da zona rural ou de cidades
circunvizinhas.
Interrogados sobre os problemas que os consumidores encontram na feira, as
respostas se assemelharam com as dos feirantes: falta de segurança, de uma
melhor estrutura e organização. E sobre a questão do que poderiam ser melhorados
na feira, eles mencionaram a organização tanto da parte dos feirantes como da
prefeitura e que, pelo tempo que a feira existe, ela já deveria ter uma cobertura,
proporcionando um ambiente melhor e agradável para seus frequentadores.
61

Para muitos consumidores, a feira continua ser a forma principal para


aquisição do abastecimento alimentar, destacando a qualidade dos produtos
comercializados. Também se mostram satisfeitos com os serviços prestados pelos
feirantes, apontando a relação de amizade e confiança.
Diante das problemáticas encontradas na feira, que vão desde a infraestrutura
até a forma de manipulação dos alimentos pelos feirantes, é necessário um projeto
de reestruturação da feira que adote as medidas cabíveis e que atenda a todos os
requisitos básicos para obtenção de melhores condições de localidade, como
também para os feirantes e consumidores, para oferece-lhes melhores condições de
infraestrutura. Entretanto, para os feirantes e consumidores, a feira tem uma
expressiva importância econômica e uma função social que se molda sobre a
cidade, onde é construída uma multiplicidade de relações, expressando um
dinamismo na área central da cidade.
A respeito do perfil dos consumidores, uma característica que ressaltamos é
a participação destes que convergem de várias classes sociais que fazem uso dessa
atividade, não se restringindo apenas à classe de baixa renda. Verifica-se, dessa
maneira, que, apesar do poder capitalista tentar homogeneizar, o espaço urbano da
cidade, segundo a sua lógica, esse tipo de atividade continua a ser de grande
relevância para o fornecimento de gêneros alimentícios local, tornando-se um
espaço de persistência e resistência indispensável à sobrevivência dos indivíduos
que dela fazem parte.
62

3 A FEIRA LIVRE DE CAICÓ ENQUANTO UM CENÁRIO DE RESISTÊNCIA ÀS


NOVAS ESTRUTURAS COMERCIAIS MODERNAS: OS SUPERMERCADOS

A globalização é um processo transnacional do desenvolvimento científico,


tecnológico, meios de comunicação e economia que se embasa a partir da
"informação e o seu império, que encontram alicerce na produção de imagens e do
imaginário, e se põem ao serviço do império do dinheiro, fundado este na
economização e na monetarização da vida social e da vida pessoal" (SANTOS,
2001, p. 18).
Cada vez mais o espaço geográfico torna-se globalizado, a economia urbana
moderna é totalmente formada pelo circuito superior da economia, portanto, voltado
para a propagação das técnicas modernas. Juntamente com a expansão urbana
veio o excesso do consumo e suas mudanças, o qual auxiliou o desenvolvimento e a
ampliação de novas formas de comércio, que se organizaram para comercializar
uma diversidade de produtos.

Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de


homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são
aprofundadas. Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores
hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o
sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto
ao consumo é estimulado (SANTOS, 2001, p. 19).

Neste caso, Santos (2001) notifica a existência no mundo de uma


globalização como fábula, que é capaz de homogeneizar o mundo como nos fazem
acreditar e uma globalização perversa em que o mundo está impondo uma fábrica
de perversidades em que o desemprego, pobreza, fome e doenças se generalizam
no mundo.
A economia global inseriu novas formas e relações de produção que
modificaram as relações sociais e que influenciam a sociedade capitalista. Para uma
sociedade capitalista, o consumo em massa é expressão de promoção da vida
social. O processo de modernização não se territorializa de forma homogênea no
espaço urbano apresenta áreas com propriedades distintas na articulação entre o
capital, trabalho e consumo.
Com a chegada da globalização, limites foram ultrapassados, com isso,
ocorreu o desenvolvimento das tecnologias e comunicações, o que ocasionou uma
63

alteração na realidade socioespacial. Em plena globalização, o espaço geográfico


tem se transformado, criando novas formas de centralidades e comercialização de
mercadorias, as atividades econômicas passam a ser controladas por grandes
empresas.

Dessa forma, é notável que a globalização do capitalismo está


intensificando as relações sociais em escala mundial, alterando o sentido de
modernidade, cujos padrões e valores socioculturais e as formas de
sociabilidade, idéias, modos de agir e pensar são transformados na mesma
esteira deste processo (MAIA; CARNEIRO, 2014, p. 97).

