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Períodos da História de Roma - PDF

Direito (Universidade de Lisboa)

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Resumo de Direito Romano


(Apontamentos de Direito Romano) 


A História do Direito Romano 


• O que é a História do Direito Romano?

Na História do Direito Romano a partir da influência do pensamento grego as polémicas


em torno das linhas de separação entre política, filosofia, direito, poesia e oratória são
estéreis, já que o poder político fica com todos os instrumentos de exercício do jurídico. O
Principado faz propaganda com o ius romano, eliminando-o do panorama da criação/
aplicação de soluções pacificas para os conflitos e colocando-o no plano ideológico ao
serviço do projeto político do princeps e da expansão do império. A iurisprudentia romana
deixa de ser de Roma para passar a ser do Império Romano. Esta mudança da noção de ius
pela alteração dos seus elementos criadores abre a possibilidade a uma universalização das
suas soluções e esta abrangência é fundamental, no plano político, pois pode servir, na sua
base racionalista, para todos os povos. Continua, no entanto, a ser romana, porque
manteve, no seu ideário, os elementos mínimos essenciais da tradição jurisprudência. O
modelo jurisprudência tem o epicentro em Roma e generaliza-se abdicando do que é
especificamente romano.

• Primeiro Período - Roma do rex e das gentes 



(753 a.C. - 509 a.C.)

1. A designação deste período pelo binómio rex/gentes

História do Direito Romano: inicia-se com o período pré-cívico ou arcaico entre a


fundação de Roma (754-753 a.C.) e o início da vigência das leges Liciniae Sextiae (367
a.C.)

Primeiro período da história do Direito Romano deve ser denominado a partir das
características marcantes das fontes de onde promana o Direito então aplicado. —> período
arcaico ou monárquico - não são aqui vigentes os traços característicos da época histórica anterior
ao evento da república em Roma —> o que marca este período: os elementos da organização gentílica que
perduraram e os efeitos do poder real característico da dinastia tarquínia.

Primeiro período da História do Direito Romano:


“Roma do rex e das gentes”

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“Roma do rex e das gentes” - as duas instituições que marcaram a criação jurídica
primitiva dos romanos e serem estes os conceitos-chave para caracterizar as linhas
fundamentais do conteúdo das soluções jurídicas.

Nota: História da Roma monárquica - conhecimento através de histórias escritas em períodos posteriores,
ideologicamente orientadas para construir um passado à altura da grandeza de Roma no período em que
elas foram escritas. —> fiabilidade débil

Neste período, no topo da pirâmide hierárquica das estruturas religiosas, políticas e


militares romanas, estava um rex (rei) . A repartição da população de patrícios e plebeus
obedecia a um sistema piramidal com 10 cúrias por tribo, três tribos e um rei que
determinada os outros poderes. As gentes marcavam a organização social, política e militar
de Roma, determinando a forma e o conteúdo das normas e das soluções de Direito.

Rex

Tribo (10 cúrias)

Tribo (10 cúrias)

Tribo (10 cúrias)

2. As características da sociedade no período do rex e das gentes


Roma, pequena cidade da península itálica —> “A sua importância crescente, nos planos demográfico e
económico, com efeitos políticos na hegemonia dos territórios da Itália Central, determinou a sua destruição
pelos celtas.

Os Romanos cedo são influenciados por gregos e etruscos, desenvolvendo uma especificidade típica na
solução de conflitos resultantes de problemas cada vez mais complexos —> Ora, a criação jurídica adequada
para responder a estes novos conflitos requeria um ambiente aberto, inconformado e inovador, longe da
influência dos etruscos.
Surgiu uma crise política que contesta as formas vigentes de
decidir e de criar ius, bem como uma revolução nas
mentalidades e nos processos de julgar e de obedecer.

Rómulo (fundador de Roma) e os seus descendentes respeitaram as instituições - as assembleias populares e


o Senado -, após a morte do último descendente (Anco Marzio), o poder real foi usurpado por Tarquínio
Prisco, que era um nobre etrusco tutor dos filhos de Anco Marzio - este destruiu as instituições políticas e
passou a governar como rei absoluto exercendo um poder despótico.
Seguiu-lhe Sérvio Túlio que procurou introduzir reformas no sentido de uma reinstitucionalização do
poder político, mas estava muito condicionado pela elite que o apoiava na governação. Depois Tarquínio, o
Soberbo, reintroduziu o poder despótico absoluto, eliminando mas reformas introduzidas pelo anterior.
Foi o carácter absoluto, tirânico e arbitrário da governação de Tarquínio, que emergiu uma conspiração
palaciana promovida pelos nobres Bruto e Collatino, em 510 a.C.

QUEDA DA MONARQUIA - inicia-se o período de


transição para a república

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Com a queda da Monarquia, sucede-se um período de transição para a república -


processo de instabilidade social e política, demarcado por uma violência civil e desordem
que só terminou com a pacificação conseguida através da admissão dos plebeus nas
magistraturas supremas (formalizada nas leges Licinae Sextiae, em 367 a. C.)

- Efeitos provocados em Roma pela governação da dinastia dos Tarquínios:


Com Tarquício Prisco a realeza apareceu identificada a partir de um conjunto de símbolos
exteriores do poder (o assento curul, os litores, o manto de púrpura) que mediariam e afastam
aquele que exerce o poder político - o titular do trono - da comunidade. O elemento religioso e
simbólico substitui o político na legitimação do chefe da comunidade romana.
A base religiosa e, assim, “jurídica”, dos romanos era fundada no culto etrusco da tríade:
Júpiter, Juno e Minerva, bem como o hábito de recolher à análise das vísceras de animas sujeitos
a sacrifícios rituais para prever o futuro de ações políticas e militares.

Nota: mesmo que consideremos como factos históricos a origem política de Roma ligada aos reis de estirpe latina e
a fusão social sobre os latinos de tribo Ramnes localizada no Palatino com a população Sabino da tribo dos Tities,
situada no Quirinal, isso não tem relevância na construção do direito romano. O mesmo para o processo de
federalizarão que se seguiu.


Basta constatar que os grupos familiares e clientelares e fracos se foram agrupando às gentes mais fortes em
busca de proteção. 

A relação de pertença à gens era exclusiva (só se podia pertencer a uma) e esse vínculo protegido entre a pessoa e a
comunidade constituía uma espécie de pré-cidadania.

Os primeiros romanos eram proprietários rurais, designados patricii (patrícios), que em caso
de guerra integravam a cavalaria (equites), base do exército, e a massa popular conhecida por
plebs (plebeus). Os dois grupos viviam separados e os plebeus em relação de dependência em
relação aos patrícios. - Lívio (445 a.C.) escreveu que o tribuno Gaio Canuleio propôs a abolição do dever de
patrícios e plebeus casarem dentro do grupo respetivo. Foi a abolição desta proibição de casamentos mistos que
permitiu o início da homogeneização da comunidade romana e da paridade política e jurídica entre patrícios e
plebeus.

Então até a Lex Canuleia de 450/455 a.C., os casamentos entre pessoas dos dois grupos era proibido, tradição
que ficou expressa na Lei das XII Tábuas. Normalmente os patrícios cuidavam diretamente das propriedades, com os
familiares e os seus escravos; e as parcelas de terreno que não conseguiam explorar diretamente concediam in
precarium aos plebeus, que assim ficavam seus protegidos ou clientes. As relações de clientela são comuns a todas
as comunidades desta época. —> os clientes eram um grupo subordinado às gens , constituído por pessoas expulsas
de outros grupos, pobres desamparados, pequenos proprietários rurais sem o suficiente para substirem,
estrangeiros sem esperança e retorno, etc. Os clientes eram a principal fonte de poder externo da gens.
No plano jurídico, as formas de adquirir a condução de cliente eram a deditio - a submissão voluntária de um
grupo familiar ou político a uma gens; a applicatio - a submissão de um estrangeiro à proteção da gens; a
manumissio - instituto pelo qual o escravo deixava de o ser.

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Foi a mudança das condições económicas e sociais em Roma - com o consequente reequilíbrio
de poderes - que determinou uma erosão paulatina da organização gentílica e, assim, uma
desvalorização institucional das gens que desarticulou a clientela, contribuindo para uma
aproximação entre clientes e plebeus, na proteção comum que requeriam aos patrícios.
A aproximação entre clientes e plebeus levou inicialmente a uma confusão e depois a uma
identificação entre ambos os grupos que, finalmente, aparecem como um só, com a designação
de “plebe”.
Este sistema de organização da comunidade criou complexos vínculos de direitos e deveres
na vida económica, política, social e militar de Roma entre patrício (patronus) e plebeu (cliente/
colonus). Na tábua VIII, 21 da Lei das XII Tábuas ficou registada esta relação de tutela jurídica
assente na proteção e na assistência como deveres do plebeu.

Organizados em gentes unidas por cultos comuns, os patrícios tinham uma primitiva
organização comunitária da terra que foram perdendo com a institucionalização da
propriedade privada. 

A gens que antecede a civitas pode ser considerada como um conjunto natural de famílias no
território comunitário —> tomando a Lei das XII Tábuas como fonte, a gens é anterior à civitas e
tem a sua origem num vínculo parental agnatício (adgnatio) assente num patrimonium comum e
indivisível, numa espécie de consortium ercto non cito que surgia como comunhão entre os filli
in protestante à morte do ascendente comum. De início só as famílias patrícias estava
organizadas de forma gentílica. Mais tarde, por influência modelo patrício, o mesmo tipo de
organização estendeu-se aos plebeus.

Foi por influencia grega trazida pelos enfusco que os romanos adotaram a tática hoplite no plano militar, dando
prioridade à infantaria plebeia e secundarizando a intervenção da cavalaria, recrutada entre os patrícios, que
determinou a ascensão da plebe e abriu uma brecha na superioridade social, política, religiosa e militar do patrício,
nos finais do século VI a.C.
A organização militar do exercitas centuriatus permitiu a Roma iniciar a sua expansão submetendo as gentes
latinae e introduzir importantes reformas políticas internas que limitavam o seu papel. —> A ampliação do território;
as alterações num exército em mobilização permanente; e os problemas novos que eram suscitados requerendo
soluções criativas e inovadora = elementos essenciais da necessidade de uma transformação política.

A luta pelos plebeus pela paridade na ocupação de cargos e pela igualdade no acesso aos
recursos tem agora condições para efetivada com fortes possibilidades de vitória.

Atenção:
Em Roma a estrutura política (tribo, cúria, rei) pouco influenciava a organização comunitária em torno da familia
(assente na casa - domus - e no pater), das gentes e dos clientes. A família era a unidade-base da organização social
romana e caracterizava-se pela união sanguínea entre os seus membros, pela ligação a cultos religiosos
específicos, diferentes dos demais (sacra), e pela sujeição comum a um poder absoluto (manus; mancipium) do
pater familias.

Ter capacidade de gozo de direitos em Roma pressupunha ter os três status que integravam
a caput ou personalidade jurídica: status libertais (ser livre); status civitas (ser livre e cidadão
romano - não latino, nem peregrino); e status familiae (ser livre, cidadão romano e chefe de uma
família autónoma, no sentido de não estar subordinado ao poder de ninguém).

A pressão plebeia foi debilitando as bases religiosas e políticas em que os Tarquínios aceitavam
o seu poder real - até à revolta de Bruno e de Callatino que derrubou a monarquia.

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A partir daí a comunidade romana governada por magistrados com uma Lei das XII Tábuas
que regista, de forma adaptável, a parte mais significativa dos mores maiorum, como tradições
de uma moralidade comprovada e aceite por todos, passa a ter um designaste que lhe dá
unidade face ao exterior e coesão interna: populus romanus - ou também, dado o pendor
aristocrático do exercício do poder centrado no Senado: SPQR - sentas populusque romanus.

3. As características do ordenamento jurídico no período do rex e das gentes

Principal prioridade das comunidades - defesa face aos ataques externos - o que determinava a
organização política

Só que a prosperidade económica e a polícia expansionista etrusca levaram a um alargamento dos critérios de
concessão da cidadania e à criação de um exército diferente: maior e mais organizado. Nessa nova forma de
organização militar a “falange hoplits” era a infantaria (combatentes a pé) que detinha o papel princpal,
sobrepondo-se à cavalaria na decisão da batalha —> esta alteração do fator militar decisivo, determinado por uma
mudança das táticas militares, com a transferência do poder efetivo da cavalaria para a infantaria, refletiu-se, no
plano político, numa reivindicação de poder decisório da plebe, rompendo a hegemonia patrícia.
Rompida, no exército, a igualdade aritmética na distribuição de postos e honrarias militares em paz e de
partição do espólio capturado, o acesso e a ascensão política passam a ser também
determinados pela riqueza das pessoas e pelos prestígios das famílias assente em critérios
de natureza económica.

O exército de Roma continuou a ser denominado centuriatus (manteve a organização em centuriae - grupos
de 100 homens em caso de guerra) mas a distribuição dos soldados e dos postos no interior de cada uma
passou a ser feita com base no censo = determinada pela riqueza das famílias, com prevalência das proprio iure.
A cavalaria (patrícios - equites) estava dividida em 18 centúrias, seis das suas denominadas sex suffragia.
A infantaria (plebeus - pedites) integrava 170 centúrias, divididas em 5 classes:
1. 80 centúrias; 2. 20 centúrias; 3. 20 centúrias; 4. 20 centúrias; 5. 30 centúrias —> cada uma delas com uma
centúria de seniores ( 45-60 anos) e de iuniores (18-44 anos).
Resta um conjunto de pessoas que habitava Roma (proletari) mas não integrava o sistema político, não estavam
recenseadas. Estes foram organizados em 5 centúrias: tubicines; cornicines; abri aerari; e abri tignari; accensi.

Neste primeiro período dominado pelo rex e pelas gentes, o censo era determinado
sobretudo pela propriedade do património imobiliário = atingia os proprietários fundiários
inscritos nas tribos fixando a sua pertença a um certo grupo pelo censo, através do quantum
de riqueza assim avaliada.
Esta nova organização política aproveitou as velhas estruturas constitucionais mantendo as
centúrias não só como unidades territoriais de recrutamento militar (milites), mas também
como unidades de voto nos comícios.
Em virtude da organização por classes
das centúrias, a votação por centúria
mantinha o peso político dos grandes
proprietários fundiários e da cavalaria,
que viam, na primeira classe, garantida a
maioria absoluta dos votos.

Esta divisão/integração das pessoas em grupos a partir da riqueza, exigiu um
aperfeiçoamento de métodos e de estruturas que sustentavam a atividade classificadora
agregada no censo, presidida pelo rex e depois transferida (443 a.C.) para uma magistratura: a
censura.
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Nota: O rex não abdicou de nenhum dos seus poderes, apesar do valor crescente dos comícios centrais e da
influência das suas deliberações junto do rex.

Foi esta nova forma de organizar e de abrir o acesso à decisão político dos anteriores
excluídos que permitiu preparar a comunidade romana para o avento da república e para uma
unidade de estruturas jurídico-políticas que não levassem a uma divisão territorial em torno dos
dois grupos sociais com interesses bem definidos e conflitantes: os patrícios e os plebeus.

CRISE NA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA 



Antes - o privilégio social e o domínio político eram determinados pela pertença a uma
gentes patrícias de origem
Agora - tais elementos de dominação política e social têm uma base económica = são
determinados pela riqueza e pela propriedade fundiária.

Os plebeus podiam ascender socialmente e conquistar maior poder político —> o caminho
era enriquecer e esse fazia-se pelo negócio. A atividade mercantil era o motor de
desenvolvimento comunitário e de poder político.
Roma crescia no plano económico e a mobilidade permitida era causa e efeito da necessidade
de reordenar a sociedade, em paz, através de regras jurídicas de organização política. 


4. Os orgãos do governo quiritário

4.1 O rex

Era o rex o titular: do imperium militae (para defender militarmente Roma); do imperium domi
(para administrar a cidade); e do poder de mediação divina.

imperium militae: chefia do exército, podia delegar poderes no magister poluli (para chefiar o
exército), no magister equitum (para comandar a cavalaria), nos quetores parricidii (para
perseguirem e reprimirem os crimes mais graves). 


imperium domi: permitia ao rei resolver os aspetos da vida coletiva na relação das pessoas com
a comunidade e dormir os litígios entre as pessoas, nomeadamente através da aplicação das
designadas legees regiae - que eram resultado da formalização de regras consuetudinárias
ordenada pelo rei.

