Você está na página 1de 13

Corações de Hot-Dog & Out-Door: marginálias de leitura

Ibriela Bianca Berlanda Sevilla1


Universidade Federal de Santa Catarina
ibriela@hotmail.com

Entre 1974 e 1981 o poeta Roberto Piva, escreve vários poemas esparsos e os
organiza em uma edição que dá o título de Corações de hot-dog. Já havia publicado
cinco livros, o último, 20 poemas com Brócoli, fora lançado pela editora de Massao
Ohno naquele ano de 1981. O Corações foi organizado no ano seguinte, e o “Prefácio-
Manifesto” intitulado “Dói mas você goza” escrito no mesmo dia em que, no Rio de
Janeiro ocorria a performance “Pelo strip-tease da arte” do coletivo Gang lançando o
Movimento de Arte Pornô; na mesma data comemorava-se também os 60 anos da
Semana de Arte Moderna, o dia 13 de fevereiro de 1982. Embora Piva não tivesse
participado do Movimento de Arte Pornô, seu livro inédito guardado no acervo do
Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, compartilha de certa forma, das ideias de
embate contra a ditadura e a moralidade religiosa, levantadas como bandeira pelo grupo
de Eduardo Kac.
Apresento aqui uma breve leitura deste livro inédito de Piva e de um segundo
sobre o qual há pouquíssima informação, intitulado Out-Door.

1. Cada poema do inédito Corações de hot-dog é a história de um pivete


iluminado, de um garoto lambuzado, um ladrãozinho, de uma pequena realidade
transgressora que está para além da moral como a conhecemos. São pequenos
organismos que pulsam no ritmo de uma linguagem primordial, na tentativa de
transcender o idioma2, ou ainda transcender o texto. Nos termos de Julia Kristeva seria
como “ultrapassar a noção de texto (...) para introduzir, em seu lugar, a noção de
experiência”3. São poemas que celebram a adolescência, como pudemos ler
principalmente no Coxas (1979) e no 20 poemas com brócoli (1981). Para Piva, o amor

1
Doutora em Teoria Literária pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora da obra poética
de Roberto Piva, tendo publicado, entre outros, o ensaio intitulado A não-obra de Roberto Piva: um olhar
sobre o arquivo no Boletim de Pesquisa Nelic, v. 12, p. 99-112, 2013.
2
Refiro-me às ideias de Octavio Paz, que em O Arco e a Lira, defende a ideia de que “a linguagem é
poesia em estado natural” e que a “diferença entre o poema e essas expressões poéticas [é que o primeiro]
é uma tentativa de transcender o idioma; as expressões poéticas, por sua vez, vivem no mesmo nível da
fala e são o resultado do vaivém da palavras na boca dos homens.” In Paz. O Arco e a Lira, p. 43.
3
Kristeva. Senso e contra-senso da revolta – Poderes e limites da psicanálise I, 2000, p. 24.
de um adolescente é comparável ao amor dos deuses, é Ganimedes, a louca paixão de
Zeus.
Os “hot-dogs” desses corações estão recheados de convulsões bataillanas: de
prazer, de morte; a urbanidade e toda sua sujeira; os portos, os peixes, âncoras, cordas,
gaivotas querendo seu resto de pesca, feiras e camelôs, uma infinidade de cores,
movimentos e odores que estas imagens suscitam. Sanduíches recheados de agoras, de
pequenas felicidades, de tradição e folclore.
O Corações de hot-dog é fundamentalmente um livro sobre o êxtase. Leo Spitzer,
em seus Três poemas sobre o êxtase4, argumenta a partir da análise dos poemas de John
Donne, San Juan de la Cruz e Richard Wagner que o alcance do êxtase tem está
relacionado com um deslocamento da alma em busca do sagrado que está fora do corpo
e da consciência do indivíduo, embora a experiência passe necessariamente pelo corpo.
Nos três poemas, segundo a leitura de Spitzer, vemos a operação de um deslocamento
do corpo e da alma, o que seria a afirmação da descontinuidade, nos termos de Bataille.
Em suma, o êxtase, para Spitzer, é primeiramente intelectualizado e religioso, e sua
consequência é elevar a consciência, ou a inconsciência (já que no ínfimo momento do
assombro religioso o indivíduo perde a razão) para uma região onde o corpo não mais
domina e a percepção de uma verdade universal não é mais balizada pela imperfeição
dos sentidos.
A ideia de pensar a imperfeição do homem nos foi lentamente incutida desde
raízes platônicas, até seus desdobramentos cartesianos e católicos; o mundo ideal não
seria este onde habitamos, e para os ascetas, será aquele para onde iremos somente após
a morte. A partir dessas concepções o maior defeito do homem consiste, então, em não
ser Deus. A condição de ser uma criatura frente a seu criador, ou seja, sua contingência
determina que ele seja um ser na “perpétua possibilidade de queda ou salvação”, como
afirma Octavio Paz5. Todo este problema da imperfeição parece ter início na divisão
entre o Homem e Deus, ou em outras palavras, entre o homem e o sagrado. Os
momentos de êxtase, tanto erótico quanto religioso, nas acepções de Georges Bataille,
serviriam então para religar, reaproximar o homem ao sagrado através da materialidade
do corpo, no momento do orgasmo ou na morte – embora estejam intimamente ligadas
quando Bataille se refere ao orgasmo como la petite mort.

