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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ

CONCEPÇÃO DE ESTADO EM KARL MARX

ALUNO: CAIO HENRIQUE DE ALMEIDA


PROFESSOR: RENATO M. PERISSINOTTO
CURSO: CIÊNCIAS SOCIAIS
DISCIPLINA: POLITICA II

CURITIBA
2°SEMESTRE - 2010
Concepção de Estado em Karl Marx

Este artigo pretende abordar o problema da concepção de Estado desenvolvida por Karl
Marx, tomando como ponto principal de analise duas obras de sua juventude: A Questão Judaica e A
Ideologia Alemã, tendo o pensador Nicos Poulantzas como apoio teórico. A partir dessas duas obras
podemos buscar compreender um pouco melhor como se dá a relação entre Estado e sociedade civil.
Procurando entender qual o papel desempenhado por essa organização política na época em que foi
consolidado pelos burgueses, período esse que foi marcado por várias revoluções de caráter burguês ,
possuindo como base teórica de atuação política o Liberalismo. Podemos citar com exemplo a
“Revolução Americana” de 1776, que marcou a independência das trezes colônias em relação a
Inglaterra. Em 1787 os americanos definem uma Constituição , constituindo o primeiro Estado
republicano no mundo : os Estados Unidos da América. O que chama a nossa atenção nesse processo
de independência e fato dela ter sido comandado por uma elite de comerciantes e proprietários de
terras e de escravos , ou seja , uma classe dominante, formada por indivíduos que possuem interesses
em comum procurando manter a estrutura econômica , organizando seus interesses juridicamente e
politicamente com a constituição do Estado Americano. O exemplo da “Revolução Americana” ,
ajudar a esclarecer um pouco melhor a tema abordada pelo artigo.

A importância de discutir o tema da concepção de Estado em Marx deve-se as seguintes


razões: é possível perceber um amadurecimento teórico na conceituação de Estado ao longo da sua
obra , sendo importante compreender qual a função que o Estado assume após a sua constituição.
Ainda é importante discutirmos as questões que envolvem a “neutralidade” política do Estado e a
idéia do “interesse geral” teoricamente defendido por esta instituição, analisando qual a sua atuação
enquanto representante político da sociedade civil. Essas idéias estão pautadas em uma matriz de
pensamento liberal, uma tendência que foi importante ao longo dos séculos XVIII a XIX. Marx
criticou pesadamente o pensamento liberal, tentando desconstruir os preceitos propagados pelos
intelectuais liberais da sua época. Outro fator que chama atenção em sua obra, a contradição entre
“emancipação política” e “emancipação humana” colocado por Marx em A Questão Judaica. Nesta
obra ele se questionou no que consiste essa “emancipação humana” e quando realmente ela viria a se
consolidar plenamente entre os indivíduos. Por último procuraremos discutir qual a relação entre
Ideologia e sociedade, a partir das obras A Ideologia Alemã de Karl Marx e Poder Político e Classes
Sociais de Nicos Poulantzas.

Faremos essa discussão da seguinte maneira: num primeiro momento, apresentaremos a


natureza da problemática do Estado como representante dos interesses gerais ou dos interesses
privados de determinados indivíduos; num segundo momento, identificaremos quais as abordagens e
criticas apresentadas por Marx, com relação à concepção de Estado, mostrando que já a partir de A
Questão Judaica conseguimos perceber que o aparelho estatal estaria a serviço do interesse privado
de uma classe. Concepção que será discutida com maior profundidade a partir da A Ideologia Alemã,
em que Marx já adota uma visão mais radical sobre a natureza de classe do Estado, ou seja, o
aparelho estatal seria a expressão política de uma classe dominante e que teria como função garantir
os interesses privados dos indivíduos que compõem uma determinada classe social, os burgueses. E
garantiria a exploração econômica sobre uma classe dominada, os proletariados.

