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A ADMISSIBILIDADE DA TEORIA DA IMPREVISÃO E SEUS REFLEXOS

NA FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO

Joanna Morgana Santos de Oliveira¹

RESUMO
O presente trabalho discorre sobre a admissilibidade da teoria da imprevisão, mediante
atuação jurisprudencial, em decorrência de alterações significativas que enfraquecem o
equilíbrio da balança negocial. Através da análise da evolução dos contratos, pretende-se
desenvolver um retrospecto histórico que permite a compreensão da Teoria Revisional,
demonstrando que a natureza do Direito não é intangível e imutável, ou seja, há evolução.
Além disso, tal teoria visa atender a uma função social baseada na igualdade das partes
contratantes e no dirigismo contratual- necessidade de equilibrar o individualismo
contratual-, visto que, o negócio jurídico não promove efeitos apenas para as partes, mas
também, para toda a coletividade. Pretende-se, ademais, fazer um apanhado de como a
Teoria da Imprevisão foi introduzida no pensamento judiciário, até então dominado pelo
absolutismo do pacta de sunt servanda, e da importância de sua aceitação na lógica da
jurisprudência, já que o Código Civil de 2002 não consagrou, de modo expresso, essa
teoria como regra geral de revisão dos contratos.

Palavras chaves: teoria da imprevisão; teoria revisional; função social; equilibrar.

INTRODUÇÃO

O escopo da seguinte matéria é realizar a análise do tratamento jurídico concedido

aos contratos quando, mediante significativa alteração das circunstâncias, tenham sofrido

considerável enfraquecimento na balança econômica negocial das prestações pactuadas.

A discussão trata, mediante análise evolutiva da teoria contratual, de como o instituto da

Teoria da Imprevisão adentrou na lógica jurisprudencial e de sua importância para os

valores sociais humanos.

O espaço conquistado pela cláusula rebus sic santibus, em detrimento da tirania

imposta pelo pacta de sunt servanda, nos sujeita a refletir acerca da relevância que precisa

ser ofertada a revisão judicial dos contratos. Tal pertinência viabiliza a consagração dos

novos princípios constitucionais – boa-fé objetiva e equivalência material- em

contraposição a onerosidade excessiva

Diante do exposto anteriormente, o respectivo trabalho cumpre a função de expor

as consequências judiciais que a Teoria da Imprevisão trouxe para o ordenamento


jurídico, ao passo em que cumpre a obrigação de ajustar os contratos às circunstâncias

supervenientes. Cumpre-se, primeiramente, observar o retrospecto histórico da teoria

contratual e de como ela alcançou a constitucionalização do direito civil, mediante

repercussão não somente no âmbito das partes contrates, mas também em toda a

coletividade. A posteriori, utilizar-se-á a metodologia da caracterização dada a Teoria da

Imprevisão e, por fim, as suas consequências no âmbito jurídico mediante interpretação

hermenêutica dos artigos 317, 478, 479 e 480 do Código Civil Brasileiro de 2002.

TEORIA CONTRATUAL E FUNÇÃO SOCIAL: JUSTO EQUILÍBRO ENTRE AS

PARTES

Se em outros tempos o contrato era visto como mero instrumento de circulação de

riquezas, marcado pelo excessivo formalismo decorrente do modelo romano, a evolução

social trouxe como seu imperativo a autonomia da vontade humana.

Sob o influxo do Direito Canônico, observou-se a consagração da cláusula

rebus sic stantibus, a qual, por incontestável equidade, versava sobre a dependência, em

uma relação contratual, de circunstâncias existentes no momento da conclusão do

contrato. No entanto, o advento do Liberalismo criou um cenário propício para, partindo

da premissa do lema da Revolução Francesa- liberdade, igualdade e fraternidade-,

explorar o economicamente mais frágil sob o pretexto da isonomia perante a lei.

A obrigatoriedade do cumprimento dos contratos deu embasamento ao

surgimento de um dos mais importantes princípios da teoria clássica dos contratos: o

pacta sunt servanda. Para este preceito, o conteúdo do contrato não poderia suportar

alterações depois de pactuado. Tem-se, dessa forma, o caráter imutável e intangível do

modelo liberal de Estado.


