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Linguística apLicada à Língua ingLesa i

Profª. Pâmela Freitas Pereira Toassi

L inguística a pLicada à L íngua i ngLesa i Profª. Pâmela Freitas Pereira Toassi 2017
L inguística a pLicada à L íngua i ngLesa i Profª. Pâmela Freitas Pereira Toassi 2017

2017

Copyright © UNIASSELVI 2017 Elaboração: Profª. Pâmela Freitas Pereira Toassi Revisão, Diagramação e Produção:
Copyright © UNIASSELVI 2017 Elaboração: Profª. Pâmela Freitas Pereira Toassi Revisão, Diagramação e Produção:

Copyright © UNIASSELVI 2017

Elaboração:

Profª. Pâmela Freitas Pereira Toassi

Revisão, Diagramação e Produção:

Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial.

428.07

T627l

Toassi; Pâmela Freitas Pereira

Linguística aplicada à língua inglesa I / Pâmela Freitas Pereira Toassi: UNIASSELVI, 2017.

247 p. : il.

ISBN 978-85-515-0063-7

1.Língua Inglesa – Estudos e Ensino. I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci.

a presentação A disciplina de Linguística Aplicada à Língua Inglesa é fundamental no Curso de

apresentação

A disciplina de Linguística Aplicada à Língua Inglesa é fundamental

no Curso de Letras, principalmente, na formação de professores de inglês como língua estrangeira, pois tem como objetivo levantar questões a respeito da linguagem e do ensino/aprendizagem de língua estrangeira.

A disciplina introduz um dos eixos mais importantes da formação na

área de Letras: a Linguística. A partir dessa disciplina você poderá refletir sobre diversas questões teóricas que embasam a disciplina de Linguística

e de Linguística Aplicada. Você poderá também ampliar sua visão sobre a linguagem.

Trata-se de uma disciplina teórico-reflexiva em que você poderá refletir sobre diferentes concepções de linguagem e analisar como essas concepções influenciam o uso da linguagem no dia a dia e também na sala de aula.

A disciplina também tem um caráter prático, do ponto de vista que permite a você conhecer as diferentes áreas do conhecimento em que

a Linguística Aplicada pode atuar. Você verá que questões envolvendo a

linguagem permeiam diversas atividades da vida do ser humano, afinal, a linguagem é fundamental para a comunicação. Dessa forma, a Linguística Aplicada pode auxiliar na melhoria de questões de comunicação.

Essa disciplina é fundamental para a sua formação como um profissional licenciado em Letras, pois a partir das reflexões levantadas, nessa disciplina, você poderá se sentir mais confiante como um profissional da área, tendo respaldo científico para suas decisões e para a escolha de abordagens de ensino.

Bem-vindo à Linguística Aplicada à Língua Inglesa!

Profª. Pâmela Freitas Pereira Toassi

III

UNI
UNI

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova

diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,

apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade

de

estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.

Eu

mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para

apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE.

Bons estudos!

IV

V

V

s umário
s umário

sumário

UNIDADE 1 – A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

1

TÓPICO 1 – LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

3

1 INTRODUÇÃO

3

2 O QUE É LINGUÍSTICA?

3

3 A CONSOLIDAÇÃO DA LINGUÍSTICA MODERNA

5

4 O ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO

8

5

O SIGNO LINGUÍSTICO

10

RESUMO DO TÓPICO 1

14

AUTOATIVIDADE

15

TÓPICO 2 – LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

17

1 INTRODUÇÃO

17

2 O SURGIMENTO DO FUNCIONALISMO

17

3 PRESSUPOSTOS FUNCIONALISTAS

20

4

O SIGNO LINGUÍSTICO NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

23

RESUMO DO TÓPICO 2

27

AUTOATIVIDADE

28

TÓPICO 3 – AS CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E AS ABORDAGENS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

29

1 INTRODUÇÃO

29

2 AS VISÕES FUNCIONALISTA E GERATIVISTA SOBRE A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

29

3 TEORIAS DE AQUISIÇÃO DE SEGUNDA LÍNGUA

30

3.1 BEHAVIORISMO

31

3.2 GERATIVISMO

31

3.3 A TEORIA DO MONITOR

32

3.4 A HIPÓTESE DA PRODUÇÃO DE SWAIN

33

3.5 A TEORIA SOCIOINTERACIONISTA

34

4 METODOLOGIAS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

34

4.1 GRAMÁTICA E TRADUÇÃO

34

4.2 MÉTODO DIRETO

35

4.3 AUDIOLINGUALISMO

35

4.4 ABORDAGEM COMUNICATIVA

36

4.5 ENSINO BASEADO EM TAREFAS

37

RESUMO DO TÓPICO 3

39

AUTOATIVIDADE

41

TÓPICO 4 – A ORIGEM DA LINGUÍSTICA APLICADA

45

1 INTRODUÇÃO

45

2 A MOTIVAÇÃO PARA O SURGIMENTO DA LINGUÍSTICA APLICADA

45

3 O ESTABELECIMENTO DA LINGUÍSTICA APLICADA

47

4 A EXPANSÃO DA LINGUÍSTICA APLICADA

49

VII

5 O OBJETO DE ESTUDO DA LA

50

6 A LINGUÍSTICA APLICADA E A LINGUÍSTICA

52

7

CONCEPÇÕES FORMALISTA E FUNCIONALISTA E A LA

54

RESUMO DO TÓPICO 4

55

AUTOATIVIDADE

56

TÓPICO 5 – AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA

57

1

INTRODUÇÃO

57

AUTOATIVIDADE

57

2

ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LINGUÍSTICA APLICADA

58

2.1. ENSINO DE SEGUNDA LÍNGUA E LINGUÍSTICA TRANSCULTURAL

58

2.2. LÍNGUA(GEM) NO CONTEXTO DE USO E A ANÁLISE DO DISCURSO

60

AUTOATIVIDADE

61

2.3. MANUTENÇÃO DA LÍNGUA(GEM), LÍNGUAS AMEAÇADAS E DIALETOS

62

2.4. GÊNERO ORAL E ESCRITO

62

AUTOATIVIDADE

63

2.5

LEITURA

63

2.6.

LINGUÍSTICA CLÍNICA

63

2.7

LINGUÍSTICA FORENSE

64

2.8

TRADUÇÃO

65

2.9

PLANEJAMENTO LINGUÍSTICO

65

RESUMO DO TÓPICO 5

66

AUTOATIVIDADE

67

TÓPICO 6 – A PESQUISA EM LINGUÍSTICA APLICADA

71

1 INTRODUÇÃO

71

2 PRINCIPAIS PERIÓDICOS NA ÁREA DE LINGUÍSTICA APLICADA

72

AUTOATIVIDADE

72

3 PRINCIPAIS TEMAS NA ÁREA DE LA NO CENÁRIO INTERNACIONAL

73

4 A LINGUÍSTICA APLICADA NO BRASIL

77

5

PRINCIPAIS TEMAS NA ÁREA DE LA NO CENÁRIO NACIONAL

77

RESUMO DO TÓPICO 6

81

AUTOATIVIDADE

82

UNIDADE 2 - UM OLHAR SOBRE QUESTÕES QUE IMPACTAM O ENSINO E A APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

83

TÓPICO 1 - ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA: QUESTÕES LINGUÍSTICAS

85

1 INTRODUÇÃO

85

2 CONHECIMENTO DO SISTEMA DE SONS DA LÍNGUA

86

3 CONHECIMENTO SOBRE AS PALAVRAS

88

4

CONHECIMENTO SOBRE AS SENTENÇAS

92

AUTOATIVIDADE

92

5

CONHECIMENTO SOBRE A GRAMÁTICA DA LÍNGUA

93

AUTOATIVIDADE

97

6

COMO ENSINAR A GRAMÁTICA DA LÍNGUA ESTRANGEIRA

98

AUTOATIVIDADE

99

RESUMO DO TÓPICO 1

101

AUTOATIVIDADE

102

VIII

TÓPICO 2 – ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA: QUESTÕES COGNITIVAS 103 1 INTRODUÇÃO 103

TÓPICO 2 – ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA: QUESTÕES COGNITIVAS

103

1 INTRODUÇÃO

103

2 PROCESSAMENTO DA LINGUAGEM: COMPREENSÃO AUDITIVA

105

3 PROCESSAMENTO DA LINGUAGEM: COMPREENSÃO LEITORA

108

4

PRODUÇÃO DA FALA

111

RESUMO DO TÓPICO 2

114

AUTOATIVIDADE

116

TÓPICO 3 – ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA:

QUESTÕES SOCIAIS

121

1

INTRODUÇÃO

121

2

O CONTEXTO SOCIAL

121

AUTOATIVIDADE

123

3 CULTURA

125

4 FATORES SOCIOLINGUÍSTICOS

126

5

A INFLUÊNCIA DO CONTEXTO SOCIAL NA APRENDIZAGEM DE L2

129

RESUMO DO TÓPICO 3

133

AUTOATIVIDADE

134

TÓPICO 4 – ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA: QUESTÕES AFETIVAS E DIFERENÇAS INDIVIDUAIS

137

1 INTRODUÇÃO

137

2 O MODELO DE KRASHEN: O FILTRO AFETIVO

137

3 IDENTIDADE

139

4

MOTIVAÇÃO

141

AUTOATIVIDADE

141

5

CRENÇAS

142

AUTOATIVIDADE

142

6

ESTILOS DE APRENDIZAGEM

142

7

DIFERENÇAS INDIVIDUAIS

144

RESUMO DO TÓPICO 4

147

AUTOATIVIDADE

148

TÓPICO 5 – ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUA ESTRANGEIRA:

QUESTÕES INTERACIONAIS

149

1 INTRODUÇÃO

149

2 O PAPEL DA INTERAÇÃO NA APRENDIZAGEM DE LE

149

3 A TEORIA SOCIOCULTURAL

153

4 A ZONA DE DESENVOLVIMENTO PROXIMAL

156

5

RETORNO/CORREÇÃO

158

RESUMO DO TÓPICO 5

161

AUTOATIVIDADE

162

UNIDADE 3 – O ENSINO DE LÍNGUA INGLESA NO BRASIL NO CONTEXTO ATUAL

167

TÓPICO 1 – A IMPLANTAÇÃO DA LÍNGUA ESTRANGEIRA NO CURRÍCULO ESCOLAR NO BRASIL

169

1 INTRODUÇÃO

169

2 O PERCURSO DA LÍNGUA ESTRANGEIRA NO BRASIL: DAS LÍNGUAS CLÁSSICAS ÀS LÍNGUAS MODERNAS

169

IX

3 AS REFORMAS NA EDUCAÇÃO E AS LDBs

173

4 OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS (PCN)

175

5 O ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA DE ACORDO COM OS PCN

177

6 ORIENTAÇÕES CURRICULARES PARA O ENSINO MÉDIO (OCEM)

178

7 BASE NACIONAL COMUM CURRICULAR (BNCC)

180

8

QUESTÕES ATUAIS SOBRE A EDUCAÇÃO

184

AUTOATIVIDADE

185

LEITURA COMPLEMENTAR

186

RESUMO DO TÓPICO 1

187

AUTOATIVIDADE

189

TÓPICO 2 – A LÍNGUA INGLESA EM USO: WORLD ENGLISHES

195

1 INTRODUÇÃO

195

2 WORLD ENGLISHES

196

AUTOATIVIDADE

200

3

A GLOBALIZAÇÃO

201

4

A COMPETÊNCIA COMUNICATIVA

205

RESUMO DO TÓPICO 2

210

AUTOATIVIDADE

212

TÓPICO 3 – O ENSINO DE LÍNGUA INGLESA NO BRASIL: ASPECTOS LINGUÍSTICOS

217

1

INTRODUÇÃO

217

2

QUESTÕES LINGUÍSTICAS DA APRENDIZAGEM DO INGLÊS COMO LÍNGUA

ESTRANGEIRA POR FALANTES NATIVOS DE PORTUGUÊS

217

AUTOATIVIDADE

219

AUTOATIVIDADE

222

3

QUESTÕES SOBRE O SISTEMA DE SONS DO INGLÊS AMERICANO QUE PODEM

CAUSAR DIFICULDADES PARA FALANTES NATIVOS DE PORTUGUÊS BRASILEIRO

225

RESUMO DO TÓPICO 3

234

AUTOATIVIDADE

236

REFERÊNCIAS

238

X

UNIDADE 1

UNIDADE 1
UNIDADE 1

A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

A partir dessa unidade, você será capaz de:

• conhecer o percurso histórico da Linguística e da Linguística Aplicada (LA);

• perceber o estabelecimento da Linguística e da LA como ciência;

• definir língua, linguagem e fala dentro das perspectivas formalista e fun- cionalista;

• identificar o objeto de estudos da LA;

• relacionar as concepções de língua(gem) às diferentes metodologias de en- sino de língua estrangeira (LE);

• conhecer os diferentes campos de atuação da LA;

• identificar situações concretas de uso da linguagem que podem se benefi- ciar da LA.

PLANO DE ESTUDOS

Esta unidade está dividida em seis tópicos. Ao final de cada um deles, você terá atividades para ajudá-lo a refletir sobre os assuntos abordados.

TÓPICO 1 – LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

TÓPICO 2 – LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

TÓPICO 3 – AS CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E AS ABORDAGENS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

TÓPICO 4 – A ORIGEM DA LINGUÍSTICA APLICADA

TÓPICO 5 – AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA

TÓPICO 6 – A PESQUISA EM LINGUÍSTICA APLICADA

1

TÓPICO 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

1 INTRODUÇÃO

Neste primeiro tópico do nosso Caderno de Estudos da disciplina de

LinguísticaAplicada à Língua Inglesa I, vamos definir alguns conceitos importantes.

O primeiro deles é o termo “linguística”. Vamos brevemente falar sobre a origem

dessa ciência para então refletirmos sobre os conceitos de linguagem, língua e fala. Você já parou para pensar sobre qual é a importância desses conceitos – linguagem, língua e fala – dentro de um curso de Letras? De acordo com Aronoff e Rees-Miller (2002), tendo em vista que todas as pessoas falam pelo menos uma língua, estas pessoas possuem forte visão sobre as suas próprias línguas. Você concorda? Quais são os preconceitos que você possui sobre cada um desses termos? Propomos que você reflita um pouco sobre isso antes de iniciar a leitura do material didático. E, ao longo dessa unidade, contraste suas ideias iniciais sobre esses conceitos com o que será apresentado.

É importante que você reflita sobre isso e saiba conceituar cada um desses termos-chave dentro da área de Letras. Portanto, trabalharemos com esses conceitos ao longo da Unidade 1. Neste primeiro tópico, você será apresentado à origem e a uma possível definição para a Linguística. E será também apresentada a visão estruturalista da linguagem. Para que você entenda melhor, vamos fazer uma breve retrospectiva histórica, iniciando pela origem dos estudos linguísticos, tais como temos hoje.

2 O QUE É LINGUÍSTICA?

Antes de conceituarmos língua, linguagem e fala, convido você a pensar sobre o que é a linguística. Aronoff e Rees-Miller (2002) argumentam que linguistas se veem como cientistas que estudam a linguagem. E em que grande

área do conhecimento essa ciência da linguagem se insere? Aronoff e Rees-Miller (2002) explicam que nas universidades, os departamentos de Linguística podem

se encontrar tanto nas ciências humanas quanto nas sociais. Ainda de acordo com

os autores, a definição da linguística como uma ciência da linguagem pode ser

3

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

datada de 1869, quando da publicação da obra The Science of Language, de 1869, publicada por Max Mueller.

NOTA
NOTA

É importante salientar que ao mencionarmos essa obra não estamos nos referindo ao início da Linguística Moderna tal qual a conhecemos hoje (esse assunto será tratado logo mais neste tópico), estamos falando sobre as primeiras menções feitas à linguística como uma ciência da linguagem.

Agora você deve se perguntar quando se começou a estudar a linguagem, ou melhor, quando iniciaram os estudos linguísticos. De acordo com Campbell (2002), é difícil delimitar o início da Linguística, porque esse início se confunde com a história intelectual em geral, visto que os primeiros desenvolvimentos da Linguística eram comumente considerados parte da filosofia, retórica, lógica, psicologia, biologia, pedagogia, poética e religião.

No entanto, os estudos linguísticos iniciaram-se de maneira distinta da qual a conhecemos hoje, visto que, até o século XV, o que se podia entender como o estudo da linguagem era a elaboração de gramáticas, nas quais, comumente, o foco das análises linguísticas era buscar a perfeição da língua. Em relação a essa questão, Saussure (apud BALLY, SECHEHAYE, 2006, p. 13) afirma que:

A matéria da Linguística é constituída inicialmente por todas as

manifestações da linguagem humana, quer se trate de povos selvagens

ou de nações civilizadas, de épocas arcaicas, clássicas ou de decadência,

considerando-se em cada período não só a linguagem correta e a “bela

linguagem”, mas todas as formas de expressão.

Como você pode perceber, essa definição do objeto de estudo da Linguística, apresentada por Saussure, vai contra o fato de os estudos linguísticos inicialmente buscarem a perfeição da língua. Com esta afirmação, Saussure inclui tanto a linguagem dita correta quanto as outras formas de expressão como objeto de análise da Linguística.

A partir do século XVI iniciou-se o método comparativo, no qual era comum estabelecer-se uma lista de coleções de palavras para comparações entre línguas (CAMPBELL, 2002). De acordo com Saussure (apud BALLY; SECHEHAYE, 2006), a história da Linguística se divide em três fases. Ele assim define o início da Linguística (apud BALLY; SECHEHAYE, 2006, p. 7):

Começou-se por fazer o que se chamava de “Gramática”. Este estudo, inaugurado pelos gregos, e continuado principalmente pelos franceses, é baseado na lógica e está desprovido de qualquer visão científica e desinteressada da própria língua; visa unicamente a formular regras para distinguir as formas corretas das incorretas; é uma disciplina

4

TÓPICO 1 | LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

normativa, muito afastada da pura observação e cujo ponto de vista é forçosamente estreito.

Esta então seria a primeira fase da Linguística apontada por Saussure. Já a segunda fase consistiria do estudo da Filologia, que se concentrava em “comparar textos de diferentes épocas, decifrar e explicar inscrições redigidas numa língua arcaica ou obscura” (BALLY; SECHEHAYE, 2006, p. 7-8). O terceiro período apontado por Saussure seria o da Gramática Comparada. Nesse contexto, Franz Bopp “compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria duma ciência autônoma” (apud BALLY; SECHEHAYE, 2006, p. 8).

NOTA
NOTA
A Gramática Comparada consistia em se estabelecer relações entre as línguas. Por exemplo, Franz Bopp

A Gramática Comparada consistia em se estabelecer relações entre as línguas. Por exemplo, Franz Bopp (1816 apud BALLY; SECHEHAYE, 2006) publicou uma obra intitulada Sistema de Conjugação do Sânscrito, na qual ele analisou as relações entre o sânscrito e o germânico, o sânscrito e o latim, o sânscrito e o grego, entre outras. Através de estudos desse tipo, pôde-se perceber que as línguas possuíam afinidades e que pertenciam a uma mesma família. Ou seja, através do estudo da Gramática Comparada foi possível explicar uma língua através da outra (BALLY; SECHEHAYE, 2006).

através do estudo da Gramática Comparada foi possível explicar uma língua através da outra (BALLY; SECHEHAYE,

Saussure critica o estudo da Gramática Comparativa: “Esse método exclusivamente comparativo acarreta todo um conjunto de conceitos errôneos, que não correspondem a nada na realidade e que são estranhos às verdadeiras condições de toda linguagem” (BALLY, SECHEHAYE, 2006, p. 10).

No século XIX houve uma divisão de perspectivas entre os linguistas, na qual alguns consideravam a Linguística parte das Ciências Naturais e, outros, parte das Ciências Humanas (CAMPBELL, 2002). O fato de a visão da Linguística pertencer às Ciências Naturais ter prevalecido justifica em parte a concepção estruturalista da língua, como você verá a seguir. Isso porque, ao classificar a Linguística dentro do grupo das Ciências Naturais, todo o aspecto humano, sentimental e cultural inerente à linguagem foi deixado de lado. Na próxima seção você verá como a Linguística Moderna, tal como a conhecemos hoje, se originou.

3 A CONSOLIDAÇÃO DA LINGUÍSTICA MODERNA

Ferdinand de Saussure é considerado o pai da linguística moderna (FARACO, 2009).Antes de Saussure, o estudo da língua se dava de forma diacrônica, isto é, o foco dos estudos linguísticos estava em analisar as mudanças que a língua sofria ao longo do tempo. Adicionalmente, como você viu, os estudos linguísticos, na fase anterior a Saussure, concentravam-se em comparações entre uma língua e outra, sendo comuns, naquela época, estudos de gramática comparativa.