Há uma proliferação de produtos, marcas e serviços, provocando mudanças


em seu hábito, preferências, costumes, alterando seu modo de vida. Desta forma,
[...] "este processo de globalização de forma direta ou indiretamente se faz presente
na vida econômica e cultural [...]" (MAIA; CARNEIRO, 2014, p. 97). A modernização
incita de um lado a expansão e concentração da riqueza e, do outro, o seu
enfraquecimento. Desse modo, a força da modernização tecnológica é esmagadora
para uma determinada classe social, pois ela não alcança o mesmo lugar
uniformemente e com a mesma intensidade.
E juntamente com a globalização, apresentando forte desenvolvimento no
Brasil na segunda metade do século XX, a modernização e expansão do comércio
varejista capitalista assumem novas formas e modos de consumo das sociedades
contemporâneas. A criação de novos estabelecimentos como supermercados,
hipermercados, grandes redes de lojas, shopping centers entre outras se
configuraram como importantes formas de comércio varejista encontrados na
atualidade, quando mudanças ocorreram no campo do comércio, realçando seus
moldes e suas adaptações aos novos padrões socialistas do consumo.

A união entre ciência e técnica que, a partir dos anos 70, havia transformado
o território brasileiro revigora-se com os novos e portentosos recursos da
informação, a partir do período da globalização e sob a égide do mercado. E
o mercado, graças exatamente à ciência, à técnica e à informação, torna-se
um mercado global. O território ganha novos conteúdos e impõe novos
comportamentos, graças às enormes possibilidades da produção e,
sobretudo, da circulação de insumos, dos produtos, do dinheiro, das idéias,
e informações, das ordens e dos homens (SANTOS, 2006, p. 52-53).
64

Com as mudanças ocorridas na maneira de comercializar mercadorias,


criaram-se novas centralidades administradas pelo capital privado, que se utiliza do
comércio e serviços modernos para o processo de acumulação capitalista. Esses
modelos de atividades comerciais monopolizam o mercado estabelecendo
conformidade de seus interesses.
Com a modernização do comércio imposto por uma sucessão de instituições
que vão dos supermercados, hipermercados e amplas lojas, e que reúnem uma
soma notável de produtos e um volume significativo de consumidores. "As grandes
lojas e os supermercados representam um fenômeno em expansão nos países
subdesenvolvidos" (SANTOS, 2008, p. 87).
Como um desses processos de modernização, podemos citar os
supermercados, que, entre esses processos, é o que coopera para o agravo e
enfraquecimento da feira livre. O supermercado é um dos meios de consumo que
facilita a vida do consumidor, pois este encontra, em um só local, todos os produtos
de que necessita. "Tal processo foi possível através da adoção de um novo sistema
de venda, auto-serviço, que possibilitou a quebra da tradicional divisão entre o
consumidor e o produto [...]" (DANTAS, 2007, p. 126).
O comportamento do consumidor mudou, pois este se apresenta cada vez
mais exigente, elege locais que lhes ofereçam praticidade, conforto, segurança,
flexibilidade de horários para conciliar com o seu cotidiano, preços e formas de
pagamento acessíveis, e, principalmente, encontrar todos os produtos em um só
lugar. O supermercado se estabeleceu como um comércio varejista reservado à
comercialização de produtos de primeiras necessidades, através do auto-serviço.

O auto-serviço representou assim uma grande evolução para o comércio


varejista, através do incentivo à compra mais rápida; da facilidade de
acesso do cliente ao produto com a utilização de gôndolas para exposição
das mercadorias; do incentivo à ampliação das áreas de venda e a divisão
do estabelecimento em seções onde o consumidor pode circular e comprar
os produtos sem a necessidade de intermediação (DANTAS, 2007, p. 126).

Assim, o aperfeiçoamento desse tipo de comércio produzido pelo


aprimoramento de novas técnicas oferece à população a incorporação de novas
tecnologias através dos modelos de serviços avançados que facilitam o consumo em
massa, por exemplo, cartões de crédito e cheques. Esses elementos foram
primordiais para a diversificação do consumo, tendo em vista que para adquirir um
65

produto não é necessariamente preciso ter o capital em mãos para comprá-lo.


