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EXEGESE DE MATEUS 3:1-12

Wagner Lopes da Silva

Maringá
2014
2

SUMÁRIO

Introdução............................................................................................................ 4

1. Primeira Aproximação do Texto .......................................................................... 5

1.1. Crítica Textual .................................................................................................. 5

1.1.1 Texto Original de Mateus 3:1-12 .................................................................... 5

1.1.2 Observações Sobre o Texto Original – Crítica Textual ............................... 6

1.1.3 Delimitação .................................................................................................... 8

1.1.4 Tradução ........................................................................................................ 9

1.1.4.1 Tradução Palavra a Palavra ....................................................................... 9

1.1.4.2 Tradução Literal de Toda a Perícope ....................................................... 16

1.1.5 Comparação ................................................................................................ 17

1.1.5.1 Avaliação da Comparação ........................................................................ 19

1.1.6 Subdivisão ................................................................................................... 20

2. Segunda Aproximação do Texto ....................................................................... 22

2.1. Leitura Sincrônica .......................................................................................... 22

2.1.1 Análise Lingüístico-Sintática ........................................................................ 22

2.2 Leitura Diacrônica ........................................................................................... 26

2.2.1 Análise Literária ........................................................................................... 26

2.2.1.1 Delimitação ............................................................................................... 27

2.2.1.2 Estrutura ................................................................................................... 27

2.2.1.3 Integridade e Coesão ................................................................................ 30

2.2.2 Análise da Redação ..................................................................................... 30


3

2.2.2.1 Uso de Fontes Escritas ............................................................................. 31

2.2.3 Análise das Formas ..................................................................................... 32

2.2.3.1 Fórmula Literária ....................................................................................... 32

2.2.3.2 Gênero Literário ........................................................................................ 32

2.2.3.3 Autoria e Data ........................................................................................... 33

2.2.3.4 Lugar Vivencial (Sits im Lebem) ............................................................... 34

2.2.3.5 Intencionalidade do Texto ......................................................................... 35

3. Hermenêutica .................................................................................................... 37

3.1 Análise de Conteúdo ....................................................................................... 37

3.1.1 Contribuições das Análises Precedentes .................................................... 37

3.1.2 A comunidade do Texto ............................................................................... 40

3.1.3 A mensagem da Perícope ........................................................................... 41

3.2 Análise Teológica ............................................................................................ 42

3.3 Atualização da Mensagem .............................................................................. 43

Referências ........................................................................................................... 45
4

INTRODUÇÃO
Este estudo exegético foi baseado na perícope de Mateus 3:1-12, em que
João Batista testemunha sobre Jesus, sobre o advento do Reino de Deus (dos
céus) e convoca o povo a arrepender-se e participar deste Reino.

Basicamente, o método utilizado neste trabalho exegético foi o lecionado no


módulo “Exegese e Teologia do Novo Testamento”, no Curso de Teologia EAD da
Universidade Metodista, no primeiro semestre de 2013, o qual, por sua vez,
baseou-se na excelente obra de Uwe Wegner, “Exegese do Novo Testamento”.

A escolha da perícope deu-se em função de nossa admiração pela


mensagem evangelística e cristocêntrica nela contida, e na personagem principal
da narração, João Batista, com sua pregação de urgência e de combate à
hipocrisia religiosa.
5

EXEGESE DE MATEUS 3:1-12

1. PRIMEIRA APROXIMAÇÃO DO TEXTO

1.1 Crítica Textual

1.1.1 Texto Original de Mateus 3:1-12 1

1.εν δε ταις ημεραις εκειναις παραγινεται ιωαννης ο βαπτιστης κηρυσσων εν

τη ερημω της ιουδαιας

2.και λεγων μετανοειτε ηγγικεν γαρ η βασιλεια των ουρανων

3.ουτος γαρ εστιν ο ρηθεις υπο ησαιου του προφητου λεγοντος φωνη βοωντος

εν τη ερημω ετοιμασατε την οδον κυριου ευθειας ποιειτε τας τριβους αυτου

4.αυτος δε ο ιωαννης ειχεν το ενδυμα αυτου απο τριχων καμηλου και ζωνην

δερματινην περι την οσφυν αυτου η δε τροφη αυτου ην ακριδες και μελι αγριον

5.τοτε εξεπορευετο προς αυτον ιεροσολυμα και πασα η ιουδαια και πασα η

περιχωρος του ιορδανου

6.και εβαπτιζοντο εν τω ιορδανη υπ αυτου εξομολογουμενοι τας αμαρτιας

αυτων

1
Fonte: NESTLÉ-ALAND. Novum Testamentum Graece, 27ª edição, 1998.
6

7.ιδων δε πολλους των φαρισαιων και σαδδουκαιων ερχομενους επι το

βαπτισμα αυτου ειπεν αυτοις γεννηματα εχιδνων τις υπεδειξεν υμιν φυγειν

απο της μελλουσης οργης

8.ποιησατε ουν καρπους αξιους της μετανοιας

9.και μη δοξητε λεγειν εν εαυτοις πατερα εχομεν τον αβρααμ λεγω γαρ υμιν

οτι δυναται ο θεος εκ των λιθων τουτων εγειραι τεκνα τω αβρααμ

10.ηδη δε και η αξινη προς την ριζαν των δενδρων κειται παν ουν δενδρον μη

ποιουν καρπον καλον εκκοπτεται και εις πυρ βαλλεται

11.εγω μεν βαπτιζω υμας εν υδατι εις μετανοιαν ο δε οπισω μου ερχομενος

ισχυροτερος μου εστιν ου ουκ ειμι ικανος τα υποδηματα βαστασαι αυτος υμας

βαπτισει εν πνευματι αγιω και πυρι

12.ου το πτυον εν τη χειρι αυτου και διακαθαριει την αλωνα αυτου και συναξει

τον σιτον αυτου εις την αποθηκην το δε αχυρον κατακαυσει πυρι ασβεστω

1.1.2 Observações Sobre o Texto Original – Crítica Textual

Como afirma Wegner (2002, p. 39), a crítica textual do Novo Testamento


visa a “determinar com a maior exatidão possível o texto grego que deverá servir
de base para a tradução e a pesquisa posteriores”, pois, como seus manuscritos
originais desapareceram, é necessário constatarem-se as diferenças entre as
diversas cópias que deles foram feitas ao longo dos séculos e avaliar qual das
variantes teria mais probabilidade de corresponder ao texto original.

A busca científica pelo texto com maior correspondência possível ao


original teve um de seus momentos mais marcantes em 1881, quando Brooke F.
Westcott (1825-1901) e Fenton J. A. Hort (1828-1892), professores de Teologia na
7

Universidade de Cambridge, publicaram uma notável edição critica do NT grego,


intitulada The New Testament in the Original Greek, fruto de um trabalho de cerca
de 28 anos, na qual, valendo-se de coleções de variantes já existentes,
aperfeiçoaram princípios que haviam sido desenvolvidos por eminentes estudiosos
e aplicaram-nos com bastante rigor e imparcialidade na reconstituição do texto.

Em 1898, Eberhard Nestle (1851-1913) lançou a primeira edição de seu


Novum Testamentum Graece, que não apresentava um texto propriamente novo,
mas havia sido elaborado para fins práticos, com base nas edições de Tischendorf
e Westcott e Hort. Em 1952, Kurt Aland, um dos maiores nomes na critica textual
do NT do século XX, passou a ser editor associado do NT grego de Nestle, então
na 21ª edição. Em 1979, o “Nestle-Aland”, como ficou conhecido, apareceu em
sua 26ª edição.

Em outra linha, em 1955, o Departamento de Traduções da Sociedade


Bíblica Americana formou uma comissão internacional de especialistas, que
elaborou o The Greek New Testament, publicado em 1966. Os trabalhos desta
comissão, basicamente, envolveram as seguintes tarefas: 1) tomando como base
a edição de Westcott e Hort, fizeram uma comparação do texto e do aparato critico
de varias outras edições, incluindo as de Nestle, com o propósito de determinar
quais variantes mereceriam estudo mais amplo; 2) em torno dos milhares de
variantes, compilaram dados não apenas de tais edições, mas também de
comentários e estudos técnicos, bem como de papiros, unciais, minúsculos e
lecionarios não usados ate então; 3) escolheram e compararam entre o texto
grego e as principais versões em inglês, alemão e francês cerca de 600 variações
de pontuação; finalmente, 4) estabeleceram o texto grego, avaliaram o grau de
certeza da leitura adotada no texto e decidiram quais variantes deveriam ser
incluídas no aparato.

As principais alterações no texto da segunda edição do The Greek New


Testament haviam sido sugeridas por Aland, que estivera efetuando uma
detalhada analise das mudanças propostas para a 26ª edição do Nestle-Aland.
Em conseqüência, a comissão editorial pôde estabelecer um só texto para a
8

terceira edição do The Greek New Testament e a 26ª do Nestle-Aland, o que


representou grande progresso na fixação do texto grego do NT.

Assim, depois dos quase 500 anos do texto impresso e das mais de mil
edições já surgidas desde Erasmo2, além das centenas de outros estudos
técnicos, a critica textual do NT chegou a um estágio tal de desenvolvimento que a
concordância entre os estudiosos quanto ao texto critico moderno é muito grande,
ao passo que o número de variantes ainda contestadas é muito reduzido 3.

Pois bem. Como refere Wegner (2002, p. 69),

“A realização de uma CT integral, por parte do estudantado, representaria


apenas a repetição de todo um trabalho criterioso de avaliação já realizado
por eruditos reconhecidos internacionalmente e cujo resultado é o texto de
alto nível científico apresentado pela edição de Nestlé-Aland”.

