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27/06/2019 Escravidão negra e indígena

A obra inglesa que engrandeceu São Paulo - por Rogério Toledo Arruda

O AUTOR DO SITE O OBJETIVO DO SITE SÃO PAULO – UMA PEQUENA HISTÓRIA

SÉCULO XIX – O BRASIL E OS INGLESES SPR – ANTECEDENTES O CAFÉ EM SÃO PAULO

O PORTO DE SANTOS A SPR E PARANAPIACABA SISTEMA FUNICULAR ESTAÇÃO DA LUZ

BARÃO E VISCONDE DE MAUÁ ESCRAVIDÃO NEGRA E INDÍGENA A CONSTRUÇÃO DA SPR

OUTRAS HISTÓRIAS INTERESSANTES

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27/06/2019 Escravidão negra e indígena

Escravidão negra e indígena


01/08/2016 / ROGERIO ARRUDA

Este tema, assim como todos os outros, será abordado de forma sucinta, por
estar relacionado com a escravidão negra em território paulista, uma vez que
os negros foram os primitivos responsáveis pelo grande desenvolvimento da
lavoura cafeeira em nosso território.
Quanto à escravidão indígena, a abordagem é uma homenagem aos
verdadeiros donos do solo brasileiro.
Muito se especula sobre esse assunto que mexe com o emocional de milhões
de pessoas.
Foi durante o Século XIX que mais controvérsias causou, tanto em nosso
país, quanto em outros cantos do mundo.
Temos, no entanto, que levar em consideração que, desde a chegada dos
primeiros europeus em nossa terra, a escravidão passou a fazer parte de
nossa rotina diária. Primeiro com os índios e, em seguida, com os negros.
Surgem, aqui, duas perguntas:
O que é escravidão?
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Quando ela surgiu?


A história nos mostra que há milhares de anos ela já se fazia presente.
Eram diversos os motivos! Às vezes era a forma encontrada para pagamento
de dívidas; em outras era um dote matrimonial; em outras, a razão era a
derrota em guerras diversas; em outras, era para reparar algum mal ao
ofendido.
E muitas outras razões devem ter surgido!
Se as razões foram diversas, também foram diversos os tratamentos dados
aos escravos. Em diferentes momentos históricos podemos ver que nem
sempre a escravidão era sinônimo de sofrimento. Chegava a ser espontânea,
como em casos de dotes matrimoniais – o noivo se oferecia ao proprietário,
visando seu casamento com a lha deste último.
Mesmo em casos de aprisionamento, por causa de guerras, ou simplesmente
captura de escravos, chegava a haver certo conformismo com a escravidão,
pois se em um dia determinada tribo aprisionasse indivíduos de outra, em
outros dias a situação poderia se inverter. Era como se fosse um jogo – hoje
você ganha, mas amanhã será minha vez!
Havia, também, a escravidão temporária. Há relatos de que os egípcios a
usaram quando necessitavam de grande contingente de mão-de-obra.
Nessas ocasiões saiam à caça de escravos em povos da redondeza;
retornavam com o número desejado e, após o término da tarefa exigida, os
que ainda estivessem vivos seriam libertados. Fatos como esse teriam
ocorrido durante a construção das grandes pirâmides.
Temos agora, que analisar dois fatores de suma importância:
Em primeiro, nem sempre há registros de maus tratos a esses escravos.
Podiam sofrer severa vigilância, e não viver em conforto – o que era lógico –
mas maus tratos, surras, ferros em braços, mãos e outras partes do corpo,
são fatos desconhecidos – pelo menos em grandes momentos históricos.
Em segundo, era comum uma certa satisfação em ser escravizado. Isto
ocorria quando o dominante era uma rica e próspera nação. Em grande
número de casos os escravos desfrutavam de uma vida muitas vezes
superior do que aquela em que viviam no tempo de liberdade entre seus
conterrâneos.
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Fatos como este último, encontramos nos relatos bíblicos, quando os judeus
foram escravizados pelo babilônios. Se não fosse a atuação rme de seus
sábios, procurando de todas as formas manter a unidade do povo,
possivelmente a raça judia ali teria desaparecido.
O conforto de que desfrutavam na Babilônia – uma das mais prósperas
cidades da antiguidade – era in nitamente superior ao que possuíam em
Jerusalém.
Grandes avenidas, jardins suntuosos, palácios majestosos, comércio agitado,
grande força militar, rica vida familiar, conforto no se alimentar e vestir –
tudo isso mexeu com a cabeça dos cativos hebreus.
Como consequência, milhares passaram a preferir essa vida cativa, aos
rigores da terra natal.
Durante o cativeiro muitos começaram a deixar a religião de origem, para
aceitarem a do local.
No entanto, a di culdade dos sábios talvez tenha sido ainda maior quando da
libertação promovida pelos persas. Milhares desses libertos não queriam
voltar para a “terra prometida”, pois já estavam ambientados em seu
novo lar.
Há muito custo os líderes religiosos conseguiram com que muitos voltassem
aos poucos;  como era de se esperar os relatos bíblicos não fazem referência
a quantos não retornaram.
Em outras situações, a razão para a adaptação dos escravos era o fato de que
muitos possuíam aptidões pro ssionais altamente úteis aos dominantes.
Dessa forma passavam a desfrutar de muitos privilégios.
 