Vivemos em uma sociedade de consumo devido ao avanço e mudanças que
a sociedade viveu no passar do tempo descrito pelo modo de vida urbano. Como
modelo representativo desse processo, o supermercado se transforma num dos
meios de consumo que se adéqua aos novos padrões e dinâmica da sociedade,
adaptando-se á rotina de vida dessas pessoas através do horário de funcionamento,
do auto-serviço, da facilidade de venda, entre outros. "Os supermercados são, hoje,
elos fundamentais nas cadeias de distribuição e produção, pois participam das
diversas instâncias [...]" (SANTOS, 2006, p. 150).
Apesar do progresso da modernização tecnológica, alguns agentes sociais e
atividades tradicionais até hoje conserva seus costumes e tradições, apresentando
resistência no espaço geográfico a esse mundo globalizado. "Criam-se, assim,
solidariedades entre elementos novos e herdados. Formas antigas [...] convivem
com modernas formas [...]" (SANTOS, 2006, p. 144).
E, nessa perspectiva, a feira livre desponta como rugosidade, mantendo sua
tradição, transformando-se em um espaço de resistência. A feira livre de Caicó ainda
se mantém em um espaço público e é de relevante importância para a cidade no que
diz respeito ao desenvolvimento econômico e social, permanecendo de geração em
geração, possuindo um sistema de mercado regional. A feira se estabelece como
espaço único da realidade interconectiva entre o rural/urbano, resistindo ao avanço
dos processos de modernização tecnológica no espaço urbano de Caicó, tornando-
se um espaço opaco para os vetores da globalização. Nesse sentido, ela representa
um elo cultural, um mosaico composto por diferentes atores.

3.1 Uma breve discussão sobre o surgimento dos supermercados em Caicó

A ausência de fontes científicas de informações relacionadas ao surgimento


dos primeiros supermercados na cidade dificultou a inserção de dados históricos que
informe sobre os primeiros destes estabelecimentos que surgiram na cidade. Mas as
informações aqui relatadas foram colhidas através dos moradores mais antigo da
cidade como também pelo proprietário do primeiro supermercado de Caicó, o Sr.
Wilson.
66

Na segunda metade do século XX, transformações ocorreram no espaço


urbano da cidade de Caicó, a partir da década de 1970, instalaram-se na cidade
novas atividades de comércio e consumo ligado ao capitalismo. Através da
modernização e a expansão da produção, a sociedade galgou a exigir novos
produtos essenciais para sua satisfação. A expansão do setor terciário na cidade
estava "[...] atrelado aos pequenos negócios, essa expansão se dá em meio à
redução das atividades industriais e enfraquecimento da agropecuária, de modo que
abrir uma casa comercial tornou-se uma das poucas alternativas para muitos"
(MORAIS, 2005, p. 11).
Com a crise da cotonicultura e suas complicações no espaço urbano de
Caicó, entre a passagem dos anos de 1970 a 1980, um novo perfil econômico é
desenvolvido pelo incremento das atividades baseadas no setor terciário6. Esse
novo perfil econômico vai redesenhando a cidade, uma proporção de atividades é
desenvolvida, e uma delas é o setor de comércio. "O comércio varejista era
representado pelas mercearias" (MORAIS, 1999, p. 185), se delimitando no centro
da cidade.
Sabe-se que o primeiro supermercado instalado na cidade de Caicó foi o
supermercado Pague Menos no ano de 1970, situado na Rua Otávio Lamartine no
centro da cidade. Este, anos seguintes, alterou sua denominação para o antigo
Serve Bem7, mudando seu local de estabelecimento para a Av. Coronel Martiniano.
Segundo relato do Sr. Wilson, proprietário do antigo supermercado, esse tipo de
estabelecimento comercial foi "pioneiro" no Rio Grande do Norte, tendo em vista não
existir nenhum outro no território do Estado. O Sr. Wilson ressaltou que, na época, a
população caicoense sentia a necessidade de ter um estabelecimento comercial
desse perfil, que atendesse às suas necessidades (produtos vendidos embalados,
um ambiente mais sofisticado).
Em anos posteriores, outros supermercados eram instalados na cidade. A
localização dos primeiros supermercados em Caicó se restringia à área central da
cidade e foram motivados por alguns fatores como fazer chegar ao consumidor
urbano, por meio da distribuição varejista, alimentos e a obtenção de produtos de
consumo perecível de uso corrente. Outro fator importante foi a diversificação do

