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Caique Maruê Parentoni

Trabalho de Filosofia Medieval


Ética, razão e conhecimento na Cidade Virtuosa

26/05/2019
No livro A opinião dos habitantes da cidade virtuosa um dos principais autores
árabes, Alfarabi, discute uma série de temas pertinentes a filosofia, a ciência e a religião,
perpassando tópicos importantes como metafisica, física, ética e política. Mesclando
elementos da filosofia aristotélica e neoplatônica, estas áreas parecem convergir em busca
de uma única resposta: quais as crenças que os habitantes de uma cidade devem possuir
para que esta seja uma cidade virtuosa?

Segundo Alfarabi, para que possamos atingir nosso fim último – a felicidade -
necessitamos de coisas das quais não somos capazes de obter por nós mesmos, segundo
nossa própria natureza, e por isso, realizamos associações e cooperações em busca de
atingir esta perfeição. Estas associações vão se aperfeiçoando e se tornando cada vez mais
complexas até formarem as cidades1. Entretanto, o autor aponta que nem todas as cidades
são capazes de garantir a felicidade, pois, para que isso ocorra é necessário que as
associações realizadas sejam virtuosas2

Esta afirmação, entretanto, levanta uma série de questões: No que consiste essa
felicidade? Como e por que alguns homens parecem se desviar dela? Como a virtude
contribui para se alcançar este fim último, e de que modo o homem é capaz de conhecer
os princípios da virtude?

Primeiramente, em seu livro O caminho para felicidade, Alfarabi mostra que para
se atingir este fim último é necessário que os homens realizem as chamadas “belas ações”,
de maneira constante e deliberada3. Desta forma, é importante que tanto as belas afeições
da alma, quanto a capacidade de deliberação, sejam levadas a excelência, através do
hábito. Como o autor expressa:

(..,) as ações e afeições da alma só podem nos levar a felicidade por


meio dos hábitos morais belos. E tenderemos a excelência do
discernimento, pelo qual alcançaremos a felicidade, quando a potência
da mente se converter em nós em um hábito cujo desaparecimento seja
impossível ou muito difícil. O hábito moral e belo, e a potência da
mente constituem em conjunto a virtude humana, porque a virtude de
cada coisa é a que faz adquirir a excelência e a perfeição em si mesma
e leva também a excelência de suas ações. Estas duas coisas
conjuntamente são aquelas que, quando a temos, alcançamos a
excelência e a perfeição em nós mesmos e em nossas ações. Através

1
As associações menores e imperfeitas são apontadas por Alfarabi como a família, o bairro e a vila. As
associações mais perfeitas são a cidade, a nação e o conjunto de todas as nações habitadas.
2
AL-FARABI, A. (2018, p. 152-153)
3
Alfarabi enfatiza que para se alcançar a felicidade, as ações belas devem ser escolhidas por livre
vontade e em vista de si mesmas. ALFARABI, A. El camino de la felicidad (2002, p. 47)
delas nos tornamos nobres, bons, e virtuosos e por elas a conduta
durante nossa vida torna-se uma conduta virtuosa e todos nossos
comportamentos tornam-se comportamentos louváveis.4

Essa capacidade de discernimento citada por Alfarabi se relaciona diretamente


com a faculdade da alma chamada por Aristóteles de intelecto prático5. Embora a palavra
“intelecto” seja utilizada pelo autor em vários sentidos diferentes6, entender a maneira
metafisica pelo qual o termo é empregado torna-se essencial para o estudo epistemológico
de Alfarabi.

Adotando a teoria de emanação neoplatônica, Alfarabi concebe o Ser Primeiro


como Deus. Causa primeira de todas as coisas, Uno, perfeito, autossuficiente, eterno, não
causado, imaterial, sem contrário e não suscetível a nenhuma definição. Ao pensar em si
mesmo, o Ser primeiro cria a multiplicidade por via da emanação, dando lugar a uma
gradação ontológica de seres, em que os superiores são mais perfeitos que os inferiores,
em um processo necessário7. Ao pensar a si mesmo, O Ser Primeiro dá origem ao
“intelecto segundo”, que se torna causa segunda de todas as coisas, é uno, mas também
contém a pluralidade em si. Ao pensar em si mesmo (e como distinto do Ser Primeiro) o
intelecto segundo dá origem a um intelecto terceiro, que dá origem a um intelecto quarto
e assim sucessivamente até chegar ao intelecto décimo, ou Intelecto Agente.

A cada vez que um intelecto pensa a si mesmo, surge também uma nova esfera
celeste, como se as essências destes intelectos se substancializassem8. O Intelecto Agente,
porém, não dá origem a uma nova esfera celeste perfeita, mas sim aos existentes do
mundo sublunar como o conhecemos: imperfeitos, passíveis de corrupção e dotados de
matéria e forma. O Intelecto Agente serve então como um princípio ontológico, criando
os existentes do mundo em uma ordem cronológica, dos mais simples e imperfeitos (a
matéria comum e os quatro elementos) até os seres mais perfeitos e complexos (os seres
dotados de razão).