As leges regiae recolhidas naquilo a que foi convencionado pela doutrina chamar ius
papirianum (coleção de leis deste período, entre Rómulo e Tarquínio) não permite dizer que o
rex tinha um poder normativo próprio como expressão do poder político - consiste num
conjunto de regras normalizadoras de máximas consuetudinárias que circulavam oralmente e de
rituais religiosos que se cumpriam na liturgia de então).

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poder de mediação divina: era fundamental - base do seu poder político. O carácter sagrado da
realeza e o poder religioso que detinha no seu titular era tão forte que, depois do processo que
se separou o jurídico e o político do religioso em Roma, culminando com o fim da monarquia,
permaneceu o rex sacrorum que não tinha poderes políticos, militares ou jurisdicionais, mas
detinha o poder religioso com grande prestígio na comunidade.

Nota:
Embora a doutrina esteja dividida sobre a forma de escolha do rex romano, podemos considerar seguro que o rei de
Roma não era eleito em processo político normal nem designado pelo predecessor, ou aclamado pelos soldados;
mas escolhido pelos deuses que revelavam a sua escolha através de sinais (voo das aves, por exemplo).

Quando o rei morria, o seu poder sagrado de ler os auspícios ia para o Senado, como assembleia de anciãos com
poderes de aconselhamento ao rei, que elegia entre os seus membros um interrex pelo prazo de cinco dias. Era o
interex que, lendo os auspícios, indicava o nome do novo rei, de entre os senadores, a propor aos cometia curiata.

Submetido a votação, nesse orgão, o nome proposto era aprovado (creatio), procedendo-se seguidamente à
inauguratio, que era uma cerimónia religiosa de aceitação pelos deuses de novo rex e uma investidura nos poderes
grados supremos e no poder político “soberano” (imperium).
Logo, era o rex p titular dos poderes políticos supremos na relação com a comunidade - estava investido de
poderes religiosos superiores na relação com as divindades. Apesar da lex curiata de imperio e da necessidade de
uma votação em assembleia, a designação de um nome pelo interrex, por ser este o único a poder revelar a vontade
dos deuses, mais do que condicionava todo o processo de escolha e forma de exercício do titular do poder político.

O fundamento do poder político e militar do rex era mágico e religioso, sendo o cargo vitalício. A dúvida cedo
lançada em Roma sobre o fundamento religioso do poder de julgar, criando soluções para resolver pacificamente os
conflitos surgidos, teve óbvios efeitos na fundamentação religiosa e irracional do poder político e militar.
O poder de um rei com fundamento exclusivamente religioso não poderia resistir numa comunidade que
racionalizara os processos de criação jurídica, afastando o sagrado da solução de litígios pelos ius.

Embora o instituto do interregnum garantisse que na falta do rei o poder sacerdotal de interpretar os auspícios
regressava aos patres (Senado), o que revela um retorno à base em que assenta o poder do rei, era ele rex o cefe
político por ser nele que estava concentrado o poder sacral.
O interregnum apenas garantia a continuidade do imperium político que mantinha a comunidade agregada.

4.2. O Senatus

O Senado era o orgão que representava o patriciado, isto é, aristocracia romana. Como orgão
consultivo do rei, só este o podia convocar.
Na monarquia primitiva, o Senado não era apenas uma assembleia constituída pelos chefes das
gentes - o número de membros do Senado (patres) não correspondia exatamente ao número de
gentes.

Não existem elementos para determinar com precisão o número de senadores em cada reinado, mas sabemos que
de 100 passou a 150 e que, no reinado de Tarquínio Prisco, existiam cerca de 300 senadores. Apesar de não se
conhecer os critérios de alargamento do número de senadores há relembrar quais os efeitos: o surgimento de um
novo e dinâmico grupo social - as minores gentes; uma diminuição da autoridade e do prestígio do Senado, tanto no
plano social como na relação política com o rei.

Competências do Senado (no período monárquico): interregnum (forma de garantir a


continuidade dos auspicia ); auctoritas (que permite a ratificação das deliberações de outros
orgãos); ius Belli et pacis (direito de concluir os foedera - tratados internacionais); conselho e
auxílio ao rei.

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4.3. Os comitia curiata

Comitium curiatum curia = coviria - reunião de homens = orgão que reunia todo o
populus de Roma

(Os concilia reuniam apenas a plebe romana)

A cidadania estava dividida, desde Rómulo, em 3 tribos (Ramnes, Tities e Luceres), chefiadas
por um tribuno; cada tribo integrava 10 cúrias, chefiadas por um curião e cada cúria estava
subdividida em 10 decúria, cada uma delas chefiada por um decurião. Só com Sérvio Túlio as 3
tribos originárias foram substituídas por 9, organizadas com critérios geográficos.

Passaram a existir :
4 tribos urbanas - Esquilina; Collatina; Palatina e Sucusana 

3 tribos no ager romanus

Logo, o critério de integração nas tribos urbanas com base nos domicílios foi, no caso das
tribos rústicas, substituído pela propriedade fundiária. Assim, o cidadão proprietário de um
fundo rústico era inscrito na tribo a que pertencia o distrito rural onde estava situado o fundo.
Os restantes (também os proletari ) eram integrados, de acordo com o domicílio nas tribos
urbanas.

Nota: Os vínculos que ligavam os membros da mesma cúria eram de ordem familiar (genera
hominum) e de linhagem. Assim, o sistema político romano inicial tinha uma estrutura piramidal
assente em 300 decúrias, 30 cúrias, 3 tribos e um rei.

Entende-se que foi pacífica a atribuição de competências legislativas próprias aos cometia
curiata. Aqui eram votadas as propostas de lei do rei que, uma vez aprovadas, vigoravam como
leves regiae. Nestas assembleias aprovava-se, também, o nome do futuro rei de Roma proposto
pelo interrex, assim como era nos cometia curiata que ocorria uma segunda votação para
reconhecimento do novo rex nos poderes de imperium.
Eram constituídas por membros de pleno direito clientes e fillii familiarum, submetidos à
potestas de patres - a falta de autonomia decisória põe em causa a possibilidade de
deliberação autónoma das assembleias a que estes dependentes pertenciam.

Intervenção dos cometia curiata quanto a soluções políticas e jurídicas durante a monarquia não
era expressa por uma deliberação - vontade argumentada em discussão e expressa em votos -
mas por um ato de adesão/aceitação ou rejeição a uma questão feita por um magistrado. Desse
modo, é o magistrado que determina o conteúdo da solução e a assembleia limita-se a aceitá-la
ou não.

A passividade e a mera adesão genérica às soluções construídas pelos proponentes das


assembleias do populus durante a monarquia revelam a importância do rex em todos os planos
da criação de soluções e na tomada de decisões. Tudo o resto da estrutura política-orgânica de
Roma existia apenas para auxiliar o rei na tarefa de governar com poderes concentrados.

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Lex curiata de imperio - ligação entre rex e populus, correspondendo a uma estrutura da civitas
que já não se bastava com uma mera investidura senatorial para legitimar o rei no seus poderes.
O mesmo serve, além das competências legislativas e executivas, para as funções jurisdicionais
dos comitia curiata.
Os comitia cururiata eram também importantes formulação de regras concretizaras dos mores
maiorum no que respeitava às relações intersubjetivas e na disciplina normativa dos negócios.

Na monarquia - a comunidade estava politicamente organizada com base na família, é normal


que as alterações e decisões que incidiam na estrutura familiar, ou modificavam as relações
internas ou a sua rotina institucional, fossem discutidas e deliberadas nas assembleias do
populus, que refletiam a forma familiar de organização comunitária.

No entando, a estrutura gentílica tradicional, assente na família, que garantia uma hegemonia
dos patrícios romanos, estava em crise - pois a pressão demográfica exercida por aqueles que
chegavam a Roma determinava a emergência de uma força social indiferenciada reunida na
plebe, atenuando o peso político do patriciado.

4.4. Os collegia sacerdotalia

Os collegia sacerdotalia não podem ser considerados um orgão do governo quiritário do


período monárquico de Roma, mas eram uma importante instituição com forte poder de
influência sobre as decisões políticas.

4.4.1. O colégio dos pontífices

“Pontífices” = sacerdotes encarregados de guardar as pontes sobre o rio Tibre - pontes a partir das
quais se realizava o comércio e a comunicação de uma cidade

O colégio dos pontífices era uma instituição que protegia os interesses das famílias patrícias
no confronto com o rex, invocando que eram elas que detinham os poderes político-religiosos
que o rei devia respeitar - pela religião limitavam os poderes políticos do rei na sua relação com
os patrícios.

Poderes político-religiosos dos pontífices: 



- fazer os sacrifícios rituais;

- execução dos rituais litígios supremos de Roma (fixar a forma para a validade dos atos e a estrutura das
ações judiciárias com o relevo que adquiria na formulação do ius civile e a determinação do calendário) 

- o desenvolvimento do ius e do fas, através do exclusivo na interpretação do mores maiorum e
no exercício da jurisdição 

- supremacia hierárquica e o exercício de jurisdição sobre “magistrados do culto” como os
flamines e as vestais

Foram adquirindo um saber técnico crescente na criação de soluções para resolver de forma
pacífica os litígios que surgiram e eram vistos como depositários de memória coletiva inscrita nos
mores maiorum que eles sabiam manter vivos pela adaptação permanente da tradição à
realidade.
Nota: não havia distinção entre direito e religião, o ius sacrum e o ius humanum - cabia aos pontífices a
interpretação das regras de ius humanum, como resultado da sua atividade de garantir a observância do ius sacrum.

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Validade jurídica - assentava no cumprimento de um conjunto de formalidades e rituais de


natureza sacral que só podiam ser praticados, ou tinham de ser presenciados, pelos sacerdotes.

4.4.2. O colégio dos áugures

Os romanos, procuravam legitimar na vontade divina: a organização social; as decisões sobre


a guerra e a paz; e as soluções para os conflitos intersubjetivos.
Uma das formas de encontrar a expressão da vontade dos deuses - auguria = procurando em
todo o tipo de acontecimentos indícios dessa vontade; outra era atender aos auspicia -
presságios transmitidos pelos voos das aves. formas de organização politico-
sacerdotal completamente diferentes

Auspicium = instrumento fundamental no exercício do poder do rei (determinava a sua ação e o


tempo de a executar) - favoráveis ou desfavoráveis informavam o rei como e quando agir para o
êxito da ação

Augurium = implicava a possibilidade de uma decisão que se pretendia tomar ser afastada,
porque o que se previa era uma efeito negativo se ela fosse de facto efetiva - densificar as condições
para um melhor exercício da ação humana

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• Segundo Período - Transição: monarquia/república 



(509 a.C. - 367 a.C.)

1. Generalidades sobre a designação deste período

Finais do século VI a.C. os romano expulsaram Tarquínio e os seus filhos de Roma e passaram a ser
governados por 2 chefes por ano: praetores ou consules. - poder vitalício e monocrático do rei nunca mais
foi admitido pelos romanos.

Nota: A anualidade instituía a regra de responsabilidade daquele que exercida o cargo.


Cessadas as funções respondia por aquilo que tinha feito no exercício do cargo.
A dualidade de pessoas estabelecia uma regra que limitava a possibilidade de abuso de poder
no exercício de cargos supremos, através da intercessio do outro. 

- Após a explusão do rei, governaram os primeiros magistrados - o que caracterizava as magistraturas era a sua
independência

504 a.C. - expansionismo etrusco sofre um sério revés com a derrota de Arunte - esta derrota
limitou a possibilidade de comércio que já estava nas mãos dos plebeus e determinou um regresso
a uma economia de base agrícola, com o inevitável retorno a uma estrutura de poder assente na
propriedade fundiária.
Efeitos imediatos desta situação: tensão social aumenta com os plebeus numa situação de
revolta para evitar o regresso à posição que tinham antes da expansão comercial; o governo dos
“magistrados”, é obrigado a uma guerra de expansão no Lazio para conquistar terras para a
agricultura.

Atenção: a necessidade de mobilização constante do exército e o papel indispensável da plebe


na defesa militar de Roma obrigaram a rever o retorno às estruturas políticas ancestrais. O poder
militar dos plebeus, possibilitado pelas guerras constantes em que Roma se envolvia, atenuou a
“vingança patrícia” e determinou a manutenção das emergentes estruturas do poder republicanas.

Mas a formação da estrutura constitucional da república foi 



moldada no conflito entre plebeus e patrícios em 494 a.C.

A plebe precisava de encontrar elementos uniformizadores que unissem o grupo


contra o bem estruturado participado romano. A luta pela igualdade política e pela paridade face
ao Direito. Os plebeus tinham liberdade (não eram escravos) e cidadania na civitas romana MAS eram
privados de poder (auguria, connubium, ager publicus, do acesso às magistraturas; dos direitos
inerentes à liberdade cívica) e considerados de condição inferior. —> MOTIVO PRINCIPAL DA
REVOLTA DOS PLEBEUS: A LUTA PELA AEQUATIO IURIS - de forma a poderem participar
plenamente na vida política da civitas e na vida social de Roma

- O que ajudou a alcançar tal “cargo”// elementos fundamentais da coesão identitária de Roma: 

1. abolição da proibição de casamentos entre patrícios e plebeus

2. Igualdade judiciária

3. Equiparação no acesso a cargos do Estado
4. Prerrogativas inerentes à libertas cívica
5. Fim das restrições na aquisição de terra
6. Abolição do vinculum pessoal do nexum - que colocava o credor com poderes ilimitados sobre o
devedor, incluindo a possibilidade de o vender como escravo ou mesmo de o matar

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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2. Limitação ao arbítrio do julgador: a Lei das XII Tábuas

Uma das principais bandeiras dos plebeus era a limitação do arbítrio do julgadores - rex,
sacerdotes e supremos magistrados da república 8conflitos resolvidos com base em regras consuetudinárias,
oralmente interpretaras pela aristocracia patrícia

Parcialidade das sentenças fundada no exercício de um imperium pleno que caracterizava as


magistraturas e a interpretatio sacerdotal da vontade divina; a única forma de conseguir alterar a
situação era vincular o julgador à aplicação de um conjunto de normas escritas que era igualmente
aplicadas quer a patrícios quer a plebeus.

- Iniciada a luta dos plebeus pela aprovação de um corpus de leis a vigorar para os dois grupos sociais, pelo tribuno
Terentilio, o processo arrastou-se até 451 a.C. - Neste ano, suspensas as magistraturas orid´narias e foi investido um
colégio de 20 patrícios, com plenos poderes políticos e militares, para a redação das leis.
- 450 a.C. estavam preparadas para publicação as leis decenvirais —> a possibilidades de leis que se aplicavam na
resolução de casos estarem publicadas em texto oficial, serem conhecidas por todos, não apenas significaria uma
maior segurança das partes e uma maior estabilidade normativa e interpretativa.
- 449 a.C. destituído o II Decenvirato e regressam as magistraturas ordinárias, numa tentativa de normalização
institucional da vida política em Roma.
Posteriormente foram nomeados 2 novos cônsules (após a expulsão de Apio Claúdio - recusava-se a abandonar o
cargo fundado nos amplos poderes de que dispunham os decenviros) - Valério Potito e M.Horácio Barbato, que fizeram
publicar a Lei das XII Tábuas e as três leges Valeriae Horatiae, com disposições favoráveis aos plebeus.

1º - Lex Valeria Horatia de Plebiscitis - deu força vinculativa às deliberações das assembleias populares, para todo
o popuulus
2º - Lex Valeria Horatia de Provocatione - criação de 9 novas magistraturas que não ficavam submetidas à p
rovocatio ad populum
3º - Lex Valeria Horatia de Tribunicia Potestate - reconheceu o carácter de sacertas às magistraturas plebeias, com
o efeito de inviolabilidade da pessoa dos tribuno

3. Impedir qualquer tentativa de reinstalar a monarquia: a provocatio ad populum

Luta pela separação absoluta entre funções religiosas e os cargos públicos ligados às funções
políticas e militares, até aqui concentrados na pessoa do rei - uma das marcas caracterizadas do período
de transição.

