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SELF-LIBERATION: a guide to strategic planning for action to end a

dictatorship or other opression

SHARP, Gene. Self-Liberation: a guide to strategic planning for action to end a dictatorship
or other opression. Boston: The Albert Einstein Institution, 2009.

Manifestantes e dissidentes políticos em geral constituem uma minoria que entra em conflito
não apenas com os governantes, mas também com vastos setores da sociedade civil. Dessa
forma, suas ações precisam ser altamente estratégicas para que consigam alcançar resultados
efetivos e eficazes. Para que isso seja possível, os argumentos dos desobedientes devem ser
apresentados de forma que qualquer pessoa seja capaz de compreendê-los e aceita-los.
(MACFARLANE, 1971, p. 12). Nesse sentido, o planejamento estratégico empregado na ação
desobediente deve levar em consideração os valores e crenças da sociedade na qual a
desobediência política será realizada para que os argumentos apresentados pelos desobedientes
os contenham. USAR.

Para Sharp (2009, p. 1) ditaduras não são as únicas grandes formas de opressão, de
maneira que, sistemas de opressão social e econômica também existem. Em tais situações cabe
à população definir se deve simplesmente condenar o regime opressor, protestando contra o
sistema ou se se deseja substitui-lo por um sistema democrático que ofereça maior liberdade e
justiça. Segundo o autor, é comum as pessoas presumirem que se elas protestarem por tempo
suficiente ou se denunciarem o sistema opressor de maneira forte o suficiente, a mudança por
um regime democrático irá acontecer. No entanto, tal suposição é uma falácia, pois, para o
autor, implementar ações efetivas, assim como suspender sistemas opressivos, é sempre uma
tarefa árdua, que demanda profundo planejamento e estratégia. Ainda mais se consideramos
que quaisquer tentativas de derrubar um governo ditatorial ou um sistema opressivo são
severamente reprimidas.
O autor faz uma crítica àqueles sujeitos que ele mesmo qualifica como
“revolucionários”, para quem o sistema de dominação só pode ser removido ou retirado do
poder permanentemente se seu próprio grupo de “guardiões” ganhar controle sobre o aparato
estatal, usando-o em conjunto com os sistemas de administração e repressão para refazer a
sociedade da forma que eles acreditam que deve ser. (SHARP, 2009, p. 2).
A busca pela libertação de um regime ou de um sistema de opressão nunca é fácil. Sharp
(2009, p. 3) nos apresenta algumas possibilidades de resistência que podem ser utilizadas, tais
como eleições populares, rebeliões violentas (ou até mesmo a guerra de guerrilha ou
terrorismo), golpes de estado et cetera. Entretanto, o autor elenca uma série de problemas que
envolvem essas escolhas: eleições populares, embora capazes de alcançar a maioria requerida
para que se instale uma sociedade politicamente livre, raramente são uma opção, podendo
também ser simplesmente ignoradas ou ter seu resultado alterado ou falsificado; ações de
guerrilheiros e terroristas tendem a promover uma repressão esmagadora, podendo, ainda que
bem sucedido, instaurar uma ditadura ainda maior; golpe de estado, por sua vez, geralmente irá
falhar, instaurando novos sujeitos em velhas posições.
Segundo Sharp (2009, p. 5) importantes lutas não-violentas1 espontâneas e improvisadas
contra ditaduras e outras formas de opressão já foram realizadas com sucesso no passado,
produzindo uma infinidade de resultados que vão desde a falha até a derrubada do sistema ou
governo contra o qual elas se dirigiam. Em verdade, elas têm enorme potencial para se tornarem
uma alternativa de resistência viável tanto em face da violência quanto da submissão passiva.
Para o autor (2009, p. 6) “[...] strategically planned nonviolent struggle appears to be a
serious option in efforts to achieve a more democratic, free, and just system.” Entretanto, para
o autor, mudanças radicais e profundas que pretendam alterar o status quo e transformar
sistemas e ordens já consolidadas dificilmente acontecerão com o simples protesto e afirmação
de um objetivo. Para que uma verdadeira transformação ocorra, ações estrategicamente efetivas
e sensatas são necessárias.
O planejamento estratégico pode contribuir de maneira significativa para a
concretização efetiva das lutas não-violentas, levando a resultados mais concretos e eficazes do
que protestos e resistências sem ele. Principalmente quando se contempla as possibilidades do
que pode vir a acontecer após o conflito inicial, o que demanda enorme consideração inicial e
planejamento para a nova ordem política pós-conflito. (SHARP, 2009, p. 6).
Segundo Sharp (2009, p. 14) é tão possível quanto desejável promover a organização e
o planejamento antecipado de lutas e protestos não-violentos a fim de torná-los mais efetivos.
Segundo o autor, experiências passadas nos mostram exatamente isso: podemos citar como
exemplo os boicotes a ônibus e os “sit-ins” em lanchonetes e restaurantes ocorridos nos Estados
Unidos durante o movimento por direitos civis nas décadas de 60 e 70.

