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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa
sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."
Amor em Londres
AMAR NUNCA FOI FÁCIL

2ª edição
Minas Gerais
Mia Klein
2015
www.autoramiaklein.wix.com/autora
www.facebook.com/xmiakleinx
Copyright © 2015 by Mia Klein

Todos os direitos reservados. É proibida a distribuição ou cópia de qualquer parte desta obra sem permissão escrita da autora.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

Arte capa: Amanda Lopes


Revisão: Bárbara Pinheiro

ISBN: 978-85-67293-53-0

Contato: xmiakleinx@gmail.com
Sinopse

Com o diploma de uma reconhecida faculdade de Publicidade em mãos, Sophia Moody não é mais a mesma após seu último
relacionamento com seu infiel namorado Alexandre. Desgastada por sua infeliz vida amorosa, viaja rumo à cidade de Londres
na Inglaterra em busca de um futuro profissional.
No men. No problems.
Ela só não sabia que encontraria em sua primeira balada, um inglês "malditamente" sexy que iria desestabilizar todos os
seus planos. Um encontro inocente e despretensioso de uma noite e um futuro cheio de surpresas era o presente do destino para
ela.
Welcome, Sophia Moody! Welcome to London!
Sumário
Sinopse
Capítulo 1 – Mudança

Capítulo 2 – Desastres... Desastres

Capítulo 3 – Amores.

Capítulo 4 – Alexandre.
Capítulo 5 – Aeroporto.

Capítulo 6 – Boate
Capítulo 7 – Entrevista

Capítulo 8 – ARTVT
Capítulo 9 – Paige.

Capítulo 10 – Marketing Sênior.


Capítulo 11 – Brigas.
Capítulo 12 - Mulher difícil.

Capítulo 13 – Festa.
Capítulo 14 – Resultado.
Capítulo 15 – A Reunião.
Capítulo 16 – A vida continua.

Capítulo 17 – Nada de desculpas.


Capítulo 18 – Pub.
Capítulo 19 – Projeto.
Capítulo 20 – Surpresa.

Capítulo 21 – Biotrônics.
Capítulo 22 – Atração?
Capítulo 23 – Brincadeira de mau gosto.

Capítulo 24 – O Baile.
Capítulo 25 – Semana seguinte.

Capítulo 26 – Conversas privadas.

Capítulo 27– A viagem


Capítulo 28 – Demissão.

Capítulo 29 – Sofrimento.
Capítulo 30 – Final.

Epílogo

Agradecimentos
A autora
Capítulo 1 – Mudança

Hoje foi o dia de minha partida.


O movimento de passageiros no aeroporto em Florianópolis estava tranquilo e eu aguardava a hora de meu embarque,
sentada em uma das diversas cadeiras espalhadas pelo local.
Meu pai, Roger, e minha irmã mais nova, Nancy, me acompanhavam com o olhar triste comum em todas as pessoas que se
despediam de seus entes queridos. Eu, por outro lado, sentia uma imensa alegria, porém não queria demonstrar o quanto
desejava sair de lá. Não na frente deles.
No dia anterior, para diminuir o sofrimento do que significava este momento para eles fiz uma festa regada à cerveja, roda
de violão e muitas piadas para todos os amigos e familiares. Foi um momento gostoso, muito alegre e sem choro algum.
Ao contrário de hoje.
Meu pai e minha irmã pareciam manteiga derretida ao chegarem ao aeroporto. Mesmo que fosse só por um instante, senti um
alívio quando todo aquele chororô cessou.
Não sou uma pessoa fria, mas eu aguardava essa partida com bastante entusiasmo há algum tempo e, naquele momento, o
sentimento que prevalecia em meu coração não era a tristeza.
Enquanto os dois compravam algo para comer, aproveitei este tempinho para recordar os momentos felizes que tive e dizer
adeus à cidade que um dia chamei de lar.
Pensativa, observei o vai e vem dos passageiros. Estudei as pessoas que caminhavam e, principalmente, aquelas que
ficavam com uma lágrima no rosto.
O que eram os sentimentos? Todos nós éramos dotados de sentimentos, fossem bons ou ruins. Duradouros ou efêmeros. E o
que sentia naquele momento nada mais era que esperança. Esperança por uma mudança em minha vida.
– Sophie, seu avião está quase para sair, filha. – disse meu pai com lágrimas nos olhos tirando-me de meus filosóficos
pensamentos.
Aí vamos nós novamente!
– Pai, não chore. Eu estou indo para outro país e isso será uma ótima experiência para mim, você sabe disso. – falei,
abraçando-o fortemente.
Nancy também não ajudava muito, estava chorando “horrores”.
Tenha a santa paciência!
Abracei e beijei a minha irmãzinha caçula e, apesar de tantas brigas, meu coração apertou naquela hora e vi o quanto
deveria ter feito isso com mais frequência.
– Te amo, Nancy. Cuida do papai, tá bom? – me emocionei.
– Eu também te amo. Pode deixar, eu cuidarei dele. Telefona pra gente, por favor.
– Claro. – falei, dando o último abraço nos dois.
Caminhei calmamente até o setor de embarque e acenei com um breve tchau.
Ao subir no avião, dei uma olhada para o aeroporto atrás de mim ciente que demoraria muito tempo para retornar.
As poltronas eram confortáveis e um leve nervosismo me inundou diante do futuro que me esperava e da grande mudança
que enfrentaria. Até pedi em silêncio para que alguém sentasse ao meu lado para conversar um pouco e me distrair.
Estou amando tudo isso!
Aonde eu iria? Rumo à cidade mais desejada da Europa: Londres. E a atmosfera do momento não podia estar melhor. Dia
ensolarado trazendo bons presságios em tempos difíceis em uma linda tarde de verão. E saber que era a cidade que eu mais
desejava conhecer e a última da minha lista de possíveis destinos, só me deixava mais eufórica.
Entretanto, estava a caminho.
Inglaterra! Estou chegando!
Capítulo 2 – Desastres... Desastres

Já havia planejado esta viagem antes de finalizar o último ano da faculdade de Publicidade e Propaganda. A ideia inicial
era apenas um breve passeio pela Europa, mas fui amadurecendo-a, cogitando a possibilidade de me mudar para lá.
Queria respirar novos ares e com o diploma em mãos, acreditava que a sorte estaria ao meu lado. Infelizmente, como todo
ser humano, o receio começou a invadir a minha mente exatamente no instante que entrei no avião em busca do pote de ouro
além do arco-íris.
Que dramática que sou!
Previamente, antes de iniciar esta nova jornada, havia colhido dados de potenciais mercados para a minha profissão em
vários estados pelo Brasil, exceto em minha cidade natal, Florianópolis - Santa Catarina. Como era fluente no idioma inglês e
com o nível avançado em espanhol, ousei ampliar o leque de opções além das fronteiras brasileiras, analisando, também, o
mercado internacional.
Enquanto minha família e amigos pensavam que eu estava, por fim, em “movimento” após tantas adversidades, ninguém
sabia, além de mim, que eu estava fugindo.
Nunca tentei adivinhar o que as pessoas pensavam a meu respeito e do percurso que eu estava traçando, entretanto era
notório que eu era vigiada constantemente como um paciente com problemas mentais que poderia surtar a qualquer hora. Por
isso, após tanto tempo, resolvi tomar uma atitude. E por mais radical que fosse, acreditava em tempos melhores longe do
Brasil.
A vida sempre foi generosa comigo, me oferecendo tudo que uma mulher poderia sonhar. Família maravilhosa, cachorro
labrador digno de filme de Hollywood, namorado lindo, faculdade dos sonhos etc. Eu era uma mulher realizada em todos os
aspectos e muito positiva em todos os campos de minha vida.
Por isso, nunca pensei que certas situações poderiam acontecer comigo.
Meu pai sempre foi um arquiteto muito bem conceituado no mercado. Ainda jovem, logo quando finalizou sua graduação,
abriu a sua empresa e com muita sabedoria a fez crescer e se tornar o império que é atualmente. E agora, com 63 anos, podia
dar-se ao luxo apenas de visitá-la para averiguar como os projetos se desenvolviam. As outras responsabilidades foram
transmitidas aos seus competentes e leais funcionários, que sempre o acompanharam desde o início desta empreitada.
Como pai, sempre me acompanhou em todas as fases de minha vida. No primeiro andar de bicicleta, no meu primeiro amor,
fazendo-o correr igual a um louco pela rua de nosso bairro ao ameaçá-lo com um revólver de brinquedo, entre outras situações
inusitadas.
Sim! Foram tempos felizes. Não para o coitado do menininho que ele colocou para correr e que eu nem lembrava mais o
nome. Isso porque eu dizia ser muito apaixonada na época!
Minha mãe, Leni, também se formou em Arquitetura. Ela conheceu meu pai na mesma faculdade e desde o primeiro dia que
se viram tornaram-se inseparáveis. Eram melhores amigos na sala e na mesa de bar, junto aos seus outros companheiros.
Ela sempre se familiarizou com o trabalho doméstico e optou por ser dona de casa por vocação. Eu achava que ela era
louca. Quem em sua sã consciência, com um diploma de uma renomada faculdade de Arquitetura em mãos, preferiria cuidar de
uma casa e um cachorro desastrado?!
Era o seu sonho ser mãe de duas lindas crianças e, por isso eu e minha irmã viemos ao mundo planejadamente.
Quando olhava para a foto de meus pais sobre a minha escrivaninha, via em seus olhares como o amor entre os dois era
intenso. Ela o amava muito. Ele mais ainda a ela. Eram de fato inseparáveis. Até a tragédia acontecer.
E foi aí, quando completei meus 25 anos, que descobri o que significava a palavra desgraça. Data que transformou o meu
paraíso em um inferno.
– Sente-se aqui, por favor. – disse a enfermeira com o semblante abatido. – A senhora aceita um copo d’água?
– Não. – disse rudemente. – Só me diga onde ela está.
Naquele dia, recebi a ligação da enfermeira do Hospital Central informando-me que “a senhora Leni acaba de sofrer um
acidente”. Algo terrível ela me escondia, eu podia sentir, porém, a enfermeira do outro lado da linha, foi irredutível em
adiantar qualquer outro assunto pelo telefone. Era necessário eu comparecer ao local.
Até aquele momento, não havia me perguntado como consegui chegar até o hospital com o trânsito tão caótico de
Florianópolis. Era uma manhã chuvosa, mas a urgência da situação me deslocou de minha casa até lá em menos de 15 minutos
– o que seria impossível pela distância e pelo asfalto molhado, mas eu cheguei. Esperava não ter atropelado ninguém pelo
caminho... Não conseguia me lembrar.
Acordei de meu estado catatônico ao olhar para o rosto daquela desconhecida que aparentava ter mais de 45 anos, somados
ao cansaço alcançado pelo tempo de dedicação total ao trabalho, deixando-a cadavérica. Seu jaleco branco completava o
figurino mórbido.
A ala do hospital onde me encontrava era uma sala quadrada, de tamanho mediano, com dois grandes sofás brancos
encostados cada um em uma extremidade daquele recinto. Ao centro, havia uma mesa de madeira clara com o tampo redondo e
sobre ela uma jarra de água de plástico com um copo descartável. Não era um lugar muito decorado, mas as cores neutras das
pinturas presas àquela parede branca transmitiam uma serenidade momentânea e era para dentro delas que eu queria me
transladar, se fosse possível.
– Senhora? – insistiu a enfermeira. – Beba um pouco de água.
– Não. Onde está a minha mãe? Quero saber onde está a minha MÃE. – gritei, levando minhas mãos ao meu rosto já
molhado pelas lágrimas.
A enfermeira, em um movimento calculado sentou-se ao meu lado um pouco angustiada. Segurou uma de minhas mãos e
calmamente, como uma senhora acostumada a contar histórias macabras de terror às crianças, narrou o sucedido. Só faltava
uma trilha sonora diabólica para completar o pior momento de minha vida.
–... E ela se foi. – finalizou. Tentamos descobrir a causa, mas...
Minha mãe se foi. Foi isso que ela me disse, não foi?
A causa? Morte súbita. Sem sinais de traumas, violências ou qualquer outro problema de saúde! Ela simplesmente
atravessava uma rua do centro da cidade, com seu passo tranquilo, quando desfaleceu em meio ao passeio público. As pessoas
tentaram acudi-la, mas ela já estava morta. Simples assim, rápido assim.
Com a certeza de saber que não mais a teria ao meu lado, todas as minhas verdades e dogmas se converteram em dúvidas.
Até mesmo respostas óbvias a simples questionamentos do cotidiano eram difíceis de serem ditas por mim, só pelo medo de
saber que ela não estava aqui comigo para dizer: Sophia, você já sabe a resposta. Esta segurança se foi junto com ela.
Ao escutar tudo atentamente até o fim daquela narração, meu corpo recebeu o desespero de braços abertos e a não aceitação
me fez remeter aquela jarra contra a maldita parede. Comecei a gritar e a chorar convulsivamente e a enfermeira, com medo de
alguma agressão, tentou me acalmar de longe. Meu pai havia chegado neste instante, e já sabendo de tudo, me segurou com
toda a sua força, abraçando-me e tentando apaziguar tudo aquilo. Logo ele, que perdeu a sua companheira de toda uma vida.
– Sophie, vai ficar tudo bem, você vai ver. Vamos superar juntos. – dizia, chorando abraçado a mim.
Que pena! Ele estava enganado. Foi a partir deste momento que minha vida virou de pernas para ar.
Era complicado viver melancólica daquela forma. Sentia saudade dela e as pessoas não tinham muita paciência quando o
outro passava por uma fase conturbada na vida. E apesar de sorrir e continuar com os afazeres do dia a dia, não me
conformava com a sua morte.
Ela era jovem, caramba! Ainda tinha muito que viver. Não que tivéssemos direito a ser imortal nem coisa do tipo. Até
aceitei a ideia que uma morte sofrida seria pior, mas quando acontece algo repentino e cruel como a morte de alguém tão
amado, machuca e provoca uma dor irremediável. Uma lacuna se abre no meio familiar e as diferenças que antes eram
irrelevantes, se transformam em monstros leviatãs e como consequência, brigas e desentendimentos se formam como um
furacão arrastando tudo e a todos para o nada.
Impossível negar que minha família se desestruturou. Minha mãe era a base, o verdadeiro alicerce e mesmo com tantos
problemas, que criávamos por bobeiras, éramos unidos.
Minha irmã caçula Nancy era a pessoa com quem mais eu brigava. Mimada e chatinha, pentelhava a minha vida de tal
maneira que sempre terminávamos a unhadas e puxões de cabelos. Ela, diferente de mim, era morena e baixa. Acredito que
puxou ao meu pai. Enquanto que eu era ruiva, branca e alta – traços herdados de minha mãe. Não era apenas a nossa aparência
física que era diferente. Nossa personalidade também. Ela era extrovertida ao extremo desde pequena, mas mantinha sempre
um ar irônico, algo que eu não suportava. O que sempre terminava em confusão. Apesar disso, ela era tudo que eu mais amava
nesta vida. Era a minha amiga e consoladora, principalmente em relação à minha vida amorosa – nem poderia chamar de vida.
Seria mais para “morte amorosa” e... Foi um desastre.
Capítulo 3 – Amores.

O relacionamento mais sério que tive durou três anos e foi por água abaixo, seis meses após a morte da minha mãe, quando
descobri que o vagabundo me traía com uma amiguinha sem vergonha da sua empresa.
Alexandre era um jovem, bonito e rico empresário. Ele era um dos sócios de uma grande rede de imobiliárias de
Florianópolis com sede em várias partes do país.
Quando começou a cursar Administração na mesma faculdade que eu frequentava, era inegável que sua vida profissional já
estava traçada. Antes mesmo de terminar o curso, ele já tinha um plano de comprar um empreendimento que estava à beira da
falência com o dinheiro herdado de seu avô, transformando-o na rede que movimentava o mercado imobiliário do país.
Por isso, todo o tempo, dedicado ao trabalho, era ocupado em viagens que duravam de uma a duas semanas. Ele pulava de
cidade em cidade para promover sua empresa, fechar contratos e ver o andamento das filiais e o tempo livre que tínhamos era
aproveitado com jantares em restaurantes caros e festas empresariais.
Sinceramente, eu odiava tudo aquilo. Preferia tê-lo mais próximo a mim em uma barraca de cachorro quente, desde que ele
estivesse presente. Porém, nossa conversa era sempre voltada ao que ele fazia e ao que ele planejava para melhorar a
administração, ou seja, tédio total.
Em quesito beleza, ele era um rapaz maravilhoso e um perfeito cafajeste em enganar a mim. Muitas vezes, Alexandre me
ligava tarde da noite dizendo que me amava, que sentia a minha falta, que na próxima viagem que fizesse iríamos juntos...
Sim! Canalha de primeiro nível!
Eu também era uma tola. Não podia esperar muito de um cara que peguei logo em uma balada. Além disso, eu tinha um
enorme problema. Sempre me apaixonava por homens inalcançáveis.
Se Liam Hemsworth chegasse ao Brasil. Ele provavelmente, sendo um homem totalmente inacessível, seria o próximo amor
da minha vida.
E aqui no Brasil, Alexandre era um deles. Estava sempre nas páginas dos principais jornais e festas da alta sociedade para,
como dizia ele, aproximar-se dos clientes VIP.
Sempre muito simpático e extremamente manipulador, mantinha pessoas de nível social elevado ao redor para aproveitar as
vantagens que suas companhias pudessem dar a ele.
Ele era o sexy man da faculdade. Desejado por tantas estudantes e sempre me perguntava o que ele havia visto em mim.
Certa vez, quando saí para a balada com um grupo de amigas, aproveitei que tinha bebido um pouco e criei coragem para
chegar até ele. Estava sentado conversando com uma das patricinhas que eu imediatamente reconheci ser de sua turma.
– Você terá uma conversa muito mais gostosa, divertida e com conteúdo se quiser me encontrar naquela mesa mais ao
fundo. – falei, apontando para onde eu estava sentada. Eu era muito petulante quando bebia o que me ajudava nestas situações.
Minha timidez desaparecia.
Obviamente, a morena de cabelo cacheado não gostou de minha investida e com possessão segurou o braço de Alexandre.
– Tenho certeza que ele não está interessado. – falou, querendo me despachar.
Olhei para Alexandre e coloquei o meu olhar mais sexy. Eu queria esse homem.
– Isso é o que eu quero ver. – falei para a morena sem tirar os olhos dele. – O convite foi feito.
Saí agradecendo ao barman por preparar os tantos drinques que eu bebi até chegar ali. Minha autoestima estava nas alturas.
Enquanto me divertia com meu grupo falando e dando nota aos homens que passavam, de repente notei que eu era a única a
falar.
– Ah... Nota cinco. A calça jeans dele está até a cintura! Quem veste isto ainda no século XXI?
– Eu, com certeza, não vestiria. – falou Alexandre com um sorriso em seu rosto. – Mas adoraria saber a minha nota.
Ele veio.
– Ainda bem que você tem senso de moda e só por saber disso, a minha nota para você é bastante significativa. Pode ficar
tranquilo. – flertei.
– Recebi um convite irrecusável esta noite.
– Eu sei. – falei arrogantemente. – Como eu disse, minha companhia será inesquecível.
– Por isso, estou aqui. Vamos conversar em outro lugar? – perguntou me estendendo a mão.
Minhas amigas se entreolharam e começaram a rir de nosso flerte. Eu não queria escutar as provocações, então me levantei
rapidamente e segurei a mão de Alexandre.
Que mão enorme!
Passamos a noite toda dançando e conversando. Ele se ofereceu para me levar em casa e eu aceitei prontamente. Estava
afim dele há muito tempo. Não queria perder a oportunidade de agarrar aquele pedaço nem que fosse por apenas uma noite.
Não. Eu não queria ir para a cama com ele... Ainda. Apenas queria um amasso com muitos beijos e nada mais.
E assim, minha estória com Alexandre começou. Todo fim de semana ele me chamava para sair e rapidamente começamos a
namorar.
Porém, infelizmente, eu era a matriz e as outras as filiais.
Que burra que eu fui. Homem inalcançável, sempre será inalcançável. E no caso de Alexandre, ele não era de ninguém.
Para ter uma ideia, com Luís não foi diferente no quesito “homem impossível de se ter”.
Luís era um jovem estudante de medicina amigo da família. Seu pai trabalhava com o meu e o convívio foi inevitável. Vivi
este amor platônico durante um ano.
Ele era mais velho que eu, dois anos. Eu estava com 18 anos quando, simplesmente, acordei com vontade de me apaixonar
por ele. Eu o conhecia desde pequena, mas nossa aproximação começou quando eu tinha 14 anos. Desde então, passeávamos
juntos e íamos às mesmas baladas e festinhas.
Certa noite, em uma das festas, eu percebi o quanto Luís havia crescido e se tornado um rapaz bonito e maduro.
– Sophia! Ora... Ora! Você está uma gata. – falou, sorrindo com um copo de cerveja na mão.
– Obrigada. Você também está crescidinho. Mas, seu elogio não vale nada quando você está em seu... Sexto copo de
cerveja? – brinquei.
Ele era paquerador demais e tinha consciência do porte atlético que adquiriu com as tardes de malhação. Sem dúvida, não
era mais um menininho. Era um pouco mais alto que eu e tinha belos olhos azuis e um cabelo pretinho que o deixava com
carinha de bebê. Como poderia não sentir o desejo de cuidar dele?
Depois de ter passado muito tempo com flertes e olhares provocantes, eu quis ir além daquilo.
A noite escolhida para minha “declaração de amor” não poderia ter sido a pior. Estava com 19 anos nesta época.
De tantas noites e jantares que passaram, eu escolhi exatamente a noite que não poderia ser.
Os indícios para o desastre eram notórios.
Era muito comum, uma vez ao mês, papai marcar um jantar em nossa casa. Todos os amigos da família eram convidados e
eu gostava bastante porque passávamos momentos agradáveis ao lado de todos com conversas e muitas piadas.
Neste dia em especial, caía uma chuva torrencial. Enquanto me vestia, pensava se Luís compareceria com seus pais. Eles
moravam um pouco mais distante que os outros convidados e isso me deixou apreensiva.
Minha mãe notou a minha mudança no visual habitual quando me viu com o meu melhor vestido para aquele tipo de evento.
– Por que toda essa produção? – perguntou com desconfiança.
– Hoje, eu queria ficar mais “arrumadinha” – menti. – Eu ainda vou fazer escova nesta minha juba e uma bela maquiagem.
Mamãe não falou mais nada e eu saí dando uma piscadinha para ela.
A campainha de minha casa tocou diversas vezes anunciando a chegada de cada grupo de amigos.
– Oh! Meu amigo. Seja bem-vindo ao meu doce lar. – falou meu pai próximo à porta.
Corri e espiei para ver quem era. Aquele cumprimento especial só poderia ter sido para o pai de Luís.
Através da escada, pude ver Luís chegando ao lado do pai. Ele estava um gato.
Vestia uma blusa cor gelo e um paletó preto. Sua calça jeans estava justa e mostrava o quanto ele havia crescido em idade e
músculos. Sorria como um anjo caído. Era tentação demais para uma pessoa só.
– O que você está espiando aí? – perguntou Nancy pegando-me de surpresa.
– Te interessa?
– Quem chegou? – falou, escondendo-se ao meu lado.
– Luís e seu pai... Eu acho. – fingi indiferença.
– Hum... Entendi. – comentou com uma risadinha.
– Só queria saber quem era. – defendi-me.
– Uau! Ele cresceu, não é? – perguntou, provocando-me.
– Vai se ferrar, Nancy. – respondi, deixando-a sozinha com a sua própria piada.
Terminei de me arrumar do melhor jeito que podia. Se o propósito era estar chamativa, eu ia conseguir. Meu vestido era um
tomara que caia justo com o comprimento até um pouco acima do joelho. Era colorido, porém com cores escuras como azul,
cinza e preto formando uma estampa manchada e enrugada. A sandália acompanhava o estilo com tiras de tecido de mesma cor
e com um saltinho leve.
Antes de descer as escadas, joguei meu cabelo escovado completamente para o lado. Nesta época, tinha-o até a altura do
ombro e pintado de castanho escuro.
Está na hora, Sophia!
Desci a enorme escada em forma de L até o hall de entrada.
Ainda na metade dela, dava para escutar os sons vindos da sala de jantar, que se encontrava à esquerda da escada.
Ao virar e entrar pela grande porta dupla avistei a todos os amigos e familiares sentados à mesa. A sala era grande. Foi
projetada para receber um número considerável de pessoas. A decoração, entretanto, era simples. Uma grande janela com
vista para o jardim e uma grande mesa de madeira clara com um tampo de vidro escuro para vinte pessoas eram as únicas
peças que compunham o recinto. Todos os vinte assentos estavam ocupados, exceto o meu. Nancy também já estava sentada.
Seu lugar era ao meu lado. E lá estava ela com um sorrisinho cínico no rosto. Procurei rapidamente por Luís.
Aí está você!
Ele me viu e sorriu com o mesmo sorriso de sempre, um sorriso travesso.
– Sophia está cada vez mais linda, meu amigo. – elogiou Senhor Atílio, pai de Luís.
– Minha menina está crescendo. – confirmou meu pai com um sorriso bobo no rosto.
Caminhei até a mesa cumprimentando a todos com um aceno e sentei em meu lugar à mesa.
Ao sentar-me percebi o quanto estava próxima a Luís. Ele sorria radiantemente à minha frente.
Porém, percebi o verdadeiro motivo para aquele sorriso bobo em seu rosto.
Ao seu lado na mesa, encontrava-se uma mulher aparentemente um pouco mais velha que eu. Ela era uma loiraça de cabelos
sedosos e compridos. Era de arrancar fôlego até de mulheres heterossexuais.
Ele conversava e segurava sua mão que estava sobre a mesa.
Mas que merda é essa?
Não acreditei no que eu vi. Ele tinha levado uma mulher ao jantar de família. Isso significava que não era algo passageiro.
Luís nunca havia se apegado a alguém e nunca havia comentado nada comigo sobre qualquer relacionamento mais sério. Eu
era amiga dele.
Simplesmente, congelei-me.
Aquilo acabou comigo e eu fiquei o resto do tempo em modo automático. Comia e respondia o essencial para disfarçar o
meu descontentamento.
Minha mãe lançava alguns olhares pesarosos para mim, mas eu a ignorava. Não precisava que ninguém sentisse pena. A
certa altura do jantar, Luís pediu a palavra levantando-se com uma taça de champanhe na mão.
– Pessoal! Vocês sabem que todos moram em meu coraçãozinho. – falou brincalhão, ganhando gargalhadas de todos, exceto
a minha.
– Bem... Eu sei que nunca fui santo. Sophie pode ser a primeira a confirmar isso, certo? – perguntou dando uma piscada
para mim e chamando-me pelo apelido.
O que eu tinha a dizer? Nada.
Disfarcei um pouco e consegui desenhar um sorriso falso em meus lábios.
– Com certeza. – falei sem emoção.
Levei um beliscão de Nancy por baixo da mesa.
– Disfarça. Você tá um caco. – falou Nancy próxima ao meu ouvido.
Luís continuou.
– Como sempre, nos reunimos aqui. E as pessoas mais queridas por mim estão presentes hoje. Por isso, decidi usar este
momento especial para apresentar minha namorada Lisa.
Foda-se a sua namorada, seu traíra!
Todos bateram palmas e a cumprimentaram de seus lugares com acenos e gestos positivos, dando as boas vindas à querida e
maravilhosa Lisa... E eu só queria sair dali.
– Obrigado a todos pelo carinho, mas não acabou. Eu tenho ainda mais um anúncio a fazer.
Mais um?
Olhei para ele tentando desvendar o que poderia ser. A comida queria sair do meu estômago de tanta ansiedade.
Com um sorriso de vitória desenhado naquela boca linda, Luís anunciou o seu noivado. E em meio aos aplausos de todos,
senti meu coração se romper em pedacinhos. Ele estava noivo e eu queria morrer para não ver mais aquilo. Minha declaração
estava na ponta da língua! Havia ensaiado toda a semana em frente ao espelho de meu armário, sonhando com o momento que
ele pronunciaria as palavras “eu também sinto o mesmo, Sophia”. Aguardava apenas a primeira oportunidade para estar a sós
para abrir o meu coração.
Obviamente, não consegui comer mais nada. A loira – que era loira natural e ainda por cima inteligente – era uma simpatia
em pessoa, o que me deixou mais furiosa e enciumada. Sobrevivendo àquele ambiente de total alegria, segurei as lágrimas por
mais quinze minutos depois da revelação que metralhou o meu coração. Levantei-me com a desculpa de que precisava estudar
para a prova da faculdade. Claramente, ninguém notou e nem se importou com a minha saída. Estavam mais ocupados em
babar o ovo do novo casal 20.
No silêncio do meu quarto, chorei a noite toda procurando não emitir nenhum ruído. Agradeci ao travesseiro branco e fofo
que ficou todo babado, desta forma, meus pais seriam poupados de um drama adolescente. Bastava a mimada da Nancy para
cumprir este papel com toda a sua glória.
Capítulo 4 – Alexandre.

Voltando ao meu ex, que indiscutivelmente estraçalhou o meu equilíbrio emocional, fazendo-me perder três anos da minha
vida com uma fantasia e deixando essas cicatrizes que até hoje não se fecharam...
Eu nunca desconfiei da constante ausência dele. No último ano que estivemos juntos, o número de suas viagens aumentou,
mas até hoje dói pensar que muitas delas nunca existiram e tiveram alguma companhia feminina. Eu não ligava de ficar longe
dele. Sempre gostei de espaço e nunca exigi nada. Era Alexandre que insistia com essa baboseira de “um dia te levo comigo”.
Babaca! Era puro joguinho e eu apenas uma ficção em sua vida.
Muitas vezes quando estava “supostamente” longe, ele me ligava tarde da noite para fazer juras de amor. Era triste imaginar
que em muitas destas ligações, ele estava com o celular em uma mão e na outra... Ai... Não queria mais nem pensar nisso.
E como eu sabia disso? Em uma de suas ligações, escutei sons de risinhos ao fundo da chamada. Estranhei e um minuto
depois de dar-lhe boa noite, liguei para o hotel. O safado confiava tanto em minha burrice que deu o nome do hotel da Bahia
em que realmente se hospedara. Depois disso, só confirmei o que ele pensara de mim: a burra e tonta Sophia. Enfim...
Adivinha quem atendeu ao telefone do quarto do hotel?
– Alô? Casa da salada, qual é o pepino? – mugiu a vaca, sem ao menos saber quem era do outro lado da linha. Que piada
mais velha e sem graça.
– Aqui é da recepção. Com quem eu falo? – disfarcei a minha voz. Eu queria gritar, chorar, matar ou quem sabe quebrar os
ossos daquela vagabunda.
– Tânia. O que querem a esta hora? – indagou imperativamente.
Tânia. Tânia Vasconcelos. Eu lembrava este nome. Claro. A nova funcionária da matriz. Loira, esbelta, objeto de desejo de
todos da empresa e vadia.
– Senhorita Tânia, só queríamos averiguar se o serviço de quarto está de acordo com os padrões exigidos por nosso cliente.
Poderia falar com o responsável do quarto, o senhor Alexandre Schultz?
– Não. Não pode. Estamos muito ocupados neste momento. – falou, arrastando a voz em meio a uma risadinha digna de uma
vagabunda!
Ao fundo, escutei uma pequena discussão, porém não distingui as palavras. O som estava muito abafado.
– Sim? Alexandre falando. – falou o sem vergonha.
– Alexandre, seu filho da puta! Imbecil! Por que fui tão BURRA? – esbravejei quase gritando ao telefone. – Acredito que
com a sua inteligência e bom senso saiba quem está falando. – minha voz saía entrecortada e carregada de decepção. – Só
queria saber o quanto estão ocupados aí? Acho que o hotel forneceu um serviço excelente. Até carne bovina eles te deram.
– Sophia? – perguntou assustado. – Não desliga. A Tânia está só...
– Não! Pode parar. – cortei-o antes que terminasse a maldita frase. – Aqui quem fala é a sua EX-TONTA, idiota e cega
namorada. NÃO me procure mais. NÃO me ligue, nem PENSE em atravessar o meu caminho, você entendeu? – falei
histericamente desligando o telefone em seguida para não lhe dar tempo de responder qualquer idiotice e não demonstrar o
quanto eu estava por chorar.
Alexandre não retornou a ligação. Nunca mais.
O meu chão abriu naquele momento quando me dei conta do quanto eu fui cega. Estava amando um cara galinha que dormia
com uma mulher conhecida como “maçaneta de porta de banheiro” – onde todos põem a mão. Que nojo!
Que nojo de mim!
Naquela mesma noite, liguei para a minha amiga Mia para contar as boas novas. Estávamos no fim do ano e nada poderia
ser melhor que ganhar como presente um belo par de chifres, não é mesmo?!
Desgraçado!
Pelo telefone, narrei toda a bagunça chorando. Mia só escutava atentamente.
– Sophie, eu te disse. Eu te avisei que ele era dono de um galinheiro, filha! Manda esse cara, você já sabe pra onde. Ele não
te merece e você menos ainda a esse estrupício. – aconselhou à sua maneira.
Mia, sempre foi meio doida e nossa amizade só funcionou porque éramos tão distintas uma da outra. Desde a infância
frequentávamos as mesmas escolas e tínhamos o mesmo círculo de amizade. Brigávamos muito, mas nunca passávamos mais
de uma semana sem nos falarmos.
As pessoas que nos viam juntas, pensavam que éramos irmãs. Tínhamos os mesmos traços, pele branca, magras, altura
mediana, olhos azuis e cabelos lisos até o ombro. A diferença estava que Mia era morena e eu ruiva. Afinal, mais alguma
coisa precisava ser diferente. Apesar de tantas semelhanças, nossas personalidades e maneiras de ver a vida também eram
completamente distintas.
Eu sempre fui aquela menina estudiosa, meiga, cheia de valores familiares e o mais importante: eu tinha juízo.
E Mia adotava um único pensamento: Carpe diem ou aproveite o momento. E ela o fazia constantemente. Não era de
ninguém. E, considerando o meu coração partido, vislumbrei o lado bom de ser como ela. Não sofreria mais por homem
algum. Eles não mereciam meu coração, meu corpo, sequer a minha atenção. E assim seria.
Para sempre!
Capítulo 5 – Aeroporto.

Ainda era manhã quando desembarquei no aeroporto Heathrow e fui recebida por uma Mia chorona e escandalosa e por um
rapaz desconhecido. Deveria ser um amigo ou quem sabe “ficante”.
Mia correu em minha direção com os braços abertos sem se importar se esbarraria em alguém ou não.
Esta é a minha querida amiga! Estabanada!
Fazia muito tempo que não a via. Conversávamos via Skype, mas havia passado dois anos desde que ela veio morar na
Inglaterra para continuar seu trabalho como modelo. Ela estava mais linda ainda. Seu cabelo continuava com o mesmo tom
escuro e seus olhos azuis claros derramavam rios de lágrimas enquanto me abraçava fortemente.
Antes de sair do Brasil, sabia que era inverno em Londres e fui vestida totalmente preparada para enfrentar o rigoroso frio
do lugar.
– Quanta saudade eu senti de você, sua boba. – falava Mia ainda chorando. Eu também não aguentei e comecei a chorar
junto. Meu coração estava tão alegre que parecia que eu ia explodir. Sair do meu velho mundo tirou um peso de mim e ver
Mia, os turistas e este rapaz à minha frente me fizeram ter mais certeza que foi a minha melhor decisão.
Depois de matarmos a saudade, Mia lembrou que havia levado alguém.
– Sophie, este é John. – me chamou por meu apelido. – Ele é inglês e não sabe nada de português. Se quiser zoar aproveita
agora. – falou para mim em português.
John percebeu que falava dele só porque Mia havia pronunciado o seu nome, fora isso, pareceu perdido em cada palavra.
Era hora de começar a usar o meu inglês.
– Muito prazer em conhecê-lo, senhor? – perguntei educadamente. Sabia que era importante chamar as pessoas pelo
sobrenome.
– John. Pode me chamar apenas de John. – sorriu, cumprimentando-me com um aperto de mão.
– Para com isso, John. Se você quer conhecer a minha amiga, tem que se acostumar com o nosso jeito de cumprimentar. Vai
lá. – disse, empurrando John para cima de mim. Fiquei meio atônita. Não sabia o que ela tinha inventado e fiquei receosa com
aquele moreno chegando para cima.
– Desculpe. Mia disse que é comum dar um ou dois beijos no rosto. Permite-me? – perguntou, envergonhado.
Sentindo-me aliviada acenei positivamente. John me deu um beijo rápido e saiu constrangido. O que para nós era a coisa
mais comum, para ele parecia que estava quase que fazendo sexo. Achei graça do jeito dele e ri.
– Ele queria te conhecer. Ele é meu vizinho lá no prédio e um dia quando precisei de sua ajuda, ele viu a sua foto no meu
apê e desde então pergunta por você. – fofocou em português.
– Sério? – olhei para trás para observá-lo. Ele vinha caminhando logo atrás de nós rumo ao estacionamento. Percebendo
que eu havia olhado para ele, soltou um belo sorriso que me fez corar um pouco. O cara era lindo. Os ingleses eram altos e
tinham uma beleza diferente dos latinos e este aqui atrás de mim, era um moreno muito gato. Magro, atlético, cabelos escuros
levemente ondulados, lábios grossos e olhos verdes cor de garrafa.
– De onde você tirou esta coisa maravilhosa? Trabalha com você? – falei baixinho e mesmo falando em português senti
certa preocupação que ele pudesse entender cada palavra minha.
– Não. Ele é advogado, acredita? Imagina este cara de terno, Sophie? – suspirou Mia. – Não. Imagina este cara no tribunal.
Deve pegar todas as mulheres, promotoras, advogadas, juízas...
– Mas olha a roupa dele. Ele está chique demais. Calça social, sapato social, camisa social... Só faltava um paletó. Olha só
o sobretudo dele, parece o Batman versão sexy. Esse cara definitivamente deve pegar muita mulher. – comentei sem olhar
mais para trás.
– Eu não sei. Ele só é meu vizinho. E apesar disso, eu não sei muito sobre a vida dele. Só posso dizer que ele é bem legal.
– Legal? – perguntou John já ao lado de Mia. – O que é legal? – perguntou com o seu sotaque carregado.
Que fofura de gostosura!
– Estava falando que você é legal. – explicou Mia em inglês.
– Obrigado. – agradeceu olhando para ela com carinho. – Você também é.
Chegamos ao carro que parecia ser de John. Um Jaguar preto novíssimo. Fiquei de boca aberta ao ver o tipo do carro de
nosso novo amigo. John colocou minhas malas no porta-bagagem e depois, gentilmente, abriu a porta do lado do passageiro
para Mia e para mim. Sorri com a cena tão clássica de filmes.
Colocou seu MP3 repleto de músicas dance e foi dirigindo com tranquilidade até o apartamento. Algumas vezes ele
participava de nossa conversa ou cantava enquanto batia os dedos pelo volante. O local de nossa moradia era um bairro muito
bom e um pouco caro, mas Mia afirmou que com o salário que eu ganhasse daria para dividir as despesas. Ela apostava que
meu emprego seria digno daquele local e eu preferi acreditar nisso também.
Devido ao trânsito, a viagem durou 40 minutos e John aproveitou este momento para contar um pouco sobre sua vida e como
conheceu Mia. Advogado há três anos era morador do prédio desde o início de sua carreira. Vizinho no mesmo andar, ele
conheceu Mia quando atrevidamente ela lhe pediu para ajudar com a mudança. E a partir disso, nasceu uma amizade. Contou
que conversavam com frequência sobre o Brasil e comentou o seu desejo de conhecer um pouco de nossa cultura. Ele não era
tímido e a conversa fluiu com naturalidade. Típico de um advogado. Dava para ver o quanto seria fácil ser amiga dele.
Chegamos ao destino e mais uma vez fiquei de boca aberta ao ver o apartamento. Além de o bairro ser chique, o prédio era
imponente e majestoso. Eram vários edifícios espelhados um ao lado do outro, separados por um jardim perfeitamente
trabalhado. Cada um tinha sete andares e cada andar dois apartamentos. A varanda era enorme e perguntei a mim mesma se
uma rede não caberia lá. Um parque próximo dava um ar bucólico ao lugar.
Com certeza!
Mia e John viviam no quinto andar e subimos por um elevador muito chique. Aliás, tudo cheirava a dinheiro.
– Mia este lugar aqui deve ser muito caro. – falei em português. – Não sei se conseguirei um emprego que possa pagar
aluguel e ainda sobrar alguma coisa.
– Fique tranquila, Sophiezinha. – piscou pra mim. – Este apartamento é de um amigo que nunca vem a Londres. Ele disse
que posso ficar o tempo que eu quiser e desde que vim para cá, aqui estou. – deu uma risada sapeca.
– Caso? Amigo? Namorado? Afinal, quem é? – perguntei temerosa.
– Não se preocupe. Ele é só amigo mesmo, sem nenhuma troca sexual, pegação nem nada. Ele é modelo da minha agência e
ganha muito dinheiro, mas não gosta de ficar aqui em sua terra natal, então me cedeu o apartamento. Ele tem namorada... E
detesta aqui, pode acreditar?
– Não, eu não posso. Não existe ninguém no mundo que deixaria outra pessoa morar aqui de graça... Neste lugar. Neste
lugar! Olha a sua volta! – falei apontando para toda a paisagem.
– Lindo este lugar, não é? Eu me apaixonei e não pensei duas vezes em comprar o meu apartamento. Amo tudo aqui. – falou
John maravilhado olhando para o parque mais ao longe.
– Você ainda não cansou daqui? – perguntou Mia, zombando de sua cara. – Porque eu estou de saco cheio já. Tem muita
natureza e muita gente bonita. – riu.
– Só se eu fosse maluco para não gostar. Veja pelo lado bom, agora está chegando mais gente linda. – apontou para mim
com um sorriso maroto.
Corei com sua indireta e evitei olhar para ele. Além de bonito, era paquerador.
Perigo!
John nos ajudou com as malas até o andar e nos despedimos com a promessa de sairmos todos para uma balada, para
reconhecimento da cidade.
Entrei no apartamento e amei mais uma vez a visão que tive.
– Você decorou ou contratou alguém? Isso aqui está mais para um profissional que para Mia Klein.
– Contratei, claro. Sophia, se você soubesse como minha carreira está indo bem aqui. Eu quero te contar tudo. Tudo mesmo!
Nem acredito que terei sua companhia. É tão bom falar português. Não valorizamos as pequenas coisas que deixamos de fazer
porque eram tão habituais no Brasil, e quando chegamos aqui, começamos a sentir falta. Estou tão feliz que você esteja aqui. –
disse me abraçando e me jogando no sofá bege.
Levei um susto com a queda, mas o sofá era muito macio e amorteceu a caída.
– Mia! Pelo amor de Deus. Você ainda tem essa mania? Quer me matar de susto? Pensei que ia contra o chão.
– Eu sabia. – riu, adorando a minha cara assustada.
A sala era ampla e arejada. A varanda tomava a frente do apartamento totalmente. Eram poucos móveis, mas o suficiente
para ter uma vida de rei. TV gigante na sala, som, sofá, mesa de madeira clara com cadeiras. Estufa.
Mia me levou para conhecer a cozinha. Era no estilo cozinha americana com armários embutidos de cor negra e era elegante
exatamente por estas tonalidades.
– Pelo que vejo, só eu usarei essa cozinha. – brinquei. – Nem parece que mora alguém aqui.
– E você acha que eu tenho cara de quem sabe cozinhar? – colocou a mão na cintura. – Jamais!
– Percebi. Você ainda é a Mia que eu conheço. Não mudou nadinha. Aliás... – parei, fingindo pensar. – Mudou sim. Se você
fosse a mesma, teria agarrado o seu vizinho gostoso.
Mia gargalhou com meu comentário e foi à geladeira pegar uns pacotes de pizzas congeladas.
– Sem dúvida. Eu mudei. Digamos que estou mais focada em outro cara desde que cheguei a Londres. Saio com ele na
maioria das vezes. E quando me sinto atraída por alguém até dou uns beijinhos, mas até agora ninguém vale a pena como este.
– Uau! Não consigo processar bem essa informação. Você está falando que é quase fiel a um cara que te conquistou? Quem
é o gênio? – falei espantada com tal declaração. Ela estava com febre ou este cara era muito bom para prender o coração dela
deste jeito. – Por acaso, não é o seu amigo dono do apartamento?
– Não. Este é um amigo mesmo. Sem envolvimento algum. Este outro... Ahh... Sophie... – suspirou enquanto colocava as
pizzas semiprontas no forno. – Ele é sexy, brincalhão, não gosta de compromisso, mas é bom com as palavras, com as mãos,
com a boca, com tudo... Entende? – falou sem vergonha alguma.
– Só imagino. Você sabe que não sou a pessoa mais experiente para entender sobre esses sentimentos. Deixei-os de lado faz
um tempo. – minhas palavras soaram um pouco amargas. Mia agarrou minha mão e me levou até o sofá.
– Eu sei que você passou muita coisa no Brasil e seu motivo para vir para cá foi para viver uma vida transformada. Eu
estou aqui para te ajudar, mas preciso que você saiba uma coisa. Homem não presta. Mas, alguns sabem como fazer valer a
pena se arriscar um pouco. – disse seriamente. – E você deve dar uma oportunidade para que isso aconteça mais cedo ou mais
tarde. Ou não viverá em plenitude.
– Você está doente. – brinquei. – Só pode! Impostora, traga a minha amiga de volta agora! – exigi, cortando a conversa
filosófica. Levantei-me com vontade de namorar um pouco o meu novo quarto e não queria saber de homem para mim, não
naquele momento. Mia me soltou e disse:
– Sophie, não se esqueça do que eu te falei. – erguendo uma sobrancelha. – Estou falando sério.
Ela entendeu a minha deixa e levantou para ver as pizzas.
– Quando você sair do banho terá uma pizza deliciosa para comer e um bom vinho esperando. Além disso, esqueci de te
avisar. Tanto o meu quanto o seu quarto são suítes. O banheiro do lado de fora é um lavabo apenas.
– Impressionante! Estou começando a me sentir a rainha. Elizabeth II que se cuide. Cheguei para ficar.
Capítulo 6 – Boate

Mia prometeu que minha vida mudaria após a minha chegada à terra londrina e ela tinha absoluta razão. Depois de tomar o
meu banho na banheira mais luxuosa que já havia visto e, detalhe, ficava dentro do meu novo quarto, pude aconchegar-me na
confortável cama king-size e desfrutar de um breve cochilo de quinze minutos.
Após comermos a pizza industrializada que Mia teve o “grande” trabalho de preparar – abrir o pacote e colocá-la no forno
– e ainda enfatizar seus dotes culinários como a cozinheira profissional, ela me intimou a chamar John para sair ainda àquela
noite.
– Mas eu acabei de chegar, Mia. E nem conheço o cara. Nem louca que eu vou bater na porta dele. – deitada no sofá, cruzei
os braços recusando-me a fazê-lo.
– Deixa de ser boba. Ele perguntou por você várias vezes. É só diversão, Sophie. Ninguém vai morrer por causa disso.
Nem ele e nem você.
– Não. Eu não vou.
– Está bem. Eu vou lá chamá-lo e você fica quietinha aqui que eu já volto.
– Mia, não! – gritei, mas ela já havia fechado a porta, deixando-me sozinha na sala.
Coloquei minhas mãos no rosto rezando para que John não estivesse em seu apartamento.
Vou matá-la!
Quando retornou, não estava com a cara muito boa. Parecia irritada.
– Teremos companhia. Quero você pegando fogo, Sophia. Vai para o seu quarto e me mostre a melhor roupa sexy que você
tem. Não se preocupe com o frio. As boates são aquecidas.
– Por que essa cara? Ele aceitou ir conosco? – perguntei confusa.
– Sim. Ele vai. – Mia fez uma careta e se sentou no sofá jogando suas longas pernas sobre a mesa de centro. – E sua amiga
que está lá, também.
– Amiga? Ah! Entendi. – ri da situação.
– Não tem graça. A mulher é uma pedra no sapato. Ela é grudenta demais e eu não sabia que ela estava lá, mas escutou o
meu convite e prontamente se ofereceu em acompanhar sem ser convidada. Isso não é um absurdo? – Mia estava indignada
com a moça, porém este tipo de coisa era comum nas mulheres territoriais e não liguei para sua crise infantil.
– Você está rindo, mas você verá que noite maravilhosa teremos ao lado dela. Eu conheço o tipinho. Um saco! E John é
muito educado para dar um fora nela. Pega e depois não sabe como se livrar.
– Ele ficou com ela?
– Óbvio! Para ela grudar é porque ele pegou e pegou de jeito. E tenho certeza, ainda pega quando está disponível.
– Credo, Mia.
– Estou falando sério. Ele é reservado, mas certo dia ele não aguentou e se abriu comigo. Quando ele está “necessitado”, é
ela quem ele chama, mas é só isso. Ele não gosta dela para relacionamento sério. Palavras do John.
Brasil, Inglaterra, em todos os lugares são sempre iguais. Homens!
– Quero conhecê-la e tirar a minha própria conclusão. – disse.
– Que pena! Tenho certeza que John queria te dar uns beijinhos. – riu.
– Você poderia perguntar a mim se eu queria dar uns beijos nele.
– Eu não. Já saberia a sua resposta. “Eu não quero me envolver no momento com ninguém”. – falou tentando me imitar.
– Você me conhece bem. Então, por favor, pare de tentar arranjar alguém. Acabei de chegar, Mia. Tem apenas algumas
horas que estou em Londres. Pelo amor! – levantei dirigindo-me ao meu quarto.
– Já entendi. – falou abanando suas mãos. – Não se esqueça da roupa sexy. Só saímos daqui quando eu aprovar a sua
escolha.
(...)
Chegamos à boate Whisky Mist localizada em uma zona luxuosa, onde somente a nata visitava. Artistas, gente bonita e
elegante eram as grandes atrações misturadas com a música comercial do local.
Mia me fez vestir um de seus vestidos, depois que negou deliberadamente todas as minhas escolhas por uma roupa hot,
dizendo que não estava indo para um convento e sim para uma night agitada. Além da minha roupa minúscula, porém
sofisticada, ela cuidou da minha maquiagem, sapatos, bolsa. Foi um serviço completo.
Meu vestido era de couro preto de uma alça, super colado ao corpo marcando todas as curvas que eu tinha. Apesar de meu
porte magro, ganhei alguns quilos e fiquei com o típico corpo de brasileira: um violão. Seu comprimento ia até acima do
joelho e meu sapato salto 15 cm preto finalizava, como dizia Mia, sua obra de arte. Minha bolsa de mão cor violeta era apenas
um pequeno acessório para carregar meu passaporte, minhas novas chaves e dinheiro.
John apresentou-me sua amiga rapidamente sem muito entusiasmo. Ele nos deu carona até o lugar e prometemos não
incomodá-lo, voltaríamos de táxi. Isso tirou um sorriso da loira que estava com ele. Seu nome era Judie e, ao cumprimentá-la,
ela me olhou por inteira virando seu rosto para John balbuciando sensualmente algo de “estou com pressa para dançar com
você”. Ignorei a cena e Mia me encarou dizendo com seus os olhos azuis “eu te falei”.
(...)
Havia bastante gente chegando e a noite prometia um lugar lotado de artistas e gente esnobe.
Mia e eu sentamos em uma mesa de canto próxima ao bar. A mesa tinha lugar para oito pessoas e era uma das maiores do
local, porém a casa noturna já estava lotada e a mesa era a única vazia à vista. John desapareceu com Judie e ficamos a sós
naquela imensa mesa.
– Ainda não estou vendo nenhum macho alpha para pegar. – falou Mia enquanto encarava os caras disponíveis.
– Eu não estou procurando e Mia, por favor, peço para que você não me empurre a ninguém. Não estou a fim de nada a não
ser beber e dançar sozinha.
– Ai, credo, menina. Você não tá falando sério?! – esbravejou.
– Estou sim. – rebati séria. – O que eu menos quero é um homem para me dar cantadas idiotas hoje.
A cada minuto que passava mais gente chegava. A garçonete veio nos servir. E nos entregou o colar – que coloquei em meu
pescoço. Ele tinha um número e marcava aquela mesa como nossa assim, ninguém podia pegar quando saíssemos para a pista
de dança. Seu vestido tomara-que-caia era preto e curtíssimo. Seria mais fácil e econômico se ela usasse apenas um top e
calcinha. Apesar de sua beleza, achava apelação do local vestir suas empregadas com aquele tipo de roupa.
– Boa noite. O que gostariam de beber? – perguntou com uma má vontade, segurando um bloco nas mãos.
– Duas vodcas. – respondeu Mia. – E, por favor, assim que você observar que nossos copos estão vazios traga mais. Não
quero parar de beber, ok?
– Simpática pra caramba, essa moça loira. – falei em português com sarcasmo.
– Affff... Eu já frequento aqui faz um tempo. Nem ligue pra isso. Ela só atende bem aos homens e quanto mais bonitos e com
ar de riqueza, mais simpática ela é.
Observei as pessoas no meio da pista. Estavam suadas e dançavam todas aquelas músicas eletrônicas como se o mundo
fosse acabar.
A garçonete trouxe nosso pedido e Mia a instruiu novamente. Ela acenou com a cabeça e saiu.
– Não olhe pra mim deste jeito. – defendeu-se Mia. – A noite precisa começar e se eu não te der umas boas doses de bebida
você vai ficar aí parecendo uma adolescente virgem à espera do príncipe encantado.
Ela tinha razão. Era hora de eu sair um pouco da minha vida regrada e me divertir. Aceitei de bom grado àquelas doses e a
noite começou a ficar muito mais animada. Fui dançar com Mia e me acabei na pista. Era deliciosa a liberdade de sentir meu
corpo solto ao ritmo das músicas sem pensar em nada. A cada nova música erguíamos os braços e gritávamos ao DJ o quanto
estava bom o seu repertório.
Enquanto a gente dançava a décima música sem parar, Mia avistou algo.
– Noooossa! Ele está aqui. O cara gostoso que me tira a razão. – avisou Mia.
Virei para ver a pessoa de quem ela falava e me surpreendi admirando-o. Ele era realmente charmoso. Vestia uma calça
jeans azul escuro e uma elegante blusa branca de gola alta. Seus cabelos eram desajeitados. Seus fios loiros caíam
desalinhados sobre seus olhos. E passava a mão pelo cabelo.
Minha nossa!
– Você tem razão, Mia. Impressionante! – balbuciei impressionada dançando fora do ritmo só por prestar atenção naquela
coisa mais... – Impressionante, sem dúvida. – repeti.
– Só não vou lá porque tem mais pessoas com ele e não sei se aquela grudada em seu braço é amiga ou sei lá o que.
– Não vejo ninguém segurando ou abraçando-o. Acho que você tem chance.
– Que? Sophia, pra onde você tá olhando? Claro que tem gente segurando a mão dele. Olha lá. A morena ao lado dele.
Observei melhor e notei que não falávamos da mesma pessoa. Mia se interessara por um lindo moreno tão quente quanto o
loiro que eu havia visto.
– Desculpe. Achei o amigo dele muito melhor. – falei apontando para o grupo que se sentava em nossa mesa.
– Eita! Espera. Nossa mesa está com placa de reservado e o povo sentou do mesmo jeito. Mas isso não vai ficar assim. –
falou Mia caminhando em direção a eles.
– Mia, não. – pedi tentando segurar o seu braço, mas ela já tinha ido. Como sempre...
Saí da pista de dança ficando parada mais ao canto, imobilizada e esperando o começo de um belo barraco. Mia gesticulava
e apontava para mim enquanto falava com o moreno. Ele era alto, forte e com a barba cerrada. Do jeito que ela gostava. Seu
cabelo curto preto dava a ele um ar meio oriental. Vestia uma calça jeans, camisa preta e um paletó cor creme. Esse cara tinha
dinheiro.
Ele sorria para ela e respondia aparentemente com cordialidade. Sem saber mais o que esperar, eu caminhei até o local
para ver o estrago que ela tinha feito. Quando me aproximei, o loiro olhou para mim e sorriu.
Puta que pariu! Que sorriso foi esse!
Continuei olhando e corei pelos pensamentos que passaram por minha cabeça. Era mais lindo ainda de perto.
Eles estavam em um grupo de seis pessoas. Eram três homens e três mulheres. Elas me fuzilavam com seus olhares cheios
de cílios postiços enquanto que os rapazes me recebiam com sorrisos.
– Boa noite. – cumprimentei em pé à frente da mesa.
– Olá. – falou o moreno. – Sua amiga aqui estava neste exato momento reivindicando esta mesa e me informou que ambas
eram donas. Eu disse que não tinha conhecimento deste fato, mas parece que ela não acreditou em mim.
– Acredito que você sabia sim sobre isso, se você soubesse ler, claro. A placa de reservado continua diante de seu nariz –
apesar de minhas palavras grosseiras, meu tom era calmo. O jeito certo de ganhar uma briga é ser a pessoa mais tranquila de
uma discussão. Desta maneira, quem perde a razão é aquele que mais se exalta.
– Seu argumento foi muito mais contundente. – afirmou o moreno com um sorriso nos lábios. – Já o dela, nem tanto...
– Vai se ferrar, Richard – falou Mia, irritada. Ela estava irritada com o cara que há pouco chamou de gostoso? Nunca vi
Mia tão nervosa, eu acho que era mais ciúmes que outra coisa.
– Bom... Voltando ao assunto de maior importância. – tentei mudar o foco. Alguma coisa não estava batendo entre os dois. -
Que pena que você não percebeu a placa escrita, mas se ainda tem alguma dúvida aqui está o colar que indica que esta noite,
esta mesa é minha e de minha amiga, portanto retirem-se. – mandei de forma autoritária.
– Richard, vamos procurar outra mesa. – pediu a morena tocando em sua mão.
– Isso, Richard. Seja inteligente e caia fora! Vai procurar uma mesa realmente vazia. – despachou Mia.
Ele sorriu para a morena e para seus amigos antes de retornar o seu olhar para Mia. Ele a avaliou dos pés à cabeça e
pareceu aprovar a vista.
– Eu tenho uma ideia muito melhor. – piscou para Mia, que sorriu diante daquela pequena provocação. Impressionante a
determinação dela em odiar e amar. Tão instável!
– E qual seria, Richardizinho? – perguntou sarcasticamente.
Eu parei para observar os dois com admiração. Ambos se provocavam e se aquela não era namorada dele, não importava,
ela estava irritadíssima com aquele joguinho.
– Mia, a gente procura outra mesa. – pedi segurando o seu cotovelo. A coisa poderia ficar feia ali.
– Não. Eu quero saber qual é a ideia do nosso amigo aqui. – falou sem tirar os olhos dele. Todo o movimento de seu corpo
era de provocação e ela estava tentando ganhar a batalha usando o melhor que ela tinha: a sedução.
Olhei para o seu outro amigo gato – que me olhava com interesse. A loira ao seu lado percebeu o nosso olhar cruzado e
puxou assunto com ele antes mesmo que eu pudesse sorrir em retribuição. Um sorriso não faria mal a ninguém. Ele merecia.
Afinal, não tinha como não sorrir para um deus como aquele.
Que calor!
Ele desviou o olhar para ela e riu de algo engraçado que ela sussurrou em seu ouvido.
– Como as duas podem notar, essa mesa é para oito pessoas e estamos apenas em seis. Vocês seriam as minhas convidadas
especiais e se juntariam a nós. Conversar, beber, enfim, fazer novas amizades. – sugeriu Richard.
Mia pareceu pensativa. Olhou para mim esperando algum tipo de aprovação minha. Eu não queria ficar ali. Eram três casais
e nós duas solteiras.
– Eu não sei se é uma boa ideia, Mia. – falei duvidosa.
– Ah! Qual é? O que tem de tão ruim em sentar conosco? – Richard olhou para mim e lançou um simpático sorriso.
– Acho que dá para sobreviver. – falou Mia.
– Está bem. – cedi. – Meu nome é Sophia.
O loiro voltou a sua atenção novamente para nós e falou:
– Por favor, sentem-se. Há espaço suficiente para vocês. – sorriu.
Fiquei vermelha sem motivo algum. Na verdade, sua voz máscula um pouco rouca e grossa misturada aquele sorriso me
deixou pegando fogo.
– Obrigada. – agradeci sem olhá-lo mais. Não sabia se aquela loira era namorada ou não. Não queria confusão.
Sentei-me ao lado do outro rapaz do grupo que se apresentou como David. Começamos a conversar e ele me apresentou a
outra morena da mesa. Ela era sua namorada e era bastante simpática.
Mia sentou-se ao lado de Richard e pude notar que o corpo dele estava virado ligeiramente para o seu lado enquanto que a
outra morena era ignorada por ele.
Tadinha!
– Você é do Brasil? – perguntou o loirão do outro lado. Escutei um suspiro de frustração da loira e tentei disfarçar o
interesse nele.
– Sim. – respondi nem um pouco prolixa.
– Que parte de seu país você é? – insistiu.
Olhei para a loira rapidamente. Parecia amarga e furiosa.
– Santa Catarina. – falei desviando o olhar para Mia. Ele tinha um sotaque forte e diferente e isso o deixava mais sexy.
– Chega de conversa. Vamos dançar! – levantou Richard agarrando a mão de Mia e puxando-a para o meio da pista. A
morena que estava ao seu lado ficou com cara de tacho diante de sua solidão e inventou uma dor de cabeça despedindo-se do
grupo.
David e a namorada também aproveitaram para irem dançar e eu sobrei, ficando com a loira assassina e o loiro que eu
ainda não sabia o nome. Ambos eram lindos. Pareciam até irmãos.
Quem me dera...
– Licença. Eu vou ao toalete e já volto. – avisei, levantando-me.
– Eu também. – falou a loira. – Eu te acompanho.
Ferrou! Não fiz nada, meu Deus!
Andei à sua frente em direção aos banheiros que ficavam do outro lado da boate. Evitei a loira o tanto quanto pude.
Ao chegar ao banheiro, entrei em uma das portas e sentei sobre o vaso. Precisava fingir e aguardar uns minutinhos. Não
tinha vontade de fazer xixi, a intenção era fugir dela, mas meu plano não deu certo e a bonitona resolveu me seguir.
Saí de meu rápido esconderijo e fui até o espelho retocar o batom, onde ela me aguardava encostada na parede próxima à
porta.
– Espero que você não esteja interessada nele. – soltou com ar superior.
– Oi? – parei e a olhei através do reflexo do espelho. – Em quem? – perguntei.
– Não se faça de desentendida. – me fuzilou com o olhar. – Eu sei que Theo chama a atenção. Porém, eu o conheço há muito
tempo e esperei tanto essa nossa saída e agora que ele voltou para Londres... – não terminou a frase. Parecia uma mulher
apaixonada. – Não vou esperar que venha uma mulher de uma noite e o leve de mim. – finalizou estufando o peito com
arrogância. Seu batom era vermelho sangue e seu olhar adquiriu a mesma tonalidade. Mas, seu desespero por querer
conquistar um homem tirou toda sua exuberância.
– Querida, se você está falando do rapaz ao seu lado, fique tranquila. Estou fora. Eu não vim aqui para pegar ninguém. –
falei honestamente. Não estava nervosa com o comportamento dela.
– Assim espero. Não quero ter problemas com você ou com qualquer uma nesta boate. Theo é meu. – falou batendo em seu
peito levemente e saiu do banheiro altivamente.
Uau! Está bem!
Saí do banheiro alguns minutos depois, decidida a desaparecer daquela mesa. Não queria ninguém, muito menos homem
quase comprometido.
Fui atravessando a multidão de corpos que bailavam, já buscando Mia para avisar sobre o novo ponto de encontro quando
senti alguém segurando o meu cotovelo. Virei meu rosto para dizer que não estava interessada e me deparei com um corpo
sarado e olhos vibrantes. Na hora, só deu para encarar o peito ligeiramente musculoso que estava diante de mim. Ele era alto.
– Você? – perguntei incrédula.
– Desculpe vir atrás de você assim. – falou o loiro desconcertado.
– Ah. Tudo bem. – falei surpresa. – Mas, por que você veio atrás de mim? – falei procurando entre as pessoas o perigo
iminente.
– Eu sei que você inventou a ida ao banheiro para retirar-se de nossa mesa. – falava ainda segurando meu cotovelo. A
sensação daquela mão em mim fez meu corpo ficar elétrico e desejei muito uma aproximação maior com aquele cara lindo.
– Deu para perceber o meu desespero? – sorri nervosa. – Desculpe, mas não sou do tipo de roubar namorado de ninguém e
como sua namorada estava me matando com aquele olhar, eu preferi sair, mas ela acabou vindo falar comigo da mesma forma.
– desabafei.
– Eu imaginei que ela tivesse feito isso mesmo. – falou compreensivo jogando a cabeça para o lado. – Mas ela não é a
minha namorada.
– O que?– perguntei tentando ver se havia escutado direito.
– Ela é uma amiga do Richard que veio com ele quando soube que eu estaria aqui em London. Conversei com ela em
algumas festas. Mas, hoje ela não largou do meu pé. E vim te procurar porque não queria voltar para aquela mesa... Sozinho –
falou sem jeito enfatizando bem o sozinho.
Soltei uma gargalhada diante daquela confissão. O rapaz me olhou um pouco perplexo e continuou:
– Posso te pedir um favor? – perguntou passando as mãos sobre seus cabelos lisos e desajeitados.
– Claro.
O que você quiser! Foco, Sophia!
– Pode ficar comigo o resto da noite?
Corei ao escutar a pergunta. Eu sou adulta, mas nunca me acostumei com esse tipo tão direto de abordagem.
Ele percebeu o meu desconforto e imediatamente retirou sua mão que ainda estava em meu cotovelo.
– O que eu quis dizer foi: ficar comigo apenas fazendo-me companhia. – se retratou rapidamente. – A vampira só largará do
meu pé se eu fingir interesse maior por outra pessoa.
– Ah sim. Foi o que seu amigo Richard fez com aquela morena. – deduzi.
– Richard? Não. Ele está muito afim de sua amiga. Eles já se conhecem, de fato. Aquela morena era como Paris e pulou fora
quando viu que não ia conseguir nada com ele. Mas a Paris não desiste de mim. Eu quero você como uma... Amiga. – tentou
convencer-me. – Acredite. Eu ainda tenho minhas dúvidas que mesmo eu fingindo interesse em você, ela não irá embora.
– Paris é o nome da loira?
– Exatamente. E aí? Aceita o meu pedido?
– Topo. – sorri. E o que fazemos agora já que, de acordo com você, a vampira não irá embora?
– Dançar. Ignorá-la. Beber, dançar e ignorá-la e assim por diante... – sorriu docemente como se acabasse de ganhar o
melhor dos presentes.
– Ótimo. Sei como fazer isso. Mas, antes de tudo... Prazer, meu nome é Sophia. Sophia Moody. – apresentei-me estirando
minha mão para ele.
Ele sorriu e disse:
– Conheço sua cultura. – puxando-me para um beijo no rosto. Um beijo um pouco mais demorado que o normal. – Prazer em
conhecê-la também. Theo Trento.
Corei e Theo deu uma risadinha com a minha surpresa. Recebi aquele beijo no rosto sentindo seus lábios carnudos sobre a
pele e desejei muito mais.
Dane-se querida Paris! Serei uma menina má! Conheça a nova brasileira do pedaço!
Voltamos à mesa. Paris estava sentada e quando nos viu voltando juntos fechou a cara e tomou um grande gole de sua
cerveja. Sentei ao lado dele e ele a uma distância considerável dela.
– Theo, aonde você foi? Você demorou e eu fiquei preocupada... – disse Paris carrancuda fingindo uma preocupação
totalmente sem noção. Estávamos dentro de uma boate. Por favor!
– Ao banheiro como todos os homens que bebem além da conta. Não tem com o que se preocupar, sou adulto. – falou com
um sorriso gelado.
Essa doeu. Encarei os corpos dançando na pista central para não morrer com o olhar seca pimenteira de Paris.
– Sophia, você viu como o Richard está dançando com a sua amiga? – perguntou Theo ignorando Paris. – Ele não perde
tempo.
– Eu vi sim, mas não se engane. Quem não perde tempo é a Mia. Vamos pedir algo para beber? Você aceita uma bebida,
Paris? – perguntei amistosamente.
– Não. – respondeu grosseiramente.
Theo me olhou e sorriu. Comunicamo-nos pelo olhar. Ela estava nervosa.
Ele chamou a garçonete. A mesma que havia atendido a mim e a Mia. Ao contrário de nós, ela veio rebolando e sorrindo
com o seu bloquinho.
– Sim? O que o senhor deseja? – perguntou melosamente.
Virei os olhos. Paris fuzilou a garçonete com o olhar e eu me diverti ao ver o quanto aquele cara provocava as mulheres
com sua beleza, mesmo que não quisesse. Acho que algumas matariam por ele.
– Duas vodcas, por favor! – respondi para que ela visse que eu era a mesma pessoa que ela mal tinha atendido
anteriormente.
Ela olhou dele para mim e depois o olhou e pareceu não acreditar que era eu a mulher a estar ao lado daquele homem.
Anotou o pedido e se foi dando uma última olhada em mim e em Theo.
Eu sei querida, eu sei! Muito areia para mim!
– Você não quer dançar, Theo? Essa música é ótima. – perguntou Paris.
– Na verdade... Sim. Vamos Sophia? – cortou Theo.
Tadinha! Que crueldade!
– Claro. – respondi segurando a mão dele.
Dançamos várias músicas mantendo sempre uma distância segura e respeitosa. Se nossa bebida chegou à mesa eu não sabia
nem queria saber.
Ele rebolava bem. Mesmo com aquela cara de turista ele tinha gingado e seus movimentos eram muito sedutores. Algumas
vezes eu girava e rebolava de costas para ele. Por que não uma pequena provocação naquele meu vestido de couro preto?
Senti Theo ficar tenso e seu olhar escurecer, mas nunca passar da linha vermelha. Baita autocontrole.
– Agora! Pessoal! É o momento de vocês pegarem o seu par. Quem está sozinho aproveita para desencalhar porque vai
começar o momento depressãããooo! – gritou o DJ.
Uma música lenta ecoou nas caixas de som e eu fiquei imediatamente tensa. As luzes foram se apagando lentamente
sobrando apenas um pequeno breu envolvendo o lugar com uma atmosfera nostálgica. Theo se aproximou e colocou suas mãos
em minha cintura e eu pus as minhas em seu ombro. Começamos a mover ao ritmo da música.
– Acho que ela não se deu por vencida. Vou sair pelas portas do fundo. – brincou enquanto balançávamos os nossos corpos.
– Concordo contigo. Fuga perfeita!
– Obrigado por me livrar daquela mulher totalmente aterrorizante. – falou, fazendo uma cara falsa de assustado.
– Não há de que. – respondi rindo de sua encenação. – Você é de onde, Theo? Vi que você tem um sotaque diferente.
– Eu sou da Itália. Sou filho de ingleses, porém nascido na Itália e vivo lá atualmente.
– Legal. E você gosta da Inglaterra?
– Gosto bastante. Estou passando uma temporada aqui, mas amanhã já retorno ao meu país.
– Fico feliz em conhecer um italiano tão inglês, mas você dança muito bem. Dança como nós brasileiros.
– Hahaha! Obrigado pelo elogio, meu primo Richard me diz sempre o contrário. Acho que ele tem medo da concorrência.
Ambos olhamos para onde estava Richard após sua menção. Ele e Mia estavam à nossa direita, um pouco mais distantes, e
se beijavam como dois apaixonados.
– Eu te disse que Mia não perdia tempo. – falei rindo.
A música finalizou e lembrei que o propósito era afugentar a loira. Olhei para a mesa e a vi sentada lá.
– Que persistência! Pelo amor de Deus! – falei cansada.
– Eu te avisei. Ela me viu e não desgrudou mais.
– Também. Até eu teria... – parei a minha frase a tempo.
Theo me olhou nos olhos com divertimento.
– O que você teria?
Pela primeira vez reparei o quanto aqueles olhos eram azuis. Pareciam da cor do céu.
– Não tinha reparado na cor dos seus olhos em meio a essa escuridão. São muito claros. – falei mudando de assunto.
– Meu pai também tem esses olhos, é a marca da família. Porém, não era sobre isso que você estava falando, ou era? –
perguntou aproximando-se um pouco mais nossos corpos. – Termina a sua frase, Sophia. – sussurrou em meu ouvido.
Estremeci e meu rosto encostado ao seu, moveu lentamente para encontrar o seu olhar e ponderei se terminaria a frase. Theo
me olhou com a intensidade e desfez qualquer receio meu.
É só diversão. – pensei.
– Eu ia dizer que até eu iria me aproximar, agarrar, grudar, prender... Segurar você. – joguei as palavras da forma mais sexy
que consegui. A bebida sempre me auxiliava nestas horas.
Ele sorriu, mas não como antes, inocentemente. Neste sorriso tinha muito mais que lindas palavras. Ele estava me
convidando a muito mais.
– Você é malditamente linda. – sorriu maliciosamente. – E juro que não saio daqui sem arrancar um beijo seu. – finalizou
fitando seriamente meus olhos e depois minha boca.
Fiquei sem ação. Eu queria este beijo desde a hora que o vi entrando na casa noturna, mas não seria a primeira a dar o
passo.
Theo levantou uma de suas mãos e traçou o contorno de meu lábio inferior com seu dedo.
– Sim. – falou confirmando suas palavras e sem perder tempo me beijou. Primeiramente, apenas colou seus lábios no meu
para ver se eu recusaria. Como não aconteceu, Theo começou um baile com sua língua. Lambeu meus lábios abrindo
lentamente a minha boca com a sua. Explorou cada canto dando pequenos beijos até que retribuí um pouco mais sedenta por
este contato.
Começamos a beijar-nos ferozmente e a dançar ao som de I love you goodbye interpretada por Nina. Nossa dança misturada
com a forte atração estava me deixando nas nuvens e o clima começou a esquentar. Suas mãos não eram atrevidas e agradeci
por isso. Do jeito que eu estava, cederia sem pensar duas vezes. Beijamo-nos a música inteira até o silêncio chegar.
O DJ continuou com seu repertório romântico e nós voltamos a dançar castamente.
– Posso ter mais destes beijos hoje? – perguntou com dificuldade em sua respiração. Ele estava excitado tanto quanto eu.
Não tinha aproximado meu corpo do dele o suficiente para saber, mas seus sinais e sua voz não mentiam.
Ainda não conseguia pensar direito. Meu cérebro estava embaralhado e eu só queria continuar beijando e quem sabe mais...
Não! Não sou assim! Nada de uma noite!
– Theo... Foi um prazer conhecê-lo. – comecei a minha frase.
– Não precisa continuar. – cortou-me suavemente, dando-me um beijo carinhoso que durou mais que um selinho e não tanto
quanto eu queria. – Só fique enquanto as lentas não terminam. – sugeriu com o olhar nebuloso.
– Claro. – retribuí o beijo macio de Theo com o beijo estilo Mia Moody. Avassalador, arrasador.
Deixarei boas lembranças para você, Theo.
O DJ tocou mais cinco músicas e ficamos neste “agarra agarra” todo o tempo. Era impossível deixar aquela boca e nossos
corpos, que antes estavam distantes, se colaram como se quiséssemos fundir um no outro. Esse cara era viciante.
Suas mãos audaciosas pousaram um pouco acima de minha bunda, mas seus dedos me provocavam dançando sobre a pele
do vestido e puxando-me mais para ele.
Obrigada por ser de couro, vestidinho!
O som voltou a ser caótico e os apaixonados começaram a dançar freneticamente.
Mesmo não passando de beijos e pequenos amassos, senti-me envergonhada por ter aquele deus na minha frente tão
“estimulado” e por saber que nosso show íntimo havia finalizado. Não sabia onde meter a minha cara.
– Eu... Eu... – balbuciei sem saber o que dizer.
Vamos voltar à mesa? Paris te espera? Vou ao banheiro torcer a calcinha?
– Vamos, amigo? – falou Richard pulando no pescoço do Theo com um abraço.
Salva! Graças ao meu bom Deus!
Theo olhou para ele irritado e impaciente. Por quê? Ele não queria?
– E eu posso saber o que eu faço com a Paris?
– Paris? Ela ainda tá aí? – procurou Richard, vendo-a sentada à mesa sozinha.
– Ela só não me agarrou porque pedi à Sophia para me fazer companhia. – falou levantando os braços exasperadamente
voltando seu olhar para mim. Vi uma luz luxuriosa em seus olhos.
Mia me olhou avaliando-me. Sabia do discurso que viria depois “nenhum homem, hein?”.
– Que? – perguntei com o olhar.
– Amigo. – Mia chamou a atenção de Theo. – Está hora de eu e minha amiga voltarmos ao nosso doce lar. Acho que por
hoje já valeu, não é Sophie? – perguntou-me com seu sorriso “eu sei que você aproveitou bem esta noite”. – Richard, foi um
enorme e maravilhoso prazer te encontrar aqui! – falou para ele com aquela voz sedutora que só ela sabia fazer, logo após, lhe
deu um selinho.
– Que isso, Miazinha. Eu te levo para casa. – falou Richard sedutoramente.
Ai não! Ela não está tão bêbada para aceitar carona e me deixar à deriva aqui. Fiquei com medo da resposta de Mia.
Tínhamos combinado de voltarmos juntas de táxi. Porém a bebida mais o fogo por aquele cara podiam mudar o rumo.
– Eu agradeço muito, mas eu voltarei com a minha amiga. A gente se vê. Você tem meu telefone. É só ligar.
– Com certeza, Baby! – falou Richard agarrando-a pela cintura e dando-lhe um beijo de tirar o fôlego.
– Foi um prazer conhecer você, Sophia. É uma pena que amanhã estarei voltando ao meu país. Você me salvou de um fim
triste e desesperador. – sorriu agarrando minha mão. Theo se aproximou, puxou-me novamente e me envolveu com seus braços
fortes encostando seu corpo o suficiente para sentir sua virilidade e dureza. Deu-me um beijo quente e demorado. –
Recordarei sempre de você. – falou em um sussurro rouco. Despedindo-se.
Recompondo-me tentei manter a conversa de “adeus”.
– Imagina. Mas, antes preciso saber uma coisa: e a Paris? – sorri sapeca. Olhamos na mesma hora para a mesa e vimos
Paris chorar silenciosamente agarrada ao copo de cerveja. Senti um pouco de tristeza por ela, mas lembrei de meu momento
no meio daquela pista e o sentimento foi embora rapidinho. Ele não era namorado dela. Fim de papo.
– Richard a trouxe. Richard a levará. Eu levarei David e sua namorada em casa e ele que se vire.
Ri e me despedi com um último beijo rápido e um abraço apertado.
Que braços fortes! Que homem enorme! Que perfume delicioso! Italiano! Tudo de bom! Ah!
Voltamos para casa de táxi como o combinado. A viagem foi rápida e segura e eu estava exausta.
– Muito gostoso o Richard. Espero que ele me ligue logo. – falava Mia deitada no sofá.
– E se ele não ligar? – falei enquanto preparava um sanduíche no balcão da cozinha. Tudo que eu havia bebido na boate
estava começando a fazer efeito. Minha cabeça girava e eu precisava de comida e uma boa noite de sono.
– Quem perde é ele. Eu é que não vou ligar. – falou temerosa.
– É ele, não é? – perguntei. – Ele é o rapaz que você disse estar apaixonada.
– Sim. – falou tristemente. – Mas ele não gosta de compromisso, muito menos eu. Agora, esquece o Richard.
– Está bem. – não queria alimentar nenhuma ilusão em Mia. – O amigo dele era bem legal. – mudei o foco da conversa.
– Legal? Você está falando daquele loiro alto de 1,90m de altura que tem os braços grandes e fortes e que além de tudo isso
é simpático? Este loiro que você está dizendo que é bem legal? Ele é um DEUS nórdico, Sophia! Você está xingando este cara
dizendo que ele é legal! Ele é tu-do de bom.
– Sim! Sim! Lindo! Tesão! Bonito e gostosão! E blá blá blá! Satisfeita?
– Melhorou. Agora, me diga: como foi dar uns pegas nele? Porque se disser que não foram lá essas coisas, te obrigarei a
sair todos os sábados comigo até você perder a sua virgindade.
– Mia, eu não sou virgem e você sabe disso. E eu não queria dar uns pegas nele – falei usando os dedos para indicar aspas
enquanto falava uns pegas. – A intenção era salvá-lo daquela loira a pedido dele, mas acabou acontecendo uns beijos e foi só
isso.
– Jura? Nem uma boa casquinha, Sophie? – perguntou incrédula.
– Por mais que eu quisesse... Não... Nem uma boa casquinha. – respondi melancólica.
– E quando vocês voltarão a se encontrar?
– Nunca mais. Ele não é daqui. Ele volta amanhã para a Itália.
– Que chique.
– Um belo e ardente italiano. – sorri com a lembrança daquele sotaque.
– Que fofo. Que pena que ele vai embora.
– Pois é. E já que estamos falando em ir embora. Boa noite. Estou indo pra cama.
– Boa noite, amiga. Até amanhã.

Já deitada em minha cama e de banho tomado, recordei a noite na boate e como seria bom encontrar Theo um dia e
continuar nossos amassos.
Adormeci pensando em seu corpo, torcendo por pelo menos sonhar com um italiano bem gostoso.
Capítulo 7 – Entrevista

Passei um mês enviando meu currículo a todas as empresas de Publicidade e Propaganda conhecidas, assim como, recorri
às inúmeras agências de empregos. E enquanto aguardava alguém me chamar, aprofundei meu inglês saindo sozinha e
conversando com as pessoas no shopping ou no mercado perto do apartamento.
O Hyde Park era próximo e, algumas vezes, saía para correr e pensar em todas as estratégias possíveis para conseguir um
emprego imediato. John me acompanhava quando não estava trabalhando e nossa amizade foi crescendo aos poucos.
Ele era muito atencioso e brincalhão. Sua companhia agradável fazia as minhas caminhadas serem menos cansativas e por
muitas vezes me ajudava dando conselhos e indicando caminhos para alcançar o emprego que tanto vim buscar em outro país.
Passou-me até uma lista de agências e itinerários de ônibus e metrô para não me perder na grande cidade.
Em uma de nossas caminhadas matinais, ele pareceu um pouco distante e já o conhecendo melhor me atrevi a perguntar
sobre sua vida pessoal.
– Está aéreo hoje, John. Judie não te deixou dormir? – brinquei. Era a minha forma de começar a conversa... Ele parecia
realmente entediado. – Afinal, no dia da boate você desapareceu e quando te encontrei estava literalmente “acabado”. – sorri.
– Se fosse pelo motivo que está passando nesta sua cabecinha, garanto que estaria muito sorridente hoje ou não... Depende
do ponto de vista – respondeu com um sorriso triste. – Mas, são problemas no escritório.
– Hum... Não posso te ajudar muito com isso, desculpe. – falei sinceramente.
– Eu sei, Sophia. Judie é um pouco “intrigante” quando quer subir na empresa. – desabafou.
Este era o problema. John contou-me tudo enfrentado por ele na última semana. A loirinha havia aprontado no escritório
almejando ser promovida e aproveitou para se autovangloriar diminuindo a capacidade de John. A única maneira era falar mal
dele para ela parecer melhor. Fiquei triste por ele, mas John deixou claro que essa situação se resolveria, seu chefe era um
homem justo e muito observador.
Voltamos correndo para o prédio e nos despedimos com um rápido abraço já combinando o próximo cooper.
Após um longo banho encontrei Mia feliz arrumando a mala em seu quarto.
– De viagem? – perguntei encostando-me ao batente da porta.
– Consegui um trabalho a uns 300 quilômetros daqui. Voltarei em uma semana. – estava animada.
– Que delícia! Depois quero ver as fotos. Vai ser para qual produto?
– Roupas de uma grande revista. Se eu conseguir passar no teste, eu serei uma das modelos cotadas para o ensaio
fotográfico. Torça por mim. – disse sorridente. – Pode usar o meu carro todas as vezes que sair. Sei que você tem habilitação
aqui, não tem?
– Tenho sim. Obrigada. – abracei-a feliz por seu sucesso. Só faltava agora um belo emprego para mim e estaríamos em
plenitude.
(...)
A notícia de uma entrevista não podia vir em melhor hora. Três dias depois de Mia ter viajado, recebi um e-mail de uma
grande companhia de Londres, a Artvt Associations requisitando-me para uma entrevista. Pulei da cadeira eufórica.
– Primeira chamada! Yeahhhhh! – gritei saltando de alegria. – Prepare-se Sophia Moody, você vai conseguir!
(...)
Eu estava aterrorizada quando cheguei à empresa Artvt Associations localizada na região central de Londres. A opulência
do prédio de mais de quinze andares e o número de pessoas entrando e saindo me deixaram receosa. Todos elegantes em seus
trajes profissionais caminhavam apressados rumo às suas rotinas.
A entrevista estava marcada às 09h30, porém preferi chegar meia hora antes para demonstrar responsabilidade. Estava
esperta em relação ao famoso horário britânico. O hall de entrada possuía várias catracas e somente pessoas autorizadas
tinham acesso à parte interna do prédio.
– Bom dia. – cumprimentei uma das atendentes do outro lado do enorme balcão de mármore negro. Sobre ele uma webcam
estava fixada para tirar foto de quem entrava no prédio.
– Bom dia. – retribuiu com educação. – O que a senhorita deseja?
– Vim para uma entrevista com o senhor Veneta do departamento de Marketing Júnior.
Simpaticamente, ela me pediu a identidade, tirou uma foto e confirmou o andar da entrevista, entregando-me, logo em
seguida, o crachá de visitante com acesso provisório.
Ao chegar ao andar, a sala à minha frente possuía um conjunto de sofá branco e uma máquina de café ao canto.
Se eu beber café começarei a tremer igual a uma britadeira.
Ao lado da sala que acreditava ser a entrevista, uma senhora, aparentando ter 60 anos com um lindo cabelo branco
amarrado em coque dando-lhe um ar de “sou antiga na empresa”, chamava-me com sua mão por trás de um balcão de madeira
clara. O nome na placa sobre ele informava seu nome.
– Bom dia, senhora Marie.
– Bom dia, senhorita? – perguntou-me.
– Moody. Sophia Moody. – sorri.
– A senhorita é a segunda a chegar.
Olhei em volta à procura da primeira pessoa. Pelo que vi alguém pulou da cama antes de mim.
– A senhorita pode aguardar. Avisarei ao senhor Veneta que temos mais um para a entrevista.
– Senhora Marie. – falei baixinho – posso te fazer uma pergunta? Se não puder respondê-la, não terá problema, mas se
puder... – fiquei um pouco sem graça. – eu ficaria mais segura.
– Claro, minha jovem. Em que posso ajudá-la?
– Quantas pessoas o senhor Veneta entrevistará?
A mulher não pareceu se incomodar com a minha pergunta e me mostrou um papel que continha vários nomes, inclusive o
meu. Contei pelo menos 25 pessoas.
Estremeci e minha autoconfiança foi para o ralo. Agradeci por sua boa vontade e sentei-me no sofá com meu currículo.
Aos poucos foram chegando os candidatos. Um mais bem vestido que o outro. Eu estava arrumada com meu terninho básico
preto, blusa de seda rosada e colar de pérolas, mas isso não era um ponto a favor. Todos ali tinham presença.
– Senhorita Sophia Moody. – anunciou uma voz masculina desde a sala. – Pode entrar.
Levantei-me respirando fundo. Ao entrar na sala parei com o susto ao ver o rosto conhecido.
– Richard? – perguntei chocada.
Ele sorriu para mim.
– Eu mesmo, Sophia. Sente-se, por favor. – falou de sua cadeira.
– Desculpe-me. Não esperava que fosse você o meu entrevistador. Aliás, pensei que nunca fosse vê-lo novamente. – falei
envergonhada por minhas palavras. Eu tinha que tomar cuidado. Era uma grande companhia e precisava recordar que era uma
entrevista de emprego.
– Não se sinta tímida. Eu também não sabia que você era você. Foi uma surpresa agradável para ambos, não acha? –
perguntou com um leve sorriso.
– Sim. De certa forma, sinto-me menos tensa. – declarei com sinceridade. Saber que era Richard o responsável me deixava
mais tranquila e ri baixinho de Mia. Ela precisava saber disso.
– Então, conte-me um pouco sobre você, sobre a faculdade, o que te motivou a buscar uma vaga aqui na Artvt Associations.
Respirei e comecei a narrar toda a minha trajetória profissional até chegar ali. Richard escutou-me atenciosamente, fez
diversas perguntas e nossa entrevista se estendeu por uma hora como um bate papo entre amigos. Senti-me à vontade e
respondi a todas as suas dúvidas com postura e objetivamente. Ele contou como ele iniciou a sua carreira na empresa e como
funcionava a política lá dentro e o porquê de tantos profissionais almejarem construir sua vida na Artvt.
Após finalizar a entrevista, Richard explicou que ainda teria um grande número de entrevistados candidatos à vaga de seu
setor e desejando-me boa sorte se despediu com um aperto de mão.
– Não se esqueça. Daremos um feedback por e-mail até sexta a todos.
– Obrigada. – agradeci. Quando já estava próxima à porta...
– Sophia? – chamou-me.
– Sim?
– Diga a Mia que essa semana eu ligarei. Sem falta, pode apostar. – sorriu com determinação.
– Ela ficará feliz em saber. Até mais.
– Até mais. Senhor Michael Eastwood pode entrar.
(...)
Cheguei ao apartamento e escutei alguns sons na cozinha. Mia voltara.
– Eu vou te matar. – gritei.
Ela levou um susto por minha repentina aparição e quase derrubou a panela onde estava cozinhando.
– Que droga é essa, Sophia? Você quer me matar mesmo. Matar-me de susto. Pelo amor de Deus! – falou colocando a mão
no coração. – O que eu fiz afinal?
– Você não sabe mesmo? – perguntei incrédula e irritada.
– Se eu soubesse em nem perguntaria. Desembucha logo.
– Richard. Eu vi o Richard hoje.
– Sério?! Onde?
– Na entrevista da Artvt que te falei por e-mail.
– Que legal! Ele também estava concorrendo à mesma vaga que você?
– Não. Ele é o chefe Mia. Ele quem me entrevistou.
Mia abriu a boca chocada com aquela revelação.
– Eu juro que não sabia, Sophie. Estou surpresa!
– É... Eu percebi. – falei exausta, indo até a sala e jogando-me sobre o sofá. Ela preferiu deixar a panela em fogo lento e foi
se sentar ao meu lado.
– Mas... Ele te reconheceu?
– Sim. Por incrível que pareça eu me senti mais confiante quando vi que era ele. A entrevista foi tranquila e sem toda aquela
pressão.
Mia bateu palmas e me abraçou.
– Que bom amiga. Você tem chance. Eu sinto que tem. – falou empolgada.
– E tem mais, ele pediu para te avisar que vai te ligar essa semana.
Mia saltou do sofá, entusiasmada com a futura ligação, e colocou música brasileira, mais especificamente axé.
– Agora quem parece uma adolescente virgem à espera do príncipe é você. – falei debochadamente.
– Adoraria que Richard tirasse a minha virgindade... Pena que eu não a tenho mais.
Rimos juntas de sua piada. Estávamos tão contentes e dançamos até acabar cada gota de energia, afinal ela tinha um cara
gostoso na cola e eu tinha esperança de ser chamada pela Artvt.
Tudo estava bem até sentirmos o cheiro de algo queimando...
(...)
Esperei ansiosamente o e-mail que Richard havia comentado. Não aguentava mais o frio na barriga e John ria de meu
nervosismo.
– Calma, mulher. Vai dar tudo certo. Se for para ser será.
– Nem vem com essa psicologia barata, isso não vai me tirar do meu estado atual: desespero. – falei sorrindo enquanto
corríamos em mais uma manhã nublada no Hyde Park. – Hoje, é sexta. Último dia para receber este bendito e-mail. E até
agora nenhuma empresa se comunicou. Também tenho que pagar as contas... E...
– Sophia. – John parou e colocou a mão no meu ombro. – Calma.
Olhei para ele respirando com dificuldade. Pensamentos derrotistas invadiram a minha cabeça. E se eu fracassasse aqui na
Inglaterra?
Percebi que estava vomitando as palavras novamente para ele e tentei apaziguar o rebuliço de sentimentos dentro de mim.
– Desculpe, John. Tá difícil, viu? – falei mais tranquila. – Eu acho que vou voltar para o prédio e ver se arrumo as minhas
coisas. Vou recomeçar a minha procura por emprego.
– Vamos. Eu te acompanho. – Corremos com maior velocidade até o prédio e nos despedimos em nosso andar. Aqui não
existia porteiro e estranhei o quanto era vulnerável a entrada por se tratar de um bairro nobre. Algumas vezes, via um policial
passando em um carro ou em cima de um cavalo - o que me deixava com o sentimento de maior segurança, mas morando no
Brasil e sabendo que o ser humano é dotado dos mesmos sentimentos (bons ou ruins) em qualquer lugar do mundo, eu ficava
alerta. Sempre.
(...)
Enquanto esperava Mia chegar, olhava minha caixa de e-mails de dez em dez minutos. Lembrei-me de John e concluí que
hoje ele havia conhecido um pouco do meu lado ansioso. Eu era assim, controle emocional não era muito comigo, ainda mais
se tratando de um futuro trabalho em uma terra tão longe de meu país. Mesmo com a desvalorização da moeda, fiquei com um
valor significativo, mas minhas economias poupadas em real não durariam por muito tempo aqui e o temor de passar mais
meses sem um salário me preocupava.
Passei todo o dia fazendo uma boa faxina em torno do apartamento de 110m². Arrumei meu guarda-roupa, organizei
inclusive os DVDs em ordem alfabética na estante da sala, tudo para passar o maldito tempo que parecia estacionado.
Resolvi assistir a um filme para me distrair quando escutei o ruído de e-mail chegando. Corri para meu notebook que estava
sobre a mesa de jantar e abri a caixa de entrada de minha conta pessoal. Estava escrito “Feedback ARTVT”.
Minha barriga congelou e após toda a espera fiquei em dúvida se abria ou não. E se não fosse um e-mail positivo? Minha
busca por um emprego reiniciaria, porém não com tanto entusiasmo.
Que Deus me ajude!
Abri a mensagem.

