Você está na página 1de 4

LUIGI RUSSOLO

A Arte dos Ruídos – Manifesto Futurista(1913). In: MENEZES, F. (Org.). Música Eletroacústica: História e
Estéticas. Trad. F. Menezes. São Paulo: Edusp, 1996, pp. 51-55.

Querido Balilla Pratella, Grande Músico Futurista

Em Roma, no Teatro Constanzi lotadíssimo, enquanto escutava, com meus amigos futuristas Marinetti,
Boccioni, Carrà, Balla, Soffici, Papini e Cavacchioli, a execução orquestral da tua irresistível Música Futurista,
sobreveio em minha mente uma nova arte que somente tu podes criar: a Arte dos Ruídos, lógica conseqüência
das tuas maravilh0osas inovações. A vida antiga foi toda silêncio. No século dezenove, com a invenção das
máquinas, nasce o Ruído. Hoje, o Ruído triunfa e domina soberano sobre a sensibilidade dos homens. Por
muitos séculos a vida se desenvolveu em silêncio, ou, no melhor dos casos, em sordina. Os ruídos mais fortes
que interrompiam este silêncio não eram nem intensos, nem prolongados, nem variados. Pois que, se
negligenciarmos os excepcionais movimentos telúricos, os furacões, as tempestades, as avalanches e as
cascatas, a natureza é silenciosa.
Nesta escassez de ruídos, os primeiros sons que o homem pode extrair de um tubo perfurado ou de uma corda
estendida causaram espanto como coisas novas e admiráveis. O som foi atribuído aos deuses pelos povos
primitivos., foi considerado como sagrado e reservado aos sacerdotes, que dele se serviram para enriquecer os
seus ritos. Nasceu assim a concepção do som como coisa em si, distinta e independente da vida, e disto resultou
a música, mundo fantástico sobreposto ao real, mundo inviolável e sagrado. Compreende-se facilmente como
uma tal concepção da música devesse necessariamente re4tardar seu progresso, em comparação com as outras
artes. Os gregos mesmos, com a sua teoria musical matematicamente sistematizada por Pitágoras, e com base
na qual era admitido somente o uso de poucos intervalos consonantes, em muito limitaram o campo da música,
tornando assim impossível a harmonia, que ignoravam.
A Idade Média, com o desenvolvimento e as modificações do sistema grego do tetracorde, com o canto
gregoriano e com os cantos populares, enriqueceu a arte musical, mas continuou a considerar o som no seu
desenvolvimento no tempo, concepção restrita que perdurou por alguns séculos e que reencontramos ainda nas
quais complicadas polifonias dos contrapontistas flamengos. Não existia o acorde, o desenvolvimento das
diversas partes não era subordinado ao acorde que tais partes podiam produzir em seu conjunto: a concepção
destas partes era, enfim, horizontal, não vertical. O desejo, a procura e o gosto pela união simultânea dos
diversos sons, ou seja pelo acorde (com complexo), manifestar-se-ão gradualmente, passando de acorde
perfeito consonante e com poucas dissonâncias de passagem às complicadas e persistentes dissonâncias que
caracterizam a música contemporânea.