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Podemos compreender como exemplos de lutas não-violentas protestos públicos, atos de não-cooperação e
intervenções disruptivas. (SHARP, 2009, p. 5).
São frequentes os casos de completa ausência de cálculos estratégicos ou de
planejamento inadequado, que contribuem enormemente para a limitação do sucesso atingido
e até mesmo para o aumento do número de vítimas. O planejamento estratégico mais completo
pode ajudar a aumentar a efetividade de futuras ações não-violentas contra opressões extremas.
Deve-se ressaltar, ainda, que a utilização de conselheiros ou orientadores estrangeiros ou
estranhos aos movimentos de resistência pode ser não aconselhável, para que as pessoas que
enfrentam ditaduras e outras formas de opressão possam aprender a planejar elas mesmas
estratégias auto-confiáveis de romper a opressão. (SHARP, 2009, p. 15).
A esse respeito Sharp (2009, p. 15) nos conta que apresentações escritas tais como
panfletos e livros, assim como estudos cuidadosamente dirigidos parecem apresentar resultados
mais contundentes, uma vez que podem ser lidos em qualquer lugar, a qualquer momento, por
qualquer pessoa que deseje fazê-lo. Para o autor, apresentações orais podem incorrer em
compreensões mais limitadas sobre o tema, além de produzir uma forte tendência ao elitismo
(apresentações e materiais impressos possuem maior potencial de disseminação de
conhecimentos). Segundo Sharp essa forma de transmissão de saberes, se seguida
cuidadosamente, pode proporcionar também a emancipação de pessoas e grupos na medida em
que os permite serem capazes de preparação auto-suficiente para estratégia.
Inclusive, Sharp adverte que os estudos e planejamentos recomentados em sua obra
podem apenas produzir resultados positivos quando os novatos a essa abordagem para o
empoderamento fizerem desses estudos seu próprio conhecimento, expandindo-os com suas
práticas e conhecimentos próprios. (SHARP, 2009, p. 16).
Segundo Sharp (2009, p. 16) são três os tipos de conhecimento necessários para permitir
que pessoas desenvolvam uma estratégia competente o suficiente para alcançar uma luta
libertária de sucesso. O primeiro deles é o conhecimento da situação de conflito, com a
identificação dos oponentes, da sociedade e das necessidades desta última. O segundo é o
conhecimento da natureza e da técnica das ações não-violentas. Por fim, o terceiro e último é o
conhecimento e habilidades necessárias para analisar, pensar e planejar estrategicamente. O
autor considera insensata e potencialmente desastrosa qualquer tentativa de derrubar o governo
ou sistema opressor que não leve em consideração essas três formas de conhecimento.
O conhecimento sobre a situação conflituosa, dos oponentes e da sociedade de maneira
geral geralmente está presente naqueles indivíduos que vivem sob um regime ditatorial. Isso
permite que essas pessoas tenham um potencial de poder, ou seja, a capacidade e os meios que,
se mobilizados e aplicados, podem conferir poder a um grupo em eventual conflito.
Compreender a situação no país ou na comunidade oprimida pode ser útil para medir e comparar
as forças do sistema opressivo e do movimento que pretende instaurar a democracia. (SHARP,
2009, p. 18).
A estimativa estratégica objetiva analisar os pontos fracos e os pontos fortes e os meios
e as fontes de poder de cada uma das partes envolvidas no conflito. Isso permite que o
movimento de resistência avalie as consequências e os resultados do uso desses poderes em um
confronto direto.
A estimativa estratégica é de extrema importância porque nos permite pensar em
maneiras de alterar ou mudar os pontos fracos e fortes de cada uma dessas partes 2. Ter
consciência dos meios de violência repressiva e de outras formas de controle que o oponente
pode utilizar é altamente desejável, devendo, este conhecimento, ser empregado no
planejamento estratégico de eventuais conflitos. É necessário, portanto, considerar e avaliar
com extrema cautela as medidas repressivas sociais, econômicas, políticas, físicas e
psicológicas de reação empregadas pelo sistema opressor que é desafiado, pois, não raro, as
insurgências e desafios à ordem opressora são recebidos com extrema violência e brutalidade.
(SHARP. 2009, p. 19).
O conhecimento sobre a natureza da técnica da ação não-violenta, embora altamente
relevante, é geralmente mal compreendido e pouco conhecido. Para Sharp (2009, p. 19) as lutas
não-violentas podem ser tão simples quanto complexas, dependendo sempre das circunstâncias
em que ocorrem. Segundo o autor, os grupos e manifestantes que desejam aplicar esse método
de resistência devem previamente estudá-lo detalhadamente para fazer uma preparação que seja
sensata e eficaz.
O conhecimento que confere a habilidade para pensar e planejar estrategicamente leva
ao cálculo das ações que são empregadas pela luta não-violenta e que podem, de fato, alterar a
situação de opressão. Sharp (2009, p. 26) nos conta que para aumentar nossa capacidade
precisamos i) estudar com afinco as recomendações para planejar estratégias; ii) pensar por nós
mesmas; iii) nos preparar para assumir a responsabilidade; iv) desenvolver nossas habilidades
de pensar estrategicamente e de planejar estratégias com competência.
Segundo Sharp (2009, p. 27) pensar estrategicamente significa saber calcular
realisticamente como atingir os objetivos necessários à derrubada do regime ou do sistema
opressor. Alcançar um objetivo que é almejado a longo prazo requer, consequentemente, a

