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Superior Tribunal de Justiça

HABEAS CORPUS Nº 500.915 - RS (2019/0086898-0)

RELATOR : MINISTRO REYNALDO SOARES DA FONSECA


IMPETRANTE : DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO
SUL
ADVOGADOS : CÍNTIA LUZZATTO - RS054216
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO
SUL
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO
SUL
PACIENTE : JONATHAN UBIRAJARA VIEIRA GULARTE (PRESO)
EMENTA

HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL.


EXECUÇÃO PENAL. CRIME DE ESTUPRO DE VULNERÁVEL.
PACIENTE QUE OBTEVE A PROGRESSÃO PARA O REGIME
SEMIABERTO. PLEITO DE CUMPRIMENTO DA PENA EM
PRISÃO DOMICILIAR, COM MONITORAMENTO
ELETRÔNICO, ANTE A INEXISTÊNCIA DE
ESTABELECIMENTO COMPATÍVEL COM O REGIME
IMPOSTO. APLICAÇÃO DO NOVO ENTENDIMENTO DO
STF ADOTADO EM SEDE DE REPERCUSSÃO GERAL (RE
641320/RS). ADOÇÃO DE OUTRAS MEDIDAS ANTES DA
CONCESSÃO DE PRISÃO DOMICILIAR. WRIT NÃO
CONHECIDO.
1. Esta Corte e o Supremo Tribunal Federal pacificaram orientação no
sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso
legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento
da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante
ilegalidade no ato judicial impugnado.
2. A jurisprudência desta Corte Superior é assente no sentido de que,
em caso de falta de vaga em estabelecimento prisional adequado ao
cumprimento da pena, ou, ainda, de sua precariedade ou superlotação,
deve-se conceder ao apenado, em caráter excepcional, o cumprimento
da pena em regime aberto, ou, na falta de vaga em casa de albergado,
em regime domiciliar, até o surgimento de vagas.
3. O Supremo Tribunal Federal, nos termos da Súmula Vinculante n.
56, entende que "a falta de estabelecimento penal adequado não
autoriza a manutenção do condenado em regime prisional mais
gravoso, devendo-se observar, nessa hipótese, os parâmetros
fixados no RE 641.320/RS".
4. Os parâmetros mencionados na citada Súmula são: a) a falta de
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estabelecimento penal adequado não autoriza a manutenção do
condenado em regime prisional mais gravoso; b) os Juízes da execução
penal poderão avaliar os estabelecimentos destinados aos regimes
semiaberto e aberto, para verificar se são adequados a tais regimes,
sendo aceitáveis estabelecimentos que não se qualifiquem como
colônia agrícola, industrial (regime semiaberto), casa de albergado ou
estabelecimento adequado – regime aberto – (art. 33, § 1º, alíneas
"b" e "c"); c) no caso de haver déficit de vagas, deverão determinar: (i)
a saída antecipada de sentenciado no regime com falta de vagas; (ii) a
liberdade eletronicamente monitorada ao preso que sai
antecipadamente ou é posto em prisão domiciliar por falta de vagas;
(iii) o cumprimento de penas restritivas de direito e/ou estudo ao
sentenciado que progride ao regime aberto; e d) até que sejam
estruturadas as medidas alternativas propostas, poderá ser deferida a
prisão domiciliar ao sentenciado.
5. Dessa forma, consoante entendimento do STF, a prisão domiciliar
não pode ser a primeira opção, devendo-se antes adotar as outras
medidas acima propostas, a fim de se evitar prejuízo aos executados
que já estariam, há mais tempo, cumprindo pena em determinado
regime e que devem ser beneficiados, prioritariamente, com a saída
antecipada.
6. Habeas corpus não conhecido, com determinação, de ofício, ao
Juízo da Execução, caso persista a ausência de vagas no regime
intermediário, para que promova a saída do apenado com menor saldo
de pena a cumprir no regime semiaberto, dando vaga ao paciente.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos os autos em que são partes as acima indicadas,


acordam os Ministros da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, não
conhecer do pedido, com determinação, de ofício, nos termos do voto do Sr. Ministro
Relator. Os Srs. Ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik, Felix Fischer e Jorge Mussi
votaram com o Sr. Ministro Relator.
Brasília (DF), 21 de maio de 2019(Data do Julgamento)

Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA


Relator

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HABEAS CORPUS Nº 500.915 - RS (2019/0086898-0)
RELATOR : MINISTRO REYNALDO SOARES DA FONSECA
IMPETRANTE : DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO
SUL
ADVOGADOS : CÍNTIA LUZZATTO - RS054216
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SUL
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO
SUL
PACIENTE : JONATHAN UBIRAJARA VIEIRA GULARTE (PRESO)

RELATÓRIO

O EXMO. SR. MINISTRO REYNALDO SOARES DA FONSECA (Relator):

Trata-se de habeas corpus com pedido liminar impetrado em favor de


JONATHAN UBIRAJARA VIEIRA GULARTE contra acórdão do Tribunal de Justiça do
Estado do Rio Grande do Sul (Embargos Infringentes n. 0359649-80.2018.8.21.7000).

Consta dos autos que o Juiz da execução concedeu ao paciente o regime


semiaberto e, diante da falta de vagas, determinou a sua inclusão no programa de
monitoramento eletrônico.

Inconformado, o Parquet interpôs agravo em execução, perante a Corte


estadual. O Tribunal, então, de forma não unânime, deu provimento ao recurso para
determinar o imediato recolhimento do apenado ao regime intermediário.

A defesa, irresignada, opôs embargos infringentes, os quais foram


desacolhidos, conforme seguinte ementa (e-STJ fls. 176/177):

EMBARGOS INFRINGENTES E DE NULIDADE. APENADO EM


REGIME SEMIABERTO. PRISÃO DOMICILIAR COM INCLUSÃO
NO PROGRAMA DE MONITORAMENTO ELETRÔNICO.
AUSÊNCIA DE MÉRITO SUBJETIVO.
Por meio da Súmula Vinculante n' 56, publicada no DOU de
08-08-2016, o Supremo Tribunal Federal pacificou entendimento
no sentido de que a falta de estabelecimento penal adequado não
autorizo o manutenção do condenado em regime prisional mais
gravoso, devendo ser observados os parâmetros fixados no
Recurso
Extraordinário n° 641320. Entretanto, o conteúdo deste Enunciado
não permite a concessão, a todo o a qualquer apenado, de prisão
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domiciliar mediante monitoramento eletrônico. Inexistindo vagas cm
estabelecimentos adequados, o juízo da execução deverá realizar
exame detalhado da situação dos detentos do regime aberto e
semiaberto, avaliando a natureza dos crimes que ensejaram a
condenação, o saldo de pena a cumprir e as condições subjetivas
do convicto (periculosidade, associação a facções no interior da
casa prisional, procedimentos administrativos disciplinares por
faltas de natureza grave, etc,), tudo no sentido de individualizar
cada conjuntura, desenvolvendo, ao mesmo tempo, soluções que
minimizem a insuficiência da execução. Caso seja necessário,
poderá promover a saída antecipada de outro preso do regime
deficitário, que reúna melhores condições, abrindo, assim, a vaga
faltante. No caso em exame, o reeducando não reúne mérito
subjetivo para permanecer em excepcional prisão domiciliar com
monitoramento eletrônico. Trata-se de condenado por crime
hediondo - estupro de vulnerável - havendo saldo de pena a
cumprir de 05 anos de reclusão, com término previsto para
16-02-2024. Benefício inadequado e em desacordo os critérios
fixados, já que outros apenados, em melhores condições, poderiam
recebê-lo. Manutenção do voto condutor da maioria, proferido por
ocasião do julgamento do recurso de agravo em execução
ministerial, revogando a decisão que incluiu o condenado no
sistema de monitoramento eletrônico, nas condições de prisão
domiciliar, e determinado seu imediato recolhimento a
estabelecimento compatível com o regime semiaberto, EMBARGOS
INFRINGENTES E DE NULIDADE DESACOLHIDOS. POR
MAIORIA.