Desta forma, como para o presente trabalho usamos a obra Novum


Testamentum Graece, 27ª edição, de Nestle-Aland, que apresenta texto idêntico
ao The Greek New Testament, quarta edição, de 1994, entendemos que qualquer
aprofundamento que fizéssemos neste trabalho, visando uma exatidão maior do
que a já obtida naquelas obras, seria inócua.

1.1.3 Delimitação

A delimitação da perícope escolhida – Mateus, 3:1-12 – no texto bíblico é


de fácil percepção.

A unidade literária está contida no início do Evangelho de Mateus, em que o


autor apresenta Jesus e o legitima como o Messias esperado pelos judeus,
valendo-se, para isso, da genealogia do Cristo, na primeira parte do Capítulo 1, da
invocação do cumprimento das profecias que envolviam seu nascimento, na

2
Erasmo de Roterdã, famoso escritor e humanista holandês, produziu, em 1516, o primeiro novo testamento
grego que chegou ao domínio público.
3
Os dados apresentados acerca do desenvolvimento da Crítica Textual do Novo Testamento foram obtidos
na obra de Wilson Paroschi, Crítica Textual do Novo Testamento.
9

segunda parte do capítulo 1 e no capítulo 2, e do testemunho pessoal de um


personagem profético, João Batista, no capítulo 3.

Mesmo ainda fazendo parte do contexto de introdução do evangelho e


apresentação de Jesus, o início de uma específica perícope se percebe porque o
autor pára de narrar as circunstâncias que envolveram o nascimento do Cristo e,
desde o primeiro verso do capítulo 3, passa a enfocar o ministério profético de
João Batista, consistente na convocação do povo ao arrependimento, e em seu
testemunho acerca de Jesus. Também no tempo verifica-se a mudança, pois logo
se constata (verso 13 do capítulo 3 em diante) que os fatos narrados ocorriam já
na fase adulta de Jesus.

Já o encerramento do tema e, portanto, da unidade literária destacada, fica


patente pelo fato de, a partir do verso 13 a narrativa passar a enfocar
especificamente as ações de Jesus.

Evidencia-se assim que a passagem que foi do verso 1 até o verso 12 do


capítulo 3 configura-se uma perícope específica.

1.1.4 Tradução4

1.1.4.1 Tradução Palavra a Palavra

Verso 1:
Ἐν Em (preposição)
δὲ agora (conjunção)
ταῖς os
ἡμέραις dias
ἐκείναις , aqueles
παραγίνεται apareceu (verbo)
Ἰωάννης* João
ὁ o
4
Tradução realizada com base no texto de Vilson Scholz, Novo Testamento Interlinear Grego-Português,
2004.
10

βαπτιστὴς , Batista
κηρύσσων apregoando (verbo)
ἐν em (preposição)
τῇ o
ἐρήμῳ deserto
τῆς da
Ἰουδαίας , Judeia

Verso 2:
‹καὶ› e (conjunção)
λέγων , dizendo (verbo)
Μετανοεῖτε : Arrependei (-vos) (verbo)
ἤγγικεν aproximou (-se) (verbo)
γὰρ pois (conjunção)
ἡ o
βασιλεία reino
τῶν do
οὐρανῶν . céus

Verso 3:
οὗτος Este
γάρ pois (conjunção)
ἐστιν é (verbo)
ὁ o
ῥηθεὶς falado (verbo)
διὰ através de (preposição)
Ἠσαΐου Isaías
τοῦ o
προφήτου , profeta
λέγοντος , dizendo (verbo)
Φωνὴ voz
βοῶντος clamando (verbo)
ἐν em (preposição)
τῇ o
ἐρήμῳ , deserto
Ἑτοιμάσατε Preparai (verbo)
τὴν o
ὁδὸν caminho
Κυρίου ; de-Senhor
εὐθείας reto
11

ποιεῖτε fazei (verbo)


τὰς o
τρίβους caminhos
αὐτοῦ . dele

Verso 4:
Αὐτὸς Ele

δὲ já (conjunção)
ὁ o
Ἰωάννης* João
εἶχεν tinha (verbo)
τὸ a
ἔνδυμα roupa
αὐτοῦ dele
ἀπὸ de
τριχῶν pêlos
καμήλου , de-camelo
καὶ e (conjunção)
ζώνην cinta
δερματίνην de-couro
περὶ em-volta (preposição)
τὴν da
ὀσφὺν cintura
αὐτοῦ , dele,
ἡ a
δὲ e (conjunção)
τροφὴ comida
ἦν era (verbo)
αὐτοῦ dele
ἀκρίδες gafanhotos
καὶ e (conjunção)
μέλι mel
ἄγριον . silvestre

Verso 5:
Τότε Então
ἐξεπορεύετο saíam (verbo)
πρὸς para (preposição)
αὐτὸν ele
12

Ἱεροσόλυμα , Jerusalém
καὶ e (conjunção)
πᾶσα toda
ἡ a
Ἰουδαία , Judéia
καὶ e (conjunção)
πᾶσα toda
ἡ a
περίχωρος região-circunvizinha
τοῦ do
Ἰορδάνου , Jordão

Verso 6:
καὶ e (conjunção)
ἐβαπτίζοντο batizavam-se (verbo)
ἐν em (preposição)
τῷ o
Ἰορδάνῃ Jordão
ποταμῷ rio
ὑπ’ por (preposição)
αὐτοῦ , ele
ἐξομολογούμενοι confessando (verbo)
τὰς os
ἁμαρτίας pecados
αὐτῶν . deles

Verso 7:
Ἰδὼν vendo (verbo)
δὲ mas (conjunção)
πολλοὺς muitos
τῶν dos
Φαρισαίων Fariseus
καὶ e (conjunção)
Σαδδουκαίων Saduceus
ἐρχομένους vindo (verbo)
ἐπὶ para (preposição)
τὸ o
βάπτισμα batismo
‹αὐτοῦ› , dele
εἶπεν disse (verbo)
13

αὐτοῖς , a-eles
Γεννήματα Descendência
ἐχιδνῶν , de-víboras
τίς quem
ὑπέδειξεν alertou (verbo)
ὑμῖν vós
φυγεῖν fugir (verbo)
ἀπὸ de (preposição)
τῆς a
μελλούσης vindoura
ὀργῆς ? ira

Verso 8:
ποιήσατε Produzi (verbo)
οὖν então (conjunção)
καρπὸν fruto
ἄξιον digno
τῆς do
μετανοίας . arrependimento

Verso 9:
καὶ e (conjunção)
μὴ não
δόξητε suponhai (verbo)
λέγειν dizer (verbo)
ἐν entre (preposição)
ἑαυτοῖς , vós
Πατέρα Pai
ἔχομεν temos (verbo)
τὸν o
Ἀβραάμ . Abraão
λέγω Digo (verbo)
γὰρ pois (conjunção)
ὑμῖν , a vós
ὅτι que
δύναται é-capaz (verbo)
ὁ o
Θεὸς Deus
ἐκ extrair-de (verbo)
14

τῶν as
λίθων pedras
τούτων estas
ἐγεῖραι levantar (verbo)
τέκνα filhos
τῷ para
Ἀβραάμ . Abraão

Verso 10:
ἤδη Já
δὲ mas (conjunção)
ἡ o
ἀξίνη machado
πρὸς contra (preposição)
τὴν a
ῥίζαν raiz
τῶν das
δένδρων árvores
κεῖται : é-colocado. (verbo)
πᾶν Cada
οὖν então (conjunção)
δένδρον árvore
μὴ não
ποιοῦν produzindo (verbo)
καρπὸν fruto
καλὸν bom
ἐκκόπτεται é-cortado (verbo)
καὶ e (conjunção)
εἰς adentro (preposição)
πῦρ fogo
βάλλεται . é-jogado (verbo)

Verso 11:
ἐγὼ eu
μὲν deveras (conjunção)
ὑμᾶς vos
βαπτίζω batizo (verbo)
ἐν com (preposição)
ὕδατι água
15

εἰς para (preposição)


μετάνοιαν ; arrependimento
ὁ o
δὲ entretanto (conjunção)
ὀπίσω após (preposição)
μου mim
ἐρχόμενος vindo (verbo)
ἰσχυρότερός mais-poderoso
μού que-eu
ἐστιν , é-ele (verbo)
οὗ de-quem
οὐκ não
εἰμὶ sou (verbo)
ἱκανὸς digno
τὰ as
ὑποδήματα sandálias
βαστάσαι . carregar (verbo)
αὐτὸς ele
ὑμᾶς vos
βαπτίσει batizará (verbo)
ἐν com (o) (preposição)
Πνεύματι Espírito
Ἁγίῳ Santo
καὶ e (conjunção)
πυρί . fogo

Verso 12:
οὗ cuja (preposição)
τὸ a
πτύον pá-de-joeirar
ἐν em (preposição)
τῇ a
χειρὶ mão
αὐτοῦ ; dele
καὶ e (conjunção)
διακαθαριεῖ limpará-completamente (verbo)
τὴν a
ἅλωνα eira
16

αὐτοῦ , dele
καὶ e (conjunção)
συνάξει ajuntará (verbo)
τὸν o
σῖτον trigo
αὐτοῦ dele
εἰς dentro (preposição)
τὴν do
ἀποθήκην ; celeiro
τὸ a
δὲ mas (conjunção)
ἄχυρον palha
κατακαύσει queimará (verbo)
πυρὶ com-fogo
ἀσβέστῳ . inextinguível

1.1.4.2 Tradução Literal de Toda a Perícope

Em agora os dias aqueles, apareceu João o Batista, apregoando em o


deserto da Judéia, e dizendo, Arrependei-vos: aproximou-se pois o reino do céus.