A ÁFRICA NEGRA
 

Até meados do Século XV, o que hoje conhecemos como países, obviamente
não existiam. Havia, isto sim, uma enorme divisão tribal, de forma que, em
territórios como a Angola moderna, tínhamos dezenas de tribos. Muitas eram
aparentadas, mas outras não.
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Os territórios eram, muitas vezes, diminutos; sempre à beira de rios, ou na


costa marítima. A convivência podia ser pací ca, ou problemática.
Muitas das tribos mais poderosas, exerciam a escravidão. Na maioria das
vezes era para desfrutar dos serviços dos escravos, principalmente na
agricultura. Nesses casos, os escravos nunca cavam aprisionados muito
longe de seus lugares natais – e isto lhes dava certo conforto. As línguas
faladas eram iguais ou parecidas, e o mesmo se dava em relação à religião, à
alimentação e aos costumes em geral.
Havia, no entanto, a escravidão que atingia os cativos de forma mais
profunda; esta visava o comércio com povos distantes. Muito desse comércio
era feito entre tribos da mesma raça negra, porém, havia os casos em que os
mercadores eram os mouros, vindos do deserto.
Neste último caso os prisioneiros eram levados para lugares distantes,
causando-lhes uma grande perda cultural e social. Deixavam, dessa forma,
até de se reproduzir. Viviam uma vida monótona e difícil, até se extinguirem
– sem verem as luzes do futuro.
Mas, eis que chegaram os portugueses!
E aí tudo mudou! Coitado dos negros!
 

OS COMBOIOS DA VERGONHA
 

Nascia para milhões de negros o momento do qual jamais iriam se esquecer,


e nunca poderiam imaginar o futuro que os aguardava.
Como sempre acontece, ao serem estabelecidas relações entre povos de
origem e costumes completamente distintos, surgem de início emoções
diferentes. Enquanto uns indivíduos se encantam com o novo encontro,
outros permanecem indiferentes e, outros ainda, tornam-se arredios.
Os portugueses não podiam agir de forma diferente: de início procuraram
manter um diálogo amistoso – a nal estavam em desvantagem numérica e
em território totalmente estranho. No entanto, em pouco tempo, o
arrebatamento e a curiosidade pela terra recém encontrada foi substituído
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pela cobiça e, visando auferir grandes vantagens desse encontro, passaram


a agir de forma sorrateira.
Acontece que do lado dos negros surgiu fato semelhante. Muitos chefes
tribais também passaram a enxergar a possibilidade de auferir grandes
vantagens à custa desse novo encontro. Estes chefes e os portugueses
passaram a querer saber o que o outro tinha a oferecer – sempre visando
levar vantagens nessa relação.
E quando a cobiça entra em jogo, não há limites para a
degradação moral dos seres humanos.
Assim, ali no continente negro surgiu um dos fatos mais degradantes da
história humana: a escravidão de milhões de indivíduos, à custa de
enorme sofrimento – físico, moral, cultural, racial e espiritual.
Nessa época, a maioria das nações “civilizadas” da Europa ocidental se
digladiava entre si (como sempre o zeram), visando a liderança do
continente. Assim, os passos dos lusitanos em terras africanas foram logo
seguidos por franceses, ingleses, holandeses e espanhóis.
E todos passaram a fazer parte desse imundo carrossel humano.
Navios levavam mercadorias para o continente africano e voltavam
abarrotados de almas despedaçadas.
Comerciantes e casas reais participaram desse festim!
Por incrível que pareça, nobrezas que se gabavam de seus luxos e
gigantescos hábitos burgueses se tornaram aves de rapina. E esta
rapinagem atingiu números de fazer estremecer os princípios divinos da
humanidade. Só para o continente americano mais de dez milhões de
cativos foram levados. No entanto, se as chamadas “colônias
americanas” – que nada mais eram que terras invadidas – foram
inundadas pelo fragilizado braço negro, também nas cortes europeias estes
se zeram presentes – e nobreza, burguesia e povo se deleitaram sobre
aqueles que jaziam aos seus pés.
Mas, como era feita essa rapinagem em terras africanas?
Os europeus, logicamente, raríssimas vezes se aventuraram pelo território
desconhecido. Florestas, animais ferozes e peçonhentos, doenças tropicais,
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falta de alimentos, bem como desconhecimento sobre as forças que iriam


enfrentar, zeram com que permanecessem na costa marítima, esperando
que a “caça” viesse até eles.
Em alguns casos, corromperam chefes locais, enquanto, em outros,
estabeleceram feitorias – às vezes à força, às vezes com aquiescência local.
Em todos os casos, os cativos já cavam aprisionados à espera dos navios
negreiros. Estes, quando iam buscar suas “mercadorias” já sabiam a carga
que os aguardava – o trato tinha sido feito de antemão.
Milhares dos cativos morreram durante o transporte para a costa marítima,
mas foi justamente nos momentos  em que aguardavam seu embarque, que
começou a grande degradação do sistema. Ficavam aprisionados,
amontoados em lugares estreitos e sem as mínimas condições humanas de
sobrevivência. É impossível saber, mas calcula-se que até 30% dos cativos
morriam nesses pardieiros.
Fatos como esses pouco incomodavam quem os tinham aprisionados, pois
sempre traziam cativos em número maior do que aquele dos que seriam
embarcados.
Quando da chegada dos navios, se seguiam rápidas negociações – em troca
de mercadorias (principalmente tecidos, fumo, cachaça, armas e pólvora), os
negros seguiam para o calabouço.
Calabouço, ou masmorras???
Tanto faz! Para os pobres coitados, esses eram os termos apropriados dos
porões dos navios que iriam partir.
Nestes momentos, famílias já se encontravam despedaçadas. Uma vez que o
interesse por indivíduos (ou mercadorias) do sexo masculino era muito
maior, várias companheiras e lhos já haviam cado para trás, lamentando a
partida daqueles que jamais retornariam.
Com a partida dos navios, o mundo civilizado europeu mostrava suas
garras.
 

Em  porões fétidos e imundos levavam suas presas, sem as mínimas


condições de higiene. Vômitos, dejetos e urina ali se misturavam, e sobre
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isso a “mercadoria” ali se deitava.


