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DIREITO PENAL PARTE GERAL

PROF. FLÁVIO MONTEIRO DE BARROS

LEI PENAL NO ESPAÇO

DIREITO PENAL INTERNACIONAL E DIREITO INTERNACIONAL PENAL. PRINCÍPIOS

O direito internacional penal é o conjunto de regras jurídicas concernentes às infrações


internacionais que constituem violações do direito internacional (S. Plawski). Assim, esse ramo do
direito cuida exclusivamente dos crimes definidos nas normas internacionais, tais como o
genocídio, os crimes de guerra etc. Como ensina Celso de Albuquerque Mello, o ideal é ele ser
aplicado por tribunais internacionais. Entretanto, o crime de pirataria é uma infração
internacional e o agente é julgado pelos tribunais dos Estados, em virtude de uma norma
internacional nesse sentido.
O direito internacional penal, a rigor, tem duas atribuições: a) apurar a responsabilidade
penal do autor do delito internacional; b) apurar a responsabilidade penal dos Estados infratores
da lei penal. Nesta última, ele ainda não vingou, tendo em vista a dificuldade em se imputar a
responsabilidade penal a uma pessoa jurídica.
A própria prática internacional tem rejeitado a responsabilidade penal do Estado: a) no
Tribunal de Nuremberg; b) na Convenção sobre repressão ao genocídio (1948); c) na Convenção
sobre a abolição da escravidão (1945); d) na Convenção sobre a eliminação e repressão do crime
de apartheid (1973). Cumpre registrar que as sanções aplicadas pelas organizações internacionais
aos Estados, quando estes violam normas internacionais, não têm natureza penal, pois são
aplicadas por órgãos políticos e não por tribunais.
O Tribunal Penal Internacional foi criado pelo Tratado de Roma de 1998, com sede em Haia,
devidamente ratificado no Brasil, com competência para julgar os crimes contra a humanidade, previstos
no art. 7º do ADCT da CF, e, recentemente, mencionado no § 4º do art. 5º da CF, com redação dada pela
Emenda Constitucional n. 45/2004, nos seguintes termos: “O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal
Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão”. A transferência do julgamento para esse
tribunal é subsidiária, só se concretizando na hipótese de impossibilidade de solução pelo ordenamento
jurídico interno. Primeiro tenta-se resolver internamente o litígio para depois recorrer-se ao organismo
internacional.
É mister ainda haja harmonização entre o julgamento levado a efeito pelo Tribunal Penal
Internacional e a Constituição Federal Brasileira, surgindo então o problema da inviabilidade da
extradição de brasileiros e da aplicação da pena de prisão perpétua.
Diante da vedação da extradição de brasileiros, desenvolveu-se, na doutrina, o conceito de
entrega. Nesta última, o julgamento é feito por organismo internacional do qual o Brasil é parte
integrante, ao passo que na extradição o julgamento é feito a um outro país. Sob essa ótica, obtém-
se a legitimação do Tribunal Penal Internacional, inclusive, para julgar brasileiros natos, porquanto
não há falar-se em extradição e sim em entrega, tendo em vista que em sua composição há a
atuação de magistrados brasileiros.
No concernente à prisão perpétua, o Tratado de Roma admite a comutação da sobredita pena,
outrossim, a imposição de limite de trinta anos a uma pena privativa de liberdade, condicionando-
se a transferência do julgamento ao cumprimento dessas restrições.
A visão clássica de soberania, atribuindo ao Estado a solução dos litígios, modernamente
sofreu uma relativização, diante da necessidade da criação de organismos internacionais para
atuarem subsidiariamente quando o conflito de interesses extrapolar os limites internos de um país,
ganhando conotação internacional. Isso ocorre, sobretudo, quando o Estado se transforma em
criminoso, lesionando o próprio povo, como no nazismo, e, também, quando a dimensão do
conflito é tamanha que o próprio Estado não o consegue solucionar, justificando-se, destarte, a

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intervenção desses organismos internacionais.


Por outro lado, o direito penal internacional compreende um conjunto de princípios e normas
que disciplinam conflitos de leis no espaço. Na verdade, porém, a sua denominação é imprópria,
visto que não se trata de direito internacional, e sim de direito público interno, porquanto encontra-
se disciplinada no CP (arts. 5º a 9º). Aludido ramo do direito tem o objetivo de fixar a jurisdição do
Estado em relação a determinados delitos.
Nítida é a diferença entre o direito internacional penal e o direito penal internacional. O
primeiro é composto por normas de origem internacional, ao passo que o segundo é formado por
normas internas do Estado.
Com efeito, o direito penal internacional existe na legislação interna de cada Estado. Regula os
conflitos de leis penais no espaço, isto é, a hipótese de um crime lesar bens jurídicos de dois ou
mais países.
Seis são os princípios previstos no CP que procuram solucionar os conflitos de leis no espaço, a
saber: territorialidade; personalidade; domicílio; defesa; justiça universal e representação.
O CP adotou como regra o princípio da territorialidade. Os outros princípios foram adotados
como exceção.

PRINCÍPIO DA TERRITORIALIDADE

Preceitua o art. 5º do CP: “Aplica-se a lei brasileira, sem prejuí-zo de convenções, tratados e
regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional”.
A regra, portanto, é a de que se aplica a lei brasileira aos crimes cometidos no território
nacional.
De acordo com o princípio da territorialidade, a lei penal brasileira só é aplicável aos crimes
cometidos dentro do nosso território.
Trata-se, porém, de princípio que não soluciona todos os problemas. Muitas vezes, o delito é
cometido por brasileiro no exterior ou, então, por estrangeiro no Brasil.
Abrem-se, por isso, diversas exceções ao princípio da territorialidade, que, no Brasil, não é adotado
de maneira absoluta, mas de forma temperada.
Há casos em que a lei penal brasileira é aplicada aos crimes cometidos no exterior
(extraterritorialidade). Há também casos em que a lei penal estrangeira é aplicada aos crimes
cometidos no Brasil (intraterritorialidade).
Cumpre, porém, esclarecer que, no tocante às leis processuais penais, vigora o princípio da
territorialidade absoluta, excluindo-se, portanto, a possibilidade de ser aplicada a lei processual
penal de um outro país em nosso território, outrossim, de ser aplicada as nossas leis processuais
fora dos limites do território brasileiro. Como esclarece Tourinho Filho, “sendo, pois, o Processo
Penal o meio de que se valem os Órgãos Jurisdicionais penais para solução de lides penais, e seus
Órgãos Jurisdicionais representam parcela do Poder Soberano de um Estado, ou, se quiserem, o
próprio Estado na sua função de administrar a Justiça, não pode este exercer o seu Poder Soberano
além do alcance da sua própria soberania”.
Beling, porém, ressalva a possibilidade de ser aplicada a lei processual penal de um Estado
fora de seus limites territoriais em três hipóteses:
a) aplicação da lei processual penal de um Estado em território nullius;
b) quando houver autorização do Estado onde deva ser praticado o ato processual;
c) em caso de guerra, em território ocupado.

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PRINCÍPIO DA PERSONALIDADE (OU DA NACIONALIDADE) E PRINCÍPIO DO DOMICÍLIO

De conformidade com o princípio da personalidade, aplica-se a lei penal da nacionalidade do


agente. Se, por exemplo, um brasileiro comete um crime na Itália, terá incidência a lei penal de
nosso país. É evidente que a Itália também terá legitimidade para puni-lo, sob pena de violação de
sua soberania. Justifica-se o princípio da personalidade pela proibição da extradição de brasileiros
(art. 5º, LI, da CF). Nessa ordem de ideias, se o criminoso fugisse para o Brasil, depois da prática do
crime no exterior, permaneceria impune, diante da impossibilidade de extraditá-lo. Assim, a adoção
do princípio da personalidade evita a impunidade dos delitos perpetrados por brasileiros no
exterior.
O princípio da personalidade subdivide-se em: personalidade ativa e personalidade passiva.
Na personalidade ativa, o agente é punido de acordo com a lei de seu país,
independentemente da nacionalidade do sujeito passivo e do bem jurídico ofendido. Esse princípio
é adotado no art. 7º, I, d, e II, b, do Código.
O princípio da personalidade passiva é aplicado quando a vítima do delito é nacional. Nesse
caso, o autor do delito, conquanto estrangeiro, deverá ser julgado de acordo com a lei brasileira.
Esse princípio é adotado no § 3º do art. 7º do CP. Alguns autores, porém, sustentam que o princípio
da personalidade passiva consiste na prática de um crime por brasileiro contra brasileiro. Encarado
sob esse prisma, força convir que esse princípio não teria sido adotado, pois, para aplicação da lei
penal brasileira, basta o delito ser perpetrado contra brasileiro, ainda que o sujeito ativo seja
estrangeiro. De conformidade com esse ponto de vista, o § 3º do art. 7º do CP, que prevê a hipótese
de crime praticado contra brasileiro, consagraria o princípio da defesa ou proteção.
Finalmente, o princípio do domicílio determina que o autor seja julgado pela lei do país em que
for domiciliado, pouco importando a sua nacionalidade. É adotado em relação ao delito de genocídio,
em que o agente não é brasileiro, mas apenas domiciliado no Brasil (CP, art. 7º, I, d).

PRINCÍPIO DA DEFESA

É também chamado princípio real ou da proteção.


De acordo com esse princípio, aplica-se a lei penal a que pertencer o bem jurídico lesado ou
exposto a perigo de lesão com a prática do crime, qualquer que seja a nacionalidade do agente e o
locus delicti.
O princípio da defesa é adotado no art. 7º, I, a, b e c, do CP.
Conforme salientado acima, alguns penalistas preconizam que o
§ 3º do art. 7º do CP
também consagraria a aplicação do princípio da defesa ou proteção, enquanto outros sustentam
que se trata do princípio da personalidade passiva.

PRINCÍPIO DA JUSTIÇA PENAL UNIVERSAL

Também chamado princípio da justiça cosmopolita, esse princípio determina a aplicação da lei
penal do país em que se encontra o criminoso, qualquer que seja a nacionalidade do agente, o locus
delicti ou o bem jurídico atingido.
Fundamenta-se no dever de solidariedade na repressão de certos delitos cuja punição
interessa a todos os povos.
O princípio da justiça universal é adotado no art. 7º, II, a, do CP.

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PRINCÍPIO DA REPRESENTAÇÃO

É também denominado princípio do pavilhão (ou da bandeira) e princípio subsidiário (ou da


substituição).
Determina a aplicação da lei penal a que pertencer a aeronave e embarcações privadas em
que o crime tenha sido cometido. Aplica-se, destarte, a lei penal da nacionalidade do meio de
transporte privado (aeronaves e embarcações) em que ocorreu o crime.
O princípio da representação é adotado no art. 7º, II, c, do CP.

CONCEITO DE TERRITÓRIO

Dispõe o art. 5º, caput, do CP:


“Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito
internacional, ao crime cometido no território nacional”.
Como vimos anteriormente, em todo crime praticado no território nacional, salvo raríssimas
exceções, aplica-se a lei penal brasileira. É a adoção do princípio da territorialidade.
A este ensejo, interessante questão já deve ser aventada: o que se entende por território
nacional? Kelsen responde que é o âmbito de validez da ordenação jurídica chamada Estado.
Do ponto de vista jurídico, território abrange todo o espaço onde se aceita a vigência de uma
ordem jurídica estatal. É evidente que na delimitação do conceito de território intervêm princípios
de direito internacional.
Sob o prisma geográfico, porém, o território compreende apenas o espaço físico delimitado
por fronteiras.
O art. 5º, caput, do CP refere-se ao território jurídico.
O território brasileiro compreende:
a) o espaço territorial delimitado pelas nossas fronteiras, sem solução de continuidade,
inclusive rios, lagos, mares interiores e ilhas;
b) o mar territorial, ou marginal, que corre ao longo da costa como parte integrante do
território brasileiro e que tem uma faixa de doze milhas marítimas de largura (art. 1º da Lei n.
8.617/93); a nossa soberania alcança também o leito e o subsolo do mar territorial;
c) o espaço aéreo;
d) os navios e aeronaves, de natureza particular, em alto-mar ou no espaço aéreo
correspondente ao alto-mar;
e) os navios e as aeronaves, de natureza pública, onde quer que se encontrem;
f) os rios e lagos internacionais, que são aqueles que atravessam mais de um Estado. Caso
sejam sucessivos, isto é, passem por dois ou mais países, mas sem separá-los, considera-se território
nacional o trecho que atravessa nosso país. Caso sejam simultâneos (fronteiriços), isto é, separem
os territórios de dois ou mais países, a delimitação da parte pertencente ao Brasil é fixada por
tratados ou convenções internacionais entre os Estados interessados.

O que se entende por território brasileiro por extensão? O § 1º do art. 5º do CP responde:


“Para os efeitos penais, consideram-se como extensão do território nacional as embarcações e
aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo brasileiro onde quer que se
encontrem, bem como as aeronaves e as embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade
privada, que se achem, respectivamente, no espaço aéreo correspondente ou em alto-mar”.

Diante do expendido, verifica-se que o território brasileiro por extensão se agrupa em:

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a) Embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza pública ou a serviço do governo


brasileiro, mesmo que se achem em país estrangeiro ou em alto-mar. Assim, a justiça brasileira é a
competente para o processo e julgamento dos delitos ali perpetrados.
b) Embarcações e aeronaves brasileiras, de natureza privada, quando em alto-mar ou no
espaço aéreo correspondente ao alto-mar. Se, no entanto, não estiverem em alto-mar, mas surtos
em mar territorial estrangeiro ou sobrevoando o espaço aéreo de país estrangeiro, aplica-se a lei
penal do país em que se encontram. Todavia, se o agente for brasileiro, ou então se um estrangeiro
cometer delito contra brasileiro ou contra um dos bens jurídicos previstos no art. 7º, I, do CP,
conforme veremos oportunamente, a nossa justiça julgará o delito.

No tocante às aeronaves e embarcações estrangeiras, que estejam em águas territoriais


brasileiras ou em nosso espaço aéreo, cumpre distinguir duas situações:
a) As aeronaves e embarcações são de natureza pública ou estão a serviço do país estrangeiro.
Nesse caso, considera-se território estrangeiro, devendo os crimes ali cometidos, envolvendo
apenas estrangeiros e bens jurídicos estrangeiros, ser julgados de acordo com a lei penal a que
pertencerem a embarcação ou aeronave.
b) As aeronaves e embarcações são particulares. Nesse caso, são consideradas parte do
território brasileiro. Os delitos ali cometidos, ainda que envolvendo apenas estrangeiros, serão
julgados pela lei penal brasileira.

Finalmente, no que tange ao domínio aéreo, há três teorias:


a) da absoluta liberdade do ar, que preconiza a utilização do espaço aéreo por todos os países;
nenhum Estado poderia ter o domínio exclusivo do espaço aéreo;
b) da soberania até a altura dos prédios mais elevados do país subjacente;
c) da absoluta soberania do país subjacente. Segundo essa teoria, o país exerce exclusiva
soberania sobre o espaço aéreo acima de seu território e respectivas águas jurisdicionais.
O Brasil adotou esta última teoria (art. 11 da Lei n. 7.565/86).

LUGAR DO CRIME (“LOCUS DELICTI”)

Prescreve o art. 6º do CP:


“Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em
parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado”.
O dispositivo supra cuida do problema da validade no espaço da lei penal brasileira. Procura
solucionar as dúvidas suscitadas pelos denominados crimes à distância, que são aqueles em que a
conduta é perpetrada num país e o resultado produzido noutro. Por exemplo, um cidadão
brasileiro, do território nacional, atira e mata um boliviano, na fronteira Brasil-Bolívia, que se
encontra em solo boliviano.
A doutrina distingue sete teorias:
a) Teoria da atividade, segundo a qual o crime se considera cometido onde tiver sido
executada a conduta. No exemplo acima, o crime teria sido cometido no Brasil.
b) Teoria da consumação ou evento ou do resultado, pela qual o delito se considera cometido
no lugar em que se produziu o resultado. No exemplo mencionado, o crime teria sido cometido na
Bolívia.
c) Teoria da intenção, segundo a qual lugar do crime é aquele em que o agente desejava que
ocorresse o resultado. Essa teoria deixa impunes os delitos culposos e preterdolosos, pois, em
relação a esses crimes, o resultado é involuntário.

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d) Teoria do efeito intermédio ou do efeito mais próximo. Segundo essa teoria, conforme
ensina Luiz Régis Prado, o lugar do crime é aquele em que a energia movimentada pela atuação do
agente alcança a vítima ou o bem jurídico.
e) Teoria da ação a distância ou da longa mão. Segundo essa teoria, lugar do crime é aquele
em que ocorreu o ato executivo. No exemplo mencionado, o crime teria sido cometido no Brasil.
f) Teoria limitada da ubiquidade. De acordo com essa teoria, o delito se considera cometido
tanto no lugar da conduta como no lugar em que se produziu o resultado. No exemplo acima, o
crime teria sido cometido tanto no Brasil como na Bolívia.
g) Teoria pura da ubiquidade, mista ou unitária. Segundo essa teoria, lugar do crime é aquele
em que ocorreu a conduta ou o resultado, ou ainda o lugar do bem jurídico a ser atingido. No
exemplo acima, o crime teria sido cometido tanto no Brasil como na Bolívia. Note-se que, de acordo
com essa teoria, o Brasil é o lugar do crime ainda que a conduta e o resultado aqui não se
verifiquem, bastando o fato de o bem jurídico atacado situar-se em nosso país.
Adotou o Código Penal a teoria pura da ubiquidade (art. 6º), evitando, assim, o conflito
negativo de jurisdição, que as duas primeiras teorias poderiam gerar. Efetivamente, quando o
Estado em que se realiza a conduta adota a teoria do resultado, e aquele em que se produz o evento
adota a teoria da atividade, ocorre a impunidade do delinquente.
O inconveniente da teoria da ubiquidade, de proporcionar a duplicidade de julgamento pelo
mesmo fato, é superado pela detração penal prevista no art. 8º do CP: “A pena cumprida no
estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é
computada, quando idênticas”.
De acordo com a teoria da ubiquidade, para se aplicar a lei penal brasileira basta que um
único ato executório, dos diversos realizados pela conduta criminosa, toque em nosso território ou,
então, que o resultado aqui se verifique. Se, por exemplo, do Paraguai, um cidadão paraguaio envia
pelo correio uma bomba endereçada a um cidadão argentino, passando a bomba pelo correio
brasileiro, o Brasil dispõe de legitimidade para o julgamento do crime, porquanto uma parcela dos
atos executórios realizou-se em nosso país. Aliás, pela teoria da ubiquidade considera-se o crime
praticado nos três países.
A teoria da ubiquidade, porém, não se preocupa com os atos preparatórios nem com os
realizados após o momento consumativo. Se o criminoso ingressa no Brasil com o produto do crime,
após matar um cidadão chileno, no Chile, nem assim o delito se considera praticado em nosso país.
A aplicação da teoria da ubiquidade requer a prática de qualquer ato de execução ou consumação
em território nacional. Não se pode alargá-la para abranger os atos preparatórios, pois é vedada a
analogia in malam partem.
No tocante à tentativa, o lugar do crime compreende aquele em que se desenvolveram os
atos de execução e também aquele onde deveria produzir-se o resultado. Não se considera a
intenção do agente, isto é, o lugar do crime não é aquele onde o agente desejava que ocorresse o
resultado, mas onde, de fato, teria se produzido o resultado se não fosse a presença de
circunstâncias alheias à vontade do agente.
Em relação ao partícipe e coautor, realizando-se os atos de coparticipação no território
nacional, aplica-se a lei penal brasileira, mesmo que o delito tenha sido inteiramente executado no
estrangeiro. Aplica-se, destarte, a nossa lei ao partícipe que, no Brasil, induz o agente a matar um
boliviano na Bolívia.
Finalmente, cumpre não confundir o tema “lugar do crime”, ora em estudo, disciplinado no
art. 6º do CP, que cuida do problema da validade no espaço da lei penal brasileira, atinente,
portanto, à aplicação da lei penal, com o mesmo tema “lugar do crime” disciplinado no art. 70 do
CPP, relacionado ao problema de competência dos foros, juízos e tribunais brasileiros. Efetivamente,

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nos denominados delitos plurilocais, em que a conduta se realiza numa comarca e o resultado
noutra, aplica-se a regra geral do art. 70 do CPP, que fixa a competência do local da consumação
para o processo e julgamento do delito, lembrando, porém, que a jurisprudência abre exceção aos
delitos de homicídio doloso e aborto, determinando que a denúncia seja oferecida no local da
conduta criminosa, devido ao maior alarme social ali provocado; outra exceção à regra geral do art.
70, caput, do CPP encontra-se na Lei n. 9.099/95, que fixa a competência no local em que é
praticado o delito, ou seja, no local da conduta.
Assim, fixada a jurisdição brasileira para o julgamento dos crimes à distância, cumpre, num
segundo passo, desvendar o foro competente. A solução é fornecida pelos §§ 1º e 2º do art. 70 do
CPP:
“Se, iniciada a execução no território nacional, a infração se consumar fora dele, a
competência será determinada pelo lugar em que tiver sido praticado, no Brasil, o último ato de
execução” (§ 1º).
“Quando o último ato de execução for praticado fora do território nacional, será competente o
juiz do lugar em que o crime, embora parcialmente, tenha produzido ou devia produzir o resultado”
(§ 2º).