Nota: O poder de mediação entre os deuses e os homens, que permitia ao rei exercer funções
de chefe político e militar - passou para o rex sacrorum e depois para o pontifex maximus. O
imperium, que permitia ao rei o uso legitimo da força em defesa da comunidade, passou para os
magistrados.
Contudo, apesar das características anuais, eletivas e duais das magistraturas, ainda era necessário garantir a
aplicação das mais graves e severas medidas repressivas e penas máximas não ficasse completamente no arbítrio dos
patrícios que as exerciam. Por isso, foi criada uma contramagistratura: o Tribuno da plebe; e um instituto assente na
deliberação popular: a provocatio ad populum —> 509 a.C. - permitia a um cidadão condenado à morte por um
magistrado com imperium para tal evitar a condenação pedindo a instauração de um processo nos comitia.
O processo comicial tinha 2 fases:
- inquérito (anquisitio) : feito pelo magistrado para apurar a real existência de um crime 

- resposta da assembleia (rogatio) : através de uma deliberação, que se pronunciava sobre a pena a atribuir

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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4. Abrir as magistraturas aos plebeus: os tribunos militum consulari potestade

abolição do dever de casar dentro do grupo + legitimação dos casamentos entre patrícios e plebeus =
início da relativa integração social, política e jurídica com relevo inicial apenas no plano “constitucional“

Só com a entrada dos plebeus na vida familiar dos patrícios e a sua participação nos sacra, dada a
centralizado da família na organização política e no exercício de direito inerentes, foi possível a
abertura dos auspicia aos plebeus.

Tradição historigráfica romana narrada por Tito Lívio: a cidade foi governada entre 444 e 367 a.C. ora por cônsules
ora por tribuni militum, em alternância que resultava da abertura de cargos políticos a plebeus. Com efeito, os tribuni
militum eram um colégio de comandantes militares que integravam também plebeus - logo, era uma magistratura com
acesso aberto à plebe.

Origem da abertura: exigências de defesa militar que o Senado tinha de valorizar nas suas
deliberações relativas à eleição de cônsules e tribunos. O Senado por si só não abriria mão dos
privilégios patrícios, mesmo que as condições bélicas impusessem a abertura de magistraturas aos
plebeus - Foi preciso que a componente militar plebeia impusesse ao Senado a sua presença nos
cargos supremos do “Estado”.

É possível que o Senado tenha usado o tribunos militum para abrir portas, em caso de ser necessário um compromisso,
para soluções que carecessem da força da plebe.
Imperium consulare atribuído ao chefe militar que podia ser plebeu - tinha sempre a vantagem de juntar os poderes
supremos da política e da guerra, conectando-os. Em caso de conflito militar, permitia afastar um dos principais factores
de divisão entre plebeus e patrícios: o cônsule. Substituía-se o cônsulo pelo tribunus militum - Vantagens deste sistema:
aumentava a ligação política e a ação militar, entre decisores e executantes, e operário não era grande para o poder
patrício, já que os tribuni militum não tinham auspicium, não podendo, por isso, exercer a dictatorem dicere.

Senado - árbitro possível dos conflitos e o garante da continuidade política de exercício


institucional do poder efetivo de Roma.
A crise constitucional resultante do conflito perante entre patrícios e plebeus requeria dos
senadores um perfeito conhecimento das situações a ponderar e um forte sentido de oportunidade
de escolha, por eleição, dos magistrados mais capazes para cada momento. Na escolha do tribunus
militum - era ouvida a assembleia central e ponderado o nome a votar pelas suas capacidades
militares e políticas, já que iria exercer um poder idêntico ao do cônsul. —> só não exercia os poderes que
resultassem da titularidade do auspicium = não podia nomear o ditador; não podia nomear um colega para ele exercer a
magistratura, preenchendo eventuais lacunas no exercício do poder colegial; não podia receber a honra do triunfo; nem
ocupar a posição de um cônsul que tivesse, como ele, exercido efetivamente um ano a cargo.

A magistratura do tribunus militum consulari potestate - uma das primeiras senão a primeira a que
se aplicou o principio/regra da colegialidade - possui o direito de veto nas decisões dos colegas (o
que aliás bem se explica pela desconfiança existente de início, em virtude de participarem plebeus na magistratura)

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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5. A paridade jurídico-política entre patrícios e plebeus: as leges Liciniae Sextiae

367 a.C. - aprovadas as leges Licinae Sextiae - formalizaram as reivindicações históricas dos
plebeus quanto à paridade que consideravam necessária para se sentirem romanos em Roma.

Lex Licinia de Aere Alieno - foi concedida aos devedores a possibilidade de deduzirem no valor
do débito a pagar os montantes dos elevados juros já pagos e a faculdade de uma divisão do
montante global do débito em três prestações a pagar anualmente.

Lex Licinia de Modum Agrorum - desbloqueada a forma de promover uma redistribuição:


fixando um limite à possibilidade de apropriação de terras públicas e determinando que nenhum
pater familias podia possuir mais de 500 jeiras de terra

Lex Licinia de Consule Plebeio - concedida não só a possibilidade de os plebeus ascenderem


ao consulado, mas também a de ser reservado um dos dois cargos do cônsul a um plebeu
Nota: só a partir de 320 a.C. esta norma passa a ser regularmente cumprida, ela determina uma
evolução significativa na participação política dos plebeus.

As questões jurídicas suscitadas pelos casos de dívidas e a forma como eram resolvidos em juízo determinou um
conjunto de medidas pontuais que pela habilidade política de quem as colocou, lutou e negociou, redundaram numa
profunda reforma constitucional.

A abertura das magistraturas aos plebeus introduziu a possibilidade de uma reforma social
necessária para o fortalecimento de Roma como uma potência na Antiguidade, mas sobretudo
supôs uma profunda reforma de mentalidades com efeitos na estrutura jurídica de organização de
acesso ao poder e do seu exercício; bem como do processo de criação e de aplicação das regras
jurídicas.

Progressão Cronológica desta revolução

449 a.C. - Lex Valeria Horatia de Plebiscitis: a natureza normativa dos plebiscitos é formalmente
reconhecida, obrigando a plebe com força de lei
443 a.C. - o tribuno militar com poder consulares é aberto aos plebeus
421 a.C. - é aberta a questura
367 a.C. - o consulado é franqueado aos plebeus (a Lex Genuncia - 342 a.C. - obriga a que um dos
dois cônsules tenha de ser plebeu)
366 a.C. - os plebeus podem ser edis curúis
356 a.C. - podem ser censores (a Lex Publilia - 339 a.C. - obriga a que um dos censores seja sempre
plebeu)
351 a.C. - os pretores também podem ser nomeados ditadores
337 a.C. - podem ser pretores
312 a.C. - a partir da Lex Ovinia podem entrar para o Senado
287 a.C. - Lex Hortensia de Plebiscitis fixa que os plebiscitos obrigam, como leis, tanto plebeus
como patrícios
287 a.C. - o tribuno da plebe, como senador, pode convocar o Senado para solicitar a auctoritas
patrum para as propostas que apresentará aos comícios da plebe

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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• Terceiro Período - O populismo romano e a res publica



(367 a.C. - 27 a.C.)

1. A designação do período

Res publica (res populi) - não foi para os romanos, a expressão síntese aplicada para referir o conjunto organizado de
pessoas que vivia em Roma, nem os jurisprudentes a aplicavam em setindo técnico - jurídico com o fim de designarem o
“Estado” ou a maniestas (soberania) de Roma. —> res publica = património do populus - posteriormente passou a ser
usada com uma feição mais política mais vasta, sendo no Principado a ser usada com objetivos de contraposição jurídico-
política ao poder exercido pelo princeps.

Após as leis Liciniae Sextiae - divisão e hierarquia das magistraturas no âmbito de uma
organização constitucional que colhia nas instituições que se foram gerando a forma de as conectar
num sistema de regras e princípios que garantisse estabilidade e continuidade ao modelo político-
institucional, legitimado e preservado pelo Direito

Características essenciais do regime “constitucional”:

1. O poder é exercido em nome da comunidade e entregue aos magistrados detentores de


imperium;
2. O Senado, dotado de auctoritas política, é o orgão de conselho e consulta dos magistrados,
garantindo a continuidade institucional do poder público de Roma em caso de crise;
3. O populus, onde assenta a maiestas, passa a ter uma organização institucionalizada que expressa
as suas posições através de deliberações das suas assembleias

O pendor institucional e aberto da organização do poder político, com mecanismos de resolução


de litígios e formas constitucionais de atenuar tensões políticas e sociais, faz da república o modelo
de governo da civitas em expansão mais duradoiro de sempre

2. Os cidadãos do populus

Designação dos cidadãos romanos - quirites (quiris) MAS civis = romano integrado no ordenamento central - é a
designação jurídico-política europeia

Podia ser cidadão romano aquele que:



- nascesse em Roma de pais romanos ou de pai romano e mãe estrangeira, desde que esta tivesse
adquirido o direito de casar-se com um cidadão romano, unidos por matrimonium iustum;

- nascesse de mãe romana mesmo fora de um casamento válido;

- tivesse autorização de um magistrado para tal;

- ou a que fosse concedida a cidadania pela comunidade;

- e, já mais tarde, com a res publica em mais de metade, por ter sido libertado da escravatura

A aquisição da cidadania e dos direitos e deveres inerentes era uma questão jurídica, o que abria a cidade ao exterior
e a um grande número de pessoas que podiam adquirir o estatuto de cidadão, fosse qual fosse a sua origem geográfica,
étnica, religiosa ou outra.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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O cidadão romano participava na vida da cidade: 



- através da escolha dos magistrados e da votação das propostas de lei apresentadas pelas
magistrados;

- contribuía com serviço público para a comunidade (munus); 

- servia nas legiões

- contribuía, quando era assim decidido em assembleia, com um tributum (não era um imposto ordinário e
regular) em caso de dificuldade financeira da comunidade 


Só com a res publica avançada e pela necessidade de integração sucessiva das pessoas dos territórios militarmente
ocupados - surgiu uma categoria de cidadão com direitos limitados = civitas sine sufrágio.
Nota: nem todos os cidadãos tinham a possibilidade de eleger e fazer-se eleger para uma magistratura

Devido à limitação da participação política dos cidadãos e pela mediatização institucional das
decisões coletivas, houve ao longo da história política de Roma um desvirtuamento progressivo dos
ius auxilii e da provocatio dado ao tribuno da plebe na sequência da luta entre patrícios e plebeus
que está no seio da fundação de um regime caracterizado pelas magistraturas e pelas leis votadas em
assembleias.

plano da participação cívica - as estruturas sociopolíticas da república são condicionadas pelo predomínio
aristocrático. Aequa libertas, ligada aos patrícios, se sobreponha sobre a igualdade entre cidadãos. Só a reivindicação
plebeia de ligação libertas-igualdade, por pertença à mesma comunidade política, socializa progressivamente a
participação política, embora a prática mantenha o privilégio.

3. As assembleias do populismo

Assembleias populares - elementos centrais de todo o ordenamento constitucional da república romana 



Comitia - reunia todos os civis Concilia - reunia apenas os plebeus

principais assembleias da república foram: os comitia curiata; os comitia centuriata; os comitia tributa; os
concilia plebis

3.1. Os cometia curiata

O populus, como conjunto dos cidadãos (cives), exercia o seu poder reunido em assembleia
designadas comitia. Os cometia distinguem-se assim dos concilia, enquanto aqueles são uma reunião
de todo o povo em assembleia, estes são reuniões da plebe.

Os cidadãos estavam organizados em cúrias, centúrias e tribos para exercerem os seus direitos
políticos - votarem as leis propostas pelos magistrados, em assembleias por eles convocadas, de uma
forma mediatizada através de instituições que lhe retirava, enquanto cidadãos, poderes de iniciativa
política ou de propositada autónoma.

Assembleias mais antigas - eram os cometia curiata - a sua função principal era elegerem o rei, para um cargo vitalício,
e os 100 membros do Senado, designados patres. Tinham poderes militares e integravam uma maioria significativa de
patrícios e alguns plebeus, refletindo a organização do exército romano.

Curiae - 30 membros e reuniam em grupos de 10. Cada grupo de 10 (um terço) era um tribus. Mantendo o pedir militar, a
curiae representava toda a comunidade em que cada uma das três tribus era u grupo de cavalaria de que dependia, pôs
rua vez, um grupo de infantaria: a centuriae.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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solenidade da investidura dos magistrados eleitos nos comitiacuriata, com ligação às antigas competências
de inauguração do rei, revela que a separação entre o sagrado e o profano na criação de soluções jurídicas na
república não beliscou a relevância sacral da tomada de posso de um eleito em cargo púbico para exercer
imperium.

Os cometia curiata - devido à limitação vinculada a tratar somente de questões de índice sagrado - deixam a
decisão política para os cometia centuriata. —> estrutura base do exército hoplita = sobretudo a infantaria de
matriz plebeia, reunida em assimbleia para tratar de questões políticas - questões relativas à guerra e à paz.

Com a separação entre política e a religião, os comia curiata, integrando 30 litros (um por cada cúria), ficam
reduzidos ao cumprimento de um conjunto de atos vetustoa, solenes e com efeitos sacrais.

Nota: com a república os comitia curiata entram em decadência. 


3.2. Os comitia centuriata

Comitia centuriata - expressão do poder crescente da plebe após a introdução das reformas no
exército que valorizaram as táticas interpretadas pelas infantaria, tornando-o determinante no desfecho
das batalhas.

Cada cidadão votava na respetiva centúria, determinando a maioria simples o voto que vinculava
aquela centúria na votação da totalidade das centuriae. Aí também era por maioria que se obtinha o
resultado final dos comitia centuriata.
A metodologia das votações em ligação à divisão dos romanos por classes, propriedades e privilégios
corresponde a uma complexa aritmética política que tem por fim garantir a supremacia dos patrícios.

Os cometia centuriata (comícios centuriais) - as mais importantes assembleias populares da


república. Convocadas por um magistrado cum imperio e reunidas nos campus martius seguindo uma
rigorosa formalidade, estas assembleias tiveram como primeira grande competência, atendendo à sua
origem militar, aprovar as declarações de guerra.

após a progressiva afirmação das sua força política, foram estabilizadas como competências suas:
- o poder de eleger cônsules, pretores, ditadores e censores (magistrados maiores);
- Confirmar os censores;
- Aprovar as leis propostas pelos magistrados;
- Formalizar declarações de guerra e tratados de paz;
- Dar veredictos sobre a vida ou morte dos acusados (iudicium)

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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3. 3. Os comitia tributa

Comitia tributa - surgiram após a queda da monarquia e sempre tiveram poderes de natureza civil

A base de organização destas assembleias é territorial = os participantes percebem a uma mesma


circunscrição administrativa do território de Roma designada tribus (embora não seja possível
estabelecer nenhuma conexão com as três tribos que estão na base da repartição de votantes nos
comitia curiata).

Os comitia tributa são assembleias deliberativas de todos os cidadãos, organizadas por tribos,
convocadas e presididas por uma magistrado maior. O voto era expresso e individual no âmbito da
tribo.

séc. V a.C. - existiam cerca de 20 tribus em Roma


Quatro estavam dentro do perímetro da cidade (tribus urbanae) e as restantes nos arredores (tribus rusticae) -
estas últimas foram aumentando de número à medida que aumentava o território conquistado e melhoravam as
condições de assentamento das populações

Atenção: com um território extenso e mantendo o número de 35 tribos, o sistema eleitoral tornou-se complexo e
os desvirtuamentos provocados pela necessidade de agregar pessoas e comunidades às tribos já existentes
determinou um pagamento de matriz territorial a favor de uma estruturação meramente pessoal da participação
eleitoral dos cidadãos nestas assembleias.

Competências dos comitia tributa:

- votação das leis sobre assuntos de menor relevância (leges tributae);



- eleição (creatio) de magistrados menores e dos tribuni militum;

- atribuições religiosas residuais;

fixação de penas pecuniárias para as infrações detetadas s
Os comitia tributa votavam deliberações por maioria da tribu e não dos cidadãos com direito de voto,
em virtude dos equilibrados políticos a manter entre as quatro tribus urbanae e as restantes e
majoritárias tribus rusticae.

3.4. Os concilia plebis


nota: Esta assembleia reune apenas a plebe, magistrados que convocam - magistrados plebeus para os concilia

Concilia plebis - eram assembleias que, com a Lex Hortensia de 287 a.C. instituindo em definitivo a equiparação
entre patrícios e plebeus, passaram a ter importantes competências legislativas na cidade - votação de uma
série de medidas que introduziram reformas profundas no ius civile.