6
Como relatado no primeiro capítulo desse trabalho.
7
O supermercado Serve Bem, atuou na cidade de Caicó por 44 anos, devido a uma pequena crise,
perderam competitividade, rendendo-se a concorrência e fecharam as portas em Agosto de 1999.
67

emprego através desses estabelecimentos, novas ofertas de empregos surgiram


como gondoleiro, empacotador, operador de caixa, entre outros. Esse novo estilo de
comércio provocou transformações no espaço urbano da cidade, pois alguns
pequenos comércios foram desaparecendo. O supermercado foi bem aceito pelos
consumidores. Antes da instalação dos supermercados, os consumidores se
abasteciam na feira livre e em comércios de pequeno porte local.
Seguindo as mudanças que sucediam na cidade, essa nova modalidade no
sistema de vendas encontrou um meio propício para o seu desenvolvimento. Esse
fato é confirmado, pois, no ano de 1998 enfatizado por Morais (1999), a cidade de
Caicó já contava com 12 supermercados, a maioria desses estabelecimentos
estavam localizados em trechos centrais da cidade. Os supermercados foram
instalados em pontos estratégicos, situados nas avenidas do centro da cidade e ruas
adjacentes.
Na atualidade, os supermercados são as estruturas comerciais mais
modernas existentes na cidade tendo em vista que ainda não existe na cidade
hipermercados e shopping centers. Em relação a este último, já se é esboçado um
projeto para a construção de um estabelecimento desse porte no bairro Serrote
Branco, localizado na Zona Norte da cidade. A intencionalidade parte de alguns
agentes hegemônicos e também pela ação do Estado.
Diante do surgimento desses inéditos estabelecimentos de comércio e de
consumo, pode-se dizer que é através disto que se inicia a concorrência entre a feira
livre e os supermercados, disputando o consumidor, segundo relatos dos feirantes
entrevistados.
No período atual, existem dois grandes estabelecimentos de supermercados
(Paulino Supermercado e Lig Zarb) e um mercadinho (Mercadinho Diniz), próximos
ao local da feira. Um deles é o "Paulino Supermercado" (Figura 15), que possui uma
grande estrutura física e uma boa diversificação de produtos. O supermercado está
localizado na Rua Olegário Vale para onde convergem os fluxos mais intensos da
cidade, e onde se localiza a feira livre. Este vem desenvolvendo estratégias
vinculando promoções de preços através da distribuição de encartes pela cidade,
buscando atrair a população, com o dia da oferta, destinando a cada dia da semana
uma oferta diferente com o preço reduzido, oferecendo diversificadas seções como
as de perfumarias, hortifrutigranjeiros, frios, açougue, laticínios e padaria. Com essa
estrutura e estratégias de venda, o Paulino supermercado tem instigado a
68

concorrência com as formas de comércio tradicional na cidade, sobretudo a feira


livre.

Figura 15 - Supermercado próximo à feira livre.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

Os que preferem os supermercados justificam os seguintes motivos: uma


maior diversidade dos produtos, pois neles podem encontrar desde os produtos
alimentícios até os produtos de higiene e limpeza, laticínios, frios, utilidades para o
lar, industrializados e panificação; comodidade, por ser um ambiente climatizado
com ar condicionado e por encontrar todos os produtos com maior facilidade e a
entrega dos produtos em domicílio; por ser um ambiente fechado e possuir vigilância
trazendo uma impressão de segurança; como também a facilidade no pagamento
usando cartão de crédito ou cheque, além da praticidade no horário de
funcionamento; sem contar que cada dia da semana tem promoção. Essas
promoções são estratégias principais que os supermercados aplicam para atrair a
clientela.
Como relatado anteriormente, a propaganda é o principal meio de
comunicação utilizado pelo circuito superior, essa passa a ter grande influência,
motivando a população ao consumo, atraindo os consumidores com estratégia de
vendas "baseada na publicidade, que é uma das armas utilizadas para modificar os
gostos e deformar o perfil da demanda" (SANTOS, 2008, p. 46), produzindo
69