EXTRATERRITORIALIDADE (ART. 7º DO CP)

Segundo verificamos anteriormente, o art. 5º, caput, do Código Penal consagrou, como regra,
o princípio da territorialidade. Mas esse princípio se torna ineficaz em relação aos delitos cometidos
no estrangeiro que, em razão da relevância dos interesses lesados ou da nacionalidade brasileira do
agente, o Brasil se mostre interessado em punir. Em razão disso, o princípio da territorialidade não é
adotado de maneira absoluta. Adota-se no Brasil o princípio da territorialidade temperada,
porquanto casos há em que a lei penal brasileira é aplicada aos crimes cometidos no exterior, e
outros em que a lei penal estrangeira é aplicável no Brasil.
Extraterritorialidade é a aplicação da lei penal brasileira aos crimes praticados no exterior.
Segundo o disposto no art. 7º do Código Penal, a extraterritorialidade pode verificar-se de
maneira incondicionada ou condicionada.

EXTRATERRITORIALIDADE INCONDICIONADA

A extraterritorialidade incondicionada é regulada pelo art. 7º, I, do CP. Nesse caso, a simples
prática do delito no exterior já autoriza a aplicação da lei penal brasileira, independentemente de
qualquer outro requisito. O julgamento no Brasil não está condicionado ao não julgamento no
exterior, nem tampouco ao ingresso do delinquente no território brasileiro. A lei penal brasileira não
é subsidiária em relação a esses delitos. Ainda que tenha sido aplicada a lei penal estrangeira,
impondo condenação ao criminoso, o Brasil dispõe de competência para julgar o agente.
De acordo com o art. 7º, I, ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro, os
seguintes crimes:
a) Contra a vida (v. g., homicídio) ou a liberdade (v. g., ameaça, sequestro etc.) do Presidente
da República. Esses delitos, quando praticados por motivos políticos, são regidos pela Lei de
Segurança Nacional (Lei n. 7.170/93).
b) Contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, do Estado, de Território,
de Município, de empresa pública, de sociedade de economia mista, autarquia ou fundação
instituída pelo Poder Público. Esses delitos estão definidos nos arts. 289 a 311 do Código Penal.
c) Contra a Administração Pública, por quem está a seu serviço. Tais delitos estão previstos nos

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arts. 312 a 326 do Código Penal.


d) De genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil. O crime de genocídio
está previsto na Lei n. 2.889/56. Se o agente não for brasileiro, a nossa lei só é aplicada se a vítima
for brasileira, mas daí a extraterritorialidade será condicionada (art. 7º, § 3º, do CP).
Percebe-se do exposto a aplicação do princípio da defesa a todas as hipóteses de
extraterritorialidade incondicionada, à exceção da alínea d, em que prevalece o princípio da
personalidade ativa. A necessidade de se tutelarem interesses da comunidade nacional que sejam
ofendidos no exterior justifica maior flexibilidade para a aplicação da lei penal brasileira. Note-se
que, em relação ao delito de genocídio, urge que o agente seja brasileiro ou domiciliado no Brasil,
razão pela qual se adotou o princípio da personalidade ativa e o princípio do domicílio, e não o da
justiça universal, como sustenta Mirabete, nem o princípio da defesa, como quer crer Damásio E.
de Jesus.
Em relação a esses delitos, o agente é punido segundo a lei brasileira, ainda que absolvido ou
condenado no estrangeiro (art. 7º, § 1º, do CP). Mas a pena cumprida no estrangeiro atenua a pena
imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando idênticas (art.
8º do CP).

EXTRATERRITORIALIDADE CONDICIONADA

A lei penal brasileira é subsidiária quanto aos crimes cometidos no estrangeiro referidos no
art. 7º, II, e § 3º, do CP. Nesses delitos, além de outras condições, exige-se, para aplicação da lei
penal brasileira, que o agente entre no território nacional.
Os delitos sujeitos à extraterritorialidade condicionada são os seguintes:
1º) Os que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir. São os denominados
delitos internacionais, ou delicta juris gentium, cujo interesse em puni-los ultrapassa as fronteiras de
qualquer país, razão pela qual foi adotado, em relação a eles, o princípio da justiça universal. Por
diversas convenções e tratados internacionais o Brasil se comprometeu a punir certos delitos, tais
como: tráfico de pessoas, comércio clandestino e tráfico de entorpecentes, danificação ou
destruição de cabos submarinos, difusões de publicações obscenas e pirataria.
2º) Os praticados por brasileiro no estrangeiro. Acolheu-se o princípio da personalidade ativa.
Ainda que a vítima ou o bem jurídico lesado seja estrangeiro, aplica-se a lei penal brasileira. A
punição não se estende às contravenções. Aliás, a lei penal brasileira só é aplicável à contravenção
praticada no território nacional (art. 2º da LCP). Não há assim extraterritorialidade de contravenção.
3º) Os praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade
privada, quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados. Adotou-se, nesse ponto, o
princípio da representação. Vimos que as aeronaves e embarcações brasileiras particulares, quando
em território estrangeiro, não são consideradas extensão do território nacional. Se, por exemplo,
autor e vítima são estrangeiros, aplica-se a lei penal do país em que ocorreu o crime. Se, no entanto,
esse país não manifestar interesse em processar o criminoso, aplicar-se-á a lei penal brasileira. A
jurisdição penal brasileira substitui a jurisdição estrangeira, daí o nome de princípio da
representação ou substituição. Note-se que a eficiência desse princípio só serve para justificar os
delitos que envolvem exclusivamente estrangeiros (autor e vítima), pois se o agente é brasileiro
aplica-se o princípio da personalidade ativa (art. 7º, II, b, do CP) e se a vítima for brasileira, o
princípio da proteção (art. 7º, § 3º, do CP).
4º) Os cometidos por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil. Alguns autores, como
Nélson Hungria e Heleno Cláudio Fragoso, identificavam a hipótese, que no Código Penal de 1940
era idêntica a esta, como sendo a adoção do princípio da personalidade passiva, enquanto outros

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apregoam que se trata do princípio da defesa, argumentando que o princípio da personalidade


passiva exige que autor e vítima sejam brasileiros, e, por isso, não teria sido adotado. Cumpre
salientar que, além das condições do § 2º do art. 7º do CP, exige-se, nesse ponto, mais duas
condições:
a) que o país a que pertence o estrangeiro não tenha pedido sua extradição, ou, se pediu, o
Brasil a tenha negado; portanto, a concessão da extradição inviabiliza o prosseguimento da ação
penal instaurada no Brasil;
b) que haja requisição do Ministro da Justiça. Denota-se que a instauração da ação penal
pública, nesse caso, depende de requisição do Ministro da Justiça.
Passemos agora à análise das condições necessárias para a caracterização da
extraterritorialidade.

A aplicação da lei penal brasileira aos crimes ocorridos fora do Brasil, previstos no art. 7º, II, e
§ 3º, do CP, depende, cumulativamente, dos seguintes requisitos:
1º) Entrar o agente no território nacional. A ação penal não pode ser proposta sem que o
agente compareça em território brasileiro. Veda-se assim o processo penal contra ausentes. Mas se
comparece e, após o início da ação penal, ausenta-se novamente do Brasil, prossegue o processo à
sua revelia.
2º) Ser o fato punível também no país em que foi praticado. Se no Brasil o fato é punido como
contravenção e no exterior, como crime, exclui-se a incidência da lei penal brasileira, nos termos do
art. 2º da LCP. Igualmente, se no Brasil o fato é punido como crime e no país em que foi praticado,
como contravenção.

A aplicação da lei penal brasileira aos crimes ocorridos fora do Brasil, previstos no art. 7º, II, e
§ 3º, do CP, depende, cumulativamente, dos seguintes requisitos:
1º) Entrar o agente no território nacional. A ação penal não pode ser proposta sem que o
agente compareça em território brasileiro. Veda-se assim o processo penal contra ausentes. Mas se
comparece e, após o início da ação penal, ausenta-se novamente do Brasil, prossegue o processo à
sua revelia.
2º) Ser o fato punível também no país em que foi praticado. Se no Brasil o fato é punido
como contravenção e no exterior, como crime, exclui-se a incidência da lei penal brasileira, nos
termos do art. 2º da LCP. Igualmente, se no Brasil o fato é punido como crime e no país em que foi
praticado, como contravenção.
3º) Estar o crime entre aqueles para os quais a lei brasileira autoriza a extradição. Esses
delitos são aqueles cuja pena de prisão seja igual ou superior a dois anos, conforme art. 82, IV da lei
13.445/2017. Antes desta lei esses delitos que admitiam a extradição eram aqueles cuja pena de
prisão fosse superior a um ano, por força da lei n. 6.815/80. O art. 82 da lei 13.445/2017 veda a
extradição quando:
a) o fato for punido como contravenção no Brasil ou no Estado requerente;
b) a lei brasileira cominar ao crime pena privativa de liberdade inferior a dois anos;
c) o Brasil tiver competência, consoante as suas leis, para julgar o delito imputado ao
extraditando;
d) o extraditando estiver sendo processado no Brasil;
e) se se tratar de crime político ou de opinião. Entretanto, não impedirá a extradição quando o
fato constituir, principalmente, infração à lei penal comum ou quando o crime comum, conexo ao
delito político, constituir o fato principal (§1º do citado art. 82). Assim, o chamado crime político
impróprio ou impuro, que atenta simultaneamente contra a segurança do país e contra outro bem

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
PROF. FLÁVIO MONTEIRO DE BARROS

jurídico comum, não obsta a extradição na hipótese de o bem jurídico comum sobrepor ao político,
como é o caso de um latrocínio cometido por motivação política. O Supremo Tribunal Federal
poderá deixar de considerar crime político o atentado contra chefe de Estado ou quaisquer
autoridades, bem como crime contra a humanidade, crime de guerra, crime de genocídio e
terrorismo (§4º do citado art. 82);
f) se o extraditando tiver de responder, no país requerente, perante tribunal ou juízo de
exceção;
g) quando se tratar de brasileiro nato;
h) quando se tratar de brasileiro naturalizado, salvo em caso de crime comum, praticado antes
da naturalização, ou de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas
afins;

i) quando o fato não for considerado crime no Brasil ou no Estado requerente;


j) quando a punibilidade estiver extinta pela prescrição, segundo a lei brasileira ou a
do Estado requerente;
k) quando o extraditando for beneficiado de refúgio, nos termos da lei 9.474/97, ou de
asilo territorial;
l) não ter sido o agente condenado ou absolvido no Brasil pelo mesmo fato.
4º) Não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido pena.
5º) Não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a
punibilidade, segundo a lei mais favorável. Assim, não se aplica a lei penal brasileira se o agente foi
perdoado no estrangeiro ou se a punibilidade já estiver extinta de acordo com a nossa lei ou a lei
estrangeira.

“NON BIS IN IDEM”

Preceitua o art. 8º do CP:


“A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando
diversas, ou nela é computada, quando idênticas”.
O dispositivo cuida dos casos em que a lei brasileira é aplicável a crime praticado no
estrangeiro, prevendo a hipótese de o agente já ter cumprido pena no país onde delinquiu. Urge
reconhecer, todavia, que a utilidade do dispositivo em análise atinge, em regra, as hipóteses de
extraterritorialidade incondicionada. Efetivamente, um dos requisitos da extraterritorialidade
condicionada é o agente não ter cumprido a pena no estrangeiro (art. 7º, II, § 2º, d, do CP). Desse
modo, o cumprimento da pena no país em que cometeu o delito inviabiliza a aplicação da lei penal
brasileira. Se, porém, cumpriu parcialmente a pena imposta no estrangeiro, vindo para o Brasil,
poderá ser aqui processado, quando, então, a regra do art. 8º do CP terá utilidade para a
extraterritorialidade condicionada.
Evidente a importância do dispositivo, que, em verdade, evita o bis in idem ou a duplicidade
de repressão pelo mesmo fato.
A diversidade de penas pode ser: qualitativa e quantitativa.
Ocorre a diversidade qualitativa quando as penas são de espécies diferentes, como, por
exemplo, multa no estrangeiro e reclusão no Brasil. Nesse caso, a pena cumprida no estrangeiro
atenua a imposta no Brasil. A atenuação é obrigatória, ficando a quantidade da redução à
discricionariedade do magistrado. Assim, no exemplo acima, efetuado o pagamento da multa, a
pena imposta no Brasil será atenuada. Se a pena de multa for satisfeita antes de o juiz brasileiro

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
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proferir a sentença, caberá a ele fazer a redução. Se for satisfeita após a sentença, mas antes do
trânsito em julgado, caberá ao Tribunal competente apreciar o recurso. Quando, entretanto, a pena
de multa for satisfeita após o trânsito em julgado da sentença condenatória brasileira, competirá ao
juiz da execução penal. Se, ao inverso, for condenado à pena de reclusão na Bolívia e à pena de
multa no Brasil, o cumprimento da pena de reclusão deve também atenuar a multa imposta no
Brasil.
Já a diversidade quantitativa ocorre quando as penas são da mesma espécie. Por exemplo, o
sujeito é condenado no estrangeiro a dois anos de reclusão, e, no Brasil, a três anos de reclusão.
Nesse caso, o problema é de detração penal, pois a pena cumprida no estrangeiro é computada na
pena imposta no Brasil. Se, porém, a pena imposta no exterior for superior à imposta em nosso país,
cumprindo lá a pena, o condenado não terá mais de cumpri-la no Brasil. No tocante à competência
para fazer a detração penal, aplicam-se as mesmas observações feitas para a diversidade qualitativa.

COISA JULGADA DA SENTENÇA PENAL ESTRANGEIRA

As sentenças absolutórias estrangeiras relativas a crimes cometidos fora do Brasil, nos casos
de extraterritorialidade condicionada, têm o efeito de impedir que o crime seja objeto de novo
julgamento no Brasil. Assim, a coisa julgada da sentença absolutória estrangeira goza das boas
graças da legislação brasileira. Esta, na extraterritorialidade condicionada, tem aplicação subsidiária
(art. 7º, II, § 2º, d). Se, no entanto, foi condenado no exterior, mas ainda não cumpriu a pena,
entrando no território nacional poderá vir a ser processado. O que não se pode fazer é executar a
sentença penal estrangeira, pois o agente tem o direito de novo julgamento, de acordo com as leis
brasileiras.
Note-se que, na hipótese de condenação no exterior, o efeito da coisa julgada de impedir que
o crime seja objeto de novo julgamento no Brasil só se concretiza, nos casos de extraterritorialidade
condicionada, se o agente cumprir a pena que lhe tenha sido aplicada no estrangeiro.
Nos casos de extraterritorialidade incondicionada, as sentenças penais estrangeiras, sejam
absolutórias ou condenatórias, não têm eficácia de coisa julgada, isto é, não têm o efeito de impedir
que o crime seja objeto de um novo julgamento no Brasil. Entretanto, no caso de condenação, o
cumprimento da pena no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil, nos termos do art. 8º do CP.
Cumpre observar que, no caso de extraterritorialidade condicionada, uma pessoa julgada no
exterior pode cumprir pena no Brasil, e vice-versa, desde que haja um tratado entre os dois Estados
soberanos. Foi o que ocorreu entre o Brasil e o Canadá em 1992. Esses dois países firmaram tratado,
segundo o qual um canadense julgado no Brasil poderia cumprir a pena no Canadá, e vice-versa. Em
tal situação, desde que se verifique a entrega formal do criminoso, ele continuará o cumprimento
da pena no Brasil, sem necessidade de novo julgamento.
No tocante às sentenças estrangeiras que têm por objeto crimes cometidos em território
nacional, não podem ser executadas no Brasil, onde, aliás, não podem produzir nenhum efeito. É
que aos crimes cometidos no território nacional aplica-se a lei brasileira (art. 5º do CP). O
reconhecimento dessas sentenças é incompatível com o princípio da soberania territorial.
Desse modo, aludidas sentenças não têm eficácia de coisa julgada, isto é, não têm o efeito de
impedir que o Brasil julgue novamente o crime. Cumpre, porém, observar que a pena cumprida no
estrangeiro atenua ou é computada na pena imposta no Brasil, consoante o art. 8º do CP.

HOMOLOGAÇÃO DA SENTENÇA PENAL ESTRANGEIRA

Hipóteses de cabimento

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O direito brasileiro reconhece a sentença penal estrangeira, em relação aos delitos cometidos
fora do território nacional. Todavia, em relação a dois efeitos exige-se a homologação pelo STJ, a
saber:
a) obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e outros efeitos civis (art. 9º, I, do
CP);
b) sujeitá-lo a medida de segurança (art. 9º, II, do CP).
Nesses dois casos, o art. 9º do Código Penal condiciona o reconhecimento da sentença aos
seguintes requisitos:
a) Que a lei brasileira produza na espécie as mesmas consequências.
b) Que o delito tenha sido cometido no estrangeiro. O art. 9º mostra-se omisso a respeito
desse requisito, que, no entanto, é evidente diante da norma prevista no art. 5º do mesmo estatuto.
Aliás, são insuscetíveis de homologação as sentenças estrangeiras que ofendam a soberania
nacional.
c) Que haja homologação da sentença.
Cumpre observar que, para produzir outros efeitos penais, como, por exemplo, gerar
reincidência, não há necessidade de homologação. Esta só se faz necessária nas duas hipóteses
previstas no art. 9º do CP. Entretanto, o art. 216-B do RISTJ dispõe que: “A decisão estrangeira não
terá eficácia no Brasil sem a prévia homologação do Superior Tribunal de Justiça”. Numa primeira
interpretação, que me parece mais correta, esta homologação só seria necessária nas hipóteses do
art. 9º do CP. Noutra exegese, a homologação seria essencial para toda e qualquer situação.

Legitimidade ativa

A homologação da sentença para obrigar o condenado à reparação do dano, a restituições e


outros efeitos civis depende de pedido da parte interessada (art. 9º, parágrafo único, a, do CP).
Já a homologação para sujeitar o condenado à medida de segurança, depende da existência
de tratado de extradição com o país de cuja autoridade judiciária emanou a sentença, ou, na falta
de tratado, de requisição do Ministro da Justiça (art. 9º, parágrafo único, b, do CP). Tem legitimidade
para o pedido o Procurador-Geral da República.

Legitimidade passiva

Quem figura no polo passivo é aquele que figurou como réu na sentença penal estrangeira.

Petição Inicial

A homologação da decisão estrangeira será proposta pela parte requerente, devendo a


petição inicial conter os requisitos indicados na lei processual, bem como os previstos no art. 216-D,
e ser instruída com o original ou cópia autenticada da decisão homologanda e de outros
documentos indispensáveis, devidamente traduzidos por tradutor oficial ou juramentado no Brasil
e chancelados pela autoridade consular brasileira competente, quando for o caso (art. 216-C do
RISTJ).
O pedido é endereço ao Presidente do Superior Tribunal de Justiça.
De acordo com o art. 216-D, a decisão estrangeira deverá:
I - ter sido proferida por autoridade competente;
II - conter elementos que comprovem terem sido as partes regularmente citadas ou ter sido

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
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legalmente verificada a revelia;


III - ter transitado em julgado.
Não será homologada a decisão estrangeira que ofender a soberania nacional, a dignidade da
pessoa humana e/ou a ordem pública (art. 216-F do RISTJ).

Emenda da Petição Inicial

Se a petição inicial não preencher os requisitos exigidos nos artigos anteriores ou apresentar
defeitos ou irregularidades que dificultem o julgamento do mérito, o Presidente assinará prazo
razoável para que o requerente a emende ou complete (art. 216-E do RISTJ).
Após a intimação, se o requerente ou o seu procurador não promover, no prazo assinalado,
ato ou diligência que lhe for determinada no curso do processo, será este arquivado pelo
Presidente (parágrafo único do art. 216-E do RISTJ).