À senhorita Moody, Sophia.

Agradecemos seu interesse em fazer parte da equipe da empresa ARTVT. Seu desenvolvimento na entrevista, assim como, a
análise de seu currículo, foram essenciais para obtermos um resultado e decidir se a senhorita encaixava na vaga em aberto.
Por isso, caso ainda haja interesse, convidamos para que se dirija ao departamento de recursos humanos nesta segunda-feira
com seus documentos para legalizarmos toda a documentação.
Seja bem-vinda,
Richard Veneta.
Diretor-sócio Dep. Marketing Júnior.
Li mais uma vez para não ter dúvidas do teor daquele e-mail e corri, logo depois, ao apartamento de John para compartilhar
a boa notícia. Toquei sua campainha várias vezes com a pressa de falar com ele.
John abriu a porta e meu queixo caiu.
– Jo... John... Eu... – não conseguia processar nada em minha mente. O que eu precisava falar com ele mesmo? John me
olhava com um sorriso travesso nos lábios. Ele sabia o porquê de minha gagueira. Estava com uma minúscula toalha em volta
de sua cintura e com os cabelos molhados. Eu só conseguia olhar para seu abdômen definido e as pequenas gotículas de água
deslizando para baixo sendo paradas apenas pelo tecido azul enrolado em seu corpo escultural.
– Eu vim correndo achando que havia acontecido alguma tragédia. – falou rindo de minha expressão atônita. – Eu estava no
banho.
– Desculpe. – forcei meus olhos a subirem e encararem seu rosto, mas a força de vontade definitivamente não estava ao meu
lado. – Vim te contar que consegui a vaga na Artvt. – sorri lembrando que era essa a minha intenção ali.
– Devo te dar um abraço? – perguntou galantemente abrindo os braços.
– Nãooo! – falei horrorizada. Nem tão horrorizada assim, estava mais chocada com sua brincadeira e a minha vontade de
tirar uma casquinha. – Passa lá quando você terminar. Farei uma pizza. – girei e caminhei para dentro de meu apê sorrindo
pela linda visão que apreciei.
(...)
O cheiro invadia o lugar e minha barriga roncou levemente.
– Olha quem eu achei do lado de fora. – entrou Mia empurrando John para dentro.
– Oi. – falei um pouco sem jeito. John deu-me um sorriso cafajeste e eu gostei disso. Era paquerador, porém um pouco mais
contido.
A pizza estava pronta e passamos uma noite agradável cheia de refrigerante zero, pizza e filmes. Afinal, ninguém trabalharia
no dia seguinte. No sofá John se sentou entre nós duas pousando suas mãos acima de nossas cabeças. Ele se sentia em um
harém e não forçou nenhuma investida. Fiquei mais contente, não queria estragar uma amizade por causa de alguns hormônios
mesmo sabendo a delícia de homem que ele era.
Parabéns aos ingleses! Somente homens bons!
Capítulo 8 – ARTVT

Acordei em minha cama com a mesma roupa de ontem, não sei em que momento adormeci e também não vi quando o John
foi embora.
Mia me contou, enquanto lavava a louça, que eu dormi nos braços dele e que ele só voltou ao seu apartamento porque eu
roncava como um motor de carro velho. Tomei meu café escutando suas palhaçadas e ignorando suas mentirinhas. Ela só calou
a boca quando contei sobre a grande descoberta do mês: a toalha azul!
Ela ficou entusiasmada e se ofereceu para bater na porta de John todas as vezes que fossem necessárias. Como ela sugeriu,
precisava saber se o tom da toalha era azul turquesa, azul marinho...
Aproveitei o resto do fim de semana e caminhei até o supermercado mais próximo para comprar alguns alimentos. O clima
ainda era frio e casaco de lã, luvas e todos os acessórios eram peças fundamentais para aqueles que não estavam acostumados.
Eu, por outro lado, ainda conhecia um pouco este clima que era parecido ao do sul do Brasil, mas lá não era tão rigoroso.
Mia e eu fofocamos todo o resto do fim de semana como antigamente. Nossa amizade tinha se fortalecido com a distância e
notei o quanto estávamos mais unidas agora. Foi uma ótima terapia relembrar as zoeiras de nossa vida no Brasil e me senti
segura para iniciar minha nova caminhada aqui na Inglaterra.
(...)
– Fiz seu café. – acordou-me Mia com uma caneca em suas mãos. – Só porque hoje é o seu primeiro dia. Toma seu presente.
– estendeu-me.
Sentei na cama e tomei aquele café quentinho.
– Você só pode estar brincando comigo. Meu presente é uma caneca cheia de café? – ri.
– Não. Seu presente foi o trabalho que eu tive em preparar o café só pra você. – falou orgulhosa.
– Muito obrigada Mia Klein por seu enorme sacrifício. – debochei tomando um gole do café. Ele estava delicioso e quente
o suficiente para esquentar, mas não para queimar a língua.
– Agradeça mesmo. Além disso, tive que mandar John embora. Você dormiu quase que deitada em seu colo. E ele sorria
ardentemente por ter sua cabeça lá.
– Ai que droga. – coloquei minha mão no rosto. - Eu peguei no sono mesmo. Quem me trouxe para o quarto? – perguntei
assustada lembrando que eu não havia caminhado.
– Adivinha? – sorriu Mia. – Nosso querido John! – riu, enfatizando a última frase. Era o nome de um dos filmes que eu mais
amava. Mas ele se comportou, eu estava de olho nele.
Ainda bem que eu podia contar com ela.
(...)
Arrumei-me de forma parecida com o dia da entrevista alterando o terno preto por um cinza riscado e uma blusa branca de
gola.
Usei todas as informações que John juntou para eu chegar ao meu destino sem contratempos e o agradeci, era um bom
amigo.
Muito bom amigo!
Sorri lembrando o quão “bom” ele era naquela toalha.
(...)
A recepcionista já estava informada sobre a nova funcionária e subi até o RH para resolver tudo que era necessário.
Richard me recebeu no horário marcado e já me aguardava no setor de Recursos Humanos. Uma simpática moça atrás do
balcão me instruiu sobre meu crachá e alguns procedimentos. Ela era loira de cabelos encaracolados até a cintura. Poderia
apostar que ela já foi garota propaganda de shampoo. Era maravilhosa e muito bonita com aqueles olhos verdes. Percebi que
algumas vezes ela olhava para a bunda de Richard. Achei engraçado porque ele também fazia isso quando ela virava para
buscar algum documento no armário de metal atrás dela.
Richard não perde em beleza. Era muito bonito. A cor de sua pele não era escura como o moreno brasileiro nem tão clara
quanto aos ingleses. Era um moreno quente. Sua barba cerrada dava um ar mais velho a ele, mesmo sabendo que ele deveria
ter no máximo 32 anos. Seu corpo parecia ter sido esculpido pelos artistas gregos da antiguidade. Esta mulher estava babando
e ele sabia disso.
Após receber todos os documentos e assinar a minha contratação, Richard caminhou por todo o prédio nos andares que
seriam importantes para mim.
– A cantina fica neste andar. – disse enquanto saíamos do elevador no quinto andar. – Como você pode ver temos um andar
só para ela. A empresa tem um número significativo de funcionários e, por isso este tamanho. . – apontou para a sala à nossa
frente.
Assustei ao ver a grande, grande não, imensa sala que pegava todo o andar. Eram inúmeras mesas. – Aqui servimos café da
manhã, almoço, jantar... Ou seja, fica aberta o dia todo para um café ou dois. É descontado um pequeno valor do seu salário a
cada refeição. O empregado escolhe comer ou não aqui, não é uma obrigação, certo?
Escutei atentamente todas as palavras dele sobre cada andar e suas atividades. Meu cargo seria uma ajuda para o setor dele
e consistia na manipulação de imagens e criação de publicações comerciais em outdoors e revistas para pequenas empresas.
Eu dominava as ferramentas e gostava de receber projetos do zero. Seria como deixar a minha marca em cada projeto.
Passamos a recorrer o andar onde eu trabalharia com mais alguns funcionários.
Os andares não possuíam paredes de concreto. Cada andar e seus setores eram divididos por baias cor cinza típicas de um
escritório. Meu novo setor era amplo e minha mesa enorme com computador de última geração. Fui apresentada à equipe de
Richard composta por sete pessoas. Quatro homens e três mulheres.
Acho que eu vim equilibrar o time das meninas.
Cumprimentaram-me com apertos de mão.
– Depois de tantos anos, por fim aprenderei a sambar com uma brasileira? – perguntou-me um rapaz branco como a neve.
Não era feio, mas não era tão deslumbrante quanto aos homens que conheci até o momento. Seu porte era baixo e era um
pouquinho musculoso. Seu nome era Ronald e sorria ao me questionar. Não tive tempo de responder porque uma mulher da
minha idade apareceu para apertar a minha mão. Ela era morena, cabelos lisos, curtos e escuros até o queixo. Apesar de seu
leve sorriso, senti em seu cumprimento alguém fria e calculista.
– Prazer, Paige. Nem todos os brasileiros sabem sambar querido Ronald. – olhou para ele aumentando o seu sorriso. Sem
dúvida, ela queria me menosprezar. – Assim como existem ingleses que não gostam de chá. – completou retirando sua mão.
Apesar de sua ligeira prepotência e provocação, ela tinha razão. Eu era brasileira e não sabia sambar.
Os outros funcionários me receberam com mais calor e anotei mentalmente o nome desta ilustre figura para ficar ligada.
Richard apontou sua porta para qualquer eventualidade e me deixou sozinha com algumas pesquisas a serem feitas. Estava
contente fazendo algumas anotações e lembrei que precisava ligar para casa no Brasil e contar ao meu pai como tudo estava
dando certo. Ele estaria preocupado. Minha última notícia foi “estou ficando sem dinheiro e não apareceu nada ainda”.
– Sonhando acordada, querida? – perguntou Paige. Estava encostada na “porta” de minha baia batendo com suas unhas
vermelhas na parede. Seu tom de desdém me chocou. Estava ali há apenas algumas horas e já mostrava sua garrinhas.
– Apenas trabalhando, pensando em ideias... – tentei parecer simpática. Ela ergueu a sobrancelha duvidando de mim, mas
ignorei-a e continuei olhando para a tela do meu computador. – Deseja alguma coisa, Paige? – perguntei depois de sua demora
em sair.
– Não. Richard pediu para eu ficar de olho em você. Só isso. – terminou e voltou a suas atividades.
Logo essa aí? Ele só pode estar louco ou ela está mentindo.
O dia passou rapidamente e quando dei por mim estava na hora de ir embora.
Meus outros colegas homens vieram se despedir, exceto a turma das mulheres. Harry – que com aqueles óculos parecia
mais o Harry Potter –, Thomas e Patrick eram muito gentis, assim como Ronald. Sei que por ser brasileira os atraí e repeli as
mulheres, mas provaria que seria uma boa companheira de trabalho.
(...)
A semana voou. Na verdade, não tinha do que reclamar. O ambiente laboral era tranquilo e meus colegas de trabalho
sempre amistosos, ajudavam-me quando a coisa apertava. Eu retribuía da mesma forma auxiliando-os quando necessário. Era
uma ajuda mútua e eu gostei deste sentimento de união. Paige parou um pouco de me vigiar e eu agradeci por esta “folga”.
Afinal, até hoje eu não sabia qual era a verdadeira atividade dela: vigiar-me ou trabalhar de verdade.
Capítulo 9 – Paige.

O tempo é uma ferramenta interessante. Quando não queremos que um acontecimento termine, vem o tempo e acelera seus
ponteiros como um castigo. Se for necessário que passe rápido, ele sacaneia e desacelera, para que você sofra aquele
momento e não esqueça que quem manda é ele.
Assim foram os últimos quatro meses. Cheios de altos e baixos.
Danna e Ann aproximaram-se de mim aos poucos o que me deixou mais tranquila sobre se o problema era eu ou não.
Perguntava-me se eram desconfiadas demais ou se Paige envenenava-as contra mim. Nunca lhes perguntei o motivo. Eu ainda
não tinha entendido o porquê de tal perseguição e desisti de me aproximar de Paige. Todas as vezes que eu perguntava algo
sobre um projeto ou tentava manter uma conversa, ela era rude. Eu sou uma pessoa paciente e tenho um ótimo desempenho no
trabalho quando o ambiente é calmo, no entanto ela tentava me tirar do sério todo o tempo atrapalhando todas as minhas
atividades. Se eu ficava na minha, ela chegava e jogava uma provocação sobre minha cultura ou meu estado de humor. Estava
saturada disso e quando a vi caminhando até a salinha de café fui atrás dela. Hoje, ela não escaparia.
– Boa tarde, Paige. – cheguei e fechei a porta da salinha. Era um lugar pequeno com uma cafeteira elétrica e copinhos
descartáveis para cafés rápidos. Ela se sobressaltou e olhou-me cerrando os olhos.
– Boa tarde, Sophia. – seu tom de desdém indicava que nossa conversa seria boa. Aproximei-me lentamente dela e ela deu
um passo para trás.
Ótimo! Ela está precavida. É bom mesmo não brincar comigo!
– Posso me servir um pouco? – falei com um sorriso frio pegando a jarra de café sobre o balcão atrás dela. Ela deu um
passo para o lado e começou a andar em direção à porta com seu copinho descartável. Estava desconfortável.
– Quero falar com você. – chamei sua atenção. – E quero falar agora. – eu já não estava sorrindo. Sempre usava minha voz
de forma suave para não dar motivo para uma discussão, mas com essa mulher na minha frente seria um esforço descomunal
para não atirar a jarra em sua cabeça.
– O que você quer falar comigo de tão importante? – olhou arrogantemente.
– Eu apenas quero deixar as coisas... Como vocês dizem? Clean?
– Não entendi o que você quis dizer e não tenho tempo para conversa fiada.
– Você vai me escutar e vai me entender, Paige. A partir de hoje, eu não quero mais respostas grosseiras de sua parte.
Quando eu perguntar sobre um projeto lembre-se que é o nosso trabalho e não um bate-papo informal, então se comporte como
uma profissional que o nosso chefe quer que você seja.
– Querida, eu não tenho tempo para perguntas idiotas. E você as faz constantemente. Você entende agora porque não tenho
paciência com você, querida?
– As minhas perguntas não são idiotas. – falei calmamente.
Respira Sophia.
– Eu não gosto de você. Você e seu jeitinho conquistador para cima dos homens só desfoca o objetivo da empresa. Você
joga seu cabelinho ruivo para cima do Ronald e ele baba. Você sorri para Harry e parece que ele quer flutuar. Nosso chefe te
ama e te elogia o tempo todo. Mas, eu sou mulher e não caio nessa. – irritou-se.
Estava mesmo escutando isso? Ela estava com... Inveja? Dizendo que eu trabalhava bem porque queria conquistar os
homens? Ao notar o seu tom, vi que suas mentiras ou exageros eram para encobrir o seu medo de me ter no setor trabalhando
ao seu lado. Ela estava na empresa há quatro anos, assim como os demais funcionários. Eu estava em pleno desenvolvimento
neste pequeno período de tempo além de me destacar em cada propaganda nova. Eu era a sua ameaça.
– Paige, eu só vim te avisar para ser a mais profissional possível. Só isso. Caso contrário, não teremos uma boa relação e
este caso será um problema a ser resolvido com o senhor Richard. Você está me entendendo? – perguntei seriamente. – Eu
tenho os meus valores e não ligo para suas acusações infundadas sobre sedução e sorrisos. Eu trabalho e faço o meu melhor.
Só isso. Se você tentasse, talvez estivesse melhor aqui dentro da Artvt.
Paige ficou vermelha e vi quando ela amassou o copo cheio de café em suas mãos. Por sorte, o café não derramou em seu
vestido cor creme, mas seu rosto dizia “vou te atacar”. Não me intimidei com o seu olhar e ainda dei um passo à frente. Não
tinha medo de cara feia.
– Está avisada, senhorita Paige. Trate-me com respeito e teremos uma boa relação. – passei por ela esperando seu ataque,
mas ele não veio. Porém, antes de eu sair da sala, Paige me chamou.
– Quero te dar um aviso também, senhorita Moody. Passe em meu caminho e eu vou te atropelar como um caminhão.
Estamos em uma empresa e não em viagem entre amigos. Aqui é Londres e não seu país alegre e feliz cheio de ilusões. A
realidade aqui é outra. Acostume-se, pois eu não sou sua amiga.
– Não quero sua amizade. Ela não me faz falta. Quero que você fique em seu lugar e não me aborreça. Portanto, cuidado! Eu
tenho sangue quente! – avisei, saindo sem dar outra oportunidade para mais de suas respostas.
Neste dia, aproveitei para ir até o setor de impressões para conversar com meu amigo Caio. Ele era homossexual e toda a
sua simpatia e jeito de ser o transformou no jornal da Artvt e sabia de todos os podres da empresa. Seu cabelo azul cortado de
qualquer jeito era sua marca registrada. Fashion demais e ele, sendo um bom profissional, não sofria problema algum dentro
da empresa por seu estilo diferente. Na verdade, ele era tão bom em seu ofício que foi promovido a chefe do departamento de
impressões.
– Você confrontou a bruxa? – perguntou alegre demais pela nova fofoca.
– Estava cansada de seu tratamento comigo. Ela é um pouco rígida com os outros, mas às vezes penso que existe um
preconceito por eu ser brasileira e conquistar as amizades do setor. Ela é mil vezes mais bruxa comigo. Acredita que ela
jogou na minha cara que eu jogo charme a todos?
– Acredito, amiga. Ela é detestável. Não sei como ninguém reclamou dela até hoje. A fama dela corre pela empresa.
– Preferem ignorá-la. – concluí. – Deixe Paige para lá.
– Que tal a gente chamar a Danna e Ann para um café agora? – perguntou sorrindo.
– Senhor Caio, você por acaso quer isolar a Paige?
– Não. – sorriu como quem quisesse aprontar. – Quero que ela veja que não é só homem que vai atrás de você. Neste ponto,
eu dou crédito para ela. Não pense que seus amiguinhos estão lá te ajudando somente para te fazer feliz, Darling. Eles querem
tocar tudo que está por baixo desta roupinha elegante.
Ri de seu comentário. Eu sabia que ele estava certo, mas eu me comportava normalmente. Eles que eram babões e eu não
poderia fazer nada quanto a isso.
Capítulo 10 – Marketing Sênior.

– O café daqui é tão bom. Nunca enjoei. – falou Danna com sua meiga voz. Era descendente de japonês e suas feições lhe
davam um ar de menina. Seus olhos eram quase fechados e não media mais de 1,60m de altura.
– Você está aqui há cinco anos e mesmo assim toma todos os dias? – indagou Caio. – Eu não aguento nem sentir o cheiro.
Deus me livre!
– Caio, você nunca gostou de café pelo que eu me lembre. – falou Ann. – Fingido demais. - sorriu.
Caio sorriu e concordou com a cabeça. – Muito bem. Alguém que me conhece verdadeiramente. Se você fosse homem, não
me escaparia. O que mais eu gosto é que prestem atenção em mim. – piscou várias vezes, fazendo caras e bocas.
Dei uma gargalhada chamando a atenção das pessoas à volta. Eu não conseguia segurar o riso com tanta facilidade e neste
ponto eu era muito escandalosa. Corei um pouco com os olhares e bebi quietinha o meu café.
– Sophie, Danna me falou que viu um amigo seu no seu Facebook. Ela o achou lindo e queria saber se ele tem namorada. –
comentou Ann. Danna deu um soco em seu braço fazendo-a rir.
– Não era para falar, Ann. – Danna não olhou pra mim e pensei quem poderia ser. John. Só poderia ser ele. Sorri para
Danna.
– Não me olhe assim, Sophia. – falou vermelha. – Eu só queria saber quem era ele. Um rapaz de cabelos pretos. A Ann é
uma fofoqueira e não cala a boca nunca. – olhou para ela fazendo cara feia. Anna fez uma careta e sorriu.
– John. O nome dele é John e ele não tem namorada. – respondi solidária. – Tive uma ideia. Convido os três para uma noite
de amigos em meu apartamento. Seria como uma festinha entre nós e chamaria John. Ele é meu vizinho.
Danna e Ann bateram palmas felizes pelo convite e Caio aceitou prontamente. Eram festeiros demais.
O setor estava em alvoroço quando voltamos. Caio ficou em seu andar e Richard veio em nossa direção com várias pastas
nas mãos.
– Reunião em minha sala em cinco minutos. – avisou passando por nós apressadamente.
Olhamos entre nós três e seguimos para nossas mesas para pegar blocos de anotações. Paige estava carrancuda quando
passamos por ela no estreito corredor.
– Vocês não me esperaram para o café? – perguntou a Ann e Danna.
– Não. Fomos com Sophia. – informou Danna com a voz baixa. Paige me olhou de relance e ficou vermelha de raiva. Danna
sentiu o clima e amenizou. – Amanhã, terá aquele bolinho que você gosta, aí vamos lá pela manhã.
– Não. Temos muitos projetos para fazer, amanhã será impossível descer e jogar conversa fora. – cuspiu. Danna era muito
calma e eu não entendia o porquê de aceitar esse tipo de tratamento. Ann, por outro lado se segurou para não dar uma resposta
no mesmo nível. Tínhamos uma reunião e senti que era esse o motivo por ficar calada.
(...)
Sentei ao lado de minhas colegas de trabalho, tendo Paige do outro lado da grande mesa de madeira ao lado de Ronald,
Harry, Thomas e Patrick.
– Chamei vocês aqui para apresentar um novo infográfico. A empresa está passando por uma reestruturação. Vocês já estão
cientes de algumas coisas, mas a senhorita Moody ainda não. – olhou pra mim. A reunião seria sobre coisas boas, ou ele não
teria sorrido daquele jeito. – Nosso departamento é pequeno, porém com a contribuição de cada um, sempre damos conta do
recado. Como sabem existe um setor no 14º andar, ele estava desativado, pois a nossa matriz em Milão era a responsável
pelos grandes projetos.
Ann levantou a mão.
– Este andar é o andar de Marketing Sênior, mas nunca vi atividade nenhuma lá. – comentou.
– Exatamente, senhorita Ann. Esta reunião é para informar que a empresa resolveu transferir para Londres este
departamento e montá-lo aqui já que o mercado está aquecido e a maioria dos clientes é da Inglaterra.
Agora era a vez de Ronald falar.
– E os funcionários de lá? O que farão? – perguntou preocupado.
– Fiquem tranquilos. Ninguém será demitido. A matriz tem diversas áreas e eles serão remanejados. A empresa está em uma
ótima fase. É apenas uma estratégia para ficar mais próxima do mercado editorial. – sorriu Richard acalmando-nos. – Por
isso, começaremos, ou melhor, reabriremos este setor. Conversei com o sócio encarregado e ele me pediu para selecionar três
funcionários de minha equipe para serem promovidos.
Começaram as vozes baixas e um pequeno alvoroço. A palavra promoção era o triunfo para qualquer um. Promoção
significava ganhar mais.
– Acalmem-se. – pediu Richard em pé. – Vocês farão alguns testes e passarão por várias etapas até este setor tornar-se
realidade. Eu escolherei os três que mais se sobressaírem. E antes de tudo, todos aqui terão a mesma oportunidade, inclusive
os mais novos na empresa. Serão testes de aptidões e provas de conhecimentos na área. Eu tenho em mãos uma planilha com o
desempenho de cada um e preciso conversar sobre isso imediatamente.
Paige ergueu o olhar com arrogância para mim. Estava demarcando seu território.
Ai que saco de mulher!
Richard continuou seu discurso. Abriu o slide e sua apresentação continha dados desde o início de carreira de cada um ali
dentro da sala e um gráfico mostrando quantos projetos tinham feito e o tempo gasto por cada um. Os homens do setor se
destacaram por qualidade e pareciam fazer o mesmo número. A diferença era pouca, mas Ronald em relação à qualidade era
superior a eles em porcentagem.
Ao anunciar as mulheres, fiquei rígida. Não podia competir com todas ali e Paige, sentindo minha tensão, sorriu
debochadamente.
– Temos aqui nossas meninas. – falava Richard. - Todas se desenvolveram muito bem em todo este tempo. Mas, algo me
preocupou.
Ai Jesus!
Continuou...
– Todas vocês têm porcentagem de trabalho por tempo muito próximo. São cinco anos trabalhando arduamente e é notório o
resultado. Vocês estão de parabéns!
– Obrigada, senhor Veneta. – agradeceu Paige.
Falsa!
– Eu que agradeço, Paige. – Richard ainda não havia terminado e gelei quando ele falou o meu nome. – Senhorita Moody,
você foi a que me preocupou.
– E... Eu, senhor? – perguntei com os olhos arregalados. Ignorei o olhar de Paige, não queria ver sua carinha alegre.
– Sim. Meninas, todas vocês tiveram um tempo de cinco dias por projeto aproximadamente, ou seja, uma semana por
projeto. - Entretanto, a senhorita Moody apresentou um tempo recorde de três dias por projeto e a avaliação da qualidade dela
foi dois pontos superiores a de vocês.
Que?
Ao olhar para frente avistei uma assassina. Ela estava puta da vida e eu não me senti tão bem. Não por ela e sim por Ann e
Danna.
– Por isso, quero que vocês procurem conversar com Sophia sobre como melhorar esse tempo e a qualidade. Sophia eu
peço que você as auxilie neste quesito. – pediu-me. Assenti com a cabeça e sorri para minhas colegas que devolveram com um
aceno. - Quero a melhor equipe quando eu tiver que selecionar os três. Ficarei desfalcado até contratar mais pessoas, por isso
quero todos no mesmo nível.
Richard nos dispensou e voltamos em silêncio para a sala.
– Diga-me qual é a mágica, Sophie? – perguntou-me Danna. Ri de sua pergunta. Parecia determinada a melhorar. – Preciso
deste emprego. – rogou com o olhar.
– Calma, Danna. Vai dar tudo certo. – Sophia vai ajudar a gente, não vai? – falou Ann.
– Claro que vou. Vou ensiná-las como eu me organizo para começar um projeto. Talvez seja este o ponto que me faz
diminuir o tempo pela metade. – sorri. Estava disposta a ajudá-las.
Paige passou voando por nós batendo o pé sem falar com ninguém. Se ela não queria minha ajuda eu só tinha que agradecê-
la. Não queria ajudar a uma pessoa tão fria e mal-educada como esta mulher. Quando vi que ela ainda andava a nossa frente
tentando escutar nossa conversa, aproveitei para jogar meu veneninho.
– Podemos começar agora, meninas? Estou mais que disposta a ajudá-las. Quero mostrar tudo que eu faço. – falei animada.
Elas sorriram e saímos rumo à minha baia.
Paige olhou para trás irritada e antes de ir para sua aba que ficava mais à frente escutei-a balbuciar “essa guerra só está
começando”.
Capítulo 11 – Brigas.

Ensinei todo o meu passo-a-passo a Ann e Danna como Richard pediu. Elas me mostraram a forma que faziam para começar
e terminar um projeto. Era totalmente diferente de mim e optaram por praticarem da minha maneira. Queriam muito subir de
cargo e me agradeceram por eu ser tão boa colega. Sem pressão e sem competitividade.
– Eu acredito que a melhor forma de competitividade é cada um trabalhar da melhor maneira possível mostrando seu
potencial sem passar por cima de outros. Quem ganha com isso é a empresa e ninguém perde a amizade. – pisquei para as
duas.
Era em que eu acreditava e todo o meu potencial apresentado por Richard foi por mero trabalho e esforço. Não precisei
pisar nem humilhar ninguém para alcançar o resultado que ele mostrou. Fiquei surpreendida até com o meu desempenho. Não
sabia que meu tempo era tão curto em relação às outras meninas e isso me motivou mais. Estava no caminho certo.
– Momento para café? – convidou-me Ronald. – Uma pausa rápida para eu conhecer o novo talento do Marketing Jr.. –
sorriu levemente.
– Vamos lá. – Saímos em direção ao elevador. – Você também se mostrou um grande talento, não se faça de humilde, senhor
Ronald. – zombei.
– Pode ser, mas ninguém esperava aqueles resultados para alguém que está aqui em poucos meses. E ainda tem essa
reviravolta... Novo setor... Novos funcionários... Novo chefe. Meio assustador isso, não acha?
– Sim. De fato bastante assustador.
(...)
– Todos desceram para a cantina no mesmo horário que nós? – olhei em volta procurando lugar para sentar. – Vamos
comprar nosso café e procuramos depois uma mesa, quem sabe alguém não cede quando nos vir com copos de chá quente nas
mãos.
Pedi um café e rosquinhas de chocolate e Ronald um chá com croissant.
Encontramos uma mesa próxima à entrada da cantina e sentamos. Ele me olhava com atenção e me perguntei se ele estava
para me dar uma cantada.
– Nunca tive a oportunidade de perguntar muito sobre você. Queria saber mais sobre onde você nasceu e sua cultura. É
interessante tê-la aqui. Você é a única brasileira que conheço, sabia? – começou uma agradável conversa.
Passar o tempo com Ronald era bom. Eu contei sobre minha infância e adolescência e a vida no Brasil até me formar,
deixando Alexandre, Luís e todas as coisas ruins de fora. Ninguém precisava conhecer este lado e eu não queria trazer isso
para tão longe. Deixei tudo de ruim para trás e isso bastava.
Ronald escutou e quanto mais eu falava, mais interessado ficava.
– É sensacional o carnaval. Aquela mistura de cores, gente bonita como você sambando. Não tem como não se apaixonar
pelas brasileiras. Vocês são tão... Vivas! – falou animado. Eu fiquei envergonhada por ele me chamar de bonita, mas se era ou
não paquera eu preferi ignorar. Aproveitei para convidá-lo a ir à festa em minha casa que ocorreria no fim de semana. Ele
aceitou contente lembrando que precisava de uma festa para esquecer os problemas do cotidiano. Continuamos nosso papo até
voltarmos ao setor e paramos diante de uma Paige muito nervosa. Estava na frente da aba de Ronald com os braços cruzados
espumando de raiva.
– Posso saber onde o senhor estava, senhor Ronald? – perguntou altiva. – O nosso chefe veio até a minha mesa exigindo um
projeto novo e pediu para eu trabalhar contigo e quando chego aqui, simplesmente você desaparece por dez minutos. – elevou
a voz. Fiquei perplexa com a ousadia de Paige. Ela não era chefe para falar daquela maneira.
– Sim. Desapareci por dez minutos que é o tempo para tomar café. – respondeu Ronald com o mesmo tom. – Estava com
Sophia.
Paige jogou a cabeça para o lado, fingindo me notar somente naquele momento e me olhou com o mesmo olhar de sempre,
com desdém.
– Percebi que estava. Por isso, está atrasado. Ela faz isso com as pessoas, atrasa a vida.
– Hey! Vai com calma, Paige.- me defendi. – Não existe motivo algum para seu showzinho. Ele foi tomar café na hora certa
e voltou na hora certa. Se você não consegue iniciar um projeto sozinha, deve pedir demissão. – provoquei.
– Quem você pensa que é, senhorita Moody, para me dizer o que fazer ou não? Eu tenho mais tempo de casa que você. Não
tente ensinar padre velho a rezar. – riu sem vontade. – Só pode ser brincadeira.
– Você tem razão. Ela não é ninguém para te dizer o que você deve fazer. – respondeu Ronald. Olhei para ele assustada
porque o vigarista estava defendendo a vaca. – Assim como você também não é ninguém para me dizer aonde vou, a que horas
eu vou ou com quem eu vou. Todos aqui – disse apontando para nós três. – temos o mesmo cargo e você não é minha superior.
Então, pare com isso e me mostre logo o maldito projeto.
Paige e eu ficamos olhando para ele. Ele estava calmo, mas suas palavras saíram como navalhas que me assustaram. Ele
parecia frio e distante. Caminhou até Paige e ela gaguejou dizendo que ia buscar o projeto. Quando virava para ir à minha
mesa, espiei e o vi segurando o braço dela com força falando algo em seu ouvido. Paige arregalou os olhos e não disse nada
se afastando a passos rápidos para sua aba.
Ele olhou para trás e soltou um sorriso para mim. Um sorriso sinistro que de belo não tinha nada. Virei e fui para a minha
mesa.
Senti meu corpo tremer e meu coração acelerar. Eu estava com medo de Ronald.
(...)
Não sei o fim que deu o projeto de Paige e Ronald. Depois da discussão, pensei melhor e compreendi que ele havia me
protegido através de suas palavras contra a megera. Senti uma afeição por ele que substituiu o medo oriundo daquela sua
atitude.
Procurei colocar a minha mente na promoção que estava sendo apresentada diante de mim e de meus colegas e desprezei
qualquer outro assunto que me distraísse. Trabalhei intensamente nos novos projetos designados a mim e, acreditem, foram
muitos. Queria ser promovida como todos os outros e sabia que fazer as coisas muito rápidas poderia prejudicar na qualidade,
então optei por me concentrar mais. E isso me deu a vantagem de diminuir o tempo em mais alguns minutos.
Agora era torcer para que minha pontuação melhorasse e me colocasse entre os três selecionados.
Capítulo 12 - Mulher difícil.

Aquela cena de um estranho Ronald segurando o braço de Paige não saía de minha cabeça e o evitei a todo custo durante a
semana. Ele chegava de surpresa para dar bom dia e se despedir todos os dias, TODOS os dias. Eu, é claro, retornava seus
cumprimentos educadamente. Ele tinha voltado a ser doce, mas a forma como segurara o braço de Paige ainda me assustava.
Ela também pediu por isso. Uma coisa era gritar com uma mulher, outra era com homem.
(...)
Arrumava a mesa para ir embora quando uma voz me assustou.
– Você ainda está aí? – perguntou Ann. – Nós já vamos. Amanhã passamos lá na sua casa.
– Estão animadas, hein? – perguntei mandando o susto para longe. – Não quero nem saber o motivo. – ri.
– É o John. Nosso pequeno John. – comentou Danna, sorrindo. Ela estava cada vez mais eufórica com a data. Quem a visse,
não a reconheceria. Seus olhos brilhavam de tanta excitação. Neste momento, Paige passou dando tchau a Danna e olhando
para mim com receio. Eu não aguentei e fui atrás dela.
As meninas me olharam curiosas e eu dei um breve tchau dizendo que explicaria depois.
Paige entrava no elevador quando corri com minha bolsa tentando alcançá-la. Entrei e esperei a porta se fechar. Mais
funcionários se despediam de um dia trabalho, felizes por ser sexta.
Sexta-feira é igual para todo o mundo. Aqui ou na Cochinchina. – pensei.
Não olhei ou falei com Paige até ela sair no andar do estacionamento. Eu saí acompanhando.
– Você está me seguindo? – parou de andar colocando as mãos na cintura. Era a marca registrada de Paige. Estava na
defensiva, como sempre. – Porque até onde eu sei você não tem carro. Ah! Já sei, você quer carona? – perguntou ironicamente.
– Paige, eu não deveria nem falar com você, mas essa semana... Você sabe... O Ronald... – fiz cara de preocupação.
– O que tem seu namoradinho? – se irritou.
– Ele não é meu namorado. – falei extasiada. – E sabe que... Fiquei preocupada contigo, mas vi que você é uma pessoa
difícil, esquece. – explodi dando a volta para retornar ao elevador. O som de nossas vozes ecoava no estacionamento entre o
mar de carros. Algumas pessoas que passavam, olhavam-nos desconfiadas esperando uma discussão ou um combate corpo a
corpo.
– Não me chame de difícil sua... Sua... – veio em minha direção apontando o dedo com lágrimas nos olhos. – Ele te
defendeu e depois me ameaçou. Não duvido que você esteja usando Ronald como a todos os outros machos daquele setor. Ele
nunca, NUNCA falou comigo daquele jeito. Depois que você chegou à Artvt minhas amizades, meus trabalhos... Tudo foi por
água abaixo. – chorava copiosamente e mesmo gritando, só senti lástima.
– NÃO me olhe assim! Não preciso de sua pena. – gritou.
Não consegui distinguir o porquê de tanta raiva de mim.
– Paige... – falei suavemente. – Eu não queria estragar com sua vida. Nem sei como eu fiz isso contigo. Nunca te desejei mal
e sempre busquei uma boa relação, mas você se fechou. De qualquer forma, amanhã farei uma pequena festa em minha casa e
eu gostaria que você... Não sei... Quero que você me conheça como eu sou. Que tal?
Ela me encarou sem acreditar em meu pedido. Nem eu estava acreditando.
Eu devo estar maluca mesmo!
Ela parou de chorar. Sua cara estava borrada de rímel e seus olhos vermelhos.
– Fuck you, Sophia! – saiu sem olhar para trás.
Fui embora com a sensação de dever cumprido.
Fuck you! Tentei ser legal pela última vez! Agora, nunca mais!
(...)
O clima estava ameno. A temperatura nesta época do ano oscilava entre 12 e 22 graus e de dia, fazia um sol tão gostoso que
era triste saber que passaria essa estação dentro de um escritório.
Cheguei em casa cansada e não via a hora de me deitar. Mia não estava e alguém tocou a campainha. Atendi a porta, só
poderia ser uma pessoa.
– Só você mesmo para saber a hora que eu chego a casa, John. – falei abrindo a porta.
– Boa noite para você também, Sophia. – Estava vestido com um sobretudo preto e seu cabelo com gel mostrava que sua
saída noturna pedia um lugar elegante. – Eu vim aqui para dizer que recebi a mensagem na secretária eletrônica. – sorriu.
Amanhã, venho para sua festa.
– Está bem, mas você podia ter só ligado e deixado a mensagem em minha secretária, John. – olhei erguendo uma
sobrancelha.
– Eu sei. – seus lábios desenharam o sorriso mais maroto do dia. – Mas, qual seria a graça desta sexta, sem te dizer boa
noite? – ele sorriu maliciosamente
– Você não vale nada. – ri.
– Estou meio atrasado agora... – olhou o relógio. – Te vejo amanhã. – saiu dando-me um beijo na bochecha.
– Até amanhã, então. – sorri acenando para ele que correu para o elevador. - Nossa! Danna vai morrer quando vê-lo. É
muito homem em um homem só.
Capítulo 13 – Festa.

Preparei a roupa mais fofa que encontrei para vestir. Como era só algo entre amigos, preferi colocar um vestido rosado até
os joelhos de costura reta e uma sapatilha pink. O conjunto era simples e confortável.
As meninas já agitavam a festa dançando na sala. Ann e Mia se esbaldavam com a cerveja e Danna conversava comigo
enquanto bebíamos vinho.
– Quero saber para quem vocês estão dançando deste jeito? Aqui não tem homem algum para se mostrarem – gritava Danna
para as duas e elas rebolavam mais para provocá-la. – Vocês só podem ser lésbicas!
Eu ria da palhaçada das meninas quando a campainha tocou.
– Espere aqui. Pode deixar pessoal, eu abro. – gritei para ninguém. Elas estavam muito entretidas com o baile. – É o John,
Danna. Prepare-se! – pisquei para ela enquanto caminhava até a porta. Ela ajeitou seus cabelos curtos lisos escuros e sorriu
timidamente.
– John! Que bom que você cheg...
– Não sei quem é esse, mas me diga, por favor, que não é o seu namorado. – sorriu Ronald na porta. – Não vai dar um
abraço em mim? Que recepção, Sophia. – brincou.
Acordei da surpresa dando-lhe um beijo rápido na face.
– Desculpe. Não sabia que você vinha.
– Você me convidou, lembra? Se quiser que eu vá...
– Que isso, Ronald. Você é meu amigo. Entre. As meninas estão fazendo uma bagunça lá dentro. – sorri deixando passar o
sentimento incômodo. Era apenas o Ronald, o que me defendeu. Um bom amigo.
Ronald passou e Ann e Mia puxaram-no para seu baile e ele foi feliz. Duas lindas morenas convidando-o para dançar era
um presente dos céus. Quem negaria?
– Alarme falso – falei para Danna.
– Olhando para ele, nem parece o mesmo da empresa. – comentou Danna. – Todos dizem que ele está gamado em você.
– Ele é um grande colega de trabalho, mas eu preciso te contar algo. – Olhei para Danna e narrei todo o sucedido desde a
discussão no corredor do setor, como ele pareceu irritado com Paige e minha ida ao estacionamento. – Fiquei assustada com
ele e com pena do choro de Paige. – concluí.
– Eu não teria tanta pena dela, Sophia. – me aconselhou. – Ela é invejosa e sempre teve aquele jeito chocante. Agora que
chegou uma funcionária para tirar o seu reinado ela está pior. Eu te peço desculpas por não me aproximar de você no início.
Ela mesma inventava coisas sobre você e quando demos conta que não passava de pura insegurança, ignoramos suas mentiras
e nos acercamos. – falou envergonhada. Eu já sabia e não me ofendi com sua revelação.
– Eu não quero tirar o lugar de ninguém, Danna. Eu só quero fazer bem o meu trabalho. Nós passamos mais tempo com
nossos colegas no trabalho do que com nossas famílias. O que nos converte consequentemente em uma nova família. Por isso,
é essencial a boa convivência e ela não entende isso. – Expliquei meu ponto de vista e Danna concordou opinando um pouco.
Não havíamos escutado a campainha quando Mia apareceu do nosso lado com John. Sua roupa informal deixava-o jovial e
Danna sorria sem parar. Estava encantada. Apresentei-o a todos e Ronald foi bastante agradável fazendo piadas sobre a
comida gordurosa e as mulheres supermodelos da festa.
Deixei Danna conversando com ele e fui para a cozinha fritar mais algumas coxinhas que havia preparado pela manhã após
comprar os ingredientes. Mia, como sempre, não me ajudou em nada.
– Você é uma preguiçosa! – xinguei-a enquanto colocava o recheio dentro da massa.
– Você sabe... Cozinha não é proporcional à Mia Klein.
– Sei...
Preguiçosa!
– Você quer ajuda? – perguntou Ronald parando na porta da cozinha.
– Não precisa. Obrigada por se oferecer. – Sorri agradecida.
– Obrigado pelo convite. Sua amiga Mia é bem animada.
– Ela é sim. – senti Ronald se aproximando por trás e fiquei tensa. A cozinha era estreita e eu não gostei de sua atitude.
Virei para despachá-lo, mas Ronald estava abrindo a geladeira.
– Água? – perguntou-me com um sorriso enigmático. Fiquei um pouco contrariada e duvidei se sua intenção era mesmo a
geladeira ou tentar tirar um “fino” de mim.
– Sophie, estava te procurando. – apareceu John.
– Oi. Estou fritando essas coxinhas e já termino. – ergui a escumadeira para ele.
– Eu ofereci ajuda, mas Sophia é teimosa. – falou Ronald.
– Sophie, teimosa? Ela é teimosa, nervosa, ansiosa. Posso enumerar várias características. – sorriu para mim.
– Você a conhece tão bem assim? – o tom de voz de Ronald saiu duvidoso e enciumado.
– Claro! Ela é minha vizinha desde que veio para Londres. É a minha little crazy. – respondeu John como se fosse tão
óbvio.
– Entendi. – falou aborrecido. – Ela nunca falou de você. Sophia, voltarei para a sala e esperarei pelo prato brasileiro. –
soltou um sorriso forçado.
John se adentrou mais na cozinha e roubou uma das coxinhas para provar.
– Que delícia! – falou com a boca cheia chupando os dedos.
– Obrigada. É um dos salgados preferidos dos brasileiros. – comentei comendo uma também.
– Este Ronald é meio estranho. Acho que ele gosta de você ou ele não gostou de mim.
– Ele é assim mesmo, mas não se preocupe. É inofensivo. – brinquei.
Voltamos para sala e John me ajudou com as garrafas de cerveja, vinho e refrigerante.
Sentamos à mesa para jogar um pouco de cartas.
– Você disse que não precisava de ajuda. – soltou Ronald dando um gole em sua cerveja. Estava de cara fechada porque
John me ajudou?
– Quando você perguntou, ela não precisava. – enfrentou John com um gélido sorriso. Ele era homem e advogado,
intimidação não funcionaria com ele.
– Meninos, meninos, se o problema é ajudar... Venha aqui Ronald. – gritou Mia. – Vamos dançar, preciso suar para tirar o
álcool do meu sangue. Ronald levantou-se encarando John e depois a mim. Parecia tentar desvendar a nossa relação. Danna e
Ann sentiram o clima e olharam com medo, eu fiz cara de poucos amigos ao dirigir meu olhar para Ronald.
Levantei-me levando a travessa de coxinhas vazia para a cozinha. Ann veio me ajudar a lavar a louça e Danna ficou
conversando com John na mesa.
– Ronald está com ciúmes de você e John.
– Não ligo para ele e não ligo para John. Parecem dois galos brigando e eu não sou prêmio de ninguém. – falei irritada com
o excesso de hormônio masculino.
– John não é problema, você sabe. Ele é seu amigo, mas deu para ver que ele enfrentaria Ronald se continuasse com seu
momento “namorado ciumento“. Ele estava só se defendendo. – concluiu Ann.
Olhei cansada para Ann.
– Eu sei. Você tem razão. Quem está passando dos limites é o Ronald. Não sou nada dele.
– Sophia. – era John infiltrando-se na cozinha novamente. Ann inventou uma desculpa e se foi deixando-me sozinha com ele.
– E agora? O que ele fez? – perguntei sentindo-me exausta.
– Ele? Quem? – perguntou sem entender. – Ronald? Ele não fez nada... Ainda. O problema é a sua amiga chinesa.
– Ela é japonesa, John.
– Isso... Eu não sei a diferença, mas Sophia, socorro! Estou com medo dela. Acho que serei estuprado a qualquer momento.
Soltei uma gargalhada diante do terror em seus olhos e este foi o motivo para Danna aparecer. Ela estava na cola mesmo.
– Oi, todo mundo. O que é tão engraçado? – perguntou com um sorriso irradiante.
– Não foi nada. John contou uma piada. – menti.
– Sabe como é... Sophia ri de tudo. – disfarçou John abrindo as portas dos armários da cozinha como se procurasse algo.
– Piada? Adoro piadas. Conta-me.
Olhei para John e ele fingiu não escutá-la absorto em sua procura por nada. Ele não queria papo. Tadinha. Ela estava
absorvendo-o demais.
– Daaaanna, corre aqui! – gritou Ann. – Olha o Ronald descendo até o chão. Danna sorriu e saiu para a festa que rolava na
sala.
– Salvo por Ann. – falou John aliviado.
A festa correu bem e Ronald ficou mais na dele parando de ser um completo idiota. Divertimo-nos demais e até dancei com
ele uma das canções animadas que Mia colocou. Depois foi a vez de Danna tirar John para dançar. Ela encostava seu corpo no
dele e ele inventava uns passos para se afastar. Olhava para mim implorando para tirá-lo dali. Era engraçado assistir aquela
dança de gato e rato. Deixei-o sofrendo, precisava de uma diversão mesmo que fosse às suas custas. Percebendo isso, John me
mandava aquele olhar “você me paga”.
Ri e olhei para Ronald encostado na parede do lado oposto de onde eu estava. Sorri para ele e ele veio até mim.
– Está na hora de eu ir. – falou preguiçosamente.
– Você quem sabe. Quer levar coxinha para casa?
– Não precisa. Diverti-me muito e desculpe qualquer coisa.
– Imagina, Ronald. Vejo-o segunda. – apesar de todos os probleminhas que Ronald quis criar, passamos um momento bom,
então deixei de lado as picuinhas.
Despedimo-nos e meia hora depois Ann e Danna também se foram. Danna abraçou John, passando o seu número de celular.
Ele educadamente aceitou o papel, mas eu sabia que ela não receberia nenhuma ligação.
John aproveitou a deixa e voltou para seu apartamento dando-me um abraço.
– Você vai pagar caro, minha amiga. – sussurrou rindo antes de fechar sua porta.
Mia estava acabada no sofá e dormiu em cinco minutos após beber até morrer. Ela foi a alegria da festa.
Mia mais bebidas, união perfeita!
A cobri com cobertor deixando-a confortável e eu fui dormir feliz por ter saído tudo bem.
Capítulo 14 – Resultado.

– Terminaram as etapas das avaliações. As entrevistas de hoje eram a última parte do processo. Mês que vem, haverá uma
reunião com os sócios-diretores de cada departamento com os três selecionados. Não será uma entrevista e sim uma
apresentação do novo setor e seu dirigente. – explicava Richard a todos nós na sala de reuniões. – Hoje, no período da tarde
anunciarei quais foram os escolhidos. Por ora, estão dispensados.
Levantamos ansiosos pela notícia e saímos em silêncio. Puxei Danna pelo braço.
– Vamos à cantina. Estou super nervosa. – cochichei.
Seguimos para o “point” da empresa que mais parecia a uma praça de alimentação de um shopping. Sempre observávamos
os pedações de homens que tomavam regularmente seus chás. Era cada um mais lindo que o outro, mas tão ocupados com suas
atividades que eram raras às vezes que saía uma paquera neste curto horário de café.
Nosso assunto central foi Paige e sua agressiva forma competitiva de lidar todo este tempo com as avaliações. Pelo menos,
no processo todo, ela não fez nada contra mim. Nada que eu ficasse sabendo. Rimos e elogiamos alguns outros executivos da
cantina e neste bate-papo, ficamos mais leves e menos despreocupadas com o resultado que seria dado. Era só aguardar.
Na empresa todos comentavam sobre o sucesso da minha festa e perguntavam quando eu faria a próxima. Os boatos
correram rapidamente pelos corredores da Artvt. Isso era a cara de Ann. Ela mantinha contato com a maioria das pessoas que
vieram conversar comigo. Por onde eu andava alguém se convidava. E Paige odiou, obviamente.
– Sua festa foi um sucesso. – comentou Paige com seu rosto fechado. Comecei a pensar que já era sua fisionomia normal e
não um processo de sentimentos demonstrados através do rosto.
Quem sabe uma plástica não melhoraria a sua cara de bunda.
– Você foi convidada, não pode se arrepender. – falei tentando parecer amiga. Amiga da onça.
– Não me arrependi, só estou comentando. – saiu com o seu café. Definitivamente, ela não mudaria.
– Ronald adorou. – joguei a isca antes que ela fechasse a porta da salinha.
Ela virou para mim fuzilando-me. – Eu não sabia que ele ia. Parece que se divertiram bastante.
– Bastante, Paige. Minha amiga Mia dançou todo o tempo com ele. Ele foi o rei da festa. – provoquei fazendo cara de
paisagem. – Mas, como eu disse, você foi convidada. – e saí rindo por dentro. Descobri o seu problema comigo. Ela era
apaixonada por Ronald.
Bingo!
– O que você fez com Paige? – perguntou-me baixinho Ann em minha aba alguns minutos depois.
– Eu? Nada. – respondi inocentemente.
– Ela está cuspindo fogo com todos desde que voltou da salinha de café e eu te vi lá com ela, dona Sophia.
Ri e lhe contei tudo.
– Você é louca. – riu e saiu voltando aos projetos e eu ao meu novo anúncio. Era uma proposta para uma concessionária de
carros e precisava de novas ideias. Ideias criativas.
– Senhorita, Sophia, você tem um minuto? – era Richard.
– Claro.
– Vamos tomar um chá na cantina, então. – Eu não era fã de chá, mas o propósito certamente não era discutir os meus gostos.
Mais uma vez cantina? Hoje, eu não durmo com tanta cafeína em meu organismo.
Sempre me vigiando, Paige me viu saindo com o chefe e cruzou os braços. Ignorei aquele sinal e me preparei mentalmente
para a sua próxima provocação quando voltasse.
A fila para comprar o chá de Richard, os bolinhos, os biscoitos e todas as tentações que acompanham um pequeno copo de
café, estava imensa. Os diversos funcionários da Artvt não poupavam quando se tratava de comida. Richard me olhava de vez
em quando, mas não falava nada. Dei-lhe espaço para o que quer que fosse conversar comigo. Apenas esperaria ele falar e
pronto.
Nos sentamos em uma das mesas.
– Prometo não perguntar nada sobre o Marketing Sênior. – falei beijando um dedo como sinal de juramento. Richard
balançou a cabeça achando graça.
– Que bom! Porque não estou autorizado a divulgar qualquer coisa. – sorriu. – Sophia, com você não preciso ser tão
“chefe” até porque te conheci antes de tudo isto. – girou os dedos apontando para a área em geral. – Então, entre nós, deixarei
as formalidades.
Assenti curiosa. – Richard, eu sei como te tratar diante dos outros. Conheço as regras e as hierarquias. Não se preocupe. –
falei sincera. – Amigo de Mia, meu amigo será! E antes de você ser meu chefe... Você é... Apenas Richard.
– Fico grato por saber disso. Falando sobre Mia... Foi por isso que te chamei. – coçou sua cabeça pensando nas palavras. –
Quero, gostaria que me falasse mais sobre ela. – sorriu sem graça.
– Você me chamou até aqui para eu te fornecer informações sobre minha amiga? – perguntei descrente em ver aquele homem
cheio de pompa parecer um gatinho recuado.
– Sim.
– Para que você possa ter armas imprescindíveis para conquistá-la?
– Sim. – sorriu. – Você é esperta, senhorita Moody.
– E logo em seguida quebrar o coração dela?
– Sim. Quero dizer não. – levantou as mãos negando. – Jamais! Estou interessado... Muito mesmo. Mas, ela é uma mulher
infernal de tão imprevisível. Não sei como derrubar aquela fortaleza.
– Richard. Eu adoro você, de verdade.
– Mas?
– Mas, não quero ser responsável por uma possível desilusão amorosa. Ela é a minha melhor amiga e você o meu
“chefemigo” se é que existe isto. Enfim... Quer conquistar Mia? Corra atrás sozinho e ganhe o crédito total por seu esforço. –
finalizei sorrindo para ele.
Não conte comigo, senhor galinha!
Ele ficou me olhando cético. Se ele pensava que só porque era meu chefe eu ia ajudá-lo a conquistá-la mesmo sabendo de
sua fama, estava redondamente enganado. Já bastava a merda de vida amorosa que eu enfrentei. Não queria isso para Mia. Mia
vinha em primeiro, antes mesmo de o meu emprego estar em jogo por tal recusa.
Ele levantou da mesa e com o semblante misterioso disse:
– Você tem razão. Ganharei o crédito sozinho. Obrigado por sua ajuda. – ironizou. – Ah! E boa sorte com as avaliações. –
disse soltando o sorriso mais cínico à la Richard.
Filho de uma bela puta!
Alarguei o meu sorriso imitando-o.
– De nada, Richard. Como pode ver, estarei sempre à disposição. – debochei levantando o meu copo de café em forma de
brinde. Richard saiu resmungando e rindo de minha petulância.
Continuei mais alguns minutos na cantina pensando em como a minha bunda estava por um fio por causa de Mia e sua
aventura.
Estou fodida! Mas, sobreviverei!
Caminhava para a minha aba, ao subir para o setor, quando escutei Paige conversando com Danna.
– Você é cega? Inocente? Ela está te usando, como a todos aqui. Só eu que percebi isso? – falava levemente irritada.
– Você que está paranoica, Paige. Relaxa um pouco. – falou Danna com aquele jeitinho meigo. – Parece até que você está
com medo de perder a vaga.
Continuei encostada do lado de fora da aba de Danna, fingindo mexer em meu celular para disfarçar, caso alguém
aparecesse por ali.
– Perder a vaga? Desculpe, Danna querida! Não quero te humilhar, mas ninguém aqui é melhor que eu. Nem você.
Ui! Essa doeu!
– Então não tem com o que se preocupar, rainha. – respondeu calmamente. Como ela conseguia manter este equilíbrio
emocional ao escutar a vaca dizer aquilo? – Você mesma afirmou que ninguém é melhor que você. – finalizou com a voz
controlada. Quando pensei que Danna não fosse falar mais nada... – Mas, apesar de tudo os melhores resultados não foram os
seus, de acordo com o nosso chefe.
Vou te dar um beijo e um mês de café nesta cantina, Danna!
– Ele é louco. Está caindo em seus encantos. Ele deveria deixar de ser chefe por tamanha estupidez.
– Com a experiência dele, eu não acharia isso.
– Esquece, Danna. Não tem como conversar com você.
Saí rapidamente de volta ao meu cafofo, agradecida por Danna me defender e com raiva daquela cobra peçonhenta.
Vadia! Vadia! Vadia! Invejosa!
– Sophia. – Chamou-me Danna quinze minutos depois de sua conversa. Sorri para ela, mesmo sem ela saber como a
apreciava depois do que eu havia escutado.
– Sim, Danna.
– O chefe está chamando a todos para anunciar o resultado, mas ele pediu para avisar que será em uma sala diferente. Ele
fará no 14º andar em uma das salas já preparadas para a reunião que acontecerá brevemente.
Fiquei nervosa e minha ansiedade foi às nuvens. Essa sensação de medo fazia tremer a minha perna e disfarcei ao máximo
quando caminhava até o elevador com meus colegas. Harry sorriu timidamente e ao seu lado Patrick encontrava-se absorto em
algo em seu celular. Ronald, Thomas e Ann não estavam conosco ainda ou já haviam ido para o andar indicado. Paige preferiu
esperar o outro elevador depois que me viu junto ao grupo.
Foda-se, boneca!
O 14º andar era amplo e nele já funcionava algum outro setor, pois de um lado tínhamos diversas mesas distribuídas uma ao
lado da outra com computadores. Rapidamente, pude contar trinta pessoas no mínimo trabalhando concentradamente.
Entretanto, uma equipe especializada trabalhava do lado oposto colocando pontos de energia elétrica na parede, pontos de
internet e telefone. Avistei duas portas e segui meus colegas para uma delas onde havia uma placa que dizia sala de reuniões.
Richard nos aguardava e fiquei surpresa com a elegância da sala. Era tão suntuosa com aquela mesa de madeira escura que
brilhava de tanto ser polida e suas vinte cadeiras acolchoadas em preto. Realmente formava um ambiente singular.
Na parede, o retroprojetor já estava conectado e Richard mexia em um computador preparando-se para começar enquanto
esperava pelos outros.
Tentei não olhar para ele com o temor de ver qualquer sinal de aborrecimento e fiz a minha melhor cara de paisagem.
Paige chegou grudada em Ronald e ergueu o nariz como se o chefe acabasse de entrar. Revirei os olhos e Ann que vinha
logo atrás riu de minha expressão. Essa mulher era extremamente problemática.
– Chegamos ao ponto final desta pequena trajetória. – começou Richard. – Analisando os resultados de cada membro desta
equipe, comprovei como o anúncio de uma promoção faz milagre.
Rimos de sua frase. Richard sempre tentava deixar seus empregados relaxados e não seria diferente agora.
– Não é preciso ser um gênio nem possuir um dom especial para alcançar esses números que mostro no slide. – apontou
com o laser para o gráfico que mostrava uma linha azul crescente. – Atender a um pedido, realizar um projeto e entregá-lo no
prazo com a satisfação do cliente foi o propósito principal desta corrida traçada por cada um. E todos, sem exceção,
conseguiram isso.
Aplaudimos felizes por sabermos que uma parcela de nosso esforço havia dado certo.
– Eu que devo aplaudir. – sorriu a todos. – Porém, infelizmente, terei que perder três pessoas da minha equipe. A empresa
continuará ganhando, claro, mas não mentirei, o meu setor sentirá e este número se reduzirá se eu não treinar pessoas
competentes para substituí-los. Mas isso, será um problema só meu, não se preocupem.
– Tenho certeza que o senhor fará o melhor por você e pela Artvt. – falou Paige. Como conseguia ser tão hipócrita?
– Obrigado, senhorita Paige. Tentarei pelo menos.
Todos estavam concentrados em Richard e seu discurso. Ele apresentou outros gráficos que demonstravam uma melhora
relevante neste curto espaço de tempo e poupou-nos com gráficos individuais.
– Não é necessário que eu mostre a execução de cada um. – por sua linguagem corporal Richard mostrava que o momento
havia chegado. Estava me sentindo como no programa Miss Universo, só que como uma das concorrentes. Minha mão
começou a suar e eu a escondi por debaixo da mesa. Eu era boa em disfarçar minhas emoções em momentos tensos como este,
mas meu corpo não ajudava muito. Era uma suadeira danada! – Eu passei muito tempo analisando toda a conjectura. E foi
muito difícil ter que dar adeus a três de vocês. – sorriu para seus funcionários com orgulho e senti um pinguinho de remorso
por não querer ajudá-lo com Mia.
– Antes de qualquer coisa, senhor Veneta. – Paige falou. – Em nome de toda a equipe, queremos parabenizá-lo pelo
excelente chefe que você é. Estamos orgulhosos de tê-lo como nosso superior e eu só posso dizer que saberá escolher quem
será promovido. – seu sorriso era tão sincero. Quem pensaria que minutos atrás ela estava dizendo que ele era estúpido.
Falsa!
– Senhor, Veneta – era a minha vez. – Paige tomou à frente falando em nome da equipe, mas como eu sou mais nova na Artvt
e o nome equipe está mais vinculado aos antigos colaboradores, quero deixar aqui o que eu penso.
Paige olhou com raiva e suavizou a expressão quando percebeu que ali ela não podia mostrar-se como realmente era.
– Quero dar os parabéns a todos que estão aqui sentados à mesa. Aprendi muito com meus novos colegas, aprendi com o
senhor. – apontei meu dedo na direção de Richard. – E aprendi como me adaptar a outra cultura. Se não fosse pelo
acolhimento da maioria, eu estaria retornando ao Brasil. Independente do resultado, eu quero manter a boa relação com vocês
e dizer que estou feliz por fazer parte desta família. Olhei para cada um, exceto Paige. Ela não estava na minha lista de
pessoas “acolhedoras”.
Meus outros companheiros também se pronunciaram satisfeitos com a gestão de Richard. Ann e Danna me elogiaram
bastante e me senti contente pela verdadeira amizade que construí. Os homens do setor deram sua opinião, mas um em especial
me surpreendeu.
– Não combinamos com a senhorita Paige sobre ela falar em nome do setor, por isso todos estão se manifestando. – olhou
Harry seriamente para Paige e depois para Richard. – Estou realizado profissionalmente na Artvt e sou o mais velho aqui na
casa. Parabéns senhor Veneta por todos estes anos. Amigo e chefe. Isso basta.
Richard sorriu diante da bomba que aquele funcionário tão calado soltou. Eu adorei e não resisti. Sorri para Harry,
satisfeita com suas palavras. Afinal seria louco quem falasse mal de Richard. Não por ele ser o chefe e sim por ele ser um
ótimo chefe.
Depois que todos terminaram seus elogios, Richard preparou-se para apresentar os três funcionários.
– Obrigado a todos por seus elogios. Eu me esforço, assim como vocês, para fazer um bom trabalho. – estava contente em
escutar o feedback de nós. – O primeiro funcionário que pensei ser essencial no setor Marketing Sênior, necessitava estar
trabalhando aqui. E dentre todos que avaliei utilizando como ponto principal conhecimento da área foi o senhor Ronald.
Parabéns, Ronald!
Todos aplaudiram e apertaram sua mão dando palavras de sucesso e êxito.
– Você merece Ronald. – falei sinceramente. Ele sorriu, devolvendo meu aperto de mão demoradamente.
Afff... Nem tanto, amigo!
– Harry, você foi excelente todo este tempo e por ser o funcionário mais antigo não posso perdê-lo. Preciso de alguém com
confiança para ensinar os novos aprendizes. Por isso, estou te promovendo dentro do meu setor. Parabéns!
Fiquei de boca aberta. Richard era justo. Harry sorriu e agradeceu a todos dando um mini discurso de como seria melhor
ainda como “professor”. Olhei para Paige e a vi revirando os olhos, cansada de tudo aquilo. Ela não ligava para ninguém.
Olhava só para o seu próprio umbigo.
– Ao pensar no segundo funcionário escolhido analisei da seguinte forma “vamos deixar o setor meio a meio”. Então, pensei
dentre as mulheres quem seria a pessoa ideal para subir para o novo setor.
Olhei para Paige, Ann e Danna. Minhas amigas estavam esperançosas e cruzavam seus olhares comigo. Tentei passar
confiança e dizer que tudo daria certo. Porém ao olhar Paige, senti vontade de vomitar. Ela me encarava com altivez. Seu
semblante dizia que era uma caçadora pronta para derrubar quem passasse na sua frente.
Essa mulher tem problema! Louca!
– Parabéns, Paige! - falou Richard.
O quê? Não acredito!
Ela sorriu para mim triunfante.
– Sábia decisão, senhor Veneta. Sábia decisão! – falava presunçosa. - Não vou desapontá-lo.
– Não é a mim que você deverá ou não desapontar. Afinal de contas, não serei mais seu chefe. – respondeu Richard
tranquilamente. Pelo pouco que o conhecia, pude notar certo alívio por parte dele ao anunciar a promoção da megera e
acreditei que ele estava querendo despachá-la de lá.
Os olhos de Ann e Danna já não brilhavam mais e procurei acalmá-las apenas fazendo a mesma coisa que elas, evitar
transparecer a tristeza em minha expressão. Elas ainda tinham chance. Faltava uma vaga, mas eu ao contrário, depois de minha
negação na cantina, era óbvio que Richard me manteria com ele. Eu era amiga de sua aventura sexual e ainda disse um não
bem bonito quando me pediu ajuda. Era o momento dele se vingar.
– O terceiro funcionário foi mais difícil de escolher. Todos aqui são competentes e escolher entre vocês foi a tarefa que me
exigiu sangue frio. Somos um grupo, somos uma equipe. Mas o novo setor precisa continuar no mesmo ritmo que o da matriz.
São clientes importantes e o mercado são as empresas de grande porte. Por isso, pensando neste ritmo e analisando os pontos
de qualidade e tempo, resolvi dar uma oportunidade a senhorita Sophia para fazer caminhar o novo setor. Parabéns, senhorita
Moody! Estou te promovendo.
Pulei da cadeira. Ele falara o meu nome?
Ann e Danna sorriam para mim e só aí tive a certeza que estava dentro. Meus colegas se levantaram de suas cadeiras e me
cumprimentaram. Busquei por Paige. Ela estava furiosa, mas controlada. Não podia demonstrar o quanto era uma vaca e eu me
senti a poderosa. Afinal, a cadela pensou que eu estava descartada.
Toma! Peçonhenta!
– Todos estão dispensados e mais uma vez, obrigado. – finalizou Richard.
Meus colegas saíam da sala cumprimentando ao chefe na porta. Paige passou por ele e sorriu sem vontade. Como Ronald
ainda estava lá, mantive a minha postura profissional ao conversar brevemente com Richard.
– Senhor Veneta, estou profundamente agradecida por depositar em mim a sua confiança mesmo com o pouco tempo de
casa. – sorri.
– Eu sei que você é capaz de muitas coisas, inclusive de ir contra qualquer coisa que você não acredita ser correto. – seus
olhos e suas palavras diziam que eu estava perdoada. Ele se demonstrou justo e não um vingador. Richard era digno de uma
chance. Sem mais, saí da sala na certeza que este cara merecia uma ajudinha minha.
Capítulo 15 – A Reunião.

A ansiedade do primeiro dia de trabalho no novo setor me deixou mais aflita ainda. Ser promovida em tão pouco tempo
trazia junto a responsabilidade de ser mais eficiente. A noite anterior à reunião foi o meu tormento. Não consegui dormir
pensando em tudo que poderia dar errado. Novo ambiente, colegas problemáticos, enfim mais preocupações, mais trabalho.
Naquela manhã, tomei um banho demorado e me maquiei bastante passando base no rosto para disfarçar a noite mal
dormida. As olheiras eram visíveis e eu sabia da importância na aparência, principalmente tratando-se do de uma reunião com
todos os diretores da empresa. Para completar, tomei um comprimido de vitamina esperando que ele me desse disposição
suficiente.
– Pelo menos você já escolheu a sua roupa. – disse Mia da porta. – Eu acordei mais cedo só para dar boa sorte em seu
primeiro dia de trabalho.
Virei para ela feliz por sua atitude. Quando Mia não estava trabalhando, acordar cedo era improvável e vê-la ali com
aquela cara amassada só me fez sentir melhor.
– Obrigada, Mia. Agora está confirmadíssimo: você me adora!
– Já te conquistei só por isso? – disse bocejando. – Que fácil que você é, hein?
– Nem me fale. Sou extremamente sensível a palavras doces. Quem quiser me conquistar é só me paparicar.
– Até se for mulher? – perguntou erguendo a sobrancelha.
– Até parece – ri de sua provocação. – Eu gosto da mesma coisa que você.
– Eu sei. – sorriu preguiçosamente. – Você gosta é de um bom e enorme pedaço de p...
– Pode parar! – cortei-a sorrindo. Mia tinha uma imaginação muito fértil e continuar aquela conversa só me levaria a relatos
de sua vida sexual ativa e os tipos de homens com seus diferentes tamanhos e espessuras.
– Ok. Ok. Vou preparar pelo menos um café já que você está “rebocando” a cara e parece que levará uma eternidade até
acabar. – falou indo em direção da cozinha.
Coloquei a roupa escolhida com cuidado. Um terninho preto – minha opção básica e segura de elegância – uma blusa branca
cheia de babado na gola e um colar com pedras quadradas negras e um sapato alto preto fechado.
– Você está linda, Sophie! – elogiou Mia bebendo sua xícara de café. – Espero que Richard não te pegue de jeito.
– Até parece. Preciso mostrar o meu potencial, nem que seja somente pela roupa.
– Você é boa no que faz e você merece. Sua vida está mudando agora. Eu sabia que você conseguiria. Só bastava o tempo
necessário. Agora... – falou pensativa – só falta um namorado hot para finalizar sua trajetória de sucesso.
– Você só pensa nessas coisas? Pelo amor!
– Não. – negou dramaticamente. – Eu também gosto de chocolate, cinema, shopping e, além de um namorado sexy, uma boa
noite de sexo. Hum!
– Entendi, taradinha. – ela era tão original. – Estou saindo, não quero chegar atrasada. – saí abraçando-a. – Depois você me
conta quem foi o cara que te ligou ontem. Escutei você suspirando no sofá.
– Foi o Richard, Sophie.
– Foi? – era hora de começar a ajudá-lo. – Que bom! Ele é um ótimo chefe. E é bastante gostoso, não acha?
– Nem me fale. Ele é tão... Quase perfeito. E eu não quero me apaixonar, mas está cada vez mais difícil.
– Então, se apaixone. Não é isso que você me fala todos os dias? Viver a vida sem medo? Faça a mesma coisa. Curta o
Richard e veja até onde vai. – sorri.
– Talvez você tenha razão. Marcamos de sair hoje, mas eu tenho um trabalho em uma cidade distante daqui e combinei com
uma amiga de voltarmos juntas. Dividir a gasolina. Se der tempo de eu chegar hoje, eu ligo para ele e marco alguma coisa. –
falou esperançosa. – Agora, caia fora daqui!
– Boa ideia! Estou caindo mesmo. – acenei da porta.
(...)
Estava concentrada na reunião coletiva que faziam. Eram quatro diretores de diferentes áreas da empresa, além de Richard.
Paige e Ronald estavam ao meu lado e ignorei aos dois. Precisava concentrar-me em cada pergunta que eles me faziam.
Perguntavam detalhes sobre meu estudo e tentavam relacionar os pontos chaves dos cursos que eu fiz aos objetivos do novo
departamento – que de novo só tinha a localização.
– Senhorita Moody, entendemos que a indicação do senhor Veneta aqui presente foi de extrema importância. – explicava o
diretor geral da empresa. Era um senhor que aparentava ter sessenta anos, mas apesar de seu cabelo grisalho, sua postura reta
deixava-o atraente.
Se eu tivesse sua idade, você não escaparia, vovô!
– Porém, nosso sócio da matriz irá comandar este novo departamento e quem dará a aprovação final será ele. – Continuou o
senhor.
– Sim. Entendo senhor. – confirmei com um sorriso educado.
– A mesma coisa vale para os dois presentes. – olhou para Paige que estava à minha direita e a Ronald à minha esquerda.
Eu continuei imóvel, não queria distração e preferi continuar como se fossem dois fantasmas, aliás, nem isso, porque se fosse
estaria correndo da sala apavorada.
– De qualquer forma, a conversa dele não fugirá ao que já conversamos aqui. – tentou acalmar-nos, Richard.
– Não tem problema. Terei o maior prazer em responder a qualquer questionamento que for do interesse dele. – sorri
confiante. Era a única coisa que eu podia fazer. Sorrir e aceitar tudo de bom grado. Meus colegas ao lado estavam tensos e,
por incrível que pareça, Paige não abriu a boca nenhum momento, apenas para responder a alguma dúvida dos diretores. –
Estou aqui na empresa preparada para continu...
– Bom dia, senhoras e senhores. Desculpem-me o atraso, mas compromissos anteriores me impossibilitaram de chegar mais
cedo. – entrou pela porta larga daquela sala o rapaz que eu menos esperava.
Theo?
Theo estava com terno preto impecável sobre uma camisa preta e uma gravata dourada que combinava com o brilho de seu
cabelo loiro desarrumado. Ele estava mais lindo que da última vez que o vi. Que homem de terno ficaria feio? Agora imagine
um Apolo dentro de uma roupa daquelas. Totalmente irresistível!
Sua voz máscula, como também, sua presença preencheu a enorme sala. Estava paralisada e meu corpo tremeu. Minhas
mãos, antes acima da mesa, foram parar abaixo e eu segurei o tecido de minha calça com tanta força para espantar aquele
nervosismo que tive certeza que estaria toda enrugada depois. Ronald me olhou de lado reparando na linguagem do meu corpo
e eu resolvi não encará-lo porque ele poderia perguntar o motivo. Mas, não foi tão difícil de notar, pois essa mudança
aconteceu logo quando Theo entrou e ele cravou os olhos naquele loiro alto tentando, com sua mirada observadora, entender
tudo que acontecia comigo.
Ele era tão perfeito que Paige abriu a boca surpresa e encantada com aquele cara. Como podia uma única pessoa lotar um
ambiente? Isso sim era ter “presença de espírito”.
Ainda estava assustada e ofegante – e babando – quando encarei a Richard do outro lado da mesa. Ele parecia se divertir às
minhas custas. Porém, Theo, o mesmo cara que conheci há seis meses naquela casa noturna ainda não tinha me visto. Ele
passava de mesa em mesa apertando a mão de cada sócio. E a cada cumprimento, maior era a minha expectativa. Meu coração
acelerou apavorado com o reconhecimento de Theo.
Quando chegou até o senhor robusto que estava próximo a mim. Sorriu abraçando-o carinhosamente e logo em seguida
arregalou os olhos emudecendo-se.
– Fico feliz em te ver, meu filho. – dizia seu pai. Theo disse algumas palavras para ele sem tirar os olhos de mim. Sua boca
já não sorria. Paige e Ronald olhavam para nós dois sem entender nada. Era melhor assim. Se eles soubessem, estaria perdida.
– Você chegou na hora que eu explicava à senhorita Moody sobre o seu novo departamento.
– Senhorita Moody, bom dia. – saudou de longe forçadamente sem ter certeza se viria até mim para apertar a minha mão.
Apesar de sentir a sua relutância, ele caminhou até onde eu estava e cumprimentou a nós três. Sua mão grande passou aquela
mesma eletricidade que eu havia sentido e desejei tê-la em meu corpo.
Droga de hormônio! Aqui não é hora para isso!
Seu pai, um senhor muito experiente também notou o comportamento de seu filho.
– Vocês já se conhecem? – perguntou curioso. Para piorar todos voltaram à atenção para Theo e para mim esperando a
resposta.
– Mais um escravo sexual. – sussurrou Paige. Ninguém havia escutado.
Vaca!
– Acredito que não. Theo passou tanto tempo viajando até aqui que parece meio desfocado. – brincou Richard salvando-nos
da resposta de Theo. – A não ser que a senhorita Moody já tenha viajado à Itália... – soltou uma provocação.
– Viajando sim, desfocado não, meu caro e inconveniente primo. – respondeu Theo virando seu rosto para Richard e
comunicando-se através do olhar.
Os outros diretores apenas observavam sem muito interesse e eu estava ruborizada o que chamou mais ainda a atenção de
seu pai e de meus desconfiados colegas.
– Prazer em conhecê-la, senhorita Moody. – falou enfatizando o meu nome. – Espero que sua indicação e esforço sejam
confirmados na qualidade e eficiência quando começarmos a trabalhar.
– Tenho certeza que cumprirei minhas responsabilidades contribuindo cada dia mais com a empresa. – sorri
profissionalmente. Precisava mostrar a ele que apesar da surpresa, eu sabia onde eu estava e o porquê de estar.
– É o que eu... Digo, é o que a empresa Artvt espera de seus funcionários. – falou rispidamente desconcertado, mas sem
perder a postura.
Este cara é muito diferente daquele da boate!
– Calma, Theo! Ela trabalhava para mim. Se eu a indiquei e indiquei aos outros aqui é porque são bons. – defendeu Richard
com um sorriso zombeteiro.
Quero morrer! Quero morrer!
Theo, com o semblante fechado, desviou seu olhar para o primo. Havia raiva naqueles olhos azuis. Voltou-se lembrando
que havia mais pessoas no local:
– Senhoras e senhores. Obrigado pela presença de todos. Tenho certeza que vocês precisam resolver problemas que nada
têm de familiaridade com o novo setor. Por isso, a partir daqui eu cuidarei. Todos estão dispensados.
Assim como nós, os diretores se levantaram de suas cadeiras.
– Todos estão dispensados, exceto o senhor Richard e a senhorita Moody. – completou Theo. Ronald me avaliou e Paige
também me olhou julgando-me. Eu fiquei imóvel com a famosa cara de paisagem, mas estava morrendo por dentro de tanto
nervo.
Richard – que havia se levantado – olhou para o primo e ergueu as mãos em gesto de paz. Seu pai se despediu abraçando
seu filho com afeto e desejando boa sorte a todos.
O filho pródigo volta a casa!
Olhei para Theo com o rosto mais imparcial e profissional possível. Não aconteceu nada demais na boate, entretanto era
uma situação estranha e ele ainda mais estranho para mim. Não havia simpatia em seu rosto.
Quando todos saíram, Theo fechou a porta um pouco forte demais.
– Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – perguntou Theo olhando-nos desde a porta. Sua boca estava tão
apertada que seu maxilar poderia quebrar de tanta força que fazia. E sua voz não era nada doce como eu lembrava.
– Explicar o quê? – indagou Richard. – Você não está achando que tem câmera escondida para fazer essa pegadinha com
você, ou está?
– Richard! Pare de ser irônico por um minuto em sua vida. – ordenou sem delicadeza. – O que ela está fazendo aqui? –
apontou para mim.
Como assim? Por que tanta raiva?
– Estou aqui porque fui contratada pela Artvt. – respondi encarando-o como se fosse óbvio. Mantive meu tom calmo, mas
seu jeito estava um pouco exagerado. Ele me olhou surpreendido. Parecia que havia presenciado um milagre do tipo “a muda
falou”.
– Não. – cortou-me. – A senhorita foi contratada por Richard, não pela Artvt.
– Ele é meu chefe, então teoricamente meu currículo foi analisado e selecionado. Ele me entrevistou. Eu passei na
entrevista. Conheci o corpo gerencial da empresa. Portanto, teoricamente eu fui contratada pela Artvt e estou aqui há seis
meses. – fui enumerando com os dedos enquanto falava cada passo.
– Seis meses? – surpreendeu-se olhando para Richard para confirmar.
– Theo! Sophia foi uma das melhores funcionárias do meu setor. Eu queria te ajudar enviando-a com alguns outros. Ela seria
o alicerce, mas estarei perdendo este jogo com a saída dela. Se você não a quiser, melhor para mim.
Comecei a sentir-me mal com aquele jeito arrogante de Theo. Era o oposto do cara terno que conhecera na boate. Theo –
que ainda pensava junto à porta – caminhou até a mesa e se sentou na cadeira mais distante de nós. Minha vontade era de
perguntar se eu tinha alguma doença contagiosa.
Estúpido!
– Estamos nós três aqui, então deixarei a formalidade de lado para explicar a você, Theo – falava irritada. – que não
precisei utilizar nenhum artifício para entrar aqui a não ser através de minha capacidade profissional e como você mesmo já
sugeriu... Eficiência. Se hoje, o Richard acredita em mim é porque eu fiz por merecer. E detalhe: garanto que eu não fui pra
cama com ele.
Dane-se a formalidade!
Theo se sobressaltou com a minha última frase e Richard riu descaradamente adorando tudo.
– Desculpe, Richard! Mas não estou achando graça de nada aqui. Pelo contrário. – falei seriamente. Ele parou de rir se
desculpando por pura educação, mas em seu rosto estava escrito que era a maior diversão de seu dia.
– Desculpe se dei a entender isso, senhorita Sophia. Não me interprete mal. – falou Theo um pouco menos mal educado. –
Não pensei isso de você, apesar do meu primo ter seus encantos, pelo pouco que conversei contigo... – ficou vermelho, se era
de raiva ou de vergonha eu não sabia dizer. – sei que não é este tipo de mulher. Porém, Richard precisa explicar como você
veio parar aqui dentre tantas empresas de marketing existentes. Desculpe se vejo isso como “muita coincidência”. – seu
semblante ainda fechado. Ele disse que sabia que eu não era este tipo de mulher, mas suas palavras diziam o contrário.
– Theo... Foi coincidência. – disse Richard cansado. Já não era mais divertido.
– Senhor Trento, vamos facilitar as coisas aqui. – Vejo que o senhor está surpreso tanto quanto eu. Richard nunca me contou
que você era o novo diretor e me senti constrangida ao te ver... E ainda estou. – desabafei. – Mas se acha que, por este cargo,
ficarei escutando as suas hipóteses preferirei me retirar agora e voltar ao Marketing Júnior.
– Nem notou o nome da empresa? Nem pesquisou sobre ela? Garanto que veria a minha foto estampada no Google. Artvt,
Art Veneta Trento – soletrou soberbo.
– Parem vocês dois agora. – ordenou Richard levantando-se. Estava austero. – Eu a contratei porque sei como fazer o meu
trabalho. Gostei de seu currículo e ela foi impecável até agora. Não tenho tempo para bobagens Theo e a senhorita Sophia
também não. Decida-se. Ela vai com você ou fica comigo?
– Senhor Trento... – pedi com uma falsa calma. – não se sinta encurralado como um animal enjaulado. Eu posso continuar
com o senhor Richard. Meu desempenho foi bom e lá é um ambiente agradável. Ele me indicou, mas não é obrigação sua
aceitar. Meus outros colegas são tão bons quanto eu. – Ainda que minhas palavras saíssem delicadas, minha vontade era dizer:
“vai se ferrar você e seu novo setor! Não estou ligando!”.
Theo me olhou arrogantemente analisando cada palavra proferida por mim.
– Meu pai te elogiou e isso também conta. Veremos se você vai suprir as “minhas expectativas”. – disse asperamente. –
Obrigado por virem.
E assim terminou a reunião. Saímos da sala, deixando Theo sozinho com seus pensamentos. Meu corpo começou a dar sinal
que tinha saído de uma guerra e meu coração apertou. As lágrimas queriam me visitar, mas eu as expulsei. Ali não.
– Desculpe pelo que aconteceu. Não esperava que ele ficasse tão alterado ao te ver. Ele não é assim. – falou Richard antes
de entrarmos ao nosso setor. Eu ainda terminaria alguns projetos antes de passar para o outro andar. Se é que eu passaria...
– Eu também fiquei sem jeito ao vê-lo. Por que você não me contou? – perguntei sentida. Estava triste.
– Porque queria uma mudança na minha rotina hoje. – brincou. – Na verdade, não tem um motivo. Pensei que seria
agradável aos dois, mas vocês pareceram dois cães em uma rinha. Voltarei lá para conversar com ele.
Assenti com a cabeça, mas meu destino não seria encontrar Paige e Ronald. Precisava me esconder até passar essa sensação
de vazio e humilhação.
A raiva começou a me consumir e o choro me alcançou assim que entrei no banheiro feminino. Era um turbilhão de
emoções. Primeiro por causa da expectativa de conhecer o meu novo chefe, segundo descobrir que ele era Theo. E, ao final,
ser difamada por ele. Ele estava extremamente “comível” com aquela cara de executivo, mas ao me ver parecia olhar para
uma biscate querendo dar o golpe. Sua reação me desestruturou. A surpresa talvez não fosse tão agradável assim e ele não
poupou em mostrar sua decepção e incerteza através de seu olhar e de suas palavras ácidas.
Sentei-me sobre a privada do banheiro e liguei para a pessoa mais importante de minha vida.
(...)
– Sua mãe estaria orgulhosa de você. – falou meu pai ao telefone.
– É bom escutar isso. Ultimamente, ando precisando de palavras motivadores. – falei sem emoção.
– Minha querida, eu sempre vou te apoiar. Saiba que sua casa está aqui no Brasil e você poderá voltar quando quiser. Você
sabe disso, não sabe?
– Sim, pai. Obrigada, viu? Eu preciso desligar, só liguei para conversar um pouco com um amigo verdadeiro. Eu te amo! E
mande um beijo para minha irmãzinha cabeça dura.
– Eu também, meu amor. Fica com Deus.
Quinze minutos ao telefone com meu pai foram suficientes para me animar. Minha vida estava relativamente tranquila até
saber quem era Theo. Foi difícil evitar olhar para ele sabendo a condição que eu estava. Ele era meu novo chefe. E seu
pensamento sobre mim... Que destino cruel! Richard quis fazer um bem e me fez um mal.
Naquele momento, o único desejo que tinha, além da tristeza, era continuar com o meu bom desempenho no trabalho e me
aprofundar nas páginas de um bom livro em minhas horas vagas e esquecer que existia o mundo real.
Só de lembrar-me da cara de Theo ao me ver – o horror esculpido em suas feições – me impressionou e ainda penso se foi
só um triste sonho ou não.
Comecei a chorar novamente. Estava mal pra cacete por causa daquele desgraçado!
(...)
Estava chorando há tanto tempo que quando acordei deste pesadelo, lembrei que ainda estava no banheiro da empresa.
Tinha certeza que Ronald e Paige deram conta do meu sumiço e não estava forte para voltar e fingir que meu dia estava ótimo.
Lavei meu rosto várias vezes e respirei fundo. Não tinha outro jeito.
Ao sair do banheiro feminino, encontrei Richard encostado na parede me esperando.
– Há quanto tempo você está aí? – perguntei tentando disfarçar a minha cara de choro.
– O suficiente para saber que você desabafou lá dentro. – falou com um ar de preocupação.
– Vou sobreviver.
– Ele não é assim. Mas, eu já te disso isso.
– Sim. Você já disse.
– Vamos ao Pub da esquina. Não quero que ninguém te veja neste estado.
– Tenho que trabalhar. Eu não sou chefe, lembra?
– Mas eu sou e Theo que se foda. Já conversei com ele e você está dispensada por hoje.
– É assim que uma demissão por justa causa se apresenta. – ri desgostosa.
Saímos da empresa apressadamente. Não encontrei ninguém conhecido e isso me aliviou um pouco. Meu estado era
deplorável.
Richard não conversou até chegarmos ao Pub. A tarde estava linda. O sol não era forte como o do Brasil e agradeci por
sentir aquele calorzinho sobre minha pele gelada pela tensão dos últimos acontecimentos. Caminhamos lentamente até
entrarmos no local.
Era um lugar escuro com quase todos os móveis feitos em madeira. Era aconchegante e me senti bem estar ali.
– Pode beber. Você não está mais em horário de trabalho. – avisou Richard quando estávamos sentados em uma das mesas
encostadas a grande janela de vidro. Era bom ver as pessoas caminhando apressadas. Nunca saía de dentro da Artvt neste
horário.
– Estou tão mal assim para você pensar que necessito me afogar em um copo de bebida?
– Sim.
Ri de sua sinceridade, mas neguei tal afirmação.
– Por favor, um chá de camomila. – pedi à garçonete.
– Dois. – solicitou Richard. – Eu ainda estou em horário comercial. – Ficamos lá conversando e Richard não comentou
nada sobre Theo e o drama todo. Preferiu me distrair contando sobre seu novo caso e como ele ainda não havia encontrado
alguém como minha amiga Mia. Sabia que era um jogo dele para que eu contasse a ela o quanto ela era especial. Além de suas
aventuras, Richard me divertia com suas piadas, mas sempre tocando no nome de Mia. Passamos aproximadamente uma hora
jogando conversa fora, porém já era hora de eu ir embora e ele voltar à Artvt.
Richard pediu para sua secretária buscar minha bolsa e entregá-la no Pub e nos despedimos.
Já que tinha todo o dia de folga, preferi finalizar a minha terapia com o “doutor” Richard, indo ao shopping comprar roupas
novas. Se havia necessidade de mostrar o quanto eu era eficiente, começaria por um guarda-roupa renovado. Roupas modernas
que valorizavam o meu corpo seria a primeira tarefa a ser executada.
Cheguei em casa com vários pacotes de compras e apesar de gastar e sentir aquela felicidade momentânea, a solidão do
apartamento me atingiu. Mia talvez não voltasse no mesmo dia. A nostalgia e a lembrança daquele estranho loiro me fizeram
desabar em choro.
Se juntasse todas as minhas lágrimas, dariam para encher a porra da caixa d’água deste prédio.
A campainha tocou após alguns minutos e corri para o banheiro para lavar o rosto antes de receber quem quer que fosse.
Olhei-me no espelho e todo o esforço foi em vão. A água jogada em meus olhos não limpou a marca que aquele bastardo
deixou com seu maldito discurso.
Quem ele pensava que eu era? Uma qualquer?
Corri e abri a porta já não ligando mais para a minha imagem.
– Oi. – cumprimentou um John risonho. – ele percebeu meu estado e entrou abraçando-me. – Sophie, o que houve? –
perguntou alisando o meu cabelo. Seu gesto só piorou e eu comecei a chorar novamente. Ficamos abraçados um tempo assim
até eu ter forças suficientes para me libertar daqueles braços fortes e aconchegantes. Aquela solidão que eu sentira, foi
embora.
– Fique comigo hoje. – foi tudo que eu disse. – Este apartamento... Está vazio.
– Tudo bem, eu fico se preferir. – estava preocupado. – Se quiser conversar ou ficar calada... Você é quem manda. –
esboçou um leve sorriso enquanto secava o restante das lágrimas de meu rosto com seus polegares. Se era por raiva de Theo,
tristeza ou seca mesmo, eu não sabia. Mas, John estava tão irresistível e senti um desespero me tomar: eu precisava dele
naquele momento.
– Só fique. – minha voz saiu como um sussurro e a única coisa que desejava era beijar aquele moreno.
– Está bem. – bateu as duas mãos. – um filme e pipoca? – sugeriu.
– Sim. Posso escolher?
– Claro, dear! – respondeu com uma piscadinha. Deixei meu corpo tomar conta do momento e fazer a minha mente e
consciência esquecerem de todo o resto. Procurei por um romance para instigar aquele objeto sexual ao meu lado e quando
caminhei até o DVD procurei agachar da maneira mais sensual possível para que John me notasse. Eu estava com um short
jeans azul desfiado e uma camiseta amarela colada – o que proporcionava uma visão melhor para ele que estava sentado ao
sofá. Escutei um suspiro atrás de mim e sorri silenciosamente por conseguir arrancar algo de John.
Só estamos começando, inglês!
Em seguida, chamei-o para me ajudar na cozinha com a pipoca e comecei uma breve conversa.
– E o que te trouxe ao meu humilde apartamento?
– Queria saber como foi seu primeiro dia, mas deixa para lá... – ele queria mudar a conversa. Claro, o jeito que eu estava
assustaria qualquer um. Sorri para ele.
– Obrigada. Meu dia foi... Interessante. – concluí virando o rosto tentando jogar as lágrimas de volta para dentro. Elas
teimavam em sair.
– Sophie, você sabe que pode falar comigo, não sabe? – John se aproximou querendo consolar. Olhei para ele e o desejo
percorreu o meu corpo. Minha respiração acelerou. Não queria falar. Queria fazer. Sem pensar duas vezes, agarrei seu rosto
com minhas duas mãos e o beijei ferozmente. John levou uma fração de segundo para retribuir aquele beijo, mas sendo homem
deixou-se levar pela mesma luxúria e me agarrou pela cintura colando nossos corpos.
Os ingleses eram conhecidos por sua alta estatura e eu, mesmo sendo do sul do Brasil, perto deles era baixa. E esta
diferença, fez-me sentir toda a sua excitação próxima à minha barriga.
Imediatamente, lembrei-me da toalha azul e meu corpo estremeceu de desejo. Queria provar cada parte daquele corpo. John
seria a minha segunda terapia do dia.
Beijamo-nos até perder o ar. John parou nosso momento sorrindo como uma criança que acabou de ganhar um pirulito.
– Você quer assistir mesmo aquele filme? – perguntou roucamente. Por sua expressão ele estava perguntando se eu queria
continuar com que havia iniciado. Todos estes meses sem ninguém. Definitivamente, eu estava subindo pelas paredes e ele
estava prontinho para mim. Precisava descarregar toda a tensão do dia com uma boa noite com meu vizinho gostoso. Apenas
um momento prazeroso sem compromisso.
– John. – falei com dificuldade enquanto dava selinhos em cada parte de sua boca. Ele gemia e me colava ainda mais ao seu
corpo. – O filme fica para depois, mas... – o beijei, só que mais profundo. – será só por uma noite. Ele sorriu entre nossos
lábios e sussurrou:
– Eu aceito sua proposta. – Olhei para ele e seu sorriso se transformou em desejo. Parecia uma pantera à caça e eu senti a
umidade entre minhas pernas só por ver seu olhar faminto sobre minha boca, sobre o meu corpo. John me puxou para fora da
cozinha me enchendo de beijos até o sofá. Chegando, ele me jogou delicadamente, colocando todo o seu corpo sobre o meu.
Ele se movimentava deliciosamente esfregando o seu membro sobre meu short. Com nossas bocas perfeitamente encaixadas,
seus beijos se intensificaram e sua língua começou uma dança erótica. Ele lambia e chupava meus lábios repetidas vezes. Suas
mãos acariciavam meus braços, seios e bunda. Era errado usá-lo para estancar a minha dor, mas eu estava sendo egoísta e não
ligava. John era quente e eu precisava disso.
Suas mãos subiram devagar por dentro de minha blusa encontrando meu sutiã de renda branca. Acariciava meus mamilos
lentamente em movimentos circulares com seus polegares por cima do tecido fino. Excitei-me mais com seu toque delicado.
Ele não tinha pressa.
– Que foda! Tão linda... Tão macia... – sussurrava enquanto retirava meu sutiã e apalpava ainda mais meus mamilos, que
endureceram de tanto desejo. Estimulada aproveitei para tocar o seu membro que estava duro como uma rocha. John ainda
estava de calça jeans e com sua blusa azul escuro. Ao tocá-lo por fora, intensificou sua massagem e tirou a minha blusa. Fiz o
mesmo com sua camisa jogando-a ao chão e iniciei uma massagem por seu peito nu e seu abdômen definido. John tocou meus
seios com seus lábios e uma de suas mãos procurou os botões de meu short.
Estávamos tão concentrados em nossos beijos e carícias que não escutamos quando Mia entrou na sala com sua amiga. Seus
risos nos despertaram e eu dei um pulo do sofá agarrando a minha blusa do chão. John estava sem camisa e sorriu para elas
descontraidamente.
Eu por outro lado tentando tapar meus seios nus, fiquei atônita em pé ao lado da mesa central encarando as duas mulheres às
gargalhadas.
– Desculpe, Sophie! – tentava falar Mia com dificuldade em meio a seu riso. – Me perdoe, de verdade. Podem continuar o
que estavam fazendo. – Sua amiga morena comia John com o olhar desejando a mesma coisa que até um minuto atrás eu queria.
Ele não ligava por estar sem camisa e esfregou o rosto rindo da situação e isso me irritou.
– Jo... John já estava de saída. – falei corando de tanta vergonha. Não conseguia mais olhar para ele. John se levantou do
sofá e pegou sua camisa que estava próxima à televisão. Não se deu o trabalho de colocá-la. Apenas a pendurou no ombro e
veio até mim relaxadamente. Enquanto isso, a plateia agradecia silenciosamente com aqueles olhares petrificados.
– Desculpe por isto. – sussurrou em meu ouvido. – Se quiser, podemos ir para o meu apartamento. O que acha? – sua boca
tão próxima ao meu ouvido, me fez arrepiar, mas não o suficiente para continuar. Disse não balançando a cabeça lentamente.
Ele compreendeu. – Vou agora, mas espero terminar isso outro dia. – beijou-me castamente os lábios. – Tchau para vocês. –
se despediu de Mia e sua amiga.
– Sophia, desculpe. – falou Mia com pesar.
– Esquece, Mia. Você me salvou de fazer uma grande merda. – respondi indo para meu quarto. Não podia ficar ali com as
duas me encarando seminua.
Ela me salvara de fato. Depois de dormir com John, tudo mudaria entre nós e não seria tão legal nossa relação.
– Talvez, seja tarde demais. – pensei desgostosa.
Capítulo 16 – A vida continua.