informações que conduzem atitudes, gostos, padrões e lugares a serem


consumidos.
Atualmente, com a ajuda da internet, a publicidade dessas empresas tem um
alcance bem maior e propagam com rapidez, ganhando espaço nas várias páginas
de sites, redes sociais, blogs e e-mails. As informações circuladas na internet
possuem uma velocidade surpreendente e ganham cada vez mais espaço no
cotidiano da população. Os anúncios incitam o consumidor a sempre acessar suas
páginas convidando-os dessa forma: "visite nosso site", "conheça nossa página no
facebook", dessa forma, traz-se maior divulgação de seus produtos.
Já na feira livre, a publicidade se dá através da relação de amizade com a
clientela, pois a renda adquirida vai de modo direto para sua sobrevivência, não lhe
sobrando capital para investir neste tipo de publicidade. As estratégias usadas pelos
feirantes para enfrentar a concorrência com os supermercados se resumem a forma
de pagamento a prazo, no estilo de anotações em cadernetas de vendas, que é uma
particularidade desses pequenos comerciantes, um modo de estabelecer relações
pessoais e de afinidade com seus clientes, como também o desconto no pagamento
à vista. Um aspecto avaliado pelos consumidores que preferem comprar na feira é a
relação de proximidade dos feirantes com eles, gerando confiança.
Ao que se percebe, a disputa pelo consumidor entre a feira e o supermercado
não se limita à atribuição econômica, percebemos que hoje se cria uma nova
abordagem em relação à feira, associando-a a espaços do atraso, do transtorno, da
marginalidade (insegurança), do informal, da desordem e sujeira, gerando aspectos
negativos. Em contrapartida, os supermercados estão associados ao moderno, ao
conforto para essa sociedade culturalmente moderna, que, com facilidade, substitui
antigas formas de comércio pelas modernas formas, pois esse comportamento lhe
parece sinônimo de progresso advindo da globalização.
Mas, apesar de todos esses aspectos, econômicos e imaginários, a feira vem
resistindo e persistindo no espaço urbano de Caicó como uma atividade de
sobrevivência para a classe mais abastada, garantindo emprego e renda,
desempenhando um papel importante para a população da zona rural, oferecendo
ao consumidor uma opção a mais para adquirir produtos regionais como também
preservar como espaço das relações sociais e de tradição cultural da população
caicoense.
70

A feira se utiliza de um pequeno grau de tecnologia, capital e organização


administrativa, oferecendo mercadorias simples, primitivos a uma população que
não tem alcance às mercadorias da economia moderna, onde diverge e para onde
converge uma multiplicidade de relações, sejam elas econômicas, sociais, políticas e
culturais.
Como já constatamos no mapa 02, a feira está localizada em uma área
central da cidade, nessa área, estão instalados os principais estabelecimentos de
comércios e serviços do circuito superior da economia na cidade, como bancos,
lojas de roupas, eletrodomésticos, farmácias, restaurantes, supermercados, hotéis,
óticas, dentre outros. O fato de a feira se localizar no centro econômico da cidade
contribui de maneira efetiva para que ela exerça um papel importante para essas
atividades comerciais e de serviços, pois a maioria dos feirantes compra nessas
lojas, a renda arrecadada por eles é empregada no comércio moderno, de certa
forma, mantendo o desenvolvimento econômico dessas atividades. A própria feira
dinamiza o circuito superior devido atrair consumidores que se abastecem na feira e
nesse centro comercial, pois, no dia de feira, esses comércios realizam maior
volume de vendas, o que leva a reforçar uma tese de que existem também
complementaridades entre os dois circuitos e não apenas oposição como muitos
pensam.
A coexistência dos dois circuitos, a feira e o moderno setor de comercio e
serviços, “[...] aparentemente, não implica conflitos entre os feirantes, de um lado, e
os comerciantes e empresas de serviços implantados na cidade, de outro. Ao
contrário, parece haver interesses comuns” (CORRÊA, 1997, p. 71). O centro da
cidade de Caicó é o local onde os dois circuitos da economia têm maior expressão.
Diante dessa realidade, a feira livre transforma-se em um espaço abandonado
e esquecido pelo poder público, pela falta de políticas públicas que a mantenham no
compasso da concorrência com os modelos de comércio moderno, pois é nítida a
desatenção que o poder público tem com a feira livre.
71

3.2 O poder público local e seu papel administrativo em relação á feira livre

O Estado é julgado por ser um elemento essencial do circuito superior, pois


este resguarda os interesses dos agentes do circuito moderno em vários aspectos,
através da aplicação de investimentos diretos ou indiretos, como infraestrutura e
principalmente incentivos fiscais, muitas vezes, deixando de investir em serviços
públicos (saúde, educação, emprego, moradia, segurança, etc.) que são essenciais
à população. O Estado também regula e controla as normas e leis que fiscalizam e
sancionam as feiras livres e, simultaneamente, desconsidera e negligencia esse tipo
de atividade comercial. Com a chegada da globalização, as grandes empresas
passam a dominar as atividades econômicas, de forma que o Estado presta auxílio
aos interesses do capital.

