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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2018.0000271048

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação nº


1004614-38.2016.8.26.0562, da Comarca de Santos, em que são apelantes RILDO
FERREIRA DA SILVA e MARIA JOSÉ DE ARAÚJO SILVA, é apelado MRM PONTA
DO SOL EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS LTDA..

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 3ª Câmara de Direito Privado do


Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Negaram provimento ao
recurso. V. U., de conformidade com o voto do relator, que integra este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores DONEGÁ MORANDINI


(Presidente) e BERETTA DA SILVEIRA.

São Paulo, 17 de abril de 2018.

Carlos Alberto de Salles


Relator
Assinatura Eletrônica
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

3ª CÂMARA DE DIREITO PRIVADO

Apelação nº: 1004614-38.2016.8.26.0562


Comarca: Santos
Apelante: Rildo Ferreira da Silva e outro
Apelado: MRM Ponta do Sol Empreendimentos Imobiliários Ltda.
Interessado: Abyara Brokers Intermediação Imobiliária Ltda.

Juiz sentenciante: Luciana Castello Chafick Miguel

VOTO Nº: 14435


COMPROMISSO DE COMPRA E VENDA. Rescisão c/c
restituição em dobro dos valores pagos e indenização por
danos morais. Insurgência dos autores contra sentença de
improcedência. Manutenção. Não obstante o atraso inicial da
construtora, no que se refere à entrega da documentação
necessária, é certo que os autores estão na posse do imóvel
desde 2013, mediante o pagamento apenas do sinal e que,
mesmo após a regularização das pendências em 2015,
quedaram-se inertes no que tange ao pagamento do saldo
devedor. Licitude da incidência de correção monetária porque se
trata de mera recomposição do valor da moeda. Precedentes.
Adimplemento substancial da construtora impede a rescisão do
contrato nos termos pretendidos pelos autores. Improcedência
mantida. Recurso não provido.

Trata-se de recurso de apelação tirado contra a r.


sentença de ps. 401/408 e 418/419, proferida pela MM. Juíza de
Direito da 7ª Vara Cível da Comarca de Santos, que julgou
improcedentes os pedidos, condenando os autores ao pagamento das
custas processuais e dos honorários advocatícios fixados em 10% sobre
o valor da causa.
Pleiteiam os apelantes a reforma do julgado,
alegando, em síntese, que houve descumprimento contratual por parte
da vendedora porque os documentos necessários para que obtivessem
o financiamento, que deveriam ter sido apresentados em 2013, só
foram apresentados em 2015, implicando majoração de 30% do valor
devido. Pretendem, portanto, seja rescindido o contrato, com a
devolução dos valores pagos.
Apresentadas as contrarrazões (ps. 438/441), os
autos foram encaminhados à conciliação, a pedido das partes, sem
sucesso, todavia (p. 453).
Autos em termos de julgamento.
É o relatório.
Cuida-se de ação de rescisão contratual combinado
com pedido de restituição em dobro dos valores pagos e indenização

Apelação nº 1004614-38.2016.8.26.0562 -Voto nº 2


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por danos morais supostamente sofridos pelos compromissários


compradores pelo atraso na entrega do imóvel, além do
descumprimento por parte da vendedora no que tange à apresentação
dos documentos necessários para a realização do contrato de
financiamento bancário.
Inconformados com a improcedência dos pedidos,
insurgem-se os autores nesta oportunidade, limitando-se a pleitear a
rescisão do contrato combinado com a restituição dos valores pagos,
deixando de requerer a restituição em dobro e a condenação da ré ao
pagamento de indenização por danos morais.
Mesmo assim, não lhes assiste razão.
Na cláusula segunda do contrato celebrado entre as
partes, em 19/01/2013, há menção expressa acerca da existência de
débitos vinculados no nome da vendedora, comprometendo-se ela à
solução das pendências e entrega dos documentos até 28/02/2013.
É incontroverso que a documentação só foi entregue
em 2015 e, portanto, houve atraso cuja responsabilidade deve ser
imputada à construtora ré.
No entanto, os autores não pleitearam a rescisão do
contrato durante o atraso, nem quando regularizadas as pendências e
apresentadas a documentação. Destaca-se que outros compradores,
que estavam em idêntica situação dos autores, reconhecerem em Juízo
que celebraram o contrato de financiamento e registraram a
propriedade do imóvel no início de 2016.
Os autores, todavia, quedaram-se inertes, usufruindo
da posse do bem desde julho de 2013, até que foram instadas pela
construtora para pagamento do saldo devedor.
Alegam, agora, que o decurso do prazo contratual
tornou insuportáveis as prestações.
No entanto, ainda que a responsabilidade pelo atraso
inicial (de 2013 a 2015) seja imputada à construtora ré, não há
irregularidade na atualização monetária do saldo.