Contei para Mia nos mínimos detalhes – que escutava com atenção – como foi o dia anterior: o inferno na Terra, o
apocalipse, o desastre ou qualquer outra nominação sinônima a isto e como eu quis aproveitar-me de John.
– Mas, ele é um estúpido maldito idiota arrogante! – gritava com ela que insistia em argumentar o contrário. – Tinha que ver
a pompa dele. Se achando o dono da verdade. Se ele continuar assim, vou sair da merda daquela empresa, pedir transferência
de setor, sei lá! – falava exaltada sentada no sofá de nosso apartamento.
– Calma, Sophia! – implorava Mia segurando-me. – Não vai adiantar você brigar com ele. Esfria a cabeça, por favor. Ele
só deve ter se assustado.
– Mia! Está defendendo aquele imbecil?
– Não, Sophia. – disse séria. – Só quero que você entenda uma coisa. Ele deve ser cobiçado por tantas mulheres. Ele é um
homem influente sem dúvida. Está nas colunas sociais sempre. Ele é visado. É só olhar para ele. O cara emana dinheiro.
– Foda-se seu dinheiro. Ele não tinha o direito. – comecei a me irritar mais ainda.
– Ele não tinha, eu sei. – dizia segurando minha mão. – Mas, convenhamos, que puta coincidência! Ele deve estar em choque
até agora. – riu. Vocês dois na boate se pegando... E agora isto...
Coloquei minhas mãos no rosto.
– Isto, Mia, é motivo de demissão. Ninguém pode saber desta noite da boate. E o Richard...
– Se ele quisesse te detonar já teria feito. – concluiu Mia.
– Você tem razão. Richard poderia se quisesse...
– Você sabe o que fazer. Dar a volta por cima e mostrar aquele filho da puta quem é Sophia Moody! – sorriu Mia.
– Sim. Vou mostrar o meu valor aquele arrogante formador de opinião. Não sabe nada sobre mim. Vai se ferrar!
– Isso, amiga. Vai fundo! Mostre quem é a brasileira naquela empresa. Só não vale se apaixonar.
– Que? – olhei descrente para Mia que ria da minha cara. – Apaixonar? Nunca.
(...)
Cheguei à empresa no horário comercial, sem atraso. Hoje era o meu primeiro dia (de fato) trabalhando com o novo chefe.
Richard apareceu no setor prometendo ser uma das últimas vezes a se intrometer no Marketing Sênior para apresentar a
secretaria de Theo. Seu nome era Kate. Era alta, cabelos longos lisos até o ombro com porte magro. Ela sorriu a todos e me
olhou com curiosidade.
– Você não parece ser daqui. – disse cuidadosa.
– Sou brasileira. – sorri.
– Ah... Sim. Escutei falar de você. – não identifiquei sua intenção com aquele comentário misterioso.
– E eu pensei que você fosse nova aqui. – falei com o mesmo cuidado.
– Kate? – perguntou Ronald. – Não. Ela era secretária do Richard antes de você chegar, depois foi para o setor financeiro e
agora foi chamada para ser a secretária daqui.
– Isso, Ronald. Pensei que tinha se esquecido de mim. – brincou.
– Você é inesquecível, amiga. – falou Paige, sinceramente.
Amiga? Estou mil vezes ferrada!
– Todos apresentados. Dever cumprido. Bom dia para todos – saiu Richard, mas não antes de perguntar através do olhar se
eu estava bem. Disse que sim com a cabeça e sorridente devolvi o seu bom dia. Só assim para ele acreditar sobre meu estado
emocional.
Ninguém perguntou nada sobre o dia anterior, apenas Ronald que era muito preocupado. Era característica dele ser assim e
eu gostava desta sua delicadeza.
– Apenas me senti um pouco mal e fui embora. – menti.
Ao passar do dia, Kate por algum motivo começou a apresentar uma animosidade todas as vezes que tentava puxar um
assunto. Percebi que Paige já havia começado a minar a pequena equipe. Se não fosse por Ronald no setor, estaria sozinha no
ninho de cobras.
Ignorando seu jeito “Paigiense”, apanhei dois portfólios e procurei por meu amigo. Ronald poderia me ajudar com sua
opinião sobre cores e outras dúvidas. Não o encontrei na sala ao lado e pensei que havia ido tomar café obrigando-me a
perguntar à secretária do setor, a bonitona Kate, sobre seu paradeiro.
– Você viu o Ronald? – seu olhar e riso de deboche me irritaram e inspirei profundamente para não ser mal educada no
primeiro maldito dia de trabalho com ela.
– Ele viajou. – para ela que era secretária era óbvio. – Só veio aqui falar com o senhor Trento e organizar a viagem. – falou
com a má vontade.
Estava sozinha nesta. Abaixei minha cabeça olhando os portfólios sobre a mesa para montar a estratégia, quando escutei
alguém limpando a garganta. Theo estava parado em frente à sua porta olhando-me fixamente. Paige e Kate me olharam
discretamente curiosas tanto quanto eu.
– Poderia, por gentileza, comparecer à minha sala. – falou fechando a porta.
– Ih! Ele não estava com a cara boa. – comentou Kate rindo. – Primeiro dia e já vai levar uma bronca. – olhava para Paige
que sorria diante de seu infeliz comentário.
– Não deve ser nada demais. Não dei nenhum motivo. – nenhum motivo que elas soubessem, claro.
– Você não conhece nada sobre ele mesmo, não é? – perguntou Kate. – Não sei se é inocência sua. Deveria pesquisar na
internet um pouco sobre o seu chefe ou conversar com as pessoas que já trabalharam com ele na matriz da Itália. Você se
surpreenderia.
– Não entendi.
– Ele é extremamente bonito... Eu sei. – piscou para mim, Kate. – Entretanto, assim como ele tem essa beleza maravilhosa
de babar, ele é muito exigente e não gosta de perder tempo. – abaixou a voz e continuou. – Não espere que ele seja educado lá
dentro.
– Deixa-a descobrir por si só, Kate. Já está ajudando demais. – disse Paige de sua mesa. – Ele não é como os outros, ela
não vai conseguir tudo com tanta facilidade.
– Paige, querida. – falei com desdém. – Eu sempre consigo o que quero. – provoquei-a. – Mas, sempre consigo com esforço
e com ética. Eu sei que isso te incomoda, eu entendo. O que eu posso fazer se sou mais competente? Agora, licença. – pisquei
para ela. Paige olhou irritada para Kate esperando ajuda de sua amiguinha, mas a bonitona preferiu ficar na zona neutra.
Golpeei a porta de Theo que ficava ao lado da mesa de Kate, sem olhar para nenhuma das duas.
– Entre. – falou aquela voz grossa de dentro da sala.
Sua sala era ampla e bem iluminada pela grande janela de vidro. Sua mesa ficava à frente desta parede transparente e os
raios de sol clareavam-na. Parecia um elegante anjo sentado.
– Sente-se, por favor, senhorita Moody. – fiz o que ele me pediu.
– O que o senhor deseja? – perguntei educadamente sem baixar o meu olhar.
Theo se ajeitou na cadeira e cruzou suas mãos sobre a mesa. Olhei rapidamente para elas e recordei daquela noite. Tentei
espantar meus pensamentos e imaginar que diante de mim estava um ogro, enorme e feio.
– Não queria te deixar confusa ou com medo pelo que aconteceu no passado. – soltou sem dar voltas. – Por isso, te
requisitei hoje.
– Não estou entendendo, senhor Trento. – e não estava mesmo.
Theo desviou o olhar para o porta-retratos vazio que estava sobre a grande mesa de vidro e depois olhou diretamente em
meus olhos. Parecia escolher mentalmente suas palavras.
– Eu sou um homem muito ocupado. Não tenho tempo a perder e não gosto que nada entre mim e meus subordinados fique
confuso. – entendi o que ele queria avisar. Passado era passado e assenti com a cabeça. – Hoje, Ronald foi a uma viagem
importante. Uma visita a um dos vários clientes da empresa. Na ausência dele, você será encarregada de cuidar de seus
projetos e obviamente dos dele também.
– Não tenho problema algum, senhor Trento. Ronald é um bom colega de trabalho e a empresa não pode parar. Terei
satisfação em ajudá-lo.
– Ótima resposta. – esboçou um leve sorriso. – E isso mostra que eu não pretendo demiti-la. Então qualquer problema ou
dúvida... Acabou de ser sanado. Outro ponto importante que talvez a senhorita não saiba. Tanto você quanto Paige também
farão viagens para visitar clientes. Não posso fazer isso sozinho e é uma das principais atividades deste setor. – avisou. –
Bom. Era só isso. Pode voltar às suas atividades.
– Ok.
Levantei-me com um ar de superioridade. Precisava mostrar que não estava brincando em serviço e que não era qualquer
uma que entrou em sua lista de peguetes. Saí sem dizer nada. Theo foi frio, objetivo e indiferente.
Típico inglês. Babaca!
(...)
Quase fiquei maluca com tanto trabalho. Precisei fazer hora extra todos os dias para dar conta dos nossos projetos.
Consegui com muito esforço, mas fiquei um caco. Não sabia quando Ronald voltaria e não quis consultar à Kate e acabar
recebendo uma resposta atravessada.
Depois de uma semana e meia Ronald apareceu na Artvt e meu alívio foi tão grande que, mesmo em um dia nublado, senti o
sol brilhar mais.
Que desespero, Sophia!
– Parece que alguém trabalhou demais aqui. – sorriu ao ver como eu estava cansada.
– Só para você não chegar e encontrar sua mesa abarrotada de trabalho. – disse sorrindo também. – Mereço uma cerveja
todos os dias por um mês.
– Seria um prazer levá-la para beber uma boa cerveja. – insinuou um pouco mais sério.
– Ronald! Eu estou brincando. – desconversei.
Ele preferiu ignorar o pequeno fora e, puxando sua cadeira até o meu lado, incitou uma conversa regada de perguntas sobre
cada projeto para dar continuidade ao que eu havia iniciado. Esta era outra boa característica dele. Não dormia no trabalho e
sabia de sua responsabilidade. O humor de Paige melhorou consideravelmente com o regresso de Ronald e de vez em quando
chegava até a mesa dele para conversar. O tratamento era tão diferente. Só tentava entender se era somente esse amor que ela
alimentava por ele ocultamente que a fazia me odiar tanto. Sentia pena dela, pois todo aquele charme que ela lhe lançava era
totalmente ignorado. Desde o tempo que os conheci, ao entrar na empresa, percebi o carinho de Paige e, infelizmente, nunca
observei um sorriso de resposta por parte dele.
– Vamos tomar café? – cortou Ronald a Paige perguntando-me.
Olhei para ela – que imediatamente fechou a cara.
– Ronald, acho que a Sophia está cheia de trabalho. Olhe só para a mesa dela. – falou rapidamente.
– Ela tem razão. – cooperei. – Eu ainda não recuperei todo o tempo que passei cuidando de nossos projetos e preciso
organizar melhor esses que sobraram aqui. – sorri disfarçando a mentira. Meu trabalho estava caminhando relativamente bem.
Eu sabia gerenciar o meu tempo e não tinha o desejo de deixar Paige mais chata do que ela já era. – Vai com ela, tenho certeza
que Paige tem muitas novidades para te contar.
Paige sorriu por meu apoio. Era o primeiro sorriso sincero e sem maldade dirigido a mim.
Corra todo mundo! Apocalipse!
Ronald se levantou resignado demonstrando nenhuma vontade em desfrutar da companhia dela. Kate também aproveitou a
deixa e saiu da sala junto com eles. Ela evitava ficar sozinha comigo e eu só agradecia pelo bem que me fazia. A recíproca era
verdadeira.
(...)
Havia papéis por toda parte. Eram anotações, lembretes, ideias, tudo jogado sobre minha bagunçada mesa. No entanto, eu
sabia onde estava cada coisa. O problema estava em meu corpo, que relaxou ao saber que minha rotina voltaria à normalidade
com o retorno de Ronald. Estava esgotada.
– Acho que vou providenciar uma mesa maior para você. – falou Theo tentando não rir, parado próximo à minha mesa. Não
esperava sua presença ali, porém não me assustei. Estava mais assustada com o seu bom humor. Eram dois milagres em um dia
só.
– Não negaria se assim fosse, porém quanto maior a mesa, maior a desordem. – disse simpática.
– Sem dúvida. – respirou Theo. – E os outros onde estão? – olhou para os lados.
– Foram tomar café... Já devem estar voltando.
– E você não foi com eles? – estava curioso.
Fiz um gesto para a minha mesa e ele entendeu a minha resposta.
– Senhorita Sophia. – respirou antes de prosseguir. – Parabenizo-a por cuidar de tudo enquanto o senhor Ronald esteve fora.
Você foi muito... Eficiente. – sorriu demonstrando certa dificuldade em pronunciar aquelas palavras.
– Agradeço o seu feedback, apesar de parecer um pouco incomodado. – falei sem pensar. Theo enrijeceu surpreso e suas
mãos nervosas se fecharam levemente.
– Não estou incomodado e não entendi o porquê de suas palavras. – defendeu-se ligeiramente irritado.
– Me perdoe se fui rude. Não foi minha intenção. – fiz carinha de vítima. Era a minha intenção sim. – Agradeço o seu
elogio. Isso só me mostrou que continuo dando resultados desde o meu ingresso na Artvt. – sorri forçadamente ao jogar mais
uma indireta para aquele arrogante filho da mãe.
– De nada. Porém, está sendo paga para isso também. – respondeu nervoso, saindo pisando forte em direção à sua sala.
Consegui irritá-lo mais. Podia perder o emprego por causa desta afronta, mas não consegui evitar.
Até o final do dia, não o vi mais e trabalhei no modo automático esperando a qualquer momento por um e-mail “passe no
RH”. Entretanto, nada aconteceu e fui embora com um peso na consciência.

– O cara se acha, pensa mal de mim e eu ainda fico com pena dele? Que classe de otária eu sou?– me queixava por ser tão
fraca. Contei o ocorrido a Mia e ela só sorria misteriosamente da minha raiva por mim mesma.
– Você é impulsiva algumas vezes, nós sabemos... Mas isso foi light. Sossega seu coração e vai dormir. – disse. – Além do
mais, se ele não te chamou é porque também não ligou tanto.
– Você tem razão. – preferi acreditar nisso. – Vou dormir porque a merda já foi feita e não tem como mudar. – dando-lhe um
abraço. Minha cama me chamava e eu precisava dormir bem para o dia seguinte.
Filho da puta arrogante! Não consegue simplesmente sentir o prazer de elogiar!
Capítulo 17 – Nada de desculpas.

O início em qualquer empresa é complicado. A fase de adaptação aos novos colegas, novas regras e, principalmente, em
outro país deixa tudo mais temeroso.
– Ainda bem, que existe você, Ronald. Não sei o que faria se não tivesse te conhecido. – sorri grata.
– Quero que saiba que sou, além de um bom colega de trabalho, um bom amigo. – retribuiu com um sorriso muito mais que
amigável.
Vou fingir que não vi isso...
Aproveitei para sair e ir até o setor de Richard. Precisava conversar por cinco minutos e veria se ele estava desocupado
para me receber. Afinal, ele era um ótimo chefe sem noção.
– Ronald tem me ajudado muito com os projetos – comentei enquanto abocanhava um enorme pedaço de rosquinha que
trouxe para mim e Richard.
Estávamos sentados no mesmo lugar de sempre na cantina da empresa, depois que Richard insistiu que o bate-papo merecia
um ambiente cheirando café e não uma sala cheia de portfólios. Richard era um pedaço de mau caminho e sua personalidade
brincalhona fugia ao estilo britânico de tantos executivos que tive a oportunidade de conhecer, incluindo Theo.
– Esse cara está afim de você.
– Para você, qualquer gentileza é sinônimo de pegação. Nem todos são como Richard Veneta.
– Pode pensar o que quiser de mim. – falou debochadamente. – Quando quero alguma coisa, sou direto, não procuro
artifícios como ser extremamente prestativo no serviço. É muito mais fácil expor o que eu desejo e receber ou não o que
procuro, você não acha?
– Analisando por este lado, você até tem razão, mas não é o caso dele. Ele é um grande amigo e só pensa em preservar a
nossa boa relação dentro do departamento. -Não queria dar tanta razão assim a Richard.
Richard parou de tomar o seu chá e me encarou cruzando as mãos sobre a mesa.
– Agora eu entendo o que o encantou. Você é ingênua demais. – disse calmamente.
– Quem? Ronald?
– Também. – respondeu levando mais uma vez o seu chá à boca.
Soltei uma gargalhada que chamou a atenção dos tantos funcionários a nossa volta.
– Desculpe – disse recompondo-me do ataque de risos. – Só faltava você dizer que eu era virgem.
– Você não é? – perguntou ironicamente colocando as mãos sobre a boca como se eu tivesse acabado de dizer que matei sua
mãe.
– Muito engraçado, senhor Veneta, mas chega de conversa fiada. Preciso voltar aos meus projetos.
– Posso sentar-me com vocês? – perguntou Ronald chegando de surpresa.
Richard olhou-me com gozação.
– Claro, Ronald. Estávamos falando sobre você, não é senhorita Sophia?
O quê?!
– Sim. Que coincidência que você tenha chegado neste momento. – Sorri disfarçando o meu nervosismo.
– Sério? E sobre o quê exatamente conversavam? – perguntou muito interessado, sentando-se na cadeira ao meu lado.
Por que ele não sentou ao lado de Richard?
Richard sorriu como se lesse meu pensamento.
– A senhorita Sophia dizia o quanto você tem sido atencioso com o seu trabalho e como você é um ótimo colega.
Ronald sorriu como se a paz tivesse reinado no mundo. Comecei a perceber como a minha opinião contava para ele.
Richard tinha razão. Tudo aquilo era para se aproximar de mim.
Ronald era um rapaz um pouco mais velho que eu. Era até bonito. Branco de cabelo claro arrepiado e sempre levava um
sorriso tímido, porém apesar de ter uma beleza normal, ele era baixo. Baixo mesmo. Muito baixo! Nunca me senti atraída por
ele e sabia que isso jamais mudaria. O problema era mostrar isso a partir de agora sem parecer grossa.
– Meus estimados ex-funcionários, preciso ir. Bom trabalho aos dois. – levantou-se saindo rapidamente sem me dar chance
de fuga.
– Enfim, sós. – falou Ronald retirando algumas rosquinhas de chocolate do pacote que trouxe.
– Como assim? – perguntei séria. Não daria motivos para ele pensar que tinha chance comigo.
– Calma, Sophia! Só estava brincando. – falou envergonhado. – Trouxe duas rosquinhas de chocolate porque eu sei que
você gosta.
Como ele sabia disso? Nunca comentei com ninguém.
– Antes que você se assuste, eu percebi que você sempre as pedia quando a turma do nosso antigo setor vinha tomar o chá.
– Uau! Isso é surpreendente. Você sempre foi observador assim? – perguntei.
– Não. Nem um pouco. Só quando me interessa ser. – falou olhando-me.
Opa! Hora de sair daqui.
– Ronald. Eu já tomei meu café e estava saindo quando você chegou. Obrigada pelas rosquinhas, mas como se fala em meu
país “tô cheia”. – sorri para não causar-lhe maior constrangimento.
Ronald fechou o semblante e tomou um grande gole de seu café. Não gostou de minha recusa e eu não gostei do jeito que ele
a recebeu.
Dane-se se você não gostou.
Levantei-me pronta para ir quando avistei Theo caminhando até nós.
Só me faltava essa!
Ronald olhou para a mesma direção.
– Algum problema, Sophia? – perguntou Ronald irritado.
Olhei para ele e respondi rispidamente com o mesmo tom.
– Por que teria?
– Desculpe se fui grosso com você, não estou muito bem hoje. – desconversou após sentir o ar carregado entre nós.
– Bom dia, senhores. – cumprimentou Theo ao chegar à nossa mesa.
– Bom dia. – respondeu Ronald educadamente.
– Bom dia. – respondi olhando para Theo ajustando minha postura. Não havia esquecido o escândalo que ele fez ao me ver
pela primeira vez na empresa.
– Senhorita Sophia, poderíamos tomar um café? – perguntou Theo educadamente com a voz baixa.
– Ela já estava voltando ao trabalho. – respondeu Ronald se metendo na conversa sem ser convidado.
Theo o olhou com curiosidade e assim como Richard chegou a uma conclusão silenciosa. Ele percebera em um minuto o que
eu demorei a descobrir em meses. Theo preferiu ignorar o infeliz comentário de Ronald.
– Senhorita Sophia? Podemos? – indagou novamente apontando para uma mesa vazia ao outro lado do salão.
Olhei para Ronald e soltei um fraco sorriso de desculpas. Estava pronta para sair e tomar café com outro quando lhe disse
que já havia tomado.
– Obrigada, Ronald, pelas rosquinhas. Vemo-nos no setor. – não quis olhar para trás. Senti os olhos de Ronald em minhas
costas quando caminhei até o lugar que Theo havia indicado.
Ao sentarmos um de frente para o outro, esperei pacientemente Theo terminar a ligação que havia recebido.
– Estou ocupado agora, mas assim que voltar à minha sala eu te ligo. – falava baixinho ao celular. – Não se preocupe.
Encontramo-nos esse fim de semana e compraremos o presente de sua mãe.
Era impossível não escutar uma vez que eu não tinha nada a fazer a não ser esperar. Olhei para Ronald do outro lado. Seu
olhar sobre mim era de fúria e decepção. Desviei e preferi olhar para o meu chefe que me ignorava naquele momento. Era uma
boa oportunidade de relembrar momentos dentro de uma certa boate...
– Sim... Vamos aproveitar que você está em Londres... – olhou para mim sem graça e finalizou a ligação. – Eu também... –
sussurrou como se não quisesse que eu escutasse.
Eu também? Eu também o quê? Te amo? Será?
Preferi tirar isso da minha cabeça. Não queria encher minha cabeça com assuntos relacionados à vida pessoal desse babaca
gostoso.
– Desculpe-me. Eu não esperava essa ligação. – falou com sinceridade e um pouco corado. Sua beleza me impactava
independente da raiva que eu sentia dele. Seu cabelo sempre estava no estilo “acabei de transar” de tão bagunçado e era tão
sexy.
– Você aceita um chá? Um café? Sei que os brasileiros são mais adictos ao café, correto? – Theo parecia menos antipático,
mas preferi colocar um muro.
– Não, obrigada. Realmente, eu já estava indo para o departamento.
– Está bem. Senhorita Sophia, não gosto de enrolação e vou direto ao ponto. – falou cruzando as mãos sobre a mesa. Seu
tom de voz era frio e profissional. – Desculpe por minha atitude aquele dia na sala de reunião. Eu não queria passar uma
imagem de ditador e queria desfazer qualquer mal entendido.
– Entendo perfeitamente. Eu já estava disposta a esquecer. – falei educadamente.
Vai se ferrar!
– Eu... E me surpreendi ao vê-la e pensei várias coisas e acabei descontrolado e...
– Espere. – cortei-o. – Pensou várias coisas? Explique-as, por favor! Porque eu ainda não consegui entender. – pedi
impaciente, mas com o tom baixo. Se esse cara pensava que eu havia premeditado tudo ou corrido atrás dele, ele estava
chamando-me de interesseira.
– Explicar o quê? – perguntou impaciente.
– Que coisas fariam você se descontrolar daquela maneira comigo. Eu me surpreendi da mesma forma e me senti como uma
tola na frente de Richard. Ele não me avisou que você era um dos sócios majoritários... Aliás... Eu nem sabia que te
reencontraria.
– Ele já comentou isso. Nós conversamos depois. Só achei que foi coincidência demais. Só isso.
– Desculpe-me, senhor Trento. Não quero retomar essa mesma discussão. Se eu o fiz pensar que eu era esse tipo de mulher,
talvez eu não me tenha dado valor na boate. Na verdade, eu nem sei o que eu estou fazendo aqui. Estou sentindo-me humilhada,
ultrajada. Se me der licença. – levantei-me com lágrimas nos olhos e saí às pressas.
– Senhorita Sophia, espere! – Theo segurou meu braço e me forçou a olhá-lo.
– Eu não quis dizer isso. Perdoe-me se passei essa impressão. – suplicava com o olhar. Parecia sincero, mas estava
machucada por saber que em algum momento ele pensou isso de mim. Ser inocente em uma acusação mancha a alma de tal
maneira que mesmo ao tentar limpá-la ficam resquícios.
Que humilhação! Como pude beijar essa boca no passado? A mesma boca que estava acabando comigo.
– Senhor Trento, eu vim para a sua empresa, ingressei sendo avaliada como pessoa e como profissional. Consegui a vaga e
até o momento, desempenhei com honra todos os compromissos que me foram dados. Porém, apesar disso, sinto-me que fui
recrutada para um setor onde não sou bem-vinda... Muito menos bem vista... – não consegui terminar a frase. Minha voz saiu
entrecortada e não queria chorar na frente dele.
– Não fale isso. – falou baixo retirando sua mão do meu braço. A mesma mão que tanto desejei naquela noite. Mãos que
eram quentes e agora não passavam de um grande peso frio. – Eu a chamei aqui para me desculpar e fiz um grande estrago,
mas eu a quero em meu setor. Eu confio no Richard. Se ele te indicou é porque você é competente.
Não tinha mais nada a dizer. Só precisava sair e respirar.
– Faço o possível para isso, senhor Trento. – cuspi com arrogância. – Acredito que agora eu entendi perfeitamente a sua
inquietação e farei o possível para evitar situações que o façam acreditar que o senhor estava certo sobre suas suposições
iniciais. – finalizei enraivecida.
Foda-se o emprego. Primeiro a dignidade!
– Preciso voltar ao trabalho, o senhor precisa conversar sobre mais alguma coisa?
– Não. A senhorita está dispensada. – balbuciou com um ar de derrota.
Dei às costas e vi que éramos a atração do local já que ficamos um bom tempo em pé com nossa pequena discussão.
Bando de fofoqueiros em suas roupas caras.
Ao chegar ao setor, Ronald me esperava com um sorriso e um monte de portfólios em mãos.
– Espero que tenha tomado café em dobro porque temos muito serviço aqui. – brincou. Estava sorridente e toda aquela
imagem zangada havia desaparecido de seu rosto. Sorri em agradecimento. Trabalhar era a melhor coisa a fazer para ocupar a
mente e esquecer os tantos problemas. Problemas chamados Theo Trento.
– Senhor Trento, a senhorita Jéssica ligou oito vezes e pediu urgência em seu retorno. – comunicou Kate enquanto Theo
passava voando à sua sala.
– Acho que ela se esquece de que eu trabalho em horário comercial. – falou mal-humorado. Theo me olhou e eu desviei
rapidamente o meu olhar para os portfólios nas mãos de Ronald. Minha mesa ficava virada para a porta de sua sala e era
impossível não notá-lo cada vez que entrava e saía. – Obrigado, Kate. – falou fechando sua porta.
Passei o dia separando portfólios com Ronald. Ele era eficiente e extremamente organizado. Até mesmo para arrumar as
folhas em vários montes, para ele era uma tarefa que exigia dedicação. Nenhuma resma ficava torta.
– Acho que por hoje já está bom. – falei espreguiçando-me na cadeira.
O relógio marcava o horário de nossa saída, 18h13. Kate já havia saído assim como Paige. Na outra sala, as luzes estavam
apagadas confirmando que só restaram eu, Ronald e Theo – que passou todo o dia em sua sala sem sair.
– Eu sei que você sempre volta de metrô à sua casa. Você quer uma carona hoje? – perguntou Ronald enquanto voltava à sua
mesa.
– Obrigada, mas eu prefiro caminhar todos os dias. Mesmo este pequeno trajeto já ajuda em minha saúde.
– Projeto Sophia, por uma vida mais saudável. – ironizou disfarçando seu desapontamento.
– Gostei. Você poderia participar também. – brinquei.
– Eu moro a quarenta minutos daqui. Impossível! Mas, qualquer dia vou te sequestrar e te levar em um ótimo pub no Soho.
– Quem sabe um dia... – desconversei – Até amanhã!
– Espere, eu vou descer com você.
Afff... Que grude que ele está hoje!
Assim como nós, outros funcionários se despediam de mais um dia rotineiro na Artvt. O elevador ficou cheio e eu não tive
alternativa a não ser ficar muito próxima de Ronald.
– Sua conversa com o chefe foi boa? – sussurrou em meu ouvido.
Não podia virar o suficiente para olhá-lo, mas não gostei do tom usado e respondi olhando para frente, fazendo que todos
me escutassem.
– Assuntos profissionais são tediosos às vezes. – Ele não precisava saber o teor da conversa, nem a torcida do flamengo ali
conosco.
– Eu imagino... Recusar um café comigo e ir com o chefe... Muito tedioso.
– O que você quer dizer com isso? – falei irritada demais. A porta do elevador abriu anunciando com o seu famoso alarme
que o andar do estacionamento havia chegado.
– Até mais, senhorita Sophia! – despediu-se com um sorriso malicioso nos lábios.
Mas que porra foi essa? Abusado! Intrometido!
(...)
O banho em casa só me fez bem. Precisava apagar o momento conturbado daquele dia e o comentário de Ronald. Usei
metade do frasco de shampoo como se fosse a solução para lavar meus pensamentos. Mostraria a Theo o quanto eu era boa em
meu ofício. Calaria a boca daquele estúpido egocêntrico e Ronald que parasse com aquela merda! Estava me tirando a
paciência já.
– Você não é o último brigadeiro da festa, Theo Trento! – falei para mim mesma.
Não, você não é...
Capítulo 18 – Pub.

Os dias passaram sorrateiramente. Quando me dei conta, era sexta novamente. O que estava acontecendo com o relógio eu
não sabia. Se eu tivesse pressa, o tempo demoraria uma eternidade para passar, o que não aconteceu essa semana. Por isso,
acordei feliz. Era o último dia laboral da semana e eu nem a senti chegar.
Como nem tudo é perfeito nesta minha vida, o dia amanheceu com uma tormenta caindo em Londres. Escolhi um terninho
preto e coloquei um sobretudo para proteger meu corpo. Caminhar até a estação de metrô não pareceu tão saudável para mim
que agora corria o risco de pegar uma boa gripe. Apesar da chuva torrencial, não fazia tanto frio.
Antes de subir, peguei quatro cafés para o pessoal da sala. Precisava me relacionar melhor com Kate e Paige.
Deus! Dai-me forças!
– Bom dia. – cheguei sorrindo.
– Bom dia, Sophia. – disse Ronald de sua mesa levantando-se.
– Não. Pode ficar sentado. Eu trouxe apenas o café e já começo com o novo projeto da farmácia. – falei. – Kate e Paige!
Não me esqueci de vocês. Kate, aqui está o seu descafeinado... – falei entregando o café para uma mulher abobalhada.
Olhava-me com espanto. – E este aqui... É o seu Paige... Com creme e duas doses extras de açúcar.
Kate sorriu e Paige pegou o café sem agradecer.
– Obrigada, Sophia. Estava com preguiça de descer. Como você adivinhou nossos sabores? – perguntou Kate tomando um
gole de seu copo.
– Ronald me falou entre uma conversa e outra... Agradeçam a ele. – sorri. Esperei pelo agradecimento de Paige, mas ela se
fez de desentendida e continuou a mexer em seu computador.
Ok! Mal-educada!
– Nada como um bom café para começar o dia. Como vocês falam? Valeu? – Ronald tentou falar em português.
– Exatamente! V-A-L-E-U. – soletrei cada letra e repeti para que ele falasse corretamente.
– Paige! É hoje que o povo lá debaixo vai ao Pub aqui da esquina? – perguntou Kate.
– Sim. Não vejo a hora de o dia terminar e afogar as mágoas em um bom copo de cerveja. – falou uma Paige extremamente
entusiasmada. – Você vai Ronald?
Preferi abster-me da conversa, pois não havia sido convidada. Ronald voltou seu olhar para mim diante da pergunta.
– Óbvio! Vamos Sophia?
Droga!
Olhei para Paige que havia fechado o semblante e olhava furiosa para Ronald. Por que este cara sempre arrumava encrenca
pra mim?
– Eu perguntei se você quer ir, Ronald. – falou Paige duramente. Ela já nem disfarçava mais seu descontentamento de
trabalhar comigo.
– E eu disse óbvio, minha querida Paige. Estou apenas convidando nossa amiga dos cafés para se juntar a nós. – sorriu para
ela.
– Obrigada, Ronald. Porém, não acho uma boa ideia...
– O que não é uma boa ideia? – perguntou Theo parado na porta da sala. Estava com um lindo terno cinza grafite
elegantíssimo e com um sorriso amigável nos lábios. Sua aparição repentina com aquele estilo fodão de se vestir, fez um forte
calor subir entre minhas pernas. Quando ele sorria, seu ar autoritário amenizava e deixava-o jovial e despreocupado.
Ele era lindo. Lindo e imbecil.
– Sophia estava recusando educadamente o pedido de Ronald para o encontro do setor no Pub hoje. – falou maliciosamente
Kate.
Ronald ficou vermelho e não se calou com tal provocação. Ela queria deixá-lo em ridículo e senti pena dele. Eu estava de
fato rejeitando-o.
– Bom dia, senhor Trento. – cumprimentou-o. – Eu estava apenas convidando a senhorita Sophia para o fim de tarde, como
chamamos o encontro de nosso pessoal. Era o mínimo que eu podia fazer após ela ter trazido café a todos, não é Paige? –
perguntou olhando para ela. – Paige ficou tão emocionada com esse gesto que, assim como eu, adoraria ter a presença de
Sophia lá.
A voz de Ronald, como também, suas palavras saíram meticulosamente estudadas que não era possível saber o quanto
irônico ele estava sendo com Paige. Theo não notou a provocação entre os membros da equipe.
– Senhorita Sophia, hoje é sexta. Não deixe o trabalho acabar com sua vida social. Aproveite este tempo com seus amigos.
– Eu agradeço, senhor Trento, mas o projeto da Farmácia ficará atrasado e temo ter que ficar até mais tarde hoje. Apesar de
simples, requer de mim uma maior atenção, já que estou ajudando o senhor Richard com este portfólio por causa do desfalque
no setor Marketing Júnior. Além disso, é para segunda. – expliquei-me. Em parte era verdade, mas meu motivo maior em não
ir era outro. As bruxas e o enamorado Ronald.
Precisava fugir de meu amigo. Não existia um lugar melhor que um Pub para dar em cima de alguém e eu precisava evitá-lo
ao máximo. Sem chances.
No way!
– Eu sei que você é eficiente e dará conta de tudo na segunda. Responsabilidade e eficiência em uma única pessoa é uma
combinação perfeita, não acha? – falou com um leve tom de ironia enquanto cruzava a sala até seu escritório.
Aquilo era uma provocação e utilizava as minhas palavras para isso. Se eu não fosse ao Pub estaria indo contra a palavra
eficiência. Se eu atrasasse este projeto por esta ida, minha responsabilidade seria jogada no lixo. Ah! Não deixaria barato
não.
– Senhor Trento? – chamei-o antes que entrasse em sua sala. Todos olharam para mim. Ninguém tinha tanta coragem ou cara
de pau em puxar qualquer assunto com aquele Leviatã. Mas, eu não era ninguém. Eu era Sophia Moody. – O senhor tem razão.
Vou espairecer a minha mente. – passei minha mão por minha cabeça para dar um tchan à frase. – E o senhor? Por que não se
junta ao seu pessoal? Acredito que uma interação maior conosco seria muito válida. Algumas vezes precisamos que uma loira
bem gelada como um vampiro salve um dia estressante... Ela seria um pedido perfeito de desculpas para a rotina tediosa de
uma sexta.
Ele entendeu a minha mensagem e ficou tenso. Adorava deixar este cara sem jeito. Eu o ajudei meses atrás e agora pedia
que ele demonstrasse seu “verdadeiro” arrependimento, sobre tudo que aconteceu, indo com todos.
Theo ficou encarando-me por alguns segundos e meus colegas observaram temerosos. Sua boca formou uma fina linha e por
seu maxilar brutalmente fechado só anunciava que eu tinha conseguido atingir meu objetivo.
Sorri vitoriosa esperando sua resposta.
– Tenho alguns assuntos pendentes muito mais importantes que projetos de farmácias. – falou seriamente dando-me um
golpe no estômago com aquelas palavras. Escutei um riso de uma das bruxas e continuei impassível as suas palavras, mas era
só externamente. – Mas, se me sobrar tempo irei sim ao Pub.
Filho da puta!
Após ouvir o clique de sua porta ao fechar fiquei encarando-a até Ronald acabar com o silêncio.
– Pelo menos alguém teve coragem de dirigir a palavra ao chefe. Parabéns, Sophia! Corajosa!
– Ela não fez nada demais. E ainda levou um belo fora. – falou rindo Paige. – que patada boa.
– Não precisa exagerar, Paige. Ele dá patada em todo mundo. – defendeu-me Ronald.
Sorri para ele com gratidão.
Pena que você não é meu tipo.
Eles continuaram discutindo e eu escolhi ignorar e trabalhar com afinco naquele projeto.
Terminarei essa bosta e irei a essa confraternização ou eu não me chamo Sophia Moody!
(...)
A cantina estava lotada como sempre na hora do café da tarde.
– Pulei a hora do almoço para terminar este projeto e jogar na cara dele. – desabafei com Caio.
– Isso, amiga. Se você acha que consegue virar uma heroína, vire. E depois me conte como terminou esse joguinho de
vocês. Adooooro! – dizia Caio empolgado.
– Caio. Logo você que faltou à minha festa! – Continuei minha bronca. – Logo depois que eu te contei sobre meu primeiro
dia ao vê-lo aqui, a patada de hoje, você ainda tem coragem de se entusiasmar com minhas histórias? – estava exausta com
aquele jeito desaforado de meu chefe.
– Queridinha! Primeiro: seu chefe é o executivo mais gostoso daquele andar. Aliás, de toda esta maldita empresa. Segundo:
aquele jeito sexy e altivo dele deve ser perfeito entre quatro paredes. Queria pegar aquele homem e fazer várias coisas...
AAAIII que CALOOOR! – gritou Caio exageradamente.
– Shhh! Caio! – repreendi. – Você é doido? Estamos na cantina, menino. – ri de seu rápido show. – Tem certeza que você
não conhece a minha amiga Mia? Vocês são tão parecidos. Isso seria justamente o que ela diria sobre ele.
– E você, amor? O que acha dele? Só não venha dizendo que nunca reparou direito nele que não vai colar aqui com o papai.
– Não vou mentir para você. Eu praticamente babei nele.– fiz uma pausa lembrando o quanto eu babei mesmo. – Eu o odeio.
– desabafei batendo minha cabeça na mesa.
Caio acariciou meu couro cabeludo. Ele me entendia perfeitamente.
– Por que você não sobe e acaba esse projetinho para irmos juntos ao Pub?
– Só se você passar pela minha sala. Estou fugindo do Ronald.
– Eu sei, meu bem. Ele tá pegando no pé, não é? – levantou a sobrancelha.
– Demais. Só peço que você não me deixe sozinha nunca naquele Pub. Em nenhum momento.
– Prometo. – falou erguendo a mão como um juramento.
(...)
Mais tarde, recebi uma ligação de Mia em meu celular.
– AMOOOOOOR!
– Mia, estou tentando terminar um projeto aqui e esfregá-lo na cara do meu chefe. – falei em português e baixinho para que
ninguém no setor ouvisse ou entendesse. Dificilmente, alguém compreenderia, mas não me arriscaria.
– Entendi, baby. Estou ligando só para avisar que ficarei vários dias fora. Peguei um trabalho em Paris. Em Paris, Sophie!
Acredita?
– Que maravilha! Parabéns, amiga. Estou muito feliz por você. Sucesso lá. A gente conversa pelo Facebook, Skype.
– Está bem. Te vejo só depois. KISSEEEEES!
(...)
– Até segunda, Sophia. Que pena que não irá. – falou Kate com falsa simpatia.
Você não engana ninguém, querida!
– Anda logo Kate, deixa de papo furado. – se irritou Paige puxando o seu braço. – E você Ronald?
Continuei focando no projeto. Não queria dar motivo algum para Ronald me esperar.
– Você precisa de ajuda? – perguntou-me preocupado.
– Imagina, Ronald. Acompanhe as meninas. Estou priorizando este portfólio. Vá! Divirta-se! – sorri encorajando-o. Ronald
viu que nada adiantaria ficar ali e se despediu de mim com um aceno. Senti-me aliviada naquela sala vazia. Faltava pouco
para finalizar e Caio apareceria em qualquer momento. Meu chefe também não deu “as caras” e se ele estava ou não em sua
sala era um mistério.
Quarenta minutos depois Caio apareceu todo serelepe.
– Chega de trabalho por hoje.
– Vamos. – levantei sorrindo.
– Você conseguiu? – perguntou surpreso.
– Claro. Eu disse que conseguiria.
– Essa é a minha garota. Vou te pagar uma dose de tequila. Vamos, baby, vamos porque hoje é sexta, gostosona!

O Pub parecia mais aconchegante agora que estava lotado. Seu público eram os executivos daquela rua abarrotada de
empresas de médio e grande porte. Entrei e logo avistei a grande mesa com o pessoal do Marketing Júnior e Sênior.
– Não-me-deixe-sozinha! – adverti Caio.
– Never.
Meus companheiros do antigo setor confraternizavam-se e já aparentavam extrema felicidade. Até Paige e Kate pareciam
mulheres normais.
Um brinde ao álcool!
Ronald me viu e ergueu-se de seu lugar para me cumprimentar.
Ai, essa não!
Grudei no braço de Caio – que logo percebeu o meu desconforto e se pôs um pouco mais à frente de mim o que não impediu
Ronald de chegar e me dar um abraço apertado que me sufocou e envergonhou.
– Você veio! – falou em meu ouvido, cheirando o meu cabelo. Empurrei-o levemente incomodada.
– Acho que você bebeu um pouco amigo. – disse Caio com uma voz um pouco mais grossa que usualmente ele utilizava. –
Melhor nós pegarmos a mesa que está ao lado de vocês. O que você acha, Sophie?
– Ela pode ficar ao meu lado em nossa mesa. Tem lugar lá. – Ronald puxou uma de minhas mãos e eu a retirei rapidamente.
– Não. Ela vai ficar naquela outra mesa. – sentenciou Caio apontando para o lugar.
– Ronald, eu preciso de espaço e a sua mesa está lotada. Além do mais, preciso confidenciar algumas coisas com o Caio.
Sentarei lá com ele, ok? – tentei não ser mal-educada, mas o cheiro que exalava dele me enjoava. Ele havia bebido um pouco
mais do normal e praticamente me agarrou.
Ronald não se deu por vencido e segurou minha cintura com uma de suas mãos e falou:
– Que isso Sophia? Você não quer fazer companhia aos seus companheiros de setor?
– Boa noite, senhor Ronald. Que bom que você já aproveitou uma parte das bebidas do Pub. – falou Richard atrás de mim.
Graças a Deus!
Virei para trás agradecida pela chegada dele e meu olhar encontrou com o de Theo que estava ao seu lado. Diante de meu
choque Theo riu.
– Deu tempo de vir, não precisa fazer essa cara, senhorita Sophia. – falou descontraidamente com as mãos nos bolsos.
Respirei fundo. Este cara acabava com qualquer pensamento lógico. Aliás, eu simplesmente era levada a outro lugar ao
olhar pra ele: minha cama. Mas precisava lembrar sempre, eu ainda o odiava...
Definitivamente, eu te odeio!
– Você me surpreendeu, só isso. Depois de sua resposta... Pensei que... Deixa pra lá. – hesitei em terminar a frase. Não
queria outra patada e destruir o que restava do meu dia.
– Ronald, eu te acompanho até sua mesa. Quero dar um oi para a galera – disse Richard colocando suas mãos nos ombros
de Ronald empurrando-o sem dar-lhe tempo de contestar. Obviamente, ele não gostou e teve que tirar aquela mão possessiva
de minha cintura.
– Acompanho vocês, se me permitem. – comentou Theo para mim e Caio. Estava tão cansada de seu jeito bipolar e confusa
que concordei sem pestanejar, afinal ele era o meu chefe.
Caio me olhou de soslaio e apertou levemente meu braço.
Eu sei, meu amigo! Este cara é louco!
Sentamo-nos à mesa ao lado. Kate cochichou algo com Paige que a fez olhar e revirar os olhos com antipatia. Procurei por
Richard e o vi animando a mesa fazendo todos rirem de suas piadas. Ronald me matava com o olhar e algumas vezes encarava
Theo com prepotência.
– Este cara quer ser demitido. – cochichou Caio comigo enquanto Theo pedia sua bebida.
– Também acho. Não sei como o Theo não percebeu como ele está bravo. – Theo conversava com a garçonete que sorria
demasiadamente jogando os cabelos para o lado.
Ela flertava descaradamente.
– Essa aí tá querendo para hoje... Também até eu estou entrando em combustão com este homem. Gostoso demais, amiga. –
se abanava Caio enquanto falava.
Theo era muito chamativo, sem dúvida. Seu olhar sereno por baixo somado àquele sorriso perfeito que formava uma leve
covinha em suas bochechas deixaria qualquer mulher à sua mercê.
– Quero ganhar uma bebida após te salvar do Ronald. – Richard voltou à nossa mesa e sentou-se ao lado de Theo que
estava à minha frente.
– Não sabia que era tão fácil te pagar. Moça? Por favor! – chamei a garçonete que ainda conversava com Theo.
Quanto assunto para puxar!
Ela não gostou muito de ser lembrada que estava trabalhando, porém disfarçou sua irritação.
– Traga vodca para meu amigo aqui. Ele precisa ser recompensado por um trabalho dificílimo que teve que executar hoje. –
sorri para Richard.
– Anotado. – respondeu a loira. Queria entender o porquê dos bares de Londres adorar contratarem loiras peitudas para
serem garçonetes. E o senhor deseja alguma coisa a mais? – perguntou insinuando-se para Theo. Caio me chutou por debaixo
da mesa ao vê-la se oferecendo daquela maneira.
Revirei os olhos e olhei para a porta do Pub. John havia acabado de chegar. Ele me viu de longe e sorriu. Acenei para ele e
levantei.
– Pessoal, eu já volto. – caminhei até John. Theo virou e me observou.
– Você aqui, pequeno John? – estava surpresa. John me deu um beijo no rosto mais demorado que o normal e eu ri. – Você
está me provocando?
– Não. Este é o meu beijo apenas, você conhece quando eu quero provocar. – seu comentário malicioso me fez corar e
automaticamente procurei pela mesa onde estava Theo e Caio. – Você está com amigos?
– Sim. Quer acompanhar? – sua fisionomia dizia que não.
– Eu te vi do lado de fora e vim aqui dar um oi. – desculpou-se. – Não quero te prender com seus amigos. Mas, se você
quiser tomar um drinque comigo aqui próximo ao barman...
– Eu vou chamar...
– Sozinha, Sophia. – pediu sorrindo.
– Ah, tá. Acompanho você. – fechei meus olhos analisando-o. – Não invente nada, senhor John.
Sentamo-nos nas cadeiras mais altas e conversamos sobre o dia de cão que ele teve no tribunal ao defender um cliente que
era culpado. Ele disse que amenizou a pena do cara que roubou a joalheria, mas nada além disso.
– Aquele loiro não tira os olhos de você. – falou apontando com o dedo para Theo. – Aquele branquelo também não. –
apontou para Ronald. – Aquela mulher de cabelo curto quer te matar. – apontou para Paige.
– Já entendi, John. Você acertou. Todos aqui estão me olhando porque estou contigo.
– Sou tão sexy assim? – dei uma gargalhada. Ele era sexy sim, mas não ganhava de Theo que ainda conversava com a
garçonete. A mulher não trabalhava não? Puta que pariu!
– John... Eu preciso voltar...
– Eu estava de saída. – levantou-se antes que eu terminasse a frase. – Me acompanha até lá fora?
– Claro.
O vento estava gelado e estremeci um pouco.
– Sophia, eu sei que você não quer passar da zona de amigos. – coçou cabeça. – E eu não sou um homem muito apegado a
uma relação... Mas você não pensou em continuarmos aquela nossa conversa? – se ele queria me matar de vergonha estava
conseguindo.
– John! Que isso?!
– Espere, deixe-me terminar. – pediu sutilmente aproximando de mim. Este cara emanava sensualidade e seu sex appeal
desestabilizava-me. Respirei com dificuldade. Estava excitada com seu corpo próximo ao meu. John percebera e tocou meus
lábios com os dedos. Pelo vidro, a turma da empresa podia ver de camarote a nossa proximidade. – Sentir essa sua boca
novamente. – beijou-me castamente provocando lentamente. – Sentir a sua pele. – parei antes que fosse ter uma combustão.
– Não. Eu não posso. Eu não quero. – disse afastando-me daquele imã sexual. – John, eu peço perdão, mas não quero
dormir contigo. – Se era para ver um homem nervoso, irritado por uma rejeição eu não sei. Mas, ele riu a ponto de colocar a
mão na barriga.
– Está bem, Sophie. Eu sou homem e tentei. Perdoa-me? – sorriu.
– Você não vale nada mesmo, seu tarado. – soquei seu braço. – Me deixa voltar lá, está muito frio aqui fora.
– Te vejo qualquer dia destes, vizinha. – saiu dando um beijo na bochecha.
Voltei para a nossa mesa e Theo estava com cara de paisagem e ainda estava com a garçonete.
– Isso é uma piada, Caio? – Caio me olhou já com raiva da mulher e tomou as dores.
– Querida! Hey! Darling! – chamou Caio à oferecida. – Eu tenho um pedido. Quero vodca para mim e para a minha gostosa
aqui. Ela precisa ser recompensada também. Terminou um projeto que era para segunda, por isso PALMAS para SOPHIA! –
aplaudiu Caio.
Theo me olhou, avaliando-me.
– É verdade, senhorita Sophia? – indagou-me Theo com um leve sorriso.
– Sim. Está vendo? Consegui terminá-lo e desfrutar de um belo happy hour. – sorri vitoriosa. – E o senhor? Conseguiu
resolver todas as suas pendências?
Theo ficou desconcertado e se ajeitou em sua cadeira.
– Meus jovens, vocês vieram até aqui para falarem de trabalho? – cortou-nos Richard. – Porque eu vim para me divertir.
Garçonete linda! Eles precisam urgentemente dessas bebidas. Corra! Pelo amor de Deus!
Ela se retirou com nossos pedidos e preferi ignorar Theo. Hoje, eu demonstraria que sua presença não era importante para
mim.
Caio e eu passamos a maior parte bebendo e fofocando sobre Paige e ríamos de tudo que acontecera desde minha chegada.
Theo e Richard também se soltaram mais após algumas doses e conversavam entre eles.
Preferia aquele Theo Trento sorridente e camarada. A noite passou descontraidamente e a conversa entre nós quatro fluiu
como se fôssemos velhos amigos. As músicas tocadas eram diversificadas e quando tocava alguma conhecida, eu e Caio
cantávamos bem alto e desafinadamente. Tentei fazer Theo cantar, mas ele se negou completamente dizendo que ele não podia
concorrer com a dupla The Voice.
Richard ria de nós e cantarolava baixinho com a desculpa que sua voz era muito profissional e queria nos poupar de uma
humilhação. Estava tarde. Muito tarde e eu bêbada.
– Você tem carona para casa? – senti o cheiro forte e uma respiração atrás de mim em meu pescoço.
Esse cheiro! Ronald!
– Tenho, obrigada. – menti. Iria de táxi, mas ele não precisava saber disso.
– Eu disse a você que um dia te sequestraria. Que tal hoje? – falava com a voz embaralhada. Colocou suas mãos em meus
ombros e eu fiquei mais tensa com este contato próximo.
– Ela já tem carona, senhor Ronald. – avisou Theo com o olhar sério.
– Com todo respeito, chefe. Mas, eu perguntei à Sophia. – ele era louco mesmo.
– E eu já respondi. – falou rispidamente. – Eu mesmo a levarei para casa e como todos sabem, tenho um motorista à minha
disposição. Aconselho a você que utilize algum serviço de táxi em sua volta para casa.
Não sei qual foi a cara que Ronald fez, já que estava atrás de mim e ainda com aquelas mãos sobre meus ombros. Mas, as
palavras de Theo lhe afetaram, pois o aperto que ele me deu machucou um pouco.
– Entendi. – sua voz tensionada. – Boa noite a todos...
– Obrigada, senhor Trento. – agradeci aliviada por aquela mentira. – Ronald estava muito bêbado.
– Ele sempre passa dos limites quando bebe. É o único problema do happy hour. – explicou Richard.
– Bem... Acredito que vou aproveitar e ir embora também. Está ficando muito tarde. Caio você divide o táxi comigo?
– Ah, my dear! Não será possível. Eu já tenho alguém para me levar em casa. – apontou para um rapaz do lado de fora do
Pub.
– É meu bofe e ele veio me buscar em sua moto. Se tivéssemos combinado antes...
– Não tem problema. – falei sinceramente. – Vou sozinha.
Theo me olhou e começou a falar calmamente.
– Eu disse que te levaria para casa.
Parei por um instante, brincando com o copo vazio sobre a mesa. Ele falava sério mesmo?
– Pensei que era apenas uma desculpa para me livrar de Ronald.
– O que você quer dizer? – ele perguntou com o rosto ponderoso. – Eu não preciso mentir e eu estava falando sério. Vou te
levar pra casa. É o mínimo que eu posso fazer.
Caio me deu o segundo chute da noite, abaixo da mesa, e Richard... Richard nem estava mais conosco. A garçonete estava
com altos papos com ele próximo ao bar. Este cara era rápido demais.
– Considerando o horário e o meu estado deplorável após algumas bebidas, eu aceitarei a carona. Afinal, o Pub também já
estava fechando. – sorri.

Despedi-me de todos meus colegas. Combinei de sair com Ann e Danna qualquer dia. Paige e Kate já tinham ido embora.
Caio minutos antes se foi com seu amor e Richard desapareceu sem ao menos dar tchau. Nem quis saber se a tal loira ainda
estava no Pub.
Entrei desajeitadamente no volvo estacionado diante do Pub. O motorista nos cumprimentou e seguiu as ordens de Theo
para me levar em casa. Ele sentou ao meu lado e senti o calor de seu corpo próximo ao meu.
Um silêncio constrangedor se formou entre nós. Era madrugada e estávamos bêbados. Era impossível não lembrar o que
vivenciamos meses atrás.
– Desculpe por Ronald. – cortou o silêncio. – Ele não é assim. Pelo menos é o que diz Richard. – olhou-me. Seus olhos
estavam um pouco envidraçados pela bebida, mas ele estava controlado.
– Não tem problema. Eu me entendo com ele na segunda.
– Você mora em um bairro ao lado do meu, sabia?
– Não. Nem imaginava.
E você poderia me dar carona todos os dias se quisesse. Não! Para com isso, sua fogosa!
– Gostou do happy hour? – Theo tentava puxar assunto todo o tempo e eu achei tão fofa essa sua tentativa mais xucra. Só
faltava agora falar que o céu estava lindo e me perguntar sobre o clima.
– Me diverti bastante. Ainda bem que não faltei à comemoração.
– Que bom mesmo que não faltou. – soltou. – quero dizer, você precisa se divertir um pouco aqui, nem tudo é só trabalho. –
sorriu timidamente.
Tímido? Aquele cara que conheci na discoteca? Mas que porra é essa? Quantas personalidades ele tem?
– Você também precisa se divertir um pouco, Theo. – tirei a formalidade. Ele olhou profundamente em meus olhos e vi certa
melancolia.
– Não esqueci o que aconteceu conosco na boate, Sophia. – ele não estava sorrindo, muito menos querendo se aproximar.
Mas puxar isso justo agora?
– Eu sei. Eu também não. – sussurrei.
– Por isso, fui desprezível com você. Não era a minha intenção. – desculpou-se humildemente e meu coração amoleceu. –
Mas, não podemos esquecer que estamos em um ambiente profissional e sei que você está fazendo tudo corretamente...
Enfim...
– Claro. Eu entendo sim. Não precisa completar sua frase.
– Obrigado. – sorriu pesaroso.
O carro parou diante de meu prédio e eu devolvi o mesmo olhar para ele.
– Eu entendo e concordo, Theo. – continuei. – Eu só... Só queria que a nossa relação não fosse baseada em... Respostas
conflitivas, você entende o que eu quero dizer? – estava propondo paz e respeito. – E eu não vou te atacar. – sorri, lembrando
que foi ele quem me procurou naquela noite. Theo entendeu o que eu queria passar.
– Você é diferente. – comentou fascinado. – Obrigado mesmo.
– Boa noite. Nos vemos na segunda, chefe. – falei saindo do carro.
– Boa noite, senhorita Moody. Foi um prazer.
Obrigada meu bom Deus! Acho que agora as coisas começarão a melhorar. Sem mais drama no trabalho. Amém!
Capítulo 19 – Projeto.

Theo viajara durante duas semanas e minha vida parecia tomar o rumo certo. Ronald era o único colega que eu poderia
contar ali e nosso desempenho continuava como antes: excelente. Ignorei o ocorrido no Pub e ele também.
Mia visitou a Artvt neste entremeio, após voltar de Paris, e pude conversar rapidamente com ela. Só não contava que Theo
havia voltado de viagem logo neste dia. Não sei se isso percutiria ainda mais em sua personalidade um tanto bipolar. A
presença de uma amiga em horário de trabalho.
– Ele está olhando para cá – disse Mia com convicção.
Comecei a folhear o jornal do dia fingindo interesse em alguma notícia. Não queria dar motivos para Theo suspeitar que
falávamos dele.
O chá, um costume muito comum aqui em Londres, estava quente e suavemente açucarado. Senti a queimação gostosa do
líquido descendo por minha garganta e sorri para Mia envergonhada. Ela abanava as mãos com um calor impossível de se
sentir em um ambiente refrigerado como a cantina da Artvt.
Curiosa, olhei para trás ignorando a pessoa que estava naquela direção e avistei Richard sentando-se junto a Theo. Ele
notou meu olhar e desconsertadamente tentou prestar atenção à conversa de Richard.
– Ele gosta de você e não sei por que continuo afirmando isso toda hora. Estou de saco cheio já! – comentou Mia olhando
para os dois sentados do outro lado da cantina.
– E você está com muito calor, hein?!
– Você nem imagina o quanto. – sorriu. – Estou até pensando em dar um pulinho naquela mesa. – diz apontando o dedo
descaradamente.
– Nem pense nisso. – parei seus pensamentos. – Serei demitida assim que você levantar. Já basta o clima chato que ficou
com Theo. – falei irritada relembrando.
– Dane-se ele! O Richard está ali. É com ele que eu quero falar. Dá uma ajuda aqui pra sua amiga vai. Você sabe que estou
amarradona nele. – pediu-me fazendo cara de cachorro sem dono.
– Tudo bem. Vamos até lá, mas será rápido. Quero distância do meu chefe. Não sei como ele está desde a última noite no
Pub.
Caminhamos até mesa e reparei como Theo começou a se mover incomodado com a aproximação. Perguntei à Mia no
caminho se ela não queria desistir e desviar a rota, mas ela negou sem se importar com o que estava vendo.
Richard até aquele momento não havia percebido a nossa presença e se surpreendeu ao ver Mia ali. Levantou-se
rapidamente e com um sorriso lindo a recebeu dando-lhe um abraço.
Isso sim é um costume pouco comum por aqui.
– Ora... Ora! Como você não me informa que esta pessoa tão linda está iluminando a empresa hoje, Theo? – perguntou
galanteador.
Theo esboçou uma cara de pouco caso enquanto bebericava seu chá. Seu semblante se fechou.
Diagnóstico: Bipolar!
– Eu não sabia que a empresa tinha visitante. – comentou sem interesse.
– Na verdade, eu fui chamada para um teste no setor de propaganda e aproveitei para passar e ver como é o trabalho da
minha melhor amiga. – comentou Mia.
– Fico lisonjeado que você esteja aqui. Se quiser conhecer a empresa terei o maior prazer em mostrá-la para você, se a
senhorita Sophia ainda não o fez. – ofereceu Richard olhando para mim.
– Pode levar. O filho é teu! – brinquei.
– Perdão? – pergunta Richard sem entender.
– No Brasil, brincamos em algumas situações falando que o filho é da pessoa, para tirar a responsabilidade de cima de nós.
Ou seja, a responsabilidade, o problema é seu ou toma que o filho é teu. – expliquei.
– Hahaha! Claro, vou adotá-la. – sorriu para Mia com um olhar faminto.
Ela da mesma forma retribuiu e os dois começaram uma breve conversa sobre o tempo que não se viam e as festas que
frequentavam juntos enquanto que eu e Theo ficamos isolados como dois pesos mortos. O ar ficou pesado e ele se levantou
com sua maleta e papéis.
Sem dúvida, estava mais lindo hoje que ontem e não duvidava que amanhã estivesse melhor.
– E como foi a viagem? – puxei assunto antes que ele saísse. Não sei o porquê que senti essa necessidade de aproximar-me.
Theo esboçou um leve sorriso e seus lábios grossos se abriram para responder, mas ele me olhou e preferiu se calar. – Você
está bem? – perguntei curiosa com sua tensão.
– Sim. Só um pouco cansado, nada que eu não possa resolver. – respondeu, mas não havia muita emoção. Estava feito. Eu
era apenas uma simples subordinada. – Richard, depois conversamos. Senhorita Mia, certo?
Ela assentiu.
– Tenha uma boa tarde. Tenho certeza que o senhor Richard lhe fará uma ótima apresentação. – seu sorriso e suas palavras
soaram tão falsos e frios. Obviamente, ele queria sair dali e estava apenas tentando ser educado, mas não conseguia
transpassar nada de agradável.
– Obrigada, senhor... Trento, certo? – perguntou Mia sem dissimular.
Ai Meu Deus! Cala boca Mia!
– Sim, senhorita. Theo Trento.
– Minha amiga Sophia falou muito bem do senhor e o quanto é bom trabalhar nesta empresa tão bem conceituada no
mercado. Richard também havia comentado sobre o desempenho dela e fiquei feliz em saber que ela foi promovida para um
setor com um pouco mais de complexidade. Ela aguenta o tranco. – piscou para ele.
Queria matar Mia. Ela estava jogando na cara dele toda a nossa conversa. Theo entendeu as entrelinhas e olhou me
avaliando.
– Obrigada Mia por tão belas palavras, mas o senhor Richard não vai te pagar um café por você me elogiar. – falei para
amenizar um pouco.
– Claro que eu vou e tudo que você falou é verdade. Você merece um ótimo café, mas primeiro vamos conhecer a minha
empresa. – despediu-se Richard de nós levando Mia com ele.
– Voltando ao trabalho... Tenha um bom dia, senhor Trento. – saí deixando-o plantado em pé ao lado da mesa. Já que era
para levar um fora, que fosse ele o primeiro. Se ele pegou outro caminho eu não sei. Não olhei para trás.
De volta ao setor, encontrei um rebuliço. Paige e Ronald discutiam baixinho.
– Ele vai fazer reunião. – dizia Paige. – Ele é enigmático demais. Sempre estou com medo de ser demitida. Você sabe do
que se trata?
– Não. Mas, não estou preocupado.
– O que houve? – perguntei a Ronald.
– Reunião em meia hora com o chefe. Pediu para avisar a todos aqui logo quando chegou. – respondeu-me.
(...)
– Hoje, começarei a colocar meus planos em ordem. Decidirei quem dos três receberá o projeto de pequeno porte para eu
analisar a qualidade e dar o meu aval para possíveis projetos de maior significado. – começou a reunião.
Seu corpo estava um pouco menos branco. Parece que sua viagem tinha sido bem ensolarada. Seu terno cinza riscado com
aquela gravata prateada dava a ele um ar tão sério, tão chefe. Se eu não estivesse interessada em suas palavras, ficaria
babando por tanta beleza.
Eu estava sentada entre Paige e Ronald e pude perceber seus nervosismos. Eu também estava ansiosa e queria muito mostrar
todo o meu potencial mais uma vez.
– Diante de um estudo prévio feito no departamento anterior, todos os três tiveram o resultados semelhantes e todos
estariam prontos e capazes para elaborar esta campanha. Por isso, tive que decidir por mim mesmo quem seria o primeiro.
Como todos começaram ao mesmo tempo comigo, quem receberá o primeiro projeto-teste, porém não menos importante uma
vez que se trata de um cliente real e já conhecido da empresa, será a senhorita Sophia Moody.
Fiquei feliz e sorri sem conseguir disfarçar o tamanho do agradecimento. Paige apenas me olhou. Ronald me cumprimentou
com um sorriso.
– Obrigada, senhor Trento. – Era tudo o que podia dizer naquele momento.
– Você poderá começar rapidamente este projeto. Peço aos senhores Paige e Ronald que voltem aos seus afazeres e que a
senhorita continue aqui para conversarmos sobre o que se trata. – pediu educadamente.
Paige não estava nem um pouco contente e pareceu não escutar as ordens do chefe. Ronald já havia se levantado e se dirigia
à saída.
– Como eu disse, vocês estão dispensados, exceto a senhorita Sophia. – falou olhando para Paige.
Como despertada de um pesadelo. Paige se levantou arrastando a cadeira com um pouco de agressividade e saiu sem olhar.
Ignorando os modos dela, Theo iniciou a explicação do projeto e o que o cliente queria. Era uma franquia de uma academia
de ginástica que pedia a elaboração de um grande outdoor para espalhá-lo pela cidade promovendo-a em todos os lugares. A
entrega do trabalho era em apenas alguns dias. Mas, tinha tempo suficiente para elaborá-lo.
A reunião com senhor Trento durou praticamente uma hora e trocamos muitas ideias. Foi objetiva e muito produtiva.
Entendi todos os pontos importantes salientados por ele – por ser o primeiro projeto – e saí sem nenhuma dúvida.
Estava pronta para começar. Mia apareceu no Skype, estava online com o seu celular e conversei brevemente com ela sobre
o assunto.