“O princípio da força obrigatória consubstancia-se na regra de que o contrato é

lei entre as partes. Celebrado que seja, com observância de todos os pressupostos

e requisitos necessários à sua validade, devem ser executados pelas partes como

se suas cláusulas fossem preceitos legais imperativos.” (Orlando Gomes,

Contratos)

A superação do individualismo nas relações contratuais encontrou respaldo no

Estado Social e Democrático de Direito. Segundo Teresa Negreiros, em sua obra Teoria

dos Contratos, Novos Paradigmas:

Reconhece-se, pois, a necessidade de rever o âmbito da autonomia privada no

campo das relações jurídicas patrimoniais. Neste sentindo, fala-se em “limites”

à soberania da vontade individual, “restrições” à liberdade contratual, ampliação

do conceito de ordem pública, regimes “especiais” ou “excepcionais” de tutela

da parte fraca em certas relações contratuais.”

As relações entre o homem e seus semelhantes passam a ser redefinidas sob a

óptica constitucional, a fim de se resguardar a dignidade da pessoa humana. Essa nova

roupagem encontra embasamento na horizontalização dos direitos fundamentais:

incidência de tais garantias no âmbito dos liames privados. Trata-se da observância da

boa-fé e da confiança, princípios norteadores dos vínculos jurídicos equilibrados.

“Esse novo contrato tem como primado a justiça social e não mais a vontade,

como era no Estado Liberal, onde a autonomia privada e a autonomia da vontade eram

elevadas ao grau máximo” (CANACCHIONI, 2017, p.758). Dessa forma, ao passo em

que o individualismo perde espaço para a solidariedade e contribuição nas relações

privadas, o contrato atinge a função social esperada e prevista no artigo 3º, I, da CF: meio

de aproximação entre as pessoas.


TEORIA DA IMPREVISÃO

Um dos primeiros inscritos, mesmo que em pedras, celebrava a cláusula rebus sic

stantibus. Dizia a Lei 48 do Código de Hamurabi:

"Se alguém tem um débito a juros, e uma tempestade devasta o

campo ou destrói a colheita, ou por falta de água não cresce o

trigo no campo, ele não deverá nesse ano dar trigo ao credor,

deverá modificar sua tábua de contrato e não pagar juros por esse

ano".

Nota-se que os criadores dessa cláusula objetivavam minimizar os efeitos danosos

da execução dos contratos que promovessem obrigações sucessivas, quando as condições

contemporâneas à formação do vínculo contratual já estariam completamente

remodeladas. No entanto, por incidir somente sobre certos tipos de tratados, como o

exposto acima, o rebus sic stantibus adaptou-se aos momentos históricos sob novo nome:

Teoria da Imprevisão

A Teoria da Imprevisão consiste em uma exceção aos cumprimentos dos

contratos, diante de situações de anormalidades. Dessa forma, essa cláusula tem por

objetivo recompor o equilíbrio que pode sofrer degradações diante de fatos imprevisíveis.

Trata-se de uma aplicação direta do princípio da boa-fé, visto que, as partes, no contrato,

devem cumprir o que originalmente se comprometeram.

Cumpre salientar que essa teoria não tem por intuito abolir a força obrigatória dos

contratos, mas, apenas, condimentá-los. Em contrapartida, busca-se, mediante

autorização das revisões dos contratos, uma harmonização com os princípios

contemporâneos a fim de garantir o alcance do cumprimento da equivalência de


prestações expressamente desproporcionais que corrompem os valores sociais

contratuais.

De acordo com o Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona, em sua obra Manual de

Direito Civil, para haja a aplicação da teoria da imprevisão no caso concreto, é preciso

analisar determinados elementos. Entre eles, a superveniência de circunstância

imprevisível, a alteração da base econômica objetiva do contrato – fato que impõe a

onerosidade excessiva a uma das partes contratantes- e o aumento na importância

econômica da prestação para uma ou ambas as partes.