Tutela provisória

Admitir-se-á a tutela provisória nos procedimentos de homologação de decisão estrangeira


(art. 216-G do RISTJ).

Prazo para contestação

A parte interessada será citada para, no prazo de quinze dias, contestar o pedido (art. 216-H.
do RISTJ). Nesse passo, derrogou-se o § 2º do art. 789 do CPP, que fixava o prazo de dez dias, se o
interessado residisse no Distrito Federal, ou trinta dias, no caso contrário.
A defesa somente poderá versar sobre a inteligência da decisão alienígena e a observância
dos requisitos indicados nos arts. 216-C, 216-D e 216-F, podendo ainda impugnar a autenticidade
dos documentos.

Curador especial

Revel ou incapaz o requerido, dar-se-lhe-á curador especial, que será pessoalmente


notificado (art. 216-I do RISTJ).
O curador especial é um advogado nomeado para impugnar a homologação. Esta nomeação é
necessária em duas situações: requerido capaz, mas revel, bem como requerido incapaz, ainda que
não seja revel.

Réplica e tréplica

Apresentada contestação, serão admitidas réplica e tréplica em cinco dias (art. 216-J do
RISTJ).

Intervenção do Ministério Público

O Ministério Público terá vista dos autos pelo prazo de quinze dias, podendo impugnar o
pedido (art. 216-L do RISTJ).
Quem representa o Ministério Público neste procedimento é o Procurador Geral da
República. Caso ele seja o requerente, não há necessidade da manifestação de outro membro do

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
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“parquet”.

Juízo de delibação

Antes de homologar a sentença, o STJ elabora o juízo de delibação, pelo qual verifica o
preenchimento dos requisitos formais exigidos pela lei brasileira (juiz competente, citação válida,
autenticação por cônsul brasileiro, tradução por tradutor público e trânsito em julgado). Cumpre
frisar que não se homologa sentença proferida no estrangeiro sem prova de trânsito em julgado
(Súmula 420 do STF).

Competência para julgamento

Compete ao STJ a homologação da sentença penal estrangeira, conforme a Emenda


Constitucional n. 45/2004.
Se não houver impugnação, o pedido será decidido monocraticamente pelo Presidente do STJ
(art. 216-A do RISTJ).
Contestado o pedido, o processo será distribuído para julgamento pela Corte Especial,
cabendo ao relator os demais atos relativos ao andamento e à instrução do processo (art. 216-K do
RISTJ). A Corte Especial é composta pelos 15 ministros do STJ.
Em caso de contestação, cumpre ressalvar que o relator poderá decidir monocraticamente
nas hipóteses em que já houver jurisprudência consolidada da Corte Especial a respeito do tema
(parágrafo único do art. 216-K).
Em suma, se não houver contestação, a homologação compete ao Presidente do STJ. Se
houver contestação, a competência será do relator ou da Corte Especial do STJ, conforme haja ou
não jurisprudência consolidada sobre o assunto.

Homologação parcial

As decisões estrangeiras poderão ser homologadas parcialmente (§2º do art. 216-A do RISTJ).

Recursos

Das decisões do Presidente ou do relator caberá agravo (art. 216-M do RISTJ). Trata-se do
agravo interno, cuja competência para julgamento será a Corte Especial do STJ.
Quando a homologação da sentença estrangeira for feita diretamente pela Corte Especial do
STJ, caberá recurso extraordinário para o STF.

Competência para execução

A decisão estrangeira homologada será executada por carta de sentença no Juízo Federal
competente (art. 216-N do RISTJ). A competência para execução é da Justiça Federal de 1º grau
(art. 109, X, da CF).

LEI PENAL EM RELAÇÃO ÀS PESSOAS

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

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No presente capítulo abordaremos os seguintes temas:


➢ imunidades diplomáticas;
➢ imunidades parlamentares;
➢ extradição.

IMUNIDADES DIPLOMÁTICAS E CHEFES DE GOVERNO ESTRANGEIRO

Segundo frisamos anteriormente, intraterritorialidade é a aplicação da lei penal estrangeira


aos crimes cometidos no Brasil.
A intraterritorialidade encontra previsão no art. 5º, caput, do CP, que fixa a regra da
territorialidade, mas ressalva expressamente as convenções, os tratados e as regras de direito
internacional, possibilitando, destarte, a aplicação da lei penal estrangeira aos crimes cometidos no
território nacional.
A lei é igual para todos e não existem privilégios pessoais. É certo, pois, que a
intraterritorialidade afasta a jurisdição brasileira, mas nisso não se vislumbra qualquer ofensa ao
princípio da isonomia, porquanto a prerrogativa é funcional, isto é, relacionada à relevância de
certas funções públicas. Não se trata de um privilégio vinculado à pessoa, e sim à função pública.
Manifesta-se a intraterritorialidade em relação aos crimes cometidos por diplomatas e demais
funcionários estrangeiros do corpo da embaixada e seus respectivos familiares.
As imunidades dos diplomatas são concedidas por tratados internacionais em que há regime
de reciprocidade. A diplomacia política de respeito e consideração pelas autoridades de outro
Estado, quando há reciprocidade às autoridades homônimas de nosso país, justifica a imunidade.
As relações diplomáticas estão disciplinadas na Convenção de Viena, de 18 de abril de 1961,
aprovada pelo Decreto n. 56.435, de 8 de junho de 1965.
Os diplomatas e membros de sua família que com eles convivam e não sejam brasileiros, bem
como os funcionários administrativos da embaixada e familiares que com eles convivam, desde que
não sejam brasileiros nem tenham residência permanente no Brasil, são invioláveis, não podendo
ser detidos nem presos (art. 29 do Dec. n. 56.435/65). Não são obrigados a prestar depoimento
como testemunha, salvo se quiserem (art. 31). Note-se que gozam também de imunidades os
familiares dos membros do quadro diplomático (do embaixador ao terceiro secretário) e do quadro
administrativo e técnico da missão diplomática.
Os funcionários da ONU que estejam em missão no território nacional também gozam de
imunidade (art. 105 da Carta da ONU).
A lei, porém, não estende a imunidade aos agentes consulares, salvo em relação aos atos de
ofício. Com efeito, os cônsules e funcio-nários consulares só gozam de imunidade no tocante aos
atos de ofício, razão pela qual a imunidade não se estende aos seus familiares. Portanto, os crimes
comuns são punidos aqui no Brasil. Haverá imunidade apenas em relação aos delitos relacionados
diretamente com a função consular (concessão fraudulenta de passaporte, falsificação na lavratura
de guias de exportação etc.).
Em contrapartida, a imunidade dos diplomatas, funcionários estrangeiros da embaixada e dos
respectivos familiares, abrangem todo e qualquer tipo de delito, inclusive homicídio, roubo, estupro,
etc. Mas, como adverte Francisco Rezek, o que se espera, por óbvio, é que retornando à origem o
diplomata responda pelo delito praticado alhures. A imunidade não impede a polícia local de
investigar o crime, preparando a informação sobre a qual se presume a justiça do Estado de origem
processará o agente beneficiado pelo privilégio diplomático.
Justifica-se essa diversidade de tratamento entre cônsules e diplomatas porque os primeiros
cuidam de interesses privados, enquanto os segundos tratam de assuntos de interesse do Estado.

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
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Como ensina Francisco Rezek, o diplomata representa o Estado de origem junto à soberania local, e
para o trato bilateral dos assuntos de Estado, ao passo que o cônsul representa o Estado de origem
para o fim de cuidar, no território onde atue, de interesses privados — os de seus compatriotas que
ali se encontrem a qualquer título e os de elementos locais que tencionem, por exemplo, visitar
aquele país, de lá importar bens ou para lá exportar.
Ressalte-se ainda que o beneficiário da imunidade não poderá renunciá-la. Todavia, admite-se
a renúncia por parte do Estado acreditante (o Estado de origem).
Observe-se também que é possível o asilo político na sede da embaixada, o qual tem a
finalidade de proteger a pessoa contra a perseguição e a violência de natureza política. O asilo
político diplomático, que é o refúgio nas embaixadas, é admitido pelo Decreto n. 55.929/65, que
promulgou a Convenção de Caracas sobre Asilo Diplomático.
Mercê dessa possibilidade de concessão de asilo político, não faltou quem vislumbrasse na
embaixada a extensão do território estrangeiro. Mas tal noção tornou-se superada, pois sua sede,
situa-da no Brasil, é parte integrante do território nacional. A possibilidade de concessão de asilo
político não conduz à conclusão de que seja parte do território estrangeiro. Tanto é assim que a
concessão do asilo diplomático não impede, por si só, a extradição (arts. 28 e 29 da Lei n. 6.815/80).
O asilado pode ser extraditado pelo STF, salvo em relação aos crimes políticos ou de opinião. A
decisão sobre a extradição compete ao Supremo e não ao governo estrangeiro. Eventual delito
cometido na sede da embaixada, por exemplo, furto, por quem não desfruta de imunidade será
processado e julgado pela justiça brasileira.
Sobre a natureza jurídica da imunidade diplomática, alguns entendem que é causa de exclusão
da pena, enquanto outros defendem a ideia de que se trata de causa de exclusão da jurisdição.
Preferimos esse último ponto de vista, pois, na verdade, os diplomatas não estão sujeitos à
jurisdição penal dos juízos e tribunais brasileiros. Assim, a rigor, não há exclusão do crime nem da
pena, mas da competência jurisdicional dos juízos e tribunais brasileiros. A matéria é relacionada ao
processo penal, que não pode ser instaurado. Nem por isso, porém, o fato permanecerá impune em
face da legislação penal estrangeira.
Finalmente, os chefes de governo têm as mesmas imunidades dos agentes diplomáticos.
Igualmente, o ministro das Relações Exteriores, quando se encontra em território estrangeiro. Com
efeito, não seria razoável conceder a imunidade aos agentes diplomáticos, seus familiares e
funcionários estrangeiros da embaixada, e negá-la às autoridades superiores, quais sejam, o chefe
de governo e o ministro das Relações Exteriores. Com efeito, o ministro das Relações Exteriores é o
chefe dos agentes diplomáticos do seu Estado nacional. Quanto ao chefe de governo, é a autoridade
máxima do Estado, que inclusive nomeia o ministro das Relações Exteriores (CF, art. 84, I). A
nomeação do chefe de missão diplomática de caráter permanente também é feita pelo Presidente
da República com a aprovação do Senado. Assim, não obstante a Convenção de Viena referir-se
apenas aos agentes diplomáticos, seus familiares e funcionários da embaixada, impõe-se, por razões
lógicas, a extensão do privilégio aos chefes de governo estrangeiro, ministro das Relações Exteriores,
bem como seus respectivos familiares e funcionários que o acompanham na missão no exterior.

IMUNIDADES PARLAMENTARES

ESPÉCIES

As imunidades parlamentares podem ser:


➢ absolutas ou materiais ou penais;
➢ relativas ou processuais ou formais.

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
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Desde já cumpre ressaltar que a razão de ser das imunidades é conferir aos parlamentares
ampla liberdade de palavra, no exercício de suas funções, propiciando-lhes melhor desempenho no
mandato.
Trata-se de direito público do parlamento, e não apenas do parlamentar, sendo indisponível,
isto é, irrenunciável. As imunidades, embora subsistam durante o estado de sítio, podem, em tal
hipótese, ser suspensas mediante voto de dois terços dos membros da Casa respectiva, nos casos de
atos praticados fora do recinto do Congresso que sejam incompatíveis com a execução da medida
(CF, art. 53, § 8º).

IMUNIDADES ABSOLUTAS

Dispõe o art. 53, caput, da Constituição Federal, com nova redação determinada pela Emenda
Constitucional n. 35, de 20 de dezembro de 2001, que: “Os Deputados e Senadores são invioláveis,
civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”.
As imunidades abrangem, pois, os delitos de opinião ou de palavra caracterizados pelo abuso
na manifestação do pensamento. Exemplos: crimes contra a honra (CP, arts. 138 a 140), incitação ao
crime (CP, art. 286), apologia de crime ou criminoso (CP, art. 287), ofensa subversiva da Lei de
Segurança Nacional (Lei n. 7.170/83, art. 26).
De acordo com Julio F. Mirabete não é necessário que, por ocasião do fato, o congressista se
encontre no exercício de suas funções legislativas ou que a manifestação que constitui ilícito penal
verse sobre matéria parlamentar. A nosso ver, para que se caracterize a imunidade, é necessário o
liame entre a condição de congressista e a manifestação ofensiva, embora seja dispensável o fato de
o parlamentar encontrar-se no exercício de mandato.
Note-se que, ao cuidar das imunidades dos vereadores, a Magna Carta exige que a
manifestação ocorra no exercício do mandato. E para os deputados e senadores não incluiu esse
requisito. De fato, o objetivo da Constituição Federal foi assegurar a imunidade aos atos praticados
fora do recinto do Congresso, desde, é claro, que haja alguma correlação com as funções
parlamentares.
Assim, o parlamentar, quando fora do exercício estrito do mandato, goza ainda de imunidade,
desde que a manifestação ofensiva tenha sido assacada em decorrência das funções parlamentares.
Se, ao revés, não houver qualquer nexo entre a ofensa e as funções legislativas, excluir-se-á a
imunidade. Exegese diversa consagraria o privilégio, desvirtuando-se a imunidade, que se
caracteriza como prerrogativa funcional, e não pes-soal.

Sobre a natureza jurídica da imunidade, as opiniões divergem, a saber:


1ª corrente: causa excludente do crime (Nélson Hungria);
2ª corrente: causa pessoal de exclusão de pena (Heleno Cláudio Fragoso);
3ª corrente: causa da irresponsabilidade (Magalhães Noronha);
4ª corrente: causa de incapacidade penal por razões políticas (Frederico Marques).
A nosso ver, trata-se de causa de extinção da punibilidade, porque o crime não é excluído.
Com efeito, a imunidade não se estende ao corréu que não goze dessa prerrogativa, porquanto as
circunstâncias pessoais não se comunicam (CP, art. 30). A propósito, há a Súmula 245 do STF, cujo
teor é o seguinte: “A imunidade parlamentar não se estende ao corréu sem essa prerrogativa”.
Suponha-se que um deputado, em razão das funções, instigado por “A” (particular) injurie uma
pessoa. O deputado é imune; contra ele nem inquérito policial pode ser instaurado, todavia, o partícipe
“A” responde normalmente pelo delito. Portanto, a imunidade não exclui o crime, caso contrário, haveria

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a incongruência de o mesmo fato ser lícito para uma pessoa e ilícito para outra. Logo, no exemplo acima,
o deputado realizou fato típico e antijurídico, além de ser culpável, estando, porém, isento de pena.
Por outro lado, concordamos ainda com Frederico Marques, porque a imunidade constitui
também causa de incapacidade penal.
Assim, sobre a natureza jurídica da imunidade, concluímos que, no plano do fato criminoso,
constitui causa de extinção da punibilidade, e, no plano da pessoa do agente, revela-se uma causa
de exclusão da capacidade penal.
Quanto ao início da imunidade, ocorre com a diplomação do deputado e senador (CF, art. 53,
§ 2º), antes portanto da posse, perdurando até o término do mandato. Em relação aos fatos
ocorridos durante este, o parlamentar, após seu término, não poderá ser processado, caso contrário
a imunidade seria inócua.
O parlamentar que se licencia de seu mandato para exercer cargos no executivo, tais como
Ministro de Estado, Secretário de Estado, Governador de Estado, etc., perde a imunidade, material e
processual, pelo cometimento de crime no exercício da nova função, pois só tem imunidade quem
está investido de fato no mandato de deputado ou senador. Assim, o parlamentar, apesar de não
perder o mandato, perderá as imunidades parlamentares, no período em que permanecer afastado
das funções legislativas.

IMUNIDADES RELATIVAS

As imunidades relativas ou processuais são certas prerrogativas referentes à prisão em


flagrante e à ação penal.
No que tange à prisão penal, os parlamentares só podem ser presos em flagrante de crime
inafiançável, sendo que, em tal hipótese, os autos serão remetidos, dentro de vinte e quatro
horas, à Casa respectiva (Senado ou Câmara dos Deputados), para que, pelo voto ostensivo e
nominal da maioria de seus membros, resolva sobre a prisão (CF, art. 53, § 2º). A EC n. 35/2001
revogou expressamente a exigência do voto secreto.
Assim, o congressista não poderá sofrer os seguintes tipos de prisão provisória: prisão em
flagrante por crime afiançável, prisão temporária, prisão preventiva, prisão por pronúncia e prisão
por sentença condenatória recorrível. Também não poderá sofrer prisão civil nem prisão
administrativa. Seria incoerente a Constituição Federal vedar a prisão penal e permitir a prisão civil
ou administrativa. Quanto à prisão decorrente de sentença condenatória transitada em julgado, a
Excelsa Corte a admite, argumentando que a imunidade não se estende à execução de penas
impostas com observância do devido processo legal (RTJ, 135/509). Alguns autores sustentam que a
imunidade também deveria estender-se à prisão definitiva, porque a Magna Carta não faz distinção.
Argumentam que se a Magna Carta quisesse permitir essa prisão teria dito expressamente, tal como
o fez no § 3º do art. 86, quando disciplinou a prisão do Presidente da República.
No plano processual, desde a EC n. 35, o Supremo Tribunal Federal poderá receber a ação
penal contra parlamentar, independentemente de prévia licença do Senado ou da Câmara dos
Deputados. Revogou-se, destarte, a injustificável regalia de não se admitir o recebimento da
denúncia sem a respectiva licença. Assim, o Procurador-Geral da República oferece a denúncia, que
é normalmente recebida pelo Supremo Tribunal Federal. Este dará ciência à Casa respectiva, que,
por iniciativa de partido político nela representado e pelo voto da maioria de seus membros,
poderá, até a decisão final, sustar o andamento da ação. O pedido de sustação será apreciado pela
Casa respectiva no prazo improrrogável de quarenta e cinco dias do seu recebimento pela Mesa
Diretora. A sustação do processo suspende a prescrição, enquanto durar o mandato (§§ 3º, 4º e 5º
do art. 53 da CF).

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A imunidade atinge apenas os crimes cometidos após a diplo-mação (§ 3º do art. 53). Note-se
que o início da imunidade se dá com a diplomação e não com a posse. Antigamente, a imunidade se
estendia também aos delitos anteriores à diplomação. Portanto, a partir da EC n. 35/2001, quanto
aos delitos cometidos antes da diplomação, como bem ressalva Alexandre de Moraes, não haverá
incidência de qualquer imunidade formal em relação ao processo, podendo o parlamentar ser
normalmente processado e julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enquanto durar o mandato.
Quanto aos crimes praticados após a diplomação, o parlamentar é processado e julgado pelo
Supremo Tribunal Federal, enquanto durar o mandato. Todavia, o partido político, com
representação na casa legislativa a que pertencer o parlamentar processado, poderá representar à
respectiva Casa, solicitando a sustação do andamento da ação penal pelo voto ostensivo e nominal
da maioria absoluta de seus membros. A suspensão do processo persistirá enquanto durar o
mandato, mas a prescrição permanecerá suspensa. A imunidade é uma circunstância pessoal, não
se comunicando aos demais agentes envolvidos no delito (CP, art. 30).
Manteve-se, como se vê, o foro por prerrogativa de função, pois os parlamentares devem ser
processados e julgados perante o STF (art. 102, I, b, da CF). A competência do STF estende-se a
todas as modalidades de infrações penais, inclusive crimes contra a vida e contravenções penais.
Tratando-se, porém, de crimes eleitorais cometidos pelos parlamentares, o foro competente é o
TSE. A competência do STF abrange também os crimes cometidos antes do início do mandato.
Assim, caso a ação penal se encontre em andamento, os autos, a partir da diplomação, devem ser
imediatamente remetidos ao STF, que prosseguirá com o feito. Efetivamente, o § 1º do art. 53 da CF
fixa a competência da Excelsa Corte para o julgamento dos Deputados e Senadores, desde a
expedição do diploma, não abrindo exceção para os delitos cometidos antes da diplomação. O
princípio da perpetuação da jurisdição não pode sobrepor-se a uma norma constitucional.
Cumpre, porém, ressaltar que o parlamentar só será processado pelo STF durante o exercício
do mandato, ainda que o delito não se relacione com as funções. Encerrado aquele, cessa a
competência do STF para o processo e julgamento, ainda que se trate de delito praticado durante o
mandato, devendo os autos ser remetidos ao juízo comum, sendo válidos os atos processuais até
então praticados. O plenário do STF cancelou a Súmula 394, que previa a perpetuação de sua
competência.
Finalmente, preceitua o art. 53, § 6º, da CF que: “Os Deputados e Senadores não serão
obrigados a testemunhar sobre informações recebidas ou prestadas em razão do exercício do
mandato, nem sobre as pessoas que lhes confiaram ou deles receberam informações”. Se, ao revés,
a informação não tiver sido obtida em razão do exercício do mandato, o parlamentar deverá prestar
o depoimento, porque, se calar ou falsear a verdade, cometerá o delito de falso testemunho (CP, art.
342).