Convocados pelos magistrados plebeus (tribuno e aediles plebis), sem necessidade de


previamente tomarem os auspicia, os concilia plebis reuniam no interior do pomerium, habitualmente
no forum, e tinha como competências: eleger os magistrados plebeus; votarem na plebiscita;
exercerem o iudicium para os crimina puníveis com multa.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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4. O populus romanus: território e propriedade

A aquisição estável de territórios era um dos principais desideratos das guerras itálicas decididas nas assembleias
romanas, o que implicava a legitimação jurídica dos confiscos e das expropriações de terra e da sua ocupação por
romanos, ou integrados em colónias ou como proprietários.

Âmbito da organização política de base territorial - há que salientar a res agraria e, mais tarde, a propositura de leis,
pelos Gracos, que permitiram a disciplinas normativa de uma das questões que constitui fundamento do próprio “Estado”
romano.

Política agrária - intimamente ligada às políticas de concessão de cidadania (participação política)


e colonial e estas à política externa

Lex Sempronia, 133 a.C. - política agrícola de Caius com expressão colonial 

(Proposta de constituição de uma colónia em solo de Cartago)
Não se trata de uma questão, só agrícola, nem se pode reduzir a 

questões de terra: a uma luta entre privados pela propriedade dos solos 

suscetíveis de apropriação; ao problema de constituição um ager privatus; à discussão sobre o povoamento
dos territórios; ou sequer aoproblema de redução ou limitação pelo “Estado” do direito de propriedade
ilimitável face aos ius quiritium.

Questão agrária - ager romanus - adquirido por conquista, a definir como territorium do populus romanus,
insuscetível de apropriação privada, o que precede qualquer qualificação como “domínio público do Estado
romano” (ager publicas), a desafectar e distribuir aos romanos proprietários ou aos camponeses “sem terra”, a
título individual ou como colónias.

Propriedade privada - nos terrenos do domínio público romano tinha sempre um título precário, uma vez que o
proprietário originário era o “Estado” e os institutos jurídicos criados para o exercício de direitos de
propriedade pelos particulares reservavam sempre ao “Estado” o título orignal, lembrado através da imposição
de um vectigal.

Distinção entre o dominus ( do ius quiritium) e os possessores (do ius novum) com um direito precário, um
direito de uso sempre revogável.
A distribuição da terra era feita a título oneroso (venta) ou gratuito - em que o “Estado” conservava o direito
de propriedade ou como cedência pela prestação de serviços. Alienação a título gratuito era a mais importante.

O critério adotado de integração territorial, por anexação completa e semianexação, obedecia a


ponderações geográficas ligadas à estratégia defensiva. Os mais próximos eram feitos romanos e o território
integrado no ager romanus. Os outros ficavam com um estatuto jurídico de civitas sine suffragio - os habitantes
eram romanos face ao direito civil, mas não em relação ao direito público - ou de socii, constituindo uma zona
de proteção da cidade.
A disciplina legal implicava um vontade política de qualificar juridicamente esses terrenos como território
romano, para legitimar uma intervenção legislativa dos seus orgãos de governo, determinando: a perda do
direito de propriedade dos titulares anterior à sua ocupação por Roma; a prescrição da posse adquirida por
privados romanos, ao abrigo de um direito de conquista, baseado na força, previsto no ius belli.

A reforma gracana - Lex Sempronia de 133 a.C. - não é apenas maus uma das habituais rogationes de leis
agrárias, a disciplinar o acesso de provados ao ager publicus.

Preliminarmente à definição de novas regras jurídicas de posse do solo público, de


cadastrarão, de acesso da plebe a tais direitos estava necessidade de fixar axiomas
normativos adaptados à conquista e aos instrumentos de efetivação do poder político de um
”Estado” em crescimento territorial.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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As soluções concretos de direito agrário ou colonial partiriam da conceição a adotar de ager


romanus, necessariamente ligada aos condicionalismo da política externa.

Efeitos mais relevantes na atuação do Estado-proprietário (como particular e não como titular da
maiestas): terrenos habitados, mas inexplorados; terrenos habitados e aproveitados; terrenos
desabitados; baldios limítrofes não loteados.

Com as guerras externas, desde o séc. IV a.C., criou-se uma praxis constitucional de confiscar uma
parte variável das terra dos povos vencidos, o que permitir colocar como hiºotese o binómio
propriedade-“soberania”. Contudo, o confisco também poderia ser utilizado como pena, mas sempre
com motivações políticas.
A fim de evitar o despovoamento total das terras, Roma, por vezes, devolvia-as de imediato, com a
eliminação dos efeitos jurídicos do confisco declarados através de uma amnistia proclamada nos
jogos olímpicos, normalmente depois de recompensar os seus amigos e aliados.

Logo, o confisco de terras conquistadas aos seus proprietários na Itália e na


Gália não era apenas uma consequência jurídica da rebelião dos aliados contra
Roma, mas uma imposição política e uma afirmação de “soberania”, juridicizada sob
a forma de cláusula de um foedus desigual, que o vencido tinha de aceitar. Era a legitimidade
jurídico-pública, no plano externo, adquirida com a norma do tratado, que permitia a sua disciplina
normativa por legislação interna.

5. As magistraturas do populus

As magistraturas republicanas incidam-se sobre poderes políticos, militares, e “judiciários” - não se


estenderam ao poder religioso.

Nasceram da crise do governo quiritário e desenvolveram-se no período de oscilação


constitucional - as magistraturas foram sendo reguladas com cada vez maiores minúcia e pormenor,
sempre a partir dos seguintes pressupostos:
- dois titulares para cada uma, com absoluta paridade no grau e na função, para permitir um efetivo
controlo recíproco;
- subordinação das magistraturas maiores às menores uma;
- separação rigorosa entre elas com garantia de harmonização sistémica e responsabilização dos
titulares através dos orgãos constitucionais colegiais

Nota: A estabilização constitucional das magistraturas operou-se, sobretudo quando a sua continuidade saiu do autismo
hermético do princípio da cooptação (o magistrado cria o magistrado - coptatio), para um sistema de edição pelas
assembleias populares. —> esta troca transferia, no entanto, toda a possibilidade de êxito deste sistema de escolha dos
magistrados para as qualidades do candidato que se apresentava.

Foram fixadas rígidas condições, que os cidadãos tinham de preencher para se apresentarem como candidatos à
eleição para magistrados.
Para se ser candidato a uma magistratura era necessário ter:
1. O ius suffragii, isto é, os candidatos podiam ser submetidos à votação do eleitorado ativo;
2. E a ingenuidade, isto é: não ser escravo liberto nem filho de um liberto; pertencer ao grupo a que
a magistratura estava reservada (patrício ou plebeu); não ter sido acusado de infamia; ter a idade
de 28 anos ou mais que era o limite fixado para a questura, a primeira das magistraturas a que se
podia ter acesso

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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ATENÇÃO!!!
Censor
A preocupação de evitar desvios tirânicos no exercício
das magistraturas ordinárias, titulares do imperium, Pretor: cônsul
integradas no cursus honorum (cursus honorum ou carreira
de honras organizava as magistraturas ordinárias da base Edil Curul
para o topo - só se podia ser candidato ao cargo seguinte
depois de ter exercido, por um ano, o cargo anterior) levou Questor
a fixar limites:

-além da temporalidade, da pluralidade de magistraturas, da colegialidade e da par protestas entre


magistrados (em cada magistratura havia mais de um magistrado; estando cada um encarregado, com
imperium absoluto, de um setor do exercício da função; o outro tinha sempre o poder de veto sobre os
atos praticados pelo colega);

- foi criado um conjunto de regras e praxes constitucionais que controlavam o exercício efetivo do
cargo e tinham uma finalidade preventiva: o magistrado no im do mandato tinha de dar conta do uso
que fizera dos poderes conferidos e era responsável pelas infrações e eventuais crimina cometidos
durante o mandato; a impossibilidade de acumular cargos ou de repeti-los = exercer de novo um
cargo já antes ocupado por si 


Magistraturas maiores - imperium e potestas Magistraturas menores - apenas potestas

Magistraturas ordinárias - podiam ser permanentes (o titular estava sempre em funções) ou não
permanentes (o titular exercia funções não contínuas).
Magistraturas extraordinárias (tribuno da plebe e ditador) - eram sempre não permanentes e
tinham poderes do veto sobre os atos de todos os magistrados ordinários.
O tribuno da plebe não tinham imperium; tinha tribunitia potestas. Os atos do ditador não estavam
sujeitos à provocatio ad populum. Dentro de Roma, todo o poder era do populus romanus, cuja
maiestas estava depositada nos comitia centuriata ou assembleia do povo. Assim, qualquer cidadão
romano podia apelar à intervenção do populus reunido em assembleia - a procatio ad populum -
contra um ato praticado por qualquer magistrado. Só o ditador não estava sujeito à procatio ad
populum.
IMPORTANTE!!
Na organização constitucional da civitas os magistrados ordinários, periodicamente eleitos,
constituíam os elementos estabilizadores do regime: censores; cônsules; pretores; edis; e questores.
Os magistrados extraordinários eram eleitos para fazer face a circunstâncias extremas e imprevistas
(ex.: ataque militar) e os poderes concedidos eram pela duração da ameaça que tinham de enfrentar,
com um limite máximo para exercer o mandato.

Magistraturas ordinárias maiores ou mais importantes - cum imperio et cum potestate - eram o
consulado e a pretura, cujos titulares eram eleitos todos os anos nos comícios centuriais.

O imperium do pretor estava subordinado ao dos cônsules, que podiam vetar as decisões do pretor,
ao abrigo do ius intercessionis = por isso, o pretor era considerado collega minor do cônsul.

Entre as magistraturas maiores, havia um carácter extraordinário e de natureza excepcional - a ditadura


—> com o magister equitum, nomeado por um cônsul, com base em parecer do Senado, com um
mandato máximo de seis meses, para fazer frente a situações de emergência - momentos de
suspensão da normalidade legal e da aplicação normal da justiça.
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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Poderes das magistraturas maiores 


- poder do supremo comando militar e do correspondente poder coercitivo - imperium militae -


exercia-se fora do pomerium, em caso de guerra ou de relações com povos submetidos pelos
romanos e exercia-se sem qualquer limitação. A excepção que permitia o seu exercício dentro do
pomerium era a concessão de honras militares (triunfo) ao militar vencedor; ou, ocaso de ser
designado um ditador, o Senado colocar essa possibilidade 


- o direito de convocar e de presidir aos orgãos colegiais, senado e assembleias; praticar atos
coercivos a fim de se fazer obedecer pelos cidadãos e pelos magistrados menores; direito de emanar
e fazer publicar no forum os seus edicta; possibilidade de assumir os auspícios maiores. 


Os magistrados menores, sem imperium, mas com potestas eram: o edil plebeu, eleito nos concilia
plebes; o edil curul e os questores, eleitos nos comitia tributa.


Edilidade - ergue-se como uma magistratura patrício-plebeia que estendeu a sua jurisdição de polícia
a toda a cidade: passou a superintender a atividade dos mercados e o controlo do abastecimento de
cereais —> o que lhe conferia pequenos poderes de coerção e repressão no âmbito das suas
competências e de um ius edicendi concexo com a sua jurisdição civil, sobretudo para resolver os
conflitos comerciais surgidos nos mercados públicos que supervisionava; e a organizar as festas e
espetáculos públicos, importante elemento de propaganda política.

Questores - administravam o erário do populus romanus, mas promoviam a supervisão das receitas
fiscais arrecadadas e a distribuição dos fundos e receitas necessárias para as despesas decididas pelos
cônsules nos termos das diretivas dadas pelo Senado. Até à introdução das Quaestiones Perpetuae,
eram eles que faziam a instrução e a acusação dos crimes punidos com pena de morte.

Dotados de potestas, os magistrados menos tinham os seguintes poderes: ius edicendi; ius agendi
com populo e cum plebe; ius agenda cum patribus.
Os magistrados contavam, no desempenho dos cargos com colégios de magistrados auxiliares. Os
principais eram: os tresviri capitales - que combatiam a criminalidade e a delinquência comum e
cuidavam dos presos preventivos e das cadeias; os quattuorviri praefecti capuam cumas - delegados
do pretor urbano para cuidar da justiça em algumas cidades onde não havia órgãos jurisdicionais a
funcionar; decenviri litibus iusdicandis - que julgavam sobre questões de da liberdade cívica, logo
sobre o estatuto das pessoas na cidade.

Tribuno da Plebe - magistratura especial com vista a garantir os interesses da plebe, tinha imunidade
absoluta e o direito de se opor às decisões de todos os outros magistrados, intercessionando os seu
atos. Durante um certo período puderam intercessionar os atos do próprio ditador, mas apenas no
que respeitava aos atos do governo civil.
Foram inicialmente eleitos pelos comitia tributa e depois pelos concilia plebis. O tribunato da plebe
acabou por constituir uma nova aristocracia política, com um poder imenso que advinha dos efeitos
da sua intercessio (ação juridicamente legítima de proibição da execução de qualquer ato de imperium de outro
magistrado) na justiça civil e crimina.
Contudo, acabou por ser reconhecida aos tribunos da plebe uma potesta coercendi - ao abrigo da
qual aplicavam multas e ordenava a apreensão de bens.

Séc. III a.C. - novo poder integra a tribunicia potestas: o ius senatus havendi - o direito de convocar e de presidir ao Senado;
e uma nova prorrogativa: agere cum plebe - estabelecer com os concilia plebis uma relação orgânica, convocando-os para
analisar questões políticas e normativas.
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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Em virtude dos imensos poderes dos magistrados, fundados no imperium e na potestas, a preocupação constitucional foi
limitar a possibilidade de abusos e de atos arbitrários, não só delimitanto bem o raio de ação de cada uma, mas também
fixando-lhes as competências próprias, os meios de atuação específicos e as formas de controlo.

A dispersão do imperium que antes, concentrado no rei, levou a abusos de arbitrariedade foi conseguida através das
magistraturas e o seu exercício limitado numa teia de vínculos e dependências que controlavam o titular de parte dele
(imperium) sem perda de independência e de isenção.

Imperium consular = rei —> suprema potestas e imperium maius: militae e domi EMBORA não seja ilimitado como era o
deste. Estava sujeito à anualidade do cargo, à colegialidade, à divisão de poderes com as outras magistraturas (princípio da
competência); à provocatio ad populum.

implicava estarem 2 cônsules a exercer o cargo com total autonomia um do outro, cada um deles com plenos
poderes para exercer as mesmas competências, colocava complicados problemas de relacionamento político
que se resolviam com recurso a 3 expedientes: o estabelecimento de turnos; o sorteio para exercer certas
competências; o acordo político para um exercício geograficamente dividido em províncias. Em caso de
bloqueio e embora nomeados pelos comícios centuriais, o Senado intervinha para fixar as competências
pessoais para cada cônsule, em consilium.
Permitia no exercício do poder de coercitio e de iudicatio, acusar, julgar e executar as sentenças sem
obrigação de seguir o consilium por ele convocado e liberto de qualquer formalidade ou vínculo processual (fora
da cidade).

Imperium militae fazia do cônsul um comandante militar. O exercício do poder do cônsul na cidade estava
sujeito às regras “constitucionais” normais.
Nota: o cônsul tinha o poder de intercessio contra o pretor porque o principio da hierarquia se sobrepunha ao
princípio da competência nas magistraturas, influenciava o exercício da iurisdictio.
O mais importante é que, além das prerrogativas do imperium domi, o cônsul exercia todas as competencias
residuais que não cabiam expressamente aos outros magistrados.

Imperium domi integrava no exercício do ius agenda cum populo e do sus agendi cum populo e do ius agendi
cum patribus = poder de convocar as assembleias populares, presidindo, e o Senado. O ius agendi com populo
dava ao cônsul a iniciativa legislativa, apresentando propostas de lei aos comício para serem aí votadas (rogatio).
O pretor também tinha esta competência, mas era sempre complementar `a do cônsul e deixada para assuntos
com menos importância.

Desde a coercitio para a pena de morte até às sanções mais insignificantes, os censores e questores,
desprovidos de imperium, tinham de recorrer ao cônsul para dar efetividade às suas ordens. Além de poderes
administrativos amplíssimos na administração do erário e do património público e na imposição da ordem
pública.

PRETOR
O pretor era um magistrado maior nomeado nos comícios centrais que o cônsul presidia.
Funções:
- Encarregava-se de aplicar a justiça (sobretudo a civil) 

- Substituía o cônsul nos seus impedimentos no governo civil da cidade - competência própria nos
termos constitucionais

- Convocava os comícios para a eleição dos magistrados menores 

- Apresentava propostas de lei para aprovação aos comícios

Por vezes o Senado encarregava o pretor de comandar o exército fora da cidade.