4
Spitzer. Três poemas sobre o êxtase, 2003.
5
Paz. O Arco e a Lira, p.154.
Para Santa Teresa d’Ávila parecia não haver a possibilidade de redenção, ela
estava simultaneamente em queda e salvação. Sentiu seu corpo queimar atravessado
pelo dardo em chamas de algum anjo tão elevado que abrasava 6 e, ao mesmo tempo,
sentia-se levitar um palmo do chão ao tocar o divino, como nos conta Bataille.
Nesta paixão elementarmente material & sagrada insuflada de vida & de morte, no
êxtase místico figurado por Bernini em sua escultura A transverberação de Santa
Teresa (presente na igreja de Santa Maria da Vitória), há semelhanças e intercâmbios
entre os sistemas de efusão místico e erótico. Na tentativa de reaproximação com o
sagrado ocorre o êxtase místico, que para Georges Bataille está muito próximo ao
erotismo. Bataille argumenta que somente a partir do conhecimento experimental destas
duas emoções distintas é possível distingui-las com clareza. “Se quisermos determinar o
ponto em que se ilumina a relação entre o erotismo e a espiritualidade mística, devemos
voltar-nos à visão interior, aquela que praticamente só parte dos religiosos”7.
No êxtase místico de Santa Teresa há uma revelação da condição humana original
em que sua imperfeição constituída de uma falta essencial (essa de não ser Deus) acessa
o pleno ser mediante a consagração, ou seja, mediante o acesso ao sagrado.
Extrapolando esta regra que reside entre os muros da religião e funda o cristianismo,
esta da imperfeição e incompletude do homem frente ao seu deus, o livro de Roberto
Piva nos convida a perceber o êxtase como um outro tipo de revelação: a revelação
poética. A poesia de Piva sempre toca nesta questão essencial da vida. Não só toca como
espreme, dobra, inverte.
Octavio Paz explica que a experiência poética é a revelação de nossa condição
original e sempre “desemboca numa criação: a de nós mesmos”. Ele diz que o
(...) homem é impelido a nomear e criar o ser. Esta é sua condição: poder ser. E nisso
consiste o poder da sua condição. Em suma, nossa condição original não é só carência nem
tampouco abundancia, mas possibilidade.8