– Paige está me matando aqui. Não fiz nada para ela e fica me encarando a toda hora. Não quer falar comigo, é
grossa e se juntou com Kate para infernizar a minha vida com piadinhas indiretas.
–Também... O que você esperava? Ela não tinha mudado antes de subir aí? É inveja, filha! Fala para ela procurar um
homem!
– Rs... Vc quer que o teto aqui desabe com uma briga do tipo MMA? Ela já estava chata e agora eu ganho o primeiro
projeto. Ela tá pau da vida.
– Ela deve tá fula mesmo! Rs... Dane-se. Ele que te deu o bendito projeto, caramba! E o seu outro amigo, o que ele
achou?
– Ronald? Ah... Ele é tranquilo. Ele até ofereceu ajuda se eu ficar atolada de trabalho. Sabe como é... Além deste
projeto, têm os outros aqui do departamento do seu amado Richard.
– Amado?!?!?! Ele é o meu gostoso Richard. De amado não tem nada! Kkkkk.
– Kkkkkkkkkk... Só vc mesmo Mia... Deixa-me voltar ao trampo... Bjs.
(...)
Trabalhei com afinco neste projeto. Ronald me ajudava com suas opiniões, mas queria impor e no final acabei fazendo dois
de três projetos como ele achava que seria bom. Eu, por outro lado, fiz um especial de acordo com a minha visão de mercado.
– Sophia? Poderia trazer os três projetos da Body & Life até a minha sala, por favor? – perguntou Theo de sua porta
começando a minha rotina depois de alguns dias.
Levantei-me rapidamente sabendo que o atraso em uma simples chamada da porta não era algo que ele toleraria. Estava
entusiasmada em apresentá-los.
Tinha trabalhado como se o mundo fosse acabar formando três opções totalmente distintas entre si de modelos, mas entre
todos, um era especial – o que não tinha influência de Ronald. Este portfólio tinha a minha marca e coincidentemente (ou não)
era o mais chamativo. Acredito que Theo ao vê-lo aprovaria em um piscar de olhos. Peguei a pasta sobre a mesa que continha
os portfólios e ao passar por Kate sorri. Eu estava contente. Amava o meu trabalho. Ronald havia viajado novamente ontem
para visitar um cliente e não pude ter aquele sorriso de conforto dizendo-me que estaria tudo bem.
– Boa apresentação. – disse Kate, retribuindo o meu sorriso.
– Obrigada!
Pelo menos hoje ela está de bom humor.
Theo me aguardava sentado em sua mesa. Estava muito bonito com seu terno preto. Eu já o tinha visto anteriormente com
outras cores neutras, mas essa cor sobressaltava o branco de sua pele. Aliás, ele tinha presença com qualquer roupa. Seu porte
atlético e sua postura empresarial marcavam cada ambiente onde ele estava.
Antes de entrar em sua sala, respirei para me acalmar. O nervosismo veio em cada passo dado até ali. Era a primeira vez
que apresentaria os projetos diretamente a ele. Quem cuidava mais dessa área era Richard Veneta, meu antigo chefe. Eu sabia
como conversar com Richard e era uma pena ele estar viajando a trabalho, pois tentaria arrancar dele detalhes que pudessem
agradar ao meu novo chefe.
Alguns rumores pelo setor diziam que uma empresa da Argentina queria contratar nossos serviços para uma campanha de
vinho e, por isso, meu amigo e ex-chefe não poderia me salvar desta vez.
– Sente-se, senhorita Sophia. – falou, indicando a poltrona à frente de sua mesa. – Comece quando se sentir confortável. –
apesar de sua educação, suas palavras saíam forçadas e irritadiças. Parecia com algum problema pessoal, deduzi.
Ele estava novamente com aquele olhar intimidador. Como não sentir a pele arrepiar com aquele olhar? Sentia-me a
estagiária mirim diante do mistério daqueles olhos.
Abri a pasta que continha todo o trabalho e peguei o primeiro design em tamanho A2. Queria mostrar os três diferentes
projetos sem parecer apressada ou muito lenta. Este era voltado para um público mais conservador, com cores neutras e fotos
normais de um corpo atlético. Neste, a metade de um corpo feminino deitado e levemente curvado para cima com um fundo
vinho, dava à foto uma leveza. O slogan da empresa contratante ficava na parte debaixo à direita. Ali, o foco era apenas o
corpo malhado da modelo, para dar a sensação de “todos podem ter este corpo, não é impossível”.
Apresentei todos os pontos que chamariam a atenção deste público em específico e Theo não esboçou nenhuma reação ou
fez algum comentário. Apenas, recostou-se em sua cadeira e colocou a mão abaixo do queixo.
Observar e analisar eram sua marca e era o que incomodava a todos. Ninguém sabia o que passava em sua cabeça até ele se
pronunciar. Algumas vezes, era explosivo. Outras não. Ele era uma caixinha de surpresa e eu só saberia no final.
Ao retirar o segundo portfólio, notei que faltava um deles, o mais ousado, o meu. Olhei novamente buscando-o dentro da
pasta. Meus olhos só podiam estar enganando-me.
Eu lembro que deixei todos dentro da pasta.
O suor que até então já tinha desaparecido com o meu nervosismo inicial, voltou com tudo. Aquele suor frio misturado com
o ar-condicionado de sua sala aumentava ainda mais o pressentimento de que eu estava tremendamente ferrada. Minhas mãos
começaram a tremer. Preferi terminar a apresentação do segundo projeto para depois buscar o outro em minha mesa. Tinha que
estar lá.
Theo escutava atentamente toda a explicação sobre o segundo portfólio, porém o meu desassossego aumentou e ele
percebeu.
– Um momento, Sophia. – pediu Theo.
– Sim?
– Aconteceu alguma coisa? – perguntou curioso. – Você está me explicando toda a estrutura montada aqui neste slogan, mas
parece que sua cabeça está em outro lugar.
– Na verdade... Aconteceu sim. Eu trouxe apenas dois projetos dos três que o senhor me pediu. Mas, acredito que o terceiro
esteja em minha mesa. – falei sem certeza.
– Acredita que esteja ou ele está em sua mesa? – perguntou inquisitivo.
– Preciso olhar lá, pois ontem eu tinha colocado os três dentro desta pasta, mas como está faltando um... Não sei...
– Termine a apresentação deste e depois te dou um tempo para trazer o outro.
– Ok.
Recomecei minha apresentação e fiz uma força sobrenatural para não perder o foco. A segunda foto também mostrava o
corpo de uma modelo sem rosto fazendo aeróbica. As cores também eram neutras, mas o uniforme usado era mais colorido
dando um ar jovial naquele fundo cinza de uma fábrica. Sem dúvida, o público alcançado teria uma faixa etária mais jovem.
– Enfim... Estes são os dois projetos. – finalizei.
Theo então abriu a boca para dar sua opinião. Por seu semblante, ele não estava nem um pouco feliz.
– Vários dias! Vários e enormes dias para me apresentar dois projetos que parecem que foram feitos por uma pessoa sem
criatividade que não sabia o que fazer e resolveu mudar o plano de fundo só para dizer que fez dois projetos?! – perguntou
irritado atropelando as palavras. – Vários dias para usar um corpo feminino sem cabeça com um cenário POBRE de cores?
Senhorita Sophia, a Artvt não faz campanha júnior, mesmo quando as empresas são de pequeno porte. Nossas campanhas têm
impacto pelo profissionalismo e autenticidade e você me mostra isso? E este cliente é um dos mais importantes que temos. –
estava irado. – Traga a outra campanha agora.
Fiquei de boca aberta e sem ação. Ele tinha menosprezado o meu trabalho, na verdade o trabalho de Ronald, pois aquilo
nada tinha a ver comigo, mas independente disso não tive coragem de jogar Ronald assim, afinal eu era a responsável pelo
projeto. Mais uma vez estava ali sendo humilhada pela fera.
Campanha júnior?!
Levantei-me sem dizer nada e andei rapidamente para fora de sua sala com os olhos cheios de água.
Não vou chorar. Seu estúpido! Filho de uma...
Kate olhou de soslaio para Paige enquanto eu buscava em minha mesa o último – e quem sabe – o projeto salvador. Mas
nada encontrei.
– Vocês viram algum projeto em minha mesa? – perguntei às duas.
Kate me lançou o olhar esnobe de sempre.
– Obviamente, que não. Não é o meu trabalho cuidar do seu trabalho. Não é Paige?
Olhei irritada para Kate e virei para Paige.
– Você viu?
– Como a Kate falou, não é o meu trabalho cuidar de suas coisas, amor. – sorriu ironicamente.
Idiotas!
– Eu só perguntei. Estou perdida... – falei, colocando a mão sobre a testa.
Já estava com febre. Como voltaria até sua sala sem um portfólio? Ele estava revoltado. A culpa era toda minha. Seria
demitida por ter medo de ousar em minhas campanhas e ceder às opiniões de Ronald. Eu sabia que não eram as melhores, mas
como a Artvt era tão conservadora, pensei que este tipo de marketing seria bem aceito. Ledo engano.
– Senhor Trento? – falei desde sua porta.
– Entre.
Andei até sua mesa. Preferi não me sentar. Queria estar preparada para dar a péssima notícia e receber a demissão com
dignidade.
– Não encontrei o terceiro portfólio. – falei sem rodeios.
– Você não o encontrou ou não o fez? – perguntou encarando-me.
Ahhh... Chamando-me de mentirosa não!
– Não. – falei colocando postura.
Se era para ser demitida, iria sair com a cabeça erguida.
– Como eu disse, eu não o encontrei. Isso significa que eu o fiz sim, porém não sei como ele foi desaparecer de ontem para
hoje. – falei baixo, porém claramente. – Todos os projetos estavam prontos dentro desta pasta que está sobre sua mesa.
– Esta parte eu já entendi. Vou repetir para que você tente entender. – falou rispidamente. – Está faltando UM. E talvez o
único que presta.
– Eu tenho todo o projeto em meu computador, posso trazer em 20 minutos para o senhor. Só precisarei imprimir. Se assim
quiser. – sugeri.
– Sophia, você é nova aqui.
Vai começar... Três... Dois... Um... Sophia você está demitida.
– Sim. – disse resignada.
– Artvt não aceita apresentar projeto depois. Depois significa perder cliente. Cliente não espera. Cliente sempre tem razão.
E o seu cliente no momento sou eu. E você falhou.
– Entendo. Não sei como foi acon...
– Não me interessa. Desculpas para um cliente significam “vou procurar uma empresa séria”. – cortou-me.
Não sabia mais o que dizer, já que ele não me dava a oportunidade de me defender. Calei-me e esperei ele terminar o
discurso.
– Como eu disse, você é nova aqui. E por esta primeira razão, aguardarei o terceiro projeto para ser apresentado em meia
hora. A segunda razão pela qual permitirei que isso passe apenas esta vez é por causa de sua trajetória neste um ano que eu
não estive aqui. O setor de Richard melhorou bastante, mas sei que não foi por causa desta porcaria de marketing que você
acabou de me mostrar. Se você está aqui há um ano, alguma coisa boa deve ter saído, senão já estaria no olho da rua.
Com certeza, seu idiota bipolar.
Theo colocou a mão na cabeça e respirou fundo. Parecia que ia explodir novamente. Seu telefone tocou e ele levantou a mão
pedindo para eu esperar. Estava nervosa e aquele homem novamente estava sendo um bastardo comigo.
– Eu já te disse que estou trabalhando. Não me perturbe. – falava irritado ao telefone. – Não tenho tempo para isso. Estou
cansado já desta palhaçada. – Theo esfregou os olhos e tentou se acalmar respirando fundo. – Você já me ligou três vezes
hoje. Seria possível fazer o favor e esperar o dia acabar? ... Está bem. Obrigado! – desligou o telefone. Theo olhou para mim.
– Estarei aqui em meia hora. – falei e saí rapidamente antes que ele mudasse de ideia sobre a segunda chance ou desse mais
um ataque daqueles. Quem quer que fosse ao telefone estava prejudicando a mim. Sua raiva foi descarregada na idiota
subordinada a ele, ou seja, eu.
Corri para a minha mesa, para pegar o projeto e colocá-lo no pen drive. Precisava ir até o setor de Xerox e impressão e
rogar para passá-lo à frente de qualquer coisa que estivesse na fila.
Kate estava concentrada em seu computador e pude ver um sorrisinho de deboche formando-se em seu rosto.
– Como foi a sua apresentação? – perguntou-me.
– Não encontrei o terceiro projeto e levei um sermão. – respondi triste.
– Séeeerio? – perguntou dramaticamente.
– Você está debochando de mim. – disse irritada. – Por quê?
– Não estou. – falou ironicamente. – Só queria ser uma mosquinha para ver o chefe lindo gritando pelos quatro cantos
daquela sala com você.
– Kate, eu não te fiz nada. Por que é tão babaca assim? – falei calmamente. Minha paciência e educação estavam em um
nível avançado naquele dia, para sorte dela.
– Babaca? Eu não sou babaca... Lamento pelo seu projetinho, mas gosto de uma mudança na rotina aqui, principalmente para
quem se acha a melhor do setor.
Ela achava que eu me sentia a melhor do setor?! Ela tá doida!
– Estou ocupada agora, deixa pra lá. Tenho coisa mais útil para fazer.
Saí correndo para o setor de impressão.
Ai senhor... Que ele goste deste projeto. Foi o único que eu fiz de acordo com o meu gosto e não o que eu achava que a
empresa gostaria.
O setor ficava em outro andar e também era um ambiente grande que abrigava uma quantidade significativa de pessoas.
A dimensão dela era disfarçada por sua divisão em duas partes: a do atendimento e onde ficavam as máquinas.
A empresa tinha uma parceria com uma gráfica local, porém para trabalhos rápidos e relatórios foi aberto este setor. De
acordo com a gerência, isso diminuiria o tempo considerável de algumas atividades.
O balcão era branco e tomava a ponta de uma parede até a outra. Eu conhecia as cinco pessoas que trabalhavam lá, mas
amizade mais forte, eu só fiz com o responsável-chefe, Caio.
Caio era muito eficiente e sabia como fazer o povo trabalhar sem pressão. Seu cabelo azul todo despenteado deixava-o
totalmente emo. Nunca perguntei sua idade, mas dava para ver que era jovem como eu.
Cheguei ofegante até lá. Meu coração estava na boca de tanta preocupação e pela mini corrida feita.
– Oi, Michelle! Por favor, preciso falar com Caio. – pedi a uma das atendentes.
– Olá Sophia. Ele foi ao banheiro rapidinho. Eu posso te ajudar? – perguntou sorridente.
– Eu preciso apresentar um portfólio em 20 minutos ao meu chefe. – falei olhando em meu relógio.
– Hum... E você precisa passar seu projeto na frente desta filinha básica? – apontou para um monte de pen drive que estava
sobre o balcão à direita. Eram pelo menos 30.
– Exatamente. – falei com o olhar suplicante. – Por favor!
– Eu entendo seu desespero, mas todos estes projetos também são para ontem. Só o Caio pode dar este ok. Lamento muito.
Espera ele voltar. – parecia sincera.
– Está bem. Vou aguardá-lo. Obrigada.
Enquanto o esperava, em minha cabeça, analisei cada passo que dei no dia anterior.
Coloquei os projetos dentro da pasta. Deixei sobre a mesa. Fui para casa. Nada se encaixa... Só se alguém entrou na
minha sala... Mas quem?! Eu, Theo, Paige, Ronald, Kate... Sala... FILHA DE UMA VACA! Kate! Ou seria Paige?As duas?
Affff...
Elas pegaram o meu projeto!
Comecei a ficar irritada e impaciente. Precisava levar isso ao meu chefe. Falta de ética daquelas imbecis cheias de si! Não
ia ficar assim não.
Caio apareceu depois de cinco minutos. Seria uma saída rápida ao banheiro, mas considerando quanto restava de meu
tempo, pareceu uma eternidade.
– Caio, pelo amor de Deus! – supliquei.
– O que foi querida? Você já é branca, agora está transparente. Aconteceu alguma coisa? – perguntou preocupado segurando
a minha mão.
– Aconteceu tudo. – falei.
As lágrimas já pulavam dos meus olhos. Caio me levou para um canto para conversarmos com mais privacidade.
– A Kate me sacaneou. Ou foi a Paige... Não sei... Desapareceram com um projeto que eu tinha que apresentar ao meu chefe
hoje. Levei um belo esporro. Quase fui demitida e só tenho 15 minutos para mostrar a ele o projeto que faltou. – desabafei
chorando. – Me ajuda! Passa o meu projeto na frente dos outros. Vou perder o emprego.
Ai Meu Deus!
– Calma, Sophie. Respira fundo. Vou te ajudar. Passa-me o seu pen! Vou imprimir agora. Depois a gente conversa sobre
Kate, está bem? – disse Caio, acalmando-me.
– Obrigada, Caio. Muito obrigada mesmo. – agradeci limpando o meu rosto com as mãos. - Vou denunciar Kate ao meu
chefe.
– Calma, querida. Você vai apresentar este projeto e depois a gente conversa sobre essa menina. Você precisa de provas.
Se você não as tiver, ela vai te processar e aí sim, você estará ferrada, amiga. Você sabe como ela é e a Paige também já tem
uma fama aqui... Então sossega.
Caio tinha razão. Estava fora de mim. Precisava me acalmar e focar em Theo e o portfólio e depois resolver este problema
com aquela vadia.
A impressão foi rápida. E cheguei à sala faltando apenas cinco minutos para a apresentação.
Avistei Kate de sua mesa.
– Avise ao senhor Theo que estou pronta. – mandei arrogantemente. Danem-se os bons costumes. Ela não merecia.
– Olha, querida. Eu não sou empregadinha. Por acaso você não conhece a palavra mágica? – perguntou debochada. – Nem
sabia que ele estava te esperando... Aqui na agenda dele não consta seu nome.
– Ele está? – perguntou Paige de sua mesa curiosa.
Era óbvio que elas pensavam que estava tudo perdido. Elas me queriam fora daqui. Falsas e traiçoeiras.
– Kate. Eu não tenho tempo para brincadeira. Por favor, avise ao senhor Theo que já estou aqui fora. – falei educadamente.
Provarei ao Theo o porquê da empresa ter me contratado. E deixarei essas cobras acharem que estão ganhando.
– Agora sim. – falou rindo de mim.
Affff... Víbora! Um dia o mundo vai girar.
Theo autorizou a minha entrada.
– Sente-se, Sophia. – falou educadamente.
Nem parecia o mesmo homem que a pouco tinha acabado com o meu serviço.
Ele estava aparentemente calmo e concentrado em alguns papéis sobre sua mesa, mas não deixou de sorrir ao sentar-me.
Aquilo me provocou uma sensação de segurança. Acreditei por um momento que o meu portfólio teria alguma chance.
– Mandei imprimir o portfólio e o trouxe para o senhor.
Já que você não acreditou em mim, cretino.
– Então, por favor, pode começar quando quiser.
Iniciei a minha apresentação com muito mais paixão. Aquele portfólio era o trabalho que eu acreditava ser o melhor. Perdi
mais tempo nele porque introduzi o que era relevante da minha arte. A empresa Body & Life queria um produto que atingisse
um público atlético. Não interessava a eles, o mercado consumidor simples, com pessoas normais. Então, criei um anúncio
muito mais agressivo. Era constituído de uma foto de um prédio em construção de mais ou menos vinte andares e um andaime
enorme para dar a sensação de “construção”. Na frente dele, uma grande imagem como um anúncio, mostrava um cara super
bombado malhando os músculos do braço. A intenção era mostrar a construção no âmbito da engenharia civil e o atleta em sua
construção na engenharia do corpo.
Ao finalizar a minha apresentação, orgulhosa de meu trabalho, não me importei se Theo iria gostar ou não. Aquilo era
Sophia Moody. Aquilo era o meu trabalho.
Theo olhou para mim e... Sorriu.
– Eu sabia que não era em vão a sua contratação. – comentou com um grande sorriso desenhado naqueles lábios rosados. -
Parabéns! Excelente portfólio.
– Obrigada, senhor Theo. – agradeci ainda com receio, mas não antes de observar sua feição quando sorria. Ele era
extremamente lindo.
– E afinal? Descobriu o que aconteceu com o portfólio perdido?
– Ainda não. Mas tenho certeza que deixei junto aos outros. Não sou uma pessoa esquecida ou irresponsável. Estou
preocupada ainda com o que aconteceu.
– Sua forma de expressar parece um tanto acusatória. A senhorita acredita que alguém sabotou o seu projeto? – perguntou
sério.
– Senhor Theo, não posso acusar ninguém sem provas, infelizmente. Tenho ética profissional e prefiro não me pronunciar
pelo momento. O importante para a Artvt e para mim, obviamente, é que eu conquiste o cliente, ou seja, o senhor – sorri.
Theo olhou-me com os olhos arregalados com certa admiração. E eu gostei.
– Então, peço que me comunique se acontecer algum problema futuro. Aqui lutamos pela harmonia no ambiente de trabalho
e não gosto que coisas deste tipo ocorram.
– Obrigada. – falei levantando-me com a pasta em mãos.
Theo levantou-se de seu assento e estendeu a mão para mim. Fui surpreendida por esta atitude.
Ao cumprimentá-lo, senti um leve calor percorrer o meu corpo e ignorei aquela sensação. Era somente a alegria de saber
que ainda tinha um emprego e por ele ser bem quente.
É só isso, Sophia.
Capítulo 20 – Surpresa.

Ao sentar de volta à minha mesa, pus o melhor semblante de vitória e não pude deixar de cantarolar baixinho para provocar
aquelas duas. Pena que Ronald não estava presente essa semana para se deleitar com este acontecimento.
– Alguém está muito feliz aqui. – disse Paige.
Fingi que não falava comigo. Tinha muito trabalho a fazer. O próximo passo era arrumar os arquivos no pen drive do Theo e
entregar o trabalho pronto.
– Posso saber o motivo de tanta alegria aqui? – insistiu Paige. – Porque se eu fosse você não ficaria...
– Senhorita Sophia? – pulei da minha cadeira com a voz dele.
– Sim, senhor Theo? – levantei.
– Pode se sentar. – pediu sorrindo, acenando com a mão para minha cadeira. – Apenas quero informar a você que surgiu um
projeto de grande impacto para que você prepare. Só necessito que você me informe alguém aqui da equipe para te ajudar.
Paige ficou paralisada com o ar tão descontraído de Theo e a forma que ele se dirigia a mim – sem aquela armação de metal
em sua postura. E ainda tinha perguntado quem gostaria de trabalhar comigo em um projeto de impacto. Estava sonhando.
Fiquei maravilhada em vê-lo daquele jeito encostado na porta de braços cruzados esperando por uma decisão minha.
– E...? Estou esperando... – falou batendo no relógio em seu pulso.
– Desculpe... Eu... Eu não esperava por isso... Bem... Eu escolho... – seu jeito pegou a todos desprevenidos e eu só
gaguejava. Olhei para Paige e ela estava com uma cara de amiguinha. Ou seria de um cachorro querendo agarrar um osso? Só
de lembrar que segundos antes estava pronta para me provocar...
Falsa demais!
– Bem... Eu agradeço muito ao senhor... E já que devo escolher alguém agora... Eu escolho a uma pessoa bastante
profissional que sei que me ajudará neste projeto seja qual ele for. Eu escolho a... Ronald.
Theo sorriu aprovando a minha escolha.
Que sorriso branco e brilhante! As marcas de creme dental estão perdendo um ótimo garoto propaganda!
– Muito bem. Kate, semana que vem, em primeira hora, avise ao senhor Ronald que ele trabalhará no projeto Biotrônics
junto à senhorita Sophia.
– Sim senhor. – disse Kate olhando de Theo para mim e para Paige.
E assim, ele se foi... De volta à sua sala.
Paige e Kate estavam sérias e atônitas. Era certo. Elas queriam me matar e eu sorri para as duas.
– Isso não é uma maravilha? Como disse o senhor Theo? “Um projeto de grande impacto”. Meu e do Ronald. Estou me
sentindo muito bem. – suspirei voltando à atenção para o computador.
– Posso saber o que você andou fazendo para que ele simplesmente escolhesse você para um projeto sem ao menos reunir a
equipe e ver o perfil de cada um? - perguntou Paige irritada.
– Eficiência. – respondi. – Eficiência, ética e profissionalismo em tudo que faço. Não preciso passar ninguém para trás para
ser quem eu sou.
Toma que é de graça! Vadia!
– O que você quer dizer com isso? – indagou Kate.
– O que você acha? Que o senhor Theo simplesmente me despediria por causa de um projeto que criou pernas e resolver
fugir da empresa? Ele reconsiderou e eu fiz a minha apresentação como deveria. E, como eu disse, sou eficiente. Ele aprovou
e ponto final. – desabafei.
– Você escolheu o Ronald. – disse Paige desdenhando dele.
– Escolhi quem eu considero aqui no mesmo nível que o meu.
– Está dizendo que você é melhor que eu? – alfinetou Paige extremamente exaltada.
– Não. Disse que ele está no mesmo nível que o meu. Se você se acha inferior e por suas palavras você deduziu isso, só
posso lamentar.
Paige ficou espantada com a minha afirmação e levantou de sua cadeira pronta para discutir.
– VOCÊ SE ACHA...
– Ooooooooooi amores! – disse alguém da porta.
A mulher que havia chegado entrou como um furacão balançando corpo, braços e cabelos para todo o lado. Era uma morena
muito alta com pelo menos dois metros de perna. Seu cabelo negro totalmente liso e muito bem cuidado estava solto e seu
vestido florido até o joelho a deixava mais alta. Era linda.
Kate e Paige correram em sua direção e começaram a paparicar aquela deusa como dois cachorrinhos.
– Amigaaaa! Por que você desapareceu? – perguntou Paige abraçando-a. – Nunca mais te vi.
– Ah... Você sabe, não é? Desfiles em Nova Iorque, Paris, Itália... Minha agenda anda lotada. – falava toda pomposa.
– Eu imagino. Você é super linda. Uma estrela! – elogiava Kate.
– Eu sei, Kate... Eu sei...
Como eu estava sobrando ali na babação de ovo, foquei em meu computador para adiantar o trabalho.
– E quem é essa? Nova funcionária? – perguntou curiosa a morena sem nome.
Fingi ignorar o tom de desdém de sua voz. O que as mulheres dali tinham contra mim? Ou seria uma nova mania minha?
Mania de perseguição?
– Ah... Essa aí? É a funcionária mais nova aqui do setor, mas antes trabalhava no Marketing Júnior... – comentou Paige com
o mesmo tom de sua amiga.
– Querida? Oiie, queridaaaa? – chamou a morena.
Olhei sem muita paciência para porta onde ela estava parada.
– Deseja alguma coisa? – perguntei sem ânimo.
Deus! Dai-me paciência!
– Hum... Na verdade sim querida... Qual o seu nome? – perguntou a morena dando-me um olhar desafiador.
Mas que merda é essa?! Ela pensa que é o que?!
– Olha. Estou em uma tarefa aqui muito importante. E ao contrário de algumas pessoas, eu fui contratada para trabalhar e
não ficar de bate-papo. Por isso, por favor, preciso de concentração. – falei voltando a teclar em meu computador. Não estava
trabalhando de fato. Mas isso, elas não precisavam saber. Contava à Mia a palhaçada que tinha acontecido e o que passava
naquele momento.

– Vou vomitar! Chegou a Barbie primavera, só que morena, aki no departamento e qr encher o meu saco também.
– Sério, Sophie?! Fala pra ela ir procurar o Ken ou o Bob rs.. até hoje não sei quem é o namorado da Barbie afinal.

– Mas que mal educada. Quem é essa?! – falou ressentida com Paige e Kate.
– Essa aí Jéssica, é a Sophia. Ela foi contratada pelo Theo e, você não sabe da maior! Agorinha ele deu um belo projeto.
Um projeto só pra ela. Excluindo a todos do setor. E quando eu digo isso, quero dizer um mega projeto. Ele simplesmente
achou que ela merecia e não fez nenhuma reunião para escolher o perfil que melhor se encaixaria. Eu achei muito estranho,
sabe? – falou venenosamente Paige.
Dei uma olhada altiva para ela. Ela estava insinuando que ele me deu por motivos não profissionais.
Filha de uma puta!
– Isso mesmo, Jessie. Nem eu entendi. – ajudou Kate.

– Paige está tentando me tirar do sério, mas não vai conseguir. Está muito irritada pq o chefe não passou o projeto para ela
e eu não a escolhi. A propósito, o nome da mulher aranha aqui é Jéssica. Acho que ela nem precisa de escada para chegar ao
último andar aqui do prédio. Rs.
– Kkkkkkkk! Como vc é má, Sophie! Pelo amor!
– Não sou má... Vc que não tá entendendo o grau da coisa aqui... Elas estão demais hoje e ainda chegou essa q nem sei quem
é para perguntar o meu nome como se fosse a minha chefe?! Vai tomar banho...
– Isso! Manda essa mulher aí tomar banho! Vai! E me fala!
– Filha, vc é quem gosta de barraco, não eu.

– Como assim? O Theo? Ele não costuma fazer isso? – indagou Jéssica.
– Nãoooo! – responderam as duas cobrinhas.
– Vou falar com ele sobre isso. Quero que ele me explique direitinho essa história. – finalizou Jéssica olhando desconfiada
para mim.
– Obrigada, amiga. Queria entender por que tanto poder para uma pessoa só. – disse Paige com cara de inocente. – Eu
estive mais tempo que ela como estagiária. E mesmo assim, foi contratada na mesma data que eu e faz menos de seis meses
que ela tá aqui. Como pode ser?
– Eu é que quero entender – falou Jéssica, entrando na sala dele sem bater.
Ops... Será que ela é chefe de algum setor para ter tanta pompa?!
– Acabou o teatro, Paige? – perguntei ironicamente.
– Que teatro? Só falei o que é certo. Tá tudo muito esquisito para o meu gosto e não estou gostando disso.
– Foi o que eu te falei. Comece a trabalhar de verdade e quem sabe o nosso chefe te dá um projeto de peso. Concorda? –
alfinetei.
Paige me estudou e olhou para Kate que já estava em sua mesa sentada atendendo aos telefonemas.
– Pelo menos, Jéssica agora está com a pulga atrás da orelha. – sorriu diabolicamente.
– Eu não faço nada mais que trabalhar e ganhei a confiança por qualidade e desempenho.
– Eu sou tão boa quanto você. E a namorada dele é minha amiga. Então, fica na sua. – falou irritada.
Namorada?! Ele tem uma namorada? Éeee... Agora entendi o joguinho dela.
– Acredito que o senhor Trento seja uma pessoa sensata e não se deixará levar por emoções e opiniões de pessoas que nada
tem em comum com a nossa profissão. Se ele está ali como chefe, é porque ele entende do assunto. Se ele me escolheu para
este tal projeto, é porque tenho competência. – falei sem rodeios. Mas, senti um sentimento incômodo de decepção e traição.
Ele nunca tocou no assunto sobre namorada. Não que ele tivesse obrigação disso, claro... Ele tem uma namorada...
– Jéssica vai ficar sabendo disso. Ela tem tudo a ver com a empresa. Ela é namorada dele.
– Ela é namorada dele. Você está correta. Mas, ela não é formada em Marketing, Publicidade e Propaganda ou qualquer
coisa do gênero. Ou é? – perguntei esboçando um sorriso.
Só espero que não... Caso contrário minha discussão vai por água abaixo.
– Eu vou trabalhar.
– Que bom que você entendeu o recado. – falei seriamente.
Paige se foi e eu fiquei sem saber se a lindona tinha curso na área. Espero que não.
Idiota!
Passados vinte minutos de paz e silêncio, meu trabalho estava finalizado e pronto para entregar ao senhor Theo. Sabia que
depois, todo o procedimento, como negociação e apresentação do projeto, seria feito exclusivamente entre ele e o cliente.
– Kate, poderia avisar ao senhor Theo que estou com o projeto para lhe entregar, por favor?
Queria mostrar que eu era profissional, mas não tinha vontade alguma de usar as regras mais básicas de educação com essas
víboras.
Kate ligou para Theo informando-o.
– Ele disse que pode entrar. – falou sem olhar para mim.
Não agradeci e fui direto à sua sala.
Ao abrir a porta, Jéssica estava sentada de braços cruzados na poltrona ao lado da dele. A poltrona que eu usaria para
sentar e conversar com ele.
Ótimo. Terei que ficar em pé.
– Senhor Theo. Finalizei as últimas artes do portfólio da empresa Body & Life, aqui estão.
– Muito obrigado. – agradeceu com um sorriso forçado. – Você já sabe como funciona. Eu apresentarei este portfólio e os
que eu não aprovei. E veremos se o cliente aceitará ou não.
– Entendi. Espero que ele fique satisfeito.
– Então, ela fez projetos que você não aprovou e mesmo assim insiste em colocá-la em outro mais importante? – perguntou
Jéssica carrancuda.
– Jéssica, já conversamos sobre isso. Não há necessidade de retomarmos este assunto. Está finalizado. – falou
pacientemente Theo.
Já conversaram? Estavam falando sobre mim.
– Senhorita Sophia, assim que receber mais alguma informação do novo cliente entrarei em contato contigo.
Não podia perder a oportunidade de ver a cara de aquela intrometida ficar mais vermelha de ódio. Ela tinha tentado retirar
o projeto de mim só por causa da Paige.
– Senhor Theo, quero aproveitar a oportunidade e agradecer por esta confiança depositada em mim e no novo projeto. Eu e
Ronald daremos o melhor e tenha certeza que nosso esforço não será em vão.
– Ele já entendeu, agora pode sair. – cortou Jéssica abanando as mãos como se eu fosse um cachorro.
Olhei para ela e meu chefe. Ele me olhou com um olhar cheio de desculpa e vergonha.
Ninguém gosta de engolir sapo, mas era necessário. Não podia mandar aquela metida à dona de empresa para aquele lugar.
Perderia o meu posto. Preferi me calar e sair com o rabinho entre as pernas.
– Como estava falando, senhor Trento, obrigada novamente. – falei frisando bem o senhor Trento. Precisava mostrar a ela
que o assunto era entre mim e ele.
Caminhei em direção à saída e senti uma mão agarrando de leve o meu cotovelo. Surpreendi-me ao ver que era Theo ao
meu lado.
Que rapidez!
– Eu te acompanho até a porta.
– Como é que é? – falou Jéssica levantando-se de sua poltrona.
– Jéssica! CHEGA! – mandou impaciente. Levei um susto com seu quase grito e ela também. Estava com os olhos
arregalados para ele como se não esperasse essa atitude.
Jéssica colocou a mão na cintura e me encarou brava sem dizer mais nada.
Theo me acompanhou, assim como havia dito, e ao chegarmos até a porta balbuciou um “me desculpe” movendo apenas os
lábios. Foi tão baixo que apenas eu pude escutar. Ele não queria mais uma cena. Sorri em retribuição à sua forma tão educada
de tratar a situação que sua namorada mimada provocou. E pensar que alguns minutos atrás, ele tinha gritado e me humilhado.
E eu xingado (em pensamentos) o mesmo homem que agora eu sorria dando-lhe o perdão.
Saí sentindo-me muito cansada. Tudo aquilo me esgotava e acabava com minha energia. Por isso, muitas empresas levavam
a sério a harmonia no ambiente de trabalho. Problemas deste tipo só acarretavam desperdício de tempo e dinheiro, além de
levar alguns à loucura.
Era hora de tomar um café. Muita ação para um dia só.
– Caio, você tá muito ocupado aí? – perguntei ao telefone. – Que tal escapar por cinco minutinhos para tomar aquele café
com sua amiga mais querida? Ok. Espero-te lá na cantina. Beijos.
A cantina era um lugar de encontros entre os funcionários. As paredes eram de cimento e as mesas das refeições tomavam
todo o complexo. Sentei-me em um das mesas quadradas e aguardei a chegada de Caio. Enquanto olhava as toalhas e suas
famosas toalhinhas beges com branco. Além de café da manhã, a empresa oferecia almoço e jantar para aqueles que eu
chamava de sonâmbulos.
Caio me viu desde a porta e me saudou da maneira mais “Caio” que podia, levantando exageradamente os braços e dando
um tchau com as duas mãos enquanto caminhava em minha direção.
– Oi, amiguinha! Você não pegou o café pra gente? Que absurdo! Precisarei rever o meu conceito de amizade, meu bem. –
falou exagerando nas expressões.
Sorri. Ele sempre me fazia sorrir. Amava aquele senso de humor. Poderia tirar um depressivo rapidamente de sua ruim
condição.
– Sem dúvida, sou tão amiga sua que não peguei para não esfriar. – falei dando uma piscadela.
Sem se sentar à mesa Caio olhou de relance para a cantina pesquisando quem estava atendendo no dia. Ele tinha suas
preferências. Dizia, que nem todos da cantina eram tão educados quanto deveriam e somente alguns davam a ele o que ele
pedia de “brinde”, como chocolates e pirulitos.
– Hum... Diante deste argumento, calo-me. Já volto. Vou pegar o de sempre ou você quer algo mais amargo hoje?
– De amargura já basta o povo do meu setor. Eu quero um café bem açucarado e um bolinho de chocolate com muito
recheio. Se não sou diabética, hoje é o dia de mudar isso. – brinquei.
Estava de costas para a cantina e meus pensamentos voavam. Todo aquele tumulto de hoje. Brigas, discussões, perdões tudo
parecia uma novela mexicana. Só faltava eu desabar em choro e puxar os meus cabelos desesperada e completaria um capítulo
cheio de drama.
Theo era tão babaca e ao mesmo tempo tão educado. Aquele dia estava tão irritado e percebi mais tarde que havia
descontado em mim, mas não era eu a causa de sua raiva. Aquilo era uma bomba pronta para explodir, sem dúvida nenhuma.
Uma bomba deliciosa de chocolate.
Que isso que estou pensando?!
– Me conte tudo! – falou Caio depositando nosso pedido sobre a mesa.
Contei a ele tudo o que aconteceu depois que eu saí do departamento de Xerox. Como conheci a miss antipatia e como ela
se intrometia nos assuntos da empresa em prol de suas falsas amiguinhas.
– Ele foi tão educado assim? – perguntou surpreendido.
– Foi. E eu o perdoei na hora, sem remorsos. Como isso é possível?
– Sophie, o senhor Theo é exigente, chato, arrogante quando quer e, diga-se de passagem, na maioria das vezes. Pelo que
dizem, namora essa sirigaita há um tempinho, mas aí eles terminaram e voltaram recentemente. E ele sempre foi muito paciente
e nunca demostrou o contrário na frente de ninguém. É o que dizem as más línguas. Estou totalmente chocado com isso.
– Namora faz quanto tempo? – perguntei curiosa. Será que ele estava com ela quando nos pegamos na boate?
– Parece que faz uns cinco meses, não sei. E ela é modelo de passarela. Então, vive viajando, mas sempre dá um jeito de
vigiar o tesão do namorado dela.
Talvez fosse por isso que Theo estava tanto na defensiva comigo. Ele estava em um relacionamento sério e eu, uma aventura
rápida, poderia ser perigosa. Mas, eu não era assim. Se este era o seu problema. Sabia como me manter afastada dele.
– Essa mulher... Ela estava passando dos limites, Caio. Nem eu teria tanto amor assim. – falei lembrando a cena ridícula
dela.
– Mesmo assim. Ela já fez isso várias vezes e ele sempre se calou ou fingiu que era só uma besteirinha do momento. Sei de
tudo, amiga! Sua vida era um inferninho lá na Itália e agora ela está aqui. Mas, com este jeito que ela te recebeu... Hum... Isso
está me cheirando a ciúmes dela. – concluiu.
– Ciúmes? De mim? Aff... Fala sério, Caio. Não tem nada aqui parecido com ela. Ela é a Superstar, não eu.
– Paige jogou um jogo sujo e ganhou, Sophie. Ela falou tudo que o uma namorada não queria escutar. Ele te deu um mega
projeto sem consultar ninguém. Ele te perdoou pelo projeto que você esqueceu...
– Eu não esqueci...
– Eu sei. Calma, menina! Mas ele é o chefe e para ele você tinha esquecido sim. Enfim, ela fez a imagem que o seu chefe
está caindo na sua. E por sinal, que bofe! Por favor! Deus foi muito bondoso na hora que o esculpiu. Tudo no seu devido lugar.
Sem faltar nem sobrar. – Falou abanando as mãos.
Dei uma gargalhada que ecoou por toda a cantina, já que apenas umas quinze pessoas encontravam-se lá.
Caio riu também e então ficou sério. Segui o olhar dele que estava direcionado a algo em minhas costas.
– Nem pense em virar a cabeça, querida. – falou antecipando o que eu estava por fazer. – A megera está aqui com a Paige.
Ai meu Deus... Nem no café eu fico em paz...
– E ela está vindo para cá. Fique calma e nem pense em perder o seu emprego por causa da cadela, me entendeu? – me
perguntou baixinho.
Apenas confirmei com a cabeça preparando-me para mais um capítulo.
– Sophia, quero falar com você. – falou Paige. Ela ainda estava atrás de mim e não fiz questão de virar-me. Se ela queria
falar comigo, que desse a volta.
– Quer? – perguntei com indiferença.
As duas deram a volta e colocaram-se diante de mim como duas bruxas irritadas prontas para lançar um feitiço a qualquer
momento.
Ergui o olhar encarando as duas com uma indiferença que só podia ser possível graças as aulas de teatro porque por dentro
era um misto de irritação, impaciência e vontade de soltar uns belos palavrões.
Jéssica começou com o escândalo, dando à Paige uma força que ela não tinha. Estava se sentindo a poderosa porque era a
namorada do chefe que estava encobrindo aquela palhaçada.
– Eu estou de olho em você garotinha. Se você pensa que pode subir na empresa dormindo com os chefes da vida, você está
muito enganada. – falou Jéssica, apontando-me o dedo. – Richard pode ser assim, mas meu Theo não é homem disso. E espero
que você segure a sua onda.
– Acha que eu não percebi como você está conseguindo os projetos? Eu estou vendo tudo. – ajudou Paige.
Caio tinha razão. Ela estava com ciúmes e pensava que eu era mulher fácil para tentar alcançar meus objetivos dormindo
com os gerentes por causa da Paige. Eu não podia discutir com ela. Ela era a pessoa que podia me ferrar. Se Theo desse
ouvidos a ela, era demissão imediata.
– Jéssica, eu não sei por que a Paige insiste nessa história. Eu sou apta no que faço. Não preciso e nunca precisarei dormir
com ninguém para ser promovida. Se o senhor Trento me deu este projeto é porque ele confia na minha capacidade. Apenas
isso. – falei baixo e educadamente sem tirar os olhos dela.
– Eu sei o tipo de mulher que você é. – rebateu com aquelas unhas vermelhas apontando em minha direção. – E eu já te
disse. Você não me engana. Não precisa fazer essa voz calminha achando que eu vou acreditar em você. Eu não escutei a
Paige. Antes de ela falar tudo que aconteceu, o Theo já comentava sobre você. E eu vim hoje para conhecer quem era a dona
Sophia que tanto ele falava. Agora, eu vi. Tome cuidado! Não cruze o meu caminho. Você entendeu? – perguntou como uma
onça arisca. Ela falou tanto e eu só prestei atenção em uma parte de seu ataque.
Ele falava de mim todo o tempo?
Sorri sentindo certa satisfação ao saber disso.
– Ficou feliz com isso? – perguntou Paige notando o meu sorriso.
– Fiquei. – respondi não dando a mínima para Jéssica. – Saber que meu trabalho está sendo comentado me deixa feliz ou
isso é um crime? – Ai que mentira! Meu motivo era outro.
– Ele TEM dona! – irritou-se Jéssica.
– Eu não sabia que ele era uma propriedade privada para ser de alguém, mas como as pessoas têm direito a escolhas... Vou
ignorar sua infeliz frase. – falei irônica. – Além do mais, como disse, não preciso de ninguém para subir na empresa. Preciso
apenas do meu esforço no trabalho e... A propósito, não estou à procura de homem, muito menos comprometido. Agora se me
dão licença, vou voltar ao trabalho. Vamos Caio?
Caio até aquele momento não abriu a boca e o nosso café nem foi tocado. Ele sim estava chocado com tudo aquilo.
– Claro. Acho que precisamos sair daqui rapidinho... – falou sem olhar para as duas.
Como uma mulher que não deve a ninguém, saí com o nariz empinado sem olhar para nenhuma delas.
– A gente vai se encontrar muitas vezes, Sophia. Você não vai ter terreno na Artvt. Vou grudar em você igual chiclete. –
falou Jéssica pelas minhas costas.
– Eu não duvido. Sua agenda deve estar realmente cheia para você ter tanto tempo para me vigiar. – respondi sem olhar
para trás.
Caio segurou o meu braço dizendo para eu me calar e parar de colocar lenha na fogueira. Subimos aliviados por elas
ficarem na cantina. O elevador levaria um tempinho até chegar ao meu andar.
– Socorrooo! Sophia! O que foi aquilo? Aquela menina está passando dos limites. Ela pode te prejudicar na empresa se o
seu chefe pensar em escutá-la.
Caio estava preocupado e eu também.
– Eu sei. Mas, não posso me desesperar nem ficar calada com tantas ameaças loucas dessa mulher, você não acha?
– Claro. Só peço para você ficar tranquila e tentar levar de boa até ela esquecer tudo isso.
– Vou tentar...
Vou tentar...
Capítulo 21 – Biotrônics.

O projeto Biotrônics era um desafio para mim e Ronald. Paige nada podia fazer para mudar a opinião do nosso chefe e as
tentativas de sua namorada pareciam não terem dado certo, pois em nenhum momento Theo chamou nossa atenção ou comentou
algo. Também deixei claro a Ronald que ele era meu ajudante, mas que a ideia e como eu procederia seriam feitos da minha
maneira. Não queria passar novamente por aquele constrangimento por causa dele. Constrangimento que não comentei com
meu colega para não se sentir mal.
Quando Ronald me perguntou, só informei que o meu projeto tinha sido selecionado e o agradeci, mais nada além disso. Ele
insistiu um pouco em saber por que o dele não foi e eu desconversei. Depois de continuar perguntando incessantemente, falei
para procurar o chefe e perguntar pessoalmente. Afinal, foi Theo quem escolheu.
Minha proposta de ter pouca interferência neste novo trabalho foi aceita por ele e ajudou bastante na elaboração. Era algo
simples. Uma propaganda para ser publicada nas revistas. A empresa desenvolvia e vendia produtos eletrônicos voltados para
deficientes físicos. Seu forte era a cadeira motorizada.
Paige recebeu alguns trabalhos de Richard e esteve ocupada a ponto de não perder tempo com picuinhas tornando meus dias
mais tranquilos. Terminamos o projeto em tempo recorde. Definitivamente, éramos uma boa equipe.
– Eu e Ronald contra o mundo. – brinquei.
– Excelente frase! – sorriu Ronald.
Apresentamos o trabalho a Theo que elogiou e agradeceu nosso empenho.
– Senhorita Sophia, não se esqueça de que estamos chegando ao final do ano e a festa da empresa se acerca. Todos os
funcionários têm direito a levar um acompanhante. – informou Theo antes que saíssemos da sala. E, claro, Ronald não perdeu
tempo.
– Você já tem companhia?
Pense rápido!
– Sim. Um grande amigo me convidou.
– Amigo? O John?
– Não. Ele seria uma boa companhia também, mas quem me convidou foi... Richard. – menti. Desta forma, não teria como
insistir. Richard era o ex-chefe. Encontrava John esporadicamente na entrada de nosso prédio quando saía ou voltava do
trabalho. Nem sair para correr no Hyde Park saíamos mais. Ele continuava simpático, mas algo mudou em nossa relação e eu
me sentia uma bruxa por usá-lo e cortar um pouco a nossa aproximação depois de nossa quase transa.
– Richard? Nosso ex-chefe? – me olhou com julgamento.
Foda-se Ronald! Contigo é que não vou.
– Antes de sermos promovidos ele havia comentado que me levaria à festa para eu me socializar com todos. – sorri da
forma mais convincente e inocente possível.
– Que pena! Se mudar de ideia, eu posso te levar. – sorriu esperançoso.
– Por que não convida a Paige? Tenho certeza que ela adoraria ir com você.
– Pensarei no caso. – disse com má vontade – Enquanto isso esperarei que você defina se realmente vai com Richard.
– Ronald... Entenda. – olhei seriamente para ele. – Eu vou com Richard. Está tudo acertado. – qualquer resquício de
esperança se foi e Ronald, como sempre, fechou a cara como uma criança mimada. Agora, só faltava avisar ao meu ex-chefe
que ele seria a minha companhia.
(...)
O frio havia chegado sem pedir licença e por causa da chuva forte, ainda estava presa na empresa. Sair pelas ruas de
Londres com aquele temporal era impossível. Após apresentar o projeto a Theo, o resto do dia passou rapidamente e quando
percebi meus colegas já haviam ido.
A porta do escritório de Theo abriu e ele se sobressaltou ao me ver ali tão tarde.
– O que houve? Muitos projetos? – perguntou olhando para minha mesa vazia.
– Não. Estou esperando diminuir a chuva. – respondi.
– Posso te dar uma carona. – sorriu amigavelmente.
– Não é necessário, senhor Trento. – sorri por seu jeito tão fofo. Quando estava sem aquele escudo, ele era tão... Delicado.
– Não seria incômodo nenhum, Sophia. – chamou-me por meu nome. – Eu moro quase ao seu lado. Esqueceu que somos
vizinhos?
Merda! Estava derretendo com aquele jeito. Estava hesitante em aceitar, mas, a chuva poderia nunca passar e eu ficaria
presa por longas horas.
– Está bem. Obrigada.
Descemos até o estacionamento e entramos em seu carro. Era o mesmo volvo, entretanto sem o motorista.
– Este carro é seu ou da empresa? – tentei puxar assunto. Theo ligou o carro e foi manobrando entre aquelas paredes do
prédio até sair da Artvt.
– É meu. Eu apenas requisito um motorista quando vou a eventos onde tem bebida alcóolica.
– Ah! Entendi. – não sabia mais o que falar. Fiquei imóvel no lado do passageiro. Este ambiente totalmente fechado
aumentava a tensão que eu sentia ao estar com ele. Pelo frio, as janelas do carro estavam fechadas ampliando ainda mais a
nossa proximidade. Seu perfume preenchia o ar interno. Era delicioso aquele aroma cítrico misturado à relva selvagem.
Fechei meus olhos sonhando com aquele homem enigmático que me hipnotizou.
– Daria a Artvt por seu pensamento. – tirou-me de meu devaneio.
– Tudo isso? – ri.
– Sua expressão estava sonhadora e... Intensa. Valeria a pena saber o que passa aí dentro. – sorriu daquele jeito que só ele
sabia fazer. Meu corpo começou a pegar fogo e não consegui desviar o meu olhar. Não sei o que passei com isso, mas Theo
precisava prestar atenção à estrada e quase ultrapassou um sinal vermelho por essa distração. Ele também estava conectado e
podia ter atropelado alguém. Levamos um susto com sua freada. – Quase! – sorriu vacilante.
Seu celular tocou e ele se atrapalhou procurando-o no bolso. Olhou o visor e inspirou.
– Oi. – seu tom era baixo. O sinal ainda estava fechado o que lhe dava tempo de conversar. – Eu sei. Saí tarde hoje. Você já
deveria estar acostumada com isso, sempre fui honesto quanto ao meu trabalho. – estava discutindo. Tinha certeza que era com
sua namorada e um sorriso se desenhou em meus lábios. Eu estava adorando seu rosto sério e irritadiço.
Os carros começaram a buzinar e Theo ficou mais impaciente. Acelerou com tudo ainda falando ao celular. Eu comecei a
olhar para fora da janela contando o número de postes que passavam, fingindo não prestar muita atenção na conversa.
– Sim... Estou indo para casa... – pausou e sua mão apertou o volante com força. Estava irritado – Jessie, ela... – olhou para
mim e parou o que fosse falar. – eu já te disse acabei de sair da empresa. Depois conversamos, estou dirigindo agora. –
desligou o celular, omitindo a carona e me olhou sem jeito. Mais uma vez, senti meu corpo tensionar. Mentiu para namorada.
Ele estava me levando para casa e eu gostei.
O tempo da viagem passou mais rápido que eu queria e a chuva forte diminuiu. Seu bairro ficava antes do meu. Estacionou o
carro e me olhou seriamente. Ele costumava fazer isso sempre que ia falar alguma coisa para me deixar igual a uma gelatina.
– Obrigada por me trazer. Não precisava já que agora você terá que voltar.
– Eu precisava fazer isso por você, pelo menos isso. – a intensidade dos olhos azuis de Theo me penetrou como duas facas
afiadas, mas de um jeito bom, ardente. O ar rapidamente deixou meus pulmões e meu coração palpitou. Não era necessário ele
fazer nada para que eu me sentisse assim. Aliás, ele não precisava fazer nada nunca. Este era o efeito que ele causava nas
mulheres só por existir.
– Mesmo assim... Essa carona foi muito bem-vinda. – sorri. Coloquei a mão na maçaneta da porta aprontando-me para
deixar aquele mundinho formado dentro do carro.
– Espere, Sophia. – disse repentinamente.
– Desculpe. – ele balbuciou. Mais uma vez, estava tentando justificar tudo o que passamos, tudo o que ele fez comigo. Olhei
com atenção e sorri. Já não estava mais chateada.
– Águas passadas. – respondi abrindo a porta. – E obrigada mais uma vez. – senti novamente a tensão de Theo esvaindo-se
e ele soltou a respiração como se há muito não respirasse. Estava aliviado. Sorri de volta e fechei a porta. Ainda chuviscava
um pouco.
Neste momento, John saiu do prédio, muito bem vestido com um sobretudo marrom escuro e luvas de couro. Olhou-me com
carinho e soltou o seu melhor sorriso.
Ahhh! John! Lindo como sempre!
Meu vizinho saiu do prédio com um guarda-chuva e chegou até a guarita com teto a dois metros do carro, onde estava
parada.
– Ganhou carona ou é namorado? – perguntou com um sorrisinho maroto espionando o carro. Sorri com petulância. Não era
da conta dele, mas aquele risinho me distraia. Eu gostava de John.
– Carona. – respondi ao final.
– Estava indo comprar algo para jantar no mercado do outro quarteirão. Gostaria de me acompanhar? – olhei para trás e vi
que Theo ainda estava parado com o seu carro ligado. A janela com vidro fumê não permitia ter uma visão dele, mas sabia que
estava observando a nós dois.
Assenti para John e agarrei o seu braço para dividir o guarda-chuva. A chuva forte passara, mas algumas gotas que ainda
pendiam do céu eram grossas e molhavam mesmo. Escutei a porta de um carro batendo. Theo caminhava até a nossa direção
debaixo daquela garoa.
– Boa noite. – cumprimentou a John com uma educação forçada. Ele não me enganava.
– Boa noite. – John olhou para mim ao cumprimentá-lo.
– Senhorita Sophia, eu me esqueci de informar um detalhe sobre o baile da empresa. – olhei para ele curiosa. Poderia ter
deixado isso para outro dia. Ele estava tentando enganar a quem com essa conversa de baile? Obviamente, era para saber
quem era o rapaz que estava comigo. Theo passou as mãos pelo cabelo um pouco úmido e estava tão gostoso daquele jeito. –
Não é permitida a entrada de pessoas que não sejam da Artvt. – anunciou encarando John com um sorriso tenso.
– Ah. – só consegui falar isso.
– Desculpe a minha falta de educação. Meu nome é Theo Trento. Chefe da senhorita Sophia. – estendeu a mão para John.
– John. – apertou sua mão e olhou para mim cinicamente. – Amigo da Sophia. – seu tom dizia algo além de amigo e eu
queria matar John por querer provocar Theo daquele jeito.
– Obrigada, por me avisar. O Richard me convidou. Vou com ele.
– Que bom! Não queria que você tivesse qualquer surpresa ao aparecer com alguém que não foi convidado e ser barrada na
porta. – olhou de mim para John. – Acho que vou indo... Boa noite. – estava relutante em sair de perto de nós. Com a minha
total surpresa, Theo veio e beijou minha bochecha como era costume no Brasil. Mas, definitivamente, não era algo comum ali.
Caminhou até seu carro e eu olhei sem entender para John.
– O que foi isso? Que territorial este seu chefe. – comentou baixinho.
– Ele só veio me avisar. – desconversei. Segurei mais uma vez o braço de John para sairmos até o supermercado.
Assim que o fiz, Theo arrancou o carro fazendo um ruído ensurdecedor e foi embora. John ignorou aquela situação estranha
e puxou uma conversa descontraidamente sobre o seu time de futebol preferido. Escutei suas lamentações sobre como perdeu o
campeonato. Sentia-me bem ao seu lado. Depois de nosso beijo, eu o evitei para não dar esperança, mas John era John. Um
homem deste não precisava de mim. Ele tinha tudo o que queria principalmente mulheres.
– Esqueça agora a decepção do meu time. Como foi o seu dia?
– Normal... Eu acho... – sorri cansada. – Algumas vezes tenho problema com duas colegas, mas hoje elas não estavam tão
animadas para me atormentar.
– Como alguém tem coragem de fazer isso com você? Não que eu não te atormente, mas isso é inconcebível. – disse John
em tom de brincadeira.
O caminho até o mercado era escorregadio e várias vezes segurei fortemente o braço dele para não cair. Meu amigo
zombava todo o tempo ressaltando a minha forma desengonçada de caminhar em solo inglês. Conversamos sobre tudo um
pouco, desde meu dia a dia na empresa até sua carreira como advogado. Com aquela beleza morena dele, deveria ganhar um
mar de clientes.
Compramos as coisas para o seu jantar e notei o quanto John também chamava a atenção. Seu sorriso resplandecia e eu não
parava de sorrir. Sua risada me fazia bem e me tranquilizava depois de um dia cheio de trabalho. O pequeno mercado estava
cheio de jovens que moravam nos prédios ao redor e, assim como John, compravam artigos para a refeição da noite. Um grupo
de meninas se aproximou de nós para cumprimentá-lo. Uma delas, uma morena muito bonita olhava com calor para ele e pelo
abraço que ela deu, colando todo o seu corpo nele, era conhecida.
As outras três acenaram e se mantiveram atrás dela.
– John, meu querido! Você não me ligou. E eu não me esqueci de você. Impossível esquecê-lo, de fato. – falou com a voz
macia. John era moreno, mas a tonalidade de sua pele não conseguiu esconder o rubor que se formou. Ele me olhou sem graça.
Não entendia o motivo de ele estar assim. Analisei melhor a menina e descobri de onde a conhecia, a amiga que estava com
Mia na noite em que nós...
– Gabrielle... É bom te ver! Infelizmente, não tive tempo... Você sabe como é... Meu trabalho me ocupa mais que deveria.
Que galinha! Fiquei com a boca aberta por descobrir que ele...
Como ele sabia o nome dela? Nem foram apresentados. Ainda bem que não dormi com ele!
– Eu sei, baby. Eu entendo. – falou Gabrielle passando a mão sobre o peito de John sedutoramente e fazendo beicinho. –
Mas, quero que saiba que eu sempre arranjarei tempo se você quiser.
Sem pudor. Uau! Achei graça disso e soltei uma risadinha que não pude conter. Este cachorro era rápido. O mais
interessante é que eu não estava com ciúmes, somente perplexa com a rapidez que ele agia. John não sabia mais o que fazer
com Gabrielle e eu resolvi chamar um pouco a atenção.
– John, quer que eu pegue os tomates para a nossa sopa enquanto conversa com sua amiga? – menti. Não havia nossa sopa e
muito menos tomate na refeição que ele pensara em preparar. Sorriu ocultamente para mim.
– Que isso, meu amor. Eu te ajudo!
Amor?
– Gabrielle, não tive a oportunidade de apresentar a minha namorada Sophia.
Ahhh... Cachorrão!
Tentei disfarçar o meu desconforto pela brincadeirinha de John. Gabrielle abriu a boca espantada tanto quanto eu e só
naquele momento ela viu quem estava com ele.
– Você? – me perguntou. – A amiga ruiva da Mia.
– A própria! – sorri. John se acercou e colocou uma mão em minha cintura. Gabrielle continuava sem se mover até que fez
cara de nojo e sorriu friamente cumprimentando-me rapidamente com um aperto de mão.
– Eu não sabia que vocês... Depois... Não sabia que estava com alguém. – disse carrancuda olhando para ele e depois para
suas fiéis escudeiras que esperavam atrás dela. Suas amigas se entreolharam, mas nada disseram e eu resolvi entrar no jogo
para ajudar.
– É porque John não tem costume de falar de sua vida privada, certo baby? – falei agarrando o seu braço. – Agora, se me
der licença... Foi um prazer conhecê-la Gabrielle. Puxei John como se fosse uma namorada ciumenta e o arrastei para a seção
de frutas e verduras.
– Obrigado. – agradeceu com um sorriso bobo. – Ela foi um caso rápido e desde então não me deixa sossegado.
– Eu me lembro dela, John. Você é rápido mesmo! – ri.
– Hey. – segurou meu braço fazendo-me parar. – eu sou homem, Sophia. – seu rosto era inexpressivo. – Precisava
descarregar meus hormônios e ela estava pronta...
– Mas logo naquela noite? Não poderia ser outro dia? – perguntei admirada.
– Não. Não podia. Você preferiu ficar em seu apartamento. Ela me procurou logo quando eu saí e... Do jeito que você me
deixou... Bem... Você já sabe o que eu fiz com ela. – finalizou.
– Tenho certeza disso. – joguei na cara. – Não pense que estou com ciúmes. Aquela noite... Eu... Desculpe-me, John. –
estava sendo sincera. Estava arrependida e melhor momento para me desculpar não teria. – Eu estava mal e você apareceu.
Depois disto, fiquei com medo de perder a nossa amizade e te evitei... Até hoje. Ele me olhou e falou levantando as mãos para
cima.
– Eu sou homem. Você tem toda razão. – brincou. – Ainda bem que não prosseguimos ou você estaria muito mais
arrependida agora.
– Sem dúvida, estaria. – sorri amigavelmente.
Aproveitei para comprar alguns itens de higiene pessoal que faltavam e voltamos ao apartamento. Não vimos mais
Gabrielle pelo mini mercado depois do fora encenado e rimos muito da expressão que ela havia feito.
– Você viu a cara que ela fez? – gargalhava John. – Não sabia que você estava com alguém. – imitou sua voz.
– Você me deve uma por eu aceitar a sua mentira. – falei meio a gargalhadas.
– Que tal jantar comigo, hoje? – perguntou com um sorriso. Olhei em seus olhos e não sabia como negar. Vendo minha
demora, acrescentou. – Não é um encontro Sophia. É apenas um jantar para pagar o favor que você me fez hoje. Além do mais,
eu não cozinho tão bem a ponto de conquistar uma mulher pela boca. – Senti meu corpo relaxar.
– Tudo bem. Quero ver se sobrevivo após comer a sua comida.
Caminhamos por aquelas ruas geladas de Londres até o apartamento.
John me mostrou rapidamente o seu apartamento. Era bem decorado, mas com poucos móveis. A versatilidade de um
apartamento masculino era incrível. Tudo para não ter trabalho na hora de limpar.
Seu estilo era preto e branco. Desde o sofá, até os móveis. A única coisa peça colorida era sua geladeira na cor vermelha.
Um charme.
Ajudei-o a cortar os legumes e preparar o jantar. Foi uma sopa com bastante caldo para aliviar o frio do corpo. Comemos
sentados à mesa e conversamos bastante sobre Londres e sua vida. Contou-me sobre sua infância e seus pais. A hora passou
rapidamente e me despedi feliz por saber que tudo tinha voltado ao normal.
Estava saindo para voltar ao meu apartamento quando John falou de sua porta:
– Viu? Você não morreu com a minha comida.
– Porque eu te ajudei a preparar. Estava de olho. – zombei.
– Sophia, você não tem jeito mesmo. Está terminantemente proibida de entrar em meu apartamento novamente até se
desculpar.
– Uau! Falou como um advogado. – brinquei. – Está bem. Senhor John, espero que aceite as minhas mais sinceras
desculpas. – ele riu de sua porta.
– Sendo tão sincera assim, não tem como não aceitá-las.
Fechei a minha porta feliz.
Éramos amigos novamente e manteria assim até o fim!
Capítulo 22 – Atração?

– Estou morrendo de dor de cabeça – dizia na cantina. Caio e eu antes de irmos para nossos respectivos setores, resolvemos
dar um pulo rápido por lá. Tinha pintado o meu cabelo de loiro claro começando a minha mudança. Cabelo, roupa, tudo! Caio
estava com a aparência cansada. Estava tão abatido que não comentou sobre a nova tonalidade de meus fios o que era
surpreendentemente ruim. Ele era o cara da moda e das opiniões sinceras.
– Aconteceu alguma coisa, Caio? – estava preocupada. Normalmente, era ele o motivo de minhas escandalosas gargalhadas
e hoje estava tão cabisbaixo.
– Meu bofe terminou comigo. – falou com lágrimas nos olhos.
– Ah, Caio! O que eu posso fazer para te ajudar? – disse segurando suas mãos sobre a mesa. Ele balançou a cabeça
contando-me o ponto que culminou o término de sua relação. Ele ganhava mais que seu namorado. O cara simplesmente não
aceitou isto por muito tempo e covardemente arrumou as malas deixando apenas uma carta de despedida na mesa de sua casa.
– Você está falando sério? Pensei que isso só acontecia em meu país! – estava totalmente surpresa.
– Se eu não soubesse a sua opção sexual, Caio, pensaria que vocês eram o novo casalzinho da Artvt. – Paige jogou seu
veneno.
– Por que você não pega essa sua língua e enfia na bunda, bitch? – cuspiu Caio. Da forma que seus olhos se arregalaram
podia jurar que ela tinha acabado de fazer o que Caio havia pedido e comecei a dar as minhas gargalhadas.
– Quem fala o que quer, ouve o que não quer, querida. – imitei-a ao falar querida.
– Vão se ferrar vocês dois sem educação. – continuou seu caminho pela cantina. As pessoas a nossa volta estavam curiosas.
– Não sei como você aguenta essa versão feminina do demônio. – soltou Caio.
– Richard jogou essa coisa que eu chamo de batata quente para o setor do Theo e eu estava no pacote promocional plus. –
ironizei.
– Sorte de Richard e azar o seu! Deus me livre, essa mulher perto de mim. – fez o sinal da cruz. – Sai pra lá belzebu. – ri de
seu exagero, Caio era cômico demais.
– Azar meu é ter o Theo e Paige no mesmo setor. – falei olhando para nossas mãos.
– Você também está como eu... Com uma tremenda dor de cotovelo, não é amiga? – avaliou-me. Não contara nada a Caio
sobre Theo, mas seu maldito sexto sentido não falhava.
– Está tão óbvio assim? – perguntei melancolicamente. Caio apertou a minha mão em sinal de conforto.
– Não, não está. Mas te conheço o suficiente para saber que algum gostosão está tirando o seu sono.
Coloquei minhas mãos sobre meu rosto.
– Que merda, Caio! Preciso te contar uma coisa. – olhei para ele preparando-me para despejar toda a estória desde o
primeiro dia que conheci Theo e como fui parar no mesmo escritório dele.
– Amiga! Estou cho-ca-do! Você pegou o cara mais cobiçado da empresa! Me belisca, me belisca, Sophie! – falava
exageradamente estendendo o braço para mim.
– Isso porque você não viu meu vizinho. Você ficaria doido. Mesmo assim, ninguém supera Theo.
– O Theo é “o” deus da empresa. Não tem uma mulher aqui que não queira abrir as pernas para ele. Até você está! A
diferença é que você já deu uns beijos bem ardentes e...
– Caio! Você esqueceu a parte que ele me humilhou?
– Desculpe. Esqueci. Eu só peguei a parte hot de toda essa bagunça. Só sei que se você pegou, pode pegar de novo. E se ele
quis uma vez, pode querer novamente. Já pensou nisto?
– Sim, claro! Faço planos para dizer um bom dia e ele me olhar com o mesmo olhar daquela noite, daí recordo: ele é meu
maldito chefe e ele tem uma tremenda namorada.
– Verdade, minha querida, mas devo consertar algo que você falou. Ele é seu maldito sexy chefe! – ergueu a sobrancelha. –
Ele gosta de mandar? Imagina na hora do sex...
– Para tudo! Caio, você é uma bicha muito indecente! – ri
– Sou mesmo. É isso que me move. Adoro!
– Peço máxima discrição sobre este assunto. Ninguém pode saber e eu te contei porque confio em você.
– Não contarei a ninguém, mas cuidado, Darling! Aquele seu amiguinho Ronald, com seu jeito retraído, é muito observador
e está muito a fim de colocar o que ele tem entre as pernas em seu corpinho escultural.
– Está bem. Estou avisada.
Despedi-me de Caio. Minha dor de cabeça diminuiu consideravelmente e fui para o setor, pronta para mais um dia.
(...)
– Para que toda essa produção? – perguntou-me Ronald quando cheguei para trabalhar aquele dia. – Namorado novo?
– Apenas sentindo-me bem para colocar uma roupa mais “arrumadinha”. – respondi contente. Desde que minha relação
melhorou com Theo, comecei a ficar mais vaidosa. Mia dizia que isso era sintoma de paixonite e me apoiou indo ao shopping
comigo e gastando até o que eu não tinha com roupas mais sofisticadas e que valorizavam o meu corpo.
– Arrumadinha? Você está uma arrasa quarteirões com este cabelo, com esta roupa. Se eu fosse seu namorado te pegava
agora mesmo nesta mesa. – falou sério. Seu olhar de cobiça, de baixo para cima, me incomodou e notei que mais ninguém
havia chegado. Éramos apenas nós dois.
– Que isso, Ronald! Mais respeito. – sorri sem graça sentando-me em minha mesa como se ela fosse o meu território, minha
proteção. Minha roupa nada mais era que um vestido abaixo do joelho preto reto. Mas estava um pouco mais apertado. E meu
sapato era alto. Não havia motivo para tanto. – Eu não quero saber de namorado. Estou muito bem sozinha.
– Sei o que é ser solteiro, mas não precisamos namorar para praticar certas coisas. – soltou sem nenhum pudor. Olhei para
ele para ver se estava falando sério e engoli um líquido amargo ao ver sua expressão variar de cobiça para desejo. Não
gostei.
– Exijo mais respeito e não estou brincando. Não sou namorada nem amante, muito menos ficante. Portanto, comece a
pensar em suas palavras antes de me dirigir qualquer comentário ou conversa com segundas intenções.
– Calma, Sophia! Não sabe aceitar um elogio? – perguntou seriamente. – Não sabia que você não gostava. Mas, garanto que
se fosse outra pessoa mais interessante não teria tanto problema assim.
– Agora você passou dos limites. Se tem alguma coisa para me falar, fala logo, Ronald. Não gosto de insinuações ou
rodeios. – estava por colocá-lo mais uma vez em seu lugar quando chegaram Paige e Kate tagarelando sobre seus fins de
semana.
Kate virou para dar bom dia a Ronald e me viu. Sua boca abriu e ela trocou olhares com sua amiguinha. Isso porque eu
estava sentada. Além do vestido, lembrei que tinha feito um penteado diferente que valorizava o novo loiro de meus cabelos e
caprichei na maquiagem – que não costumava usar frequentemente. Sua língua coçou e não aguentou, precisava fazer alguma
piada.
– Resolveu gastar o dinheiro da promoção? Já era hora. – falou uma Kate invejosa.
– Algo do tipo. – respondi sem muito entusiasmo. – quanto menos atenção, mais rápido ela me deixaria em paz.
– Ou ela quer agarrar algum bonitão da empresa. – comentou Paige. Encarei-a. Era uma mal-amada mesmo.
– Se eu quisesse, não seria da sua conta, Paige querida. Sou solteira, bonita e brasileira. – fiz questão de enfatizar
brasileira porque sabia que éramos sensuais e objeto de desejo. Valorizei-me mesmo.
– E vadia. – balbuciou.
– Como é que é? – olhei com raiva. – Fale mais alto porque não escutei direito. Se você for mulher suficiente, claro. Se
sabe latir, deve saber morder. – incitei-a. Estava cansada da porra daquela mulher.
– EU TE CHAMEI DE... – levantou-se gritando e parou com os olhos arregalados. Segui a direção de seu olhar e encontrei
Theo parado na porta do setor com sua pasta de mão e celular em seu ouvido. Ele a olhava seriamente e não parecia feliz com
seu grito.
– Tudo bem, Richard. Conversaremos mais tarde sobre estes relatórios, agora preciso desligar. – desligou seu celular. – O
que está acontecendo aqui, senhorita Paige? Escutei gritos.
– Eu... – ela olhou para mim assustada e depois para ele. – Eu estava só...
Termina a frase, vaca!
Ronald que estava impassível ao ver Theo, fechou a cara por um microssegundo e depois suavizou seu rosto.
– Ela estava nervosa comigo, senhor Trento. – salvou-a Ronald. – Eu fui um pouco estúpido com ela e ela descarregou. Isso
não irá mais acontecer.
Filho da puta!
Theo olhou para todos no setor friamente.
– Eu não tolero este tipo de comportamento dentro do meu setor e espero que isso não se repita. Aqui não é lugar para
discussão que não seja saudável. Deixo avisado a todos aqui dentro. – apontou para nós. – se isso voltar a se repetir,
demitirei. Fui claro?
Assentimos com a cabeça e eu estava com tanto ódio de Ronald que assim que Theo terminou de falar, saí do local para não
vomitar de tanto nojo.
Quase sai de meu lugar para dar uma bela porrada na vadia da Paige. Precisava me controlar porque agora queria golpear o
Ronald também. Fiquei irritada demais e resolvi sair da empresa para respirar aquele ar gelado das ruas londrinas. Caminhei
alguns passos tentando me acalmar. Meu olhar estava distante pensando como poderia ter perdido o emprego por causa deles.
Senti uma mão agarrando delicadamente o meu braço.
Ah! Theo!
Virei em sua direção. Ele apenas me encarava. Fechei meus olhos e respirei fundo.
– Hey! Por que estes olhos tristes? – perguntou-me baixinho. Aquela voz rouca e a forma íntima que foram pronunciadas as
suas palavras deram-me uma vontade de abraçá-lo e chorar agarrada ao seu peito. Mas, contar a ele o motivo de minha
discussão com Paige e Ronald acarretaria em um problema laboral e quem sabe uma demissão e não era o meu intuito. Eu
ainda era uma idiota em querer poupar os outros.
– Estou me sentindo um pouco insignificante hoje. Há dias que acordamos assim. Saudade de minha família... Depressão
total. – sorri sem vontade. Não conseguia encarar aqueles olhos azuis avaliadores.
– Então, mostre-me um belo sorriso para eu ter certeza que é só um estado temporário. – sorri com suas palavras e fiz uma
careta de brincadeira. Senti-me melhor, porém continuei olhando para a porta ampla de vidro que dava acesso ao edifício da
Artvt.
– Sophia, quero dizer, senhorita Sophia...
– Pode me chamar de Sophia, Theo. – interrompi. – Não estamos dentro da empresa e não há ninguém conhecido por perto.
– olhei rapidamente para ele e desviei mais uma vez meus olhos. Ele causava uma tempestade em minha barriga. Era tão
atraente a ponto de doer e precisava me lembrar de que ele era meu chefe e não aquele modelão que agarrei na boate.
– Ok. Sophia. – poderia até ter um orgasmo pela forma que meu nome saiu com aquele sotaque meio italiano, meio inglês. –
Sei que começamos nossa relação de amizade muito bem. E a nossa relação profissional muito mal, mas queria que você desse
a volta por cima e mantivesse em mente que... – pude sentir que ele estava com medo de continuar. – Não quero que tenha
medo de deixar transparecer suas inquietações para mim. – respirou fundo e olhei para ele interessada em suas palavras. Theo
parecia calmo e amigo. – Se precisar desabafar... Pode me chamar.
Seus olhos estavam carregados de sentimentos.
– Obrigada. – agradeci querendo dar um abraço e sabia que não o largaria se assim eu fizesse. Os mais tristes pensamentos
me inundaram ao recordar novamente a forma que fui tratada por este homem. Minha mente não me deixava esquecer e meu
coração acelerado não ligava para isso.
Merda de coração traiçoeiro!
– Se você precisar sair mais cedo, eu posso te dispensar agora. – parecia tão conectado com minha dor. Se ele soubesse
que ele era o motivo em tantas formas de minha tristeza. Era Ronald jogando na minha cara, era a sensação que eu sentia ao
estar próxima, era o rancor que me corroía...
– Eu quero, obrigada. Vou esfriar a cabeça e me recuperarei, prometo. – tentei parecer menos depressiva. Não tinha o
direito de me sentir assim depois de ver aquele homem falando tão carinhosamente comigo. Era surreal.
– Se isso te ajuda a melhorar. Você está linda. – Puta que pariu! Ele me elogiou e minha perna balançou.
– Obrigada. – sorri como uma menina... Virgem.
O vento frio balançava o cabelo rebelde de Theo e a franja insistia em cair sobre seus olhos. Enquanto conversava,
repetidas vezes ele retirava aqueles fios e era extremamente sexy como o fazia, jogando-os para trás com as mãos. Cada
detalhe eu observava como um filme romântico.
Prometi a mim mesma que essa bosta de fraqueza que eu sentia por ele precisaria acabar imediatamente. Eu tinha saído do
Brasil para transformar a minha vida e planos românticos ou qualquer assunto deste tipo estava fora de questão.
No men! Sophia! Lembra?
Theo segurou minhas mãos com cumplicidade antes de se retirar.
– Puoi contare su di me. – sussurrou com um ligeiro sorriso. Pelo pouco italiano que eu sabia ele havia dito “pode contar
comigo”. E aquele sorriso deixou o meu dia começar e me desfez como um intenso raio de sol sobre a neve.
Fui embora para casa com uma sensação esquisita. Estava ferrada com o que estava sentindo: atração! E por que ele estava
com aquele demônio da Jéssica?
Merda! Estou apaixonada!
Capítulo 23 – Brincadeira de mau gosto.

O clima em Londres era previsível. Se os telejornais diziam que faria sol, a probabilidade de chover era mínima e desde
que cheguei aqui, eles nunca falharam. Quando chovia eu almejava um meio de transporte diferente das minhas pernas e metrô.
Segura de minha necessidade, saí no sábado nublado e frio com Ann e Danna para comprar meu carrinho. Após ser
promovida, meu salário triplicou fazendo-me dar o luxo de buscar algo acessível ao meu orçamento. Só de não pagar aluguel,
já era sensacional, mas não podia contar que essa situação seria definitiva. Precisava ter cuidado e não gastar mais do que eu
poderia.
Nosso passeio não trouxe resultados e preferi continuar a procura no próximo fim de semana.
– Sei que você está querendo comprar um carro. – comentou Ronald na segunda enquanto tomávamos café com Ann. Eu
ainda estava puta com ele e não o convidei a sentar-se conosco, mas ele não ligava.
Cara de pau!
– Eu sei o lugar perfeito. Se quiser eu te levo lá. – não estava entusiasmada para ir com ele a qualquer lugar. Não seria bom
estar a sós e receber um elogio galanteador. Eu teria que usar a velha frase “somos apenas amigos” e causaria uma cicatriz no
pequeno laço de amizade que eu ainda tentava manter.
– Não precisa, Ronald. – Ann veio em meu salvamento. – Já combinamos que veríamos juntas, não é Sophie? – olhei para
ele e sorri desculpando-me.
– Garanto que Ann não sabe nada sobre carros ou onde estão as melhores promoções. – desdenhou-se dela. Ela o matou
com o olhar e eu precisei intervir para não rolar um bate boca.
– Eu combinei com ela e pretendo seguir com os meus planos. Além do mais, nós não apenas buscamos por carros. Nós
passeamos, fofocamos, ou seja, a famosa saída de mulheres. – concluí sorrindo para ele. Ann me agradeceu através de seu
olhar e revirou os olhos sem que Ronald percebesse.
– Você é quem sabe. – disse ele por fim meio irritado. – Pensei que você tivesse um objetivo com essas saídas. Acho que
me enganei.
Mas que cara chato!
– Algum problema em negar, Ronald? – perguntei já alterada. – É tão simples entender que a minha resposta é não e
obrigada? – Ann olhou para todos os lados da cantina fingindo não prestar atenção em nós. Ele, por outro lado, gostava de
discussão e não se intimidou.
– Entendi perfeitamente seu ponto de vista, Sophia. – falou friamente levantando-se de nossa mesa. – Não a pressionarei
sobre o assunto. Espero que consiga o tão sonhado carro.
– Quem quer comprar um carro? – Theo estava próximo à mesa e escutou a última frase de Ronald.
– A funcionária do mês, senhorita Sophia Moody. – apontou-me Ronald. Seu tom não passou despercebido por Theo que o
olhou com curiosidade e incômodo.
Eu coloquei a mão no rosto e Ann cochichou no meu ouvido:
– Não olhe para o Ronald. Ele está encarando seu chefe. – fiz exatamente o contrário e fiquei boba com aquela perfeição
vestida de terno.
– Senhorita Sophia. – olhou pra mim aquele pecado humano. – conheço um funcionário do setor de cobrança que está
vendendo o seu carro, se quiser dar uma olhada, posso chamá-lo. É um carro popular e talvez seja o que procura.
Sorri timidamente. Era o que eu procurava de fato, mas aceitar sua sugestão diante de um Ronald chato, desconfiado e
arrogante não era uma boa ideia. Porém, como eu estava cagando e andando para ele...
– Seria ótimo. – aceitei.
– Licença a todos. – saiu Ronald pisando duro. Ann riu balançando a cabeça e continuou tomando o seu café.
– O que deu nele? – Theo indagou observando Ronald se retirar da cantina.
– Amanheceu de mau humor. – concluí sem vontade.
Theo se sentou à mesa e ligou para o senhor anotando o valor e o modelo do carro em um papel. Marcou um encontro sem
compromisso entre mim e o vendedor no fim de semana.
– Resolvido. Aqui está o endereço. Espero que seja de seu agrado. – sorriu educadamente. – Nos vemos no escritório.
Senhorita Ann, bom dia. – afastou-se com aquele andar de uma onça elegante e perigosa.
– Seu chefe é lindo. – suspirou Ann. – E tão educado...
– Ah tá! Você não o conhece para falar isso. – ataquei.
– Que isso? Ele não é educado? Porque parecia tão...
– Não. Ele não é. – cortei-a. Agora ele era, mas não antes e eu não gostei do jeito que ela havia jogado seu olhar sonhador.
– Ele é grosso e prepotente. A diferença é que algumas vezes ele tem um surto de educação como este que você viu. É
temporário, acredite.
– Uau! Caramba! Não esperava... – se calou depois de ver minha cara.
– Tanto faz. Estou me acostumando. – sorri tentando disfarçar o meu ciúme. Comi o último pedaço de rosquinha. Eu as
denominava rosquinhas do mal. Como eu ainda não havia engordado, só podia acreditar em magia. Magia negra.
Voltei ao setor para encontrar Ronald e Paige conversando descontraidamente com Kate. Sentei-me em minha mesa para
checar meus e-mails e esfriar a cabeça. Não queria falar com ninguém, muito menos com o trio maravilha. Li alguns e-mails e
um chamou-me a atenção. O remetente era desconhecido e no assunto dizia Sophia Moody.
Abri e ele era enorme. Enorme não pelo conteúdo e sim porque estava recheado de uma única frase uma ao lado da outra:
Sophia Moody, you’re a tramp bitch! Sophia Moody, you’re a tramp bitch!
Sophia Moody, you’re a tramp bitch! Sophia Moody, you’re a tramp bitch!
Sophia Moody, you’re a tramp bitch! Sophia Moody, you’re a tramp bitch!
Mas que merda é essa? Puta vagabunda?
Olhei em volta querendo decifrar quem era o engraçadinho. Ninguém prestava atenção em mim. Mas, uma coisa era certa.
Só podia ser alguém da empresa, pois só as pessoas daqui tinham meu e-mail do trabalho. Salvei o e-mail em um das pastas e
continuei trabalhando. Não era hora para me preocupar com isso. Era uma brincadeira de mau gosto.
Ronald me ignorou todo o dia, porém no final do expediente, baixou a bola.
– Oi. – Chegou até a minha mesa. – Resolveu seu problema do carro? – perguntou com receio. Ri de sua expressão.
– Ainda não. – sorri. Estava em paz com ele. – Vou ligar amanhã para o contato que o chefe passou. Mas, obrigada por
perguntar. – não queria ser grossa. Ronald apesar de ser chato e possessivo, quase sempre demonstrou ser um bom colega,
exceto no dia que ele defendeu a Paige. Dei uma chance para ele.
– Eu prometi não tocar neste assunto... Mesmo assim... Se precisar de alguma ajuda é só pedir.
– Está bem. Anotado! – brinquei.
Kate assistia nossa conversa de sua mesa e escrevia no teclado sem parar. Deveria estar fofocando com alguém sobre mim.
Paige já não se encontrava na sala então desta vez a bruxa era inocente. Ignorei-a como sempre fiz com tudo que me tentava
desfocar do trabalho.
Ronald me apresentou alguns projetos e pediu conselhos sobre como poderia começar. Sentamos juntos e discutimos
bastante até chegarmos ao que ele enxergava. Eu opinava, mas a ideia central era dele, afinal o projeto, desta vez, lhe
pertencia.
Theo entrou falando ao celular e olhou pra mim. Sem parar, caminhou até sua porta e encarou-me novamente. Não conseguia
disfarçar o nervosismo ao mirá-lo e relembrava a noite da boate todas as vezes que me sentia assim. Seu rosto era um enigma.
Será que ele também lembrava?
Coloquei meu cabelo para trás de minha orelha e fingi concentração nas palavras de Ronald. Theo fechou a porta e o
contato visual foi perdido. Podia voltar a trabalhar novamente. Paige retornou ao setor e veio até a minha mesa.
– Oi Ronald. – cumprimentou-o sem se importar com as normas básicas de educação. Ronald a saudou esperando o que
quer que fosse dizer. Ela percebeu a cara de “estou ocupado”.
– Esquece. – disse ela. – Depois conversamos. – Às vezes a via nos olhando, outras vezes trabalhava, entretanto sempre
com um olho aqui e outro em suas atividades. Estava mortalmente enciumada de Ronald. Mas o que eu poderia fazer? A culpa
não era minha, cacete!
(...)
O frio estava com força total na capital londrina e com ele a chuva. O único atrativo, que eu tinha em vivenciar este clima
de fim de ano, era apenas na hora de comprar roupas para a nova estação. O prognóstico do tempo anunciava frio de 23°F ou -
5°C. Ao assistir isso no noticiário, peguei meu celular e liguei imediatamente para Ann e Danna. Combinei de sairmos junto
com Mia para visitar os shoppings da cidade e decidi buscá-las com meu novo carro. Cada uma com sua personalidade, cada
uma especial para mim.
O contato de Theo caiu como uma luva e a compra foi tranquila. Pagaria em várias prestações, mas nada que pesasse em
bolso. Estava contente com o meu novo Audi pretinho. De popular não tinha nada, mas o preço era tão atraente que fechei na
hora.
– E com quem será que a Paige vai à festa? – perguntei a Danna enquanto olhávamos alguns vestidos.
– O Ronald. Ele a convidou.
– Corajoso este rapaz. – comentou Ann. – Ela estava radiante. Só ele que não nota o quanto ela está apaixonada.
– As cobras também têm um coração. – ironizei. – Graças a Deus que Richard aceitou o meu pedido. Só precisei falar que
se ele não aceitasse, seria obrigada a ir com Ronald. Acredita que ele riu da minha cara?
– Sorte a sua ir com aquele tesão. – disse Mia com vários vestidos em seu braço. Ela não ia à festa, mas fez questão de
procurar um para mim. Não confiava em minha decisão e eu já estava acostumada com isso.
– Tesão para você. – disse. – Vocês dois são perfeitos um para o outro. Ninguém é de ninguém! Impressionante suas
capacidades de evitarem qualquer tipo de envolvimento.
– Assim não nos machucamos. – falou Mia sorrindo.
Ela tinha razão. Viver desta forma era bem melhor. Sem preocupações, sem dor de cabeça, sem um coração quebrado.
Passamos um belo dia em vários shoppings. Foi esgotante e custoso, entretanto divertidíssimo com minhas amigas.
Capítulo 24 – O Baile.

A quem eu queria enganar? Troquei de vestido três vezes. A compra que eu fiz, em uma grande grife aqui em Londres, mais
especificamente na rua de Piccadilly, fez um rombo em meu cartão de crédito. Comprei três lindos vestidos longos. Todos
brilhantes e com um desenho e detalhes iguais, diferenciando-se apenas nas cores: um era vermelho, o outro negro e um verde.
E para que? Para ficar estonteante para Theo? Para mim? Para a sua namorada, alertando: “eu sou linda, então cuidado”?
Mia encontrava-se deitada em minha cama devorando um pote de pipoca de micro-ondas analisando-me com aqueles olhos
misteriosos.
– Para de olhar para mim assim, Mia! – disse enquanto experimentava o segundo vestido, o de cor negra. – Apenas comprei
três para ter mais opções em meu guarda-roupa.
– Aham. Tenho certeza que este foi o seu objetivo. – sorriu maliciosamente.
Através do reflexo do espelho a encarei. Então, a fim de confrontá-la, virei para olhar diretamente em seu rosto.
– Mia! Não sei qual é o seu problema. É uma festa da empresa. Uma grande festa. Você queria que eu me vestisse como
uma mendiga ou algo parecido? – ataquei.
Mia levantou sua sobrancelha e tirou do rosto o olhar que estava me matando.
– Não. – falou seriamente. – Você comprou três vestidos porque precisava ver qual seria o mais que perfeito para chamar a
atenção de alguém nesta festa e eu não me atrevo a dizer o nome do gostosão para não te irritar. – desabafou colocando mais
um punhado de pipoca na boca.
Ela sabia, mesmo eu sendo covarde em admitir verbalmente. Era para ele que eu queria estar linda. Somente para ele.
– Mande um alô para o Richard, ok? E diga que ele ainda está me devendo um baile privado. – falou sorrindo, mudando de
assunto.
Rimos juntas e eu prometi não esquecer de lembrá-lo.
(...)
Com o vestido vermelho sangue escolhido especialmente para esta ocasião, não poderia sentir-me melhor. Era belíssimo e
ficou perfeito em meu corpo, marcando cada curva que eu tinha. Era um tomara que caia reto até o joelho e uma fita de cetim
amarrada dava a curvatura necessária à minha cintura. Meus sapatos eram vermelhos do mesmo tom do vestido e me deixava
muito mais alta, pelo menos 1,80m de altura.
Obrigada, Senhor pela pessoa que inventou os saltos de 10 cm.
Para completar o look, coloquei um colar de pedras preciosas na cor de sangue com grandes pedras em formato hexagonal.
A campainha tocou.
– Deixa que eu atendo – gritou Mia da sala.
Enquanto isso, a maquiadora profissional, que eu contratei para “rebocar” o meu rosto, fazia o seu trabalho. Sem dúvida,
estava ficando maravilhoso.
Impressionante como maquiagem profissional faz milagre!
Mia entrou surtando no quarto gritando e abanando as mãos como se morresse de calor.
– Sophieeeee! Você não me contou que tinha um namorado. Estou surtando aqui! Você acabou de receber um buquê de rosas
vermelhas colombianas, minha filha! – falou alegremente.
O quê?
Eu levantei imediatamente da cadeira olhando curiosamente para Mia.
– Mia! Não faz isso comigo. – falei desconfiada. – Isso não tem graça.
– Eu não estou brin-can-do. – rebateu Mia.
Ela falava sério. Foi então que corri para a sala para ver que estória era aquela, deixando a maquiadora irritada no quarto.
Ao encontrar aquele buquê paralisei. Era a coisa mais linda que eu já tinha visto. As rosas eram naturais e enormes.
Estavam abertas e exalavam aquele odor característico que só elas tinham.
– Ai, Mia! Será que foi o Richard que mandou? Eu não sou muito fã dele não. – comentei tristemente.
– Fala sério, Sophie. Ele é mulherengo, mas não é tão romântico assim. Ele gosta é de pegada. Rosas? Até parece. Leia logo
o cartão que veio junto e tire suas dúvidas. Estou curiosérrima! – falou, batendo palmas e dando chiliques como uma
adolescente.
Cartão? Tem cartão!
Minhas mãos começaram a suar e meu coração acelerou.
– Vai logo, mulher! É só um buquê de alguém que gosta de você. Não sei para que tanto drama. – se irritou Mia.
Ao pegar o cartão, que estava dentro de um envelope com a mesma cor das rosas e coincidentemente da mesma cor do meu
look, o abri.

Sophia,
Estas rosas representam você: Delicada, sensual e única em beleza.
Parabéns por seu aniversário (mesmo que atrasado). Divirta-se bastante hoje na Hollyday’s House.

