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AS ESTRATÉGIAS DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO AMAZONAS NO ÂMBITO DA GESTÃO DE RESULTADOS: REFLEXÕES

AS ESTRATÉGIAS DA SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO AMAZONAS NO ÂMBITO DA

GESTÃO DE RESULTADOS: REFLEXÕES A PARTIR DE UM CASO DO INTERIOR DO

ESTADO

RESUMO

Maria Isabel da Silva Azevedo Alvim - UFJF 1 Márcia Cristina da Mota Sales - SEDUC/AM 2 Helena Rivelli CAEd/UFJF 3 Vítor Fonseca Figueiredo - CAEd/UFJF 4

Com o objetivo de oferecer subsídios para a formulação, reformulação e monitoramento das políticas públicas voltadas à melhoria da qualidade do ensino básico foi criado, em 1990, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB). O Estado do Amazonas vem buscando sanar seus problemas educacionais desenvolvendo estratégias próprias de avaliação de indicadores que garantam o direito à educação de qualidade. Para isso vem promovendo, desde 2001, cursos de formação para professores e gestores visando melhorias na qualidade de ensino e desempenho dos alunos. Um dos programas criado também nesse objetivo foi a criação do Sistema de Avaliação do Desempenho Educacional do Amazonas (SADEAM). Este artigo é resultado de uma pesquisa realizada no Programa de Pós Graduação Profissional em gestão e Avaliação da Educação Pública (PPGP) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) que identificou que, no caso da rede estadual em Barcelos três fatores que têm interferido na implementação dessa cultura da gestão com base em evidências como: i) a dificuldade de apropriação dos dados e de execução de ações com base nos resultados das avaliações externas; ii) a falta de planejamento pedagógico e de acompanhamento por parte dos gestores; e iii) a ausência de capacitação adequada para os gestores pela Secretaria de Estado de Educação e Qualidade de Ensino do Amazonas (SEDUC/AM).

INTRODUÇÃO

O acesso à educação básica, direito assegurado pela Constituição Federal de 1988, foi o foco

das políticas que transitaram no cenário educacional brasileiro, principalmente até os anos finais da

década de 1980. A partir do início da década de 1990, as discussões sobre acesso foram

gradativamente substituídas pelos debates que giravam em torno da qualidade da educação ofertada

pelos sistemas públicos de ensino. Foi nesse cenário que as avaliações em larga escala ocuparam boa

parte dessas discussões.

Nessa perspectiva, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira

(INEP) criou o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), implementado em 1990 com o

objetivo de oferecer subsídios para a formulação, a reformulação e o monitoramento de políticas

1 Maria Isabel da Silva Azevedo Alvim, Doutora em Economia Aplicada (UFV), isabel.alvim@ufjf.edu.br

2 Márcia Cristina da Mota Sales, Mestra em Gestão e Avaliação da Educação (UFJF), bio_mcms@hotmail.com

3 Helena Rivelli, Mestra em Educação (UFJF), Doutoranda em Educação (UFJF), helenarivelli@yahoo.com.br

4 Vítor Fonseca Figueiredo, Doutor em História (UFJF), ffvitor@msn.com Associação Brasileira de Avaliação Educacional - ABAVE e-mail: abave@abave.org.br

públicas a partir dos resultados da avaliação da educação. Os resultados obtidos nessas avaliações permitem

