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O Cérebro e o Acocho

Eu, aparentemente, cobro demais. Eu sei disso, mas isso é só se eu for comparado
com outros professores que não exigem tanto. Porém, não cobro nada que você
não possa fazer. Na verdade, a maior cobrança está em você, no ato da mudança
em você mesmo. Mudar é uma coisa muito difícil, pois brigamos com todas as
nossas crenças internas. Mudar exige novos comportamentos, e se queremos
melhorar, devemos mudar, pois melhorar é mudar para melhor. É incoerente,
insano mesmo, achar que iremos melhorar, ou seja, ter resultados diferentes e
melhores, se continuarmos a fazer as mesmas coisas.

Entendendo melhor, nosso cérebro é programado para nos proteger e uma das
principais funções dele é reter e economizar o máximo possível de energia, ou seja,
ele não gosta de desperdiçar energia, pois ele pode precisar dessa energia para
salvar a sua vida. Por exemplo, se você vir que tem um tigre correndo em sua
direção, seu cérebro entra em estado “Salvem-se quem puder”, e neste estado ele
libera uma grande quantidade de adrenalina no seu sangue. Desta forma seus
músculos ficam tensos, a pupila do olho se dilata e as veias também, para levar
mais oxigênio para os músculos, e você gasta uma grande quantidade de energia
correndo com mais velocidade, atenção e equilíbrio. O cérebro permite tal gasto de
energia, pois sabe que sua vida está em jogo, mas quando você quer fazer algo
novo, como estudar, por exemplo, o seu cérebro entende que isso não é necessário
para salvar sua vida, e fica lhe sabotando. Ele quer manter a sua rotina diária.

A sabotagem cerebral passa por algumas fases, são elas:

A 1ª- Se você quer estudar algo, o cérebro quer que você não faça o que tem que
ser feito e você fica sempre adiando, ou seja, procrastinando. Ele quer evitar gastar
mais energia, da sua rotina, com algo novo. Você deixa de fazer as coisas
importantes para fazer as urgentes. Tudo passa a ser prioridade, menos as coisas
que realmente são importantes.

As coisas importantes são aquelas que podem mudar, pra melhor, a sua vida e as
urgentes é tudo que você cria, atrai e coloca na sua vida pra não fazer as
importantes, entende isso? Você “precisa” comprar um prato novo e, claro, tem que
trabalhar pra pagar esse prato. “Precisa” ir à padaria, na farmácia, “precisa” assistir
o novo filme do Capitão América, “precisa” ir pra tal show. “Precisa” isso e aquilo,
“precisa”, até, fazer coisas que não lhe dão dinheiro, mas nunca fazer as coisas
importantes. Você fica criando e atraindo situações para não estudar.

A 2ª- Você se convence que tem que estudar e pra dominar o cérebro, você se
motiva, porém a motivação vem em um “pote” pequeno. Você faz o que tem que
ser feito mas isso dura pouco, dias, semanas ou meses, mas você não conclui o que
tem que ser feito. Muitas vezes você faz uma parte do que tem que ser feito, isso
lhe dá uma satisfação momentânea, mas você termina voltando para a zona de
conforto e para de fazer o que é importante para a sua vida.

A motivação é o dinheiro do cérebro e, o que dá mais prazer pra você? Tocar, claro.
Tocar, até, gratuitamente, e isso é muito bom, não? Ficar num quarto, sozinho,
com o povo da casa pedindo para você parar de fazer barulho, é chato demais.
Estar sob os holofotes, ser “O Artista”, é a sua droga natural, a liberação de
Dopamina pelo cérebro é automática e ela atua em todo o corpo trazendo grande
prazer, em doses mais elevadas ela chega a viciar. Isso explica do por que querer
tocar o tempo todo. Seu cérebro já sabe que isso é muito bom.

