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Apresentação LANÇAMENTO MANUAL DE LICITAÇÕES

TRATAMENTO DIFERENCIADO E FAVORECIDO NA LEGISLAÇÃO ESTADUAL

1. CONSTITUIÇÃO FEDERAL E CONSTITUIÇÃO ESTADUAL

História das MPE, segunda guerra mundial, dia 05/10/2015 dia da MPE

Historicamente, no período da Segunda Guerra Mundial, o governo americano identificou


as dificuldades de pequenas empresas fazerem frente às grandes corporações no mercado e,
por isso, passaram a editar normas estabelecendo tratamento diferenciado àquelas9.

Esta tendência chegou ao Brasil através da Lei nº. 7.256/84 que foi a primeira norma a tratar
de benefícios administrativos, tributários, previdenciários, trabalhistas e de acesso ao crédito às
Microempresas, omitindo-se quanto aos contratos governamentais.

“Na década de 1980, com a redução do ritmo de crescimento da economia, resultando em


maior nível de desemprego, os pequenos negócios passaram a ser considerados uma alternativa
para a ocupação da mão-de-obra excedente, fazendo surgir ao final da década as primeiras
iniciativas mais concretas para incentivar a abertura de micro e pequenas empresas na
economia, dentre as quais caberia mencionar:

- a implantação do primeiro Estatuto da Microempresa (Lei n0 7.256 de 27 de novembro


de 1984) e a inclusão das micro e pequenas empresas na Constituição Federal de 1988,
que passou a garantir-lhes tratamento diferenciado (Artigo 179 do Capítulo da Ordem
Econômica);

- a transformação em 1990 do Centro Brasileiro de Assistência Gerencial à Pequena


Empresa - CEBRAE -, criado em 1972, em Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e
Pequenas Empresas-SEBRAE, com funções mais amplas;

- a criação de linhas especiais de crédito no BNDES, Caixa Econômica Federal e Banco do


Brasil; -

- a Lei n0 9.317 de 5 de dezembro de 1996, que instituiu o Sistema Integrado de


Pagamentos de Impostos e Contribuições das Microempresas e das Empresas de
Pequeno Porte - SIMPLES; -

- a Lei n0 9.841 de 5 de outubro de 1999, que instituiu o Estatuto da Microempresa e da


Empresa de Pequeno Porte; e - o estabelecimento de um Fórum Permanente das
Microempresas e Empresas de Pequeno Porte, demonstrando a dimensão e a
importância das micro e pequenas empresas para o crescimento e desenvolvimento da
economia nacional.

Num estudo feito pelo IBGE após os primeiros 15 anos de tratamento favorecido e
diferenciado no âmbito tributário e administrativo, chegou-se a seguinte conclusão sobre a
importância das micro e pequenas empresas:
“AS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS COMERCIAIS E DE SERVIÇOS NO BRASIL,
IBGE, 2001

Papel das micro e pequenas empresas no desenvolvimento do País: políticas


recentes de incentivo, base legal e institucional

Uma importante contribuição das micro e pequenas empresas no


crescimento e desenvolvimento do País é a de servirem de “colchão”
amortecedor do desemprego. Constituem uma alternativa de ocupação para
uma pequena parcela da população que tem condição de desenvolver seu
próprio negócio, e em uma alternativa de emprego formal ou informal, para
uma grande parcela da força de trabalho excedente, em geral com pouca
qualificação, que não encontra emprego nas empresas de maior porte. “

Por fim, nesta breve descrição cronológica das legislações sobre o tratamento favorecido e
diferenciado, adveio o Estatuto das Micro e Pequenas empresas, instituído pela Lei
Complementar nº. 123/06, no qual, se previu pela primeira vez o tratamento diferenciado e
favorecido nas licitações públicas, prevendo os seguintes benefícios: regularidade fiscal tardia,
preferência em caso de empate ficto, emissão de título de microcrédito para empenhos não
pagos, possibilidade de subcontratação de parcela de serviços e obras públicas e, possibilidade
de realização de licitações exclusivas ou com cotas exclusivas à participação de MPE’s.

Em 2014, o Estatuto Nacional foi alterado pela Lei Complementar nº. 147/14 para, dentre
outras medidas, ampliar o prazo de regularização fiscal tardia e obrigar os entes públicos a
realizarem as licitações exclusivas ou com cotas exclusivas.

Recentemente, houve mais uma alteração no Estatuto Nacional, através da LC nº. 155/17,
para ampliar o benefício da regularidade de habilitação tardia, incluindo a possibilidade de
regularização trabalhista tardia e para ampliar os limites de receita para fins de enquadramento
da empresa como ME ou EPP.

2. DA LEGISLAÇÃO ESTADUAL SOBRE MPE

A nível estadual, o tratamento diferenciado e favorecido às micro e pequenas empresas


seguiu a tendência da União, após a criação do primeiro Estatuto Nacional das MPE, foi editada
a Lei Estadual nº. 8.084/85 que tratou de benefícios tributários, em especial, isenção de ICMS, a
definição legal de microempresa e formas de comprovação da qualificação da condição de MPE.

Em 1987, a Resolução nº. 13 da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná autorizou o


Estado firmar Convênio com a Fundação de Ensino Superior de Pato Branco para prestação de
assistência técnico-gerencial às MPE, visando o desenvolvimento industrial da Região.

Em 1989, a Constituição Estadual também constitucionalizou o tratamento diferenciado e


favorecido às MPE:
Art. 143. As microempresas e as empresas de pequeno porte, assim definidas
em lei, receberão do Estado tratamento jurídico diferenciado, visando ao
incentivo de sua criação, preservação e desenvolvimento, através da
eliminação, redução ou simplificação de suas obrigações administrativas,
tributárias e creditícias, por meio da lei.

Parágrafo único. O Poder Público estimulará a atividade artesanal.

Em 1991, através da Lei Complementar nº. 58/91, autorizou o Poder Executivo a instituir o
regime fiscal das microempresas, para o Estado do Paraná, definindo o enquadramento, as
obrigações fiscais e incentivos fiscais às MPE.

E, em 1996, através da Lei Estadual nº. 11.651/1996, o Estado do Paraná foi autorizado a
aderir, mediante Convênio, ao Sistema Integrado de Pagamento de Impostos e Contribuições
das Microempresas e das Empresas de Pequeno Porte - SIMPLES, instituído pela Lei Federal nº
9.317/96.

Mesmo após o advento do Estatuo Nacional das MPE (LC nº. 123/06), o Estado do Paraná
ainda não tinha garantido o tratamento favorecido e diferenciado às MPE nas licitações.

Em 2007, foi sancionada a Lei Estadual nº. 15.562, que dispôs sobre o tratamento
diferenciado e favorecido a ser dispensado às MPE, mas apenas referente à apuração e
recolhimento do ICMS, inclusive obrigações acessórias, mediante regime único de arrecadação,
obedecendo à LC nº. 123/06.