públicas a partir dos resultados da avaliação da educação. Os resultados obtidos nessas avaliações permitem acompanhar a evolução do desempenho dos sistemas de ensino e escolas em vários aspectos que estão associados à qualidade e à efetividade do ensino ministrado nas escolas, bem como oferecem indicadores de desempenho que possibilitam maior compreensão dos fatores que influenciam esse desempenho (INEP, 2014a). A qualidade da educação básica é contemplada de modo expressivo na Meta 7 do Plano Nacional de Educação (PNE) aprovado em 2014. Além disso, médias nacionais para o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) são estabelecidas, em comparação com os organismos internacionais: “6,0 nos anos iniciais do ensino fundamental; 5,5 nos anos finais do ensino fundamental; 5,2 no ensino médio” (MEC, 2014. p.10). Com vistas à garantia do direito à educação de qualidade e de posse das informações do SAEB e dos indicadores, o estado do Amazonas, por meio das avaliações desenvolvidas em âmbito nacional desde 1990, tem identificado problemas no seu contexto escolar. Desde então, o estado vem buscando resolver seus problemas educacionais com esforços e estratégias próprias. O Amazonas tem promovido, desde 2001, cursos de formação para professores e gestores em parceria com as Universidades Federal e Estadual do Amazonas (UFAM) com vistas a melhorar a formação dos profissionais da área educacional, almejando que isso tenha impacto direto na qualidade do ensino e no desempenho dos alunos. Além das formações ofertadas, a SEDUC/AM tem implementado políticas relacionadas diretamente com a gestão de resultados. Destacam-se nesse sentido a criação do Sistema de Avaliação do Desempenho Educacional do Amazonas (SADEAM), a bonificação para gestores, professores e funcionários na forma de salários anuais extras e o Prêmio Escola de Valor. Em termos de investimentos financeiros e de recursos humanos o que se observa é um grande esforço do estado em estabelecer o que se pode chamar de uma cultura de avaliação, em que os resultados das avaliações externas deveriam e devem ser utilizados como dados que embasem as tomadas de decisões dos gestores. Porém, como a implementação dessa cultura se efetivou no cotidiano das escolas? O presente trabalho, que parte de uma pesquisa realizada no Programa de Pós- Graduação Profissional em Gestão e Avaliação da Educação Pública da Universidade Federal de Juiz de Fora, pretende oferecer uma reflexão sobre essa questão. Para isso, estabelece-se como recorte três escolas estaduais da cidade de Barcelos, no interior do Amazonas. A pesquisa identificou que, no caso da rede estadual em Barcelos, três fatores têm interferido na implementação dessa cultura da gestão, são eles: i) a dificuldade de apropriação dos dados e de execução de ações com base nos resultados das avaliações externas; ii) a falta de planejamento

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pedagógico e de acompanhamento por parte dos gestores; e iii) a ausência de capacitação adequada

pedagógico e de acompanhamento por parte dos gestores; e iii) a ausência de capacitação adequada para os gestores pela SEDUC/AM.

METODOLOGIA

O trabalho de pesquisa foi construído em dois momentos: no primeiro momento, realizamos a

observação das escolas e aplicamos questionários às equipes gestoras com a finalidade de tecer um diagnóstico sobre a realidade local. O segundo momento correspondeu à realização de entrevistas com todas as três Gestoras e com os três Pedagogos das referidas escolas.

O foco das entrevistas recaiu sobre a formação e a experiência profissionais (perfil), a dinâmica

escolar, o perfil de liderança da gestão escolar e sobre a forma como são gerenciados os resultados educacionais das instituições de ensino. Optou-se por direcionar as entrevistas às Gestoras e aos Pedagogos devido ao papel que exercem na gestão dos resultados educacionais: reconhecemos esses atores como os principais articuladores da gestão, assim como da gestão de resultados. É importante destacar que, nas três escolas, não encontramos, compondo a equipe gestora, supervisores escolares, vice-gestores ou gestor adjunto. As entrevistas foram realizadas no mês de março de 2015, com duração média de 30 minutos, e ocorreram nas escolas em que trabalhavam os profissionais, em turnos e horários previamente determinados pelos entrevistados. De modo geral, as entrevistas ocorreram no intervalo entre um turno e outro de trabalho para que não houvesse interrupção por problemas escolares rotineiros, tais como visitas de pais, atendimento aos alunos, resolução de problemas burocráticos, entre outros. As Gestoras foram entrevistadas nas suas respectivas diretorias e os Pedagogos nos laboratórios de informática das suas escolas, pois esses últimos agentes não dispõem de sala para o atendimento pedagógico.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A pesquisa identificou aspectos importantes no contexto da gestão de resultados e apontou