A arte musical buscou e obteve primeiramente a pureza, a limpidez e a doçura do som, em seguida combinou
sons diversos, preocupando-se no entanto com acariciar os ouvidos com suaves harmonias. Hoje a arte musical,
complicando-se cada vez mais, busca as combinações de sons mais dissonantes, mais estranhos e mais ásperos
para os ouvidos. Aproximamo-nos assim sempre mais do som-ruído.
Esta evolução da música é paralela ao multiplicar-se das máquinas, que colaboram em toda parte com o homem.
Não somente nas atmosferas fragorosas das grandes cidades, mas também nos campos, que até ontem foram
normalmente silenciosos, a máquina criou hoje tanta variedade e concorrência de ruídos, que o som puro, em
sua exigüidade e monotonia, não causa mais emoção.
Para excitar a exaltar a nossa sensibilidade, a música foi se desenvolvendo em direção à mais complexa
polifonia e em direção à maior variedade de timbres ou de coloridos instrumentais, buscando as mais
complicadas sucessões de acordes dissonantes e preparando vagamente a criação do ruído musical. Esta
evolução em direção ao “som-ruído” não era possível até então. O ouvido de um homem do século XVIII não
teria podido suportar a intensidade desarmônica de certos acordes produzidos por nossa orquestras
(triplicadas no número de instrumentistas com relação àquela de outrora). O nosso ouvido, ao contrário,
satisfaz-se, pois que já fora educado pela vida moderna, tão pródiga de ruídos diversificados. O nosso ouvido,
entretanto, não se contenta com isso, e requer emoções acústicas mais amplas.
Por outro lado, o som musical é muito limitado na variedade qualitativa dos timbres. As mais complicadas
orquestras se reduzem a quatro ou cinco classes de instrumentos, diferentes no timbre dos sons: instrumentos
de corda, de pinceladas, de sopro de metais, de sopro de madeiras, de percussão. De modo que a música
moderna se debate neste pequeno círculo, esforçando-se em vão por criar novas variedades de timbres.
É preciso que se rompa com este círculo restrito de sons puros e que se conquiste a variedade infinita dos “sons-
ruídos”.
Cada qual reconhecerá por outro lado que todo som comporta em si um enredo de sensações já conhecidas e
deterioradas, que predispõem o ouvinte ao tédio, apesar dos esforços de todos os músicos inovadores. Nós
futuristas amamos e degustamos, todos, profundamente as harmonias dos grandes mestres, Beethoven e
Wagner nos sacudiram os nervos e o coração por muitos anos. Por ora estamos fartos disto e temos muito mais
prazer em combinar idealmente os ruídos de trem, de motores de explosão, de vagões e de multidões clamorosas,
do que em re-ouvir, por exemplo, a “Heróica” ou a “Pastoral”.
Não podemos ver aquele enorme aparato de forças que representa uma orquestra moderna sem provar a mais
profunda desilusão diante de seus mesquinhos resultados acústicos. Vocês conhecem um espetáculo mais
ridículo do que vinte homens que se dedicam a redobrar o miado de um violino? Tudo isto fará naturalmente
com que os musicomaníacos gritem e despertará talvez a atmosfera assonada das salas de concerto. Entremos
juntos, nós futuristas, em um destes hospitais de sons anêmicos. Eis o que se tem: o primeiro compasso conduz
subitamente a nossos ouvidos o tédio do já escutado e nos faz prefigurar o tédio do compasso que se seguirá.
Saboreemos assim, compasso por compasso, duas ou três qualidades de tédios genuínos esperando sempre a
sensação extraordinária que não chega jamais. Neste entretempo se opera uma mistura repugnante formada
pela monotonia das sensações e pela cretina comoção religiosa dos ouvintes budisticamente ébrios por repetir
pela milésima vez seu êxtase mais ou menos esnobístico e domesticado. Fora! Saiamos, pois que não