Somente em 2011 é que houve uma indicação legislativa, de nº. 35, que sugeriu ao Poder
executivo a instituição do tratamento diferenciado às MPE nas licitações estaduais, em especial
para que o Poder Executivo tomasse providências para incluir na Lei Geral de Licitações Estadual
(Lei nº. 15.608) a possibilidade de realização de licitações exclusivas ou com cotas exclusivas às
MPE, replicando na lei estadual o disposto nos artigos 48 e 49 da LC nº. 123/06, e sob os
seguintes justificativas:
“É cediço que o grande agente indutor do desenvolvimento e do crescimento
econômico é o Estado, este grande ente ficto que gere o cotidiano de todos
nós.

Nas suas atividades fins, o Estado comporta-se como o principal personagem


das trocas econômicas, exercendo papel preponderante junto aos mais
variados segmentos comerciais e industriais.

Está disposto de forma constitucional que às pequenas e microempresas


devem merecer tratamento favorecido por parte do Estado. Mandamento
esse já incorporado pela legislação federal que trata da matéria.

Não obstante os fundamentos econômicos e jurídicos dispendidos, por


ocasião do trâmite do projeto que originou a Lei nº 15.608/2007 e que
redundou no art. 168 da mesma, houve a oposição do veto governamental
sob argumento frágil e desconectado da realidade jurídica já exposta, motivo
pelo qual apresento a presente indicação para que o novo governo promova
a incorporação da regra sugerida na legislação estadual citada”1.

1
Fonte: (acessado em 30/07/2017)
http://portal.alep.pr.gov.br/modules/mod_legislativo_arquivo/mod_legislativo_arquivo.php?leiCod=39
&tipo=L&tplei=5
E, o reflexo da indicação legislativa veio apenas em 2013, através da aprovação da Lei
Complementar Estadual nº. 163/2013, que instituiu no Estado do Paraná o Tratamento
diferenciado e favorecido às MPE, previsto no artigo 143 da Constituição do Estado, e em
conformidade com o Estatuto Nacional das MPE (LC nº. 123/06) e que consolidou as normas
relativas ao tratamento especial conferido às MPE’s.

Em resumo, a Lei Complementar Estadual regulamentou a recepção da definição nacional


de microempresas e empresas de pequeno porte, o incentivo à geração de empregos, à
formalização dos empreendimentos, à inovação e ao associativismo, a simplificação do processo
de abertura e fechamento das empresas e, também a preferência nas aquisições de bens e
serviços pelo Poder Público.

Assim, somente após 7 (sete) anos da instituição das regras de preferência às MPE no
Estatuo Nacional é que o Estado do Paraná inseriu em seu normativo regional o tratamento
diferenciado e favorecido às MPE’s nas licitações públicas.

E, a nível infralegal, em relação ao tratamento diferenciado e favorecido às MPE nas


licitações, identificaram-se a promulgação de normas após o advento da LC nº. 163/13,
destacando-se os seguintes Decretos e Resoluções:

a) Decreto nº. 11.985/2014: Determina a designação de servidores técnicos nas


Secretarias de Estado e em outros órgãos que especifica para fins de regulamentação
e implementação da Lei Complementar Estadual nº 163, de 29 de outubro de 2013, e
dá outras providências.
b) Decreto nº. 1.159/2015: Altera os artigos 1º, 2º e 4º do Decreto nº 2592 de 05 de maio
de 2008, que instituiu o Fórum Permanente das Microempresas e Empresa de Pequeno
Porte do Estado do Paraná.
c) Decreto nº. 2474/2015 (com alterações do Decreto nº. 6561/17): Regulamenta o
tratamento diferenciado e favorecido e o tratamento diferenciado e simplificado para
as microempresas, empresas de pequeno porte, microempreendedor individual nas
contratações públicas de bens, serviços e obras de que trata a Lei Complementar
Federal n.º 123, de 14 de dezembro de 2006 e a Lei Complementar n.º 163, de 29 de
outubro de 2013, no âmbito da Administração Pública Estadual.
d) Decreto nº. 4.993/2016: Regulamenta a Lei Estadual nº 15.608, de 16 de agosto de
2007, para a elaboração de termos de referência e de contratos para aquisição de bens
e prestação de serviços pela Administração Pública Estadual Direta e Indireta.
e) Resolução nº. 127/2017-PGE: Enunciado n° 7 :" Em licitação dividida em itens ou
lotes/grupos, deverá ser adotada a participação exclusiva de microempresa, empresa
de pequeno porte (art. 48 da LC 123/2006) ou Cooperativa (art. 34 da Lei n°
11.488/2007) em relação aos itens ou lotes/grupos cujo valor seja igual ou inferior a R$
80.000,00 (oitenta mil reais), desde que não haja a subsunção a quaisquer das situações
previstas no art. 49 da LC 123/2006"
3. COMENTÁRIOS AOS DISPOSITIVOS DA LC 163/13 E DECRETO REGULAMENTAR

Antes de adentrar nos comentários à LC nº. 163/13 vale falar rapidamente sobre a
divergência doutrinária existente em relação à competência legislativa em matéria de licitações.

A CF no artigo 22, XXVI diz que compete privativamente à União legislar sobre normas gerais
de licitação. De forma que os demais entes poderiam ter suas normas próprias mais específicas.

“Dessa forma o poder regulamentar dos Estados, Distrito Federal e Municípios em normas de licitação
deve limitar-se à competência suplementar (ou complementar). Naquilo que a norma federal (norma geral)
já preceituou, exauriu e esgotou, não terá lugar a competência suplementar.”

Contudo, alguns doutrinadores dizem que “normas gerais” demonstra que se trata de uma
competência concorrente, e, por isto, esta competência deveria estar no artigo 24 da CF. Dentre
os doutrinadores cite-se: Alexandre Mazza (Manual de Direito Administrativo”, 1ª edição, 3ª
tiragem, ano 2011).

E, em se aplicando o regramento da competência concorrente, teríamos que a União


legislaria sobre normas gerais, os Estados suplementariam e caberia ao Município legislar
apenas sobre aspectos locais, complementando a legislação estadual. E, assim, esta legislação
estadual poderia ser entendida como de aplicação obrigatória aos Municípios.

A LC nº. 163/13 tratou do acesso das MPE’s aos mercados públicos no capítulo V da lei,
cujas seções tratam de disposições gerais, do certificado cadastral da MPE, da meta anual de
participação das MPE nas compras do Estado e do Portal de Compras do Estado do Paraná.

3.1. Das disposições Gerais de acesso ao mercado público

Nesta seção, foram estabelecidos os objetivos da Política de tratamento diferenciado e


favorecido às MPE nas licitações, as ações governamentais para buscar atingir os objetivos do
programa e foram detalhados procedimentos administrativos de fomento às MPE’s nas
licitações.

A promoção do desenvolvimento econômico e social no âmbito regional e local, por meio


da máxima descentralização territorial dos processos licitatórios, foi definido como o objetivo
da Política Pública de fomento às MPE’s.

