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CADERNO DE PROCESSO PENAL

Capítulo 1 - INTRODUÇÃO AO PROCESSO PENAL

1.1. Lei Processual no Tempo

Conforme o art. 2º do CPP, a lei processual penal será aplicada desde logo, sem
prejuízo da validade dos atos realizados sob a vigência da lei anterior, o que consagra a
incidência do princípio da tempus regit actum.

1.2. Lei Processual no Espaço

Conforme o art. 1º do CPP, a lei processual penal se aplica em todo o território


brasileiro, o que consagra o princípio da territorialidade.

Entretanto, o próprio dispositivo traz algumas ressalvas com relação à aplicação


desse princípio quando relativo:

a) a tratados, convenções e regras de direito internacional;


b) à jurisdição política. Ocorre, dentre outras hipóteses, nos casos dos incisos I e II do
art. 52 da CRFB/1988, em que a competência para processar determinadas autoridades
(Presidente e Vice-Presidente da República, Ministros de Estado, Comandantes da
Marinha, do Exército e da Aeronáutica, Ministros do Supremo Tribunal Federal) é
deslocada do Poder Judiciário para o Poder Legislativo (Senado Federal);
c) aos processos de competência da Justiça Militar;
d) aos processos de competência do Tribunal Especial (o extinto Tribunal de Segurança
Nacional, previsto no art. 122, nº 17, da Constituição de 1937);
e) aos processos por crimes de imprensa (esta ressalva se encontra superada, porque a
Lei de Imprensa (Lei 5.250/1967) teve a eficácia de vários artigos suspensa liminarmente
em sede da Ação de Descumprimento de Preceitos Fundamentais 130-7/DF).

1.3. Princípios
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a) Princípio do devido processo legal: previsto no art. 5º, LIV, da CRFB/1988. Há duas
acepções: um material, que trata da regularidade do processo legislativo, e uma de
cunho processual, que se refere à regularidade dos atos processuais.
b) Princípio da inocência: previsto no art. 5º, LVII, da CRFB/1988. Significa que o
indivíduo não pode ser considerado culpado antes do trânsito em julgado da sentença
penal condenatória.
c) Princípio do juiz natural: previsto no art. 5º, LIII, da CRFB/1988. Significa a garantia
de um julgamento por um juiz competente, de acordo com regras objetivas de
competência e, com isso, a proibição da criação de tribunais de exceção.
d) Princípio da publicidade: preleciona que todo processo é público, salvo algumas
limitações com base no interesse social ou para tutelar-se a intimidade das partes.

Aplicação Prática
(XXIII EXAME DE ORDEM – Questão 64) - Mateus foi denunciado pela prática de um crime de
homicídio qualificado, sendo narrado na denúncia que a motivação do crime seria guerra entre
facções do tráfico. Cinco dias antes do julgamento em plenário, o Ministério Público junta ao
processo a Folha de Antecedentes Criminais (FAC) do acusado, conforme requerido quando da
manifestação em diligências, em que, de fato, constavam anotações referentes a processos pela
prática do crime da Lei de Drogas. Apenas três dias úteis antes do julgamento, a defesa de
Mateus vem a tomar conhecimento da juntada da FAC. No dia do julgamento, após a
manifestação oral da defesa em plenário, indagado pelo juiz presidente sobre o interesse em se
manifestar em réplica, o promotor de justiça afirma negativamente, reiterando aos jurados que
as provas estão muito claras e que o réu deve ser condenado, não havendo necessidade de
maiores explanações. Posteriormente, o juiz presidente nega à defesa o direito de tréplica.
Mateus é condenado. Diante da situação narrada, o (a) advogado (a) de Mateus, em sede de
apelação, deverá buscar
A) a nulidade do julgamento, pois foi juntada documentação sem a antecedência necessária
exigida pela lei.
B) o afastamento da qualificadora pelo Tribunal, pois foi juntada documentação que influenciou
seu reconhecimento sem a antecedência necessária exigida pela lei.
C) a nulidade do julgamento, pois o direito de tréplica da defesa independe da réplica do
Ministério Público.
D) a nulidade do julgamento, pois houve réplica por parte do Ministério Público, de modo que
deveria ser deferido à defesa o direito de tréplica.

R: Alternativa d
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1.4. Sistemas processuais

Dividiremos o tema em dois sistemas principais: Sistema Inquisitivo e Sistema


Acusatório.

a) Sistema Inquisitivo: se caracteriza pelo fato de o Juiz acumular o exercício de três


funções processuais: acusar, defender e julgar. Nesse sistema, o próprio julgador tem a
possibilidade de iniciar o processo.
b) Sistema Acusatório: se caracteriza pela divisão de funções entre os sujeitos
processuais. O Ministério Público exerce a titularidade da ação penal pública. O julgador
é inerte e imparcial, não lhe é permitido iniciar o processo de ofício.

Aplicação Prática

(XXIII EXAME DE ORDEM – Questão 68) - Paulo foi preso em flagrante pela prática do
crime de corrupção, sendo encaminhado para a Delegacia. Ao tomar conhecimento dos
fatos, a mãe de Paulo entra, de imediato, em contato com o advogado, solicitando
esclarecimentos e pedindo auxílio para seu filho. De acordo com a situação
apresentada, com base na jurisprudência dos Tribunais Superiores, deverá o advogado
esclarecer que
A) diante do caráter inquisitivo do inquérito policial, Paulo não poderá ser assistido pelo
advogado na delegacia.
B) a presença da defesa técnica, quando da lavratura do auto de prisão em flagrante, é
sempre imprescindível, de modo que, caso não esteja presente, todo o procedimento
será considerado nulo.
C) decretado o sigilo do procedimento, o advogado não poderá ter acesso aos
elementos informativos nele constantes, ainda que já documentados no procedimento.
D) a Paulo deve ser garantida, na delegacia, a possibilidade de assistência de advogado,
de modo que existe uma faculdade na contratação de seus serviços para
acompanhamento do procedimento em sede policial.
R: Alternativa d

R: Alternativa A
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Capítulo 2 - INQUÉRITO POLICIAL

2.1. Conceito

O inquérito policial define-se como um procedimento administrativo conduzido


pela polícia judiciária e direcionado à apuração de uma infração de sua autoria, com a
finalidade de possibilitar que o titular da ação penal possa ingressar em juízo.

2.2. Natureza jurídica

É um procedimento administrativo.

2.3. Finalidade

A finalidade essencial do inquérito policial é apurar a possível infração penal


cometida e a sua autora para que o titular da ação penal possa ter elementos
probatórios, a justa causa, para o ingresso em juízo.

2.4. Características

As principais características são as seguintes:

a) Escrito: art. 9º do CPP. Todas as peças do inquérito policial serão processadas num
só, reduzidas a escrito ou datilografadas, e, nesse caso, rubricadas pela autoridade.
b) Indisponível: art. 17 do CPP. Uma vez instaurado, não pode, em hipótese alguma, ser
arquivado pela autoridade policial.
c) Sigiloso: art. 20 do CPP. A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à
elucidação do fato ou exigido pela sociedade.
d) Oficialidade: art. 4º do CPP. O inquérito policial é dirigido por órgãos públicos oficiais,
no caso, a autoridade policial.
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e) Dispensável: art. 39, § 5º, do CPP. O órgão do Ministério Público dispensará o
inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a
promover a ação penal.

2.5. Procedimento: fases e especificações

Iniciativa e instauração do inquérito policial:

a) Crime de ação penal pública incondicionada: de ofício; mediante requisição da


autoridade judiciária ou do Ministério Público; a requerimento do ofendido ou de quem
tiver qualidade para representá-lo. Art. 5º, I e II, do CPP.
b) Crime de ação penal pública condicionada: representação do ofendido. Também nos
casos de requisição do Ministro da Justiça. Art. 5º, § 4º, do CPP.
c) Crime de ação penal de iniciativa privada: requerimento do ofendido. Art. 5º, § 5º,
do CPP.
Durante o inquérito policial serão possíveis algumas diligências, tais como:
apreensão de objetos, perícias, acareações etc.
O encerramento do inquérito policial ocorre com a conclusão de todas as
diligências, na oportunidade em que a autoridade policial elaborará minucioso relatório
do que tiver sido apurado e enviará os autos ao juízo competente.

Prazos para a conclusão do inquérito policial:

– Regra Geral (art. 10 do CPP): o prazo será de 10 dias para o inquérito policial que tem
indiciado preso e de 30 dias para o indiciado solto. Só se admite a prorrogação do prazo
se o indiciado estiver solto.
– Lei de Drogas (art. 51 da Lei 11.343/2006): o prazo será de 30 dias para o indiciado
preso e de 90 dias para o indiciado solto. Os prazos podem ser duplicados pelo juiz,
ouvido o Ministério Público, mediante pedido justificado da autoridade de polícia
judiciária.
– Crimes contra a economia popular (art. 10, § 1º, da Lei 1.521/1951): o prazo será de
10 dias improrrogáveis, estando o indiciado solto ou preso.
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– Justiça Federal (art. 66 da Lei 5.010/1966): o prazo será de 15 dias para o indiciado
preso, podendo ser prorrogado por mais 15 dias, a pedido, devidamente fundamentado,
da autoridade policial. Já para o indiciado solto, o prazo adotado é o da regra geral.

Súmula Vinculante 14: É direito do defensor, no interesse do representado, ter


acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento
investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam
respeito ao exercício do direito de defesa.

Súmula 234 do STF: A participação de membro do Ministério Público na fase


investigatória criminal não acarreta o seu impedimento ou suspeição para o
oferecimento da denúncia.

Súmula 524 do STF: Arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a


requerimento do promotor de justiça, não pode a ação penal ser iniciada, sem novas
provas.

Jurisprudências

Tema: Poder investigatório do Ministério Público (Informativos 785 e


787 do STF)

Ministério Público pode realizar diretamente a investigação de crimes O


STF reconheceu a legitimidade do Ministério Público para promover, por
autoridade própria, investigações de natureza penal, mas ressaltou que
essa investigação deverá respeitar alguns parâmetros que podem ser a
seguir listados: 1) Devem ser respeitados os direitos e garantias
fundamentais dos investigados; 2) Os atos investigatórios devem ser
necessariamente documentados e praticados por membros do MP; 3)
Devem ser observadas as hipóteses de reserva constitucional de
jurisdição, ou seja, determinadas diligências somente podem ser
autorizadas pelo Poder Judiciário nos casos em que a CF/88 assim exigir
(ex: interceptação telefônica, quebra de sigilo bancário etc.); 4) Devem
ser respeitadas as prerrogativas profissionais asseguradas por lei aos
advogados; 5) Deve ser assegurada a garantia prevista na Súmula
vinculante 14 do STF (“É direito do defensor, no interesse do
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representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já
documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com
competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito
de defesa”); 6) A investigação deve ser realizada dentro de prazo
razoável; 7) Os atos de investigação conduzidos pelo MP estão sujeitos ao
permanente controle do Poder Judiciário. A tese fixada em repercussão
geral foi a seguinte: “O Ministério Público dispõe de competência para
promover, por autoridade própria, e por prazo razoável, investigações de
natureza penal, desde que respeitados os direitos e garantias que
assistem a qualquer indiciado ou a qualquer pessoa sob investigação do
Estado, observadas, sempre, por seus agentes, as hipóteses de reserva
constitucional de jurisdição e, também, as prerrogativas profissionais de
que se acham investidos, em nosso País, os advogados (Lei 8.906/1994,
art. 7º, notadamente os incisos I, II, III, XI, XIII, XIV e XIX), sem prejuízo da
possibilidade — sempre presente no Estado democrático de Direito — do
permanente controle jurisdicional dos atos, necessariamente
documentados (Enunciado 14 da Súmula Vinculante), praticados pelos
membros dessa Instituição.”

(RE 593727/MG, rel. orig. Min. Cezar Peluso, red. p/ o acórdão Min.
Gilmar Mendes, Plenário, julgado em 14/5/2015 (repercussão geral). HC
85011/RS, red. p/ o acórdão Min. Teori Zavascki, 1ª Turma, julgado em
26/5/2015).

Tema: Denúncia anônima e ação penal (Informativo nº 819 do STF)

Denúncia anônima. As notícias anônimas ("denúncias anônimas") não


autorizam, por si sós, a propositura de ação penal ou mesmo, na fase de
investigação preliminar, o emprego de métodos invasivos de
investigação, como interceptação telefônica ou busca e apreensão.
Entretanto, elas podem constituir fonte de informação e de provas que
não podem ser simplesmente descartadas pelos órgãos do Poder
Judiciário. Procedimento a ser adotado pela autoridade policial em caso
de “denúncia anônima”: 1) Realizar investigações preliminares para
confirmar a credibilidade da “denúncia”; 2) Sendo confirmado que a
“denúncia anônima” possui aparência mínima de procedência, instaura-
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se inquérito policial; 3) Instaurado o inquérito, a autoridade policial
deverá buscar outros meios de prova que não a interceptação telefônica
(esta é a ultima ratio). Se houver indícios concretos contra os
investigados, mas a interceptação se revelar imprescindível para provar o
crime, poderá ser requerida a quebra do sigilo telefônico ao magistrado.

(HC 106152/MS, Rel. Min. Rosa Weber, 1ª Turma, julgado em 29/3/2016).

Tema: Investigação criminal e autoridades com foro privativo no STF


(Informativo nº 812 do STF)

Investigação criminal envolvendo autoridades com foro privativo no STF


As investigações envolvendo autoridades com foro privativo no STF
somente podem ser iniciadas após autorização formal do STF. De igual
modo, as diligências investigatórias envolvendo autoridades com foro
privativo no STF precisam ser previamente requeridas e autorizadas pelo
STF. Diante disso, indaga-se: depois de o PGR requerer alguma diligência
investigatória, antes de o Ministro Relator decidir, é necessário que a
defesa do investigado seja ouvida e se manifeste sobre o pedido? NÃO.
As diligências requeridas pelo Ministério Público Federal e deferidas pelo
Ministro-Relator são meramente informativas, não suscetíveis ao
princípio do contraditório. Desse modo, não cabe à defesa controlar, “ex
ante”, a investigação, o que acabaria por restringir os poderes
instrutórios do Relator. Assim, o Ministro poderá deferir, mesmo sem
ouvir a defesa, as diligências requeridas pelo MP que entender
pertinentes e relevantes para o esclarecimento dos fatos.

(Inq 3387 AgR/CE, Rel. Min. Dias Toffoli, 2ª Turma, julgado em


15/12/2015).
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Aplicação Prática

(XXIV EXAME DE ORDEM) Tiago, funcionário público, foi vítima de crime de difamação em
razão de suas funções. Após Tiago narrar os fatos em sede policial e demonstrar interesse em
ver o autor do fato responsabilizado, é instaurado inquérito policial para investigar a notícia de
crime. Quando da elaboração do relatório conclusivo, a autoridade policial conclui pela prática
delitiva da difamação, majorada por ser contra funcionário público em razão de suas funções,
bem como identifica João como autor do delito. Tiago, então, procura seu advogado e informa
a este as conclusões 1 (um) mês após os fatos. Considerando apenas as informações narradas,
o advogado de Tiago, de acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, deverá
esclarecer que
A) caberá ao Ministério Público oferecer denúncia em face de João após representação do
ofendido, mas Tiago não poderá optar por oferecer queixa-crime.
B) caberá a Tiago, assistido por seu advogado, oferecer queixa-crime, não podendo o ofendido
optar por oferecer representação para o Ministério Público apresentar denúncia.
C) Tiago poderá optar por oferecer queixa-crime, assistido por advogado, ou oferecer
representação ao Ministério Público, para que seja analisada a possibilidade de oferecimento
de denúncia.
D) caberá ao Ministério Público oferecer denúncia, independentemente de representação do
ofendido.