5

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

FIGURA 1 - SAUSSURE

LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS FIGURA 1 - SAUSSURE FONTE: Disponível em:

FONTE: Disponível em: <http://www.simandan.com/saussure%E2%80%99s- influences-on-intertextuality/>. Acesso: 26 nov. 2016.

Ferdinand de Saussure (1857-1913) dedicou-se a analisar criticamente os princípios e métodos estabelecidos pela Linguística no seu tempo. Lecionou três cursos de Linguística Geral na Universidade de Genebra (de 1906 a 1911), onde pôde divulgar suas ideias (BALLY, SECHEHAYE, 2006). No entanto, ele não deixou registros escritos de suas ideias. Considerado como um dos estudiosos mais influentes na Linguística no século XX CAMPBELL, 2002), Saussure não publicou muitas obras sobre o assunto que é mais conhecido – a Linguística. Em 1878, publicou um trabalho sobre as vogais do indo-europeu, sob a influência do trabalho neogramático, e em 1881, sua tese de doutorado sobre o caso genitivo no sânscrito. A sua obra mais influente na Linguística, que é considerada um marco que divide a Linguística moderna da passada, o Curso de Linguística Geral (1916), foi publicada postumamente, por seus alunos, da Universidade de Genebra, que reuniram suas anotações de aula para confeccionar a obra.

A partir de Saussure iniciam os estudos sincrônicos da linguagem, isto é, estudar a língua dentro de um recorte histórico, como a língua é naquele instante, sem se preocupar com as questões de evolução. A Linguística Aplicada surge de um recorte da Linguística posterior a Saussure.

6

TÓPICO 1 | LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

ESTUDOS FUTUROS Veremos o surgimento da Linguística Aplicada no Tópico 4.
ESTUDOS FUTUROS
Veremos o surgimento da Linguística Aplicada no Tópico 4.

A contraposição diacronia versus sincronia pode ser explicada como histórica (diacrônica) e não histórica (sincrônica). A Figura 2 ilustra essa contraposição.

FIGURA 2 - GRÁFICO REPRESENTATIVO DA SINCRONIA E DIACRONIA

FIGURA 2 - GRÁFICO REPRESENTATIVO DA SINCRONIA E DIACRONIA FONTE: Bally; Sechehaye (2006, p. 95) A

FONTE: Bally; Sechehaye (2006, p. 95)

A figura acima mostra que o eixo x (AB) representa o eixo das simultaneidades, no qual a análise vista nesse eixo exclui a intervenção do tempo. Ou seja, AB representa os estudos sincrônicos da linguagem. Já o eixo y (CD) representa o eixo das sucessões, a partir do qual se pode analisar apenas uma coisa por vez. Ou seja, esse eixo equivale à diacronia nos estudos da linguagem. Para que esses conceitos fiquem mais claros para você, observe a figura a seguir.

7

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

FIGURA 3 - SINCRONIA E DIACRONIA LINGUÍSTICA

DIACRÔNICO

Século XV

Século XVI

Século XVII

Século XVIII

Século XIX

Século XX

Século XXI

FONTE: A autora

sincrônico

Como você pôde ver na Figura 3, a linha horizontal representa o estudo sincrônico da linguagem, na qual podemos fazer um recorte de um período histórico para realizar uma análise da língua. Por outro lado, a linha vertical representa o estudo diacrônico da linguagem, a partir da qual a evolução histórica da língua é analisada. Como você viu, a partir de Saussure estabeleceram-se os estudos sincrônicos da linguagem. Na próxima seção você verá mais informações sobre os estudos linguísticos pós-Saussure.

NOTA
NOTA
Veja o estudo de Monguilhott (2009) para você entender melhor a perspectiva sincrônica e diacrônica.

Veja o estudo de Monguilhott (2009) para você entender melhor a perspectiva sincrônica e diacrônica. Nesse estudo foi feita uma análise da concordância verbal da terceira pessoa do plural do português comparando amostras de falantes de português europeu e brasileiro (perspectiva sincrônica). Também foram analisadas peças de teatro de autores brasileiros e portugueses dos séculos XIX e XX (análise diacrônica).

foram analisadas peças de teatro de autores brasileiros e portugueses dos séculos XIX e XX (análise

4 O ESTRUTURALISMO LINGUÍSTICO

Após Saussure, houve uma preocupação em descrever o sistema linguístico. Os linguistas que seguem esta vertente são denominados estruturalistas, pois têm como foco do seu estudo a estrutura da língua. Por tratarem a língua como estrutura, forma, são também conhecidos como formalistas.

8

TÓPICO 1 | LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

ESTUDOS FUTUROS Ao longo desta unidade você verá, com frequência, o emprego dos termos estruturalista
ESTUDOS FUTUROS
Ao longo desta unidade você verá, com frequência, o emprego dos termos
estruturalista e formalista, em contraposição à visão funcionalista, que veremos mais adiante.

Essas visões opostas em relação à linguagem – formalistas x funcionalistas

– são muito importantes no campo da linguística e vão influenciar desde a nossa

concepção de linguagem até a maneira como vemos o ensino e aprendizagem de língua em geral e de língua estrangeira, em específico, sendo este último extremamente significativo para o curso de Letras-Inglês refletir sobre o ensino e a aprendizagem do inglês como língua estrangeira.

Voltando à nossa retrospectiva, Ferdinand de Saussure propôs uma distinção entre língua e fala, sendo língua o sistema, e fala os possíveis usos desse sistema (ILLARI, 2009). Para Saussure, o objeto de estudo da linguística seria o

sistema (ILLARI, 2009), ou seja, a língua e não a fala (distinção entre langue (língua)

e parole (fala)). A fala, dentro dessa perspectiva, por ser uma prática social, seria muito difícil de ser analisada.

Você concorda com essa afirmação de que é mais fácil sistematizar

o estudo da língua (sistema) do que da fala (uso da língua)? Vamos pensar na

seguinte situação: você já teve algum problema de comunicação devido a uma má interpretação da sua fala? E você pensou: Não era essa a minha intenção. Ou

seja, a forma como você se expressou, seja de forma oral ou escrita, fez com que a mensagem fosse recebida pelo interlocutor como tendo um propósito comunicativo distinto daquele que você intencionava? Acredito que isso seja um fato comum no nosso dia a dia, isso porque a fala é um processo complexo que envolve não apenas a intenção do locutor (que profere a fala), mas também o contexto no qual

a mensagem é recebida pelo interlocutor. Na linguagem oral, muitos aspectos

poderão influenciar a interpretação de uma frase, tais como a entonação, ênfase,

a forma como a frase é articulada. Além disso, questões contextuais impactarão

na recepção da mensagem. Por vários desses fatores, a fala foi considerada pelos estruturalistas como complexa para permitir uma sistematização ao seu estudo. No entanto, você não deve pensar que Saussure menosprezou a fala. Ele inclusive sugere a existência de uma linguística da fala, porém, seus estudos se concentram na sistematização da língua.

A língua, por sua vez, é vista pelos estruturalistas, que seguem essa perspectiva saussuriana, como um jogo de xadrez, e o que interessa para o estudo da língua é entender a funcionalidade desse jogo, ou seja, entender as regras desse jogo. Para Saussure, nesse ‘jogo de xadrez’ não são “os atributos físicos das peças que definem o jogo, mas a relação entre uma peça com as outras no sistema” (CAMPBELL, 2002, p. 78, nossa tradução). Isso quer dizer que o que importa dentro da língua é a relação que os elementos têm um com o outro, a interdependência dos itens linguísticos e não a função independente de cada item.

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

Dessa forma, de acordo com Saussure (BALLY, SECHEHAYE, 2006), temos as seguintes definições para:

Língua: é um sistema constituído de regras. A língua é um contrato social definido culturalmente. Para Saussure, a língua é um fato social e não mental ou psicológico. Veja a definição retirada da obra Linguística Geral, que contém a compilação de suas ideias:

Mas o que é a língua? Para nós ela não se confunde com a linguagem;

é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente.

É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem

e um conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos (BALLY, SECHEHAYE, 2006, p. 17).

Fala: trata-se do uso individual que o ser humano faz da língua. Portanto, possui variações de acordo com seu uso. Nesse trecho, Saussure distingue a língua da fala: “A fala, ao contrário, um ato individual de vontade e inteligência, no qual convém distinguir 1º, as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal; 2º, o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações” (BALLY, SECHEHAYE, 2006, p. 22).

Linguagem: trata-se de uma capacidade inata dos seres humanos para

aprender uma língua. Você pode perceber essa característica inata, natural

da linguagem no seguinte trecho: “

faculdade que nos é dada pela Natureza, ao passo que a língua constitui algo ”

adquirido e convencional

o exercício da linguagem repousa numa

(BALLY, SECHEHAYE, 2006, p. 17).

Na próxima seção você vai ver uma questão muito importante dentro do saussurianismo: a definição do signo linguístico.

5 O SIGNO LINGUÍSTICO

Você alguma vez já se perguntou o motivo de certos objetos, ou conceitos abstratos terem o nome que têm? Por exemplo, por que usamos a palavra cadeira em português para designar um objeto sobre o qual nos sentamos, enquanto em inglês usamos a palavra chair? Caso você já tenha pensado sobre isso, saiba que essas questões intrigam o ser humano desde a Grécia antiga: a questão controversa relacionada às palavras e seu significado. Ou seja, a controvérsia era se as palavras foram originadas naturalmente ou por convenção. A suposição de que as coisas seriam nominadas por natureza significaria que o nome imitaria o seu significado (o que observamos, por exemplo, nas onomatopeias).

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TÓPICO 1 | LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

NOTA
NOTA
Onomatopeias são figuras de linguagem. Constituem imitações de sons, tais como barulho de animais, de

Onomatopeias são figuras de linguagem. Constituem imitações de sons, tais como barulho de animais, de fenômenos da natureza, de instrumentos musicais, entre outros. Exemplo: din-don da campainha (FONTE: Disponível em: <http://www.figurasdelinguagem. com/onomatopeia/>. Acesso em: 16 fev. 2017), o tic-tac do relógio, o barulho do grilo:

com/onomatopeia/>. Acesso em: 16 fev. 2017), o tic-tac do relógio, o barulho do grilo:

cri-cri (FONTE: Disponível em: <http://www.professoresdeplantao.com.br/blog/post/10/ onomatopeia-exemplos>. Acesso em: 16 fev. 2017).

em: <http://www.professoresdeplantao.com.br/blog/post/10/ onomatopeia-exemplos>. Acesso em: 16 fev. 2017).

Já a nomeação por convenção implica que os nomes foram inventados, seja por intenção humana ou divina. Essa controvérsia é levantada por Saussure, que entende o signo linguístico como sendo arbitrário, ou seja, para Saussure, os nomes são convencionados, não havendo uma relação lógica entre o nome e o conceito que o representa (BALLY, SECHEHAYE, 2006).

Para Saussure, um dos conceitos mais importantes da língua é o do signo linguístico. Este, seria composto por um significante e por um significado. Essa é outra importante dicotomia estabelecida por Saussure. O significante corresponde à forma ou imagem acústica, enquanto o significado seria o conceito que representa essa forma, conforme você pode ver na Figura 4.

FIGURA 4 - SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO

pode ver na Figura 4. FIGURA 4 - SIGNIFICANTE E SIGNIFICADO FONTE: Bally; Sechehaye (2006, p.

FONTE: Bally; Sechehaye (2006, p. 80)

Como você pode observar na figura acima, o conceito é o significado e a imagem acústica é o significante. Para explicar essa dicotomia (significante versus significado), Saussure valeu-se da metáfora da folha de papel: não podemos rasgar apenas um dos lados da folha. Ou seja, os dois lados da folha de papel são independentes, porque podemos escrever em apenas um dos lados, mas indissociáveis, pois não é possível rasgar a folha de papel apenas de um dos lados (BALLY, SECHEHAYE, 2006). Da mesma forma, o signo linguístico seria composto por duas faces: o significante e o significado. Você pode observar um exemplo de signo de árvore e cavalo na figura a seguir.

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

FIGURA 5 - O SIGNO LINGUÍSTICO

APLICADA: ORIGEM E STATUS FIGURA 5 - O SIGNO LINGUÍSTICO ARVORE CAVALO FONTE: Adaptado de Bally;

ARVORE

CAVALO

FONTE: Adaptado de Bally; Sechehaye (2006, p. 79)

Você pode ver na figura acima que a palavra “árvore” seria o significante, enquanto a representação mental do desenho da árvore, ou seja, desse conceito, seria o significado. Na Figura 6 você pode visualizar melhor a composição do signo linguístico proposta por Saussure (BALLY, SECHEHAYE, 2006).

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FIGURA 6 - O SIGNIFICANTE E O SIGNIFICADO

TÓPICO 1 | LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA

TÓPICO 1 | LINGUÍSTICA, LÍNGUA, LINGUAGEM E FALA FONTE: Bally; Sechehaye (2006, p. 81) Na figura

FONTE: Bally; Sechehaye (2006, p. 81)

Na figura acima você pôde observar a imagem acústica de “árvore” (significante) e seu conceito (significado). O significado (conceito) está representado pelo desenho, indicando a imagem mental da palavra. Você verá, ao longo dos seus estudos, que a visão estruturalista da linguagem foi muito influente na Linguística, tendo repercutido também no desenvolvimento de diversas metodologias de ensino, algumas usadas até hoje, por exemplo, o método Gramática e Tradução, que você estudará no Tópico 3.

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RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico você estudou : • A origem da Linguística como

RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico você estudou:

• A origem da Linguística como uma ciência da linguagem.

• Você viu que os estudos linguísticos se iniciaram através da elaboração de gramáticas.

• Na fase inicial da Linguística, a busca pela língua perfeita era um objetivo comum.

• A Linguística se desenvolveu com base no método da Gramática Comparada.

• A Linguística se estabeleceu como a ciência da linguagem que conhecemos hoje

a partir dos estudos de Ferdinand de Saussure, o qual deu início aos estudos sincrônicos da linguagem e ao estruturalismo.

• Você estudou as definições de língua, fala e linguagem na concepção estruturalista, estabelecida a partir de Saussure, em que a língua é considerada um sistema,

a fala, por sua vez, é o uso desse sistema e linguagem se refere à capacidade humana de aprender uma língua.

• Um conceito importante apresentado por Saussure é o do signo linguístico, o qual é composto por um significante e um significado: o significante é a palavra ou imagem acústica, e significado é o conceito que esta palavra representa.

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AUTOATIVIDADE 1. Conforme você estudou neste tópico, antes de Saussure a Linguística diferia da ciência

AUTOATIVIDADE

1. Conforme você estudou neste tópico, antes de Saussure a Linguística diferia da ciência que conhecemos hoje. A respeito da Linguística antes de Saussure, veja as seguintes afirmações:

I – A Linguística era parte da filosofia.

II – A Linguística era parte da religião.

III – Os estudos da linguagem tinham como base a elaboração de gramáticas.

IV – O foco das análises linguísticas era buscar a perfeição da língua.

V – A Gramática Comparativa consistia em se estabelecer relações entre as

línguas.

Agora assinale a alternativa correta:

a)

( ) Todas as afirmações são verdadeiras.

b)

( ) I, II e III são verdadeiras.

c)

( ) I, II, III e IV são verdadeiras.

d)

( ) I, II e IV são verdadeiras.

e)

( ) I e II são verdadeiras.

2.

São premissas do estruturalismo de Saussure:

I – Língua é um sistema constituído de regras.

II – Linguagem é um termo que abarca as definições de língua e fala.

III – A língua é um ato social.

IV – As dicotomias de significante e significado que constituem o signo

linguístico.

V – As dicotomias de sincronia e diacronia.

Agora assinale a alternativa correta:

a) ( ) Todas as afirmações são verdadeiras.

b) ( ) I, II e III são verdadeiras.

c) ( ) I, II, III e IV são verdadeiras.

d) ( ) I, II e IV são verdadeiras.

e) ( ) I, IV e V são verdadeiras.

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TÓPICO 2

UNIDADE 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

1 INTRODUÇÃO

No Tópico 1, você foi apresentado à perspectiva estruturalista da Linguística, com base em Saussure, que definia a língua como um sistema composto por regras

e a fala como o uso desta língua. No Tópico 2, você conhecerá outra perspectiva e

outra forma de definir língua(gem), a perspectiva funcionalista. Nessa perspectiva,

a linguagem é analisada no seu uso, o que importa é a função de comunicação

que a linguagem nos permite exercer. A escrita ambivalente para língua(gem) será adotada neste tópico, tendo em vista que na perspectiva funcionalista não há distinção nos conceitos de língua e linguagem, diferentemente do que você viu no Tópico 1, em que a língua, de acordo com a perspectiva estruturalista, era um sistema, e linguagem se referia à capacidade inata de adquirir a língua. Na

perspectiva funcionalista não há esta distinção, tendo em vista que a língua(gem)

é analisada no uso, na sua função comunicativa.

Para iniciar a nossa discussão sobre língua(gem) na perspectiva funcionalista, vamos começar com o seguinte raciocínio: se você tivesse que responder à pergunta: Qual é a função da linguagem humana? E sua resposta for

comunicação, então ela se enquadra nos preceitos da perspectiva funcionalista. Mas

o que viria a ser comunicação? Van Valin Jr. (2002) define comunicação como a

transmissão de pressuposições da mente de um interlocutor para outros. Tendo em mente essa perspectiva da língua(gem) com foco na função comunicativa, convido você à leitura do Tópico 2. Ao longo deste tópico veremos como esta perspectiva funcionalista se consolidou na Linguística, veremos os principais proponentes desta linha de pensamento, veremos também a concepção do signo linguístico nesta perspectiva. Convido você à leitura deste tópico.

2 O SURGIMENTO DO FUNCIONALISMO

A perspectiva estruturalista de Saussure adquiriu muitos adeptos, mas também alguns opositores. A partir dos anos 70 iniciou-se um movimento contrário às ideias estruturalistas extremamente influentes até então, desencadeando o desenvolvimento da teoria funcionalista. O funcionalismo, em contraposição ao estruturalismo, vê a linguagem como um instrumento de comunicação e de interação social (PEZATTI, 2009).

17

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

De acordo com Pezatti (2009), os pressupostos funcionalistas já existiam antes mesmo de Saussure, quando já havia estudiosos que viam a língua(gem) com a finalidade principal da comunicação. Dessa forma, a teoria funcionalista não é tão recente quanto possa parecer, ela apenas ganhou força e tornou-se mais influente na Linguística recentemente. A respeito da origem da teoria funcionalista, Pezatti (2009, p.166-167) explica:

O ponto de vista funcional pode ser encontrado também na Escola

Linguística de Praga, a partir de seu início nos anos vinte até os dias atuais. Um dos expoentes desse período e um funcionalista

verdadeiramente pioneiro é Roman Jakobson, que estendeu a noção de função da linguagem, restrita apenas à referencial na teoria

estruturalista, a outras funções que levam em conta os participantes

da interação, como a emotiva, a conativa e a fática, e outros fatores da

comunicação, como a mensagem (função poética) e o próprio código (função metalinguística).

Alguns dos nomes importantes mencionados por Pezatti (2009) na consolidação da teoria funcionalista são Sapir, conhecido pela hipótese de Sapir- Whorf; Hymes, conhecido pela noção de ‘competência comunicativa’, e Halliday, conhecido pela Gramática Sistêmica-Funcional.

ESTUDOS FUTUROS No Tópico 3, você saberá mais sobre a competência comunicativa, quando tratarmos da
ESTUDOS FUTUROS
No Tópico 3, você saberá mais sobre a competência comunicativa, quando
tratarmos da abordagem comunicativa de ensino de LE.

A hipótese de Sapir-Whorf prevê que o pensamento é moldado pela língua(gem), ou seja, a cultura na qual a pessoa está inserida fará com que ela pense de uma forma diferente de uma pessoa de uma língua e cultura diferente, como você pode ler no trecho a seguir:

Human beings do not live in the objective world alone, nor in the world of

social activity as ordinarily understood, but are very much at the mercy of the particular language which has become the medium of expression for their society […] we see and hear and otherwise experience very largely

as we do because the language habits of our community predispose

certain choices of interpretation (SAPIR, 1929, p. 207).

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TÓPICO 2 | LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

NOTA
NOTA
 

Os seres humanos não vivem sozinhos no mundo objetivo, nem no mundo da

atividade social, como ordinariamente entendido, mas estão muito mais à mercê

da língua particular a qual se tornou o meio de expressão para a sua sociedade

nós vemos e

ouvimos e de outra maneira experimentamos muito em grande parte como nós fazemos por causa dos hábitos da língua da nossa comunidade que nos predispõem a certas escolhas de interpretação (SAPIR, 1929, p. 207, tradução da autora).