Seu admirador,

– Oh meu Deus! Isso é muito romântico. Seu admirador? – gritava Mia. – Delicada e sensual? Sophia! Você tem um
admirador secreto. Hahaha!
Fiquei parada olhando para aquele pequeno bilhete escrito à mão em letras douradas. Comecei a imaginar todos os homens
possíveis que estariam interessados em mim. Pude contar nos dedos e não gostei de nenhum rosto que veio à minha mente.
– Eu não sei quem poderia ser, mas o fato é: ele trabalha na mesma empresa que eu.
– Sem dúvida nenhuma, amiga. E outro fato de extrema importância é que ele sabe o dia do seu aniversário e tem muito bom
gosto. Até a cor dourada da tinta da caneta, o cara resolveu caprichar. Que chique! – comentou Mia alegremente.
– Não contei a ninguém sobre meu aniversário e... – olhei para ela divertidamente. – Você está mais empolgada do que eu,
parece que foi você quem recebeu as flores. – sorri.
– E estou! Você saiu de um relacionamento problemático com um galinha e agora tem um senhor romântico te mandando
flores. Você não teve festa de aniversário e mesmo assim alguém se lembrou desta data. Quando foi que seu ex te mandou
flores, me diga?
Comecei a rebater àquela crítica, mas a verdade foi cruel.
– Você tem razão. Nunca. Ele nunca nem sequer me deu uma caixinha de bombom da Garoto. – soltei uma risada sem
vontade.
– Dane-se seu ex! Vai acabar de se embelezar porque com certeza esse cara vai estar nesta festa.
Acordei de meu estupor e retornei ao quarto para finalizar a maquiagem.
Trinta minutos depois, eu estava pronta.
Sem qualquer tipo de falsa humildade, eu definitivamente era a poderosa de Londres. Minha autoestima estava tão elevada
que ao me olhar no espelho só conseguia ver a pessoa mais linda e sensual daquele momento.
Richard chegaria a qualquer momento.
Mia ficou parada na porta do meu quarto olhando-me.
– Richard vai enlouquecer ao te ver neste vestido. Cuidado para ele não te agarrar dentro do carro. – falou
debochadamente.
– Ele não seria nem louco. Eu corto o bilau dele fora antes que ele me toque. – ri.
– Se eu fosse lésbica, pegaria você.
– Se você fosse lésbica, não me pegaria porque eu gosto é de macho.
Soltamos uma gargalhada.
Richard era um rapaz muito interessante e não podia negar, mas sua companhia seria estritamente amigável, além do mais,
Mia estava muito na dele e tinha certeza que este casal escondia um do outro este sentimento.
Tê-lo ao meu lado seria a parte mais divertida do meu conto de fadas. Adorava suas provocações e sabia que ele era
desprovido de qualquer sentimento que levasse a uma relação duradoura e fiel, por isso seria um ótimo companheiro para essa
festa e um ótimo caso para Mia.
A campainha tocou, tirando-me da minha autoadoração.
Antes de abrir a porta, dei uma última olhada no espelho atrás dela para me certificar que ali a gostosa era eu e não o
Richard.
– Ora... Ora! Chegou o presidente da Associação dos Galinhas Ingleses! – falei ao abrir a porta.
– Presidente? Isso seria um elogio ou devo considerar o resto de sua frase? – disse Richard, com um sorriso se formando.
Estava de terno preto elegante. – Uau! Dá uma voltinha para eu ter certeza que tudo está em seu devido lugar.
– Muito engraçado, Richard. Eu sei muito bem o que você quer ver. Vamos logo, não quero chegar atrasada. – falei,
fingindo irritação. Na verdade, eu amava suas insinuações. Pena que não era dele que queria escutar isso.
– Baby, chegar atrasada vestida assim só te dará mais crédito, acredite em mim. – falou, dando uma piscadela.
– Ok. – disse, sorrindo – Você é uma comédia.
(...)
Durante o caminho até a Hollyday’s House, conversamos sobre tantos assuntos banais e sem importância que não reconheci
este lado dele. O lado que ele não dava em cima de mim ou de qualquer outra mulher. Desta vez, ele deixou cair sua máscara
de mulherengo por um momento e se comportou como um bom amigo saindo para a balada.
– E aquela sua amiga, hein? – girou seu rosto enquanto dirigia. – Diga a ela que sinto saudade de seu “requebrado”.
– Pode deixar que darei o recado a Mia, Don Juan.
– Você se divertiu aquele dia? – perguntou, sem interesse. – Naquela boate?
As recordações daquela noite vieram à minha mente. Não esperava que uma simples pergunta causasse um redemoinho em
minha barriga. Daqui a alguns minutos estaria próxima a Theo.
– Eu me diverti bastante sim. Sabe como é. Gosto de sair, mas não sou muito de dançar. Meu hobby é observar as pessoas.
– Percebi. Acho que você e Theo dançaram só uma música. – comentou.
Relembrar meu corpo movendo-se lentamente no ritmo da música junto ao corpo de Theo. Jamais poderia esquecer. Não
estava interessada nele na época, mas ignorar aquele homem era impossível.
– Pois é... – desconversei.
– Ainda bem que a “bruxa” não soube que Theo foi àquela balada. Ele estaria “mortalmente morto”. – riu comentando de
Jéssica.
– Eu imagino. Mas ela estava com ele? – olhei para Richard com interesse.
Tudo sobre ele me interessava, principalmente tratando-se de sua vida amorosa.
– Sim. Eles se conheciam, mas acredite em mim: ela não é um exemplo de mulher equilibrada. É possessiva! Ciumenta!
Neurótica! E qualquer adjetivo do gênero.
– Hum... Que coisa.
– Mas, pior que levá-lo a uma balada, seria ela descobrir que ele dançou com uma mulher. Aterrorizante! Uhhhhh! Para ela
o passado conta.
Ri imaginando Jéssica arrancando seus lindos cabelos ao descobrir.
– Não. Pior que isso, seria ela descobrir que essa mulher era eu, uma das empregadas da empresa que trabalha diretamente
com o seu namorado. Ela enlouqueceria. – falei, sorrindo. – Falando nisso, ela irá ao baile?
Richard me olhou com desconfiança.
– O quê?! Ah... Esquece o que eu perguntei! – falei irritada, olhando os prédios passarem enquanto ele dirigia. – Não dá
para manter uma conversa normal com você sem que você pense besteira.
Precisava de uma distração e o ataquei disfarçando o meu real interesse.
– Eu não disse naaaada! Só olhei pra você! – falou, com uma falsa inocência.
– Ah! Tá bom! Me engana que eu gosto!
Depois deste episódio, não consegui obter a resposta sobre Jéssica e não conversamos mais.
Percebi a proximidade do local através da rua que entramos. Estava cheia de carros estacionados.
Ele manobrou o seu BMW até à frente da casa noturna e a visão que tive me pegou desprevenida.
O lugar emanava ostentação e era impossível não notar a elegância do evento.
– Que bom que estou adequadamente vestida. Olhe para este lugar! – comentei surpreendida.
– Todo o ano a empresa procura diferentes locais para esse evento e, acredite, este aqui foi o mais bonito que eu vi até
agora.
Era uma das maiores casas noturnas frequentadas pela elite. Foi decorada somente para esta festa que parecia um evento
“hollywoodiano”.
Acima da porta dupla que dava acesso à entrada, pendiam duas faixas de tecido em forma de triângulo na cor verde,
acompanhada por um tapete de cor vermelha que se estendia da porta até o local onde paravam com os carros. Ao lado do
tapete por todo este corredor, havia tochas com fogo que bailavam ao ritmo da música que saía levemente de dentro da casa.
Ao estacionar o carro, um rapaz com chapéu e uniforme preto nos recebeu com um aceno, abrindo-me a porta do carro
educadamente.
– Sejam bem-vindos!
– Uau! Estou me sentindo uma atriz no evento do Oscar. – falei baixinho com Richard que já se encontrava ao meu lado.
O rapaz retirou o carro de lá e o levou até o estacionamento que era exclusivo para apenas os “grandões” da empresa. O
restante dos funcionários estacionaria apenas nas ruas próximas ao local.
Caminhamos como Super Stars pelo tapete da fama e ao acessar a porta, Richard parou subitamente e me olhou.
– Para sua informação, ela virá. E ela não é mais namorada e sim noiva. Não te contei antes porque... Ah sei lá. – parou sua
explicação. – E você está estonteante com esse vestido, por isso postura e vamos brilhar. – falou divertidamente.
Eu apenas sorri como resposta, certa da desconfiança de Richard, mas não tanto depois que meu chão abriu com a revelação
que Theo estava noivo. Richard parecia incomodado com o noivado de seu primo. Percebi que ele não era tão fã de Jéssica
para ser um novo membro da família.
Será que ele já estaria lá dentro? Será que me veria entrar como naqueles filmes para adolescentes quando a princesa chega
até o baile? De repente, estava nervosa e ansiosa.
O lugar estava escuro. E na entrada da porta havia uma escadaria que levava ao salão principal. O público, ou melhor, os
funcionários já sacudiam seus corpos no meio da pista de dança.
– Vamos descer com cuidado. Você não vai querer levar um belo tombo na frente de todos, ou sim? – brincou Richard. –
Afinal, se não reparou ainda, mais da metade dos homens lá embaixo estão olhando para cá e eu acredito que não são gays.
Ri e falei:
– Ver você caindo seria inesquecível. “O dia que Richard Veneta vai de cara ao chão”.
– Eu cuidando de você e você se divertindo com um possível tombo meu? Ahhh Sophie, você é uma menina muito má!
Ele definitivamente era muito divertido.
Reparei que ele falava a verdade sobre os olhares, porém nenhum deles me interessava. Não destes homens e sim de apenas
um.
Descemos as escadas e andamos de braços dados até a mesa reservada para nós.
O salão era ainda maior quando visto de baixo.
As paredes eram vermelhas e cheias de pequenos espelhos de diversos formatos.
Do alto, pendiam grandes lustres que pareciam gotas de chuvas. Era lindo e hipnotizante.
As mesas – que rodeavam a pista de dança – eram redondas de madeira escura e as cadeiras, que na verdade, eram
poltronas, estavam forradas de couro branco. As mesas que se encontravam no canto possuíam sofás de mesmo material em
formato v para acompanhar o contorno da parede. O enfeite sobre a mesa era lindo.
Mas o que é isso?!
– Rosas vermelhas colombianas? – falei surpreendida.
– Sim. São lindas, não é mesmo? – perguntou, Richard.
Encarei a Richard tentando decifrar o que via em seu rosto, porém ele me olhava sem nenhum tipo de insinuação. Voltei
meu olhar para aquele buquê.
As flores estavam dentro de um pequeno frasco e cada mesa continha pelo menos três delas.
– Quem foi a pessoa responsável pela decoração? – perguntei extremamente curiosa e ansiosa por saber.
– Hum... Não sei te dizer com exatidão, mas foi usado um funcionário de cada departamento para opinar e ajudar. A
empresa acredita que desta forma os funcionários se sintam mais em casa ao saber que suas ideias foram implementadas na
festa de confraternização.
– Interessante. E quem a empresa pegou da área de Marketing? O departamento é enorme juntando os dois setores. Não
fiquei sabendo de nada disso.
– Theo não comentou com você sobre isso? – perguntou Richard curioso.
– Não. Ele não me informou nada. – disse, sentindo-me a excluída.
– Estranho. Ele, como chefe do seu setor, é o responsável em indicar o empregado que fará parte da equipe de preparação.
Esta revelação me pegou de surpresa. Precisava saber quem foi a pessoa que opinou sobre as rosas. Seria meu admirador
secreto? Era muita coincidência. Poderia ser de outro setor também, mas eu não conhecia outras pessoas fora do meu ambiente
que soubesse o meu aniversário. Pensando melhor, ninguém sabia do meu aniversário. Estava me sentindo como uma
adolescente inocente e cheia de ilusões.
Decidi que era hora de contemplar o local para espairecer a mente e esquecer um pouco este acontecido. Avisei a Richard
sobre meu rápido e repentino passeio e saí para dar uma volta pelo baile.
A casa era em formato retangular, sendo que ao fundo havia um grande palco no alto onde se encontrava o DJ – que já
conduzia a festa com músicas para lá de agitadas.
As mesas foram distribuídas ao redor da pista de dança – que também era enorme – assim todos que estavam sentados
poderiam contemplar as danças de cada pessoa que se atrevia a dançar.
Enquanto caminhava vi alguns rostos familiares da Artvt. Porteiros, pessoal da limpeza, gerentes, todos estavam ali e todos
se divertiam.
Parei para cumprimentar alguns rapazes que distribuíam o café do meu andar e um me chamou para dançar. Não pude deixar
de sorrir com a forma cavalheiresca que me convidou.
Quando me vi já estava dançando com cinco pessoas no meio da pista. Duas jovens aprendizes e os três rapazes do café
completavam o círculo. Agitávamos os nossos corpos como se o mundo fosse acabar naquele instante e depois da terceira
canção pedi um tempo para descansar em minha mesa prometendo juntar-me a eles antes de ir embora.
– Depois deste show que você deu na pista, você dançará comigo, certo? – perguntou Richard sorrindo.
– Obviamente, meu caro. Quero ser a rainha do baile. – brinquei sentando-me a seu lado na mesa de canto.
– Acho que você perderá o seu reinado antes mesmo de começar, baby.
– Por quê? – indaguei curiosa.
– Porque a musa da noite acabou de chegar.
Segui o olhar de Richard e da maioria das pessoas que se encontrava próximo a mim.
Do alto da escada encontrava-se Theo.
Eu procurei disfarçar o meu olhar, mas não conseguia evitar observá-lo. Ele estava deslumbrante com aquele terno preto e
gravata borboleta. Não era o único homem na festa vestido assim, mas ele tinha algo que fazia a sua presença ser percebida
onde quer que estivesse. Seu cabelo estava penteado com um topete que acharia muito cafona se fosse de outro homem, mas
era Theo, Theo Trento, e estava insuportavelmente atrativo.
Quando eu comentei sobre sua presença, queria dizer... Não tinha nem palavras para descrevê-lo...
Ao vê-lo entrando, o tempo parou. Parecia que seus movimentos estavam em câmera lenta, como um ator de Hollywood,
elegante e totalmente sexy pronto para conquistar a sua amada.
Posso pausar o filme nesta parte? Por Deus! Que homem é esse?!
Fiquei ofegante. Era inevitável.
Meu coração disparou, minhas mãos começaram a suar, meus pensamentos se embaralharam e minha perna ficou tão
inquieta quanto às borboletas em minha barriga.
Não conseguia disfarçar o quanto fiquei exaltada com aquela visão tão linda ali a apenas alguns metros.
Ele não me viu e isso foi bom, pois pude observá-lo melhor decorando cada gesto e admirando sua maneira de sorrir e
caminhar lentamente naquela escuridão.
Parecia desfilar para mim. Simplesmente não conseguia tirar os olhos dele.
Chegava a ser cômico o que sentia. Era uma sensação que eu desconhecera por tanto tempo e nunca fora tão intensa, porém
muito, muito gostosa.
Quando estava longe dele acabava esquecendo o quanto ele era lindo! Esquecia o seu charme e o quanto ele era ele! Porém,
ao encontrá-lo esquecia até o meu nome... Como me chamava mesmo?
Ahhh...
Não me dei conta que babava até Richard cutucar o meu braço.
– Acorda, menina! – falou sem tirar os olhos da escada. – Tenho que baixar o chapéu! Theo está impecável com aquele
modelito.
– Quem disse que eu estava olhando para ele? – encarei Richard, tentando disfarçar.
– Não estava falando dele, Sophie. Falava da pessoa ao seu lado. – riu.
– Quem? – perguntei curiosa.
Até aquele momento não havia percebido que Theo não estava sozinho. Ele havia chegado com Jéssica – sua noiva – e ela,
obviamente, olhava para todos os lados para mostrar que estava ali para causar impacto.
E causou. Os homens a adoravam, enfeitiçados. Com os cabelos presos em um rabo de cavalo baixo para não chamar a
atenção para seu penteado e sim para o seus dotes femininos, vestia um longo e justo vestido cor vinho até os pés. Era bastante
provocante com aquela fenda até a sua coxa direita mostrando pernas torneadas frutos de intensa malhação, além de ter uma
abertura na cintura. E sua sandália deixava-a mais alta ainda.
Enquanto ela brilhava, meu coração apagava.
– Ela está linda. – comentei sem nenhum interesse.
– Linda? Olhe pra ela, Sophie. Uaaaaau! Theo tem muita sorte. Gostosa demais.
– Não acredito que escutei isso. Sinto cheiro de inveja no ar! – insinuei carrancuda, bebendo uma taça de champanhe de
uma só vez.
A noite vai ser longa!
– Ouch! Vai com calma, não quero ninguém vomitando no meu carro. Mas, voltando ao assunto anterior e motivo pelo qual
sinto que alguém vai terminar com as bebidas da festa – falou zombeteiro – Theo é meu primo. Não pegaria a namorada dele,
mas apreciar nunca foi proibido. Eeeee... Sou eu que estou sentindo cheiro de ciúmes aqui, você não? – brincou.
– Richard, sinceramente? Por que você não vai à...
Não consegui terminar a frase.
– Boa Noite, Richard. Boa Noite, Sophia. – falou aquela voz que sempre despertou em mim tudo de bom.
Congelei. Derreti. Acho que os dois, não sei. Lentamente, levantei a mirada com medo de passar tudo o que eu sentia
naquele momento: desejo, luxúria, ambos talvez.
– Boa noite, Sr. Theo. – falei da forma mais educada e formal que pude, porém minha voz saiu como um sussurro.
Um erro e ele saberia o que passava pela minha cabeça. E garanto que todas as imagens que passaram não eram para nada
inocentes. Nem sei se ele escutou o meu cumprimento, pois fiquei sem fala só de tê-lo tão próximo. Esse homem era sexy
demais! Como era possível que eu morresse e ressuscitasse sempre quando olhava em seus olhos?
– E aí, Theo? Puxa uma cadeira e senta aqui conosco. – sugeriu Richard.
Senti um par de olhos em mim, vigiando-me e não era da pessoa que eu queria. Onde estava a noiva dele? Tinha certeza que
era ela que estava causando este desconforto.
– Seria uma agradável companhia tê-los comigo, mas Jéssica já tinha combinado em sentar-se com algumas de suas amigas.
– se desculpou educadamente sem tirar os olhos de mim apontando para uma mesa que estava mais à frente, não muito
próxima, porém não muito longe para evitar qualquer olhar à distância. Como eu faria para não sentir o desejo de espiar
àquela mesa?
Vou morrer. Vou morrer. Vou morrer. Por que ele continua olhando pra mim?
– Entendo. E onde ela está? – perguntou Richard, procurando pela deusa da noite que desapareceu rapidamente de minha
vista. Ainda bem, ninguém a queria por perto. Apenas os homens sedentos por uma boa noite de... Afff... Deixa pra lá.
– Ela quem? – perguntou Theo distraído.
Richard soltou uma risada de leve, tirando Theo e eu de nosso transe.
– Bom. A noite só está começando e meu organismo está pedindo por alguma bebida destilada. Acho que vou buscá-las
para nós, você quer alguma coisa, Sophie? – perguntou com um sorrisinho nos lábios.
Ele só podia estar brincando comigo! Vou matá-lo.
Ele se levantou e desapareceu na escuridão rumo ao bar que ficava do outro lado da casa noturna sem ao menos me dar a
oportunidade de negar. Filho da puta!
Vi Richard caminhar como um foguete para bem longe de nossa mesa. Se ele pensava que se safaria dessa, ele estava muito
enganado.
– Sophie? – disse Theo – É assim que ele te chama? Não sabia que estavam tão íntimos assim.
Mas o quê foi isso? Ciúmes? Curiosidade? Difícil decifrar.
– Richard é sempre muito carinhoso comigo. – disse.
Theo ergueu as sobrancelhas e eu rapidamente me expliquei.
– Não, não é o que parece. Ele se tornou um grande amigo e preciso te contar um segredo. – balbuciei como se alguém
pudesse escutar. – Eu o odeio com todas as minhas forças. – ironizei.
Ele sorriu. Sorriu daquela mesma maneira que fazia qualquer mulher beijar os seus pés. Que as fazia suplicar por aquela
boca.
Por favor! Sophia! Pare de babar, criatura!
– Richard consegue despertar o pior que existe nas pessoas – brincou.
– Verdade. Enquanto que outros conseguem despertar o melhor. – soltei sem querer. Quando vi já tinha falado.
Merda! Que foi isso?!
– Como? – perguntou com um olhar firme e curioso, erguendo a sobrancelha.
– Eu... Eu... – gaguejei.
– Theo? – uma voz feminina o chamou.
Jéssica nos surpreendeu com tamanha rapidez e silêncio com que apareceu em minha mesa. Em segundos estava parada ao
lado dele como uma sentinela.
– Sonia? Este é o seu nome, certo? – falou Jéssica.
Como ela chegou tão rápido? Ela estava a quatro mesas longe de nós. E ela sabia o meu nome, inclusive já nos conhecíamos
da empresa. Falsa!
– Meu nome é Sophia!– disse, mostrando o meu melhor sorriso. – Jéssica? Ou estou enganada? – falei no mesmo tom de
desdém.
Mais conhecida como a vaca top model arrogante.
Se Theo sentiu ou não o clima, não demonstrou, era tão reservado que chegava a irritar.
Com a cara amarrada, entendendo o meu recado de “não sou sua amiguinha” - ela se virou para Theo, colocando suas mãos
em volta de sua cintura. Estava demarcando o território.
– Amor! As meninas estão esperando. Você não vem? – fazendo uma voz melosa.
– Pensei que somente as pessoas da empresa podiam comparecer à festa. – falei olhando para Theo e cortando o patético
show dela. Ele ficou desconcertado e sorriu.
– Claro que não. Todos os funcionários podiam trazer até dois acompanhantes. – falou Jéssica.
– Devo ter me enganado, juro que escutei alguém me dizendo o contrário. – meus olhos não saíram de Theo que ficou cada
vez mais vermelho. Mentiroso!
– Amorzinho! Vamos? – grudou nele novamente.
Aquela situação era irritante. E Theo percebendo o que sua noiva estava fazendo se desvinculou delicadamente daquele
abraço para deixar o ambiente menos pesado. Olhou pra mim e para o lugar onde havia ido Richard.
Cadê aquele infeliz?
– Senhorita Sophia – se dirigiu a mim sem graça – espero que desfrute da festa junto com Richard. Procure não odiá-lo
tanto. – brincou, com um sorriso maroto.
– Pode deixar. Vou tentar. – sorri sem graça. Ele nem olhou para meu vestido. Também, a mesa tampava tudo. Mas hoje
ainda mostraria os contornos de meu corpo àquele mentiroso.
E assim, ele se foi. E junto com ele o meu coração dolorido, por querer algo que não era meu.
Depois de alguns minutinhos, Richard voltou à nossa mesa com duas taças cheias de alguma bebida colorida e dei as boas
vindas. Precisava lembrar que estava ali apenas para fazer um social com as pessoas da Artvt e não para conquistar ninguém.
– Demorei muito? – perguntou Richard com um interesse fora do normal.
– Posso saber por que o senhor saiu daquele jeito? Ninguém notou qual era o seu propósito. – falei rispidamente,
levantando os meus braços para cima – Para piorar, a vad... Quero dizer... Jéssica esteve aqui como um gavião pronto a me
atacar.
Richard pôs as mãos no peito com um exagerado drama.
– Eu sou inocente. Eu só fui pegar bebida para nós dois. E não é uma situação tão estranha assim, já que vocês dois
constantemente estão lidando com assuntos da empresa. Não entendo o porquê de tanta irritação.
– Richard, não se faça de ofendido. Tive que aguentar a investida da noiva do meu chefe sem mandá-la para aquele lugar ou
perderia o meu emprego. – falei gesticulando demais.
Richard parecia me estudar tentando decifrar um enigma.
– Qual é o seu problema? – indaguei irritada.
– Não te deixarei mais sozinha. Não sabia que isso te chatearia tanto. Desculpe. Era só dizer que não conseguia viver sem
mim e eu não arredaria o pé daqui.
Ali estava o rapaz brincalhão que eu conhecia. Dei um soco em seu braço e ri.
– Pelo menos você é divertido, caso contrário, estaria sozinho aqui nesta festa. – sorri.
– Sozinho jamais, mon amour. Falando em sozinho, onde está Mia?
Galinha, sempre galinha.
– Ela está em um lugar seguro, bem longe de você.
– Assim você maltrata meu coração. – falou fingindo um choro. – Me diga somente algo que ela gosta e nunca mais te
perturbo com isso.
– Richard, sem chance. Estou protegendo o coração dela e não o seu. Você é um galinha de carteirinha. Eu seria uma
péssima amiga ao jogá-la em seus braços. – falei segurando um riso.
– E o que eu preciso fazer para provar que sou um homem de honra? Já sei! Que tal uma dança inocente? Posso provar a
você que se eu fosse galinha, nem você escaparia de minhas investidas. – disse encarando com aqueles olhos castanhos cor de
mel.
– Ok. Vamos antes que eu me arrependa, mas nem se você quisesse, não teria chance comigo. Acho que viraria lésbica.
– Uaaaau! Dessa vez você pegou pesado. – fingindo-se ofendido.
Este cara deveria ser ator! Tá perdendo dinheiro.
Richard se pôs de pé e, como um cavalheiro, estendeu o braço para ajudar-me a levantar. Caminhamos até o meio da pista,
onde já se encontravam pelo menos uns 25 pares de pessoas dançando freneticamente.
Dançamos vários estilos de músicas ao estilo Asher, country music até chegar a hora mais constrangedora da noite... O
bendito DJ fez o favor de colocar uma música lenta.
Richard não perdeu a oportunidade e me abraçou pela cintura. Não sabia onde colocar minhas mãos. Sem muito que fazer,
as estendi e pousei em seus ombros.
– Não fique tão emocionada assim, baby. – brincou falando em meu ouvido.
– Vai se ferrar, Richard. – respondi um pouco ríspida.
– Ui. Temos alguém nervosa aqui. É só uma dança, não tem nada demais nisso, ou tem?
– Não é isso. Sei que você é um amor e me respeita. Só que música lenta é para namorados ou casos potencialmente
românticos. – expliquei olhando em seus olhos.
– Sophie! Sophie! Se assim fosse, não teríamos o casal da noite, Theo e Jéssica, sentados observando a nós dois. Eles
estariam aqui dançando, concorda?
O quê?! Eles estavam olhando para cá?
Entre as pessoas que dançavam, consegui dar uma ligeira olhada até onde estavam e confirmei o que o Richard havia
falado.
Como força ou maldição do destino, meu olhar cruzou com o do Theo imediatamente e não pude deixar de sorrir por saber
que ele estava me observando. Ele estava sentado conversando com o grupo de amigas de sua noiva e bebendo vinho, porém
seu olhar estava fixo em mim e em meu corpo. Ele notara meu corpo e apesar de seu grande esforço sempre mantinha aquele
mar azul de seus olhos em minha direção.
Aproveitei o momento que sua noiva fofocava com suas amigas e sorri o melhor dos meus sorrisos para Theo. Não era
ingênuo, não era doce. Era sensual, atrevido e até indecente.
Theo não esperava isso e pude contemplar o desconforto dele quando o vi agarrando o guardanapo para limpar a bebida
que caiu em sua roupa ao se engasgar. Adorei saber que fui imprevisível. Virei para o Richard e disse:
– Richard! Diz-me uma coisa. Você e o Theo naquela noite da balada, estavam lá para pegar mulher?
– Obviamente, minha cara. – respondeu naturalmente. – Mas, por que essa pergunta?
– Inclusive o Theo? – olhei surpresa para Richard.
– Ele sim. Na época era solteiro ora. Ele não faria se fosse hoje. – concluiu. – Ele é o politicamente correto. Também, com
aquela namorada gostosa, duvido que ele tenha olhos para outra pessoa, apesar dela ser um pouco possessiva... – falou
pensativo.
Se ele tinha ou não olhos para outra pessoa eu não sei, mas hoje ele me notou e eu correspondi. Talvez amanhã, eu esteja
vivendo de seguro desemprego. Se é que existe isso aqui na Inglaterra.
– Possessiva, arrogante, chata. Posso denominar vários adjetivos aqui. – comentei.
– Tudo bem. Mas, a verdade é que ele é honesto demais. Ele só ficaria com alguém se terminasse primeiro o
relacionamento.
– Ela é uma mulher de sorte. – falei mais para mim que para ele.
Dançamos mais uma canção lenta em silêncio e nos sentamos novamente.
Voltamos para a nossa mesa.
Estava exausta e feliz. Feliz por deixar a minha marca. Definitivamente, marquei a minha presença apenas com um sorriso.
Poderosa!
Aproveitei este momento de satisfação para procurá-lo mais uma vez com os meus olhos. Sem dúvida, hoje era o dia da
provocação. Senti o gostinho e não queria deixar passar outras situações.
Acho que eu estava bêbada.
Sophia, o que você está fazendo?
Richard falava abobrinhas o tempo inteiro e já estávamos “altos” com tanta bebida que ingerimos. Perdi até a conta de
quantas taças passaram por nossa mesa. Estava na hora de confraternizar com as outras pessoas.
Deixei Richard sozinho, pois o rapaz já estava de paquera com uma loirinha do setor de Recursos Humanos que estava do
outro lado do salão. Não queria segurar vela nem empatar a vida amorosa do meu amigo Don Juan.
Resolvi começar com as mesas do outro lado do salão, visitando uma por uma para conversar e conhecer melhor cada um
que fazia parte daquela grande família. Afinal, manter uma boa relação na empresa era essencial.
Conhecia o nome de muitos que via apenas pelos corredores. Escutei suas histórias, como entraram na empresa, ri com suas
piadas e me senti em casa ao lado deles. Eram pessoas simples e sem dramas. Isso sim era diversão!
Ao chegar à mesa dos diretores, fiquei um pouco receosa se seria bem-vinda, porém fui recebida com sorrisos e elogios
desde o meu vestido até como a empresa ganhou com a minha chegada.
Senti-me a rainha naquele momento. Receber um feedback como aquele era importantíssimo. Uma coisa ou outra: era real
ou eles estavam bêbados! Procurei não pensar muito nisso.
Encontrei a mesa de Ronald. Passei rapidamente por ela cumprimentando aos dois. Paige estava muito bonita. Ela se irritou
com a exagerada atenção que Ronald me dava com o olhar. Eu não quis prejudicar sua noite e saí correndo dali.
Estava quase acabando a minha ronda quando avistei a mesa de Theo. Faltavam apenas cinco mesas e a dele era uma delas.
Ao me aproximar, Theo me viu e sorriu. Seus olhos se cravaram em meu corpo e sua boca abriu levemente surpresa. Pude
notar através daqueles olhos a admiração e inquietude. Sua tentativa de desviar o olhar era inútil. Eu tinha total atenção de
cada movimento e expressão sua e poderia afirmar que ele estava babando.
Ao perceber a quem aquele sorriso era dirigido, Jéssica me olhou e juro que senti uma bala entrando em mim. Estava me
metralhando sem piedade. Sabia que eu havia me vestido para impactar e ela, como mulher, não gostou nada. Levantou-se e
agarrou a mão de Theo arrastando-o para a pista de dança.
Parei de caminhar e os observei dirigindo-se até a pista.
Nem deu tempo de chegar até sua mesa. Ela já o tinha levado deixando suas amigas lá. Aliás, amigas da onça. Será que ela
não percebia que aquelas mulheres queriam algo com o Theo? Não tinha amizade nenhuma ali. A forma como elas babavam.
Por favor!
E eu com isso?! Ora... Eu também estava babando!
Pelo menos, eu não era tão falsa em me passar por sua amiga.
A situação não poderia ficar pior. Sair de fininho seria o ideal, porém não poderia ignorar aquela mesa. Elas perceberiam.
Esforcei-me para terminar o pequeno trajeto até lá e senti como as minhas pernas ficaram tão pesadas de repente.
– Olá, meninas? – cumprimentei-as com um sorriso.
Eram quatro vaquinhas no total. Ao chegar, percebi como se entreolharam e com um acordo silencioso falaram em uníssono
e com má vontade.
– Oláaaa!
O que eu estou fazendo aqui? Alguém atire em mim, por favor?
Continuei de pé para dar o fora o mais rápido possível e ninguém me convidou a sentar – graças a Deus. Não evitei cruzar
os braços. Não sabia o que fazer com as minhas mãos e diante daquela circunstância, não estava conseguindo simular tanto
assim. Queria vomitar.
– Estão gostando da festa? – perguntei, fingindo interesse em suas respostas.
– Obviamente. Theo sempre nos convida para a confraternização e nunca perdemos por nada. – disse arrogantemente uma
morena de cabelos lisos loiros e olhos verdes.
– Exatamente. Adoramos uma balada seleta como essa. Não é para qualquer um. – falou uma outra loira oxigenada. – E
você? Como conseguiu entrar?
Opa! Eu escutei bem? Ela quis dizer o que com “conseguiu entrar”? Duvido que ele as tenha convidado. Isso é coisa da
noivinha dele, mas tudo bem. Vamos deixar pra lá.
Preferi ignorar a provocação.
– Ao contrário de vocês, esta é a minha primeira confraternização. Estou adorando. – disse, tentando manter uma conversa.
Depois de alguns segundos de constrangimento, falei:
– Então é isso aí, espero que continuem desfrutando da festa. Tchau – falei, tentando fugir daquelas cobras, mas não antes de
escutar...
– Dá para perceber que está gostando, não tirou os olhos do Richard. – falo uma asiática de cabelo curto.
Suas amigas riram baixinho. Elas ainda estavam me provocando.
– Desculpe? Não entendi. – perguntei encarando.
– Foi isso mesmo que você entendeu. Todo mundo viu vocês se agarrando na pista. É uma pena que ele não é de ninguém.
Aliás, os únicos homens de verdade desta festa, são ele e o Theo. Mas um já tem dona, não é? – encarou-me.
Uma coisa era brigar com noiva do meu chefe, outra era com desconhecidas. E eu dou um boi para entrar e uma boiada para
sair de uma boa discussão. Quem era ela para achar que podia falar assim comigo? Ah tá!
– Primeiro, japona. Ou seria chinesa? Tanto faz... – desdenhei abanando minhas mãos no ar. – Vou deixar uma coisa bem
clara aqui. Eu não estava me agarrando com ninguém e se estivesse seria com um cara gostosão e totalmente disponível no
mercado como o Richard. Porém, como vocês querem me provocar e não sei o porquê disso, só preciso dizer uma coisa:
Todas vocês, deixem de falsidade e parem de cobiçar o noivo da sua amiga. Todo mundo aqui percebeu que vocês querem
levá-lo para a cama, então, antes de insinuarem qualquer coisa de mim, tomem vergonha na cara e tentem manter as pernas
fechadas por uma noite, ok?
Pronto. Falei. Vacas!
O semblante delas passou de assustado para irritado de um segundo para outro.
Na mesma hora, a japonesa levantou querendo fazer uma cena.
– Eu sou japonesa, engraçadinha. – falou um pouco alto demais apontando o dedo para mim. Que bom que ela estava longe
porque quebraria aquele dedinho em um piscar de olhos.
Continuou dando o seu showzinho.
– E não venha com esse papinho. Richard nem é para você! Olhe pra você e olha pra mim, querida! – falou apontando para
mim e depois para o seu corpo.
Ah... Então se tratava disso. Ela era afim dele. Pedi para elas fecharem as pernas e ela só quer saber de discutir sobre o
Richard?
Achei graça disso.
– Não sei o que é tão engraçado pra você – falou irritada.
– Nada. Tenho uma festa para curtir, então não me encha o saco e pegue essa sua dor de cotovelo e enfia você sabe onde,
sua recalcada.
Saí rebolando como se fosse o último brigadeiro da festa. Não escutei mais nada para não acabar sendo expulsa da casa
noturna após dar um bom soco de direita naquela carinha asiática. Que bom que as outras preferiram ficar quietinhas.
Sentei novamente esperando Richard e observei o casalzinho dançando. Jéssica grudava seu corpo ao de Theo e o beijava
no pescoço possessivamente. Senti meu estômago embrulhar e continuei bebendo cada vez mais. Theo algumas vezes me
olhava, mas evitava ao máximo. Não sei se estava confortável. Eu não estava. E estava puta da vida em ver aquilo. Ela falava
em seu ouvido e ele assentia com um sorriso contido. Suas mãos nunca saíam da cintura dela.
Que merda é essa?! Tenho que sair daqui!
Richard chegou à mesa, cheio de histórias para contar sobre a loirinha do RH e o banheiro masculino da casa noturna. E lá
fui eu escutar suas aventuras. Ele pensava que eu era homem para ouvir tudo aquilo? Se ele soubesse que uma das vaquinhas
estava interessada nele, era bem capaz dele parar e sair correndo pra lá dar “uns pegas” nela.
Ele merecia coisa melhor. Preferi não comentar o acontecido.
Pedimos mais algumas bebidas e percebi o quanto a japonesa me fuzilava. Precisava mostrar a ela quem mandava ali.
Levantei a taça para ela e sorri vitoriosa. Ela desviou o olhar e era notória a sua raiva.
Pedi a Richard que chegasse próximo para eu comentar algo em seu ouvido.
– Preciso de um favor. Quero deixar um rapaz com um pouco de ciúmes, tem como você fingir que está me cantando, pelo
menos por uns 10 minutos? – perguntei, com a cara de sapeca.
– Será uma honra! – falou com um sorriso malicioso no rosto.
Colocou a mão direita atrás de minha cadeira e continuou contando coisas que ele fez com a loirinha, porém sussurrando em
meu ouvido como se declarasse o seu amor por mim. E o melhor de tudo, era que Richard não queria saber quem era o cara
que eu estava querendo provocar. Ele adorava uma brincadeira.
Eu apenas ria como se fosse a coisa mais safada que estava escutando. E era, mas não era algo que eu quisesse saber dele.
Enquanto isso, a outra se mordia de raiva. Tola!
(...)
Já passavam das duas da manhã e eu estava cansada. O joguinho tinha durado menos de vinte minutos. A lindona não
aguentou a pressão e foi embora, terminando com o showzinho particular que eu estava dando só para ela. Avistei Ronald de
longe e sua cara estava fechada como sempre. Percebi que me observava toda a festa. Fiquei aliviada por ele não tentar me
chamar para dançar. Sorte dele. Eu negaria no ato sem pensar duas vezes.
Quando decidimos ir, concordamos em dividir o táxi, já que tínhamos bebido muito. Foi quando Richard teve que correr até
o lugar onde esteve com a loira. Ele não encontrava a chave de seu apartamento que estava no bolso de sua calça.
Depois dessa ficou fácil saber por onde as mãos dela andaram...
Levantei e andei até um lugar mais privado. A música alta e o aglomerado de pessoas estavam me deixando mais enjoada.
Encostei-me à parede atrás da escada. Fechei meus olhos e revivi cada momento daquela festa.
Ele está noivo! E nem usa a porra de uma aliança!
– Olá, Sophia.
Estremeci como se um vento frio acabasse de soprar ali, só por ouvir o som daquela voz. Como ele conseguia fazer isso?
– Oi, Theo! – falei um pouco exaltada demais.
Oxigênio! Onde está você?!
Theo estava parado à minha frente. Discretamente, olhei para os lados procurando por sua noiva e não a vi próxima. Ele
estava sozinho ali e pelo nosso ângulo, estávamos escondidos também.
Ele sorriu sem jeito. Parecia nervoso. Quando começou a falar, coçou a cabeça e olhou profundamente em meus olhos.
O que ele queria fazer com aquele olhar tão penetrante? Matar-me de desejo em beijá-lo ali mesmo? Que tentação!
– Sophia! Hoje, eu percebi que você não teve a oportunidade de me cumprimentar como fez em todas as outras mesas. –
desculpa esfarrapada. – Infelizmente, a Jessie me pegou para dançar logo naquele momento. Então, vim aqui para fazer o que
você faria. Seria falta de respeito de minha parte deixar passar isso, não é? – falou, soltando um sorriso que fizeram as minhas
pernas balançarem.
Ahhh! Falta de respeito é o que estou pensando em fazer com você. Por que neste momento só escuto o bater do meu
coração? Como consegue mexer com a minha mente desta maneira? Tantas pessoas aqui e eu não consigo tirar os olhos
dele nem por um instante.
– Imagina. Nos vemos todos os dias dentro da empresa. Acredito que você seria o único a ser perdoado por isso. – falei
sorrindo. – Além disso, a empresa tem bastante funcionário e eu queria conhecer a todos, desde o empregado da limpeza até
os diretores.
O que era uma verdade.
Theo então olhou para os lados, como se esperasse que algum fantasma aparecesse e rapidamente se acercou a poucos
centímetros de mim.
Fiquei surpresa por sua aproximação repentina, mas me contive. Não sabia como agir. Ele estava muito próximo e colocou
uma de suas mãos sobre a parede ao lado de minha cabeça.
Ele então falou baixinho olhando em meus olhos.
– Na verdade, eu vim aqui para me desculpar por Jéssica. Eu sei que ela fez de propósito e me senti um pouco
envergonhado por isso.
Ele parecia sincero. Mas, não estava com vontade de escutar aquela baboseira. Jéssica que fosse para o inferno.
– Não tem problema. – falei um pouco decepcionada. – Ela é sua noiva, afinal.
– Como você sabe disso? – perguntou surpreso e apreensivo.
– Não sei por que a surpresa. Parabéns. Quando será o casamento? – sorri falsamente.
– Não vim aqui para isso. – falou cuidadosamente como se esperasse um ataque meu. – Vim aqui me desculpar. – disse
segurando a minha mão com sua outra mão livre.
Ele segurou a minha mão? Sim, ele segurou a minha mão.
Olhei para sua mão sobre a minha, levantei o meu olhar até aqueles olhos e me perdi no tempo e lugar. Naquele momento,
sentia-me acuada pelo pouco espaço entre nós e meu ataque de ciúmes se foi.
Estar com ele me deixava assim: flutuando. Viajava naquele olhar como uma ave livre voando sob um céu azul.
Não consegui pensar em mais nada ao fitá-lo. Como eu queria beijá-lo ali mesmo. Não me importava onde eu estava ou
quem eram as pessoas à nossa volta.
– Sophia... Você está totalmente deslumbrante esta noite. – falou roucamente aproximando lentamente a sua boca da minha.
– Aquele seu sorriso na pista de dança... O que foi aquilo, me diz?
– Theo... – sussurrei seu nome, fechando meus olhos e segurando a minha respiração.
Deus! Ele bem que podia ser solteiro! Que injustiça comigo! Ele poderia era me beijar agora!
Ele ficou ali por alguns segundos apenas namorando minha boca com seu olhar. Neste momento, pareceu que fui ligada no
220V. A descarga elétrica que senti por todo o meu corpo foi tão intensa que me fez estremecer da ponta da cabeça até os
meus pés.
– Theo... – repeti seu nome como um sussurro desesperado e foi a única palavra que consegui pronunciar naquela hora.
– Sophia, você está malditamente linda com este vestido. – me olhou impressionado e desejoso.
– Theo, o que você está fazendo comigo? – perguntei baixinho controlando meus sentimentos. – A Jéssica pode aparecer e
eu...
– Shhhh! Não diga nada. – Falou encostando seus lábios em minha orelha. – Deixe-me apenas apreciar esta visão que estou
tendo. – suas palavras foram um sussurro doce e luxuriante. – Eu tenho noiva, eu sei. Não precisa me lembrar disso. Mas, eu
preciso te dizer...
– Até que enfim encontrei as benditas chaves. – anunciou Richard, aparecendo do nada.
Theo se assustou dando um pulo para trás e soltando a minha mão rapidamente.
– Estou atrapalhando alguma coisa? – perguntou Richard desconfiado, olhando para nós dois. – Se quiserem volto depois...
Theo criou aquela postura defensiva de chefe. E eu? Eu continuei encostada na parede ainda dopada por aquele momento.
– Não seja grosseiro, Richard. Claro que não atrapalhou nada. Apenas conversávamos – disse Theo, rispidamente.
Richard me encarou esperando alguma resposta minha. O que eu poderia dizer? Aquilo não parecia um pedido de desculpa.
Era outra coisa. Mas o quê? Precisava disfarçar a tensão do momento imediatamente.
– Então, Senhor Trento. Como conversávamos, eu aceito seu pedido de desculpas, mesmo que não seja necessário fazê-lo.
– desenhei um sorriso em meus lábios, mas não sei o que saiu realmente.
Theo retomou a postura de um grande empresário e com o olhar distante apenas confirmou com a cabeça dando boa noite a
ambos e caminhando de volta ao salão, mas não antes de virar-se e me dizer:
– Antes que eu me esqueça, Feliz Aniversário! – e se foi perdendo-se entre a multidão.
Dizer que fiquei pasmada era pouco. Fiquei atônita, admirada, espantada, comovida. Tinha sido ele. Sem dúvida nenhuma.
Ele era o admirador!
(...)
Depois de tudo isto, não procurei mais por Theo nem me interessei em saber se sua noiva o aguardava ou se ainda existia.
Para mim já era o bastante por uma noite.
Capítulo 25 – Semana seguinte.

Domingo era um dia que para diversas pessoas era o dia do descanso. Em meu caso, estava para o dia da ressaca.
Aproveitaria para me recompor tranquilamente se não fosse Mia agindo como uma delegada da polícia federal em um
interrogatório sem fim, tentando arrancar de mim os melhores momentos da festa.
Ela ainda vestia o pijama cor de rosa com bolinhas brancas e encontrava-se sentada na poltrona no canto do quarto com
duas xícaras de café sobre a mesinha ao lado esperando por mim.
Assim como a noite passada, este dia seria bem longo.
– Diz pra titia aqui que você deu “uns pegas” em alguém ontem. – Mia perguntou tomando um gole de seu café.
– Posso acordar primeiro, cafetina? – perguntei sonolenta.
– Você já acordou! Fala-me! Aquele gostosão do Richard te deu mole?
Ninguém merece.
– E por que ele daria? – perguntei, colocando a mão em minha cabeça. Deus! Como doía!
– Curiosidade só. – falou, fingindo desinteresse. – Você estava parecendo uma deusa com aquele vestido. Não seria
estranho se ele quisesse te dar uns beijinhos.
– Mia, fique tranquila. Ele não deu em cima de mim. Quer saber de uma coisa que vai te deixar feliz, aliás, feliz não,
excitada?
Ao falar a palavra excitada, consegui captar a atenção dela. Seus olhos brilharam.
– Ele perguntou por você e tentou arrancar de mim qualquer coisa que você gostava. Eu não sabia se você gostaria ou não,
então não entreguei nenhuma informação de importância.
Ela fez uma pausa dramática olhando fixamente para mim. Vou morrer agora?
– Você não fez isso comigo. – falou decepcionada.
– Pronto! Só faltava isso para completar o meu fim de semana. – desabafei.
Mia sentiu meu desapontamento na mesma hora e sentou-se na cama.
– Sophie, aconteceu alguma coisa lá? – indagou, desconfiada.
– Não. Só estou cansada. Só isso! – respondi, sem querer contar sobre Theo.
– Obrigada por confiar em sua amiga de infância, estou me sentindo muito bem. – falou irritada.
Ela me conhecia bem. Não dava para mentir.
Sentei na cama, endireitando-me sobre as almofadas para tentar explicar mais ou menos o que aconteceu, sem transparecer
o quanto Theo mexeu e mexe comigo. Isso eu precisava guardar, já que amor platônico não era algo muito bonito de se ver,
principalmente quando o cara tinha uma noiva top model internacional.
– Noiva? Não estou acreditando, Sophie! – falou Mia de boca aberta. Eu já tinha passado pelo choque. – Tem coisa errada
aí. E eu vou descobrir.
– Agora vai dar uma de detetive? – ri da situação mais incomum.
– Aquela mulher é terrível. Eu a encontro em festas das agências e sempre me pergunto o porquê de Theo estar com ela. Só
que noivar?! Não é algo tão normal, você não acha?
– Eu não acho nada... – menti. Achava e muito, mas não tinha interesse em descobrir qual o verdadeiro sentimento dele. Ele
me buscava agora e eu como uma fraca sem caráter, não conseguia me conter. Se ele me agarrasse, não pensaria duas vezes em
deixar.
Até que ponto eu cheguei! Com tanto homem por aqui!
Tomei meu café e preparei a garganta para narrar mais alguns acontecimentos e deixá-la saciada com as fofocas.
Nossa conversa durou cerca de uma hora, contei desde a chegada lá com Richard, como passamos a noite dançando, sobre a
loira do RH, sobre Jéssica e suas amigas peitudas desmioladas e um pouco sobre Theo.
– Sabe o que é o melhor de tudo isso?
– Não, Mia. O que seria?
– Que você falou sobre tudo e todos... E quase nada sobre o seu chefe. E eu te conheço o suficiente para saber que era dele
que você mais gostaria de falar. Aliás, eu SEI que você se vestiu de mulher fatal por causa de alguém e eu SEI que foi para
ELE.
Dei uma boa gargalhada pela forma que Mia falou. Sim, ela tinha razão. Por mais que eu quisesse esconder qualquer assunto
dela, seria impossível.
– Ok. Você ganhou. Ele é gostoso, educado, gentil, lindo de morrer, porém ele é o meu chefe e tem uma noiva. Minha vida
poderia estar pior que isso? – desabafei.
– Você está apaixonada.
– Não é isso, Mia. – olhei para o armário.
– Cala a boca! Não foi uma pergunta. Você está apaixonada pelo gostosão de olhos azuis. Eu sabia! Eu sabia! – saltava Mia
sobre a cama.
– Não sei o que estou sentindo. – falei pensativa tapando o meu rosto com as mãos.
Mia parou de pular e me encarou.
– Você tem muitos valores, Sophie. Se eu fosse você teria o agarrado ontem mesmo, no escurinho.
– Bem. Eu já entendi. Você é uma depravada que não liga para o término de relacionamentos. Não quero me tornar a amante
ou qualquer coisa do gênero.
– Eu só acredito em relacionamentos quando as duas partes se gostam, e não é o caso do casalzinho. – falou mandando-me
um beijo e saindo do meu quarto.
Fiquei pensando por alguns minutos sobre o que Mia havia comentado sobre relacionamentos.
Eu acreditava em bons relacionamentos. Sabia que negava isso constantemente por causa de minha última e traumatizante
experiência. Mas, o amor existia e o respeito também. Só não acreditava que isso aconteceria comigo. E apesar de sentir-me
tão atraída por Theo, sabia que o respeito começava respeitando a relação que ele tinha com sua noiva. Mesmo que fosse
difícil quando ele fazia aquela aproximação sorrateira. Ele era noivo e isso não podia ser ignorado, pelo menos, não por mim.
E se ela não era a pessoa ideal para estar ao lado dele, não era eu que iria separá-los.
(...)
O domingo foi monótono. Não saí do apartamento em nenhum momento. Precisava curtir minha caminha e colocar meus
pensamentos em ordem.
Mia desapareceu do meu quarto assim que a nossa conversa finalizou e não a vi mais. Tinha certeza que já tinha ido “curtir
a vida”. Desta forma, consegui um pouco de sossego.
Apesar do silêncio do dia, a ansiedade me consumia de tal maneira que não me deixou outra solução a não ser devorar um
pacote de chocolate, tomar sorvete e assistir a vários filmes seguidos para fugir dos flashbacks que teimavam em inundar a
minha mente.
O que aconteceria quando encontrá-lo? Eu bebi demais! Fiz coisas que não faria se tivesse me controlado e mantivesse
sóbria. O pior era que eu me lembrava de tudo e sabia que ele também!
Às 08h00 de amanhã estarei demitida!
Ai, Sophia! O que você foi fazer?!
(...)
Cheguei a Artvt dez minutos mais cedo receosa por meu futuro. Neste horário, era pouco provável que Theo estivesse. Sua
agenda era muito ocupada e raramente as segundas ele chegava no mesmo horário que outros funcionários.
Este pensamento me deixou mais à vontade ao passar pelas grandes portas de vidro do prédio. O circular de empregados
estava intenso, era um dia normal.
Eita povo responsável!
Andei tranquilamente pelo saguão principal dando bom dia a todos que passavam.
Nenhum dos quatro elevadores se encontrava no piso térreo e um número considerável de pessoas já aguardava para subir e
realizar suas atividades diárias.
Na terceira tentativa consegui entrar juntamente com mais oito rapazes bem vestidos. Quando eu dizia isso, referia-me a
homens altos, com maletas e ternos caros.
Essa empresa só contrata modelos? Nooooossa! Mia piraria aqui!
Quando a porta estava quase fechando, alguém a segurou para não perder a viagem.
Ah! Não!
Com um olhar fulminante e um sorriso nos lábios, Theo se juntou a mim parando ao meu lado.
– Bom dia, Senhorita Sophia. – falou profissionalmente.
O que ele fazia tão cedo?! Ele nunca aparecia durante as segundas.
– Bom dia, Senhor Trento. – respondi com a voz um pouco baixa.
Será que eu tinha problema em minhas cordas vocais? O que ele pensaria de mim?
Enquanto o elevador ascendia, o clima foi ficando cada vez mais esquisito. Os rapazes iam saindo conforme o andar de
cada um.
Para a minha grande vergonha, nosso andar ficava entre os mais altos do prédio.
Quando o último saiu. Eu queria me enterrar nas pastas que levava comigo.
– Sábado foi uma noite interessante, não acha? – perguntou puxando conversa.
Ohhh se foi!
– Foi muito agradável, sem dúvida. – falei, tentando não transpassar o nervosismo em minha voz.
A conversa estava indo em terreno seguro. Até eu contemplar o seu rosto.
Merda!
Ele estava com aqueles olhos azuis mais brilhantes. A barba estava curta e por fazer.
Como uma desastrada, deixei as pastas escaparem das minhas mãos. Foi papel para todo lado.
– Droga! Droga! – amaldiçoei abaixando-me.
– Eu te ajudo. – ofereceu, agachando-se para me ajudar.
Neste momento, foi inevitável não olhar em seus olhos. Odiei tê-lo que desejá-lo pelo simples fato de querer ser sua e não
poder.
O ambiente estava carregado, cheio de tensão. O único ruído era o bip que anunciava a passagem de mais um andar.
Theo percebeu a mesma eletricidade dentro do elevador levantando-se rápido e, ao entregar os papéis para mim, roçou os
dedos em minhas mãos.
Olhei para ele impossibilitada de dizer qualquer coisa. Fiquei atônita querendo decifrar se aquele contato foi calculado ou
era fruto da minha imaginação.
Nem sequer deu tempo. Tínhamos chegado ao nosso destino e assim que abriu a porta do elevador, uma dúzia de pessoas já
esperava para usá-lo.
– Tenha um bom dia, senhorita Sophia. – disse-me sorridente demais, apressando os passos para a rotina do dia.
Mas o que foi isso?
– O senhor também. – agradeci baixinho andando lentamente. Passei no banheiro feminino para dar uma última olhada em
meu look antes de ir ao escritório.
Dirigi-me ao meu escritório pronta para mergulhar fundo nos projetos. Só desta maneira – deixando minha mente ocupada –
eu poderia esquecer o Theo, temporariamente.
– Olá, senhorita Cinderela! Estou sabendo de tudo que aconteceu naquela festa. – comentou maldosamente, Kate que se
encontrava sentada em sua mesa. Coitada. Tão linda e tão superficial. Ela seria uma ótima distração para mim.
– Sabe é? – perguntei desinteressadamente.
– Richard beija bem?
– Opa! Você recebeu algumas fofocas falsas, minha cara.
– Acho que não. A empresa todinha sabe que vocês se divertiram lá.
– Isso sim é verdade. Entretanto, diversão não é sinônimo de beijos, romance ou qualquer coisa deste tipo. – falei sentando-
me e ligando o meu computador. Havia projetos que já se encontravam sobre a minha mesa e suas datas de entrega eram para...
Amanhã?!
– Mas isso só pode ser brincadeira?! – levantei indo até a sala de Theo.
– Onde a senhorita pensa que vai? – me parou, Kate.
– Preciso conversar com o senhor Trento.
– Eu sou a secretária dele. – levantou-se. – Eu preciso avisá-lo de sua presença e ver se ele tem tempo para te atender –
disse com ar de profissionalismo.
Que exagerada!
– Ele acabou de entrar na sala dele. Subimos juntos no elevador. Tenho certeza que ele poderá me receber agora.– mal
começou o dia e já estava ficando irritada. – Principalmente, porque foi ele quem colocou esses arquivos aqui. – estava
impaciente e queria empurrar Kate que bloqueava a passagem colocando-se em frente à porta de Theo.
– Kate, eu sei que você é uma ótima secretária e necessita fazer o seu trabalho corretamente. Por favor, avise-o que eu
preciso falar urgentemente com ele neste exato mo.men.to. – falei pausadamente, demonstrando uma paciência que não existia.
Kate se retirou indo até a sua mesa fazer a ligação. Foi aí que simplesmente abri a porta dele e entrei. Fechei a porta apenas
escutando o grito abafado dela e a tranquei.
– Você não po... – tentou falar Kate.
Era a primeira vez que entrara em sua sala desta maneira. Ele estava em pé próximo à janela de vidro que cobria a parede
inteira. Theo, com as mãos no bolso, virou para mim continuando parado.
Os raios de sol daquela manhã penetravam o ambiente, iluminando-o. Não tinha reparado como ele estava lindo com aquele
terno cinza e gravata preta. Era de tirar o fôlego.
– Senhorita Sophia. – sorriu.
Sorriu? Não está irritado ou zangado?
– Senhor Theo, me perdoe por entrar em sua sala sem avisar, mas precisava conversar seriamente com você sobre aqueles
projetos que recentemente foram deixados sobre a minha mesa.
Theo me olhou de cima abaixo. Desta vez, não tentou disfarçar. Olhou mesmo. Minhas pernas tremeram e meu coração
acelerou com a intensidade daquele olhar. Isso estava começando a acontecer com frequência.
Sua sala era ampla. Ao lado próximo ao vidro, ficava a sua enorme mesa em madeira escura. Sua poltrona era de um couro
escuro acompanhando as outras duas para os clientes. Do lado oposto da sala, sobre um lindo tapete persa, o conjunto de sofás
de dois e três lugares, também de couro, contrastava com aquele piso de porcelanato branco. E os quadros? Réplicas gigantes
de Monet.
Theo percebeu meu fascínio pela obra deste artista.
– Esta é a ponte japonesa que ele retratou várias vezes, mas essa em especial é a minha preferida. – comentou, apontando
sem sair de frente do vidro.
– Eu conheço este quadro. – disse ainda contemplando a parede. – Eu ainda prefiro os quadros que ele pintou de sua amada
Camille. Apesar, que as orquídeas, pintadas por ele, enfeitam meu quarto.
Theo arregalou após os meus comentários.
– Senhorita Sophia. Você me surpreende cada dia mais. – falou abrindo um largo sorriso.
Bingo!
– Acredito que você não me conheça o suficiente para saber o quanto sou uma mulher imprevisível – provoquei com um
sorriso inocente.
Então, Theo caminhou até o conjunto de sofás que adornavam a sua sala.
– Sente-se, por favor. – pediu fazendo um gesto para o sofá.
Assenti.
Theo começou a conversa sentando-se no sofá à frente com um jeito descontraído como se fôssemos velhos amigos. Não
sabia o que fazer com as minhas mãos ou para onde olhar. Ora arrumava o cabelo, ora cruzava as mãos e as deixava sobre
minhas pernas. Cruzava e descruzava as pernas. Se Theo sentiu o meu nervosismo, ele não falou nada, mas experiente como
era, estava dando todos os sinais possíveis de uma apaixonada.
– Diante da forma que você entrou – posso te chamar por você? – perguntou.
– Eu prefiro assim, independente se estamos aqui ou fora da empresa. - falei educadamente.
– Certo. – falou coçando o queixo. – Bem. Diante da forma que você entrou aqui, pude perceber a emergência da conversa e
também a sua irritação.
– Sim.
– E qual foi o problema? – perguntou seriamente encarando-me com aqueles olhos.
A postura dele mudou para “eu sou o chefe”.
– Senhor Trento.
– Theo apenas. Já conversamos sobre isso, Sophia. – me cortou delicadamente. – Aqui ou fora da empresa. Não tenho
problemas com a informalidade, se ainda não percebeu. – sorriu.
Eu também sorri ao ver aqueles lábios perfeitos abrindo-se para mim. Eu queria que ele me chamasse apenas de Sophia.
Meu nome parecia tão sexy quando pronunciado por aquela boca.
– Você me chamou apenas de Sophia. – comentei.
– Sim. Sophia. Algum problema em chamá-la por seu nome?
– Nenhum problema. Sinto-me melhor sem “senhorita” na frente. Até porque sou solteira e jovem. – confessei.
Solteira e jovem? Tá se jogando em cima dele?
– Entendi. – falou Theo com outro sorriso mais aberto.
– Então, Theo. Respondendo à sua pergunta. Eu realmente fiquei um pouco alterada com a quantidade de projetos que
apareceram em minha mesa hoje pela manhã com data de entrega para amanhã. – fiz uma pausa e continuei. – Por isso, vim
conversar com você sobre isso, porém Kate tentou me barrar e eu me exaltei.
– Ela te barrou? – perguntou achando graça da situação.
– Sim. Pedi para que ela te avisasse por telefone e aproveitei a oportunidade para escapar e entrar sem ser convidada.
Desculpe-me pela falta de respeito, mas eu a conheço o suficiente para saber que ela fingiria tal ligação e diria que você
estava ocupado. – desabafei.
Dane-se Kate.
– Não sabia dessa prática dela. – olhou para o alto como se tentasse lembrar algo. – Sem dúvida, você não é a primeira que
me fala isso. Terei que conversar com ela sobre o assunto.
– Por favor. – pedi. – Não quero ser a causadora de problemas para ninguém aqui.
– De forma alguma. Eu já estava esperando uma oportunidade para chamá-la até aqui. Fique tranquila. – tentou me acalmar.
– Porém, sobre os projetos. Eu realmente preciso destes trabalhos para amanhã. De alguma forma, estes planos de marketing
foram atrasados por algum motivo que Richard ainda não me informou e só agora foi cobrado. Eu procurei saber se era
possível atrasar esta data, mas não consegui. Eu te ajudarei. Entretanto, é importante saber que hoje você fará muita hora extra.
– avisou Theo.
– Você irá me ajudar? – perguntei incrédula.
– Sim. Irei. Ficaremos até tarde para finalizá-los e amanhã à primeira hora apresentaremos aos clientes. Não posso
prorrogar esta data.
Procurei manter a calma, mas meu corpo estremeceu com essa notícia. Não sei se ficava feliz ou triste. Ficar a sós com ele
significava manter o profissionalismo e não aparentar a tensão que sentia ao seu lado. Este sentimento era algo inexplicável. O
querer e não poder intensificava essa tempestade. Era inspirador para uma pessoa que não sentia isso fazia muito tempo e
aterrorizante por saber que ele era comprometido.
– Acho que com sua ajuda, tudo dará certo. – disse calmamente.
– Fico feliz em escutar isso. – sorriu.
O silêncio que preencheu o ar me deixou sem graça. Era hora de sair.
– Obrigada por me escutar. – disse levantando-me.
Theo se pôs de pé e me acompanhou até a porta. Ao tentar abri-la, olhou para mim.
– Perdão. – disse envergonhada. – Tranquei para que Kate não incomodasse.
Theo deu uma gargalhada. E diante disso, não evitei. Ri também. Que delícia escutar aquele som. Ele era sempre tão sério e
de repente ao vê-lo assim, conhecer brevemente seu outro lado. O lado mais descontraído.
Kate estava em pé próxima à porta com a cara fechada esperando-me para dar um sermão. Definitivamente, não estava a fim
de escutar isso. Não precisei nem abrir a boca, Theo já estava falando com ela para comparecer à sua sala.
Droga! Ela vai ficar super zangada! Dane-se. Tenho que trabalhar.
Kate entrou, porém Theo pediu para deixar a porta aberta.
Eu, como uma pessoa educada, não escutaria a conversa, mas eu mudei e muito. Fiquei atrás tentando ouvir e pude distinguir
uma conversa constrangedora. Sorte a minha que Ronald e Paige ainda não estavam presentes na empresa. Espero que ele
tenha pegado a cobra de jeito. Talvez, ela mudasse depois disso.
– Eu sou o chefe aqui. – falou educadamente. – Eu decido quem entra e sai da minha sala. Eu decido se quero ou não falar
com as pessoas que ligam. Entendido?
– Sim, senhor. – falou baixinho Kate. – Só pensei que não queria ser incomodado.
– Você não tem que pensar nada, não tem que supor nada. Você precisa me perguntar e não estou falando em relação à hoje
somente. Tive reclamações suas, antes deste incidente, e por isso, resolvi chamá-la para conversar. Agora, pode se retirar. –
Ah! Kate?
– Sim, senhor Theo?
– Anote em sua agenda ou onde você achar melhor. A senhorita Sophia tem acesso total à minha sala. Ela poderá entrar a
hora que ela quiser e não precisará de minha permissão. Portanto, quando ela precisar, poderá entrar sem bater na porta ou
pedir a você. Estamos entendidos?
O quê?
Saí correndo para a minha mesa. Não podia ser pega no flagra e não queria saber a resposta de Kate. Mas, não passaria de
um “sim, senhor” se quisesse manter o seu emprego na Artvt.
Ao vê-la sair da sala, tentei enganá-la concentrando-me em um trabalho imaginário em meu computador.
Sua cara era de raiva, constrangimento, surpresa... Tudo ao mesmo tempo. Ela me olhou matando-me, porém nada disse e eu
fingi não ver.
Eu a evitei, mas de vez em quando a olhava de relance. Não podia puxar conversa porque era notória a sua frustração por
não poder brigar comigo. Theo me deu total acesso à sua sala. Talvez, ele quisesse só deixá-la irritada.
Meu dia passou rapidamente com os seis enormes projetos e eu consegui terminar, apesar de todo o esforço, apenas quatro.
E, para completar, já estava no final do expediente. Sem Theo os dois últimos projetos levariam uma noite inteira. E com ele –
talvez – a hora de finalização diminuiria consideravelmente. Apesar do otimismo, sabia que mesmo assim a madrugada seria
longa.
Paige e Ronald trabalharam calados. Alguma coisa havia acontecido no baile e eu adorei sentir isso. Ronald sorriu algumas
vezes, mas não se aproximou de mim. Nem para perguntar sobre o baile. Paige não deu bola para Kate. Ficou quieta na dela.
Kate foi embora sem dar tchau, logo depois que Ronald e Paige se foram.
Vai infeliz! Se ferrou!
Continuei correndo com o projeto determinada a sair antes das três horas da manhã.
– Sophia? – chamou Theo de sua porta.
Dei um salto da minha cadeira assustada.
– Calma. Aqui não existe história de fantasma na empresa. – disse sorrindo.
– Desculpe. Não esperava que você fosse me chamar. Estava concentrada. – falei com as bochechas vermelhas.
– Quer continuar o trabalho aqui em minha sala? A mesa é maior e precisamos trabalhar em equipe. – sugeriu.
Quem sou eu para negar o pedido dele?
– Seria melhor. – respondi.
Começamos a trabalhar os dois últimos projetos e nos concentramos em fazê-los por parte. Dividimos cada tópico e levei o
meu notebook para sua sala.
Algumas vezes, conversávamos sobre dúvidas em relação a um tópico, outras parávamos para um descanso de cinco
minutos conversando sobre notícias do dia no mundo.
Peguei-me olhando para ele enquanto estava concentrado. Ele era lindo. Observá-lo sem ser notada me deixava louca.
Estava extremamente apaixonada. Sua educação e profissionalismo só me faziam desejá-lo mais. Aqueles quadros de Monet
pendurados naquela sala não ofuscavam aqueles olhos, aquela boca, aquele corpo, aquela beleza.
Não podia vulgarizar o meu sentimento alimentando-o. Não podia me apegar a ele. O certo, para evitar tamanha tentação,
era deixá-lo livre e me relacionar com outra pessoa. Assim, não perderia noites sem dormir com ciúmes dele com sua noiva.
Ai! Que absurdo! Ciúmes de um cara comprometido.
– Algum problema com o projeto? – perguntou Theo olhando-me curioso.
Não percebi que o encarava.
– Err... Não. Estava apenas sonhando acordada. Acho que preciso de uma pausa. – disse buscando alguns papéis que não
existiam.
– Você quer descer e beber algo na esquina? – perguntou.
– A essa hora?
– Sim. Lá sempre está aberto, apesar de ser proibido. O dono mantém a portas fechadas o funcionamento para os
empresários que trabalham até tarde como eu e é um ambiente bastante seletivo. Eu te acompanho se quiser. – comentou
aguardando por minha resposta.
Deixe-o ir. Relacionar-me com outra pessoa é a meta. É só negar, Sophia.
– Sim. Por que não?
Covarde. Você vai se dar mal.
Saímos de sua sala rumo ao elevador.
O elevador. Ai não.
Minhas mãos mais uma vez começaram a suar. Não podia ser pior. Meu coração parecia que ia saltar de meu corpo e
abraçá-lo fortemente.
Bip. O elevador chegou.
– Primeiro as damas. – disse.
– Você sempre é assim tão educado? – perguntei enquanto entrava no elevador.
Precisava falar para não aparentar tanto desconforto e não deixar o silêncio chegar até lá.
– Procuro ser sempre assim, por quê? Não está acostumada a ser tratada com educação? – perguntou pesaroso.
Olhei em seus olhos e não consegui evitar sorrir com aquela pergunta. A resposta era tão óbvia e triste.
– Não. Não pelos homens.
– Que tristeza. Meu gênero está retornando ao tempo das cavernas então. – brincou com um sorriso nos lábios.
– Infelizmente, preciso dizer que sim. – sorri.
– Que pena por eles, mas não se preocupe. Jamais a trataria desrespeitosamente. Nunca mais farei o que fiz quando... – me
olhou com tristeza. – Você me entende?
– Você existe mesmo? – perguntei maravilhada. Entendia perfeitamente. Ele era um gentleman agora. – Theo soltou uma
gargalhada.– Acho que isso é um sim. – falei rindo de sua risada. – Duas gargalhadas só hoje. Estamos melhorando o nosso
relacionamento.
– Sem dúvida. – falou. – Faz tempo que não rio desta maneira e você conseguiu isso duas vezes em um só dia. Um recorde!
– Fico feliz em saber disso. Gosto de ver as pessoas sorrindo.
– E eu fico lisonjeado por ser você a pessoa a me fazer rir. – comentou com um leve sorriso nos lábios.
Opa! Isso foi uma indireta?
Analisei suas palavras e afastei o pensamento de ser uma cantada muito bem dada.
A porta do elevador abriu e nos dirigimos até o bar. Optamos em ir caminhando. Não era longe e as ruas estavam bastante
movimentadas.
Ao entrar no bar – que pela hora era secreto – Theo foi até o barman e pediu duas bebidas para nós. Eu fiquei sentada à
mesa encostada da parede. Aquelas mesas de madeira e suas cadeiras confortáveis mostravam que não era um lugar para
bêbados ou pessoas com pouco dinheiro. Alguns empresários eram zumbis como nós e bebericavam em seus copos absortos.
Deveriam estar pensando sobre o trabalho ou esfriando a cabeça deixando a mente em branco.
– Tive a iniciativa de pedir um saquê. – falou Theo sentando-se à minha frente.
– Obrigada. Preciso me despertar um pouco. Falta apenas a metade do último projeto e se continuarmos no mesmo ritmo,
terminaremos antes das três da manhã.
– Sim. Conseguiremos. – disse Theo.
Ficamos ali por vinte minutos e retornamos ao escritório para finalizar o projeto.
O elevador já não me deixou desconcertada. Sentia-me mais à vontade com ele com o passar da noite e apesar de sentir
esse clima gostoso entre nós, Theo estava muito concentrado em terminar. Toda a situação da festa foi ignorada e achei que
fosse de propósito. Mas, não conseguia evitar a pergunta que estava me corroendo.
– Theo. – chamei-o e ele me olhou deixando os portfólios sobre a mesa. – Quando te conheci na boate, você estava noivo ou
namorava? – perguntei. Ele me analisou e respondeu sem nenhum cuidado.
– Não. Eu era solteiro. Por que essa pergunta? – estava muito curioso e não tirava os olhos de mim.
– Desculpe. É porque você de repente aparece novamente em meu caminho com uma namorada e de repente, já está noivo...
Não consigo entender a rapidez das coisas.
– Não fui rápido em nada, Sophia. – falou calmamente. – Eu conheço a Jéssica desde a faculdade. Nossos pais são sócios
da Artvt e depois de tanto tempo, resolvemos nos relacionar melhor, só isso. – falou como se fosse a coisa mais óbvia. Senti-
me mal porque parecia que eu era a intrusa ali perguntando demais. Meu estômago revirou e fiquei calada por um longo tempo.
(...)
Quando o relógio marcou 02h40 olhei para ele e abri o melhor sorriso, apesar de meu coração ainda estar apertado.
Theo sorriu em resposta.
– Terminamos. – comentou triunfante.
– Terminamos. – respondi sorrindo como uma criança que acabou de ganhar um doce.
– Vou preparar as minhas coisas para ir embora. – falei levantando-me.
– Eu te acompanho até o estacionamento. – respondeu Theo, apresentando os primeiros sinais de cansaço.
Descemos até a garagem do prédio e ao parar para me despedir senti um desejo incontrolável de abraçá-lo.
– Sophia, estou feliz por trabalhar com você. Você é muito eficiente no que faz e este projeto só foi possível por sua fácil
maneira de convivência. Se não fosse isso, tenho certeza que não terminaríamos. Os clientes ficarão contentes com o
resultado. Não tenha dúvidas. – desabafou Theo.
– Eu que agradeço pela sua companhia e ajuda. Agora, é só apresentar amanhã, quero dizer, daqui a pouco. – falei rindo. –
Obrigada.
– Bom. Vamos embora para aproveitar o pouco tempo que temos para dormir. – disse Theo.
– Boa noite, Theo. – falei sem saber o que fazer. Se ia embora, se apertava a sua mão ou se dava um beijo no rosto.
Como não sabia como proceder, virei para a direção onde estava meu carro. Do outro lado ao longe.
Theo agarrou minha mão e, inesperadamente, deu um beijo nela. Fiquei sem reação. Queria agarrá-lo, mas ele era sempre
tão educado que ser cavalheiro poderia ser só mais um traço de sua personalidade.
– Obrigada. – falei com o rosto vermelho.
– Não agradeça. Você é ótima. – falou roucamente. – Boa noite, Sophia. Até mais.
Então, virei-me e fui embora antes que eu o agarrasse ali mesmo.
Ao chegar a meu carro, fiquei abismada com o que eu vi. Os quatro pneus estavam furados. Não havia sinal de arranhadura,
mas aquele atentado só podia ter sido feito pela mesma pessoa do e-mail. Tinha esquecido aquele e-mail sem graça e agora
aquilo.
Olhei ao redor e não tinha muitos carros à volta. Era madrugada e Theo já havia saído com seu volvo. Fiquei com medo da
pessoa que fez aquilo estar próxima. E me arrepiei com o estado de pânico que me apossou. O silêncio daquele ambiente frio
me consumiu e sem pensar, corri até o elevador com pressa de chegar à recepção onde tinham os seguranças da noite. Pediria
um táxi para voltar a casa.
Só me senti segura ao chegar ao térreo e falar com os seguranças sobre o ocorrido, eles anotaram meus dados e do carro em
uma prancheta para investigação. Deixei de lado o meu nervosismo e usei a terapia Theo Trento em meus pensamentos para
afugentar aquela situação estranha e perigosa enquanto voltava em um táxi pago pela empresa. Meu carro ficaria retido e a
Artvt providenciaria um transporte até ele ser liberado, além da investigação.
Fui para casa sonhando com um beijo que não aconteceu. Contentei-me apenas com a minha mão. Parecia uma adolescente.
Cheirava e beijava a todo o momento aquele lugar que seus lábios tocaram.
Que merda de romântica doente eu sou?!
Queria dormir e sonhar com ele. Queria acordar e encontrá-lo logo na empresa. Queria trabalhar até tarde como esta noite e
quem sabe pensar em diversas formas de provocá-lo naquele escritório.
Theo Trento, o cara mais gostoso de Londres, e eu sozinhos naquela sala.
Naquela mesa. Hummm...
Fantasias começaram a aparecer em minha mente e, quando dei por mim, acabei pegando no sono ainda no sofá.
Acordei sobressaltada achando que havia perdido a hora.
Foi só um susto. Ainda era cedo, mas não tão cedo para adormecer novamente.
Fiquei toda dolorida, dormir no sofá não era algo bom de se fazer. Fui tomar um banho bem quente e, em seguida, espiei o
quarto de Mia para ver se ela havia voltado para casa. Ela estava lá toda desajeitada.
Mia, Mia. Fico feliz em saber que está viva!
Escolhi a roupa mais formal e sexy que encontrei. Coloquei uma saia preta justa, com o comprimento até um pouco mais
abaixo do joelho e uma blusa vermelha de seda. Um conjunto de brinco e colar de pérolas marcavam o look profissional e o
sapato fechado de 15 cm me deixavam alta e fatal. Realmente, fiquei bonita e chamativa.
Theo vai adorar essa roupa.
– Eu falei que ia esquecer este cara e estou me vestindo pra ele? Só pode ser piada. – falei para mim mesma.
O caminho até a empresa, feito de táxi, foi tranquilo e cheguei rapidamente ao meu destino.
Kate me recebeu com um sorriso falso em seus lábios.
– Bom dia, Sophia. – falou em pé ao lado de sua mesa.
– Bom dia, Kate. Tudo bem? – tentei ser educada.
– Sim. Obrigada. O senhor Trento disse para avisá-la que os clientes e ele estão esperando na sala de reuniões.
– Obrigada. – falei caminhando até lá.
Antes de abrir a porta, ciente que todos me aguardavam, me preparei psicologicamente e estampei um sorriso no rosto.
Afinal, chegara a hora de mostrar todo o meu potencial àquelas pessoas.
Abri a porta e olhei para dentro da sala. Essa era a segunda sala de reunião que eu havia entrado. Era similar à outra –
quando apresentei o meu primeiro projeto e vi Theo, também, pela segunda vez.
Nove pessoas encontravam-se sentadas à mesa – homens e mulheres de diferentes idades – e entre elas estava o motivo das
minhas noites de insônia.
A sala era de um tamanho mediano, porém a mesa com lugar para doze pessoas era uma das mais modernas. De madeira
clara de MDF e suas cadeiras de metal com os seus assentos acolchoados em couro preto davam um ar de seriedade.
Que tara por couro a família Trento tem! Será que a cabeceira de sua cama também era deste material? Hummmm...
Chega! Concentração, Sophia.
Havia retroprojetores e TV de LED pendurados na parede para a apresentação dos folders e planos de marketing. As
paredes eram revestidas com a mesma madeira da mesa. Era um luxo só.
– Bom dia a todos. – cumprimentei ainda na porta. Entrei e coloquei o restante do material sobre a mesa.
Os clientes me cumprimentaram e esperaram pacientemente os dois minutos que eu levei para começar a apresentação.
Procurei evitar olhar para Theo que se encontrava na cadeira central e no campo de visão da tela do retroprojetor.
Vai ser impossível não olhar pra ele. Foco! Foco!
– Senhoras e senhores! Apresento-lhes a senhorita Sophia Moody, nossa agente de marketing. Ela fará a apresentação dos
folders da nova campanha de sua empresa e explicará cada item. Senhorita Sophia, por favor. – disse Theo.
Comecei a minha apresentação explicando como a Artvt conquistou o mercado através do sucesso das empresas associadas
ao seu trabalho. Então, incentivada por um sorriso de pai orgulhoso, Theo me impulsionou deixando-me à vontade.
O decorrer do tempo foi tranquilo. Os clientes fizeram perguntas interessantes e, graças ao meu bom Deus, estava preparada
para respondê-las. Após duas horas de negociação e apresentações dos seis projetos alternativos, a reunião foi finalizada.
Os clientes não demonstraram interesse ou desinteresse durante a minha explicação, o que deixou a mim e Theo um pouco
apreensivos.
Uma senhora chamada Elizabeth foi quem começou a pronunciar as palavras tão esperadas por nós.
– Senhor Trento e senhorita Moody, nossa empresa está admirada pelo empenho na apresentação dos projetos. Estamos
interessados sim em formar esta parceria e aceitamos os termos do contrato. – falou Elizabeth.
Theo e eu nos entreolhamos rapidamente com o triunfo estampado em nossos olhos. A comunicação silenciosa foi efetiva.
Ganhamos!
– Nós agradecemos a confiança depositada na Artvt. – finalizou Theo.
Despedimo-nos com apertos de mão de cada cliente. Quando a porta se fechou, em um movimento sincronizado eu e Theo
nos abraçamos e rimos sem parar, felizes pelo contrato assinado. Eram milhões de dólares!
– Sua primeira conquista. Nem estou acreditando. – gritei pulando como uma criança. – Digo, minha primeira conquista
porque para você isso deve ser normal. – comentei sem conseguir parar de sorrir.
– Sophia! Nossa conquista! Trabalhamos até tarde para dar o melhor. Garantir um contrato com essas cifras não é algo
comum. Conseguimos fechar com sucesso um ótimo negócio. Temos que sair para comemorar. – disse Theo sorrindo.
Seus olhos brilhavam. Era tão boa aquela sensação.
– Sair? – perguntei fixando meu olhar nele.
– Sim! Eu estou te convidando para comemorar esta vitória. – enfatizou Theo. – Nós dois, hoje às 21h. Eu como seu chefe
permito a sua saída mais cedo da empresa, para se arrumar. – falava empolgado.
– Eu aceito. E obrigada pelo convite! – falei alegre demais.
Ficamos parados próximos à porta. Alguém precisava se despedir e voltar às atividades normais do dia, mas quem?
Inusitadamente, Theo ficou sério. Seus lábios se fecharam e aquele olhar me pegou desprevenida. Foi um olhar cheio de
efeito. Senti através daqueles olhos azuis um fluxo entre mim e ele. Não queria fugir mais. Necessitava senti-lo mais próximo,
precisava dizer a ele.
Não senti quando fechei meus olhos em frações de segundos tentando conversar com meu cérebro que eu precisava sair
daquela sala imediatamente. Meu coração, por outro lado, já estava perdido fazia tempo.
De repente, seu celular tocou tirando-me de meu torpor.
Que BOSTA!
Theo o retirou de seu bolso e olhou o nome no visor.
Aproveitei a deixa.
– Bom. Vemo-nos mais tarde então... Se for possível. – falei abrindo a porta.
Ele ainda não havia atendido ao telefone que insistia em tocar.
– Sophia, espere! – falou.
Antes de sair, olhei para ele.
– Sim?
– Meu convite está de pé. Posso buscá-la em sua casa hoje às 21h?
– Não sei, Theo... – falei um pouco receosa. – Está bem. Estarei pronta a essa hora. – decidi sem pensar muito.
– Ok. – falou abrindo um sorriso largo.
Saí da sala parecendo uma mulher bipolar contaminada por ele: feliz por saber que hoje estaria em um encontro com Theo –
mesmo que profissional – e triste porque não saberia como me comportar.
Eu o quero. É fato! Mas, como posso me livrar deste sentimento que está me consumindo e não demonstrar meu verdadeiro
interesse? Não queria esperar mais. Esta noite seria uma surpresa, seja boa ou ruim. Algo estava acontecendo entre nós, sem
dúvida alguma.
Foquei no trabalho ainda mais para que o tempo voasse. Não vi mais o Theo durante o dia.
Kate me evitava, mas fofoqueira como ela, sentia aquela energia que emanava do outro lado da sala. Era a sua vontade de
sondar e perguntar sobre o que estava acontecendo. Quem queria saber eu não sei. Ou era ela ou sua amiguinha Jéssica tinha
uma investigadora aqui dentro.
Enfim havia chegado o final do dia e minha ansiedade crescia mais pela noite que estava por vir.
– Hello! People! – entrou como um furacão no departamento quem eu menos queria ver.
– Boa tarde, senhorita Jéssica. – falei surpreendida e decepcionada.
Kate levantou de sua mesa e foi correndo por um abraço de sua amiga. Elas começaram a falar bobeiras e se elogiarem
mutuamente sobre as roupas que estavam vestindo.
– Kate, fiz uma surpresa para Theo. Ele não sabe que estou aqui. Entrarei, não o avise, ok?
– Claro. Você é a pessoa que tem total acesso ao seu escritório – falou Kate olhando para mim.
Fingi não reparar esta indireta e continuei teclando com Mia pelo Skype.

– A bruxa tá aqui. – teclei.


– Vc tá brincando, amiga? – perguntou Mia.
– Não!
– E agora???? Será que vai melar o encontro de vocês?
– Não sei. Mas qualquer coisa ele vai me ligar. Não se preocupe.
– Essa vaca vai sair com ele e você me diz “não se preocupe”?
– Mia, ela é a NOIVA dele!!!!!!!!
– Dane-se! Ela é uma vaca e pronto!
– Ela acabou de entrar em sua sala e fechou a porta! A amiguinha dela tá me encarando com um sorriso na cara! Que
vontade de quebrar esse nariz!
– Vai lá e dá uma de direita nela, Sophie!
– rs. Até parece! Aí eu perco o emprego? Nem pensar. – To saindo do Skype e to indo embora. Bjsssss
– Te vejo em casa! Beijos!