TEORIA DA IMPREVISÃO E O CÓDIGO CIVIL DE 2002

De acordo com os artigos 317, 478, 479 e 480 do Código Civil:

Art. 317. Quando, por motivos imprevisíveis, sobrevier desproporção

manifesta entre o valor da prestação devida e o do momento de sua execução,

poderá o juiz corrigi-lo, a pedido da parte, de modo que assegure, quanto

possível, o valor real da prestação.

Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de

uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para

a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o

devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar

retroagirão à data da citação.

Art. 479. A resolução poderá ser evitada, oferecendo-se o réu a modificar

equitativamente as condições do contrato.

Art. 480. Se no contrato as obrigações couberem a apenas uma das partes,

poderá ela pleitear que a sua prestação seja reduzida, ou alterado o modo de

executá-la, a fim de evitar a onerosidade excessiva.


Observa-se que o ordenamento brasileiro optou, em princípio, pela revisão dos

contratos, desde que sejam verificadas as condições legais. A análise do artigo 317

permite-nos inferir o seu caráter de preservação do vínculo obrigacional e sua

conformidade, mediante proteção da parte lesada, com a solidariedade e o princípio da

confiança, imprescindíveis para o equilíbrio das relações humanas.

A onerosidade excessiva retratada pelo artigo 478 do Código Civil precisa ser

analisada pelo julgador de acordo com as especificidades do caso concreto. A Apelação

Cível n° 652.006-00/0, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo através de sua 10ª

Câmara, o Desembargador Irineu Pedrotti salientou: “Não há critério objetivo definindo

o que seja a onerosidade excessiva, de onde remete-se ao prudente arbítrio do Magistrado

a formação da sua convicção sobre eventual ocorrência” . Observa-se, diante do exposto,

a importância e a necessidade do parecer cautelar e imparcial do juiz para que se

estabeleça a paridade econômica contratual.

Ainda de acordo com o dispositivo 478, é importante destacar que, além da

imprevisibilidade, deve se observar o caráter excepcional das circunstâncias. Diante

disso, poderá o solvens requerer a resolução do contrato, acontecimento que fará os efeitos

da sentença retroagirem à data da criação.

O artigo posterior traz a possibilidade de se evitar a resolução contratual caso o

réu aceite modificar – uniformemente- as condições do negócio jurídico. Cumpre criticar

o caráter unilateral dessa leitura, visto que, ao conceder que somente uma parte possa

revisar o contrato, o negócio pode não interessar ou, até mesmo, ser mais desfavorável a

parte lesada.

Por fim, o dispositivo 480 parte da possibilidade de o indivíduo pleitear a redução

ou alteração do modo de executar a sua obrigação para se evitar a onerosidade excessiva.


Em casos de eventos inesperados, cabe ao devedor requerer a minoração das

consequências danosas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Constata-se a importância da teoria da imprevisão para a efetivação do

cumprimento da função social do contrato. É através desse instituto, inserido na legislação

civil brasileira mediante a lei 10.406 de janeiro de 2002, que se pode almejar a igualdade

substancial entre as partes contratantes em detrimento do pacto individualista

característico de séculos passados.

Mediante análise do caráter imutável e intangível concedido aos contratos durante

a vigência do Estado Liberal, observa-se que o absolutismo do pacta sunt servanda não

cumpre, na sociedade hodierna, uma conformação com os valores sociais constitucionais.

Dessa forma, o postulado da igualdade – inicialmente consagrado mediante a cláusula do

rebus sic stantibus- ganha espaço em um ambiente que prega, cada vez mais, o resguardo

da dignidade da pessoa humana em todos os âmbitos da vida civil.

A previsão dessa teoria no Código Civil de 2002 apresenta diversas garantias as

partes do negócio do jurídico, tornando-a, mediante análise do retrospecto histórico da

teoria contratual, uma das mais importantes evoluções no campo cível e jurisprudencial.

Nota-se que há ainda muito caminho a ser percorrido - em virtude de se tratar de um

instituto recente- para que a teoria da imprevisão adentre efetivamente na lógica

jurisprudencial e possa cumprir a sua função na revisão dos contratos.