Este pois é o falado através de Isaías o profeta dizendo voz clamando em o


deserto, Preparai o caminho de-Senhor; reto fazei o caminhos dele. Ele já o João
tinha a roupa dele de pêlos de-camelo e cinta de-couro em-volta da cintura dele, a
e comida era dele gafanhotos e mel silvestre.

Então saíram para ele Jerusalém e toda a Judéia e toda a região-


circunvizinha do Jordão e batizavam-se em o Jordão rio por ele confessando os
pecados deles.

Vendo porém muitos dos Fariseus e Saduceus vindo para o batismo dele,
ele disse a eles: “Descendência de víboras, quem alertou-vos a fugir de a
vindoura ira? Produzi então fruto digno do arrependimento e não suponhai dizer
entre vós, Pai temos o Abraão. Digo pois a vós que é capaz o Deus de extrair-de
17

as pedras estas levantar filhos para Abraão. Já mas o machado contra a raiz das
árvores é-colocado. Cada então árvore não produzindo fruto bom é-cortado e
adentro fogo é-jogado.

“Eu deveras vos batizo com água para arrependimento o entretanto após
mim vindo mais poderoso que eu é ele de quem não sou digno as sandálias
carregar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e fogo. Cuja a pá-de-joeirar em a
mão dele e limpará-completamente a eira dele e ajuntará o trigo dele dentro do
celeiro a mas palha queimará com fogo inextinguível”.

1.1.5 Comparação

Compara-se, agora, o texto literal obtido, com duas traduções da Bíblia em


português, a Almeida Revista e Atualizada (ARA), e Nova Versão Internacional
(NVI), avaliando-se, então, as diferenças encontradas nas comparações,
investigando se há alterações significativas nas interpretações.

Tradução literal ARA NVI


1. Em agora os dias Naqueles dias, apareceu Naqueles dias surgiu
aqueles, apareceu João o João Batista pregando no João Batista, pregando no
Batista, apregoando em o deserto da Judéia e dizia: deserto da Judéia.
deserto da Judéia
2. e dizendo, Arrependei- Arrependei-vos, porque Ele dizia: "Arrependam-
vos: aproximou-se pois o está próximo o reino dos se, porque o Reino dos
reino do céus céus. céus está próximo"
3. Este pois é o falado Porque este é o referido Este é aquele que foi
através de Isaías o por intermédio do profeta anunciado pelo profeta
profeta dizendo voz Isaías: Voz do que clama Isaías: "Voz do que clama
clamando em o deserto, no deserto: Preparai o no deserto: ‘Preparem o
Preparai o caminho de- caminho do Senhor, caminho para o Senhor,
Senhor; reto fazei o endireitai as suas façam veredas retas para
caminhos dele veredas. ele’ "
4. Ele já o João tinha a Usava João vestes de As roupas de João eram
roupa dele de pêlos de- pêlos de camelo e um feitas de pêlos de camelo,
camelo e cinta de-couro cinto de couro; a sua e ele usava um cinto de
em-volta da cintura dele, alimentação eram couro na cintura. O seu
18

a e comida era dele gafanhotos e mel alimento era gafanhotos e


gafanhotos e mel silvestre. mel silvestre.
silvestre
5. Então saíram para ele Então, saíam a ter com A ele vinha gente de
Jerusalém e toda a ele Jerusalém, toda a Jerusalém, de toda a
Judéia e toda a região- Judéia e toda a Judéia e de toda a região
circunvizinha do Jordão circunvizinhança do ao redor do Jordão.
Jordão;
6. e batizavam-se em o e eram por ele batizados Confessando os seus
Jordão rio por ele no rio Jordão, pecados, eram batizados
confessando os pecados confessando os seus por ele no rio Jordão.
deles pecados.
7. Vendo porém muitos Vendo ele, porém, que Quando viu que muitos
dos Fariseus e Saduceus muitos fariseus e fariseus e saduceus
vindo para o batismo saduceus vinham ao vinham para onde ele
dele, ele disse a eles batismo, disse-lhes: Raça estava batizando, disse-
Descendência de víboras, de víboras, quem vos lhes: "Raça de víboras!
quem alertou-vos a fugir induziu a fugir da ira Quem lhes deu a idéia de
de a vindoura ira? vindoura? fugir da ira que se
aproxima?
8. Produzi então fruto Produzi, pois, frutos Dêem fruto que mostre o
digno do arrependimento dignos de arrependimento!
arrependimento;
9. e não suponhai dizer e não comeceis a dizer Não pensem que vocês
entre vós, Pai temos o entre vós mesmos: Temos podem dizer a si mesmos:
Abraão. Digo pois a vós por pai a Abraão; porque ‘Abraão é nosso pai’. Pois
que é capaz o Deus de eu vos afirmo que destas eu lhes digo que destas
extrair-de as pedras estas pedras Deus pode pedras Deus pode fazer
levantar filhos para suscitar filhos a Abraão. surgir filhos a Abraão.
Abraão
10. já mas o machado Já está posto o machado O machado já está posto
contra a raiz das árvores à raiz das árvores; toda à raiz das árvores, e toda
é-colocado. Cada então árvore, pois, que não árvore que não der bom
árvore não produzindo produz bom fruto é fruto será cortada e
fruto bom é-cortado e cortada e lançada ao lançada ao fogo.
adentro fogo é-jogado fogo.
11. eu deveras vos batizo Eu vos batizo com água, "Eu os batizo com água
com água para para arrependimento; para arrependimento.
arrependimento o mas aquele que vem Mas depois de mim vem
entretanto após mim depois de mim é mais alguém mais poderoso do
vindo mais poderoso que poderoso do que eu, que eu, tanto que não sou
eu é ele de quem não sou cujas sandálias não sou digno nem de levar as
digno as sandálias digno de levar. Ele vos suas sandálias. Ele os
19

carregar. Ele vos batizará batizará com o Espírito batizará com o Espírito
com o Espírito Santo e Santo e com fogo. Santo e com fogo.
fogo
12. cuja a pá-de-joeirar A sua pá, ele a tem na Ele traz a pá em sua mão
em a mão dele e limpará- mão e limpará e limpará sua eira,
completamente a eira completamente a sua juntando seu trigo no
dele e ajuntará o trigo eira; recolherá o seu trigo celeiro, mas queimará a
dele dentro do celeiro a no celeiro, mas queimará palha com fogo que
mas palha queimará com a palha em fogo nunca se apaga".
fogo inextinguível inextinguível.

1.1.5.1 Avaliação da Comparação

Confrontando-se as três versões, não se verificam divergências


significativas, mas há algumas circunstâncias dignas de nota nos versos 6 e 7.

Assim, no verso 6, observa-se que o estilo de redação da NVI pode levar à


conclusão de que haveria uma seqüência entre os atos praticados por aqueles
que se apresentavam a João, primeiramente confessando seus pecados para,
então, serem batizados, enquanto que nas demais versões isto não se infere,
podendo-se, inclusive, concluir que no próprio ato de batizar-se já estaria
subentendida a confissão de pecados, o que mais se coadunaria com a severa
repreensão que o profeta faz aos fariseus e saduceus no verso seguinte.

Já no verso 7, a versão resultante da tradução e a redação de ARA


denotam que os fariseus e saduceus se aproximavam de João Batista com o
propósito de batizarem-se, enquanto que a redação da NVI não deixa esse
propósito claro, permitindo que a forma como o profeta os tratou fosse interpretada
como resultado de preconceito com os religiosos e não uma repreensão à sua
atitude hipócrita de batizarem-se sem que se tivessem arrependido.
20

1.1.6 Subdivisão

Normalmente a tarefa da subdivisão de um texto, sempre procura


responder, segundo Wegner (2002, p. 89), a duas perguntas básicas:

1. De quantas partes é formado o trecho e o que caracteriza cada uma delas?

2. Com base em que critérios o texto foi subdividido nas suas distintas
partes?

Inicia-se a perícope com a expressão “εν δε ταις ημεραις εκειναις”,

literalmente, “em agora os dias aqueles”, com a conjunção “δε” (agora) denotando

o início de novo tema, com o uso do verbo intransitivo “παραγινεται“ (apareceu),


deslocando a atenção para o sujeito da frase, João Batista. Essa parte segue até
o final do verso 4 e apresenta a pessoa e modo de vida de João Batista, sua
pregação e sua legitimidade (por meio da referência à profecia de Isaías).

No verso 5, a conjunção “τοτε“ (então) abre novo tema, que frui com o uso

do verbo conjugado na 3ª pessoa do plural “εξεπορευετο“ (saíram), em referência


a “Jerusalém e toda a Judéia e toda a região-circunvizinha do Jordão”, e continua,
já no verso 6, a conjunção “καὶ “ (e), denotando que os que saíam “ἐβαπτίζοντο “

(eram batizados) “ὑπ’ αὐτοῦ “ (por ele – João Batista), “εξομολογουμενοι τας

αμαρτιας αυτων” “confessando os pecados deles”.

No verso 7, o uso da conjunção adversativa “δε“ (mas) interrompe o


assunto anterior e abre um novo tema, que se desenvolve até o final do verso 12,
consistente na adomoestação de João Batista aos saduceus e fariseus, pois iam
até ele, para seu batismo, mas, conforme João, sem verdadeiro arrependimento.