O trecho acima, retirado da obra Language, de Sapir (1929), mostra a hipótese Sapir-Whorf, que prevê que a cultura e a língua(gem) moldam o pensamento do ser humano.

DICAS Se você quiser saber mais sobre essa hipótese muito interessante e amplamente discutida na
DICAS
Se você quiser saber mais sobre essa hipótese muito interessante e amplamente
discutida na literatura, pode, além de ler a própria obra, assistir a um filme bastante recente: A
chegada (Arrival), dirigido por Denis Villeneuve.

A partir dos anos 70 o funcionalismo se difundiu nos Estados Unidos, reunindo um grande número de linguistas, dentre os quais podemos citar John DuBois, Lakoff e Langacker. Devido à grande diversidade de pensadores seguidores dessa teoria, existe também uma grande variedade de modelos teóricos que se denominam funcionalistas, não sendo possível definir uma teoria única para o funcionalismo (PEZATTI, 2009). Neste tópico nos concentraremos nos pressupostos funcionalistas que se diferenciam das concepções de língua(gem) estruturalistas estudadas no Tópico 1, visto que um dos pressupostos que é consenso entre os funcionalistas é a oposição ao estruturalismo e ao formalismo. Você verá críticas em relação à concepção da língua como estrutura e ao papel secundário relegado à fala na perspectiva estruturalista.

NOTA O formalismo é uma teoria que segue os pressupostos do estruturalismo e surgiu a
NOTA
O formalismo é uma teoria que segue os pressupostos do estruturalismo e surgiu
a partir dos anos 50 com os pressupostos de Noam Chomsky. Chomsky trouxe de volta a
concepção mentalista da linguagem e a concepção de competência (CAMPBELL, 2002).
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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

3 PRESSUPOSTOS FUNCIONALISTAS

Ao contrário da visão formalista que distingue língua e fala, na perspectiva funcionalista não há separação entre sistema e uso, ou seja, língua e fala são uma mesma entidade; a linguagem é vista como uma ferramenta que exerce uma função comunicativa. Dessa forma, não há sentido em analisar a linguagem desprovida de seu contexto de uso. Portanto, na visão funcionalista não há distinção entre língua e fala, tampouco entre língua e linguagem.

Um dos críticos da visão formalista que se destaca é Mikhail Bakhtin, o qual se posiciona de forma contrária à concepção de linguagem como um sistema de regras, argumentando que a visão formalista despreza a perspectiva social e ideológica da linguagem.

FIGURA 7 - MIKHAIL BAKHTIN

e ideológica da linguagem. FIGURA 7 - MIKHAIL BAKHTIN FONTE: Disponível em: <https://www.google.com.br/

FONTE: Disponível em: <https://www.google.com.br/

imgres?imgurl=http%3A%2F%2Fwww.isfp.co.uk%2Fimages%2Fmikhail_

bakhtin.jpg&imgrefurl=http%3A%2F%2Fwww.isfp.co.uk%2Frussian_

thinkers%2Fmikhail_bakhtin.html&docid=-_W1jewwhoIlyM&tbnid=Os-

5iH2-ByH42M%3A&vet=1&w=236&h=327&bih=651&biw=

1366&ved=0ahUKEwiIjpqGjcfQAhUJjJAKHdfhAJsQMwgrKAIwAg&iact=mrc&uact=8>.

Acesso: 26 nov. 2016.

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TÓPICO 2 | LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) foi um pensador russo interessado em assuntos culturais da linguagem humana. A obra de referência de Bakhtin que causa impacto na visão da linguística é Marxismo e filosofia da linguagem, de 1929 (MORATO, 2009). Nessa obra, Bakhtin critica a concepção estruturalista da língua(gem), proposta por Saussure. De acordo com Bakhtin, a visão da língua(gem) como um sistema de regras despreza a perspectiva social e ideológica da língua(gem).

Bakhtin critica o papel secundário dado à fala, na visão saussuriana da língua(gem), conforme você viu no Tópico 1, e apresenta uma visão dialógica da linguagem. Ou seja, de acordo com Bakhtin, a linguagem se estabelece na sociedade a partir do diálogo entre seus interlocutores. Na visão de Bakhtin, a linguagem se dá na interação com o outro através de significação verbal e não verbal. Outra proposição importante da teoria de Bakhtin é a visão da enunciação, na qual a linguagem, por ser uma atividade social, é também ideológica. Ou seja, na função comunicativa, as ideologias por trás do uso da linguagem são vistas como importantes. Você lembra que no Tópico 1 vimos que para Saussure a fala era algo individual? Na visão bakhtiniana a fala é algo social. Para Bakhtin, o processo de construção da enunciação é mais importante do que o produto, que é o enunciado em si. Além disso, Bakhtin é também contrário à visão da língua(gem) como sendo uma atividade mental individual, conforme preconizam os pressupostos chomskyanos (BAKHTIN, 1929/2002).

IMPORTANTE
IMPORTANTE
Você já consegue perceber as diferenças entre essas concepções de língua(gem), estruturalista e funcionalista? Você

Você já consegue perceber as diferenças entre essas concepções de língua(gem), estruturalista e funcionalista? Você as considera contraditórias ou complementares? Você percebeu que ao contrário de Saussure, que coloca a fala em um papel secundário nos estudos da linguagem, Bakhtin a coloca como o principal objeto de estudo? Isto ocorre porque Bakhtin defende que a língua(gem) é social, fruto da interação, e não individual, conforme defendiam os estruturalistas.

defende que a língua(gem) é social, fruto da interação, e não individual, conforme defendiam os estruturalistas.

Passamos agora a outro aspecto importante defendido na perspectiva funcionalista e relegado na perspectiva formalista: a interação: A concepção defendida por Bakhtin da linguagem como atividade social, que se constrói na interação com o outro e vai ao encontro da teoria sociointeracionista de Vygotsky, cujo principal pressuposto é o de que a interação é fundamental para a aprendizagem, como você vai ver a seguir.

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

FIGURA 8 - LEV VYGOTSKY

APLICADA: ORIGEM E STATUS FIGURA 8 - LEV VYGOTSKY FONTE: Disponível em:

FONTE: Disponível em: <https://www.google.com.br/imgres?imgurl=https

%3A%2F%2Fupload.wikimedia.rg%2Fwikipedia%2Fen%2F7%2F7e%2FLev_V

ygotsky.jpg&imgrefurl=https%3A%2F%2Fen.wikipedia.org%2Fwiki%2FLev_V

ygotsky&docid=2eyLTZpVj8pGPM&tbnid=5iS83e7z6vdf_M%3A&vet=1&w=

780&h=1077&bih=530&biw=1093&ved=0ahUKEwiIyfWEhsnQAhXDipAKHc

tyBqIQMwgyKAAwAA&iact=mrc&uact=8>.

Acesso em: 26 nov. 2016.

Lev Vygotsky (1896-1934) foi um psicólogo da União Soviética que influenciou muito o que se pratica hoje na educação em geral. Ficou mundialmente conhecido por sua teoria interacionista de aprendizagem, que ressaltava o papel do conhecimento prévio e a importância da mediação, ou seja, da instrução para o desenvolvimento da aprendizagem. Um dos princípios de sua teoria, amplamente difundido na literatura, é o conceito da zona de desenvolvimento proximal, ou scaffolding, em inglês. Sua teoria influenciou a disseminação do construtivismo, presente até hoje nas escolas.

Para Vygotsky, a linguagem é uma prática social histórica e culturalmente situada. Vygotsky vê a linguagem como uma ferramenta para a comunicação com o mundo. Em sua obra Thought and Language (1934), Vygotsky estabelece uma relação importante entre a linguagem e a organização do pensamento, mais especificamente, a formação de conceitos (VYGOTSKY, 1962/1998).

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TÓPICO 2 | LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

IMPORTANTE Você consegue perceber que na visão formalista a análise linguística é puramente descritiva, e
IMPORTANTE
Você consegue perceber que na visão formalista a análise linguística é puramente
descritiva, e o aspecto linguístico mais importante é a sintaxe? Já na perspectiva funcionalista,
o aspecto linguístico mais importante é a pragmática.
NOTA
NOTA

A sintaxe pode ser definida como a combinação de palavras para formar sentenças bem estruturadas (ARONOFF; REES-MILLER, 2002). Baker (2002, p. 205) define a sintaxe da seguinte forma: “…syntax can be defined as the branch of linguistics that studies how the words of a language can be combined to make larger units, such as phrases, clauses, and sentences”. “ … a sintaxe pode ser definida como a área da Linguística que estuda como as palavras da língua podem ser combinadas de maneira a formar unidades maiores, tais como frases, orações, e sentenças” (BAKER, 2002, p. 205, tradução da autora).

Já a pragmática pode ser definida como a lacuna entre o uso da linguagem e o seu significado,

o

que implica que as palavras têm muito mais implicações do que o seu significado (KEMPSON,

2002). Exemplo (KEMPSON, 2002, p. 307):

(A)

Can you cook?

(B)

I know how to put a kettle on.

A

resposta para a pergunta em (A) deveria ser Yes ou No. Porém, a afirmação de (B) significa

mais do que não, pode significar que a única coisa que (B) já fez na cozinha foi colocar uma chaleira no fogo, pode ainda significar que (B) não gosta de cozinhar. Ou seja, a linguagem sendo usada para expressar diferentes significados que vão além do sentido literal das palavras. Na próxima seção você verá o conceito do signo linguístico na perspectiva funcionalista.

4 O SIGNO LINGUÍSTICO NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

Você estudou no Tópico 1 que Saussure definiu o signo linguístico como sendo formado por um significante e um significado. Ou seja, na visão estruturalista, o signo linguístico tem um significado apenas, e este é estático. Bakhtin, por outro lado, proporá outra forma de analisar o signo linguístico, preconizando que o signo adquire seu significado no momento da enunciação. Ou seja, um mesmo significante pode possuir diferentes significados dependendo da situação comunicativa, que inclui, por exemplo, o usuário e o contexto, entre outros fatores. Para Bakhtin, o signo linguístico ganha sentido a partir do uso da língua. Para exemplificar essa visão bakhtiniana, vamos analisar as tirinhas das figuras a seguir, que ilustram a questão da definição do signo linguístico escola.

23

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

Primeiramente, defina qual é o significado do signo linguístico “escola” para você. Na sequência, analise as figuras a seguir e pense no significado de escola em cada uma dessas tirinhas.

FIGURA 9 - REPRESENTAÇÃO DO SIGNO LINGUÍSTICO ESCOLA

FIGURA 9 - REPRESENTAÇÃO DO SIGNO LINGUÍSTICO ESCOLA FONTE: Disponível em:

FONTE: Disponível em: <https://cronicasurbanas.wordpress.com/2008/10/15/mafalda-e-a- escola/>. Acesso em: 27 nov. 2016.

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FIGURA 10 - REPRESENTAÇÃO DO SIGNO ESCOLA

TÓPICO 2 | LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA

ESCOLA TÓPICO 2 | LINGUAGEM NA PERSPECTIVA FUNCIONALISTA FONTE: Disponível em:

FONTE: Disponível em: <https://mundodesalienado.wordpress.com/tag/montessori/>. Acesso em: 27 nov. 2016.

A sua análise deve ter sido a de que na primeira tirinha a escola é um lugar onde o aluno é cliente, portanto, deve ser agradado. Já na segunda tirinha, você deve ter observado que a escola representa um lugar onde o aluno não participa do processo de aprendizagem (onde não há espaço para a dialogicidade, coconstrução do aprendizado), onde as práticas pedagógicas excluem o aluno do processo (alunos são vistos como depositários de conhecimento). Ou seja, nas duas tirinhas podemos ver dois significados diferentes para o mesmo significante. E ainda é possível que a sua definição inicial de escola tenha sido diferente dessas duas representadas nas tirinhas. Isso mostra que um significante pode ter mais de um significado de acordo com o contexto. E é isso que defende Bakhtin.

Ainda em relação às diferentes vertentes de pensamento em relação à língua(gem), Martins (2006) afirma que a filosofia da linguagem se divide em três caminhos: (i) realista, (ii) mentalista, e (iii) pragmático. Martins (2009, p. 442) define esses caminhos da seguinte forma: “(i) identifica parcelas da realidade; (ii) representa acontecimentos mentais compartilhados por falantes e ouvintes; e (iii) é usada ou vivenciada no fluxo das práticas e costumes de uma comunidade linguística, histórica e culturalmente determinada”.

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

Diante da discussão empreendida nos Tópicos 1 e 2, você consegue visualizar em quais desses caminhos cada concepção de linguagem estudada se encaixa? O caminho mentalista podemos relacionar às concepções chomskyanas da língua(gem), ou seja, a linha de pensamento formalista, que é, por sua vez, derivada do estruturalismo de Saussure. Por sua vez, o caminho pragmático se alinha à concepção funcionalista da língua(gem), no qual a intenção comunicativa é mais importante do que a estrutura. No Tópico 3, você verá como essas concepções influenciam as teorias de aquisição da linguagem e os métodos e abordagens de ensino de LE.

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RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico você estudou : • Que a definição de língua,

RESUMO DO TÓPICO 2

Neste tópico você estudou:

• Que a definição de língua, fala e linguagem não é tão simples, tendo em vista que as concepções relacionadas a esses termos podem variar de acordo com a corrente de pensamento que baseia essa definição.

• Nas visões estruturalistas/formalistas, a língua é considerada um sistema; a fala, por sua vez, é o uso desse sistema. Linguagem se refere à capacidade humana de aprender uma língua. O principal proponente da visão estruturalista foi Saussure.

• De acordo com a corrente funcionalista, não há distinção entre língua, fala e linguagem, sendo que o principal propósito da linguagem é a função da comunicação.

• Na perspectiva funcionalista, a linguagem é analisada de acordo com a função que determina em um dado contexto de uso.

• Na visão funcionalista temos Bakhtin como destaque.

• Na visão formalista, a língua é vista como algo individual, enquanto na visão funcionalista a linguagem é vista em uma perspectiva social.

• A definição de signo linguístico também está sujeita à corrente filosófica sob a qual a conceituamos.

• Para Bakhtin, um significante pode ter mais de um significado dependendo do contexto de uso.

• A teoria sociointeracionista de Vygotsky, altamente influente ainda nos dias de hoje na educação e no ensino de LE, preconiza que o conhecimento prévio e a mediação são fundamentais para o desenvolvimento da aprendizagem.

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AUTOATIVIDADE 1 Responda à questão seguinte, retirada do ENADE 2011, com base nas discussões empreendidas

AUTOATIVIDADE

1 Responda à questão seguinte, retirada do ENADE 2011, com base nas discussões empreendidas neste tópico.

Muito se tem falado sobre o ensino linguístico-discursivo da Língua Portuguesa desde a publicação dos PCN-LP (BRASIL, 1998). Essa visão é extremamente adequada às novas concepções de ensino de línguas no mundo, que precisa, cada vez mais, de um ser humano apto a atuar socialmente em termos de linguagem. Essa forma de ver também se afina aos novos estudos do letramento, que enfatizam a necessidade de trazer, para dentro da escola, as demais práticas sociais. Essa perspectiva é:

a) ( ) Recorrente na tese inatista de Chomsky, segundo a qual a faculdade da linguagem é um esquema formal e abstrato.

b) ( ) Complementar aos ensinamentos vygotskyanos, que revelam evidências de que a língua é uma atividade social, global e cooperativa.

c) ( ) Divergente da tese construtivista de Piaget, segundo a qual o conhecimento é resultado de atividades estruturadoras dos indivíduos.

d) ( ) Contrária à explicação sistêmica-funcionalista de Halliday, para quem a linguagem, ao ser proferida em contexto, possui sempre uma função social.

e) ( ) Inerente à tese inatista expressa em Lennemberg, que postula que falar é natural como andar e considera natural a aprendizagem da leitura e da escrita.

FONTE: Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2011/ LETRAS.pdf>. Acesso em: 15 fev. 2017.

28

TÓPICO 3

UNIDADE 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

AS CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E

AS ABORDAGENS DE ENSINO DE LÍNGUA

ESTRANGEIRA

1 INTRODUÇÃO

Nos tópicos 1 e 2 desta unidade nos debruçamos sobre as concepções de língua(gem). Você viu que definir língua(gem) pode não ser tão simples, visto que as concepções mudam dependendo da vertente em que nos baseamos. Neste tópico veremos porque é tão importante que você saiba se posicionar diante dessa discussão filosófica.

Você já parou para pensar sobre quais concepções de língua(gem) embasam as escolhas metodológicas dos professores de língua estrangeira? Depois do conteúdo trabalhado nos tópicos 1 e 2, quando você pensa na sua experiência de aprendiz de LE, as metodologias mais tradicionais lhe fazem lembrar de qual escola de pensamento? E as metodologias mais comunicativas? Estas serão as questões abordadas neste Tópico 3. Você verá que cada metodologia de ensino tem como base uma concepção de língua(gem) e é muito importante que você, como futuro professor de inglês como LE, tenha ciência dessas concepções teóricas para que possa tomar decisões metodológicas com segurança.

2 AS VISÕES FUNCIONALISTA E GERATIVISTA SOBRE A AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM

Nos tópicos anteriores você foi apresentado às concepções de linguagem estruturalista e funcionalista. Nesse momento convido você a refletir sobre como essas concepções podem ser estendidas às teorias de aquisição da linguagem. Discutiremos como as visões funcionalista e gerativista (proposta por Chomsky) podem informar a aquisição da linguagem.

Teorias funcionalistas preconizam que há uma ligação estreita entre a estrutura e a função da língua(gem) (GEE, 2002). Dessa forma, segundo esta teoria, as formas linguísticas se desenvolveram cultural e historicamente para servir funções comunicativas e interativas (GEE, 2002). Portanto, de acordo com esta visão, para que uma forma linguística seja adquirida, é crucial que se conheça as funções para as quais aquela forma linguística serve. Para as teorias funcionalistas, o mais importante para a aquisição da língua(gem), seja de língua materna ou estrangeira, é a socialização e não a questão biológica. Como você viu

29

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

no Tópico 2, uma das teorias de aprendizagem que seguem esta linhagem é a teoria construtivista de Vygotsky.

NOTA
NOTA
É importante observar que, embora reconheçamos a distinção entre os termos aquisição e aprendizagem, sendo

É importante observar que, embora reconheçamos a distinção entre os termos aquisição e aprendizagem, sendo que aquisição se refere à língua materna, e o termo aprendizagem é mais usado para se referir à LE, ao longo do caderno de estudos você encontrará os dois termos (aquisição e aprendizagem) sendo empregados de forma intercambiável, assim como o termo Second Language Acquisition, em inglês é comumente empregado para designar esses dois processos.

assim como o termo Second Language Acquisition , em inglês é comumente empregado para designar esses

Diferentemente da perspectiva construtivista de Vygotsky, também há

a teoria gerativista, proposta por Chomsky, que pressupõe a existência de um

aparato biológico responsável pela aquisição da língua(gem), que ficou conhecido como LAD – Language Acquisition Device. Dessa forma, a biologia seria mais determinante na aquisição da língua(gem) do que o meio. Um dos argumentos

defendidos pelos gerativistas para esta questão é o de que o insumo linguístico ao qual a criança é exposta até os dois anos de idade não é suficiente para explicar

o rápido desenvolvimento da língua(gem), portanto, a criança já deveria nascer

com uma predisposição para a aquisição dela. A teoria gerativista também não vê uma relação estreita entre a forma e a função da linguagem, restringindo-se mais

à análise da forma (BORGES NETO, 2009). De acordo com Borges Neto (2009, p. 96-97), são pressupostos principais da teoria gerativa:

1. os comportamentos linguísticos efetivos (enunciados) são, ao menos

parcialmente, determinados por estados da mente/cérebro;

2. a natureza dos estados da mente/cérebro, parcialmente responsáveis

pelo comportamento linguístico, pode ser captada por sistemas

computacionais que formam e modificam representações.

3 TEORIAS DE AQUISIÇÃO DE SEGUNDA LÍNGUA

Nesta seção você conhecerá algumas teorias de aquisição de segunda língua, iniciando com o Behaviorismo, uma teoria baseada na visão estruturalista da língua(gem). Seguindo a mesma perspectiva teórica, você verá a teoria do gerativismo. Na sequência será apresentada a teoria do monitor, que também

é de base formalista (chomskyana). Baseado em outro ponto de vista, o de que

a língua(gem) serve a funções/propósitos, você verá a hipótese de produção de

Swain. Por último, você será apresentado à teoria sociointeracionista, de Vygotsky.

30

TÓPICO 3 | AS CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E AS ABORDAGENS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

3.1 BEHAVIORISMO

Uma das teorias de aquisição de segunda língua muito influentes na

Linguística foi o Behaviorismo. Esta teoria tem como base o comportamento e vê

a aprendizagem de uma língua estrangeira como a aquisição de um novo hábito.