Tudo, em um ambiente sem janelas,
onde reinava um calor insuportável.
Cerca de 30 a 40% dos que ali eram
jogados, jaziam durante o percurso e
seus corpos simplesmente eram
Navio negreiro – 1830 – Rugendas – web despejados ao mar.

Durante a viagem chegava a ser


permitida a permanência nos
conveses, mas nos primeiros
momentos da mesma, todos tinham
que car nos porões, para que não
sentissem o afastamento do solo Navio negreiro – sem data – web
pátrio.
Antes que essa medida fosse tomada, muitos se lançavam ao mar,
mesmo sem saber nadar, na esperança de retornarem à terra.
Enfraquecidos pela má alimentação, e sofrendo de inúmeras enfermidades
chegavam ao seu destino – as promissoras terras ocupadas e
invadidas pelos civilizados europeus.
 

Vamos, por um instante, deixar o texto correr nas palavras de


John Thornton, em seu livro “A África e os africanos na
formação do mundo atlântico” – Editora Campus.

– “Enquanto ainda na costa da África, os escravos eram acorrentados


em longas cadeias, em grupos de seis, e de dois em dois tinham
grilhões entre as pernas, para impedi-los de fugir, ou de se jogarem no
mar. Nos navios … não viam o Sol nem a Lua.”
– “A viagem era extremamente desagradável, e para muitos
representou uma morte lenta e dolorosa, matando um terço deles.”
– “Nos porões o ar era tão rarefeito e a circulação tão difícil que os
cirurgiões a bordo não podiam trabalhar lá porque as velas apagavam e
o calor os impedia de trabalhar no local.”
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– “Os comerciantes tinham interesse em alojar o maior número


possível de escravos nos navios.”
– “Embora as condições físicas pudessem ser frustrantes e penosas
para os escravos, amontoados em bancos e com a cabeça inclinada, o
maior perigo da viagem consistia na redução de suprimentos de comida
e água em razão do embarque de uma carga extra.”
– “Os escravos eram alimentados uma vez a cada 24 horas, com uma
refeição composta de não mais do que uma tigela de milho ou farinha
de milho ou mingau cru de milho, e as rações de água eram
simplesmente uma pequena jarra.”
– “ Os mercadores que controlavam o trá co negreiro entre Luanda e o
Brasil davam aos escravos só um pouco de azeite e um pedacinho de
milho cozido.”
– “Muitos comerciantes passaram a alimentar melhor os escravos, para
impedir as mortes excessivas e, assim, aumentar seus lucros.”
– “A possibilidade de desidratação pela pouca quantidade de água era
grande, porque os africanos viajando pela primeira vez em alto-mar
enjoavam e vomitavam com frequência, criando um ambiente que logo
se tornava nauseabundo. Ainda mais importante era a diarréia.”
– “As viagens eram sicamente muito desgastantes, e os escravos que
chegavam a Cartagena (Colômbia) estavam reduzidos a esqueletos.”
– “Esse complexo processo de transferir pessoas da África para as
Américas era repleto de horrores e poderia durar meses, durante os
quais muitos escravos eram submetidos à máxima degradação humana,
em seu sofrimento.”
– “Em 1655, o odor fétido que inundou Nova Amsterdã (Guiana) avisou
a seus moradores que um navio de escravos chegara.”
– “Os historiadores assinalaram, algumas vezes, o trá co negreiro
transatlântico como o primeiro e fundamental passo para a
descaracterização cultural dos africanos. … eles nunca se recuperaram
do choque psicológico da viagem, que os tornou dóceis e passivos.”

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Não podemos nos esquecer, ainda, de que tudo isso foi assistido de forma
quase pací ca pela Igreja Católica. Esta, que vivia em verdadeiro
concubinato com muitas realezas europeias calou-se e, até agradeceu a
penetração branca em territórios africanos:
Era a grande oportunidade de converter almas para o sagrado
Reino de Deus!
Se assim era, pergunta-se: Que Deus era esse?
Não podemos, no entanto, deixar de mencionar que partiu de terras
protestantes britânicas o primeiro brado de alerta para a grande violência
que se perpetrava. Vagarosamente foi surgindo o “trá co e a escravidão
humanitária.”
A muito custo, e depois de auferirem lucros gigantescos com o trá co de
“mercadorias negras” as pessoas começaram a dizer:
– Não é bem assim que se faz!!! Coitados!!!
 

AS ESCRAVIDÕES NO BRASIL
 

ESCRAVIDÃO INDÍGENA
Antes de falarmos propriamente dos negros, temos que nos reportar a uma
escravidão que passou a vigorar logo após a chegada dos portugueses à
nossa terra – a escravidão indígena.
Como aconteceu em território africano, houve de início um deslumbramento
de ambas as partes, deixando, até, um certo estado de êxtase em alguns.
É sabido, pela carta de Caminha, que alguns índios dançaram à beira-mar
junto aos portugueses e, também é sabido, que alguns marinheiros fugiram
para terra antes que a frota de Cabral partisse para as Índias.
No entanto, esse deslumbramento pouco durou. Poderia ter durado até
menos, não fosse a decisão do Rei D. João III de dar início à colonização
(ou invasão) somente a partir de 1530.

