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Vista panorâmica do subterrâneo:

uma leitura de “Chicago” de Luanna Belmont

era pra dizer que por baixo


do asfalto de Chicago
tem rosemary
cheirosa
(quando voltar vou rebatizar
meu pé de alecrim, contar
sorrindo que ele é ela
noutro país)
(“Língua”, Chicago, Luanna Belmont)

Da geografia dos corpos, só uma coisa é certa: só é possível olhar para o que está
mais embaixo. Mesmo quando se olha para cima ou para frente, olha-se para o que, em
cima e à frente, é mais embaixo. Chicago não é Chicago, é uma linha, ou duas, ou mais,
muito mais, talvez sete (como indicam os poemas intitulados Chicago I, II, III, até VII);
ou é “Apenas um rapaz”, que é nordestino, não é de Chicago; ou é “O Dia do Trabalhador
em Manuel Aleixo” que tem como foco as palavras não ditas de uma mulher; ou é, como
esse poema diz, “a tua boca aberta/ no tempo”; ou é “a mesa ao lado/ onde Índia e Japão
conversavam” e só comparecem no poema por um desvio; ou é um “Outdoor”; ou é o
Haiti; ou são os solitários e exilados “olhos afogados de Gonçalves Dias/ antes de se
afogarem/ para sempre”, não em Chicago, mas no Maranhão; ou é tudo isso, todas as
coisas que uma janela conta, todas incapturáveis como, por exemplo, “uma dança/ de
gaivotas”, com sua leveza e seu peso, como um corpo, um corpo que escreve: traçado na
queda, na quebra, no desastre de cada verso. Um corpo que está em suspensão, um corpo
que sobrevoa, um corpo que flutua, um corpo que atravessa, um corpo que anda, um corpo
que para, um corpo que cai: Chicago são corpos estranhos. E ele, o livro, está sempre à
altura dos corpos porque ele sempre cai em direção ao que está mais embaixo: seja do
nível do céu para o asfalto, seja do nível do mar para o naufrágio, seja do nível do chão
para o subterrâneo. Chicago é a gravidade daquilo que é sempre mais subterrâneo:
convulsão, confusão, multidão, solidão, tesão, ruína, silêncio, lágrima, lamento, incêndio,
falta, soluço, grito, terremoto, desejo. Tudo que é grave, tudo que é agudo, tudo que é
delicado: nele, uma amendoeira jovem ressoa um abalo sísmico. Abalo que também
ouvimos no último poema, que lança, do alto, “a dez mil metros de altitude”, uma
pergunta sem resposta, uma pergunta que retorna, uma pergunta que é sobre o limite, o
extremo, o quente e o frio; uma pergunta que é liquida, que tem “um ritmo de foz/ a que
toda sede alude”; uma pergunta que é uma escolha, “um soluço/ seco” que traz um corvo
pendurado nela, pendurado na asa que cruza o mundo, levando, em todo deslocamento,
também o som da morte.
Chicago é deslocamento. Mas não é só o livre trânsito: é a dor de tudo que pesa,
de tudo o que o corpo não se livra mesmo quando se desloca, como a língua, a saudade,
a memória e sinais de desaparecimento. A que custo se ergue uma cidade? No século
XIX, a pequena vila de Chicago foi elevada ao posto de cidade às custas da migração
forçada de 3 mil nativos. Anos depois, a cidade tornou-se o centro ferroviário mais
movimentado do mundo. O que arde em Chicago, embaixo dos arranha-céus, além do
incêndio que destruiu a cidade em 1871, também são os deslocamentos, esses que não
existem mais, esses que existem sem ninguém ver e esses que não existem porque
ninguém vê. Cito os versos de “O Cruzeiro”: “nosso grande navio deslizava/ invisível/
submerso na espantosa noite das coisas/ que não existem/ porque ninguém as vê”.
Chicago é um olhar desancorado que pousa sobre o mínimo e sobre o que está sob
ameaça de ser ignorado, fazendo da dispersão um modo de estar atento, com a escuta
aberta. Os pousos do olhar aterrissam justamente sobre aquilo que, se olhado de longe,