Questão do Estado em A Questão Judaica

A partir do debate que Marx realizou com Bruno Bauer, a respeito da emancipação
política dos judeus alemães, Marx apresenta o Estado como a alienação política dos indivíduos que
compõem a sociedade civil, esta alienação caracteriza-se na incapacidade dos indivíduos de se
engajarem na gestão política dos problemas da sua própria comunidade. O individuo que pertence a
essa sociedade civil, não é um cidadão de fato, ele na verdade não passa de um homem motivado por
interesses privados, um homem egoísta que tem como principal preocupação garantir juridicamente
os seus direitos humanos naturais e imprescritíveis: a igualdade, liberdade, segurança e propriedade1.
Esses indivíduos transformaram os direitos humanos, em direitos privados a um determinado grupo.

Esse fato é tratado em A Questão Judaica, onde Marx critica a Declaração dos Direitos
Humanos, mostrando que na verdade esses direitos foram cedidos aos comerciantes, industriais e
proprietários de terras, ou seja, indivíduos que possuem uma consciência em comum e ocupando um
mesmo grupo social. Procuram transformar o interesse privado de um determinado setor da sociedade
em interesse de todos. Marx cita um trecho Declaração dos Direitos Humanos francesa de 1783:
“O objetivo de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e
imprescritíveis do homem; O governo é instituído para garantir ao homem o gozo dos
seus direitos naturais e imprescritíveis”2 (Marx, p.67)

O Estado surge como uma organização política que, se coloca acima da sociedade civil,
a fim de proteger e garantir de maneira jurídico-politica os chamados direitos do homem , visando
também manter a ordem social estabelecida no intuito de garantir os direitos privados e uma classe de
indivíduos que de forma alguma se preocupam ou representam o interesse geral da sociedade ,
exatamente porque esses indivíduos não correspondem ao interesse geral. O Estado torna–se então
um aparelho que administra os interesses privados burgueses, assegurando a dominação de uma
classe sobre as demais. Segundo Marx, essa classe seria formadas pelos burgueses, que chegaram ao
poder através da revolução política. Ele procura fazer essa critica tendo como objeto de analise, os
acontecimentos ocorridos na Revolução Francesa: “A revolução política suprimiu, com isso, o
caráter político da sociedade civil. Destroçou a sociedade nas suas partes componentes simples: por
um lado, nos indivíduos; por outro lado, nos elementos materiais e espirituais, que formam o
conteúdo vital, a situação civil desses indivíduos” 3.Após derrubar a antiga ordem política e social da
época,o Antigo Regime, as classes dominantes , estabeleceram institucionalmente as bases jurídicas e
políticas para a nova ordem social que havia se consolidado,tornando legitima a sociedade capitalista.
Nicos Poulantzas resume muito bem isso no seguinte trecho:

“Esse Estado apresenta-se organizado como unidade política duma sociedade com
interesses econômicos divergentes – não interesses de classes, mas interesses de
indivíduos privados, sujeitos econômicos. Isto reporta-se a relação do Estado com o
isolamento das relações sociais econômicas , o qual e , em parte , o seu próprio efeito.
A partir desse isolamento , a função política do Estado apresenta uma ambivalência
características , consoante diga respeito as classes dominantes ou as classes
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dominadas.” (Poulantzas, p.8)

A constituição desse Estado como representante político da sociedade civil,


teoricamente deveria apresentar uma posição de “neutralidade” política e estaria sempre a favor
do interesse geral da população. Na prática se mostra ilusória, pois na verdade, por baixo das
aparências ideológicas de que o reveste, estaria sempre vinculado a uma classe dominante e aos
interesses privados dessa classe, constituindo-se então como um órgão de dominação de uma
classe sobre outra. Enquanto que as verdadeiras lutas políticas são travadas na sociedade civil,
ou seja, a sociedade civil seria o cenário das luta de classes, uma luta entre dominantes e
dominados, o motor propulsor da história. A história escrita de toda e qualquer sociedade, e
marcada pelo choque entre classes sociais antagônicas. E a luta de classes que coloca a História
em movimento. Essa luta pode acabar transformando-se em um processo revolucionário ou
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pode causar a extinção das classes sociais em conflito. Analisando a conjectura política
Europa do século XIX, principalmente de paises como: França, Inglaterra e Alemanha,
podemos constatar que essas lutas se configuraram entre burgueses e proletariados.