R: Alternativa C

R: Alternativa A
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Capítulo 3 - AÇÃO PENAL

3.1. Introdução

A ação penal se caracteriza por ser o direito de pedir ao Estado-Juiz a


aplicabilidade do Direito Penal Objetivo a determinado caso concreto.

3.2. Condições da ação penal

São condições da ação penal: legitimidade, interesse de agir, possibilidade


jurídica do pedido. Há controvérsia a respeito da justa causa, se esta integraria ou não
o rol das condições da ação.

3.3. Princípios da ação penal

No que tange aos princípios da ação penal, podemos subdividi-los conforme a


natureza da ação penal. Assim, teremos princípios da ação penal pública e princípios da
ação penal privada. Veja-se:

– Princípios da Ação Penal Pública:

a) Obrigatoriedade: significa que, se estiverem presentes os indícios de autoria e de


materialidade delitiva, bem como ausentes as causas extintivas da punibilidade, o
representante do Ministério Público está obrigado a oferecer a denúncia.
b) Indisponibilidade: significa que o Ministério Público não pode desistir do curso da
ação intentada, bem como do recurso eventualmente interposto.

– Princípios da Ação Penal Privada:

a) Oportunidade: significa que o ofendido tem a faculdade de propor a ação penal.


b) Disponibilidade: dispõe que o querelante pode desistir de prosseguir com a ação
penal, por meio do perdão do ofendido ou pela perempção.
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c) Indivisibilidade: dispõe que, no caso de concurso de agentes, a queixa deverá ser
oferecida contra todos os coautores que o querelante tiver conhecimento, não sendo
possível a escolha contra quem intentará a ação penal.

3.4. Classificação das ações penais

A divisão das espécies de ação penal é costumeiramente identificada pelo


critério subjetivo, ou seja, levando em consideração a qualidade do sujeito que detém a
titularidade. Nesse sentido, dispõe o art. 100 do CP que “a ação é pública, salvo quando
a lei expressamente a declare privativa do ofendido”.

3.4.1. Ação penal pública

A ação penal pública é aquela que deve ser promovida pelo Ministério Público,
conforme o art. 257, I, do CPP. A ação penal pública pode ser incondicionada ou
condicionada.
A ação penal pública incondicionada é a regra. Ela é proposta
independentemente da vontade ou manifestação de qualquer sujeito, bastando
estarem presentes as condições da ação e os pressupostos processuais.

Sumula 542 do STJ: A ação penal relativa ao crime de lesão corporal resultante de
violência doméstica contra a mulher é pública incondicionada.

A ação penal pública condicionada depende da manifestação de vontade do


ofendido (ou do seu representante legal) ou da requisição do Ministro da Justiça.

3.4.2. Ação penal de iniciativa privada

A ação penal privada é aquela em que o Estado, titular exclusivo do ius puniendi
(direito de punir), transfere à vítima ou a quem legalmente a represente a legitimidade
para propositura da ação penal, conservando, entretanto, a titularidade do direito de
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punir. Subdivide-se em: exclusivamente privada ou propriamente dita; personalíssima;
subsidiária da pública.

A ação penal exclusivamente privada ou propriamente dita é aquela em que a


vítima ou quem legalmente a represente exerce diretamente. A sua fundamentação
legal encontra-se no art. 31 do CPP.

A ação penal personalíssima é aquela em que somente o ofendido pode exercer


o direito de ação, não havendo possibilidade, em caso de sua morte, da transferência
desse direito aos sucessores. A única hipótese prevista encontra-se no crime do art. 236
do CP.

A ação penal privada subsidiária da pública é aquela em que a vítima ou quem


legalmente a represente exerce diante da inércia do titular da ação penal pública –
Ministério Público –, ou seja, quando o órgão ministerial não oferece a denúncia, não
promove o arquivamento ou não requisita diligências no prazo legal. O prazo é
decadencial de seis meses, contados da data em que terminar o prazo para o Ministério
Público adotar as providências cabíveis, conforme o art. 38 do CPP.
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Aplicação Prática

(XXIII EXAME DE ORDEM – Questão 67) No dia 31 de dezembro de 2015, Leandro encontra, em
uma boate, Luciana, com quem mantivera uma relação íntima de afeto, na companhia de duas
amigas, Carla e Regina. Já alterado em razão da ingestão de bebida alcoólica, Leandro, com
ciúmes de Luciana, inicia com esta uma discussão e desfere socos em sua face. Carla e Regina
vêm em defesa da amiga, mas, descontrolado, Leandro também agride as amigas, causando
lesões corporais leves nas três. Diante da confusão, Leandro e Luciana são encaminhados a uma
delegacia, enquanto as demais vítimas decidem ir para suas casas. Após exame de corpo de
delito confirmando as lesões leves, Luciana é ouvida e afirma expressamente que não tem
interesse em ver Leandro responsabilizado criminalmente. Em relação às demais lesadas, não
tiveram interesse em ser ouvidas em momento algum das investigações, mas as testemunhas
confirmaram as agressões. Diante disso, o Ministério Público, em 05 de julho de 2016, oferece
denúncia em face de Leandro, imputando-lhe a prática de três crimes de lesão corporal leve.
Considerando apenas as informações narradas, o(a) advogado(a) de Leandro
A) não poderá buscar a rejeição da denúncia em relação a nenhum dos três crimes.
B) poderá buscar a rejeição da denúncia em relação ao crime praticado contra Luciana, mas não
quanto aos delitos praticados contra Carla e Regina.
C) poderá buscar a rejeição da denúncia em relação aos três crimes.
D) não poderá buscar a rejeição da denúncia em relação ao crime praticado contra Luciana, mas
poderá pleitear a imediata rejeição quanto aos delitos praticados contra Carla e Regina.

R: Alternativa D

R: Alternativa B
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Capítulo 4 - COMPETÊNCIA CRIMINAL

4.1. Conceito

Define-se competência criminal como sendo a medida e o limite jurisdicional,


nos quais o órgão judicial pode atuar, ou seja, delimita o exercício da jurisdição para o
magistrado.

4.2. Espécies

No que tange à competência, pode-se subdividi-la em três partes:


– competência estabelecida em razão do lugar do crime cometido – “ratione materiae”;
– competência estabelecida de acordo com a qualidade das pessoas acusadas – “ratione
personae”;
– competência estabelecida de acordo com o local em que foi praticado ou consumado
o crime, ou o local da residência do seu autor – “ratione loci”.

Deve-se observar, para tanto, o previsto no art. 69 do CPP, o qual prescreve que
a competência é determinada em razão: do lugar da infração, e do domicílio ou
residência do réu (“ratione loci”); da natureza da infração (“ratione materiae”); da
distribuição; da conexão ou continência; da prevenção e da prerrogativa de função
(“ratione personae”). Agora, analisaremos cada uma em separado:

– Competência em razão do lugar da infração: adotou-se, em regra, a teoria do resultado


para determinar o foro competente para a ação penal.

De acordo com o art. 70, § 1º, do CPP, “iniciada a execução no território nacional,
se a infração se consumar fora dele, a competência será determinada pelo lugar em que
tiver sido praticado, no Brasil, o último ato de execução”. Ao contrário, o § 2º, desse
mesmo diploma legal, determina que, “quando o último ato de execução for praticado
fora do território nacional, será competente o juiz do lugar em que o crime, embora
parcialmente, tenha produzido ou devia produzir seu resultado”. Ressalta-se que esses
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parágrafos do art. 70 do CPP adotaram a teoria da ubiquidade, em conformidade com o
disposto no art. 6.º do CP, uma vez que o Brasil tem o interesse de punir o delito cujo
início (ação) ou fim (resultado) deu-se em seu território.
O art. 70, § 3º, do CPP, com o objetivo de esclarecer qualquer dúvida a respeito
do foro competente para processar o feito, dispõe que, quando incerto o limite
territorial entre duas ou mais jurisdições, ou quando incerta a jurisdição por ter sido a
infração consumada ou tentada nas divisas de duas ou mais jurisdições, a competência
firmar-se-á pela prevenção.
Da mesma forma, aplicando a mesma regra anterior, o art. 71 do CPP dispõe
que, na hipótese de infração continuada ou permanente, praticada em território de duas
ou mais jurisdições, a competência será firmada pelo critério da prevenção.

– Competência pelo domicílio ou residência do réu: é estabelecida de forma subsidiária.


Quando não for conhecido o lugar da infração, fixa-se a competência pelo domicílio ou
residência do réu, nos termos do art. 72 do CPP. Entretanto, se o réu não possuir
residência ou for ignorado o seu paradeiro, será competente o juiz que primeiro tomar
conhecimento do fato.

– Competência pela natureza da infração: conforme disciplina o art. 74 do CPP, a


competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de organização judiciária,
no âmbito federal ou estadual, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri, nos
moldes estabelecidos pela CRFB/1988.

– Competência por distribuição e prevenção: nos casos em que na mesma circunscrição


judiciária houver mais de um juiz igualmente competente, resolve-se pela distribuição.
A distribuição é um processo aleatório de escolha por meio de um sorteio. Aplica-se o
art. 75 do CPP. A prevenção, por sua vez, ocorre nos casos em que concorrerem dois ou
mais juízes igualmente competentes, e um deles tiver antecedido aos demais na prática
de algum ato de cunho decisório ou de medida a este relativa, ainda que anterior ao
recebimento da denúncia ou da queixa, nos moldes do art. 83 do CPP.
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– Competência por conexão ou continência:

a) conexão: ocorre quando há uma dependência recíproca entre os fatos delituosos. A


competência por conexão se subdivide em: intersubjetiva – prevista no art. 76, I, do CPP;
objetiva, lógica ou material – prevista no art. 76, II, do CPP; instrumental ou probatória
– prevista no art. 76, III, do CPP.
b) continência: ocorre quando uma situação estiver contida na outra e não for possível
a separação. Pode ser de duas espécies: por cumulação subjetiva – prevista no art. 77,
I, do CPP e por cumulação objetiva – prevista no art. 77, II, do CPP.

Cabe lembrar que, de acordo com a doutrina majoritária, a conexão e a continência


não são consideradas como critérios de fixação de competência, mas sim da sua
prorrogação. Desse modo, uma vez reconhecidas, possuem os seguintes efeitos: a
reunião das ações em um mesmo processo, bem como a prorrogação da competência.

Destaca-se que o art. 78 do CPP disciplina as regras que são utilizadas para
determinar o juízo prevalente nos casos de reunião dos processos por conexão ou
continência. Entretanto, há hipóteses em que essa reunião dos processos não será
possível, devendo-se, assim, separar os feitos obrigatoriamente, a saber: no concurso
entre a jurisdição comum e a militar; no concurso entre a jurisdição comum e a do juízo
de menores; se em relação a algum corréu sobrevier doença mental após o fato
criminoso.
O art. 80 do CPP disciplina as hipóteses em que será facultativa a separação dos
processos.

– Competência por prerrogativa de função: de acordo com o art. 84 do CPP, a


competência por prerrogativa de função é do Supremo Tribunal Federal, do Superior
Tribunal de Justiça, dos Tribunais Regionais Federais e dos Tribunais de Justiça dos
Estados e do Distrito Federal, que diz respeito às pessoas que respondem perante esses
tribunais por crimes comuns e de responsabilidade.
CADERNO DE PROCESSO PENAL

Súmula 42 do STJ: Compete a Justiça Comum Estadual processar e julgar as causas cíveis
em que é parte sociedade de economia mista e os crimes praticados em seu detrimento.

Súmula 62 do STJ: Compete a Justiça Estadual processar e julgar o crime de falsa anotação
na carteira de trabalho e previdência social, atribuído a empresa privada.

Súmula 75 do STJ: Compete a Justiça Comum Estadual processar e julgar o policial militar
por crime de promover ou facilitar a fuga de preso de estabelecimento penal.

Súmula 104 do STJ: Compete a Justiça Estadual o processo e julgamento dos crimes de
falsificação e uso de documento falso relativo a estabelecimento particular de ensino.

Súmula 107 do STJ: Compete a Justiça Comum Estadual processar e julgar crime de
estelionato praticado mediante falsificação das guias de recolhimento das contribuições
previdenciárias, quando não ocorrente lesão a autarquia federal.

Súmula 140 do STJ: Compete a Justiça Comum Estadual processar e julgar crime em que o
indígena figure como autor ou vítima.

Súmula 147 do STJ: Compete a Justiça Federal processar e julgar os crimes praticados
contra funcionário público federal, quando relacionados com o exercício da função.

Súmula 208 do STJ: Compete a Justiça Federal processar e julgar Prefeito Municipal por
desvio de verba sujeita a prestação de contas perante órgão federal.

Súmula 209 do STJ: Compete a Justiça Estadual processar e julgar prefeito por desvio de
verba transferida e incorporada ao patrimônio municipal.

Súmula 546 do STJ: A competência para processar e julgar o crime de uso de documento
falso é firmada em razão da entidade ou órgão ao qual foi apresentado o documento
público, não importando a qualificação do órgão expedidor.
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Súmula Vinculante 45: A competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre
o foro por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela Constituição
Estadual.

Súmula 451 do STF: A competência especial por prerrogativa de função não se estende
ao crime cometido após a cessação definitiva do exercício funcional.

Súmula 522 do STF: Salvo ocorrência de tráfico para o Exterior, quando, então, a
competência será da Justiça Federal, compete à Justiça dos Estados o processo e
julgamento dos crimes relativos a entorpecentes.

Súmula 704 do STF: Não viola as garantias do juiz natural, da ampla defesa e do devido
processo legal a atração por continência ou conexão do processo do corréu ao foro por
prerrogativa de função de um dos denunciados.

Aplicação Prática

(XXIV EXAME DE ORDEM) Na cidade de Angra dos Reis, Sérgio encontra um documento
adulterado (logo, falso), que, originariamente, fora expedido por órgão estadual. Valendo-se de
tal documento, comparece a uma agência da Caixa Econômica Federal localizada na cidade do
Rio de Janeiro e apresenta o documento falso ao gerente do estabelecimento. Desconfiando da
veracidade da documentação, o gerente do estabelecimento bancário chama a Polícia, e Sérgio
é preso em flagrante, sendo denunciado pela prática do crime de uso de documento falso (Art.
304 do Código Penal) perante uma das Varas Criminais da Justiça Estadual da cidade do Rio de
Janeiro. Considerando as informações narradas, de acordo com a jurisprudência do Superior
Tribunal de Justiça, o advogado de Sérgio deverá
A) alegar a incompetência, pois a Justiça Federal será competente, devendo ser considerada a
cidade de Angra dos Reis para definir o critério territorial.
B) alegar a incompetência, pois a Justiça Federal será competente, devendo ser considerada a
cidade do Rio de Janeiro para definir o critério territorial.
C) alegar a incompetência, pois, apesar de a Justiça Estadual ser competente, deverá ser
considerada a cidade de Angra dos Reis para definir o critério territorial.
D) reconhecer a competência do juízo perante o qual foi apresentada a denúncia.

