Você está na página 1de 13

ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

HABEAS CORPUS. TRÁFICO ILÍCITO DE


DROGAS. PRISÃO PREVENTIVA. AUSÊNCIA
DE DEMONSTRAÇÃO DE PERIGO EM
CONCRETO. DESPROPORCIONALIDADE NA
MANUTENÇÃO DA SEGREGAÇÃO
CAUTELAR. CONSTRANGIMENTO ILEGAL
EVIDENCIADO.
No caso, embora não seja insignificante a
quantidade de droga apreendida na posse do
paciente (50g de maconha), a quantidade não é
de grande monta.
Não obstante a apreensão da droga, somadas
às informações obtidas pela autoridade policial,
sejam elementos suficientes para
caracterização do fummus comissi delicit, não
são o bastante para evidenciar a existência do
perigo na liberdade do paciente (periculum
libertatis).
Por conseguinte, ausente a demonstração do
periculum libertatis, e considerando as
condições pessoais favoráveis do acusado, que
é primário e, respondeu a outros processos, os
quais tiveram decisão transitada em julgado,
referente à Violência Doméstica
(038/2.09.0003274-1; 038/2.09.0004804-4;
038/2.16.0003018-0; 038/2.16.0003940-4),
inexistindo justificativa concreta para a
manutenção da prisão e, portanto, mostra-se
impositiva a concessão da ordem.
Porém, presentes indícios de possível
traficância, mostra-se adequada a fixação de
medidas cautelares diversas, previstas no artigo
319 do Código de Processo Penal.
CONCEDERAM PARCIALMENTE A ORDEM,
POR MAIORIA.

HABEAS CORPUS TERCEIRA CÂMARA CRIMINAL

Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565- COMARCA DE VACARIA


63.2017.8.21.7000)

BARBARA BOSCHI BOSSARDI IMPETRANTE

BRUNA APARECIDA MELFIOR DUARTE IMPETRANTE

CASSIANO PAIM IMPETRANTE


1
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

BIANCA GABRIELLE FAORO IMPETRANTE

MARCIO ZINGALI DOS SANTOS PACIENTE

JUIZA DE DIREITO DA 1 VARA COATOR


CRIMINAL DA COMARCA DE VACARIA

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos.

Acordam os Desembargadores integrantes da Terceira


Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado, por maioria, vencido o
Desembargador Sérgio Miguel Achutti Blattes, em conceder parcialmente
a ordem. Expeça-se alvará de soltura, na origem, para MARCIO ZINGALI
DOS SANTOS, se por outro motivo não estiver preso, e o termo de
compromisso.

Custas na forma da lei.

Participaram do julgamento, além do signatário, os


eminentes Senhores DES. SÉRGIO MIGUEL ACHUTTI BLATTES
(PRESIDENTE) E DES. INGO WOLFGANG SARLET.

Porto Alegre, 13 de setembro de 2017.

DES. RINEZ DA TRINDADE,


Relator.

R E L AT Ó R I O

DES. RINEZ DA TRINDADE (RELATOR)

Trata-se de Habeas Corpus impetrado por BÁRBARA BOSCHI


BOSSARDI, BIANCA GABRIELLE FAORO, BRUNA APARECIDA MELFIOR
2
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

DUARTE e CASSIANO PAIM, advogados, em favor de MÁRCIO ZINGALI


DOS SANTOS, apontando como autoridade coatora o Juízo da 1ª Vara
Criminal da Comarca de Vacaria.

Nas razões, relatou que o paciente está preso desde 07 de


julho de 2017, no Presídio Estadual de Vacaria, em razão de prisão em
flagrante, devidamente homologado, posteriormente, convertida em
preventiva, por suposto envolvimento no delito de tráfico de drogas.
Alegou a ausência dos requisitos necessários à decretação da prisão
preventiva. Aduziu, ainda, que (I) não há prova da prática do delito de
tráfico de entorpecentes, uma vez que “a denúncia que levou a polícia
judiciária a efetuar a prisão do paciente baseia-se em depoimento de sua
companheira, pessoa com evidentes distúrbios comportamentais e com
sanidade mental questionada em processo criminal” (fl. 24), (II) o decreto
prisional está fundamentado exclusivamente na gravidade abstrata do
delito, sem considerar as circunstâncias pessoais do paciente, que é
primário, possui residência fixa e exerce atividade lícita, (III) a medida é
desproporcional, pois em caso de eventual condenação o paciente será
beneficiado com a minorante prevista no § 4º do artigo 33 da Lei de
Drogas, e (IV) plenamente aplicáveis as medidas cautelares diversas da
prisão (art. 319 do CP). Ao final, postulou a soltura liminar do paciente.
No mérito, requereu a confirmação da liminar.