E, para atingir tal objetivo, a LC nº. 163/13 determinou que a administração estadual
adotasse as seguintes ações:

I. A implantação dos benefícios previstos nos artigos 42 a 49 da LC nº. 123/06


(regularidade fiscal tardia, preferência em caso de empate ficto e licitações
diferenciadas);
II. Capacitação dos gestores responsáveis pelas contratações públicas e, por outro
lado, ações para estimular entidades de apoio para capacitarem MPE a
participarem dos processos licitatórios;
III. A elaboração de convênios com instituições financeiras, Sociedades de Garantia de
Crédito ou outras entidades afins para implementação de linhas de crédito para
MPE vencedoras de licitação para comercialização e produção de produtos
licitados;
IV. A possibilidade das MPE emitirem título de crédito equivalente à cédula de crédito
microempresarial decorrentes de direitos creditórios decorrentes de empenhos
liquidados e não pagos em 30 (dias) da data da liquidação;

Quanto aos procedimentos a serem adotados nos processos licitatórios, definiu a LC nº


163/13 que as compras de bens e serviços da Administração direta e indireta deverão ser
planejadas, buscando-se separar os objetos de licitação na maior quantidade possível de itens
de contratação para que possam ser adjudicados no maior número possível de licitantes (art. 19
e §§)

Destaque-se que, como a LC nº. 163/13 regulamenta o artigo 143 da Constituição Estadual,
é de se concluir que as regras de tratamento diferenciado e favorecido deverão ser aplicados
por todos os Poderes e entes do Estado do Paraná, quiçá pelos Municípios, se adotado o
entendimento do Alexandre Mazza.

Neste ínterim, cumpre comentar que nas pesquisas feitas, não se identificaram
planejamentos de compras e serviços por partes dos órgãos da Administração, mas apenas o
Portal de Compras para divulgação dos editais lançados.

De acordo com o SEBRAE, idealizador dos projetos de leis que culminaram no Estatuto
Nacional das MPE, para fomentar a participação das MPE nas licitações era importante que as
empresas soubessem de antemão o que será comprado pela Administração de modo que
pudessem se organizar, buscar fornecedores, organizarem seus estoques, regularizarem suas
documentações, etc.

Inclusive, após os primeiros cursos de divulgação da LC nº 147/14 dados pelo SEBRAE às


MPE’s, levantou-se que muitos microempresários não participavam de licitações públicas
porque não sabiam que a Administração comprava produtos que eles forneciam e tinham a
impressão de que todas as licitações eram direcionadas.

Desta forma, o planejamento das compras públicas permite que os empresários saibam de
quais licitações poderão participar.

Ainda, um plano anual de compras permite que o órgão possa padronizar seus editais de
licitações, mantendo as regras dos certames melhor definidas, evitando-se “exigências
surpresas” e, consequentemente, permitindo que os empresários saibam com antecedência “as
regras do jogo”, podendo regularizar sua documentação também com antecedência.

O artigo 2º do Decreto Estadual nº. 2474/15 regulamentou o tratamento diferenciado,


ampliando a regra do planejamento anual para que os órgãos da administração estadual
mantenham planejamento anual de bens ou serviços de uso comum.

A LC nº. 163/13 também determina que o planejamento deve considerar que as licitações
sejam divididas em tantos itens de contratação quanto economicamente viáveis a fim de que o
objeto da licitação possa ser adjudicado a licitantes distintos.
E, se houver necessidade de que o objeto da licitação tenha que ser adjudicado por lote,
seja por conta da natureza do produto, da inexistência de 3 fornecedores de pequeno porte, da
exigência de qualidade específica, de risco de fornecimento considerado alto ou qualquer outro
aspecto impeditivo, tal circunstância deverá ser justificada no processo.

Em geral, a jurisprudência das Cortes de Contas e a doutrina fundamentam a adjudicação


em lote em critérios econômicos ou técnicos.

Na prática, esta analista não identificou até o momento, a inexistência de 3 fornecedores


de pequeno porte como fundamento para admitir adjudicação em lotes de contratação.

As demais circunstâncias elencadas no artigo 19, §2º aproximam-se de critérios econômicos


ou técnicos que poderiam justificar a contratação em lote.

O Decreto Estadual nº. 2474/15 seguiu a linha da LC, determinando que os órgãos devem,
sempre que possível, parcelar o objeto da licitação de modo a ampliar a possibilidade de
participação dos beneficiários do tratamento diferenciado, considerando na definição dos itens
e lotes a necessidade do desenvolvimento local e regional, em função dos locais em que os bens,
serviços e obras deverão ser entregues ou executados

Assim, além de dividir o objeto em itens, deve-se considerar a máxima descentralização


territorial.

O artigo 20 da LC nº. 163/13 trata da regularização fiscal tardia, trazendo os mesmos prazos
do texto original do Estatuto Nacional, mas especificando melhor o momento exato de início da
contagem do prazo (momento em que o proponente for declarado vencedor) e tratando de um
problema prático: a demora dos órgãos fiscais em dar baixa nos pagamentos e emitirem as
certidões negativas ou positivas com efeitos negativos.

Ante o exíguo prazo para regularização fiscal concedido e o problema prático da demora
dos órgãos fiscais, previu-se no artigo 20, §2º que seriam aceitos outros documentos que
comprovem a extinção ou suspensão do crédito tributário, na impossibilidade de emissão de
certidões negativas ou positivas.

Tal problema era tão recorrente que o próprio Estatuto Nacional foi alterado, pela LC nº.
147/14, para ampliar o prazo de regularização de 2 para 5 dias, prorrogáveis por mais 5 dias a
critério da Administração.

O Decreto n. 2474/15, que foi publicado após o advento da LC 147/14, considerou o prazo
de 5 dias, manteve as especificidades da lei complementar estadual de início do prazo a partir
da declaração do vencedor, e complementou o regramento determinando que a regra será a
concessão da prorrogação de prazo e a não concessão deverá ser justificada na hipótese de
urgência da contratação.

Assim, ainda que o prazo a ser utilizado nos editais tenha que ser o do Estatuto Nacional (5
dias), as demais regras previstas no Estatuto Paranaense são válidas e devem ser aplicadas.

Outra regra de procedimento foi tratada no artigo 21 o qual tratou do planejamento das
compras de gêneros alimentícios perecíveis e outros produtos perecíveis.
Determinou a Lei Complementar que as compras destes produtos devem se adequar a
oferta de produtores do mercado local ou regional, subdividindo-se a licitação no maior número
de itens possíveis e adequando-se, inclusive à capacidade produtiva destes fornecedores locais.

Jacoby Fernandes já leciona esta ação como forma de privilegiar o mercado fornecedor
local, inclusive deu como exemplo uma cidade do Pará que, para privilegiar o mercado
fornecedor local de açaí, poderá incluir nas suas compras produtos feitos à base de açaí, incluí-
los na merenda escolar, nas refeições fornecidas em hospitais, e, com isto, fomentar o mercado
local.

Assim, deve-se inverter os procedimentos para, ao invés de levantar as demandas da


Administração e depois abrir a licitação para participação dos fornecedores, deve-se levantar os
fornecedores locais ou regionais para tentar incluir nas demandas aqueles produtos locais ou
regionais, considerando a facilidade de entrega nos locais de consumo, de forma a evitar custos
com transporte e armazenamento.