parece ser “muito confortável e justo e livre” (como dizem os versos de “O Cruzeiro”),
mas que, em uma visada, mostra [cito] “algo que cai de uma altitude inespecífica/ sobre
os corpos lá embaixo”, mostra uma voz que vê o nosso tempo descolada desse tempo e
deslocada de um corpo específico, a voz do poema que cruza o espaço e o tempo e diz,
para nós, em um tempo que ainda não chegou: [cito] “mas o tempo era incerto em 2017”.
Chicago é uma língua estrangeira de si mesma que desliza por línguas outras com sede e
fome de outras vidas, outras vozes, outras bocas. Há nele um fôlego pontiagudo, uma
vontade que lateja, que rasteja em busca do que arde, do que queima: “tudo queima aqui”,
diz “Chicago IV”, trazendo de cor, by heart, em uma memória corporal, no corpo que
hoje arde de frio na “janela fria fria/ no quarto alto sobre a avenida”, a presença de corpos
que arderam nas labaredas do grande incêndio. Talvez porque em tudo que arde exista
amor e dor: “onde a sua dor a sua flor”, um poema diz. Assim, Chicago não é só um olhar
que pousa sobre a “morte iminente”: ele é o olho que fita o invisível. E em toda
invisibilidade há diversidade, heterogeneidade, diferença, encontro. Ele é o olho que fita
o afogado, o naufrágio, o fracasso. Porque é o fracasso, como lemos em um poema, “que
faz valer a pena cada verso/ que faz valer a pena ouvir a conversa/ da mesa ao lado/ que
faz valer a pena todos os maus passos/ que dei rumo a outra coisa que não era eu”. Esse
livro fita sobretudo o fracasso que é ser. Porque na medida em que um corpo se abre a
outro, já não se é mais. Nesse fracasso, a vida recai. Viva, ainda, no inominável da
fragilidade da sobrevivência. Entre vidro, ferro e aço, a vida sustentada na gota d’água:
“quanta vida tem numa gota de água”? – pergunta um verso. E, em cada verso, o que se
abre é uma voz ética.
Um dia, Chicago adquiriu a reputação de ser a cidade mais suja dos Estados
Unidos. Então vieram os programas para a construção de um grande e eficiente sistema
de esgoto: canos foram espalhados pela cidade, agindo com a ajuda da gravidade. O
terreno de toda a cidade foi elevado de um a dois metros, para cobrir o recém-criado e
definitivo sistema de esgoto. Um turista diz: “A principal atração está no 103º andar: o
Skydeck”. Um poema do livro de Luanna Belmont diria: A principal atração é
subterrânea e não se reduz ao que o olho alcança. Um poema do livro se chama
“Paisagem”. Logo percebo que a paisagem – deste livro, eu diria – não é bem essa que
se dá “entre buzinas e portas giratórias”: a paisagem é “corpo”, primeiro verso deste
poema e por onde abre o seu puncto, o seu ponto cego: um “bico do peito” entre os
dedos “diante da janela aberta”. Isso, e não um arranha-céu, é o que arranha a paisagem.
Recordo-me de um verso de outro poema que diz: “– corpos são puncto”.
Chicago é a “coisa” que nós somos: pelo sobre pelo, uma pele sobre a outra, a
película que nos captura e a pele que nos expõe e oculta, o corpo da cidade em outra
cidade com outro corpo: a Michigan Avenue pode ser a Avenida Paulista que pode ser a
Avenida Rio Branco. Dentre os atrativos mais famosos de Chicago estão as vistas
panorâmicas. Dizem que uma das coisas que mais agradam os viajantes é a linha do céu.
Essa linha se chama skyline. A linha do céu é o conjunto de prédios que recortam o céu,
é a linha dos arranha-céus no céu. Mas há algo que escapa à linha do horizonte que liga
prédios, céu e mar. Há algo que escapa à linha. A linha é tênue. E a ilusão de ótica é que
é ilusão. Como um verso diz: “tudo é senão e pele”.

Danielle Magalhães

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