Entre as formas de apoio do Estado ao nascimento e ao desenvolvimento


do circuito moderno, encontramos a proteção concedida à concentração e
aos monopólios, financiamento direto e indireto das grandes firmas através
da construção de infra-estrutura caras, a formação profissional, a promoção
das indústrias de base, os subsídios á produção e à exportação e todas as
formas de acordos com as firmas dominantes da economia, tais como
legislações fiscais discriminatórias, leis de investimentos e planos de
desenvolvimento. Tudo isso certamente reduz a capacidade de investimento
dos Estados nacionais nos setores que interessam diretamente á população
(SANTOS, 2008, p. 162).

Acerca da ação do Estado (poder público municipal de Caicó), este aponta a


feira como parte do circuito inferior da economia urbana na cidade. A feira tem uma
pequena atenção por parte do poder público que se restringe à cobrança de
impostos e a limpeza dos resíduos sólidos nas ruas no final da feira, e, mesmo
assim, a limpeza fica a desejar (Figura 16).
Muitas vezes, os feirantes veem seus direitos negligenciados, sem ter a quem
recorrer, pois a prefeitura apenas executa a sua função reguladora do uso e
ocupação da prática dessa atividade no espaço físico. O poder público local não
fornece recursos necessários para melhores condições de trabalho na feira, há
reclamações da falta de segurança e policiamento, como faltam banheiros para
suprir as necessidades de todos, pois os dois únicos que existem estão localizados
na parte interna do Açougue Municipal. A prefeitura também não fornece água aos
feirantes, sendo eles próprios obrigados a transportar de casa ou comprar em algum
72

estabelecimento.

Figura 16 - Lixo acumulado após termino da feira.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

Os feirantes lamentam a omissão de instrumentos legais de participação que


possam ajudá-los a resolver problemas e reclamações existentes na feira. Não há
associação, uma cooperativa de feirantes que os façam ser ouvidos pelos
governantes. O empecilho maior é o baixo nível de organização dos feirantes em
relação à falta de uma associação ou cooperativa que possibilite melhorias em seu
ambiente de trabalho.
O órgão responsável pela fiscalização da feira livre fica a cargo da Secretaria
de Infraestrutura. Segundo o secretário Jorge Araújo, existem cinco fiscais
encarregados de fazerem a fiscalização na feira, que é feita diariamente. Estivemos
várias vezes na feira livre e em dias diferentes, em nenhum dia notamos a presença
de algum fiscal.
Existe um projeto por parte da prefeitura (ANEXO A) que ainda está em
tramitação que propõe a revitalização e padronização da feira livre. Esse projeto foi
requisitado, em 2013, pelo vereador José Maria ao então prefeito Roberto Germano,
alegando que a feira se encontra em péssimas condições de trabalho e estrutura.
Mas, só em setembro de 2014, esse projeto foi aprovado através da Senadora
Ivonete Dantas. Os recursos foram liberados pelo Ministério da Agricultura e
73

autorizados pela Caixa Econômica Federal no valor de R$ 500.000,00 (quinhentos


mil reais) competindo à prefeitura a execução do projeto para a adequação do
espaço. Segundo a Senadora, o passo seguinte seria a convocação de uma
audiência pública com os feirantes para debater o projeto.
Esse projeto propõe a alocação da feira para um galpão pertencente à
prefeitura num local conhecido como “beco da troca”, como também melhorias nas
condições e no ambiente de trabalho para os feirantes que comercializam na feira, e
para a população local que frequentam esse espaço. O projeto consiste também em
melhorias na questão da vigilância sanitária do ambiente, fortalecendo o capital e a
gestão social com o comércio justo e a economia solidária. A padronização das
barracas irá melhorar a higienização do lugar, pois serão instaladas torneiras com
água corrente, luz elétrica e banheiros no local, como também desobstruir as ruas
que são vias de tráfego, melhorando o acesso de carros e pessoas a essas ruas.
Quando o projeto de engenharia foi enviado à licitação, foi encontrado um
problema na dotação orçamentária e teve que ser reenviado para Câmara Municipal
para ser aprovado, mas ainda não foi para votação. Depois de aprovado, o próximo
passo será a realização de uma audiência junto com o Sindicato dos Trabalhadores
Trabalhadoras Rurais (STTR), todos os feirantes e a prefeitura para se debater e
discutir o melhor projeto.
Em contra-partida, os feirantes se recusam a se deslocarem para outro local,
defendem a permanência da feira neste espaço, por está na área central do
comércio. Visto que o deslocamento da feira para outro espaço na cidade poderia
prejudicá-los na diminuição dos frequentadores, correndo o risco de haver queda no
volume de vendas. Também uma boa parte da população alega que a mudança da
feira para outro espaço poderia descaracterizar a feira, em vista que já estão
acostumados com essa atividade naquele espaço. Os feirantes O ideal para os
feirantes seria uma reforma e modernização do Açougue Público (Figura 17), para
onde fosse destinada uma área para a feira e outra para o açougue, visto que a feira
depende do açougue e vice-versa. O projeto arquitetônico teria que estar de acordo
com as necessidades dos comerciantes, o que fica difícil para a gestão pública
chegar a um consenso.
74

Figura 17 - Açougue Municipal.