problemas como compreensão sobre o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e avaliações externas entre os gestores, ausência de aspectos importantes relacionados à gestão democrática, indícios da não utilização dos dados das avaliações, dentre outros fatores. No decurso das entrevistas, foi possível conhecer o entendimento dos gestores quanto às suas concepções acerca da importância dos dados das avaliações externas e quanto ao que é feito com esses resultados em cada instituição de ensino.

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As entrevistas revelaram ainda que pouca atenção é dada pela comunidade escolar para a análise

As entrevistas revelaram ainda que pouca atenção é dada pela comunidade escolar para a análise dos dados, para o acompanhamento pedagógico dos professores, para os pontos falhos da educação escolar e para a capacidade de resolução dos problemas identificados A análise das entrevistas revelou que a SEDUC/AM envia simulados, testes preparatórios para serem aplicados aos alunos com o intuito de que eles alcancem melhores desempenhos nas avaliações externas. As provas simuladas são confeccionadas por uma equipe contratada pela SEDUC/AM nos padrões da Prova Brasil e do SADEAM, para que os estudantes fiquem familiarizados com a estrutura das avaliações e, assim, alcancem melhores resultados. Observamos que essa iniciativa da SEDUC/AM está diretamente relacionada com a melhoria dos resultados educacionais, e não necessariamente com a melhoria do ensino. Os simulados são corrigidos na escola, geralmente pela equipe pedagógica, a partir dos gabaritos que vêm junto com as provas. Depois, os professores de Língua Portuguesa e Matemática entregam os simulados corrigidos novamente aos alunos e debatem cada questão. Apesar de o uso dos simulados criarem uma espécie de rotina que estimula de certa forma o debate, essa é, ao nosso ver, uma forma de treinar os alunos para as provas do SAEB e SADEAM. Tal prática é condenável em variados sentidos: se o objetivo da avaliação é avaliar o desempenho, quando se treinam os alunos, o que a avaliação consegue apreender não é mais o desempenho do sistema de ensino, mas sim os resultados do treinamento dos alunos. Ademais, esse ritmo pode causar o estreitamento do currículo trabalhado, e o foco da educação fica para melhorar o desempenho nas avaliações externas, e não para a formação integral do estudante. Para os membros da equipe gestora da E1 5 , as avaliações externas nacionais e estaduais têm contribuído para a melhoria da qualidade do ensino na sua instituição de ensino, pois relatam que, com base nos resultados, planejam ações para melhorar os pontos falhos identificados nas provas. Entretanto, não conseguimos observar um trabalho coletivo na escola no sentido de resolver os problemas educacionais. O que se precebe é uma preocupação com a explanação dos dados apenas, faltam atividades efetivas para resolver os desafios. Percebeu-se, ainda, que o planejamento, de acordo com os dados das avaliações em larga, é de responsabilidade dos professores e, possivelmente, somente das séries avaliadas. A responsabilidade da equipe gestora e pedagógica é apenas do acompanhamento das ações, mas sem planejamento sistematizado. Isso vai ao encontro das observações de Nogueira, Jesus e Cruz (2013), que questionam a eficácia das políticas de responsabilização recentemente adotadas no Brasil frente ao avanço tímido na proficiência escolar. Em E2 observamos que o processo é ainda mais complicado: percebemos um desconhecimento sobre o que são avaliações externas, somado a uma falta de entendimento até mesmo sobre o que é o

5 As escolas foram aqui nomeadas de E1, E2 e E3, com a finalidade de preservar a identidade dos envolvidos. Associação Brasileira de Avaliação Educacional - ABAVE e-mail: abave@abave.org.br