Kate realmente desconfiava de algo, pois o arzinho de malvada não saía de seu rosto.
– Já vai, Sophia? – perguntou Kate, fingindo inocência.
– Claro. O horário do expediente já acabou, lembra? – falei apontando para o relógio que ficava na parede. – A não ser que
você queira fazer hora extra e esteja me convidando.
Kate riu de meu sarcasmo como se eu tivesse falado algo extraordinariamente engraçado. Porém, o assunto que saiu de sua
boca nada tinha a ver com hora extra.
– Jéssica e suas surpresas! Que será que ela tanto faz lá dentro? Nem posso imaginar. – falou rindo, colocando a mão na
boca como se alguma coisa muito indecente passava por sua cabeça.
Eu precisava suportar isso? Fingi desinteresse e me despedi.
– Boa tarde, Kate. Até amanhã!
– Tchauzinho. – acenou com os dedos.
Queria sair dali o mais rápido possível. Eu também tinha curiosidade sobre tudo que estava rolando lá dentro.
Que merda! Estou morrendo de ciúmes! O que ela estava fazendo na sala dele?
Enquanto esperava o elevador, que demorava mais que o normal, minha mente divagava para cenas sexuais entre os dois.
Ela o tocando. Provocando-o em sua mesa de madeira. Ele a observando, desejando-a...
Acho que vou vomitar. Não... Eu vou é chorar...
Estava com vontade de chorar ali mesmo, no meio de todos os funcionários que, também, esperavam o elevador, ansiosos
para retornarem às suas casas.
– Senhorita Sophia? – escutei alguém me chamar.
Ao me virar para a direção que vinha a voz, vi Theo e Jéssica caminhando rumo ao elevador.
Aaai não! Ele me chamou de senhorita Sophia. Tenho certeza que foi por causa de Jéssica.
– Sim? Senhor Trento – respondi com a mesma educação.
Se sorri, eu não lembro.
Theo demonstrava certo desconforto e Jéssica grudava a sua mão nele como se ele pudesse escapar dela a qualquer
momento.
– Ainda bem que a encontrei a tempo. – disse Theo com o olhar melancólico.
– Por quê? – tentei parecer educada.
– Jessie fez uma... Surpresa... E não poderemos dar continuidade aos nossos planos de hoje. – comentou com cuidado.
Ele estava omitindo o encontro para Jéssica?
– Que planos? – perguntou Jéssica olhando dele para mim.
Alô! Alô mundo! Vai começar o show!
– Assuntos pendentes do trabalho, nada que não possa ser resolvido outro dia, certo? – perguntou-me Theo um pouco
nervoso.
– Isso. Nada de tão importante. – concordei um pouco irritada.
– Mas que tipo de planos vocês teriam depois do horário comercial? – perguntou Jéssica querendo formar uma cena no
meio dos funcionários.
Minha paciência se evaporou.
– Planos que levaram a nós dois trabalharmos até 03h da manhã juntos e garantir um contrato milionário para a Artvt! –
falei encarando-a colocando a minha melhor postura.
Jéssica segurou o olhar e em seguida beijou o canto da boca de Theo.
– Jura, amor? Parabéns por seu sucesso! – falou com a voz melosa.
– Obrigado. Mas se não fosse o trabalho que eu e a Sophia fizemos, não teríamos conseguido. Ela merece todo o mérito por
esta vitória. – argumentou Theo olhando-me nos olhos.
Jéssica preferiu ignorar o comentário de Theo. Eu também não precisava de seus parabéns superficiais.
Assim que a porta do elevador se abriu aproveitei para desaparecer dali.
– Noossa! Esqueci algumas pastas sobre a minha mesa. Tenham uma ótima surpresa. – falei sem olhar para trás.
Senti um par de olhos nas minhas costas, mas não quis me certificar de quem era.
Kate não estava na sala e agradeci por não ter mais aborrecimentos. Esperei dez minutos antes de voltar ao elevador e
descer, assim estaria segura.
Acredito que entrei em estado “zumbi” porque quando finalmente prestei atenção, já estava em casa. Paguei ao taxista e subi
até o apartamento me lembrando de que meu carro estaria pronto amanhã. A empresa tomou as providências de mudar os
pneus já que o carro estava dentro dos limites da Artvt, mas não conseguiram identificar ninguém nas câmeras de circuitos
internos. Meu carro estava estacionado logo onde não tinha cobertura. O chefe dos seguranças alertou Theo sobre este
incidente e eu contei sobre o e-mail. Ele acionou a equipe de suporte técnico e verificou que o e-mail fora enviado de uma lan
house no centro londrino, mas não puderam identificar quem foi já que o lugar não tinha câmera. Ele se mostrou preocupado e
me pediu para tomar cuidado e não trabalhar até tarde. Eu concordei ciente da gravidade do ocorrido.
Eu sou sortuda demais!
(...)
Mia estava adormecida no sofá e não quis despertá-la, estava exausta e meu drama romântico poderia ficar para o dia
seguinte.
Fui para cama, após um banho rápido e resolvi curtir a dor de cotovelo assistindo ao filme Orgulho e Preconceito no DVD.
Como queria encontrar o Mister Darcy. Gentil, cavalheiro, depressivo, educado... Tudo de bom. Sem dúvida alguma, você
não escaparia de mim, Darcyzinho!
Era uma merda passar por isso. Ver cenas românticas, danças e cortejos não estavam ajudando muito. Quanto mais eu
assistia ao filme, mais sofria pensando em Theo e sua noiva.
Eu me perguntava se podia um coração congelar? Podia um coração bater depois de morto? Eu achava que o meu não
poderia mais, pois era assim que me sentia, morta – pelo menos essa noite. Noite que teria um encontro com ele.
E apesar disso tudo, não deixei de sentir-me eufórica por saber que cada dia na empresa era um dia para vê-lo e amanhã ele
estaria lá e depois também e depois...
Que classe de amor platônico era esse, droga?!
(...)
A campainha tocou duas vezes, até eu olhar o relógio. Marcava 01h30 da manhã.
Aposto que é o John enchendo o saco!
Abri a porta e encontrei um Theo muito sexy com roupa de grife. Estava no estilo rock e não parecia nada aquele homem de
terno.
Puta que o pariu!
– Ficarei do lado de fora congelando? – sorriu colocando a cabeça para o lado. Olhou-me de cima para baixo. Mia acordou
e olhou para a porta. Ela sorriu maliciosamente e me deu boa noite de longe indo para seu quarto. Lembrei que estava de
pijama do Mickey e fiquei corada.
– Entre. – juro que senti seus olhos me atravessando ao fechar a porta. – Vou trocar de roupa.
– Não precisa. Você está... Inocentemente bonita com este pijama. – estava debochando. Sorri com sua provocação e sentei
ao sofá.
– Pensei que estava desfrutando de sua surpresa com sua noiva. – provoquei. Estava sofrendo por causa dele e agora, ele
estava aqui na minha frente, Não deixaria passar essa. Theo fez uma careta de quem não gostou e logo em seguida sorriu.
– Ela já está em casa. Abreviei sua surpresa. – concluiu.
– Hummm! – o que eu poderia dizer? – E por que você está aqui? – perguntei sem entender.
Theo me olhou decepcionado. – Esqueceu-se de nosso encontro? Nossa comemoração? Eu não esqueci.
Abri a boca surpreendida.
– Não faça essa cara, Sophia. Nós combinamos, lembra?
– Eu lembro... Claro... Só não pensei que fôssemos sair depois que a Jéssica... E você mesmo falou que não dava...
– Esquece o que eu falei. Estou aqui não estou? – perguntou sorridente. – Agora, vai se arrumar. Estarei te esperando aqui
no sofá. Vamos comer alguma coisa e depois dançar.
– Está bem. – vou me arrumar e já volto. Corri para meu quarto sem saber se estava sonhando ou não. Não encontrava nada
tão bonito. Espiei o quarto de Mia e fui até lá!
– Acorda! Acorda! – sacudi minha amiga.
– Que foi?! – perguntou sonolenta abraçando o travesseiro. – Pensei que já estava transando com aquele tesão.
– Mia, preciso de roupa... Roupa bonita. Vou sair com ele agora. Ajuda-me, anda logo! – Mia acordou de verdade e me
olhou sentando-se na cama.
– Está falando sério? – sorriu sapeca. – Tenho a roupa perfeita para um encontro destes.
(...)
A roupa dizia tudo: “me coma”.
Senti-me a mulher fatal esperando por um macho alfa – do jeitinho da Mia. Ela fez a minha maquiagem e meu cabelo com a
rapidez que nem os melhores salões conseguiriam. O vestido escolhido não era curto. Ia até o joelho, mas a fenda nele, abria
até a parte de cima de minha coxa. Ele era cheio de dobras e bastante colado. Minha bunda ficava enorme e seu tom verde
deixava-me mais branca ainda. A alça, feita de pequenas pedras brilhantes, era tão fina que se alguém puxasse, arrancaria sem
dificuldade. Meu sapato preto, salto agulha, me deixava muito mais fatal woman. Não demorei em me arrumar. Mia sabia
onde estava tudo e para a alegria de Theo saí do meu quarto depois de trinta minutos.
Na mesma hora que me viu, se levantou sobressaltado. Seus olhos passearam por mim e Theo ficou tenso. Eu conheci
aquele olhar. Estava duro. Não precisava tocá-lo. Excitei-o com aquela roupa e adorei a sensação de deixá-lo babando.
– Vamos? – perguntei sorridente demais.
(...)
–Whisky Mist, próxima parada. – olhou para mim enquanto dirigia seu volvo. – estava com um ar descontraído e sorria todo
o tempo e eu, tentava não parecer tão nervosa.
Chegamos a um pequeno restaurante em zona residencial. Não estava lotado e era muito acolhedor. Como se as pessoas não
pudessem evitar, olhavam para ele. Eram mulheres solteiras e casadas que pareciam cobiçá-lo sem nenhum pudor. Ele estava
perdoado. Era lindo demais para não ser notado. Eu, por outro lado, apesar de ter minha autoestima elevada, não era párea
para a beleza ao meu lado. Tínhamos combinado de jantar algo rápido e depois seguir para a casa noturna. Theo queria se
divertir e, como ele mesmo disse, comemorar até cansar. E seguimos até o mesmo lugar onde um dia nos beijamos por uma
noite.
– Não espere que eu vá sambar. – disse antes de entrarmos. – Se quiser samba vamos viajar para o Brasil e eu vou te
mostrar. – brinquei.
– Depois de dançarmos um pouco aqui, viajaremos para seu país, pode ser? – sorriu e segurou a minha mão. Fiquei
paralisada olhando-o também e um flash da primeira noite que o conheci veio atormentar minha cabeça. Fiquei vermelha e
desviei o olhar. Sua mão apertou a minha ligeiramente.
– Você está bem? – perguntou preocupado. – Se quiser ir embora...
– Não. Não é isso. – sorri disfarçadamente. – Eu estava apenas relembrando algumas coisas.
Theo me olhou com mais atenção e sorriu docemente. Seu olhar se intensificou e notei que sua respiração ficara mais
acelerada. Ele lembrara. Sem dúvida ele lembrara.
Merda!
– Quero dançar com você, Sophia. Hoje. – sussurrou próximo ao meu ouvido e me encarou seriamente.
Só pude assentir com a cabeça. Era impossível eu falar e minha voz sair perfeitamente. Ele notaria o meu nervosismo e
minha forte atração. O melhor era me mostrar a mulher desejada e não a que deseja.
Seguimos adiante com a loucura. Ele tinha noiva. Eu estava com ele, sozinha, e nós não éramos somente conhecidos. Na
verdade, éramos, mas éramos conhecidos um pouco mais íntimos.
Que tentação!
A boate estava lotada. Os londrinos continuavam demonstrando o que o mundo já sabia: alegria. Modelos maravilhosas
passeavam entre as pessoas, além de lindos rapazes em seus grupos xavecando quem se atrevia a passar próximo a eles. Eu ri
da situação vista, pois após nossa entrada eu desvencilhei minhas mãos recordando que éramos apenas dois funcionários em
seu tempo livre. Mesmo com o sentimento aumentando cada vez mais, eu precisava tomar a rédea e me comportar.
Sentei-me em uma mesa distante do bar enquanto Theo buscava alguns tragos para nós. Olhei à minha volta feliz em ver o
meu povo ali se acabando na pista com a alegria contagiante. Observei vários casais apaixonados se agarrando e depois de
tanto tempo, senti o desejo de viver algo verdadeiro. Um sentimento um pouco nostálgico tomou conta de mim e procurei por
Theo.
Estava no bar conversando com uma mulher alta de cabelos estupidamente lisos e negros como um corvo. Ela estava com
um provocante vestido preto colado e seu corpo era escultural. Theo sorria esplendorosamente e ela investia levemente o seu
corpo em sua direção enquanto bebericava uma taça de alguma bebida chique. Seu batom vermelho chamava a atenção de
qualquer um. Ela estava para matar. Ou morrer...
Senti algo contorcendo o meu coração e meu estômago revirou... Era ciúme. Estava morrendo de ciúmes dele. Por que ele
não falou que estava acompanhado? Continuei encarando irritadíssima a Theo. Ele olhou para mim e viu minha cara
carrancuda. Falou algo no ouvido da morena que a fez rir e se despediu com um breve beijo no rosto. Ela continuou estudando
todas as fortes curvas de Theo e, finalmente, viu que alguém estava com ele. Entretanto antes que ele voltasse, ela segurou o
seu braço e apontou em minha direção. Theo balançou a cabeça negativamente por algo que ela comentou e isso só acendeu
ainda mais a raiva que me invadia.
Filho da puta! Deve estar dizendo que eu sou só uma amiga! Merda! Eu só sou uma amiga mesmo. Aliás, nem isso. Sou
sua subordinada. Empregada.
Não aguentava mais ver aquela cena.
– Se eu a tivesse comigo por uma dança, seria o homem mais egoísta da noite. Não te dividiria com ninguém. – falou um
estranho em meu ouvido. Não senti quando ele se aproximou e não o vi, pois estava atrás de mim.
O rapaz deu a volta e se sentou ao meu lado. Era muito bonito. Seus cabelos negros curtos e olhos negros em meio àquela
pele branca lhe davam ar de vampiro. Um vampiro muito gostoso. Ele se apresentou como Daniel e segurou a minha mão
atrevidamente.
– E aí? Aceita mover um pouco as cadeiras? – tentou divertir-me. Olhei em direção a Theo. Tinha as duas bebidas em suas
mãos, mas a morena insistia em falar com ele. Ele notou o rapaz ao meu lado e fechou o semblante. Começou a andar em nossa
direção deixando a morena sem se despedir mais uma vez. Eu, por outro lado, não era escrava de ninguém.
– Claro, Daniel. Vamos dançar! – levantei arrastando-o pela mão até o centro da pista.
A música dance cantada por uma mulher vibrava na pista e nos juntamos a vários casais que desfrutavam daquele som. Eu
balançava minhas mãos para cima e para baixo, jogando minha cabeça para o lado. Daniel fazia a mesma coisa com um
sorriso nos lábios e algumas vezes me abraçava pela cintura para se acercar mais a mim.
Procurei por Theo e ele estava parado em pé próximo à mesa me vigiando com a morena perturbando-o. Ele não olhava
para ela nem estava interessado seja lá qual fosse o papinho da mocréia.
Relembrando o momento que passamos juntos e como nós gostamos, parei de olhá-lo e comecei a provocá-lo dançando
sensualmente com Daniel. Comecei a rebolar mais jogando meus braços para cima fazendo-os descer lentamente por meu
corpo como se eu mesma me acariciasse. Os olhos de Daniel ferveram de excitação, mas aquilo não era para ele, porém
depois da terceira música, suas mãos começaram a ficar mais ousadas e eu mais zangada. Dava uns tapinhas nele avisando
com a cabeça que não era para passar dos limites. Ele, é claro, sorria como um bom paquerador.
Eu estava começando a ficar cansada de dançar daquela maneira quando Daniel tentou mais uma vez colocar suas mãos em
minha bunda. Theo apareceu e arrancou Daniel de perto de mim. Fiquei chocada com a força dele. Com um braço apenas ele
pegou a camisa de Daniel e o puxou para o lado falando para tirar outra para dançar porque aquela tinha um novo par. Por seu
olhar, eu não me atreveria a dizer não e Daniel sensato, desapareceu no meio do povo.
Eu fechei a cara e fiz um gesto dizendo que estava saindo. Porém, Theo agarrou a minha cintura e me puxou territorialmente
para ele. Estávamos um de frente para o outro e ele com um olhar intensamente selvagem.
– Eu disse que ia dançar com você. – falou possessivo.
– Eu não quero dançar com você. – estava excitada com sua aproximação e seu jeito grosseiro.
– Você não quer, mas você vai.
Revirei os olhos e comecei uma dança bem sem graça. Theo, sem perder aquele jeito gostoso, começou se mover
malditamente sexy. Ele era bom e sabia como fazer uma dança ficar totalmente erótica. Ele me agarrou para bem perto dele e
me fez rebolar ao som da música. Movimentávamos nossos corpos na mesma direção e parecia que fazíamos aquilo há muito
tempo.
– Você não deveria me provocar daquele jeito. – sussurrou roucamente em meu ouvido. Acho que o senti beijando
levemente minha orelha.
Perdi o ar com tal aproximação e como soaram devassas as suas palavras. Era só ele abrir a boca que parecia que ele
estava dizendo “vou foder com todas as mulheres”.
– Eu não fiz nada. – tentei rebater a verdadeira acusação, mas minha voz falhou. Torci para ele não notar o meu nervosismo.
Ele não me deixava distanciar-me dele e segurava com força a minha cintura. Suas mãos deslizavam pelo meu corpo a cada
movimento. Ele pegou meus braços e colocou para cima e foi baixando lentamente suas mãos passando ao lado de minha
cabeça, ombro, seios, cintura até chegar a minhas pernas, sem perder o ritmo da dança. Com uma mão me agarrou a cintura e
com a outra pousou em meu pescoço puxando minha cabeça para estar ao lado da sua.
– Você está quente demais com este vestido e o que você fez com aquele estranho poderia ter saído mal hoje. Eu quebraria
a mão dele se ele tentasse mais uma vez alguma coisa contigo. – falava e mordiscava minha orelha. Eu só precisava dizer não
para Theo, mas eu não queria que ele parasse. Estava gostoso e eu o necessitava. Apenas suspirava com seus pequenos
estímulos. – Ele queria entrar em sua calcinha e eu não gostei de ver suas intenções.
– Você estava ocupado demais com a morena. – provoquei. – E eu sou adulta, sei o que eu quero e sei me cuidar.
– Sabe mesmo? – ele me apertou contra seu sexo duro para mostrar seu estado. – Ela estava apenas conversando, não há
maldade nisso. – defendeu-se.
– Eu também só estava dançando, não há maldade nisso. – usei suas palavras. Theo jogou-me aquele olhar vou te matar
agora e eu adorei irritá-lo. Ele sorriu com arrogância.
– É esse jogo que você quer jogar, senhorita Moody? – ronronou em meu ouvido. – Io non gioco a perdere.
O que fizeram com o educado e contido Theo Trento? Ele não joga para perder? Foi isto mesmo que escutei?
Olhei para ele chocada com sua forma possessiva e feroz inflamando ainda mais o meu coração.
Eu quero esse homem, droga!
– Posso dançar com essa coisa fofa, Darling? – perguntou a morena colocando a mão em meu ombro. Não acreditei na
audácia daquela vaca.
– Tire suas mãos de mim. – falei entredentes.
– Calma. – ela disse retirando. – Não queria parecer grossa. Só pedi um tempo com Theo. – ela até sabia o nome dele já? –
Seu amigo disse que vocês não eram namorados, então eu o quero. – dizia sensualmente comendo Theo com o olhar.
Fuzilei Theo com o olhar. Ele pareceria desconcertado. Filho de uma puta! Não éramos namorados, mas doeu.
– Desculpe. – desenhei um sorriso para ela. – Não somos namorados. Ele tem razão. Pode ficar. – saí sem olhar para trás.
Fora da boate, comecei a andar em linha reta procurando por um ponto de táxi próximo. Não achava e continuei. Iria a pé para
casa se fosse necessário.
Um tempo mais tarde, um carro buzinou e eu não olhei. Chega! Não queria saber de cantadas, mãos bobas ou...
– Sophia, entre no carro!
Theo...
– Não.
– Vamos conversar. Desculpe-me por qualquer coisa. Prometo me comportar, mas deixa eu te levar... – gritava ao volante.
– Não, Theo. Não quero ir a lugar algum com você. – parei olhando para ele.
– Eu não te tocarei daquela maneira... Eu... Eu estava... – não concluiu. Ele pensava que eu estava assim por causa de seu
toque, mas meus motivos eram outros, eram ciúmes. Continuei andando com mais raiva ainda.
– Sophia... Entra na PORRA deste carro! – gritou irritado.
– Desculpe-me, mas aqui você não é o meu chefe. Então, vai se FERRAR! – gritei. O carro parou de me seguir e por um
momento pensei que tinha vencido a guerra... Até Theo agarrar o meu braço e me puxar para trás.
– Mas que merda você tá fazendo? – perguntei enquanto ele caminhava me puxando até o carro estacionado mais atrás.
– Estou levando você em segurança para sua casa.– falou friamente.
– Eu sou brasileira e conheço muito bem por onde andar, não preciso de gringo querendo dar uma de Don Juan para pegar
todas as mulheres de uma boate e ainda me ensinar a como andar pelas ruas como uma criancinha. – Theo parou e me olhou
com curiosidade. Sua irritação passou para diversão. – Do que você está rindo? – perguntei impaciente.
– Pegar todas as mulheres? É sobre isso que se trata tudo? – ele riu roucamente e eu tentei me afastar daquela tentação, mas
ele ainda tinha meu braço naquelas mãos enormes. – Você está com ciúmes?
– Você é louco! – ri sem vontade. – Louco demais ou foi a bebida...
– Sophia, olhe pra mim. – cortou, pedindo-me carinhosamente com tom baixo. – Olha para mim. – como eu não fiz esforço
nenhum para encará-lo, ele com seu dedo indicador empurrou meu queixo para cima até nossos olhares se encontrarem. – Diga
que você está com ciúmes. Não estamos na empresa, não há nenhum colega de trabalho aqui, somente nós...
Eu não podia. Eu queria dizer a ele que estava louca de paixão, reproduzir uma musica lenta em minha cabeça e recitar um
poema de amor, mas eu não podia.
– Eu achava que quem estava com ciúmes era você. Afinal, foi você quem me tirou dos braços do Daniel.
Theo soltou uma gargalhada arrogante.
– Então ele tinha um nome... – desdenhou. – Porque eu duvido que ele saiba o seu.
– Isso é irrelevante. – desdenhei. – Eu estava me divertindo e você, sem motivo algum, resolveu acabar com a festa.
– Acabei com a festa DELE! – Ele queria se aproveitar de VOCÊ! – gritou irritado.
– EU quem estava me aproveitando dele! – gritei. – Você não era meu namorado e deixou isso bem claro para a morena.
– Não acredito que estamos conversando sobre isso. – falou Theo andando de um lado para o outro. Passava as mãos em
seus cabelos bagunçados tentando recuperar a paciência perdida. – Volta para o carro agora. – apontou para a porta que
estava quase ao meu lado.
– Eu.não.quero.voltar.com.você. – falei pausadamente. Era um tanto infantil a minha atitude, mas eu estava puta demais.
Theo ignorou minha frase e me puxou, agora segurando meus dois braços. Comecei a me debater e dar tapas em seu peito
gritando para que me deixasse em paz. Ele agarrou com força as minhas mãos, me empurrou com força contra o volvo negro e
colou seus lábios no meu.
Fiquei sem reação e ele sem perguntar atravessou meus lábios com sua língua de forma indelicada e primitiva. Parecia
exigir meu beijo e eu derreti com o contato. Retribuí ferozmente e senti a dureza entre minhas pernas. Ele a cada beijo me
empurrava sobre o carro com seu peso batendo-me várias vezes sobre o frio metal fazendo-me gemer baixinho. Suas mãos
seguravam a minha bunda e puxavam o meu corpo para que eu sentisse ainda mais sua excitação. Eu, com uma mão, puxava
seus cabelos e com a outra segurava a sua bunda sexy e dura. Ele deixou meus lábios para beijar o meu ombro nu e baixou uma
das alças do vestido para aproveitar a minha pele. Senti a barba de ele roçar e coloquei minha cabeça para trás. Queria lhe
dar melhor acesso à sua boca. Ele gemia a cada toque e eu o puxava ainda mais para mim. Nosso beijo se aprofundou e eu
precisei ligar o meu cérebro, meu lado racional.
Afastei Theo de supetão e respirei fundo. Theo me olhou.
– Sophia! – com os olhos arregalados falava meu nome. – Desculpe. Não sei o que meu deu. Oh,merda!
– Pode parar. – disse calmamente. – Bebemos muito. Só isso.
– Eu... – olhava ainda com aquela cara de excitação. – Nós nem bebemos. – concluiu.
– Esquece. Me leve de volta para casa e pronto. – falei tristemente.
Ele parecia decepcionado com minhas palavras, tentou argumentar, mas depois de me olhar por um instante desistiu e
aceitou resignado o meu pedido.
Voltamos em silêncio para meu apartamento. Theo não tentou nenhum tipo de abordagem ou conversa. Estava arrependido.
Eu ainda sentia seus lábios ardentes e desejei mais deles, porém guardei tudo só para mim. Eu deveria estar como ele, não
deveria? Afinal, ele acabara de beijar outra mulher sendo comprometido.
Coloquei minhas mãos em meu rosto involuntariamente e senti seu macio toque. Com uma mão no volante, dirigiu seu olhar
para mim e, com a outra segurou uma de minhas mãos entrelaçando nossos dedos. Seguimos viagem sem dizer uma só palavra.
Senti-me mais confortável com sua atitude. Ele queria dizer, já passou, vai ficar tudo bem.
Sim. Ficaria bem, para ele, mas não para a loucamente apaixonada aqui.
Capítulo 26 – Conversas privadas.

Dizer que me senti a mulher mais limpa do mundo é hipocrisia. Sabe quando você entende que fez merda, mas mesmo assim
não consegue sentir o peso do pecado sobre sua ação? Foi assim que me senti. Estava fazendo tudo errado, mas justificava
para mim que não era tão ruim assim para diminuir a proporção da coisa. Mas logo, sentia a raiva quando me olhava ao
espelho. Eu era a vaca da vez.
Meu esforço de ficar longe de Theo só seria recompensado com uma pequena ajuda e foi o que eu fiz nestas duas últimas
semanas. John. Minha decisão de esquecer o cara que balançava o meu coração e que eu beijei, mesmo tendo uma maldita
noiva, fez repensar os meus valores sobre dignidade. Talvez, não fosse este o verdadeiro motivo. Theo estava noivo e não
casado. Ele podia acabar com tudo isso se quisesse, mas não o fez. Então, era hora de eu tomar vergonha na minha cara e
seguir em frente ou pelo menos, mostrar a ele que eu podia.
– Não acredito que você me chamou para causar ciúmes em alguém. – John não acreditava em meu pedido. Ria da minha
cara. – Você tem certeza que pode fazer isso? Porque eu posso fazer muito mais. – insinuou com malícia.
– Deixa de bobeira. Eu já estou dando um gelo nele. E eu só quero que você vá me buscar todos os dias no trabalho. Quero
sair, quero me divertir e você é o cara que pode me oferecer tudo isso. Estou cansada da minha rotina. – menti. Eu queria que
Theo sentisse o mesmo que eu sentia quando o via com sua noiva. Eu estava sendo egoísta ao usar meu amigo, mas ele estava
disponível para isso e eu queria e muito.
– Sabia que você é uma grande mentirosa? – sorriu aproximando-se de mim. Estávamos em seu apartamento. Eu sentada ao
sofá com um pote de sorvete de chocolate e ele encostado à parede. – E você sabe que eu sou advogado. Sei quando alguém
está escondendo algo. – sentou-se ao meu lado.
Sua aproximação me desestabilizou. Este cara era bom no jogo de sedução. Ele era um conquistador pleno e um caçador
voraz. John sentiu meu acanhamento e sorriu ainda mais. Seus dedos passaram por minha bochecha.
– Eu estava esperando você se decidir se diversão era só vislumbrar o seu chefe, mas você está apaixonada, não é mesmo?
– Por que você está falando isso? – levantei-me para que ele não tivesse certeza de sua afirmação.
– Sophia, eu vi aquele dia. Ninguém sai cantando pneu daquele jeito por causa de uma simples funcionária.
– Eu sei. Mas, ele tem noiva e eu não gosto de ser a segunda. Quero acabar com essa vida chata que estou tendo aqui em
Londres. – sorri. – Não precisava mentir para ele. Ele era John e me entendia.
– Eu vou te buscar todos os dias em sua empresa porque sou seu amigo. Mas, já te falei que posso ser um passatempo
delicioso e sem exigir nada.
– Obrigada. – sorri com a simplicidade de John. Era prático.
– Sei que você gosta dele e não de mim. – comentou sem interesse. – Melhor assim. Não sou homem de relacionamento
duradouro e você já sabe disso. Mas, se quiser chamar a atenção dele, terá que se afastar. – John me olhava seriamente. Ele
estava dando um conselho. – Homem gosta de sofrer. Não esteja disponível para ele. Somente quando se tratar de assunto
profissional. Entendido?
– Sim. – ele tinha razão. – Acabou a era “Sophia espera pelo príncipe.” – estas semanas havia me afastado de Theo e por
sua agenda lotada, ele viajara todo este tempo entre um país e outro. Nas poucas vezes que nos encontramos, ele sorria, porém
eu desviava minha atenção. Ele notara minha mudança e muitas vezes tentou conversar comigo. Sempre consegui fugir e sua
cara era de melancolia.
– Agora, vem aqui. – de repente John me puxou e me abraçou.
– Estava precisando deste abraço. – comentei brincalhona.
– Você está precisando de muito mais. Não pense que não tentarei acabar contigo em minha cama. Porque sim, vou tentar. –
riu. Senti a urgência hormonal me consumir ao escutá-lo e não pensei duas vezes em beijá-lo.
O beijo com John nunca fora doce. Nossas bocas sempre necessitadas se encontraram e ele não perguntou nada, apenas me
puxou contra o seu corpo e me levou aos beijos até o seu quarto. Ele era envolvente e tinha o jeito certo de me excitar apenas
com aquelas mãos e boca. Eu precisava trabalhar ainda este dia, mas não liguei em tomar um bom café da manhã com meu
vizinho.
John retirou a minha blusa e calça legging com a facilidade de quem está acostumado a pegar uma mulher diferente por dia.
Eu tinha pressa em aproveitar e sua camisa, cheia de botões, foi lançada ao longe quando a retirei com violência.
– Ora... Ora! Temos alguém faminta aqui. – comentou beijando meu pescoço e passando suas mãos pelo mesmo lugar onde
estiveram um tempo atrás. Fiquei excitada com seu toque. – Deliciosa. – murmurava massageando minha pele na parte interna
da coxa. Ele queria me deixar pronta, mas eu não queria preliminares. Beijei-o com vontade e ele entendeu o meu aviso.
Deitou-me sobre sua cama com lençóis de seda azuis e retirou sua bermuda colocando o preservativo que eu nem vi onde ele
havia pegado.
– Agora eu vou fazer você gritar a porra do meu nome! – olhou para mim empurrando com força para dentro de mim. Era
tão quente e tão intenso que eu balbuciava seu nome a cada estocada. – Isso, Sophia. Rebola pra mim, gostosa! – meu corpo
começou a dar sinal que eu estava chegando e John aumentou o movimento até eu gritar o seu nome de tanto prazer que senti
com aquela explosão interna. Ele também explodiu no mesmo momento e ao terminarmos, deitou-se ao meu lado.
– Você conseguiu com que eu gritasse o seu nome. Parabéns! – ri. John passou sua mão por minha bochecha e riu com meu
infeliz comentário.
– Não se esqueça do que eu te falei. Fuja dele e ele virá até você.
– Farei isso.
– E... Estarei aqui sempre que seu corpo precisar. Você é muito boa, Sophia. Quero te comer sempre que possível.
Fiquei vermelha com aquela frase tão machista e John me beijou nos lábios rapidamente. Era hora de eu ir me arrumar para
o trabalho. – Sem vergonha. – sorri. – Me busque hoje às 18h13. – John assentiu e assim corri para não me atrasar.
(...)
O clima na empresa estava tranquilo. A dupla naja e cascavel trabalhavam com afinco. Theo, novamente depois de um
longo tempo, apareceu na Artvt. Ele saiu de sua sala e olhou para mim com um belo sorriso de bom dia. Todos perceberam
seu humor comigo e eu disfarcei sorrindo, mas não tanto. Eu impus a barreira e a manteria assim.
– Page, a senhorita terminou o projeto? – perguntou Theo. – Lembre-se que este é um dos clientes mais importantes e meu
pai também estará presente na reunião no período da tarde.
– Sim. Senhor. Está quase finalizado. Falta apenas um dos quatro e já passo no setor do senhor Caio para imprimir a arte. –
sorriu profissionalmente.
– Ótimo. – se retirou para fora da sala e me olhou de soslaio. Quando pensei que havia saído do setor, Theo voltou e me
chamou.
– Senhorita Sophia. Posso falar com você um momento no corredor. – seu pedido poderia até ser de chefe, mas seus olhos
suplicantes diziam outra coisa.
– Claro, senhor. – respondi caminhando para a fora de minha mesa até o corredor na parte mais distante da sala.
– Eu sei que talvez você pense que não significou nada para mim aquele dia. Mas, você está errada.
– Theo. Não estou aqui para falar de outra coisa a não ser trabalho. – cortei-o.
– Você vai me escutar. Eu preciso falar contigo agora. – estava aflito. – Eu queria tê-la em meus braços. Eu quis tudo o que
aconteceu. Não duvide de mim quando eu te falo isso.
Olhei para os lados. Essa conversa ali era perigosa. – Vamos manter as coisas como estão. Finja que não passou nada. –
pedi friamente. Era hora de ser atriz. Ele me olhou surpreso.
– Eu não posso. Eu não vou, Sophia. Porra! – passou a mão pelo cabelo agoniado. – Eu quero conversar contigo melhor, em
um lugar mais privado e tentar te explicar.
– Não. Eu não tenho tempo para isso. Só peço um favor, antes que eu me retire. Compre a porra de uma aliança e coloque
em seu dedo. É o mínimo que você pode fazer por sua relação estável. – estava puta.
– Você não sabe do que...
– Bom dia, filho. – seu pai havia visto nós dois no canto do corredor e levantou a sobrancelha. Seu semblante era de
curiosidade e... Irritação. – Bom dia, senhorita Sophia. Estão em reunião?
Theo arrumou a postura que antes estava de derrotista para “eu sou foda”. – Sim. – afirmou sem sorrir para seu pai.
– Então, vocês terão que deixar para outra hora. Quero falar com meu filho neste momento, senhorita Sophia. Se me permite.
– uau! Que deselegante. Ele estava com raiva.
– Claro, senhor. Não era nada tão importante.
– Assim espero. Não quero problemas na empresa por causa destes encontros nos corredores.
– Pai! Que isso? Mais respeito com a senhorita Sophia. – irritou-se Theo. – Quem decide com quem devo falar, a hora ou
onde, sou eu. Portanto, se quiser falar comigo, marque uma hora. – fiquei chocada com o tom de Theo com seu pai.
Obviamente, eu queria sumir daquela crise familiar e tentei fazer cara de paisagem.
– Theo, meu filho, vamos para sua sala. É algo urgente. Sophia, me perdoe. Não quis ser rude. Estou passando por um mau
dia. – olhou com pesar para mim. Eu não sabia que merda estava acontecendo.
– Eu vou para a minha mesa continuar minhas atividades. Não se preocupe. – sorri para seu pai, mas não olhei para a cara
de Theo.
– Vamos tomar café depois, Sophia? – perguntou Theo ao longe.
Olhei para ele antes de virar o corredor. – Tenho companhia, mas agradeço o seu convite. Seu olhar caiu e ele assentiu com
a cabeça ciente do fora.
Corri para o banheiro e fiquei cinco minutos lá arquitetando junto ao meu corpo como escapar dele durante toda a
eternidade. Estava para sair quando escutei uma pequena discussão. Theo e seu pai falavam baixinho, mas estavam exaltados.
– Eu não quero que você se envolva com funcionária alguma. Já te disse que isso pode dar processo. – dizia seu pai
extremamente irritado. – Você está noivo da Jéssica e assim ficará.
– Não venha me dizer o que eu devo ou não fazer. Dei tudo por esta empresa. Você me criou para que eu a comandasse e
estou cumprindo o meu papel do jeito que deveria. Só não estou mais disposto a abdicar de coisas que desejo para fazer as
suas vontades.
– Minhas vontades? Você sabe o que a mãe dela pensará quando descobrir seu casinho com uma funcionária? Jéssica vai
colocar tudo a perder. Tínhamos um acordo, Theo!
– NÃO! – saltei com a voz raivosa de Theo. – Vocês tinham um acordo e me colocaram nele. Mas, estou puto com tudo
isso. Richard também não está a favor e você sabe. Tenho conhecimentos suficientes para abrir meu próprio negócio e mandar
essa porra para o inferno! Só me tente, pai. Continue com seu joguinho e você verá.
– Não fale assim comigo, rapaz! Respeite-me! Você é um ingrato. Sua mãe ficará com os nervos a flor da pele quando
descobrir que seu filho preferido está pulando fora do barco. Você sabe que o coração dela é frágil.
– Você não faria isso. – falou com a voz receosa. – Você não pode...
– Posso. Já estou até vendo “A vergonha da família, deixa sua linda noiva por uma empregada colocando em risco todo o
negócio da família”. Ahhh e por falar em jornais. Você apareceu na coluna principal saindo com uma loira não identificada
ontem. Agora, se explique para Jéssica porque eu sei quem era na foto.
O som do sapato de alguém batendo contra o piso ecoou no corredor e eu continuei dentro do banheiro pasmada. Tinha uma
foto minha com Theo daquele dia. Estava fodida. E seu pai? Era isso que o empatava de pular fora da vida da Jéssica?
(...)
– Não vai almoçar? – perguntou Ronald de sua mesa. – Estava pensando em ir a um restaurante fora da empresa. Comer
comida com outro tempero. O que acha?
– Eu... – estava pronta a aceitar o seu pedido. Queria sair um pouco de lá e o convite de Ronald vinha em boa hora. Mas,
quem eu menos acreditava que fosse aparecer na empresa estava parado à porta da sala.
– Lamento, meu camarada, mas minha Sophia já tem companhia. – John estava lindo como aqueles modelos de capa de
revista em seu sobretudo negro.
– Alguém teve audiência hoje. – comentou Ronald olhando para ele surpreso por vê-lo ali. – Você e Sophia estão juntos? –
mas que atrevido. Nem um “boa tarde”?
– Senhor Ronald, desculpe-me a falta de educação. Mas isso não é da sua conta. – respondeu John com um sorriso. – Vamos
Sophia?
Theo abriu a porta com o celular no ouvido e parou ao ver John ali na empresa.
– Já te ligo, Richard. – cortou a chamada. – Boa tarde. – cumprimentou-o com o semblante fechado. Queria enterrar a minha
cabeça agora. Paige e Kate estavam vendo tudo silenciosamente. Elas, como qualquer mulher, analisavam John por inteiro.
– Boa tarde. – aproximou-se John dele levantando sua mão para um cumprimento formal. Theo o devolveu como a norma de
educação exigia. – Estou admirado com a imponência de sua empresa.
– Obrigado. – respondeu sem vontade. – O que o senhor faz aqui?
Eita!
– Estamos indo almoçar. – respondi saindo de minha mesa enquanto pendurava minha bolsa em meu ombro. Theo ficou
vermelho e eu sabia que era de raiva, mas o que ele podia falar? John também não ligava para seu humor e passou sua mão na
minha cintura enquanto caminhávamos. – Tenha um bom almoço. – falei sem olhar para trás.
No restaurante, comentei com John a conversa que escutei e compramos o jornal para ver se estava estampado meu rosto. A
minha sorte que só conseguiram tirar foto de quando entrávamos à boate. Estava de costas, mas a manchete dizia tudo.
– “Noivo sem compromisso” – desdenhou John. – Eles são bons em fofocas.
– Estou ferrada. A Jéssica sabe que essa aí sou eu. É óbvio!
– Prepare-se para isso. Ela virá atrás de você. Pelo menos, isso já faz alguns dias... Para sua sorte.
– Isso não muda nada. Terei que me afastar dele.
John me deixou em frente à Artvt. Não deixou por menos, saiu e me beijou perto da boca. Eu estava gostando deste jogo e
senti meu corpo responder favoravelmente aos seus lábios.
– Quero fazer isso todos os dias. – sorriu travesso.
– Nem sonhando. Quero você só quando precisar. – joguei com a mesma moeda. Eu era a mulher moderna agora. John
voltou ao seu carro e se foi.
Que ironia!
Virei para a porta da empresa e vi Theo com sua pasta preta nas mãos e um rosto irritado. Passei por ele empinando o nariz.
– Boa tarde, senhor Trento. – não parei, segui em frente. Ele, por outro lado, segurou meu braço levemente. – Solte o meu
braço. – pedi seriamente e ele assim o fez.
– Vocês estão saindo? – perguntou sem rodeios.
– Isso não te incumbe. Deveria se preocupar com sua noiva e a empresa de seu pai. – ele me olhou zangado.
– Quero te mostrar uma coisa. – pegou o jornal e abriu onde estava a nossa foto. – A imprensa está me ligando a todo o
momento para saber sobre isso.
– É natural. Eu que não deveria estar aí. Desculpe se estraguei o seu dia.
– Não é nada disso, Sophia. Para de infantilidade um minuto. – idiota!
– Quer saber? Pare você com esta merda toda, Theo. Estou de saco cheio. Não sou sua propriedade. Você precisa obedecer
à vida regrada de seu paizinho e eu quero viver a minha com alguém disponível. Então, pare de se envolver com a empregada
da empresa e me deixe ser feliz.
– Você escutou a conversa que eu tive com o meu pai? – seu tom era de surpresa.
– Escutei. – iria mentir? – Sinto pena da sua mãe apenas. Mas, você e seu pai... Que se danem os dois! – explodi.
– Você acha que é simples, não é? Ele está me torturando com a porra da empresa e minha mãe está débil devido a sua
enfermidade. Para você deve ser tudo muito descomplicado. – desdenhou tristemente, mas sem perder aquele tom arrogante
dele.
– Não disse isso. Mas, você é homem e deveria honrar o que tem entre as pernas. Já tentou conversar com sua mãe para
saber pelo menos a sua opinião? – ele me olhou com raiva.
– Estou planejando a próxima viagem exatamente para resolver essa porra toda.
Dei como finalizada aquela discussão. – Preciso voltar ao meu trabalho. Até mais. – saí.
– Ela o abandonou. – falou parando-me. – Ele estava se relacionando com uma empregada da empresa. – seu riso de
desgosto me fez ficar para escutar o resto. – Depois de anos batalhando ao lado dele para tornar isso aqui em um império. –
falou apontando para o alto prédio. – Ele por fim se cansou da esposa fiel que tinha ao lado.
– Eu lamento. – sentia pena, mas eu estava fazendo a mesma coisa ao me envolver com um cara como ele.
– Não pense que o nosso é igual. – encarou com angústia. Acabara de ler meus pensamentos – Minha mãe é doce e gentil.
Ela sofreu com os maus tratos de meu pai, que veio a mudar quando conheceu a irmã do seu sócio que era o pai da Jéssica.
Meu pai era um bom homem, mas se tornou um vigarista egocêntrico com a nova esposa. Ele não liga se o coração da minha
mãe é frágil ou não. Ela morrendo é lucro para ele. Ela detém uma porcentagem maior que ele da Artvt.
– Theo. – acerquei-me a ele. – Eu não sabia de nada disso. Eu... Lamento por sua mãe. Não queria estar em seu lugar.
– Você acha que eu amo a Jéssica? – perguntou fixando aqueles olhos azuis nos meus. – Você acha que estou com ela por
quê?
– Eu... Eu não sei. – gaguejava.
– Ela é sobrinha da atual esposa do meu pai. Eles fizeram um tipo de sociedade doentia e apesar de minha mãe ter a maior
porcentagem da empresa, são eles que dominam a economia. Ela não tem força nem vitalidade para viajar e saber como está a
situação por aqui. Ela está doente, Sophia. E eu tento cuidar do patrimônio que ela ergueu com tanto esforço e tenho medo dela
morrer e aquela vagabunda tomar conta do que era para ser só da minha mãe. – caminhou até mim e segurou a minha mão. As
pessoas chegavam apressadas à empresa e me senti observada por todos. – Peço apenas que me espere. Eu vou resolver isso.
Estou viajando ao Brasil para conversar com a minha mãe.
– Brasil? – perguntei sem entender.
– Ela vive atualmente lá. Rio de Janeiro. Sempre comenta por telefone que quanto mais longe do meu pai, melhor sua saúde
estará. Ele não foi um exemplo de marido carinhoso depois que começou a se relacionar com a tia de Jéssica. Acredito que
seu coração adoeceu depois de tanta decepção. – Theo parou tudo e me olhou com atenção. – Eu sei que ando fazendo muita
besteira e... – coçou a cabeça pensando nas palavras. – Minha situação com Jéssica é complicada, mas eu quero que você
entenda...
– Não precisa explicar nada! Eu já entendi tudo. Você está noivo e fica me procurando. Não gosto disso e não sou mulher
disso. – ele me olhou tristemente, escutando minhas lamúrias.
– Fique sabendo que também não sou homem disso. – defendeu-se com honra. – Só não posso fazer certas coisas no tempo
que você espera que eu faça.
– Eu não te pedi nada até o momento ou pedi? – ergui a sobrancelha desafiando-o. – ele se exaltou e andou para longe
deixando a minha mão.
– Por que você simplesmente não pode aceitar o fato e esperar?
– Esperar o quê, Theo? O dia que você me agarrar e depois voltar para os braços de sua noivinha? O dia para ter uma
transa legal com a brasileira e ficar com a italiana modelo depois? A brasileira é para uma noite, a italiana para a vida toda?
– era a minha vez de me dirigir para dentro da empresa para longe.
Inferno de homem!
– Sophia... – ele estava atrás de mim. Tocou meu ombro levemente. – Eu não queria que fosse assim, mas eu preciso de
tempo e eu preciso deste tempo. Minha vida não está tão fácil assim.
– Não se preocupe. – virei olhando com cara de poucos amigos. – Não somos nada. Apenas chefe e empregada.
– Somos tudo! Porra! – estava possesso e eu finquei o pé com meu discurso. – Você me quer! Eu sei! Eu te quero também.
Conheço-a suficiente para tentar não avançar contigo, mas sou homem e luto para não fazê-lo agora. – seus olhos estavam
vermelhos e tinha certeza que era paixão. – ele estava muito próximo novamente. Eu estremeci com o impacto de suas
palavras. Foram fortes, foram doces e eu queria tê-lo só pra mim, mas a droga do noivado não era algo que eu ignoraria neste
momento.
– Vamos voltar ao trabalho, por favor. – pedi cansada de tudo aquilo.
– Vamos. – aceitou. – Mas, prometo que depois da viagem terminarei com a Jéssica. Só preciso organizar algumas coisas
antes de dar a notícia ao meu pai e a ela. Você acha que minha mão não teria uma aliança com o nome da Jéssica gravado se
eu estivesse apaixonado? – seu rosto dizia tudo. – Mas eu não estou. Nunca estive! Então, nem fodendo que eu vou colocar
qualquer anel aqui. – mostrou-me o seu dedo.
– Theo. Acabei de deixar claro o meu ponto de vista. Não ficarei contigo e não esperarei. Estou solteira e posso curtir a
minha vida do jeito que eu quiser. O único com problema aqui é você, então... Desculpe, mas estou bem, longe de você. – saí
de volta a Artvt ignorando qualquer sentimento de esperança que surgiu após a declaração dele. Só acreditaria vendo.
(...)
John veio me buscar como prometido e mais uma vez relatei toda a merda de dia que tive. Ele escutou calado todo o
caminho e sorriu.
– Belo esforço, Sophie. Era isso que você precisava fazer. Não ceda! – sorria enquanto dirigia. No prédio, ficamos um
tempo conversando em minha porta até nos despedirmos. Combinamos de sair para a noite todos os fins de semana. Estava
pronta para curtir sem me prender a ninguém e John seria perfeito para isso.
(...)
Theo era uma caixinha de surpresas. Na semana seguinte, fomos convocados por ele e Richard para mais uma reunião.
Quando ele saía de sua sala e anunciava a bendita, todos esperavam algo ruim. Eu já não podia reclamar. Theo estava me
ajudando como podia. E eu não era besta, eu aceitava e cumpria com suas exigências. Tudo em prol do prazer de ver meu
chefe sorrindo. Delícia! Agora, que eu estava fria com ele e cada vez mais próxima de John, Theo assumiu uma postura muito
mais predatória comigo. Era comum, encontrá-lo me secando com os olhos, mas evitava ficar sozinha com ele. Quem sofria
naquele momento era ele.
Naquele dia da reunião, havia passado a noite anterior bebendo e transando com John. Foi um momento maravilhoso.
Ficamos em seu apartamento até tarde e ele só me deixou ir quando bati nele tentando me desvencilhar de seus braços
musculosos.
– Você vai me abandonar novamente? – falava totalmente nu sobre a cama. Eu estava com o lençol enrolado em meu corpo
rindo de sua cara de safado. Ele com os braços cruzados atrás da cabeça e seu membro duro ainda depois de nossa terceira
transa, sorria querendo mais.
– Nós combinamos como seria. – disse sorrindo recolhendo a minha roupa. – Você é o John, eu sou Sophia. Apenas amigos
“coloridos”, lembra?
– Estou ciente deste fato. Mas, você poderia passar a noite aqui do meu ladinho. Eu estou bem quentinho e esse inverno
está foda demais, não acha? – seu sorriso de sem vergonha era tão expressivo que gargalhei com sua voz de gatinho
abandonado.
– Agora sim você está parecendo abandonado. Mas, eu gosto muito da minha cama, John. Vejo-te na hora do almoço?
– Com certeza. Só não poderei buscá-la. Terei companhia hoje no final do dia. Lamento. – não liguei para isso. Entre nós
não envolvia nenhum sentimento, mas sabia que não duraria muito este meu estado. Um dia precisaria de uma companhia de
verdade. John me acompanhou até a porta do meu apartamento dando-me um beijo de tirar o fôlego.
Ao entrar, me deparei com Mia sentada à cadeira.
– Até quando você acha que vai durar isso, Sophie? – ela não estava com a cara boa. Era madrugada e parecia não ter
dormido nada.
– Você estava me esperando? – perguntei incrédula.
– Estava. – falou bocejando. – Estava esperando você parar de foder com o John para dizer que isso aí não é você. –
apontou para mim.
– Eu estou me divertindo. O que tem demais nisso? Agora, devo ficar como uma virgem? – estava ficando irritada. Quem
ela pensava que era?
– Você entendeu tudo errado. Ele, John, não gosta de mulher alguma. Está te iludindo e você vai se desiludir com ele. Ele
vai acabar contigo. Tome cuidado. – me aconselhava.
– Ele não fará isso porque deixei claro que meu assunto era apenas sexo e nada mais. Não sinto nada por ele, mas não
ficarei aqui esperando Theo foder com sua noiva exigindo de mim tempo.
– Você e John? Só transa?! – estava assustada e surpresa.
– Sim.
– Uau! Quem te viu quem te vê. Estou chocada agora. Pensei que você estava apaixonada por ele, mas... Caramba! – ri de
sua cara e mostrei em poucos minutos como era bom curtir como eu estava fazendo. Mia entendeu que Theo era o cara que eu
realmente desejava, porém me apoiou na decisão.
– Ele que se foda, amiga! Se ele não quer tomar uma atitude, ele precisará sofrer para valorizar e saber que você não é uma
boba.
Fomos dormir e eu contente por estar mais que satisfeita.
Pela manhã, notei que Paige e Ronald andavam cada vez mais juntos depois do baile. Não queria me aproximar dele por
causa dos ciúmes excessivos de nossa amiga bruxa e assim mantive distância. Ele já não sorria como antes. Só esperava que
ele não se tornasse a personificação de Paige masculina.
Quando adentramos a sala de reunião. Richard estava esperando para nos comunicar algo que me encheu o coração de
felicidade.
– ...E este Congresso será realizado no Brasil, mas especificamente no Rio de Janeiro. – sorriu olhando para mim.
Sorri com uma saudade apertando o meu peito. Minha terra adorada. Minha raiz.
– E nada mais justo que dois empregados para acompanhar o senhor Trento nesta viagem. Ronald e Sophia, a nossa
brasileira. – continuou Richard.
– Eu? – estava emocionada. Não pela viagem. E sim por voltar ao meu país depois de quase um ano fora. E ainda no verão!
– Obrigada!
– Quem diria que eu conheceria sua terra natal, Sophia. – sorriu Richard.
– Está vendo! Sorte sua ter minha amizade. – não conseguia parar de sorrir. Paige cortou aquela emoção dando um show.
– Isso não é nada justo! Eu sou mais antiga que ela na empresa e todas às vezes são passadas tarefas mais importantes. A
Artvt deveria levar os mais antigos, eu faria isso. – soltou a invejosa.
– Quem decide quem levamos ou não, sou eu e Richard, donos da empresa. – entrou Theo com seu celular e pastas. A visão
do sexy executivo.
Que fora! Jesus!
– Eu entendo, senhor Trento. – falou uma Paige menos altiva. – Eu só achei que seria...
– Desculpe, senhorita Paige. Com todo o meu respeito, afirmo que essa decisão compete a nós donos e diretores da empresa
e ratificando o que o senhor Richard falou. Senhor Ronald e senhorita Sophia me acompanharão nesta viagem. Mais alguma
dúvida? – perguntou sem dar chance dela dizer qualquer coisa. – Continuando, será um encontro com várias empresas
internacionais do nosso setor. Esperamos conhecer futuros clientes, mas o principal objetivo é melhorar os nossos
conhecimentos na área. Atualizar é fundamental. Então, peço a todos os funcionários que foram nomeados que se dirijam até
minha sala para conversarmos sobre a viagem. – finalizou Theo indo direto ao nosso destino, àquela sala escura.
Fiquei escutando todo aquele discurso enquanto uma Paige retraída ficava quietinha. No setor de Theo, éramos nós três e
ela ficou de fora. Poderia ser um castigo por seu jeito? Será que ele percebeu?
Contive um pouco a minha alegria. Kate e Paige me olhavam desconfiadas, mas preferiram se calar. Talvez, não quisessem
fazer mais uma cena diante do chefe. Neste ponto, eram bastante inteligentes.
Já era fim de tarde quando finalizamos a reunião na sala de Theo. Ronald foi embora com um sorriso, mas não quis
demostrar tanta alegria por causa de Paige. Quem antes não se preocupava com ela, hoje estava cuidadoso com seus
sentimentos. Ela desapareceu assim que saímos da sala.
– Rio de Janeiro! – comentou Ronald no elevador.
– A cidade Maravilhosa! – falei rindo de tanta alegria.
(...)
Estava muito entusiasmada com essa viagem. Quando Theo anunciou que eu e Ronald participaríamos deste congresso no
Brasil quase fui às nuvens.
Eu ainda era nova na empresa. Pelo menos, nova em relação aos outros empregados do setor. Muitos de meus colegas de
trabalho já estavam na Trento Artvt há muito tempo.
Em casa, contei a novidade à Mia. Mais uma vez, ela tinha voltado de sua viagem a trabalho.
– Estou tão entusiasmada! – falei enquanto abraçava Mia.
– Eu imagino, Sophie. Quem diria que você já estaria viajando rumo à cidade maravilhosa a trabalho sem gastar um tostão e
ainda em tão pouco tempo na empresa.
– Nem me fale, estou sonhando. Além de poder participar de tantos workshops sobre marketing, terei chance de conhecer
melhor o Rio de Janeiro no tempo livre, se sobrar um tempinho. – caí na cama de braços abertos rindo sem parar.
– Lembre-se de me chamar quando for arrumar as malas. Você precisa colocar todas as peças essenciais para uma solteira
linda, leve e solta no Rio de Janeiro. – falou enquanto saia.
– Miazinha, sua fofa! – levantei e fui até ela e apertei aquelas bochechas rosadinhas – Estou indo a trabalho, amorzinho da
mamãe.
– E daí? E o que você vai fazer de meia-noite às seis da manhã? Dormir? – perguntou Mia.
– É claro!
Mia arregalou os olhos como se eu tivesse falado a coisa mais assustadora do mundo.
– Você só pode estar de brincadeira comigo. Você tá falando sério?! – perguntou assustada.
– Mia! Você está mesmo assustada?
– Sophie! Chega de bobagem. Vamos arrumar essa mala agora. Eu realmente preciso escolher as suas roupas. Inclusive
lingeries. Você precisa estar 100% pronta para matar. – falou dando uma piscadinha.
Mia... Sempre Mia.
Arrumei as malas, como Mia havia pedido, dois dias antes da viagem para não faltar uma peça de roupa. Queria estar
totalmente tranquila quando chegasse o dia. Sem contratempos ou problemas causados por uma mera preguiça.
Combinamos de ela me levar até o aeroporto com seu carro e depois me buscar quando voltasse.
Despedi-me de Mia no aeroporto e fui até o terminal de embarque ciente que ia encontrar alguns conhecidos da empresa lá.
Theo, Richard, Ronald e mais alguns sócios e funcionários da empresa tiveram as passagens compradas com antecedência
pela secretária do setor, a Kate.
– Alegre pela viagem? – perguntou Richard antes de entrarmos no avião.
– Sim. Muito! Eu não conheço o Rio de Janeiro e, além de tudo, aprenderei lá, com certeza vou passear para não voltar sem
ter conhecido pelo menos a praia de Copacabana. – falei sincera.
– Que bom! Eu indiquei você entre todos do seu setor porque estou sabendo de seu desempenho no departamento do Theo, e
você trabalhou muito bem no meu... E porque ele gosta de você.
– Ele gosta? – perguntei fingindo não entender. Pela forma como Richard falou, os primos haviam conversado.
– Oh sim! – soltou aquele sorriso safado.
– Ah não, Richard! Não começa não com as suas piadinhas.
Encontrei meu assento e esperei que ele fosse sentar ao meu lado.
– Aonde você vai?
– Onde você espera? Para meu lugar ora.
– Pensei que ficaria me atormentando a viagem inteira? – brinquei.
– Eu até pensei nisso, mas alguém já havia requerido o seu lado na viagem. Lamento. – falou sentando-se dois assentos mais
à frente.
– Sério? E quem seria o sortudo? – perguntei esnobe.
– O sortudo sou eu. – anunciou Theo com um sorriso.
Tentei disfarçar o tremor imediato que meu corpo sentiu ao vê-lo.
– Ah. Senhor Trento. – falei corando.
– Decepcionada? – exibiu um rosto com falsa tristeza.
– Imagina! – disse sorrindo. – eu não esperava isso e estava nas nuvens por saber que passaria um tempo com ele. Um deus
desse não era uma companhia muito comum em minha vida e poder conversar um pouco melhor era algo que eu realmente
ansiava, mas sem dar muita bandeira, é claro. – Eu ficaria decepcionada se o Richard sentasse aqui.
– Hey! Eu escutei. – gritou Richard de seu assento. Eu ri. Adorava provocá-lo.
Theo analisou o meu rosto com uma expressão misteriosa.
– Vocês são grandes amigos, não é? Não sabia como vocês eram tão chegados desde a festa da empresa. – falou com certa
admiração.
– Sim. Somos amigos desde aquela noite na boate... – lembranças inundaram minha mente. Nossa dança rápida. A noite que
conheci Theo. Precisava retornar ao tema do Richard para não me sentir frustrada. – Richard é engraçado e gentil.
– Desde esta noite? Caramba! Se eu tivesse permanecido em Londres, acredito que estaríamos mais próximos também. –
concluiu colocando a mão no queixo pensativo. – Permita-me fazer uma pequena observação. Não fique irritada comigo.
Concordei com a cabeça curiosa para saber suas próximas palavras.
– A forma que vocês ficaram juntos na festa da empresa... Pensei que... Estivessem namorando ou algo do tipo. – falou
envergonhado. – Conhecendo o Richard, ele é rápido e eu fiquei um pouco... Preocupado. Porém, depois ele me contou o caso
dele com a funcionária do RH.
– Você perguntou a ele se estávamos namorando? – encarei aqueles olhos.
Theo coçou a cabeça como se eu tivesse descoberto o seu segredinho sujo.
– Na verdade... Perguntei sim. Desculpe! Não queria ser invasivo.
Opa! Por essa eu não esperava.
– Por que o seu interesse em saber? – perguntei curiosa e segurei a respiração aguardando qualquer que fosse a resposta.
Estávamos entrando em território perigoso novamente e por minha culpa.
– Eu... – pigarreou e ajeitou-se em seu assento sem saber o que responder. – Eu só queria me certificar que ele não queria
apenas se aproveitar de você o algo do tipo. Ele é um pouco volúvel quando se trata de mulher. Mas você agora está com o
seu amigo. – tirou com certo desprezo.
– Não vou nem responder a essa sua afirmação. – ele que ficasse na vontade de saber sobre o meu caso com John. Apesar
disso, sorri com sua ingênua preocupação. Estava escrito em letra maiúscula e neon em sua testa “MENTIRA”. Tinha mais
alguma coisa aí. Falando baixinho próximo ao seu ouvido provoquei:
– Senhor Theo, eu vou fingir que acredito em sua resposta porque estou muito feliz com essa viagem.
Sua expressão passou de assustado para surpreso. Ele sentiu que eu não tinha caído naquela conversa de preocupação, mas
não considerou falar o verdadeiro motivo de sua pergunta e eu não o pressionei. Gostei de saber de seu interesse sobre o tipo
de relação com seu primo e seu ciúme do John. Estava jogando e estava ganhando.
Ele sorriu para mim, colocando sua cabeça para o lado e olhou-me com ternura.
Corei imediatamente com aqueles olhos azuis sobre mim. Não tinha como esconder isso. Eu era branca demais.
– Por que você corou? – perguntou baixinho provocantemente.
– Corei? Deve ser o nervosismo. Viajar de avião me deixa um pouco assustada. – respondi tentando esconder o meu rosto
olhando para fora pela janelinha.
Theo se acercou um pouco mais a mim e próximo ao meu ouvido sussurrou:
– Vou fingir que acredito em sua resposta porque estou feliz em saber que você está gostando da viagem.
Fiquei paralisada olhando-o enquanto ele se ajeitava confortavelmente com um sorriso vitorioso no rosto.
– Quanta conversa. – comentou Ronald, que estava nas poltronas opostas a nossa, porém na mesma direção. Theo fuzilou-o
com o olhar.
– Deveríamos nos calar, senhor Ronald? Estamos te perturbando?
Ronald disfarçou e sorriu sem graça. – Não. Estava só tentando puxar assunto. Foi uma brincadeira.
– Não gosto deste tipo de brincadeira. – falou Theo sem tirar os olhos dele. Os dois se encararam por alguns segundos e
senti a tensão. Ronald desviou o olhar e pegou um livro para ler, ignorando o jeito ríspido de seu chefe.
Desconsiderei o momento, colocando meu fone de ouvido para relaxar até chegarmos ao Rio de Janeiro. Continuaria dando
um gelinho nele.
Todas aquelas horas, estava ciente de sua presença ao meu lado e preferi fingir que não tinha ninguém. Desenhei um sorriso
em meus lábios enquanto pensava nesta conversa estranha. Apesar de tentar focar na música que escutava, seu cheiro
impregnava o meu nariz. Era tão delicioso. Perfume caro e de bom gosto. Tinha vontade de cheirar o pescoço dele e sentir
mais de perto a fragrância. Estar com ele era algo tão bom. E tudo que eu estava mais ansiando era estar ao seu lado por um
momento. E aqui estava eu. E isso era tudo que eu precisava, no momento.
A Artvt contratou um transporte especial para todos da empresa e o caminho até o Hotel foi feito em uma van alugada de
uma cooperativa acostumada a fornecer seus serviços.
O motorista era profissional e muito tranquilo, característica fundamental para este tipo de transporte – ele não teve pressa
em chegar a seu destino. Sentando-me ao seu lado, pedi em segredo para que ele dirigisse bem devagar para que eu pudesse
admirar a cidade. Ele concordou e de propósito percorreu um caminho mais longo para que eu avistasse melhor a cidade.
Estava encantada com tudo!
Apontava para os lugares que mais me chamavam à atenção e gritava a todos “olhem só isso”, “que maravilha”, “gente, que
legal”. Eu era brasileira e me transformara em uma típica turista.
Theo conversava com Richard sobre algo sério e ele concordava com a cabeça. Estavam sentados atrás e todas as vezes
que virava para falar com Ronald, ele sorria friamente demonstrando que não queria papo comigo.
Ao chegarmos ao Hotel localizado à frente da praia de Ipanema por volta das 13h, Richard nos reuniu no saguão e entregou
um folheto com toda a programação e horários do Congresso.
– Como já foi falado em reunião, hoje é o primeiro dia do Congresso e será ministrado no salão de Convenções aqui
mesmo. O horário livre começará depois das 16h e vocês terão este tempo para fazer o que quiserem. Lembrando que temos o
jantar às 21h. – relembrava Richard, os pontos chaves.
– Exatamente. Amanhã, o workshop e palestra serão no período manhã e tarde. Tendo à noite livre. – confirmou Theo.
– E para alguns, depois de amanhã, será o último dia do Congresso. – falou Richard olhando para mim e alguns
funcionários. – Nós da diretoria permaneceremos a negócios por mais quatro dias. Como informava, neste último dia, para
alguns, os cursos serão também no período manhã e tarde e à noite, teremos o coquetel onde conheceremos diversos
profissionais das empresas concorrentes além de formarmos importantes parcerias. Não faltem.
Tudo ocorria como planejado. Recebemos as chaves de nosso quarto de um senhor muito educado para tratar de um público
mais seleto, senhor Tomas. Ele foi o encarregado de passar os horários de café da manhã, almoço e janta. Sua finesa o deixava
mais velho. Será que tamanha etiqueta fazia bem? Sua aparência naquele uniforme dava a ele uns 65 anos de idade, mas de
acordo com Richard, ele tinha apenas 51. Era baixo e magro e sua careca intensificava a cara de mordomo de filme de terror.
Assustador!
Meu quarto estava localizado no sétimo andar junto com os outros cinco funcionários, além de Ronald, selecionados entre
os vários departamentos que tinham um envolvimento a mais com o marketing, enquanto que a equipe top de diretores e
gerentes ficou com 14º e 15º andares.
Nosso horário estava contado e apressei-me em tomar um banho e colocar um dos meus conjuntos de executiva para
comparecer à palestra sobre o Mercado com um palestrante dono de uma das maiores empresas do país.
Estava eufórica quando retornei ao hall do Hotel e avistei Richard.
– Obrigada por me indicar. – cochichei.
– De nada.
Sentamos todos juntos na mesma fileira. Preferi juntar-me aos funcionários mais comuns apesar de ter essa amizade com
Richard. O mínimo que precisava agora era um dedo apontado para mim como a queridinha da diretoria.
A loira do RH também estava no evento e ri só de pensar quem poderia ser o responsável em indicá-la. Ao contrário de
mim, eu não precisava dormir com ninguém. O que era um alívio. Ou pensando melhor... Não... Eu não podia pensar que
estava ali só pela afinidade com Theo...
Tira isso da cabeça agora, droga!
– Está gostando da viagem? – puxei assunto com ela.
– Muito! Richard me indicou e fiquei extremamente contente em saber que a empresa me notou.
Eu sei exatamente como a empresa te notou... Ou seria te tocou?
– Ele também me indicou. Sou muito grata por isso.
A loira me fuzilou com aqueles olhos castanhos ao escutar minhas palavras como se eu fosse alguma transa dele. Por sua
cara, ela não gostou de saber sobre a minha indicação e eu precisava me explicar sem dar a entender que eu sabia de seu
casinho com ele.
– Richard foi meu chefe e eu mudei de setor. Mesmo assim, o meu bom desempenho no setor dele e depois do senhor Trento
ajudaram para que sua indicação tivesse peso. E você? Por que você foi indicada? – não podia perder essa oportunidade de
escutar de sua boca alguma mentira. Queria me divertir.
Ela ficou um pouco desconcertada com a pergunta e disfarçou o máximo que pôde.
– Eu trabalho no departamento de Recursos Humanos e trato de contratações de empresas terceirizadas voltadas para o
departamento de Marketing. Acredito que isso tenha ajudado para a minha indicação. – explicou sem me olhar nos olhos. –
Você trabalha para o Theo Trento?
– Sim. – sorri.
– Uau! Entre nós... Ele é muito gato. – falou baixinho. – Você já reparou como ele anda com aquele ar altivo. Extremamente
gostoso. – falava para mim enquanto encarávamos a cabeça de Theo que estava na fileira da frente cinco assentos à nossa
esquerda. Não era possível escutar nossa conversa devido ao ruído das outras vozes e porque falávamos muito baixo, mas
isso me fez corar. Ela era direta.
– Você ficou vermelha com o meu comentário. – ela riu.
– Desculpe. Eu fiquei um pouco tímida. – falei com uma ponta de ciúmes. Ela era linda e tinha dormido com Richard.
Agora jogava aquele comentário sobre Theo...
– Desculpe se te deixei assim. Mas só falei a verdade. Ele é tuuuudo de bom. Pena que a namorada dele é uma chata. Você
tem que vê-la. Ela acha que é dona da empresa e passa em todos os setores como se fosse a chefona da máfia. Acho que ele
não sabe disso. Todos têm medo de comentar com ele sobre a atitude dela e ser demitido. Ninguém conhece o temperamento
dele.
– Eu imagino como seja. Mas, não sabia que a fama dela passava por toda a empresa.
– Ela é detestada por todos. Aquele arzinho de poderosa é irritante. – resmungou.
O som das palmas finalizou a nossa conversa naquele momento acabando com o que seria a minha distração. Senti-me um
pouco má por perguntar sobre sua indicação ao congresso, porém a culpa foi embora rapidinho ao lembrar-me que foi Richard
quem resolveu me contar sobre sua aventura naquele banheiro da festa e, também, por seu comentário em relação a Theo.
A palestra foi ótima e muito instrutiva. Aproveitei a oportunidade para anotar todos os conselhos que o palestrante deu e
imaginei empregando-os em um novo projeto. Entre breves conversas descobri que a loira se chamava Samanta e era
extremamente simpática. Tínhamos marcado de tomar um banho de sol ainda no mesmo dia já que nossa tarde estava livre.
Eu queria entender essa estória do noivado. Ainda não acreditava que Theo estava preso a uma mulher tão asquerosa quanto
Jéssica. Richard acompanhava-o para todos os lados dentro do Hotel, quando consegui encontrá-lo um momento sozinho, me
acerquei.
– Oi, Richard!
– Olá, funcionária do mês! Sorria para tirar uma foto. – sempre brincalhão, ele percebeu que eu estava ali para falar de algo
sério. – O que houve? Parece preocupada.
– Queria conversar com você antes que Theo volte. – olhei para os lados no hall do Hotel.
– Então, seja breve porque ele só foi pegar a carteira no quarto.
– Eu sei que vocês são mais que primos, são como irmãos. – ele assentiu. – Sei também que você me considera muito para
me avisar que Theo estava noivo no dia da festa. Só... Que eu queria entender melhor o porquê disso. Eu escutei a conversa
com o pai dele e sei que você não está a favor desta relação.
Richard me olhou com um sorriso tímido e triste. – Ele me contou que você havia mesmo escutado parte da discussão. Eu
não sou a pessoa mais indicada para te contar sobre a vida do Theo. Mas, suas dúvidas são normais. Ele aproveitou este
Congresso para trazer você, para conversar com a mãe dele, para fugir da Jéssica e de seu pai ambicioso. Mas, só ele pode te
contar o disparate da família. – ele era um bom amigo e senti que ele não falaria mais nada além disso.
Não sabia que Theo visitaria à sua mãe para resolver qualquer que fosse o problema da empresa. Ele havia comentado
comigo, mas não acreditara tanto nele. Agora, com Richard confirmando aquelas palavras, só me dava mais esperança que eu
pudesse ficar com o meu loiro.
Voltei para meu quarto e procurei entre minhas coisas que ainda estavam dentro da mala, pelo biquíni preto. Era um modelo
bem ousado com tomara que caia. Avaliei quando o tinha posto e era muito bonito. Como o Hotel ficava em frente ao mar, não
tinha motivo de colocar nenhuma roupa para ir. Coloquei uma saída de praia de renda e dava para ver meu corpo inteiro por
seus “buraquinhos”. Ninguém me veria mesmo.
Desci e me sentei no sofá de couro que se encontrava ao centro para aguardar Samanta que ainda não tinha aparecido.
Enquanto folheava o jornal do dia escutei alguém me chamando, ao baixá-lo, avistei quem eu menos esperava.
Ele estava parado no meio do saguão de terno e sorria.
– É você mesma? – perguntava incrédulo.
Não acredito!
– Alexandre?
– Sim. Sou eu. Quanto tempo! – caminhava em minha direção sorridente. Eu preferi permanecer sentada. Ele não merecia
este trabalho todo de me levantar. Ele percebeu a minha indiferença e parou em frente ao meu sofá.
– Como você está? Que coincidência te encontrar aqui. Estou hospedado para uma conferência sobre marketing e pelo visto
você também. – conversava como se fôssemos velhos amigos. Éramos velhos conhecidos, mas não amigos.
– Estou sim. Vim junto com a comissão da empresa.
– Sua irmã me contou que você estava trabalhando em Londres em uma renomada empresa de sua área. Fiquei feliz em
saber que você está bem.
Nancy poderia calar a boca dela de vez em quando. Não queria que ele soubesse nada sobre mim. Senti uma raiva repentina
e comecei a xingar Samanta pela demora.
Levantei-me agoniada pronta para ir sozinha à praia.
– Uau! Você está linda. – Alexandre não disfarçou o seu olhar dos pés a cabeça. Ele me comia com os olhos. – Está muito
mais bonita. O tempo está fazendo bem a você.
– Obrigada, Alexandre, mas estou de saída. Se me der licença.
– Sophia! Desculpe a demora. – falou Samanta.
Graças a Deus ela apareceu.
– Eu estava chegando quando o senhor Trento me abordou para uma conversa ali no balcão de atendimento. – apontou para
ele. – Eu não podia simplesmente despachá-lo e nem conseguiria com tanta beleza. – suspirou.
Olhei para o balcão e vi que Theo olhava para nós três tentando desvendar um mistério. Ele estava com uma bermuda
xadrez marrom claro e uma camiseta regata branca. Seu físico era maravilhoso e vê-lo sem terno, com um ar mais
descontraído o deixava mais jovem. Samanta tinha razão. Ele era puro tesão. Nosso olhar cruzou e ele sorriu. Seus olhos
analisavam tudo em mim. Apesar da minha roupa não tapar nada, me senti totalmente sem biquíni com aquele olhar. Tenho
certeza que corei, pois seu sorriso ampliou ainda mais.
Virei para Samanta necessitando sair imediatamente dali. Precisava de um banho gelado das águas de Ipanema.
– Adeus Alexandre, até nunca mais! – despachei. Ele não me impediu ou se despediu. Apenas me olhou e deixou-me ir.
O sol estava forte e era um ótimo momento para pegar uma cor. Minha pele era muito branca e os cuidados para não ficar
igual a um camarão foram tomados à risca.
– Sophia?
– Hum? – perguntei com os olhos fechados enquanto bronzeava a parte da frente de meu corpo.
– Quem era aquele gato que estava falando com você na recepção?
Eu ri. Se fosse antigamente estaria fula com essa pergunta. Mas, agora falar o nome dele era como um estorvo.
– Alexandre. Meu ex.
Samanta virou seu corpo para mim e percebi que sorria. Olhei para ela sem entender nada.
– Você parece ser bem legal. E o seu ex estava totalmente deslumbrado contigo.
– Deus me livre! Ele foi um grande erro. Grande!
– Pode ser... Mas ele não era o único ali deslumbrado. Você não deve ter percebido, mas o seu chefe ficou te secando.
Ela percebeu o mesmo que eu.
– Imagina! O senhor Theo é muito sério e profissional. – era necessário deixar isso bem claro para ela.
– Tudo bem. Não estou querendo insinuar nada não. Só estou te contando o que eu vi. Foi isso que me atraiu no Richard.
Ela estava falando do Richard para mim?
– Richard? Richard Veneta?
– Ele mesmo. Tive um caso com ele consciente que ele não se interessava por ninguém, mas mesmo assim fui. Não me
arrependo, mas sou totalmente doida por ele até hoje. Aquele olhar do Theo foi o mesmo que Richard havia me dado. Acho
que é de família. – confessou com o semblante triste.
– Ahhh, Samanta. Não fique assim. Richard pode mudar. Todos podem. – tentei consolar mesmo sabendo que isso era
impossível. Aiii se ela soubesse que minha amiga Mia e ele saíam constantemente...
A tarde na praia foi ótima e eu consegui a cor tão desejada. Minha palidez sumira ligeiramente e todo aquele tempo me deu
uma fome de leão.
Combinei com Samanta de me juntar a ela à mesa às 21h. Como era um jantar informal, vesti um vestido preto que ia até os
joelhos. Era largo como um camisão e suas mangas tomavam o meu braço até o cotovelo. Calcei uma sapatilha baixa cor
creme para quebrar aquele visual dark. Deixei meu cabelo loiro solto e fiz uma maquiagem leve. Era um jantar informal, mas
pelo menos um batom e um rímel não fariam mal a ninguém.
O salão estava lotado e avistei a mesa onde todos os sócios e funcionários se encontravam. Cumprimentei todos de longe e
sentei-me à frente de Theo. A mesa era em formato retangular. Samanta sentara ao lado de Richard e puxava assunto com ele.
Era notório que hoje aconteceria algo. Ronald estava à minha frente e sorria encantado com tudo.
Evitei olhar Theo e conversei com os dois rapazes que estavam ao meu lado.
– Essa comida está divina. Fui à praia hoje e fiquei receosa de encontrar um cardápio muito requintado. Sabem como é...
Quanto mais caro, menos comida tem no prato. – comentei sorrindo.
– Sem dúvida. Recentemente, havia comentado sobre isso. – conversou um.
– Então, você é amante da boa comida? – perguntou Theo do outro lado da mesa.
Ele estava prestando atenção à conversa.
– Adoro comer. Mas o que o senhor considera boa comida pode não significar para mim.
– Se for assim, posso garantir que meu coração se regozijou ao ver a travessa de batata-frita. – falou Theo fazendo uma cara
de alegria exagerada.
Soltei uma gargalhada com sua expressão de felicidade. Ronald me observou e eu o mandei para o inferno com seus
pensamentos.
– Então, o senhor é um dos meus. Não descarto um bom prato de bife, arroz, feijão e batata frita. – comentei sorrindo para
ele.
– Pena que Jéssica não pensa assim... – alfinetou Richard que estava ao seu lado. – ele estava querendo irritar ao primo
porque olhou para mim com um sorriso malvado.
Theo o olhou e senti certa irritação em sua expressão. Richard não se intimidou e continuou com a provocação. Para que
aquilo?
– Se colocar essa travessa na frente dela, você verá um show único de arremesso de prato contra a parede. Sensacional! –
burlava Richard.
Se ele queria irritar Theo, estava conseguindo. Fingi que conversava com o outro rapaz do meu lado enquanto olhava de
relance os dois primos. Theo discutia baixo em seu ouvido e Richard acenava fazendo o símbolo de paz com as mãos rindo
dele.
Algumas vezes encontrava o olhar de Theo e sorria educadamente, mas não puxei mais assunto. A barreira precisava ser
colocada novamente para a minha segurança. Ele estava com uma blusa polo azul escuro, em contraste com sua pele branca.
Aliás, ele ficava bem arrumado mesmo se estivesse nu. Este meu pensamento fez-me viajar e pensar nele sem roupa. O que
teria por baixo daqueles tecidos? Músculos e mais músculos.
– Está satisfeita? – perguntou Theo tirando-me do meu devaneio. Estava encarando-o sem notar.
– Satisfeita com que? – perguntei assustada. Parecera ler meus pensamentos.
Seu olhar curioso me tomou e fiquei vermelha por pensar nele sem roupas.
– Com a comida. – respondeu com um sorriso maroto. – O que mais poderia ser?
– Errr... Desculpe... Estava pensando em outras coisas... Estou satisfeita sim, obrigada!
– Vamos subir? – perguntou Samanta.
– Vamos sim. Amanhã teremos o dia cheio, mas se você quiser continuar aqui embaixo eu posso ir sozinha. – falei olhando
para ela e para Richard.
– Não. Eu prefiro subir. – ela disse. – Meu objetivo é o congresso, o resto é secundário.
Senti que o clima entre os dois havia mudado e sua resposta mesmo que ríspida, não estava dirigida a mim. Senti lástima
por ela, mas homens como Richard era carta fora do baralho.
Ao levantar-me, Theo se levantou por educação. Fiquei com a boca aberta. Ninguém mais seguiu aquele ato tão
cavalheiresco e ele percebeu meu choque.
– Boa noite, senhorita Sophia. Até amanhã! – despediu-se em pé em seu lugar à mesa.
Ronald não queria ficar para trás.
– Acompanho-a. Também vou me retirar. Boa noite. – falou aos funcionários de nossa mesa.
– Boa noite, senhor Trento. Boa noite a todos. – cumprimentei. Faltava apenas eu cruzar a perna e fazer uma pequena
reverência para me sentir dentro de um livro de Jane Austen. Saí rumo ao meu quarto, pronta para descansar.
Esse cara não existe! Fofo demais!
Samanta e eu estávamos hospedadas no mesmo andar do Hotel e nos dirigimos cada uma a seu quarto deixando Ronald para
trás. Seu quarto era o primeiro do corredor. Antes de eu entrar ela falou:
– Sophia, eu esqueci-me de te contar uma coisa.
– O quê? – perguntei curiosa.
– Lá na recepção, quando conversava com Theo sobre assuntos bobos, ele me perguntou quem era o cara que estava
conversando com você. – disparou. – Eu não sabia até então e falei que não tinha a mínima ideia. Daí ele falou que vocês
pareciam se conhecer e tal...
– Sério? Deve ser curiosidade de chefe. – disfarcei. Se ela soubesse que já tive aqueles lábios em minha boca. Ahhh!
– Pode ser, mas eu não sei... Você estava linda com aquele biquíni preto. Ele babava, pode ter certeza e aquela levantada da
cadeira agorinha lá embaixo? Foi muito sem noção. Hahahaha! – gargalhou Samanta desde sua porta. – Mas deixa pra lá! Até
amanhã, rompe corações.
– Até amanhã! – despedi rindo. Antes de fechar a minha porta gritei por ela. – Samanta?
– Oi?
– Gostei do que você fez com o Richard lá embaixo.
Ela sorriu triunfante.
– Que bom que você percebeu que não era para você. Ele merecia um fora. Não sou tão descartável assim.
– Eu sei! Eu sei!
Samanta era legal. Senti que uma nova amizade se formava e fui para a cama feliz mais uma vez por essa viagem.
Meu quarto era um luxo. Olhei para aquela cama deliciosa e me aprontei para tomar um banho e dormir naquele colchão
confortável. Meu celular tocou e a chamada estava em privado.
– Alô?
– Se você acha que eu sou uma besta, está muito enganada. Sua vadia! Eu estive fora trabalhando, mas não pense que não
voarei em seu pescoço quando voltar à Londres. – falava uma mulher do outro lado da linha. Eu sabia que era Jéssica e não
precisava fingir não reconhecê-la. – A imprensa me ajuda a controlar os passos do meu noivo até quando tem piranha atrás
dele. Sabia que era você quando vi aquelas imagens.
– Como conseguiu o meu telefone? Que eu me lembro nunca te dei. – estava tranquila e não podia fazer nada. Ela tinha todo
o direito de ficar assim.
– Não te interessa como consegui. Quero você longe dele! Sei que viajaram ao seu país de merda, mas eu estarei de olho em
você. Não se surpreenda se eu chegar aí a qualquer momento. – ameaçava. Fiquei calada pensando no caos que seria este
Congresso se Jéssica aparecesse aqui, mas sabia que ela queria apenas me intimidar. Eu também estava convicta em deixar
Theo fora da minha vida.
– Seria bom você acompanhar o seu noivo a esses eventos. – disse com desdém. – Eu não tenho nada com ele, então seja
bem-vinda ao Brasil. Nem vou perguntar se você sabe em que Hotel estamos...
– Eu sei. Se você pensa que eu e Theo não temos uma vida, que não nos falamos, você é muito bobinha. Se hoje ele sai com
você, saiba que ele sempre volta aos meus braços, ao meu corpo. Porque ele me deseja. Talvez, não seja amor e essas
baboseiras, mas tesão, atração, sexo. Homem nenhum resiste e eu sou muito boa nisso. Então, acorde para a vida e lembre-se
que ele está comigo.
– Jéssica, eu preciso dormir agora. – falei com a voz calma, mas aquelas palavras me machucaram. Ela tinha razão. Ele
estava com ela e não comigo. – Fico feliz que sua relação esteja funcionando, mas coloque uma aliança no dedo dele. Não se
esqueça, ele está no Brasil e longe de você. Homem sem aliança é homem solteiro. – provoquei.
– Vagabunda recalcada. Isso não significa nada. Eu preferi ficar sem aliança. Deveríamos conversar mais. Você está muito
iludida, Darling. – eu estava muito puta. Ela estava me irritando porque eu estava apaixonada por este bastardo. – Fui eu
quem não quis a aliança. Ele apareceu com um enorme anel de diamante no jantar de família, mas eu disse que não era tão
importante quanto o que sentíamos. Queria provar a ele que nossa relação era mais forte que aquela pedra. Tudo
especialmente preparado para me pedir em casamento. Toma vergonha e desapareça de nossa vida. Você me entendeu?
– Que romântico para vocês... Agora tchau!
– Toma vergonha e desapareça de nossa vida! Você me entendeu?
Desliguei o telefone jogando-o ao chão. Não queria mais escutar nada dela. O aparelho era tão bom que não quebrou ao
encontrar o piso duro do hotel. Ela não voltou a ligar, mas seu objetivo foi conquistado. Estava com uma baita dor de
cotovelo.
Tomei meu banho e fui para a cama.
Filha da puta!
(...)
A palestra da parte da manhã e tarde foi tranquila e mais uma vez vi a importância de um congresso deste tipo. Quando me
sentei com Samantha, não esperava Theo aparecendo e sentando-se ao meu lado. Estava mais que disposta a fugir dele após o
telefonema de Jéssica, mas ele parecia lutar contra a maré.
A poltrona também não ajudava muito e muitas vezes colocava a mão sobre a dele sem querer. Sorríamos um para o outro e
ficamos nesse encosta-encosta nas duas palestras. Era inevitável. Meu corpo chamava o dele sem eu perceber. Ronald assistia
a tudo friamente e Samantha sorria de lado sem comentar nada. Theo e eu não nos desgrudamos um minuto.
– Como é a praia à noite? Gostaria de conhecer. O que acha de me mostrar hoje? – falou ao meu ouvido. – sua voz era doce
e envolvente.
– Não sei se é uma boa ideia, Theo. – sorri de volta educadamente.
– Aluguei um carro e quero conhecer um pouco da região. Que mal teria isso? – em seus olhos havia sinceridade.
– Eu não conheço o Rio de Janeiro. Não poderei ser uma boa companhia. Contrate um guia turístico para isso. – falei
sarcasticamente. Ele riu de meu tom debochado e suplicou com o olhar. – Fazendo esta cara poderia jurar que receberei um
aumento também. – sorri.
– Podemos conversar sobre isso durante o nosso passeio. – queria conhecer o Rio e oportunidade melhor não teria, mas se
ele pensava que sairia algo disso, estava enganado.
Esquecemos, por um momento, nossa pequena conversa para nos concentrar na palestra que já estava terminando.
(...)
Coloquei uma roupa leve, um vestido florido amarelo e uma sandália de dedo. Estava me sentindo nas nuvens. Em meu país
e ao lado dele. Esperei por Theo no hall do Hotel. Ele apareceu cinco minutos depois com um sorriso de arrancar a calcinha
de qualquer mulher. De bermuda branca e camiseta azul clara Theo chamava a atenção de algumas brasileiras que estavam lá.
Não gostei de seus olhares e as fuzilei de onde estava, sem ele notar claro. Ele não percebera as miradas vorazes. Só sorria
para mim enquanto caminhava passando as mãos sensualmente pelos cabelos jogados. Perdi a respiração e me esqueci das
oferecidas.
O carro era um fox vermelho e estava parado em frente ao Hotel com o manobrista.
– Você vai dirigindo? Não tem motorista? – perguntei temerosa. – Aqui existem favelas, se você entrar em um lugar errado,
talvez seja recebido a baladas.
– Confie em mim. – falou piscando manobrando o carro para as ruas de Copacabana.
Ele sabia dirigir e conhecia bem onde deveria entrar. Minha cabeça dava voltas tentando entender a sua facilidade ali
naquele lugar.
– Você vai adorar conhecer a minha mãe. – falou depois de um tempo calado. Claro, a mãe dele. Ela morava aqui.
– Você me enganou direitinho. Querendo conhecer o Rio... – falei olhando para fora da janela.
– Hey... Não fiz por mal. – olhou para mim desenhando um belo sorriso. – Se eu pedisse para você me acompanhar para
visitá-la, teria certeza que negaria.
– Poderia ter me dado o direito da escolha pelo menos. – fui um pouco ríspida, mas não gostava de ser enganada.
– Sophia, não estou te levando para o matadouro. – estava sério. – Eu disse para você que resolveria tudo e queria que você
visse isso.
– Theo, eu não sei o que aconteceu na sua família ou por que está noivo... Eu não entendo muita coisa, mas resolver
problemas pessoais com uma funcionária da empresa é um pouco estranho, não acha?
Ele estava com o olhar distante e vi seus dedos ficarem branco com a força que apertava o volante do carro. Estava nervoso
e se segurava para não falar.
– Você é interessante. Só sabe repetir esta palavra: funcionária. Meu pai conseguiu causar um belo estrago. – estava
magoado.
– Ele não causou nada. – as palavras de Jéssica começaram a invadir a minha cabeça. – Você tem noiva e tem uma empresa
para cuidar. Esta é a única realidade aqui.
– Puta merda, Sophia! Já te falei que estou tentando arrumar essa bagunça. – estava agoniado e dirigia para um lugar que
não conhecia. Fiquei calada até chegar ao local onde sua mãe morava.
Era magnífico. Tinha um shopping com uma mini estátua da liberdade e ri daquilo. Ele percebeu meu olhar.
– Este é o BarraShopping. – sorriu. – Falar que estamos em Nova Iorque seria eufemismo?
– Não... Não seria.
O condomínio fechado por onde entramos era majestoso. Havia árvores e jardins muito bem cuidados e as pessoas que
caminhavam nas calçadas mostravam que tinham como bancar tudo aquilo. Ele dirigiu até o estacionamento no subsolo para
deixar o carro.
– Sua mãe sabe que estou aqui? – perguntei quando já estávamos no elevador.
– Sim. Eu disse a ela que trazia alguém muito especial.
– Ela deveria saber que não é a Jéssica. Só por precaução. – avisei com medo da reação de sua mãe.
– Ela sabe que não é a Jéssica.
– E como pode ter tanta certeza assim?
– Ela nem está no Rio de Janeiro, Sophia. Caralho! Você está impossível hoje. – sorria ainda mais com meu temperamento.
– Posso te chamar de chatinha? Relaxa! Você está muito tensa. – sorriu e eu sorri de volta. Minha aflição estava me deixando
infantil fazendo Theo rir da minha cara.
– Pode me falar pelo menos o nome da sua digníssima mãe?
– Claro. É Lilian.
O apartamento tomava a cobertura inteira. Era imenso e muito bem decorado. A empregada de meia idade atendeu-nos com
um sorriso e abraçou Theo carinhosamente.
– Como você está crescido, Theozinho. – disse a senhora. – Preparei sua comida preferida.
– Obrigado, Maria. Eu sabia que você não esqueceria isso. – Theo demonstrava bastante amizade por aquela mulher. Eu
fiquei atrás dele na porta observando os dois. – Deixe-me apresentá-la a minha... – olhou sem saber o que dizer.
– Funcionária. – soltei rapidamente com um sorriso. Theo me olhou um pouco decepcionado.
– Mais que isso, uma grande amiga. – respondeu piscando para Maria. Eles trocaram olhares e sabia que se comunicavam
silenciosamente. – Sophie, ela cuidou de mim desde pequeno. É minha segunda mãe.
– Amiga ou funcionária seja bem-vinda, minha filha. Já estava na hora de eu conversar com alguém em português que meu
Theozinho conhecesse. – sorri com a amabilidade dela e me senti menos nervosa.
– Theo? Você já chegou? – perguntou uma voz de alguém que se encontrava na outra sala.
– Sim, mãe! – ele pegou em minha mão puxando-me até a sala.
– Theo, meu bebê! – apareceu uma senhora muito bem cuidada de porte magro. Era linda em sua idade e sorriu emocionada
em ver seu filho ali. – Quanto tempo! Não esperava vê-lo tão cedo.
– Estou aqui, dona Lilian. Não se preocupe. – ele a abraçava apertadamente e assim se manteve por um longo tempo. Ela
abriu os olhos e me olhou. Sorriu e vi todos os traços daquele loiro lindo naquela senhora conservada.
– Olá, querida! Como te chamas? – veio e me deu um abraço.
– Olá! Meu nome é Sophia. Sou uma... Amiga de seu filho. – estava sem graça e minha mão gelada suava.
Ela a segurou. – Você se sente bem? Está tão fria. Maria! – gritou. – Traga um chá bem quente para a Sophia, por favor.
– Não é necessário, obrigada! Só estou um pouco...
– Mãe, Sophia não gosta de chá. Vou pedir a Maria que prepare bolo e um café. – saiu da sala, deixando-me sozinha.
– Sente-se meu bem. – ela me guiou até o grande sofá branco e se sentou ao meu lado. – Então, você é a amiga que meu filho
tem me comentado.
– Comentado? – perguntei.
– Ele me falou que havia conhecido uma brasileira em Londres, mas não me disse que você era tão bonita. – sorriu
amigavelmente.
– Obrigada, senhora Lilian.
– Só Lilian, por favor.
Conversamos um bom tempo até Theo aparecer na sala com uma bandeja de bolo e café. Ele me serviu e tomamos nosso
lanche. Ele estava feliz e sua mãe mais ainda. Após terminar de comer o tão delicioso bolo de laranja, lembrei o verdadeiro
objetivo de estar ali.
– Senhora Lilian, adoraria dar um passeio por este lindo condomínio, assim os deixarei conversar um pouco.
– Claro. Mais tarde gostaria de te mostrar um pomar que eu mesma fiz aqui neste lugar, se você quiser, claro.
– Adoraria. – sorri. Ela era tão fácil de conversar. Nem acreditava que um dia, o pai de Theo havia traído aquela mulher.
Saí do apartamento e desci até o térreo. O lugar detinha um complexo de apartamentos iguais. Ao todo, eram cinco prédios
com dez andares cada um. Tinha padaria, academia de ginástica, minimercado e salão de beleza.
Meu Deus! Uma cidade dentro do lugar!
Passei pelo menos uma hora caminhando. Voltei ao apartamento e a mãe de Theo já me aguardava com um tênis e uma roupa
mais casual.
– Eu vou aproveitar para reencontrar velhos amigos, eu ligo para o seu celular quando for a hora de ir embora, pode ser? –
perguntou Theo. Assenti e fui conhecer um pouco mais daquele lugar.
Foi Lilian que começou a conversa quando chegamos ao pomar. Era enorme e as árvores cheias de fruto deixava tudo ali
muito “comestível”. Diversas frutas, legumes e verduras foram plantados.
– Não precisamos comprar no supermercado essas coisas. – disse apontando para as goiabas. – Temos de tudo aqui.
– É lindo saber que foi você que teve todo este trabalho. Você realmente colheu o que plantou. – brinquei.
Lilian olhou para mim. – Você tem bastante senso de humor. Tão diferente dela. – falou com desdém.
– Quem? Jéssica? – não tinha medo de perguntar. Esta mulher era muito aberta e eu me sentia em casa.
– Sim. Não entendo como Theo foi cair no jogo do pai dele. Sempre fui contra isso. Agora, ele sabe e está totalmente
disponível para viver a sua própria vida.
– Como assim? – estava curiosa e não entendia.
– Theo me pediu para não te contar nada, mas eu aguentei aquela coisa ao meu lado me chamando de sogrinha por tanto
tempo... – falou com desgosto. – Liguei para o meu advogado e amanhã pela manhã, Theo será o novo acionista majoritário da
Artvt. Estou passando tudo para meu único filho que seguiu esta carreira.
– Caramba! Isto será uma notícia bombástica.
– Sem dúvidas. Queria ver a cara da tia-mãe da Jéssica quando ela descobrir que ele será o dono de lá. – riu pensativa. –
De qualquer forma, meu bem... – parou e pegou a minha mão. – Você precisa entender um pouco da estória de Theo. Ele
conheceu a Jéssica na faculdade, mas tanto meu ex-marido quanto o pai da Jéssica eram amigos em comum. Quando fundamos
a empresa, nosso amigo chamou sua irmã para trabalhar como secretária. Infelizmente, ele faleceu e como era viúvo, sua irmã
ficou com a guarda e adotou Jéssica como filha. Após algum tempo, meu ex-marido e ela começaram a ter um caso... Sabe
como as coisas funcionam depois de alguns anos...
– Não precisa contar se não quiser... – disse ao ver sua cara de tristeza.
– Não... Você não entende. Não estou triste por minha história. Estou por meu filho. Essa coisa de noivado foi um desastre.
Ele se encantou na faculdade por esta menina. Ela se matriculou no mesmo lugar que ele para envolvê-lo. Eu sabia que sua tia-
mãe estava metida nisso, mas Theo ignorou o meu aviso. Jéssica era doce no início, mas quando Theo a trazia aqui, eu via
todos os traços maléficos daquela sirigaita ambiciosa. – respirou e continuou contando. – Eles viviam brigando e chegaram a
se separar. Rezei todos os dias para que ele não voltasse para ela, mas sempre acontecia o contrário. Até que meses atrás,
tivemos que reunir toda a família para discutir problemas da empresa e vender algumas ações a grandes compradores e como
eu sou acionista, tive que viajar a Londres. Todos compareceram, Richard, Theo, Jéssica, meu ex-marido, alguns familiares e
os pequenos compradores da Artvt, enfim... No auge do jantar, Jéssica anunciou seu noivado com meu filho diante de todos os
membros da empresa.
– Uau! – balbuciei. Ela mentira para mim.
Cachorra!
– Como era um jantar de negócios, para não fazer feio aos clientes, Theo fingiu estar contente. Ele sempre teve este dom de
enganar. Mas, eu sou mãe e vi por seu semblante que não era sua vontade. Isto durou o jantar todo. No dia seguinte, Theo veio
até mim no Hotel onde estava hospedada e me contou que seu pai conversara muito com ele mostrando a importância de
manter a empresa como uma família. A união do casal seria perfeita a seus olhos.
– Lilian, eu entenderia tudo isso. Mas, casar sem amar alguém, é meio ilusório, você não acha?
– Sim, meu bem. Eu concordo com você. Mas, meu ex-esposo trabalhou tanto a cabecinha de meu Theo. Antes de ele
conhecer Jéssica, Theo me contava tudo sobre ela. Seu pai vivia falando como ela era bonita, talentosa, meiga, mulherão e
todos os adjetivos que os homens adoravam escutar.
– Eu imagino.
– Então, quando coincidentemente, Theo viu a Jéssica, apaixonou-se por uma imagem, um estereótipo por assim dizer. Ela
fingiu bem durante certo tempo, mas durou pouco. E vi meu filho se afundar em um relacionamento ruim e sem vida. Se você o
visse como era antes e como está hoje, se surpreenderia com ele. Ao vê-lo chegar contigo... Havia luz, Sophia! Luz! Eu estive
tão longe dele para lutar ao seu lado. Minha saúde me impede de viajar muito.
– Ele me contou sobre isso. Eu lamento que não possa estar tão perto de seu filho quanto queria.
– Obrigada! Sabe, até achei graça dele hoje. Ele tinha medo de terminar com ela por minha causa. Onde já se viu isso?
Tinha medo de eu passar mal ou qualquer coisa do tipo. Tenho certeza que foi aquele famigerado de seu pai que colocou isso
na cabeça dele. Eu não sou tão fraca assim. Pelo contrário, essa notícia só alegraria meu coração. E agora, estou até mais
saudável.
Sorri com aquela fortaleza de mulher. Meu celular tocou e vi no visor o nome daquele homem que poderia acabar com meu
coração em mil pedaços e mesmo assim ainda estaria inteira, só para ele.
(...)
Despedimo-nos dela. Fiquei emocionada em conhecer alguém tão amorosa e que fazia parte da vida dele. Já era noite e
resolvemos voltar. Deixamos o carro no hotel, mas não fomos para dentro de imediato. Tínhamos que aproveitar cada segundo
do Rio de Janeiro. Sabe Deus lá quando voltaríamos ali novamente.
Saímos rumo à orla e Theo sugeriu andar próximo às águas salgadas. Queria sentir os pés molhados. Eu precisava refrescar
meus pés também, já que não tinha um chuveiro gelado para esfriar o meu corpo que já pegava fogo perto dele.
Compramos duas garrafas de vinho e bebemos no gargalo enquanto andávamos. Contei um pouco sobre a minha família. Ele
também se abriu falando um pouco sobre seu irmão italiano que não seguiu os caminhos da família que preferiu ser um
roqueiro a vestir um terno.
– Olhe para cima! – pediu apontando para o céu.
A areia gelada era grossa e profunda. A cada passo, sentia o peso de minhas pernas e ignorei o cansaço do dia. Estava
maravilhada com aquela noite ao lado dele. Sem máscaras, sem hierarquias, apenas duas pessoas solitárias caminhando pela
praia.
Nossas mãos se aproximavam cada vez mais. Alguns movimentos faziam nossos dedos se tocarem no ar e quando notei já
estávamos de mãos dadas suspirando com a linda vista acima de nós: um céu cheio de brilhantes estrelas e um agradável
cheiro de água salgada trazido pela leve brisa marítima!
Sentamo-nos próximos um do outro quase à frente do Hotel para ficar mais fácil à volta.
Aproveitei para observar Theo com mais atenção. Não queria que ele percebesse toda a avaliação que fazia com o meu
olhar enquanto ele sorria abaixo da luz do luar.
Seus olhos fitavam o céu e sua boca, entreaberta por um sorriso, mostrava que seus pensamentos estavam tão alto quanto
àquelas estrelas. O que ele estaria pensando? Seus dentes eram brancos e perfeitos assim como aqueles olhos e ambos
irradiavam uma energia contagiante. Em um instante, ele fechou os seus olhos e jogou sua cabeça para trás, apoiando o seu
corpo com suas duas mãos na areia. Com as pernas esticadas, seu peito subia e descia a cada respiração. Parecia desfrutar
tanto que o encarava abobalhada. Não duvidaria se uma baba caísse sobre a areia.
Theo percebendo o meu silêncio, abriu seus olhos e olhou para mim pegando-me no ato. Corei de vergonha.
– Que foi? – perguntou baixinho como se mais alguém pudesse escutar nossa conversa. Estávamos sozinhos no meio daquela
areia branca e este sussurro fez meu coração acelerar. Soou tão sexy e tão adocicado.
– Nada... – olhei para o mar pensando em uma resposta mais aceitável. “Theo estava pensando como você é perfeito e o
quanto estou apaixonada por você.” Seria loucura. Seria um impulso do momento e eu poderia estragar tudo.
Apenas suspirei.
– Este nada, não me convenceu. – falou sorrindo docemente.
Acredito que fiquei vermelha porque Theo sorriu ainda mais até dar uma gostosa gargalhada.
Eu continuei encarando-o. Não parecia nada com aquele cara prepotente que todos conheciam na empresa e estava rindo de
mim sem nenhuma preocupação. Senti uma pequena irritação crescer dentro de mim até que Theo parou e olhou seriamente
para mim.
– Desculpe pelo o que vou te dizer.
Gelei com suas palavras.
– Você fica linda quando cora deste jeito e mais linda ainda quando está nervosa.
Não esperava que fosse isso que Theo estava pronto para falar. Na verdade, pensei em tudo e pensei em nada, mas nunca
em um elogio. Ele era perfeito, lindo, educado, um deus e me achava linda... O que eu poderia dizer? Um obrigado talvez, mas
nada saiu de minha boca. Sem reação o encarei nos olhos procurando algum tipo de brincadeira de sua parte. Mas, Theo
estava sério e me olhava com intensidade, o que me fez tremer.
Se ele soubesse o quanto eu queria tê-lo, talvez se eu tivesse a certeza que ele acabaria com toda esta palhaçada de
noivado... Quem sabe não poderíamos começar agora. Apenas um beijo à luz do luar. Nossos mundos se encontrariam e eu não
os separaria por nada.
Eu posso negar para todos o que sinto. Posso fingir o quanto quiser, mas este sentimento está impaciente para ser livre e
chegará o momento que não conseguirei contê-lo.
Desviei meu olhar. Theo me deixou bastante embaraçada e interpretou como se tivesse passado do limite. Mal sabia ele que
o problema era que aquelas palavras me deixaram mais desejosa.
– Me perdoe. Eu não deveria ter falado assim. – disse com vergonha. – Eu não tive a intenção de deixá-la sem graça.
Perdoe-me. – desculpou-se mais uma vez segurando minha mão.
Olhei para elas e Theo retirou rapidamente acreditando erroneamente que havia feito outra besteira.
– Não, por favor. – supliquei olhando-o. – Não retire sua mão.
Sorri para encorajá-lo e mostrar a ele que eu estava bem... Bem até demais...
Theo sorriu e pegou novamente minha mão, entrelaçando nossos dedos.
Sorrimos um para o outro. Aquele pequeno toque entre nós significava muito, pelo menos para mim. Senti o calor de sua
mão e senti um desejo incontrolável de nunca deixar este momento acabar. Por isso, proferi cada palavra com cuidado para
que ele entendesse o que tudo aquilo estava significando.
– Você não fez nada de errado, acredite em mim. Estou apreciando cada momento com você. Não quero que esta noite
acabe.
– Digo o mesmo, Sophia. Estou sentindo-me muito bem ao seu lado. Olhando para você hoje, posso dizer que vejo a própria
felicidade. E se isso é felicidade, por favor! Eu quero mais. Parece até que anjos estão dançando à nossa volta. – falou
sorrindo colocando suas mãos para cima dramaticamente.
Ele estava despojado, descontraído e totalmente jovial. Era outra pessoa.
Senhoras e senhores! Um brinde ao vinho!
Seu sorriso e suas palavras me derreteram completamente. Como poderia bloquear isso que estava acontecendo? Estava
tudo tão bom. Não consegui evitar e meu olhar caiu para seus lábios. Theo apertou minha mão com mais força como se lutasse
contra algo dentro dele. Seus olhos não me enganavam e o vi encarando meus lábios da mesma forma: sedento.
Sua respiração ficou mais intensa enquanto que eu, eu... Parei de respirar. Ele mordeu levemente o seu lábio inferior.
Quando voltou a me encarar, vi aflição e mais alguma coisa que não consegui identificar. Colocou sua outra mão que não
estava segurando a minha em seu rosto como se sentisse dor de cabeça.
Eu me levantei em um movimento brusco e reproduzi um sorriso um pouco forçado para não parecer mal educada.
– Precisamos voltar para o Hotel. Temos uma agenda lotada ainda. – ofereci minha mão para ajudá-lo a levantar. Ele a
aceitou levantando-se resignado.
Eu coloquei a barreira separando-nos. E quanto maior a barreira mais palpável ficava o clima entre nós.
– Sim... Precisamos. – falou finalmente.
Se pelo menos eu tivesse certeza de seus sentimentos... Se ele fosse solteiro... Se ele não fosse o meu chefe...
Caminhamos em silêncio os poucos metros que nos separavam do hotel. A orla estava vazia, mas não o hall do Hotel.
Porém, antes de chegar até a porta de entrada, segurei seu braço fazendo-o parar.
– Quero que saiba que hoje, o dia pareceu durar uma eternidade e ao mesmo tempo, terminou cedo demais. Mais cedo do
que eu queria. O tempo é... É muitas vezes injusto... – sorri timidamente. – Mas, o que eu quero dizer com toda essa filoSophia
e blá blá blá é que eu curti muito e quero agradecer por ser tão humano. Por um momento pensei que você não fosse... –
brinquei para quebrar um pouco o clima.
Theo aceitou minhas palavras dando-me um abraço apertado. O que definitivamente me pegou de surpresa. Afundei meu
rosto em seu peito e aproveitei o momento para sentir o seu cheiro de relva e perfume importado.
– Eu que agradeço por tão abençoada companhia. Tudo foi perfeito. Obrigado por me acompanhar até a minha mãe. –
sussurrou em meu ouvido dando-me calafrios.
O abraço durou pouco tempo, mas foi suficiente para desejar receber mais e sentir uma nova conexão entre nós. Éramos
amigos, antes de chefe e subordinada, antes de um casal.
Sorri com este pensamento. Estava com ele. Estava com Theo Trento. Divertindo-me, feliz, alimentando aquele sentimento
que crescia cada vez mais. Estava cansada de programar cada passo que dava, cada palavra que saía da minha boca para não
levantar suspeitas do que sentia realmente. Estava aqui com ele no Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa! Nada melhor que
deixar a vida me levar.
Viva Zeca Pagodinho! Rá!
Entramos no charmoso e suntuoso hotel e ainda no hall, avistei ao senhor Tomas, que veio em nossa direção nos recebendo
com a típica educação que um funcionário de um Hotel cinco estrelas poderia oferecer. Mesmo marcando 03h30 da manhã,
aquele homem não tinha sinal algum de cansaço ou indisposição. Ele deveria tomar algum tipo de energético. Só pode!
– Senhorita Sophia e senhor Trento, necessitam as chaves de seus quartos? Ou uma xícara de café? – perguntou Tomas.
– Sophia, antes de subir para o meu quarto, eu gostaria de conhecer o jardim do hotel. Não sei se você já ouviu falar, mas
aqui eles têm um jardim chamado Éden onde cultivam todo o tipo de flores e plantas além de terem contratado um paisagista
para fazer todo o layout a fim de que encantasse até os hóspedes mais exigentes. Entretanto, se estiver cansada eu entenderei...
– É mesmo? Não sabia sobre este jardim. Vamos lá! Quero que você me leve ao paraíso. – disse animada demais.
Theo arregalou os olhos e ficou vermelho sem saber o que falar.
Ops! Acho que me deixei levar pelo álcool.
– Como eu disse, o paraíso ou o Éden. – quis justificar o injustificável.
– Sim. – concordou finalmente, aceitando a versão inocente do meu paraíso. – Então, vamos. Obrigado senhor Tomas,
aceito as chaves dos quartos, mas não necessitaremos de nada mais.
Com um aceno de cabeça em concordância, o senhor Tomas voltou aos seus afazeres. O que teria tanto para fazer àquela
hora da madrugada? Preferimos não perturbá-lo e buscamos os possíveis lugares que dariam para a parte traseira térrea do
Hotel. Após alguns minutos, descobrimos através de um painel de informações próximo à recepção que o jardim ficava no
último andar, exatamente no décimo sexto andar.
– Isso é algo inusitado. Um jardim no 16º andar. Muito interessante. – disse Theo, surpreso.
– Não é o terraço do prédio? – perguntei curiosa.
– Vamos descobrir? – falou animado.
Ao avistar a porta do elevador meus hormônios começaram a trabalhar a mil por hora. Quando chegamos até a porta, eu já
estava extremamente hiperventilando de tão nervosa. Meus pensamentos criaram diversas imagens do que eu poderia fazer ali
dentro com um homem lindo daqueles bem ao meu lado. Existia lugar mais erótico para estar às 03h30? E eu estava ali com
ele a ponto de subir por alguns longos segundos 16 andares, presa em um espaço de 2m²?!
Sophia! Controle-se!
Como queria beijar aquela boca e me saciar com cada pedaço de seu corpo.
A porta se abriu e Theo me fez passar primeiro, sempre tão cavalheiro. Ele parecia um pouco agitado, mas não identifiquei
a causa. Acho que ele gostava bastante de paisagismo.
Já dentro do elevador, desenvolvi várias perguntas para distrair a minha mente e meu corpo daquela situação que seria tão
normal se não fosse o quanto estava atraída por aquele homem.
– Você é fã de paisagismo? – perguntei com um falso interesse.
– Desde pequeno, morei em casas com belos jardins. Meu pai sempre teve esta fascinação e acredito que acabei pegando
essa característica dele. E quando queria um espaço só pra mim, era comum eu passear entre as flores e as árvores. Lá eu
podia deixar a minha mente divagar para o nada como se pudesse limpá-la. – falou saudoso. – E você? Não sei muito sobre a
minha nova e competente funcionária. – disse com um sorriso de me tirar o fôlego.
Estávamos no 4º andar ainda. O destino está me pregando alguma peça. Que lentidãoooo!
– Eu sou uma garota urbana, sabe? Gosto de natureza, mas não viveria no campo por mais de uma semana. Acho que o
silêncio em excesso me incomoda e dá para arquitetar muitas coisas com uma mente vazia. – jogando uma indireta para ele.
8º andar.
Ele afirmou com a cabeça e senti os seus olhos me cravarem como um prego. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa,
resolvi preencher aquele minúsculo silêncio com qualquer outra pergunta.
– Sua noiva gosta de natureza também? – indaguei sem pensar.
O que?! Eu perguntei sobre a Jéssica?! Diz para mim que eu não fiz isso! Que classe de idiota que eu sou de lembrar-se
de alguém que nem deveria existir?! Que estúpida!
– Jéssica também é como você. Não suporta nada bucólico. Além disso, ela viaja muito. – disse rispidamente dando a
entender como finalizado o assunto.
– Eu não disse que eu não suporto. Só não sei se conseguiria passar mais de uma semana em um lugar silencioso. –
querendo mostra-lhe que não gostei muito da comparação. – Gosto de viajar a lugares assim, porém por pouco tempo.
Theo sentiu a repentina mudança em minha fisionomia.
11º andar.
– Não quis te aborrecer ou te julgar. Perdoe-me se falei algo que você não gostou. – comentou soltando um sorrisinho
enigmático.
– Não estou aborrecida. – sorri após ver aqueles olhos me fitarem de maneira profunda.
– Theo, eu... Eu preciso te dizer uma coisa... – falei timidamente girando meus olhos para os botões do elevador. De
repente, minha atenção estava voltada a eles. Que interessantes. Redondinhos e com luzinhas interna...
– Sim? – perguntou em voz baixa procurando por meus olhos.
Estava derretendo novamente. “Não olhe para ele ou irá derreter”, falou meu anjinho do bem.
“Olhe para ele agora! Fale o que sente! Aperte o botão para parar este maldito elevador e arranque a sua roupa”,
contradisse o anjinho malvado.
Segui o meu coração e os meus hormônios associados ao álcool me ajudaram e muito a criarem esta coragem!
– Hoje, quando conversei com a sua mãe, vi que...
16º andar. Piiiii.
A porta do elevador se abriu e para a nossa surpresa, um casal aos amassos se encontrava na porta. Estava tentando contar
quantas pessoas estavam ali, uma ou duas?
Seria o destino dando o sinal para não seguir adiante com essa maluquice?
Ri daquele pensamento e da vista diante de mim. Bati palmas, aclamando o desastre que se encontrava o meu coração além
das duas pessoas aos beijos do lado de fora. Eles pararam imediatamente ao som proferido por mim dando-se conta que havia
mais gente ali. Começaram a rir desenfreadamente. Estavam bêbados, era notório. Theo olhou pra mim surpreso por minha
atitude e, me seguindo, também aplaudiu o show que terminara.
Demos tchau aos belos namorados e saímos do elevador rindo sem conseguir parar.
Depois de um minuto tomando ar por causa da crise de risos, enfim nos encaramos. Foi aí que o tempo simplesmente parou.
Parabéns aos diretores de filmes românticos por tão encantadoras cenas deste tipo. Essa versão do tempo parar existia mesmo
e só agora pude apreciá-la em minha vida, ao vivo.
Theo era outro homem. Seu cabelo ondulado estava bagunçado e jogado sobre seu rosto. E seu sorriso? Tão aberto. Tão
diferente daquele homem de negócios presunçoso que conheci há mais ou menos seis meses na empresa. Toda esta visão me
fez refletir como a mulher que teria o coração dele seria sortuda.
Não consegui desgrudar o meu olhar do dele. Paralisei. Estava tão apaixonada. Meu chefe! Que? Meu CHEFE
compromissado com uma super model?
Tristeza, seja bem vinda novamente!
– O que você queria falar sobre a minha mãe? – perguntou Theo, retomando novamente o assunto, mas agora com uma voz
mais rouca.
Ahh não não não. Não vou conseguir. Invente algo!
Retomando uma postura defensiva e profissional, mesmo com a voz arrastada de uma bêbada, respondi:
– Queria dizer que adorei conhecê-la, ela é sensacional e eu teria muito orgulho de tê-la como mãe.
Ele coçou a cabeça e eu vi uma pitada de... Decepção?
Theo olhou ao redor e sua boca abriu em surpresa.
Foi quando me dei conta do que estava à nossa frente. Era o verdadeiro paraíso aqui na Terra!
Uma alta parede de planta formava um labirinto e sobre ela diversas flores coloridas e distintas. Era tão grande que alguém
poderia se perder ali se não fossem as placas indicativas.
Theo me conduziu até o centro de um mini jardim onde existia um banco de metal branco com o encosto curvilíneo.
Sentamo-nos e paramos para admirar o jogo de cores a nossa volta. Desenhadas em degrade no jardim, existiam diversas
tulipas formando um grande arco encostado na parede de planta de dois metros de altura. Eram grupos divididos
uniformemente em cores vermelhas, amarelas, brancas que se repetiam até completarem toda a circunferência.
Senti uma paz ali. Esqueci completamente da agitação do dia, da empresa, de mim. Só olhei e respirei profundamente
agradecendo por estar ali naquele momento e com aquela pessoa. Não precisava de mais nada. Tudo que passei de ruim
naquele mês foi embora, substituído por um sentimento de liberdade e serenidade.
Foi Theo quem começou a conversa.
– Bem... – começou desajeitadamente uma conversa informal. – Não esperava que essa noite tomasse um rumo tão diferente
ao que estou acostumado. Há muito não me divertia tanto.
Como assim? Jéssica não o divertia?! Gostei de escutar isso.
– Sabe como é... Não tenho tempo para diversão e essas coisas. Sempre estou focado em resultados e não curto momentos
como este. – completou seu pensamento.
Ahhhh... É por isso... Talvez o problema seja tempo e não ela. Que pena!
O sorriso de satisfação que tinha começado a delinear meus lábios se foi depois de dito isso.
– Entendo. – disse um pouco desanimada. – Você parece sempre estar com números na cabeça e essas coisas... – soltei um
risinho triste enquanto observava cada detalhe do jardim.
Minha consciência começou a pesar repentinamente. Sabia que não era certo tudo isso e acabei ficando melancólica. Um
vento frio soprou um pouco dando-me calafrios. Mas acho que meus arrepios não foram provocados por este vento.
Como eu queria dizer o que eu estava sentindo naquele momento.
Mas, tudo terminaria com um boa noite e iríamos cada um para seu quarto e amanhã seria um novo dia, ele me mostrou isso
ao querer sair da praia. Ele continuaria com a sua noiva e eu... Eu sozinha pensando nele.
Pelo menos uma coisa era certa, ele estaria em meus sonhos esta noite. Esperava que meu subconsciente ajudasse a realizar
as minhas maiores fantasias em tê-lo comigo do jeito que sempre desejei... Pelo menos nos meus sonhos.
Era hora de irmos... Mas não! Eu não queria dar boa noite. Não queria ir.
Em meus pensamentos idealizava situações todo o tempo e agora, na frente dele não conseguia fazer nada.
Theo, por favor... Só um sinal e eu deixarei todos os meus valores sobre honestidade e fidelidade de lado e me jogarei
em seus braços. Só um sinal e deixo tudo para trás. Vamos... Theo. Diga que vai acabar de vez com Jéssica e eu confiarei.
E então, Theo, que antes deslumbrava o jardim, olhou para mim mudando a fisionomia. Não era agressiva, mas estava
carregada de algo que identifiquei como luxuriante.
Meu coração acelerou e minha garganta secou.
Que delícia era sentir essa sensação de que algo bom poderia acontecer.
– Sophia... Eu... Eu talvez não tenha tido tempo suficiente de dizer algumas coisas importantes para você hoje. – diz com a
voz baixa e um pouco rouca.
– Algumas coisas importantes? Sobre as ações de sua mãe? – por seu rosto sabia que não era sobre a empresa, mas não
pude evitar me fazer de desentendida.
Theo riu de minha pergunta e balançou a cabeça com descrença.
– Não. Sobre a empresa está tudo certo. Você é uma funcionária extremamente eficiente. Eficiente é o melhor adjetivo para
você e meu pai não tem o que reclamar. E... Muito menos eu.
– Ahhh... Ok então. – sorri.
O sorriso de Theo desapareceu novamente dando agora lugar a um olhar intenso e sério.
Como ele conseguia este olhar? Jesus!
– Eu não sei por onde começar. – disse Theo, enigmático. – Você se tornou uma das minhas melhores funcionárias e confio
cegamente em qualquer decisão sua. Além disso, vejo em você uma amiga leal e companheira. Eu não tenho isso lá e você
sabe disso.
Funcionária... Amiga... Que merda! Não era isso que eu esperava.
– Obrigada! – falei forçando um sorriso.
– Eu que agradeço por você estar em minha vida.
Aqueles olhos podiam resplandecer um azul mais escuro? Impressionante! A cada mudança na cor eu poderia dizer o estado
de humor dele. E neste momento, não era alegria ou irritação. Estava escuro como o inferno.
– Mas, eu falei tudo isso porque... Porque eu queria que soubesse o motivo de trazê-la aqui. Este jardim, a luz da lua... –
apontava para o céu mostrando-me toda a preparação.
– Você já tinha em mente me trazer aqui? – perguntei surpreendida com tal afirmação.
– Sim. – desviou seus olhos para as rosas à nossa direita. – Trouxe aqui para dizer que eu estou...
– Senhor Trento?! – chamou um rapaz que reconheci ser o ajudante do senhor Tomas da recepção.
– Sim? – disse Theo com o tom de voz um pouco mais elevado. Era visível a decepção estampada em sua cara.
– Ligamos para seu quarto e o procuramos por todo o Hotel, mas vimos a câmera no elevador e sabíamos que estava aqui.
Não queríamos importuná-lo, mas a senhorita Jéssica Kiefer foi muito insistente. – falou dando um riso de vergonha. – Ela
disse ser urgente. Perdoe-me senhor, não sabia que estava ocupado. Ela retornará a ligação em alguns minutos. Podemos
transferir para o seu quarto se preferir. – comentou educadamente o recepcionista.
Theo me olhou por um instante e procurei entender se aquele olhar significava um pedido de desculpas ou apenas "foi bom
estar com você, mas tenho assunto mais importante para tratar agora".
Porém, antes de se dirigir até a porta que dá acesso à saída daquele jardim, me disse:
– Sophia, obrigado novamente pela maravilhosa noite. Não poderia ser melhor. Eu preciso atender a este telefonema... Você
sabe disso não sabe? Eu tenho que ir... E... Eu preciso ir. – soltando um suspiro exasperado, saiu apressadamente sem olhar
para trás.
Neste momento, não tive forças para mover os meus lábios – que ficaram grudados como se tivessem passado cola. Não
balbuciei nenhum "tudo bem, eu entendo".
Simplesmente fiquei atônita com aquela cena sentindo-me abandonada, jogada de lado.
Fala sério! Por que tanta tristeza e decepção? Esta noite não foi boa o suficiente para ele dispensar a mocréia da noiva
dele? Estou com ciúmes? Ele não é nada meu. Quando será que vou aceitar isso?! Eu preciso imediatamente de um
psicólogo! Socorro!
Levantei-me. Sacudi o vestido que tão demoradamente foi escolhido para surpreendê-lo e dei uma última olhada àquela
vista maravilhosa do Éden. Acho que ainda estava um pouco bêbada, pois as flores estavam sorrindo para mim, consolando-
me e dizendo “Amiga! Você consegue. Amanhã você estará bem melhor! Anime-se!”.
E eu respondi: “calem a boca, suas falsas! Vocês devem ter um jardineiro bem gostoso e musculoso cuidando de vocês.
Huummm... Será que ele tem namorada? Cadê o John brasileiro?”.
Argggh! To matando cachorro a grito! Imaginando flores falantes e um jardineiro invisível!
Estive tão aborrecida com a situação que voltei para o meu quarto em um fechar e abrir de olhos. Nem sei como cheguei lá.
E só depois senti o quanto estava cansada física e emocionalmente.
Troquei de roupa, substituindo a lingerie da Victoria Secrets por uma camisola estilo vovó. Nada como um conforto.
Deitei naquela imensa cama macia exausta psicologicamente com o peso do abandono.
Forever alone! Força Sophia! Falta um dia para esse congresso terminar e eu já não vejo a hora de voltar para
Londres.
(...)
Encontrei Samantha no café da manhã junto com Ronald. Meu humor estava péssimo depois de ser abandonada por Theo
naquele jardim. Eles me olharam. Samantha sorriu enigmaticamente e Ronald manteve-se sério.
– Bom dia. – sorri.
– Oi, Sophia! – respondeu Samantha com um sorriso de orelha a orelha. Ela queria perguntar como havia sido minha noite,
mas com Ronald ali ela segurou a língua. Não tinha muito que contar. E eu não estava a fim disso também. Havia pegado
alguns pães, café, gelatina. Estava comendo como uma porca e pretendia ficar com a minha boca cheia até voltarmos para as
palestras e workshops do dia. Hoje era meu último dia no Rio de Janeiro. Amanhã, estaria voltando a Londres. Estava
sentindo a rejeição da noite passada e sonhava em voltar logo.
– Você saiu ontem? – perguntou curioso, Ronald.
– Saí.
– Sozinha?
– Por que você quer saber? – perguntei encarando. – Meu pai mora no sul do país, não preciso de babá aqui.
– Calma, garota! Só estou perguntando.
– Só perguntando? Eu chamo isso de investigação. Paige adoraria saber seu interesse em meus passos aqui no Brasil. –
provoquei.
– Ela não tem nada a ver comigo. – se irritou. Ronald era controlado, mas ele estava muito nervoso. – Não sabia que você
tinha este seu lado, Sophia.
– Que lado, Ronald? O lado que está de saco cheio de você interferir na minha vida? Samantha, estou pronta para a
palestra, vamos? – levantei puta da vida. Ela me olhou e levantou.
Fomos embora e Ronald ficou sentado com aquela porra de careta.
– Não vou perguntar nada sobre a sua noite. – comentou Samantha.
– Samantha... – parei olhando para ela antes de entrar no grande salão de convenção que já estava lotado. Ela viu meu olhar
de decepção e me abraçou. – Eu estou bem, acredite. Coração quebrado é uma merda, só isso.
– Eu sei, Sophia. Eu sofro também. – recordando seu carinho por Richard.
– Sabe... Fodam-se esses homens. – olhei para ela.
Capítulo 27– A viagem