Então, no verso 11, o uso, novamente, da conjunção adversativa “δε“

(entretanto), na frase “δε οπισω μου ερχομενος ισχυροτερος“ (entretanto após


mim vindo mais poderoso que eu), abre uma nova parte do texto, para apresentar
a profecia de João Batista sobre Jesus Cristo, o que segue até o final da perícopo.
21

Assim, verifica-se uma subdivisão da perícope em quatro partes:

1) Apresentação de João Batista – versos 1 a 4;

2) Ministério de João Batista – versos 5 e 6;

3) Advertência de João Batista – versos 7 a 10;

4) Profecia de João Batista sobre Jesus Cristo – versos 11 e 12.


22

2. SEGUNDA APROXIMAÇÃO DO TEXTO

2.1 Leitura Sincrônica

Observaremos agora as características lingüísticas do texto, com o


propósito de identificar suas possíveis estruturas.
A partir de então, faremos a verificação estatística, destacando expressões
utilizadas com recorrência e sua influência na mensagem.

2.1.1 Análise Lingüístico – Sintática

A perícope analisada é escrita em gênero narrativo, com a narração feita na


3ª pessoa. Constata-se no texto a recorrência de dois campos semânticos:
batismo e arrependimento.

A idéia ou conceito de batismo aparece em quatro oportunidades, nos


versos 1, 6, 7 e 11, assim:

1: “εν δε ταις ημεραις εκειναις παραγινεται ιωαννης ο βαπτιστης”


(“Em agora os dias aqueles, apareceu João o Batista – ou batisador”;

6: “και εβαπτιζοντο εν τω ιορδανη υπ αυτου εξομολογουμενοι τας

αμαρτιας αυτων” (“e batizavam-se em o Jordão rio por ele


confessando os pecados deles”);

7: “ιδων δε πολλους των φαρισαιων και σαδδουκαιων ερχομενους

επι το βαπτισμα αυτου” (“Vendo porém muitos dos Fariseus e


Saduceus vindo para o batismo dele”); e
23

11: “εγω μεν βαπτιζω υμας εν υδατι εις μετανοιαν ο δε οπισω μου

ερχομενος ισχυροτερος μου εστιν ου ουκ ειμι ικανος τα

υποδηματα βαστασαι αυτος υμας βαπτισει εν πνευματι αγιω και

πυρι” (“Eu deveras batizo-vos com água para arrependimento o


entretanto após mim vindo mais poderoso que eu é ele de quem não
sou digno as sandálias carregar. Ele vos batizará com o Espírito
Santo e fogo”).

A idéia de arrependimento é utilizado três vezes, nos versos 2, 8 e 11:

2. “και λεγων μετανοειτε ηγγικεν γαρ η βασιλεια των ουρανων”


(“E dizendo ‘Arrependei-vos aproximou-se pois o reino do céus’”;

8: “ποιησατε ουν καρπους αξιους της μετανοιας” (“Produzi então


fruto digno do arrependimento”); e

11: “εγω μεν βαπτιζω υμας εν υδατι εις μετανοιαν” (“Eu deveras
vos batizo com água para arrependimento”).

Como frisam Brown e Coenen (2000, p. 179), “o batismo pertence ao grupo


geral de praxes vinculadas com o lavar” e “além do sentido literal de purificar (a
providência da pureza cúltica), mesmo antes do NT já havia um emprego figurativo
do termo (renovação completa da existência humana)”.

A filologia e as estatísticas dão o seguinte quadro para o NT: baptô ocorre

apenas 4 vezes e somente com o significado de mergulhar; baptizô é um termo


técnico para o batismo, e, em todos os Evangelhos ocorre principalmente na

narrativa do batismo de João. Em Atos, baptizô é quase sempre empregado com


respeito ao batismo cristão (18 vezes em 21 passagens) 5.

Baptismos (mergulho, imersão) tem, na literatura clássica, a conotação de

perecer, como o verbo baptizô. Entre os judeus de língua grega, provavelmente

5
Cfe. Brown e Coenen, 2000, p. 181.
24

era empregado com respeito ao batismo de prosélitos, já que Josefo usa a palavra
para o batismo de João.

Baptisma surge pela primeira vez no NT. É uma inovação cristã, e foi
aplicada ao batismo de João pelos escritores cristãos na convicção de que
devesse ser incluído com o cristianismo, e não com o judaísmo 6.

Baptistês é o sobrenome dado a João Batista nos Evangelhose chama


atenção ao elemento característico no ministério dele: a exigência quanto a um
batismo de arrependimento e, ainda mais, à novidade de administrar batismo aos
outros, ao invés de se deixarem batizar a si mesmos, conforme acontecia com as
abluções do AT e no batismo judaico de prosélitos 7.

O grupo de palavras metanoia (mudança de opinião, arrependimento,

conversão), metanoeó (mudar de opinião, aprrepender-se, converter-se) é


relativamente raro na literatura grega clássica e se emprega mais freqüentemente
no grego koine.

O termo metanoeó contém a idéia de que a mudança de opinião inclui o


reconhecimento de que a opinião anterior era falsa ou má, daí a o significado de
sentir pesar acerca de algo, sentir remorso ou pesar, para o verbo, e de mudança
de opinião, remorso ou pesar, para o substantivo. O NT não ressalta o conceito
concreto e físico, mas é o pensamento, a vontade, o nous, que se enfatiza8.

No Antigo Testamento, “a motivação para o arrependimento e para a volta


ao verdadeiro caminho da justiça de Deus vinculava-se com o passado; para João
Batista, esta motivação era a proximidade do reino dos céus, denotando a
existência de um único caminho para o homem que deseja escapar do juízo:
precisa se arrepender de tal forma que sua vida inteira se mude, sendo trazida
para um novo relacionamento com Deus (Mt 3:10)” (Brown e Coenen, 2000, p.
420, paráfrase).

6
Cfe. Brown e Coenen, 2000, p. 185.
7
Idem, p. 185.
8
Ibidem, p. 420.
25

Também se destaca o uso da expressão “reino dos céus”, utilizada pela


primeira vez por Mateus, que, reverentemente, substitui a palavra “Deus” pela
palavra “céus”. Como ressalta Tasker (2007, p. 40), “por reino, na maioria das
passagens em que esta expressão ocorre, Mateus quer dizer ‘domínio real’, mais
do que a esfera em que esse domínio é exercido”.

Verifica-se também uma grande contingência de verbos relacionados a


comunicar (apregoar, dizer, falar, clamar, alertar), que ocorre em nove
oportunidades, das seguintes formas:

- κηρύσσων (apregoando, verso 1);

- λέγων (dizendo, verso 2);

- ῥηθεὶς (falado, verso 3);

- λέγοντος (dizendo, verso 3);

- βοῶντος (clamando, verso 3);

- εἶπεν (disse, verso 7);

- ὑπέδειξεν (alertou, verso 7);

- λέγειν (dizer, verso 9)

- λέγω (digo, verso 9).

O uso desses verbos denota que o propósito da perícope não está


propriamente nos fatos narrados, mas nos discursos, no que é pronunciado, na
proclamação de João Batista, na profecia sobre ele em Isaías,na advertência dele
acerca dos religiosos. Mais importante do que a pessoa de João Batista é a
mensagem de arrependimento por ele proclamada; mais importante que o fato de
ele batizar é a conclamação ao arrependimento; mais importante que a atitude dos
religiosos que saíam ao batismo de João era a denúncia do profeta sobre a real
situação deles;. Como refere Tasker (2007, p. 40), o uso do aoristo grego original
26

em produzi (verso 8) significa que uma ação completa e imediata deve ser
realizada.

Também se destaca o uso de imagens da agricultura, primeiramente com a


idéia de fruto, como conseqüência, para destacar que o batismo só é válido se for
fruto (conseqüência) do arrependimento. Assim na contraposição entre a
imprecação aos fariseus e saduceus, chamados de “descendência [fruto] de
víboras”, apesar de se fiarem na auto-intitulação de “filhos [fruto] de Abraão”,
destacando a inutilidade dessa circunstância externa (a descendência de Abraão)
sem mudança interna (arrependimento), denunciada na advertência de que Deus
pode suscitar filhos [fruto] a Abraão a partir de pedras.

O autor também recorre à figura da prática agrícola como suporte para a


advertência contida na frase “Cuja a pá-de-joeirar em a mão dele e limpará-
completamente a eira dele e ajuntará o trigo dele dentro do celeiro a mas palha
queimará com fogo inextinguível”, em referência ao futuro dos que não se
arrependem verdadeiramente.

2.2 Leitura Diacrônica

2.2.1 Análise Literária

2.2.1.1 Delimitação

A unidade literária está contida no início do Evangelho de Mateus, em que o


autor apresenta Jesus e o legitima como o Messias esperado pelos judeus,
valendo-se, para isso, da genealogia, na primeira parte do Capítulo 1, e da
invocação do cumprimento das profecias sobre ele, na segunda parte do capítulo
1 e no capítulo 2. Mas o início da perícope se percebe especificamente porque o
27

autor pára de narrar circunstâncias do nascimento do Cristo e, desde o primeiro


verso do capítulo 3, passa a enfocar o ministério profético de João Batista,
consistente na convocação do povo ao arrependimento, e em seu testemunho
acerca de Jesus. Também no tempo verifica-se a mudança, pois logo se constata
(verso 13 do capítulo 3 em diante) que os fatos narrados ocorriam já na fase
adulta de Jesus.

E o encerramento do tema e, portanto, da unidade literária destacada, fica


evidenciada pelo fato de, a partir do verso 13 a narrativa passar a enfocar
especificamente as ações de Jesus.