A liminar foi indeferida (fls. 281-288).

A autoridade coatora prestou as informações solicitadas (fls.


322-323).

Nesta instância, a Procuradoria de Justiça ofereceu parecer,


de lavra da Drª. Christianne Pilla Caminha, opinando pela denegação da
ordem (fls. 329/332).

Vieram-me os autos conclusos.

É o relatório.

3
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

VOTOS

DES. RINEZ DA TRINDADE (RELATOR)

Eminentes Desembargadores.

O paciente foi preso preventivamente em 07/07/2017, por


suposto tráfico ilícito de drogas, apontando como autoridade coatora o
Juízo da 1ª Vara Criminal da Comarca de Vacaria. Atualmente, recolhido
na Presídio Estadual de Vacaria.

Ao decidir sobre o pedido liminar, proferi a seguinte decisão:


“Trata-se de Habeas Corpus impetrado por BÁRBARA
BOSCHI BOSSARDI, BIANCA GABRIELLE FAORO, BRUNA
APARECIDA MELFIOR DUARTE e CASSIANO PAIM, advogados,
em favor de MÁRCIO ZINGALI DOS SANTOS, apontando
como autoridade coatora o Juízo da 1ª Vara Criminal da
Comarca de Vacaria.
Nas razões, relata que o paciente está preso desde 07 de
julho de 2017, no Presídio Estadual de Vacaria, em razão de
prisão em flagrante, devidamente homologado,
posteriormente, convertida em preventiva, por suposto
envolvimento no delito de tráfico de drogas. Alega a ausência
dos requisitos necessários à decretação da prisão preventiva.
Aduz, ainda, que (I) não há prova da prática do delito de
tráfico de entorpecentes, uma vez que “a denúncia que levou
a polícia judiciária a efetuar a prisão do paciente baseia-se
em depoimento de sua companheira, pessoa com evidentes
distúrbios comportamentais e com sanidade mental
questionada em processo criminal” (fl. 24), (II) o decreto
prisional está fundamentado exclusivamente na gravidade
abstrata do delito, sem considerar as circunstâncias pessoais
do paciente, que é primário, possui residência fixa e exerce
atividade lícita, (III) a medida é desproporcional, pois em
caso de eventual condenação o paciente será beneficiado
com a minorante prevista no § 4º do artigo 33 da Lei de
Drogas, e (IV) plenamente aplicáveis as medidas cautelares
diversas da prisão (art. 319 do CP). Ao final, postula a soltura
liminar do paciente. No mérito, requer a confirmação da
liminar.
É o relatório do essencial.
Decido.
Compulsando os autos, não vislumbro, prima facie, a
ocorrência de constrangimento ilegal capaz de justificar a
concessão da liminar.

4
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

A prisão em flagrante foi convertida em preventiva em


decisão assim fundamentada na garantia da ordem pública
(fls. 103/104):

“Vistos.
Este auto de prisão em flagrante foi lavrado pela
autoridade competente no mesmo dia da prisão do
acusado, caracterizando o estado de flagrância
previsto no art. 302, inciso I, do CPP.
Foram observados os dispostos nos incisos LXII e
LXIII do art. 5º da Constituição Federal, comunicada
a prisão e local onde se encontra ao Juiz e a família
do preso ou a pessoa por ele indicada, sendo
assegurada assistência de advogado.
Ouviram-se o condutor, testemunhas e o conduzido,
lançada a respectiva assinatura e entregue ao
interessado, conforme recibo por esse assinado,
dentro das 24 horas, a competente nota de culpa.
Ademais, o documento de fls. evidencia a
materialidade do evento, havendo suficientes
indícios de autoria em especial dos policiais.
Isso posto, HOMOLOGO o presente auto de prisão
em flagrante de MÁRCIO ZINGALI DOS SANTOS.
Trata-se, em tese, de delito de tráfico de drogas,
equiparado a crime hediondo, não havendo
possibilidade de concessão de liberdade provisória,
por força de disposição legal (art. 44 da Lei nº
11.343/06), havendo como motivos fáticos da
necessidade da segregação a tentativa de coibir a
traficância de entorpecentes na cidade de Vacaria,
ao menos por ora, a ensejar o decreto da prisão
preventiva de, mormente para assegurar a garantia
da ordem pública.
O indício de autoria se revela pela própria prisão em
flagrante, quando de cumprimento de mandado de
busca e apreensão, expedido por representação da
Autoridade Policial, a qual já tinha o agente como
alvo investigado pela suspeita de tráfico de
entorpecentes.
A materialidade vem representada pelo auto de
apreensão de quantidade expressiva de maconha,
embalada em porções variadas.
A existência de residência fixa e de emprego não
são fatores de inibição da prisão provisória quando
se faz necessária para a garantia da ordem pública,
consoante iterativa jurisprudência do Tribunal de
Justiça do Estado.