IMUNIDADES DE DEPUTADOS ESTADUAIS

O § 1º do art. 27 da Constituição Federal estende automaticamente aos deputados estaduais


as imunidades penais e processuais, independentemente de expressa menção na Constituição
Estadual. É claro que o foro competente não será o STF, mas o Tribunal de Justiça do Estado,
devendo a Carta do Estado fixar-lhes esse foro. Todavia, nos crimes eleitorais, eles serão
processados perante o Tribunal Regional Eleitoral, e, nos delitos da Justiça Federal, perante o
Tribunal Regional Federal.

IMUNIDADES DOS VEREADORES

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A Constituição Federal assegura a inviolabilidade dos vereadores por suas opiniões, palavras e
votos no exercício do mandato e na circunscrição do Município (art. 29, VIII).
Note-se que só haverá a imunidade penal em relação aos delitos de opinião perpetrados no
exercício do mandato e na circunscrição do Município.
Assim, a imunidade não abrange:
a) os atos praticados fora do exercício do mandato, ainda que em razão dele;
b) os atos praticados no exercício do mandato, mas fora da circunscrição do Município.
No aspecto processual, os vereadores não gozam de qualquer imunidade nem de foro por
prerrogativa de função. Portanto, para processá-los não há necessidade de prévia licença da Câmara
de Vereadores.

IMUNIDADES DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA E DE GOVERNADORES DE ESTADO

O Presidente da República goza de imunidades formais em relação à prisão e à ação penal.


Quanto à prisão, não poderá ser preso nas infrações penais comuns, enquanto não sobrevier
sentença condenatória (CF, art. 86, § 3º). Portanto, a Magna Carta, a contrario sensu, veda a
decretação da prisão provisória do chefe do Executivo. Este não poderá ser preso em flagrante nem
mediante ordem judicial. Note-se que a Constituição Federal não faz distinção entre os delitos
cometidos antes ou durante o mandato.
No que tange à ação penal, o Presidente da República somente poderá ser processado, seja
por crime comum, seja por crime de responsabilidade, após o juízo de admissibilidade da Câmara
dos Deputados, que necessitará dos votos de dois terços de seus membros para autorizar o
processo (CF, art. 86, caput).
Tratando-se de crime de responsabilidade, isto é, de infrações político-administrativas, a
denúncia pode ser oferecida por qualquer cidadão (art. 14 da Lei n. 1.079/50) à Câmara dos
Deputados. Se esta admitir a acusação, o processo e o julgamento serão feitos pelo Senado. É o que
se denomina impeachment do Presidente da República. Cumpre ressaltar que, se a Câmara dos
Deputados admite a acusação, o Senado não é obrigado a receber a denúncia, pois a Constituição
prevê para a Câmara dos Deputados apenas a função de autorizar ou não a instauração do processo.
Autorizar o processo é uma condição de procedibilidade da ação penal, mas que não se confunde
com o recebimento da denúncia. Após esta autorização, o Senado ainda fará o juízo de recebimento
ou não da denúncia, conforme ADPF 378/DF, que alterou o entendimento anterior do STF, no
sentido de que a mera autorização da Câmara em se processar o Presidente da República obrigaria
o Senado a receber a denúncia.
Quanto aos crimes comuns, a denúncia deve ser oferecida pelo Procurador-Geral da
República, quando se tratar de crime de ação penal pública. Tratando-se de crime de ação penal
privada, a vítima, ou seu representante legal, é quem deve oferecer a queixa-crime. As normas
procedimentais estão previstas na Lei n. 8.038/90 e nos arts. 230 a 246 do Regimento Interno do STF.
A denúncia ou queixa é oferecida perante o STF. Este, porém, através de seu presidente, oficiará à
Câmara dos Deputados, que autorizará ou não a instauração do processo. Na hipótese do
recebimento da denúncia ou queixa-crime pelo STF, o Presidente ficará suspenso de suas funções
pelo prazo máximo de 180 dias, sem prejuízo do regular prosseguimento do processo (CF, art. 86, §
§ 1º e 2º). Note-se que o STF não é obrigado a receber a denúncia, ainda que haja a autorização de
2/3 da Câmara dos Deputados para iniciar-se o processo. Entendimento diverso violaria o princípio
da separação dos poderes (CF, art. 2º).
Convém esclarecer que a Constituição Federal prevê o princípio da irresponsabilidade do
Presidente da República nas seguintes hipóteses: a) infrações penais cometidas antes do início do

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exercício do mandato; b) infrações penais cometidas durante o exercício do mandato, mas que não
guardam correlação com as suas funções. Trata-se de uma imunidade temporária, prevista no § 4º
do art. 86 da Magna Carta. Em relação a esses dois delitos, sequer pode ser oferecida a denúncia.
A Excelsa Corte, porém, decidiu que a prescrição permanece suspensa na vigência do mandato, a
partir do reconhecimento desta imunidade (RTJ, 114/136). Ressalte-se, porém, que não há previsão
legal nem constitucional para que a prescrição permaneça suspensa. Ademais, o direito penal veda
a analogia in malam partem. Assim, não se pode fazer analogia com a suspensão da prescrição
prevista, em relação aos parlamentares, no § 5º do art. 53 da CF.
Em resumo, o Presidente da República só pode ser processado por crimes praticados durante
o mandato, relacionados às suas funções, desde que haja autorização de 2/3 dos membros da
Câmara dos Deputados.
Por outro lado, tratando-se de governadores de Estado e do Distrito Federal, o STF admitia a
imunidade formal em relação à ação penal, desde que houvesse previsão expressa na Constituição
Estadual, estabelecendo que somente poderiam ser processados e julgados, por crimes comuns ou
de responsabilidade, após autorização da Assembleia Legislativa. Entretanto, no julgamento da ADI
5540, de 3 de maio de 2017, o plenário do STF decidiu, por maioria de votos, que não é necessária a
licença prévia da Assembleia Legislativa para o recebimento da denúncia ou queixa-crime e a
instauração da ação penal contra Governador do Estado, alterando-se assim a jurisprudência
anterior, mas o Governador não é automaticamente afastado do cargo com o simples recebimento
da denúncia ou queixa, posto que o afastamento depende de decisão fundamentada do STJ. Assim,
as Constituições Estaduais não podem repetir a regra do art. 86 da CF, que exige autorização prévia
da Câmara dos Deputados para se processar criminalmente o Presidente da República. As
disposições do art. 86 são exclusivas da mais alta autoridade do país, não se aplicando aos
Governadores. Comungo desta orientação do STF, pois os Estados membros não podem legislar
sobre questões processuais, cuja competência é privativa da União, conforme art. 22, I, da CF.
Quanto à imunidade formal em relação à prisão, o STF a rejeitou, restringindo-a ao Presidente
da República, declarando, no julgamento da ADIn 1.021-2, a inconstitucionalidade dos §§ 5º e 6º do
art. 49 da Constituição do Estado de São Paulo, que inviabilizava a prisão antes do trânsito em
julgado da condenação, além de prever a irresponsabilidade por atos estranhos ao exercício de suas
funções. Correta a decisão da Excelsa Corte, porque a responsabilidade penal é inerente ao
princípio republicano, razão pela qual as exceções devem estar expressas na Constituição Federal.
Os Estados-Membros detêm apenas o Poder Constituinte derivado decorrente, não podendo alterar
as regras limitativas estabelecidas pela Constituição Federal.
A propósito, dispõe a súmula vinculante 46: “A definição dos crimes de responsabilidade e o
estabelecimento das respectivas normas de processo e julgamento são de competência legislativa
privativa da União”.

EXTRADIÇÃO

A extradição, no dizer de Aníbal Bruno, “é o ato pelo qual um Estado entrega um acusado ou
condenado que se encontra em seu território a outro Estado, que o reclama para julgá-lo ou puni-lo
segundo suas leis”.
Fundamenta-se no dever de assistência mútua entre os Estados no combate à criminalidade.
A extradição referenda a autoridade das leis em que o crime foi cometido, além de expurgar de seu
território o criminoso indesejado que nele se encontra.
Em relação ao Estado que a solicita, a extradição é ativa; quanto ao Estado que a concede,
passiva.

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A extradição passiva é regulada pelas Leis n. 13.445/2017 (arts. 81 a 99) e 6.964/81 e pelo RISTF
(arts. 207 a 214). As restrições constitucionais e legais pátrias dizem respeito à extradição passiva,
que é aquela que se requer ao Brasil.
A extradição passiva, em sua fase judicial, tem natureza jurídica de ação de caráter
constitutivo, cujo objetivo é a formação de título jurídico apto a legitimar o Poder Executivo da
União a entregar o extraditando ao Estado reclamado. Note-se que é uma ação necessária, porque a
concordância do extraditando em retornar ao seu país não dispensa o controle de legalidade do
pedido. O extraditando não pode, destarte, renunciar ao procedimento extradicional. A
Procuradoria-Geral da República atua como fiscal da lei no processo de extradição, e não em defesa
do extraditando ou do Estado requerente. Por outro lado, o extraditando não pode ingressar no
mérito da acusação, devendo a defesa restringir-se aos aspectos da legalidade extrínseca.
Vale, porém, ressaltar que, antes de iniciar a fase judicial perante o Supremo Tribunal Federal,
o pedido de extradição formulado pelo governo do Estado requerente tramita no Poder Executivo, a
quem cabe a recepção e o encaminhamento ao Pretório Excelso.
Assim, para que o Brasil conceda a extradição, urge que o pedido de extradição contenha os
seguintes requisitos:
a) Tenha sido formulado pelo agente diplomático do Estado requerente ou pelas autoridades
centrais designadas para esse fim, e não por carta rogatória emanada do Poder Judiciário. É que a
extradição é ato de soberania; logo, deve ser tratada diretamente de governo a governo. Assim, o
pedido deve ser endereçado, por via diplomática, ao Presidente da República, que é a autoridade
constitucionalmente autorizada a manter relações com Estados estrangeiros (CF, art. 84, VII), que o
encaminhará ao Presidente do Supremo Tribunal Federal, o qual, por sua vez, irá autuar e distribuir
o pedido, seguindo os trâmites processuais previstos nos arts. 81 a 99 da Lei n. 13.445/2017. O
Ministro da Justiça não pode mais decretar a prisão do extraditando, pois a partir da Constituição de
1988 qualquer prisão somente pode ser determinada pela autoridade judiciária (art. 5º, LXI, da CF).
Portanto, a prisão preventiva do extraditando deve ser decretada pelo ministro relator do STF, que
ficará prevento para a condução do processo extradicional (RT, 638:335).
b) Esteja devidamente instruído de cópia ou traslado autêntico da sentença condenatória, ou
das decisões de pronúncia ou prisão preventiva, proferidas por juiz ou autoridade competente do
Estado estrangeiro requerente. Como se vê, pressupõe-se a existência de processo penal
devidamente instaurado perante o Estado requerente.
c) Contenha indicações precisas sobre local, data, natureza e circunstâncias do fato criminoso,
identidade do extraditando e, ainda, cópia dos textos legais sobre o crime e a pena e sua prescrição.
d) Haja tratado fundamentando a extradição ou, na falta deste, o governo requerente prometa
reciprocidade ao Brasil. Com efeito, o STF já autorizou a extradição, à míngua de tratado, com base
na promessa de reciprocidade do Estado requerente.
A Lei n. 13.445/2017 prevê uma série de exigências à concessão da extradição que se
relacionam com o fato praticado, com a pessoa do extraditando e com o processo.

Com efeito, o fato criminoso, para admitir a extradição:


a) Deve estar definido como crime, e não contravenção, perante ambas as leis, isto é, a
brasileira e a do Estado requerente. Deve, pois, haver dupla tipicidade. A rigor, além da tipicidade,
exigem-se ainda a antijuridicidade e a culpabilidade. Não se concede a extradição daquele que, de
acordo com a lei brasileira, encontra-se isento de pena. O STF denegaria, por exemplo, a extradição
do menor de dezoito anos.
b) Deve ainda ser cominada, aqui no Brasil, pena privativa de liberdade igual ou superior a
dois anos; não se admite a extradição de delitos cuja pena abstrata seja inferior a dois anos. Como

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se vê, a extradição é reservada para delitos graves.


c) Não deve tratar-se de crime político ou de opinião. Com efeito, a Magna Carta proíbe a
extradição em virtude desses delitos (CF, art. 5º, LII). Todavia, o Brasil aceitou a chamada cláusula de
atentado. Assim, o Supremo Tribunal Federal poderá deixar de considerar crime político o atentado
contra chefe de Estado ou quaisquer autoridades, bem como crime contra a humanidade, crime de
guerra, crime de genocídio e terrorismo (§4º do citado art. 82);
Convém também ressaltar que a qualificação do crime como político incumbe ao país ao qual
a extradição é pedida e não àquele que a pede. Desde já cumpre distinguir os crimes políticos em
puros e impuros. Os primeiros atentam exclusivamente contra o sistema de segurança ou
organização interna ou externa do Estado; os segundos, além de atentar contra a segurança ou
organização do Estado, ainda lesam bem jurídico tutelado pela legislação penal ordinária (p. ex.,
latrocínio para angariar fundos para revolução). Prevalece o entendimento de que só não há
extradição em relação aos delitos políticos puros; quanto aos impuros, desde que prepondere em
gravidade sobre a finalidade política o bem jurídico tutelado pela legislação penal ordinária, tal
como no exemplo do latrocínio, desconfigura-se o crime político, admitindo-se, destarte, a
extradição. Perante o direito brasileiro, torna-se difícil a tipificação política do delito, pois a nossa
legislação não define o crime político, de modo que este acaba sendo aquilo que o STF diz que é.

Em relação à pessoa do extraditando, cumpre lembrar que o brasileiro nato nunca pode ser
extraditado. O naturalizado também não, salvo em duas hipóteses:
a) delito cometido antes da naturalização;
b) comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, ainda que o
fato tenha sido perpetrado após a naturalização.
A Magna Carta veda a extradição de brasileiros, inspirada certamente no sentimento nacional
de soberania e em razões jurídicas, tendo em vista que o Brasil é competente para julgar o brasileiro,
ainda que o delito tenha sido cometido no exterior (CP, art. 7º, II, b). Portanto, não obstante a negativa
da extradição, o brasileiro será punido, aqui no Brasil, pelo fato praticado no estrangeiro, evitando-se,
destarte, a impunidade.
Por outro lado, o português equiparado, nos termos do § 1º do art. 12 da Constituição
Federal, tem todos os direitos do brasileiro naturalizado, razão pela qual somente poderá ser
extraditado nas duas hipóteses acima, sendo certo que, em virtude de tratado assinado com
Portugal, referendado pelo Decreto Legislativo n. 70.391/72, somente poderá ser extraditado para
Portugal.
Assim, o extraditando deve ser estrangeiro, à exceção do português equiparado. Não impede
a extradição o fato de o extraditando estrangeiro ser casado com brasileira ou ter filho brasileiro
(Súmula 421 do STF). A Súmula 1 do STF proíbe a expulsão, e não a extradição, de estrangeiro
casado com brasileira, ou que tenha filho brasileiro, dependente da economia paterna.

Em relação às condições processuais, não se concederá a extradição quando:


a) o extraditando estiver sendo processado ou já tiver sido condenado ou absolvido no Brasil
pelo mesmo fato em que se fundar o pedido (Lei n. 13.445/2017, art. 82, V);
b) o Brasil for competente, segundo suas leis, para julgar o delito (art. 82, III). Não obstante a
clareza do texto legal, o STF tem admitido a extradição, sobretudo de traficantes de drogas, na
hipótese de ainda não ter sido instaurado aqui no Brasil o processo penal contra o extraditando.
Acrescente-se ainda que só será concedida se a infração tiver sido cometida no território do Estado
requerente ou quando se lhe aplicarem suas leis penais (art. 83, I);
c) o extraditando tiver de responder, no país requerente, perante tribunal ou juízo de exceção

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(art. 82, VIII);


d) estiver extinta a punibilidade pela prescrição, segundo a lei do Estado requerente ou a
brasileira (art. 82, VI). Por analogia “in bonan partem”, a extradição também deve ser negada
quando a punibilidade já estiver extinta por outra causa que não seja a prescrição;
e) o Estado requerente se negar a assumir o compromisso formal de efetuar a detração penal
do tempo de prisão cumprida no Brasil;
f) o Estado requerente se negar a assumir o compromisso de transformar em pena de prisão
uma eventual pena de morte. Com efeito, o STF tem condicionado o deferimento do pedido à não
execução da pena de morte, ressalvados os casos em que a lei brasileira permite a sua aplicação (CF,
art. 5º, XLVII, a — guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX). Outrossim, assumir o compromisso
de respeitar o limite máxime de cumprimento da pena de 30 (trinta) anos, pois no Brasil é vedada a
prisão perpétua.
Em matéria de extradição, cumpre ressaltar que vigora o princípio da especialidade, segundo
o qual o extraditando não pode ser julgado no país requerente por crime diverso daquele que
motivou a extradição (art. 96, I, da Lei n. 13.445/2017). Essa medida evita que, pelo disfarce da
extradição, o país requerente submeta o extraditado a julgamento por crime político. Mas, como
lembra Alexandre de Moraes, o Supremo Tribunal Federal permite o chamado pedido de extensão,
que consiste na permissão, solicitada pelo país estrangeiro, de processar pessoa já extraditada por
qualquer delito praticado antes da extradição e diverso daquele que motivou o pedido
extradicional, desde que o Estado requerido, no caso o Brasil, expressamente autorize. É ainda
proibida a reextradição a outro Estado que reclame o criminoso sem o consentimento do Brasil.
Por outro lado, embora caiba ao STF o julgamento do pedido de extradição, nos termos do art.
102, I, g, da CF, cessa a sua competência com o deferimento do pedido, enviando o processo ao
Presidente da República, que poderá negar a extradição, contrariando a decisão concessiva do STF,
porquanto a matéria está relacionada à soberania nacional. Todavia, se o Supremo negá-la, o
Presidente da República estará vinculado a essa decisão e dela não poderá divergir.
Deferido o pedido de extradição, o governo brasileiro, e não o STF, providenciará a entrega do
criminoso, mas antes exigirá do Estado requerente a assunção de certos compromissos. Negada a
extradição, o extraditando é libertado, e o governo brasileiro comunicará esse fato ao Estado
requerente.

Expulsão

A extradição é solicitada pelo Estado estrangeiro em virtude de o agente ter praticado fato
criminoso fora do Brasil.
Expulsão é a exclusão do estrangeiro do território nacional em razão de ele apresentar
condenação criminal transitada em julgado, por crime de genocídio, crime contra a humanidade,
crime de guerra ou crime de agressão, nos termos definidos pelo Estatuto de Roma do Tribunal
Penal Internacional (art. 54, §1º, da lei 13.445/2017). Também é possível a expulsão em razão de
condenação definitiva por crime doloso passível de pena privativa de liberdade, mas nesse caso a
extradição só será deferida após análise da gravidade e da impossibilidade de ressocialização em
território nacional.
O procedimento de expulsão será iniciado por Inquérito Policial de Expulsão, que pode ser
instaurado de ofício pela Polícia Federal ou por determinação do Ministro da Justiça e Segurança
Pública ou ainda através de requisição ou requerimento fundamentado em sentença. É preciso
observar no procedimento de expulsão os princípios do contraditório e da ampla defesa. No
processo de expulsão serão garantidos o contraditório e a ampla defesa.