Observa-se, então, que a perícope apresenta uma mensagem em duas


partes, uma primeira com uma convocação genérica, de todo o povo, ao
arrependimento, e uma segunda, específica, aos religiosos, denunciando a
hipocrisia de cometerem gestos que denotavam um arrependimento (batizar-se)
o qual, contudo, não se verificava em suas atitudes (frutos).
Assim, na primeira parte, o foco da mensagem é depositada em João
Batista e em sua mensagem, o que pode ser explicado pelo uso de verbos no
gerúndio (apregoando, dizendo, clamando) e, na segunda parte, nos religiosos,
com verbos no pretérito perfeito, no infinitivo e no presente (disse, alertou, dizer,
digo).

2.2.1.2 Estrutura

A unidade literária, que contém uma narração, é desenvolvida em paralelismos em


oposição. Primeiramente, há o paralelismo entre os dois grandes blocos, expostos na
delimitação acima, entre a pregação de João Batista da mensagem convocação ao
arrependimento e a denúncia que o profeta faz da hipocrisia dos religiosos. Assim:

Em agora os dias aqueles, Vendo porém muitos dos


apareceu João o Batista, Fariseus e Saduceus vindo
apregoando em o deserto da para o batismo dele, ele disse
28

Judéia, e dizendo, Arrependei- a eles Descendência de


vos: aproximou-se pois o reino víboras, quem alertou-vos a
do céus (...)e batizavam-se em fugir de a vindoura ira? Produzi
o Jordão rio por ele então fruto digno do
confessando os pecados deles arrependimento (...)eu deveras
(versos 1 a 6) vos batizo com água para
arrependimento o entretanto
após mim vindo mais poderoso
X que eu é ele de quem não sou
digno as sandálias carregar.
Ele vos batizará com o Espírito
Santo e fogo, cuja a pá-de-
joeirar em a mão dele e
limpará-completamente a eira
dele e ajuntará o trigo dele
dentro do celeiro a mas palha
queimará com fogo
inextinguível (versos 7, 8 a
11,12).

E também se verificam no corpo da perícope diversos outros paralelismos


de membros, em oposição. Assim, após dizer, nos versos 5 e 6, que saíam a ter
com João Batista muitas pessoas para se batizarem, que teriam atendido sua
pregação de arrependimento, usa-se a conjunção adversativa mas ou porém no
verso 7, para referir-se que fariseus e saduceus também saíam ao batismo.
Em seguida, nos versos 8 e 9, mais uma contraposição, quando João
manda aos religiosos que produzam frutos de arrependimento e então o contraste:
e não invocar o fato de afirmarem-se descendentes de Abraão. Também a
contraposição entre a confiança dos religiosos em sua descendência de Abraaão e
o fato de João os chamar de descendência de víboras.
29

Na segunda parte do verso 9 e no verso 10, nova oposição, usando a figura


da confiança dos religiosos no fato de serem descendentes de Abraão com sua
falta de frutos e a figura de cortar-se e lançar-se ao fogo toda árvore que não
produz frutos.

E também no verso 11 o contraste verificado pelo uso da expressão


entretanto, para contraporem-se o batismo de João, com água, e o batismo de
Jesus, com o Espírito Santo e fogo, de que decorrerá uma situação expressa em
nova contraposição, entre trigo no celeiro e palha no fogo.

Assim:

Jerusalém e toda a Judéia e muitos dos Fariseus e


toda a região-circunvizinha do Saduceus vindo para o batismo
X
Jordão e batizavam-se em o
Jordão rio por ele

Fariseus e Saduceus ... não suponhai dizer entre vós,


X
Descendência de víboras, Pai temos o Abraão.

Fariseus e Saduceus ... não é capaz o Deus de extrair-de


suponhai dizer entre vós, Pai as pedras estas levantar filhos
X
temos o Abraão. para Abraão

Produzi então fruto digno do Cada então árvore não


X
arrependimento produzindo fruto bom é-cortado
e adentro fogo é-jogado

Eu deveras vos batizo com Ele vos batizará com o Espírito


X
água para arrependimento Santo e fogo

ajuntará o trigo dele dentro do mas palha queimará com fogo


X
celeiro inextinguível
30

2.2.1.3 Integridade e Coesão

Não se vislumbra na perícope qualquer sinal de quebra de integridade ou


coesão do texto. O estilo característico do redator de Mateus é mantido, a
invocação da profecia contida em Isaías 40 (verso 3), bem como a referência à
imagem de Elias (o deserto – verso 1 – e as vestes de João Batista – verso 4)
mantém um padrão que já se verificara nos capítulos anteriores e que continua
nos capítulos seguintes.

Uma eventual especulação sobre um enxerto dos versos 10 a 12 também se


afasta na observação de que eles também estão contidos no texto de Lucas. Além
disso, não se configura ruptura no estilo, na forma ou no conteúdo teológico da
mensagem.

2.2.2 Análise da Redação

O autor de Mateus escreve com frases curtas, em narração. Há uma


profusão de acontecimentos e, por isso, grande utilização de verbos.

Na perícope, verifica-se também que o autor não apresenta nem os locais


nem os personagens, o que aponta que escreveu para um público conhecido e
conhecedor das circunstâncias por ele abordadas.

Também fica evidente a veemência, e até rispidez, nas palavras de João


Batista, denotando que o autor tinha um objetivo bem definido em seu texto, no
caso, concitar o povo ao arrependimento e anunciar a chegada do reino dos céus
em Jesus Cristo.
31

2.2.2.1 Uso de Fontes Escritas

Não apenas na unidade literária sob análise, mas em todo o livro, o autor
de Mateus faz uso constante do Antigo Testamento, principalmente para traçar
paralelos ente os fatos por ele narrados e as profecias messiânicas das Escrituras,
com o evidente propósito de demonstrar que elas se cumprem em Jesus.

Nesse sentido, especificamente na perícope, há a utilização, no verso 3, do


livro de Isaías, capítulo 40, bem como as referências a Elias, nos versos 1 e 4,
cuja fonte são o primeiro e o segundo livros de Reis.

Além disso, não há como se analisar uma passagem de um dos evangelhos


sinóticos9 sem se falar da relação de dependência literária entre eles, e,
conseqüentemente, da “teoria das duas fontes”, a mais aceita das teorias que
tentam explicar aquela relação.

Segundo essa teoria, Marcos teria sido o primeiro evangelho a ser escrito e
teria sido usado como base para Mateus e Lucas, além de uma segunda fonte, a
denominada “fonte Q”. Desta forma, conforme a teoria, a passagem que vai dos
versos 3 a 12 do capítulo 3 de Mateus, que não consta do evangelho de Marcos,
teria como fonte a “fonte Q”.

É preciso advertir, porém, como fazem Carson, Moo e Morris (1997, p.


49), que “(o processo de identificação de Q) é necessariamente subjetivo e dá
margem a muita discordância”.

2.2.3 Análise das Formas

9
Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas foram chamados “evangelhos sinóticos” pela primeira vez
pelo estudioso da Bíblia alemão J.J.Griesbach, no final do século XVIII; o adjetivo “sinótico” (gr.
synopsis) significa “ver em conjunto”.
32

2.2.3.1 Fórmula Literária 10

Na unidade literária que estamos analisando o autor de Mateus apresenta


uma expressão, no verso 2, que é peculiar à sua obra, qual seja, o “reino dos
céus” (βασιλεια των ουρανων), em que se substitui a palavra “Deus”, usada nos
demais sinóticos, por “céus”. Nessa expressão está contida a substituição
reverente do nome de Deus, expondo uma característica tipicamente judaica.

Também se destaca na perícope, o que se repete por todo o livro, o


interesse messiânico e a apresentação de Jesus como o messias. Além disso,
constata-se também o interesse judaico pela escatologia, veiculado nas
referências ao machado posto à raiz das árvores (verso 10) e da palha que se
queimará em fogo inextinguível (verso 12). Por pelo menos mais dez vezes
Mateus faz essa referência escatológica em seu evangelho.

2.2.3.2 Gênero Literário

Ressalta-se no capítulo 3 de Mateus o gênero narração. Como acontece


em todo o livro, estão em ação os personagens, o cenário e o narrador, que se
mantém ciente sobre o que acontece na trama mas não interfere, nem avaliando
personagens nem manifestando sua opinião, deixando essas manifestações e
avaliações para um dos personagens, João Batista. Além disso, a perícope
também apresenta conotação apocalíptica, ao vincular a presença do Cristo à
chegada dos últimos tempos (a chegada do reino dos céus), com iminente
julgamento final.
10
Utilizamos aqui a nomenclatura de Uwe Wegner (2002, p. 167), que define fórmulas como “um conjunto
de palavras ou expressões comuns, cujo tamanho não excede ao de uma frase e cujo emprego pode ser
constatado em diferentes textos”.
33

Na classificação que também se costuma fazer, em gêneros maiores e


gêneros menores, temos que o texto está contido numa obra que se classifica
como o gênero maior evangelho, aceito pelos estudiosos como um específico
gênero literário, com características de biografia mas com o propósito específico
de espalhar a mensagem (querigma) sobre Cristo.

2.2.3.3 Autoria e Data

O autor do evangelho de Mateus não assina a obra nem se identifica em


nenhuma passagem do texto. A patrística, porém, passou a sustentar que a
autoria seria do apóstolo Mateus, o publicano, tendo, inclusive, passado a
denomina-lo “Evangelho Segundo Mateus” desde 125 d.C. Eusébio de Cesaréia,
no século IV, posicionou-se nesse sentido e afirmou que essa também seria a
opinião de Papias e Irineu, no século II, e de Orígenes, no século III.

A tradição patrística é contestada, com argumentos diversos, dos quais o


mais contundente decorre da constatação de que Mateus usou o evangelho de
Marcos como sua fonte principal 11, e não seria plausível que o apóstolo, em vez de
descrever diretamente os fatos que testemunhara, preferisse usar a narração de
outro autor que, inclusive, não os presenciara.