5
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

Por essas razões, INDEFIRO o pedido de liberdade


provisória e decreto a prisão preventiva de MÁRCIO
ZINGALI DOS SANTOS para a garantia da ordem
pública, com base nos arts. 311 e 312 do CPP.”

Em 11 de julho de 2007, a defesa requereu a concessão de


liberdade provisória ao paciente (fls. 112/116).
O Ministério Público opinou pelo indeferimento (fls. 135/138).
A MM. Juíza a quo manteve a prisão preventiva do paciente, “a
fim de ser garantida a ordem pública, forte no art. 312 do
Código de Processo Penal” (fls. 141/142).
Verifico que as alegações expostas na inicial, no sentido de
que não há prova da prática do delito de tráfico de
entorpecentes, uma vez que “a denúncia que levou a polícia
judiciária a efetuar a prisão do paciente baseia-se em
depoimento de sua companheira, pessoa com evidentes
distúrbios comportamentais e com sanidade mental
questionada em processo criminal” (fl. 24) impõem dilação
probatória e, como é sabido, o habeas corpus não é a via
adequada para análise aprofundada da prova.
Nesse sentido:

HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO


ORDINÁRIO. INADMISSIBILIDADE. TRÁFICO E
ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO DE DROGAS. PRISÃO
PREVENTIVA JUSTIFICADA. GARANTIA DA ORDEM
PÚBLICA E DA APLICAÇÃO DA LEI PENAL. GRANDE
QUANTIDADE DE DROGA MOVIMENTADA (14
TONELADAS DE MACONHA). ACUSADO REINCIDENTE
ESPECÍFICO. FUGA INICIAL. NULIDADE DA AÇÃO
PENAL PELA ADOÇÃO DO RITO ORDINÁRIO. QUESTÃO
PREJUDICADA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO.
1. O Superior Tribunal de Justiça, seguindo
entendimento firmado pelo Supremo Tribunal
Federal, passou a não admitir o conhecimento de
habeas corpus substitutivo de recurso ordinário. No
entanto, deve-se analisar o pedido formulado na
inicial, tendo em vista a possibilidade de se conceder
a ordem de ofício, em razão da existência de
eventual coação ilegal.
2. A privação antecipada da liberdade do cidadão
acusado de crime reveste-se de caráter excepcional
em nosso ordenamento jurídico, e a medida deve
estar embasada em decisão judicial fundamentada
(art. 93, IX, da CF), que demonstre a existência da
prova da materialidade do crime e a presença de
indícios suficientes da autoria, bem como a
ocorrência de um ou mais pressupostos do artigo

6
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

312 do Código de Processo Penal, vedadas


considerações abstratas sobre a gravidade do crime.
3. É inviável a análise, no âmbito restrito do
habeas corpus, de teses que, por sua própria
natureza, demandam dilação probatória, como
a de ausência de indícios de autoria. No caso
concreto, o oferecimento da denúncia foi precedido
de ampla investigação policial e a prova amealhada
será discutida no âmbito da instrução criminal, sob o
crivo do contraditório, não sendo esta a via
adequada para a antecipação de juízo de mérito.
4. A prisão preventiva encontra fundamento na
necessidade de garantia da ordem pública, em razão
da gravidade concreta da conduta, tendo em vista a
enorme quantidade de droga ilícita apreendida, 14
toneladas de maconha. Frisou-se que o paciente
faria do crime seu meio de vida - o que se
contextualiza com a extensa ficha de antecedentes
acostada -, e que teria desaparecido depois da
apreensão da mercadoria, representando risco à
aplicação da lei penal.
5. Demonstrado que o Juízo singular cancelou a
primeira audiência de instrução e determinou a
notificação do acusado para apresentação de defesa
prévia, peça efetivamente oferecida, não há falar em
nulidade por desobediência do rito previsto no art.
55 da Lei 11.343/2006, estando prejudicado o pleito
de nulidade.
6. Habeas corpus não conhecido.
(HC 399.168/SP, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA
FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 20/06/2017,
DJe 30/06/2017) (Grifei)