A pretura era uma magistratura monocrática, ordinária, permanente e, inicialmente, unitária. 



242 a.C. juntou-se ao pretor urbano - que resolvia os conflitos entre cidadãos romanos - o pretor peregrino - que intervinha
nos conflitos entre cidadãos e peregrinos.
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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Censura - magistratura ordinária não permanente, que se seguia na hierarquia magistratural ao


consulado e à pretura e era investida através de uma lex potestate censoria.
Ocupada de início por patrícios e com uma duração de 5 anos para exercer funções efectivas durante
os 18 meses necessários para fazer o recenseamento. A Lex Publilia Philonis - 339 a.C. - veio obrigar que
um dos censores fosse plebeu. Os censores agiam sempre conjunto. A censura é uma magistratura onde
se aplica bem o principio de que é a função que cria o orgão.

A importância política da censura reforça-se com o plebiscito Ovíneo, de 312 a.C., que institucionalizou como
função do censor a nomeação dos senadores.

Ditadura - magistratura maior extraordinária. 



O Senado deliberava sobre a situação - grave perigo externo ou interno - a enfrentar e o perfil adequado
do cidadão que deveria exercer o cargo, e um dos cônsules indicava o nome da pessoa que,
normalmente por 6 meses, ficava ditador.
Consoante a situação era nomeado um dictator optimo iure (plenos e indefinidos poderes) ou um
dictator imminuto iure (com poderes específicos em matérias sacrais, mas com grande relevância
política).

A similitude deste novum genus imperii introduzido na república com o imperium régio fazia temer um retorno à tirania do rei,
apesar de limitado no tempo e com uma finalidade especifica predeterminada.
Os riscos de uma tirania pessoal do ditador, devido à suspensão das garantias constitucionais, levaram os romanos a
procurar outras formas (institutos juridico-politicos) de conseguir os mesmos efeitos, no plano da eficácia, para defrontar
situações perigosas para a república.

No âmbito da ditadura podia surgir outra magistratura extraordinária maior: a do magister equitum. Este era um
oficial superior ou um magistrado com imperium próprio, escolhido pelo ditador para comandar o exército-
cavalaria.
Esta escola do ditador era livre e discricionária. Tratava-se de um homem da sua confiança que ele podia
substituir quando quisesse, sem qualquer justificação ou critério.

A distinção entre as duas magistraturas (maior - menor) na comunidade fazia-se a partir de um


conjunto de sinais exteriores que os titulares exibiam. Tratava-se de uma simbólica que separava e
identificava aqueles que exerciam os cargos nas várias magistraturas facilitando a concessão de
honrarias sociais e a obediência dos destinatários dos respetivos atos.

Magistrado cum imperio - faziam-se transportar por leitores, tinham os auspicia maiora e dispunham dos
meios para exercer a coercitio. 

De inicio o maior problema era resolver os conflitos de competências em novos litígios que se
colocavam em áreas de sobreposição das esferas tradicionais definidas para separar as magistraturas.
Foram então adotados três princípios estruturantes para resolver tais litígios: o da prevalência do
imperium; o da hierarquia entre magistraturas; o da tutela da plebe.

Principio da prevalência do imperium permitia que os magistrados cum imperium pudessem vetar qualquer ato, mesmo
inerente às respectivas competências, de qualquer magistrado que não o tivesse.
Principio da hierarquia distinguia entre o imperium maius e o imperium minus, e entre maior e minor potestas. Os magistrados
que tinha o imperium maius e a maior potestas podiam anular as ordens e vetar os atos dos outros magistrados que não os
tinham.
Pelo principio da tutela da plebe, os tribuni plebis eram subtraídos à vis imperii e à vis maioris potestatis dos magistrados que
tinham o poder de veto sobre a atividade dos outros. Este garantia não só uma efectiva participação dos plebeus num
sistema que, embora teoricamente aberto nos cargos mais elevados do Estado à classe plebeia, se mantinham na prática nas
mãos de algumas famílias nobre patrício-plebeias, como também constituía uma forma de controlo do arbítrio no exercício
da magistratura a favor dos interesses e perspectivas do grupo a que pertenciam os magistrados patrícios, e de prevenção de
atitudes ditatoriais.
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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6. Senado

Sendo uma instituição antiquíssima, com cerca de 300 membros escolhidos pelo rex entre os
patres, chefes de grupos gentílicos, o Senado continuou a ser um dos mais importantes orgãos na
nova organização constitucional republicana.
Agora não como estrutura representativa da classe patrícia, mas como assembleia política da
aristocracia romana, patrícia e plebeia, escolhida de iniciou pelos cônsules e os tribunos militares
consulares e depois por via dos censores.
Pela sua natureza e pelas suas características, garantia a Roma estabilidade, continuidade
institucional e conhecimentos suficientes para orientar, supletivamente, as magistraturas e a vontade
popular.

Funções do Senado: 

- cabia-lhe conduzir a política externa 

- receber as embaixadas dos outros povos
 Para exercer estes poderes
- aprovar tratados 
 o Senados dispunha: do
- fazer declarações de guerra, 
 interregnum, da auctoritas
aprovar as despesas para as operações militares
 patrum e do
- organizar as províncias
 senatusconsultum
- fixar os cultos públicos permitidos 

- auxiliar o trabalho dos cônsules

6.1 O interregnum

Interregnum - instrumento que em períodos de “dificuldade constitucional” evitava o vazio de poder


- por morte ou ausência prolongada dos cônsules -, garantindo a continuidade do imperium. O
mesmo com a ausências dos magistrados titulares dos auspicia regressavam aos senadores patrícios.

Com este instrumento garantia-se, com respeito pela estrutura constitucional republicana, um
sistema de governo muito antigo que tinha dado provas de eficácia na forma de manter
instrumentos de governo e de continuidade da “coisa pública” em períodos difíceis de perigo e de
ruptura causados pela ausência de uma magistratura suprema.

6.2. A auctoritas patrum

A auctoritas patrum materializa-se no poder senatorial de confirmar as deliberações das outras


assembleias. O magistrado que apresentava uma posposta de lei ou o nome de um candidato para
um cargo deveria remeter a decisão da assembleia popular para análise pelo Senado.
Esta dava ao Senado um poder efetivo de controlo e de ratificação das deliberações das
assembleias populares, tomadas com base nas propostas dos magistrados.

Lex Publilia Philonis - 339 a.C. - este expediente passa a ter carácter preventivo. Passa a ser posta sob
a proposta do magistrado antes de este a submeter a votação da assembleia popular. Evitava-se
assim que uma lex ou um candidato não aprovado pelo Senado pudesse ser formalizado, pela
deliberação da assembleia popular e, assim, entrar em vigor ainda que debilitado pela falta de
auctoritas dos padres.

Sintoma da crise das magistraturas e dos orgãos do populus em que assentava a constituição
republicana, a inversão da auctoritas patrum (de posterior à votação nas assembleias a prévia)
reforça o papel político do Senado e a sua importância na formulação normativa do ius.
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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6.3. O senatusconsultum

Consiste na consulta dada pelo Senado a um magistrado (normalmente cônsules, pretores e, a partir
de 287 a.C., os tribunos da plebe), a pedido deste. Os debates no Senado eram muito abertos apesar
de um regimento muito minucioso e do processo de formação de um senatusconsultum ser muito
complexo.
O mais saliente é o facto de o processo poder ser interrompido por intercessio de um dos cônsules ou
do tribuno da plebe, o que retirava validade jurídica à deliberação, que passava a designar-se como
senatus auctoritas e não como senatusconsultum.

7. A iurisprudentia nova da res publica


Pompónio apresenta 3 jurisprudentes desta época como aqueles qui fundaverunt sus civile: Mânio
Manílio; Marco Júlio Bruto; e Públio Múcio Cévola.
Estes iurisprudentes podem ser considerados os fundadores de uma iurisprudentia nova, com
preocupações de harmonização, categorizarão e generalização, revivificara do ius civile.

É esta iurisprudentia nova que resgata da interpretatio prudentium, autonomizando o labor dos
jurisprudentes do texto da norma que comentam, usando para tal as categorias das artes gregas,
marcando a tecnificação/ especialização da criação jurisprudencial.
A partir daqui, livres da referência constante e obrigatória à Lei das XII Tábuas e com um método
novo para pensar e expressar opiniões, aiurisprudentia passa a ser efetivamente fonte independente de
ius.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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• Quarto Período - O princeps como Primus inter pares (27 a.C. - 285)

1. Considerações gerais sobre o Principado

A data de início deste período (27 a.C.) é meramente simbólica - a essa data está associado ao fim da crise da
res publica romana, iniciado com a morte de Júlio César.

Principado = forma de designar uma tentativa política de concretizar no governo de Roma uma síntese
entre instituições da res publica e outras de penso monárquico, atendendo à situação em que se
encontravam as instituições do “Estado” após as sucessivas guerras civis e as derivas autoritárias de
cônsules únicos e vitalícios consentidas no Senado.
O Principado não passou de uma forma pragmática de governar assente no exemplo de Augusto e
sujeito às características pessoais do titular do poder político. Logo, o pendor subjectivo, do titular do
poder, sobrepunha-se sempre às tentativas de objectivar o regime em normas e instituições jurídico-
políticas.

Octávio (Augusto) exerceu o poder político supremo, a partir de 43 a.C., através de um triunvirato em que era
ele o centro, com um mandato de cinco anos, depois renovado para um novo e igual período de tempo, em
clara exceção ao que resultava da “Constituição” republicana. Em 33 a.C., esgotado o modelo do triunvirato
como modelo de exercício do poder universal (rerum omnium), Augusto declara-se princeps por consensus
universorum.
O pragmatismo de Augusto levou-o a “constitucionalizar” um poder exercido de facto, de forma universal e
absoluta, enquanto vencedor da guerra civil, recorrendo a um expediente retórico, de natureza política - o
consensus universorum - sem qualquer base ou fundamento jurídico.

- Ao contrário da proclamada restauração das instituições republicanas no discurso oficial sucessivamente


repetido, Augusto projectava a concentração de poderes em si próprio - com a justificação de não haver outra
alternativa para manter as instituições ainda existentes em Roma.
Propaganda sistemática sobre a intervenção salvífica de Augusto na defesa das instituições de Roma levou a
que em 23 a.C., se encontrassem reunidas as condições necessárias para abandonar o modelo político de
exercício de uma magistratura consular única e atípica - que até aqui durava na sua titularidade, para um novo
figurino político-institucional em que o Senado lhe outorga os poderes plenos do Estado, já que recebera dos
comitia plebis a tribunia potestas vitalícia e dos comitia centuriata o imperium proconsulare maius.

Potestas vitalícia: dava-lhe por inerência poder de veto sobre as deliberações de todos os magistrados (ius
intercessionis); e a inviolabilidade; além da faculdade de convocar e apresentar propostas às asssembleias
populares e ao Senado.
Imperium proconsulare maius: dava o poder de comandar os exércitos de Roma; e de administrar e fiscalizar,
pessoalmente, não apenas as províncias imperiais, mas também senatoriais.

Iniciava-se ,assim, um regime que, mantendo as instituições republicanas a funcionar sem qualquer poder ou
intervenção real na vida política e nas decisões a tomar, concentrava todos os poderes nas mãos de um só
homem: o princeps/imperator/augustus.
imperator = titular do poder único e os poderes supremos eram só dele - exercia em exclusivo
Princeps e augustus = relacionados com a concentração de poderes reunidos na tradição romana na figura na figura do
chefe único e cada vez mais absoluto de Roma.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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Tribunicia potestas: 

1. O poder de iniciativa na prositura de alterações “constitucionais” controlando a renovação jurídica do
“Estado”
2. O grau ou qualidade de sacrosantus
3. O poder de intercessio contra tudo e qualquer ato de magistrados e do Senado
4. O ius agendi cum plebe, podendo votar os plebiscitos e convocar o Senado, com os poderes de um tribuno
da plebe

Nota: O imperium consulate e a potestas censória não devem ser entendidos como poderes conferidos ao princeps em
permanência, mas apenas como uma possibilidade de aquisição dos mesmos, legítima no plano constitucional, em
circunstâncias prefixadas e rigorosamente avaliadas.

Augusto podia exercer ainda, uma série de poderes de menor grau ou amplitude, mais igualmente
importantes, como:
1. A cura legum et morum - o poder de controlar a legislar e aquilo que era aceita como costume, sobretudo
no sentido da aceitação sociojurídica dos conteúdos dos mores maioria
2. O direito de commendatio - o poder de indicar, ou recomendar, às assembleias com poder de eleger
magistrados, os nomes dos candidatos a esses cargos
3. O direito de investir os pontífices

Deste modo podemos concluir que: 



- Augusto evitou a deriva iniciativa por Júlio César no sentido de tornar Roma numa monarquia absoluta de cariz
personalista, com um culto da personalidade do chefe 

- Augusto evitou o pendor monárquico na forma concebida e depois executada de levar a acabo uma
restauração da res publica em Roma

- Augusto criou um regime híbrido de república e monarquia em torno de elementos muito mais ligados à
personalidade do titular (princeps) que às possibilidades institucionalizadoras que dariam estabilidade ao
regime político

Esta subjetivação excessiva no exercício do cargo ou função do chefe contratava com uma desvalorização do
cursus honorum na seleção dos titulares de cargos de chefia, pela via das magistraturas, que garantira com
estabilidade a criação de um ius com soluções justas e adaptadas ao tempo das sentenças, completamente
separado da lex, como instrumento de governo da cidade.

ATENÇÃO!!!
À falta de instituições estáveis, de regras consensualizadas/constitucionalizadas, e de elites que fossem
exemplo, Augusto funda um regime fraco, instável e adaptado às circunstancias impostas a Roma e à
personalidade daquele que tudo decidia. Daí que o termo mais adequando para designar este período assente
na figura do princeps, seja o Principado.

A efetiva concentração dos poderes - entregues na res publica às magistraturas - na pessoa do princeps, sem
qualquer investidura constitucional expressa para tal, apesar de estarem previstas no plano “formal” divisão dos
poderes e fiscalização do seu exercício, levou à destruição do iusque deu superioridade aos romanos entre os
povos da Antiguidade Clássica.

A restauração constitucional da res publica até começou bem - no plano jurídico-simbólico a maiestas, ou
soberania, foi restituída ao populus. 

Acompanhando a reconstrução institucional, o Senado e as magistraturas retomariam o seu exercício normal,
numa recuperação das tradições funcionais da res publica, que servia para legitimar o próprio poder do
princeps que assim determinava.
Medidas concretas do princeps: foi restituída a divisão dos poderes no exercício do consulado, resgatando a
dignidade perdida desta magistratura; foram abolidas as normas excepcionais do trinvirato, recolocando
automaticamente em vigor a legislação aprovada pelos orgãos competentes à luz da “constituição republicana”;
foram reativadas algumas práticas administrativas, sobretudo no plano fiscal-financeiro e jurisdicional.
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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Esta reforma constitucional consistiu nua forma de camuflar, através de liturgias constitucionais republicanas
esvaziadas de qualquer conteúdo normativo que correspondesse a uma expressão autónoma da vontade do
plenários que deliberavam, um controlo efetivo e apertado do princeps sobre todos os órgãos políticos e
magistraturas.
Os poderes separados de Roma perderam independência; a liberdade de iniciativa dos magistrados
terminou; a possibilidade de optar entre várias propostas acabou; a legislação tornou-se monolítica e a decisão
judicial condicionada através da lei feita como expressão da vontade do princeps. Nada do que existia então
podia ser juridicamente caracterizado como res publica.

Nota: não houve nenhuma futura no plano sociopolítico que implicasse uma alteração completa das normas que pautavam
as relações entre governantes e governados; a relação de Roma com as sus províncias e os seus territórios conquistados;
nem uma substituição das elites romanas; nem uma mudança na distribuição da riqueza ou dos cargos importantes;…

Principado surge como uma reação oportuna e inteligente das elites romanas com uma intervenção superficial, mas
avassaladora, sobre os elementos de controladas decisões políticas, mantendo, naquilo que não é essencial para o objetivo
traçado, a retórica discursiva republicana e a fachada institucional que mantinha o populus como um soberano sem trono.

Leitura da página 103

O Principado é marcado pela acentuação das tendências monárquica e o enfraquecimento dos


órgãos da república, que se mantiveram como instituições políticas vazias, sem importância política e
sem competências substantivas, numa formalidade vegetativa como era do interesse do princeps.