R: Alternativa B
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Capítulo 5 - TEORIA GERAL DA PROVA

5.1. Conceito

A prova é todo elemento pelo qual se objetiva demonstrar a existência e a


veracidade de determinado fato. Tem por finalidade principal o convencimento do
órgão julgador.

5.2. Objeto

O objeto da prova são os fatos principais ou secundários que exijam uma


valoração judicial e a sua comprovação. Diz-se que o objeto da prova tem um caráter
objetivo e outro subjetivo. O caráter objetivo é a demonstração da ocorrência de
determinado fato. O caráter subjetivo é a formação do convencimento do juiz, de cunho
persuasivo.

5.3. Meios

Os meios de prova se caracterizam por serem instrumentos ou atividades pelos


quais os elementos de prova são inseridos no processo, por exemplo: documento,
perícia, testemunha etc.

5.4. Classificação

– Quanto ao sujeito:

a) pessoal: engloba toda afirmativa de forma consciente destinada a demonstrar a


veracidade dos fatos afirmados. Exemplo: interrogatório.
b) real: é advinda dos vestígios deixados pelo fato delituoso. Exemplo: o arrombamento
de uma porta.

– Quanto ao objeto:
CADERNO DE PROCESSO PENAL
a) diretas: guardam relação com o próprio fato que está sendo tratado no processo.
Exemplo: uma testemunha que presenciou o crime.
b) indiretas: guardam relação com outro fato distinto daquele que está sendo
investigado, mas a sua análise permite retirar conclusões a respeito do fato investigado.
Exemplo: o álibi.

– Quanto ao efeito ou valor da prova:

a) provas plenas: permitem um juízo de certeza quanto ao fato que se destinam a


comprovar, em razão de serem completas. Em geral, são utilizadas como fonte primária
para o convencimento do julgador.
b) provas não plenas: não permitem um juízo de certeza, servindo apenas de reforço da
convicção do julgador.

5.5. Princípios

– Princípio da presunção de inocência (princípio da não culpabilidade): traduz o direito


de não ser declarado culpado, senão após o trânsito em julgado de sentença
condenatória, ao término de um processo, no qual tenham sido observadas todas as
garantias fundamentais. Esse princípio está descrito na Convenção Americana de
Direitos Humanos (presunção de inocência), no art. 8º, nº 2. A referida Convenção utiliza
a expressão inocência. No âmbito da nossa CRFB/1988, temos a presunção de não
culpabilidade. Interessante perceber que, ao contrário da Convenção Americana, o
constituinte não utiliza a expressão inocência. Diz que ninguém será considerado
culpado. Daí a distinção entre os termos utilizados.

– Princípio do nemo tenetur se detegere: a expressão em questão significa que ninguém


é obrigado a contribuir para sua própria destruição. Ninguém é obrigado a produzir
prova contra si mesmo. Esse princípio de fundamental importância está previsto tanto
nos tratados internacionais como também na própria CRFB/1988. Ver art. 8º, nº 2, “g”,
da CADH (Decreto 678/1992). Esse princípio consagra um instinto natural do ser
humano. Quando pratica um crime, a tendência natural é se defender. Se quiséssemos
CADERNO DE PROCESSO PENAL
obrigá-lo a depor contra si mesmo, teríamos que admitir constrangimentos. Além da
CADH, o princípio sob análise está previsto no art. 5º, LXIII, da CRFB/1988.

– Princípio da inadmissibilidade das provas obtidas por meios ilícitos: esse princípio
está previsto no art. 5º, LVI, da CF. Essa prova ilícita não é admitida no ordenamento
pátrio pelo seguinte motivo: preservar direitos e garantias fundamentais. A vedação às
provas ilícitas serve como fato de dissuasão à adoção de práticas probatórias ilegais: as
provas ilícitas não são admitidas e isso serve exatamente para desestimular a adoção de
práticas probatórias ilegais. A vedação à utilização das provas ilícitas serve também
como fator de estímulo à adoção de práticas probatórias legais.

5.6. Sistemas de avaliação da prova

– Sistema da Prova Tarifada, Certeza Moral do Legislador, Verdade Legal: é o sistema


em que a lei, de forma prévia, define um modelo de prova a ser produzida. Nesse
sistema, a lei prescreve o valor e a aplicação de cada prova, no qual o julgador fica
vinculado, em estrita obediência ao determinado legalmente. Há resquícios desse
sistema no art. 155, parágrafo único, do CPP e no art. 158 do CPP.

– Sistema da Íntima Convicção: é o sistema em que o julgador possui ampla liberdade


na avaliação das provas, de acordo com o seu íntimo convencimento, não sendo
necessária, ainda, a fundamentação da sua decisão. Verifica-se a aplicação desse
sistema no âmbito do procedimento do Tribunal do Júri, no qual os jurados decidem em
consonância com a sua convicção pessoal, por meio do voto secreto, sem fundamentar
a sua decisão.

– Sistema do Livre Convencimento Motivado, Persuasão Racional do Julgador: é o


sistema que adotamos como regra no processo penal brasileiro, conforme disciplina o
art. 155 do CPP. Nesse sistema, o julgador possui liberdade para formar o seu
convencimento, sendo imprescindível a devida fundamentação, nos termos do art. 93,
IX, da CRFB/1988.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
5.7. Prova ilícita

A prova ilícita lato sensu pode ser subdivida em: provas ilícitas stricto sensu e
provas ilegítimas.

As provas ilícitas stricto sensu são aquelas que foram produzidas com
infringência de normas de direito material, de natureza constitucional ou
infraconstitucional.

As provas ilegítimas são aquelas que foram produzidas com infringência de


normas de direito processual, de natureza meramente processual.

Registra-se a classificação da prova ilícita por derivação, a qual determina que a prova
produzida a partir de uma prova originalmente ilícita igualmente estará afetada pela
ilicitude, devendo, assim, ser desentranhada dos autos. Há exceções legais à não
utilização da prova ilícita por derivação: a teoria da fonte independente (art. 157, §
1º, do CPP), a teoria da descoberta inevitável (art. 157, § 2º, do CPP) e o encontro
fortuito de provas (“serendipidade”).

5.8. Prova emprestada

Define-se como aquela produzida em determinado processo e que é


transportada, posteriormente, na forma documental para outro feito. A prova
emprestada não se encontra listada no rol do CPP, razão pela qual é classificada como
uma prova inominada. Os requisitos para a sua admissibilidade, de acordo com a
doutrina majoritária, são os seguintes: identidade de partes; obediência aos
procedimentos legais; e que seja, mais uma vez, submetida ao contraditório.

Jurisprudência

Tema: Utilização no processo penal de provas obtidas pela


administração tributária (Informativo nº 577 do STJ)
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Os dados bancários entregues à autoridade fiscal pela sociedade
empresária fiscalizada, após regular intimação e independentemente de
prévia autorização judicial, podem ser utilizados para subsidiar a
instauração de inquérito policial para apurar suposta prática de crime
contra a ordem tributária. De fato, a Primeira Seção do STJ, ao apreciar o
REsp 1.134.665-SP (DJe 18/12/2009), submetido ao rito do art. 543-C do
CPC, consolidou o entendimento de que a quebra do sigilo bancário sem
prévia autorização judicial para fins de constituição de crédito tributário
é autorizada pela Lei n. 8.021/1990 e pela LC n. 105/2001, normas
procedimentais cuja aplicação é imediata. Contudo, conquanto
atualmente o STJ admita o intercâmbio de informações entre as
instituições financeiras e a autoridade fiscal para fins de constituição de
crédito tributário, o certo é que tal entendimento não se estende à
utilização de tais dados para que seja deflagrada a persecução penal. Isso
porque, como é cediço, o sigilo bancário é garantido no art. 5º da CF, e
para que haja o seu afastamento exige-se ordem judicial que, também
por determinação constitucional, precisa ser fundamentada (art. 93, IX).
Na hipótese, todavia, consta do termo de constatação, retenção e
intimação, firmado por auditor fiscal da Receita Federal, que a sociedade
empresária apresentou diversas notas fiscais e cópias dos extratos
bancários das contas por ela movimentadas após ser regularmente
intimada.

(RHC 66.520-RJ, Rel. Min. Jorge Mussi, 5ª Turma, julgado em 2/2/2016).


CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XXIII EXAME DE ORDEM) Mateus foi denunciado pela prática de um crime de homicídio
qualificado, sendo narrado na denúncia que a motivação do crime seria guerra entre facções do
tráfico. Cinco dias antes do julgamento em plenário, o Ministério Público junta ao processo a
Folha de Antecedentes Criminais (FAC) do acusado, conforme requerido quando da
manifestação em diligências, em que, de fato, constavam anotações referentes a processos pela
prática do crime da Lei de Drogas. Apenas três dias úteis antes do julgamento, a defesa de
Mateus vem a tomar conhecimento da juntada da FAC. No dia do julgamento, após a
manifestação oral da defesa em plenário, indagado pelo juiz presidente sobre o interesse em se
manifestar em réplica, o promotor de justiça afirma negativamente, reiterando aos jurados que
as provas estão muito claras e que o réu deve ser condenado, não havendo necessidade de
maiores explanações. Posteriormente, o juiz presidente nega à defesa o direito de tréplica.
Mateus é condenado. Diante da situação narrada, o (a) advogado (a) de Mateus, em sede de
apelação, deverá buscar
A) a nulidade do julgamento, pois foi juntada documentação sem a antecedência necessária
exigida pela lei.
B) o afastamento da qualificadora pelo Tribunal, pois foi juntada documentação que influenciou
seu reconhecimento sem a antecedência necessária exigida pela lei.
C) a nulidade do julgamento, pois o direito de tréplica da defesa independe da réplica do
Ministério Público.
D) a nulidade do julgamento, pois houve réplica por parte do Ministério Público, de modo que
deveria ser deferido à defesa o direito de tréplica.
R: Alternativa D

5.9. Interrogatório

O interrogatório é concebido pela doutrina majoritária como meio de defesa e


meio de prova.

R: Alternativa A
Caracteriza-se como o ato espontâneo em que o acusado tem a oportunidade de
prestar informações e esclarecimentos a respeito da infração penal que lhe é imputada
e, ao mesmo tempo, o momento em que o juiz poderá colher informações para formar
o seu convencimento. Cuida-se de um corolário da ampla defesa e do contraditório.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Apresenta características como pessoalidade, oralidade, judicialidade e
publicidade, em regra. Excepcionalmente, permite-se o interrogatório do acusado por
meio do sistema de videoconferência ou outro recurso semelhante. No que diz respeito
à publicidade, qualquer pessoa poderá presenciá-lo, exceto nas hipóteses descritas no
art. 792, § 1º, do CPP.

Nos termos do art. 185 do CPP, o interrogatório deverá, obrigatoriamente, ser


realizado com a presença do defensor, constituído ou nomeado.

O interrogatório, nos termos do art. 187 do CPP, será constituído de duas partes,
uma, referente à pessoa do acusado (interrogatório de qualificação) e outra, referente
aos fatos especificamente (interrogatório de mérito). Como regra, o interrogatório
acontecerá ao final da instrução, após a oitiva das testemunhas.

Quanto ao local de realização do interrogatório, quando o acusado estiver solto,


de acordo com o Código de Processo Penal, dar-se-á na sede do órgão julgador. Estando
preso, de outro lado, em regra, o acusado será interrogado na casa prisional. Por
exceção, o ato realizar-se-á por videoconferência. É possível também que o réu seja
interrogado por carta precatória.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Capítulo 6 - PROCESSO E PROCEDIMENTOS

6.1. Introdução

Antes de iniciarmos a classificação dos procedimentos penais, é importante


distinguirmos as terminologias “Processo” e “Procedimento”:

– Processo: é o instrumento utilizado pelo Estado-Juiz para aplicabilidade da jurisdição.


A jurisdição é uma das funções exercidas pelo Estado, instrumentalizada de forma
precípua pelo Poder Judiciário com o objetivo de aplicar o direito objetivo a
determinado caso concreto. Assim, o Estado-Juiz se vale do processo para prestar a
jurisdição.

– Procedimento: é o modo pelo qual os diversos atos desencadeiam a série constitutiva


do processo. O procedimento lista os passos do processo. Assim, enquanto o processo
funciona como direção no movimento, o procedimento é o modo e a forma em que é
movido o ato.

6.2. Classificação dos procedimentos penais

6.2.1 Procedimento comum

O procedimento comum é aplicado de forma subsidiária, ou seja, mediante


processo de exclusão. Analisaremos o procedimento comum sob as seguintes
subdivisões: procedimento ordinário, procedimento sumário e procedimento
sumaríssimo. A partir da Reforma de 2008 promovida no CPP, a classificação desses
procedimentos passou a ser verificada com base na quantidade de pena cominada à
infração penal, nos termos do art. 394 do CPP. Vejamos:

6.2.1.1 Procedimento ordinário

O procedimento comum ordinário será aplicado quando tiver por objeto infração
penal que tenha pena máxima cominada de valor igual ou superior a 4 (quatro) anos de
pena privativa de liberdade, conforme o art. 394, § 1º, I, do CPP.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Esse procedimento ocorre da seguinte maneira:

De início, com o oferecimento da denúncia ou queixa, o juiz poderá rejeitá-la,


nas hipóteses do art. 395 do CPP, ou recebê-la. Nesse primeiro momento, a análise do
juiz se atém aos aspectos formais da denúncia ou da queixa. Assim, não sendo o caso de
rejeição, o juiz procederá ao seu recebimento, nos termos do art. 396 do CPP. Ato
contínuo, o juiz ordenará a citação do réu, intimando-o para que responda à acusação,
por escrito, no prazo de 10 (dez) dias.

Com a resposta do acusado, o juiz poderá absolvê-lo sumariamente com base


nas hipóteses descritas no art. 397 do CPP. Caso contrário, não sendo hipótese de
absolvição sumária, o juiz designará audiência de instrução e julgamento, com a
intimação do acusado, do seu defensor, do Ministério Público e, se for o caso, do
querelante e do assistente de acusação.

A audiência deve ser realizada no prazo máximo de 60 (sessenta) dias. Na


audiência una haverá a tomada de declarações do ofendido, a inquirição das
testemunhas arroladas pela acusação e pela defesa, nesta ordem, bem como os
esclarecimentos dos peritos às acareações e ao reconhecimento de pessoas, com o
interrogatório do acusado ao final.

O número de testemunhas será de até 8 (oito) pessoas para a defesa e em igual


número para a acusação.

Em virtude da concentração dos atos processuais, todas as provas serão


produzidas no ato da audiência. Após, ao final da audiência, o Ministério Público, o
querelante e o assistente e, a seguir, o acusado poderão proceder ao requerimento de
diligências cuja necessidade advenha de circunstâncias ou fatos verificados na instrução.
Não sendo hipótese de requerimento de diligências, ou caso este seja indeferido, serão
oferecidas alegações finais orais por 20 (vinte) minutos, respectivamente, pela acusação
e pela defesa, prorrogáveis por mais 10 (dez) minutos, proferindo o juiz, a seguir, a
sentença.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
6.2.1.2 Procedimento sumário

O procedimento comum sumário será aplicado quando tiver por objeto infração
penal que tenha pena máxima cominada inferior a 4 (quatro) anos de pena privativa de
liberdade, conforme o art. 394, § 1º, II, do CPP.