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A Defensoria Pública da União será notificada da instauração de processo de expulsão, se não


houver defensor constituído (§1º do art. 58, da lei 13.445/2017).
Ao término do inquérito, o Delegado Federal apresentará relatório final com recomendação
favorável ou não à expulsão (art. 202 do Decreto 9.199/2017), encaminhando-o ao Ministro da
Justiça e Segurança Pública, que decidirá sobre a expulsão. Ao ser notificado da decisão que o
expulsou, o expulsando poderá interpor pedido de reconsideração no prazo de dez dias, contado da
data da sua notificação pessoal (art. 58, §2º da lei 13.445/2017).
A existência de procedimento de expulsão não impedirá a saída do expulsando do País.
A saída voluntária do expulsando do País não suspenderá o processo de expulsão (art. 205,
§1º, do Decreto 9.199/2017).
Decretada a expulsão, o prazo de vigência da medida de impedimento vinculada aos efeitos
da expulsão será proporcional ao prazo total da pena aplicada e nunca será superior ao dobro de
seu tempo (§4º do art. 54 da lei 13.445/2017). A decisão do Ministro da Justiça, que decreta a
expulsão, deve também determinar o prazo de impedimento para reingresso no território nacional.
Expirado este prazo, não haverá necessidade de um decreto de cancelamento da expulsão como
era previsto na lei 6.815/81, pois a extinção da medida será automática.
De acordo com o art. 55 da lei 13.445/2017:
“Não se procederá à expulsão quando:
I - a medida configurar extradição inadmitida pela legislação brasileira;
II - o expulsando:
a) tiver filho brasileiro que esteja sob sua guarda ou dependência econômica ou socioafetiva
ou tiver pessoa brasileira sob sua tutela;
b) tiver cônjuge ou companheiro residente no Brasil, sem discriminação alguma, reconhecido
judicial ou legalmente;
c) tiver ingressado no Brasil até os 12 (doze) anos de idade, residindo desde então no País;
d) for pessoa com mais de 70 (setenta) anos que resida no País há mais de 10 (dez) anos,
considerados a gravidade e o fundamento da expulsão”.

Deportação

Deportação é a exclusão do estrangeiro que entrou irregularmente no Brasil, ou então porque


expirou o prazo de sua permanência, ou ainda por exercer trabalho remunerado, no caso do turista.
A medida é tomada por iniciativa das autoridades brasileiras, sem envolvimento do governo
estrangeiro. Não tem caráter punitivo, tanto que o estrangeiro deportado pode retornar ao Brasil,
desde que regularize a sua documentação para o ingresso.
O procedimento administrativo de deportação será instaurado pela Polícia Federal, com
direito ao contraditório e à ampla defesa. Na ausência de defensor constituído, a Defensoria Pública
da União deverá apresentar a defesa técnica no prazo de vinte dias. Caberá recurso com efeito
suspensivo da decisão sobre deportação no prazo de dez dias, contado da data de notificação do
deportando (art. 189 do Decreto 9.199/2017).

DISPOSIÇÕES FINAIS DO TÍTULO I

CONTAGEM DO PRAZO

Essas regras finais do Título I da Parte Geral do CP estão disciplinadas da seguinte forma:
➢ contagem do prazo (art. 10);

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➢ frações não computáveis da pena (art. 11);


➢ legislação especial (art. 12).

Dispõe o art. 10 do CP:


“O dia do começo inclui-se no cômputo do prazo. Contam-se os dias, os meses e os anos pelo
calendário comum”.
A importância da contagem do prazo irradia efeitos jurídicos em diversos assuntos penais:
cumprimento da pena, período de prova do sursis ou livramento condicional, extinção da
punibilidade (prescrição e decadência), reabilitação, reincidência, etc.
Prazo é o lapso de tempo entre o termo a quo e o termo ad quem. Em sua contagem, inclui-se
o dia do começo. Se, por exemplo, o réu for preso às 23 horas e 59 minutos, computa-se essa
pequena fração do primeiro dia como um dia inteiro. Qualquer que seja a fração do dia do começo
computa-se como se fosse um dia inteiro. Uma pena de vinte dias, cujo cumprimento tenha iniciado
às 13 horas do dia 4 de dezembro, terminará à meia-noite do dia 23. Essa regra beneficia o réu.
Diferentemente, nos prazos processuais exclui-se o dia do começo, computando-se o do
vencimento (art. 798, § 1º, do CPP). Suponha-se, por exemplo, um prazo de três dias para
apresentar defesa prévia, cuja intimação do réu e seu defensor tenha ocorrido no dia 3 de outubro:
terminará no final do expediente forense do dia 6. Se, entretanto, fosse um prazo penal, encerraria
no dia 5.
A razão da diferença é beneficiar o réu. No processo penal, quanto mais extenso o prazo, mais
vantajoso será para o réu. No direito penal, quanto mais breve o prazo, melhor para o réu; por isso
inclui-se o dia do começo.
O prazo de decadência do direito de queixa ou representação, conquanto disciplinado no CP
(art. 103) e no CPP (art. 38), pertence ao direito penal, pois a perda do prazo gera a decadência, que,
por sua vez, acarreta a extinção da punibilidade. E punibilidade é matéria afeta ao direito penal. Por
isso, na sua contagem, inclui-se o dia do começo.
“Contam-se os dias, os meses e os anos pelo calendário comum” (2ª parte do art. 10 do CP).
Consoante o calendário comum (gregoriano), entende-se por dia o espaço de tempo que decorre
entre meia-noite e meia-noite. Os meses não têm invariavelmente 30 dias, e sim 28, 29, 30 ou 31, de
acordo com o calendário. Diga-se o mesmo em relação aos anos, que não têm invariavelmente 360 dias,
mas, sim, 365 dias, ou, se for bis-sexto, 366. O juiz que tiver de condenar o réu a um mês ou a um ano
não pode dizer 30 dias ou 365 dias. A condenação só pode ser fixada em dias quando for inferior a um
mês.
O mês, em matéria penal, é contado até a véspera do mesmo dia do mês subsequente,
encerrando o prazo às 24 horas. Se, por exemplo, o réu, condenado a dois meses, iniciar o
cumprimento da pena às l5 horas de 7 de agosto, o prazo terminará às 24 horas do dia 6 de
outubro. Se iniciasse a pena no dia 31 de dezembro de 2012, o prazo terminaria às 24 horas do dia
28 de fevereiro de 2013. Note-se que na primeira hipótese o tempo de prisão foi maior. É,
entretanto, preferível que haja essas pequenas diferenças a adotar um calendário especial para o
direito penal, pois daí a confusão seria bem maior.
O ano é contado até o mesmo mês do ano seguinte, terminando o prazo às 24 horas da
véspera do dia idêntico ao do início. Se, por exemplo, uma pena de dois anos se iniciou às 14 horas
de 20 de março de 2012, terminará às 24 horas do dia 19 de março de 2014.

FRAÇÃO NÃO COMPUTÁVEL DA PENA

Prescreve o art. 11 do CP:

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“Desprezam-se, nas penas privativas de liberdade e nas restritivas de direitos, as frações de


dia, e, na pena de multa, as frações de cruzeiro”.
Nélson Hungria, comentando dispositivo idêntico do CP de 1940, relembrava que “ao tempo
do Império, não se desdenhavam, sequer, os minutos, e já no regime do Código de 90 não se
dispensavam as horas. Do mesmo modo, contavam-se, na fixação da multa, até o último tostão.
Semelhante mesquinhez, em face do Código vigente, não é mais possível”.
O dispositivo em análise contém três regras:
a) Desprezam-se, nas penas privativas de liberdade, as frações de dia, que são as horas. Assim,
uma pena de vinte dias de detenção aumentada da terça parte totaliza vinte e seis dias de detenção,
pois a fração de dia, que no caso é de 16 horas, é desprezada.
b) Desprezam-se, nas penas restritivas de direitos, as frações de dia. Essa regra é destituída de
interesse, pois as penas restritivas de direitos são sempre substitutivas das privativas de liberdade.
Por consequência, o desprezo às frações de dia já é determinado quando o juiz fixa a pena privativa
de liberdade. Desse modo, por ocasião da aplicação de pena restritiva de direitos já ocorreu o
desprezo das frações de dia.
c) Desprezam-se, na pena de multa, as frações de cruzeiro. As frações de cruzeiro, agora real,
são os centavos. A pena de multa é fixada em duas fases. Na primeira, o juiz determina a
quantidade de dias-multa, que varia entre dez e trezentos e sessenta (art. 49 do CP). Na segunda,
estabelece o valor do dia-multa, que não pode ser inferior a um trigésimo do maior salário mínimo
mensal vigente ao tempo do fato, nem superior a cinco vezes esse salário (art. 49, § 1º, do CP). Na
fixação da quantidade de dias-multa, o juiz aplica a primeira regra, que determina o desprezo às
frações de dia. Assim, por exemplo, uma pena de dez dias-multa acrescida de um sexto totaliza
onze dias-multa, diante do desprezo pelas frações de dia. Já na fixação do valor do dia-multa, aplica-
se a regra que manda desprezar os centavos.

LEGISLAÇÃO ESPECIAL

Estabelece o art. 12 do CP:


“As regras gerais deste Código aplicam-se aos fatos incriminados por lei especial, se esta não
dispuser de modo diverso”.
O preceito transcrito consagra o Código Penal como a base para a aplicação das leis especiais.
Estas existem para complementar o Código, sem dele se desintegrar. É evidente que nem todo o
direito penal está no Código Penal. Este é complementado por diversas leis especiais, também
denominadas extravagantes.
O próprio Código, no art. 360, ressalva “a legislação especial sobre os crimes contra a
existência, a segurança e a integridade do Estado e contra a guarda e o emprego da economia
popular, os crimes de imprensa e os de falência, os de responsabilidade do Presidente da República
e dos Governadores ou Interventores, e os crimes militares”. Vale lembrar que os crimes de
imprensa são regidos pelo Código Penal, pois a Excelsa Corte decidiu, no julgamento da ADPF 130,
que a Lei de Imprensa não foi recepcionada pela Constituição Federal de 1988.
Com as vicissitudes verificadas na vida social moderna, novas relações jurídicas vão sendo
disciplinadas por leis especiais. Podemos citar, dentre outros, os crimes de abuso de autoridade (Lei
n. 4.898/65), de tóxicos (Lei n. 11.343/2006), de sonegação fiscal, a Lei das Contravenções Penais,
etc.
Frise-se, todavia, que o Código Penal é a lei penal fundamental. A ele se aglutinam todas as
leis especiais, visto que estas sofrem a incidência de suas regras gerais, mantendo-se, destarte, a
harmonia do nosso sistema jurídico-penal.

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
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As regras gerais do Código são aplicáveis aos fatos incriminados por leis especiais. Consagra-se
assim o princípio da convivência das esferas autônomas. As normas gerais convivem em perfeita
harmonia com as especiais. Se, porém, a lei especial contiver algum preceito geral, igualmente
disciplinado no Código, prevalece a redação nela prevista, por força do princípio da especialidade.
Assim, por exemplo, não é punível a tentativa de contravenção penal, por força de preceito
específico da LCP (art. 4º), afastando-se, destarte, a norma geral prevista no art. 14, II, do CP.
Se, no entanto, a lei especial for omissa a respeito de alguma regra geral contida no Código,
aplica-se o art. 12, que determina a incidência das normas gerais à legislação penal extravagante.
O Código Penal brasileiro não se deu ao trabalho de definir a regra geral. Escusou-se, no que
andou bem, pois o conceito de norma geral pertence ao estudo da “introdução à ciência do direito”.
Leis gerais ou comuns são as que disciplinam, com amplitude, determinadas relações jurídicas
sistematizadas pela matéria, pelas circunstâncias ou pelas pessoas.
As regras gerais do Código estão previstas na Parte Geral (arts. 1º a 120). Mas outras normas
penais não incriminadoras contidas na Parte Especial também podem apresentar a característica de
norma geral. É o que acontece, por exemplo, com as normas que conceituam “casa” (art. 150, §§ 4º
e 5º), “documento público” (art. 297, § 2º) e “funcionário público” (art. 327). A sensibilidade e a
intuição do intérprete são os métodos mais eficazes na árdua tarefa de identificar as regras gerais
situadas na Parte Especial do Código Penal.
Finalmente, vale a pena ressaltar a existência de normas gerais previstas fora do CP. Tal ocorre,
por exemplo, com a suspensão condicional do processo, prevista no art. 89 da Lei n. 9.099/95,
aplicável a todos os delitos cuja pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano.

TEORIA GERAL DO CRIME

CRIME, DELITO E CONTRAVENÇÃO

O gênero infração penal, segundo a gravidade da sanção, pode ser dividido em dois sistemas:
a) critério tricotômico;
b) critério dicotômico.
No primeiro, o gênero infração penal comporta três espécies: crime, delito e contravenção.
Crimes são os fatos ilícitos a que se cominam abstratamente penas mais severas. Já nos delitos as
penas são menos severas, reservando-se às contravenções as penas mais brandas.
No segundo, o gênero infração penal comporta duas espécies: crime (ou delito) e
contravenção. Ao crime (ou delito) cominam-se penas mais severas do que as previstas para a
contravenção.
O Brasil adotou o critério dicotômico, pois não há distinção entre crime e delito, que são
expressões sinônimas.
Entre o crime e a contravenção também não há diferença ontológica, isto é, de essência. A
diferença é apenas de grau e quantidade. A contravenção, que Nélson Hungria designa de “crime
anão”, compreende os fatos que, sob a ótica do legislador, são considerados de menor gravidade
social, razão pela qual a pena a ela cominada é de prisão simples ou multa, ou ambas, alternativa ou
cumulativamente, consoante dispõe o art. 1º da Lei de Introdução ao Código Penal. Já para o crime
a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou
cumulativamente com a pena de multa. Como bem se vê, o critério da cominação da pena é o mais
eficiente para saber se um ilícito penal constitui crime ou contravenção.
Repita-se, porém, que não há diferença ontológica. O fato contravencional pode, com a
renovação dos valores sociais, ser erigido a crime, da mesma forma que o crime pode ser

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transformado em contravenção. Evidente que só a lei pode realizar essa metamorfose. Note-se que
o fato em si continuará sendo o mesmo, alterando-se apenas o critério de política criminal do
legislador.
Na linguagem dos juristas brasileiros, a expressão “infração penal” ou “ilícito penal” identifica
o gênero do qual são espécies: crime (ou delito) e contravenção. Às vezes, porém, a lei e a
Constituição Federal empregam o termo “delito” no sentido de infração penal, compreendendo
tanto o crime como a contravenção. Por exemplo: art. 5º, XI, da CF e arts. 301 e 302 do CPP.

A INFRAÇÃO PENAL NA TEORIA GERAL DO DIREITO

Fatos jurídicos, em seu sentido amplo, são os acontecimentos, provindos da vontade humana
ou da natureza, capazes de criar, ou transferir, ou conservar, ou modificar, ou extinguir relações
jurídicas.
Esse conceito compreende:
a) fatos jurídicos em sentido estrito: são os acontecimentos alheios à vontade humana, isto é,
provindos da força da natureza. Exemplos: nascimento, morte, avulsão etc.;
b) atos humanos: são os acontecimentos provindos da atividade humana. Subdividem-se em:
atos lícitos e atos ilícitos.
Os atos lícitos são os que geram os efeitos almejados pelo agente. São chamados de atos
jurídicos. Exemplos: casamento, adoção, reconhecimento de filho, contrato etc.
Os atos ilícitos são os danos causados a outrem por dolo ou culpa do agente. Compreendem
os ilícitos penais, civis e administrativos, cujos efeitos são indesejados pelo agente.
Na teoria geral do direito, o crime se enquadra dentro dos fatos jurídicos. E no interior dos
fatos jurídicos, em sentido amplo, situa-se entre os atos ilícitos.
Da prática do crime surgem, dentre outros, os seguintes efeitos: possibilidade de aplicação da
pena e obrigatoriedade de reparar o dano causado. Esses efeitos são indesejados pelo agente.
Cumpre, portanto, não confundir o delito com os atos lícitos, pois nestes últimos os efeitos são
queridos pelo agente.

ILÍCITO PENAL E ILÍCITO EXTRAPENAL (CIVIL, ADMINISTRATIVO E DISCIPLINAR)

A distinção entre o ilícito penal e o ilícito extrapenal é de quantidade ou de grau. Não há


diferença ontológica. As razões que inclinam o legislador a conduzir a punição de certos ilícitos na
esfera do direito administrativo ou do direito civil, em vez de puni-lo na órbita do direito penal, são
de política criminal. Um mesmo fato, consoante o valor que o legislador lhe atribui, pode
concretizar-se numa lei penal, civil ou administrativa, ou em ambas simultaneamente.
Deve a diferença ser estabelecida à luz da sanção jurídica de um e de outro. O ilícito penal tem
como sanção a pena criminal; o ilícito civil, a obrigação de reparar o dano, a nulidade do ato jurídico
etc.; o ilícito administrativo, a suspensão ou demissão do funcio-nário, a multa tributária ao
contribuinte inadimplente, a apreensão de veículo em condição irregular, a multa por excesso de
velocidade etc.
Convém também ressaltar a possibilidade de coexistência entre a responsabilidade penal, a
responsabilidade civil e a responsabilidade administrativa, em relação a determinados delitos que
atingem essas três esferas de interesses.
Finalmente, a multa pode figurar como única sanção abstrata tanto de uma contravenção
penal quanto de um ilícito administrativo. Nesse caso, é preciso investigar o nome do capítulo no
qual se encontra descrita a infração. De fato, se houver referência expressa de tratar-se de infração

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penal, é porque estaremos diante de uma contravenção. Mas, em havendo menção de que o
capítulo aloja infrações administrativas, força convir que será uma infração administrativa. O
problema é quando o capítulo é silente. Em tal situação, se, após a descrição da infração penal,
aparecer apenas a expressão “multa”, a hipótese será de ilícito administrativo, mas, se o legislador
utilizar a expressão “pena — multa”, é porque se trata de contravenção penal.

CONCEITO DE CRIME

A palavra “crime” comporta vários sentidos. Na linguagem dos teólogos, serve para designar o
pecado. Esse conceito ressalta em demasia o lado ético. Na verdade, “pecado” e “delito” são termos
distintos. O primeiro compreende toda a ética, enquanto o segundo abarca apenas o mínimo ético
necessário à convivência social. A ideia de delito como sinônimo de pecado é puramente moral,
refoge à órbita jurídica, e, por isso, deve ser desconsiderada.
O conceito sociológico, para o qual crime é o fato que contrasta com os valores sociais,
também não satisfaz a exigência do jurista, que deve procurar conceituá-lo dentro da ótica
estritamente normativa.
No prisma jurídico, o crime pode ser conceituado sob três aspectos: formal, material e
analítico.
Acentue-se, desde logo, que a definição do crime, sob os aspectos material e analítico,
abrange tanto os crimes dolosos como os crimes culposos, estendendo-se também às
contravenções.
Cumpre também salientar que a conceituação do crime visa apenas facilitar a inteligência
abstrata do fato real, com o qual, porém, não se confunde. Na verdade, um crime não é igual a
outro; cada qual tem as suas peculiaridades próprias. A teoria geral do crime procura abstrair a
essência comum dos diversos delitos, com o intuito de revelar ao plano teórico a sua substância.

CONCEITO FORMAL

O conceito formal não se preocupa com o aspecto ontológico, nem em sublinhar os


elementos essenciais do delito; é a definição fornecida pelo legislador, variando, por isso, conforme
a lei que o define.
No Brasil, o art. 1º da Lei de Introdução ao Código Penal apresenta a seguinte definição:
“Considera-se crime a infração penal a que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer
isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração
penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa
ou cumulativamente”.
Nessa definição, como se vê, põe-se em evidência o conhecido conceito de Ferri, segundo o
qual crime é a violação da lei penal.
O conceito formal de delito é mutante, varia consoante a lei que o define, não atendendo às
exigências do jurista, que busca uma ideia ontológica e analítica do fenômeno.

CONCEITO MATERIAL

Sob o aspecto material ou substancial, crime é o fato humano que lesa ou expõe a perigo bens
jurídicos penalmente protegidos. Essa noção material não é falsa, porém nela sobreleva-se apenas a
ontologia do crime. Apresenta-se como uma fórmula vazia sob a ótica da dogmática penal,
porquanto não identifica os elementos estruturais do conceito de crime. A lesão ou perigo de lesão

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de um interesse penalmente protegido constitui, na verdade, o resultado jurídico, essencial à


caracterização de todo crime. O direito penal necessita, no entanto, de uma visão mais analítica,
que coloque em destaque os elementos estruturais do crime.

