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Fala e escrita

A oralidade no contexto dos usos linguísticos:


caracterizando a fala

Luiz Antônio Marcushi

Deverá ficar clara a noção do que pode ou não ser visto como “presença da fala na
escrita”. Nem tudo o que em geral se identifica como presença do oral no escrito é
atribuível a essa influência. Há aspectos, tais como a variação dialetal, a pronúncia, os
idiomatismos, os regionalismos e as gírias que são tidos como formas orais, mas que, na
realidade, são mais do que isso.

Fala e escrita como atividades discursivas

Fala e escrita mantêm relações muito mais próximas do que se admitia então. Surgiu
uma visão que permite observar a fala e a escrita mais em suas relações de semelhança
do que de diferença em certa mistura de gêneros e estilos, evitando as dicotomias em
sentido estrito.
Certamente, não se trata de ver a fala como um simples “código oral” e a escrita como
um simples “código gráfico” que codificam uma língua que estaria previamente pronta,
homogênea e fixa. Quanto a isso, concordamos com Blanche-Benveniste (2004, p. 12-
14) para quem tanto a língua falada como a língua escrita têm uma história e formas
próprias, embora realizem o mesmo sistema abstrato. Mas, a escrita não é uma
representação da fala. O próprio desenvolvimento histórico da escrita de cada língua
segue uma linha de mudanças e adaptações que, na maioria dos casos, se distancia da
pronúncia porque a fala segue outros caminhos. De tempos em tempos, temos reformas
ortográficas e novas regras para a escrita com a incorporação de vocábulos que migram
da fala para a escrita ou da escrita para a fala.
Nosso saber sobre a língua quando a escrevemos é diferente do que quando não a
escrevemos, ou seja, a escrita traz novos conhecimentos. Mas não é correto analisar a
fala sob a ótica da escrita, justamente porque a escrita é uma padronização e uma
regulamentação da língua que não se verifica na fala.
Há o gesto e a mímica na fala, também há certos aspectos na escrita que funcionam
como “gestos”, por exemplo, das publicidades que seduzem mais pelas imagens que se
unem aos textos do que pela mensagem escrita e muitas vezes damos valor a um livro
porque ele tem uma capa bem cuidada ou uma impressão muito boa, uma letra
agradável e textos ilustrados. Isso é parecido com o caso de pessoas que têm um belo
sorriso quando falam ou que têm um tom de voz agradável ou sabem narrar uma história
com graça independente do grau de cultura que têm. Portanto, na oralidade e na escrita
não são apenas como um código oral e um código gráfico, são multidimensionais.
A fala e a escrita não são responsáveis por domínios estanques e dicotômicos, há
práticas sociais mediadas preferencialmente pela tradição escrita e outras pela tradição
oral, por exemplo, área jurídica é intenso e rígido o uso da escrita mas a área jurídica faz
uso intenso e extenso das práticas orais nos tribunais são orais. Os depoimentos são
geralmente orais; as defesas e as acusações nos tribunais são orais; os julgamentos são
orais. O que se observa é que, numa mesma área discursiva e numa mesma comunidade
linguística, convivem duas tradições diversas, ambas fortemente marcadas. Isso sugere
ser inadequado distinguir entre sociedades letradas e ilestradas de forma dicotômica.
Fala e escrita são duas maneiras de funcionamento da língua, e não duas propriedades
de sociedades diversas.
Na identificação e na avaliação das semelhanças e diferenças entre a fala e a escrita
acha-se preconceituoso. A escrita foi tomada pela maioria dos estudiosos como
estruturalmente elaborada, complexa, formal e abstrata, a fala era tida como concreto,
contextual e estruturalmente simples. Contudo há os que julgam que a fala é mais
complexa que a escrita.