Outra idéia que nos chama a atenção no pensamento do jovem Marx, e a idéia de
“emancipação humana”. Já vimos que a “emancipação política” produziu fortes contradições e
desigualdades políticas. Isso precisaria ser superado, e é somente com o a emancipação plena do
homem, que essas contradições e desigualdades seriam superadas, através de um processo
revolucionário promovido pelos proletariados que, segundo Marx seria a classe revolucionaria,
não podendo fugir do seu destino histórico. Agora no que consiste essa “emancipação
humana”? Em conquistar o Estado através da revolução, destruindo sua estrutura de poder,
derrubando a classe dominante e instaurando uma sociedade com novas bases. Quando isso
ocorrera?Ela só será plena quando o individuo privado torna-se cidadão, rompendo com todas
as fontes da alienação, onde o homem deve recuperar a gestão autônoma da sociedade e passar a
controlar os meios de produção, tendo total autonomia da organização material da sua vida.
Para Marx, o Estado representaria o passado dos povos modernos, sendo que a luta contra a sua
opressão representaria o esforço geral para a emancipação da humanidade e de todos os laços
que a alienariam. O homem como um ser genérico e comunitário, não poderia se realizar
completamente sem superar a divisão das classes sociais, das nações e de todos os
particularismos que criariam obstáculos para o desenvolvimento do seu ser.

Ideologia e Estado

Partiremos agora para as abordagens que encontramos da idéia de Estado a partir de A


Ideologia Alemã. Nesta obra os conceitos apresentam-se mais sólidos. As reflexões de Marx
tomam como principal metodologia, a concepção materialista da história. Onde o homem e a
sociedade seguem um caminho evolutivo ao longo da história, saindo do simples ao complexo,
do primitivo ao civilizado. E assim que ele analisa a formação e a constituição da burguesia em
uma classe social, que ao longo do seu processo evolutivo viu-se obrigada a se organizar
politicamente conferindo uma forma universal aos seus interesses comuns. Esta organização
política seria o Estado instaurado após a derrubada do Antigo Regime na Europa. O evento
revolucionário acorrido na França no período que vai de 1789 a 1799, ilustra como se
configurou a consolidação do Estado Moderno na França.

“O Estado adquiriu uma existência particular ao lado da sociedade civil e fora dela; mas
esse Estado não é outra coisa senão a forma de organização que os burgueses dão a si
mesmo por necessidade, para garantir reciprocamente sua propriedade e os seus
interesses, tanto externa quanto internamente.”6 (Marx, p.74).

Os termos como “classe dominante”, “Estado”, “interesse geral e privado” e


“ideologia”, apresentam um caráter mais critico em A ideologia Alemã. E possível perceber um
amadurecimento no pensamento de Marx com relação ao que analisamos em “A Questão
Judaica”. Talvez o ponto mais importante a se ressaltar em A Ideologia Alemã é o fato da
questão da ideologia dominante que paira sobre a sociedade civil. Essa ideologia acaba atuando
no campo imaginário das pessoas. Os indivíduos assumem posturas e comportamentos
motivados por pensamentos que servem de justificavas para um determinado modo de vida ou
status social.

Segundo Marx, a classe que possui o poder material dominante numa determinada
sociedade, também possui o poder espiritual dominante, ou seja, a classe que dispõe dos meios
de produção dispõe também dos meios de produção intelectual, controlando a produção dos
produtos e das idéias ou pensamentos que serão consumidos pela sociedade. De modo que todo
o pensamento ou ideologia que é produzida fora dos meios de produção intelectual dominante
são negados, pois a produção intelectual está submetida à classe dominante7. A consciência do
indivíduo é determinada de acordo com o modo que é produzido a sua vida material. Indivíduos
que compõem uma mesma classe, os burgueses, por exemplo, possuem consciências em
comum, pois compartilham de idéias semelhantes, são pessoas que possuem uma mesma visão
de mundo, isto é, possuem uma mesma consciência de classe determinada pela produção
material de suas vidas.