Uma das causas da debilidade republicana do Principado era a sucessão do princeps - a transmissão do poder político
pela sucessão assente no carisma pessoal, como no caso de Augusto era impossível. Assim, era necessário institucionalizar
o carisma em função do cargo de princeps, fosse quem fosse a pessoa que desempenhasse o cargo ou a forma como
exercia a função. Assim poderia haver sucessão, não eleição, na chefia do “Estado”. Mas, salienta-se, o carisma pessoal, base
do poder exercido por Augusto, não pode ser institucionalizado; e a sucessão do poder político, para haver um regime,
exige a sua institucionalização.
Como o poder do princeps não assentava na Constituição ou num conjunto de leis fundamentais que organizava e
disciplinava o exercício do poder político, a sucessão do princeps não podia ser fixada por lei superior.

Com a dupla impossibilidade de recorrer aos sistemas, monárquico da sua sucessão hereditária ou republicano da
eleição pelo Senado, sem denunciar a impossibilidade política do sistema do primus inter pares, a sucessão do princeps
era cada vez mais resultado das suas próprias opções pessoais e da vontade dos detentores da força, com possibilidade de
impor uma solução: os militares.

As opções do princeps em matéria de sucessão foram favoráveis ao principio dinástico. Essa opção foi
institucionalizando a corregência, fazendo da pessoa indicada para sucessor do princeps, normalmente um dos melhores
dos seus colaboradores por ele dotado, uma espécie de vice-princeps, para ir aprendendo a decidido e a organizar junto
do princeps em exercício. Este sucessor indicado pelo princeps, seu filho adotivo, tornava-se o heres espiritual,
comungando assim do carisma do pai, mitigando a acento monárquico da herança de sangue e salientando o pendor
aristocrático de uma comunhão de virtudes entre o princeps e o herdeiro.
Por isso, na falta de um principio jurídico consensualmente aceite e normativamente fixado, a sucessão política do
princeps pelo sucessor indicado tinha de ser deliberada pelo Senado e confirmada pelo populus, nomeadamente através
da outorga da tribunitia potestas e do imperium proconsulare ao filho adotivo do princeps que cessara funções.

Com a degradação do Senado e das características republicanas do regime, a sucessão do princeps deixa de ser
marcada pela deliberação do Senado, confirmada pelo populus, para passar a ser determinante, também na valoração
simbólica do ato de sucessão, a investidura pelo exército.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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2. Transição do ius para a lex 


2.1. O ius publice respondendi e o fim da iurisprudentia

Início do Principado - iurisprudentia enfrenta uma crise de objetivos: a atividade de criação de um ius
novum, enunciando regras jurídicas por interpretatio das velhas regras do ius civile e dos mores
maiorium, para responder aos novos casos, estava globalmente cumprida; a atividade de integração/
inspiração do edictum do pretor estava também relativamente esgotada.

Necessário que os jurisprudentes aperfeiçoassem, organizassem e sistematizassem, para


compreensão e aplicação, o conjunto de regras, princípios e modos de concretização processual dos ius
romanum. Isso supunha um trabalho de elaboração doutrinária e concretização analítica que se afastava
dos expedientes da interpretatio criativa.

Com a mudança de regime político, ao abrigo da função de garantir a ordem interna e paz externa, o
princeps foi assumindo progressivamente um poder cada vez mais intenso e extenso na forma como
intervinha nas instituições republicanas que ainda sobreviviam, mas de que restava apenas o nome.
Todas as regras jurídicas dependiam da sua execução, em última instância, da vontade do princeps
(princeps ut maior guris autorias haberetur); e os mecanismos do equilíbrio e controlo da res publica
tinham sido entregues àquele que exercia todos os poderes: o princeps.

Nota:
Mudança institucional, no plano político = consequência lógica de uma prática de governo. 

O Principado é caracterizado como um regime que se foi institucionalizando e sendo teorizado e explicado a
posteriori, como forma de legitimar o que ia sendo feito pelo Princeps.

Assim como fez passar com êxito a ideia de que o sistema republicano não era o mais adequado para a
manutenção do império e a expansão romana, também garantiu a aceitação pelos romanos de um controlo
indireto da iurisprudentia com a explicação de que a proliferação de jurisprudentes e a dispersão de soluções
dadas no forum colocavam em risco a segurança e o acerto das sentenças.

Criou o ius public e respondendi - concessão dada por ele a certos jurisprudentes que servia como
condição de acesso da solução do jurisprudente à sentença a proferir pelo juiz com utilidade para a
parte que o consultava.
(Como os jurisprudentes eram muitos e davam soluções diferentes para os mesmo casos, o que baralhava os
juízes e intraquilizava aquele que recorriam ao “tribunal”, Augusto concede a alguns deles o direito de responder
em público às questões colocadas pelas partes como se fossem o próprio Princeps - não proibiu ninguém de
exercer a atividade de jurisprudente)

Uma vez instituído este processo, os jurisprudentes fariam de tudo para agradar àquele que tinha a faculdade de os colocar
numa lista que dava às opiniões expressas a força de valerem como opiniões do próprio princeps = opiniões dotadas de
imperium que só passavam pelo iudex para respeitar uma praxe constitucional. Iudex que mediatizava na forma, mas não
tinha nenhuma intervenção no conteúdo das sentenças assim expressas.

As responsa dos jurisprudentes dotados de ius publice respondendi não eram fonte imediata de Direito; não
constituíam precedente; nem tinham características de generalidade e abstração. Mas, sendo obrigatório no caso
concreto em que eram produzidas, vinculando o juiz, e face à natureza casuísta da aplicação judicial do ius de
Roma, eles passaram a ser importante fonte, ainda que não de iure, de criação do Direito.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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O labor anónimo de jurisprudentes comentando leis, escrevendo monografias e obras jurídicas didáticas,
auxiliando os juízes na procura da solução justa que melhor resolvesse os casos, é substituído pelas compilações
e responsae e quaestiones, nos Digesta, por jurisprudentes poderosos, dotados de um poder único dado pelo
ius publice respondendi.

HÁ QUE REALÇAR QUE….


O poder criador e inovador dos grandes mestres jurisprudentes, desafiados por uma realidade em constante
mudança a requerer adaptação, pluralismo e bom senso, com o ius honorarium a responder às exigências
concretas de um império em expansão, não era compatível com o poder político uniformizado e estabilizador
exercido pelo chefe político - princeps.

O Direito, empobrecido pela constante intervenção do princeps, a ruína das magistraturas e a debilitação dos
jurisprudentes (que deixaram de ser livres e independentes), tende a ser cristalizado em Digesta e em
compilações de máximas ou em obras didáticas, assim como o edito o pretor foi fechado em urna no Edictum
Perpetuum.

NÃO ESQUECER!!!
1. Existe um controlo das respostas e pareceres da iurisprudentia pelo princeps,
2. Considerava como DIREITO - apenas a vontade do princeps
3. a norma jurídica só pode ser expressa pela imposição do poder legislativo.

O ius publice respondendi não só atraiu os jurisprudentes para a área política e o círculo do poder,
como tornou a iurisprudentia coisa oficial = fiscalizada pelo poder político e subordinada à vontade do
princeps.
Na política de centralização estadual do Principado a iurisprudentia era um instrumento essencial para a
expressão das orientações autocráticas do princeps de modo indireto, através dos iurisprudentes.

2.2 Da regra de ius civil à norma legas

Uma das traves do êxito do Direito-ius ma sociedade romana, tornando-a a única que na Antiguidade criou um conjunto
de regras e procedimentos capazes de adaptar regras a casos, com preocupação de justiça concreta e efetiva, foi a
separação clara entre ius e lex a partir das fontes de legitimidade, dos titulares dos cargos e funções, e dos efeitos
produzidos por cada uma das formas - a legal e a jurídica

- A república romana fixou um sistema de incompatibilidades e de impedimentos que tornava impossível ao titulares de
imperium criarem sozinhos ius; e àqueles a quem era reconhecida auctoritas envolverem-se nos processos políticos que
terminavam nas leges.

Foi durante a república romana que se criaram com mecanismos normativos ( a que hoje chamaríamos de
constitucionais, ou de lei fundamental material) combinações institucionais que permitiram manter separado o
ius civile, assente nos mores maiorum —> entendidos como regras consensuais essenciais para a convivência entre
as pessoas que compunham a comunidade - e adaptando por jurisprudentes com um saber fundado na
experiência e socialmente reconhecido, os quais viam serem aceites as soluções por eles dadas aos
conflitos intersubjetivos pela auctoritas e o prestígio que tinham na comunidade.

Os mecanismos que transformavam essas soluções dadas com base na autctoritas dos
jurisprudentes, e que se situavam do lado ius, em sentenças do iudex a cumprir pelo imperium dos
magistrados, com o filtro do acesso ao juiz a funcionar pela mão do pretor, através da atividade de dar
ou negar actiones, foram paulatinamente destruídas no processo de erosão das estruturas jurídico-
políticas da república.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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Qualquer existencia de um ius que não fosse criado, aprovado ou titulado pelo priceps pressupunha a
existência e fontes criadoras de regras independentes, onde não estava o princeps. Ora princeps era o primeiro
em tudo, não apenas no exercício de poderes de imperium, mas também em todas as manifestações de poder
com expressão pública.

- A possibilidade de uma norma de ius civile ser adaptada na sua formulação ou excepcionara para
aplicar a um caso concreto, no Principado, não poderia existir sem intervenção do princeps. Ou então
estava colocado em causa o principio fundamental que sustentava todo o edifício do regime.
O ius publice respondendi respondia, no projeto de controlo do ius pelo titular do poder
executivo, às criações, presente e futura, de ius pelos jurisprudentes, secando a fonte da sua
legitimidade, a auctoritas - ja que era o poder do imperium do princeps que selecionava os que
podiam, com a sua opinião, vincular o juiz, e não o prestigio fundador da sua auctoritas)


Ficava eliminada a temida independência, face ao poder (imperium) dos que criavam o ius, pelo
reconhecimento da sua competência na comunidade. O passado da iurisprudentia estava, no entanto,
inscrito nas regras vigentes e permanecia como uma ameaça, sobretudo porque prenhe de futuro na
imensa potencialidade das opiniones que gizaram e adaptaram as regulae iuris.

FOI NECESSÁRIO… iniciar o processo de transferência da regra jurídica, formulada e adaptada


pelos jurisprudentes, com base no caso e na contextualização das situações em que se aplica,
para a lei geral e abstrata, produzida pelos órgãos políticos.

Canalização do ius pela lex no Principado romano conta com um projeto escondido de extinção do ius,
que usa as palavras ao contrário, e um trabalho bem feito de desertificação das suas fontes (do ius), de
descrédito dos seus titulares (magistrados e jurisprudentes), com um momento único de consenso e de
prestígio de um imperador que caminha para ser um deus.

Procurando conforto na tradição jurisprudencial, os novos desafios da realidade já


não são resolvidos, por adaptação das regras de ius, pelos jurisprudentes em
extinção, mas sim pelos legisladores, e à cabeça - depois da ruína provocada dos
comícios e do Senado, como assembleias deliberativas portadoras do poder
legislativo -, pelo princeps.


As propostas de lei de Augusto apresentadas aos comícios começaram a tentar traduzir em
terminologia legislativa as novas formas de adaptar as regras de ius a uma realidade exigente e cada
vez mais necessitada, pela condições criadas pelo próprio princeps, de uma disciplina normativa
atualizada e eficaz.

A passagem do poder legislativo dos comícios para o Senado, ainda que uma vez mais sob a forma de
uma ficção de funcionamento apenas por consulta, tornou mais célere o processo de transformação de
ius em lex, já que as propostas do princeps ao Senado eram mais facilmente perceptíveis pelos
votantes, até pela sua qualidade de antigos magistrados e pelo seu conhecimento do ius.

Este processo de transferencia e identificação do ius para a lex tem as suas causas mergulhadas nas
formas de exercício autoritário e autocrático de um poder politico que se apresentava como
respeitador da republica e com um conjunto de normas que pareciam garantir uma vida institucional
sadia ao pluralismo criador e decisório do jurídico.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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3. A personalização do poder e a decadência dos órgãos constitucionais

A concentração progressiva dos poderes políticos nas Maos do princeps e a propaganda imperial centrada na
figura do chefe e no culta da personalidade provocaram um desgaste decadente, mas inevitável, dos orgãos de
expressão colegial - comícios e Senado.
A situação criada pelo Principado empurra os comícios e o Senado para um papel meramente formal. A sua
existência só se justifica porque inserida na liturgias legitimaras do novo regime ligadas à República e com uma
duração presa apenas a essa função instrumental.

3.1. Os comícios

As primeiras vitimas do modelo de exercício do poder pelo primus inter pares foram mas
assembleias do populus, ou comícios. As possibilidades de manipulação retórica das assembleias
eram potenciais por uma divinização crescente do imperador - as suas reuniões eram verdadeiros atos
de adoração do princeps, com rituais viradas para o culto do chefe.

Ao controlo efetivo dos comícios pelo princeps, embora apresentado como meramente consentido,
juntou-se uma progressiva falta de representação do populus através dos comícios.
- O princeps controlava as propostas, manipulava as votações e instrumentalizava as deliberações. -

À perda de representação política juntou-se a falta de qualidade dos participantes - o que tornou os
comícios um órgão de fachada, sem qualquer criatividade, iniciativa ou relevo. A sua manutenção pelo
principado servia os interesses dos princeps.

- As competências legislativas dos comícios, após os primeiros anos em que Augusto garantiu um
retorno possível à pluralidade republicana, foram transferidos para o Senado por efeito de dois
expedientes: a transposição da iniciativa das propostas do passado para o princeps; e os
mecanismo de votação comicial serem meros expedientes formais de ratificação de
senatusconsultos.
- Quanto à competência para eleger magistrados: os comícios têm competência para votar as listas
apresentadas pelo princeps ou pelo Senado, mas não podem nem propor por sua iniciativa nomes para
a eleição dos magistrados, nem aprovar o proposto com alterações introduzidas pelo populus, aí
representado.

Sabendo não ter, de inicio, condições para um exercício direto e efetivo do poder legislativo, Augusto recorreu
às votações populares que domina, apresentando aos concilia plebis, no uso da sua tribunicia potestas, várias leis
quer no domínio do direito público, quer no plano do direito privado.
Leis propostas pelo princeps e aprovadas pelos comícios:
1. A Lex Iulia de Collegiis
2. A Lex Sumptuaria, contra o excesso de luxo e manifestações exteriores de riqueza
3. As leges Criminali de Ambiti, de Adulteriis Coercendis (18 a.C.); e De Vi Publica e Privata (17 a.C.)
4. A Lex Iulia Iudiciorum Privatorum e a Lex Iulia Iudiciorum Publicorum, que regularam, respetivamente, o
processo civil e penal

Propostas de Lei apresentadas aos comícios centuriais pelos cônsules- matérias:


1. Manumissão dos escravos - regular a forma como muitos proprietários de escravos, aproveitando a facilidade
com que o podiam fazer, os libertavam, sem mais causando problemas sociais e de ordem pública. A
manumissão era um instituto jurídico que permitia ao dominus conceder a liberdade ao escravo.
2. Casamento - de forma a ampliar a disciplina normativa da Lex Iulia de Maritandis Ordinibus

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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A decadência política dos comicios, na sua vertente legislativa, deixava bem patente aquilo que Augusto
queria esconder: o Principado era um regime monárquico mitigado e não um regime republicano de
cariz aristocrático.
Enquanto pôde, Augusto manteve no plano formal - com um controlo efetivo por ele exercido quer da iniciativa das
propostas de lei, quer do seu conteúdo normativa - a existência de leis aprovadas pelo populus.

3.2. O Senado

Senado - o orgão da constituição republicana que melhor serviu os desígnios da alteração de regime político em Roma

Augusto, através de três lectiones, introduziu reformas decisivas que, embora apresentadas como
inevitáveis para o desejado reforço do abalado prestigio do Senado, serviram apenas para garantir a
sua manipulação pelo princeps e apertar o controlo politico sobre ele.
Augusto reduziu o numero de senadores para 600; o acesso à titularia senatorial voltou a estar fundado
no anterior exercício das magistraturas de questor ou de edil; a idade mínima para ser senador foi
fixada em 25 anos.

O princeps passou a ter o poder de convocar o Senado (senatus legitimus) sempre que entendesse,
sem qualquer outro formalismo ou regra e o lugar onde se realizavam as reuniões. 

