Você está na página 1de 1

Acerca da morte (Pet Sematary, Stephen King)

“O solo do coração do homem é mais empedernido.” O sentimento deixado pela


morte de algum ser que amamos é muito forte, é um vazio. Ele não consegue
atravessar o solo empedernido e nos deixar em paz, uma lembrança espiritual sempre
nos persegue, e demora a deixar de. A muito custo se cava neste solo, para enterrar a
morte. Mas ela volta. Nunca a esquecemos. Há sempre um sofrimento no qual a morte
está envolta, um sofrimento praticamente irracional, como o medo que dela sentimos.

Inconscientemente acredita-se que a morte é o fim. Nada mais há depois dela,


toda a potência que certo ser poderia ainda exercer está privada pelo fato do fim, da
morte. A cultura pode impor isto. Ou pode ser pelo simples fato de que há um
desligamento energético entre os seres queridos quando um deles chega à morte. Este
seria o vazio sentido. Ou também por estarmos fadados a acreditar somente no físico,
pois quando algo morre, suas memórias ainda o guardam, mas ao estar preso ao
mundo físico, sofremos por não termos mais o corpo por perto. Utilizamos fotografias
para imortalizar algo, para trazê-lo de volta. Sempre esse desejo, o imortal. Não
importa a forma utilizada para imortalizar-lo, não será o mesmo, pois o que não é
físico já está em outro nível, em outra fase após a vida.

O cemitério micmac exerce essa força. Ele é o sofrimento da morte de um


querido. Em seu solo empedernido a morte não atravessa, não é absorvida, é sempre
lembrada, e lembrada como o fim.

Mesmo os que não têm a crença comum são afetados pelo cemitério. Mas sua
influência é fraca, logo a morte penetra pelo solo empedernido, e todo o sofrimento, a
força da morte sobre o individuo se torna uma mera lembrança, ou sonho longínquo.

Julio Aied Passos