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Até essa data o que ocorria era apenas o escambo, onde navios
portugueses, franceses e de outras nações, aportavam em nossa costa
trazendo “presentes” para os índios, e conseguindo dos mesmos o trabalho
de cortarem o pau-brasil e o embarcarem nas naus.
No entanto, com a chegada da esquadra de Martim Afonso de Souza em
1531, tudo mudou. Ao ser fundada a primeira vila – São Vicente – em
janeiro do ano seguinte, foi dado o sinal de partida para o maior
genocídio de nossa história, acompanhado de uma bárbara
escravidão daqueles que não foram assassinados.
O regime de escravidão não foi apenas um suplício físico para os indígenas,
ele também foi um suplício espiritual.
Além das diversas atividades a que foram submetidos – como ocorre em
qualquer regime escravocrata – os indígenas, por sua natureza de liberdade
e extrema ligação com o meio ambiente, sofreram desde muito cedo pelo
afastamento total de seu meio, de seus companheiros e, mais ainda, de sua
cultura e religiosidade. Eram submetidos a uma catequese da qual nada
entendiam, além de serem obrigados a um batismo totalmente sem sentido,
bem como a adotar nomes de origem europeia.
Obrigados a trabalhos forçados, tanto nas fazendas quanto nos meios
urbanos, desestruturam-se completamente. Vieram as doenças, a fraqueza
física, a saudade e a desesperança. Viveram perdidos em seu novo meio,
tornando-se alvo fácil para o vício da bebida.
O alcoolismo generalizou-se em sua raça e, assim, a degradação como seres
humanos levou-os à morte prematura.
Nada disso incomodava os colonos, pois novas presas poderiam substituir
aquelas que se fossem.
Como se isso não bastasse, foram as índias instrumento de desejos sexuais
de homens sedentos. Quando não as prostituiam, as levavam para seus lares,
onde o destino estava selado – seriam escravas domésticas, escravas
sexuais e escravas de gravidezes sem m.
Em poucos anos estavam combalidas, vendo seus senhores à caça das mais
novas.
E lá das terras distantes da Corte ouvia-se o rei:
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– “Isso, continuem. Engravidem todas, pois precisamos de mais


braços para a conquista da terra!”
Os anos foram se passando e diante desse quadro de degeneração surgiram
“almas salvadoras” – os jesuítas.
O que zeram estes?
Em nome de Deus resolveram que o melhor caminho seria retirar os
indígenas do convívio com os colonos.
E surgiram as reduções!
Foram os indígenas agrupados em locais isolados, sob a guarda dos “homens
divinos”. Ali conviviam em relativa paz, no entanto tudo não passava de uma
nova forma de escravidão.
Trabalhavam na lavoura, na pecuária, faziam trabalhos gerais, tais como
construir igrejas e moradias – e ouviam os evangelhos e iam às
missas.
Novamente, para deleite dos seus senhores, foram batizados, receberam
nomes cristãos e até comungavam.
O ridículo era completo!
Só faltou serem obrigados a construir suas próprias guilhotinas e caixões de
sepulcro.
Destituídos de sua espiritualidade e de seus seres divinos, acabaram por ser
meros robôs, seguindo como autômatos “as ordens” de um Deus, do qual não
tinham a mínima condição de entender sua teologia.
Em toda a costa brasileira viu-se o horror dessa conduta, mas esta adquiriu
ares de crime contra a humanidade em terras paulistas.
Bandeirantes!!! Ó nome sagrado!!!
Sagrado para quem?
É evidente que era sagrado para quem se bene ciava de seus atos.
Índios não escrevem história, mas os “civilizados” sim.
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E os portugueses a escreveram. E nos ensinaram. E nós aprendemos. E nos


vangloriamos. E aplaudimos. E os homenageamos.
Raposo Tavares e seus companheiros são tidos como os construtores da
pátria, por terem alargado nossas fronteiras muito além dos limites impostos
pelo Tratado de Tordesilhas.
E isto é cantado em versos até os dias de hoje!
Temos que ver, no entanto, que em primeiro lugar eles não expandiram
nossas fronteiras – eles invadiram o território espanhol.
Mas isto é problema dos espanhóis!
Os bandeirantes realmente foram homens de coragem; destemidos,
enfrentaram todas as adversidades possíveis – enfrentaram até índios que
lutavam por seu solo, no entanto, nada dessa valentia os eximem dos crimes
cometidos.
É fácil construir uma pátria invadindo propriedades alheias, matando e
escravizando os donos da terra.
É fácil construir uma pátria onde suas fundações são solidi cadas com o
sangue alheio.
É fácil construir uma pátria destituída de princípios morais e espirituais.
Quanto a nós, brasileiros do presente, o que teríamos que sentir seria um
profundo remorso pelo que zeram esses nossos antepassados, no
entanto, ao contrário, continuamos com a escravidão indígena.
Que vergonha!!!
Nos dias de hoje, em todos os cantos, o que restou das terras indígenas é
sumariamente invadido.
Governos, fazendeiros, aventureiros, criminosos e outros – todos se
comportam como hienas diante de uma presa fácil de ser abatida.
Os indígenas não têm imprensa, não têm redes sociais, não têm judiciário,
não têm deputados e senadores – e não têm governantes. São dilacerados
pela “civilização” branca.
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E aqui, temos que nalmente fazer alusão a fato mais grave ainda.
Toda essa barbárie, além de ter sido cometida em nome de uma Coroa, o foi
também, em nome de um homem e sua cruz.
Em todas as suas ações os “piedosos” homens brancos zeram questão de
ostentar o estandarte do “ lho de Deus” e, até aos dias de hoje, esses
piedosos homens repetem o cântico que “com seus atos são
aguardados de braços abertos por Jesus Cristo.”
No entanto, Jesus não os aguardará. Depois de provocarem tanto sofrimento
e destruição com sua selvageria, movida pela cobiça, quem irá recebê-los
estará muito distante da morada do Senhor.
A morada de Deus não são templos erguidos na luxuria, inveja, ambição,
cruzes e estandartes erguidos.
Muito menos, em mentes que disseminam ódio e destruição.
A morada de Deus é o coração dos inocentes!
E neste momento, ele se encontra muito ocupado – está agasalhando as
almas daqueles “pagãos” que padeceram e morreram sob o jugo da
decantada “civilização europeia.”
 