IDEB. Além disso, foi enfatizada a dificuldade que os professores têm com o nível das

IDEB. Além disso, foi enfatizada a dificuldade que os professores têm com o nível das questões das provas. Foi possível identificar que os membros da equipe gestora se colocam externamente ao processo, transparecendo que não se julgam responsáveis pela melhoria da qualidade da educação oferecida pelos professores na escola. Assim, o planejamento com base nos resultados das avaliações externas é inexistente na E2.Outro ponto de muita importância salientado nas entrevistas diz respeito à divulgação dos resultados: a gestora de E2 argumentou que o curso Oficina de Elaboração de Itens, oferecido em 2014 por intermédio da Gerência do Ensino fundamental da SEDUC/AM para a formação dos professores de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências, realizado no período de 18 a 22 de agosto, não foi repassado para os docentes indicados pela Coordenadoria Regional. De acordo com as entrevistas, E3 tem dado atenção especial, nos últimos anos, aos conteúdos programáticos exigidos nessas avaliações e estimulado professores (com conversas) a trabalharem com esses conteúdos diretamente em sala de aula com os alunos. Os dados das avaliações externas também são divulgados em reuniões, e cada professor, em especial das disciplinas e séries avaliadas, é que tem a responsabilidade em planejar ações para melhorá-los, situação similar ao que acontece E1. Com relação às premiações provenientes das políticas de bonificação do estado do Amazonas os membros da equipe gestora de E1, E2 e E3asconsideram positivas, pois estimulam os professores a buscarem maneiras mais efetivas de ensino. Quanto a isso, consideramos que, apesar de poderem constituir importantes incentivos ao trabalho docente, as políticas de bonificação não têm efeitos se não conjugadas com uma eficiente gestão de resultados.

CONCLUSÃO

A metodologia utilizada na pesquisa por meio de entrevistas em duas escolas selecionadas e com características diferentes, revelou que, de certa maneira, a pouca atenção dada pela comunidade escolar na análise e apropriação dos dados é responsável por falhas na ampliação da qualidade no ensino básico principalmente ao utilizar exercícios ou provas simuladas que são aplicadas aos alunos para que sejam alcançados melhores desempenhos nas avaliações externas mas que nem sempre tais resultados vão retratar a realidade vivenciada pela comunidade acadêmica. O que se verificou foi uma maior preocupação com a explanação dos dados, faltando atividades efetivas para resolver os desafios. A pesquisa identificou, dentre os inúmeros desafios e desencontros de informações entre Gestoras e Pedagogos, que três problemas merecem mais atenção, pois têm interferência direta na construção da eficácia escolar: 1) dificuldade de apropriação dos dados e de execução de ações com base nos resultados das avaliações externas; 2) falta de planejamento pedagógico e de acompanhamento por parte dos gestores; 3) ausência de capacitação adequada dos gestores pela

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SEDUC/AM. Assim, ações são necessárias para corrigir tais falhas no processo de ensino e de

SEDUC/AM. Assim, ações são necessárias para corrigir tais falhas no processo de ensino e de

aprendizagem escolar.

REFERÊNCIAS

INEP. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. SAEB. 2014a. Disponível em: <http://portal.inep.gov.br/web/saeb/aneb-e- anresc&gt>. Acessado em: 8 out. 2014.

MEC. Ministério da Educação. Secretaria de Articulação com os Sistemas de Ensino (MEC/ SASE). Planejando a próxima década: conhecendo as 20 metas do Plano Nacional de Educação. 2014. Disponível em: <http://pne.mec.gov.br/images/pdf/pne_conhecendo_20_metas.pdf>. Acessado em 10 out. 2014.

NOGUEIRA, Danielle Xabregas; JESUS, Girlene Ribeiro; CRUZ, Shirleide Pereira da Silva. Avaliação de desempenho docente no Brasil: desvelando concepções e tendências. 2013. Disponível em:

2015.

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