Mas o simples fato de o apóstolo ter presenciado os fatos narrados não


impediria que ele utilizasse o texto de Marcos. Ao contrário, talvez até lhe fosse
mais favorável partir da obra já organizada por Marcos em vez de iniciar uma
nova, desde que, obviamente, a narração de Marcos correspondesse à verdade.
O uso do texto pelo apóstolo, inclusive, legitimaria aquele outro evangelho.

Luis Mosconi (2005, p. 36), por sua vez, reproduz o argumento de que não
seria plausível que um cobrador de impostos (publicano) possuísse os
conhecimentos da Escritura que se vêem no livro nem que ele tivesse a fluência
11
Conforme F. F. Bruce, “a essência de 606 dentre 661 versículos de Marcos aparece em Mateus.” (2012, p.
41).
34

na língua grega que se percebe no texto, concedendo que o apóstolo pudesse ter
fundado a comunidade cristã onde se redigiu o Evangelho, e até colaborado na
inspiração dessa redação, motivo pelo qual a autoria lhe teria sido dedicado como
sinal de gratidão e de fidelidade.
Todavia, essa linha argumentativa é frágil pois poderia ser, por exemplo,
que Mateus tivesse sido um escriba antes de se tornar publicano, o que justificaria
seu conhecimento da Torá, bem como o uso escorreito do grego. É claro que não
há nenhuma indicação dessa circunstância no texto, mas, se não chega a ser
provável, ao menos a hipótese é plausível.
Portanto, a corrente da autoria apostólica, ainda que frágil, não pode ser
descartada, ainda mais se considerarmos que ela teria se iniciado em 125 d.C.,
numa data talvez já um pouco distante da redação do livro, mas, por outro lado,
quando nas comunidades cristãs os três textos, de Marcos, Mateus e Lucas, já
estariam difundidos, de que justamente decorreria a necessidade de se começar a
usar o nome do autor para distingui-lo dos demais.
Quanto à definição da data de redação, há fortes argumentos de que ela se
situaria entre 70 e 90, independentemente de o autor ter sido pessoalmente o
apóstolo Mateus, ou uma escola por ele fundada, ou qualquer outro. Inclusive, se
o autor foi o apóstolo, sua idade avançada naqueles anos não inviabilizaria a
redação, pois ele poderia se valer de amanuenses, por exemplo.
Bornkamm (2003, p. 82), posicionando-se por uma data entre 80 e 90 d.C.,
argumenta o uso de Marcos como fonte, bem como o avançado estágio de
desenvolvimento da igreja para a qual se escrevia e a presença, em todo o texto,
de uma radical crítica aos fariseus, que somente depois da destruição do templo
(70 d.C.) tinham-se tornado efetivos líderes da comunidade judaica.
Mosconi (2005, 9. 36) também defende a redação entre 80 a 90 d.C. em
função da forte tensão com os fariseus, os quais, tendo dominado as sinagogas
depois da destruição de Jerusalém em 70 d.C., e fundado uma escola religiosa em
Jamnia, por volta de 75 d.C., com o propósito de salvar e reconstruir a religião e
tradições judaicas, por meio de uma interpretação dura, fechada e autoritária da
35

Lei, passaram a acusar os cristãos de traidores, inclusive açoitando-os nas


sinagogas, prática referida no Evangelho, em 10:17.
Esta tensão referida por Mosconi também aponta para um momento após
70 d.C., quando os fariseus já teriam tido tempo para sistematizar seu ataque ao
cristianismo, radicalizando seu discurso exclusivista de que somente os filhos de
Abraão seriam o povo de Deus, o que teria levado, inclusive, Mateus a usar o
termo ἐκκλησίαν (igreja) com um sentido universal, que não se repete em nenhum
outro evangelho. Como explica Bornkamm:

O que é importante para compreender o Evangelho de Mateus é notar que o texto


fala de “a Igreja” em um sentido universal. A Igreja não é uma comunidade local
como a sinagoga judaica, baseada na Lei de Moisés, na circuncisão ou outros
ritos, e subordinada ao templo de Jerusalém. O fator unificador da comunidade
cristã é a presença do Senhor, ao qual é dada toda autoridade no céu e na Terra
até o fim do mundo (2003, p. 75).

Por todo o exposto, ainda que respeitadas posições situem a data de


redação antes do ano 70 d.C.12, parece-nos mais plausível que o Evangelho de
Mateus tenha sido escrito entre 70 e 90 d.C., com maior possibilidade ainda para
uma data entre os anos 80 e 90 d.C.

2.2.3.4 Lugar Vivencial (Sitz im Lebem)

Como ensina Wegner (2002, p. 171), “o estudo do lugar vivencial visa


determinar em que situação e com que finalidade foram repetidos e transmitidos
os ditos e as histórias sobre Jesus” e sua definição (do lugar vivencial) pode ser
norteada por quatro perguntas básicas: “Quem é a pessoa quer fala?”, “Quem
são os ouvintes?”, “Que atmosfera é determinante na situação?” e “Que reação é
intencionada?”.
A perícope sob análise é uma narração que envolve um discurso de João
Batista, dirigido inicialmente a toda coletividade, concitando-a ao arrependimento

12
Carson, Moo e Morris (1997, p. 90), por exemplo, apontam para uma redação durante os anos 60.
36

e, posteriormente, especificamente aos fariseus e saduceus, exortando-os por


sua hipocrisia e falta de arrependimento.
Conforme vimos, todo o evangelho teria sido escrito em momento
posterior à destruição de Jerusalém pelos romanos, o que determinaria a
atmosfera eminentemente apocalíptica, materializada pelo anúncio da chegada
do reino dos céus e da figura de Jesus com sua pá de joeirar, na separação
entre trigo e palha.
A mensagem, da perícope tem cunho evangelístico e o lugar vivencial que
se destaca, portanto, é a missão, a qual, conforme Wegner (2002, p. 172), se
configura por ser uma “pregação que prima mais pelo chamado à conversão e
nova vida do que propriamente pela edificação e pelo consolo de pessoas já
integradas à comunidade”. Mas também se pode vislumbrar a catequese, em
função da passagem em que João Batista se volta para os fariseus e saduceus,
para denunciar a prática do batismo, ou seja, à inserção na comunidade
religiosa, mas sem um verdadeiro arrependimento.

2.2.3.5 Intencionalidade do Texto

Na unidade literária o autor prossegue com o propósito a que já dera início


nos capítulos 1 e 2, qual seja, o de revelar Jesus como o Messias esperado
pelos judeus, o que é construído de forma significativa pela invocação, no verso
3, da profecia de Isaías como sendo referente a João Batista e pela afirmação
dele, João, que sua ação era exatamente a preparação para a vinda de Jesus,
no verso 11. Eis os textos:
Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: "Voz do que clama
no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas
para ele’ "
Eu os batizo com água para arrependimento. Mas depois de mim vem
alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar
as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo.

Da mesma forma, essa apresentação messiânica de Jesus está contida


no verso 2, quando João Batista prega ao povo em geral que se arrependa
37

“porque o Reino dos céus está próximo". O mensageiro clamando no deserto,


João Batista, prepara o caminho do Senhor preparando o povo – que estaria
preparado por meio do arrependimento do pecado – para a chegada de Jesus.
Também se destaca a mensagem, dirigida à coletividade, conclamando ao
arrependimento, como preparo para a vinda do Messias e aos religiosos que
interagiram com João Batista no evento narrado, mas, evidentemente, também
para a coletividade, de que esse arrependimento só é válido para a participação
no reino dos céus se gera transformação (frutos).
38

3. HERMENÊUTICA

3.1 Análise de Conteúdo

3.1.1 Contribuições das Análises Precedentes

Das análises precedentes destacamos os elementos que podem contribuir


significativamente para o trabalho exegético.
Na delimitação da perícope vimos que o autor, no primeiro verso do capítulo
3, passa a enfocar o ministério profético de João Batista, consistente na
convocação do povo ao arrependimento, e seu testemunho acerca de Jesus, fatos
que se desenvolvem já na fase adulta de Jesus, como se constata na leitura do
verso 13 em diante.

Na tradução do texto, destacamos o jogo de palavras de João Batista


quanto aos fariseus e saduceus, ao chama-los de “descendência de víboras”,
contrapondo a eventual segurança que eles teriam no fato de serem “filhos de
Abraão” e retirando dessa circunstância qualquer eficácia na salvação, mediante
a afirmação de que Deus poderia suscitar filhos a Abraão a partir de pedras.
Na comparação da versão resultante de nossa tradução com a da Nova
Versão Internacional (NVI) e a de Almeida Revista e Atualizada, verificamos que,
diferentemente do que pode denotar o estilo de redação da NVI, no verso 6 não
se apresente uma necessária seqüência de atos a serem praticados por aqueles
que se apresentavam a João, devendo se confessarem pecadores para, então,
serem batizados, mas se pode concluir que no próprio ato de batizar-se já estaria
39

subentendida a confissão de pecados, o que mais se coadunaria com a severa


repreensão que o profeta faz aos fariseus e saduceus no verso seguinte.
Na subdivisão da perícope, vislumbramos uma divisão da porção de texto
em quatro blocos, assim:
1 Apresentação de João Batista – versos 1 a 4;
2 Ministério de João Batista – versos 5 e 6;
3 Advertência de João Batista – versos 7 a 10;
4 Profecia de João Batista sobre Jesus Cristo – versos 11 e 12.