CONCEITO ANALÍTICO

O conceito analítico do crime põe em relevo os seus valores essenciais, variando as opiniões a
respeito da composição dos elementos estruturais de sua definição. Basileu Garcia destaca os
seguintes elementos: fato típico, ilicitude, culpabilidade e punibilidade. Já Francisco de Assis Toledo
elenca apenas três: fato típico, ilicitude e culpabilidade. Por sua vez, Júlio Fabbrini Mirabete indica
apenas dois: fato típico e ilicitude.
Saliente-se, porém, que, conquanto decomposto em elementos conceituais autônomos, na
construção do conceito de crime opera-se a justaposição de todos esses elementos, que se fundem
no comportamento humano, do qual não passam de simples ordens de valorações. Em razão disso,
alguns autores acham inadequada a expressão “elementos”, preferindo a terminologia
“características” ou “requisitos”.
Como se vê, no conceito de crime, a teoria bipartida atribui ao comportamento humano
apenas duas ordens de valoração: tipicidade e ilicitude. Portanto, crime é ação ou omissão típica e
ilícita. A culpabilidade não é elemento do crime; funciona, porém, como pressuposto de aplicação
da pena.
Tipicidade é a adequação de uma conduta a um tipo legal de crime.
Ilicitude ou antijuridicidade é a contrariedade existente entre a conduta típica e o
ordenamento jurídico, em virtude de lesar ou expor a perigo de lesão bens jurídicos penalmente
protegidos. Suponha-se, por exemplo, que “A” mate “B” em legítima defesa. A despeito da
tipicidade dessa conduta, não há ilicitude.
Culpabilidade é o juízo de reprovação que recai sobre a conduta típica e ilícita realizada por
agente imputável, que tenha possibilidade de conhecer a ilicitude do fato e de evitar a prática do
fato criminoso. É, pois, o juízo de censura decisivo à fixação da pena, que recai predominantemente
sobre o agente, e não sobre o fato criminoso. É o elo entre o crime (conduta típica e ilícita) e a
aplicação da pena. Sem culpabilidade não há possibilidade de aplicação da pena. A culpabilidade é o
pressuposto de aplicação da pena.

Os elementos da culpabilidade, de acordo com a teoria normativa, são:


➢ imputabilidade;
➢ potencial consciência de ilicitude;
➢ exigibilidade de conduta diversa.

Como bem se vê, na culpabilidade analisa-se predominantemente o perfil do agente, sem,


contudo, desvincular-se do fato, ao passo que nos juízos da tipicidade e da ilicitude analisa-se
predominantemente o fato.
Crime é um fato humano voluntário revestido de tipicidade e ilicitude. A culpabilidade não
recai sobre o fato, mas sobre as características do agente. Não se pode dizer que o fato é culpável;
culpável é o agente. Deve ser arredada a ideia de que o crime não existe sem a culpabilidade, pois
esta se localiza fora do crime, funcionando como pressuposto de aplicação da pena.
Punibilidade é a possibilidade jurídica de ser imposta pena ao criminoso. Não é requisito do
crime, mas sim consequência jurídica. As causas extintivas da punibilidade estão arroladas no art.
107 do CP e em outros dispositivos legais. A ocorrência de uma dessas causas, como, por exemplo, a

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prescrição, impede a aplicação da pena. Se esta já foi aplicada, impede a sua execução. Entretanto, o
delito não desaparece. Há, porém, duas causas extintivas da punibilidade que fazem com que o
delito desapareça: anistia e abolitio criminis.

TEORIA SINTOMÁTICA DO CRIME

A teoria sintomática condiciona a existência do crime à periculosidade do agente.


É patente o defeito dessa teoria: ressalta em demasia a periculosidade, quando é sabido que a
existência do crime independe da peri-culo-sidade do agente.

TEORIA BIPARTIDA

A teoria bipartida foi sustentada aqui no Brasil, pela primeira vez, por René Ariel Dotti, mas a
ideia foi logo abraçada pelos penalistas Damásio Evangelista de Jesus, Júlio F. Mirabete, Celso
Delmanto, etc, e a cada dia vem conquistando mais simpatizantes.
A nosso ver, a teoria bipartida é a que melhor soluciona os problemas da ciência penal, pois,
com a predominância do finalismo, e agora também da teoria jurídico-penal da conduta, o dolo e a
culpa deixam de pertencer à culpabilidade e passam a integrar a conduta. Esvaziou-se, destarte, a
culpabilidade, que, por isso, deve ser tratada como pressuposto da pena, e não mais como
elemento do delito.
Antes do advento do finalismo, acreditava-se que os elementos anímicos integravam a
culpabilidade. Separava-se o conceito de ação causal do conteúdo da vontade (dolo e culpa). E é
claro que sem dolo e culpa não há falar-se em delito. Enquanto se imaginava que o dolo e a culpa
pertenciam à culpabilidade, a doutrina, de forma unânime, não hesitava em posicioná-la entre os
elementos do crime, ao lado da tipicidade e da antijuridicidade.
Nessa época, entendia-se pacificamente que a tipicidade e a anti-juridicidade integravam a
relação física, enquanto a culpabilidade era a expressão da relação psíquica.
Demonstrado, porém, através do finalismo, que o dolo e a culpa pertencem à conduta,
expurgaram-se da culpabilidade os principais elementos do delito, quais sejam, o dolo e a culpa, de
modo que no juízo da culpabilidade o magistrado deve ter a mente voltada à pena, investigando a
imputabilidade, a potencial consciência da ilicitude e a exigibilidade de conduta diversa. A ausência
de um desses elementos exclui a culpabilidade, impedindo a aplicação da pena, mas o crime
continua intacto, pois, para a sua caracterização, bastam a tipicidade e a antijuridicidade.
A culpabilidade, como se vê, é o juízo de reprovação sobre o comportamento passado do
criminoso. É, pois, um juízo de valoração posterior, isto é, destacado do fato criminoso praticado
pelo agente, que é antecedente, razão pela qual não se pode dizer que ela integra esse fato
criminoso.
O Código Penal, ao tratar das causas de exclusão da culpabilidade, usa as expressões “é isento
de pena” (p. ex., art. 26, caput) ou “só é punível” (p. ex., art. 22), ao passo que para as causas de
exclusão da antijuridicidade adota a locução “não há crime” (p. ex., art. 23). Portanto, a afirmação de
que a culpabilidade é pressuposto da pena e não um elemento do delito encontra também apoio em
nosso ordenamento jurídico.
Por outro lado, dentro de uma visão tripartida, os inimputáveis não seriam vítimas do delito
de calúnia, porque caluniar é imputar falsamente um fato definido como crime. Dizer que um rapaz
de 17 anos furtou o carro de Beltrano configura delito de calúnia para a teoria bipartida, ao passo
que os adeptos da teoria tripartida encontram dificuldades para enquadrar o fato como calúnia.
Desnecessário dizer a injustiça de se tipificar o fato como mera difamação, pois nesse delito é

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vedada a exceção da verdade, havendo risco de se condenar o agente que imputou fato criminoso
verdadeiro ao inimputável.
Finalmente, se por um lado essa nova concepção bipartida inspirou-
-se no finalismo, cumpre
recordar que Welzel, precursor do finalismo, mantinha a culpabilidade dentro do crime. Outros
finalistas também perfilham desse entendimento, porque estão apegados à antiga compreensão
tripartida do delito.

OBJETO DO CRIME

ESPÉCIES

O objeto do crime pode ser jurídico e material.

OBJETO JURÍDICO

Diz esse assunto respeito a um dos mais importantes temas do direito penal, porque é da
titularidade do bem jurídico que se extrai o sujeito passivo da infração penal. Sobremais, o estudo
do bem jurídico tem papel fundamental na classificação dos crimes, formulada pela Parte Especial
do Código Penal, e na interpretação teleológica da lei penal. É claro que não existe crime sem objeto
jurídico, e não há uma única exceção a essa regra.

Costuma distinguir-se o objeto jurídico em:


a) formal: é o direito público subjetivo do Estado de ver obedecida a norma penal;
b) substancial: é o valor jurídico tutelado pela norma penal. A esse valor a doutrina dá o nome
de bem ou interesse, ou bem-interesse. Bem é tudo aquilo que satisfaz uma necessidade humana.
Interesse é a avaliação subjetiva em torno desse bem. A distinção entre bem e interesse, porém,
não passa de uma questiúncula jurídica.
O objeto jurídico substancial, por sua vez, subdivide-se em: genérico e específico.
Objeto jurídico genérico é o bem ou interesse tutelado por determinado grupo de normas
penais.
Objeto jurídico específico é o bem ou interesse tutelado, de maneira peculiar, por um número
menor de normas, unidas pela tutela comum de um bem jurídico genérico.
A Parte Especial do Código Penal, que se estende entre os arts. 121 e 359-H, divide-se em
onze títulos, que, por sua vez, se subdividem, em capítulos. Cada título tutela um bem jurídico
genérico, encontrando-se nos capítulos o bem jurídico específico.
O Título I, que prevê os crimes contra a pessoa (arts. 121 a 154 do CP), tutela genericamente a
pessoa. E, nos respectivos capítulos, passa à tutela de outros bens jurídicos específicos: vida (arts.
121 a 128), saúde (art. 129), vida e saúde (arts. 130 a 137), honra (arts. 138 a 145), liberdade
individual (arts. 146 a 154).
No Título VII (“Crimes contra a Família”), o bem jurídico genérico é a família. Nos capítulos do
Título VII estão os bens jurídicos específicos: casamento (arts. 235 a 239); filiação (arts. 241 a 243);
assistência familiar (arts. 244 a 247) e poder familiar, tutela e curatela (arts. 248 e 249).
Outros títulos da Parte Especial do CP poderiam ser lembrados, mas cremos na suficiência
desses dois exemplos.
Essa técnica de divisão dos títulos em capítulos, tutelando nos primeiros o bem jurídico
genérico e nos segundos, o específico, refoge apenas em relação aos crimes contra o patrimônio,
em que os capítulos não especificam o bem jurídico, e nos crimes contra a organização do trabalho

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(arts. 197 a 207) e contra a paz pública (arts. 286 a 288), sendo que nos dois últimos casos não há
sequer a subdivisão dos títulos em capítulos. Nesses três casos não há distinção entre objeto
jurídico genérico e específico.

OBJETO MATERIAL DO CRIME

Objeto material é a pessoa ou coisa sobre a qual é executada a conduta. Nos crimes de
homicídio e lesão corporal (arts. 121 e 129), o objeto material é a pessoa; no furto (art. 155), é a
coisa alheia móvel; no roubo (art. 157), é a pessoa e a coisa alheia móvel.
Como bem sintetiza Walter Coelho, o objeto jurídico é o objeto de proteção (da norma penal),
ao passo que o objeto material é o objeto da ação (delituosa) ou o objeto de ataque.
O objeto material situa-se dentro do tipo penal. Entretanto, nem todo tipo penal tem objeto
material. Há, efetivamente, certos delitos cuja conduta não recai sobre pessoa nem coisa, estando,
por isso, destituídos de objeto material. Tal ocorre com os delitos de mera conduta (ex.: reingresso
de estrangeiro expulso - art. 338 do CP) e com todos os crimes omissivos puros (ex.: omissão de
socorro - art. 135 do CP). Os crimes formais podem ou não ter objeto material. No falso
testemunho, por exemplo, não há objeto material.
No tocante aos crimes materiais, todos têm objeto material porque o resultado
necessariamente deve produzir-se sobre uma pessoa ou coisa.
Às vezes o objeto material constitui também o sujeito passivo. Exemplos: homicídio (art. 121),
lesão corporal (art. 129), estupro (art. 213), tráfico internacional de pessoa para fim de exploração
sexual (art. 231) etc.
Por outro lado, cumpre não confundir o objeto material com o instrumento do crime, que é o
meio utilizado pelo agente para a prática da conduta delituosa (ex.: o revólver do homicida). O
objeto material também distingue-se do corpo de delito, que compreende o conjunto dos vestígios
deixados pela lesão do objeto material.
Finalmente, o morto e o animal, devido à sua natureza de coisa, podem ser objeto material de
crime.

SUJEITO ATIVO DO CRIME

CONCEITO

Sujeito ativo da infração penal é aquele que direta ou indiretamente pratica a conduta
punível.
Essa definição, haurida dos ensinamentos de James Tubenchlak, compreende: autor, coautor,
partícipe e autor mediato.
Autor e coautor são executores diretos da conduta criminosa, ao passo que partícipe e autor
mediato a executam indiretamente.
É claro que apenas o homem, o ser humano, pode ser sujeito ativo do crime. O animal pode,
porém, figurar como instrumento do crime; nunca como sujeito ativo.
Finalmente, os inimputáveis, inclusive os menores de 18 anos, desde que se admita que crime
é fato típico e antijurídico, podem ser sujeitos ativos da infração penal.

DESIGNAÇÕES

O sujeito ativo assume as seguintes designações:

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a) agente: é o termo usado para designá-lo antes da prática da infração penal;


b) autor: é o termo usado pelo Juizado Criminal;
c) indiciado: é o termo usado para designá-lo durante o inquérito policial;
d) réu, acusado ou denunciado: são os termos usados para designá-
-lo durante a ação penal
pública;
e) querelado: é a designação que ele sofre durante a ação penal privada;
f) sentenciado ou condenado: são as designações dadas após a sentença condenatória.

CAPACIDADE PENAL ATIVA

Capacidade penal ativa é a aptidão para submeter-se aos efeitos da violação da norma penal
incriminadora.
Vimos que o direito penal reage através das penas e das medidas de segurança.
Os doentes mentais têm capacidade penal ativa, pois submetem-se ao regime das medidas de
segurança. Não permanecem assim imunes ao âmbito de atuação do direito penal.
Em contrapartida, os menores de 18 anos e as pessoas jurídicas não têm capacidade penal
ativa.

IMPUTABILIDADE E CAPACIDADE

A imputabilidade é apurada ao tempo do crime. Imputável é a pessoa mentalmente sã, com


pelo menos 18 anos, que ao tempo da conduta reunia condições de entender o caráter ilícito do
fato e de determinar-se de acordo com esse entendimento.
Já a capacidade penal ativa é a aptidão para figurar numa relação processual, a fim de
submeter-se à aplicação da lei penal.
Em regra, todo imputável tem capacidade penal, salvo se depois do crime sobrevier-lhe
doença mental. Nesse caso, malgrado a imputabilidade, que, como vimos, é apurada ao tempo do
crime, permanece suspenso o processo até o seu restabelecimento (art. 152 do CPP). Também não
há capacidade penal quando a pessoa ostenta imunidade penal, como é o caso dos parlamentares,
nos delitos de opinião (art. 53 da CF), e do cônjuge, ascendente e descendente nos delitos
patrimoniais cometidos sem violência ou ameaça (art. 181 do CP) e de favorecimento pessoal (art.
348, § 2º, do CP), sendo que neste último crime a imunidade também se estende ao irmão. Em
todos esses casos, é vedada até mesmo a abertura do inquérito policial.
Os inimputáveis, salvo os menores de 18 anos, em regra, também têm capacidade penal, pois
submetem-se ao processo-crime, que visa a imposição da medida de segurança.

RESPONSABILIDADE PENAL DA PESSOA JURÍDICA

No estudo da responsabilidade penal da pessoa jurídica, a primeira questão com que nos
defrontamos diz respeito à sua natureza jurídica.
De acordo com a teoria da ficção jurídica, a pessoa jurídica não tem existência real, não tem
vontade própria. Apenas o homem possui aptidão de ser sujeito de direitos. Ora, essa teoria não
pode prevalecer, porque, se a pessoa jurídica é uma ficção, o direito também o é, porque emanado
de uma pessoa jurídica, isto é, do Estado. Trata-se de uma teoria contraditória, pois, ao mesmo
tempo que nega a vontade à pessoa jurídica, admite que ela adquira direitos.
Já a teoria da realidade ou orgânica ensina que a pessoa jurídica é um ente autônomo e
distinto de seus membros, dotada de vontade própria. É, portanto, sujeito de direitos, à semelhança

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DIREITO PENAL PARTE GERAL
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da pessoa física.
No plano extrapenal, prevalece a teoria da realidade. A personalidade da pessoa jurídica é
aceita sem impugnações. A pessoa jurídica é um ente autônomo, dotada de patrimônio e
personalidade, que não se confundem com o patrimônio e a personalidade dos membros que a
compõem.
Se, de um lado, a responsabilidade civil e administrativa da pessoa jurídica não é negada, de
outro, a penal tem sido objeto de acirradas discussões.

Os detratores da responsabilidade penal, que têm à frente a máxima societas delinquere non
potest, enumeram os seguintes argumentos contrários à incriminação:
a) a pessoa jurídica não tem vontade própria; logo, não pode realizar condutas;
b) a pessoa jurídica não é dotada de consciência própria para compreender o efeito
intimidativo da pena;
c) impossibilidade de analisar o erro de tipo, erro de proibição, dolo e culpa;
d) impossibilidade de medir a culpabilidade da pessoa jurídica na hipótese de ela figurar como
partícipe do fato realizado por pessoa física;
e) dificuldade em identificar o tempo e o lugar do crime;
f) a pessoa jurídica tem a personalidade restrita aos atos relacio-nados com o seu objeto
social. Não pode praticar outros, sob pena de nulidade, razão pela qual não pode violar a norma
penal;
g) a penalização da pessoa jurídica atingiria, por via oblíqua, todos os seus membros, violando
o princípio da personalidade da pena, segundo o qual a pena é intransmissível, isto é, não pode
passar da pessoa do condenado;
h) impossibilidade de aplicação da pena de prisão.
As críticas constantes nas alíneas “a”, “b”, “c”, “d” e “e” só se sustentam perante a teoria da
ficção jurídica, que encara a pessoa jurídica como um ente sem vontade própria. Basta adotar a
teoria da realidade, predominante no direito extrapenal, para vislumbrar vontade e consciência na
pessoa jurídica.
A crítica constante na alínea “f” procura resgatar a superada teoria da ultra vires, segundo a
qual a personalidade da pessoa jurídica é restrita aos atos relacionados com o seu objeto social. No
Brasil, a personalidade da pessoa jurídica não é limitada ao seu objeto so-cial, mas ainda que fosse o
argumento não impressionaria. Afinal, a teoria da ultra vires veda a prática de atos estranhos ao seu
objeto social, mas à pessoa física também é vedada a prática de atos proibidos por lei.
A crítica da alínea “g”, referente à violação do princípio constitucional da personalização ou
intransmissibilidade da pena, não se sustenta, porquanto por via indireta a pena também atinge os
fami-liares do preso.
Finalmente, a impossibilidade de se aplicar pena de prisão não reforça a tese da
irresponsabilidade da pessoa jurídica. Com efeito, a pena de prisão encontra-se em franco declínio
no direito penal, que vem armando-se com penas pecuniárias e restritivas de direitos, plenamente
compatíveis com a pessoa jurídica.