4
ALFARABI, A. El camino de la felicidad (2002, p. 50)
5
GUERRERO, R. (2000, p. 76, apud De anima III, 10, 433ª)
6
Alfarabi identifica seis sentidos diferentes de utilização da palavra “intelecto”: o utilizado pelo povo, o
utilizado pelos teólogos, e os sentidos utilizados por Aristóteles em suas obras Segundos Analíticos, Ética
a Nicômaco, De Anima e Metafisica (FAHKRY M, 2002, p. 70)
7
GUERRERO, R. (2002, p. 22)
8
As esferas criadas são, em ordem: Primeiro Céu, Estrelas Fixas, Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus,
Mercúrio e Lua (ALFARABI. A, 2018, p. 97-99)
Como nos aponta Rafael Ramon Guerrero, doutor em filosofia e especialista em
pensamento medieval islâmico:

A hierarquia ontológica que constitui o universo é formada por seis


princípios: O Ser Primeiro, os intelectos segundos e separados, o
Intelecto Agente, a alma, a forma e a matéria. Os três primeiros não são
corpos nem estão em corpos, os três últimos também não são corpos,
mas estão em relação com os corpos. A alma constitui a forma dos dois
tipos de corpos existentes, os celestes e os sublunares. 9

A alma então, parece representar um elo de conexão entre os seres sublunares e


os seres supralunares. Em sua forma mais pura, a alma se apresenta como algo imaterial,
incorpóreo e imortal, e sua essência assemelha-se aquela que lhe gerou. Estes elementos
introduzem mais uma influência da filosofia neoplatônica em Alfarabi: o desejo pelo
retorno a sua origem e a ascensão da alma. De fato, a busca pelo conhecimento se torna
a aproximação da alma humana de seu princípio originário, e a verdadeira felicidade
consiste na união desta com o Intelecto Agente

Quando os homens atingem o estágio mais alto do conhecimento


teórico, eles alcançam o estado de união com o Intelecto Agente, a fonte
de todos os inteligíveis. Este estágio Alfarabi as vezes chama de
“conjunção” (ittisa¯l), e as vezes de “proximidade” (qurb,
muqa¯rabah), no qual a felicidade absoluta dos homens consiste. Neste
ponto os homens se tornam, de acordo com Alfarabi, intelectos em si
mesmos e deixam de ser seres materiais (hayu¯la¯ni), para se tornarem
seres divinos (ila¯hi). Alfarabi ainda identifica o Intelecto Agente, no
qual a humanidade está agora conjunta, como o Espirito Fiel do Corão
(al-Ru¯h al-Amı¯n) ou Gabriel (Jibril) e como o Espirito Santo (al-
Ru¯h al-Qudsi).10

Desta forma, a felicidade eterna a qual o homem busca depende tanto da realização
de ações práticas e virtuosas, como do conhecimento teórico que as guia, já que devemos
sempre conhecer o fim que desejamos para deliberar os meios de se alcança-lo.11 Embora
ambas as faculdades da razão façam parte da alma humana, suas funções divergem.

A razão teórica é definida em Alfarabi como o conhecimento do ser imutável,


sendo que características essenciais desse conhecimento são a universalidade e a
necessidade. O tipo mais elevado de conhecimento teórico é o que ele chama de
sabedoria, que é o conhecimento das causas supremas de todos os seres, assim como as
causas próximas de tudo o que é causado (a metafisica e a física, respectivamente).12

9
GUERRERO, R. (2002, p. 21)
10
FAHKRY, M. (2002, p. 93)
11
ALFARABI, A. (2018, p. 142-143)
12
FAHKRY, M. (2002, p. 67-68)
Em seus Segundos Analíticos, Aristóteles ainda usa o termo “intelecto” para
designar uma faculdade da alma que é capaz de conhecer os primeiros princípios
indemonstráveis, que são o fundamento das ciências e não necessitam de nenhuma
deliberação ou experiência prévia para serem conhecidos13. Por meio de uma intuição e
graças a esta aptidão natural, o homem é capaz de conhecer que o todo é sempre maior
que as partes, ou que medidas iguais em relação a um objeto são todas iguais em relação
umas às outras.14

Este conhecimento, entretanto, não é obtido de maneira autônoma pela alma do


homem, dependendo da ação do Intelecto Agente para que possa conhecer. Como o
intelecto é compreendido de maneiras diferentes15 podemos dividi-lo em quatro
“estágios”: o intelecto em potência, o intelecto em ato, o intelecto adquirido e o próprio
Intelecto Agente.

O intelecto em potência é aquele capaz de receber as formas dos objetos


particulares, a partir de um processo de abstração. Alfarabi compara o intelecto em
potência a matéria, como se este fosse um receptáculo de formas, que se atualiza a um
novo estado após esta apreensão16.