E, a impossibilidade de se fazer tal planejamento deve ter suas razões preponderantes


devidamente justificadas no processo administrativo.

O artigo 22 da LC determina que nas aquisições de bens e serviços comuns que envolvam
MPE deverá ser dada preferência pela utilização do pregão presencial.

Na prática, vários Municípios não implantaram pregão eletrônico, no qual há maior


participação de fornecedores que possuem sede em vários lugares do país, para privilegiar os
fornecedores locais, já que numa sessão presencial os fornecedores têm custos com
deslocamento, viagem, translado, e, por isto, participam mais fornecedores locais ou regionais.

E esta foi justamente a intenção do legislador quando determinou a utilização de pregão


presencial nas licitações para aquisição de bens ou serviços comuns que envolvam MPE.

Cabe destacar que são raras as licitações para aquisição de bens e serviços comuns que não
envolvam MPE e que autorizariam a utilização do pregão eletrônico, até porque, ainda que não
sejam licitações exclusivas, tendo participação de MPE haverá a aplicação dos benefícios da
regularidade fiscal/trabalhista tardia e preferência em caso de empate ficto.

Mas, na prática, vê-se mais a aplicação do Decreto Estadual nº. 33/2015 que determina que
“A utilização da modalidade de “Pregão Eletrônico” para aquisição de bens e serviços comuns
será obrigatória para toda administração pública estadual”, sendo que a impossibilidade de
adoção do pregão eletrônico deverá ser justificada nos autos do processo de aquisição.

Haja vista que não foram localizadas Resoluções, Instruções Normativas ou outro ato
normativo nos demais Poderes ou órgãos estaduais, dever-se-ia aplica o artigo 22 da LC nº.
163/13 e realizarem preferencialmente o pregão presencial.

Visando a ampla divulgação dos editais no âmbito local e regional, a LC nº. 163/13 previu
a divulgação dos editais pelas entidades de apoio às MPE em seus veículos de comunicação,
através de convênios (art. 23).

Em pesquisa acerca de convênios para ampliar a divulgação dos editais não foram
localizadas divulgações além do Portal de Compras Paraná.
Na página do Fórum Permanente das MPE do Estado do Paraná2, há uma aba “consulta a
licitações” na qual há links de acesso às licitações do Poder Executivo, da Copel, da Sanepar e de
outros órgãos estaduais. Não há links, num único portal, das licitações públicas estaduais e
municipais.

Também foi previsto, como forma de fomento, a subcontratação de MPE nos editais de
licitação, desde que previsto no edital o percentual mínimo do objeto que poderá ser
subcontratado, que a subcontratação não seja de itens determinados ou de empresas
específicas, sendo vedada a subcontratação quando a proponente já for MPE, quando a
subcontratação for inviável ou não for vantajosa à administração, ou causar prejuízo ao conjunto
ou complexo do objeto; ou quando a proponente for sociedade de propósitos específicos.

A LC foi cuidadosa ao regulamentar que na subcontratação deverá ser exigida regularidade


fiscal das MPE contratadas e subcontratadas, como condição de assinatura do contrato e ao
longo da vigência contratual, sob pena de rescisão.

E, se tiver necessidade de substituição da subcontratada, tal fato deverá ser notificado ao


órgão ou entidade contratante, devendo ser substituída a subcontratada no prazo máximo de
30 dias, sem prejuízo de sanções cabíveis, ou ainda, se ficar demonstrada a inviabilidade da nova
subcontratação, a administração poderá transferir a parcela que havia sido subcontratada à
empresa contratada originalmente.

O Decreto n. 2474/15 seguiu a mesma linha da LC, mas acrescentou que “os beneficiários
do tratamento diferenciado a serem subcontratados deverão ser sediados no Município ou
Região no qual será executado o objeto, salvo quando esta determinação puder comprometer
a qualidade da execução contratual” (art. 7º, IV), que não pode subcontratar quando a licitante
for consórcio constituído de MPE (art. 7º, §1º) ou em relação à parcela de maior relevância ou
se a MPE participou da licitação, quando o objeto for fornecimento de bem (art. 7º, §2º), que
além da regularidade fiscal, será exigido os demais comprovantes de habilitação da
subcontratada (art. 7º, §3º)

Por fim, na seção das disposições gerais, a LC deu tratamento ampliativo ao regulamento
nacional nas inexigibilidades e dispensas dos artigos 24 e 25 da Lei nº. 8.666/93, determinando
que nestas contratações diretas seja dado preferência de contratação às MPE’s.

Destaque-se a LC nº. 147/14 alterou o Estatuto Nacional das MPE’s para determinar que
não seriam feitas licitações exclusivas às MPEs ou com cotas exclusivas nos casos de dispensa e
inexigibilidade, salvo nas dispensas por valor nas quais seria dada preferência às MPE’s.

Assim, o texto da LC Estadual é mais ampliativo no sentido de que não apenas das dispensas
por valor, mas nas demais hipóteses de dispensas e nos casos de inexigibilidade deve ser dada
preferência de contratação às MPE’s.

Isto leva a uma necessidade do ente justificar no processo os motivos pelos quais nas
contratações diretas ele não possa contratar uma MPE. Exemplo: se ocorrer uma inexigibilidade

2
http://www.fopeme.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=155
por conta de se existir fornecedor único, então, bastaria justificar a impossibilidade de
contratação de MPE pelo fato do único fornecedor não ser MPE.

3.2. Do certificado cadastral das MPE

No artigo 27 da LC, determinou-se ao Estado do Paraná a instituição ou utilização de


cadastro de MPE sediada localmente, com suas linhas de fornecimentos, de modo a possibilitar
a capacitação e notificação das licitações e facilitar a formação de parcerias e subcontratações,
além de estimular o cadastramento destas empresas nos sistemas eletrônicos de compras.

Ainda que tenha sido criado o Portal Paranaense da Micro e Pequena Empresa, que busca
unir num único endereço os serviços e programas definidos na LC nº. 163/13, o Portal apenas
trata dos serviços para abertura das MPE (racionalização legal e burocrática), acesso à linhas de
crédito (investimento e financiamento), treinamentos e capacitações (formação: associativismo,
cultura empreendedora, gestão das MPE), tecnologia e inovação (difusão de tecnologias,
identificação e análise dos arranjos produtivos nacionais), fomento ao comércio exterior e
informação.

Na aba “Benefícios e informações para as MPEs” do Portal Paranaense há uma indicação


para o Cadastro de Licitantes que trata o Decreto nº. 1.352/2015. Contudo, este cadastro trata-
se, em verdade, do Cadastro Unificado de Fornecedores do Estado do Paraná para efetivar a
Gestão de Materiais, obras e serviços.

Ainda que dentre as documentações exigidas estejam os balanços patrimoniais do último


exercício que pudessem ser analisados para aferir o enquadramento das MPE, e, ainda que
pareça haver uma análise das receitas auferidas no exercício anterior por existir um campo no
cadastro sobre o porte da empresa, não se conseguiu fazer uma pesquisa filtrando o porte da
empresa com a localidade, já que o cadastro exige que na consulta deva ser informado o nome
empresarial ou razão social da empresa.