Se há Deus, se há justiça divina, um dia pagaremos por tudo


isso!
 

ESCRAVIDÃO NEGRA
ANTECEDENTES
 

Logo após a  chegada de Martim Afonso  foram instituídas no Brasil as


capitanias hereditárias. Em sua quase totalidade foram um grande
fracasso dos portugueses nas terras conquistadas.
O braço índio, além de fraco por natureza, era insu ciente para o trabalho
necessário. Fazia-se urgente procurar novas forças para a grande tarefa.
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De início, D. João III procurou atender suas necessidades enviando para cá a


“escória” de Portugal – mendigos, bandidos, assassinos e todos os tipos de
homens socialmente desclassi cados.
Como era de se esperar, esses “dejetos humanos” só serviram para
disseminar desgraça, doenças, desonra e imoralidade:
Esse foi o início da formação do povo brasileiro.
Tentando de forma desesperada melhorar a situação, pois necessitava que se
efetivasse a ocupação lusitana, antes que outra nação europeia o zesse, o
monarca português instituiu o Governo Geral do Brasil, que foi iniciado
por Tomé de Souza.
Se essa atitude serviu para dar mais unicidade à conquista, a mesma ainda
seria pouca, pois de nada adiantaria um governo central, por melhor que
fosse, se não tivesse meios para disseminar a cultura da cana-de-açúcar
(a riqueza agrícola da época) e a busca pela riqueza tão desejada – o ouro.
Estimulou-se, dessa forma, a vinda de colonos, com a distribuição de terras
inexploradas – as sesmarias. Foi a primeira vez que, em vez de
brutamontes, vieram famílias constituídas. Além estes,  também vieram
homens desejosos de constituí-las – a nal, as índias estavam à disposição.
Nada disso, no entanto, seria su ciente, em vista do baixo contingente
populacional de Portugal.
Teria que haver uma solução!
 

E a realeza portuguesa foi buscá-la


no braço negro, que há décadas já
era explorado em solo europeu.
Em aqui chegando, foram diversas as
portas pelas quais entraram os
negros.
 

Desembarque de escravos – vistoria médica –


Rugendas – sem data – web Uma vez que a região nordeste foi
a escolhida para a instalação dos
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engenhos açucareiros, foi por lá que


mais entraram.
Posteriormente, com a transferência
da sede da colônia para o Rio de
Janeiro, esta também foi
transformada em porto de
ancoragem dos “veleiros do
inferno.” Moenda de cana-de-açúcar – 1835 – Debret –
 
 web
 

Juntamente com essa ocupação


territorial surgiram vilas e cidades, e
os negros foram utilizados em todos
esses ambientes.
Isto seria determinante na formação
cultural e social daqueles que
chegavam. É preciso muito cuidado
quando se aborda essa questão, pois
Aguadeiro – sem data – web
foram inúmeras as situações em que
os negros foram integrados ou
explorados pela sociedade de então.
Em primeiro lugar, frise-se que
quanto à jornada de trabalho, essa
sempre foi exercida de forma
exaustiva, em qualquer ambiente.
Nunca se levou em conta o
esgotamento físico, uma vez que Vendedor de cestos – sem data – Debret –  web
“mercadorias” foram feitas para
serem usadas, e quando se tornam
inúteis são simplesmente descartadas e substituídas.
Eram os negros propriedades de seus senhores; dessa forma, estes tinham
plena autonomia sobre o tratamento dado aos mesmos.A exploração foi,
assim, exercida de formas diferentes, mas em todas elas, visava-se auferir
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as maiores vantagens e lucros sobre o capital investido – a nal, eram os


escravos o maior bem patrimonial dos proprietários.
 

ESCRAVIDÃO NEGRA
O AMBIENTE URBANO
Nesse ambiente urbano, além dos rigores de horário, muitos escravos foram
utilizados na geração de rendas à custa de trabalhos externos, ou sendo
locados a terceiros.
 

Sabe-se, por exemplo, do trabalho das quitandeiras, que passavam horas a


o em sua jornada, tendo que no nal do dia dividir seus ganhos com seus
proprietários.
Até nossos dias, elas fazem parte do folclore na capital baiana.
Se a jornada de trabalho era difícil, pelo menos, muitas conseguiram
recursos para comprar a própria alforria.
 

Quitandeiras – cidade de Salvador – 1884 –


Marc Ferrez – acervo Inst. Moreira Salles

Semelhante situação ocorria com os homens que eram artí ces.


Fossem quais fossem suas habilidades, seus ganhos também
proporcionavam lucros nanceiros aos proprietários.
Em  tais situações os escravos não sofriam os horrores pelos quais outros
padeciam.
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Foi a palmatória, talvez, o suplício mais empregado.


 

Artí ces e palmatória – sem data – Debret –


web

O mesmo se dava com os escravos utilizados em trabalhos domésticos.


Uma vez que em cada moradia os escravos eram em pequeno número,
tinham uma relação mais íntima com seus proprietários. Eram os jardineiros,
caseiros, rendeiras, merendeiras e amas.
Esse tratamento, relativamente ameno, também cava evidenciado nas
vestimentas. Não podiam ser maltrapilhos aqueles que serviam no transporte
de bagagens durante viagens internas ou ao continente europeu.
 

Escrava doméstica – João


Goston – acervo Inst. Moreira
Salles

Havia também os carregadores de seus senhores em liteiras e outros meios


de transporte, en m, em uma in nidade de atividades.