Premissas para a observação da relação fala-escrita

Supõe as diferenças entre fala e escrita se dão dentro do continuo da produção


textual, e não na relação dicotômica de dois pólos opostos.
A idéia é a de se comparar a linguagem de gêneros textuais similares na escrita e na
fala, e não a fala e a escrita como um bloco.
Muitos autores que consideram a fala como dialogada e a escrita como monologada
mas pode haver textos escritos produzidos na forma de diálogo também.
Outra idéia pouco correta é a de que a fala não seria planejada, e a escrita sim. O certo
é que há níveis de planejamento diferentes numa e noutra modalidade.
Tanto a fala como a escrita apresentam um continuo de variações, ou seja, a fala varia
e a escrita varia.
Formalidade e informalidade

Como a maioria dos autores observa, certamente, a variação na língua falada é maior
do que na língua escrita.
Labov (1972) já observou que se poderia até mesmo aventar a hipótese de que,
quanto mais escolarizada for uma sociedade, menores seriam as variações e mais
retardadas ficam as mudanças linguísticas. Contudo, não há investigações conclusivas
a esse respeito.
Stubbs (1986, p. 211), afirmando que os usos da escrita são predominantemente
formais e os da fala informais, uma suposição que não foi empiricamente testada. E,
como se trata de uma afirmação sobre fatos, deveria ser verificada com mais cuidado.
Se olharmos o uso da escrita informal na vida diária, notaremos que ela tem uma
enorme presença no caso das cartas, bilhetes, listas, preenchimento de dados, etc. Na
vida da maioria das pessoas, o uso informal da escrita é muito elevado e predomina
sobre o formal, mas esse uso é, de certo modo, fugaz, já que a maioria desses
documentos escritos informais tem uma durabilidade muito curta e logo eles são
destruídos. São textos práticos e passageiros. O que se guarda é o uso formal da
língua. São os livros, as revistas, os documentos maiores, os códigos, as enciclopédias,
os compêndios, etc..

Língua padrão

Stubbs(1986), tenta explicitar que toda a língua escrita se acha no lado padrão, sendo
que a fala pode ser fala padrão e não-padrão. Essa é uma questão altamente
discutível. Podemos ter uma escrita não-padrão. Basta folhear a literatura de cordel, os
poemas de poetas regionalistas e boa parte da literatura existente no País, bem como
a maioria das revistas em quadrinhos. A produção escrita que hoje encontramos na
maioria dos e-mails, dos blogs e dos bate-papos na internet foge completamente à
regra da formalidade. E isso está se acentuando cada vez mais nos dias atuais.
Portanto, ao contrário do que pensa Stubbs, podemos dizer que a língua escrita não-
padrão está se tornando cada dia menos uma exceção e mais difundida. Trata-se de
uma mudança de padrão, o que impede que se identifique língua-padrão com língua
escrita.
Indicando alguns dos usos padrão da língua, tais como (cf. STUBBS, 1986, p. 86):

 A língua recomendada pelas gramáticas;


 A língua mais comumente usada na TV, no rádio e no teatro;
 Aquela mais comumente usada nos grandes jornais e revistas;
 Aquela mais usada pelas pessoas cultas ao escreverem.

Quais são, no entanto, os elementos internos para


definir o padrão linguístico?

A sintaxe da língua é menos sensível a mudanças e variações do que a fonética. As


pessoas escrevem com a mesma sintaxe, mas nem em todos eles essas mesmas
pessoas pronunciam as palavras do mesmo modo. Portanto, se é relativamente fácil
definir o padrão sintático da língua, seria mais difícil definir um padrão de pronúncia.
Para o dialetólogo inglês Peter Trudgill, língua padrão é um termo que não envolve a
fonética ou fonologia.
Portanto, a língua padrão é definida por propriedades lexicais e sintáticas, não é
regionalmente confinada ou restrita.
Por outro lado, também é observado por Stubbs (1986, p. 90), que a língua padrão não
é propriamente um dialeto, mas, sim, um uso com funções especiais.

Como olhar para a fala?


Não escolhi nenhum trecho pq não entendi kk, vc Geovanna se quiser pode ler e
resumir.