Fonte: Acervo da autora, 2015.

Diante do que foi exposto, percebemos que a feira livre necessita urgente de
uma requalificação, maior atenção por parte do poder público local e uma
fiscalização mais efetiva. Assim cabe ao gestor da Prefeitura Municipal o dever de
estabelecer ações que busquem dar novo vigor e melhores condições para o espaço
da feira livre, tornando o ambiente moderno, adequado para o período atual,
higienizado e atraente para os consumidores. Assim como também políticas de
incentivo aos feirantes. Dessa forma, a feira livre passará a ser uma alternativa de
consumo.
Se até a atualidade a feira vem resistindo e chegou ao atual período, ela deve
à classe de baixa renda que sobrevive dela e usufrui essa atividade para satisfazer
suas necessidades e condições de consumo.
75

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percebendo que a análise da feira livre tenha priorizado o enfoque


socioeconômico da pesquisa, vimos que esta surgiu juntamente com o núcleo
populacional da cidade e que, à medida que a cidade foi crescendo e se
desenvolvendo, a feira foi seguindo o mesmo ritmo. Mesmo com a decadência da
sua principal economia nos anos de 1970, a cotonicultura, a cidade conseguiu se
adaptar a um novo contexto econômico, baseado no setor terciário, e a feira
permaneceu como uma das mais importantes da região do Seridó, caracterizando-se
como espaço de comercialização e de sociabilidade.
As mudanças ocorridas no espaço urbano ao longo da história da cidade de
Caicó e as influências econômicas, culturais e sociais impostas pelos vetores
econômicos capitalistas dominantes, contribuíram para modificação da dinâmica da
feira. A inserção dos supermercados na cidade contribuiu para o enfraquecimento
dessa atividade econômica, visto que a feira não possui o alto custo e as mesmas
técnicas de modernização e dinamismo. Os supermercados são uma das
modalidades de comércio varejista mais importante na atualidade que adotam
estratégias para atrair o consumidor, como as formas de pagamentos no cartão e no
cheque.
Nessa perspectiva, compreendemos que a feira livre é uma atividade inserida
no circuito inferior da economia através se suas características representadas
diariamente na feira por ser um evento socioespacial tradicional com componentes
rústicos e métodos de vendas tradicionais. Algo peculiar que encontramos na feira
livre é o contato pessoal e o preço negociável, com vendas no "fiado". São aspectos
que não encontramos nos supermercados, além de agregar indivíduos pobres, com
baixo nível de renda, os desempregados e os excluídos nesse ramo de atividade.
Perante o que foi exposto, essa atividade comercial apresenta problemas na
questão de organização, infraestrutura, limpeza e segurança que passam pela falha
da gestão municipal nesse espaço público. Existe a necessidade de delinear
questões a serem reparadas e medidas implantadas objetivando otimizar o espaço
da feira livre.
76

Diante do que foi declarado pelos feirantes, averiguamos que eles protestam
e reivindicam da gestão municipal, que não mantém o espaço da feira limpo e
organizado. É notável a falta de cumprimento de dever por ambos, feirantes e poder
público, uma vez que a ausência de normas/regras para a manutenção e
organização do espaço não é executado pelo poder púbico. Desse modo, deveria
existir um regimento interno, com ações educativas para informar procedimentos
básicos aos feirantes, como capacitá-los para manuseio adequado dos alimentos,
seguindo a legislação sanitária vigente, garantindo um bom funcionamento da feira.
A desobediência a essa legislação e descumprimento dela acarretariam em punição
através de multas. Mas sabemos que os feirantes são pessoas de diferentes culturas
e condutas, e não seria tarefa fácil fazer exigências tão simples em vista do seu
comportamento complexo.
Outra questão é a falta de fiscalização da vigilância sanitária, pois o controle
de qualidade dos produtos é inexistente. Reforçar a atuação de órgãos
fiscalizadores como também fixar lixeiras para a coleta do lixo, e essa coleta e
limpeza serem feitas durante o funcionamento da feira, proporcionaria o ambiente
limpo. Impulsionar a organização entre os feirantes, que deveriam se reunir e
formarem uma associação para defender os interesses em comum. A associação
traria benefícios e reivindicaria melhorias tanto para os feirantes como para o espaço
da feira.
Sabemos da urgência de melhorias na infraestrutura e organização, mas é
importante que se tenha uma sensibilidade para que sejam mantidas as próprias
características físicas e culturais da feira livre, sem descaracterizar sua essência.
Isto é, que se tenha ponderação entre as alterações e os aspectos culturais e
sociais. Que através do projeto de requalificação, a feira livre de Caicó, se torne uma
vitrine que atraia a atenção dos consumidores, e que desfaça a imagem da
desordem e sujeira.
Diante do que foi exposto e analisado, podemos afirmar que a feira livre de
Caicó caracteriza-se por sua persistência mesmo não possuindo a mesma dinâmica
e representatividade do século passado. Ela vem resistindo ao tempo e se
adaptando aos novos conceitos e comportamento da sociedade contemporânea e à
nova diversificação do consumo.
Ela ainda se destaca como relevante espaço de comercialização, sendo a
principal forma de abastecimento para a população local e das cidades vizinhas. É
77