Não se desconhece, na esteira de precedente da Corte


Suprema que “A privação cautelar da liberdade individual
reveste-se de caráter excepcional, somente devendo ser
decretada em situações de absoluta necessidade. A prisão
preventiva, para legitimar-se em face de nosso sistema
jurídico, impõe – além da satisfação dos pressupostos a que
se refere o art. 312 do CPP (prova da existência material do
crime e presença de indícios suficientes de autoria) – que se
evidenciem, com fundamento em base empírica idônea,
razões justificadoras da imprescindibilidade dessa
extraordinária medida cautelar de privação da liberdade do
indiciado ou do réu”. É que “A mera suposição, fundada em
simples conjecturas, não pode autorizar a decretação da
prisão cautelar de qualquer pessoa. - A decisão que ordena a
privação cautelar da liberdade não se legitima quando
desacompanhada de fatos concretos que lhe justifiquem a

7
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

necessidade, não podendo apoiar-se, por isso mesmo, na


avaliação puramente subjetiva do magistrado de que a
pessoa investigada ou processada, se em liberdade, poderá
delinquir, ou interferir na instrução probatória, ou evadir-se
do distrito da culpa, ou, então, prevalecer-se de sua
particular condição social, funcional ou econômico-financeira.
- Presunções arbitrárias, construídas a partir de juízos
meramente conjecturais, porque formuladas à margem do
sistema jurídico, não podem prevalecer sobre o princípio da
liberdade, cuja precedência constitucional lhe confere
posição eminente no domínio do processo penal” (HC
115613, Relator(a): Min. CELSO DE MELLO, Segunda Turma,
julgado em 25/06/2013, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-155
DIVULG 12-08-2014 PUBLIC 13-08-2014).
Contudo, cumpre destacar que a prisão preventiva não
ofende o princípio constitucional da presunção de inocência,
nem se trata de execução antecipada de pena. A
Constituição Federal prevê, no seu art. 5º, LXI, a
possibilidade de prisão, desde que decorrente de ordem
escrita e fundamentada.
Assim, “Nos termos do art. 312 do Código de Processo Penal,
a preventiva poderá ser decretada quando houver prova da
existência do crime (materialidade) e indício suficiente de
autoria, mais a demonstração de um elemento variável: (a)
garantia da ordem pública; ou (b) garantia da ordem
econômica; ou (c) por conveniência da instrução criminal; ou
(d) para assegurar a aplicação da lei penal. Para quaisquer
dessas hipóteses, é imperiosa a demonstração concreta e
objetiva de que tais pressupostos incidem na espécie, assim
como deve ser insuficiente o cabimento de outras medidas
cautelares, nos termos do art. 282, § 6º, do Código de
Processo Penal, pelo qual a prisão preventiva será
determinada quando não for cabível a sua substituição por
outra medida cautelar (art. 319 do CPP)” (HC 137234,
Relator(a): Min. TEORI ZAVASCKI, Segunda Turma, julgado
em 13/12/2016, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-028 DIVULG 10-
02-2017 PUBLIC 13-02-2017).
Na espécie, a decisão hostilizada está devidamente
fundamentada, apontando elementos concretos e
relevantes da necessidade da prisão preventiva, para
garantia da ordem pública.
Com efeito, consoante se verifica do parecer ministerial, (I)
“a abordagem ao investigado não decorreu de ato fortuito
e/ou rotineiro, mas sim em razão de os policiais já terem
recebido informações quanto ao tráfico de drogas
desenvolvido por MÁRCIO ZINGALI DOS SANTOS, inclusive
confirmando tais suspeitas durante as diligências realizadas”
(fl. 136), (II) há indícios de que “o flagrado tentou se desfazer
da droga, (...)”, o que, “a toda evidência, (...) denotam a
prática criminosa perpetrada pelo flagrado MÁRCIO ZINGALI

8
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

DOS SANTOS, qual seja, a mercancia ilícita de drogas” (fl.