Para o coquetel daquele dia, coloquei um vestido de arrasar. Se era para chamar a maldita atenção de Theo eu conseguiria
sem dúvida. Era hora de mostrar quem era a gostosa daquela merda toda! O vestido era uma mistura de roxo com vinho e seu
comprimento longo tapava minha perna, mas com meu cabelo e aquela caída fluída, me fazia parecer uma grega. Estava linda.
Eu ia arrasar.
Cheguei ao salão. Samantha estava lá com Richard.
– Sophia! – sussurrou. – Você está linda demais! O Theo vai ter uma parada cardíaca aqui. – eu ri. Era este o propósito.
Era o propósito até encontrar um Alexandre com um copo de champanhe na mão caminhando até a minha direção.
– Que arrependimento! Não acredito que perdi essa preciosidade. – falou entregando-me a taça.
– Você não perdeu, eu que ganhei. E não quero sua bebida. – devolvi. – Licença.
Caminhei até a mesa onde estava Samantha, Ronald e mais alguns funcionários. Ronald olhou surpreso e sorriu sem graça.
– Você está maravilhosa. – elogiou. – Desculpe por nossa última conversa. Parece que virou um costume já.
– Não se preocupe. Eu estava muito irritada e descontei em você.
– Dança comigo? – perguntou-me. Não tinha escolha. Queria mostrar que estava tudo bem e uma dança inocente não
atrapalharia em nada.
As músicas não eram tão lentas, mas dava para dançar junto.
– Fiquei apaixonado por seu país, Sophia. – comentou Ronald enquanto dançávamos.
– O Brasil, apesar de tantos problemas sociais, recebe os turistas como nenhum outro lugar. Somos hospitaleiros.
Estávamos dançando a segunda música e Alexandre se achou no direito de pedir minha mão.
– Amigo, agora é a minha vez. Não se preocupe, devolverei sua amiga já já. – Ronald assentiu e voltou para nossa mesa.
Alexandre pegou minha mão e começamos o baile. Theo entrou no salão e juro que minha vista nublou. Precisava ir ao
oculista. Estava perfeito com aquele smoking. Puta que pariu! Ele me viu dançando com Alexandre e sentou-se a mesa
vigiando. Seus olhos caminharam por todo o meu corpo e eu arrepiei.
– Alexandre, o que você quer afinal?
– Você de volta.
– Você me tinha, mas resolveu me trocar pela torcida da seleção brasileira. Então me poupe.
– Eu fiz merda, mas porra... Desculpe. Estou pedindo uma chance. Vamos conversar.
– Você é um galinha! – cuspi com raiva. Olhei em seus olhos. – Você me humilhou! Você dormiu com a mais vagabunda de
todas as mulheres. Se eu soubesse que você era assim...
– Admito! Eu era assim e você sabia disso. Ficou comigo porque me queria. – falou friamente.
Nunca lhe importou os meus sentimentos. Na verdade, será que em algum momento ele gostou de mim? O que eu fui para
ele?
– Não era mais fácil terminar? – perguntei incrédula com o rumo daquela conversa absurda.
– Você era tão decidida que eu estava esperando você tomar à frente. Pensei que já tinha notado que não estávamos tão
apaixonados.
– Não estávamos? Eu sempre estive! Até o dia que aquela mulher atendeu ao telefone do Hotel! – falei, baixando o meu tom
para que ninguém soubesse o que conversávamos, mas eu queria era socar a cara daquele palerma.
– Sophie!
– Para agora! Sophia para você! Deixamos de ser íntimos há muito tempo. – falei irritada.
Quem ele achava que era? Estava com meu orgulho ferido!
– Eu vi que eu errei. Estou admitindo! Foi uma aventura, apenas isso.
– Você acha que com essa conversinha pode consertar tudo? Eu cresci! Não sou aquela tonta que você enganou por tanto
tempo.
– Não estou entendendo... – se fez de vítima. – Nunca te achei tonta.
– Não? Três anos perdidos, Alexandre. Estou muito bem agora e isso que importa. – falei parando a dança.
Alexandre olhou para os lados para ver se alguém estava percebendo que nós já não dançávamos mais.
Sempre pensando na própria imagem. Idiota!
Theo estava sentando à mesa e me olhava tentando adivinhar o teor daquela conversa. Apesar de não ver ninguém prestando
muita atenção em nós, já que a pista estava lotada, eu não queria fazer uma cena para o público.
Alexandre pegou minha mão novamente e me conduziu em uma dancinha leve para não se queimar.
– Sophia, eu estou arrependido. Acredite em mim. Eu tenho pensado em você desde que terminamos e apesar de ter uma
aventura de vez em quando, é em você que penso. E encontrá-la aqui, só me deu mais certeza. Vamos tentar novamente? Sair,
conversar, ir com calma. – pediu seriamente esperando uma resposta.
Aquela carinha que ele fazia... Era a mesma que me fez apaixonar por ele.
Não consegui evitar e olhei para Theo, que estava na direção do meu olhar. Ele lançava aquela mirada de "precisa de
ajuda?".
Olhei para Alexandre e vi que não sentia nada mais além de... Nada. Estava liberta daquela paixão doentia.
Sorri ao descobrir que não o amava mais. Não lamentava mais.
– Alexandre, olhe para mim! – falei olhando em seus olhos.
– Não entendo. Estou olhando para você. – falou curioso.
– Você está olhando, mas não está me vendo. Eu cresci. Eu estou bem! Estou feliz e não preciso de você nem de ninguém. –
falei educadamente. Não queria que pensasse que era vingança nem nada.
– Por que você está me dispensando? Não precisa dar a resposta agora. Pensa um pouco com calma e nós conversaremos
outro dia. Não tenho pressa. Eu te ligo. Consegui o seu número no site da empresa Artvt.– falou desconcertado.
– Não precisa me ligar. Essa é a única resposta que você vai escutar saindo de minha boca. Você não está vendo? Eu estou
bem. Não... Eu estou ótima! Não é óbvio? – falei como se falasse com uma criança.
– Eu vejo que você está mais madura, vejo sua transformação em uma mulher, profissional. Mas, estou te pedindo apenas
uma chance de provar que eu mudei. – implorava.
Alexandre implorando? Deveria gravar e colocar no Youtube.
– Eu não acho que...
– Acredito que seja a minha vez de tirar a dama para dançar. – falou Theo cortando Alexandre repentinamente.
Mas que isso?! Dança da vassoura?
Alexandre olhou para ele e para mim parando a dança.
– Sophia, quem é esse cara? Você tem namorado? – perguntou Alexandre incrédulo. – Você acabou de dizer que não
precisava de homem.
– Ele não é... – comecei a frase, mas Theo agarrou delicadamente o meu braço.
– Eu sou o namorado e ela quis dizer que não precisa de um homem como você. Então dê o fora daqui. – falou Theo
irritado. Nunca tinha o visto assim. – Você me concede esta dança, amor?
Eu fiquei sem saber o que dizer. Theo se passando por meu "namorado". Essa era boa. O problema era que eu não sabia
mentir. Meu cérebro precisava entender, mas minha boca foi mais rápida.
– Cla... Claro que con... Concedo. – gaguejei.
Alexandre viu que havia perdido e sem saber o que fazer, desvencilhou seus braços que estavam em minha cintura e se
retirou pisando forte, mas não antes de dizer:
– Sophia. Semana que vem eu vou te ligar. Precisamos conversar direito.
Theo segurou o olhar até ver a sombra de Alexandre fora do salão.
– Desculpe. Vi que você estava desconfortável. – falou com um olhar complacente.
– Obrigada! – agradeci. – Ele era um "amor" do passado. Se é que posso chamar de amor.
– Não tem porque me explicar. – falou educadamente com um sorriso nos lábios.
– Você tem razão. Águas passadas. Vamos nos sentar? – perguntei sem jeito.
– Pensei que você me havia concedido à dança? – brincou sorrindo ainda mais.
– Não concedi nada. Queria me livrar daquela coisa apenas. – não queria dar o braço a torcer.
– Eu precisava atender àquela chamada, Sophia. Eu vou terminar com ela assim que voltar a Londres. Você deve saber que
está falando com o mais novo e majoritário acionista da Artvt. Nada mais me impede de tê-la em meus braços.
– Sua mãe já passou para o seu nome?
– Tudo. – sorriu.
– Então, posso correr atrás de um milionário? – brinquei. Ele riu da situação pegando em minha mão e conduzindo-nos para
uma leve dança.
Pela ironia do destino. Uma canção romântica de Sarah Connor chamada Just one last dance começou a tocar e as luzes
foram ficando cada vez menos intensas. O ar, totalmente melancólico, fora feito para os apaixonados que se encontravam no
coquetel.
Ai! Vou morrer! Essa música é linda! E estou com ele!
Theo pousou as duas mãos em minha cintura, enquanto que eu não sabia o que fazer com as minhas.
Aproveite o momento. Apenas aproveite, Sophia. Que se dane todo mundo. Seja feliz por uma noite e mande aquela
Jéssica para o quinto dos infernos.
Levantei minhas mãos e as coloquei em volta de seu pescoço. Ergui meu olhar buscando em seu rosto. O que vi foi um
turbilhão de sentimentos que tomou o meu corpo após ver o olhar de Theo. Era intenso.
Enquanto a música tocava, dançávamos lentamente e cada vez mais nossos corpos se aproximavam até ficarem colados. Ao
nos tocar, meus olhos se perderam nos dele. Naquele momento, só existiam nós dois.
Senti um estremecimento dentro de mim e Theo continuava cravando o seu olhar em mim.
– Talvez o seu “ex qualquer coisa” tenha falado isso, mas eu me atreverei a repetir, se assim foi feito. Você está linda esta
noite!
Não esperava este tipo de elogio. Fiquei vermelha como uma maça argentina.
– Obrigada! Você está muito elegante também. – retribuí o elogio.
– Eu agradeço o elegante. Porém, eu não a elogiei para ser educado e assim receber educadamente o seu em troca. Eu disse
porque é o que eu acho. Você está linda, Sophia. – falou roucamente.
– Estou ficando um pouco envergonhada, mas obrigada novamente. – sorri.
Seu olhar ficou mais intenso e acho que comecei a ficar com febre.
– Sabe... – começou Theo. – Minha vida nunca foi um romance. Estarei mentindo se te digo que me já me apaixonei
loucamente por alguém.
Onde ele queria chegar com aquela conversa?
– Entendo. – comentei esperando a continuação.
– Alguém já te falou que o olhar é a linguagem do coração? – perguntou.
– Não. Ninguém nunca falou isso para mim.
– As palavras são muitas vezes recheadas de falsidade e falsas ilusões, mas o olhar diz exatamente o que a pessoa deseja ou
sente, seja algo bom ou algo ruim. Você entende o que eu digo? – indagou procurando meus olhos.
Senti um calor entre as minhas pernas. Ele estava fazendo amor comigo através daqueles olhos azuis?
– Eu... Eu acho que não entendo muito bem o que você quer dizer... – desconversei.
Se antes estava vermelha, havia ficado violeta.
– Tenho certeza que este é o melhor momento de te fazer entender. – falou colocando uma de suas mãos em minha bochecha.
– Nunca olhei para alguém com a intensidade que eu faço com você. Você consegue invadir todo o meu corpo quando você
me olha e sorri desta forma tão linda, envergonhada, tímida. Isso só faz com que eu deseje coisas que somente o meu olhar
poderá obter de você neste momento: Apreciação.
– Theo... – balbuciei, fechando os meus olhos. – A verdade é que estar com você me deixa assim...
– Por que você fica assim? – falou, passando o polegar sobre o meu lábio enquanto esperava por uma resposta.
A música havia mudado, porém não menos romântica. Quem cantava era Marc Terenzi (love to be loved by you) com a voz
apaixonada e era tão sexy e íntima que aquele momento parecia quase que erótico – apesar de estarmos mexendo com nosso
corpo colado ao ritmo da canção.
Theo aproximou sua boca de meu ouvido e sussurrando falou:
– Sophia, aqui não é o lugar mais apropriado para dizer tudo que o meu olhar está tentando passar. Este ambiente cheio de
pessoas, essa música... Você está me enlouquecendo. – falou com agonia. – Uma vez, Leonardo da Vinci disse que as mais
lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar. Ele tinha razão. É o que tenho feito com você há muito tempo. E
hoje, o que eu começar aqui não vou querer parar, a não ser que você me impeça.
Uau! Este cara é bom!
Estava tão maravilhada e excitada por essas palavras que fiquei sem ação. Apenas o olhei pensando se estava sonhando.
Theo continuava com sua declaração.
– Sua boca, seus olhos, tudo em você me atrai. – sussurrava em meu ouvido enquanto balançávamos nossos corpos. – Porra!
Eu quero continuar esta dança, só que não aqui. – antes de continuar, Theo suspirou. – Depende só de você.
Olhei para ele e não consegui frear o que me consumia há meses. Seus lábios me convidavam e eu não conseguia parar, eu
não queria parar.
Ele aproximou, ainda mais, seu corpo do meu e com um beijo suave nossos lábios selaram o que tanto eu desejava.
No começo, foi como um chuvisco em uma linda tarde, mas assim como eu, Theo queria muito mais. Dava para sentir a
eletricidade. Ele me desejava há bastante tempo.
Nosso beijo, no meio do salão, ficou cada vez mais provocante.
Fodam-se Ronald, fofoqueiros, Artvt. Eu quero Theo!
Eu mordia seu lábio inferior a cada beijo, chamando-o por mais e Theo respondia, sedento e ávido.
Meu corpo estava ardendo em chamas.
– Como eu queria isso! Ahh! Deus! Como eu queria sentir esses lábios novamente. – sussurrava Theo, entre um beijo e
outro.
Eu não queria falar nada, apenas sentir a beleza daquele momento.
– Ahh! Sophie! Você está me deixando malditamente louco aqui. É melhor você parar agora ou não vou conseguir me
controlar. – sussurrou. Seus olhos ardiam e eu vi o tamanho de seu desespero.
– Eu não quero parar, Theo. – incentivei.
Era tudo o que ele precisava escutar. Theo, não foi um cavalheiro. Puxou-me pelo braço, arrastando-me praticamente para
fora de lá em direção ao hall do Hotel.
Se o povo da festa quisesse, teria visto uma preliminar ali mesmo no meio da pista.
Ao passar pelo hall, Theo parou abruptamente.
– Espere aqui. Eu já volto. – ordenou.
Acenei com a cabeça pensando somente em uma coisa: como iria tirar sua camisa? Botão por botão ou rasgando-a
totalmente?
Theo foi até a recepção e pediu a chave de seu quarto.
Logo quando chegou até mim falou esperando por mais uma confirmação.
– Sophia, eu quero você! Há muito tempo que eu quero você! – disse colando sua boca na minha, envolvendo suas mãos em
minha cintura e puxando-me para ele.
– Eu também quero você. – falei dando-lhe um beijo de tirar o fôlego.
O hall do Hotel estava vazio. Apenas o recepcionista encontrava-se lá e olhava de soslaio para nós.
Theo me puxou pelas mãos em direção ao elevador. Uma parede dividia a região das duas portas do elevador com o centro
do hall. E foi ali que Theo me empurrou e começou a passar suas mãos por todo o meu corpo a cada beijo.
Nossos beijos eram cheios de luxúria. Era como água no deserto. Ele era meu e eu totalmente sua.
Ousadamente, passei meus dedos por seu órgão íntimo e senti a rigidez sob minha mão.
Theo gemeu baixinho e retribuiu com um beijo, pressionando-me mais ainda contra a parede próxima ao elevador.
Senti que estávamos passando um pouco dos limites. Nunca vi Theo tão descontrolado desta forma. E eu? Sem palavras
para o que estava prestes a fazer com o meu chefe. O que ainda sobrava de consciência em meu cérebro me fez parar o nosso
beijo.
– Vamos subir, Theo.
Assim que a porta se abriu, Theo me levou para dentro e apertou o botão de seu andar e segurou o desejo de me agarrar ali.
– Minha vontade de tê-la ainda não diminuiu, Sophia. – falou depois de alguns segundos de silêncio, segurando minha mão.
– Eu queria te foder aqui mesmo.
Sorri. Ele estava totalmente descontrolado por mim.
Assim que a porta se abriu arregalei os olhos.
Suíte presidencial?! Uau!
Fomos até o quarto e quando estávamos dentro, ele não perdeu mais tempo.
Empurrou-me delicadamente até a parede oposta à porta e começou a beijar avidamente a minha boca. Enquanto isso, suas
mãos passeavam por todo o meu corpo novamente. Ele abriu minhas pernas com seu joelho e com os dedos tocou a minha
parte íntima. Eu também não fiquei parada. Fui direto com minha mão para frente de sua calça apertando o seu membro com
vontade e beijando-o como se fosse morrer dali a um minuto.
– Todas as vezes que você ficava vermelha com meu olhar, eu sentia vontade de agarrá-la e fodê-la sem parar. Beijar todo
este seu corpo. – sussurrava roucamente sem parar um minuto com suas carícias.
Aquilo causou uma explosão em mim. Não queria esperar. Queria que ele me tomasse naquele momento. Estava delirando
de paixão e desejo.
Theo sentiu o quanto fiquei excitada com suas palavras e sem avisar levantou o meu vestido para colocar seus dedos sobre
minha calcinha e brincar com o meu sexo.
Eu queria mais e a cada movida de sua mão eu gemia pedindo mais. Ele beijava e chupava o meu pescoço me deixando
louca.
Assim que paramos para respirar, ele me olhou.
– O que foi? – perguntei ofegante.
– Caralho! Você está linda descabelada deste jeito. – disse sorrindo.
Sorri em resposta e andei pela suíte a procura de um aparelho de som ou qualquer coisa parecida. Se era para enlouquecê-
lo como ele fez comigo durante todo este tempo, eu faria pior.
Theo apenas me olhava curioso por deixá-lo ali parado naquele estado febril encostado à parede.
Encontrei um aparelho de som acoplado ao lado da cama e liguei procurando por músicas lentas.
Apaguei as luzes, deixando apenas os abajures ligados. Enquanto isso, ele me olhava ferozmente. Estava como um vulcão
ativo, pronto para explodir a qualquer momento.
Perfeito!
Foi então que sintonizei em uma música lenta. Não sabia se era romântica ou não, não estava interessada na letra, apenas em
seu ritmo. Comecei a passar minhas mãos pelo meu corpo atrevidamente. Provocando-o com uma dança sensual. Lentamente,
fui retirando o meu vestido.
Theo iniciou uma lenta caminhada para perto de mim. Eu balancei o meu dedo de forma negativa e apontei a cama para o
lugar onde ele deveria ir. Não seria assim tão fácil.
Theo colocou as mãos no rosto.
– Assim você quer me matar. – falou roucamente.
– É o que farei contigo esta noite. – respondi sapeca.
Nesta altura do campeonato eu já estava de calcinha e sutiã. Eram vermelhos sangue. E agradeci a Mia por me fazer vestir
aquele conjunto.
“Precisa estar sempre preparada para uma noite louca de sexo, amiga – disse ela”.
Theo começou a desabotoar sua camisa e eu andei lentamente até ele. Ele se enrolou ao me ver caminhando.
Que fofo!
– Quer ajuda? – perguntei inocentemente.
Ele sorriu maliciosamente.
– Vem aqui então, me ajudar. – chamou-me.
Fui até ele e ao parar em frente à cama, Theo me puxou com uma força que me fez desequilibrar e cair sobre ela.
Rapidamente, ele se virou e já estava em cima de mim me beijando.
– Ainda quer me ajudar, Sophia? – perguntou após um longo beijo.
– Ahhh! Theo! Estou perdendo a razão... O que você perguntou mesmo? – disse já tomada pelo desejo.
Ele riu de minhas palavras e ainda deitado quase que totalmente sobre mim, parou para me observar.
– Você é mais linda do que eu sonhava. Donna Meravigliosa! – elogiou dizendo “mulher maravilhosa”, enquanto acariciava
meus seios, minha barriga, tudo.
Levantou-se e tirou sua roupa ficando totalmente nu. Ele segurava o meu olhar. Eu não sei se olhava para seu rosto ou para
seu membro duro e... Enorme.
Podia ver que ele iria comandar aquela noite. Ajoelhou-se sobre mim, tirando meu sutiã e depois minha calcinha.
Não havia espaço para tanto desejo. Estava molhada, preparada para ele, mas ele ainda não estava satisfeito em me ver
daquele jeito. Brincava com seus dedos de uma mão em meu seio enquanto que a outra brincava com meu clitóris. Seus lábios
revezavam entre beijos em minha boca e provocações com meus mamilos.
– Você gosta assim? – perguntava Theo a cada gemido meu.
– Mais... Mais... – era só isso que eu conseguia dizer.
Beijamo-nos até ficarmos cansados. Acariciamo-nos, nos amamos e nos declaramos como dois amantes fazem sob a luz da
lua.
Quando não aguentávamos mais de tanto desejo, Theo retirou uma camisinha da gaveta do móvel ao lado da cama e
colocou.
Será que ele estava esperando por mim já? Ou era para qualquer uma que ele pegasse nesta noite?
Preferi afugentar esses pensamentos. Não era a hora de refletir sobre nada.
Beijei intensamente aqueles lábios grossos. Não havia ontem, nem amanhã. Apenas o prazer daquele momento.
Theo me penetrou lentamente, saboreando sua investida em mim.
– Apertada. – sussurrou. – Fodidamente apertada.
Assim que ele sentiu o meu conforto, começou o movimento e aos poucos foi aumentando a intensidade até estarmos no vai
e vem rápido sem parar. Já não estava mais delicado. A cada estocada, mais forte ficava e sentia que a qualquer momento
chegaria ao céu.
– Como eu queria entrar em você! – falava enquanto encarava meus olhos. Eu fechava para sentir aquela sensação. – Abra
os olhos, Sophia. Quero que me olhe quando eu fizer você gozar. Quero que saiba que você é minha. Só minha. – falava com
autoridade.
Eu não sei se o amava, mas criei uma imagem dele por tanto tempo e estar ali me fez ver que nutria um sentimento muito
maior do que esperava. Isso me assustou, mas também não era o momento de pensar nisso.
Theo empurrava para dentro de mim com tanta força e desejo que eu gritava e gemia seu nome a todo o momento. Senti
quando meu corpo deu sinal que estava chegando o meu limite.
– Sophia, eu não vou esperar muito... – gemia mordiscando minha orelha. Eu já estava mordendo o seu ombro deixando uma
bela marca.
Chegamos ao clímax juntos. Nosso ardor era tanto que fizemos amor diversas vezes. Quando acabávamos, logo em seguida
começávamos novamente. Queríamos saciar todo o tempo perdido em uma única noite.
– Quer tomar um banho? – sorriu beijando meus lábios. Estávamos deitados na imensa cama. Theo virado para mim sorria
sem parar. Eu aceitei aquele convite. Ainda não estava satisfeita. Queria mais. Ele era a minha droga.
Fomos até o grande banheiro. Ele encheu a banheira. A água estava agradável. Sentei de costas para ele entre suas pernas.
Theo pegou o sabonete e começou a passar lentamente por minhas costas, braços e barriga. Abaixou mais a mão tocando-me
delicadamente. Suspirei de excitação.
– Você gosta assim? – perguntava enquanto me acariciava com o sabonete. – Você quer mais?
– Sim... Eu quero. – virei rapidamente para ele e sentei sobre seu membro. Não esperei. Entrou de uma vez e eu gemi com o
movimento brusco.
– Porra, Sophia! – beijou-me intensamente novamente. – Você é gostosa demais! – começou a me elogiar segurando minhas
coxas e aumentando nosso movimento. Theo mordiscava meu pescoço e eu o arranhava inconscientemente. Queria mais e mais
dele dentro de mim.
– Theo... Estou quase lá... – sussurrei meio ao gemido.
– Sophia... – balbuciou quando mais uma vez explodimos juntos. Nossas respirações no meio do vapor do banheiro era o
resultado de nossa paixão reprimida.
Passei toda a noite no quarto dele. Deitamo-nos, nus sobre a cama. Foi maravilhoso e inesquecível. Senti-me realizada e
não conseguia deixar de sorrir.
– Eu sei que já falei para você o quanto você está linda e você deve estar de saco cheio, mas definitivamente, seu rosto pós-
sexo ganhou. Você está espetacular! – brincou beijando-me suavemente os lábios.
Estávamos enrolados nos lençóis de seda, deitados de frente um para o outro.
– Posso te dizer a mesma coisa. Seu cabelo pós-sexo deveria parar nas revistas para cabeleireiros. – sorri.
– Humm... Essa é nova para mim. Lembre-me de falar com algum cliente de algum salão renomado para uma nova
campanha. Será que ganharíamos dinheiro com isso?
– Sem dúvida nenhuma! É só se olhar no espelho. Sensacional! – caí na gargalhada e Theo também.
Conversamos sobre tantas coisas banais noite afora. Theo me contou sobre o dia que me mandou as rosas e eu o beijei
várias vezes por esta atitude tão fofa e romântica. Estava feliz que não vi a hora em que adormeci em seus braços.
Não tenho certeza, mas acho que dormi com um sorriso em meus lábios.
(...)
Acordei com o som de um celular tocando. Tentei me mover, mas senti um braço sobre minha cintura. Theo me abraçava e
estávamos de conchinha. Ele dormia pesadamente.
Após a terceira chamada, ele se levantou com um pulo procurando o celular que se encontrava no criado mudo ao meu lado.
Ao dar a volta pela cama, fingi que dormia e prestei atenção a cada movimento dele.
Ele olhou para mim desconfiado ao olhar o visor do celular e caminhou até o banheiro.
Jéssica.
Quando Theo fechou a porta do banheiro silenciosamente, senti uma tristeza me invadir. A verdade caiu sobre mim como
uma avalanche. Eu era a outra ainda e ela a oficial. Como Alexandre tinha feito comigo. Sombras do passado voltaram à minha
mente e me senti suja.
Que merda que eu fui fazer?!
Sentei-me ereta na cama e procurei por minha roupa. Estava espalhada pelo chão do quarto. Coloquei o vestido e lembrei
que a chave de meu quarto ainda estava na recepção.
Merda! Merda! Merda!
Não podia ficar mais ali e esperar um “tchau... A noite foi boa, mas por favor, retire-se”.
Fui até a porta do banheiro na ponta dos dedos e escutei parte da conversa.
– Foi tranquila... Sim... Eu volto daqui a quatro dias. O coquetel foi bom também. Jéssica, já conversamos sobre isso. Não
começa... Tá bem... Eu preciso desligar agora... Não faça nenhuma loucura.
Senti o gosto amargo da rejeição e a troca de papel. Eu que era a vaca que estava dormindo com o noivo dela. Não o
contrário.
Saí do quarto correndo antes que ele visse minhas lágrimas.
Ainda era cedo, o relógio marcava 08h45. Peguei as chaves no hall com o funcionário que atendia durante o dia e fui ao
meu quarto arrumar minhas malas. Chorei enquanto me banhava. Que ironia. Estava tirando o cheiro de Theo, mas ainda queria
senti-lo. Ele cheirava a relva e flores silvestres. Não queria mais viver deste jeito. Passei todo este tempo alimentando este
sentimento por ele e agora que havia experimentado um pouco dele, queria desaparecer.
Saí do banheiro de toalha procurando pelo meu celular.
Pelo menos, não deixei a bolsa no quarto dele.
– Mia? Mia... – comecei a chorar no telefone.
– Que foi? – perguntou assustada.
– Eu... Eu dormi com ele... Dormi com o Theo. – falei meio a soluços.
– Você o quê? Sophie, você tá bêbada? – perguntou descrente.
– Não. Eu dormi com ele noite passada. Eu encontrei o Alexandre no mesmo maldito coquetel! E o Theo veio me salvar e
eu já não aguentava mais... Eu estou apaixonada por ele. – desabafei.
Mia sempre era a minha amiga para essas horas. Sempre Mia.
– Sophie, e onde ele está agora? Por que você está chorando? Ele te deu o fora?
– Não. Sim... Não sei. Eu acordei e ele estava trancado no banheiro falando com a namorada dele. Saí correndo do quarto
antes dele aparecer. Daí, eu lembrei que ele tinha noiva, sabe? – relembrei o fato com tristeza queimando-me.
– Mas, ele não te deu o fora? – perguntou Mia.
– E precisava esperar por isso? – perguntei exaltada. – Ele se escondeu para falar com Jéssica, Mia!
– Aii... Amiga. Você fez bem em cair fora. E agora? Você vai fazer o quê?
– Vou agir como se não tivesse passado de uma noite qualquer e vou sair da empresa.
– QUE? Você não vai pedir demissão. De jeito nenhum!
– Eu não vou aguentar conviver com ele depois disso, Mia. E a ética? E meu coração? Eu não posso vê-lo mais com a
Jéssica e fingir que sou um exemplo de funcionária. Pelo amor de Deus! – falei chorando.
– Está bem. Faça o que achar melhor, mas seja forte e não baixe a cabeça para ele. Vocês são adultos e você não é uma
biscate.
– Não sou, não é? Só dormi com um cara comprometido. Se eu não sou... O que eu devo ser então? Depois a gente conversa.
Vejo-te daqui a algumas boas horas.
– Boa viagem, Sophie. Te pego no aeroporto. Seja forte!
– Ok. Beijos.
Ao descer até o saguão do Hotel, Theo estava sentado no sofá lendo um jornal. Ao me ver, se levantou e apressou-se em vir
até minha direção. Não estava sorrindo e parecia tenso.
– Oi. Bom dia. – falou ao chegar.
– Bom dia. – falei com um frio sorriso. – Já tomou café?
– Não. Esperava por você. – sorriu timidamente. – Me acompanha?
– Sim. Estou com muita fome. Principalmente, depois da noite que... – parei abruptamente a minha frase. Esqueci que foi um
erro.
Theo ficou tenso novamente.
– Sophia... Eu...
– Por favor, vamos apenas tomar café e voltar para casa? – falei cortando-o.
– Escuta o que eu tenho para dizer. – segurou meu braço.
– De novo?
– Eu te disse que vou terminar, porra! Que parte da estória você não entendeu?
– A parte que você se tranca no banheiro para falar com a sua atual noiva enquanto que sua empregada está na cama
seminua.
– Sophia, entenda. Se eu acabar com ela agora estando aqui, você imagina o que meu pai vai causar? Ela vai tentar acabar
com a minha imagem e eu nem estarei lá para me safar da imprensa. – falava calmamente. Ronald passou por nós
cumprimentando-nos e Theo silenciou seu discurso.
– Só quero tomar o meu café e nada mais. – disse.
Ele entendeu a mensagem e evitou tocar novamente no assunto. Não queria escutar os famosos tipos de desculpas depois de
uma noite de sexo.
Tomamos nosso café em silêncio. Encontrei Alexandre do outro lado da sala e fiquei tensa. Theo seguiu meu olhar e o
avistou.
– Ele deve ter ferido você demais, não é? – perguntou sondando-me.
– Suficientemente para eu não acreditar em homem algum. – alfinetei. Não poderia deixar passar o momento.
– Que pena. Nem todos os homens são iguais. – falou rispidamente.
– Pode ser, mas todos que eu conheci até agora foram do mesmo tipo.
Theo fixou o seu olhar em mim e senti que ele não estava à vontade.
– Sophia, eu não sou assim. Não sou como ele. – falou apontando na direção de Alexandre.
– Há minutos atrás você estava fazendo com a Jéssica a mesma coisa que ele fez comigo. – falei sentindo meus olhos
enchendo-se de água. – Aliás, eu sou a culpada.
Theo baixou a cabeça e esfregou os olhos. Parecia cansado psicologicamente. Ao voltar o seu olhar para mim, me encarou
por longos segundos.
– Eu quis, eu desejei tudo que aconteceu ontem. – declarou. – Não sou como ele. Eu não agi por impulso. Há muito eu
queria tê-la comigo.
Sorri ironicamente.
– Tenho certeza que sim. E conseguiu. Agora, pode seguir a sua vida na Artvt e controlar a louca da Jéssica. Não foi nada
que nenhum de nós não possa superar. – falei com indiferença fingida.
– Não acredito que para você não significou nada. Eu vi em seus olhos que não era uma simples noite de amor com qualquer
homem.
– Não foi uma simples noite, afinal era o meu chefe que estava levando para a cama. Chefe milionário! – falei rindo sem
vontade. – Vamos fazer o seguinte. Eu já terminei o meu café e prefiro voltar aos meus aposentos até chegar o momento de eu
ir. Porque ao final, você sempre volta para ela e eu fico sozinha.
Levantei da cadeira e vi que Alexandre se aproximava.
Só me faltava essa.
– Sophia. Bom dia. – falou Alexandre ignorando a Theo.
– O que você quer, Alexandre? – perguntei extremamente impaciente. Estava cansada deste joguinho.
– Queria conversar com você só por um minuto. Se o seu namorado não se importar, claro. – falou dirigindo o seu olhar
para Theo pela primeira vez.
Theo não gostou da presença dele ali e se levantou.
– Claro que eu me importo. – disse possessivo.
Ele se importa? Vai se ferrar!
– Eu não me importo. Vamos conversar sim. – saí deixando Theo com cara de palhaço.
Ao chegar ao saguão do Hotel, Alexandre se sentou naquele mesmo sofá de couro de três lugares onde antes estava Theo e
seu jornal.
Sentei no outro extremo. Queria distância dele e ele compreendeu o meu gesto.
– Parece que vocês dois não estavam se entendendo bem hoje.
– Isso não é problema seu.
– Desculpe. Eu sei... – desculpou-se se ajeitando na poltrona. – Eu queria apenas me certificar que você estava disposta
pelo menos a ser minha amiga.
– Nunca fomos amigos, Alexandre. Te conheci na balada e logo em seguida já estávamos namorando. Não tivemos tempo
para amizade.
– Não seja tão injusta, Sophia. Fomos amigos sim. E por isso, mesmo depois de tudo que eu fiz, eu queria pelo menos ter
esta amizade de volta. Sair para bater papo, tomar uma cerveja, conversar bobeiras do dia a dia. Eu não fui um bom
namorado, eu sei. Mas, poderia considerar colocar-me novamente em sua vida? Poderia viajar a Londres com frequência.
Alexandre parecia sincero. Ele sabia que tinha feito besteira e estava confessando. Não estava exigindo nada de mim,
apenas um recomeço amigável.
– Alexandre, diria que você amadureceu bastante. – sorri sincera.
– O tempo muda muita coisa. – falou. – Eu sou uma pessoa mais centrada em tudo. Inclusive, respeito os sentimentos dos
outros, coisa que eu não fazia antes.
Olhou-me com intensidade. Se ele estivesse mentindo, entregaria o Oscar agora.
– Amigos então? – perguntou tirando-me de meu devaneio.
– Amigos. – falei.
Levantamos e Alexandre veio e me deu um abraço. Ao tentar sair de seus braços. Ele agarrou o meu rosto com as duas
mãos.
– Espero que este seja um início de algo que poderia ser muito mais que apenas o que estou propondo agora... – falou perto
demais de meu rosto.
Ia respondê-lo que precisava tirar o cavalinho da chuva, mas fui interrompida com um movimento brusco. Alexandre foi
lançado contra o chão com um belo soco na cara. Theo estava fora de si e mesmo caindo no chão, ele se levantou rapidamente
pronto para a briga. Conseguiu retribuir o soco dado com um chute no estômago e uma joelhada na cara de Theo. Theo caiu
cambaleando e ao se levantar deu um giro com a perna que chegou próximo ao rosto de Alexandre, mas não o atingiu. Porém,
Alexandre não foi rápido o bastante e recebeu um soco na barriga e uma cotovelada no queixo. Pareciam dois galos
enraivecidos no jogo matar ou morrer.
Fiquei em choque com a mão na boca e gritando “chamem os guardas” para quem passava por lá. Alexandre era forte, assim
como Theo. Ambos tinham portes físicos parecidos e Theo era ligeiramente mais alto. Os seguranças do Hotel chegaram a
tempo, mas não antes de deixar aquele estrago. Quando o separaram. Não pensei duas vezes e fui onde estava Theo.
– Você está bem? – perguntei sentando-me no chão e colocando a cabeça de Theo no meu colo.
– O filho da puta tentou te beijar! Desgraçado! – cuspiu as palavras.
– Ele não tentou me beijar. Ele estava apenas tentando reatar uma relação de amizade. Mas, você não estava vendo isso, não
é?
– Eu vi como ele pegou o seu rosto, Sophia! Aquilo definitivamente não era amizade. – falou com raiva. – Você ainda gosta
dele?
Aquela pergunta me pegou de surpresa. Eu não gostava mais de Alexandre, mas a pergunta feita por ele era invasiva demais
para quem ainda tinha um compromisso.
– Eu acho que isso não conta muito para você. Afinal, o importante é que você tem alguém esperando lá em Londres. –
concluí.
– Não fale isso. Você sabe que não é assim.
Vi tristeza em seu olhar ou no que sobrou dele. Theo estava muito machucado. Olhei para Alexandre e o vi sentado
encostado na parede. Ele me olhava com amargura.
Dane-se você com esse seu olhar. Foi você que me traiu! Idiota!
– Theo, por que você brigou com o Alexandre se não somos nada?
– Apenas o vi com suas mãos em você e não me contive. Ele te magoou e não tinha o direito de tentar fazer isso novamente.
– Mas, você tem a louca varrida. Eu não. Se eu quisesse beijá-lo era uma decisão só minha. Você não tinha direito em
intervir nisso. – falei friamente. Era hora de começar a colocar o abismo entre nós.
– Sophia... Entenda... Eu queria... Quero... A Jéssica disse que está grávida, mas não é o que...
Levantei-me apressadamente. Era hora de parar com aquilo.
– Grávida? – falei alto demais. – Como você pôde? – coloquei minhas mãos sobre a boca assustada com aquela revelação.
Era óbvio! – Você não a deixou porque ela estava grávida! Como eu não pensei nisso! – senti as lágrimas escorrendo por meu
rosto.
– Sophia, deixe-me explicar! – ele queria falar, mas eu não estava interessada nas desculpas.
– Você foi um cafajeste! – apontei para ele. – Você parece estar bem. Vou terminar de arrumar as coisas antes que fique
muito tarde. Espero-te aqui no hall na hora certa.
Saí direto ao elevador.
Chega de drama.
– Quem ele pensa que é? Eu não sou sua propriedade! Ele tem a porcaria da Jéssica e um bebê para cuidar. – gritava ao
telefone com Mia.
– Sophie... O cara tá muito na sua! Sua boba! E que história é essa de grávida? E essa história com o Alexandre? Era o
Alexandre que estava lá! Não um galinha qualquer, era o A-le-xan-dre! Já esqueceu? – perguntou sem acreditar que estava
escutando aquilo de mim.
– Eu sei. Mas ele nem sabe direito do Alexandre para fazer isso. Não era certo! Eu sou livre para escolher quem eu quiser,
droga! Um bebê, Mia!
– Sophie... Vem logo pra casa. Aí tá pegando fogo! – falou Mia, cansada.
– Estou saindo agora para o aeroporto! Graças a Deus eu estou voltando pra casa.
Contei tudo a Samantha que voltou comigo na poltrona ao lado. Ronald estava com cara de poucos amigos. Todos viram o
nosso beijo no salão e eu precisava preparar meu currículo logo. Não aguentaria chacota dentro da empresa e não queria ser
chamada de vadia por Jéssica. Samantha me apoiou e me aconselhou bastante.
Minha novela na Artvt estava por terminar. Depois daquela ligação de Theo, eu não ficaria mais lá. Estava decidido.
Pediria demissão.
Capítulo 28 – Demissão.

Assim que voltei a Londres, aproveitei o primeiro dia para ir até a pessoa que me ajudaria a resolver meu problema na
empresa.
– O que a traz aqui tão cedo, senhorita Sophia. – sorria falsamente, o senhor Theo Trento pai.
– Trouxe meu pedido de demissão, senhor. – ele sorriu e segurou o papel lendo-o atentamente. Theo ainda estava no Rio de
Janeiro para finalizar as reuniões e o Congresso e isso me deu tempo suficiente para correr atrás de empresas por todo o
mundo. Eram apenas mais quatro dias, porém valiosos.
– E posso saber o motivo que a impulsionou a tomar esta decisão? – sua pergunta era tão falsa quanto aquele sorriso de
amigo esboçado em seu rosto.
– Quero viver em meu país. Talvez, eu não tenha me adaptado a este estilo de vida londrino. – estava sendo sarcástica.
– Pois bem... Eu aceito sua carta de demissão. É uma pena que a empresa vá perder tanto com sua saída, mas se é a sua
escolha, não poderei interferir.
– Obrigada. Era tudo que eu precisava do senhor. – caminhei até a porta. – Outra coisa, parabéns! Você será vovô! – senhor
Trento arregalou os olhos. Era uma surpresa para ele. Ninguém o havia informado disso?
– Obrigado, senhorita Sophia. – disse desconcertado disfarçando a surpresa. Saí de sua sala com o papel assinado.
(...)
Duas semanas já passaram desde a viagem ao Rio de Janeiro.
Meus dias se resumiram em acordar, trabalhar, ignorar a todos do serviço e voltar para casa.
Eu e Theo evitamos qualquer tipo de contato desde então. Algumas vezes, nossos olhares se encontravam no meio da
cantina ou dentro do elevador, mas apenas isso. Ele tentou uma abordagem dizendo que precisava explicar algumas coisas,
mas eu não tinha vontade de mais nada. As lembranças daquela noite atormentavam o meu coração e impulsionavam ainda
mais a minha vontade de deixar a Artvt. Seu pai não havia informado a ele o meu pedido ainda e eu apenas cumpria os meus
últimos dias. As normas ditavam que eu ainda precisaria da assinatura de meu chefe para concretizar a demissão. Fui até a
cantina para pensar nas palavras certas e enfrentar aquele homem que me tirava a razão.
Estava sozinha quando Jéssica apareceu e se sentou à minha frente.
– Eu disse a você para se afastar dele. – ela falou cruzando os braços.
– Estou aqui embaixo e ele lá em cima. Mais afastada que isso impossível! – zombei.
– Como sempre tentando ser engraçada. – falou sem vontade. Seus olhos encontraram os meus e não vi alegria neles. – Eu
não esperava isso. Um filho agora só destruiria a minha carreira, mas eu amo o Theo e não pretendo tirar essa criança de meu
ventre. Não sou sua amiga, nunca fui. Mas, peço, por favor, saia de nossa vida. Eu quero um pai para meu filho. Não destrua
uma família. – pediu-me com fervor.
Eu olhei para aquela mulher que não estava brigando comigo e senti pena por mim. Era uma família.
– Não se preocupe, eu pedi demissão. Vou embora de Londres. – Jéssica sorriu.
– Obrigada por entender. – levantou-se e saiu como um furacão, destruindo a minha vida inteiramente.
(...)
Eu tinha uma entrevista marcada nesta mesma semana para uma empresa concorrente com sua filial na Argentina e pretendia
agarrar a vaga que estava em aberto. Não podia mais suportar este clima chato entre nós.
Theo entendeu e respeitou a minha vontade e desde o ocorrido no Hotel, manteve distância, mas nada sabia sobre a minha
demissão. Pedi alguns dias de folga para colocar meu plano em ação. Precisaria viajar até a Argentina e se desse tudo certo,
estaria lá em menos de um mês.
Kate e Paige sossegaram mais, porém algumas vezes comentavam sobre Theo e a noiva. Não sei se era para chamar a minha
atenção, mas eu disfarçava bem a minha curiosidade.
– Falaram que os dois estão brigados. Ele não quis contar como chegou machucado do Rio de Janeiro e ela ficou
enfurecida. – comentou Paige. Ronald não abrira a boca sobre o que viu no Brasil. Era um grande amigo. De qualquer
maneira, ele também já não se juntava mais comigo para tomar café.
– Disseram que ele brigou com um rapaz no Hotel, mas ninguém sabe quem era. Não era de nenhuma das empresas de
marketing e isso aumentou o mistério. Além disso, parece que tem muito mais– disse Kate pensativa. – Você estava lá na hora,
Sophia?
O expediente havia chegado ao fim e eu queria fugir. Aquilo era terreno perigoso. Fingi indiferença.
– Só sei que ele brigou. Estava no meu quarto e fiquei surpresa ao vê-lo todo machucado.
– Se você visse o pai dele zangado! Eles discutiram no corredor e Theo gritou dizendo que ele era o dono da empresa. Seu
pai ficou chocado quando descobriu e cuspiu fogo. – comentou Kate para mim. – Apesar de tudo, Theo merece. Ele não é um
chefe ruim e tem a Jéssica como noiva. Acho que agora tudo dará certo. Acionista majoritário! – falava sonhadora.
Saí rapidamente da sala. O ambiente estava para fofocas e eu precisava evitar qualquer coisa relacionada à vida amorosa
de Theo. Mesmo assim, um ar de satisfação me invadiu ao saber que os dois estavam mal. Nunca desejei tanto que um
relacionamento terminasse. Se Jéssica fosse uma boa garota, eu estaria me sentindo muito mais culpada, mas todo o
arrependimento vinha apenas do pensamento de eu me tornar uma pessoa sem escrúpulos. Eu não era assim. E definitivamente,
eu estava pulando fora para não ser essa mulher a destruir uma família.
John estava de férias e viajou comigo. Não dormimos juntos nesta viagem. Ele estava ciente e respeitou este momento.
– É uma pena que essa mulher esteja grávida dele. – falava com pesar.
– Era melhor assim. Eu precisava de um empurrão para deixar qualquer coisa que estava fazendo com ele. Era errado.
Agora, tudo está certo.
– Se você quiser ficar em Londres, você tem a mim como amigo. Eu sei que tivemos todo este lance de amizade colorida ou
sei lá como você chama isso, mas eu sou seu amigo mesmo.
Olhei para John. – Eu sei que posso contar contigo para qualquer coisa.
– Yeah baby! – falou sensualmente. – Qualquer coisa mesmo. – ri de sua brincadeira e continuamos nossa caminhada pelo
centro de Buenos Aires. Logo, estaria na empresa para a entrevista.
(...)
Voltei a Londres contente. A empresa Marketing S.A. Argentina aceitou meu pedido de admissão e poderia começar a
trabalhar lá em apenas duas semanas. O alívio de não viver mais este pesadelo veio com a resposta do presidente da
multinacional latino-americana. Agora, só faltava conversar com o Theo e pedir as contas.
– Kate, avise ao senhor Trento que eu preciso conversar com ele, por favor. – Kate o chamou por telefone e informou.
– Pode entrar.
Entrei receosa. Fazia tempo que não sentia o ar daquela sala escura. Theo estava sentado em sua poltrona e sorriu
timidamente para mim. Eu sentei no lugar de sempre reunindo forças para começar o meu discurso. Fiquei hipnotizada por ele
e esqueci o motivo de minha ida.
– Sophia. – levantou-se e caminhou até mim. – Como você está? – sua pergunta era pessoal, mas eu fingi não entender.
– Os projetos estão andando bem. Não estou morrendo de tanto trabalhar. – falei com um falso sorriso.
– Eu quero saber sobre você, Sophia. Não se faça desentendida. Eu te conheço. – falou sério. – Está tudo bem?
– Sim. – falei respirando com dificuldade. – Na verdade, senhor Trento...
– Sophia, você pode me chamar de Theo. Por que está fazendo isso? – estava preocupado. – Você não deixou explicar nada
e agora estou te dando espaço, mas preciso conversar contigo.
– Quero pedir demissão. – soltei.
Theo arregalou os olhos e não falou nada. Respirou fundo várias vezes. Estava com as mãos sobre a mesa e se levantou
caminhando até a janela. Virou com um triste semblante.
– Não faça isso. – sussurrou. – Você é importante.
– Já tenho emprego garantido em outra empresa. Já está tudo certo. Seu pai já assinou o papel.
– Mas como? Quando? – perguntava andando de um lado para outro. Ele sempre fazia isso quando ficava nervoso. – Se
você quiser, eu te promovo, aumento o salário... Não sei... – falava desesperado. – E eu sou o acionista majoritário, não ele.
Eu que tomo e assino as decisões.
– Fiz isso antes de você anunciar a notícia para ele.
– Você fez isso quando eu ainda estava no Rio de Janeiro? Por quê? – estava com um semblante como se tivesse sido
traído.
– Eu não quero dinheiro, Theo. – falei mais elevada. – Eu quero apenas ir embora daqui. Obrigada por tantos incentivos,
mas aqui não é o meu lugar. Eu vou para a Argentina.
– Argentina? – gritou. – Fazer o que na bosta da Argentina?
– Trabalhar ora... O que mais eu faria na Argentina? – desdenhei. Ele veio até onde estava a minha poltrona e se ajoelhou
colocando os braços sobre minha coxa.
– Diz pra mim que você não está indo por causa do que tivemos no Brasil. – seu olhar era aflito, desesperador. – Diz pra
mim que você não está fazendo isso comigo... Deixando-me. Diz pra mim o que eu posso fazer para você ficar. Essa gravidez
da Jéssica... Eu não vou casar com ela, Sophia.
– Você não tem que fazer nada. Eu só vim avisar a você a minha decisão. Eu saio hoje e precisava saber os procedimentos
com os papéis, essas burocracias. – queria chorar, mas segurava. Eu amava este homem. Ele perguntava o que eu queria? Não
era óbvio? Era possível? Não. Não ia atrapalhar a vida de ninguém.
Seu telefone tocou e Theo se levantou para atender.
– Não, Kate. Não posso atender agora. – falou grosseiramente. – Eu já disse que NÃO! Diz pra ela esperar até ano que vem
se for possível, mas eu estou ocupado agora. – desligou quase quebrando o telefone. Eu pulei com o barulho que fez e fiquei
imóvel.
– Sophia, por favor. – voltou até onde eu estava. – Pense um pouco... Se quiser mudar de setor... – eu o queria tanto e este
era o problema que não seria resolvido. Levantei pronta para ir-me. Mas não aguentei e comecei a falar.
– Eu não sei em que eu estava pensando. – coloquei minha mão sobre meu rosto. – Deveria ter deixado tudo como estava
quando tive tempo. Essa droga de atração. Teria sido mais fácil deixá-lo na situação de chefe e permanecer em meu solitário
mundo Mas não... Você não... Você vem aqui e tenta me desestabilizar com droga do seu temperamento bipolar. Passa de um
monstro para um cavalheiro... Com este corpo... Por que você não ficou na sua? POR QUÊ? – gritei inconformada com a
minha fraqueza.
– Porque você importa pra mim, MERDA! – gritou. Fiquei olhando-o.
– Se eu fosse tão importante assim... Eu estaria com você. Mas, você está aí, oferecendo promoção, melhor salário... Como
você acha que eu devo me sentir? Limpa? Sortuda? A vadia amante do CEO? – as lágrimas não saíram e eu agradeci por meu
corpo cooperar.
– Sophia, não fale assim. – disse chegando até mim. – Eu não esperava essa gravidez, mas eu te prometi que ia deixá-la e eu
a deixei. Acredite em mim. – suplicava.
– Não encoste sua mão em mim. – pedi dando um passo atrás. Theo me olhou angustiado. – Eu estou saindo agora e peço
que não venha atrás de mim. Qualquer outro assunto, eu tratarei no RH. – saí de sua sala passando batido pela corja dando
apenas um tchau rápido a Ronald.
Resolvi tudo no RH e voltei para casa. Theo entenderia este desaforo de não trabalhar naquele dia. Depois de tanto tempo
sem conversar direito com ele, eu cheguei com a bomba e ele... Seria tão fácil se ele fosse solteiro... Ou tivesse coragem
suficiente de terminar de vez. Se ele não havia acabado o seu relacionamento, era porque a amava. Jéssica não estava com a
cara de quem levou um fora. E isso bastava pra mim.
Era hora de cair fora de sua vida.
Capítulo 29 – Sofrimento.