A favor da incriminação da pessoa jurídica enumeram-se os seguintes argumentos:


a) a pessoa jurídica é um ente autônomo, dotada de consciência e vontade, podendo realizar
condutas e sentir o caráter intimidativo da pena;
b) a pessoa jurídica é dotada de vontade; logo, deve submeter-se à lógica da isonomia entre a
pessoa física e a pessoa jurídica.
Portanto, sob o prisma jurídico, desde que se admita a teoria da realidade, não há óbice algum

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à responsabilidade penal da pessoa jurídica. Poder-se-ia objetar a utilidade prática do direito penal,
que é um ramo de intervenção mínima, à medida que sanções administrativas poderiam surtir o
mesmo efeito.
Mas, como adverte Fausto Martins de Sanctis, as decisões administrativas podem ser objeto
de ingerências políticas, o que tem levado ao descrédito desse tipo de sanção, sendo certo que os
mandamentos administrativos são simplesmente descumpridos, não possuindo, portanto, o peso e
a força executiva de uma sanção de natureza criminal.
A nosso ver, a responsabilidade penal deve restringir-se à pessoa jurídica de direito privado.
Com efeito, as pessoas jurídicas de direito público externo, isto é, regulamentadas pelo direito
internacional, gozam de soberania, razão pela qual a responsabilidade penal se mostraria inócua.
Esses entes são as diversas nações estrangeiras, a Santa Sé e os organismos internacionais (ONU,
OEA, UNESCO, etc.).
As pessoas jurídicas de direito público interno, quais sejam, União, Estados-Membros,
Municípios e autarquias, também não podem responder criminalmente. Primeiro, porque a
eventual condenação colocaria em risco o princípio da continuidade dos serviços públicos. Segundo,
a pena pecuniária seria aplicada inutilmente, pois o próprio Poder Público é o destinatário dessa
sanção. Terceiro, não haveria viabilidade para se cominar a pena de fechamento ou suspensão do
serviço público, porque violaria o princípio da continuidade. Quarto, a condenação atingiria toda a
população, contrariando o fim do direito, que é a defesa social.
Por outro lado, os entes paraestatais, quais sejam, empresas públicas, sociedades de
economia mista e fundações públicas, não passam de pessoas jurídicas de direito privado,
submetendo-se ao princípio da isonomia, razão pela qual a sua responsabilidade penal deve ser
idêntica à das demais pessoas jurídicas de direito privado. Se, porventura, a paraestatal realizar a
prestação de serviço público (p. ex., água, luz, etc.), deverá equiparar-se à autarquia, sendo, pois,
irresponsável sob o prisma penal.
Finalmente, cabe destacar que a Magna Carta passou a admitir a responsabilidade penal da
pessoa jurídica nos crimes contra a ordem econômica e financeira, contra a economia popular e
contra o meio ambiente, autorizando o legislador ordinário a cominar penas compatíveis com sua
natureza, independentemente da responsabilidade individual dos dirigentes (arts. 173, § 5º, e 225,
§ 3º). Cumpre, porém, registrar que uma parcela da doutrina entende que esses dispositivos
constitucionais não autorizam a punição penal, e sim sanções administrativas e civis. O argumento
não procede quanto aos crimes contra o meio ambiente, pois, no que respeita a estes, a expressão
“sanção penal” vem expressa no próprio texto constitucional (art. 225, § 3º). Aliás, a Lei n. 9.605, de
12 de fevereiro de 1998, tipificou os crimes contra o meio ambiente, atribuindo responsabilidade
penal à pessoa jurídica desde que haja os seguintes requisitos cumulativos: a) o delito tenha sido
cometido por decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado; b) o delito
tenha sido cometido no interesse ou em benefício da entidade.
Todavia, a responsabilidade da pessoa jurídica não exclui a das pessoas físicas, autoras,
coautoras ou partícipes do mesmo fato (art. 3º e parágrafo único). Denota-se, portanto, a prevalência,
pelo menos na doutrina, do sistema da dupla imputação, consagrado no parágrafo único do art. 3º da
Lei n. 9.605/98, segundo o qual a responsabilidade penal da pessoa jurídica implica necessariamente a
responsabilidade criminal das pessoas físicas que participaram do mesmo delito. Força convir,
destarte, que os crimes praticados pela pessoa jurídica são plurissubjetivos, porque necessariamente
devem ser também perpetrados por pessoas físicas. Entretanto, a posição do STF é a que não vigora o
sistema da dupla imputação, de modo que a pessoa jurídica pode ser processada criminalmente,
independentemente das pessoas físicas responsáveis pela deliberação ou execução do ato criminoso.
O argumento da Excelsa Corte é que o § 3º do art. 225 da CF refere-se aos infratores pessoas físicas ou

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jurídicas, e não pessoas físicas e jurídicas.


No tocante aos delitos contra a economia popular e a ordem econômica e financeira, ainda não
sobreveio a lei definidora dos crimes da pessoa jurídica, inviabilizando a sua incriminação.

SUJEITO PASSIVO DO CRIME

CONCEITO E DESIGNAÇÕES

Sujeito passivo é o titular do bem jurídico lesado ou exposto a perigo de lesão pela conduta
criminosa. É, pois, o titular do bem jurídico protegido pela norma penal violada.
O sujeito passivo é designado vítima, ofendido ou querelante.
A doutrina classifica o sujeito passivo em constante e material.
Sujeito passivo constante ou formal, também chamado geral, genérico ou indireto, é o Estado,
titular do direito público subjetivo à observância da norma penal. Em todos os delitos, sem exceção,
o Estado figura como sujeito passivo, pois a prática do crime lesa um interesse que lhe pertence,
qual seja, o de não ser violado o preceito penal.
Sujeito passivo material ou eventual, também chamado particular, acidental ou direto, é o
titular do bem jurídico especificamente protegido pela norma penal violada. A sua identificação não
é tarefa irrelevante, porque, no plano processual, ele figura como vítima, e não como testemunha.
Encontra-se, portanto, excluído do delito de falso testemunho (CP, art. 342). Ademais, nos delitos
com pena privativa de liberdade igual ou superior a quatro anos, a acusação e a defesa podem
arrolar até 8 (oito) testemunhas, e se a pena for inferior a quatro anos, até 5 (cinco). Nesse número,
porém, não se computam as vítimas (sujeitos passivos), que podem ser arroladas sem limite.
Diferentemente do que ocorre em relação ao sujeito ativo, a pessoa jurídica pode figurar
como sujeito passivo de diversos delitos (ex.: crimes contra o patrimônio, de violação de
correspondência, de difamação, etc.).
Admite-se também o sujeito passivo indeterminado, que tem lugar nos crimes vagos, ou seja,
aqueles que têm por sujeito passivo um ente sem personalidade jurídica, como os delitos que
atentam contra a coletividade ou a família. Entende-se que a coletividade e a família, embora
destituídas de personalidade jurídica, titularizam certos interesses penalmente protegidos. O ato
obsceno e o tráfico de entorpecentes são exemplos de crimes vagos, pois ofendem interesses
pertencentes à coletividade, e não apenas ao Estado como pessoa jurídica.
O nascituro também pode ser sujeito passivo em relação ao delito de aborto. A lei penal
antecipa-lhe a personalidade para o efeito de aquisição do direito à vida. Sob o prisma penal, o
nascituro é equiparado a pessoa, e tanto é assim que o aborto está classificado no Título I do CP,
que disciplina os “crimes contra a pessoa”.
Igualmente, o incapaz pode figurar como vítima de diversos delitos (arts. 121, 123, 129, 130
etc.).
Por outro lado, o Estado, além de sujeito passivo constante, às vezes também é sujeito passivo
material. Tal ocorre nos crimes contra a organização política e naqueles cometidos contra a pessoa
que personifica o Estado (ex.: peculato, corrupção passiva etc.).
Em contrapartida, o morto e o animal não podem ser sujeitos passivos. No crime de crueldade
contra animais, o sujeito passivo é a coletividade. Na calúnia contra os mortos, prevista no § 2º do
art. 138 do CP, sujeitos passivos são o cônjuge, ascendente, descendente ou irmão do defunto.
Finalmente, ninguém pode cometer um delito contra si próprio. A pessoa não pode ser sujeito
ativo e passivo do delito em face de sua própria conduta. Se o indivíduo lesa o próprio corpo para
receber o valor de seguro, ele é sujeito ativo de estelionato (art. 171, § 2º, V, do CP), e o sujeito

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passivo é a empresa seguradora. Na autoacusação falsa, o sujeito passivo é o Estado (art. 341). No
autoaborto, a gestante é apenas sujeito ativo (art. 124, 1ª parte), pois sujeito passivo é o feto. E, no
delito de rixa, cada rixoso só é sujeito ativo de sua própria conduta, figurando como sujeito passivo
apenas da conduta do outro, e não de sua própria conduta.

PREJUDICADO PELO CRIME

Prejudicado é qualquer pessoa que, na esfera cível, tem direito à reparação do dano causado
pelo crime. Não se confunde com o sujeito passivo, que é titular do bem jurídico, apesar de ambos
terem direito de ação de reparação de dano na esfera civil.
Assim, num crime de homicídio, o sujeito passivo será a pessoa cuja vida foi destruída,
enquanto os prejudicados serão seus familiares.
Se é verdade que todo delito possui um sujeito passivo, o mesmo não se pode dizer em
relação ao prejudicado. Assim, no crime de uso de entorpecentes, em que o sujeito passivo é a
coletividade, não há nenhum prejudicado.

SUJEITO PASSIVO E OBJETO MATERIAL

Objeto material é a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta do agente, ao passo que o
sujeito passivo é o titular do bem jurídico que o crime ofendeu.
Às vezes, porém, confundem-se na mesma pessoa o sujeito passivo e o objeto material (ex.:
homicídio, lesão corporal, etc.).

CLASSIFICAÇÃO DOS CRIMES

CRIMES MATERIAIS, FORMAIS E DE MERA CONDUTA

Segundo a relação entre a conduta e o resultado, os delitos podem ser materiais, formais e de
mera conduta.
Delitos materiais ou causais são os que alojam, no tipo legal, um resultado naturalístico cuja
ocorrência é necessária à sua consumação. Exemplos: homicídio, lesão corporal, furto, etc.
Delitos formais ou de consumação antecipada são os que alojam, no tipo legal, um resultado
naturalístico cuja ocorrência, porém, não é necessária à sua consumação. Exemplos: calúnia,
difamação, injúria, etc.
Delitos de mera conduta ou simples atividade são os que contêm apenas a definição da
conduta, não alojando, no tipo legal, nenhum resultado naturalístico. Exemplos: reingresso de
estrangeiro expulso (CP, art. 338), ato obsceno (CP, art. 233) e quase todas as contravenções.

CRIMES DE DANO E DE PERIGO

Segundo a intensidade do mal visado pela conduta, os delitos podem ser de dano e de perigo.
Crimes de dano ou de lesão são os que só se consumam com a perda real do bem jurídico.
Exemplos: homicídio, lesão corporal, furto, dano, etc.
Crimes de perigo são os que se consumam com a probabilidade de lesão ao bem jurídico.
Basta, para a consumação, que se produza uma situação de perigo para o bem jurídico tutelado.
Os delitos de perigo comportam a seguinte divisão:
a) De perigo presumido ou abstrato ou de simples desobediência: é o que se consuma com a

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simples conduta, independentemente da efetiva demonstração do perigo. Há, pois, uma presunção
juris et de jure de que de determinada conduta advém uma situação de perigo. Exemplos: omissão
de socorro (art. 135), quadrilha ou bando (art. 288) etc.
b) De perigo concreto: é o que só se consuma com a efetiva demonstração do perigo. É
preciso demonstrar, no caso concreto, que a conduta produziu a probabilidade do dano. Exemplos:
perigo de vida (art. 132), incêndio (art. 250) etc.
c) De perigo individual: é o que atinge uma pessoa ou um número determinado de pessoas.
Exemplos: arts. 130 a 137.
d) De perigo comum ou coletivo: é aquele que só se consuma se o perigo atingir um número
indeterminado de pessoas. Exemplos: incêndio (art. 250), explosão (art. 251).
e) De perigo atual: é o que está acontecendo.
f) De perigo iminente: é o que está prestes a acontecer. A nosso ver, o perigo iminente
também é atual. Se a probabilidade do dano está prestes a ocorrer é porque já está acontecendo
uma situação de perigo.
g) De perigo futuro ou mediato: é o que pode advir da conduta. Exemplos: porte de arma de
fogo, quadrilha ou bando etc.

DELITOS INSTANTÂNEOS, PERMANENTES E A PRAZO

Segundo o tempo da consumação, os delitos podem ser instantâneos, permanentes e a prazo.


Delitos instantâneos ou de estado são os que se consumam num determinado momento, sem
continuidade no tempo. Assim, “o fato estará consumado” e “acabado” com a verificação do
resultado típico. Exemplos: homicídio, lesão corporal, furto, etc.
Crimes permanentes são aqueles em que a consumação, por vontade do agente, prolonga-se
no tempo. Há, pois, a manutenção da situação contrária ao direito. O bem jurídico é
continuadamente agredido. A característica do crime permanente é que a cessação da situa-ção
ilícita depende apenas da vontade do agente. Exemplos: sequestro (CP, art. 148), redução a
condição análoga à de escravo (CP, art. 149), casa de prostituição (CP, art. 229), etc.
Observe-se, nessa oportunidade, a profunda distinção entre crime permanente e crime
instantâneo de efeitos permanentes. No primeiro, há a manutenção da conduta criminosa, por
vontade do próprio agente. No segundo, perduram, independentemente da vontade do agente,
apenas as consequências produzidas por um delito já acabado, como, por exemplo, o homicídio e a
lesão corporal.
Os crimes permanentes classificam-se em necessariamente permanentes e eventualmente
permanentes.
Os primeiros são os delitos para os quais é essencial à sua consumação a manutenção da
conduta ilícita, por um tempo juridicamente relevante. Exemplo: sequestro.
Os segundos são os delitos normalmente instantâneos, mas, no caso concreto, por vontade do
agente, ocorre a manutenção da situação ilícita. Exemplo: furto de energia elétrica (art. 155, § 3º,
do CP) e usurpação de função pública (art. 328 do CP).
O estudo dos crimes permanentes reveste-se de suma importância nos seguintes temas:
sucessão de leis, legítima defesa, concurso de agentes, prescrição, consumação, prisão em flagrante
e competência territorial.
Por último, crime a prazo é aquele em que a consumação depende de um determinado lapso de
tempo. Exemplos: art. 129, § 1º, I, do CP (mais de 30 dias), art. 148, § 1º, III, do CP (mais de 15 dias),
art. 159, § 1º, do CP (mais de 24 horas), art. 169, parágrafo único, II, do CP (15 dias).
CRIMES COMISSIVOS E OMISSIVOS

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Segundo a forma da conduta, os delitos podem ser comissivos e omissivos.


Delitos comissivos ou de ação são os cometidos com uma conduta positiva. Exemplos:
homicídio (“matar”), lesão corporal (“ofender”), etc.
Delitos omissivos são os cometidos mediante inação. Exemplo: omissão de socorro (CP, art.
135).
Os delitos omissivos podem ser:
a) Omissivos próprios ou puros: quando a omissão é descrita no próprio tipo legal. Exemplos:
omissão de socorro (CP, art. 135), abandono intelectual (CP, art. 246), omissão de notificação de
doença (CP, art. 269). Esses delitos não admitem a tentativa.
b) Omissivos impróprios ou espúrios, também chamados comissivos por omissão: quando o
tipo legal descreve uma ação, mas a inércia do agente, que descumpre o dever jurídico específico de
agir, permite a eclosão do resultado naturalístico. Exemplo: o policial que assiste inerte ao
afogamento de criança. Nesses delitos é admissível a tentativa.
c) De conduta mista: aqueles em que o tipo legal descreve uma fase inicial ativa e uma fase
final omissiva. É o caso da apropriação de coisa achada (art. 169, parágrafo único, II). O agente, num
primeiro momento, acha a coisa perdida, apossando-se dela (ação), e depois, num segundo
momento, deixa de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade
competente, dentro do prazo de quinze dias. Na verdade, trata-se de crime omissivo próprio,
porque só se consuma quando o agente deixa de restituir a coisa. A fase inicial de ação, isto é, de
apossamento da coisa, não é sequer ato executório do crime.

CRIMES COMUNS, PRÓPRIOS E DE MÃO PRÓPRIA

Segundo a sua execução pelo possível número de agentes, os delitos podem ser comuns,
próprios e de mão própria.
Crimes comuns ou gerais são os que podem ser executados por qualquer pessoa. A lei não
exige nenhum requisito especial para que alguém possa ser autor. Exemplos: homicídio, lesão
corporal, sequestro, furto, etc.
Nos crimes próprios ou especiais o tipo legal exige que o autor apresente uma qualidade
pessoal diferenciada. Assim, no infanticídio, a autora deve ser parturiente; no peculato, deve ser
funcionário público; nos omissivos impróprios, deve ter o dever jurídico específico de impedir o
resultado.
Por outro lado, crime de mão própria, também chamado de atuação pessoal ou de conduta
infungível, é o que deve ser cometido pessoalmente pelo autor designado no tipo legal. Exemplos:
falso testemunho, prevaricação, deserção, etc.
Enquanto o crime próprio admite a autoria mediata, a participação e a coautoria, o delito de
mão própria só admite a participação, sendo incompatível com a coautoria e a autoria mediata, uma
vez que não se pode delegar a outrem a sua execução.

CRIMES UNISSUBJETIVOS E PLURISSUBJETIVOS

De acordo com o aspecto quantitativo ou numérico, os delitos podem ser unissubjetivos e


plurissubjetivos.
Crime unissubjetivo ou unilateral ou monossubjetivo é o cometido apenas por uma pessoa.
Crime plurissubjetivo ou plurilateral ou de concurso necessário é aquele em que o tipo penal
exige a presença de dois ou mais agentes. Pode ser:

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a) bilateral ou de encontro: quando o tipo exige a presença de dois agentes, cuja conduta
tende a encontrar-se (ex.: bigamia — art. 235);
b) crime coletivo ou de convergência: quando o tipo legal exige a atuação de três ou mais
agentes. Nesse caso, o delito coletivo pode ser:
➢ de condutas contrapostas: quando o tipo legal exige que os agentes atuem uns contra
os outros (ex.: rixa);
➢ de condutas paralelas: quando todos os agentes auxiliam-se mutuamente, visando
produzir o mesmo evento (ex.: quadrilha ou bando). Vale ressaltar que a quadrilha ou
bando exige pelo menos três indivíduos.
Por outro lado, crime eventualmente coletivo é aquele em que, a despeito de seu caráter
monossubjetivo, a pluralidade de agentes funciona como fator de exasperação da pena. Exemplos:
arts. 146, § 1º; 155, § 4º, IV; 157, § 2º, II, todos do Código Penal.

CRIMES DE SUBJETIVIDADE PASSIVA ÚNICA E DE DUPLA SUBJETIVIDADE PASSIVA

Sob o aspecto quantitativo ou numérico das vítimas, os crimes podem ser:


a) de subjetividade passiva única: quando o tipo legal prevê a existência de apenas uma
vítima (ex.: homicídio, lesão corporal, furto etc.);
b) de dupla subjetividade passiva: quando o tipo legal prevê a existência de duas vítimas. No
aborto violento (art. 125), por exemplo, sujeito passivo é a gestante e o nascituro; na violação de
correspondência (CP, art. 151), o remetente e o destinatário.

CRIMES SIMPLES E COMPLEXOS

Quanto à estrutura da conduta típica, os delitos podem ser simples e complexos.


Crime simples é o que se enquadra num único tipo legal. Exemplos: homicídio, lesão corporal,
crimes contra a honra etc.
Crime complexo é o formado pela fusão de dois ou mais tipos legais de crime. Exemplos:
latrocínio, que é formado pelo roubo mais homicídio; extorsão mediante sequestro (art. 159),
formado pela extorsão e pelo sequestro.
Delito complexo em sentido amplo é o formado por um crime acrescido de elementos que
isoladamente não constituem crimes. O exemplo clássico é a denunciação caluniosa (CP, art. 339),
que é formada pela calúnia e por outros elementos que, isoladamente, são penalmente
indiferentes. Na verdade, não constitui crime complexo. Este só se caracteriza pela fusão de dois
tipos (art. 101 do CP).

CRIMES MONOOFENSIVOS E PLURIOFENSIVOS

Quanto ao número de bens jurídicos afetados, o crime pode ser:


a) monoofensivo: é o que atinge apenas um bem jurídico; no homicídio, por exemplo, tutela-
se apenas a vida;
b) pluriofensivo: é o que atinge mais de um bem jurídico; exemplo: latrocínio (CP, art. 157, §
3º, última parte), que lesa a vida e o patrimônio.
CRIMES UNISSUBSISTENTES E PLURISSUBSISTENTES

Quanto ao aspecto numérico dos atos executórios, os crimes podem ser:


a) unissubsistentes: ocorrem quando a conduta exterioriza-se com um só ato executório,

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suficiente para a consumação. Exemplos: os delitos cometidos verbalmente (crimes contra a honra,
ameaça, concussão, desacato, etc.);
b) plurissubsistentes: ocorrem quando a conduta exterioriza-se em dois ou mais atos
executórios, cuja força deve somar-se para a consumação. Exemplos: os delitos cometidos por escrito
(crimes contra a honra, ameaça, concussão, etc.) e ainda outros (homicídio, este-lionato, furto, etc.).
Enquanto os delitos unissubsistentes não admitem a tentativa, diante da impossibilidade de
fracionamento da conduta, nos crimes plurissubsistentes o “conatus” é perfeitamente possível.

CRIMES DE FORMA LIVRE E DE FORMA VINCULADA

Segundo a especificação dos meios de execução, os delitos podem ser:


a) de forma livre: admitem inúmeros meios de execução; exemplos: homicídio, lesão corporal,
crimes contra a honra, furto, etc.
b) de forma vinculada: só podem ser executados através dos meios especificados no tipo
legal. O exemplo clássico é o curandeirismo (CP, art. 284). O delito de perigo de contágio de
moléstia venérea, previsto no art. 130 do CP, também é um bom exemplo, porque os meios
executórios possíveis são apenas a relação sexual e o ato libidinoso.

CRIMES PRINCIPAIS E ACESSÓRIOS

Segundo o seu pressuposto de existência, os delitos podem ser:


a) principais: são os que têm existência autônoma, isto é, independente de outros delitos;
exemplos: furto, estupro etc.
b) acessórios ou de fusão ou parasitários: são os que pressupõem a existência de outro
crime; exemplos: receptação (art. 180), favorecimento pessoal (art. 348), favorecimento real (art.
349).
Observe-se, porém, que a extinção da punibilidade do crime principal não se estende ao
acessório (CP, art. 108). Assim, prescrito o furto, subsiste ainda assim a receptação.
Entre o crime principal e o acessório verifica-se a conexão instrumental ou probatória,
consubstanciada no fato de a prova de um delito influir na do outro, impondo-se, por consequência,
a reunião dos processos para julgamento simultâneo, nos termos do art. 76, III, do CPP.