Finalmente, expande os poderes do Senado, retirando-os ao populus, como um expediente politico de
intermediação, já que, estando tais poderes formalmente no Senado, eram exercidos na prática, pelo
princeps. Com efeito, o Senado perde todas as funções políticas que exercia com independência,
passando a mera “caixa de ressonância” da ação política do princeps.

Entre esses poderes novos do Senado estão:



- a administração das províncias senatoriais, ou mais antigas, que contribuíam diretamente, embora de
modo parcial, para o aerarium

- a nomeação dos magistrados encarregados do pesou público

- o poder extraordinário de autorizar derrogações pontuais às leis em vigor

- o poder de legislar, de forma materialmente imediata, através dos senatusconsultos

- o exercício da jurisdição penal embora de modo limitado

- o exercício de parte da atividade administrativa proveniente da ordem equestre

Nota: 

- O Senado passou a ser apenas o lugar onde as decisões legislativas do princeps eram anunciadas e publicadas, no meio
das aclamações dos senadores.
- Era também o Senado que se ocupava do aerarium militare, em especial do “saco” criado por Augusto para permitir uma
distribuição rápida e generosa dos praemia militaria aos veteranos, pelos três senadores designados praefecti aerarii
militaris, que exerciam funções por três anos. 

- Exercia a cunhagem de “moeda eneia” = a moeda das villa comercia, para as pequenas transações nos negócios de todos
os dias

Poder legislativo - a intervenção do Senado fazia-se através de três instrumentos constitucionalmente


previstos:
1. Auctoritas patrum - que permitia ao Senado “ratificar” ou não a proposta do magistrado aprovada
na assembleia popular e já formalmente com a natureza de lei; pronunciar-se sobre a proposta do
magistrado antes de ela ser submissa à discussão e votação nos comícios = Exercia assim um controlo
efetivo sobre a atividade legislativa, embora no plano jurídico-formal a sua intervenção fosse apenas de
controlo e conselhos - não deliberava;
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2. Intervenção preventiva - permitia a qualquer magistrado dirigir-se ao Senado para parecer


(senatusconsultum) sobre uma decisão, uma proposta, uma atuação futura. 

Tal parecer, não tinha caracter vinculativo, mas era cada vez mais tomado com uma diretiva a seguir
pelo próprio magistrado aconselhado e, mais tarde, assim entendido pela opinião pública romana -
que mal compreenderia que um parecer do Senado fosse ignorado ou mesmo contrariado, numa
cidade em que o prestigio do Senado era cada vez maior e dos magistrados cada vez mais baixo;

3. A ingerência nas decisões do pretor - a seu pedido, mas com forte efeito na modulação do ius
praetorium e assim, do ius honorarium

A importância do Senado não está tanto no carácter aristocrático do regime quanto no facto de as
suas características monárquicas impossibilitarem a convocação e a atuação dos comícios que reuniam
unicamente a plebe urbana —> tornando o Senado a única assembleia que podia reunir sem ameaçar
as bases da legitimação do poder do princeps

Nota:

- À medida que o Principado foi formalizando as regras fundamentais características do regime, os senatusconsulta como
leis foram substituídos, primeiro materialmente, depois formalmente, pela oratio principis in senatu habita = a proposta de
lei que o princeps apresentava ao Senado e que, quase desde inicio, era aplaudida e aprovada, atendendo-se mais ao
propositor do que à proposta
- Prática seguida sem exceção: princeps deixou de ir apresentar pessoalmente, depois deixou de enviar os seus
representantes, e posteriormente passou a ser feita no palácio imperial e tornou-se certa a sua aprovação 

- Foi através da oratio principis que o imperador interveio em matéria de direito privado, para transformar as regras gerais
de ius em leis gerais e abstratas. O ius civile nunca mais foi o mesmo.

3.3. As magistraturas 


Magistraturas - órgão constitucional que no Principado, mais sofreu uma erosão dramática e devastadora - estas que eram
os pilares fundamentais do regime republicano, constantemente aperfeiçoadas na longa experiência política

Os magistrados garantiam uma adequada partição das funções, um equilíbrio politico, uma contenção no
exercício dos poderes, uma fiscalização constante ao serviço de interesse público. O Principado, ao concentrar
no princeps o poder de todos os magistrados com primazia sobre os demias, destruiu o conteúdo jurídico-
politico que sustentava a sua existência constitucional.

Com o Principado, as magistraturas passaram a ser apenas um nome para iludir o desaparecimento
dos cargos tal como eles deviam ser exercidos e das funções tal como elas resultaram do apuramento
feito durante a república. Perderam a iniciativa política e a capacidade de intervenção, limitando-se a
exercer tarefas meramente administrativas, sem qualquer poder de decisão quanto ao rumo dos
acontecimentos - criação do ius por adaptação dos mores maiorum.

O consulado, mantendo os apanágios formas e a anualidade, deixa de ter qualquer conteúdo politico
nas novas formas de exercício, entanto o poder dos cônsules limitado pela ação do princeps. Os
cônsules não se mantiveram como os supremos representantes de Roma, deixaram de ter poderes
para convocarem e presidirem às assembleias do populus e ao Senado - estes poderes passaram a ser
exercidos pelos princeps, ou pelos colaboradores por ele designados.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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Pretores - era difícil destroná-los das funções que exerciam.



O seu tipo de atividade exigia um elevado conhecimento dos mecanismos processuais e das regras
substantivas aplicáveis na resolução de litígios - não era fácil substituí-los e muito menos esperar que o
princeps se dedicasse ao expediente de dar e denegar ações, pelo estudo dos casos presentes ao
petor. 

Era impossível transferir os poder dos magistrados para o princeps.Era necessário atura sobre a
função que exerciciam, reduzindo o seu campo de intervenção, desprestigiando a magistratura aos
olhos das elites e do populus, aumentar o número dos seus titulares, entregando-lhes tarefas menores,
sem a dignidade que o exercício de tais funções implicava. 

Tudo isso levou ao desaparecimento da pretura!!! 


Censores - foram reativados por Augusto, por exigências especificas do seu governo

Mantiveram-se sem qualquer importância política e com poupo prestigio institucional, até que
Domiciano se declarou censor perpetuus acabando com a censura como magistratura.

Edis curuís - mantivera-se como magistrados, mas as suas competências foram substancialmente
reduzidas —> circunscrevendo-se a sua atividade pública ao exercício de funções ligadas aos
abastecimentos, à organização dos jogos públicos, à fiscalização de estas atividades urbanas e à
prevenção de incêndios.

Quaestores - foram reduzidos para metade (passaram de 40 para 20) e a sua principal função ligada à
administração do erário público foi entregue a dois pretores. 

Nota: O mesmo aconteceu com os magistrados menores, que foram reduzidos em numero e desvalorizados ou esvaziados
de funções.

Tribunato da plebe - de todas as magistraturas, a que maior abalo politico sofreu com o avento do Principado.

Augusto sabia que o êxito do seu projeto constitucional estava ligado à destruição da valorarão jurídico-política que o
tribuno da plebe adquiriu na república e do expressivo valor simbólico da sua intervenção na justiça concretizada “em
nome do povo”. Aproveitando o regime do primus inter pares, Augusto assumiu a tribunitia potestas sem tocar nos seus
poderes ou confrontar os seus titulares. 

- Os tribunos da plebe mantiveram o poder de intercessio, menos contra o princeps, único que
verdadeiramente interessava, já que era o princeps a fonte e a expressão efectivada de todos os
poderes de Roma.
Os outros poderes exercidos pelos tribunos: o poder de coerção; a sua inviolabilidade, o poder de
convocar o senado e as assembleias da plebe eram significativos, mas tinham perdido eficácia
interventiva de outrora - já que o princeps, primeiro dos tribunos, poderia sempre fazer de outro
modo e anular o efeito daquilo que o tribuno fizesse ao abrigo desses poderes.

O Principado destruiu de forma lenta e eficaz o pilar fundamental sobre o qual assentava a
república: as magistraturas.

Mantendo a sua aparência de respeitabilidade e de parceiro na partilha do poder politico, as


competências dos magistrados foram entregues ao princeps, que, por esta forma, operou uma
concentração de poderes, sob a égide do consenso e a bandeira da inevitabilidade.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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3.4. O princeps 

Poderes principais do princeps: o imperium proconsulare maius et infinitum e a tribunitia potestas. 


Imperium proconsulare maius et infinitum



Permitia-lhe o exercício de comando militar supremo e do governo das províncias, mas sobretudo a
administração de todo o império, com o imenso poder politico, a capacidade de influenciar em decisões
e a possibilidade de escolher decisores, assim moldando a elite executiva da “vasta Romana”. 

Foi este poder que permitiu a Augusto desenvolver uma rede clientela de “incondicionais” do
princeps, por ele nomeados e dele dependentes, para se manterem nos cargos: os funcionários
imperiais, com um emprego fixo ligado a carreiras em estruturadas, hierarquizadas e renumeradas,
serviam primeiro o princeps. 


Tribunitia potestas

Faculdade de paralisar qualquer procedimento ou ação do Senado ou das magistraturas que
considerasse inoportuno ou inconveniente.

O princeps aparece como um servidor (funcionário) extra ordenem da respublica e por causa dela e da
sua preservação é obrigado, contra a vontade, a intervir, para “colocar as coisas em ordem”. 

Este atuava a fim de “salvar a res publica” e intervinha, sempre a pedido dos titulares dos seus orgãos
constitucionais, de forma permitida pela normação constitucional que plasmava, normalmente depois de
o princeps agir, a “experiência política que se fazia”. 

Roma confiava no princeps que a governava, concentrando nele os poderes para o bem da comunidade e o futuro.


Na formalidade constitucional, Augusto, como princeps, não tinha poderes originários. Todos os
poderes que exercia eram-lhe outorgados pelos orgãos políticos do regime republicano - assembleias
do populus e Senado. 


Por outro lado, apesar da aparência de respeitos pelas magistraturas e pela regra do primado do cursus
honorum para acesso às magistraturas ——> em discurso, ele comunicava outra realidade: o princeps
intervinha nas magistraturas para garantir o exercício de um poder seu concorrente e não complementar,
dirigente e não igual, ao dos magistrados. 

A extinção das magistraturas tal como existiram na res publica, era a meta do princeps.

ATENÇÃO!!!

A criação de um funcionalismo publico em apoio ao poder politico singular e solitário excluir a possibilidade
de exercício de poderes pelos magistrados. Concorrendo nos mesmo espaços, os magistrados perderam para os
funcionários e, assim, a república do populus para um principado autocrático e seco do princeps, sem capacidade
para adaptar as regras à realidade, cada vez mais conservador e menos tradicionalista; cada vez mais fechado na
lei, que o legislador fundacional do regime criara para a eternidade, e menos aberto à criatividade jurisprudência
autora de ius. 


As dissemelhanças de legitimação política e exercício do poder entre os titulares que caracterizam


esta antítese entre magistrados e funcionários: 

1. Os funcionários são designados pelo princeps para fazer cumprir as leis; magistrados são eleitos
pelos cidadãos com direito de sufrágio para adaptarem de forma criativa as regras gerais que a tradição
do ius estabilizou 

2. Os funcionários faziam uma carreira a partir de uma nomeação por tempo indeterminado - depende
da vontade do princeps; os magistrados eram eleitos por mandatos determinados e finitos 

3. Os funcionários. Exerciam funções numa estrutura hierarquizada que tinha no topo o princeps; os
magistrados eram orgãos da república que não obedeciam a hierarquias nas decisões que tomavam nas
formas de exercício do mandato dispunham de ampla liberdade
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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A centralização do poder pela extensão da burocracia organizada pela lei e controlada pelo princeps
era fundamental na consolidação política do Principado como regime autocrático. 


O cursus honorum especifico das magistraturas, assente no mérito do titular e na escolha popular por
eleição, deu lugar à carreira civil do funcionário imperial, com todas as diferenças, para pior…:

- entre uma república de magistrados e uma república de funcionários; 

- entre uma república onde as elites se diferenciam pelo mérito e pela competência e uma república
onde as elites são designadas por simpatia do chefe e com critérios assentes na forma como servem o
poder instituído;

- uma república onde a legitimidade de todos decisores é só política e assente na escolha pelo voto e
uma república onde os decisores são designados pelo titular do poder político que delega na função
administrativa a decisão que a ele cabe. 


Reforço dos poderes dos funcionários com funções na área da segurança da pessoa do titular do
poder e do regime vigente - esses funcionários, os praefecti, foram-se desdobrando em áreas de
autuação:


Pretorianos - corpo de segurança com um estatuto especial, bastante prestigiado, com amplos e
autónomos poderes militares, bastante próximo do princeps, com importante papel estabilizador e
exemplo de institucionalização 


Curatores - juntaram competências despesas pelas magistraturas, sobretudo exercendo as funções dos
antigos censores, como a manutenção dos aquedutos e das vias de comunicação, e superintendiam e
acompanhavam obras públicas. Nomeados pelo princeps entre os senadores de maiores grau e
prestigio, tinham um papel fundamental na institucionalização do poder imperial.

Praetores e curatores - vão exercendo na pratica uma competência jurisdicional que depois é aceite e
formalmente reconhecida em relação às matérias apresentadas = o Principado, na sua prática jurídico-política,
criou as condições propicias para o aparecimento de uma jurisdição concorrente àquela que existia, e que o
princeps dizia respeitar.

Apareceram os legatti augusti que auxiliavam o princeps no comando das legiões e na difícil
administração das suas províncias; os procuratores augusti, a quem foram atribuídas as funções de
administrar o património privado do priceps, sobretudo as receitas provenientes das províncias
imperiais.

O surgimento de uma série estruturada de carreiras administrativas públicas consolidou a primazia do


princeps como chefe politico do “Estado”, suficientemente institucionalizado para deixar de ser apenas o
herdeiro do princeps anterior, o chefe de fação, o comandante militar. De tal forma que identifica a lex
do princeps com o ius de Roma. O carácter autocratico, despótico, discricionário e isolado do poder era
uma das características essenciais do exercício do poder político pelo princeps. O seu aconselhamento
através do consilium principis revela os elementos específicos identificadores de um regime
monárquico, sob a capa de respeito pela tradição e pelos órgãos da república. Em nenhuma
circunstância o consilium poderia interferir na decisão do priceps. —> o consilium nunca se constitui
como uma estrutura intermédia de poder, com estabilidade e estatuto que permitissem um vislumbre
de institucionalização de mecanismos mediâtizãdores do poder exercido pelo princeps.

A transição da república para o principado opera-se, de forma lenta mas determinada, asfixiando as
magistraturas e a expressão autónoma da ius na concretização da justiça na solução de um caso
concreto, nos séculos III-IV, com a substituição definitiva do processo formular e dos juizes das
quaestiones.
Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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Possibilidade de o princeps exercer uma atividade normativa própria



O respeito formal pelos órgãos da república obrigava a sobrevalorizar os fundamentos políticos do
poder legislativo do princeps, nomeadamente: 

1. Cabeça de regime - exercendo um poder quase absoluto, o princeps não estava vinculado a cumprir
as leis de Roma = gozava de uma imunidade absoluta 

2. Na qualidade de primus inter pares - o princeps exercia um poder politico que se expressava, no
plano normativo, em atos com valor igual ao das leis, para bom governo da cidade; assim os atos do
governo de princeps, expressos sob forma de normas, eram atos legislativos

Os atos legislativos do princeps, resultado do voluntarismo político, justificados como atos necessários para a
disciplina da vida em comum dos romanos, eram designados como constituições imperiais, e dividiam-se em:
edicta, mandata, rescripta, decreta e epistolae.

3.5. Os titulares do poder no Principado: carisma pessoal e criação de direito 




A debilidade jurídica do Principado era consequência da constante erosão das instituições
republicanas que não podiam sobreviver num regime que assentava no poder politico absoluto do
chefe. Com o direito cristalizado e com as suas fontes de criação extintas ou esgotadas, a regulação dos
conflitos passa para a ei e esta é produto da vontade do princeps. O seu arbítrio colocava elementos
subjectivizadores exclusivos e totalitários no conteúdo normativo, na interpretação e na aplicação do
Direito. 


- O Principado nunca foi um regime fundado no Direito e preocupado com ele. Ao contrário, usou o
“Direito-lei” para destruir o Direito-ius, secando as suas fontes e invadindo o seu espaço vital com leis e
burocracias.