O intelecto em ato se refere ao intelecto já com os inteligíveis em si. De fato, as


formas passam a serem chamadas de inteligíveis a partir do momento em que o intelecto
as apreende, e da mesma forma, chamamos o intelecto de “inteligente” quando este é
capaz de converter-se na forma que agora é contida na alma. A alma, entretanto,
permanece intelecto em potência para todas aquelas formas que ainda não foram
inteligidas. Sobre isto, Ramon Guerrero diz:

Neste estágio de intelecção, o ser dos inteligíveis em ato é diferente de


seu ser antes de serem pensado, tanto que são formas na matéria.
Através do processo de abstração, em que se separam de sua matéria
física e natural, aquela que as mentem particularizadas e
individualizadas, adquirem um novo modo de existência e requerem
uma nova matéria para subsistir (a alma) (...) se convertem assim, em
formas universais, predicáveis de muitos, em um processo que sendo
aristotélico aponta a uma orientação neoplatônica ao pensar a abstração
como um liberar as formas da matéria, um “purifica-las”. Este processo
constitui um primeiro nível de conhecimento intelectual. 17

13
GUERRERO, R. (2002, p. 24, apud Analíticos II 9, 100b 5-17.)
14
ALFARABI, A. (2018, p. 140)
15
Os modos de compreensão do intelecto citados se referem a alma humana e são aqueles
apresentados no De Anima, de Aristóteles.
16
ALFARABI, A. Epistola sobre o intelecto (2007, p. 4)
17
GUERRERO, R. (2002, p. 26)
O terceiro estágio do intelecto se refere ao intelecto capaz de se avaliar, e refletir
sobre a própria condição de ato. Ao pensar sobre si, mesmo as formas que nunca
estiveram mescladas a matéria se tornam entes e ganham um significado próprio. O
intelecto torna-se então capaz de obter um novo tipo de conhecimento que não depende
mais da relação com o sensível e neste ponto, a alma atinge o ápice do processo de
cognição humana.18

Ao pensar a si mesmo, e ao conhecer seus próprios contidos em ato –


as formas inteligíveis já possuídas, que, ao ter agora o modo de ser
exigido para serem pensadas, não requerem outro processo de abstração
-, este intelecto cria a possibilidade de adquirir as formas separadas, as
formas puras e imaterias que nunca estiveram na matéria física: são os
seres separados e subsistentes por si mesmos, pertencentes ao mundo
supralunar (...) aquelas formas puras podem ser conhecidas em um ato
de intuição intelectual que não tem relação com os dados sensíveis. (...)
O intelecto adquirido, então, é uma perfeição do intelecto humano, um
grau mais elevado da matéria do que o intelecto em ato, que permite a
união com as substâncias separadas através do Intelecto Agente,
colocando o homem em comunicação com o mundo superior. 19

A última instância de intelecto discutido no De Anima é o intelecto agente, uma


instância separada do mundo material e comum a todos os homens, responsável por
transformar todos os inteligíveis em potência em inteligíveis em ato. Alfarabi compara a
relação do intelecto agente e do intelecto em potência com a relação da luz com o olho
humano. Assim como o olho humano tem em si a “potência de enxergar”, ele só é capaz
de realizar o ato (ver) com a presença da luz. Do mesmo modo, embora a alma humana
tenha em si a capacidade de conhecer (potencialmente), esta transformação apenas ocorre
com a atuação do intelecto agente20

Desta forma, podemos perceber que o Intelecto Agente desempenha um papel de


grande importância na filosofia alfarabiana por ser o princípio ontológico de todos os
seres sublunares, uma instância capaz de transformar a razão humana de um estado de
mera potência para um estado de ato, e também o fim desejado pela alma, que ao purificar-
se, é capaz de se aproximar cada vez mais de seu princípio até atingir a verdadeira
felicidade.

18
FAHKRY, M. (2002, p. 73)
19
GUERRERO, R. (2002, p. 26)
20
ALFARABI, A. (2018, p. 138-139)
Bibliografia

Al-Farabi, Abū Nasr. A Cidade Virtuosa. 2ed. Trad. de Catarina Belo. Lisboa: Fundação
Calouste Gulbenkian, 2018.

Al-Farabi, Abū Nasr. Epistola sobre o intelecto, Mcginnis; Reisman (Eds.). Classical
Arabic Philosophy: An Anthology of Sources. Indianapolis/Cambridge: Hackett
Publishing Company, 2007.

Al-Farabi, Abū Nasr. El caminho de la felicidade. 1ed. Trad. Rafael Ramon Guerrero,
Ed. Trotta, Madrid, 2002.

Fakhry, M. Al-Farabi, Founder of Islamic Neoplatonism His Life, Works and Influence.
England: Oxford, 2002.

Guerrero, R. El intelecto agente en Al-Farabi. Revista Espanola de Filosofia Medieval 9,


2002: pp. 19-31
Guerrero, R. Razón practica e intelecto agente en Alfarabi , Topicos 18, 2000: 73-95