A 3ª- Esta é a fase mais difícil de ultrapassar. É nela que dizemos ao nosso cérebro
que aquele novo hábito é muito importante, que nos dá muito prazer, que não deve

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ser negligenciado e que ele deve ser incorporado na sua rotina. O cérebro vai fazer
de tudo para lhe parar, pois ele sabe que a motivação é pouca e não dura muito.
Lembre-se que ele não quer gastar mais energia além da que já gasta.

Entenda o processo: Você começa a fazer algo novo (1ª fase), como estudar, por
exemplo. Você sabe que deve transformar esse algo novo em um hábito e se
motiva com a possibilidade de transformação e ganhos futuros (2ª fase), mas
depois de um tempo a motivação acaba e as coisas urgentes, criadas por você,
tomam conta de seu tempo, talvez você já toque, grave, ganhe dinheiro com o que
faz. Todas as pessoas, a sua volta, elogiam você... Será que eles estão errados?
Bem, antes que você se encha de compromissos urgentes, você deve estudar além
do esperado. Não muito, cerca de 10 a 30 minutos a mais, pois desta forma você
estará dizendo a seu cérebro que aquilo é muito importante para você e que lhe dá
prazer, e ele terá que ceder. Você também deve vibrar, comemorar mesmo, por
cada exercício feito e concluído da forma correta. Entende como isso é forte para o
seu cérebro? Você se lembra do prazer que teve ao concluir um exercício de forma
perfeita? Você estava, neste momento, dizendo para seu cérebro, “Isto é muito
bom”.

Você está na 2ª fase, motivado, estudando 1 hora por dia e decide estudar mais 15
minutos. O seu cérebro vai reclamar dizendo: “Poxa! Você já fez sua parte. Pra que
fazer mais?”. Neste momento ele vai tentar de tudo para você não estudar mais,
chega a ser dolorido esse processo (3ª fase), ele espera que você fique estudando
1 hora por alguns dias e quando a motivação acabar você pare de gastar essa
energia, mas você responde a ele: “Eu tenho que estudar um pouco mais, pois o
exercício não está como deveria ser e concluí-lo da forma correta me dá muito
prazer”. Você agora está estudando 1 hora e 15 minutos e decide estudar mais 15
minutos... O processo se repete e você decide estudar mais 30 minutos, e depois
de alguns dias mais 30 minutos, assim por diante.

Eu sempre digo que estudava 6 a 8 horas diárias, mas não comecei assim. Fui
aumentando gradualmente, pela necessidade de deixar os exercícios mais
lapidados, no nível que eu desejava. Eu não conhecia esse processo, mas queria o
Nível de Excelência, e neste ponto o cérebro entende que executar algo no Nível de
Excelência traz um prazer incalculável, e não se trata, apenas, do lado técnico, mas
de conhecer e dominar profundamente a área de atuação que você está inserido,
ser um especialista no assunto, no nosso caso, Música. Do mesmo jeito que você
mostrou ao seu cérebro que tocar é muito bom, que lhe traz um grande prazer,
mostre a ele que estudar é melhor ainda.

Uma das características do seu cérebro é a Plasticidade, ou seja, a partir do


momento que você vence todas as fases de sabotagem do seu cérebro, ele cede e
aprende que aquele novo hábito é algo prazeroso e necessário para você. Ele
entende que a energia usada neste novo hábito é um investimento, e não um
gasto, ele adequa o uso dessa energia a sua rotina comum. A mágica acontece, e
ele, até, sente falta se você não praticar este novo hábito.

O cirurgião plástico americano Maxwell Maltz observou, na década de 1960, que


seus pacientes levavam em média 21 dias para começar a notar as mudanças
depois de um procedimento cirúrgico. Estudos mais recentes mostraram que,
dependendo de certos fatores, isso pode levar a mais de 100 dias, mas a média é
de 66 dias, para se formar um hábito. Os fatores que levam você a formar um
hábito, para atingir uma grande meta, são um propósito forte, uma atuação focada,
para não perder tempo com coisas que não levam você ao seu objetivo e uma
realimentação constante da sua motivação.