Nos termos do art. 395 do Código Civil, quem


responde pelos prejuízos da mora é o devedor em mora, não podendo
ser esse ônus transferido para quem cumpriu regularmente suas
obrigações. Mas a correção monetária corresponde apenas à reposição
do valor da moeda à época da celebração do negócio jurídico, como tem
reiteradamente decidido o E. Superior Tribunal de Justiça1.

A propósito:
1
Cf. REsp 1062672/RS, Rel. Ministro MAURO CAMPBELL MARQUES, SEGUNDA TURMA, julgado em
14/09/2010, DJe 06/10/2010.
Apelação nº 1004614-38.2016.8.26.0562 -Voto nº 3
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“AÇÃO INDENIZATÓRIA POR DANOS MATERIAIS E MORAIS.


Compromisso de venda e compra. [...] A extrapolação do prazo
contratado constitui abuso de direito e configura excesso, adequado fixar
a título de compensação por danos morais a importância de R$
10.000,00. Correção do saldo devedor. Correção monetária sobre o
saldo devedor mesmo ao longo do período de atraso na entrega
do imóvel afigura-se de rigor, por representar tão-somente a
recomposição do capital envolvido na negociação, atingido pelos
efeitos deletérios do tempo, não implicando em acréscimo no
preço de custo do imóvel. (...). Recurso parcialmente provido.” (TJSP,
5ª Câmara de Direito Privado, Apelação nº
1036043-56.2013.8.26.0100, Rel. Des. James Siano, j.
05/03/2017 sem destaque no original).

“AQUISIÇÃO UNIDADE HABITACIONAL Adesão Compromisso de


venda e compra Cooperativa habitacional (...) Correção monetária
que constitui mera recomposição do valor aquisitivo da moeda
INCC/FGV Único índice previsto para correção dos valores -
Legalidade da adoção Indenização por danos morais Cabimento
Fixação em R$ 20.000,00 (vinte mil reais) que não comporta alteração
Sentença, em parte, reformada RECURSOS DAS RÉS NÃO PROVIDOS E
PARCIALMENTE PROVIDO O DOS AUTORES.” (TJSP, 10ª Câmara de
Direito Privado, Apelação nº 1006532-18.2015.8.26.0011, Rel.
Des. Elcio Trujillo, j. 26/04/2016 - sem destaque no original).

Não se pode ignorar, ademais, que os autores


residem no imóvel em questão desde julho de 2013 e que, após a
entrega da documentação pela construtora em 2015, a inadimplência
deve ser a eles imputada.
Como bem fundamentado pela douta sentenciante,
os compradores tinham ciência das pendências da construtora no
momento da celebração do contrato, mas não recusou a entrega do
imóvel, nele residindo até a presente data sem o pagamento do saldo
devedor, apesar da regularização da documentação em 2015.
Verifica-se, portanto, que houve adimplemento
substancial por parte da construtora, não se justificando a rescisão do
contrato nos termos pleiteados pelos autores.
Por isso, por este voto, nega-se provimento ao
recurso, majorando-se os honorários advocatícios para 20% sobre o
valor da causa (art. 85, §11 do CPC).

CARLOS ALBERTO DE SALLES

Relator

Apelação nº 1004614-38.2016.8.26.0562 -Voto nº 4