137), e (III) “caso seja posto em liberdade, representará
grande risco à ordem pública, mormente porque se tem
notícia de que ele estava desempregado (CD da fl. 56) e
seguramente fazendo da traficância o seu meio de vida” (fl.
137).
Neste cenário, a prisão preventiva justifica-se como forma de
evitar a possível prática de infrações penais, nos termos do
artigo 282, I, parte final, do Código de Processo Penal.
Assim, por ora, vai mantida.
Por outro lado, primariedade, residência fixa e atividade
lícita, em tese, não constituem óbice à manutenção da
prisão cautelar.
No caso concreto, observados os limites de cognição sumária
inerentes ao juízo liminar, julgo prudente não decidir
liminarmente antes de receber informações mais
detalhadas do juízo apontado como coator.
Em conclusão, não vislumbro a ocorrência de flagrante
ilegalidade capaz de justificar a concessão da liminar, ao
menos por ora.
Por tais fundamentos, indefiro a liminar postulada.”

Foram prestadas as informações solicitadas pelo Juízo a quo:


“Por meio de auto de prisão em flagrante, que originou o
boletim de ocorrência nº 152710/2017/5967, Márcio Zingali
dos Santos foi preso em flagrante delito, no dia 07 de julho
de 2017, pela prática, em tese, do delito de tráfico de
drogas (fl. 10).
Estando preenchidos os requisitos formais e materiais, o
auto de prisão em flagrante foi devidamente homologado,
sendo convertida a prisão em flagrante de Márcio em
preventiva, para a garantia da ordem pública (fls. 50/52).
Foi realizada audiência de custódia do preso (fl. 55).
A defesa do flagrado formulou pedido de liberdade
provisória (fls. 59/63), que, após parecer desfavorável do
Ministério Público (fls. 80/83v), restou indeferido pelo Juízo,
tendo em vista a inexistência de mudança nos elementos
determinantes da segregação (fls. 86/86v).
Nesta data, os autos estão aguardando a conclusão das
investigações pela Autoridade Policial.”

O Procurador de Justiça opinou pela denegação da ordem.

Contudo, examinando com maior vagar o presente caso,


verifico que, não obstante haja indícios de que o paciente possa estar
9
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

envolvido com o delito de tráfico, nada há de concreto indicando sua


periculosidade.

Outrossim, cumpre salientar que a prisão preventiva é


medida excepcional que só se justifica quando for estritamente
necessária para assegurar a efetividade da aplicação da lei penal, como
garantia da ordem jurídica.

A gravidade abstrata do delito, por si só, não justifica a


prisão preventiva. Para sua decretação, é preciso que hajam elementos
concretos que demonstrem que a liberdade do acusado representa risco à
ordem pública e econômica, à instrução criminal e à aplicação da lei
penal.

Sobre o tema, destaco o seguinte julgado nesta Colenda


Câmara:
HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. PRISÃO
PREVENTIVA. DECISÃO CONSTRITIVA NÃO
DEVIDAMENTE FUNDAMENTADA QUANTO A
NECESSIDADE DA SEGREGAÇÃO CAUTELAR. No caso,
a decisão constritiva é genérica, não se
apresentando objetivamente fundamentado quanto
ao periculum libertatis do ora paciente. A mera
gravidade abstrata do delito não é suficiente para
justificar a manutenção da prisão cautelar do
paciente. A prisão antes da condenação é medida
excepcional e, sendo assim, a cautelar não pode
servir como instrumento de antecipação de eventual
pena, nem servir de escudo social contra a
presunção de potencialidade delitiva do indivíduo.
Para a garantia da ordem pública não basta ser
alegada, mas exige demonstração cabal do
periculum libertatis, que, no caso em exame, não
vem demonstrado. Ainda, importa destacar que a
revogação da cautelar, por ora, não impede a
imposição de novas medidas, caso demonstrado tal
necessidade no curso da tramitação do processo.
Ilegalidade da segregação cautelar decretada.
Manutenção da liberdade provisória concedida
liminarmente nesta impetração. LIMINAR
RATIFICADA. ORDEM CONCEDIDA, POR MAIORIA.
(Habeas Corpus Nº 70071862528, Terceira Câmara
Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Sérgio
Miguel Achutti Blattes, Julgado em 14/12/2016)

10
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

Como se vê, a decisão não aponta minimamente a


necessidade concreta da segregação do ora paciente. Com efeito, não
obstante a apreensão da droga, somadas às informações obtidas pela
autoridade policial, sejam elementos suficientes para caracterização do
fummus comissi delicit, não são o bastante para evidenciar a existência
do perigo na liberdade do paciente (periculum libertatis).