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Passeio de um proprietário – sem data – web

Todos esses escravos entraram para o mundo literário, musical, religioso e


artístico do período colonial.
Debret, Rugendas e outros, são grandes exemplos que entraram para a
história.
Mas vamos perguntar: Qual a visão dos mesmos sobre esses mundos
encantados que quiseram retratar?
Certamente, não foi a visão daqueles que um dia foram expropriados de seu
solo pátrio!
Foi a visão deles próprios, brancos e burgueses, que re etiu as condições
vividas durante a escravidão.
A nal, nunca se deu cultura aos negros para que pudessem escrever sua
própria visão de vida e, sobre seus sofrimentos.  Foram mantidos ignorantes,
pois “mercadorias” não se transformam em bens culturais.
Sabemos, também, que a ignorância das grandes massas populacionais é a
arma preferida para a classe dominante manter o seu poder.
En m, os negros, além dos horrores por que passaram, se transformaram em
diversão e atrativo para senhores, moradores e visitantes. Seus cânticos,
suas danças, suas rezas e crenças passaram a fazer parte do cotidiano
urbano brasileiro.
E ouvia-se:
– Olhem que lindos!!!
– Eles são uma gracinha!!!
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Não podemos deixar de mencionar, que em seu novo meio de vida, as


escravas também serviram para atender ao apelo sexual de seus senhores.
Uma vez que não tinham alternativa a essa situação, muitas se entregavam
objetivando uma melhora em suas vidas.
Para muitas, a gravidez através de um homem branco era uma alternativa
para que seus lhos tivessem uma vida mais promissora. No entanto, nunca
se perguntou às mesmas, o que sentiam enquanto serviam de joguetes
sexuais, nas satisfações de homens que pouco usufruíam de suas esposas,
pois estas apenas cumpriam o papel social de serem engravidadas.
 

ESCRAVIDÃO NEGRA
O AMBIENTE RURAL
No ambiente rural tudo foi diferente!
Uma vez que senhores-de-engenho e fazendeiros se encontravam
plenamente em seus domínios, com poderes absolutos sobre suas
“mercadorias”, puderam ir muito mais além no trato dos escravos. Esse trato
não se fez sentir apenas em desumanas horas de sobrecarga de trabalho.
Também o foi, e sobretudo, em vestimentas, alimentação e maus tratos.
Era ín ma a vestimenta dos negros, sendo na maioria das vezes, a mesma
para diferentes estações climáticas. Muitos proprietários adotaram a
“norma civilizada” de fornecer um novo jogo de roupas a cada ano que se
passava.
Quanto à alimentação, fosse qual fosse, servia apenas para manter em pé os
corpos daqueles que teriam que cumprir as exigências dos senhores, durante
anos a o. Isto depois de uma jornada de quatorze a dezesseis horas diárias
de árduo trabalho, com relativa folga aos domingos.
 

Nesses dias, muitos dos negros podiam cuidar de suas casas, e de pequenas


culturas e criações que possuíam em mínimo espaço ao redor de suas
rústicas moradias.
Com o passar do tempo, em algumas propriedades, houve uma
“humanização” no trato dos escravos, para que estes pudessem aumentar
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sua produtividade, dando maiores


lucros aos senhores.
Repetiu-se aqui a mesma conduta
que havia acontecido durante a
travessia atlântica.
Era como se os senhores dissessem
aos seus escravos: Habitação de escravos – sem data – Rugendas –
web
– “Eu cuido de vocês, não para terem
uma vida melhor ou serem mais
felizes, mas sim, para que eu possa aumentar meus lucros e, dessa forma,
comprar outra leva de “vadios e indolentes” como vocês.”
Sim! Vadios e indolentes! Era assim que se considerava a raça negra, como
se esta fosse obrigada a ter estímulos para ir à luta com mais ardor.
Mesmo nessas propriedades onde a vida dos negros foi amenizada, ela o foi
segundo os padrões dos senhores. Duvida-se que tenha havido em todo
território brasileiro pelo menos um proprietário que um dia tenha se dirigido
aos negros, e feito a pergunta:
– “O que vocês esperam, e como gostariam de viver?”
E mesmo que a tivesse feito e obtido muitas respostas, ele haveria de
responder:
– “Sinto muito, mas não será possível atendê-los!”
Já em relação aos maus tratos, podemos a rmar que foi uma grave violação
dos direitos humanos, assim como aquela dada aos indígenas.
 

Na  tentativa de subjugar os escravos


foram inventados os mais variáveis
meios de dominação. A criatividade
humana foi posta à prova, e o ferro
foi fartamente utilizado.
Desnecessário se faz entrar em
detalhes, pois esses meios são do
conhecimento de todos.
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A covardia – web

Neste momento precisamos levar em


conta as inúmeras reações dos negros à
essa situação.
Sabemos que o aprisionamento dos
mesmos em terras africanas se veri cou
em regiões distintas, onde imperavam
culturas diferentes, com diferentes
reações emocionais diante dos fatos da
vida.
  Quem quiser, que escreva algo – sem data –
foto web
 

Essas diferenças foram trazidas para


a nova terra, fazendo com que em
alguns casos a reação fosse de
conformismo, diante da incapacidade
de enfrentamento, tanto diante dos
senhores, quanto das forças do
governo. Isolados, pouco poderiam
Capoeira – sem data – Augusto Earle – web
fazer.
 

E
m
 o
ut
ro Coroação de uma rainha na festa de Reis – 1776
s – Carlos Julião – web

ca
so
s a reação foi o nascimento de verdadeiro
ódio por seus proprietários ou capatazes.
Estes últimos muitas vezes eram negros
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ou mulatos, pois o trabalho de algozes não


Grande líder de uma grande revolta negra
– web
era digno dos homens brancos.
Muitas vezes esses capatazes eram
obrigados a aceitar a tarefa, senão seriam eles os violentados, já em outras o
faziam visando, para si, uma vida de menos sofrimento, e alguma vantagem
no relacionamento com o patrão.
Chegou a tal ponto o suplício dos escravos que, em determinado momento,
estes passaram a reagir com igual violência. E esta foi exercida na forma de
assassinatos de capatazes, fazendeiros e seus familiares.
 