São pressupostos importantes dessa teoria a imitação, a repetição e o reforço para

a aquisição da língua(gem). Na teoria behaviorista, a aprendizagem de LE é vista como uma aquisição de hábitos e não é diferenciada da aprendizagem de nenhuma outra habilidade. O principal proponente desta teoria foi Skinner. Conceitos

importantes nessa teoria dizem respeito ao condicionamento, reforço e punição. Reforço serve para respostas positivas e punição para os erros, respostas negativas.

A aprendizagem de uma segunda língua é vista como a transferência de hábitos de

uma língua para a outra. De acordo com esta teoria, por exemplo, a aprendizagem de cognatos seria facilitada, pois ocorreria uma transferência positiva, já falsos cognatos ocasionariam uma transferência negativa, causando dificuldade. Um exemplo de um falso cognato é o verbo pretend em inglês, que indica fingir e não pretender, como pode parecer

(Fonte: Disponível em: <http://www.englishexperts.com.br/forum/falsos-cognatos-to-pretend- and-to-intend-t5696.html>. Acesso em: 18 fev. 2017).

3.2 GERATIVISMO

Outra teoria de aquisição de língua muito influente foi o Gerativismo,

proposto por Chosmky. De acordo com essa teoria, a criança nasce com um dispositivo para aquisição da língua(gem) e o meio irá apenas definir a marcação dos parâmetros dela. A teoria pressupõe a existência de uma Gramática Universal

– (GU), na qual todos os princípios linguísticos já estão definidos desde o

nascimento da criança. A Gramática Universal (GU) pode ser entendida como um sistema universal de princípios, os quais interagem com os parâmetros lexicais de cada língua (BAYONA, 2009). Veja a explicação a seguir de Bayona (2009, p. 1) sobre a GU: “This UG, that is proper to humans only, is presumed to provide

the child with a capacity to fully acquire the grammar of his L1 regardless of the poverty of stimulus encountered. The child subsequently develops the ability to gradually restructure such innate UG principles according to different parameter

of the input”.

NOTA
NOTA
Esta GU, que é própria apenas dos humanos, presume-se fornecer à criança a capacidade completa

Esta GU, que é própria apenas dos humanos, presume-se fornecer à criança a capacidade completa de adquirir a gramática da sua L1 independentemente da pobreza do estímulo encontrada. A criança, subsequentemente, desenvolve a capacidade de gradualmente reestruturar esses princípios inatos da GU de acordo com os diferentes parâmetros do insumo (BAYONA, 2009, p. 1, tradução da autora).

princípios inatos da GU de acordo com os diferentes parâmetros do insumo (BAYONA, 2009, p. 1,

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

Por exemplo, se a criança for exposta ao português, marcará o parâmetro sujeito nulo positivamente, já que em português é possível uma frase como: Fomos ao cinema. Já se a criança for exposta ao inglês como língua materna, por exemplo, irá marcar esse parâmetro negativamente, visto que em inglês essa mesma frase requer o uso do sujeito: We went to the movies. A questão que fica para a aquisição da segunda língua é se esses parâmetros já definidos pela língua materna (L1) serão restabelecidos ou se os parâmetros da L1 serão transferidos à L2 (segunda língua ou língua estrangeira). Dessa forma, a teoria gerativista, quando analisada em relação à aquisição de uma segunda língua, permite quatro hipóteses:

(1) Total acesso à GU. (2) Acesso parcial à GU. (3) Acesso indireto à GU, mediado pela L1. (4) Nenhum acesso à GU.

De acordo com a primeira hipótese, todos os parâmetros estariam disponíveis ainda para a aquisição da LE. Já a segunda hipótese prevê que alguns parâmetros estarão disponíveis e outros não. A terceira hipótese prevê que o acesso à GU será através da L1, ou seja, alguns parâmetros já definidos para a língua materna terão que ser apagados ou redefinidos. Já a quarta hipótese prevê que os parâmetros não estão mais disponíveis quando da aquisição da LE (BAYONA,

2009).

3.3 A TEORIA DO MONITOR

Vejamos agora uma teoria de aquisição de segunda língua, de base inatista, chomskyana: a teoria do Monitor, proposta por Stephen Krashen (1981). Esta teoria é composta por cinco hipóteses:

(1) Hipótese da aquisição e aprendizagem:

De acordo com esta hipótese, a aquisição seria um processo natural e espontâneo, semelhante ao que ocorre quando da nossa língua materna. Ou seja,

a aquisição, de acordo com Krashen (1981), se refere a um processo implícito. Já

a aprendizagem aconteceria de forma explícita, por meio de instrução. Porém, um aspecto importante desta distinção é que, de acordo com Krashen (1981), o que é aprendido não se transforma em conhecimento automático, não havendo, para ele, uma relação direta entre aquisição e aprendizagem.

(2) Hipótese do monitor:

A hipótese do monitor prevê que o conhecimento explícito, aprendido, teria a função de monitorar o uso da LE, quando fosse necessário que o falante consultasse as regras da língua. Ou seja, de acordo com esta hipótese, o falante

32

TÓPICO 3 | AS CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E AS ABORDAGENS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

monitoraria seu uso da LE para ver se está gramaticalmente correto ou não. Exemplo: você ouviu alguns amigos usarem a expressão ‘I ain’t going’, mas ao tentar reproduzi-la, o seu monitor faz você utilizar a forma gramatical ‘I’m going’ (estou indo)

(FONTE: Disponível em: <http://www.languagesurfer.com/2013/10/04/part-iv-the-monitor- hypothesis/>. Acesso em: 18 fev. 2017).

(3) Hipótese da ordem natural:

De acordo com esta hipótese, haveria uma ordem natural para a aquisição das regras gramaticais da língua que não dependeria da complexidade do item ou da instrução. Ou seja, a aprendizagem dos itens gramaticais só aconteceria nessa ordem naturalmente preestabelecida. Ainda que houvesse instrução a respeito desse item, a aquisição não aconteceria. Exemplo: de acordo com esta hipótese, crianças aprendendo o inglês como língua materna adquiririam o morfema -ing do gerúndio (He is driving – Ele está dirigindo) antes do morfema -s relativo à terceira pessoa do singular (He drives – ele dirige)

(FONTE: Disponível em: <https://www.teachingenglish.org.uk/article/natural-order>. Acesso em:

18 fev. 2017).

(4) Hipótese do insumo compreensível:

Esta hipótese preconiza que, para que ocorra aprendizagem, é necessário que o insumo seja compreensível, mas também haja um aumento no grau de complexidade, no qual o insumo compreensível seria representado por i, e o insumo necessário para o desenvolvimento da LE seria i+1. Ou seja, um nível de dificuldade acima daquele que o aprendiz se encontra. Presume-se que o insumo compreensível esteja relacionado a algo que o aprendiz consegue entender, mas ainda não consegue reproduzir. É difícil citar um exemplo específico, pois esse conceito está atrelado a questões contextuais de uso da língua e não necessariamente a questões de vocabulário e gramática.

(5) Hipótese do filtro afetivo:

Esta hipótese tem como fundamento o fato de o aprendiz precisar se sentir confortável no ambiente de aprendizagem para que ocorra aquisição da língua(gem). Ou seja, o aprendiz precisa estar com um baixo filtro afetivo para que ocorra a aprendizagem (KRASHEN, 1981). A motivação é um fator importante, diretamente relacionado a um baixo filtro afetivo.

3.4 A HIPÓTESE DA PRODUÇÃO DE SWAIN

De acordo com a hipótese de produção de Swain (1995), a produção da língua(gem) serve a três funções: (1) função de notar; (2) função de testar; (3) função metalinguística. A função de notar se refere a quando o aprendiz percebe certos aspectos da sua LE que ele ainda precisa desenvolver, ou seja, o aprendiz toma consciência de certas lacunas que existem na sua LE. Por exemplo, ao escrever, ou

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

falar a língua-alvo, o aprendiz se dá conta de que não sabe como expressar o futuro, ou não lembra de uma palavra em específico. Nesse caso, o aprendiz percebe a falta de conhecimento linguístico sobre algum aspecto e vai atrás da informação.

O processo de testar está relacionado ao fato do aprendiz experimentar o uso de

certas estruturas linguísticas sem ter certeza da sua acurácia, esperando algum retorno do seu interlocutor. Por exemplo, o aprendiz não tem certeza se a palavra

meeting (encontro, reunião) tem o significado que ele almeja. Então ele usa a palavra esperando que o interlocutor o entenda ou o corrija. A função metalinguística corresponde ao conhecimento do aprendiz a respeito da língua, a partir da qual

o aprendiz reflete sobre a língua estrangeira (SWAIN, 1995). Essa função se

manifesta quando o aprendiz tem um insight (discernimento/introspecção) sobre

algum aspecto linguístico, reflete sobre ele e o compreende. Pode acontecer com o

uso de uma palavra, de uma expressão, ou até de uma função gramatical.

3.5 A TEORIA SOCIOINTERACIONISTA

A teoria sociointeracionista tem como base as ideias de Vygotsky (1978),

para quem a interação é essencial para a aprendizagem. Essas pressuposições, quando tomadas para a LE, significam que para que o aprendizado ocorra, é necessário que o aprendiz interaja com alguém que esteja em um nível superior de conhecimento. O conceito de Zona Proximal de Desenvolvimento – ZPD – da teoria interacionista de Vygotsky pressupõe que o que está na ZPD é o que o aprendiz consegue fazer com o auxílio de alguém que se encontra em um nível superior na LE. Uma expressão marcante da teoria sociointeracionista é a do ensino colaborativo, no qual professor e aluno interagem na construção do conhecimento. Através dessa perspectiva, entende-se que o aluno possui um papel ativo na construção do conhecimento, enquanto o professor tem papel de mediador (VYGOTSKY, 1978).

4 METODOLOGIAS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

Nesta seção você verá cinco abordagens e/ou metodologias de ensino da LE. Elas serão apresentadas em ordem cronológica. Convidamos você, acadêmico, a analisar cada uma dessas abordagens criticamente e a refletir sobre as concepções de língua(gem) que subjazem em cada uma.

4.1 GRAMÁTICA E TRADUÇÃO

O método de Gramática e Tradução foi bastante difundido nos séculos

XIX e XX, tendo como base os preceitos estruturalistas e como objetivo principal

desenvolver a habilidade de leitura na LE. As aulas desenvolvidas de acordo com

esta perspectiva têm como base o uso de textos literários, listas de vocabulário e

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TÓPICO 3 | AS CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E AS ABORDAGENS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

a instrução explícita das regras gramaticais (LARSEN-FREEMAN; ANDERSON,

2011). Neste método é comum a prática de tradução dos textos literários, bem como a prática de exercícios, sendo que atividades de preenchimento de lacunas são típicas dessa abordagem.

Exemplo de atividade de preenchimento de lacunas:

A: Have you ever

(be) to a picnic at the beach?

B: Yes, I month. We

My family and I (cook) hamburgers.

(have) a picnic on the beach last

4.2 MÉTODO DIRETO

O método direto surgiu como uma resposta à ineficácia do método

Gramática-Tradução, por volta do final do século XIX. O método direto tem como premissa básica que os alunos têm que aprender a pensar na LE. Dessa forma, o uso da língua materna nas aulas deve ser evitado. Através do uso de figuras, por exemplo, o professor tenta fazer com que os alunos desenvolvam a habilidade de relacionar o conceito diretamente à palavra na LE, sem a intermediação da língua materna. Este método surgiu com o objetivo de desenvolver a habilidade oral do aluno de forma espontânea (LARSEN-FREEMAN; ANDERSON, 2011). As instruções dadas em aula devem ser exclusivamente na LE e o vocabulário ensinado deve fazer parte do cotidiano dos alunos, ou seja, não deve ter uma complexidade elevada. A gramática não deve ser ensinada de forma explícita, mas sim de forma indutiva. As habilidades de fala e escuta são enfatizadas, assim como a acurácia da pronúncia e a aplicação da gramática. A seguir você pode ver alguns exemplos de práticas relacionadas a este método (LARSEN-FREEMAN; ANDERSON, 2011):

- Exercícios de perguntas e respostas.

- Ditado.

- Leitura em voz alta.

- Autocorreção por parte do aluno (o professor dá a chance de o aluno corrigir seus erros).

- Prática de conversação.

- Escritura de parágrafos.

4.3 AUDIOLINGUALISMO

O método audiolingual, baseado em preceitos estruturalistas e behavioristas, foi bastante influente no ensino de LE durante os anos 40 e 60. Diferentemente do método de Gramática e Tradução, que tem como foco a língua(gem) escrita, o

método audiolingual tem como base o preceito de que o desenvolvimento da fala é

o aspecto mais importante da aquisição da linguagem. Em relação à aprendizagem

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

da LE, acreditava-se, de acordo com os preceitos behavioristas, que se tratava de uma questão de formação de hábitos. A língua(gem), por sua vez, era vista como um conjunto de unidades discretas de estruturas. Portanto, neste método havia um controle rígido da produção de LE dos alunos por parte do professor. O conteúdo

é apresentado primeiramente de maneira auditiva e depois seguido pela prática

oral (REES-MILLER, 2002) e o uso da L1 não é permitido. Uma prática típica deste método é a de drills.

Exemplo de drill (LARSEN-FREEMAN; ANDERSON, 2011, p. 60-61):

TEACHER: Repeat after me: post office. CLASS: Post office. TEACHER: To the post office. CLASS: To the post office. TEACHER: Going to the post office. CLASS: Going to the post office. TEACHER: I’m going to the post office. CLASS: I’m going to the post office.

4.4 ABORDAGEM COMUNICATIVA

A abordagem comunicativa é a mais discutida e até a mais conceituada nos dias atuais, na qual o foco do aprendizado da LE é a comunicação. Ou seja, nesta abordagem a língua(gem) é vista como uma prática social (LARSEN-FREEMAN; ANDERSON, 2011), o que está de acordo com os preceitos funcionalistas. Esta perspectiva segue a noção de competência comunicativa de Hymes, na qual o conhecimento das estruturas linguísticas, gramaticais da LE não é suficiente para que a comunicação seja eficaz. Para ter competência comunicativa, o falante de LE

tem que ser capaz de negociar significados, comunicar-se com falantes nativos e não nativos da LE e saber circular nos diferentes contextos de uso dessa língua. Nessa metodologia, o uso de textos altamente controlados, produzidos especificamente para o contexto da sala de aula não é mais utilizado. Em substituição, defende-se

o uso de materiais autênticos de uso da LE, seja na forma de textos escritos (como

reportagens de jornais, por exemplo) ou orais. Nessa abordagem, o alcance da habilidade de pronúncia igual ao do falante nativo (ultimate attainment) não é mais

visto como o objetivo principal de aprendizagem, e sim o alcance da capacidade de se comunicar na LE. Uma prática comum, nessa abordagem, é a prática de role- play e a discussão de tópicos sobre os quais os alunos queiram se comunicar. Além disso, são práticas comuns da abordagem comunicativa (LARSEN-FREEMAN; ANDERSON, 2011): - Entrevistas.

- Jogos.

- Trocas conversacionais.

- Pesquisas.

- Trabalho em dupla.

- Aprender ensinando.

- Atividades de lacuna de informação.

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TÓPICO 3 | AS CONCEPÇÕES DE LÍNGUA(GEM) E AS ABORDAGENS DE ENSINO DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

Na sequência, você pode ver um exemplo de atividade dentro da abordagem comunicativa, onde há uma tabela para ser preenchida pelo aluno com os programas de televisão que ele gosta de assistir (Do you like watching), sendo que as opções de resposta são soccer (futebol), boxing (boxe), volleyball (vôlei), tennis (tênis). Há ainda um campo em branco para que o aluno possa preencher. Trata-se de uma atividade do gênero entrevista. Você também pode observar a existência de quatro colunas, as quais pressupõem que o aluno irá entrevistar pelo menos quatro colegas. Ou seja, essa atividade permitirá a interação entre os alunos.

DO YOU LIKE WATCHING

 

1

2

3

4 etc

Soccer?

       

Boxing?

       

Volleyball?

       

Tennis?

       

Etc.

       

FONTE: Xavier (2001)

Esta atividade envolve vários aspectos de uma abordagem comunicativa, tais como a pesquisa (survey), a entrevista e o preenchimento de lacunas de informação. Claramente, esta atividade envolve a prática da estrutura Do you like mas de uma forma comunicativa e não repetitiva com foco na gramática. Como você pode ver, o foco da atividade acima é a comunicação (XAVIER, 2001).

4.5 ENSINO BASEADO EM TAREFAS

O ensino baseado em tarefas é uma extensão da abordagem comunicativa. Nessa abordagem, a tarefa é vista como uma atividade que envolve um objetivo comunicativo, e também atenção ao significado da mensagem (LARSEN- FREEMAN; ANDERSON, 2011). A tarefa é vista de forma distinta do exercício. Exercícios, por sua vez, são vistos como atividades mais mecânicas, por exemplo, o preenchimento de lacunas, que era típico do método Gramática e Tradução. Uma tarefa pode envolver, por exemplo, uma interação entre alunos e professores com o objetivo de contar um filme que assistiu a ele. Ou seja, a tarefa envolve um objetivo comunicativo real.

Exemplo de tarefa:

Let’s think about our past experiences! Tell your classmate something you have done and you regret and something you regret not having done. After that, you tell the class what your classmate have told you.

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

NOTA
NOTA
Vamos pensar sobre nossas experiências passadas! Conte ao seu colega alguma coisa que você já

Vamos pensar sobre nossas experiências passadas! Conte ao seu colega alguma coisa que você já fez e que você se arrependeu e alguma coisa que você se arrependeu de não ter feito. Na sequência, conte ao grande grupo o que o seu colega lhe disse. (Tradução da autora). Essa é uma atividade que envolve a troca de informações entre pessoas sobre uma situação real. A atividade pode ter um objetivo secundário de incitar o uso do tempo passado pelos alunos. Porém, o objetivo principal é a comunicação (XAVIER, 2001). E com este exemplo concluímos este tópico. Nos tópicos seguintes dessa unidade você verá questões específicas da Linguística Aplicada.

este tópico. Nos tópicos seguintes dessa unidade você verá questões específicas da Linguística Aplicada.

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RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico você viu que : • As concepções de língua(gem)

RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico você viu que:

• As concepções de língua(gem) estão intrinsecamente relacionadas às decisões metodológicas para o ensino da LE.

• Você estudou as seguintes teorias de aquisição da linguagem:

- O Behaviorismo tem como base o comportamento e vê a aprendizagem de

uma língua estrangeira como a aquisição de um novo hábito. O principal proponente desta teoria foi Skinner. Conceitos importantes nessa teoria dizem respeito ao condicionamento, reforço e punição.

- O Gerativismo, proposto por Chosmky, argumenta em favor da existência

de um dispositivo para aquisição da língua(gem). Para o gerativismo, o meio irá apenas definir a marcação dos parâmetros da língua(gem). A teoria pressupõe a existência de uma Gramática Universal – (GU), na qual todos os princípios linguísticos já estão definidos desde o nascimento da criança.

- A Teoria do Monitor, proposta por Stephen Krashen, argumenta em

favor da aquisição ser um processo natural e espontâneo, semelhante ao que ocorre quando da nossa língua materna. Esta teoria se divide em quatro hipóteses: (1) hipótese da aquisição e aprendizagem; (2) hipótese do monitor; (3) hipótese da ordem natural; (4) hipótese do insumo compreensível.

- A hipótese da produção de Swain, segundo a qual a produção da

língua(gem) serve a três funções: (1) função de notar; (2) função de testar; (3) função metalinguística.

- A teoria sociointeracionista, baseada nas ideias de Vygotsky (1978),

argumenta em favor do papel da interação para a aprendizagem, principalmente entre o aprendiz e um interlocutor que esteja em um nível superior de conhecimento.

• E também estudou as seguintes abordagens de ensino:

- O método de Gramática e Tradução tem como base os preceitos estruturalistas e como objetivo principal desenvolver a habilidade de leitura na LE.

- O método direto tem como premissa básica que os alunos têm que

aprender a pensar na LE. Ou seja, o objetivo é fazer com que o aprendiz

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relacione os conceitos diretamente à língua estrangeira. - O método audiolingual tem como base o preceito de que o desenvolvimento da fala é o aspecto mais importante da aquisição da linguagem. Em relação à aprendizagem da LE, acreditava-se, de acordo com os preceitos behavioristas, tratar-se de uma questão de formação de hábitos.

- Na abordagem comunicativa a língua(gem) é vista como uma prática social. Esta perspectiva segue a noção de competência comunicativa de Hymes, na qual o conhecimento das estruturas linguísticas, gramaticais da LE não é suficiente para que a comunicação seja eficaz; o falante de LE tem que ser capaz de negociar significados, comunicar-se com falantes nativos e não nativos da LE e saber circular nos diferentes contextos de uso dessa língua.