Ademais, este cadastro unificado tem por objetivo registrar pessoas interessadas em ser
fornecedoras da Administração Estadual (Decreto 1.352/15, art. 1º, §1º) e para cadastrar
aqueles que realizarão contratos com a Administração (Decreto 1.352/15, art. 1º, §4º).

Assim, ainda que se consiga identificar MPE interessadas e MPE que já foram contratadas,
tal cadastro não serviria para fins de subsidiar o planejamento anual de compras, que trata o
artigo 19, ou o planejamento de aquisições de gêneros alimentícios perecíveis, que trata o artigo
21.

Na página do Fórum Permanente das MPE também não foi localizado um cadastro das MPE.

Sabe-se que um dos grandes problemas envolvendo MPE nas licitações públicas é
justamente a identificação das MPE, a comprovação de que uma empresa enquadra-se como
micro ou empresa de pequeno porte.
O Estatuto Nacional, no artigo 72 diz que “As microempresas e as empresas de pequeno
porte, nos termos da legislação civil, acrescentarão à sua firma ou denominação as expressões
“Microempresa” ou “Empresa de Pequeno Porte”, ou suas respectivas abreviações, “ME” ou
“EPP”, conforme o caso, sendo facultativa a inclusão do objeto da sociedade.”

Assim, uma das formas de se identificar uma MPE é através as abreviações ME ou EPP em
seu nome empresarial.

Assim, após o primeiro ano de funcionamento da empresa, faz-se seus balanços


patrimoniais e, ocorrendo o lançamento de receitas operacionais dentro dos limites do art. 3º
da LC 123/06, faz-se o requerimento na Junta Comercial para constar no seu nome comercial a
sigla ME ou EPP.

Contudo, de acordo com a Instrução Normativa nº. 103/07 do Departamento Nacional de


Registro do Comércio (DNRC), "o enquadramento, reenquadramento e desenquadramento de
microempresa e empresa de pequeno porte pelas Juntas Comerciais será efetuado, conforme o
caso, mediante arquivamento de declaração procedida pelo empresário ou sociedade em
instrumento específico para essa finalidade".

Nota-se, portanto, que, muito embora a verificação da condição de MPE seja através no
nome, não há, no âmbito das Juntas Comerciais uma mínima fiscalização de cumprimento dos
limites legais previamente à alteração do nome, bastando uma simples declaração da empresa.

Assim, podem ocorrer casos em que a empresa não cumpra mais os requisitos para o
enquadramento como ME/EPP, mas ainda não foi devidamente desenquadrada na Junta
Comercial.

Além disto, cumpre destacar que a partir de 01/01/18, o artigo 72 da LC 123/06, que trata
do nome empresarial das MPE será revogado, de forma que não mais se poderá identificar uma
MPE apenas pelo seu nome empresarial.

A LC123/06 é omissa quanto à forma de comprovação da condição de MPE na licitação, por


conta disto, passou-se a adotar no âmbito da União, a exigência de apresentação de declaração,
sob as penas da lei, de que a empresa cumpre os requisitos legais para a qualificação como
ME/EPP, estando apta para usufruir o tratamento favorecido estabelecido na LC 123/06 .

A jurisprudência das Cortes de Contas passaram a recomendar que, haja vista que é
obrigatório, para fins de habilitação, a comprovação da qualificação econômico-financeira das
empresas (art. 4º, XIII, Lei nº. 10.520/02 e art. 31 da Lei nº. 8.666/93), que se averiguassem nos
balanços e demonstrações se a empresa se enquadrava nos limites legais para tratamento
diferenciado como ME/EPP .

Acerca da apresentação de balanços e demonstrações, quando do advento da LC 123/06


discutiu-se se houve derrogação das regras da Lei de Licitações quanto à obrigatoriedade das
MPE apresentarem tais documentos para fins de habilitação, haja vista que o artigo 27 da
LC123/06 facultou às MEP adotarem contabilidade simplificada, conforme regulamentação do
Comitê Gestor.

Após várias alterações quanto à regulamentação da contabilidade das ME/EPP, o Conselho


Federal de Contabilidade editou a Resolução nº. 1.418/12 que dipõe que as MPE devem elaborar
o Balanço Patrimonial, Demonstração do Resultado e Notas Explicativas ao final de cada
exercício social.
Já a Lei de Licitações determina que para fins de habilitação a Administração poderá exigir
Balanço Patrimonial e Demonstrações Contábeis (art. 31, I, Lei nº. 8.666/93), então, pode-se
exigir Balanço Patrimonial e Demonstrações Contábeis das ME/EPP para fins de habilitação e,
com isto, também se verificar a comprovação da qualificação de ME/EPP.

Contudo, a exigência de balanço patrimonial e demonstrações contábeis para fins de


habilitação é considerada pela doutrina como uma faculdade da Administração, tanto que a
União dispensou a apresentação de balanços patrimoniais de ME/EPP em casos de fornecimento
de bens para pronta entrega (art. 3º, Decreto nº. 8.538/2015) e o Estado do Paraná estabeleceu
que "somente será exigido dos beneficiários do tratamento diferenciado quando indispensável
para a prova de habilitação econômica-financeira consoante disposto no instrumento
convocatório (Decreto nº. 2.474/15).

Tendo em vista esta interpretação e o art. 47, parágrafo único da LC 123/06 , muitos
Municípios passaram a editar leis municipais dispensando as ME/EPP de apresentarem balanços
e demonstrações.

O Tribunal de Contas de Minas Gerais, na Consulta n. 502.928, interpretou o artigo 31, I,


Lei nº. 8.666/93 como uma faculdade da Administração:

"O caput do art. 31 faz uso da forma verbal "limitar-se-á", o que significa que a
administração não está obrigada a exigir todos os documentos ali mencionados.

Este dispositivo contém uma limitação às exigências, e não uma exigência mínima a ser
necessariamente observada. Poderá a mesma deixar de exigir os documentos que, mesmo ali
referidos, considerar desnecessários para aferir a qualificação econômico-financeira do licitante.

Agora, se o balanço patrimonial do exercício for exigido no ato convocatório do certame e


o licitante não apresentá-lo, estará sujeito à inabilitação, pelo não-atendimento de exigência
escorada em lei e imposta a todos os licitantes, não podendo o mesmo pretender valer-se de
nenhuma escusa".

Mas, em que pese interpretar-se como uma faculdade, para certos tipos de contratos de
grande vulto, ou de prestação continuada, é importante utilizar os balanços e demonstrações
para aferir a saúde financeira da ME/EPP. Daí porque a dispensa desta exigência poderá levar a
uma interpretação de quebra de dever de cuidado pelo gestor (indício de conduta culposa).

Assim, em se optando pela confirmação da qualificação da ME/EPP através do Balanço


Patrimonial e Demonstrações de Resultado, deve-se verificar o preenchimento dos requisitos
do art. 3º, quanto aos limites de valores, a forma de consideração das receitas auferidas (§1º),
a análise proporcional no primeiro ano de atividade (§2º) e a possibilidade de limite dobrado se
houver receitas oriundas de exportação (§14).