Esse procedimento ocorre da seguinte maneira:

De início, o procedimento sumário é idêntico ao rito do procedimento ordinário,


aplicando-se as disposições dos arts. 395 a 399 do CPP. A diferença reside a partir da
audiência de instrução e julgamento, que deverá ser realizada no prazo máximo de 30
(trinta) dias. Na audiência, haverá a tomada de declarações do ofendido, a inquirição de
testemunhas pela acusação e pela defesa, nesta ordem, bem como o esclarecimento
dos peritos, as acareações e o reconhecimento de pessoas e coisas, com o interrogatório
do acusado ao final. Após, de acordo com o art. 531 do CPP, haverá o debate.

O número de testemunhas será de até 5 (cinco) pessoas para a defesa e em igual


número para a acusação.

As provas serão produzidas na audiência una. As alegações finais serão orais,


concedendo-se a palavra por 20 (vinte) minutos à acusação e à defesa, nos termos do
art. 534 do CPP. O juiz poderá prorrogar tal prazo por 10 (dez) minutos, devendo depois
proferir a sentença.

Destaca-se que nas infrações penais de menor potencial ofensivo, quando o


juizado especial criminal encaminhar ao juízo comum as peças existentes para a adoção
de outro procedimento, o procedimento sumário será observado, conforme o art. 538
do CPP.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XX EXAME DE ORDEM)- Hugo foi denunciado pela prática de um crime de furto qualificado
praticado contra Rosa. Na audiência de instrução e julgamento, Rosa confirmou a autoria
delitiva, mas apresentou versão repleta de contradições, inovando ao afirmar que estava junto
com Lúcia quando foi vítima do crime. O Ministério Público ouve os policiais que participaram
apenas, posteriormente, da prisão de Hugo e não deseja ouvir novas testemunhas. A defesa
requer a oitiva de Lúcia, mencionada por Rosa em seu testemunho, já que antes não tinha
conhecimento sobre a mesma, mas o juiz indefere afirmando que o advogado já havia arrolado
o número máximo de testemunhas em sua resposta à acusação. Diante dessa situação, o
advogado de Hugo deve alegar que
A) as testemunhas referidas não devem ser computadas para fins do número máximo de
testemunhas a serem ouvidas.
B) o Código de Processo Penal não traz número máximo de testemunhas de defesa, pois
previsão em contrário violaria o princípio da ampla defesa.
C) as testemunhas referidas não podem prestar compromisso de dizer a verdade.
D) o testemunho de Rosa, ao inovar os fatos, deve ser considerado prova ilícita, de modo a ser
desentranhado dos autos.
R: Alternativa A

6.2.1.3 Procedimento sumaríssimo

O procedimento comum sumaríssimo será aplicado quando tiver por objeto


infração penal de menor potencial ofensivo. A Lei 11.313/2006 conferiu nova redação
ao art. 61 da Lei 9.099/1995, que passou a dispor que são infrações penais de menor
ofensivo: “as contravenções penais e os crimes a que a lei comine pena máxima não
superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não cumulada com multa”.

De início, cabe lembrar que, no âmbito do procedimento do Juizado Especial


Criminal, o inquérito policial é substituído pela figura do termo circunstanciado.

Podemos dividir o procedimento sumaríssimo em duas fases:


CADERNO DE PROCESSO PENAL
– 1ª Fase:

Nos termos do art. 69 da Lei 9.099/1995, a autoridade policial que tem ciência
da ocorrência de uma infração lavrará termo circunstanciado e o encaminhará
imediatamente ao juizado, junto com o autor do fato e a vítima. De igual forma, não
será determinada prisão em flagrante nem se exigirá fiança ao autor do fato que for
imediatamente encaminhado ao juizado ou assumir o compromisso de
comparecimento. Posteriormente, ocorre a audiência preliminar, que observará o
seguinte:

– Composição Civil dos Danos: caracteriza-se pelo acordo indenizatório realizado pelo
autor do fato e a vítima, nas hipóteses em que as infrações acarretarem prejuízos morais
ou materiais à vítima. A conciliação será conduzida pelo juiz ou por conciliador sob sua
orientação, nos termos do art. 73, caput, da Lei 9.099/1995. Caso se trate de ação penal
privada ou de ação penal pública condicionada à representação, o acordo homologado
acarreta a renúncia ao direito de queixa ou de representação, de acordo com o art. 74,
parágrafo único, da Lei 9.099/1995. Em se tratando de ação penal de natureza pública
incondicionada, mesmo que tenha havido a homologação do acordo, o processo penal
poderá ter prosseguimento. Não sendo, contudo, obtida a composição civil dos danos,
o ofendido terá a oportunidade de exercer o direito de representação verbal, que será
reduzido a termo.

– Transação Penal: caracteriza-se pelo acordo celebrado entre o representante do


Ministério Público e o autor do fato, no qual é proposta a aplicação de penalidade
alternativa, com a dispensa da instauração do processo. A sua possibilidade deverá
observar os critérios previstos no art. 76, § 2º, da Lei 9.099/1995. Caso seja aceita a
proposta de transação penal, o juiz deverá aplicá-la por sentença que não importará
para fins de reincidência, sendo registrada apenas para impedir novamente o mesmo
benefício no prazo de cinco anos.

Súmula vinculante 35: A homologação da transação penal prevista no artigo 76 da


Lei 9.099/1995 não faz coisa julgada material e, descumpridas suas cláusulas,
retoma-se a situação anterior, possibilitando-se ao Ministério Público a continuidade
da persecução penal mediante oferecimento de denúncia ou requisição de inquérito
policial.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
– 2ª Fase:

A denúncia ou queixa oferecidas oralmente serão reduzidas a termo,


entregando-se cópia ao acusado, na forma do art. 78 da Lei 9.099/1995. Observa-se que,
se o acusado não estiver presente, a sua citação será realizada na forma dos arts. 66 e
68 da referida lei. Caso não seja encontrado, as peças existentes serão encaminhadas
ao juízo comum, tendo em vista não ser possível a citação por edital no rito sumaríssimo.

No dia e hora designados, se na fase preliminar não tiver havido conciliação ou


proposta de transação penal, será aberta a audiência. Inicia-se com a palavra ao
defensor para responder à acusação; recebimento ou não da denúncia ou queixa; oitiva
da vítima; oitiva das testemunhas de acusação e da defesa; interrogatório do autor do
fato; debates orais e sentença.

Importante registrar que nos crimes em que a pena mínima for igual ou inferior
a 1 (um) ano, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão
condicional do processo, por 2 (dois) a 4 (quatro) anos, desde que o acusado não esteja
sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais
requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena, nos termos do art. 77 do
CP. A suspensão condicional do processo está disposta no art. 89 da Lei 9.099/1995.

Súmula 243 do STJ: O benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação


às infrações penais cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade
delitiva, quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da
majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano.

Súmula 337 do STJ: É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação


do crime e na procedência parcial da pretensão punitiva.

Súmula 696 do STF: Reunidos os pressupostos legais permissivos da suspensão


condicional do processo, mas se recusando o Promotor de Justiça a propô-la, o Juiz,
dissentindo, remeterá a questão ao Procurador-Geral, aplicando-se por analogia o art.
28 do Código de Processo Penal.

Súmula 723 do STF: Não se admite a suspensão condicional do processo por crime
continuado, se a soma da pena mínima da infração mais grave com o aumento mínimo
de um sexto for superior a um ano.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Jurisprudência

Tema: Hipótese de inaplicabilidade da Súmula nº 337 do STJ


(Informativo nº 591 do STJ)

Após a sentença penal que condenou o agente pela prática de dois crimes
em concurso formal, o reconhecimento da prescrição da pretensão
punitiva em relação a apenas um dos crimes em razão da pena concreta
(art. 109 do CP) não autoriza a suspensão condicional do processo em
relação ao crime remanescente. O comando da Súmula n. 337 do STJ tem
a seguinte redação: “É cabível a suspensão condicional do processo na
desclassificação do crime e na procedência parcial da pretensão
punitiva.” Na hipótese em que a declaração de extinção de punibilidade
se dá pela pena concreta, verifica-se a existência de uma prévia
condenação. Realmente, somente a partir do quantum concreto,
observa-se qual seria o prazo prescricional, dentre aqueles inscritos no
art. 109 do CP. Ora, se a denúncia teve de ser julgada procedente
primeiro, para, somente após, ser reconhecida a prescrição, em razão da
pena concreta, não houve procedência parcial da pretensão punitiva – a
qual, de fato, foi integral – não sendo caso de incidência da Súmula n. 337
do STJ. Precedente citado do STF: RHC 116.399-BA, Primeira Turma, DJe
15/8/2013.

(REsp 1.500.029-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, 6ª Turma, julgado em


27/9/2016).
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XII EXAME DE ORDEM) Segundo a Lei dos Juizados Especiais, assinale a alternativa que
apresenta o procedimento correto.

A) Aberta a audiência, será dada a palavra ao defensor para responder à acusação, após o que
o Juiz receberá, ou não, a denúncia ou queixa; havendo recebimento, serão ouvidas a vítima e
as testemunhas de acusação e defesa, interrogando-se a seguir o acusado, se presente,
passando- se imediatamente aos debates orais e à prolação da sentença.

B) Da decisão de rejeição da denúncia ou queixa caberá recurso em sentido estrito, que deverá
ser interposto no prazo de cinco dias.

C) Os embargos de declaração são cabíveis quando, em sentença ou acórdão, houver


obscuridade, contradição, omissão ou dúvida, que deverão ser opostos em dois dias.

D) Se a complexidade do caso não permitir a formulação da denúncia oral em audiência, o


Ministério Público poderá requerer ao juiz dilação do prazo para apresentar denúncia escrita
nas próximas 72 horas.

R: Alternativa A

6.3. Procedimentos Especiais

6.3.1. Crimes afiançáveis imputados a funcionário público

O procedimento especial para crime afiançável imputado a funcionário público


permanece regrado pelos artigos 513 a 518 do CPP. As disposições do procedimento
comum ordinário serão aplicadas após o recebimento da denúncia.

Importante! Se o agente for titular de cargo ou função com foro especial por
prerrogativa de função, o rito a ser observado não será o dos artigos 513-518 do CPP.
Nas hipóteses em que o processo for de competência originária dos Tribunais,
deverão ser observadas as normas específicas.

A denúncia ou queixa deverá vir instruída com a documentação que confira


lastro probatório mínimo à acusação, ou seja, “com documentos ou justificação que
CADERNO DE PROCESSO PENAL
façam presumir a existência do delito ou com declaração fundamentada da
impossibilidade de apresentação de qualquer dessas provas”.

A especialidade do rito se manifesta quando o crime imputado a funcionário


público for afiançável (nos inafiançáveis segue o rito ordinário), ou seja, naquelas
infrações apenadas com reclusão cuja pena mínima não exceda a dois anos (crimes
praticados por funcionário público contra a administração em geral).

O magistrado, após a autuação da denúncia ou queixa que esteja em sua devida


forma, determinará a notificação do funcionário público para responder por escrito, no
prazo de 15 dias, à imputação que lhe é feita. Esta resposta antecede o recebimento da
peça acusatória. Caso o juiz se convença dos argumentos do acusado e de seu defensor
concernentes à inexistência do crime ou à improcedência do pedido condenatório,
poderá rejeitar a denúncia ou queixa de forma fundamentada.

Por outro lado, caso resolva pelo recebimento da denúncia ou da queixa, o


magistrado ordenará a citação do acusado, seguindo-se o rito comum ordinário,
independentemente da quantidade da pena cominada.

- Peculiaridades do procedimento

a) Obrigatoriedade da defesa preliminar: a apresentação da primeira defesa preliminar


é mera faculdade. Parcela da doutrina defende que a notificação para a sua
apresentação é obrigatória, sob pena de nulidade. O STJ, por sua vez, editou a Súmula
330 a respeito do tema.

Súmula 330 do STJ: é desnecessária a resposta preliminar de que trata o artigo 514 do
CPP, na ação penal instruída por inquérito policial.

b) Capacidade postulatória: a defesa preliminar, como peça facultativa, pode ser


apresentada pelo próprio denunciado ou por seu advogado. É ato que não exige
capacidade postulatória. Se o funcionário público não for encontrado para ser
CADERNO DE PROCESSO PENAL
notificado, ou estando fora da jurisdição, ser-lhe-á nomeado defensor para a prática do
ato. Desta forma, não há expedição de precatória nem notificação por edital.

c) Perda da condição de funcionário público: na hipótese de perda da condição de


funcionário público, não terá mais direito à defesa preliminar.

d) Concurso de infratores e infrações: quando tiver mais de um réu, a primeira defesa


preliminar só será oportunizada àqueles que estejam na condição de funcionário
público. Por seu turno, havendo concurso de crimes, o STF e o STJ assentaram
recentemente que NÃO caberá a defesa preliminar prevista no art. 514 do CPP se a
denúncia imputar ao agente público crime funcional e crime não funcional.

e) Efeitos da rejeição da inicial: de acordo com a doutrina majoritária, a rejeição teria


força de decisão interlocutória terminativa.

6.3.2. Crimes contra a honra

Com a promulgação da Lei 10.259/01, que instituiu os Juizados Especiais


Federais, a doutrina e a jurisprudência majoritária passaram a entender que a definição
de delito de menor potencial ofensivo é baseada, exclusivamente, no quantitativo
máximo da pena em abstrato, não se excepcionando mais a especialidade do rito,
conforme o artigo 61 da Lei 9.099/95.

Dessa forma, quase todos os delitos contra a honra passaram a ser processados
perante os juizados, com algumas exceções:

a) dos crimes eleitorais, onde não se tem um Juizado Especial Eleitoral;

b) dos crimes contra honra perpetrados por agente com prerrogativa de função;

c) se o fato, em razão da sua complexidade, não permitir o oferecimento da inicial dos


Juizados;

d) havendo necessidade de citação por edital, por ser incompatível com o rito
sumaríssimo.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Assim, o procedimento especial para os crimes contra a honra passou a ser
aplicado de forma restrita, uma vez que, em regra, tais infrações penais serão
processadas no seio dos Juizados Especiais.

Importante! O rito se particulariza, notadamente, pela previsão da tentativa


conciliatória que deverá preceder o recebimento da queixa (ação penal privada),
na qual as partes serão ouvidas separadamente, sem a presença dos seus
advogados, não se lavrando termo. Após a verificação da conciliação, o juiz, depois
de ouvir as partes em separado, promoverá o entendimento entre elas, na sua
presença.

- Não comparecimento do querelante: tem-se entendido majoritariamente pelo


reconhecimento da perempção, como sanção processual pela ausência do ofendido a
um ato da persecução penal, o que levaria à extinção da punibilidade.

- Não comparecimento do querelado: poderá levar à condução coercitiva, ou, caso o


magistrado não se valha dessa alternativa, poderá haver a análise imediata da
admissibilidade da inicial, com o recebimento ou não da queixa-crime.

Caso não haja conciliação em audiência designada para tal fim, o juiz receberá
ou rejeitará a queixa-crime. Se for recebida, o acusado será citado para oferecer
resposta à acusação no prazo de 10 dias, conforme dispõe o artigo 396 do CPP.