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Se você quer ser um ótimo músico, você deve replicar o que os grandes músicos
fazem, ou seja, copiar o comportamento desses músicos. Agora observe, você não
vê ótimos músicos tocando 6 a 8 horas por dia, mas vê eles estudando essa
quantidade de horas, ou mais, para tocar uma vez por semana ou menos. Estudar
6 a 8 horas por dia levou esses músicos para o Nível de Excelência e,
principalmente, os mantém neste nível. Eles sabem que para serem chamados para
tocar em grandes shows, gravarem grandes discos, estarem ao lado de grandes
músicos e ganharem grandes cachês, eles devem estar no nível desses trabalhos,
ou seja, no Nível de Excelência. Se como grandes músicos, eles estudam muito
mais do que tocam, eles são estudantes maiores ainda. Ser um grande estudante é
o grande segredo desses grandes músicos, percebe isso? Acorda...

Se você tem um propósito forte, você não perde tempo só conversando na sala de
aula, você deve fazer TODOS os exercícios e mostra-los, para que eu possa,
olhando de fora, dizer o que está faltando. Desta forma, você irá melhorar sua
atuação a cada aula e, note, não se trata de fazer mais uma lição, mais um
exercício ou mais um método, mas de mostrar cada exercício e saber como ele
deve ser pensado, sentido e executado. Essa é a grande diferença e isso não está
nos métodos. Só um professor competente, com experiência e conhecimentos nas
diversas áreas de Música, poderá fazer essas observações e orientações, e elas
serão personalizadas, ou seja, serão feitas de forma assertiva e abrangente pra
resolver algo que você está fazendo, de acordo com a maneira como você está
fazendo, naquele momento específico.

Você paga para estar na sala de aula. Paga a passagem de ônibus ou a gasolina do
carro, paga a mensalidade do curso e, principalmente, paga o tempo investido, ou
perdido. Você quer paga pra bater papo? Pra mostrar um ou dois exercícios? Cada
exercício que não é mostrado na aula é um momento jogado fora, uma
oportunidade perdida e o tempo voa.

Bem, mas se seu propósito é tocar, em bandas de bailes, músicas mais simples,
você não precisa estar numa escola de Música. Você está perdendo o seu tempo,
seu dinheiro e se chateando com cobranças que não lhe dizem respeito. Assuma a
sua condição e saia do Conservatório. Deixe essa sua vaga para quem quer ser um
profissional competente no Nível de Excelência, pra quem sabe o valor do que
significa estudar. Existem várias bandas, bandas de baile, orquestras de frevo,
estúdios e outros lugares precisando de bateristas. Alguns desses lugares não irão
lhe remunerar, mas lhe darão a rica oportunidade de estar tocando. O
Conservatório de Música é uma escola de Música e escola é lugar de estudantes e
só ir para a aula não torna ninguém estudante. Saia do Conservatório e vá ser feliz,
siga seu propósito de vida, sem nenhum resquício de culpa ou ressentimentos. Eu
não quero você se martirizando e sofrendo por ter que fazer o que você não quer e
não gosta. Repito, se seu propósito de vida é só tocar, invista seu precioso tempo
para aprender e treinar o repertório de alguma banda. O Conservatório não é o seu
lugar. Simples assim, sem mágoas. Isso é muito importante.

Esse texto é, apenas, para relembrar o que já foi dito nos mini-cursos de Coach e
de Reprogramação Mental, nos livros que mandei e nos textos que escrevi
anteriormente. Fica como um incentivo a você rever esse material e refletir sobre
esse atual momento na sua vida, além de mostrar como fazemos para adquirir
novos hábitos, dominar nosso comportamento e evoluir como pessoa e
profissionalmente. SEJAMOS FELIZES.

Jediel Dutra – 30/8/2016.