Sobre o balanço patrimonial, o Decreto Estadual assim determinou “Art. 3.º O balanço
patrimonial somente será exigido dos beneficiários do tratamento diferenciado quando
indispensável para a prova de habilitação econômico-financeira consoante disposto no
instrumento convocatório.”

Assim, nos casos em que não for exigido balanço patrimonial, e na ausência de um cadastro
de MPE, os órgãos estaduais terão que utilizar outra metodologia de análise do enquadramento
das empresas como MPE.
Mas, vale destacar que também não poderá se beneficiar do tratamento jurídico
diferenciado previsto na Lei Complementar, a pessoa jurídica:
I - de cujo capital participe outra pessoa jurídica;
II - que seja filial, sucursal, agência ou representação, no País, de pessoa jurídica com
sede no exterior;
III - de cujo capital participe pessoa física que seja inscrita como empresário ou seja
sócia de outra empresa que receba tratamento jurídico diferenciado nos termos
desta Lei Complementar, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que
trata o inciso II do caput deste artigo;
IV - cujo titular ou sócio participe com mais de 10% (dez por cento) do capital de
outra empresa não beneficiada por esta Lei Complementar, desde que a receita
bruta global ultrapasse o limite de que trata o inciso II do caput deste artigo;
V - cujo sócio ou titular seja administrador ou equiparado de outra pessoa jurídica
com fins lucrativos, desde que a receita bruta global ultrapasse o limite de que trata
o inciso II do caput deste artigo;
VI - constituída sob a forma de cooperativas, salvo as de consumo;
VII - que participe do capital de outra pessoa jurídica;
VIII - que exerça atividade de banco comercial, de investimentos e de
desenvolvimento, de caixa econômica, de sociedade de crédito, financiamento e
investimento ou de crédito imobiliário, de corretora ou de distribuidora de títulos,
valores mobiliários e câmbio, de empresa de arrendamento mercantil, de seguros
privados e de capitalização ou de previdência complementar;
IX - resultante ou remanescente de cisão ou qualquer outra forma de
desmembramento de pessoa jurídica que tenha ocorrido em um dos 5 (cinco) anos-
calendário anteriores;
X - constituída sob a forma de sociedade por ações.
XI - cujos titulares ou sócios guardem, cumulativamente, com o contratante do
serviço, relação de pessoalidade, subordinação e habitualidade

De acordo com o art. 2º, §6º da LC 123/06, a fiscalização das ME/EPP relativo ao regime
tributário do Simples Nacional será regulamentado pelo Comitê Gestor do Simples Nacional-
CGSN e, no artigo 33, já atribui a competência para Município nos casos de prestação de
serviços, podendo ser realizado convênio com os Estados para ampliar sua competência.

O Comitê, por sua vez, regulamentou a fiscalização do Simples Nacional, inclusive quanto
ao desenquadramento da qualificação de ME/EPP e sua exclusão ao regime do Simples Nacional,
através da Resolução CGSN nº.30/08.

Desta forma, o Município poderá inclusive fazer a exclusão da ME/EPP do regime tributário,
através de seu agente competente, e, refletindo, tal atuação, no setor de licitações.

Tendo em vista o crescente número de casos de fraude envolvendo o enquadramento das


ME/EPP, torna-se relevante utilizar todas as ferramentas legais para identificação da fraude.

E, caso verificada a fraude na declaração de enquadramento, a abertura de procedimento


para punição administrativa (art. 7º, Lei nº. 10.520/02 - declaração de inidoneidade) e envio de
ofício ao Ministério Público por se tratar de conduta tipificada como crime (art. 90, Lei nº.
8.666/93).

Cite-se precedente do TCU sobre a matéria:

Participação de empresa, em processo licitatório, como microempresa (ME) ou empresa


de pequeno porte (EPP), sem possuir os requisitos legais para tanto, pode ensejar a sua
declaração de inidoneidade.
Em sede de representação, foi apurada a possível participação indevida de empresa em
licitações públicas, na condição de ME ou EPP, sem possuir os requisitos legais necessários para
tal caracterização. Em seu voto, com relação à empresa supostamente beneficiada com o
enquadramento indevido, o relator ressaltou ter ficado comprovado "que seu faturamento
bruto era superior ao limite estabelecido para o enquadramento como pequena empresa, que
a empresa não solicitou à época a alteração de sua condição e, por fim, que participou de
procedimento licitatório exclusivo para micros e pequenas empresas, vencendo o certame,
beneficiando-se de sua própria omissão". Ao não declarar a mudança de enquadramento legal,
a empresa "descumpriu o art. 3º, § 9º, da Lei Complementar nº 123/2006, o art. 11 do Decreto
nº 6.204/2007 e o art. 1º da Instrução Normativa do Departamento Nacional de Registro do
Comércio nº 103/2007". Essa omissão possibilitara à empresa "benefícios indevidos específicos
de ME ou EPP e a obtenção, na Junta Comercial, da 'Certidão Simplificada’, documento que
viabilizou sua participação em licitações públicas exclusivas para ME ou EPP". Embora tenha
considerado grave a omissão da empresa em informar o seu desenquadramento, o relator, em
razão da baixa materialidade dos valores envolvidos nas licitações analisadas, entendeu
suficiente a expedição de alerta à aludida empresa no sentido de que "a repetição da infração
ensejará a declaração de sua inidoneidade, impossibilitando que contrate com o Poder Público
por até 5 anos", no que foi acompanhado pelo Plenário. Acórdão nº 2924/2010-Plenário, TC-
007.490/2010-0, rel. Min. Walton Alencar Rodrigues, 03.11.2010.

A Advocacia Geral da União tem esclarecido que, “dado o alto número de fraudes na
participação de Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (ME/EPP) nas licitações públicas,
e considerando a fragilidade da principal forma de comprovação de tal enquadramento
(declaração unilateral da própria empresa), o TCU vem adotando meio alternativo para verificar
a condição da ME/EPP: a consulta ao Portal da Transparência do Governo Federal, que indica os
valores recebidos por cada empresa em decorrência de contratos firmados com os órgãos e
entidades da administração pública federal que executam suas despesas pelo SIAFI” .

“Tal consulta revela se a empresa recebeu pagamentos do governo federal em montante


superior ao limite legal de receita bruta anual para enquadramento como ME ou EPP. Nessa
hipótese, mesmo sem considerar os demais valores recebidos de outras fontes, já é possível
constatar que a empresa perdeu legalmente a condição de ME ou EPP, para fins de aplicação do
tratamento favorecido conferido pela Lei Complementar n° 123/2006. Como exemplo, o TCU
seguiu tal metodologia nos Acórdãos n° 298/2011, n° 2.259/2011 e n° 3.256/2011 todos do
Plenário, tratando de casos concretos” .

Cumpre destacar que o Decreto nº. 8.538/15, que regulamentou a LC 147/14, dispensou a
exigência de apresentação de balanço patrimonial do último exercício social das ME/EPP nos
casos de licitações para fornecimento de bens para pronta entrega ou para a locação de
materiais (art. 3º), reforçando, assim, a importância de consulta ao SIAFI para verificar a
comprovação da qualificação da ME/EPP.