Nesta oportunidade, a Defensoria Pública sustenta ilegalidade no acórdão


coator, que determinou o retorno do paciente ao regime semiaberto, tendo em vista que os
estabelecimentos prisionais destinados ao cumprimento de pena em regime intermediário e
aberto não apresentam condições mínimas de segurança, dignidade e ressocialização, de forma
que não é razoável exigir que o apenado submeta sua vida e integridade física a riscos que o
Estado não pode evitar, sendo, inclusive, dever dele zelar pelo preso, conforme preconiza o
art. 10 da Lei de Execução.

Rechaça o argumento ministerial de que o caso não se enquadra nas


condições estabelecidas na Súmula Vinculante n. 56 do STF, sob a alegação de que o
Ministro Gilmar Mendes limitou-se a fazer algumas sugestões, deixando margem de liberdade
às instâncias ordinárias quanto à análise da adequação das medidas, por estarem mais

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próximas à realidade do caso.

Aponta motivos abstratos na decisão coatora, baseados no saldo de pena a


cumprir e na gravidade do delito.

Dessa forma, pede, em liminar e no mérito, a concessão da prisão domiciliar


ao ora paciente, com monitoramento eletrônico.

A liminar foi indeferida (e-STJ fls. 193/196) e o Parquet Federal opinou


pela denegação da ordem.

É o relatório.

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VOTO

O EXMO. SR. MINISTRO REYNALDO SOARES DA FONSECA (Relator):

O Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção


deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas
corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de
impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de
ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse entendimento objetivou preservar a utilidade e a
eficácia do mandamus, que é o instrumento constitucional mais importante de proteção à
liberdade individual do cidadão ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a
celeridade que o seu julgamento requer.

Nesse sentido, confiram-se os seguintes julgados, exemplificativos dessa


nova orientação das Cortes Superiores do País: HC n. 320.818/SP, Relator Ministro FELIX
FISCHER, Quinta Turma, julgado em 21/5/2015, DJe 27/5/2015 e STF, HC n. 113890,
Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 3/12/2013, DJ 28/2/2014.

Assim, de início, incabível o presente habeas corpus substitutivo de recurso.


Todavia, em homenagem ao princípio da ampla defesa, passa-se ao exame da insurgência,
para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal passível de ser sanado pela
concessão da ordem, de ofício.

Busca-se, nesta impetração, o restabelecimento da decisão primeva, a fim de


que o apenado retorne à prisão domiciliar, mediante monitoramente eletrônico, tendo em vista
a falta de vagas no regime adequado, o semiaberto.

O Tribunal, por maioria, cassou a decisão, determinando o imediato


recolhimento do apenado ao regime intermediário, sob os seguintes fundamentos (e-STJ fls.
130/133):

A existência de comando sumular afirmando a impossibilidade de


manutenção de um apenado em regime mais severo não afasta a
necessidade de preservação da Individualização da pena, princípio