Por uma noção de língua falada

Bakthin(1979) já ensinava que não se pode considerar a língua como um conjunto de


palavras e regras, mas como um conjunto de enunciados na relação de um eu para um
outro. Língua é aqui tomada como um conjunto sistemático de práticas sociais,
interativas e cognitivas, e não como um sistema de signos regidos por regras.
O mais importante na produção falada é a condição de produção sonora,
processamento natural e em tempo real.
Temos situações até mesmo híbridas, como o caso das produções que não são
tipicamente orais, mas só chegam a público na forma fônica, tal como as notícias nas
rádios e nos telejornais. São uma escrita oralizada, o que não equivale, em hipótese
alguma, à língua falada como tal. Também a letra de música que geralmente só nos
chega pelo canto, mas que não se chamaria legitimamente de língua falada. Há ainda
produções orais que só nos chegam por escrito, como o caso das entrevistas
impressas, que são um gênero escrito, mas com base em um evento oral.
Não se trata de confundir as variações socioletais com língua falada, de modo que a
forma “a gente vamo”, “nóis vai”, “as muié”, “o povo veve” e outras são variedades de
uso da língua, e não fatos da oralidade. A confusão é compreensível porque essas
formas linguísticas são mais usadas na oralidade. O fato é que elas não são partes da
norma escrita. Mas isso não as credencia como características da oralidade.

O que é típico da fala pode-se ver nos processos de


textualização

Agora se trata de ver quais são aqueles aspectos típicos que podem conduzir a uma
melhor identificação e descrição da fala.
Ver a fala em sua especificidade é observar fenômenos relativos a processos de
produção textual, e não detalhes morfológicos ou variações e determinações sociais
devidas à variação dialetal ou socioletal.
A fala é uma forma de produção textual interativa por excelência e por isso exige
cooperação e envolvimento direto. Entre os aspectos importantes para contemplar a
fala estão o tempo e o espaço. Ambos organizam a estrutura dêitica (formas de indicar
o espaço e o tempo). Contudo, há um aspecto ligado ao tempo que é crucial. Trata-se
da produção em tempo real. Isso se liga à presença física dos interlocutores e organiza
a gestualidade, a mímica, os olhares e os movimentos do corpo como recursos
simbólicos significativos para efeitos de sentido. Também temos a qualidade da voz
que, ao produzir o som audível, comanda a prosódia (entoação, tom, velocidade, etc.).
O certo é que, no caso da produção oral, se verifica um sistema de múltiplos níveis em
atuação.
Chamamos de Unidade Comunicativa (UC) ou Unidade Discursiva, como prefere
Castilho (1998), um segmento de fala que tem as características de uma frase na fala
apresentando uma estrutura sintática e um conteúdo semântico em geral completo e
com marcas em seu início e final.
Típica da fala; mais de 20% da fala é repetição. Repetimos mais os substantivos,
raramente repetimos adjetivos. Às vezes a repetição tem a função de ênfase, como,
por exemplo, em “a menina era muito muito muito bonita”.
A fala é produzida e organizada com um conjunto de recursos relativamente amplos e
constrói suas unidades nem sempre na mesma perspectiva que a escrita, de modo que
as categorias gramaticais desenvolvidas para análise da escrita nem sempre podem ser
empregadas linearmente para a análise da fala.
Podemos dizer que uma das grandes diferenças enunciativas entre fala e escrita é o
fato de a fala apresentar uma sintaxe em construção, isto é, emergente no ato de
produção, ao passo que a escrita revela uma sintaxe cristalizada que pode receber
formatos novos e estilizados para efeitos expressivos como o fazem os poetas e os
romancistas.
A fala tem um modo próprio de textualização que se dá em gêneros tipicamente
desenvolvidos. É nisso que ela se caracteriza, e não numa gramatica própria no nível
do sistema formal. A fala apresenta enorme regularidade na sua composição sintática
que se manifesta no discurso em construção. O texto escrito em geral perde seu
“borrão” ao passo que a fala não perde e fica com sua versão original sempre.
Justamente por isso, o maior problema no ensino de língua não é ensinar gramática, e
sim ensinar a produzir e a compreender textos.
Um dos fatos mais admiráveis da parte de todos os falantes é o de que todos sabem
falar com corretude e fluência, mas, no caso da escrita, já que ela se subordina a
tantos parâmetros convencionais de adequação, não é nada fácil segui-los
integralmente. A questão da escrita não está na gramática, e sim na forma como os
gêneros textuais escritos atuam na sociedade em que são produzidos e na
regulamentação exagerada dos preceitos de sua realização.