CRIMES CONEXOS E INDEPENDENTES

Os delitos, relativamente ao elo de ligação que apresentam entre si, podem ser
independentes e conexos.
Delitos independentes são os que não estão ligados a outras infrações penais.
Delitos conexos são os que estão interligados.
A conexão pode ser material e processual.
A conexão material ou penal ou objetiva pode ser: teleológica, consequencial e ocasional.
Dá-se a conexão teleológica ou ideológica quando um crime é praticado para assegurar a
execução de outro. Exemplo: matar o marido para estuprar a esposa.
Opera-se a conexão consequencial ou causal ou lógica quando um delito é cometido para
assegurar a ocultação, impunidade ou vantagem de outro. Exemplos: “A” furta o dinheiro da casa,
incendiando-a, em seguida, para ocultar a subtração; “A” destrói o orelhão público e em seguida
mata a única testemunha; “A” rouba um relógio de ouro e depois mata o seu comparsa para
assegurar só para si a vantagem. Note-se que no primeiro exemplo o delito-fim foi para ocultar o

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delito-meio; no segundo, para assegurar a impunidade, e não a ocultação; no terceiro, para


assegurar a vantagem. Como se vê, a ocultação refere-se ao fato; a impunidade, ao agente; e a
vantagem, ao crime.
Tanto a conexão teleológica quanto a consequencial qualificam o homicídio (CP, art. 121, § 2º,
V) e funcionam como agravantes genéricas dos demais crimes (art. 61, II, b). Entre o crime-meio e o
crime-fim haverá concurso material. Ressalte-se, porém, que a conexão se caracteriza ainda que não
se inicie a execução do crime-fim. Basta a intenção do agente em realizá-lo. É claro que se não
houver sequer tentativa em relação ao crime-fim não haverá concurso material, embora subsista a
qualificadora para o homicídio e a agravante em relação aos demais crimes. A extinção da
punibilidade do crime-fim não exclui a qualificadora (se homicídio) ou a agravante resultante da
conexão (art. 108). E, ainda, nos crimes conexos, que sejam objeto do mesmo processo, estende-se
aos demais a interrupção da prescrição relativa a qualquer deles (§ 1º do art. 117 do CP).
Finalmente, na conexão ocasional um delito é cometido em virtude da oportunidade surgida
pela prática de outro. É o caso do ladrão que resolve estuprar a vítima. Conquanto não prevista no
Código como agravante ou qualificadora, subsiste o concurso material entre o crime-meio e o crime-
fim.
Por outro lado, na esfera processual ainda há a denominada conexão intersubjetiva, que se
subdivide em três: a) por simultaneidade; b) por concurso; c) por reciprocidade.
A conexão intersubjetiva por simultaneidade, também chamada de conexão subjetivo-objetiva
ou meramente ocasional, ocorre quando duas ou mais infrações são praticadas ao mesmo tempo,
por várias pessoas reunidas (CPP, art. 76, I). Exemplos: Capota um caminhão cheio de mercadorias,
ocasião em que duas ou mais pessoas resolvem escamotear os bens. Note-se que não há concurso
entre os agentes. Com efeito, os agentes não se unem para atingir o mesmo fim. Não há ajuste
entre eles, mas uma mera coincidência na realização do mesmo tipo de delito.
A conexão intersubjetiva por concurso, também denominada conexão subjetiva concursal,
ocorre quando duas ou mais infrações são praticadas por várias pessoas em concurso, ao mesmo
tempo, ou em tempo e lugar diversos. Neste tipo de conexão, os diversos agentes se unem para a
prática de diversos crimes. Há, pois, ajuste prévio entre eles. Exemplo: A e B combinam o furto de
duas residências.
A conexão intersubjetiva por reciprocidade ocorre quando duas ou mais infrações são
praticadas por várias pessoas, umas contra as outras. Exemplo: A, B e C agridem D, E e F e são por
estes agredidos.
Outra conexão processual, digna de menção, é a probatória ou instrumental, que ocorre
quando a prova de uma infração influi na prova de outra. É o que se dá entre os delitos de furto e
receptação.
Quanto à continência, ocorre em duas hipóteses: a) quando o mesmo delito é praticado por
mais de uma pessoa em concurso; b) quando o agente, mediante uma só conduta, pratica duas ou
mais infrações penais (concurso formal). O efeito da continência é unidade de processos à
semelhança do que ocorre com a conexão. Na Itália, a continência é denominada conexão subjetiva.
Em todas as hipóteses de conexão, seja material ou processual, ocorrerá a junção dos
processos para julgamento simultâneo (CPP, art. 76, I e II). Todavia, as conexões penais, teleológica e
lógica, ainda figuram como agravantes genéricas, nos moldes do art. 61, II, do CP, salvo em relação
ao homicídio, quando então funcionarão como qualificadoras (CP, art. 121, § 2º, V), ao passo que a
conexão processual e a conexão penal ocasional não funcionam como agravantes genéricas nem
como qualificadoras do homicídio.

CRIMES A DISTÂNCIA, PLURILOCAIS E EM TRÂNSITO

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Segundo o lugar do evento, os crimes podem ser:


a) à distância: quando a conduta e o resultado se desenvolvem em dois ou mais países. O
assunto está relacionado ao problema da lei penal no espaço.
b) plurilocal: quando a conduta e o resultado se desenvolvem em duas ou mais comarcas,
dentro do mesmo país. Exemplo: a vítima é ferida na cidade de Piraju, mas morre em Bauru. A
questão é relevante no tema da competência territorial (art. 70 do CPP).
c) em trânsito: quando uma parcela da conduta se realiza num país, sem lesar ou por em
perigo bem jurídico de seus cidadãos. Exemplo: “A”, do Paraguai, envia, para o Japão, uma carta
ofendendo “B”, sendo que essa carta tem uma ligeira passagem pelo correio brasileiro, até
prosseguir o seu rumo ao Japão.

CRIMES TRANSEUNTES E NÃO TRANSEUNTES

Quanto à necessidade ou não de exame de corpo de delito, podem ser:


a) delitos não transeuntes ou delitos de fatos permanentes: são os que deixam vestígios
mate-riais; exemplos: homicídio, lesão corporal, aborto, crimes contra a honra cometidos por
escrito, etc.;
b) delitos transeuntes: são os que não deixam vestígios de ordem material; exemplos: delitos
cometidos verbalmente (calúnia, injúria, desacato).
Nos delitos não transeuntes, a falta de exame de corpo de delito gera a nulidade do processo.
Já nos delitos transeuntes, não se realiza o aludido exame.

OUTROS DELITOS

a) Crime gratuito: é o cometido sem motivo.


b) Crime de ímpeto: é o cometido sem premeditação, em razão de uma explosão emocional
repentina. Exemplo: homicídio cometido sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a
injusta provocação da vítima (art. 121, § 1º, do CP). Geralmente, são delitos passionais.
c) Delito de circulação: é o cometido por meio do automóvel.
d) Delito de atentado ou de empreendimento: ocorre nos tipos legais que preveem a punição
da tentativa com a mesma pena do crime consumado. Exemplo: art. 352 do CP (“evadir-se ou tentar
evadir-se”); art. 309 do Código Eleitoral (“votar ou tentar votar duas vezes”); art. 11 da LSN
(“desmembrar ou tentar desmembrar”).
e) Crimes condicionados e incondicionados: os primeiros são aqueles em que a instauração
da persecução penal depende de uma condição objetiva de punibilidade (ex.: no delito praticado
por brasileiro no estrangeiro, a aplicação da lei penal brasileira, no caso de extraterritorialidade
condicionada, depende de ser o fato punível também no país em que foi praticado, art. 7º, II, § 2º,
b, do CP). Nos segundos, que constituem a maioria dos delitos, a instauração da persecução penal
não depende de uma condição objetiva da punibilidade).
f) Crime progressivo: é o que para ser cometido necessariamente viola outra norma penal
menos grave. Exemplos: no homicídio, o agente necessariamente realiza uma lesão corporal
anterior; na bigamia, o agente necessariamente realiza uma falsidade ideológica. O crime mais grave
absorve o menos grave. O crime absorvido (no exemplo, a lesão corporal e a falsidade ideológica) é
chamado delito de ação de passagem.
g) Crime de opinião ou de palavra: é o cometido pelo abuso da exteriorização do
pensamento. Pode ser escrito ou verbal. Exemplos: crimes contra a honra, desacato, etc.

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h) Crime multitudinário: é o cometido pela multidão em tumulto. Exemplo: linchamento do


estuprador. Incide a atenuante genérica (CP, art. 65, III, e), salvo em relação ao agente que provocou
a multidão.
i) Crime vago: é o que tem por sujeito passivo ente sem personalidade jurídica. Assim, na
quadrilha ou bando, sujeito passivo é a coletividade.
j) Crime internacional ou mundial: é o que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a
reprimir. Exemplos: tráfico internacional de pessoa para fim de exploração sexual (art. 231 do CP),
escrito ou objeto obsceno (art. 234 do CP), tráfico ilícito de entorpecentes (art. 33 da Lei n.
11.343/2006) e outros.
k) Crime remetido: ocorre quando a sua definição se reporta a outros delitos que passam a
integrá-lo. O exemplo clássico é o art. 304 do CP: “Fazer uso de qualquer dos papéis falsificados ou
alterados, a que se referem os arts. 297 a 302”.
l) Crime habitual: é o composto pela reiteração de atos que revelam um estilo de vida do
agente. Exemplos: rufianismo (CP, art. 230); exercício ilegal da medicina, arte dentária ou
farmacêutica (CP, art. 282); curandeirismo (CP, art. 284); contravenção de exercício ilegal de
profissão ou atividade (art. 47 da LCP). Enquanto no crime habitual cada ato isolado constitui fato
atípico, de modo que a tipicidade depende da reiteração de um número de atos, no crime
continuado cada ato isolado, por si só, já constitui crime. Cumpre, ainda, não confundir o crime
habitual com a habitualidade no crime. No primeiro, a reiteração do mesmo comportamento é
elemento necessário à tipicidade, sendo, pois, característica do fato. Na segunda, a repetição é
uma característica do delinquente, que adquiriu o hábito de praticar delitos.
m) Crime profissional: é o habitual, quando cometido com o intuito de lucro.
n) Crimes falimentares: são os previstos na Lei de Falências. Podem ser antefalimentares e
pós-falimentares, conforme sejam cometidos antes ou depois da sentença declaratória da falência.
o) Crimes funcionais ou delicta in officio: são aqueles em que o tipo legal exige que o autor
seja funcionário público. Podem ser próprios e impróprios. No primeiro, a condição de ser o agente
funcionário público é essencial à tipicidade do fato; faltando-lhe essa condição, ocorre a atipicidade
absoluta (ex.: prevaricação e corrupção passiva). No segundo, se o agente não for funcionário
público, persiste a tipicidade do fato, em relação a outro tipo legal (ex.: no peculato, se o agente não
for funcionário público, o fato constitui delito de apropriação indébita). Os crimes funcionais estão
previstos nos arts. 312 a 326 do CP e em outros dispositivos (arts. 150, § 2º, 299, parágrafo único
etc.). Tratando-se de crimes funcionais afiançáveis, oferecida a denúncia ou queixa, antes de recebê-
la, deverá o juiz notificar o acusado para, dentro em quinze dias, apresentar a defesa preliminar
(CPP, art. 514), embora haja entendimento de que essa defesa preliminar só é necessária quando a
denúncia não houver sido instruída com inquérito policial (RTJ 110/601).
p) Crimes de responsabilidade: são infrações político-administrativas cuja prática acarreta a
imposição de sanção política (perda do cargo e inabilitação temporária para o exercício de função
pública). Os crimes de responsabilidade do Presidente da República, Ministros de Estado, Ministros do
STF, Procurador-Geral da República, Governador e Secretário de Estado estão definidos na Lei n.
1.079/50. Na verdade, não são crimes, mas infrações político-administrativas, pois a lei não prevê
cominação de pena criminal. Os crimes de responsabilidade submetem-se à jurisdição política. O
Presidente da República é julgado pelo Senado; o Governador, por um Tribunal Especial; e o Prefeito,
pela Câmara dos Vereadores. Em contrapartida, nos crimes comuns, que abrangem todas as infrações
penais, inclusive os delitos funcionais e as contravenções penais, o Presidente da República é julgado
pelo STF; o Governador, pelo STJ; e o Prefeito, pelo Tribunal de Justiça ou Tribunal Regional Federal,
conforme seja o delito da competência da Justiça Estadual ou Federal.
q) Quase crime: é a denominação dada ao crime impossível (CP, art. 17) e à participação

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impunível (CP, art. 31). Também não constitui crime.


r) Crime inominado: é o que ofende regra ética ou cultural consagrada pelo direito penal,
embora não definida em nenhum tipo legal incriminador. O penalista uruguaio Salvagno Campos
inventou esse esdrúxulo fenômeno, tentando introduzir a analogia in malam partem. É claro que
não existe crime inominado, sob pena de infringência ao princípio da reserva legal (CP, art. 1º).
s) Delito de tendência: é aquele cuja tipicidade depende da intenção do agente. Exemplo: o
médico que toca nas partes íntimas da paciente com intuito lascivo responde pelo delito de violação
sexual fraudulenta (art. 215). Desaparece, porém, o crime se o toque se deu para a feitura do
diagnóstico.
t) Crimes hediondos: são os previstos no art. 1º da Lei n. 8.072/90, em sua forma consumada
ou tentada. Equiparam-se aos crimes hediondos: a tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e
drogas afins e o terrorismo.
u) Infrações de menor potencial ofensivo: são as contravenções penais e os crimes a que a lei
comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa (art. 61 da Lei n.
9.099/95, com redação determinada pela Lei n. 11.313, de 28 de junho de 2006). Por outro lado, as
infrações de médio potencial ofensivo são aquelas cuja pena mínima cominada for igual ou inferior
a 1 (um) ano, sendo que as referidas infrações penais admitem a suspensão do processo, nos
termos do art. 89 da Lei n. 9.099/95.
v) Crimes militares: são os definidos no Código Penal Militar (Dec.-Lei n. 1.001/69). Podem ser
próprios e impróprios. Os primeiros são os definidos apenas no Código Penal Militar (ex.: dormir em
serviço). Os segundos também estão definidos na legislação penal comum (p. ex.: homicídio, furto,
roubo, estupro, etc.).
x) Crime subsidiário: é o que só é aplicado se o fato não constitui crime mais grave. Assim, o
crime de dano é subsidiário em relação ao delito de incêndio.
y) Crime obstáculo: ocorre quando a lei incrimina atos preparatórios de outros delitos para
coibir a sua prática. Exemplos: quadrilha ou bando (CP, art. 288).

PERGUNTAS:

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1) Qual a diferença entre direito penal internacional e direito internacional penal?


2) Princípio da territorialidade, em matéria penal, é absoluto?
3) O que é o princípio da personalidade ativa e passiva?
4) O que é o princípio da defesa?
5) O que é o princípio da justiça universal?
6) O que é o princípio da representação?
7) O que é território?
8) O mar territorial integra o território?
9) Qual a distinção entre o território jurídico e o território geográfico?
10) O que é território por extensão?
11) Qual a teoria adotada com relação ao espaço aéreo?
12) O que é crime à distância?
13) Qual a teoria adotada para o lugar do crime (art. 6º do CP)?
14) Qual a distinção entre o art. 6º do CP e o art. 70 do CPP?
15) O que é extraterritorialidade?
16) Quais os casos de extraterritorialidade incondicionada?
17) Elenque os delitos sujeitos a extraterritorialidade condicionada.
18) Quais as condições para o julgamento no Brasil dos casos de extraterritorialidade
condicionada?
19) O que é o princípio do “non bis in idem”?
20) A sentença penal estrangeira faz coisa julgada no Brasil?
21) Em que hipóteses a sentença penal estrangeira é homologada no Brasil? Há necessidade de
homologá-la para fins de reincidência?
22) O que é o juízo de delibação?
23) Quem homologa a sentença penal estrangeira? Qual o recurso cabível dessa decisão?
24) O que é imunidade diplomática? Ela abrange os funcionários brasileiros que prestam
serviços na embaixada estrangeira?
25) Que tipo de imunidade possui as autoridades consulares? Qual a justificativa?
26) O chefe de governo estrangeiro e o ministro de Relações Exteriores gozam de imunidade
diplomática? Por quê?
27) Qual é a natureza jurídica da imunidade parlamentar?
28) A imunidade parlamentar deve ter correlação com sua atividade congressual?
29) Em que consiste a imunidade parlamentar relativa ou processual?
30) O STF pode instaurar ação penal contra parlamentar sem prévia autorização da Casa à qual
pertence?
31) Qual o alcance da imunidade parlamentar em relação aos deputados estaduais?
32) O que é “impeachment” em relação ao Presidente da República?
33) O que é princípio da irresponsabilidade do Presidente da República?
34) De que tipo de imunidade gozam os governadores de Estado e do Distrito Federal?
35) Existe diferença entre prazo penal e prazo processual penal? Qual a importância dessa
diferença?
36) Os prazos prescricionais e decadenciais são de natureza penal ou processual?
37) O que significa “desprezar as frações de dia” nas penas privativas de liberdade e restritivas
de direitos?
38) O que representa o princípio da convivência ou harmonia previsto no art. 12 do Código
Penal?

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39) Podem existir regras gerais não contidas na parte geral do Código Penal e que se aplicam às
leis especiais? Cite exemplos?
40) Segundo a gravidade da sanção qual o critério adotado pelo Brasil?
41) O que significa não haver diferença ontológica (de essência) entre contravenção e crime?
42) Pelo critério da cominação da pena, como se identificam a contravenção e o crime?
43) Na teoria geral do direito onde se enquadra o crime?
44) Há distinção entre o ilícito penal e o extrapenal? Explique sua resposta.
45) Em que casos pode haver coexistência entre a responsabilidade penal, civil e administrativa?
46) Sob o prisma jurídico como pode ser conceituado o crime?
47) O que se entende quando se conceitua o crime sob o aspecto material?
48) Dentro do conceito analítico de crime o que se entende por tipicidade?
49) O que é antijuridicidade ou ilicitude?
50) E culpabilidade?
51) O que é punibilidade?
52) Em que consiste a teoria sintomática do crime?
53) Por que a teoria bipartida é a que melhor soluciona a teoria da ciência penal?
54) Nessa teoria onde se situa a culpabilidade?
55) Por que o estudo do objeto jurídico do crime é um dos mais importantes temas do direito
penal?
56) O que seria o objeto jurídico substancial?
57) O que é o objeto material do crime?
58) Qual a diferença entre autor e coautor de um lado e partícipe e autor mediato de outro?
59) Qual a diferença entre imputabilidade penal e capacidade penal?
60) Em que casos a Constituição Brasileira admite a responsabilidade penal da pessoa jurídica?
61) Quem é o sujeito passivo do crime?
62) Qual a diferença entre crimes materiais, formais e de mera conduta?
63) O que significa a presunção “juris et de jure” nos crimes de perigo?
64) Qual a diferença fundamental entre crimes permanentes e instantâneos de efeitos
permanentes?
65) O que é crime a prazo?
66) O que é crime de conduta mista?
67) Por que o crime de mão própria não admite a coautoria nem a autoria mediata, mas tão
somente a participação?
68) O que é crime eventualmente coletivo?
69) Em que se diferencia o crime complexo em sentido estrito do complexo em sentido amplo?
70) Por que o latrocínio é um crime pluriofensivo?
71) O que é crime de forma vinculada?
72) O que é conexão teleológica ou ideológica?
73) Quando se verifica a conexão processual instrumental?
74) O que é crime em trânsito?
75) Qual a especificidade dos delitos não transeuntes no que tange ao exame de corpo de
delito?
76) O que é delito de atentado? Cite dois exemplos.
77) Que nome se dá ao crime absorvido por outro mais grave? Cite um exemplo.
78) O que é crime remido? Dê um exemplo.
79) Qual a diferença entre crime habitual e crime continuado?
80) O tráfico ilícito de entorpecentes, a tortura e o terrorismo são crimes hediondos?

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81) Por que se afirma que o crime de dano é subsidiário ao crime de incêndio?
82) O que são infrações penais de médio potencial ofensivo?

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