Mas, por outro lado, nos pregões realizados pelo comprasnet , "o Portal de compras
governamentais obtém os dados do "porte da empresa", diretamente no banco de dados da
Receita Federal, portanto, os Fornecedores que verificarem incorreção, deverão dirigir-se às
Agências da Receita Federal, para averiguação e adequação do porte ao último balanço
apresentado".
Ante os crescentes casos de fraude envolvendo MPE, sugere-se que o procedimento de
comprovação da condição de MPE seja estabelecido em normativos e no edital.

Por fim, ainda na seção quanto ao certificado cadastral da MPE, a LC trouxe outros dois
instrumentos para auxílio à implementação da política pública, além do cadastro das MPE
sediadas localmente:

I – A divulgação das contratações a serem realizadas, com a estimativa quantitativa e de


data das contratações, no sítio oficial do Estado, em murais públicos, jornais ou outras formas
de divulgação;

II – A padronização e divulgação das especificações dos bens e serviço s a serem


contratados, de modo a orientar, através da Sala do Empreendedor, as microempresas e
empresas de pequeno porte a fim de dar conhecimento das especificações técnico-
administrativas

Tais instrumentos se aproximam das ações de governança pública que vem sendo induzidas
pelo TCU como boas práticas.

Ademais, o SEBRAE levantou como desafio para bem aplicar esta legislação, quando dos
cursos dados regionalmente, era de que as MPE locais sequer sabiam do que a Administração
comprava.

Desta forma, se a Administração tiver um planejamento anual de suas aquisições, com


cronograma previsto para abertura de licitações de cada objeto, e, se houver uma padronização
das especificações técnicas de cada objeto, a exemplo do que a União possui no CATMAT, as
MPE já saberão, de antemão, das demandas da Administração, de forma que se poderá
incentivar a criação de MPE para fornecimento destes bens, ou as MPE existentes possam se
organizar para buscarem fornecedores ou mercado para fornecerem.

O artigo 2º do Decreto estadual nº. 2474/15 replica a ferramenta de padronização,


determinando que sempre que possível, os órgãos deverão padronizar e divulgar as
especificações dos bens e serviços contratados, de modo a orientar os favorecidos para que
adequem os seus processos produtivos;

A transparência da Administração fomentará a melhoria das MPEs.

Por fim, o parágrafo único do art. 27 diz que os Municípios poderão aderir aos instrumentos
previstos neste artigo (cadastro de MPEs, plano anual de compras e catálogo de padronização
de materiais).

Como falado acima, uma das maiores dificuldades ao tratamento diferenciado e favorecido
das MPEs nas licitações é justamente identificar as empresas que são enquadradas como ME ou
EPP.

Assim, se o Estado do Paraná unir esforços para a criação de um cadastro das MPE,
informatizado, qure pudesse verificar as informações fiscais relativas às receitas auferidas
(talvez por Convênio à Receita Federal), juntamente com informações quanto às atividades
econômicas (através de dados da Junta Comercial) e buscando levantar os produtos de gêneros
alimentícios perecíveis fornecidos (através de dados das notas fiscais eletrônicas), certamente a
política de fomento local seria implementada de forma exponencial.

Além deste cadastro servir para comprovar o enquadramento para fins das empresas
fazerem jus à preferência ao empate ficto e à regularidade fiscal tardia, a consulta a um cadastro
atualizado serviria para avaliação da existência de 3 MPE localizadas local ou regionalmente para
fins de realização de licitações diferenciadas.

Também serviria para auxiliar no planejamento anual previsto no artigo 19, no qual em se
identificando as empresas locais/regionais, o Estado do Paraná poderia separar suas licitações
por territorialidade, isto é, ainda que a licitação fosse centralizada, seria separada por itens de
contratação por localização das unidades administrativas consumidoras.

Da mesma forma, com uma consulta ao cadastro das MPE, o Estado do Paraná poderia
verificar os produtos oferecidos por MPE locais ou regionais, e, assim, verificar a viabilidade de
incluir nas suas demandas tais produtos.

E, assim, conseguindo implementar o programa previsto na LC.

3.3. Da meta anual de participação nas compras estaduais

Outro ponto relevante da LC foi a determinação de que a “administração pública deverá


definir até 30 de março de cada ano, a meta anual de participação das microempresas e
empresas de pequeno porte nas compras do Estado”, sendo que a meta será revista por ato do
Chefe do Poder Executivo.

Em consulta à internet e nos normativos estaduais não foram identificadas metas anuais
de participação nas compras estaduais, apesar deste tema ter sido debatido nas reuniões do
Fórum Permanente, consoante ata da reunião de 06/04/173.

Independente da meta, deve-se destacar que o controle da participação das MPE nas
compras estaduais e municipais seria um importante indicador para avaliação de todo o
programa de fomento às MPE.

O TCEMG, através de convênio com a Receita Estadual, desenvolveu um acompanhamento


das compras locais dos Municípios de modo a verificar se os Municípios estão implantando
programas e ações de preferências de contratação de empresas locais e, quando identificados
indicadores baixos, o Tribunal faz ações de treinamento de compradores públicos e o SEBRAE
de capacitação das empresas locais.

O SEBRAE mantem um site para monitoramento da participação das MPEs nas compras
públicas4, em especial para acompanhamento das compras de fornecedores locais:

3
http://www.fopeme.pr.gov.br/arquivos/File/ata16reuniaoextraordinariafopeme060417.pdf
4
http://www.comprapr.com.br/index.php?pg=oprograma.php&menu=3&gpmenu=6
Ainda que não exista a meta de participação de MPE nas contratações públicas, seria de
suma importância a adoção de indicadores, validando os dados de acompanhamento do
SEBRAE, e monitorando a eficácia da política pública adotada.

3.4. Do Portal de Compras

A LC determinou que a Secretaria de Estado de Administração instituísse o Portal de


Compras Governamentais para centralizar as informações referentes às compras públicas e as
ações de planejamento das compras de governo (art. 29, I).

Pois bem, o portal foi instituído no site http://www.comprasparana.pr.gov.br/ , e,


centraliza as compras dos órgãos que utilizam o sistema GMS. Contudo, não foi localizado no
Portal as ações de planejamento das compras de governo.

Pelo inciso II do artigo 29, um dos objetos do Portal de Compras seria “dar ampla
flexibilidade e possibilidades à política de compras governamentais voltadas à participação de
microempresas, empresas de pequeno porte e do microempreendedor individual, locais e
regionais”.
E, conforme o parágrafo único do mesmo artigo, a administração deveria usar o portal para,
dentre outras ações, divulgar previamente os editais de licitação na forma da legislação,
destacando a forma de participação das microempresas e empresas de pequeno porte.

Nas fiscalizações de editais de licitação realizadas, foram feitos acompanhamentos de


publicação dos editais e, numa pequena amostra, verificou-se que um dos órgãos somente
publicava no Portal quando houve a publicação do edital no Diário Eletrônico.