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que, conforme bem destacado no HC 82959, de Relatoria do Min.
Marco Aurélio, que reconheceu a inconstitucionalidade de
imposição do regime Integralmente fechado para os condenados
por crimes hediondos, subsiste no âmbito da execução penal.
Necessário que se proceda, assim, a despeito da ausência de vagas
para o recolhimento de todos os apenados do regime aberto e
semiaberto, triagem daqueles a que se concede o benefício da
sanção domiciliar. E, neste campo, a efetivação do beneplácito, que
em última esfera alarga, par medida de política criminal, o comando
do artigo 117 da Lei de Execução Penal, deve observar o saldo de
pena a cumprir do apenado, sua proximidade ou não de nova
progressão, bem como a natureza da infração pela qual cumpre
pena.
A escolha de quais reeducandos devem ou não ser agraciados com
o benefício não pode ser aleatória, sem a observância do princípio
da individualização, sob pena de se conflagrar real injustiça na
execução, com a permanência de apenados mais próximos de
encerrarem a execução de suas penas, por vezes relativas a fatos
sem violência à pessoa e não hediondos, em situação de privação
de liberdade, ao passo que outros apenados, com maior saldo a
cumprir, oriundos de condenações por fatos mais graves, são
postos em liberdade.
[...] O primeiro ponto é que se deve priorizar o indivíduo que já se
encontra cumprindo pena no regime para o qual se observa a
ausência de vagas, não sendo adequado, penso, a outorga direta
da prisão domiciliar para apenado recém beneficiado com a
progressão para o regime semiaberto. Isto tudo para que se
preserve, em primeira e em última instância, o sistema progressivo
vigente em nosso sistema.
Neste aspecto, no julgamento do REsp 1710674/MG, submetido ao
rito dos recursos repetitivos (Tema 993), a Terceira Seção do
Superior Tribunal de Justiça assentou a inviabilidade de que se
conceda "a prisão domiciliar, como primeira opção, sem prévia
observância dos parâmetros traçados no RE 641.320/RS".
Decidiu a Corte Superior, a quem cumpre a interpretação da lei
federal no país, por decisão unânime, que "a inexistência de
estabelecimento penal adequado ao regime prisional determinado
para o cumprimento da pena não autoriza a concessão imediata do
benefício da prisão domiciliar, porquanto, nos termos da Súmula
Vinculante n. 56, 6 imprescindível que a adoção de tal medida seja
precedida das providências estabelecidas no julgamento do RE n.
641.320/RS, quais sejam: (i) saída antecipada de outro sentenciado
no regime com falta de vagas, abrindo-se, assim, vagas para os
reeducandos que acabaram de progredir; ii) a liberdade
eletronicamente monitorada ao sentenciado que sai
antecipadamente ou é posto em prisão domiciliar por falta de

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vagas; e (iii) cumprimento de penas restritivas de direitos e/ou
estudo aos sentenciados em regime aberto.
[...] Esclarecido o ponto, e na hipótese concreta, vê-se que o
agravado foi condenado a uma pena de 09 anos de reclusão, pela
prática de um estupro de vulnerável e de coação no curso do
processo, tendo iniciado o cumprimento de sua sanção 22/06/2015,
beneficiado com a progressão para o regime semiaberto em
14/06/2018, faltando largo período para a nova progressão (o
Implemento temporal ocorrerá somente em 06/07/2020) ou para o
livramento (previsto para 19/10/2020).
Em conclusão, tenho que a situação posta em exame não se alinha
aos parâmetros fixados no RE 641.320/RS, devendo o órgão da
execução privilegiar, quando do deferimento do benefício da
domiciliar, apenados há mais tempo inseridos na modalidade
intermediária de cumprimento da pena e/ou mais próximos da
obtenção de progressão ao regime aberto.

Veja-se como a questão foi fundamentada no voto vencido (e-STJ fls.


134/135):

Consigno que a enumeração contida no art. 117 da Lei das


Execuções Penais, que disciplina as hipóteses em que os apenados
podem ser beneficiados com prisão domiciliar, não é taxativa,
devendo o juiz, diante da análise do caso, aplicar a solução mais
adequada, à luz dos princípios da proporcionalidade, da
razoabilidade e da individualização da pena.
Como se vê, o juízo a quo determinou, em caráter excepcional, a
inclusão do apenado no sistema de monitoramento eletrônico
mediante condições.
É Inaceitável o cumprimento de pena em presídio que não atende
aos requisitos mínimos estabelecidos na Lei de Execuções Penais,
os quais visam a assegurar diretamente a integridade física e moral
dos condenados, com o que se estará, por conseguinte, garantindo
o interesse da própria sociedade, na medida em que Isso permitirá o
recuperação e a reintegração do apenado ao convívio social.
Existe uma omissão deliberada e desidiosa do Estado em dar
cumprimento à lei. não se podendo atribuir aos apenados os ônus
dessa política omissiva.
[...] Ressalto, por oportuno, que a tornozeleira eletrônica possui
característica própria de fiscalização do benefício da prisão
domiciliar, sendo de conhecimento público que o preso é
monitorado 24 horas por dia e que, em caso de deslocamento fora
da área delimitada, a autoridade fiscalizadora é informada em
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tempo real, tornando possível a tomada Imediata das providências
cabíveis.
Assim, em não havendo vaga em estabelecimento compatível com o
regime semiaberto, como visualizado no caso, conforme prescreve a
LEP, deve ser mantida a decisão agravada que está adequadamente
fundamentada.