Mia chorava.
– Pelo amor de Deus, Mia. Eu estou bem. E você terá outro país para visitar quando sair de férias.
– Eu sei. Mas depois de tanto tempo, você vai embora mesmo? Eu queria que você esperasse só mais uma semana até
resolver tudo. Escute o que Theo tem para dizer. – fungava sem parar.
– Você não acha que eu escutei por muito tempo? – ela me olhou e baixou os olhos. Ela queria me dizer alguma coisa, mas
ficou calada.
– O John vai acompanhar a gente até o aeroporto e ele te ligou... O Theo. Ele vai lá se despedir. – disse depois de um
silêncio perturbador.
– Está falando sério? Theo?
– O próprio. – olhei para a mala sobre a cama. – Ele é o meu motivo.
– Eu sei, amiga. – abraçou-me. – Eu vou te apoiar em tudo, mas eu estou averiguando algumas coisas e queria que você
ficasse só mais uma semaninha. Tenha certeza, estarei ao seu lado sempre, mas por favor. – chorei em seus braços, certa que
uma semana era muito para mim. Ia sentir falta de minha maluquinha, mas era o melhor a fazer depois da grande besteira que
eu fiz.
– Você sempre está presente na merda de minhas decepções amorosas. – enxuguei as lágrimas.
(...)
Danna, Caio, Samantha e Ann apareceram mais tarde no apartamento para me dar um abraço. Tudo foi muito comovente.
– Fique sabendo que Paige foi demitida. – Danna sorriu ao dar-me a notícia.
– Jura? Deveria me sentir feliz? Ela era uma cobra, mas não me prejudicou tanto.
– Não te prejudicou? – Ann riu. – Ela foi falar mal de você para o seu chefe. Ela preparou um relatório te detonando, mas
como não tinha fundamento, Theo negou na hora e pediu para que ela se retirasse da sala dele. Eu estava lá e vi tudo.
– Ela é louca igual ao Ronald. – comentei sem vontade. – Fariam um casal perfeito.
– Ela não se deu por vencida e continuou insistindo. Theo a demitiu na hora. Ela chorou, fez o estardalhaço, mas sabe como
ele é... Richard aguentou aquela coisa, mas Theo não.
– Ela colheu o que plantou. – Danna disse sem rodeios. – Não sinto pena dela. Kate agora tá quietinha. Chega a ser
engraçado como ela está simpática.
– Era influenciada pela outra... Tem gente que é assim. – lembrando-me de como ela era sem personalidade. – Talvez, seja
até uma boa pessoa... Quem sabe?
– Você tem certeza que vai mesmo? – perguntou Caio com os olhos vermelhos.
– Sim, meu amigo. Mas, fique sabendo que você é o gay mais gostoso que existe na porra deste país e está convidado a
passar as férias comigo lá na Argentina – comentei.
As lágrimas dele cessaram na hora e ele me abraçou contente. – Você é a minha musa inspiradora! Eu te adoro! – elogiou
sorrindo.
– É uma pena que você vá tão cedo agora que viramos amigas. – sorriu Samantha. – a abracei feliz por saber que existiam
pessoas maravilhosas neste país.
(...)
Meus amigos se foram no início da noite. Caio chorava como uma criança. Eu tive que consolar o meu colega mais querido,
mesmo sendo eu a pessoa a estar indo embora.
Richard apareceu horas mais tardes para buscar Mia. Eles prometeram voltar antes de amanhecer. Queriam comprar um
presente para mim e eu aceitei desde que não fosse nada muito caro. Eles precisavam se acertar e o momento mais propício
não existia. Que passassem toda a noite juntos. Ela merecia ser feliz.
John foi até lá para avisar que tinha uma importante reunião com um cliente naquela noite, mas me levaria sem falta ao
aeroporto no dia seguinte.
– Que pena que eu não consegui te pegar de jeito todos os dias como eu queria. – brincou parado na porta do meu
apartamento. Estava divino com aquela roupa elegante em tom marrom.
– Para eu entrar em sua listinha? Ah! Hoje eu quero foder coooom... Achei! Sophia! Ela mora ao lado e não preciso pagar
Motel. – imitei uma conversa fictícia.
– Que isso, Sophie? Eu não sou tão superficial assim. Eu te levaria para jantar, passear...
– E eu teria que pagar a sobremesa sempre... Conheço-te, meu amigo! – sorri. – Apesar de tudo, eu adorei passar cada
momento na sua cama. – falei mais séria. Era verdade.
– Agora me sentirei o cara mais fodástico de Londres. – sorriu com meu comentário.
John me abraçou forte e disse que sentiria muita falta de nossas conversas. Ele acabou confessando que o melhor entre nós
era essa amizade e que sentiria muita falta de sua vizinha brasileira gostosa. Eu adorei aquele abraço e agradeci pelos elogios.
John seria inesquecível para mim.
(...)
Estava sozinha novamente, mas tranquila. Não tinha mais nada a fazer a não ser terminar de arrumar o resto das coisas
quando a campainha tocou.
Abri a porta e levei um empurrão. Ronald quase caiu sobre mim de tão bêbado.
– Ronald? – perguntei sem acreditar.
– Sophia! Não! Senhorita Sophia Moody! – desdenhava com a voz embaralhada fechando a porta.
– O que você está fazendo aqui?
– Que pergunta mais tola é essa? Ninguém me avisou que você ia embora. Escutei por boca de desconhecidos... Por que
você não me falou? – perguntou acercando-se. Afastei-me um passo. – Eu pensei que fôssemos amigos.
– Nós somos, Ronald. Eu pensei que... Que o Theo avisaria no setor...
– Mentira! – apontou para mim. – Você está mentindo, Sophia. Eu prometi ser seu amigo! E você faz isso comigo? – estava
desgostoso e bêbado. – Eu prometi ser seu melhor amigo! Mas EU não consegui, não é? – bateu no peito agoniado.
Eu comecei a me assustar. Ronald não parecia muito amigo no momento. Segurava uma garrafa de cerveja na mão e o odor
que emanava denunciava o tempo que havia bebido. Estava fedendo.
Com o tom mais agressivo continuava seu desabafo. – Eu prometi para mim mesmo que você era boa demais para mim e
tentei parar a merda deste sentimento que me consumia. Mas, eu não sou BURRO!
De repente, Ronald agarrou meus pulsos lançando a garrafa ao chão fazendo um ruído alto ao quebrá-la em vários pedaços.
Senti seu aperto forte.
– Ronald... Eu não estou entendendo... Você está me machucando. – roguei calmamente.
Para que merda que eu fui abrir a porta? Tinha me acostumado com a porra de um prédio sem segurança. Estava ficando
assustada.
– CALA A BOCA! – gritou. O único cara que você acha que ama é o único que não te ama! Sua idiota!
– Ronald, você está me assustando! O que aconteceu? Por que você bebeu? – estava ficando com medo e precisava manter a
calma dele e a minha. Distração era importante neste momento.
– Não me pergunte... Se você não quer saber verdade. Suas mãos saíram de meus pulsos e seguraram meus ombros com
mais rigidez forçando-me a olhá-lo nos olhos. Ele fedia a bebida e a mais alguma coisa. Seus olhos estavam vermelhos.
Ronald começou a chorar excessivamente e a cuspir tudo o que sentia há muito tempo e a forma que o fazia me dava cada vez
mais medo. Algo terrível estava por acontecer e eu precisava manter a calma e pensar em como agir.
– Bosta, Sophia! Eu queria você! E você nem quis me dar uma única chance! Eu fui amigo, colega... Te ajudei quando você
precisou... Mas você não precisava de mim. – olhava fixamente com aqueles olhos cor sangue. – Sempre muito independente.
– falava com nojo. – Isso começou a me incomodar, sabia? E aí apareceu aquele bostinha, filhinho de papai! E você? Como
uma bela puta começou a olhar pra ele.
– Não sei do que você está falando! Você está me assustando. – falei tentando acalmá-lo, mas eu sabia. Theo. Ronald estava
apaixonado por mim e invejoso por meu trabalho. A única novidade era essa inveja revelada.
– MENTIROSA! Hipócrita! Você é igual a todas! Querendo foder com o seu chefe para ser promovida!
– Você está fora de si! Por favor, vamos conversar direito! – implorei.
Ele apertou com mais força o meu braço. Senti a dor tomar conta de meus ombros e caí de joelhos. Ronald se ajoelhou e
beijou minha testa. Estava suando e se tornando cada vez mais violento.
– Sempre tão inocente e cega! Tão estúpida! – falava com uma calma aterrorizante. Sempre acreditando que a Paige era a
causadora de seus probleminhas?
O quê?
– Ela era uma tonta. Usei todo o ciúme que ela tinha de você a meu favor. E você, tão previsível acreditando que era ela o
seu tormento? Mas hoje, eu vou pegar tudo que me pertence! – um frio passou por minha espinha ao escutar aquelas palavras.
Meu corpo foi levantado e Ronald me olhou com fúria. – Antes de fazer o que vou fazer, saiba sua puta, que fui eu que
desapareci com o seu projeto de merda e deixei os meus. Trabalhinho perfeito! Antes de minha viagem eu tirei de sua pasta e
levei comigo queria que seu chefinho ficasse puto contigo pela bela merda de trabalho que eu ajudei a fazer.
– Por quê? – balbuciei.
– Por quê? Porque eu queria que ele tivesse nojo de você, nojo do seu trabalho. Te visse como uma inútil. – falava
saboreando cada palavra. – Mas você mais uma vez conseguiu! – eu senti que ia me machucar ali. Precisava pensar rápido. –
E o que aquele filho da puta fez? Não... Ele te deu um projeto! Por quê? Por que ele queria foder com você assim como eu
queria.
– Eu era sua amiga! Eu te chamei para trabalhar comigo!
– Estúpida! Eu tinha anos na empresa e você seis meses! SEIS meses!
– Mas, Ronald... – as lágrimas inundaram o meu rosto. Eram lágrimas de medo e não decepção. Ele estava descontrolado.
– MAS EU NÃO, PORRA! Eu queria mais que isso. Tentei te mostrar que eu valia a pena, mas você só olhava para ele.
– Para quem? – perguntei sabendo a resposta. Precisava chegar até cozinha. Ronald me empurrou jogando-me contra a
parede. Foi o tempo necessário que eu tive e corri para a cozinha. Encontrei uma faca de cortar carne dentro da pia e comecei
a gritar por socorro.
Ele estava tão bêbado que não ligava para meus gritos.
– Sua puta! Eu vou te foder com vontade e depois te picar com essa mesma faca que você está segurando, vadia!
O medo começou a se transformar em raiva quando comecei a associar todos os acontecimentos.
– Foi você quem furou os pneus do meu carro! Foi você que enviou aquele e-mail! Seu doente filho da puta! Eu é que vou te
matar se você chegar perto de mim, seu verme! – gritei enquanto segurava a faca em posição de defesa.
– Aquele e-mail era um aviso para você se comportar como uma dama! Você ignorou! Os pneus de seu carro eram outro,
ignorou novamente. Agora você não vai mais escapar. – havia fúria em sua voz. E eu precisava mostrar coragem para tentar
afugentá-lo, mas ele não se deixou enganar.
Ronald caminhou cambaleando em minha direção e eu voltei a gritar o mais alto que podia.
Alguém começou a socar a porta.
– SOPHIA! ABRE A PORTA!
– SOCORROOOOO!
Ronald ao escutar a voz que vinha do lado de fora se enfureceu e correu até onde eu estava e ao tentar pular sobre mim,
cortei seu braço esquerdo com a faca. O corte foi profundo rasgando sua carne acima do cotovelo. Ele gritou com dor e caiu
próximo à geladeira junto comigo. Consegui me levantar rapidamente, mas quando corri, ele segurou minha perna e caí
batendo minha boca no chão.
Senti meus dentes rompendo a gengiva e o sangue a tomar a minha boca. A faca caiu a alguns centímetros longe e tentei
alcançá-la arrastando-me e esticando as minhas mãos. Entretanto, ele foi mais rápido e me virou no chão de barriga para cima,
colocando aquela lâmina afiada em minha garganta enquanto subia sobre meu corpo depositando todo o seu peso.
Nesta altura, não conseguia mais saber se a pessoa do lado de fora havia desistido ou não de abrir a porta.
– Eu vou fazer contigo o que eu queria há muito tempo. – então começou a acariciar meus cabelos e meu rosto com sua mão
livre. Em um movimento brusco começou sua tentativa de tirar a minha calça. Eu chorava e rogava para ele parar, mas a cada
vez que eu fazia, ele cortava um pouco mais a minha garganta.
– Cala essa sua boca! Vou foder você todinha! Vou te beijar como você fez no Brasil com aquele filho da puta! Vou te
comer, vadia!
– Por favor, não! Ronald! Por favor! – ele conseguiu abaixar minha calça até as minhas coxas ferindo-me muito. Cada
esforço dele mais profundamente cortava a minha pele com a faca.
Senti que era meu fim. Mas, ao fechar meus olhos deixando que Ronald terminasse, meu corpo foi libertado daquele peso.
Ronald não tinha mais a faca em mãos e havia sido cortado no ombro. Encontrava-se em posição fetal gritando
estridentemente com muita dor. Ao avistar a pessoa que me retirara dali quase desmaiei.
– SOPHIA! O que ele fez com você? FALA comigo! – dava tapinhas em meu rosto. – MEU DEUS! – gritava desesperado.
– Theo. – suspirei e comecei a chorar como uma criança nos braços do meu anglo-italiano. Minha vista nublou e tudo
escureceu.
(...)
A polícia chegou rapidamente após Theo chamá-los enquanto tentava arrombar a porta. Ele conseguira destruir a porta, mas
não soube como ele o fez. Eu estava salva... Por ele. Prenderam Ronald que ainda agonizava com os cortes profundos feitos
por nós dois.
– Sua boca! Você está sangrando muito! – dizia Theo agonizado.
– Sua puta! PUTA! DESGRAÇADO! – gritava Ronald a nós dois enquanto era levado para fora do apartamento.
– Ele não conseguiu me ferir como esperava. – falei olhando para aqueles olhos onde me perdi por tanto tempo. – Ele não
me violou.
– Vem aqui. – puxou-me Theo para um abraço. Sua camisa azul estava encharcada com o sangue que saía de minha boca.
Minha garganta tinha alguns cortes e a ambulância logo chegou para me levar ao hospital.
(...)
Fiquei em observação por um dia no hospital e recebi várias visitas de meus amigos da empresa, até o pai de Theo
apareceu desejando-me melhoras, exceto Paige. Kate se sensibilizou e levou um ramo de flores – para a minha grande
surpresa. Theo não saiu de meu lado nenhum momento. Na única noite que passei hospitalizada, acordei assustada com um
pesadelo em que Ronald tentava me atacar novamente.
– Calma. – correu Theo até a minha cama sentando-se ao meu lado. – Era só um pesadelo. – sorriu confortando-me.
– Você está aqui. – sussurrei com a voz cansada. Seu olhar era cheio de ternura. – Obrigada por estar lá.
– Não vamos falar disso agora. Durma tranquilamente para receber alta deste lugar. A comida aqui é péssima e não quero
que você emagreça por falta de algo mais nutritivo – falou baixinho acariciando meu rosto com cuidado. Ainda sentia a dor em
minha boca e garganta. Fechei os olhos tentando me concentrar e dormir. Theo ficou ao meu lado alisando minha cabeça e
adormeci com aquele carinho tão gostoso.
(...)
A polícia nos liberou após várias horas de depoimento. Como era de se esperar, Ronald foi preso e condenado por tentativa
de estupro e homicídio. Passaria longos anos de sua vida na prisão. A surpresa veio quando o delegado informou que ele
sofria de problemas psicológicos comprovados após vários testes que fizeram. Seria encaminhado para um manicômio
judicial sem direito à saída. Era considerado de alta periculosidade para a sociedade.
Se eu fiquei chocada? Totalmente. Aquele jeito tímido e contraído não passava essa imagem.
– O psicopata mora ao lado. – disse Mia.
– Eu não tenho nada a ver com isso. – John levantou a enquanto saíamos da delegacia.
Mia me abraçou e começou a chorar.
– Quase te perdi. – dizia aos soluços.
– Mas eu estou aqui. Ele não conseguiu nada que queria de mim. – falei agradecendo a Deus por colocar um anjo em meu
caminho.
– Ele chegou tão perto. – comentou John pesaroso observando a nós duas. – Como Theo sabia?
– Ele não sabia. Ele foi lá conversar comigo e escutou meus gritos. – lembrei sentindo medo de minha lembrança. – Ele era
tão normal. Eu não sabia que ele chegaria a este ponto. Eu... – minha voz falhou.
– Vamos esquecer isso. Você agora estará segura com ele preso. – disse John confiante.
Voltamos para casa. Mia havia limpado tudo. Não havia sinal de luta ou sangue. Olhei para ela agradecida por tamanho
trabalho. Mia limpando um chão?
– Eu te amo, amiga. Isso não foi nada. Eu faria muito mais por nossa amizade.
– Eu sei. – sorri reconfortada por todo o apoio.
Capítulo 30 – Final.

Fiquei vários dias em casa recuperando-me do ataque. Os machucados da minha boca e corpo já estavam totalmente
curados. Pensei em tudo que passei longe do Brasil.
Tamanho aprendizado.
Fugi de problemas amorosos em meu país e encontrei um psicopata em outro.
Meu pai recebeu a notícia do atentando e rogou para que eu voltasse para casa. Expliquei que lá não era o meu lugar e que
estava viajando brevemente à Argentina. Ele não recebeu a notícia com muita alegria, mas eu era adulta e ele teve que engolir.
Minhas atividades voltaram e eu comecei novamente a correr pela manhã no Hyde Park. John algumas vezes me
acompanhava outras não. A empresa da Argentina aceitou meu tempo de recuperação e adiou a data de minha contratação.
Teria mais um mês para pensar se era o que eu precisava naquele momento.
Theo apareceu este dia no apartamento. Mia estava de saída e me deixou sozinha com ele. Havia passado algumas semanas
desde que dormimos no Brasil e eu ainda me sentia estranha com aquela aproximação.
Sentou-se ao meu lado no sofá da sala.
– E como está sua recuperação?
– Fisicamente perfeita. Psicologicamente? Estou tentando descobrir. – brinquei. Apesar de tudo, era verdade. Theo segurou
minha mão.
– Eu estou feliz por ter chegado na hora certa.
– Se não fosse por você, eu... Eu estaria morta. – chorei um pouco o abraçando. Ainda estava fragilizada com tudo que
havia passado. Theo se aproximou ainda mais e seus braços me seguraram com posse. Ele beijou a minha cabeça e ficou
alisando minhas costas por um longo tempo. Aquele calor de seu corpo me deixava anestesiada contra todos os problemas do
mundo.
– Mas, não morreu. – suspirou profundamente. – Eu estava aqui... Eu estou aqui, Sophia. – balbuciava acalmando-me. Ele
estava lá, mas não era certo. E Jéssica?
– E Jéssica? – perguntei, olhando naqueles olhos azuis. – Ela sabe que você está aqui?
– ABRE ESSA MERDA DE PORTA! SUA PUTA! – gritava alguém golpeando a porta com raiva. Levantei assustada
relembrando os momentos de terror que passei com Ronald.
– Puta que pariu! – disse Theo cansado, esfregando os olhos. Ainda sentado ao sofá anunciou o óbvio. – Jéssica está aqui.
– Isso eu já percebi, Theo! Quero saber o que ela está fazendo aqui.
– EU SEI QUE VOCÊ ESTÁ AÍ SUA PIRANHA!
– Eu vou abrir aquela porta. E eu espero que você acalme a sua noiva. Você me entendeu? – avisei ciente do barraco que ia
ser.
– Ela não é minha noiva. Não mais. – falou seriamente. – Eu terminei com ela por sua mentira, porque não a amava e por
outros motivos.
– Não quero saber o motivo! Só não quero problemas no prédio por causa dessa louca! – ele disse que terminou?
Abri a porta preparada. Jéssica estava um caco com aquele rímel preto por toda a cara. Estava muito puta e chorando
bastante.
– Sua vadia desgraçada! Eu sabia que você era uma piranha dissimulada! – falou chegando até mim com aquele dedinho. Eu
até poderia discutir, mas colocar dedo na minha cara era o que mais me tirava do sério. Mas, o que eu poderia falar? Ela tinha
razão. Dormi com o seu noivo.
– Jéssica, basta! – falou Theo tentando manter o controle – Vai pra casa. Não temos mais nada. Suma daqui!
– Cala a boca, Theo! – gritou. – Ela roubou o meu noivo! Eu sabia! Eu te segui até aqui. Como pôde? Eu que fiz tudo por
você!
– Ela não roubou ninguém. Eu que me cansei de você. Seus caprichos, seu jeito egoísta e superficial. – estava se irritando
aos poucos. – Não venha com chantagem emocional. Isso não funciona mais. Eu descobri sua farsa, sua asquerosa!
– Que farsa? – olhei para os dois tentando entender. – Jéssica, estou indo embora do país. Não sei qual é o seu problema.
– Theo... – ela virou e o agarrou pela camisa. – Eu te amo! Você é tudo pra mim! Por favor... – sussurrou desesperadamente.
– Por favor... Eu te amo. – Theo agarrou suas duas mãos afastando-a de seu corpo. Seu rosto estava fechado e seus olhos
menosprezavam aquela mulher à sua frente.
– Vai embora, Jéssica. – estava mais frio que as geleiras do Ártico. Senti pena dela. Eu sabia o que estava sentindo. A
diferença foi que preferi seguir com a minha dignidade e deixar Alexandre para trás.
– Mas, essa PIRANHA! – virou e veio com tudo pra cima de mim. Consegui driblar a fera, mas ela agarrou o meu cabelo
que estava amarrado em um rabo de cavalo. Segurei forte sua mão para ela não arrancar meu couro cabeludo e enquanto ela
gritava e balançava minha cabeça, consegui dar uma joelhada em sua cara que a fez contorcer de dor e cair ao chão.
– VADIA! Eu vou te matar! – ela se levantou ainda querendo brigar. Seu nariz sangrava.
– Se chegar perto, eu vou te bater até você implorar para parar! Sua vaca arrogante! – Jéssica veio para cima e eu estava
preparada para lhe dar uma surra, mas Theo – o salvador – a segurou e a conduziu até a porta.
– Você vai sair daqui agora ou ligarei para a polícia e direi que você invadiu uma propriedade privada. Você quer isso
para sua carreira de modelo, Jéssica?
Ela o olhou descrente.
– Você não teria coragem! – havia incredulidade em seus olhos. – Você sempre fez o que eu quis. SEMPRE! Fique sabendo
que minha tia vai deixar a sociedade se souber que você me traiu e me abandonou com o bebê!
– Me tente e você verá! Eu sou o dono da empresa agora. Fale para sua tia enfiar as ações dela no rabo! Agora, saia da
porra deste apartamento e não volte mais, sua vagabunda! – empurrou Jéssica com agressividade pela porta.
– Você merecia levar aqueles chifres, seu idiota! – gritava do lado de fora. – Só fique sabendo que ele faz muito mais
gostoso que você! Todas as vezes que eu fodi com ele, eu ria depois de sua carinha de apaixonado. Seu corno! – estava
histérica. Eu fiquei assustada com tais revelações. Theo não se movia. Olhava-a com um controle emocional enorme. Ele
parecia saber de tudo aquilo.
– Terminou? – perguntou.
– Vai ficar com essa brasileira biscate? Tem certeza que ela vale a pena? – Jéssica não chorava mais. Estava com ódio
provocado pela rejeição.
– Daria a Artvt para ficar com ela. – falou a mesma frase que um dia dissera no carro por meus pensamentos. Sorri em meio
àquela tempestade.
– Jéssica, cai fora daqui porque meu vizinho é advogado e adoraria pegar um novo caso de perturbação. – sorri
presunçosamente juntando-me ao lado de meu loirinho.
– Vai à merda, sua vaca!
– Eu até estava aceitando suas acusações sobre traição, mas agora estou abismada. Seu parceiro fazia melhor que Theo?
– Theo... Desculpe... Eu não queria...
– Jéssica, adeus! Não caio mais em seus joguinhos. – Theo fechou a porta em sua cara e veio até mim. Ela não bateu mais,
porém eu não estava muito confiante que ela não voltaria.
– Ela te machucou? – estava preocupado e me tocava a cabeça. – aquela louca... – ri.
– Do que você está rindo? – perguntou sorrindo com suas mãos sobre meu rosto.
– Quando ela falou tudo aquilo... Você sabia do seu caso?
– Sua amiga Mia. – Mia? – Ela me contou sobre sua suspeita. Mas provar demorou mais que o normal. Eu já sabia da
traição dela quando viajamos ao Rio de Janeiro e estava determinado a terminar com Jéssica, mas eu sabia de seu
temperamento e tinha medo dela fazer alguma besteira enquanto eu ainda estava no Brasil por causa do bebê. – explicou Theo.
– O que faltava para completar era saber se o bebê era meu. Estava disposto a cuidar dele, sem estar com ela.
– Entendi. Você estava se vingando dela... – deduzi triste.
– Não, Sophia. – ergueu meu queixo para que eu o olhasse. – Jamais te usaria. Eu estava apaixonado. Porra! Eu estou
apaixonado. Realmente, eu estive tentando te afastar porque eu respeitava Jéssica, mas já estava de saco cheio dela. Sua tia
me chantageava com a sociedade e eu fiquei encurralado. Ela é uma miserável burguesa. Depois Mia apareceu com um
vídeo... E eu ainda estava investigando essa gravidez. – estava emocionada. Eu queria Theo mais que tudo e escutá-lo me
encheu de vida. Cada palavra me fez viver mais. – Não quero te pressionar, mas também não quero fazer mais rodeios. É só
querer e eu estarei aqui.
– A Mia me pediu mais uma semana por causa disso? Por causa desta investigação?
– Exatamente. Ela sabia que Jéssica saía com este modelo. Eu cegamente acreditei em Jéssica no início, eu era um corno
mesmo. – estava triste. – Nós havíamos terminado depois, mas Jéssica veio com a gravidez e eu acabei concordando em
cuidar da criança. Só não esperava que fosse outro o pai. – eu fiquei espantada e regozijada com mais uma revelação.
– Theo, eu... – precisava desabafar. – Você foi um filho da puta comigo.
– Desculpe por isso. Eu estava em constante conflito. De um lado, sua presença e a minha vontade de tê-la. Do outro,
Jéssica, sua tia e suas chantagens.
– Entendo. Agora eu entendo tudo. – sorri. – Depois que você começou a melhorar, eu senti o quanto você sabia me agradar,
como criar o rubor na hora certa, o quanto se esforçava por me deixar bem. Tudo em você me atraía. Isso aqui dentro. –
apontei para meu coração. – É algo inexplicável. É uma tempestade. É aterrorizante. E eu estou com medo... Não sei se
funcionaria ou por quanto tempo.
– Não fique com medo. – se acercou e me beijou lentamente. – Eu gostei de você desde o primeiro instante naquela boate.
Não esqueci você nenhum momento quando estive na Itália. E ao encontrá-la na Artvt, me apavorei. Puta que pariu! Você
estava ali. Na minha frente. Eu senti a urgência de te ter na minha cama e tive que lutar todos os dias contra essa vontade. Tudo
porque pensava na porra da sociedade. – E hoje, eu quero você comigo, ao meu lado. É só dizer que sim. – beijou-me mais
uma vez e me perdi naquela boca.
– Sim. – sussurrei suspirando com aquele beijo. – Eu quero me perder em você. – me entreguei. – quero sentir você dentro
de mim, Theo. – Ele deixou as palavras bonitas de lado e me beijou de forma selvagem. Agarrou-me pelas coxas elevando
meu corpo até sua cintura. Entrelacei minhas pernas nele e sua sede por mim o fez empurrar meu corpo contra a parede. Ele
me empurrou mais vezes como se estivesse fazendo sexo comigo. Mas ainda estávamos de roupa. Sua calça de tecido deixava
muito mais visível o quanto ele me queria. E seus beijos eram tão bons, tão carnais, tão devassos.
Estava com fome dele. Tirei sua camisa e lambi seu pescoço de baixo para cima até sua orelha. Ele arfou de desejo e me
desvencilhou dele. Puxou-me para meu quarto e eu fui obedientemente.
A porta do meu quarto estava ligeiramente aberta. Theo não queria interromper nossos beijos e chutou a porta para dar
acesso aos nossos corpos em chamas.
Estava visivelmente eufórico. – Quero entrar e sair de você até o dia amanhecer. – gemeu entre nossos beijos. Deitou-me
sobre a cama e calmamente retirou minha calça e minha blusa, deixando-me apenas de calcinha e sutiã.
Meu corpo sentiu aquelas palavras e incendiou. Chupei seu lábio inferior com vontade e ele gemeu de dor. Afastei-me
lentamente e Theo, sem tirar os olhos dos meus, sorriu repetindo a mesma ação comigo.
– Vou te lamber todinha, Sophia. – Me puxou para sua boca com violência e eu me perdi novamente.
Sem nossas roupas que, com um passe de mágica, estavam jogadas ao chão, Theo acariciou meus seios provocando meus
mamilos. Meus dedos percorreram cada parte dele, cada músculo, cada dobra, cada nervo. Beijei-o como tantas vezes quis
fazer. Beijei sua boca... Seu queixo... Seu pescoço. Cada vez que avançava mais para baixo, mais ele gemia de prazer.
Encontrei seu membro e não pensei duas vezes em agradá-lo com minha boca. Fiz todo o movimento com minha língua em
sua ponta. Ele começou a falar coisas desconexas e algumas em italiano enquanto o excitava. Voltei a beijá-lo e ele me virou
de barriga para baixo.
– Vou te mostrar como se goza. – Senti seu sexo entrando e Theo segurou meus cabelos enquanto empurrava com força sem
parar. – Sophia, você está chegando? Porque eu... Ahhh.
– Oh Deus... Por favor, Theo... Não pare. – gemi. Ele continuou seu movimento e eu o senti chegando. Apertei seu
comprimento quando gozei sobre o travesseiro e uma onda elétrica percorreu quando o escutei sussurrando o meu nome.
Theo me abraçou por trás e ficamos deitados em silêncio. Fazia carinho no meu braço.
– Não se assuste. Mas eu não usei camisinha. – dei uma gargalhada com seu jeito misterioso.
– Eu tomo pílula. – sussurrei com o cansaço sobre meu corpo. Ele me beijou a orelha enviando espasmos entre minhas
pernas. Estava satisfeita. Estava nos braços da pessoa certa.
Dormimos agarrados saciados pelo momento.
(...)
O que se esperar de um final? Isto não era um final, era um começo. O início de algo que busquei por tanto tempo: amor.
A Artvt me recontratou e eu continuei ajudando ao meu chefe gostoso em todos os projetos que eu podia. Conheci uma Kate
temerosa e educada e eu era oficialmente a namorada do CEO mais cobiçado da empresa.
Não precisava de julgamentos. Eu sabia fazer o meu trabalho. O departamento com a demissão de Paige e a prisão de
Ronald ficou com outro desfalque. Não pensei duas vezes em chamar Ann e Danna para trabalharem para mim. Eu era a
gerente do setor e Theo o diretor. Richard reclamou, mas acabou aceitando contratar mais pessoas para seu setor com a
condição de eu pagar a melhor bebida para ele no Pub por um ano.
Meus dias de perturbação acabaram. Era uma nova fase. Richard conseguiu pessoas competentes e cada vez que me
encontrava dizia que todo o esforço que ele fez para me aproximar de Theo valeu a pena.
– Meu primo estava andando em ovos com aquela.
– Até parece que foi você que me ajudou a ficar com Theo. – desdenhei.
– Bem... Não totalmente, mas quando eu te contratei não esperava todo aquele seu desempenho. Quando a matriz trouxe o
novo setor, não pensei duas vezes em te colocar lá para trabalhar com meu primo. Ele era louco por você. Não parava de
recordar a ruiva da boate. Eu queria fazer uma surpresa.
– Então, você conseguiu! Ponto para Richard! – sorrimos um para o outro.
(...)
Mia me mostrou o tão falado vídeo da traição de Jéssica.
– Deixa eu te perguntar: você o atacaria se soubesse que sua namoradinha o traía? E ainda que o bebê não era dele? –
Aquela pergunta me pegou de surpresa.
– O que você quer dizer com isso, Mia?
– Que você foi boba demais, amiga. A noiva dele andou dando uns amassos em um modelão da agencia rival da qual ela faz
parte. E isso era frequente! Não era de hoje não!
– Mas? Como? – não conseguia digerir aquilo ainda.
– Como eu sabia? Esqueceu que eu estava saindo com o morenão da Model? – perguntou com cara de sabida. – Eu fui a uma
das festas privadas da agência a convite dele. Só gente bonita! Em uma das minhas idas ao banheiro feminino, escutei um ruído
digno de filme pornográfico. Como sou curiosa e adoro uma aventura, fui em direção ao som. O banheiro era enorme e
continha 10 portas de banheiro privado. E era na última porta no canto oposto em que eu estava que a vi.
– Viu a Jéssica? – perguntei com os olhos arregalados.
– Não! Eu vi a loira do banheiro! Dãããã! Lógico que eu vi a Jéssica! – falou ironicamente.
– Tá, Mia. Já entendi.
– Ela nem teve a decência de fechar a porta. O cara estava sentado sobre a tampa da privada e ela sobre ele só com a saia
levantada. Filmei e mandei para seu Theozinho antes da viagem de vocês ao Brasil com a mensagem “toma vergonha nesta sua
cara”. O morenão que saiu comigo, comentou que ela já estava acostumada a isso. E com o mesmo cara. Pelo menos, nisso ela
era fiel! – debochou.
– Que bom que você fez isso! – sorri triunfante.
– Nada que não seja para sua total felicidade ao lado daquele pedaço. – riu e me abraçou. – Mas quem tinha que te falar
isso era Theo e você com sua pressa de ir embora. Eu tentei descobrir a gravidez antes, mas seu namoradinho teve que fazer o
serviço mais rápido e contratou alguém para conseguir colher materiais de DNA e comparar com o de Theo, a famosa perícia
de paternidade pré-natal. Nada como dinheiro, pessoas em um hospital necessitadas financeiramente e amigos médicos. –
sorriu vitoriosa.
– Sem dúvidas! – devolvi seu sorriso com um abraço. – Como eu amo minha amiga doidinha!
(...)
O ambiente na Artvt ficou do jeito que eu gostava. Após alguns meses, éramos uma equipe de verdade. Reestruturamos
todos os dois setores de Marketing – Júnior e Sênior.
Theo sempre me chamava à sua sala para discutir assuntos com os clientes ou sobre eles. Entretanto, muitas vezes era só
para me agarrar sobre sua mesa. Era insaciável.
– Ahh... Theo... Meu cabelo vai ficar... Uma bagunça. – tentava falar enquanto ele enfiava a mão por dentro de minha
calcinha.
– Quero que todos saibam e vejam que você é minha. – rosnava enquanto beijava meus seios.
– E como eu posso dizer para essas vadias que te olham pelos corredores que você é meu? A droga do seu cabelo já é o
modelo pós-sexo. – parei seu toque. Queria deixá-lo louco. Nem sempre eu podia fazer sexo na sala dele. Não queria que
ficasse muito manjado. Quase todos os dias ele me pegava sem pudor.
– Eu sou seu! – sorriu maliciosamente. – Estou sendo um idiota com essa minha cara de apaixonado. Mulher alguma tem
dúvida disso. Pareço uma mulherzinha de tão bobo. Agora, vem aqui. – me puxou para seu colo. Theo estava encostado em sua
mesa e rapidamente retirou seu pênis. Beijou-me eroticamente tirando-me todo o ar. Seu beijo me deixava sempre pronta.
Estava tão excitado quanto eu. Ajudei aquele momento de luxúria e paixão tirando a minha calcinha. Ele me virou colocando-
me sentada sobre a mesa e abriu minhas pernas para recebê-lo.
Theo me penetrou sem piedade. Começou suas estocadas com força e eu mordi seu pescoço e arranhei suas costas para
segurar meus gemidos. Estávamos quase chegando ao clímax.
– Sono innamoratodi te. – sussurrava em meio ao seu gemido de prazer. – Non lasciarmi... Perché ti amo.
Tentei abafar meu grito quando gozamos. Theo acabara de se declarar estar apaixonado por mim me pedindo para não
deixá-lo porque ele me amava. Abracei-o sem retirar seu membro de mim. Queria sentir que ele estava ali dentro em todos os
aspectos. Dentro do meu coração.
– Eu também te amo. – olhei em seus olhos. – Muito. – Theo sorriu como acabasse de ganhar na loteria e me beijou
novamente com paixão.
Eu queria estar em seus braços para sempre! Todos os dias, todas as noites. Theo era meu e eu era dele.
Obrigada Rainha! Enfim, encontrei o meu amor em Londres!
Epílogo

A vida é uma caixinha de surpresas. Eu não acreditava em destino ou amor verdadeiro antes de conhecer a mulher que me
tirou a razão e me fez cair de quatro como um cachorro sedento por carinho: Sophia Moody, a ruiva brasileira com
personalidade forte e muito paciente. Claro! Só uma pessoa dotada de tamanha perseverança para aguentar tudo que aconteceu
desde que a conheci na boate Whisky Mist.
Sophia provou que a realidade condizia com a frase que “aquele que tiver paciência terá o que deseja”. Não falo por ela me
esperar. E sim, por mim. Fui uma merda de homem ao cair nos interesses da minha família e de Jéssica. Suportar cada instante
longe daquela que mexia comigo foi uma tortura. Eu a humilhei, eu a destratei, mas porra! Eu a desejei intensamente e só de
olhar para ela, meu corpo queimava como se o sol estivesse a apenas um quilômetro de distância da Terra.
Nunca esquecerei a noite que a encontrei. Ela estava quente com aquele vestido de couro. Meu primo Richard havia
combinado de sair comigo e de última hora resolveu levar a uma loira chamada Paris. Pegajosa e possessiva me deu muito
trabalho durante algumas festas. Não sou santo. Eu a levei para a cama, mas foi apenas uma vez e na primeira noite que a
conheci. Ela era boa e estava disponível para uma aventura rápida. Eu estava na Itália e Paris frequentara a mesma festa. Na
época havia brigado com Jéssica e não me importava com sentimentos. Estava solteiro mesmo que temporariamente.
Podem me crucificar, mas não sou homem de trair. Não gosto disso. E talvez, por ser honesto e certinho demais, acabei
magoando Sophia.
– Você é gay! – falou Richard. – A Jéssica é uma chata! Nada pessoal!
– Cala a boca! – falei preguiçosamente. Richard estava de visita à Itália para atormentar os meus dias. – Você sabe que a
sociedade é importante e Jéssica não é tão ruim assim...
– Retiro o que eu falei. Pelo menos você pegou a Paris. – riu.
Dizer que peguei a loiraça era um triunfo na Itália, mas quando a mesma mulher começou a aparecer em todas as festas e me
vigiar, eu comecei a ficar preocupado e ranzinza.
Ao chegar a Londres, Richard me surpreendeu em uma de nossas saídas, ao trazer a minha casa um casal de amigos e Paris,
não poderia haver ninguém pior que ela. Seria uma noite de descanso para eles e uma de sofrimento para mim... Até eu ver
uma bela ruiva caminhar em nossa direção dentro da boate. Meu sorriso se alargou sem eu perceber. Ela me analisou e sei que
gostou do que viu. Tentei obter maiores informações quando estava à nossa mesa. Ela tinha um sotaque delicioso quando
falava em minha língua. Esqueci-me da presença de Paris, mas ela tentava puxar assunto todo o maldito tempo e não queria ser
rude.
Sophia, incomodada com Paris, se retirou da mesa com a famosa desculpa do toalete. Paris foi atrás e vi que era hora de
acabar com aquela porra toda. Saí de nossa mesa e a esperei ficar sozinha.
– Eu sei que você inventou a ida ao banheiro para retirar-se de nossa mesa. – segurei o seu cotovelo com cuidado pegando-
a de surpresa.
– Deu para perceber o meu desespero? Desculpe, mas não sou do tipo de roubar namorado de ninguém e como sua
namorada estava me matando com aquele olhar, eu preferi sair, mas ela acabou vindo falar comigo da mesma forma.
Conversamos rapidamente e consegui fazê-la entender que eu era a vítima da história.
– Pode ficar comigo o resto da noite? – perguntei. Era o meu desejo conhecer melhor aquela mulher tão singular. Ela ficou
envergonhada e me retratei. – O que eu quis dizer foi: ficar comigo apenas fazendo-me companhia. A vampira só largará do
meu pé se eu fingir interesse maior por outra pessoa.
Dizer que gostei é eufemismo. Passei a noite toda dançando e quando a beijei cobicei ainda mais passar as minhas mãos por
suas curvas e metê-la dentro de mim. Mas, essa mulher era quente e cuidadosa. Eu sabia que ela queria, mas seu corpo se
afastava quando passava pela minha cabeça avançar um pouco mais. Seu jogo de sedução acabou comigo naquela noite.
– Posso ter mais destes beijos hoje? – quis dizer “que tal uma noite de sexo inesquecível”.
– Theo... Foi um prazer conhecê-lo. – ela estava me dispensando.
– Não precisa continuar. Só fique enquanto as lentas não terminam. – pode deixar que prometo usar a minha mão para
terminar o que você começou e não dormir com aquela mulher na mesa.
O tempo passou e novas estratégias me levaram a viver em Londres novamente. Não era o que eu almejava, ainda preferia a
Itália. Porém, tudo mudou quando vi Sophia na minha empresa e a cara de deboche de Richard.
Ele era um filho da puta. Conversamos todo este tempo sobre a amiga de Mia e mais do que ninguém, ele sabia que Sophia
era a mulher que havia me deixado literalmente na mão e que até a presente data ainda me fazia usar o sabonete com mais
vigor. Não era Jéssica que me fazia sentir aquele apetite sexual. Pensei que fosse um psicopata por pensar assim, mas meu
primo me abriu os olhos.
– Você tá assim porque ela te deu um cano. Primo, ela tá de parabéns! Foi a única que fez você se masturbar sem dar uma.
– Já te falei que você é um filho da puta? – perguntei rindo.
– Sempre.
Sophia era linda. E passar o tempo com ela no mesmo setor era o maior sacrifício que eu podia ter na vida profissional.
Envolvimento com empregados não era permitido e eu estava com Jéssica. Para aumentar a loucura de tudo aquilo, minha ex
ficou grávida e acabei humilhando Sophia para mantê-la longe. Enfim, só fiz merda.
Quando eu e a Sophia ganhamos o financiamento para um grande projeto foi a situação mais constrangedora. Abraçamo-nos
sorridentemente como se a paz no mundo havia chegado graças ao nosso empenho.
– Sua primeira conquista! Nem estou acreditando! – pulava como uma pequena menina. – Digo, minha primeira conquista
porque para você isso deve ser normal.
– Sophia! Nossa conquista! Trabalhamos até tarde para dar o melhor! Garantir um contrato com essas cifras não é algo
comum. Conseguimos fechar com sucesso um ótimo negócio! Temos que sair para comemorar!
A minha intenção era essa. Mas, Jéssica atrapalhou.
– Ainda bem que a encontrei a tempo. – encontrei Sophia entrando no elevador.
– Por quê? – perguntou.
– Jessie fez uma... Surpresa... E não poderemos dar continuidade aos nossos planos de hoje. – não queria causar problemas
para minha brasileira.
– Que planos? – Jéssica começou alterando a voz.
– Assuntos pendentes do trabalho, nada que não possa ser resolvido outro dia, certo? – perguntei à Sophia. Que porra que
eu estava fazendo?!
– Isso. Nada de tão importante. – concordou. E vi a sua irritação.
Bosta!
– Não gosto de sua empregada, Theo. – comentou Jéssica no carro. Ela havia ido de táxi à empresa para sairmos juntos.
– Você poderia ter me avisado que vinha sem o seu carro. Se eu tivesse um compromisso urgente, você ficaria à pé. – falei
aborrecido enquanto tirava o carro do estacionamento da Artvt.
– Qual é o seu problema, amor? Não ficou feliz em me ver? – fuzilava-me com o olhar.
– Não gostei. – falei sem rodeios. Jéssica levou a mão à boca.
– Você me magoou agora. – falou ressentida. – Não esperava isso de você! Por que está me tratando mal?
– Aonde você quer ir? Qual é a surpresa?
– Queria passar um tempo com você em seu apartamento. – comentou baixinho com falsa humildade. Ela nem sabia ser
romântica.
Fui para o meu apartamento entrei para tomar um banho demorado e com a porta trancada. Não queria ser perturbado.
– Deixe-me entrar, Theo. – falou batendo à porta.
– Já estou terminando. – disse.
Ela não me perturbou mais... Até eu sair do banheiro e encontrar Jéssica na cama seminua. Sua beleza não me atraiu.
– Estou cansado, Jessie. – disfarcei. Estava negando fogo. Estava com nojo daquela mulher deitada na cama.
Ela se levantou com olhar de conquista e caminhou lentamente pensando que eu faria amor com ela. Ao passar o braço em
volta do meu pescoço, os retirei suavemente e desviei o meu rosto ao tentar me beijar.
Ela deu um passo atrás.
– Mas que merda é essa? – gritou. Apenas fiquei parado olhando para ela. – Você não me quer?
– Não hoje. Já disse que estou cansado. – estava sendo um estúpido.
– Você é um babaca! – colocou o dedo no meu peito. Estava totalmente vestido com um pijama. Não quis nem ficar sem
camisa para não atiçar a sua vontade.
– É aquela vagabunda, não é? – perguntou irritada. – Aquela vaca está te seduzindo e agora você está me rechaçando?
– Não é nada disso, Jéssica. – é quase isso.
– Se você pensa que eu vou permitir que você faça isso comigo...
– PERMITIR o quê? – gritei, cortando-a. – Você quer foder comigo contra a minha vontade? Estou CANSADO, porra! E
quero você longe da minha cama. Se você não se valoriza a ponto de me deixar sozinho, já não sei o que mais posso te dizer. –
falei deixando aquela mulher nua em pé no meio do quarto.
Jéssica só se retirou de lá duas horas depois. Ela não me falou nada quando bateu a porta com força e se mandou do
apartamento. Consegui assistir a um filme que não tinha visto por falta de tempo e a imagem veio à minha cabeça.
Sophia!
Não pensei duas vezes em tomar outro banho. Talvez, eu me sentisse sujo... Não sabia. Vesti uma roupa que mais tinha a
ver comigo. Quase um rockeiro. Apesar do meu jeito sério, fui rebelde na faculdade e curti muitas baladas.
– Ficarei do lado de fora congelando? – sorri para Sophia quando ela abriu a porta do apartamento. Estava com um pijama
com estampas infantis e mesmo assim desejei tê-la ali mesmo.
Puta merda! Não sou pedófilo!
– Entre. Vou trocar de roupa.
– Não precisa. Você está... Inocentemente bonita com este pijama. – ela era graciosa e sair de casa para encontrar aquela
mulher foi a melhor decisão que eu tomei naquela noite.
Aos poucos, a brasileira foi conquistando o seu espaço na empresa e em meu coração. Eu era muito teimoso e covarde.
Poderia ter jogado tudo para o alto só para ficar com ela, mas o patrimônio era um valor importante pelo esforço que minha
mãe fez. Fora ela quem ajudara o meu pai a construir e isso bloqueava qualquer ação ousada com Sophia, Jéssica ou com a
Artvt. Eu era um prisioneiro.
Esta noite não poderia ser menos intensa. Tudo com Sophia era avassalador. Nós fomos à mesma boate onde a conheci e
por um deslize meu, a vi dançando com um filho da puta. Eu apenas fui buscar bebidas e uma morena se aproximou.
Conversamos rapidamente, mas foi o suficiente para transformar aquela noite.
O bastardo tentava passar a mão por seu corpo e Sophia tentava pará-lo. Como o maldito não tinha limite, eu resolvi
intervir.
– Cai fora daqui e vai procurar outra para dançar porque esta aqui já tem um novo par. – falei agarrando a camisa jogando-
o para o lado. Ela tentou sair, mas eu segurei bem em sua cintura.
– Eu disse que ia dançar com você. – falei.
– Eu não quero dançar com você. – não havia me convencido.
– Você não quer, mas você vai.
Nós dançamos e meu pau duro começou a me deixar cada vez mais afoito em querer tocá-la. Falei tudo que eu pensava
sobre o maldito e a dança sensual que ela havia feito e eu sabia que ela tinha feito tudo para me provocar.
– Eu não fiz nada. – defendeu-se. Mentirosa.
– Você está quente demais com este vestido e o que você fez com aquele estranho poderia ter saído mal hoje. Eu quebraria
a mão dele se ele tentasse mais uma vez alguma coisa contigo. Ele queria entrar em sua calcinha e eu não gostei de ver suas
intenções.
A morena atravessou o nosso caminho novamente o que levou a uma discussão fora da boate. Sophia agia como uma mulher
infantil e ciumenta.
– Eu.não.quero.voltar.com.você. – foi a frase que me fez tomar uma posição. Agarrei e a empurrei contra o carro com o meu
corpo. Era para ela sentir o meu membro duro e somando a isso a beijei com muita sede. Continuei empurrando-a como se
estivesse fazendo sexo, pois era o que eu queria. Segurei a sua bunda e apertei com força. Apesar do momento, ela me parou.
Foi uma merda. Mais uma vez ela me deixou naquele estado.
Foram muitos momentos complicados e atrevidos que passamos juntos. Não sentia mais nada por Jéssica e aquilo estava me
matando. Só precisava conversar com a minha mãe no Brasil e estaria resolvido.
Em uma das viagens da Artvt ao Brasil, levei a Sophia e alguns outros funcionários. Nossa noite em seu país foi a melhor
que eu tive e jurei recuperar a confiança de Sophia. Ela havia voltado a Londres sem deixar que eu me explicasse. Quando vi
que as coisas estavam estranhas, deixei espaço para ela enquanto que eu e sua amiga cuidávamos do teste de paternidade de
Jéssica. Eu tinha quase certeza que o bebê não era meu, mas precisava provar.
Quando soube mais tarde da mentira da minha ex e quando as coisas se resolveram com a minha brasileira, ela me contou
que ela viajara com seu amiguinho John à Argentina. Quase surtei de raiva e desespero em saber que aquele cara perigoso
teve a oportunidade de dormir com ela.
Ele não nos visitou ainda, mas algumas vezes liga para mim se fazendo de amigo e conversando com Sophia por telefone
para contar as novidades e eu ficava puto de ciúmes. Ela não me contara sobre seu envolvimento sexual com ele. Não era da
minha conta já que não tínhamos nada na época, mas sua reputação não era a mais imaculada.
– Vem aqui. – beijou a minha boca suavemente. – John foi uma ótima companhia, mas não sinto nada por ele que não seja
apenas amizade. Nosso tempo foi curto e foi apenas um passatempo, tanto para ele quanto para mim. Já conversamos sobre
isso, amor.
– Você ainda não me convenceu. – falei sorrindo. – Quero uma prova maior porque este seu beijo foi muito... – não terminei
a frase. Estava sentado ao sofá quando Sophia pulou sobre mim e me beijou daquela maneira quente e sensual. Ela balançava
o quadril para me excitar e meu corpo respondeu rapidamente. – Agora eu estou quase convencido. – falei entre nossos lábios
colados.
Ela riu e saiu de cima de mim caminhando para o quarto.
– Se você acha que vai conseguir mais que isso está enganado. Preciso terminar a minha mala. Temos menos de uma hora
para sair de casa.
Levantei os meus braços para o ar.
– Você não vai fazer isso comigo, Sophie!
– Acabei de fazer, darling. – gritou lá de dentro.
Respirei fundo e a segui para terminar a minha mala. Seria a nossa primeira viagem de férias ao Brasil. Íamos visitar a
minha mãe e contar o quanto a Artvt estava progredindo.
(...)
– Theo! Já estou preparada, amor! Vamos logo! – aguardava-me à porta de entrada. O odor de banho recém-tomado viajava
por todo apartamento e o sorriso que eu tinha era só por causa do cheiro e do corpo desta mulher.
Eu queria tanto aproveitar todo o tempo perdido com Sophia que vê-la na empresa e algumas vezes à noite não era o
suficiente para mim. Antes de mudarmos para o novo apartamento, aproveitei uma noite em sua casa para tentar convencê-la a
vir morar comigo.
– Ahh! Theo! Já disse que nãããooo! – exigi uma resposta quando estava dentro dela, enlouquecendo-a.
– Vem morar comigo. Você terá isso... – estoquei forte fazendo-a gritar. – e muito mais.
Sophia era teimosa e não cedia.
– Deste jeito fica difícil pensar... – estoquei novamente calando nossos lábios com um beijo possessivo.
– Eu te amo! Diga que sim. – pedi movendo-me lentamente.
– Eu também te amo. Eu... Eu aceito seu manipulador sexual! – escutar aquilo fez meu corpo acender e comecei a transar
com mais força para mostrar o quanto aquela resposta me fez bem.
(...)
Após inúmeras discussões, resolvi comprar um apartamento não muito grande. Exigência dela. Nosso quarto assim como
todos os outros cômodos foram decorados do jeito que ela tanto quis e ali era o nosso refúgio sagrado quando não estávamos
na Artvt. Nosso programa favorito? Assistir filme de terror embaixo da coberta. Quando o inverno chegou, Sophia ficou mais
calada e eu procurei entender o motivo. Sua família estava longe e havia passado muito tempo. Eu queria conhecer o seu pai e
sua irmã e teríamos a oportunidade futuramente.
Eu sei que vocês devem estar curiosos sobre o final de nossa história, mas preciso contar alguns detalhes antes de chegar a
este ponto. Eu preciso me defender de tantas acusações dirigidas à minha personalidade frouxa, como disseram tantas pessoas,
incluindo Richard que até hoje me zoa por eu demorar a me livrar da Jéssica. Se você pensou em um apelido do tipo corno e
chifrudo, eu os aceitarei, mas é necessário entender. Mas, porra! Richard não! Todo mundo menos o bastardo do meu primo
que não tinha limite para parar com as brincadeiras após um ano e meio de relacionamento com Sophia.
Já demonstrei durante todo este tempo o quanto eu sofri e me arrependi por ser tão otário. Só fiz merda, eu sei, mas Sophia
sabe o quanto eu me doei para mostrar o quanto eu a amava. E meus planos eram maiores. Queria surpreendê-la sempre.
– Seu pai mandou um SMS desejando boa viagem. – comentou comigo na fila de embarque.
– Aham. – Eles se aproximaram depois de toda a confusão, mas eu procurei evitar um contato maior com ele. Eu era o
presidente da empresa e ainda desconfiava de suas boas intenções com Sophia.
– Seu pai está mudando. Se você não der uma chance para ele, talvez ele nunca seja a pessoa que você gostaria que ele
fosse. – falou baixinho com um sorriso de lado.
– Você fica tão linda quando me olha assim. Pena que não temos um banheiro privado aqui para acabar com a sua audácia
em falar do velho em nossa viagem de férias. – beijei o canto de sua boca.
– E não tente mudar de assunto seduzindo-me, Theo. – sorriu.
Antes do dia de embarque rumo ao Rio de Janeiro, ao sairmos da empresa para o nosso primeiro dia de férias juntos, quis
fazer tudo diferente. Eu a levava de carro para casa todos os dias desde que anunciamos o nosso namoro e naquele dia eu
desejei mudar tudo.
– Onde estamos indo? – perguntou-me quando mudei a rota.
– Somos um casal! Vamos ao supermercado comprar coisas para a janta. – sorri como um menino bobo.
– Fugindo da rotina, hein?! – sua cara de felicidade me atingiu confirmando que eu estava desesperadamente apaixonado
por ela.
Estacionei o carro em uma das maiores redes de supermercados da cidade. Caminhamos lentamente de mãos dadas como
um casal de adolescentes. Sorríamos um para o outro e em toda a oportunidade lançávamos olhares furtivos.
– Este é aquele cara do tablóide, Gi. – escutamos uma jovem comentar com outra. – Que gato! – Sophia revirou os olhos e
caminhamos para a seção de frios.
– Eu quero saber o que você me dará em troca todas as vezes que eu escutar ou ver uma mulher te desejando. – resmungou.
– Eu já te dei. – ela me olhou. – Meu corpo, a minha alma... Tudo é seu.
Seus olhos lacrimejaram.
– Falei algo errado? – aproximei-me preocupado.
– Não. Você falou o certo. Eu te amo muito. – abraçou-me carinhosamente.
Aquela noite foi sensacional. Deixei as coisas no apartamento, mas ainda queria muito mais.
– Pensei que íamos assistir a um filme. – comentou.
– Hoje está uma bela noite para passear pelo Parlamento e o Big Ben, que tal?
– Sim! Vamos! – com ela era tudo era simples. Eu que dificultei a nossa vida.
(...)
– A riqueza de cada detalhe é impressionante, Theo. – estávamos parados próximos ao Big Ben. – Eu não me canso de
olhar. A visão é linda.
– A visão é linda, mas com você ao meu lado, ela fica simplesmente extraordinária.
– Obrigada, amor. – deu-me um selinho. – Que bom que acabou todo aquele tormento.
Beijei a sua mão e ficamos em silêncio contemplando o lugar iluminado. Estava cheio de turistas e me senti como eles,
absorto de todos os problemas do mundo.
A volta para casa foi ótima. Rimos das piadas que Sophia contava entre brasileiros e argentinos ou brasileiros e
portugueses.
– Mas, não tem piada de brasileiros e ingleses? – perguntei respirando com dificuldade após uma gargalhada.
– Não conheço nenhuma, mas vou pesquisar no Google. – riu.
– Ótimo! Vou tomar um banho para começarmos a preparar a comida.
Nosso jantar foi apenas um simples macarrão alho e óleo totalmente diferente do que havíamos planejado. A ideia de
cozinhar com ela ali ao meu lado não deu muito certo já que estava excitado demais e cada vez que ela pensava em fazer a
lasanha caseira eu a agarrava por trás mordiscando o seu pescoço. Ela desistiu quando resolvemos fazer amor em pé na
cozinha. Era muito tesão.
– Gostosa! Vou te chupar toda! – falei empurrando-a contra a parede. Queria o beijo, queria a sua boca no meu pau, queria
acabar com ela de quatro.
Porra de mulher deliciosa!
– Na cama, Theo. – falou com dificuldade.
Terminamos no quarto o que começamos na cozinha e nosso jantar nada mais foi que aquele macarrão mal feito.
– Foda-se! Eu comi muito bem antes da refeição. – pensei ao ver o corpo de Sophia deitado à cama.
A viagem foi bastante tranquila. Chegamos à casa da minha mãe com facilidade, pois pagamos um táxi que nos levou do
aeroporto até a Barra da Tijuca.
– Olá, minha querida! – minha mãe abraçou Sophia com carinho. – Eu sabia que tudo daria certo entre vocês.
– Imagina! Eu que agradeço saber a versão de tudo que acontecia com o Theo. A senhora sabe se não fosse por nossa
conversa, as coisas teriam sido diferentes.
– Eu sei, minha filha. Mas, agora vejo o meu filho feliz e isso me dá mais força para continuar a viver intensamente. Vamos
continuar com as nossas conversas por telefone. Isso me faz muito bem!
– Mãe, pare de bajular a minha namorada e vem me dar um abraço. – pedi sorrindo.
– Você não precisa dos meus abraços, você tem a Sophia. Mas, já que você não mudou a sua carência excessiva, farei isso
por você. – sorriu. – Venha aqui, meu querido!
Descansamos bastante para o dia seguinte. Iríamos conhecer vários lugares e aproveitar a praia.
– Theo, tira essa foto! – Sophia me pediu abrindo os braços iguais ao Cristo Redentor. Ela sorria tanto que meus lábios a
acompanhavam sem cansar. Eu fui o fotógrafo daquele passeio muito agradecido por saber que o destino pôs aquela
maravilhosa mulher em meu caminho.
Nunca sorri tanto na vida. Aproveitamos o embalo para visitar o Pão de Açúcar e conhecer um pouco mais do Rio à noite.
– Este bairro da Lapa tem um samba bem gostoso. Estou adorando o clima! E esta feijoada está divina. – comentou comigo.
– Eu gosto de sua cultura, mas acho que este prato é muito pesado para mim. Será que sobreviverei até amanhã?
– Deixa de frescura e come isso logo, Theo! – mandou com falsa irritação.
Algumas mulheres passavam insinuando-se para mim. Sophia ficava neutra, mas não tirava os olhos de meu rosto.
– O quê?! Eu sou inocente, baby! – falei em minha defesa.
– Eu sei. – ela deu uma piscadela. E eu continuei comendo aquela comida deliciosa que mais tarde poderia me cair mal.
– Estou tão cansada. – Sophia tirou a sandália no Hotel onde nos hospedamos antes mesmo de chegarmos ao quarto.
Era luxuoso e de frente para a praia de Copacabana. Queria oferecer o melhor para ela.
– ABRE a porta logo! – gritou-me.
– O que houve? – perguntei assustado com o cartão da porta na mão.
– Eu vou vo... Vomitar. – colocou a boca na mão.
Tentei enfiar o cartão no orifício, mas o nervosismo me deixou alterado e eu me perdi naquela simples tentativa.
– THEO! ANDA!
Assim que consegui abrir, Sophia correu para dentro do banheiro e pude escutar o som de toda comida saindo diretamente
para o vaso. Fui até lá e segurei o seu cabelo para ajudá-la.
– O que houve, meu amor? – perguntei baixinho.
Ela estava suada sentada ao lado da privada.
– A feijoada estava muito condimentada e me fez mal, mas acho que estou melhor... – deu sorriso fraco.
– Eu te ajudo a levantar, Darling.
Ela tomou um banho e escovou os dentes e eu fiz a mesma coisa ao seu lado. Aquela sensação de limpar o seu corpo com o
sabonete e ela fazendo a mesma coisa comigo era tão íntimo que havia se tornado nossa rotina desde que começamos a morar
juntos.
O dia seguinte estava ensolarado.
– Acorda, baby. – despertei-a com um beijo nos lábios. Ela se sacudiu impaciente. – Come on, Sophie!
– Quero dormir mais um pouco.
– E eu quero aproveitar a praia agora pela manhã. Vou sair com o calção de banho sozinho? – perguntei ironicamente. Ela
tentou abrir os olhos e olhou para o meu corpo seminu.
– Não. Me levanto em dois minutos. – sua voz sonolenta mostrava que levaria mais que isso, porém não liguei.
(...)
– Você não vai descer com este micro biquíni. – falei colocando-me à porta.
– Eu vou. – cruzou os braços. – Agora, deixe-me passar por esta porta, Theo Trento!
– Você já se olhou no espelho? Para que usar a parte de baixo se sua bunda está toda de fora?
– Então vai namorar uma europeia! Eu sou brasileira e gosto de biquíni assim.
– Mas, Sophia!
– Não tem mais. Vamos logo porque quero ficar muito bronzeada. – saí da porta resmungando vários palavrões! Se alguém
falasse um oi para ela, desenharia o meu pulso no meio da maldita cara do imbecil.
Quando retornamos ao Hotel, ela havia conseguido a cor que tanto desejava e eu me ferrei com o calor de quarenta graus.
Estava vermelho.
Quando aprontávamos a mala para retornar à Londres, Sophia veio me abraçar e eu gritei. – Vem aqui meu camarão!
– Porra! Arde tudo! – ela gargalhou com o pulo que eu dei.
– Eu falei para você usar o protetor solar com maior fator de proteção, mas você é teimoso. Está aí a resposta, senhor
Trento. Agora quero ver você conviver com esta bela queimadura.
– Tira este sorriso de seu rosto ou vai se arrepender! – ameacei sedutoramente.
– Nem que você quisesse, conseguiria me aplicar qualquer tipo de punição.
Puxei-a para meus braços ignorando a dor dilacerante e a beijei levando os meus dedos ao meio de suas pernas. Ela
rapidamente ficou molhada.
– Obrigado por vestir este vestido. Facilita muito as coisas. – falei enfiando o meu dedo em sua abertura. Sophia arfou e se
movimentou entrando e saindo. Retirei o dedo e fui ao banheiro.
– Ei! – chamou-me. Virei o meu rosto e a vi ruborizada.
– Acabei de te dar o castigo.
– Seu filho da puta! – falou voltando a arrumar a mala sobre a cama. – Se você pensa que eu vou pedir ou implorar, está
muito enganado. – resmungava jogando a roupa de qualquer jeito. Eu ri e fui tomar um banho gelado para não dar o gosto a ela
de terminar o serviço.
No aeroporto, resolvi contar a ela quais eram os meus verdadeiros programas.
– Poderia pegar as passagens, baby? Estão na bolsa marrom.
– Claro. – dei tempo para que ela abrisse. – Theo... Mas... – seus olhos estavam marejados.
– Sim, meu amor. Vamos visitar a sua família agora. – ela pulou em meus braços deixando cair a bolsa e tudo que carregava
no chão. As pessoas olhavam para nós e eu sorri com a alegria que ela não temia demonstrar. Sua autenticidade era uma
característica que eu valorizava.
– Eu pensei que não daria tempo. A Artvt...
– Eu pedi mais uma semana. Afinal, eu posso. – sorri alisando o seu rosto que agora estava molhado de tanto que ela
chorava e ria.
(...)
– Nancy! – gritou correndo para os braços da irmã que estava chocada ao vê-la. Não havia contado à sua família que
iríamos.
– Sophia! PAAAI! A Sophie está aqui! PAI! – gritava sua irmã. Ela era tão bonita quanto a minha Sophie.
Um senhor apareceu e em uma tentativa de correr quase caiu. Eu fui ao seu socorro, mas ele conseguiu se restabelecer sem
desabar naquele jardim. A casa dela era enorme e o formato muito bem construído e desenhado. Todos choravam e se
abraçavam e senti o meu peito apertar ao observar de longe toda aquela comoção. Minha família um dia fora assim... E não
sobrou nada, apenas fragmentos de infelicidade e egoísmo. De um lado, meu pai. Do outro, a minha mãe.
– Este aqui é o meu namorado. – falou Sophia, tirando-me de meu devaneio. Eu sabia falar o seu idioma.
– Uau. – balbuciou sua irmã e Sophia deu um cascudo em seu braço. – Olá! Sou a Nancy.
O senhor não se pronunciou, apenas me encarou.
– Seja bem-vindo à nossa casa, senhor...? – falou depois de muita análise.
– Theo. Theo Trento.
– Você é o dono da Artvt a empresa de publicidade? – perguntou-me.
– Sim. Sou o sócio majoritário.
– Sophia! Você está namorando o seu chefe? – a cara de reprovação do pai quase me fez rir. Era uma família tradicional.
– Pai, não começa! – falou Sophia olhando para mim desconfiada.
– Eu a pedi em namoro e com muito esforço ela aceitou. Tenho as melhores intenções com a sua filha. Aproximei-me dela e
segurei a sua mão. Ela estava suando. O nervosismo de sempre. Apertei para ela se sentir melhor e ela sorriu.
– Papai está com ciúmes! – falou Nancy. – Venham! Entrem!
– Não estou com ciúmes. Só não gosto de ser pego de surpresa. Você nem me falou que namorava, Sophia! E aparece com
um namorado que nada mais é que seu chefe?
– Não falei porque sabia que você viria com este sermão. Posso entrar ou não, pai? – estava irritada.
– Claro que podem entrar! Mas, no jantar quero que me conte tudo. – falou carrancudo.
(...)
– Este aqui é o meu quarto. Meu pai não o alterou desde que eu parti. – havia melancolia em sua voz. – Esta aqui é a minha
mãe. – mostrou-me a fotografia.
– Muito bonita. Você e sua irmã têm traços dos dois. – sentei-me em sua cama. Absorvi um pouco da vida da minha
brasileira. Era um lugar aconchegante com um ar familiar.
– Você já sabe toda a história, mas retornar aqui me faz relembrar o passado e o quanto eu sofri. Acha que sou egoísta em
pensar em fugir o mais rápido possível daqui?
Puxei-a para sentar-se em meu colo. – Não pense assim. Você apenas encontrou o que buscava em outro lugar. Não foi?
Ela me olhou e seus olhos brilharam. – Encontrei tudo o que eu mais quis na vida.
Beijamo-nos com ternura.
– O seu quarto não é aqui. – Sophia saltou para longe de mim ao escutar a voz de seu pai. – Temos um de hóspede.
O olhar de proteção dele sobre sua filha me fez rir. E ele perguntou:
– Algum problema?
– Senhor Roger, não vejo problema algum, mas não serei hipócrita. Nós moramos juntos em Londres.
Ele arregalou os olhos. – Como assim?
– Pai, foi tudo muito rápido e Theo me convenceu a viver com ele e estamos juntos embaixo do mesmo teto.
Convenci da melhor maneira possível.
– Bem... Então... Acho que vocês podem ficar no mesmo quarto.
– Pai, ficaremos no quarto de hóspedes. A cama lá é de casal. – riu sem graça.
– Como queiram. – saiu sem dizer mais nada.
– Por que você não aproveita o dia amanhã para passear com Nancy enquanto eu tento me aproximar de seu pai?
– Não acho isso uma boa ideia...
– Não acontecerá nada, meu amor. – levantei-me e a abracei. – Ele não me conhece e tem todo o direito de se sentir acuado.
Eu faria a mesma coisa se fosse com uma filha minha.
– Está bem. Acho que não preciso me preocupar.
(...)
O dia em Florianópolis estava frio e apesar disso, as duas irmãs não pouparam esforços para saírem às compras dando-me
a oportunidade ideal para conversar com Roger e mostrar o quanto eu era um homem sério.
– Bom dia. – falei ao entrar na sala de jantar. A mesa estava posta com muitos alimentos para um café da manhã.
– Bom dia. – ele estava mais receptivo.
– Posso me sentar?
– Aqui não temos muitas regras. Sinta-se em casa.
– Obrigado. – agradeci servindo-me um café e escolhendo alguns alimentos. Havia pães doces e salgados, bolos de sabores
distintos, café, leite e muitas frutas.
– E então? Não quero saber como você conheceu a minha Sophia já que eu imagino que foi no ambiente de trabalho. –
deduziu erroneamente. – Quero entender como a fez confiar em seu próprio chefe.
– Ela não confiou em mim. – falei comendo um pão com mel. – Eu não a tratei como deveria, inicialmente.
Comecei a narrar todos os momentos com ela, tirando a parte sexual obviamente, e como a minha vida era antes de conhecê-
la. Contei com detalhes sobre Jéssica, a gravidez e a paciência de Sophia, além de seu profissionalismo.
– Eu poderia te expulsar da minha casa e dizer a ela que você não vale nada. – falou ao final.
– Eu sei.
– Mas, você é honrado. Vejo que é diferente dos outros namorados que ela teve. Alexandre acabou com a alegria da minha
menina e com você ela sorri como uma nova pessoa. Se você a visse quando ela saiu daqui anos atrás, entenderia que Sophia
está realmente feliz.
– Fico agradecido. – não tinha muito que responder.
– Preciso que o senhor faça algo para mim. – falei.
– E o que seria?
– Você poderia me acompanhar em um passeio pela cidade para conversarmos mais? Gostaria de conhecer um pouco o
lugar onde a minha namorada nasceu e viveu quase toda a sua vida. – sua cara de poucos amigos havia melhorado
exponencialmente e ele sorriu.
– Vamos. – respondeu sem rodeios.
(...)
– Ai que saudade! – me beijava todo o rosto. – Ficar longe de você é ruim demais.
– Foram poucas horas, baby. Foi importante para conhecer o seu pai melhor, mas agora estou aqui só pra você. – falei
começando a ficar excitado com aqueles selinhos inocentes que ela me dava. O quarto de hóspedes ficava distante dos outros
quartos e não pensei duas vezes em colocá-la sobre à cama. Ela retirou a blusa de gola que vestia e eu aproveitei para me
despir rapidamente.
Acariciei os seus seios puxando o sutiã para cima. Não queria perder tempo retirando-o por completo.
– Espere. – ela pediu. Eu já estava sem cueca e pronto para recebê-la. Ela ficou em pé e me olhou provocantemente. Meu
pau ficou ainda mais duro.
Porra!
– Sophia, não brinque comigo! Vem logo, ou vou buscá-la. – ela riu removendo as últimas peças com lentidão ficando à
minha frente como Deus a trouxe ao mundo. – Linda...
– Eu te amo. – falou sorrindo. Meu coração acelerou. Estava muito apaixonado por esta mulher. Se ela soubesse o que eu
faria por ela, seria o seu capacho.
– Venha aqui e eu vou te mostrar através de nossos corpos o quanto eu te amo. – sussurrei.
E ela veio com aquele corpo maravilhoso. Debrucei-me sobre aquela pele macia e fizemos amor lentamente. Experimentei
cada espaço do seu corpo com a minha boca, excitando-a, acariciando os seus pontos sensíveis e desejando que a noite nunca
tivesse fim.
– Eu te amo! Eu te amo! – falava cada vez que entrava nela.
– Ah, Theo! Eu te quero!
– Você já me tem, meu amor! Goze pra mim, Sophie! – balbuciei.
Ela subiu sobre mim, invertendo as nossas posições e começou a pular com força sobre o meu pênis. Estava selvagem e eu
segurava seus seios apertando os seus mamilos com meus dedos fazendo-a aumentar ainda mais o ritmo.
– Isso, amor! Pula! Gostosa! Ahhhh!
– Você gosta assim, amor? – perguntou rebolando e pulando ao mesmo tempo. Estava alucinado com tanta excitação. Este
seu lado feroz eu não conhecia e iria gozar a qualquer momento como um adolescente. – Você quer mais? – continuava
rebolando e saltando, me levando à loucura.
Não conseguia responder, apenas olhava em seus olhos nublados como os meus. Estávamos conectados e percebi que meu
amor era muito maior do que pensava. Cada dia mais sentia o meu corpo desejar estar ao seu lado e nunca mais deixá-la ir.
– O que foi? – perguntou exausta ao meu lado.
– Você é linda! – sorri ao seu lado. Estávamos despidos deitados de frente ao outro. – Linda, linda... – só conseguia
pronunciar isso. Estava exaltando àquela mulher.
– Nunca mude. Sempre seja você. Seu jeito meigo, infantil e surpreendente é o que me faz te amar ainda mais. – declarei-
me.
– Está tão romântico nestes últimos tempos... – falou com um sorriso.
– Estou como uma mulherzinha, eu sei. – ri.
– Não. Eu preciso escutar isso. É bom! É gostoso! – beijou-me.
– Casalzinho! O jantar está na mesa.
– Shh! Silêncio! Deixe-a pensar que estamos dormindo. – sussurrou em meu ouvido. – Não quero sair. Você me matou.
– Eu? Foi você que acabou comigo, baby. E quero mais desta Sophia. – falei em seu ouvido, mordiscando a sua orelha. Ela
suspirou e senti que estava pronta para mim novamente.
Nancy não insistiu e eu não perdi tempo.
– Agora, eu vou te mostrar quem será o selvagem aqui. – falei colocando-a sobre o meu animado membro.
(...)
– Pai, eu não quero a família e amigos aqui não! Pelo amor de Deus! – falou Sophia.
– Você vai embora amanhã, Sophia. Eu quero que todos estejam aqui e vejam você. Estão curiosos para conhecer o Theo.
– Eu não quero. – Sophia discutia com o seu pai e Nancy ria.
– Ela vai deixar. Ela sempre acaba desistindo com meu pai. – comentou-me baixinho sua irmã.
– Eles sempre discutem assim? – estava um pouco perplexo.
– Algumas vezes sim. Não se assuste. – riu da minha cara.
– Sophia, deixe o seu pai fazer isso. Quando será que você voltará novamente? Você viu como passou rápido estes dias
aqui? – perguntei defendendo o senhor Roger. Ele me olhou e sorriu com a ajuda.
– Está vendo? – ele apontou para mim. – Até ele quer!
– Theo! Não se intrometa aqui! – falou Sophia. Estava furiosa. Mandei um beijo para ela de onde estava quebrando aquela
carranca de seu rosto.
– Sem vergonha! – riu. – Está bem, papai. Eu aceito, mas na hora que eu quiser subir eu não ficarei bajulando ninguém.
(...)
Sophia estava linda com o vestido floral sem alça. Seu busto foi valorizado. Eu observava cada pedaço daquela pele. Os
pés, o corpo, a cabeça, os cabelos, o seu jeito de falar... Tudo era admirado por mim. Todos estavam jantando. Todos
aguardavam apenas o namorado da Sophia aparecer. Ela estava preocupada e me enviou um SMS.
– Amor, cadê você?!?!?!
– Já estou descendo.
Minha entrada à sala de jantar poderia ser comparada aos filmes em que o silêncio de talheres batendo nos pratos fora
parado só por causa da presença de algum convidado e eu era o cara que causara tal comoção. As poucas mulheres me
olharam de boca aberta. Elas pensariam que Sophia não poderia se relacionar com um cara como eu ou seria o contrário?
Procurei-a e a encontrei do outro lado sentada perto de um jovem. Sua namorada ou esposa me encarava com a mesma cara
das outras dentro do recinto.
– Pessoal, este é o Theo, o meu namorado. – falou minha ruiva com sua doce voz. – E ele é meu! – seu tom possessivo me
fez gargalhar da porta ao ver as mulheres mudando a atenção para os pratos e homens à sua volta. Sophia estava defendendo o
seu território abertamente e ela não era assim.
– Continuem o jantar, queridos colegas. Desculpem-me o atraso. Estava um pouco ocupado. – caminhei com uma pequena
tremura até o local onde ficaria. Entre Sophia e seu pai.
– Então, este é o cara que pegou o coração da minha amiga. – falou um rapaz.
– Sim Luís, ele é o amor da minha vida. – falou. Este era o cara que ela ia se declarar. A mulher loira ao seu lado me olhou
com vergonha. Deveria ser sua esposa.
– Amor, sua mão está suada. O que houve? – Sophia percebeu o meu nervosismo.
– Eu... – encarei-a e fiquei sem palavras. – Estava muito alterado e não conseguia pensar em nenhuma desculpa. – Eu...
– Coma alguma coisa. Pode ser a pressão. – ela franziu o cenho preocupada.
Os convidados passaram a última hora perguntando sobre o nosso relacionamento, a experiência de Sophia em Londres.
Minha apreensão foi aumentando cada vez mais até chegar o momento que me levantei de supetão.
– O que houve? – ela perguntou assustada. Olhei-a com devoção.
– Amigos da família Moody, eu estou orgulhoso da família que conheci aqui no Brasil. – ela apertou a minha mão
emocionada. – Estou contente pela minha boa relação com o senhor Roger. – todos riram.
– Desculpe, meu filho. – falou Roger. – Eles estão rindo de seu sotaque. Seu português não é tão perfeito.
– Eu entendo. – ri. – Perdoem-me. Estou nervoso. – olhei-a novamente.
– Nervoso? – ela balbuciou.
– Continue, meu filho! – seu Roger me incentivava.
– Pai? – ela o encarou. – O que está acontecendo?
– Amigos, o motivo de eu estar aqui esta noite reunido com todos vocês é extremamente especial. Antes de minha chegada
ao Brasil, eu planejei esta viagem e ao conhecer o senhor Roger, desejei que fosse de sua vontade esta reunião.
– Theo? – ela me chamou baixinho. – O que você está aprontando, amor? – sua pergunta saiu duvidosa e eu temi por ser
rejeitado.
– Sophia, nós não temos uma canção definida. Você já percebeu isso? As vezes que escutamos sempre tentamos guardar
uma que represente um pouco de nós dois. Mas, isso seria impossível. Canções de amor não cantam o verdadeiro sentimento
que eu sinto. Elas podem tentar passar toda a emoção que está aqui. – apontei para meu coração. – Mas, o que existe dentro de
mim é infinitamente maior. E no momento que eu notei que nada neste mundo poderia expressar o amor que tenho por você,
decidi fazer esta viagem até aqui e eu preciso compartilhar isso com você que é a mulher que eu amo e que escolhi para passar
o resto da minha vida. E hoje, quero que as canções românticas deste mundo contem uma história de amor e que ela seja nossa!
Só nossa! Porque o nosso amor é verdadeiro e quero te mostrar o quanto eu te amo até que a morte nos separe.
Ajoelhei e estendi o caixa de anel abrindo-a.
– Quero viver só para te dar o meu amor e este será o meu objetivo que cumprirei com regozijo. Por isso, o senhor Souza,
juiz veio para fazer a cerimônia. Não existirá local ou data melhor senão com os seus parentes e com a minha mãe que deverá
chegar a qualquer momento. Não posso mais esperar por você. Te quero por completo. Sophia Moody, você quer se casar
comigo? – ela colocou a mão na boca e começou a chorar. Fiquei sem saber como agir.
Repentinamente, Sophia saiu correndo da sala de jantar e desapareceu escada acima. Nancy foi atrás e todos ficaram
comovidos com a atitude. Roger levantou de sua cadeira e pensou antes de ir, mas paralisou ao meu lado.
– Levante-se meu filho. Deu um trabalhão para nós escolhermos este anel. Não foi em vão. – falou batendo em minhas
costas.
A campainha tocou e a empregada da casa foi atender.
Minha mãe entrou na sala e viu a minha expressão.
– Ela disse não? – perguntou assustada, vindo ao meu encontro.
– Eu não entendo... – falei sem olhar para ninguém. Estava envergonhado. Olhei para o amigo da família que era juiz.
– Vai dar tudo certo, senhor Theo. – falou o juiz, um senhor de cabelo branco. Suas palavras foram apenas para diminuir a
minha aflição, mas eram cheias de incertezas.
– Fique calmo, meu filho. Ela pediu para eu vir também.
– Ela? – perguntei sem entender.
Ninguém teve coragem de mover de seus lugares. Alguns minutos depois, Sophia entrou no local correndo em minha
direção.
– Eu te amo! Eu te adoro, Theo! Não posso imaginar viver sem você. – ela me abraçou e me beijou sem parar.
– Ah! Você quase fez as minhas bolas caírem de preocupação. – beijei-a esquecendo-me que havia uma plateia.
Quando nos recompomos, Sophia começou a falar.
– Eu precisei me ausentar deste salão porque eu precisava buscar um presente para o Theo. Eu também havia escolhido o
dia de hoje para demonstrar todo o meu amor. E estar aqui com vocês, os mais próximos, foi o momento certo. Obrigada papai
e Theo por me fazerem mudar de ideia sobre este jantar. E obrigada por saber que os dois homens da minha vida escolheram o
anel. Significa muito para mim – sorriu segurando a minha mão. Seus olhos brilhavam como nunca.
Nancy entrou na sala de jantar sorrindo com uma caixa na mão.
– Não precisa comprar nenhum presente para mim, baby. – sussurrei.
– Agora que todos estão presentes. – olhou para minha mãe. – Theo, este é o meu presente para você. Você é o homem que
eu escolhi para viver a minha vida e o meu amor por você é mais forte que qualquer adversidade. Eu te amo! – abraçou-me.
Peguei a pequena caixa branca quadrada de Nancy e coloquei sobre a mesa. Retirei o laço amarelo e abri. Comecei a
chorar copiosamente ao ver o conteúdo. Abracei Sophia e a beijei com tamanha paixão. Eu ri e chorei como um louco de
amor.
– O que houve? – perguntou meu futuro sogro.
– Senhor Roger! Eu serei papai! PAPAI! – segurei os dois sapatinhos de lã que estavam dentro e o cartão que dizia
“Parabéns papai”.
Todos aplaudiram e se levantaram para saudar a mim e a futura mamãe. Eu beijava o rosto de Sophia a todo o momento.
Estávamos emocionados. Não havia espaço para tristeza. Seu Roger e Nancy se juntaram a nós em um grande abraço familiar:
Minha mãe, Sophia, eu, Nancy e Roger. A nova família.
(...)
A cerimônia foi relativamente rápida. Enquanto Sophia passeava com sua irmã, uma empresa de decoração havia sido
contratada por mim e feito todo o adorno, antes delas retornarem, em uma das muitas salas que havia na casa.
Todos estavam felizes e surpreendidos por tantas novidades. Eu seria pai e esposo da mulher que eu mais queria. Ela era o
meu mundo.
Eu continuei com a minha roupa casual e Sophia com o seu vestido. Não precisávamos de mais nada além daquilo.
– Você me tem por completo, Theo. Só quero que saiba isso. – comentou quando assinou os papéis que o juiz trouxe.
– Eu não fiz um casamento na igreja, mas podemos pensar nisso, se preferir.
– Eu não preciso. Quero estar contigo e somente contigo. Não preciso de igreja ou festas para mostrar aos outros o tamanho
dos meus sentimentos. – me beijou castamente.
– Não me canso de dizer que te amo. – falei ao beijá-la castamente. – Eu te amo!
(...)
Nossa viagem de volta a Londres foi regada de amassos no assento do avião. O lugar era para três pessoas e eu fiz questão
de comprar o terceiro para não ter ninguém ao nosso lado espiando, pois eu sabia que meu tesão seria incontrolável daqui por
diante.
– Ah! Para! Alguém pode ver. – cochichou em meu ouvido. Eu a excitava com meus dedos massageando sua vagina por
cima da calça fina. Havia um pequeno cobertor tapando a minha mão. – Ahhh!
Passava a minha língua por sua orelha e mordiscava o seu pescoço depositando beijos no canto de sua boca. Ela havia
aberto o meu zíper e me tocava com força fazendo-me arfar.
– Se a aeromoça passar aqui vai perceber o movimento que você está fazendo com a sua mão. – comentei controlando a
respiração. Estava bom pra caralho!
– Que se dane! É só você fi... Ficar de olho.
– Eu quero te comer neste banheiro que está pertinho de nós, Sophia.
– Então, me coma! – sua voz saiu com uma certeza e não esperei. Seu olhar safado me pegou e eu olhei procurando a
aeromoça.
– Vá na frente! – falei. Sophia imediatamente levantou-se e se dirigiu até a portinha.
Caralho!
Eu fui em seguida arrumando a minha calça. Entrei e tranquei a porta. Era um espaço mínimo. Não tinha como se mover
direito, mas não precisava de muito.
Abaixei a minha calça e Sophia com movimentos de contorcionista retirou a sua calça. Ela se sentou de uma vez em cima do
meu pau e quase gritei de prazer. Ela me beijou para abafar os gemidos. Ela entrava e saía de mim em rápida velocidade.
– Gostosa! – segurei a sua cintura e ajudei no movimento levantando e baixando o corpo dela.
– Ah! Eu vou gozar! Ahh, mais rápido, Theo!
– Vem pra mim, baby! Vem!
Nosso ápice chegou junto e sentimos o prazer sem tirar os olhos um do outro.
– Quero repetir isso sempre. – comentou.
– Acho que tenho uma esposa perfeita! – sorri.
Ela saiu de mim e antes que eu pudesse me retirar ela se virou e abaixou.
– Porra, Sophia! – sua boca já estava em meu membro, chupando com vontade e me deixando louco. Segurei sua cabeça e
puxei o se cabelo para que ela continuasse. – Ah! Que boca gostosa!
– Shhh!
– Vou gozar... – não dá tempo. Ela bebe o líquido que expele de mim e se levanta. – Desculpe-me, meu amor – cochicho.
– Estava delicioso. – falou limpando o resto que estava em seu lábio e sua atitude me faz a empurrar contra a parede
exigindo a sua boca.
– Você vai me matar de desejo! Quero entrar em você de novo. – rosno e com a minha mão procuro a sua abertura e a fodo
com furor. Ela ri, mas logo em seguida está como eu. – Toma, sua safada! – Sophia para abafar novamente o som, morde o
meu pescoço com força. Quando terminamos. Eu me ajeito e saio do banheiro. Não há ninguém do lado de fora, para a minha
sorte e volto para o meu assento e bebo um copo com água.
Alguns minutos depois, ela aparece com um sorriso no rosto.
– Antes de descermos deste avião, vou te chupar aqui. – cuspi a água com a surpresa de sua frase e ela soltou uma
gargalhada. – Estava brincando, amor. Antes que o bebê nasça, teremos muito tempo para isso.
(...)
– Seu filho de uma bela puta! Você não me convidou! – Richard estava puto.
– E você também é Sophia! – Mia falava irritada ao lado de seu boy magia.
– A culpa é só dele. – Sophia apontou para mim. – Eu descobri a gravidez na viagem quando fui e comecei a vomitar
demais. A Nancy me levou para fazer exame de sangue e resolvi fazer a surpresa lá já que a mãe dele não poderia viajar até
aqui.
– E que porra é essa de se casar sem o seu primo do peito?
– Você precisava cuidar da empresa e você estava muito ocupado aqui, não estava? – olhei para Mia que ruborizou. – Não
fique envergonhada, Mia. Eu sei que meu primo é irresistível! – ela fez uma carranca e eu ri.
– Eu serei titia! – Mia sentou-se ao lado de Sophia alisando a barriga. – E qual será o nome do bebê?
– Só saberemos daqui a dois meses quando eu completar quatro meses de gravidez. – Sophia respondeu.
– Eu prometo não fazer mais pizza nem beber enquanto você estiver assim. Vou compartilhar com você este momento.
– Mia, meu Deus! Não precisa, sou eu a grávida!
– A Jéssica vai ficar puta. – comentou Richard.
– E por quê? – atacou Sophia. – Ela perdeu o bebê ou ela tirou? A imprensa é suja e mascara as merdas que ela faz. O cara
se mandou e ela não quis ser mãe solteira. Não sentiu amor por um inocente bebê? Ele não teve nada a ver com a porra das
merdas que ela fez. E eu serei mãe de uma criança e se Theo não estivesse aqui, eu a teria do mesmo jeito!
– Calma, Sophia. Não foi isso que eu quis dizer. – Richard falou com cuidado.
– Desculpe, Richard. – ela ficou mais calma. – Acho que são os hormônios... Estou muito sensível...
– Venha aqui, amor. – puxei-a para a cozinha. – Vamos preparar alguma coisa para os nossos convidados.
(...)
A noite foi ótima. A semana começaria com tudo e precisávamos compartilhar os últimos momentos de férias com nossos
amigos.
A lasanha saiu perfeita. Com duas pessoas na sala, foi impossível aproveitar de Sophia na cozinha e a refeição foi
preparada com rapidez.
– Ah! Já ia me esquecendo, John mandou um presentinho para o bebê. – Mia falou retirando da bolsa uma nota de cem
dólares.
– Que prático! Este é o John! – falou Sophia rindo.
– Ele pediu para avisar que é para comprar algo muito bonito e dizer que foi o tio John que lhe presenteou.
– Ah! Pode avisá-lo que farei isso.
Fechei a cara. Não queria nada daquele cara.
– Nem comece, Theo. – Sophia viu a minha cara.
– Não falei nada. – disse rispidamente. Sophia alisou o meu pau por baixo da mesa e disfarcei calando-me.
Safada!
– Acho que está na hora de irmos. – comentou Richard puxando Mia da cadeira.
– Que isso, cara! Fica mais um pouco. – minha voz saiu diferente.
Merda!
Richard sorriu e balançou a cabeça. – Sophia, prometo comprar um presente assim que souber o sexo da criança.
– Está bem. – falou sem muita emoção. Estava insaciável e sabia que só esperava o casal sair para me atacar.
– Acompanharemos vocês até a porta. – ela levantou. Eu xinguei porque daria para perceber o tamanho da bola no meio da
minha perna.
– Eu preciso ir ao banheiro. Estou muito apertado. – falei levantando-me rápido.
Quando saí do banheiro, eles haviam ido.
– O que aconteceu, amor? – perguntou-me.
– Não se faça de inocente! – falei aproximando-me dela. Sophia deu um passo para trás. – Venha aqui. Você provoca e
agora quer fugir?
Ela riu e saiu correndo para o quarto.
– Você não escapará, senhora Trento! Hoje eu vou acabar contigo a noite toda! – gritei correndo atrás dela.
(...)
– É uma menina, papai! – anunciou o médico naquele dia. Eu tive uma ligeira vertigem e acordei em uma cama na clínica.
Fui acudido por um grupo de enfermeiras que estavam de prontidão em me ajudar.
– Theo, você está bem? – Sophia estava ao meu lado.
– Porra, Sophia! Não posso permitir que urubus da mesma classe que Alexandre ou seu amiguinho John se aproximem de
minha menina quando ela crescer. Como vamos protegê-la de homens assim? – estava aterrorizado e com raiva. Muita raiva.
– Hahaha! Fique calmo. Na hora certa nós saberemos como proceder. Seremos pais presentes. Aprenderemos a ensinar e
tenho certeza que nossa garota nos ensinará e muito sobre a vida.
– Duas mulheres maravilhosas em minha vida, será que existe felicidade maior que essa que estou sentindo?
– Não sei... – riu.
– Este seu riso baixo alimenta a minha alma. É aconchegante escutá-lo, sabia? É como sentir o cheiro de um pão assando na
casa da vovó. Parece que tudo é perfeito e bom. – beijei a palma de sua mão. – Eu te amo tanto.
– Eu também. – sussurrou beijando a minha testa. – Vamos para casa agora. Não aguento mais estas enfermeiras querendo
abrir as pernas para você.
– Ninguém terá coragem de enfrentar uma brasileira.
– Espero mesmo. Você sabe que eu sou louca.
– Eu sei. É por isto que eu te amo e quero que a nossa filha seja como você. – beijei a sua barriga, certo do nome que
daríamos a ela, Leni, o nome da mulher responsável por gerar a melhor pessoa que conheci e que amo mais que a minha
própria vida.
Agradecimentos

A Deus, primeiramente, por me dar saúde física e mental para escrever esta obra. Aos meus pais que me incentivaram a ler
desde pequena e por proporcionarem uma boa educação que culminou nesta aventura da escrita.
Eu não posso nomear a todos em apenas algumas linhas (são muitas pessoas), mas mesmo assim agradecerei a Tanielly
Sommer Guedes, Rosemeire Molan, Estelita de Freitas, Amanda Lopes, Luciana Sakamoto, Erika Nakatu, Celia Fuji, Barbara
Caroline Pinheiro, Kessia Gadelha Nogueira, Daniela Guimaraes, a autora Carlinhah Santos, as amigas da Bienal Carol
Rabello, Paula Pilar, entre tantas pessoas que me incentivaram a continuar. Agradeço também aos meus professores e aos
meus queridos leitores. Sem vocês, não existiria força para chegar até o final deste romance. Não posso esquecer-me dos
grandes autores que me inspiraram com suas histórias de mistério, romance e aventura e a todos vocês que fizeram parte direto
ou indiretamente de minha vida. O meu sincero agradecimento: Obrigada!
A autora

Mia Klein conheceu o mundo dos livros através das revistinhas da Turma da Mônica. Depois desta viagem infantil, pôde
conhecer – em sua adolescência – os livros do renomado autor brasileiro Pedro Bandeira. Desde então, não parou mais de ler.
Seus principais estilos de leitura são mistério, romance, erótico, literatura feminina, distopias e sobrenatural.
Nasceu em Brasília em 1983 e atualmente mora no estado de Minas Gerais.
Sua primeira experiência como escritora começou agora, após adulta. Amor em Londres é o seu primeiro romance.
Table of Contents
Sinopse
Capítulo 1 – Mudança
Capítulo 2 – Desastres... Desastres
Capítulo 3 – Amores.
Capítulo 4 – Alexandre.
Capítulo 5 – Aeroporto.
Capítulo 6 – Boate
Capítulo 7 – Entrevista
Capítulo 8 – ARTVT
Capítulo 9 – Paige.
Capítulo 10 – Marketing Sênior.
Capítulo 11 – Brigas.
Capítulo 12 - Mulher difícil.
Capítulo 13 – Festa.
Capítulo 14 – Resultado.
Capítulo 15 – A Reunião.
Capítulo 16 – A vida continua.
Capítulo 17 – Nada de desculpas.
Capítulo 18 – Pub.
Capítulo 19 – Projeto.
Capítulo 20 – Surpresa.
Capítulo 21 – Biotrônics.
Capítulo 22 – Atração?
Capítulo 23 – Brincadeira de mau gosto.
Capítulo 24 – O Baile.
Capítulo 25 – Semana seguinte.
Capítulo 26 – Conversas privadas.
Capítulo 27– A viagem
Capítulo 28 – Demissão.
Capítulo 29 – Sofrimento.
Capítulo 30 – Final.
Epílogo
Agradecimentos
A autora