Muito se comenta sobre estes últimos fatos, alegando-se a má índole da raça


negra para a realização dos mesmos. No entanto, nunca foi feita a pergunta
se eles eram violentos em suas terras de origem. O fato é que não há um
registro histórico sequer, que aponte essa violência como sendo inata,
desses que aqui a exerceram.
Qual o motivo, então, dessa violência ter sido perpetrada em nossas terras?
Antes de se responder a essa pergunta vamos olhar um pouco para a
província de São Paulo.
 

No   início do Século XIX o café


adentrava em terras paulistas, pela
região do Vale do Paraíba. Foi
nessa ocasião que a escravidão
chegou com força a essa província.
Até então, eram poucos os cativos
que para cá vinham, em comparação
com o grande número dos que
Carregamento de café – 1826 – Debret – web chegavam à região Nordeste, e ao
Rio de Janeiro.
A cultura canavieira na província paulista se restringia ao chamado
quadrilátero da cana, região em torno da cidade de Campinas,
delimitada por Jundiaí, Porto Feliz (Itu), Piracicaba e Mogi Mirim.
Praticamente todo o restante da província era constituído por matas virgens
e várzeas, sem a presença dos homens brancos.
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Essa escravidão inicial foi realizada


antes da promulgação da Lei
Eusébio de Queiróz, no ano de
1850. Essa lei viria a ser de grande
importância para o solo paulista.
Qual a razão?
Nessa ocasião, já se encontrava
extinto o ciclo do ouro, em terras Terreiro de café e crianças brincando – Rio de
mineiras; ciclo esse que demandou Janeiro – 1865 – Georges Leuzinger – acervo
enorme contingente de escravos. Inst. Moreira Salles
Também, na mesma ocasião, entrava
em declínio a cultura canavieira no
Nordeste e no Rio de Janeiro, em virtude da forte concorrência do açúcar
produzido em outras partes do globo, notadamente na região do Caribe.
Ora, com referida lei, imposta pelos ingleses, o trá co internacional de
escravos cou restrito a poucos navios, que adentravam nossos portos de
forma clandestina. E esse parco fornecimento de novos braços negros, não
foi su ciente para a grande demanda da cultura cafeeira.
Uma vez que os senhores de engenhos de açúcar, nas mencionadas regiões
produtoras, estavam ansiosos para diminuírem seus prejuízos, pois tinham
que sustentar os escravos sem função em suas propriedades, rapidamente
passaram a vendê-los, surgindo, assim,  o trá co interno dirigido
fortemente para as fazendas paulistas.
É evidente que, em uma situação dessa, os proprietários quisessem se
desfazer da mão-de-obra menos produtiva que possuíam, seja por velhice,
seja por doenças, ou seja por problemas de comportamento pessoal.
Por essa razão a cafeicultura paulista foi provida, dentre outros, por escravos
altamente “problemáticos” para seus senhores. Aqui chegaram inúmeros que
já se encontravam revoltados pelo sofrimento em outras terras.
É incontável o número deles que traziam fortes marcas em seus corpos,
provocadas por ferros e outros suplícios. Esses fatos foram fortemente
narrados pela imprensa da época.
Além de trazerem essas marcas físicas, muitos também trouxeram marcas
da alma, pois foram separados de seus familiares e companheiros, assim
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como havia acontecido durante o trá co africano.


Nessa situação, e chegando ao solo paulista, após extenuante caminhada,
não é difícil imaginar que se revoltassem ao menor novo suplício sofrido, ou
fugissem assim que tivessem oportunidade para tal.
Fugas e condutas violentas, trouxeram prejuízo e medo aos “coronéis
paulistas”.
Por volta do ano de 1870, com o início da construção da rede ferroviária
paulista, que havia se iniciado com a São Paulo Railway SPR, toda a
região que antes era inculta passou a ser ocupada pela elite cafeeira. Como
consequência, aquela conduta de fugas e reações violentas por parte dos
escravos, sofreu grande incremento.
Fatos como esses também assumiram grande repercussão na imprensa de
então, e foram um dos motivos que levou os cafeicultores locais a optarem
pela vinda de colonos europeus.
Estes vieram em grande número, não só para São Paulo, como para inúmeras
outras regiões, abrindo caminho para a “libertação” dos escravos.
Nos dias de hoje, são inúmeras as antigas fazendas de café que abrem suas
portas para os turistas, cantando em versos, que são fazendas centenárias, e
se orgulhando de suas antigas senzalas.
De modo geral, isto traz prazer aos visitantes – e todos cam felizes!
Uns ganham dinheiro, outros se divertem: pouco se importam em saber o
quanto padeceram os que para ali foram levados; os que ali foram
explorados; os que ali foram surrados e os que ali morreram.
Ora, para que lembrar essas coisas?
Piscinas, lagos, pedalinhos, playgrounds e a legítima comida caseira fazem a
festa de todos, e como são lindas as fotos em jornais, revistas e meios
eletrônicos!
É a vitória do esquecimento fácil!
Em muitas terras paulistas e, também, em uminenses e mineiras, não se
cultiva mais o café de outrora:
São cultivados o cinismo e a hipocrisia!
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
 