- O ensino por meio de tarefas é uma extensão da abordagem comunicativa, onde a tarefa é vista como uma atividade que envolve um objetivo comunicativo, e também atenção ao significado da mensagem. Nesta abordagem, a tarefa é vista de forma distinta do exercício.

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AUTOATIVIDADE 1. A questão abaixo foi retirada do ENADE 2014. Com base no que você

AUTOATIVIDADE

1. A questão abaixo foi retirada do ENADE 2014. Com base no que você estudou nos Tópicos 1 a 3 dessa unidade, responda à questão abaixo e justifique sua resposta estabelecendo relações teóricas com o conteúdo estudado.

É importante que o profissional de Letras reconheça as diversas

abordagens de ensino de línguas. Entre elas, três abordagens têm-se mostrado especialmente relevantes tanto para a escolha dos métodos a serem utilizado quanto para o contexto educacional em que são aplicadas.

A esse respeito, avalie as afirmações a seguir.

I A abordagem sociointeracionista, de natureza pragmática, envolve todos os elementos da vida cotidiana. Para seus seguidores, a aprendizagem se dá

em contextos históricos, sociais e culturais, e a formação dos conceitos mais elaborados, a partir de conceitos simples, cotidianos.

II A abordagem construtivista relaciona-se com as questões que envolvem

o indivíduo e o meio, estabelecendo que o primeiro é responsável pela sua aprendizagem, enfatizando-se estratégias e habilidades.

III A abordagem estruturalista na literatura centra-se muito mais nas relações

subjacentes dos elementos da história que no seu próprio enredo e, assim, no caso do ensino de línguas, a atenção volta-se mais para as relações morfossintáticas que para as pragmáticas.

Está correto o que se afirma em:

a) ( ) I, apenas.

b) ( ) II, apenas.

c) (

d) ( ) II e III, apenas.

e) (

) I e III, apenas.

) I, II e III.

FONTE: Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/ provas/2014/32_letras_portugues_ingles.pdf>. Acesso em: 23 nov. 2016.

2. O texto a seguir foi retirado do ENADE 2014. Leia este texto e analise as alternativas:

The world is changing – it is getting both smaller and bigger at the same time. Our world shriks as technologies now allow us to communicate both synchoronously and asynchrounously with peers around the world. Conversely, the explosion of information now available to us expands our view of the world. As a result of the ability to communicate globally and the information explosion, education must change.

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The current teaching paradigm of the teacher as the possessor and

transferor of information is shifting to a new paradigm of the teacher as

a facilitator or coach. This new teacher will provide contextual learning

environments that engage students in collaborative activities that will require

communications and access to information that only technology can provide. Unfortunately, we don’t have to look hard to find teachers utilizing new

technological tools to replicate old educational models. For example, most uses

of

distance education employ the same instructor delivering the same lecture

to

the same audience, only now the audience can be larger. This distance

education model does nothing to address the concept of lifelong learning. This traditional model still places the student in a passive role, merely absorbing as much information as possible. Instead, more collaborative models of distance education could be employed.

MOLEBASH P. Technology and Education: Current and Future Trends. Disponível em: <www.itari.in>. Acesso em: 22 jul. 2014 (adaptado).

FONTE: Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/ provas/2014/32_letras_portugues_ingles.pdf>. Acessoem: 23 nov. 2016.

I – O desenvolvimento da tecnologia faz com que as fontes de informação sejam mais acessíveis.

II – Com o conhecimento espalhado em todos os lugares, o papel do professor se torna supérfluo.

III – O ensino contextualizado está alinhado à abordagem comunicativa de ensino.

IV – Diante deste novo cenário, o papel do professor é o de um facilitador.

V – O uso da tecnologia na aula torna-a moderna e comunicativa.

Agora assinale a alternativa correta:

a) ( ) Todas as afirmações são verdadeiras.

b) ( ) I, II e III são verdadeiras.

c) ( ) I, III e IV são verdadeiras.

d) ( ) I, IV e V são verdadeiras.

e) ( ) I, III, IV e V são verdadeiras.

3. Com base no que você estudou neste tópico sobre a abordagem comunicativa, responda à questão abaixo, retirada do ENADE 2014.

The Communicative Approach is one the most popular perspectives in modern language teaching. Considering its main characteristics and concepts, nalyse the statements below. The teacher uses drills in order to teach structural patterns. Students memorize sets of phrases with a focus on pronunciation and intonation.

42

There are few grammatical explanations. Students learn vocabulary in context and through audio-visual aids. Correct responses are positively reinforced immediately. Learners receive large quantities of information in the new language during initial lessons. Texts are translated and then read aloud with classical music in the background. The teacher uses large quantities of linguistic material to introduce the idea that language understanding is easy and natural. Understanding occurs through active student interaction in the foreign language. Students learn strategies both for understanding and for learning the second language. Effective classroom learning tasks and exercises provide opportunities for students to negotiate meaning. The teacher helps students select the appropriate phrases and know how to control them, with good intonation and rhythm. There is no use of the learner’s native language. The teacher uses patterns that contain vocabulary, and color-coded models for pronunciation to guide the students’ understanding without uttering a single sound. Learners engage in interaction and meaningful communication. Learners’ personal experiences and situations are very important and considered as an invaluable contribution to the content of the lessons. Using the new language in unrehearsed contexts creates learning opportunities outside the classroom.

It is only correct what is stated on:

a) (

) I and II.

b) (

) I and III.

c) (

) II and IV.

d) (

) III and V.

e) (

) IV and V.

FONTE: Disponível em: http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/ provas/2014/32_letras_portugues_ingles.pdf. Acesso em: 23 nov. 2016.

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TÓPICO 4

UNIDADE 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

A ORIGEM DA LINGUÍSTICA APLICADA

1 INTRODUÇÃO

Você já parou para pensar na definição dos termos Linguística e Linguística Aplicada – (LA)? Você acha que eles significam a mesma coisa? Ou você acha que uma é a subárea da outra? No Tópico 1 você viu como a Linguística se estabeleceu como a ciência da língua(gem) tal qual a conhecemos hoje. Você viu que a Linguística Moderna se originou a partir das concepções estruturalistas de Saussure. Mas, e a Linguística Aplicada? Você consegue imaginar como ela surgiu? Em que época? E qual é o seu objeto de estudo? Nesse tópico trataremos das questões da origem da Linguística Aplicada e você poderá responder a estas questões.

2 A MOTIVAÇÃO PARA O SURGIMENTO DA LINGUÍSTICA APLICADA

Como você pôde ver no Tópico 1, a Linguística moderna, tal qual a conhecemos hoje, se estabeleceu a partir dos estudos de Ferdinand de Saussure, o qual marcou o início dos estudos sincrônicos da linguagem. E a LA? Você já pensou no significado do termo? Ele sugere que a LA é a aplicação da linguística, certo? Mas aplicação da linguística a que, exatamente?

De acordo com Moita Lopes (2009), o primeiro Congresso Internacional de Linguística ocorreu em 1928, já a LA, embora tenha começado a existir em torno dos anos de 1940, teve uma associação constituída (a AILA – Associação Internacional de LA) e um primeiro evento internacional apenas em 1964. Dessa forma, você pode perceber que o surgimento da LA é posterior ao estabelecimento da Linguística como ciência.

Quando você vê que a LA começou a existir em torno dos anos de 1940, a que evento histórico essa data o remete? Se você respondeu a Segunda Guerra Mundial, está certo! É exatamente nesse contexto que surge a LA. Agora, você consegue imaginar a motivação para o estabelecimento da LA, diante desse contexto de guerra? O surgimento da LA se deu no período da Segunda Guerra Mundial, tendo como principal motivação o interesse estadunidense de desenvolver metodologias

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

de ensino para o inglês como língua estrangeira para melhorar a comunicação com aliados e para decifrar mensagens dos inimigos (LOPES, 2009).

Na época, o método de ensino de LE que vigorava era o método de Gramática

e Tradução, método este que você viu no Tópico 3. Esse método baseava-se na

teoria behaviorista e utilizava-se da leitura, da tradução e da exposição das regras gramaticais para a aprendizagem. Como a necessidade de comunicação entre pessoas que falavam diferentes línguas era crescente, devido à guerra, esse método se mostrava ineficiente na época. Dessa forma, era iminente o desenvolvimento de novas metodologias de ensino de LE. Portanto, a necessidade do desenvolvimento de pesquisa nessa área. O trecho a seguir, retirado de Richards e Rodgers (1986, p. 44), mostra a urgência estadunidense no desenvolvimento de metodologias de ensino do inglês como LE:

But the entry of the United States into World War II had a significant effect on language teaching in America. To supply the U.S. government with personnel who were fluent in German, French, Italian, Chinese, Japanese, Malay, and other languages, and who could work as interpreters, code-room assistants, and translators, it was necessary to set up a special language training program. The government commissioned American universities to develop foreign language programs for military personnel. Thus, the Army Specialized Training Program (ASTP) was established in 1942. Fifty-five American universities were involved in the program by the beginning of 1943.

NOTA
NOTA
Mas a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial teve um efeito significativo no

Mas a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial teve um efeito significativo no ensino de línguas na América. Para prover ao governo americano profissionais fluentes em alemão, francês, italiano, chinês, japonês e outras línguas, os quais também poderiam trabalhar como intérpretes, assistentes da sala de códigos, e tradutores, era necessário estabelecer um programa especial de treinamento da língua. O governo comissionava as universidades para que desenvolvessem programas de língua estrangeira para os militares. Portanto, o Programa Especializado de Treinamento do Exército se estabeleceu em 1942. Cinquenta e cinco universidades americanas estavam envolvidas neste programa no início de 1943 (RICHARDS; RODGERS, 1986, p. 44. Tradução da autora).

americanas estavam envolvidas neste programa no início de 1943 (RICHARDS; RODGERS, 1986, p. 44. Tradução da

Como você leu no trecho acima, o surgimento da LA se deve grandemente

à entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial e à necessidade de capacitar

intérpretes e tradutores de diversas línguas para o inglês. Portanto, o governo

americano investiu na formação de um programa de treinamento. Assim, diversos linguistas concentraram esforços para contribuir nessa empreitada do desenvolvimento de metodologias de ensino do inglês como LE.

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TÓPICO 4 | A ORIGEM DA LINGUÍSTICA APLICADA

Agora você consegue entender o nome Linguística Aplicada? Por muito tempo, a Linguística Aplicada foi vista como sinônimo de language teaching e/ou como a aplicação da Linguística. Ou seja, a Linguística era vista como uma ciência teórica, que tinha como objetivo desenvolver teorias, enquanto a Linguística Aplicada era vista como uma matéria cujo foco era a aplicação das teorias linguísticas. Por esse motivo, era vista por muitos como tendo um papel secundário na ciência.

IMPORTANTE
IMPORTANTE
Você lembra qual foi a corrente de pensamento mais influente nos estudos linguísticos nessa época,

Você lembra qual foi a corrente de pensamento mais influente nos estudos linguísticos nessa época, quando surgiu a LA? Conforme você estudou no Tópico 1, a Linguística, nessa época, tinha como base os pressupostos estruturalistas propostos por Saussure. Como você acha que essa concepção de língua(gem) pode ter influenciado o desenvolvimento da LA? Ao longo desse tópico você poderá responder a esta questão.

pode ter influenciado o desenvolvimento da LA? Ao longo desse tópico você poderá responder a esta

3 O ESTABELECIMENTO DA LINGUÍSTICA APLICADA

Certamente é difícil determinar um ponto exato na história relativo ao

surgimento da LA. Porém, considera-se um marco da consolidação do termo LA a publicação do periódico Language Learning: a quarterly journal of applied linguistics, em 1948, periódico este fundado por Charles Fries e Robert Lado (DAVIES; ELDER, 2004). Portanto, o termo LA foi usado oficialmente pela primeira vez quando apareceu como subtítulo desse periódico. No entanto, nessa época o termo ainda era empregado mais no sentido de a Linguística Aplicada ser uma aplicação das teorias linguísticas. Somente mais tarde, a partir dos anos 1990, é que a LA passa

a ser vista como uma área de estudos que extrapola as teorias apresentadas pela Linguística.

O periódico Language Learning surgiu para disseminar informações dos trabalhos desenvolvidos pelo English Language Institute. Esse instituto foi fundado em 1941 por Charles Fries, na Universidade de Michigan, tendo como principal objetivo a testagem de materiais e metodologias para o ensino do inglês como LE (RICHARDS; RODGERS, 1986). No entanto, a universidade de Michigan não foi a única a desenvolver materiais e metodologias para o ensino de inglês, a Georgetown University, a American University, ambas localizadas em Washington, D.C., e a Universidade do Texas, em Austin, também se envolveram nesse processo de desenvolvimento de metodologias de ensino do inglês como LE.

Como você viu, o método para ensino de línguas adotado naquela época era

o de Gramática e Tradução, de base estruturalista. No entanto, como a necessidade da época era o desenvolvimento da habilidade oral da língua, o método de

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

Gramática e Tradução passou a ser substituído pelo método Audiolingual, que você estudou no Tópico 3. Conforme estudado no Tópico 3, este método também tem origem na teoria behaviorista de aquisição da linguagem. Ou seja, também se trata de um método que segue pressupostos estruturalistas de concepção da linguagem. Como você pode perceber, durante muito tempo a LA sofreu a influência das concepções estruturalistas, as quais eram altamente influentes nos estudos linguísticos da época.

Também com o objetivo de melhorar o ensino de LE, originaram-se nessa época os estudos da análise contrastiva. A partir dessa análise, estabelecia-se uma comparação sistemática entre um par linguístico (inglês e português, por exemplo) para prever as possíveis dificuldades de pronúncia na LE. Por exemplo, acreditava- se que fonemas não existentes na língua materna seriam mais dificilmente adquiridos na LE. Por exemplo, think ɪŋk/ no inglês, possui um fonema (θ) que não existe no português.

NOTA Acesse o site <http://www.macmillandictionary.com/> para ouvir a pronúncia das palavras citadas acima.
NOTA
Acesse o site <http://www.macmillandictionary.com/> para ouvir a pronúncia
das palavras citadas acima.

Assim, a análise contrastiva preveria que esse fonema seria adquirido por falantes de português com dificuldade. Esses estudos ainda continuam até os dias atuais, porém, hoje já se sabe que não apenas fonemas inexistentes na L1 causarão dificuldade de aprendizagem na LE. As pesquisas mostram que fonemas parecidos na L1 e na LE podem, algumas vezes, causar mais dificuldade para o aprendizado do que fonemas não existentes.

DICAS Para saber mais sobre a análise contrastiva: ELLIS, R. The study of second language
DICAS
Para saber mais sobre a análise contrastiva:
ELLIS, R. The study of second language acquisition. Oxford: Oxford University Press, 1994.

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TÓPICO 4 | A ORIGEM DA LINGUÍSTICA APLICADA

4 A EXPANSÃO DA LINGUÍSTICA APLICADA

De acordo com Moita Lopes (2009), é apenas nos anos de 1970, com Widdowson, que a LA deixa de ser vista como uma aplicação da Linguística. Widdowson (1979 apud LOPES, 2009) critica a dependência da LA aos modelos de descrição linguística, sugerindo que a LA, como uma área do saber, possa criar um modelo que se adéque às suas necessidades.

ESTUDOS FUTUROS No Tópico 5 você verá as áreas de atuação da LA nos dias
ESTUDOS FUTUROS
No Tópico 5 você verá as áreas de atuação da LA nos dias atuais.

O próprio periódico Language Learning passou a abranger os seguintes assuntos relacionados à LA a partir de 1993 (DAVIES; ELDER, 2004, p. 3):

(a) diverse disciplines, including applications of methods and theories from linguistics, psycholinguistics, cognitive science, ethnography, ethnomethodology, sociolinguistics, sociology, semiotics, educational inquiry, and cultural or historical studies, to address:

(b) fundamental issues in language learning, such as bilingualism, language acquisition, second and foreign language education, literacy, culture, cognition, pragmatics, and intergroup relations.

NOTA
NOTA
a) diversas disciplinas, incluindo aplicações de métodos e teorias da linguística, psicolinguística, ciência

a) diversas disciplinas, incluindo aplicações de métodos e teorias da linguística, psicolinguística, ciência cognitiva, etnografia, etnometodologia, sociolinguística, sociologia, semiótica, pesquisa educacional, e estudos culturais ou históricos, para abordar:

sociolinguística, sociologia, semiótica, pesquisa educacional, e estudos culturais ou históricos, para abordar:
b) questões fundamentais da aprendizagem da língua, tais como bilinguismo, aquisição da linguagem, educação de

b) questões fundamentais da aprendizagem da língua, tais como bilinguismo, aquisição da linguagem, educação de segunda língua e de língua estrangeira, letramento, cultura, cognição, pragmática, e relações entre grupos (DAVIES; ELDER, 2004, p. 3, tradução da autora).

A partir dos assuntos relacionados acima, você pode perceber que, a partir dos anos 1990, o escopo da LA se expandiu, sendo que a aplicação de teorias linguísticas passou a ser apenas um dos tópicos de interesse da LA. Você pode também analisar, a partir das informações acima, que o foco da LA em questões de aprendizagem de língua estrangeira ainda é muito forte, porém outros assuntos também são considerados, tais como a pragmática e as relações entre grupos. Isso mostra o foco da LA para questões de uso real da língua.

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

IMPORTANTE Você consegue perceber que a incorporação de assuntos relacionados à pragmática e ao uso
IMPORTANTE
Você consegue perceber que a incorporação de assuntos relacionados à
pragmática e ao uso real da língua na agenda do linguista aplicado está relacionada
ao estabelecimento das concepções funcionalistas da língua(gem) nos estudos linguísticos?

A partir de 1993, não só o escopo de assuntos de interesse dentro da LA foi expandido, como também o nome do periódico teve uma mudança no subtítulo, passando de Language Learning: Applied Linguistics para Language Learning: a Journal of Research in Language Studies. A justificativa para o emprego desse termo em substituição ao subtítulo original Applied Linguistics é a de que, assim, uma variedade maior de assuntos relacionados à língua é contemplada (DAVIES; ELDER, 2004). Porém, podemos nos perguntar: se a LA passou a ser vista como uma área de estudos que abrange mais questões do que apenas o ensino e a aprendizagem de LE e/ou a aplicação da Linguística, por que foi necessária a alteração no nome do periódico? Você não acha que isso parece um pouco contraditório? Na próxima seção vamos nos concentrar na definição do objeto de estudo da LA.

5 O OBJETO DE ESTUDO DA LA

Para que se estabeleça uma área de estudo, é necessário que se defina o objeto de estudos dessa área do conhecimento. Nós vimos que, no surgimento da LA, o objeto de estudos era o ensino de LE. Vimos também que a LA teve seu escopo expandido, incorporando outras questões à sua agenda de pesquisa. Porém, não definimos qual seria, atualmente, o foco da LA.

Davies e Elder (2004, p. 2, tradução da autora) colocam como assuntos principais da agenda do linguista aplicado as seguintes questões:

- Como podemos ensinar melhor as línguas?

- Como podemos diagnosticar melhor patologias da fala?

- Como podemos melhorar o treinamento de tradutores e intérpretes?

- Como podemos escrever um exame de língua válido?

- Como podemos avaliar um programa de uma escola bilíngue? - Como podemos determinar os níveis de letramento de toda uma população?

- Como podemos discutir utilmente a linguagem de um texto?

- Que conselhos podemos dar a um ministro de Educação sobre um

novo meio de instrução?

- Comparar a aquisição de uma língua europeia e outra asiática, por exemplo. - Auxiliar a análise de autenticidade de uma transcrição de uma entrevista entre um policial e um suspeito.

50

TÓPICO 4 | A ORIGEM DA LINGUÍSTICA APLICADA

Analisando as questões elencadas por Davies e Elder (2004), podemos perceber que o ensino de LE é apenas uma das questões de interesse da LA. A partir da análise desses assuntos de interesse da área de Linguística Aplicada apontados por Davies e Elder (2004), fica claro para você qual o objeto de estudo da LA? Você consegue perceber que o escopo da área de LA vai muito além do ensino de língua estrangeira? A partir dessa análise, como você poderia definir o foco da LA?

Você acha que podemos estabelecer que a LA hoje está ligada a questões de uso prático da língua(gem)? Questões relacionadas à patologia da fala, educação bilíngue, autenticidade, transcrição de textos, letramento, são todas questões relacionadas à língua(gem) em uso. Rees-Miller (2002, p. 478) também propõe algumas questões, relativas à língua(gem), que, na opinião do autor, são de competência do linguista:

- What does a lawyer advise a client about the likelihood of success

of a trademark infringement suit involving a similar sounding product

name or slogan?