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Para Sharp (2009, p. 25) o potencial de poder e o poder efetivamente mobilizado constantemente se alteram
durante o curso de um grande conflito não-violento. Dessa forma, é necessária que constante atenção seja dada a
esse respeito para que se possa balancear ambas as forças entre os oponentes. O autor considera de significante
importância conduzir uma nova estimativa estratégica nesses casos, para que se possa planejar e desenvolver os
planos para a fase seguinte do conflito.
atenção às pequenas ações que ocorrem em um conflito de que perpassa uma quantidade
substancial de tempo. De maneira semelhante, o planejamento deve incluir como o conflito irá
começar, como as atividades se desenvolverão e como as sub-estratégias e campanhas
individuais por demandas específicas devem contribuir para o alcance da meta final.

Estratégia em relação às fontes de poder do oponente

Para Sharp (2009, p. 27) o planejamento estratégico requer a identificação das fontes de
poder do oponente para que aqueles que constituem o movimento de resistência possam, quando
a oportunidade se fizer (ou for feita), reduzir o fornecimento dessas fontes. O autor nos conta
que na Sérvia, quando o movimento de resistência estava tentando derrubar o governo ditatorial
de Milosovic, Srdja Popovic e seus colegas identificaram seis fontes de poder de qualquer
governante. São elas:

1. Autoridade (legitimidade)
2. Recursos humanos
3. Habilidades e conhecimento
4. Fatores intangíveis
5. Recursos materiais
6. Sanções (punições)

O fornecimento aos governantes de todas essas fontes de poder é possível pelo suporte,
pela assistência, pela obediência e pela cooperação da população e das instituições que a
constituem, que são chamados pelo autor Robert L. Halvey de pilares de suporte. É interessante
ressaltar que esse fornecimento não é garantido, podendo variar por uma miríade de razões,
inclusive por uma alteração que seja deliberada. Quando esses pilares se tornam não confiáveis,
o regime ou sistema opressor torna-se enfraquecido. Caso eles sejam cortados, há a
possibilidade de o sistema ou regime se desintegrar.
Para Sharp (2009, p. 28) um grande fator na formulação de estratégias é o teste de se
cada campanha de resistência irá enfraquecer ou fortalecer o poder do oponente. Isso significa
avaliar possíveis estratégias e objetivos presentes em campanhas e em atos com intenções
específicas.
Deve-se observar, também, o balanço na dependência entre os lados oponentes, ou seja,
se a distribuição de dependência será afetada por alguma campanha. Sharp (2009, p. 28) define
o boicote como ações de não-cooperação social, econômica e política. De acordo com o autor,
essas ações podem ser altamente eficazes quando tem como consequência o corte ou o
enfraquecimento das fontes de poder do oponente. No entanto, deve-se prestar atenção se tais
ações não afetarão também as fontes de poder do movimento de resistência.