também espaço das relações sociais de encontro, uma polissemia de formas, cores
e cheiros. Assim percebemos que, durante os sábados, no dia da feira, a dinâmica
da área central da cidade se amplia notavelmente, evidenciando-se como espaço de
tradição e resistência.
78

REFERÊNCIAS

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territórios construídos aos lugares praticados. MNEME, Caicó, v. 8. n. 21, p. 24-48,
abr./mai. 2006.

________. Sobre pedras, entre rios: modernização do espaço urbano de Caicó/RN


(1950/1960). Dissertação (Mestrado em Geografia) – Centro de Ciências Humanas,
Letras e Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2008. 290 f.

AZEVEDO, Francisco Fransualdo de; QUEIROZ, Thiago Augusto Nogueira. As feiras


livres e suas (contra)racionalidades: periodização e tendências a partir de Natal-RN-
Brasil. Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales, Barcelona, v. 18,
n. 1009, 15 p. 2013. Disponível em: <http://www.ub.es/geocrit/b3w-1009.htm>.
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________. Desenvolvimento regional e potencial turístico do Seridó Potiguar.


Natal: EDUFRN, 2014. p. 69-105.

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82

APÊNDICE A – FORMULÁRIO PARA O FEIRANTE

Nome do entrevistado: _________________________________________________


1. Onde mora: ( ) Zona urbana ( ) Zona rural ( ) Outro município ( ) Outro Estado.
Qual: ___________________________________________________
2. Idade: _____________________________
3. Escolaridade: _____________________________________________________
4. Profissão (além da feira): ____________________________________________
5. Vive unicamente da feira: ____________________________________________
6. Tempo de atuação na feira : __________________________________________
7. Produto comercializado: _____________________________________________
8. Produz o que vende: ________________________________________________
9. Compra a mercadoria: ______________________________________________
10. Meio de transporte utilizado: __________________________________________
11. Tem fregueses fixos: ________________________________________________
12. Sistema de venda: _________________________________________________
13. Condição da barraca: _______________________________________________
14. Possui ajudante: ___________________________________________________
15. Horário que chega á feira:____________________________________________
16. Horário que sai: ____________________________________________________
17. Frequenta outra feira: ______________________________________________
18. Relacionamento com outros feirantes: __________________________________
19. Qual a maior contrariedade para se trabalhar encontrada na feira:____________
_________________________________________________________________
20. Que vantagens a feira oferece:________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
21. Quais as sugestões que você teria para melhorar a qualidade da feira:
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
83

APÊNDICE B – FORMULÁRIO PARA O CONSUMIDOR

Nome do entrevistado: _________________________________________________


1. Onde mora: ( ) Zona urbana ( ) Zona rural ( ) Outro município ( ) Outro Estado.
Qual: ___________________________________________________
2. Idade: _____________________________
3. Escolaridade: _____________________________________________________
4. Profissão: ________________________________________________________
5. Vem sempre a feira: ________________________________________________
6. Por que prefere comprar na feira: ______________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
7. Que problemas você encontram na feira: ________________________________
_________________________________________________________________
_________________________________________________________________

8. O que pode ser melhorado na feira:_____________________________________


_________________________________________________________________
_________________________________________________________________
84

ANEXO A – PROJETO DA PREFEITURA MUNICIPAL PARA REVITALIZAÇÃO DA


FEIRA LIVRE