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24/10/2018 Curtidas bilionárias - Economia - Estadão

COLUNISTA

Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios

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Curtidas bilionárias
Com a tecnologia, afastamos quem está perto para nos conectarmos com quem está longe

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo


06 Setembro 2018 | 03h00

Os impactos na sociedade causados por um futuro onde a tecnologia exerce participação crescente são motivos de
especulação e preocupação. Se por um lado o acesso e uso diário de dispositivos, sistemas e equipamentos
sofisticados permite ganhos expressivos de tempo e aumento de eficiência, por outro criam novos problemas
comportamentais com consequências ainda desconhecidas. A engenharia social, que discutimos na última coluna,
é uma das principais causas de invasões a sistemas computacionais.

Já vimos aqui que estudos científicos demonstram que o próprio uso da tecnologia provoca uma reorganização das
conexões neurais, fenômeno conhecido como neuroplasticidade (a capacidade que o cérebro possui de se
reorganizar, transferindo o processamento de uma região para outra, ou ainda reforçando ou enfraquecendo
sinapses específicas). A tecnologia que temos no bolso permite aproximar aqueles que estão longe - mas acaba por
afastar aqueles que estão próximos. É comum ir a um restaurante e verificar mesas nas quais todos os presentes
estão olhando para as telas de seus smartphones, desconectados do “aqui” e “agora”.

O seriado televisivo britânico “Black Mirror”, criado pelo inglês Charlie Brooker, procura representar diversas
possíveis instâncias do futuro próximo. De acordo com o próprio Booker, o nome do seriado (em português,
“Espelho Negro”) deriva do reflexo de nossas imagens nas telas desligadas de nossos dispositivos portáteis. Em
um dos episódios, chamado “Nosedive” - expressão utilizada para representar aviões que dirigem-se ao solo de
forma extremamente veloz e frequentemente descontrolada - a situação socioeconômica de todos os indivíduos é
diretamente dependente das notas recebidas em todas as suas interações, tanto no mundo virtual quanto no
mundo físico. Pessoas com mais estrelas (ou curtidas, ou likes) têm acesso a tratamento diferenciado, filas
menores e descontos maiores. O episódio conta a história de uma jovem que, na busca por uma “nota social”
melhor, embarca em uma espiral descendente com consequências dramáticas.

A forma como nos comportamos perante um teclado e uma tela é surpreendente em diversos aspectos, e
claramente reforça uma antiga característica do ser humano: a necessidade de “pertencer” a uma comunidade,
fazer parte de algo maior que si mesmo e identificar-se com outros que possuem interesses, princípios ou gostos
similares. Até recentemente, tínhamos que estar geograficamente próximos daqueles com quem pretendíamos
discutir, compartilhar ou apresentar assuntos de interesse mútuo. Com a Internet e a conexão instantânea a
praticamente qualquer parte do mundo, esta restrição mudou. É fácil, barato e estimulante ingressar em uma
comunidade global - tão fácil que dificilmente isso é feito apenas uma ou duas vezes. Temos dezenas de grupos de
Whatsapp, seguimos centenas de pessoas no Twitter, temos milhares de amigos no Facebook (que às vezes nem
conhecemos pessoalmente), curtimos dezenas de fotos por dia no Instagram e compartilhamos informações -
desde as mais banais até as mais relevantes - com uma rede de contatos que é composta por família, amigos,
conhecidos, amigos de amigos e conhecidos de conhecidos.

A montagem, manutenção, exploração e expansão de redes sociais tornou-se um dos maiores negócios do novo
milênio - e os números produzidos são surpreendentes. O Facebook, por exemplo, que no final de agosto tinha
valor de mercado de cerca de US$ 500 bilhões e uma das marcas mais valiosas do mundo, tinha menos de 200
milhões de usuários no primeiro trimestre de 2009. Nove anos depois, esse número era superior a 2 bilhões. O

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YouTube - criado em fevereiro de 2005 e adquirido pela Google em novembro de 2006 por US$ 1,65 bilhão - conta
com mais de 1,5 bilhão de usuários. Este também é o número estimado de usuários do aplicativo de mensagens
Whatsapp, fundado em 2009 e adquirido pelo Facebook em fevereiro de 2014 por nada menos que US$ 19,3
bilhões. O Instagram, fundado em 2010 e hoje com mais de 800 milhões de usuários, também foi adquirido pelo
Facebook por cerca de U$ 1 bilhão, em abril de 2012.

Na próxima coluna iremos discutir não apenas o sentido econômico dessas transações, mas também os princípios
por trás da fascinação que redes sociais exercem sobre os usuários, gerando mudanças nos modelos de negócios
em praticamente todo universo corporativo. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

Mais conteúdo sobre: Black Mirror Facebook Whatsapp Twitter Instagram Youtube

Google inteligência artificial internet tecnologia rede social smartphone

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