Ajuda externa e autonomia

Aquelas pessoas ou grupos envolvidos nas lutas libertárias não-violentas


ocasionalmente podem procurar ajuda externa quando consideram seus conhecimentos e meios
de resistência insuficientes. Sharp (2009, p. 22), no entanto, nos alerta para alguns perigos
envolvidos nessas situações hipotéticas. Não raro, recursos externos não possuem profundo
entendimento da situação particular de conflito naquela região ou país específico, não
compreendendo, portanto, as circunstâncias políticas ou históricas locais, podendo oferecer
conselhos impraticáveis ou insensatos.
Para o autor, outro argumento contra a aceitação impensada de auxílio externo é o fato
de que tais ajudas não são de forma alguma empoderadoras. Ao contrário, elas fazem criar um
vínculo de dependência entre os movimentos de resistência e aqueles que se dispõem a ajudar.
Interessante ressaltar que a assistência em geral é oferecida por indivíduos, organizações e
agências de inteligência que possuem interesse próprio e cujo objetivo nem sempre é o mesmo
daqueles que provem a luta libertária. (SHARP, 2009, p. 22).
Por fim, Sharp (2009, p. 22) nos conta que a ajuda externa pode ser motivada por outros
objetivos que não a derrubada do sistema opressor, podendo, até mesmo, substituí-lo no futuro.
A aplicação da luta não violenta fortalece e ajuda a criar instituições independentes que
estejam fora do alcance do poder do estado e que podem servir como base para a resistência
organizada. Tais grupos e instituições são chamados por Sharp (2009, p. 26) de loci de poder.
São “lugares” onde o poder reside e a partir dos quais ele pode ser aplicado.
Os loci de poder aos quais Sharp (2009, p. 29) se refere são comumente chamados de
sociedade civil. Ao prepara o planejamento e as estratégias a serem utilizadas nos conflitos e
nas lutas não-violentas, é importante conferir consideração a essas instituições que não estão
sob o controle das estruturas estatais. Eles podem ter propósitos e objetivos diversos, que não
sejam exclusivamente políticos, mas cujo potencial de poder pode esclarecer a população
(através da educação), pode abalar os sistemas e as estruturas (através da não-cooperação) e
pode também acabar com a opressão (através da desintegração da administração e da coerção
oponente). Para Sharp (2009, p. 30) a criação e o fortalecimento dos loci de poder deve ser uma
prioridade na luta a longo prazo, pois sua ausência representa uma enorme fraqueza para os
movimentos de resistência.
Embora crenças sejam compatíveis com a realidade, Sharp sugere a utilização de uma
abordagem que seja simultaneamente pragmática e estratégica. O planejamento sensato pode
ajudar a manter baixas casualidades e a evitar métodos que transformam seus agentes ou
manifestantes em alvos fáceis para a força policial opressora

Autonomia e empoderamento

Segundo Sharp (2009, p. 35) não são raras as vezes em que uma população que vive sob
alguma forma de opressão se sente incapaz ou sem poder suficiente para combater o sistema
que a domina. Em consequência, as pessoas nessa situação procuram viver suas vidas da melhor
maneira possível, transformando a população de oprimidas em uma massa passiva. Tal
condição é comumente denominada de apatia, mas o referido autor a chama de helplessness.
A esse respeito Sharp (2009, p. 36) nos conta que, em tais condições, se a população se
propõe a lutar e a realizar ações que estejam além de sua capacidade, é de fato provável que a
derrota acontecerá, impedindo-os de agir novamente por um bom tempo. Entretanto, existem
uma miríade de ações de menor alcance que podem ser empreendidas, o que acarretará também
no aumento da autoestima para a realização de lutas cada vez maiores. O autor cita como
exemplo o apartheid ocorrido no Sul da África: durante uma fase crucial do conflito era
impossível mobilizar toda a população para se lutar contra o regime. Em vista dessa
impossibilidade, os africanos criaram organizações civis para lutar por objetivos limitados,
como o direito a água potável, por exemplo. Uma vez que tais movimentos trouxeram resultados
positivos, por suas próprias ações os sul africanos foram capazes de se empoderar, ganhando
confiança para alcançar objetivos cada vez maiores.
A lição que pode ser tirada da experiência sul africana é que na luta contra grandes
opressões é aconselhável lutar por objetivos específicos que representem uma grande parte do
problema. E tal objetivo específico deve ser justificado de forma óbvia. (SHARP, 2009, p. 36).
Segundo Sharp (2009, p. 37) o poder daqueles que resistem deve se concentrar nos pontos
fracos dos oponentes. Ações limitadas e restritas têm o condão de empoderar a população ao
mesmo tempo em que elimina problemas específicos. Trata-se de tornar a população consciente
de seu próprio potencial de poder.
Para Sharp (2009, p. 39) o objetivo é explorar como as pessoas podem ir além de
experiências passadas, sem depender, para tanto, de políticos messiânicos que podem nunca
chegar, ou nunca ser inteligentes ou sensatos.

Já no início de uma longa luta por libertação devemos promover pequenas ações que
tenham em vista objetivos específicos. Tais ações devem envolver baixo risco e realizadas em
um curto período de tempo. Elas podem atrair a atenção para a causa sem colocar em risco seus
participantes. Ao longo no desenvolvimento do conflito, tanto a escala das ações quanto a dos
objetivos podem ser expandidas. (SHARP, 2009, p. 38).
A derrubada de um regime ditatorial ou de outro sistema opressor não necessariamente
precisa produzir um novo sistema que seja quase perfeito. A própria superação do regime ou
sistema já pode ser considerada um enorme avanço em relação ao status quo. Deve-se ter em
mente que a nova ordem política pode ser aperfeiçoada com o tempo, permitindo melhoras a
medida em que vá se consolidando e estabelecendo, como requerido pelas necessidades e pelas
decisões populares.