poderemos por muito tempo frear em nós o desejo de criar finalmente uma nova realidade musical com uma
ampla distribuição de bofetões sonoros, saltando de pés juntos por sobre violinos, pianos contrabaixos e órgãos
lamurientos. Saiamos!
Não se poderá objetar que o ruído seja somente forte e desagradável ao ouvido. Parece-me inútil enumerar
todos os ruídos tênues e delicados, que dão sensações acústicas prazerosas.
Para que nos convençamos pois da variedade surpreendente dos ruídos, basta pensarmos no estrondo do
trovão, nos sibilos de vento, nas quedas de uma cachoeira, no gorgolhar de um riacho, nas roçaduras das
filhas,m no trote de um cavalo que se distancia, nos tremores cambaleantes de um carro sobre a calçada, e na
respiração ampla, solene e branca de uma cidade noturna, em todos os ruídos que fazem as feras e os animais
domésticos e em todos aqueles que pode fazer a boca do homem sem falar ou cantar.
Atravessemos uma grande capital moderna, com os ouvidos mais atentos que os olhos, e degustaremos então o
distinguir dos redemoinhos de água, de ar ou de gás nos tubos metálicos, o murmúrio dos motores que
resfolegam e pulsam com uma indiscutível animalidade, o palpitar das válvulas, o vai e vem dos êmbolos, os
rangidos das serras mecânicas, o andar os trens por sobre os trilhos, o estalar dos chicotes, o gorjear das
cortinas e das bandeiras. Divertir-nos-emos a orquestrar ideal e conjuntamente o estampido dos portões das
lojas, as portas batidas, o sussurro e o ruído de passos das multidões, os diversos alaridos das estações, das
ferrarias, das fiações, das tipografias, das centrais elétricas e das ferrovias subterrâneas. E nem é preciso que
nos esqueçamos dos ruídos novíssimos da guerra moderna. [...]
Nós queremos entoar e regular harmônica e ritmicamente estes variadíssimos ruídos. Entoar os ruídos não quer
dizer cortar destes todos os movimentos e as vibrações irregulares de tempo e de intensidade, mas sim dar um
tom ou grau à mais forte e predominante dentre tais vibrações. O ruído com efeito diferencia-se do som na
medida em que as vibrações que o produzem são confusas e irregulares, seja no tempo, seja na intensidade.
Todo ruído possui um tom, às vezes também um acorde que predomina no conjunto de suas vibrações
irregulares. Ora, deste característico tom predominante deriva a possibilidade prática de entoá-lo, ou seja de
dar a um determinado ruído não só um tom mas uma certa variedade de tons, sem perder a sua característica,
quero dizer o timbre que o distingue. Assim, alguns ruídos obtidos com um movimento rotativo podem oferecer
uma inteira escala cromática ascendente ou descendente, se se aumenta ou diminui a velocidade do
movimento.
Toda manifestação da nossa vida é acompanhada de ruído. O ruído é, portanto, familiar a nosso ouvido, e tem o
poder de nos remeter imediatamente à vida mesma. Enquanto que o som estranho à vida, sempre musical,
coisa em si, elemento ocasional não necessário, tornou-se já para o nosso ouvido aquilo que aos nossos olhos
apresenta-se como um rosto muito conhecido, o ruído, ao contrário, derivando-se confusa e irregularmente da
confusão irregular da vida, jamais se revela inteiramente a nós, reservando-nos inúmeras surpresas. Estamos
convictos, pois, que escolhendo, coordenando e dominando todos os ruídos, enriqueceremos os homens de uma
nova voluptuosidade insuspeitável. Ainda que a característica do ruído seja a de nos remeter brutalmente à
vida, a arte dos ruídos não deve se limitar a uma produção imitativa. Ela atingirá a sua maior faculdade de
emoção no degustamento acústico em si mesmo, que a inspiração do artista saberá extrair dos ruídos
combinados.
Eis as 6 famílias de ruídos da orquestra futurista que em breve realizaremos, mecanicamente:

1. Estrondos, trovões, explosões, rajadas de sons, quedas, ribombos;


2. Silvos, sibilos, sopros;
3. Cochichos, murmúrios, sussurros, cicios, borbotões;
4. Rangidos, estalidos, roçaduras, zumbidos, crepitações, fricções;
5. Ruídos obtidos com percussão sobre metais, madeiras, peles, pedras, terracotas, etc;
6. Vozes de animais e de homens, gritos, berros, gemidos, bramidos, risadas, estertores, soluços.

Neste elenco estabelecemos os mais característicos dentre os ruídos fundamentais: os outros nada mais são
que associações e combinações destes. Os movimentos rítmicos de um ruído são infinitos. Existe sempre, como em
relação ao tom, um ritmo predominante, mas em volta a tal ritmo, inúmeros outros ritmos secundários são
também sensíveis.

Conclusões: 1. Os musicistas futuristas devem alargar e enriquecer cada vez mais o campo dos sons. Isto
corresponde a uma necessidade de nossa sensibilidade. Notamos com efeito nos compositores geniais de hoje
uma tendência em direção as mais complicadas dissonâncias. Distanciando-se cada vez mais do som puro,
quase atingem o som-ruído. Essa necessidade e essa tendência só poderão ser satisfeitas com o acréscimo dos
ruídos aos sons e com a substituição destes por aqueles.
2. Os musicistas futuristas devem substituir a limitada variedade dos timbres dos instrumentos que a orquestra
possui hoje pela infinita variedade de timbre dos ruídos, reproduzidos por mecanismos apropriados.
3. É preciso que a sensibilidade do musicista, liberando-se do ritmo fácil e tradicional, encontre nos ruídos o
modo de se ampliar e de se renovar, dado que todo ruído propicia a união dos ritmos mais diversos, além do
predominante.
4. Sendo que todo ruído possui em suas vibrações um tom geral predominante, poder-se-á facilmente obter, na
construção dos instrumento que o imitam, uma variedade suficientemente extensa de tons, semitons e quartos-
de-tom. Esta variedade de tons não privará nenhum ruído particular das características de seu timbre, mas
apenas ampliará sua tessitura ou extensão.
5. As dificuldades práticas na construção destes instrumentos não são graves. Uma vez encontrado o princípio
mecânico que gera um ruído, poder-se-á mudar seu tom ao regular-se sobre as mesmas leis gerais da acústica.
Proceder-se-á por exemplo com a diminuição ou com o aumento da velocidade, caso o instrumento possua um
movimento rotativo, e com uma variedade de grandeza ou de tensão das partes sonoras, caso o instrumento
não possua movimento rotativo.
6. Não será mediante uma sucessão de ruídos imitativos da vida, mas sim mediante uma fantástica associação
destes vários timbres que a nova orquestra obterá as mais complexas e novas emoções sonoras. Para isto cada
instrumento deverá oferecer a possibilidade de mudar o tom, e deverá conter uma maior ou menor extensão.
7. A variedade dos ruídos é infinita. Se hoje, enquanto possuímos talvez mil máquinas diversas, podemos
distinguir mil ruídos diversos, amanhã, com o multiplicar de novas máquinas, poderemos distinguir dez, vinte
ou trinta mil ruídos diversos, que não serão ao simplesmente imitados, mas combinados segundo nossa fantasia.
8. Incitamos pois os jovens musicistas geniais e audazes a observar com contínua atenção todos os ruídos, a fim
de compreender os vários ritmos que compõem, o seu tom principal e os secundários. Comparando depois os
vários timbres dos ruídos com os timbres dos sons, estarão convencidos do quão os primeiros são mais
numerosos que os segundos. Isto nos propiciará não somente a compreensão, mas também o gosto e a paixão
pelos ruídos. A nossa sensibilidade multiplicada, após ter sido conquistada pelos olhos futuristas, terá
finalmente ouvidos futuristas. Assim, os motores e as máquinas das nossas cidades industriais poderão um dia
ser sabidamente entoados, de modo a fazer de cada oficina uma inebriante orquestra de ruídos.

Caro Pratella, exponho a teu gênio futurista estas minhas constatações, convidando-te à discussão.Não sou
músico; não possuo portanto predileções acústicas, nem obras p-ara defender. Sou um pintor futurista que
projeta fora de si em uma arte muito amada a sua vontade de renovar tudo. Por isso, menos temerário de
quanto poderia sê-lo um musicista profissional, não me preocupando com minha aparente incompetência, e
convicto de que a audácia tenha todos os direitos e todas as possibilidades, pude intuir a grande renovação da
música mediante a Arte dos Ruídos.