Na análise lingüístico-sintática vimos que a perícope é escrita em gênero


narrativo e que em seu texto é são recorrentes dois campos semânticos: batismo
e arrependimento e que, enquanto no Antigo Testamento a pregação do
arrependimento visava a volta ao caminho da justiça de Deus, ou seja, olhava
para o passado, João Batista pregava o arrependimento em função da
proximidade do reino dos céus, denotando sua necessidade para o homem que
desejasse escapar do juízo, arrependendo-se de tal forma que sua vida inteira
mudasse, sendo trazida para um novo relacionamento com Deus, olhando,
assim, para o futuro. Também se destaca a expressão “reino dos céus”, em que
há a reverente substituição da palavra “Deus” pela palavra “céus” e em que se
usa “reino” com significado de “domínio real” – situação, mais do que a esfera
em que esse domínio é exercido – localização.
Verificamos ainda na análise lingüístico-sintática uma grande contingência
de verbos relacionados a comunicar (apregoar, dizer, falar, clamar, alertar),
denotando que o propósito da perícope não está propriamente nos fatos narrados,
mas no que é pronunciado, na proclamação de João Batista, na profecia sobre ele
em Isaías, na proclamada mensagem de arrependimento, nas advertências acerca
dos religiosos,;mais importante que o fato de ele batizar é a conclamação ao
arrependimento; mais importante do que a atitude dos religiosos que saíam ao
batismo de João era a denúncia do profeta sobre a real situação deles;. Como
refere Tasker (2007, p. 40), o uso do aoristo grego original em produzi (verso 8)
significa que uma ação completa e imediata deve ser realizada.
40

Na análise literária constatamos que a perícope apresenta duas


mensagens, uma primeira com a convocação genérica, de todo o povo, ao
arrependimento, e uma segunda, específica, dirigida aos religiosos, denunciando a
hipocrisia de cometerem gestos que denotariam um arrependimento (batizar-se) o
qual, contudo, não se verifica em suas atitudes (frutos).

Também vimos, na estruturação, que a unidade literária é desenvolvida em


paralelismos em oposição, com um paralelismo entre dois grandes blocos, entre
a pregação de João Batista da mensagem convocação ao arrependimento e a
denúncia que o profeta faz da hipocrisia dos religiosos e ainda com os seguintes
paralelismos:
1) entre as muitas pessoas que teriam atendido à pregação de
arrependimento, para se batizarem e os fariseus e saduceus também
saíam ao batismo, mas sem se arrependerem;
2) entre a conclamação aos religiosos para que produzam frutos de
arrependimento, em contraste com a invocação que eles fariam, de serem
descendentes de Abraão;
3) entre a confiança dos religiosos no fato de serem descendentes de Abraão
com sua falta de frutos e a figura de cortar-se lançar-se ao fogo toda
árvore que não produz frutos; e E também entre o batismo de João, com
água, e o batismo de Jesus, com o Espírito Santo e fogo, de que
decorrerá uma situação expressa em nova contraposição, entre trigo no
celeiro e palha no fogo.

Na análise da redação vimos que o autor não apresenta nem os locais


nem os personagens, o que denota que escrevia para um público conhecido e
conhecedor das circunstâncias por ele abordadas. Também constatamos a
veemência, e até rispidez, nas palavras de João Batista, denotando um objetivo
bem definido de destacar a necessidade de arrependimento e anunciar a
chegada do reino dos céus em Jesus Cristo.

Também vimos que o autor de Mateus faz uso do Antigo Testamento,


principalmente para traçar paralelos ente os fatos por ele narrados e as profecias
41

messiânicas das Escrituras, com o evidente propósito de demonstrar que elas se


cumprem em Jesus.

Na análise das formas, destacamos o uso da expressão “reino dos céus”


(βασιλεια των ουρανων), em que se substitui a palavra “Deus”, usada nos
demais sinóticos, por “céus”, bem como o interesse messiânico e a apresentação
de Jesus como o messias e o interesse judaico pela escatologia, veiculado nas
referências ao machado posto à raiz das árvores (verso 10) e da palha que se
queimará em fogo inextinguível (verso 12).

Firmamos também que o texto foi escrito por Mateus, o apóstolo, por volta
de 70 d.C e que ele tem como lugar vivencial a missão, com uma pregação
voltada à conversão e nova vida mas também se pode vislumbrar a catequese,
em função da passagem em que João Batista se volta para os fariseus e
saduceus, para denunciar a prática do batismo, ou seja, à inserção na
comunidade religiosa, mas sem um verdadeiro arrependimento.

Finalmente, destaca-se que, verificando a intencionalidade do texto,


concluímos que o propósito do autor era o de revelar que o Messias aguardado
pelos judeus já viera, e era Jesus, e, por isso, já havia chegado o Reino dos
céus, ao qual todos eram chamados a participar, por meio do arrependimento.

3.1.2 A Comunidade do Texto

A recorrente citação de profecias bíblicas, a familiaridade com os


costumes e práticas religiosas judias, o cuidado em não grafar a palavra “Deus”,
principalmente na expressão “reino de Deus”, que, diferentemente dos demais
evangelistas, substituía por “reino dos céus”, o destaque para Abraão e Davi na
genealogia de Jesus, dentre outros fatores, denotam que o autor se dirigia a uma
42

comunidade de judeus, tanto àqueles já convertidos ao cristianismo como


também, num viés missionário, aos não convertidos.

Além disso, a abordagem da geografia e da história do local em que os


fatos narrados transcorreram aponta que o autor falava sobre um ambiente
familiar tanto a ele quanto aos seus leitores, ou seja, que o autor escrevia para
judeus palestinos. E, considerada a provável data de redação desse evangelho,
teríamos, então, que seriam uma comunidade dos anos 70 a 90 d.C.

Assim, o evangelho de Mateus seria dirigido a uma comunidade formada


por judeus convertidos ao cristianismo, da região da Palestina, dos anos 70 a 90,
ou seja, uma comunidade vivendo num local arrasado, fruto da Grande Revolta
Judaica, que havia sido sufocada pelos romanos e desembocado na destruição
de Jerusalém e do Templo, em 70 d.C. Como refere Kümmel (1982, p. 146),
Mateus...

...escreve sua nova síntese a partir de Marcos, ampliando-o um


livro destinado à comunidade, respondendo, assim, às
necessidades de comunidades cristãs específicas, necessitadas
urgentemente de um reconhecimento de Jesus como o Cristo, no
embate contra o judaísmo contemporâneo (10,17), e também de
uma orientação, mediante a palavra de Jesus, tanto na realidade
cotidiana na vida da Igreja (18,15ss e 28,19) como nas decisões
de índole moral (19,1ss).

É certo, porém, que também aos judeus não-convertidos a mensagem era


destinada. O anúncio da chegada do Reino dos céus (de Deus) e a
demonstração de que Jesus era o messias aguardado tinha também como
destino a comunidade judia não-convertida.

3.1.3 A Mensagem da Perícope

Em função de tudo que vimos até este ponto, entendemos que a


mensagem tem uma nítida abordagem apocalíptica, visando a animar os judeus
43

já convertidos e a dar esperança aos não-convertidos, despertando-os para a fé


cristã.
Para os judeus-cristãos, a mensagem lembrava que o reino dos céus já
estava implantando, que o Jesus já reinava e que ele ainda iria recolher seu trigo
e que, portanto, fossem quais fossem as circunstâncias externas, eles deveriam
continuar buscando dar frutos de arrependimento.
Para os não-cristãos, a mensagem de esperança estava na demonstração
de que o Messias já viera, que seu reino já se implantara e que estava à mão. A
convocação profética ao arrependimento já não era mais para a volta à glória de
Israel como nação de propriedade de Deus, ou seja, não olhava mais para trás,
mas configurava um desafio para um futuro diferente, para a participação no
reino de Deus, já inaugurado por Jesus.
Também se destaca a exaltação de Jesus, quando João, no verso 11,
afirma que “aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas
sandálias não sou digno de levar”. O conhecimento dos costumes da época
elucida a exaltação contida nessa afirmação. Para tanto, veja-se a lição de
Richards (2008, p. 16):
“No oriente, os sapatos são removidos quando se entra em uma
casa. A maioria dos visitantes na época de João removia os seus
próprios sapatos; os servos removiam os sapatos dos seus
senhores ou de um convidado importante. O próprio anfitrião
inclinava-se para remover os sapatos somente de um visitante
verdadeiramente ilustre. João, que alguns especulavam ser o
próprio Messias, negou esta afirmação e exaltou a Jesus,
inserindo que nem esmo era digno de manusear as sandálias do
Senhor”.
Quando lembramos que o povo judeu reconhecia João Batista como um
profeta, ainda que os fariseus titubeassem nesse reconhecimento (v. Mc 11:29-
33), essas palavras, do anúncio de Jesus como o Senhor, tomam um significado
ainda maior.

3.2 Análise Teológica


44

A perícope reúne temas teológicos de suma importância no cristianismo. É


emblemático que o escritor, após uma breve introdução do nascimento de Jesus,
faça transbordar, numa passagem relativamente pequena, os temas essenciais
de seu Evangelho, o “Reino de Deus”, a soteriologia, a pneumatologia, a
situação do homem diante de Deus, a conversão, o juízo final.

No contexto em que o livro de Mateus foi escrito, de subjugação do povo


judeu pelos romanos, de destruição de Jerusalém e do templo, de os fariseus
buscando a manutenção de uma frágil dominação religiosa, o autor traz uma
mensagem totalmente diferente, com a afirmação de que se inaugurava uma nova
fase, de boas novas, do reinado de Jesus.