- What treatment is most appropriate for a child with a speech

impairment?

- How should reading be taught to children, and what is the place of

literature in the elementary school curriculum?

- What is the best way for a simultaneous interpreter to convey the joke made by a politician so that those who do not speak the same language can understand the humor?

Should English be declared the official language of the United States?

NOTA
NOTA

- O que um advogado aconselha a um cliente sobre a possibilidade de sucesso em um processo de violação de marca comercial envolvendo um nome ou slogan de um produto com um som semelhante?

-

Qual tratamento é mais apropriado para uma criança com comprometimento da fala?

Como a leitura deveria ser ensinada para a criança, e qual é o lugar da literatura no currículo da escola básica?

-

-

Qual a melhor forma de um intérprete simultâneo transmitir a piada feita por um político de

forma que aqueles que não falam a mesma língua possam entender o humor?

O inglês deveria ser declarado a língua oficial dos Estados Unidos? (REES-MILLER, 2002, p. 478, tradução da autora).

-

De acordo com Rees-Miller (2002), um linguista aplicado é aquele que faz um link entre a linguística teórica e os problemas práticos do uso da linguagem no dia a dia. Entre as questões levantadas por Rees-Miller (2002), podemos observar novamente a menção às patologias da língua(gem), estabelecimento de marca de produtos, letramento, literatura, tradução e interpretação e até mesmo comunicação internacional. Essas questões reforçam a nossa percepção de que a LA está voltada para o uso da língua(gem) na sociedade e para solucionar questões práticas referentes a esse uso. Diante dessa discussão, Grabe (2002, p. 9 apud

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

DAVIES, ELDER, 2004) oferece a seguinte definição para a LA:

The focus of applied linguistics is on trying to resolve language- based problems that people encounter in the real world, whether they be learners, teachers, supervisors, academics, lawyers, service providers, those who need social services, test takers, policy developers, dictionary makers, translators, or a whole range of business clients.

NOTA
NOTA
O foco da linguística aplicada é de tentar resolver problemas baseados na língua, os quais

O foco da linguística aplicada é de tentar resolver problemas baseados na língua, os quais as pessoas encontram no mundo real, sejam eles aprendizes, professores, supervisores, acadêmicos, advogados, provedores de serviço, aqueles que precisam de serviços sociais, examinadores, desenvolvedores de política, produtores de dicionário, tradutores, ou uma grande gama de clientes de negócios (GRABE, 2002, p. 9 apud DAVIES, ELDER, 2004, tradução da autora).

ou uma grande gama de clientes de negócios (GRABE, 2002, p. 9 apud DAVIES, ELDER, 2004,

Como podemos perceber na definição de Grabe (2002, p. 9 apud DAVIES, ELDER, 2004), a LA está voltada para investigações relacionadas ao uso da língua(gem) em situações reais. Ou melhor, a LA busca soluções para problemas concretos da língua e isso não se restringe apenas ao desenvolvimento de metodologias de ensino, mas a todas as questões nas quais o uso da língua necessita de análise. Você também pode perceber, na definição acima, que os beneficiários da LA não são apenas alunos e professores de LE, mas todos aqueles que de alguma forma usam a língua(gem) no seu dia a dia, como advogados, prestadores de serviços, negociadores, entre outros.

6 A LINGUÍSTICA APLICADA E A LINGUÍSTICA

A essa altura dos nossos estudos, você já estudou sobre a origem da Linguística, viu que esta é uma ciência da língua(gem) que se estabeleceu a partir do estruturalismo de Saussure em torno do ano 1920. Você viu também que a LA se originou no contexto da Segunda Guerra Mundial, sendo vista, no princípio, como a aplicação da Linguística e que a partir dos anos de 1970 começou a expandir seu foco de análise. A pergunta que surge nesse momento dos nossos estudos é como podemos distinguir, hoje, os estudos voltados para a Linguística, dos estudos voltados à LA. Para responder a esta pergunta, Davies e Elder (2004) argumentam que uma maneira de distinguir a Linguística da Linguística Aplicada seria fazendo uma distinção entre teoria e dados, nos quais a Linguística estaria voltada ao desenvolvimento de novas teorias e, a LA, à análise de novos dados.

Para os autores Davies e Elder (2004), a LA surgiu como uma matéria (subject) e não como uma disciplina (discipline) e assim deveria permanecer, pois

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TÓPICO 4 | A ORIGEM DA LINGUÍSTICA APLICADA

não há necessidade de torná-la uma disciplina para que tenha maior prestígio, visto que o interesse da LA é a noção de source e target, ou seja, fonte e público-alvo. Os autores argumentam ainda que “By source we mean the content of a training program and by target the products the program aims at” (DAVIES; ELDER, 2004, p. 5).

NOTA Por fonte entendemos o conteúdo de um programa de treinamento e por meta os
NOTA
Por fonte entendemos o conteúdo de um programa de treinamento e por meta
os produtos que o programa visa. (DAVIES; ELDER, 2004, p. 5, tradução da autora).

Rees-Miller (2002) distingue o objeto de estudo da Linguística e da LA da seguinte maneira:

Unlike some branches of theoretical linguistics which are concerned with language as an abstract object, applied linguistics must take into consideration not only the nature of language but the nature of the particular world in which language is used, the beliefs, social institutions, and culture of its users, and how these influence language use (REES-MILLER, 2002, p. 479).

NOTA
NOTA
Ao contrário de algumas áreas da linguística teórica que se preocupam com a linguagem como

Ao contrário de algumas áreas da linguística teórica que se preocupam com a linguagem como um objeto abstrato, linguistas aplicados devem levar em consideração não apenas a natureza da linguagem, mas a natureza do mundo particular no qual ela é usada, as crenças, as instituições sociais e a cultura dos seus usuários, e como essas questões influenciam o uso da linguagem (REES-MILLER, 2002, p. 479, tradução da autora).

seus usuários, e como essas questões influenciam o uso da linguagem (REES-MILLER, 2002, p. 479, tradução

Como você pôde ver, a Linguística teórica, em algumas de suas linhas de pesquisa, está preocupada em analisar a língua(gem) como algo abstrato, enquanto a LA está voltada a problemas práticos do uso da língua(gem) e como questões externas à língua(gem) influenciam seu uso. Além disso, podemos também perceber que a LA é interdisciplinar, tendo interface com áreas da psicologia, sociologia, antropologia e educação (REES-MILLER, 2002).

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

7 CONCEPÇÕES FORMALISTA E FUNCIONALISTA E A LA

Nos tópicos 1 e 2 dessa unidade você viu que as definições de língua(gem) variam dependendo da perspectiva sobre a qual falamos. Você viu também, no Tópico 3, que as concepções de língua(gem) influenciam nossas decisões metodológicas quando do ensino de uma LE. Agora, como você pode relacionar esses conceitos com a Linguística e a LA? Na sua opinião, qual é a concepção de língua(gem) mais fortemente relacionada à LA: a estruturalista ou a funcionalista?

Como você pode perceber, a LA, ao preocupar-se com o uso real da linguagem, se distancia da concepção estruturalista de língua como sistema

e passa a ter como base a concepção funcionalista de língua(gem). No entanto, nem sempre a LA foi assim, pois na época do seu surgimento, as concepções

estruturalistas dominavam a Linguística. Além disso, a partir dos anos 50 surge

a teoria Gerativista, de Noam Chomsky, a qual ganha bastante força dentro da

Linguística. Dessa forma, o surgimento da LA acontece em uma época em que uma teoria formalista era muito influente. Por esse motivo, levou algum tempo para que a LA pudesse se concentrar em questões concretas do uso da língua(gem).

Rajagopalan (2006) explica essa dificuldade da LA em se estabelecer diante da influência estruturalista que prevalecia na Linguística, quando do seu

surgimento. O autor explica a consolidação da perspectiva formalista na Linguística

a partir dos estudos de Chomsky: “

a reivindicar, sobretudo a partir da revolução chomskyana, fazia com que os

linguistas da geração anterior – os seguidores da linguística estrutural – parecessem

meros amadores brincando de fazer ciência” (RAJAGOPALAN, 2006, p. 153). A análise linguística estritamente formalista proposta por Chomsky parecia uma análise matemática da linguagem. A linguística, nessa época, se aproximou das

ciências naturais e buscava um status de “verdadeira” ciência. Nessa perspectiva,

a Linguística era vista como algo estritamente abstrato.

caráter científico que a linguística passou

o

Esse fato vai contribuir para que a LA não se estabeleça de imediato como produtora de teorias, mas permaneça por um determinado tempo como consumidora das teorias já consolidadas propostas pelos linguistas teóricos. Apenas com o tempo, e com a consolidação da teoria funcionalista, é que a LA se estabelece como uma área de estudos voltada a questões práticas do uso da língua(gem).

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RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico você estudou que : • A Linguística Aplicada surgiu

RESUMO DO TÓPICO 4

Neste tópico você estudou que:

• A Linguística Aplicada surgiu na época da Segunda Guerra Mundial, tendo como objetivo principal melhorar a comunicação entre aliados e decifrar informações de inimigos.

• As duas áreas que deram origem à pesquisa em LA foram o ensino de LE, tendo em vista a necessidade de se desenvolver melhores metodologias para o ensino, bem como a tradução e a interpretação.

• Por muito tempo a LA foi vista como a aplicação da Linguística ao ensino do inglês como LE.

• Na época do surgimento da LA, a teoria que predominava na Linguística era o estruturalismo.

• A concepção estruturalista da língua(gem) foi muito influente na LA até que, por volta dos anos 70, a teoria funcionalista ganhou força dentro da Linguística e, consequentemente, a LA passou a se preocupar com questões práticas do uso da língua(gem).

• Desde então e até os dias atuais este é o objeto de estudos da LA: o uso da língua(gem).

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AUTOATIVIDADE 1 A respeito do surgimento da Linguística Aplicada, avalie as afirmações a seguir: I

AUTOATIVIDADE

1 A respeito do surgimento da Linguística Aplicada, avalie as afirmações a seguir:

I – Iniciou durante a 1ª Guerra Mundial.

II – Tinha como objetivo facilitar a comunicação entre aliados.

III – Um dos objetivos era decifrar mensagens e códigos dos inimigos.

IV – O método utilizado para capacitar profissionais a usarem a LE era o de

Gramática e Tradução.

V – Uma das prioridades era o desenvolvimento de novos métodos de ensino

de

língua estrangeira.

Agora assinale a alternativa correta:

a)

( ) Todas as afirmações são verdadeiras.

b)

( ) II, III e V são verdadeiras.

c)

( ) I, III e IV são verdadeiras.

d)

( ) I, IV e V são verdadeiras.

e)

( ) I, III, IV e V são verdadeiras.

2

A respeito da consolidação da LA, avalie as afirmativas a seguir:

I

– O objeto de estudo da LA é a linguagem em uso.

II – A LA está preocupada com questões reais do uso da língua.

III – A concepção de linguagem que predomina na LA é a estruturalista.

IV – Desenvolver novos métodos de ensino é o único objetivo da LA.

V – A LA é a aplicação da Linguística.

Agora assinale a alternativa correta:

a) ( ) Todas as afirmações são verdadeiras.

b) ( ) II e III são verdadeiras.

c) ( ) I e II são verdadeiras.

d) ( ) I, IV e V são verdadeiras.

e) ( ) I, III, IV e V são verdadeiras.

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TÓPICO 5

UNIDADE 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA

1 INTRODUÇÃO

No Tópico 4, você estudou que a LA iniciou seus estudos sendo a aplicação da Linguística e por muito tempo foi vista como sinônimo de language teaching. Hoje, porém, a LA está preocupada com questões concretas sobre o uso real da língua(gem) que vão além do contexto de sala de aula. Nesse tópico você verá algumas das principais áreas de pesquisa dentro da LA. E poderá conhecer outras áreas de atuação da LA que não se restringem ao contexto da sala de aula.

AUTOATIVIDADE
AUTOATIVIDADE

Reflita sobre em quais situações do cotidiano a linguagem é utilizada, que podem ser beneficiadas com estudos da LA. Com base nessa reflexão, liste áreas do conhecimento nas quais você possa ver uma aplicação da LA.

Conforme você já estudou no Tópico 3, a LA surgiu na tentativa de se desenvolverem metodologias para o ensino do inglês como LE, porém, hoje o seu campo de atuação vai muito além desse repertório (LOPES, 2009). Moita Lopes (2009) até ousa afirmar que hoje a LA se constrói distante do ensino de língua estrangeira, mesmo havendo ainda uma preponderância de estudos dentro da LA relacionados ao ensino de LE, especificamente do inglês.

Pelo que estudou no tópico anterior, você deve imaginar que as áreas de ensino e tradução sejam as mais desenvolvidas dentro da LA, visto que foram as áreas pioneiras. Porém, atualmente, além do contexto de ensino e da tradução, a LA passou também a permear campos de ensino e aprendizagem de língua materna, de letramentos e de contextos relacionados à mídia, empresa, delegacia de polícia, clínica médica, entre outros (LOPES, 2009, p. 17).

Tendo em vista o contexto no qual a LA surgiu e a história da Linguística que você estudou nos tópicos 1 e 2, consegue lembrar qual fato pode ter ocasionado essa ampliação no foco da Linguística? De acordo com Moita Lopes (2009), os

57

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

pressupostos de Vygotsky e Bakhtin (pressupostos estes que você estudou no Tópico 2) foram essenciais para que a LA ampliasse seu escopo de investigação. Ou seja, foi a partir da expansão do funcionalismo e da visão da língua(gem) em uso que a LA ampliou seu escopo. A LA passou então a se preocupar com problemas referentes à prática da linguagem tanto dentro como fora do contexto da sala de aula (LOPES, 2009).

Diante dessa expansão na área de atuação da LA, ela se tornou uma área de conhecimento interdisciplinar. Shuy (2002) argumenta que é difícil imaginar uma área em que a Linguística não faça parte e que embora, por muito tempo, o foco da LA tenha sido o ensino e a aprendizagem, hoje a LA se estende a áreas médicas, de propaganda, e até mesmo a questões relacionadas com a lei. Portanto, neste tópico veremos algumas das áreas de atuação da LA, não nos restringindo apenas a questões de ensino de LE. A LA de antes, associada à concepção de consumidora de teorias da Linguística, hoje tem sido responsável pelo desenvolvimento de novas teorias, pelo desenvolvimento da tecnologia e do conhecimento associado a toda forma de uso da língua(gem) (REES-MILLER, 2002). Rees-Miller (2002, p. 481, tradução da autora) aponta como as principais características da LA:

(1) foco na língua(gem) no contexto de uso; (2) aplicação da teoria à prática, e da prática à teoria; (3) abordagem prática baseada no problema; (4) perspectiva multidisciplinar.

Na próxima seção você verá diversas áreas nas quais a LA pode atuar.

2 ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LINGUÍSTICA APLICADA

2.1. ENSINO DE SEGUNDA LÍNGUA E LINGUÍSTICA TRANSCULTURAL

Rees-Miller (2002) explica que algumas reconsiderações a respeito do ensino do vocabulário e da gramática, assim como o vislumbre das novas situações comunicativas do mundo atual têm levantado questões a respeito do ensino de segunda língua, as quais têm sido discutidas por linguistas da área da LA.

O mundo globalizado em que vivemos traz novas considerações para o ensino de línguas. No caso do inglês, por exemplo, a língua tem assumido ao longo dos anos um papel de língua internacional, tendo em vista que é usada para comunicação entre diversas pessoas ao redor do mundo que não são necessariamente falantes nativos do idioma. Esse fato já nos traz uma questão para refletir: o inglês falado por falantes não nativos. Nessa mesma linha, temos o termo World Englishes, o qual mostra que este idioma possui diversas variedades, que vão

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TÓPICO 5 | AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA

além das tradicionalmente estudadas, americana e britânica. O fato de o inglês ser usado por diversas pessoas que não são falantes nativos do idioma também traz questões culturais para a discussão. Aspectos pragmáticos de uso da língua(gem) são cada vez mais importantes de serem analisados nesse mundo globalizado em que vivemos.

Você pode perceber o papel da LA nesse cenário? Uma das questões que são levantadas referente ao ensino do inglês como LE é a do padrão: qual variedade do inglês deve ser ensinada? Você, muito provavelmente, por muito tempo ouviu falar nas aulas de inglês sobre as distinções entre vocabulário e pronúncia nas variedades americana e britânica, certo? Mas diante das questões levantadas e do

papel que o inglês tem adquirido como língua franca, você acha que ensinar essas variedades é suficiente? Acredito que a sua resposta seja não, porque o falante de inglês de hoje precisa estar preparado para se comunicar de forma competente nos mais diversos cenários, e isso inclui compreender variedades de inglês de falantes não nativos. Essa questão coloca em xeque outro paradigma. Por muito tempo, adquirir um nível linguístico no idioma igual ao de um falante nativo era

a meta de aprendizagem, porém, diante desse novo cenário e das discussões que

têm sido empreendidas no campo da LA, pode-se dizer que esse não é mais o principal objetivo do falante de LE, mas sim, conseguir se comunicar em diferentes contextos de uso da língua.

Em relação à questão cultural, vamos pensar nos costumes que temos no nosso país. Quão diferentes são em relação a um país oriental, ou a um país de cultura islâmica? Tendo em vista que não podemos falar de língua(gem) desvinculada da cultura, como você acredita que a cultura de origem do aprendiz

de LE pode influenciar o aprendizado dessa língua? Por isso o emprego do termo linguística transcultural, que simboliza essa troca entre as diferentes culturas. Da mesma forma que discutimos que não é suficiente ensinar um único padrão da LE, não é mais suficiente, no mundo globalizado em que vivemos, pensar apenas na cultura dos países que possuem o inglês como idioma oficial quando ensinamos

a LE. Temos que refletir sobre influência da cultura dos falantes não nativos da língua no uso dela e desenvolvermos a competência comunicativa para circular nesses contextos e utilizar de forma eficiente a LE.

Como você pode ver, a LA possui um papel muito importante em analisar as questões reais de uso da língua(gem) e os fatores externos que influenciam esse uso para que possamos refletir tanto sobre questões práticas do cotidiano do falante de LE como também seja possível refletir sobre o insumo necessário ao aprendiz de LE para que este seja capaz de se comunicar de maneira eficaz nos diferentes cenários.

59

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

2.2. LÍNGUA(GEM) NO CONTEXTO DE USO E A ANÁLISE DO DISCURSO

Como você já viu ao longo desta unidade, a teoria funcionalista trouxe um

novo foco aos estudos linguísticos. Antes, a língua era vista apenas como estrutura

e o papel da fala, que era considerada individual (pelos estruturalistas que seguiam

Saussure) era relegado. A partir da teoria funcionalista, volta-se o olhar para a fala,

que nessa perspectiva é considerada como um ato social e não mais individual.

Portanto, a língua(gem) passa a ser analisada no contexto onde é usada. Alinhada

a esta nova perspectiva, temos a teoria da análise do discurso, a qual tem como objetivo desvendar o que há por trás do discurso (oral e escrito) proferido.

A seguir você pode ver uma citação de De Beaugrande (1997, p. 36 apud HE, 2002) sobre o discurso: “In the world of human beings, you won’t find a language

by itself – the Dutch language strolling the canals, or the English language having

a nice cup of tea, or the German language racing madly along the autobahn. You only find discourse”.

NOTA No mundo dos seres humanos, você não encontrará a língua por si mesma –
NOTA
No mundo dos seres humanos, você não encontrará a língua por si mesma – a
língua holandesa passeando pelos canais, ou a língua inglesa tomando uma agradável xícara
de chá, ou a língua alemã correndo loucamente ao longo da autoestrada. Você encontrará
apenas discurso. (DE BEAUGRANDE, 1997, p. 36 apud HE, 2002, tradução da autora).

Você pode perceber, nessa citação, a diferença que De Beaugrande (1997) estabelece entre o que seria a língua e o que seria o discurso. Assim, a língua, na visão saussureana, seria estrutura, já o discurso seria a língua(gem) sendo usada pelo ser humano. No primeiro caso – a língua – temos uma entidade morta, já o segundo – discurso – temos uma entidade viva. Assim, De Beaugrande (1997) dá ênfase ao que ele considera como o objeto de estudos da linguística – o discurso. E este é o objeto de estudos da Análise do Discurso, a qual é definida por He (2002, p. 330) da seguinte forma: “Discourse analysis is concerned with the contexts in and the processes through which we use oral and written language to specific audiences, for specific purposes, in specific settings”.