Se houver oferecimento de exceção da verdade ou da notoriedade do fato, será


dada oportunidade para o querelante apresentar resposta em dois dias, com a
possibilidade de inquirição de testemunhas arroladas na queixa ou de outras indicadas
na exceção ou mesmo da contestação.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XIV EXAME DE ORDEM) Fábio, vítima de calúnia realizada por Renato e Abel, decide mover
ação penal privada em face de ambos. Após o ajuizamento da ação, os autos são encaminhados
ao Ministério Público, pois Fábio pretende desistir da ação penal privada movida apenas em
face de Renato para prosseguir em face de Abel. Diante dos fatos narrados, assinale a opção
correta.
A) A ação penal privada é divisível; logo, Fábio poderá desistir da ação penal apenas em face de
Renato.
B) A ação penal privada é indivisível; logo, Fábio não poderá desistir da ação penal apenas em
face de Renato.
C) A ação penal privada é obrigatória, por conta do princípio da obrigatoriedade da ação penal.
D) A ação penal privada é indisponível; logo, Fábio não poderá desistir da ação penal apenas em
face de Renato.
R: Alternativa B

6.4 Procedimento do Tribunal do Júri

Destaca-se que o procedimento do Júri tem previsão no art. 5º, XXXVIII, da


CRFB/1988, que serve como instrumento concretizador do nosso regime democrático.
É formado pelo Juiz Presidente e por 25 jurados, que detêm a competência para julgar
os crimes dolosos contra a vida, dotado de soberania quanto às suas decisões, baseada
no Sistema da Íntima Convicção, ou seja, sem a fundamentação da decisão. De acordo
com a doutrina majoritária, o procedimento do Júri é bifásico, que se subdivide em:
judicium accusatione (juízo da acusação) e judicium causae (juízo da causa). Vejamos:

– 1ª Fase – judicium accusatione (juízo de acusação):

O juiz deverá, após o recebimento da denúncia ou da queixa, ordenar a citação


do acusado para responder a acusação, por escrito, no prazo de 10 (dez) dias.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
O número de testemunhas será de até 8 (oito) pessoas para a defesa e em igual
número para a acusação.

Apresentada a defesa, o Ministério Público ou o querelante serão ouvidos em


até 5 (cinco) dias sobre preliminares e documentos, e depois o juiz determinará a
inquirição das testemunhas e a realização das diligências requeridas pelas partes no
prazo máximo de 10 (dez) dias.

De acordo com o art. 411 do CPP, na audiência de instrução haverá a tomada de


declarações do ofendido e, se possível, a inquirição das testemunhas arroladas pela
acusação e pela defesa, nesta ordem. Além disso, proceder-se-á aos esclarecimentos
dos peritos, às acareações e ao reconhecimento de pessoas e coisas, interrogando-se,
em seguida, o acusado. Procede-se ao debate, em que cada parte terá 20 (vinte) minutos
para alegações orais, e, encerrados os debates, o juiz proferirá decisão, ou o fará em 10
(dez) dias, ordenando que os autos para tanto lhe sejam conclusos, de forma que esse
procedimento não demore mais que 90 (noventa) dias.

Caso o juiz fique convencido da presença da materialidade do fato e da existência


de indícios suficientes de autoria ou de participação, pronunciará o acusado
fundamentadamente. Caso contrário, o juiz, de forma fundamentada, poderá
impronunciar o acusado, e, se for provada a inexistência do fato, ou não ser o acusado
o autor ou partícipe, ou o fato não constituir crime, ou, ainda, se for demonstrada causa
de isenção de pena ou de exclusão do crime, o juiz absolverá sumariamente desde logo
o acusado, na forma do art. 416 do CPP. Também, o juiz poderá desclassificar a
imputação criminosa formulada pelo Ministério Público.

Conclui-se que a primeira tem por objeto a admissibilidade do juízo de acusação


perante o Tribunal do Júri. Essa fase do procedimento inicia-se com o oferecimento da
denúncia ou queixa e termina com a decisão da pronúncia, impronúncia,
desclassificação ou absolvição sumária.

Jurisprudências
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Tema: Reexame necessário de sentença absolutória sumária no Júri
(Informativo nº 574 do STJ)

Após a entrada em vigor da Lei n. 11.689/2008, em 8 de agosto de 2008,


o reexame necessário de decisão absolutória sumária proferida em
procedimento do Tribunal do Júri que estiver pendente de apreciação
não deve ser examinado pelo Tribunal ad quem, mesmo que o
encaminhamento da decisão absolutória à instância superior tenha
ocorrido antes da entrada em vigor da referida Lei. Por força do que
dispõe o art. 2º do CPP, as normas processuais possuem aplicação
imediata quando de sua entrada em vigor. Assim, as remessas necessárias
não remetidas aos Tribunais ou não julgadas por estes até 8 de agosto de
2008, data em que a Lei n. 11.689/2008 – que provocou a eliminação do
recurso de ofício nos casos de absolvição sumária – passou a ser exigida,
em virtude da vacatio legis de 60 dias, não podem mais ser apreciadas,
uma vez que tal procedimento, necessário apenas para dar eficácia à
sentença de absolvição sumária no procedimento do Tribunal do Júri, já
não mais está em vigor, por força do princípio tempus regit actum. Vale
dizer, a norma adjetiva que simplesmente altera o rito procedimental,
sem qualquer desdobramento de direito material, tem aplicação
imediata. Além disso, não obstante a sentença de absolvição sumária e o
encaminhamento da remessa necessária ao Tribunal ocorrer sob a égide
da antiga redação do CPP e o julgamento do recurso de ofício ser
posterior à reforma promovida pela Lei n. 11.689/2008, nessas
circunstâncias, a condição de eficácia da sentença de absolvição sumária
não se encontra praticada a tempo, sendo atingida pela nova legislação,
tornando-se despicienda. Em outras palavras, o ato processual que serve
de parâmetro para verificação da incidência do princípio tempus regit
actum é o julgamento do recurso de ofício e não o simples
encaminhamento do procedimento para o Tribunal. Caso houvesse
ocorrido o julgamento antes de 8 de agosto de 2008, não haveria dúvidas
acerca da validade do ato, ex vi da parte final do art. 2º do CPP. Ademais,
CADERNO DE PROCESSO PENAL
convém apontar elucidativo entendimento doutrinário de que “a
remessa necessária não é recurso, mas condição de eficácia da sentença.
Sendo figura processual distinta da do recurso, a ela não se aplicam as
regras de direito intertemporal processual vigentes para eles: a) o
cabimento do recurso rege-se pela lei vigente à época da prolação da
decisão; b) o procedimento do recurso rege-se pela lei vigente à época da
prolação da decisão”. Por essa razão, não é possível estender o raciocínio
empregado para o cabimento do protesto por novo júri em processos
sentenciados antes da Lei n. 11.689/2008 para a remessa necessária ou
recurso de ofício, uma vez que estaríamos a comparar institutos com
diferentes naturezas jurídicas. Isso porque o protesto por novo júri era
recurso, cujo pressuposto básico de interposição, dentre outros, é a
voluntariedade, ou seja, “a sua interposição depende, exclusivamente, do
desejo da parte de contrariar a decisão proferida”. Por sua vez, a remessa
necessária ou recurso de ofício, “trata-se de terminologia equivocada do
Código de Processo Penal, uma vez que recurso é demonstração do
inconformismo, visando à reforma do julgado, motivo pelo qual não tem
cabimento sustentar que o juiz, ao decidir qualquer questão, 'recorre' de
ofício de seu próprio julgado”. Nessa linha intelectiva, reconhecer o
cabimento do protesto por novo júri para processos já sentenciados ao
tempo da edição da Lei n. 11.689/2008 é dar primazia ao postulado
constitucional do devido processo legal, garantindo ao réu condenado a
pena igual ou superior a 20 anos de reclusão antes de 8 de agosto de 2008
o direito a um novo julgamento. Em contrapartida, o reexame necessário
para as sentenças de absolvição sumária não é direito, mas sim
procedimento de perfectibilização da coisa julgada, sem o qual, nos
termos da Súmula n. 423 do STF, ela não ocorreria.

(HC 278.124-PI, Rel. Min. Leopoldo de Arruda Raposo (Desembargador


convocado do TJ/PE), Rel. para acórdão Min. Felix Fischer, 5ª Turma,
julgado em 9/6/2015).
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Tema: Extensão da decisão de desclassificação no Júri e corréu
(Informativo nº 583 do STJ)

Ocorrido o desmembramento da ação penal que imputava aos


coacusados a prática de homicídio doloso tentado decorrente da prática
de “racha”, a desclassificação em decisão do Tribunal do Júri do crime de
homicídio doloso tentado para o delito de lesões corporais graves
ocorrida em benefício do corréu (causador direto da colisão da que
decorreram os ferimentos suportados pela vítima) é extensível,
independentemente de recurso ou nova decisão do Tribunal Popular, a
outro corréu (condutor do outro veículo) investido de igual consciência e
vontade de participar da mesma conduta e não responsável direto pelas
citadas lesões. Em primeiro lugar, quanto à impossibilidade de se
estender a corréu decisão proferida em sede que não seja recursal, tal
questão foi enfrentada pelo STF, por ocasião do julgamento do HC
101.118-MS (Segunda Turma, DJe 26/8/2010), segundo o qual o art. 580
do CPP tem como objetivo dar efetividade, no plano jurídico, à garantia
de equidade. Com efeito, essa é a interpretação mais coerente com o
espírito da lei. O fato de a decisão cuja extensão se pretende não ser
proferida em recurso não inibe que ela seja estendida a corréu. Do
contrário, estaremos permitindo que corréus em situação idêntica
venham a ser julgados de forma diferente, o que não condiz com a
garantia da equidade. Ademais, é indiferente o fato de não estarmos
diante de decisão conflitante proferida por um mesmo júri, até porque,
quando a lei determina estender uma decisão proferida em favor de um
corréu para outro corréu, a ideia é de que eles não tenham sido
submetidos a uma única decisão, a uma decisão simultânea. Nesse
contexto, não se vê como permitir que um dos corréus corra o risco de
sofrer reprimenda diversa daquela imposta ao outro corréu, sem que haja
qualquer motivo que diferencie a situação de ambos os denunciados (não
é hipótese de participação de menor importância ou cooperação
dolosamente distinta). Acrescente-se que não se vê aqui eventual
CADERNO DE PROCESSO PENAL
usurpação da competência do Tribunal do Júri, considerando-se que a
decisão que se pretende estender ao paciente foi proferida por um
Tribunal leigo.

(RHC 67.383-SP, Rel. Min. Maria Thereza de Assis Moura, Rel. para
acórdão Min. Sebastião Reis Júnior, 6ª Turma, julgado em 5/5/2016).

– 2ª Fase – judicium causae (juízo da causa):

A segunda fase se inicia com a preclusão da decisão de pronúncia. A partir desse


momento ocorre a preparação do processo para o julgamento em Plenário. Disciplina-
se dos arts. 422 a 452 do CPP.

Destaca-se a possibilidade do Desaforamento, previsto no art. 427 do CPP, que


poderá ser determinado por requerimento do Ministério Público, do assistente, do
querelante, do acusado ou representação do juiz competente, para outra comarca da
mesma região nas seguintes hipóteses: por interesse da ordem pública; quando houver
dúvida sobre a imparcialidade do júri; por segurança pessoal do acusado ou quando
houver comprovação de excesso de serviço, sendo que, neste último caso, serão ouvidos
o juiz presidente e a parte contrária, se o julgamento não puder ser realizado no prazo
de 6 (seis) meses, contado do trânsito em julgado da decisão de pronúncia, conforme o
art. 428 do CPP.

Prestado o compromisso pelos jurados, a instrução plenária será iniciada quando


o Juiz Presidente, o Ministério Público, o assistente, o querelante e o defensor do
acusado tomarem, de forma sucessiva e diretamente, as declarações do ofendido, se
possível, e inquirirem as testemunhas arroladas pela acusação. A inquirição das
testemunhas arroladas pela defesa será feita pelo defensor do acusado antes do
Ministério Público e do assistente.

O número de testemunhas será de até 5 (cinco) pessoas para a defesa e em igual


número para a acusação.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Após a instrução, a acusação terá a palavra e, em seguida, a defesa, com o tempo
de uma hora e meia para cada, e de uma hora para a réplica e outro tanto para a tréplica.
Não será permitida a leitura de documento ou a exibição de objeto que não tiver sido
juntado aos autos com a antecedência mínima de 3 (três) dias úteis, dando-se ciência à
outra parte. Se o Conselho de Sentença, formado por 7 (sete) jurados, estiver habilitado
a julgar, haverá o questionamento sobre a matéria de fato na forma dos quesitos, o que
acarretará a condenação ou absolvição do acusado, pela decisão tomada por maioria de
votos. Encerrada a votação dos quesitos, o Juiz Presidente prolatará a sentença, nos
termos do art. 472 do CPP.

Súmula 162 do STF: É absoluta a nulidade do julgamento pelo júri, quando os quesitos
da defesa não precedem aos das circunstâncias agravantes.

Súmula 206 do STF: É nulo o julgamento ulterior pelo júri com a participação de
jurado que funcionou em julgamento anterior do mesmo processo.

Súmula 603 do STF: A competência para o processo e julgamento de latrocínio é do


Juiz singular e não do Tribunal do Júri.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XXIII EXAME DE ORDEM – Questão 64) - Mateus foi denunciado pela prática de um crime de
homicídio qualificado, sendo narrado na denúncia que a motivação do crime seria guerra entre
facções do tráfico. Cinco dias antes do julgamento em plenário, o Ministério Público junta ao
processo a Folha de Antecedentes Criminais (FAC) do acusado, conforme requerido quando da
manifestação em diligências, em que, de fato, constavam anotações referentes a processos pela
prática do crime da Lei de Drogas. Apenas três dias úteis antes do julgamento, a defesa de
Mateus vem a tomar conhecimento da juntada da FAC. No dia do julgamento, após a
manifestação oral da defesa em plenário, indagado pelo juiz presidente sobre o interesse em se
manifestar em réplica, o promotor de justiça afirma negativamente, reiterando aos jurados que
as provas estão muito claras e que o réu deve ser condenado, não havendo necessidade de
maiores explanações. Posteriormente, o juiz presidente nega à defesa o direito de tréplica.
Mateus é condenado. Diante da situação narrada, o (a) advogado (a) de Mateus, em sede de
apelação, deverá buscar
A) a nulidade do julgamento, pois foi juntada documentação sem a antecedência necessária
exigida pela lei.
B) o afastamento da qualificadora pelo Tribunal, pois foi juntada documentação que influenciou
seu reconhecimento sem a antecedência necessária exigida pela lei.
C) a nulidade do julgamento, pois o direito de tréplica da defesa independe da réplica do
Ministério Público.
D) a nulidade do julgamento, pois houve réplica por parte do Ministério Público, de modo que
deveria ser deferido à defesa o direito de tréplica.

R: Alternativa D

R: Alternativa C
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Capítulo 7 - PRISÃO

7.1. Conceito

A prisão se conceitua como a restrição da liberdade de locomoção determinada


por ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente ou em virtude
de flagrante delito, conforme o art. 5º, LXI, da CRFB/1988.