Finalmente, veja-se como o Tribunal resolveu o assunto nos Embargos


Infringentes (e-STJ fls. 180/186):

O monitoramento eletrônico não foi concebido como instrumento


para resolução do quadro de superlotação que assola a maioria dos
estabelecimentos carcerários do país. Sua utilização com tal
finalidade mostra-se dissociada da intenção do legislador.
A prisão domiciliar, por sua vez, vem disposta no art. 117 do LEP e
pode contemplar condenados do regime aberto que contem com
mais de setenta anos de idade ou estejam acometidos por doença
grave, e condenadas gestantes ou que tenham filho menor ou
deficiente que demande cuidados especiais.
Em um quadro de excepcionalidade, a jurisprudência vem
concedendo tal benesse aos presos do regime aberto e do semiaberto
recolhidos a estabelecimentos diversos dos preceituados nas alíneas
"b" c "c" do § Io do art. 33 do Código Penal4, enquanto perdurar a
carência de vagas.
[...] Desse modo, o alcance da prisão domiciliar mediante
monitoramento eletrônico embasado apenas na ausência de vaga
em estabelecimento adequado, amplia indevidamente o rol de
possibilidades do artigo 117 da LEP e desvirtua a execução penal.
Porém, o quadro fático foi alterado com o advento da Súmula
Vinculante n° 56, publicada no DOU de 08-08-2016, com a
seguinte redação:
A falta de estabelecimento penal adequado não autoriza a
manutenção do condenado em regime prisional mais
gravoso, devendo-se observar, nesta hipótese, os
parâmetros fixados no Recurso Extraordinário (RE)
641320.
[...] Portanto, atualmente, o Juízo da Execução deverá realizar um
exame detalhado da situação dos apenados do regime aberto e
semiaberto, não podendo olvidar-se da natureza dos crimes que
ensejaram a condenação, o saldo de pena o cumprir e as condições
subjetivas do convicto (periculosidade, associação a facções no
interior da casa prisional, procedimentos administrativos
disciplinares por faltas de natureza grave, etc.), tudo no sentido de
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avaliar de forma individualizada cada conjuntura, desenvolvendo,
ao mesmo tempo, soluções que minimizem a insuficiência da
execução.
No caso dos autos, com olhos nas disposições do referido
Enunciado, consigno que o apenado não pode ser mantido em
prisão domiciliar mediante monitoramento eletrônico por ausência
de mérito subjetivo.
Em seu desfavor, pende condenação por crime hediondo - estupro
de vulnerável - havendo saldo de pena a cumprir de 05 anos, 01
mês e 08 dias de reclusão, com término previsto para 16-02-2024.
Tanto demonstra a inadequação das medidas adotadas pelo Juízo a
quo, pois se trata de condenado por delito sexual praticado contra
inimputávcl, ostentando elevado saldo de pena a cumprir.
Portanto, na esteira do preconizado no Recurso Extraordinário n°
641320 - item 1 da alínea "c" das respectivas proposições
persistindo a ausência de local adequado, o Juízo da Execução
deverá promover a saída antecipada de outro sentenciado que
esteia atualmente recolhido a estabelecimento do regime
semiaberto, que reúna condições subjetivas e que apresente
reduzido saldo de pena a cumprir, sendo o apenado imediatamente
alocado nesta vaga.

Sobre o tema, o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula Vinculante 56,


segundo a qual: "A falta de vagas em estabelecimento prisional não autoriza a
manutenção do preso em regime mais gravoso, devendo-se observar, nessa hipótese, os
parâmetros do RE 641.320/RS".