NOTA A análise do discurso se preocupa com os contextos nos quais e os processos
NOTA
A análise do discurso se preocupa com os contextos nos quais e os processos
através dos quais usamos a linguagem oral e escrita para audiências específicas, para propósitos
específicos, em cenários específicos (HE, 2002, p. 330, tradução da autora).
60

TÓPICO 5 | AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA

Você pôde ver que a Análise do Discurso está interessada em analisar o

uso da língua(gem) oral e escrita em contextos específicos. A Análise do Discurso se preocupa com os processos sobre os quais o discurso é proferido, sobre o público para o qual o discurso é usado e também sobre o propósito comunicativo. Você sabe que a fala nem sempre é literal, usamos metáforas o tempo todo para expressar nossos sentimentos e intenções. Portanto, a Análise do Discurso nos permite analisar o propósito real por trás do que proferimos. Veja o exemplo a

seguir:

Está calor aqui.

O propósito desta frase pode não ser apenas expressar o descontentamento da pessoa com a temperatura do ambiente, como pode também ser um pedido para que alguém abra uma janela, por exemplo. Mas por que não falamos: Por favor, você pode abrir a janela? Bem, porque nesse caso, a pessoa está se utilizando de uma sutileza para se fazer entender. E no nosso dia a dia fazemos isso o tempo todo.

entender. E no nosso dia a dia fazemos isso o tempo todo. AUTOATIVIDADE Você consegue pensar

AUTOATIVIDADE

Você consegue pensar em outros exemplos? Você pode pesquisar exemplos da linguagem oral e escrita. Para a linguagem escrita, você pode encontrar exemplos em tiras de jornal, charges, revistas, entre outros. Já para a linguagem oral, fontes interessantes podem ser excertos de falas de seriados, filmes e novelas, entre outros.

Mas como você acha que a Análise do Discurso pode auxiliar em questões práticas do uso da língua(gem)? Rees-Miller (2002) explica algumas situações nas quais a Análise do Discurso tem auxiliado, tais como em analisar o discurso proferido por profissionais da saúde e seus pacientes, com foco especial a como essas pessoas expressam relações de poder, de solidariedade e de polidez. Rees-

Miller (2002) explica ainda que as pesquisas nessa área têm dado atenção especial

a pacientes com Alzheimer e a pessoas idosas. Você consegue imaginar como

essas pesquisas podem contribuir para a melhoria das relações entre as pessoas? A partir da análise do discurso, podemos constatar melhores formas de estabelecer

a comunicação entre essas pessoas para expressar, por exemplo, solidariedade.

Essas informações podem beneficiar o treinamento dos profissionais da saúde que lidam com esses pacientes em específico.

Outras pesquisas têm se voltado para questões de uso da língua(gem) em contextos comerciais, de negócios, em resolução de conflitos, em igrejas, na política, entre outros. Outra questão relevante que tem sido investigada nessa área é a da língua(gem) e gênero (REES-MILLER, 2002). Estudos nessa área têm procurado desvendar as intenções comunicativas de homens e mulheres, mostrando em alguns

61

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

casos que as perspectivas de cada gênero podem causar desentendimentos. Estes são apenas alguns exemplos de situações do dia a dia que podem ser beneficiadas com a Análise do Discurso, porém, há muitas outras possibilidades nessa área que está em crescente desenvolvimento.

2.3. MANUTENÇÃO DA LÍNGUA(GEM), LÍNGUAS AMEAÇADAS E DIALETOS

Esta é uma área extremamente importante no contexto brasileiro, tendo em vista que o nosso país possui um cenário multilíngue muito rico, onde coexistem línguas indígenas, línguas de fronteira, línguas africanas e línguas de imigrantes. E toda essa variedade linguística pode passar, muitas vezes, despercebida por muitos, que consideram o Brasil um país monolíngue, no qual o único idioma é o português. Dessa forma, a LA tem um papel importante em auxiliar nessa questão, primeiro de desmistificar o monolinguismo no Brasil, e, em segundo lugar, de auxiliar na preservação dessas línguas minoritárias (línguas indígenas, africanas e de imigrantes). Há diversos esforços reunidos no Brasil de linguistas aplicados que estudam as línguas indígenas. Descrever essas línguas e manter registros escritos são formas de auxiliar na manutenção delas (REES-MILLER, 2002). Outra parte desse trabalho se refere à política linguística, que você vai ver mais adiante nesse tópico. Todo esse papel de preservar, manter e cuidar das línguas ameaçadas e dos dialetos cabe à LA (REES-MILLER, 2002).

2.4. GÊNERO ORAL E ESCRITO

Uma das áreas de pesquisa da LA muito recorrente nos dias atuais é a de gênero, tanto no que se refere a textos escritos como discursos. Gêneros orais ou escritos podem ser definidos como os padrões que caracterizam determinados textos ou discursos (GEE, 2002). E esse tem sido um dos debates atuais na educação.

Você consegue pensar em alguns exemplos de gêneros orais e escritos que estão presentes no seu dia a dia? Pense na sua vida profissional, acadêmica e também nos momentos de lazer. Quais gêneros fazem parte da sua rotina? Liste características que são peculiares a cada um desses gêneros. Um gênero possui características de linguagem, de gramática e de estilo que o caracterizam. Dentro do universo acadêmico, acreditamos que você tenha pensado para os gêneros escritos em exemplos como artigos científicos, poesias, dissertações. Para os gêneros orais você pode ter mencionado palestra, debate e até mesmo a aula. Esses são apenas alguns dos vários exemplos de gêneros que podemos encontrar no nosso universo acadêmico. Agora voltando aos gêneros encontrados no nosso cotidiano, o que você poderia dizer sobre a comunicação por Whatsapp? Como você a classificaria? Pense nessa questão e discuta com seus colegas. Lembre-se de que o e-mail é um gênero que se originou da carta, mas possui características próprias que o distinguem desse gênero.

62

TÓPICO 5 | AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA

TÓPICO 5 | AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA AUTOATIVIDADE

AUTOATIVIDADE

Agorareflitasobrecomootrabalhocomgênerospodeauxiliarodesenvolvimento da língua(gem), em geral, e mais especificamente, da LE.

2.5 LEITURA

E quanto à leitura? Você já parou para pensar como ela é imprescindível no nosso dia a dia? E esta não é uma habilidade requerida apenas na área da língua(gem). Estudar, em geral, envolve ler algum material. E para que o leitor

seja capaz de extrair informações do texto e armazená-las na sua memória, para aprender do texto ele precisa ter habilidade para leitura. Ou seja, leitura é algo que se desenvolve com prática, treino e também instrução. Na área de Letras, você é muito exigido nessa área. Certamente, lê muitas páginas por semana. Agora, você

já imaginou como a dificuldade de leitura pode prejudicar a vida da pessoa? A LA

pode também auxiliar nessa área.

Treiman (2002) explica a pesquisa relacionada à leitura, que pode ser

elucidativa em questões, por exemplo, da dislexia. Pesquisas demonstram que a leitura pode ser dividida em processos bottom-up e top-down. Processos bottom-up envolvem o reconhecimento de pequenas estruturas, como letras, fonemas, palavras para dar sentido à sentença, enquanto os processos top-down envolvem primeiro as expectativas do leitor frente ao seu conhecimento de mundo para então predizer

o que virá no texto. Estudos envolvendo rastreamento ocular fornecem várias

informações sobre o processamento da leitura, mostrando que esta não ocorre de uma forma linear, mas que os nossos olhos fazem vários movimentos chamados de sacadas, que são pequenos pulos, para mudar de uma direção para outra. Estudos nessa área mostram que leitores habilidosos não pulam uma grande parte das palavras da sentença, mas fixam pelo menos uma vez na maioria delas. Ou seja, o processo bottom-up é essencial para a leitura. A partir desse conhecimento, advindo de pesquisas da área, é possível desenvolver metodologias para auxiliar no desenvolvimento da habilidade de leitura.

2.6. LINGUÍSTICA CLÍNICA

Crystal (2002) explica que linguística clínica serve para o tratamento da linguagem de quem tem algum subdesenvolvimento ou dificuldade no uso da língua(gem). A linguística clínica pode auxiliar na detecção de dificuldades de produção e de compreensão da linguagem. Linguistas aplicados podem contribuir

63

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

para esta área descrevendo o comportamento linguístico dos pacientes que possuem alguma dificuldade na língua(gem). Através dessa descrição é possível classificar determinados comportamentos linguísticos, facilitando o diagnóstico da inabilidade linguística do paciente. Também é papel do linguista clínico

desenvolver formas mais facilitadas para testar essas dificuldades relacionadas

à linguagem. O linguista clínico pode ainda auxiliar no processo de intervenção

para remediar as dificuldades apresentadas. Dessa forma, o linguista clínico pode auxiliar nas decisões linguísticas do tratamento médico.

2.7 LINGUÍSTICA FORENSE

Levi (1994 apud SHUY, 2002) explica que a LA pode auxiliar a lei, através da identificação de voz, autoria de documentos escritos, instruções judiciais que não são claras, a assimetria de poder em trocas de tribunal, a separação entre a comunicação do advogado e do cliente. A natureza do perjúrio, problemas em discurso escrito legal, difamação, infração de marca comercial, interpretação de tribunais e dificuldades de tradução, a adequação de etiquetas de aviso e a natureza da conversa gravada como evidência. Shuy (2002) explica que o termo Linguística Forense começou a ser utilizado nos anos 1980. A LA pode ajudar em casos de disputa de nomes de marcas. Muitas empresas vão à justiça para reclamar seus direitos quando entendem que outra marca tem um nome parecido com o seu, que tem o mesmo significado ou que sugere, lembra o nome original. Linguistas podem então auxiliar nessas questões.

Outra área judicial na qual linguistas podem auxiliar diz respeito à responsabilidade do produto, por exemplo, quando alguém processa uma empresa por ter sido prejudicado alegando falta de informações na embalagem.

Nesse caso, o linguista poderá analisar as etiquetas do produto para verificar se os avisos seguem as normas da agência reguladora, se estão escritos de forma clara

e não ambígua e se são efetivos. A LA também pode auxiliar no reconhecimento

de voz, por exemplo, no caso de alguém deixar uma mensagem suspeita ou fazer uma ameaça. O linguista poderá comparar essa voz com a de outros suspeitos para identificá-la. Da mesma forma, o linguista também pode auxiliar na identificação da autoria de um documento escrito, buscando algumas questões linguísticas que possam indicar o dialeto, a idade, o gênero, o nível de escolaridade e a ocupação do suspeito. Na sequência, o linguista irá comparar essa análise com documentos escritos por outros suspeitos para chegar a uma conclusão. Na verdade, essa estratégia serve mais para eliminar possíveis suspeitos do que necessariamente para identificar um. Em casos criminais, linguistas podem ser chamados para analisar gravações, transcrevendo conversas, analisando se a linguagem é adequada para configurar a ilegalidade do crime em questão.

64

TÓPICO 5 | AS ÁREAS DE ATUAÇÃO DA LÍNGUÍSTICA APLICADA

2.8 TRADUÇÃO

A tradução é uma área importante dentro da LA, que constitui um problema real de uso da língua(gem), tendo em vista que a comunicação entre indivíduos que não falam a mesma língua pode ser dificultada (GUTKNECHT, 2002). Essa

é uma área da LA bastante tradicional, parte do projeto inicial do qual originou- se a LA, no qual os esforços estadunidenses giravam em torno de melhorar a comunicação com aliados e também de decifrar mensagens de inimigos, dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial. Ou seja, o que estava em questão era tradução e interpretação. Hoje, muitos esforços de linguistas também têm sido voltados ao desenvolvimento da tradução automática.

2.9 PLANEJAMENTO LINGUÍSTICO

Você já pensou sobre as leis que regem o uso das línguas em um determinado país? Você provavelmente já ouviu dizer que em alguns países mais de uma língua oficial coexistem, enquanto outros possuem apenas uma língua oficial? O que você sabe sobre esse assunto? Você conhece a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos? E o que você sabe sobre a política linguística do Brasil? E da região onde você mora? Faça um levantamento dessas informações e discuta com seus colegas. Vocês concordam com as leis preestabelecidas? Se não, o que mudariam? Como vocês pensam que a LA poderia contribuir para esta discussão?

Anshen (2002) explica que todas as nações têm uma política linguística para regulamentar a(s) língua(s) oficial/oficiais e quais línguas serão usadas em determinadas situações. Anshen (2002) explica também que as políticas linguísticas podem ser classificadas em três diferentes abordagens: monolinguismo, multilinguismo igualitário, e sistemas linguísticos nacionais e regionais.

NOTA
NOTA
O monolinguismo nesse contexto se refere ao uso de apenas uma língua oficial na nação.

O monolinguismo nesse contexto se refere ao uso de apenas uma língua oficial na nação. Por outro lado, o multilinguismo igualitário se refere ao direito, estabelecido por legislação, do uso oficial de diferentes línguas na nação. Já os sistemas linguísticos nacionais e regionais podem ser estabelecidos de acordo com a região da nação e a população que ali vive (ANSHEN, 2002).

e regionais podem ser estabelecidos de acordo com a região da nação e a população que

Anshen (2002) também explica que há quatro fatores envolvidos nas

decisões sobre política linguística, que são: (1) nacionalismo, (2) interesse étnico, (3) demografia linguística, (4) prestígio das línguas envolvidas. Como você pode ver, esta é uma questão complexa referente à língua(gem), na qual há espaço para

o trabalho do linguista aplicado. No próximo tópico você irá se inteirar sobre a pesquisa na área de LA no cenário internacional e no Brasil.

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RESUMO DO TÓPICO 5 Neste tópico você estudou : • Diversas áreas de atuação da

RESUMO DO TÓPICO 5

Neste tópico você estudou:

• Diversas áreas de atuação da LA que vão além do ensino de LE.

• A LA pode atuar em diversas situações nas quais o uso da língua(gem) está em questão.

• Você estudou as seguintes áreas do conhecimento:

- Ensino de segunda língua e linguística transcultural: trata da influência da globalização e do papel das diferentes culturas na aprendizagem da LE.

- Língua(gem) no contexto de uso e a análise do discurso: tem como objetivo desvendar o que há por trás do discurso (oral e escrito) proferido.

- Manutenção da língua(gem), línguas ameaçadas e dialetos: se refere à função da LA de preservar, manter e cuidar das línguas ameaçadas e dos dialetos.

- Gênero oral e escrito: se refere aos padrões que caracterizam determinados textos ou discursos.

- Leitura: se refere ao entendimento sobre os processos que subjazem à leitura visando ao desenvolvimento da melhoria deste processo.

- Linguística clínica: se refere ao tratamento da linguagem de quem tem algum subdesenvolvimento ou dificuldade no uso dela.

- Linguística forense refere-se a questões legais e/ou judiciais nas quais a linguística aplicada pode ser informativa.

- Tradução: tem como objetivo melhorar a comunicação entre pessoas que não falam a mesma língua.

- Planejamento linguístico: se refere à regulamentação das leis a respeito das línguas de um país.

- Em cada uma dessas áreas há questões específicas nas quais a LA pode auxiliar na melhoria da comunicação entre as pessoas.

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AUTOATIVIDADE 1. Com relação às áreas do conhecimento que podem ser auxiliadas pela LA, analise

AUTOATIVIDADE

1. Com relação às áreas do conhecimento que podem ser auxiliadas pela LA, analise as afirmações a seguir:

I – Tradução: é uma das áreas mais tradicionais da Linguística Aplicada, que iniciou na época da 2ª Guerra Mundial.

II – Planejamento linguístico está relacionado a quais línguas serão ensinadas na escola.

III Linguística forense se refere à resolução de questões judiciais envolvendo

a

linguagem.

IV – A análise do discurso tem como objetivo desvendar o que há por trás do discurso (oral e escrito) proferido.

V – Gênero oral e escrito: se refere aos padrões que caracterizam determinados textos ou discursos.

Agora assinale a alternativa correta:

a) ( ) Todas as afirmações são verdadeiras.

b) ( ) II, III e V são verdadeiras.

c) ( ) I, III e IV são verdadeiras.

d) ( ) I, IV e V são verdadeiras.

e) ( ) I, III, IV e V são verdadeiras.

2. A questão abaixo foi retirada do ENADE 2011. Responda à questão com base no que você viu neste tópico sobre gênero oral e escrito.

A questão central não é o problema da nomeação dos gêneros, mas o

de sua identificação, pois é comum burlarmos o cânon de um gênero fazendo

uma mescla de formas e funções. No geral, os gêneros estão bem fixados e não oferecem problemas para sua identificação. No caso de mistura de gêneros, adoto a sugestão da linguista alemã Ulla Fix (1997:97), que usa a expressão “entertextualidade tipológica” para designar esse aspecto de hibridização ou mescla de gêneros, em que um gênero assume a função de outro.

MARCUSCHI, L. A. Produção Textual, Análise de Gêneros e Compreensão. São Paulo: Parábola, 2008.

Com base na ideia de Marcuschi de intergenericidade, qual dos textos abaixo não justifica a definição apresentada pelo autor?

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A) Viva saudável com os livros

Diogenes Os livros Diogenes acham-se internacionalmente introduzidos na biblioterapia. Posologia As áreas de aplicação são muitas. Principalmente resfriados, corizas, dores de garganta e rouquidão, mas também nervosismo, irritações em geral e dificuldade de concentração. Em geral, os livros Diogenes atuam no processo de cura de quase todas as doenças para as quais prescreve-se descanso. Sucessos especiais foram registados em casos de convalescença. Propriedades O efeito se faz notar pouco tempo após iniciada a leitura e tem grande durabilidade. Livros Diogenes aliviam rapidamente a dor, estimulam a circulação sanguínea, e o estado geral melhora. Precauções/riscos.

MARCUSCHI. L.A. Produção Textual, Análise de Gêneros e Compreensão. São Paulo: Parábola Editora, 2008, p. 165-6.

B) Um novo José

Josias de Souza Calma, José

a

festa não recomeçou,

a

luz não acendeu,

a

noite não esquentou,

o

Malan não amoleceu.

Mas se voltar a pergunta:

e agora, José?

Diga: ora, Drummond, agora Camdessus. Continua sem mulher, continua sem discurso, continua sem carinho, ainda não pode beber, ainda não pode fumar,

cuspir ainda não pode,

a

noite ainda é fria,

o

dia ainda não veio,

o

riso ainda não veio, [

]

Folha de S. Paulo. Caderno 1, p. 2. 4/10/1999

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C)

C) FONTE: Disponível em: <newserrado.com>. Acesso: 31 ago. 2011. D) PANQUECAS DE BANANA Qtde – Medida

FONTE: Disponível em: <newserrado.com>. Acesso: 31 ago. 2011.

D)

PANQUECAS DE BANANA

Qtde – Medida

Ingrediente

 

½

Litro(s)

Leite

2

Unidade(s)

Ovos

250

Grama(s)

Farinha de trigo

 

80

Grama(s)

Maisena

½

Colher(es) de chá

Sal

200

Grama(s)

Margarina derretida

 

A gosto

Bananas

A gosto

Doce de leite

 

A gosto

Chocolate

derretido

ou

calda

de

chocolate

Modo de preparo

1. Coloque o leite no copo do liquidificador. Acrescente os ovos, a margarina, a farinha de trigo, a maisena e o sal. Bata até homogeneizar a mistura.

2. Desligue o liquidificador, raspe a farinha de trigo das paredes do copo com uma espátula e bata novamente durante alguns segundos. Coloque a mistura na geladeira e deixe repousar durante 30 minutos.

3. Esquente uma frigideira com um pouco de margarina. Despeje uma porção da mistura bem fria e cozinhe de ambos os lados até dourar.

4. Recheie com doce de leite e coleque a banana no meio. Enrole e retire os extremos que não têm recheio.

5. Corte em porções pequenas, coloque-as em uma travessa e despeje por cima muita calda de chocolate. Polvilhe coco ralado e chocolate granulado.

FONTE: Disponível em: <http://www.recepedia.com/profile/chef-recepedia_br/panquecas-de- banana>. Acesso em: 31 ago. 2011.

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E) A Criação do Cebolinha, 1994 – acrílica sobre tela, 109x209 cm. A Criação de

E)

A Criação do Cebolinha, 1994 – acrílica sobre tela, 109x209 cm.

do Cebolinha, 1994 – acrílica sobre tela, 109x209 cm. A Criação de Adão, 1510 – Michelangelo

A Criação de Adão, 1510 – Michelangelo (1475-1564), afresco, 280x570cm. Disponível em:

<elsonador2.blogger.com.br>. Acesso em: 31 ago. 2011.

FONTE: Disponível em:

<http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2011/LETRAS.pdf>. Acesso:

15 fev. 2017.