7.2. Espécies

7.2.1. Prisão em flagrante

A prisão em flagrante é formalizada pelo auto de prisão em flagrante. De acordo


com a inovação da Lei 13.257/2016 inserida no art. 304, § 4º, do CPP, da lavratura do
auto de prisão em flagrante deverá constar a informação sobre a existência de filhos,
respectivas idades e se possuem alguma deficiência e nome e o contato de eventual
contato pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa.

Podemos classificar as espécies de flagrante da seguinte forma:

– Quanto ao sujeito ativo (art. 301 do CPP):

a) Flagrante Facultativo: se caracteriza pela faculdade que possui qualquer pessoa do


povo, diante de uma situação de flagrante delito, em efetuar ou não a prisão do agente.
b) Flagrante Obrigatório: se caracteriza pelo dever dos agentes policiais em efetuar a
prisão da pessoa que se encontra em situação de flagrante delito.

– Quanto à situação de flagrância (art. 302 do CPP):

a) Flagrante Próprio: é aquele em que o agente é flagrado cometendo uma infração


penal ou quando acaba de cometê-la.
b) Flagrante Impróprio: é aquele em que o agente é perseguido, logo após cometer o
ilícito, em situação que se faça presumir ser o autor da infração.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
c) Flagrante Presumido: é aquele em que o agente é preso, logo depois de cometer a
infração, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser ele o
autor da infração.

– Quanto ao momento da atuação policial:

a) Flagrante Prorrogado: é aquele em que é adiada a intervenção policial com vistas à


maior efetividade na ação.
b) Flagrante Esperado: é aquele em que o agente policial ou terceiro sabedores da
realização de uma infração penal aguardam o momento do seu cometimento, sem
qualquer tipo de provocação.

– Quanto à ilicitude:

a) Flagrante Preparado: é aquele em que alguém induz o agente a praticar uma infração
penal e, ao mesmo tempo, toma providências para evitar a consumação.
b) Flagrante Forjado: é aquele em que a autoridade policial ou terceiro criam provas da
existência de uma infração penal que, na verdade, não foi cometida.

Súmula 145 do STF: Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia
torna impossível a sua consumação.

De acordo com a nova redação do art. 310 do CPP conferida pela Lei
12.403/2011, verifica-se que, ao receber o auto de prisão em flagrante, o juiz deverá,
fundamentadamente: relaxar a prisão ilegal; converter a prisão em flagrante em
preventiva ou conceder liberdade provisória, com ou sem fiança.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XXIII EXAME DE ORDEM) - Paulo foi preso em flagrante pela prática do crime de corrupção,
sendo encaminhado para a Delegacia. Ao tomar conhecimento dos fatos, a mãe de Paulo entra,
de imediato, em contato com o advogado, solicitando esclarecimentos e pedindo auxílio para
seu filho. De acordo com a situação apresentada, com base na jurisprudência dos Tribunais
Superiores, deverá o advogado esclarecer que
A) diante do caráter inquisitivo do inquérito policial, Paulo não poderá ser assistido pelo
advogado na delegacia.
B) a presença da defesa técnica, quando da lavratura do auto de prisão em flagrante, é sempre
imprescindível, de modo que, caso não esteja presente, todo o procedimento será considerado
nulo.
C) decretado o sigilo do procedimento, o advogado não poderá ter acesso aos elementos
informativos nele constantes, ainda que já documentados no procedimento.
D) a Paulo deve ser garantida, na delegacia, a possibilidade de assistência de advogado, de modo
que existe uma faculdade na contratação de seus serviços para acompanhamento do
procedimento em sede policial.

R: Alternativa D

7.2.2. Prisão temporária

É uma medida cautelar, restritiva da liberdade, destinada a possibilitar as


investigações de infrações penais graves durante a persecução penal.

O art. 1º da Lei 7.960/1989 prevê as hipóteses de cabimento:

– quando imprescindível para as investigações do inquérito policial (inciso I);

– quando o indiciado não tiver residência fixa ou não fornecer elementos necessários ao
esclarecimento de sua identidade (inciso II); e

R: Alternativa B
– quando houver fundadas razões, de acordo com qualquer prova admitida na legislação
penal, da autoria ou participação do indiciado nas hipóteses dos crimes listados.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
– Momento/Legitimados: a prisão temporária só pode ser decretada na fase do
inquérito policial, pela autoridade judiciária, por representação da autoridade policial
ou requerimento do Ministério Público, nos termos do art. 2º da Lei 7.960/1989.

– Prazo: o prazo máximo de duração é de 5 (cinco) dias, prorrogável por igual período,
em caso de extrema e comprovada necessidade. Em se tratando de crimes hediondos,
tortura, tráfico ilícito de drogas e terrorismo, o prazo será de 30 (trinta) dias,
prorrogáveis por igual período, nos termos do art. 2º, § 4º, da Lei 8.072/1990.

Aplicação Prática

(XVI Exame de Ordem – Questão 68) A prisão temporária pode ser definida como uma medida
cautelar restritiva, decretada por tempo determinado, destinada a possibilitar as investigações
de certos crimes considerados pelo legislador como graves, antes da propositura da ação penal.
Sobre o tema, assinale a afirmativa correta.
A) Assim como a prisão preventiva, pode ser decretada de ofício pelo juiz, após requerimento
do Ministério Público ou representação da autoridade policial.
B) Sendo o crime investigado hediondo, o prazo poderá ser fixado em, no máximo, 15 dias,
prorrogáveis uma vez pelo mesmo período.
C) Findo o prazo da temporária sem prorrogação, o preso deve ser imediatamente solto.
D) O preso, em razão de prisão temporária, poderá ficar detido no mesmo local em que se
encontram os presos provisórios ou os condenados definitivos.

R: Alternativa C

7.2.3. Prisão preventiva

Com a inovação da Lei 12.403/2011, a prisão preventiva passou a ter natureza


excepcional e subsidiária, em razão da expressa previsão de que só será determinada
quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar presente no art.
319 do CPP.

– Momento/Legitimados: tem cabimento na fase da investigação preliminar – inquérito


policial – e na fase do processo penal. Durante a fase do inquérito policial, depende de
representação da autoridade policial ou do requerimento do Ministério Público. Já na
R: Alternativa B
CADERNO DE PROCESSO PENAL
fase do processo penal, os legitimados a requerer a decretação da preventiva são: o
Ministério Público, o querelante e o assistente de acusação.

– Requisitos legais (arts. 312 e 313 do CPP): a prisão preventiva só poderá ser decretada
quando não for cabível a sua substituição por outra medida cautelar, bem como quando
estiverem presentes os requisitos previstos nos arts. 312 e 313 do CPP.

– Pressupostos: prova da existência do crime e indício suficiente de autoria.

– Hipóteses de cabimento:

a) nos crimes dolosos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro)
anos;
b) reincidente em crime doloso, ressalvado o disposto no art. 64, I, do CP;
c) se o crime envolver violência doméstica e familiar contra mulher, criança,
adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a execução das
medidas protetivas de urgência;
d) quando houver dúvida sobre a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer
elementos suficientes para esclarecê-la, devendo o preso ser colocado imediatamente
em liberdade após a identificação, salvo se outra hipótese recomendar a manutenção
da medida.

– Fundamentos: a prisão preventiva poderá ser decretada por quaisquer dos seguintes
fundamentos: por garantia da ordem pública; por garantia da ordem econômica; por
conveniência da instrução criminal; para assegurar a aplicação da lei penal e por
descumprimento de qualquer das obrigações impostas por força de outras medidas
cautelares.

– Descabimento: não é cabível nos crimes dolosos com pena privativa de liberdade
máxima igual ou inferior a quatro anos, salvo em caso de reincidente doloso; em crimes
culposos; em contravenção penal; quando verificado, pelas provas constantes nos
autos, que o agente agiu em alguma das hipóteses de exclusão de ilicitude do art. 23 do
CP.
CADERNO DE PROCESSO PENAL

Jurisprudência

Tema: A prática de ato infracional como fundamento para a decretação


da prisão preventiva (Informativo nº 585 do STJ)

A prática de ato infracional durante a adolescência pode servir de


fundamento para a decretação de prisão preventiva, sendo indispensável
para tanto que o juiz observe como critérios orientadores: a) a particular
gravidade concreta do ato infracional, não bastando mencionar sua
equivalência a crime abstratamente considerado grave; b) a distância
temporal entre o ato infracional e o crime que deu origem ao processo
(ou inquérito policial) no qual se deve decidir sobre a decretação da
prisão preventiva; e c) a comprovação desse ato infracional anterior, de
sorte a não pairar dúvidas sobre o reconhecimento judicial de sua
ocorrência. No que concerne às medidas cautelares pessoais, o conceito
de periculum libertatis denota exatamente a percepção de que a
liberdade do investigado ou acusado pode trazer prejuízos futuros para a
instrução, para a aplicação da lei ou para a ordem pública. É válida a
prisão preventiva para garantia da ordem pública, de maneira a evitar a
prática de novos crimes pelo investigado ou acusado, ante a sua
periculosidade, manifestada na forma de execução do crime, ou no seu
comportamento anterior ou posterior à prática ilícita. Ademais, não há
como escapar da necessidade de aferir se o bem jurídico sob tutela
cautelar encontra-se sob risco de dano, o que, no âmbito criminal, se
identifica com a expressão periculum libertatis, isto é, o perigo que a
liberdade do investigado ou réu representa para a instrução criminal, a
aplicação da lei penal ou a ordem pública e/ou econômica. Ao menos no
que toca a este último fundamento, sua invocação como motivo para a
decretação da cautela extrema funda-se em avaliação concreta da
periculosidade do agente, ou seja, a probabilidade de que o autor de um
CADERNO DE PROCESSO PENAL
facto-crime repita a sua conduta típica e ilícita. Assim, a probabilidade de
recidiva do comportamento criminoso se afere em face do passado do
réu ou pelas circunstâncias específicas relativas ao modus operandi do
crime sob exame. Lembre-se que, também para fins cautelares, se
aceitam como válidos os registros em folha de antecedentes penais ainda
não definitivamente convolados em sentenças condenatórias, porquanto
se, de um lado, não servem para elevar a pena, permitem ao juiz da causa,
por outro lado, avaliar se a prisão do réu/investigado é necessária para
preservar a ordem pública, ante a perspectiva de cometimento de novos
crimes pelo acusado. Ora, se uma pessoa, recém ingressa na maioridade
penal, comete crime grave e possui histórico de atos infracionais também
graves, indicadores de seu comportamento violento, como desconsiderar
tais dados para a avaliação judicial sobre a sua periculosidade? Sobre essa
questão, duas considerações mostram-se importantes para o debate. A
primeira delas diz respeito à natureza e ao grau de cognoscibilidade do
juízo cautelar, em todo diverso – ainda que em relação de
instrumentalidade – ao juízo de condenação. Deveras, para um
provimento cautelar qualquer, nomeadamente o que impõe a
segregação provisória do réu, basta, em conformidade com o texto do
art. 312 do CPP, prova da existência do crime e indício suficiente de
autoria. Já para o juízo de condenação, é necessária a prova da existência
do crime e a prova cabal de sua autoria. Outrossim, o juízo cautelar labora
com aparência (verossimilhança) do direito subjacente à postulação,
mero juízo hipotético, alcançado por meio de cognição limitada (na
extensão) e perfunctória (na profundidade), ainda assim idônea para
permitir ao julgador decidir provisoriamente, tendo em mira a
preservação de um interesse ou bem que se encontra ameaçado de
perecimento ou dano ante a manutenção do status quo. Por sua vez, o
juízo de mérito labora com a certeza sobre os fatos constitutivos, é
definitivo e impõe cognição exauriente e ampla sobre os fatos articulados
e as provas produzidas, somente com a qual se legitima a condenação do
acusado. Dizer, então, que não podem ser extraídas informações sobre
CADERNO DE PROCESSO PENAL
os processos por ato infracional para fins processuais, tout court, é, com
a mais respeitosa vênia, afirmação sujeita a refutação. Evidentemente
não cabe considerar atos infracionais como antecedentes penais,
bastando, para dar lastro a tal assertiva, lembrar que ato infracional não
é crime, que medida socioeducativa não é pena, inclusive quanto aos fins
a que se destina, que o adolescente não é imputável, que a sentença final
nos processos por ato infracional não é condenação. Daí, porém, a não
poder utilizar, para avaliação judicial de natureza cautelar – que não
pressupõe juízo de culpabilidade, mas de periculosidade do agente – o
histórico recente de vida do acusado, ao tempo em que ainda não atingira
a maioridade, vai uma grande distância. Os registros sobre o passado de
uma pessoa, seja ela quem for, não podem ser desconsiderados para fins
cautelares. A avaliação sobre a periculosidade de alguém impõe que se
perscrute todo o seu histórico de vida, em especial o seu comportamento
perante a comunidade, em atos exteriores, cujas consequências tenham
sido sentidas no âmbito social, quais os atos infracionais praticados. Se
estes não servem, por óbvio, como antecedentes penais e muito menos
para firmar reincidência (porque tais conceitos implicam a ideia de
“crime” anterior), não podem ser ignorados para aferir o risco que a
sociedade corre com a liberdade plena do acusado. É de lembrar,
outrossim, que a proteção estatal prevista na Lei n. 8.069/1990 (ECA), no
seu art. 143, é voltada ao adolescente (e à criança), condição que o réu
deixou de ostentar ao tornar-se imputável. Com efeito, se, durante a
infância e a adolescência do ser humano, é imperiosa a maior proteção
estatal, a justificar todas as cautelas e peculiaridades no processo de
apuração de atos contrários à ordem jurídica, inclusive com a imposição
do sigilo sobre os atos judiciais, policiais e administrativos que digam
respeito a crianças e adolescentes a que se atribua autoria de ato
infracional (art. 143 do ECA), tal dever de proteção cessa com a
maioridade penal. Não existe, portanto, vedação legal a que, no exercício
da jurisdição criminal, utilize o juiz, excepcionalmente, dos registros
relativos a atos infracionais praticados pelo acusado quando ainda
CADERNO DE PROCESSO PENAL
adolescente. A toda evidência, isso não equivale a sustentar a
possibilidade de decretar-se a prisão preventiva, para garantia da ordem
pública, simplesmente porque o réu cometeu um ato infracional anterior.
O raciocínio é o mesmo que se utiliza para desconsiderar antecedente
penal que, por dizer respeito a fato sem maior gravidade, ou por registrar
fato já longínquo no tempo, não deve, automaticamente, supedanear o
decreto preventivo. Não será, pois, todo e qualquer ato infracional
praticado pelo acusado quando ainda adolescente que poderá render-lhe
juízo de periculosidade e autorizar, por conseguinte, a inflição de custódia
ante tempus. Não teria sentido, seria um verdadeiro despropósito
atentatório à excepcionalidade da providência cautelar extrema,
considerar, por exemplo, atos infracionais equivalentes a crime de furto
ou de falsificação de documento como indicadores da necessidade da
prisão preventiva. De igual modo, mesmo em se tratando de atos
infracionais graves, equivalentes a crimes de homicídio, roubo ou
estupro, não se justificaria a segregação cautelar do réu ante a
constatação de que tais atos infracionais foram perpetrados há anos, sem
que se tenha notícia de novos atos graves posteriores. Seria, pois,
indispensável que a autoridade judiciária competente, para a
consideração dos atos infracionais do então adolescente, averiguasse: a)
a particular gravidade concreta do ato infracional, não bastando
mencionar sua equivalência a crime abstratamente considerado grave; b)
a distância temporal entre o ato infracional e o crime que deu origem ao
processo (ou inquérito policial) no qual se deve decidir sobre a
decretação da prisão preventiva; e c) a comprovação desse ato infracional
anterior, de sorte a não pairar dúvidas sobre o reconhecimento judicial
de sua ocorrência. Assim, propõem-se os mencionados critérios
orientadores que o juiz deve considerar na busca de um ponto de
equilíbrio no embate, imanente ao processo penal, entre o poder
punitivo do Estado e o direito à liberdade do indivíduo.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
(RHC 63.855-MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, Rel. para acórdão Min. Rogerio
Schietti Cruz, Terceira Seção, julgado em 11/5/2016).