3.6. O Principado como império 




A conceção de um novo regime politico assente na natureza primacial absoluta do princeps em
todas as instituições que exercem poderes públicos, ou mesmo me todas as formas de exercício de
poder em Roma, foi determinada também, na consolidação normativo-constitucional, pela necessidade
de unir e defender o território vasto de Roma e, ao mesmo tempo, caracterizou a forma como essa
consolidação político-territorial foi conseguida.
Divisões entre as províncias e

 distribuição de funções

pág. 128

NOTA IMPORTANTE! 

A distinção social dos cives entre humiliores e honestiores manteve-se. 

Honestiores - estavam integrados os romanos da ordem senatorial, que se distinguiam, conforme as
categorias em illustres, spectabiles et clarissimi; da ordem equestre; os militares; os funcionários da
Administração central e periférica; os profissionais liberais; os decuriões e o clero.
Humiliores - faziam parte os homens de negócios; os artesãos; os que trabalhavam na cidade e no
campo. Ficaram também nela integrados os colonos adstritos às terras (homens livres mas com uma
condição jurídica muito similar à dos escravos).

- O Principado tinha na sua base político-territorial o ideal programático da supremacia absoluta de


Roma e de Itália. Todas as partes do império viviam por causa e em função de Roma.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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3.7. As causas do fim do Principado 



Causas mais significativas para a ruína do projeto iniciado por Augusto:


1. A hidridez originária sem caracterização constitucional própria 



O Principado aparece desde, o inicio, com uma estrutura híbrida - o que deixa em aberto a relação do
princeps com os órgãos de poder da república, competindo ambos nas mesmas áreas de ação
governativa. O equilíbrio geométrico entre os dois era impossível e o sistema favorecia o princeps, com
tendências monárquicas. 


Assim, tudo dependeria das características pessoais do titular do poder político e militar: o princeps. 

A sua relação com o Senado requer constante esforço de contenção, no sentido de não usar os meios
políticos e militares de que dispunha para impor a sua vontade e efectivar as suas decisões. Aos
poucos a ação do Senado e das magistraturas, com o desgaste a que estava sujeitos pela ação do
princeps, reduz-se a uma formalidade protocolar, com conteúdo meramente simbólico face à
necessidade de manter as aparências.

2. A desromanização da elite governava e o fim de Roma como centro político fulcral 



Assiste-se a uma desromanização do império em que a presença de romanos na titulatura dos cargos e
os rituais próprios da república romana na sua concepção tradicional itálica vão-se lentamente
esvaziando e esvaindo. 

A peninsula itálica produz pouco e gasta muito e a sua demografia entre em crise profunda,
deslocando o eixo da política imperial romana para as províncias. A sede do Principado e a figura do
princeps enfraquecem-se com a perda de importância de Roma e da Itália no seio do império.

3. Falta de escravos e a crise do mundo agrícola 



Com o fim das grandes campanhas militares, deixa de haver “fonte” para angariar escravos. Esta redução tem
óbvias implicações na produtividade dos campos agrícolas. O campo é abandonado e acentua-se o movimento
acelerado de urbanização. 

A elite política romana não soube lidar com este processo de esvaziamento de um setor de apoio e
recrutamento de pessoa para as instituições republicanas como era o mundo rural. A urbanização requeria a
organização do trabalho livre e uma nova forma de valorizar estes trabalhadores - não aconteceu!!

De igual modo, a substituição de escravos por colonos no cultivo dos campos foi um fracasso, sobretudo pela
limitação imposta pelo regime jurídico dos que era obrigados a exercer certas tarefas até à morte e os filhos a
seguir a atividade do pai.

4. A autonomia das províncias, a perda de receitas e a barbarização


A incapacidade politica de manter os vínculos institucionais a Roma de todas as parcelas do império
obrigou a iniciar um processo de autonomia política progressiva das províncias. 

O resultado é a desagregação política, com efeitos económicos inevitáveis: a resistência cada vez
maior das províncias a enviarem as suas receitas para Roma; o abandono da manutenção de
infraestruturas básicas por falta de fundos (gastos de forma errática e sumptuária pelas elites); a
influência nas instituições políticas da ordo barbarica.

5. O fim do exército como instituição romana coesa 



O recrutamento de pessoal oriundo das províncias do império (provinciais) para o exército, para
fazer face à defesa das fronteiras e depois à defesa e à segurança das instituições em Roma e nas
principais cidades, abriu o caminho para divisões territoriais e étnicas, em apoio às reivindicações de
autonomia, o que enfraquecer o papel de exército como firme instrumento de unidade política, a sua
hierarquia e a disciplina. 



 Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)
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6. O Cristianismo e a divindade do princeps 


O ainda incipiente Cristianismo começou a difundir-se no império, ameaçando a figura do


imperador dominus et deus como fator de unidade político-territorial, a quem todos os romanos
adoravam e reconheciam como deus. 

A recusa dos cristãos em adorar o imperador e os novos valores morais por eles introduzidos com
êxito no vasto espaço do império, em contradição com aqueles que sustentavam a sua estrutura
ideológica , tinha como principal efeito a separação entre os poderes político e religioso.

Os cristãos não obedeciam às leis do império que os obrigavam a fazer coisas contrárias aos
mandamentos da sua fé, fragilizando um dos principais elementos de coesão do império: a lei comum.

O Cristianismo punha em causa o imperador, como divino, e o seu imperium, expresso nas leis. A
perseguição aos cristãos e o fracasso no combate aos seus valores e práticas revelaram as fragilidades
institucionais e políticas do Império Romano.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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• Quinto Período - O princeps como rex no império único (285- 395)

1. A importância de Diocleciano (285 - 305) na instituição do Dominado 




1.1. As formas que recuperaram o império único
Diocleciano inicia o seu trabalho de recuperação do império, territorialmente reunificado desde Aureliano, pelo
reforço da autoridade imperial.

O êxito do seu trabalho resulta de: ter feito assentar o fundamento teocrático do poder monárquico
absoluto, de tipo oriental, não na pessoa do imperador, mas em instituições jurídico-políticas que
recolhiam e sintetizavam o melhor dos desvios personalistas e autocráticos do Principado,
combinando-os com as características teoréticas das monarquias orientais.

Recuperando o tópico da excecionalidade do regime instaurado, com a justificação da sua


necessidade para fazer face à insegurança e à anarquia em que se encontrava o império, Diocleciano
conseguiu tranquilizar os partidários do Senado e da sobrevivência, ainda que meramente formal, de
um incipiente republicanismo.

O carácter instrumental da natureza oriental da monarquia de Diocleciano face ao objetivo de


reconstruir um “Estado” romano - de retorno à matriz romano-itálica, e ao carácter pagão, no sentido
laico. O vínculo oriental, desprovido do valor estruturante do principio dinástico, dava um forte pendor
simbólico ao princeps-rei-deus no cerimonial político e nas ocasiões protocolares, revelando ao vulgo
onde estava o poder efetivo e às elites políticas o seu lugar na nova hierarquia do regime.

Reformas realizadas no tempo do império de Diocleciano: 




1. Construção de um corpo normativo bem delineado e sistematizado permitiu a substituição dos muitos
exércitos que agonizaram a força armada de Roma num único, disciplinado, hierarquizado e obediente
exercitus praesentalis

2. A hierarquia da Administração central que comandava a burocracia imperial foi reformulada em torno da
institucionalização de um consistirium sacrum, concebido como órgão de consulta de princeps

3. Os governadores das províncias, sem as competências militares e tributárias que tinham, tornaram-se
representantes da Administração imperial das províncias

4. A hierarquia administrativa tinha no topo o princeps e os seus agentes distribuíam por todas as
circunscrições territoriais em que o território imperial estava dividido, governando-as com uniformidade de
políticas e praticas a partir de uma hierarquia centrada em Roma

5. A reforma tributária permitiu desenvolver o equilíbrio contributo entre os vários territórios, esvaziando assim
o capital de descontentamento que alimentava as reivindicações separatistas, e mitigou o sentimento de
exclusão e injustiça que os mais prejudicados pela desigualdade fiscal sentiam

6. A simplicidade dos critérios de recolha de receita pública através dos impostos permitia a todos
compreender o sistema e vigiar eventuais desvios

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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1.2. A tetraquia 


A reforma mais ousada de Dciocleciano - a tentativa de construir institucionlamente o topo da hierarquia imperial, não
como um unipessoal assente na figura do imperador, mas numa tetraquia. Foi assim que nomeou como comimperador, com
par potestas, Maximiano, a quem foi outorgado o titulo de Augustus. Diocleciano ficou com o governo das pretiras orientais
e Maximiano com a chefia das pretiras ocidentais, numa primeira tentativa de dividir simetricamente. 


Na constituição material desde novo regime politico estava inscrita a obrigação dos imperadores não
envelhecerem no cargo, renunciando a favor dos caesares. Estes, uma vez investidos como augusti
deveriam cooptar dois novos sucessores e assim sucessivamente.

Uma das vantagens dos sistema tetrárquico era: possibilidade de manter o supremo comando
da força armada no imperador de Roma e onde fosse necessários estar nos territórios.
Outra vantagem: garantia a sucessão das chefias politics e militares de Roma através de
regras que impunham soluções previas na substituição dos imperadores. 


Contudo este tipo de regime teve um período muito breve, tendo acabado em 312 - já que a morte
de Constanço desencadeia uma luta pelo poder com características idênticas às que se queria evitar
com a reforma constitucional.

2. O Governo de Constantino (312 - 337): Roma mudou 



2.1. Roma: Coroa centralizada pela Administração imperial
Constantino subiu ao trono em corregência com Licínio, respeitando a separação política entre o Ocidente e Oriente - tal
situação só durou 2 anos, contudo Licínio foi constrangido a abdicar o trono e depois assassinado.

Constantino ficou a governar sozinha com um vasto império de que duas cidades eram consideradas capitais: 

Roma no Ocidente Bizâncio no Oriente

Sem oposição, conduz o poder imperial para um despotismo oriental monárquico, firmado na autoridade incontestada
do chefe e no principio dinástico, sem restrições ou pudor. Inverte o percurso político de Diocleciano na estratégia ide
retorno à glória do Império Romano pela reposição das tradições romanas e itálicas do Principado, apenas com reforço da
componente militar.
Constantino fecho o círculo político fazendo regressar Roma ao regime monárquico, com a natureza jurídica da Coroa.

- Organização administrativa como instrumento da cadeia de comando —> seguiu o caminho de Diocleciano completando a
reforma burocrática por ele iniciada.

- Uma das principais debilidade no exercício do poder imperial no que respeitava à fidelidade à plena execução de ordens
emendas de Roma nos territórios do império é colmatada com a completa substituição das débeis e desorganizadas
estruturas do governo republicano-aristocrático quer quanto ao princeps, quer quanto ao Senado.

Com Constantino - o direito público romano - ainda radicado nas estruturas institucionais das
magistraturas republicanas e mantendo esse fio condutor na adaptação institucional às novas
características políticas do regime imperial, termina.
Direito público = vontade do soberano expressa na lei, na decisão política normativizada e na ordem
administrativa hierarquicamente executada.
Esta centralização da criação jurídico-pública, de características monárquicas autoritárias de pendor pessoal,
burocráticas e assentes na imposição hierárquica não se coaduna com as estruturas jurídico-políticas que criaram
e mantêm o Império Romano.
Esta mudança na concessão do Direito público, a sua positivado política e aplicação administrativa, que
esgotam agora todo o universo jurispúblico romano, empobrecem e aniquilam as estruturas jurídico-políticas
que mantinham o império romano. ————————————————————> Constantino contribui assim pra o
desenvolvimento imparável de um dos elementos que provoca a queda do império que queria defender.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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2.2. O Cristianismo: fator de unificação e governabilidade

Com Constantino, o Cristianismo deixa de ser uma seita religiosa perseguida por colocar em causa a unidade
do império e o poder imperador, para se tronar uma força de atração de pessoas e classes dispersas para a órbita
da Coroa romana, elemento de unificação político-religiosa e instrumento do poder do imperador.

Constantino estudou o imenso potencial centralizador e de obediência que a construção celestial da fé cristã
representava e procurou utilizá-lo na tarefa política de manter o Império Romano como estrutura jurídico-política
territorialmente unificada.

3. A consolidação das alterações operadas por Constantino (337-395)


O princípio dinástico instaurado por Constantino como tentativa de dar estabilidade política à sucessão do poder
imperial em Roma não funcionou.

As querelas familiares na disputa do poder que haviam destruído a capacidade de resposta institucional de Roma às crises
políticas e às amigas militares voltaram com os filhos de Constantino: Constante e Constanço.
Quando Constanço é assassinado na sequência de uma conjura, Constança nomeia Gaio seu augustus para substituir o
seu irmão. Ao chegar ao poder, inicia um governo despótico próprio, em claro abuso dos poderes que Constanço lhe havia
conferido. Sendo destituído e julgado, Constança nomeia o seu meu-irmão Juliano para o lugar.

361 - Constanço morre e Juliano é aclamado augustus pelo exército. Reina sozinho, sem grandes contestações, tentando
reduzir a despesa pública e ao mesmo tempo carga fiscal. Inverte a política de favorecimento da Igreja cristã e de privilégios
aos cristãos de Constantino, subalternizando o culto cristão face às religiões pagãs.
A sua morte abre um novo período de anarquia e desgoverno até que o exército impõe dois generais como imperadores:
Valentino e Valente; com quem se inicia um período de um governo militar, em que os oficiais ocupam os mais elevados
cargos políticos e administrativos.

Os abusos dos poderes não prevenidos pelo Direito, não reprimidos elos magistrados e não controlados pelo governo
levaram-nos a criar, entre os altos funcionários imperiais, o defensor plebis ou civitatis.
Morre Valentiniano e posteriormente Valente… O filho do primeiro, Graciano, é aclamado imperador e designa como
comimperador Teodósio, em 379. Este como governante procurou centralizar o poder político concentrando todas as
competências no imperador. Apesar de ter vencido os Visigodos, foi também quem permitiu a entrada dos mesmo no
exército romano.
A barbarização/desromanização do exército imperial foi um dos principais elementos explicativos do colapso do Império
Romano. Foi também este que proclamou oficialmente o Cristianismo como “religião oficial” - o que contribuiu para o fim do
Império Romano. O Cristianismo tinha premissas comportamentais e pressupostos institucionais que negavam a base
ideológica e a estrutura sociopolítica em que assentava o Império.

395 - Teodósio morre e com ele rompe-se em definitivo a possibilidade de manter unido o Império Romano. Ficam os
seus filhos a reinar mas separadamente o Oriente e Ocidente; de forma completamente separada, governam como se de
dois “Estados” diferentes se tratasse.

4. A iurisprudentia possível num Direito feito lei

“Quod principi placuit legis habet vigorem” 



Expressão formulada para que se considerasse a vontade do princeps ao lado das demais fontes criadores de
Direito, a iurisprudentia deixa de existir como atividade própria dos jurisprudentes.

O ius publice respondendi, que já havia deixado de ser conferido desde Diocleciano, fica agora
definitivamente extinto. Já não cabe aos jurisprudentes atualizar o direito tradicional tornando aplicável à
respetiva época as soluções jurisprudenciais.
Agora, os jurisprudentes só existem como consultores ou assessores do imperador. Só se expressam como
membros da chancelaria imperial ou do sacrum consistorium, quando redigem as constituições imperiais.
Deixaram de existir os responsa prudentium.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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O ius passa a estar fechado e morto nas leis e nas obras literárias que repetem um passado sem continuidade
ou possibilidade de ser esperança de futuro. O direito vigente deixa de passar pela iurisprudentia, que se torna
mero repositório de regras e fórmulas selecionadas para legitimação dos atuais poderes e interesses
legislativamente consagrados.

Como coletâneas das fontes de um direito que foi vivo e atuante, as obras dos jurisprudentes antigos são agora
invocadas para impedir a possibilidade de surgir em Roma uma iurisprudentia livre com as mesmas
características que tornaram grandes os jurisprudentes do passado gabados e aceites, porque inofensivos, pelo
poder tirânico dos imperadores.

Portadores de um conhecimento encerrado no direito jurisprudencial antigo, os “jurisprudentes” deste período


só o podem expressar através das constituições imperiais quando isso convém ao princeps e na parte que se
conjuga com o seu interesse.
Tal como ainda hoje, o ius só aparece pela lei e submetido aos superiores interesses dos titulares do poder
político. O que significa muito raramente e quase sempre torcido e deturpado pra fins legitimares estranhos à
justiça e à equidade.

Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)


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Baixado por Hortêncio Sanumbutue (hortenciocs@outlook.com)