De acordo com Nicos Poulantzas a ideologia dominante burguesa possui um papel


político que consiste no fato de tentar impor a sociedade um modo de vida aos indivíduos.
Tendo como verdadeira função social, o papel de não oferecer aos indivíduos um verdadeiro um
conhecimento clara a respeita da estrutura social. A ideologia tem por função ocultar as
contradições reais, produzindo no plano imaginário, um discurso coerente que sirva de base
para os agentes organizarem suas vidas e moldando as representações nas relações sociais8. A
ideologia dominante visa assegurar a inserção pratica dos agentes na estrutura social, buscando
manter coesa essa estrutura, garantindo a exploração e a dominação de classe. A ideologia
dominante apresenta as classes dominantes como os representantes da vontade popular. O
Estado em relação à ideologia acaba apresentando-se como papel de organização da sociedade
através da burocracia. Esta ideologia já é parte do funcionamento do próprio Estado9.A
burguesia com o estabelecimento da indústria moderna e com a consolidação de um mercado
global, conquistou a autoridade política através do Estado representativo10, ou seja, este agora é
estruturalmente dependente da produção material do sistema capitalista, tendo com função
garantir a ampliação e reprodução do capitalismo. Isso por que ele só continuar a existir graças
aos bens materiais que são produzidos pelas forças produtivas e aos tributos e impostos que são
arrecadados da sociedade.

Conclusão

Podemos concluir de maneira simplista por meio deste artigo que a concepção de Estado para
Karl Marx, a partir da compreensão de duas obras de juventude, e possível perceber que Marx
já apresenta o Estado como representante dos interesses privados de uma classe, portanto a sua
constituição não garantiu ao homem a emancipação plena. Na verdade o que existiu foi à
alienação política dos indivíduos após emanciparem-se politicamente. Com a consolidação do
Estado, a burguesia procurou garantir de maneira legitima todos os seus direitos e interesses de
classe, os considerando-se como direito publico e interesse geral. Sendo que na verdade estes
interesses de forma alguma correspondiam ao interesses gerais da sociedade como um todo. A
idéia de revolução é muito recorrente na obra de Karl Marx, é com ela que a classe operaria
conquistaria o Estado e decretaria a sua destruição. Assim garantiria aos indivíduos a
emancipação humana, abolindo as classes sociais e criando uma nova sociedade.

O Estado não esta separado da ideologia dominante, pois quem compõe este, são
indivíduos providos de uma determinada consciência, isto é, uma consciência enquanto classe
social dominante. A produção dessa consciência como vimos esta ligada a produção da vida
material desenvolvida por esses indivíduos. A ideologia atua através de um campo imaginário,
criando maneiras das pessoas justificarem os seus modos de vida. O Estado ao reproduzir o
sistema capitalista, também estará propagando as idéias dominantes para toda a sociedade,
impondo um modelo de vida a todos os indivíduos. A ideologia dominante esconde as
contradições sociais existentes e camufla a realidade da estrutura social.

Notas:

1-MARX, Karl. Para A Questão Judaica.São Paulo:Editora Expressão Popular , 2009 , p.68
2-Idem,p.67
3-Idem,p.69
4-POULANTZAS, Nicos. Poder e Classes Sociais do Estado Capitalista:II Volume.Porto:Editora
Portucalense,1971,p.6
5-MARX, Karl e ENGELS, Friedrich.O Manifesto Comunista.São Paumo:Editora Paz e Terra, 2004,p10
6-MARX, Karl e ENGELS, Friedrich.A Ideologia Alemã.São Paulo:Editora Martins Fontes,2008,p.74
7-Idem ,A Ideologia Alemã , p48.
8-Idem.Poder e Classes Sociais do Estado Capitalista , p.32
9-Idem,p 41.
10-Idem,O Manisfesto Comunista , p.12

Referencias Bibliográficas:

MARX , Karl. Para A Questão Judaica. São Paulo:Editora Expressão Popular , 2009

MARX , Karl e ENGELS , Friedrich. O Manifesto Comunista. São Paulo:Editora Paz e


Terra , 2004

MARX, Karl e ENGELS, Friedrich.A Ideologia Alemã.São Paulo:Editora Martins


Fontes,2008
POULANTZAS, Nicos. Poder e Classes Sociais do Estado Capitalista:II
Volume.Porto:Editora Portucalense,1971