Ao promulgar a Lei Áurea a monarquia nada mais fez do que lavar as mãos
diante das grandes pressões internacional e interna. Foi o complemento do
que já havia ocorrido após o término da Guerra do Paraguai.
Por ocasião da invasão paraguaia, o Brasil mal dispunha de forças militares
para enfrentar a situação. O governo teve que recorrer ao recrutamento, ao
voluntariado – e aos escravos. A estes foi oferecida a liberdade, caso
voltassem com vida após servirem a pátria. Este oferecimento atraiu enorme
contingente de negros, que fugiam de suas propriedades, almejando a
libertação futura.
Juntamente com essa leva, outra surgiu. Muitos senhores ofereciam
“graciosamente” alguns escravos para irem à luta. Visavam com isso livrar
seus próprios lhos dos horrores da guerra.
Ambos os fatos chegaram a transformar o exército nacional em exército de
escravos negros. E estes foram um dos grandes responsáveis por nossa
vitória nal.
A imprensa paraguaia chegou a ridicularizar nossas forças: foi publicada, em
jornais da época, a charge mostrando um negro empunhando sua carabina
(que era uma banana), e os dizeres:
 “Exército de los macaquitos!”
Essa propaganda de guerra poderia ter se transformado em uma exaltação
do homem negro em nossa terra. Mas ….
– “Imaginem!
Nossas vitórias foram conquistadas por Deodoro, Osório, Tamandaré – e
outros homens brancos!
Se podemos sempre exaltar nossos valorosos comandantes, por que não
exaltamos aqueles que almejavam sua liberdade?
Ora, para que se lembrar dos negros?
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Os heróis são sempre os brancos!


E o que aconteceu àqueles “pobres diabos negros” que um dia voltaram
com o orgulho da vitória?
Simplesmente foram para a Corte, a m de des larem perante o monarca.
Foram tão aplaudidos!!!
E depois, o que os esperava? Simplesmente o esquecimento total. Foram
abandonados à própria sorte.
Livres, porém cativos. Cativos da pobreza, da ignorância (negros não
eram levados à escola), do desemprego, de doenças e males físicos trazidos
dos campos paraguaios.
Foram o princípio das favelas cariocas, junto com voluntários e recrutas
brancos, também abandonados pelo poder imperial.
Poucos anos após o término da guerra sobreveio a “lei da libertação”,
trazendo aos negros o mesmo destino precedente. Cansados de longas
jornadas de trabalho, más condições de vida e, principalmente de maus
tratos, não hesitaram em deixar o “calabouço agrário” e se dirigiram para as
cidades.
Qual seria seu futuro? Não tinham o menor preparo para essa nova vida,
além de serem rejeitados pelos moradores locais.
Novos favelados e novas bocas em busca de alimento!
À falta de perspectiva melhor de vida, sobreveio o furto, o roubo, a bebida e a
violência.
– “Só podia ser coisa de negro, mesmo!”
Sim, são palavras fáceis de serem proferidas! O difícil é olhar para dentro de
si e encontrar ali a origem da desgraça alheia.
Por mais que passem os anos, a situação continua a mesma.
E o cinismo e a hipocrisia também!

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Pois é, nossa sociedade provinda de civilizados europeus, que por aqui


chegaram, é uma sociedade cínica e hipócrita.
– “Imaginem (outra vez), somos tão compreensíveis com os negros! Até
criamos cotas para que eles possam estudar e se tornarem cidadãos de
bem!”
Ora! Isto já não é cinismo nem hipocrisia – é uma violência moral!
Os negros não precisam de esmolas para cursos e empregos. Eles precisam
apenas de uma coisa – respeito e reconhecimento pelo que
passaram, e por tudo que zeram para o crescimento do país, e para o
enriquecimento da raça branca.
Se esta lutou de forma valente para o estabelecimento de uma sociedade
moderna, merecendo admiração por seus feitos, todos os seus méritos
devem ser divididos com aqueles que sofreram a violência de para cá serem
trazidos, explorados e violentados.
O que seria se valentes homens brancos não contassem com a força de cerca
de cinco milhões de braços africanos em suas fazendas, em suas
minerações, em seus engenhos e em suas cidades?
Até aos imigrantes que trouxeram sua força após o negro, foram dados
méritos pelo seu trabalho.
Merecem, sim! Mas …
A grande partida para a grandeza de São Paulo foi dada pelos
indígenas  da terra, e pelos braços de “indolentes e
vagabundos” negros!
Finalmente …
Neste singelo texto ca meu pedido de perdão aos irmãos de jornada
neste planeta Terra.
Se indígenas, negros e aborígenes fossem cobrar indenizações por todos os
males que sofreram não haveria moeda que os indenizassem.
Se Sua Santidade o Papa quisesse reparar o mal que sua Igreja causou,
teria que car mil anos de joelhos e pedir perdão a todos que padeceram em
nome de uma Cruz.
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Observando o desenrolar da civilização humana o Criador deve ter se


perguntado qual a razão de seu nome ter dado motivos para tanta violência e
exploração do próximo.
Mas Ele já deve ter a resposta:
O civilizado homem branco inventou sua teologia, pela qual a classe
dominante pode causar todos os males possíveis, pois basta um pequeno
momento de extrema-unção ou arrependimento, para que seja
perdoada dos in nitos males que causou.
Também inventou a teologia de que os explorados devem se calar e se
conformar com seu sofrimento, pois na vida eterna estarão no paraíso.
– “Que sublime consolo!”
Olhando para a história, vemos que a raça branca construiu sua grandeza
simplesmente à custa da exploração do alheio.
Será muito difícil a remissão de seus pecados. Terão os antigos
colonizadores que se empenhar muito para alcançá-la, mas sempre há a luz
da esperança.
Caso enxerguem o tamanho da barbárie que cometeram, e dela se
arrependam, e resolvam, nalmente, adotar a conduta de homens civilizados,
a humanidade encontrará um  novo Norte para dias  futuros; porém, se
fracassarem,  cará a certeza de que se o Grande Senhor do Universo
resolver um dia reconstruir sua obra, pensará in nitas vezes se valerá a pena
incluí-los em seus projetos, pois …
 

No reino de Deus não há lugar para barbáries!


Postado em A Construção

 SPR – Um Pequeno Museu Imigração em São Paulo 

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