Esta nova fase também pode ser detectada na exortação de João Batista
pois, apesar de pregada difusamente, ela convocava a um arrependimento
individual e não coletivo. Assim, cada indivíduo que a atendesse e se
arrependesse receberia os seus benefícios individualmente e cada um que não a
atendesse sofreria individualmente as conseqüências de sua própria omissão.

Além disso, a mensagem de João Batista também era nova porque, até
então, as exortações ao arrependimento visavam a manutenção ou retomada de
paz e prosperidade no reino de Israel ou de Judá e, agora, o chamado era para o
ingresso num novo reino, o reino dos céus (de Deus). Diferentemente dos seus
predecessores, João Batista não apontava para algo já existente, para o retorno
ou a manutenção do reino dos judeus, mas para o futuro, para a inauguração do
reino dos céus.

Nesse sentido, a perícope também evidencia que a promessa do reino é


para todos e de nada mais vale a circunstância do indivíduo ser descendente de
Abraão. Não se tratava mais do cumprimento natural de uma promessa a pessoas
da raiz de Abraão, mas da revelação e do cumprimento espiritual dessa promessa,
do reino dos céus, para todo aquele que se arrepende e se torna, assim, filho da
45

promessa a Abraão, como Paulo demonstraria no capítulo 9 de sua carta aos


romanos.

Por isso, com o que talvez fosse uma mensagem subliminar de ataque aos
fariseus e saduceus, o autor narra que eles tentavam buscar as vantagens do
novo reino, do reino dos céus, confiados num ritual, de submeterem-se a um
batismo de arrependimento, mas sem estarem arrependidos, numa religiosidade
hipócrita de dizimar a hortelã, o endro e o cominho mas desprezar o juízo, a
misericórdia e a fé (Mt 23:23) e que foram exortados por João Batista de que
Jesus estava com o machado em mãos e cortaria a árvore que não tivesse frutos
de arrependimento, independentemente de ela ter raízes em Abraão. Em outros
termos: o reino dos céus não é dos judeus, é dos que se arrependem.

Portanto, o texto mostra que a mensagem não trata mais de voltar ou


permanecer numa situação já vivida, mas de adentrar numa nova situação, num
novo reino. Até então, Deus usara uma coletividade, o povo de Israel, os que
tinham por pai a Abraão, para sinalizar seu poder e sua vontade, mas agora não
se tratava mais disso. Agora viria o efetivo juízo divino e a implantação do reino
dos céus, para o qual só havia uma forma de entrar: pelo arrependimento.

No termo grego metanoeó está contida a idéia de que a mudança de


opinião inclui o reconhecimento de que a opinião anterior era falsa ou má, daí a o
significado de mudança de opinião, remorso ou pesar. O NT não ressalta o
conceito concreto e físico, mas é o pensamento, a vontade, o nous, que se
enfatiza. Essa mudança interna, que gera frutos externos, é o único caminho para
o homem que deseja escapar do juízo: precisa se arrepender de tal forma que sua
vida inteira se mude, sendo trazida para um novo relacionamento com Deus

Talvez fosse esse o motivo da prática do batismo, como significado de


abandono de um modo anterior de vida, da morte para aquela vida, e adesão ao
reino que se inaugurava, uma nova vida. Como afirma Hendriksen (2001, p. 282),
a prática batismal de João Batista seguia o mesmo princípio do batismo de
prosélitos que aderiam ao judaísmo. Diz ele:
46

“Como já se indicou de forma implícita, o batismo de prosélitos não


era um rito cerimonial que se repetia constantemente, mas era um ato legal
celebrado de uma vez por todas e por meio do qual a pessoa era recebida
na comunhão religiosa do judaísmo. Em conseqüência, quando
semelhantemente João Batista exortou os judeus a que se convertessem e
fossem batizados, eles devem ter-se conscientizado do fato de que tal
batismo, se recebido de forma apropriada, simbolizaria uma renúncia
explícita e pública ao seu modo anterior de vida” (p. 285).

Todavia, como advertiu João Batista, o ingresso no reino dos céus não se
daria pelo mero batismo de um sacerdote que batiza com água, mas por meio do
batismo de Cristo, aquele de quem João não era digno sequer de desatar as
sandálias13, e qual batizaria com o Espírito Santo e com o fogo.

O profeta, que só via a aparência, até poderia ser enganado por um


hipócrita e batiza-lo, mas num batismo transitório, com água. Todavia, aquele que
vinha a seguir, o Cristo, o Senhor que vê o coração, não se engana e batiza com o
Espírito Santo e com o fogo, num batismo eterno. E o arrependimento verdadeiro
é urgente, pois Ele já tem em mãos sua pá de joeirar e fará seu batismo,
guardando seu trigo no Espírito e lançando a palha ao fogo.

Há aí uma referência à desoladora situação do povo judeu, diante de uma


Jerusalém destruída e sem esperança. A situação das espigas com os grãos
pisados, debulhados, que antecede o joeiramento, refletia a situação de Israel. A
notícia, portanto, era de fim de uma fase e início de outra: os judeus não ficariam
mais naquela situação, moídos, mas passariam por um joeiramento, quando todos
seriam apanhados com a pá de joeirar e lançados no pneuma (significado de
vento e de espírito).

E então, depois desse joeiramento, depois de passar pelo juízo do Espírito,


todos os que tivessem realmente atendido ao chamado para o arrependimento
seriam guardados no celeiro, ou seja, entrariam no reino dos céus, numa nova
situação, de alívio e conforto (as muitas moradas da casa do Pai que Jesus depois

13
Já vimos que, conforme Richards (2008, p.16), no oriente era costume retirarem-se os
sapatos para se entrar numa casa, sendo comum os próprios visitantes se descalçarem,
mas eram os servos que descalçavam seus senhores e convidados importantes, e o próprio
anfitrião que se curvava e descalçava um visitante realmente ilustre.
47

mencionaria), mas, por outro lado, os que não se arrependessem, as palhas, não
teriam mais como voltar nem à situação anterior, para a eira, que ficaria
completamente limpa, mas a eles só restaria um destino: o fogo.

Assim, o anúncio de João Batista expunha que a tentativa dos religiosos de


continuarem na eira, mantendo ou reconquistando seu poder num Israel destruído,
moído, era inútil, pois aquela situação era apenas uma fase de um processo que
logo iria se concluir, com o iminente joeiramento – o juízo. Mais uma vez, portanto,
ressalta-se a urgência do chamado ao arrependimento e a novidade da
inauguração do reino dos céus.

É clara a mensagem escatológica de um iminente juízo divino, por meio


do Messias, a qual demanda uma urgente e essencial decisão pelo
arrependimento, pois esse juízo terá conseqüências eternas: Ele já tem em mãos
sua pá de joeirar e recolherá tudo que for trigo e jogará ao fogo eterno tudo que
for palha (v. 12).

Neste contexto também se apresenta o caráter universal da salvação de


Deus (universal como contrastando com a idéia de exclusividade do povo judeu).
Ter raízes em Abraão não vale nada, porque está em Deus o poder de suscitar
descendência a Abraão, até a partir de pedras, e porque aqueles que
aparentemente são filhos de Abrão, mas não se voltam ao Deus de Abraão, em
verdade, são descendência de víbora, da serpente, de Satanás.

3.3 Atualização da Mensagem

Como vimos, a perícope contém uma mensagem que era dirigida, de um


lado, a judeus já convertidos ao cristianismo, para anima-los e dar-lhes
esperança e, de outro, a judeus não-convertidos, despertando-os para a fé cristã.
Também vimos que no texto estão contidos temas teológicos essenciais do
48

cristianismo, uma convocação ao arrependimento e um alerta para a


proximidade do juízo final, além da exaltação da pessoa e da obra de Jesus.
A mensagem, portanto, é atual, com ampla aplicação nos dias atuais. O
chamado exortatório e evangelístico é tão importante hoje como foi no passado.
O texto bíblico provoca os cristãos a olharmos para nós mesmos e
verificarmos se temos dado frutos dignos de arrependimento, se temos
testemunhado Jesus e trabalhado na implantação do Reino de Deus já, ou se
estamos confiando em nossa relação com Deus apenas baseando-nos no fato
de nos professarmos cristãos (filhos de Abraão), além de também nos
lembrarmos que Jesus é nosso Salvador, é quem tem o poder para nos colocar
verdadeiramente no Reino de Deus, é quem nos recolhe no celeiro e impede que
sejamos queimados em fogo inextinguível.
Além disso, o viés missiológico da perícope é evidente para a igreja de
hoje. A igreja é chamada a ser a voz que clama no deserto espiritual da
atualidade, proclamando a chegada do Reino de Deus, em Jesus, e
conclamando todos ao arrependimento, à conversão, para receberem o batismo
de Jesus no Espírito e, assim, tomarem parte desse Reino.
A missão de pregar o evangelho, fazendo discípulos de Jesus de todas as
nações e batiza-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Mt 28:19) é
para hoje e o texto, centrado na mensagem do Reino de Deus e da necessidade
de arrependimento tem exatamente esse propósito. Como destaca Grudem
(2010, p. 724), “o reino manifesta-se através da igreja, e assim o futuro domínio
de Deus irrompe no presente (ele ‘já’ está aqui: Mt 12.28; Rm 14.17; e ‘não
ainda’ plenamente aqui: Mt 25.34; 1Co 6.9-10)”.
De outra parte, a mensagem evangelística da perícope deve ser ouvida
por todos os que ainda não conhecem Jesus, para que sejam convocados a se
arrependerem de uma vida longe de Deus e, por meio de Cristo, o Salvador, e
terem acesso ao celeiro do Reino.
49

REFERÊNCIAS

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