7.2.4. Prisão domiciliar

– Conceito: caracteriza-se pelo recolhimento do indiciado ou acusado em sua residência,


só podendo dela ausentar-se mediante autorização judicial.

– Cabimento: nas hipóteses listadas no art. 318 do CPP, quais sejam: maior de 80
(oitenta) anos; extremamente debilitado por motivo de doença grave; imprescindível
aos cuidados especiais de menor de 6 (seis) anos de idade ou com deficiência; gestante;
mulher com filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos e homem, caso seja o
único responsável pelos cuidados do filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos.

7.3. Medidas cautelares diversas da prisão

As medidas cautelares diversas da prisão estão elencadas no art. 319 do CPP.


Deverão ser aplicadas observando-se o binômio necessidade/adequação, nos termos do
art. 282 do CPP. Elas podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente, conforme o art.
282, § 1º, do CPP.

– Momento/Legitimados: no curso da investigação criminal, por representação da


autoridade policial ou mediante requerimento do Ministério Público. Durante o
processo criminal, poderão ser decretadas pelo juiz, de ofício ou a requerimento das
partes.

- Características:

 Excepcionalidade: a aplicabilidade das medidas cautelares deverá ser exceção,


tendo em vista a implicação em maior ou menor grau à restrição ao exercício de
garantias fundamentais asseguradas na CRFB/88.
 Jurisdicionalidade: significa que as medidas cautelares devem ser impostas pelo
Poder Judiciário. Excepciona-se, contudo, a possibilidade da autoridade policial
CADERNO DE PROCESSO PENAL
arbitrar fiança nos crimes cuja pena máxima não seja superior a quatro anos de
prisão.
 Provisoriedade: as medidas cautelares devem durar apenas enquanto
permanecer a situação justificante da sua decretação.
 Revogabilidade: nos termos do artigo 282, §5º do CPP, o juiz poderá revogar a
medida cautelar quando verificar a ausência de motivo para a sua permanência.
 Cumulatividade: de acordo com o artigo 282, §1º do CPP, as medidas cautelares
poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente.
 Substitutividade: conforme estabelece o artigo 282, §4º do CPP, em hipótese de
descumprimento de medida cautelar imposta, faculta-se ao juiz substituí-la por
outra. Da mesma forma, o artigo 282, §5º do CPP confere a mesma faculdade ao
magistrado quando verificar a falta de motivo para que subsista a medida
cautelar anteriormente aplicada.

Importante! Deve-se observar, em qualquer hipótese, a presença da necessidade


e adequação das medidas aplicadas em razão da finalidade pretendida, nos
termos do artigo 282, I e III do CPP. Além do mais, deverá haver compatibilidade
lógica entre as medidas cumuladas.

– Descumprimento: na hipótese de descumprimento de qualquer das obrigações


estipuladas, o juiz, de ofício ou mediante requerimento do Ministério Público, de seu
assistente ou do querelante, poderá substituir a medida, impor outra em cumulação ou,
em último caso, decretar a prisão preventiva.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XX EXAME DA ORDEM – Questão 67) - José Augusto foi preso em flagrante delito pela suposta
prática do crime de receptação (Art. 180 do Código Penal – pena: 01 a 04 anos de reclusão e
multa). Em que pese seja tecnicamente primário e de bons antecedentes e seja civilmente
identificado, possui, em sua Folha de Antecedentes Criminais, duas anotações pela prática de
crimes patrimoniais, sem que essas ações tenham resultados definitivos. Neste caso, de acordo
com as previsões expressas do Código de Processo Penal, assinale a afirmativa correta.
A) Estão preenchidos os requisitos para decretação da prisão preventiva, pois as ações penais
em curso demonstram a existência de risco para a ordem pública.
B) A autoridade policial não poderá arbitrar fiança neste caso, ficando tal medida de
responsabilidade do magistrado.
C) Antes de decidir pela liberdade provisória ou conversão em preventiva, poderá a prisão em
flagrante do acusado perdurar pelo prazo de 10 dias úteis, ou seja, até o oferecimento da
denúncia.
D) O juiz não poderá converter a prisão em flagrante em preventiva, mas poderá aplicar as
demais medidas cautelares.

R: Alternativa D

7.4. Liberdade provisória

– Conceito: é o direito que assiste ao acusado preso em flagrante de responder a


imputação penal em liberdade, nos casos em que não for justificada a segregação
cautelar.

– Cabimento (arts. 321 e 310, parágrafo único, do CPP):

a) pela ausência dos requisitos autorizadores da decretação da prisão preventiva;


b)R:pela
Alternativa B
verificação de hipóteses excludentes da ilicitude.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
7.5. Fiança

– Conceito: é uma garantia real ou caução, que consiste em depósito de dinheiro,


pedras, objetos ou metais preciosos, título da dívida pública, federal, estadual ou
municipal, ou em hipoteca inscrita em primeiro lugar, nos termos do art. 330 do CPP.

– Finalidades: assegurar o comparecimento a atos do processo; evitar a obstrução do


seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial.

– Momento/Legitimados ao arbitramento: a fiança poderá ser prestada enquanto não


transitar em julgado a sentença condenatória. A autoridade policial somente poderá
concedê-la nos casos de infração cuja pena privativa de liberdade máxima não seja
superior a 4 (quatro) anos. Nos demais casos, a fiança será requerida ao juiz, que
decidirá em 48 (quarenta e oito) horas, conforme o art. 322 do CPP.

– Hipóteses de inafiançabilidade: nos crimes de racismo; nos crimes de tortura, tráfico


ilícito de entorpecentes e drogas afins, terrorismo; nos crimes definidos como
hediondos; nos crimes cometidos por grupos armados, civis ou militares, contra a ordem
constitucional e o Estado Democrático; aos que, no mesmo processo, tiverem quebrado
a fiança anteriormente concedida ou infringido, sem motivo justo, qualquer das
obrigações a que se referem os arts. 327 e 328 do CPP; em caso de prisão civil ou militar
e quando estiverem presentes os motivos que autorizarem a decretação da prisão
preventiva.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Capítulo 8 - COMUNICAÇÃO DOS ATOS PROCESSUAIS

8.1. Conceito

É a forma pela qual os sujeitos do processo são informados sobre os


acontecimentos sucedidos ao longo de todo o processo, sendo certo que a comunicação
processual será praticada conforme a sua destinação. Desse modo, os atos de
comunicação processual poderão ter o caráter de citação, intimação ou notificação.

8.2. Citação

– Conceito: é o ato processual em que se leva ao conhecimento do réu a existência de


uma denúncia ou queixa para que possa exercer o seu direito de defesa.

– Classificação:

a) Citação Real ou Pessoal: é a realizada diretamente na própria pessoa do réu, por meio
de mandado, por precatória, carta rogatória ou mediante requisição;

b) Citação Ficta ou Presumida: é a realizada através de meio de publicação ou afixação


em local determinado de edital. Também ocorre na hipótese da citação por hora certa,
quando há suspeita de ocultação do réu para não ser citado.

Súmula 351 do STF: É nula a citação por edital de réu preso na mesma unidade da
Federação em que o juiz exerce a sua jurisdição.

Súmula 366 do STF: Não é nula a citação por edital que indica o dispositivo da lei
penal, embora não transcreva a denúncia ou queixa, ou não resuma os fatos em
que se baseia.

8.3. Intimação

– Conceito: é a ciência dada à parte no processo relativo a determinada prática de ato


já realizado.
CADERNO DE PROCESSO PENAL

8.4. Notificação

– Conceito: é a ciência dada à parte ou outra pessoa da realização de um ato processual


futuro.

Aplicação Prática

(XX EXAME DA ORDEM – Questão 65) - André foi denunciado pela prática de um crime de
homicídio doloso consumado contra sua ex-esposa Lívia, famosa na cidade de Maricá, Rio de
Janeiro, pela contribuição em serviços sociais com crianças humildes. A população local ficou
revoltada com o fato, razão pela qual o magistrado avaliou que os jurados não teriam isenção
suficiente para o julgamento. Diante da situação narrada, é correto afirmar que:
A) o acusado poderá requerer o desaforamento, sendo tal requerimento decidido pelo
magistrado de primeira instância.
B) o magistrado poderá representar pelo desaforamento, sendo que a decisão sobre o mesmo
independerá de manifestação prévia da defesa.
C) o acusado poderá requerer o declínio de competência, de modo que todos os atos
processuais passarão a ser realizados pelo juízo da comarca mais próxima.
D) o magistrado poderá representar pelo desaforamento e, sendo os motivos relevantes, o
órgão competente poderá, fundamentadamente, determinar a suspensão do julgamento pelo
júri.
R: Alternativa D

R: Alternativa C
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Capítulo 9 - NULIDADES

9.1. Conceito

Define-se como a inobservância das regras legais ou um defeito jurídico que


pode causar a invalidação de determinado ato processual ou de todo o processo.

9.2. Natureza jurídica

Em que pese divergência doutrinária, adotamos a posição majoritária de


considerar a nulidade tanto um vício quanto uma sanção processual.

9.3. Princípios

– Princípio do Prejuízo (pas de nullité sans grief): de acordo com o princípio, nenhum
ato será declarado nulo se da nulidade não resultar prejuízo para a acusação ou para a
defesa, conforme o art. 563 do CPP.

– Princípio da Instrumentalidade das Formas: segundo o princípio, não será declarada


a nulidade de ato processual que não tenha influído na decisão da causa, nos termos do
art. 566 do CPP.

– Princípio da Causalidade: de acordo com o princípio, a nulidade declarada de um ato


irá causar a nulidade dos atos que dele dependam diretamente ou que sejam sua
consequência, nos moldes do art. 573, § 1º, do CPP.

– Princípio do Interesse: segundo o princípio, somente a parte que não deu causa ao
surgimento do vício é que poderá invocar a nulidade em seu benefício.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
9.4. Espécies

As hipóteses de nulidade estão listadas no art. 564 do CPP: por incompetência,


suspeição ou suborno do juiz (inciso I); por ilegitimidade das partes (inciso II); e por falta
das fórmulas ou de determinados termos (inciso III).

Nulidade Relativa: ocorre quando há o descumprimento de uma formalidade, na qual o


prejuízo processual existente deve ser alegado em um tempo determinado, conforme o
art. 571 do CPP. Ex.: a inobservância da competência penal por prevenção.

Nulidade Absoluta: ocorre quando há o descumprimento de uma formalidade essencial,


na qual o prejuízo é evidente. Pode ser arguida pelas partes a qualquer tempo, bem como
ser reconhecida de ofício pelo juiz. Ex.: ausência de defesa.

Importante destacar que as nulidades relativa e absoluta só serão reconhecidas se houver


a demonstração do prejuízo (pas de nullité sans grief).

Súmula 155 do STF: É relativa a nulidade do processo criminal por falta de intimação da
expedição de precatória para inquirição de testemunha.

Súmula 361 do STF: No processo penal, é nulo o exame realizado por um só perito,
considerando-se impedido o que tiver funcionado, anteriormente, na diligência de
apreensão.

Súmula 523 do STF: No processo penal, a falta da defesa constitui nulidade absoluta, mas
a sua deficiência só o anulará se houver prova de prejuízo para o réu.

Súmula 706 do STF: É relativa a nulidade decorrente da inobservância da competência


penal por prevenção.

Súmula 707 do STF: Constitui nulidade a falta de intimação do denunciado para oferecer
contrarrazões ao recurso interposto da rejeição da denúncia, não a suprindo a nomeação
de defensor dativo.

Súmula 708 do STF: É nulo o julgamento da apelação se, após a manifestação nos autos da
renúncia do único defensor, o réu não foi previamente intimado para constituir outro.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XII EXAME DE ORDEM) A Teoria Geral das Nulidades determina que nulidade é a sanção
aplicada pelo Poder Judiciário ao ato imperfeito, defeituoso. Tal teoria é regida pelos princípios
relacionados a seguir, à exceção de um. Assinale-o.
A) Princípio do Prejuízo.
B) Princípio da Causalidade.
C) Princípio do Interesse.
D) Princípio da Voluntariedade.

R: Alternativa D

R: Alternativa C

R: Alternativa B
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Capítulo 10 - SENTENÇA

10.1. Sentença

A sentença, para ser considerada válida e eficaz, deve observância aos requisitos
de forma previstos no art. 381 do CPP, que se subdividem em: relatório, motivação e
dispositivo. No âmbito do procedimento sumaríssimo, o relatório é dispensado,
conforme o art. 81, § 3º, da Lei 9.099/1995.

A sentença se classifica em: sentença absolutória e sentença condenatória.

10.2. Emendatio libelli

Encontra-se prevista no art. 383 do CPP, o qual dispõe sobre o erro de


capitulação feito pela acusação, no qual o órgão julgador, em regra, na fase da sentença,
irá readequar a capitulação jurídica dos fatos, sem que haja modificação na descrição
fática do ato delituoso.

10.3. Mutatio libelli

Diferentemente da emendatio libelli, o problema está nos fatos descritos na peça


acusatória. Nesta hipótese, será necessário o aditamento da denúncia. Encontra-se
prevista no art. 384 do CPP.

Súmula 453 do STF: Não se aplicam à segunda instância o art. 384 e parágrafo único
do Código de Processo Penal, que possibilitam dar nova definição jurídica ao fato
delituoso, em virtude de circunstância elementar não contida, explícita ou
implicitamente, na denúncia ou queixa.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XIV EXAME DE ORDEM – Questão 67) - Wilson está sendo regularmente processado pela
prática do crime de furto. Durante a instrução criminal, entretanto, as testemunhas foram
uníssonas ao afirmar que, para a subtração, Wilson utilizou-se de grave ameaça, exercida por
meio de uma faca. A partir do caso narrado, assinale a opção correta.

A) A hipótese é de emendatio libelli e o juiz deve absolver o réu relativamente ao crime que lhe
foi imputado.

B) Não haverá necessidade de aditamento da inicial acusatória, haja vista o fato de que as
alegações finais orais acontecem após a oitiva das testemunhas e, com isso, respeitam-se os
princípios do contraditório e da ampla defesa.

C) A hipótese é de mutatio libelli e, nos termos da lei, o Ministério Público deverá fazer o
respectivo aditamento.

D) Caso o magistrado entenda que deve ocorrer o aditamento da inicial acusatória, se o


promotor de justiça e, recusar-se a fazê-lo, o juiz estará obrigado a absolver o réu da imputação
que lhe foi originalmente atribuída.