70

TÓPICO 6

UNIDADE 1

UNIDADE 1

UNIDADE 1

A PESQUISA EM LINGUÍSTICA APLICADA

1 INTRODUÇÃO

No Tópico 4, você viu como a LA surgiu e se estabeleceu como ciência. Já no Tópico 5 você viu a área de atuação da LA, viu que a LA pode auxiliar em questões práticas do dia a dia em diversos contextos de uso da língua(gem). Neste tópico nos concentraremos na pesquisa em LA. Você será apresentado a alguns periódicos que veiculam pesquisas da área e também aos principais temas que têm sido pesquisados dentro da LA, no Brasil e internacionalmente.

De acordo com Rees-Miller (2002), trabalhos apresentados em conferências sobre LA nos últimos anos têm incluído os seguintes temas: pragmática transcultural, psicolinguística, aquisição da linguagem e socialização, língua para fins específicos, letramento, política e planejamento linguístico, sociolinguística, análise do discurso, retórica e estilística, tradução e interpretação. Então você pode ver que essas são as áreas de destaque da LA. Como você pode observar, a LA tem circulado em áreas bastante diversificadas de uso da língua(gem). Ainda de acordo com Rees-Miller (2002), as áreas mais tradicionais da LA são: ensino de segunda língua, testagem, aquisição de segunda língua, bilinguismo e educação bilíngue.

NOTA
NOTA
Podemos compreender o ensino de segunda língua como a área que investiga questões relacionadas ao

Podemos compreender o ensino de segunda língua como a área que investiga questões relacionadas ao ensino de uma língua não nativa; testagem se refere às formas de acessar o conhecimento do aluno de língua estrangeira; aquisição de segunda língua está relacionada a questões a respeito da aprendizagem de uma língua não nativa; bilinguismo se refere ao uso de duas línguas; educação bilíngue está relacionada ao uso de duas línguas na educação, como meio de instrução, por exemplo (REES-MILLER, 2002).

está relacionada ao uso de duas línguas na educação, como meio de instrução, por exemplo (REES-MILLER,

71

UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

2 PRINCIPAIS PERIÓDICOS NA ÁREA DE LINGUÍSTICA APLICADA

Para que você possa ampliar seus conhecimentos sobre a pesquisa em LA, é importante que leia artigos científicos. Assim estará informado sobre os avanços mais recentes na área. Para que você tenha conhecimento de algumas publicações que veiculam pesquisas nessa área, são apresentados alguns periódicos renomados nessa seção. Em relação aos periódicos que veiculam artigos de pesquisa internacionais na área de LA, Menezes, Silva e Gomes (2009) destacam:

- Annual Review of Applied Linguistics.

- International Journal of Applied Linguistics.

- International Review of Applied Linguistics in Language Teaching (IRAL).

- System: An International Journal of Educational Technology and Applied Linguistics.

- Language Learning.

- Modern Language Journal.

- Studies in Second Language Acquisition.

No Brasil também possuímos diversos periódicos que veiculam artigos científicos da área de LA. Menezes, Silva e Gomes (2009) destacam alguns destes, citados a seguir:

- Revista Brasileira de Linguística Aplicada.

- Trabalhos em Linguística Aplicada. - ESPecialist.

- Linguagem e Ensino. - D.E.L.T.A. DICAS Certamente, você poderá encontrar artigos científicos da área
- Linguagem e Ensino.
- D.E.L.T.A.
DICAS
Certamente, você poderá encontrar artigos científicos da área de LA em outros
periódicos. Os nomes citados acima são apenas sugestões de periódicos
renomados. É muito importante que você conheça esse material de pesquisa e informação.
AUTOATIVIDADE
AUTOATIVIDADE

Você conhece algum desses periódicos? Convido você a escolher um periódico internacional e outro nacional, destes elencados acima, e fazer uma busca dos assuntos mais atuais em LA no cenário brasileiro e internacional. Você acha que o foco de pesquisa é o mesmo? Leia os resumos dos artigos para ver o que mais lhe interessa. Tente identificar as teorias que estão por trás de cada pesquisa e as concepções de língua(gem) que embasam cada uma delas.

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TÓPICO 6 | A PESQUISA EM LINGUÍSTICA APLICADA

3 PRINCIPAIS TEMAS NA ÁREA DE LA NO CENÁRIO INTERNACIONAL

Menezes, Silva e Gomes (2009) realizaram uma pesquisa a partir dos periódicos de LA acima relacionados, para identificar quais são os temas mais recorrentes na pesquisa em LA. Entre os periódicos internacionais acima relacionados, os autores encontraram a seguinte ordem para os temas mais recorrentes nas pesquisas em LA:

1. Ensino e aprendizagem de línguas.

2. Aquisição de segunda língua.

3. Interações orais.

4. Vocabulário.

5. Letramento (escrita).

6. Leitura.

7. Pronúncia.

8. Estratégias de aprendizagem.

9. Gramática.

10. Foco no aprendiz.

11. Interação, comunicação e aprendizagem mediada por computador.

12. Teste e avaliação.

13. Compreensão oral.

14. Gênero (masculino/feminino).

15. Crenças de professores e de aprendizes.

16. Linguística Aplicada: Reflexões sobre a área e sobre a pesquisa.

17. Tradução.

18. Língua, cultura e ideologia.

19. Currículo.

20. Inglês como língua franca ou língua internacional.

Como você pôde observar, ainda que a LA não tenha mais um foco exclusivo no ensino de LE, a maior parte dos estudos no cenário internacional ainda se concentra nesse tema, sendo o ensino de LE o tema mais pesquisado dentre os 20 elencados acima (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009). Em segundo lugar vemos o tema aquisição de segunda língua, que em inglês é usado como um termo abrangente que inclui também a aprendizagem de LE. Apenas em terceiro lugar nessa lista vemos um tema que, embora também possa estar relacionado ao ensino de LE, não se restringe a ele: interações orais. Este tópico é relevante para o uso da língua(gem) em qualquer contexto, não apenas da sala de aula. Já os temas elencados de 4 a 10 possuem uma conexão mais estreita com o contexto de sala de aula. O tema 4, vocabulário, é destaque em pesquisas de ensino e aprendizagem de LE, nas quais se pesquisa muito sobre formas de aquisição de vocabulário, estratégias para melhor ensinar vocabulário, como melhorar a memorização das palavras, como melhorar a avaliação do vocabulário, entre outras questões. O tema que ficou em 5º lugar, letramento com foco na escrita, se baseia no desenvolvimento da escrita em um nível de complexidade superior à decodificação de palavras e leva

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

em conta questões sociais e contextuais que afetam a leitura crítica. Como você viu no Tópico 5 desta unidade, as pesquisas na área de leitura podem beneficiar não só

o campo de LE, mas também a detecção de dificuldades de leitura em geral, como

a dislexia (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

Pronúncia, tema 7, é um foco de preocupação para alunos e professores de LE, tendo em vista que alguns erros de pronúncia podem prejudicar a compreensão da intenção comunicativa (exemplo de sheet /ʃiːt/ e shit /ʃɪt/ em inglês) (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

NOTA Você pode ouvir a pronúncia dessas palavras acessando o site <http://www. macmillandictionary.com/>.
NOTA
Você pode ouvir a pronúncia dessas palavras acessando o site <http://www.
macmillandictionary.com/>.

Na mesma linha, pesquisas na área de estratégias de aprendizagem, tema 8, estão diretamente relacionadas ao ensino de LE e envolvem o conhecimento metalinguístico do aluno, ou seja, o aluno ter consciência sobre o seu papel ativo na aprendizagem e desenvolver melhores formas de aperfeiçoar seu aprendizado. Gramática, tema 9, é um tema recorrente nas pesquisas relacionadas ao ensino de LE. Você poderá ver que há uma grande discussão na literatura em torno do ensino da gramática ser explícito ou implícito. Muito se pesquisa sobre esse tema na tentativa de encontrar as melhores formas de desenvolver o conhecimento gramatical do aprendiz. O tema 10, foco no aprendiz, envolve todo o conhecimento sobre a motivação do aluno e o papel central que ele deve ocupar na aprendizagem. Esse tema também leva em conta a questão da interação na aprendizagem (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

O tema 11 trata da aprendizagem mediada pelo computador. Dentro desse tema de pesquisa temos o CALL (Computer Assisted Language Learning), que é a

aprendizagem de LE através do uso da tecnologia. Esse é um tema bastante atual

e necessário, tendo em vista que o desenvolvimento crescente e desenfreado da

tecnologia traz novos desafios ao professor de LE. Houve, durante muito tempo, uma discussão sobre usar ou não a tecnologia no ensino, hoje a discussão está mais centrada em como a tecnologia pode auxiliar o ensino e a aprendizagem de LE. Além do uso do computador na própria sala de aula, há diversos sites que oferecem oportunidades para os alunos praticarem e aperfeiçoarem seu conhecimento no idioma, além de aplicativos no celular (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

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TÓPICO 6 | A PESQUISA EM LINGUÍSTICA APLICADA

DICAS
DICAS

Veja alguns sites que você pode acessar para praticar o inglês:

<https://www.ego4u.com/en/cram-up/grammar/simpas-preper>.

<http://www.englisch-hilfen.de/en/exercises/tenses/simple_past_present_perfect.htm>. <http://www.agendaweb.org/verbs/present-perfect-simple-past-simple-exercises.html>.

<http://englishmedialab.com/GrammarGames/football/present%20vs.%20past/present%20

vs.%20past.html>.

<http://www.perfect-english-grammar.com/past-simple-present-perfect-4.html>.

<http://www.englishpage.com/verbpage/verbs5.htm>.

Dessa forma, o mais importante, na atualidade, é instruir os alunos sobre como utilizar essa tecnologia disponível para seu benefício.

O tema 12 trata de testagem. Em inglês utiliza-se o termo assessment para

falar sobre como avaliar o nível de conhecimento do aluno. Este é um tema que foi

por muito tempo deixado de lado nas pesquisas em LA. Porém, hoje entende-se que as práticas de testagem devem ser reavaliadas tendo em vista as concepções mais atuais de ensino que envolvem a abordagem comunicativa e o uso contextualizado da língua. Dessa forma, a avaliação deve estar alinhada à prática de ensino. Ou seja, se o professor trabalha com a abordagem comunicativa e com a língua de forma contextualizada, não cabe utilizar atividades de preenchimento de lacunas na prova, que são práticas comuns do método Gramática e Tradução, por exemplo (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

O tema 13, compreensão oral em inglês, é um tópico muito importante,

não tão pesquisado quanto a compreensão escrita, mas igualmente necessário no desenvolvimento da LE. A questão de gênero feminino e masculino, tema 14, por sua vez, não está tão diretamente ligada ao contexto de ensino; está mais ligada a estudos na área da análise do discurso. Na sequência, o tema 15 trata das crenças dos professores e aprendizes. As pesquisas nessa área têm demonstrado que as crenças que carregamos conosco sobre o ensino e a aprendizagem da LE têm uma grande influência nesse processo. Por exemplo, professores que tiveram experiência com o ensino tradicional podem carregar a crença de que esta é a melhor forma de ensinar, ainda que passem anos na graduação estudando teorias e abordagens mais recentes sobre o ensino. Há também o fato de que os professores tendem a reproduzir os modelos aos quais foram expostos durante sua vida escolar e sua formação. Assim, as experiências, ainda que de uma forma inconsciente, têm mais influência do que o estudo na graduação e as discussões empreendidas para se derrubar as visões tradicionais de ensino/aprendizagem. Visões estas que tinham como base o professor sendo o detentor de todo o conhecimento e o aluno no papel de receptor. Também é inerente dessa visão que a língua não passa de um sistema de regras, e que, portanto, o aprendizado deve seguir uma apresentação explícita

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

dessas regras, seguida de prática intensiva. Da parte dos alunos, há muitas crenças disseminadas em relação à aprendizagem de LE, tais como: só o professor falante nativo da língua pode ensinar a LE, só é possível aprender a LE no país onde a língua é falada, dentre outras (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

O tema 16, Linguística Aplicada: reflexões sobre a área e sobre a pesquisa, é um pouco mais teórico e também reflexivo, pois trata de uma análise do próprio domínio dessa área do saber que é a LA. Tradução, tema 17, é um assunto bastante tradicional na LA, que surgiu juntamente com o ensino de LE, como necessidade na época da Segunda Guerra Mundial. Você viu esse tema no Tópico 5. Já o tema 18, Língua, cultura e ideologia, está mais relacionado à análise do discurso, que tem como um dos seus objetivos analisar ideologia e poder. O tema também tem uma interface com a sociolinguística, área que tem como um dos objetivos analisar as características da língua(gem) e questões de identidade. Já o tema 19, currículo, está diretamente ligado ao ensino e às escolhas de conteúdo e material didático (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

Por fim, o tema 20, Inglês como língua franca ou língua internacional, está relacionado a uma questão extremamente importante no mundo globalizado em que vivemos, que é o papel do inglês como língua de interação por falantes do mundo todo, seja para questões de lazer, viagens ou negócios. Essa é uma questão bastante atual que também tem implicações na área do ensino (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

Em relação a eventos internacionais na área de LA, podemos citar o evento da AILA, a Associação Internacional de Linguística Aplicada (FONTE: Disponível em: <http://www.aila2017.com.br/index.php/en/#>. Acesso: 29 nov. 2016), a ser realizado no Brasil em 2017. No site do evento podemos ver que este tem como missão:

- Devotar atenção a novos problemas linguísticos.

- Apresentar aspectos epistemológicos do conhecimento da Linguística Aplicada.

- Representar iniciativas inovadoras em Linguística Aplicada educacional.

- Mostrar novas formas de estabelecer programas de graduação em Linguística Aplicada.

- Tornar conhecidos avanços pioneiros na pesquisa em Linguística Aplicada.

- Discutir sugestões para ações globais da paz em Linguística Aplicada.

- Reconhecer novos papéis para a Linguística Aplicada em contextos econômicos e políticos.

- Defender o objetivo da Linguística Aplicada da melhoria da vida comunicativa.

- Proclamar novos princípios para integrar teoria e prática na Linguística Aplicada.

Como você pôde observar nos tópicos citados acima, os objetivos da LA no cenário internacional são bastante abrangentes, abarcando questões de ensino, de formação de profissional da área, de desenvolvimento de pesquisa de ponta, de teoria e prática, e de questões práticas do uso da língua(gem) em contextos específicos, políticos, econômicos e globais.

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TÓPICO 6 | A PESQUISA EM LINGUÍSTICA APLICADA

4 A LINGUÍSTICA APLICADA NO BRASIL

De acordo com Soares (2008), a LA começou a ganhar força no Brasil a partir dos anos 1980. Iniciou no Brasil da mesma forma que foi sua origem, com foco no ensino do inglês como LE. Mais especificamente, iniciou com o inglês instrumental nas universidades. Com o tempo, profissionais da área começaram a se interessar por outros temas da LA. Um marco importante para a LA no Brasil foi, em 1990, a fundação da Associação Brasileira de Linguística Aplicada (ALAB).

Soares (2008) destaca algumas áreas nas quais a LA no Brasil pode atuar. Na área de ensino, Soares (2008) destaca o ensino de língua materna e de LE, a formação de professores e o bilinguismo da população indígena. Em relação ao ensino, Soares (2008) argumenta que questões relacionadas à aquisição da linguagem, ao letramento, à alfabetização e também a questões de linguagem e trabalho são dependentes das pesquisas em LA. Já na área de formação de professores, Soares (2008) destaca a conscientização do professor de que a linguagem é socialmente construída, daí a importância da interação no processo de aprendizagem. Com relação às pesquisas no campo do bilinguismo e do multilinguismo, há várias perspectivas que podem auxiliar o cenário brasileiro, tais como compreender como a interação dessas línguas pode afetar a aprendizagem e o uso de língua materna e estrangeira, como se constrói a identidade de um falante bilíngue de uma língua minoritária e do português brasileiro, sendo esta última a língua de prestígio. Através das pesquisas nessa área, é possível buscar melhores políticas linguísticas, que possibilitem direitos mais igualitários aos falantes das línguas de menos prestigio.

5 PRINCIPAIS TEMAS NA ÁREA DE LA NO CENÁRIO NACIONAL

Agora que você viu os temas mais pesquisados da LA no cenário internacional e também viu o histórico de desenvolvimento da LA no Brasil, vamos ver os temas que têm sido mais pesquisados no cenário nacional de acordo com a pesquisa realizada por Menezes, Silva e Gomes (2009):

1. Análise do discurso.

2. Metodologia de ensino de línguas estrangeiras e formação de professores.

3. Aquisição de segunda língua.

4. Tradução e interpretação.

5. Tecnologia educacional e aprendizagem de língua.

6. Letramento.

7. Linguagem e gênero.

8. Educação em língua materna.

9. Autonomia do aprendiz e aprendizagem de língua.

10. Lexicografia.

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UNIDADE 1 | A LINGUÍSTICA E A LINGUÍSTICA APLICADA: ORIGEM E STATUS

11. Análise contrastiva e análise de erro.

12. Linguagem e educação em contextos de multilinguismo.

13. Planejamento linguístico.

14. Comunicação nas profissões.

15. Linguagem para fins específicos.

16. Psicolinguística.

17. Língua dos sinais.

18. Linguagem infantil.

19. Retórica e estilística.

20. Aprendizagem de línguas por adultos.

21. Linguística forense.

22. Educação em imersão.

23. Linguagem e ecologia.

24. Linguagem e mídia.

25. Línguas em contato e mudança linguísticas.

Como você pôde ver nos temas elencados acima, diferentemente da prioridade de temas pesquisados no cenário internacional, percebemos que, no Brasil, o tema mais recorrente não é o ensino de LE e sim a análise do discurso,

área interessada em analisar o que está por trás do discurso proferido (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009), seja em forma de língua(gem) oral ou escrita, conforme você viu no Tópico 5. O segundo tema mais recorrente no cenário nacional é o de metodologia de ensino e formação de professores, tópico este que está estreitamente relacionado ao ensino. Em terceiro lugar temos o tema de aquisição de segunda língua, o qual no cenário internacional apareceu em 2º lugar como o mais pesquisado. Em 4º lugar temos um tema muito tradicional na LA: tradução

e interpretação. Na sequência temos em 5º lugar um tema bastante específico e ao mesmo tempo atual, que é o uso da tecnologia na sala de aula (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009).

O tema 6, Letramento, está diretamente ligado ao ensino da língua(gem) e oferece grande preocupação aos linguistas aplicados no Brasil, visto que muitos,

apesar de alfabetizados, não conseguem construir sentido a partir do texto. E este

é um problema relevante e recorrente no cenário nacional. O tema 7, Linguagem e

gênero, conforme já mencionado, está relacionado à análise do discurso, que nesse caso tem como objetivo analisar como homens e mulheres se expressam através da língua(gem) e quais as intenções comunicativas de cada um (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009). O tema 8, Educação em língua materna, embora relacionado ao ensino, mostra que a LA expandiu seu leque, abarcando não apenas questões relacionadas à LE.

Autonomia do aprendiz e aprendizagem de língua, tema 9, está relacionado

à mais recente concepção de ensino, onde o aprendiz tem um papel central e ativo no processo de aprendizagem (MENEZES; SILVA; GOMES, 2009). O 10º tema mais

pesquisado no cenário nacional é a Lexicografia, área que trata de vocabulário e compilação de dicionários. O tema 11, Análise contrastiva e análise de erro, não

é um tema novo na LA, mas tem tomado novos contornos com os avanços mais

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TÓPICO 6 | A PESQUISA EM LINGUÍSTICA APLICADA

recentes das pesquisas. Como você viu no Tópico 4, já se fazia análise contrastiva

na época que originou a LA, ainda sob os preceitos estruturalistas. Naquela época,

a comparação entre as línguas materna e estrangeira servia como uma previsão das

dificuldades de pronúncia do aprendiz na LE. Hoje, o conhecimento nessa área é muito mais abrangente e os erros dos aprendizes também são analisados sob outra perspectiva, a de que eles são informativos sobre o processo de aprendizagem.

Linguagem e educação em contextos de multilinguismo, tema 12, envolve tanto pesquisas na área da cognição sobre os aspectos da aprendizagem de mais de uma língua estrangeira, como pesquisas relacionadas à identidade do falante multilíngue, às políticas linguísticas, entre outros. Na sequência, o tema 13, Planejamento linguístico, trata exatamente de questões de política linguística, de escolhas sobre qual língua vai ser falada no país ou em determinada região e qual língua vai ser utilizada em determinados contextos (MENEZES; SILVA; GOMES,

2009).

O tema 14, Comunicação nas profissões, envolve tanto a análise da função da língua(gem) nas relações profissionais, negócios, marcas, como melhorar a comunicação nas diferentes profissões, entre outros. O tema 15, Linguagem para fins específicos, é um tema bastante tradicional na LA no Brasil, tendo em vista que foi este o tema que iniciou os estudos em LA nas universidades brasileiras. Na sequência, o tema 16, Psicolinguística, envolve o estudo do compo