Destaque-se que foram apreendidos na posse do paciente


50 (cinquenta) gramas de maconha. E, embora não seja insignificante, a
quantidade apreendida não é de grande monta. De maneira que, não
obstante a apreensão da droga, somadas às informações obtidas pela
autoridade policial, sejam elementos suficientes para caracterização do
fummus comissi delicit, não são o bastante para evidenciar a existência
do perigo na liberdade do paciente (periculum libertatis).

Ademais, observo que o paciente é primário e respondeu a


outros processos, referente à Violência Doméstica, os quais tiveram
decisão transitada em julgado (038/2.09.0003274-1; 038/2.09.0004804-4;
038/2.16.0003018-0; 038/2.16.0003940-4), inexistindo justificativa
concreta para a manutenção da prisão e, portanto, mostra-se impositiva
a concessão da ordem.

Por outro lado, tendo em vista a possibilidade de


reconhecimento de efetiva traficância devido às circunstâncias do caso
concreto, entendo prudente a aplicação das seguintes medidas
cautelares, nos termos do artigo 319 do Código de Processo Penal: a)
comparecimento a todos os atos processuais, sob pena de revogação; b)
manter atualizados os endereços e telefones.

Ante o exposto, encaminho meu voto no sentido de


conceder parcialmente a ordem de liberdade para MÁRCIO
ZINGALI DOS SANTOS, se por outro motivo não estiver preso, sem

11
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

prejuízo da decretação de nova prisão, caso demonstrada sua


necessidade.

Expeça-se, na origem, alvará de soltura em favor de


MÁRCIO ZINGALI DOS SANTOS pelo respectivo processo. Notifique-se
o paciente das medidas cautelares diversas impostas.

DES. INGO WOLFGANG SARLET - De acordo com o(a) Relator(a).

DES. SÉRGIO MIGUEL ACHUTTI BLATTES (PRESIDENTE)

Rogo vênia ao eminente Desembargador Relator para


divergir e conceder a ordem, determinando a imediata soltura do
paciente, se por outro motivo não estiver preso.

Decido diante do contido no próprio voto do Des. Relator,


que refere não estar demonstrado o periculum libertatis, mas, mesmo
assim, diante de outras circunstâncias, concede em parte a ordem, para
substituir a prisão preventiva por medidas cautelares diversas.

Ora, se para que possa ser decretada e prisão são


necessários o fumus comici delicti e mais o periculum libertatis, ausente
um destes, no caso o último, não pode ser decretada a prisão preventiva.

Sendo as medidas cautelares previstas no artifo 319 do CPP


substitutivas da prisão preventiva, se esta não for possível é lógico que
não poderá ser substituida. Só se substitui o que existe.

Assim, voto por conceder a ordem, determinando que se


expeça alvará de soltura, se por outra razão o paciente não estiver preso.

É o voto.

12
ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA

@ (PROCESSO ELETRÔNICO)
RT
Nº 70074554502 (Nº CNJ: 0219565-63.2017.8.21.7000)
2017/CRIME

DES. SÉRGIO MIGUEL ACHUTTI BLATTES - Presidente - Habeas Corpus


nº 70074554502, Comarca de Vacaria: "POR MAIORIA, VENCIDO O
DESEMBARGADOR SÉRGIO MIGUEL ACHUTTI BLATTES, CONCEDERAM
PARCIALMENTE A ORDEM, A FIM DE SUBSTITUIR A PRISÃO PREVENTIVA
PELAS MEDIDAS CAUTELARES, NOS TERMOS DO ARTIGO 319 DO CPP: A)
MANTER ATUALIZADOS OS ENDEREÇOS E TELEFONES; B)
COMPARECIMENTO BIMESTRAL PERANTE O JUÍZO PROCESSANTE PARA
INFORMAR E JUSTIFICAR SUAS ATIVIDADES; E C) IMPOSSIBILIDADE DE SE
AUSENTAR DA COMARCA SEM AUTORIZAÇÃO DO JUÍZO. EXPEÇA-SE, NA
ORIGEM, ALVARÁ DE SOLTURA EM FAVOR DE MÁRCIO ZINGALI DOS
SANTOS PELO RESPECTIVO PROCESSO. NOTIFIQUE-SE O PACIENTE DAS
MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS IMPOSTAS."

13