R: Alternativa C

R: Alternativa A

R: Alternativa C
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Capítulo 11 - TEORIA GERAL DOS RECURSOS

11.1. Conceito

O recurso é um meio voluntário de impugnação de decisões, com o objetivo de


reformar, invalidar, esclarecer ou integrar a decisão. O direito ao recurso decorre do
direito constitucional do duplo grau de jurisdição.

11.2. Natureza jurídica

Entende-se, majoritariamente, que o recurso é um prolongamento do exercício


do direito de ação.

11.3. Princípios recursais

– Princípio da Taxatividade: significa que os recursos devem ter previsão legal.

– Princípio da Unirrecorribilidade das Decisões: significa que em uma determinada


decisão só será cabível um único recurso. Há decisões que comportam dois recursos ao
mesmo tempo, como no caso do recurso especial e do recurso extraordinário,
interpostos em face de uma mesma decisão.

– Princípio da Fungibilidade: esse princípio estabelece que o recurso interposto de


forma equivocada poderá ser conhecido pelo devido, desde que não haja má-fé. A
doutrina elenca a necessidade da existência de dúvida razoável quanto à via
impugnativa correta.

– Princípio da Proibição da Reformatio in Pejus: significa que, nas hipóteses em que


somente o réu interpôs o recurso, a sua situação jurídica não poderá ser agravada.
Observa-se que, anulada uma sentença mediante recurso exclusivo da defesa, não
poderá a nova decisão gerar uma situação mais desfavorável, sob pena de configurar-se
reformatio in pejus indireta.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
11.4. Efeitos recursais

– Efeito Devolutivo: significa a devolução da matéria impugnada ao órgão julgador, ou


seja, é devolvida apenas a parte objeto de recurso. Os limites do efeito devolutivo são
fixados na interposição do recurso.

– Efeito Suspensivo: se caracteriza pela suspensão da eficácia da decisão, a aptidão para


produção de efeitos.

– Efeito Iterativo: ocorre quando o recurso interposto admite um juízo de retratação


pelo órgão judicial que prolatou a decisão impugnada.

– Efeito Extensivo: se caracteriza pela extensão dos efeitos benéficos da decisão do réu
recorrente ao que não recorreu, desde que essa decisão não tenha se baseado em
questões meramente pessoais.

11.5. Recursos em espécie

11.5.1. Apelação

– Conceito: é o recurso interposto da sentença definitiva ou com força de definitiva,


para a segunda instância, com o objetivo de se proceder ao reexame da matéria com a
consequente modificação parcial ou total da decisão.

– Previsão legal: arts. 593 a 603 do CPP.

– Hipóteses de cabimento: encontram-se elencadas no art. 593 do CPP: das sentenças


definitivas de condenação ou absolvição proferidas por juiz singular; das decisões
definitivas ou com força de definitivas; e das decisões do Tribunal do Júri, se satisfeitos
os pressupostos previstos no inciso III, alíneas “a”, “b”, “c” ou “d”, do referido artigo.

– Prazo: o prazo para a interposição é de cinco dias a contar da intimação. No caso de


intimação por edital, o prazo começa a correr a partir do decurso do período previsto
no edital. O assistente de acusação, não sendo habilitado, terá o prazo de quinze dias
para recorrer, a contar do término do prazo para o Ministério Público e, caso seja
habilitado, terá o prazo de cinco dias, com o mesmo marco inicial. O prazo para o
CADERNO DE PROCESSO PENAL
oferecimento das razões é de oito dias, salvo nos processos de contravenções penais,
em que o prazo é de três dias.

Súmula 347 do STJ: O conhecimento de recurso de apelação do réu independe de


sua prisão.

Súmula 705 do STF: A renúncia do réu ao direito de apelação, manifestada sem a


assistência do defensor, não impede o conhecimento da apelação por este
interposta.

11.5.2. Recurso em sentido estrito

– Conceito: é o meio recursal adequado para impugnar decisões previstas no art. 581
do CPP ou, eventualmente, em outros casos expressos em lei. A doutrina assevera que
as hipóteses listadas no referido artigo são taxativas, mas admitem interpretação
extensiva.

– Previsão legal: arts. 581 a 592 do CPP.

– Hipóteses de cabimento: segundo o art. 581 do CPP, são as seguintes decisões:


quando o juiz não recebe a denúncia ou queixa; quando conclui pela incompetência do
juízo; quando julgam procedentes as exceções, salvo a de suspeição do juiz; quando se
pronuncia o réu; quando o juiz profere qualquer decisão relacionada com a fiança;
quando concede ou denega o habeas corpus (em primeira instância); quando o juiz anula
o processo; quando se inclui ou exclui jurado da lista geral; quando denega ou julga
deserta a apelação; quando o juiz suspende o processo e quando julga o incidente de
falsidade.

– Prazo: o prazo para a interposição é de cinco dias. As razões devem ser oferecidas no
prazo de dois dias. Excepcionalmente, na hipótese do art. 581, XIV, do CPP (inclusão ou
exclusão de jurado da lista), o prazo será de vinte dias a partir da data em que houver a
publicação definitiva da lista de jurados. O assistente de acusação, não sendo habilitado,
terá o prazo de quinze dias para recorrer, a contar do término do prazo para o Ministério
Público e, caso seja habilitado, terá o prazo de cinco dias, com o mesmo marco inicial.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Jurisprudência

Tema: Recurso em sentido estrito e interpretação extensiva


(Informativo nº 586 do STJ)

É cabível recurso em sentido estrito contra decisão que revoga medida


cautelar diversa da prisão. Discute-se no processo, em síntese, se é
possível ou não interpor recurso em sentido estrito contra decisão que
revoga medida cautelar diversa da prisão. Inicialmente, saliente-se que
as hipóteses de cabimento do recurso em sentido estrito, trazidas no art.
581 do Código de Processo Penal e na legislação especial, são exaustivas,
sendo admitida apenas a interpretação extensiva das hipóteses legais de
cabimento. Contudo, em razão da legalidade estrita e do próprio princípio
do devido processo legal, não é admissível que, por interpretação
analógica, permita-se a utilização de determinado recurso quando a lei
não o prevê para aquela situação concreta. Além disso, o recurso em
sentido estrito constitui exceção à regra geral da irrecorribilidade das
decisões interlocutórias no processo penal, motivo pelo qual não se
admite a ampliação da sua abrangência por meio da interpretação
analógica. Todavia, segundo doutrina “como qualquer norma jurídica,
podem as hipóteses receber a chamada interpretação extensiva. Esta não
amplia o rol legal; apenas admite que determinada situação se enquadra
no dispositivo interpretado, a despeito de sua linguagem mais restritiva”.
Com base nessas premissas, conclui-se que o ato de revogar prisão
preventiva, previsto expressamente no inciso V do art. 581 do CPP, é
similar ao ato de revogar medida cautelar diversa da prisão, o que
permite a interpretação extensiva do artigo e, consequentemente, a
interposição do recurso em sentido estrito.

(Resp 1628262-RS, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, 6ª Turma, julgado em


13/12/2016).
CADERNO DE PROCESSO PENAL
11.5.3. Embargos infringentes e de nulidade

– Conceito: são recursos exclusivos da defesa. Os embargos infringentes enfrentam


matéria relativa ao mérito da ação penal, enquanto que os embargos de nulidade tratam
sobre matéria de cunho processual.

– Previsão legal: art. 609, parágrafo único, do CPP.

– Hipóteses de cabimento: são oponíveis contra decisão não unânime de segunda


instância, em julgamento de apelação e recurso em sentido estrito, desde que
desfavorável ao réu.

– Prazo: dentro de dez dias, dirigidos ao relator do acórdão, a contar da publicação do


acórdão na forma do art. 613 do CPP.

Súmula 355 do STF: Em caso de embargos infringentes parciais, é tardio o recurso


extraordinário interposto após o julgamento dos embargos, quanto à parte da
decisão embargada que não fora por eles abrangida.

11.5.4. Carta testemunhável

– Conceito: é um recurso residual, pois só será cabível na ausência de qualquer outra


via recursal, diante de recursos obstados ou que tiveram o seu seguimento negado,
cujos julgamentos sejam da competência da instância superior e são dirigidos ao
escrivão da Justiça Estadual ou Diretor da Secretaria da Justiça Federal.

– Previsão legal: arts. 639 a 646 do CPP.

– Hipóteses de cabimento: o não recebimento do recurso em sentido estrito e do agravo


em execução.

– Prazo: 48 horas, a contar da intimação da decisão que denegou ou obstou o


seguimento do recurso.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
11.5.5. Embargos de declaração

– Conceito: é um recurso oposto perante o mesmo órgão prolator da decisão, em razão


da ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão da sentença ou acórdão.

– Previsão legal: arts. 619 e 620 do CPP.

– Hipóteses de cabimento: quando na sentença ou acórdão houver ambiguidade,


obscuridade, contradição ou omissão.

– Prazo: devem ser opostos em dois dias, a contar da ciência da decisão.

11.5.6. Agravo em execução

– Conceito: é o recurso cabível em face das decisões prolatadas pelo Juízo da Execução
Penal.

– Previsão legal: art. 197 da Lei 7.210/1984.

– Hipóteses de cabimento: o recurso é cabível em face de qualquer decisão prolatada


pelo Juízo da Execução Penal, que de alguma forma prejudique as partes principais do
processo.

– Prazo: em consonância com a doutrina majoritária, aplica-se o rito do recurso em


sentido estrito, logo, o prazo para a interposição é de cinco dias. As razões devem ser
oferecidas no prazo de dois dias.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XXIV EXAME DA ORDEM – Questão 69) Vinícius, sócio de um grande escritório de advocacia,
especializado na área criminal, recebeu, no dia 02 de outubro de 2017, duas intimações de
decisões referentes a dois clientes diferentes. A primeira intimação tratava de decisão proferida
pela 1ª Câmara Criminal de determinado Tribunal de Justiça denegando a ordem de habeas
corpus que havia sido apresentada perante o órgão em favor de Gilmar (após negativa em
primeira instância), que responde preso a ação pela suposta prática de crime de roubo. A
segunda intimação foi de decisão proferida pelo Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal de Fortaleza,
também denegando ordem de habeas corpus, mas, dessa vez, a medida havia sido apresentada
em favor de Rubens, que figura como indiciado em inquérito que investiga a suposta prática do
crime de tráfico de drogas. Diante das intimações realizadas, insatisfeito com as decisões
proferidas, Vinícius, para combater as decisões prejudiciais a Gilmar e Rubens, deverá
apresentar
A) Recurso Ordinário Constitucional e Recurso em Sentido Estrito, respectivamente.
B) Recurso em Sentido Estrito, nos dois casos.
C) Recurso Ordinário Constitucional, nos dois casos.
D) Recurso Especial e Recurso Ordinário Constitucional, respectivamente.

R: Alternativa A

R: Alternativa A
CADERNO DE PROCESSO PENAL

Capítulo 12 - AÇÕES AUTÔNOMAS DE IMPUGNAÇÃO

12.1. Introdução

As ações autônomas de impugnação se caracterizam pela natureza


desconstitutiva negativa, pois é uma nova ação que objetiva a desconstituição de uma
decisão prolatada em outra ação ou, de forma eventual, a reforma dessa decisão.

12.2. Habeas corpus

– Conceito: é uma ação constitucional que resguarda a liberdade de locomoção da


pessoa humana, com a finalidade de evitar ou fazer cessar constrangimento ilegal à
liberdade de ir e vir.

– Previsão legal: art. 5º, LXVIII, da CRFB/1988 e arts. 647 a 667 do CPP.

– Espécies:

a) Liberatório: é destinado a afastar constrangimento ilegal na forma de violência, que


resultará na expedição de alvará de soltura.

b) Preventivo: é destinado a afastar constrangimento ilegal na forma de ameaça, que


resultará na expedição de salvo-conduto.

– Legitimidade ativa/passiva: pode ser impetrado por qualquer pessoa,


independentemente de habilitação legal ou representação de advogado, conforme
dispõe o art. 654 do CPP. O legitimado passivo, coator, é o considerado responsável pelo
ato de restrição ou ameaça ao direito de locomoção do paciente.

Súmula 693 do STF: Não cabe habeas corpus contra decisão condenatória a pena de
multa, ou relativo a processo em curso por infração penal a que a pena pecuniária seja
a única cominada.

Súmula 694 do STF: Não cabe habeas corpus contra a imposição da pena de exclusão
de militar ou de perda de patente ou de função pública.

Súmula 695 do STF: Não cabe habeas corpus quando já extinta a pena privativa de
liberdade.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
12.3. Mandado de segurança

– Conceito: é uma ação constitucional que resguarda o direito líquido e certo, não
passível de tutela por outro remédio constitucional, tais como o habeas corpus e o
habeas data, com a finalidade de proteção contra atos de ilegalidade ou abuso de poder
emanados por autoridade ou agente de pessoa jurídica no exercício de funções públicas.
Há o prazo decadencial de 120 (cento e vinte) dias.

– Previsão legal: art. 5º, LXIX, da CRFB/1988 e Lei 12.016/2009.

– Legitimidade ativa/passiva: pode ser impetrado por qualquer pessoa que tenha
direito líquido e certo, atingido por ato ilegal emanado por autoridade pública coatora.

Súmula 701 do STF: No mandado de segurança impetrado pelo Ministério Público


contra decisão proferida em processo penal, é obrigatória a citação do réu como
litisconsorte passivo.

12.4. Revisão criminal

– Conceito: é uma ação, proposta pelo condenado ou por seus sucessores, com o
objetivo de reformar decisão desfavorável ao condenado, de natureza condenatória ou
absolutória.

– Previsão legal: arts. 621 a 631 do CPP.

– Legitimidade ativa/passiva: poderá ser ajuizada pelo próprio condenado ou mediante


representação por procurador legalmente habilitado. Caso o condenado tenha falecido,
o seu cônjuge, ascendente, descendente ou irmão poderá ajuizá-la. A existência da
legitimidade passiva é controvertida no âmbito doutrinário, sendo certo que grande
parcela da doutrina defende que o legitimado passivo é o Estado.

Súmula 393 do STF: Para requerer revisão criminal, o condenado não é obrigado a
recolher-se à prisão.
CADERNO DE PROCESSO PENAL
Aplicação Prática

(XXIII EXAME DA ORDEM) - Vitor, corretor de imóveis, está sendo investigado em inquérito
policial. Considerando que o delegado vem atuando com abuso e colocando em risco a
liberdade de Vitor, o advogado do investigado apresenta habeas corpus perante o órgão
competente. Quando da análise do habeas corpus, a autoridade competente entende por
denegar a ordem. Considerando as informações narradas, o advogado de Vitor poderá recorrer
da decisão que denegou a ordem por meio de

A) recurso em sentido estrito, tendo em vista que o Tribunal de Justiça foi o órgão competente
para análise do habeas corpus apresentado em razão da conduta do delegado.

B) recurso em sentido estrito, tendo em vista que o juiz de primeiro grau era competente para
a análise do habeas corpus apresentado em razão da conduta do delegado.

C) recurso ordinário constitucional, tendo em vista que o Tribunal de Justiça foi o órgão
competente para análise do habeas corpus apresentado em razão da conduta do delegado.

D) recurso ordinário constitucional, tendo em vista que o juiz de primeiro grau era competente
para a análise do habeas corpus apresentado em razão da conduta do delegado.

R: Alternativa B

R: Alternativa B

R: Alternativa A