Assim, não há flexibilidade para divulgação previa dos editais da licitação que envolvem a
participação das MPEs.

3.5. Temas regulamentados apenas nos Decretos

O empate ficto foi mencionado na LC apenas como remição à aplicação das regras dos
artigo 42 a 49 da LC nº. 123/06 como uma das ações do programa de tratamento diferenciado
e favorecido às MPEs.

Não houve detalhamento do empate ficto na LC estadual.

Já no Decreto Estadual n. 2474/15, em seu artigo 5º, houve regulamentação do instituto do


empate ficto a um nível de detalhe que não estava presente no estatuto nacional, inclusive
esclarecendo temas omissos: prazo para o proponente MPE oferecer nova proposta nas
modalidades de licitação da Lei geral de licitações, uso do sorteio, etc.

A licitação exclusiva às MPE, tratada no artigo 48, I Do Estatuto Nacional, foi regulamentada
no artigo 6 º do Decreto n. 2474/15, determinando a realização de licitações exclusivas às MPE
por itens de contratação cujo valor seja de até R$80.000,00.

E, se for o caso de aquisição de bens ou serviços comuns, deverá ser dada preferência à
realização do pregão presencial que trata o artigo 22 da LC n. 163/13.

As licitações com cotas exclusivas às MPE’s foram tratadas tanto no Decreto n. 2474/15
quanto no Decreto Estadual n. 4993/16, que trata regras e critérios para aquisição de bens e
contratação de serviços continuados e não continuados, excluídos os serviços de engenharia e
de tecnologia da informação.

Neste último Decreto se determinou a cotização, nos termos do artigo 48, III do Estatuto
Nacional, salvo nos casos em que não existam 3 fornecedores sediados local ou regionalmente,
se não for vantajoso ou representar prejuízo ao conjunto ou complexo do objeto ou quando,
com as cotas reservadas às MPE, não seja possível alcançar os objetivos elencados no artigo 47.

Já no Decreto n. 2474/15, no artigo 8º, além de determinar a cota, regulamentou-se temas


omissos no Estatuto Nacional, como por exemplo: possibilidade da MPE adjudicar a totalidade
do objeto, casos de uma das cotas restarem deserta, o preço no caso da MPE vencer duas cotas,
a prioridade de aquisição da cota reservada no SRP.
Um ponto bem interessante do decreto foi a possibilidade de se dimensionar cota em
volume menor que 25% (dimensionamento), considerando a natureza do objeto e a capacidade
técnica e econômico-financeira das microempresas, empresas de pequeno porte,
microempreendedor individual, bem como a necessidade do Órgão ou entidade contratante, de
acordo com o planejamento anual de compras que dispõe o inciso I do art. 2.º deste Decreto.

O Decreto n. 2474/15 também tratou das condicionantes para a realização das licitações
diferenciadas, replicando o artigo 49 da Lei Nacional, incluindo mais uma condicionante de não
realização das licitações diferenciadas quando esta ação não alcançar os objetivos do
tratamento diferenciado (desenvolvimento, inovação e implementação das políticas públicas),
e, trazendo o procedimento para verificação da existência de 3 MPE sediadas local ou
regionalmente (declaração dos licitantes, ausência de efetiva participação de 3 MPE em licitação
com mesmo objeto e mesma região, consulta à associações ou pareceres técnicos).

Destaque-se que o TC já possui resposta à consulta formal sobre o tema, e que diverge do
regramento do art. 9º, §2º do Decreto.

4. LC 147/14 E LEGISLAÇÃO ESTADUAL

A LC 147 alterou o Estatuto das MPE para, ampliar o prazo da regularidade fiscal tardia,
para obrigar que os entes federados realizassem licitações exclusivas ou com cotas exclusivas,
se atendidas as condições do artigo 49 do Estatuto Nacional, para alterar as condicionantes de
realização das licitações diferenciadas (revogação do inciso I e mudança no texto do inciso IV) e
trouxe uma ferramenta para o desenvolvimento local/regional: o §3º do artigo 48 que permite
a preferência de contratação de MPE local ou regional nas licitações diferenciadas em até 10%
do melhor preço válido.

A LC não foi alterada para se adequar aos novos prazos de regularização fiscal tardia.

Como a LC não tratou em detalhes das licitações diferenciadas, mas remeteu ao Estatuto
Nacional, então não haveria necessidade de alteração da LC Estadual.

Mas, quero destacar as ações do programa estadual para fomento do desenvolvimento


local e regional incluídas na LC 163/13:

- elaboração de planejamento das compras, dividindo-as em itens de contratação e


buscando o máximo de descentralização territorial.

- elaboração de planejamento de aquisições de gêneros alimentícios perecíveis


considerando a oferta de produtores locais.

- máxima divulgação dos editais no âmbito local.

- planejamento para prever subcontratação de serviços.

- realização de pregões presenciais quando houver interesse de MPE.

- treinamento de compradores e MPE locais/regionais


Não houve previsão de preferência de contratação de MPE local ou regional, nem no
Decreto que tem data posterior à edição da LC n. 147/14. De forma que se subentende que o
Estado do Paraná preferiu não implantar a nova ferramenta de fomento local/regional.

Por outro lado, as demais ações de fomento previstas no texto original da LC 163/13, que
poderiam impactar no desenvolvimento, não foram implantadas, salvo os treinamentos.
Destaque-se que algumas ações determinam o fomento no âmbito local e regional. E, o Estado
do Paraná sequer regulamentou o conceito de região que adota.

Avançando no debate, a nível municipal tem se debatido sobre a possibilidade de realização


de licitações restritas a empresas sediadas no Município ou na região. Tal debate já é objeto de
processo de prejulgado perante o TCE/PR e a unidade técnica já exarou opinativo pela
possibilidade, em certos casos, de se restringir territorialmente uma licitação.

A nível estadual também daria margem ao debate, uma vez que, dependendo do objeto de
contratação, o atendimento da necessidade da Administração já conduz a uma obrigatória
restrição (ex: combustíveis, alguns perecíveis, etc).

Mas, como política pública, abriu-se debate para a possibilidade do estado restringir
territorialmente suas compras para MPE regionais que estejam abarcadas por politicas públicas
de fomento bem específicas que tenham como objetivos a mais, além do fomento, outros
valores previstos constitucionalmente.

5. DESAFIOS

Assim, verifica-se que a nível estadual vislumbram-se alguns desafios:

a) A instituição do cadastro de MPE que pudesse ser utilizado pelos Municípios;


b) A realização de planejamentos anuais de compras, considerando a máxima
descentralização territorial e a oferta dos produtores locais/regionais no caso de
gêneros alimentícios perecíveis;
c) A divulgação dos planos anuais, com os quantitativos, de todos os órgãos da
administração.
d) A padronização das especificações técnicas dos produtos a serem adquiridos para não
criar surpresas.
e) Ainda que não se institua metas de participação anual, a implantação de um controle
de acompanhamento da participação das MPE ajudará a verificar se as ações
implantadas no programa estão sendo efetivas.