Os parâmetros mencionados na citada Súmula são: a) a falta de


estabelecimento penal adequado não autoriza a manutenção do condenado em regime prisional
mais gravoso; b) os Juízes da execução penal poderão avaliar os estabelecimentos destinados
aos regimes semiaberto e aberto, para verificar se são adequados a tais regimes, sendo
aceitáveis estabelecimentos que não se qualifiquem como colônia agrícola, industrial (regime
semiaberto), casa de albergado ou estabelecimento adequado – regime aberto – (art. 33, § 1º,
alíneas "b" e "c"); c) no caso de haver déficit de vagas, deverão determinar: (i) a saída
antecipada de sentenciado no regime com falta de vagas; (ii) a liberdade eletronicamente
monitorada ao preso que sai antecipadamente ou é posto em prisão domiciliar por falta de

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vagas; (iii) o cumprimento de penas restritivas de direito e/ou estudo ao sentenciado que
progride ao regime aberto; e iv) até que sejam estruturadas as medidas alternativas propostas,
poderá ser deferida a prisão domiciliar ao sentenciado.

Dessa forma, o STF entendeu que a prisão domiciliar não pode ser a
primeira opção, devendo-se antes adotar as medidas acima propostas, a fim de se evitar
prejuízo aos executados que já estariam, há mais tempo, cumprindo pena em
determinado regime e que devem ser beneficiados, prioritariamente, com a saída
antecipada.

Ao fazer uma análise nos três votos acima citados, verifica-se que o segundo
voto (divergente de todos), adepto da prisão domiciliar do paciente, deixou de mencionar a
Súmula Vinculante n. 56, e com ela os critérios estabelecidos pela Corte Suprema para que
seja cumprida a pena em regime compatível.

Além disso, o problema de superlotação dos presídios no Brasil é estrutural,


não sendo o monitoramento eletrônico a única solução para ele, nem mesmo foi criado para
esse objetivo, como ressaltou o Relator, nos Embargos Infringentes, sendo a falta de vagas
uma hipótese apenas excepcional da prisão domiciliar, não contemplada pelo art. 117 da LEP,
que poderá ser deferida temporariamente, até que sejam tomadas as medidas mencionadas da
supracitada Súmula.

No caso em questão, o paciente não reúne as condições necessários para


que seja contemplado com a prisão domiciliar até que surja vaga no regime em que fora
promovido, qual seja, o semiaberto.

Isso porque, como citaram as autoridades coatoras, o paciente cometeu


crime de natureza grave e hediondo (estupro de vulnerável), bem como tem longa pena ainda a
cumprir, com término previsto para 2.024.

Além disso, o Juiz das execuções, ao conceder ao paciente a entrada no


sistema de monitoramento eletrônico, justificou sua decisão apenas na insuficiência de vagas no
regime semiaberto, sem, contudo, analisar os parâmetros dispostos no RE 641320, ou seja,

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não analisou sequer se o apenado cumpria sua pena de forma adequada, ainda que em regime
diverso do que fora determinado, bem como não tomou providências no sentido de promover
a saída de outro sentenciado do regime semiaberto, dando vaga ao paciente.

A propósito:

"EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE


RECURSO ESPECIAL. NÃO CABIMENTO. PROGRESSÃO DE
REGIME. SEMIABERTO. INSERÇÃO DO APENADO EM
PROGRAMA DE MONITORAMENTO ELETRÔNICO.
REVOGAÇÃO DA MEDIDA PELO TRIBUNAL A QUO.
DETERMINAÇÃO DE RETORNO DO PACIENTE AO SEU REGIME
DE CUMPRIMENTO. POSSIBILIDADE DE QUE SEJA
PROVIDENCIADA A SAÍDA ANTECIPADA DE OUTRO
APENADO, EM MELHORES CONDIÇÕES, PARA A LIBERAÇÃO
DE VAGA NO SEMIABERTO. OBEDIÊNCIA AOS
PARÂMETROS DO RE N. 641.320/RS. AUSÊNCIA DE
ILEGALIDADE FLAGRANTE. HABEAS CORPUS NÃO
CONHECIDO.
I - Não mais se admite, perfilhando o entendimento do col. Pretório
Excelso e da eg. Terceira Seção deste Superior Tribunal de
Justiça, a utilização de habeas corpus substitutivo quando cabível
o recurso próprio, situação que implica o não conhecimento da
impetração. Contudo, no caso de se verificar configurada flagrante
ilegalidade, recomenda a jurisprudência a concessão da ordem, de
ofício.
II - O col. Pretório Excelso, nos termos da Súmula Vinculante n. 56,
entende que 'a falta de estabelecimento penal adequado não
autoriza a manutenção do condenado em regime prisional
mais gravoso, devendo-se observar, nessa hipótese, os
parâmetros fixados no RE 641.320/RS'.
III - O MM. Juiz das Execuções deve, face às peculiaridades de
cada caso, avaliar, em primeiro lugar, com remissão a elementos
concretos constantes dos autos, se o reeducando desconta a sua
pena em estabelecimento adequado ao seu regime de
cumprimento e, do contrário, 'Havendo déficit de vagas, deverão
ser determinados: (i) a saída antecipada de sentenciado no regime
com falta de vagas; (ii) a liberdade eletronicamente monitorada
ao sentenciado que sai antecipadamente ou é posto em prisão
domiciliar por falta de vagas; (iii) o cumprimento de penas
restritivas de direito e/ou estudo ao sentenciado que progride ao
regime aberto' (RE n. 641.320/RS, TRIBUNAL PLENO, Rel.
Min. GILMAR MENDES, DJe de 1º/8/2016, grifei).
IV - O referido elenco de medidas tem sido interpretado como
uma ordem de providências que, preferencialmente, devem se
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suceder, evitando-se a colocação imediata de um apenado em
prisão domiciliar, ainda que com inserção em programa de
monitoramento eletrônico, em detrimento de outros executados
que já estariam, há mais tempo, cumprindo pena em
determinado regime, os quais deveriam ser beneficiados,
prioritariamente, com a saída antecipada, para liberar vagas,
respeitados outros critérios a serem detalhados pelas instâncias
ordinárias.
V - In casu, o eg. Tribunal a quo apenas determinou que o
paciente fosse, imediatamente, inserido em estabelecimento penal
compatível com o seu regime de cumprimento da pena, qual seja, o
semiaberto, devendo ser observados os parâmetros do RE n.
641.320/RS, caso constatada a falta de vagas, inclusive com a
possibilidade de se determinar a saída antecipada de outro
apenado. Assim, não há flagrante ilegalidade a coartar.
Habeas corpus não conhecido."
(HC 377.895/RS, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA,
julgado em 21/02/2017, DJe 07/03/2017)

Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, determinando, de


ofício, ao Juízo da Execução, caso persista a ausência de vagas no regime intermediário, para
que promova a saída do apenado com menor saldo de pena a cumprir no regime semiaberto,
dando vaga ao paciente. Esgotada tal possibilidade, será possível esgotar as demais
alternativas indicadas no item 4 da Ementa deste julgado.

É como voto.

Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA


Relator

Documento: 1829196 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 03/06/2019 Página 13 de 4
Superior Tribunal de Justiça

CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA

Número Registro: 2019/0086898-0 PROCESSO ELETRÔNICO HC 500.915 / RS


MATÉRIA CRIMINAL

Números Origem: 00121500419441 0137221420158210001 02598298820188217000 03596498020188217000


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2598298820188217000 3596498020188217000 4599218720158217000 70067745430
70078946175 70079944377

EM MESA JULGADO: 21/05/2019

Relator
Exmo. Sr. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA
Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. MÔNICA NICIDA GARCIA
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL

AUTUAÇÃO
IMPETRANTE : DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
ADVOGADOS : CÍNTIA LUZZATTO - RS054216
DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
PACIENTE : JONATHAN UBIRAJARA VIEIRA GULARTE (PRESO)

ASSUNTO: DIREITO PROCESSUAL PENAL - Execução Penal

CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"A Turma, por unanimidade, não conheceu do pedido, com determinação, de ofício, nos
termos do voto do Sr. Ministro Relator."
Os Srs. Ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik, Felix Fischer e Jorge Mussi
votaram com o Sr. Ministro Relator.

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