6
“O Senhor quis que eu o visse assim: não era grande, mas pequeno, e muito formoso, com um rosto tão
resplandecente que parecia um dos anjos muito elevados que se abrasam. Deve ser dos que chamam
querubins, já que não me dizem os nomes, mas bem vejo que no céu há tanta diferença entre os anjos que
eu não saberia distinguir. Vi que trazia nas mãos um comprido dardo de ouro, em cuja ponta de ferro
julguei que havia um pouco de fogo. Eu tinha a impressão de que ele me perfurava o coração com o dardo
algumas vezes, atingindo-me as entranhas. Quando o tirava, parecia-me que as entranhas eram retiradas, e
eu ficava toda abrasada num imenso amor de Deus. A dor era tão grande que eu soltava gemidos, e era tão
excessiva a suavidade produzida por essa dor imensa que a alma não desejava que tivesse fim nem se
contentava senão com a presença de Deus. Não se trata de dor corporal; é espiritual, se bem que o corpo
também participe, às vezes muito. É um contato tão suave entre a alma e Deus que suplico à Sua bondade
que dê essa experiência a quem pensar que minto”. In D’Avila. Escritos de Tereza de Ávila, p. 194.
7
Bataille. El erotismo, p.122 (tradução minha).
8
Paz. O Arco e a Lira, p. 161
Nesse sentido o poeta cria a ele mesmo quando revela o homem; quando cria o
homem através da imagem poética ele revela sua condição paradoxal, seu estado
primordial de solidão frente a sua “outridade”. Somente através da poesia é que se dá a
possibilidade de uma totalidade: é “vida e morte num único instante de
incandescência.”9
Pela possibilidade de criar da poesia, Nietzsche vai encontrar na arte a única
alternativa possível para libertar o homem do que ele chama a “moral de rebanho”
fundada nos princípios de valor do cristianismo. A poesia opera no campo da ficção “na
qual precisamente a mentira se santifica” e a “vontade de ilusão (...) opõe-se bem mais
radicalmente do que a ciência ao ideal ascético” 10. Diferentemente de Bataille,
Nietzsche não estava interessado em explorar a ligação do sagrado com o homem
através do corpo. Ele traz o corpo para sua filosofia para pensar o instinto animal que
foi por muito tempo obliterado em favor de uma vida em comunidade delimitada pelas
instituições.
Recorro a estas concepções do êxtase e do sagrado para apontar que o que pode
ser lido como êxtase em Corações de hot-dog do poeta Roberto Piva não deixa de ser
uma conexão com a esfera sagrada e tampouco deixa de ser uma volta à condição
instintiva do homem que não pode ser aprisionado; a ligação do homem ao
sagrado/instinto, nesta poesia, se dá através do corpo e vai ao encontro das divindades
pagãs e entidades espirituais das religiões afro-brasileiras que são tão divinas e sagradas
quanto os garotos em seus múltiplos epítetos e os animais em seus habitat mais
selvagens. Ao mesmo tempo em que gera esta amálgama de sensações contraditórias,
mas complementares, os poemas do livro inédito trazem, de uma maneira geral, a
questão da violência, da dor e do erotismo. O erotismo para Bataille está intimamente
relacionado com a morte por ser uma força destruidora; ele afirma que “toda a ação
erótica tem por princípio uma destruição do ser” e explica: “essencialmente, o domínio
do erotismo é o domínio da violência, o domínio da violação”11.
Compreendo assim, que o Corações de hot-dog está fundado numa linguagem de
navalhas, violadora, e predominantemente fálica, estampada na figura de Priapo – deus
que o poeta elege como guia da obra. Aqui a dor é também caminho para o prazer e para
o êxtase. Piva compreende em seu livro este raro e profundo entendimento sintetizado

9
Paz. O Arco e a Lira, p. 163
10
Nietzsche. Genealogia da moral, p. 132
11
Bataille. O Ânus Solar, p. 5
nos versos do livro Ciclones (2008) “(...) basta de poesia/ou religião que não conduza ao
êxtase (...)”12.
Na versão corrigida e ampliada que monta o boneco para a edição do Corações de
hot-dog, pode-se ler desde o “Prefácio-Manifesto” o aviso: “Dói mas você goza”. Como
uma primeira regra que o leitor deve ter em mente ao entrar neste jogo com “brinquedos
loucos de uma Dada-Odisséia”, conforme define o autor seus próprios poemas. Para
atingir o prazer é exigido do leitor que entre com os sentidos nus, abertos para os ritmos,
pronto para ser surpreendido por versos do tipo: “(...) & Pedrinho ficando vidrado num
poeta/ bem depravado que exibia o cacete diante/ de uma floricultura onde um cão
esquimó/ uma codorna & um ratão do banhado repartiam/ geleias rotativas.” 13 , ou
“neste bar onde cus &/ bucetas imploram/ o caralho celestial do Deus Puta” 14, e “garoto
prostituto/da rua São Luís/ fode fode/ com o mastro/do navio/ancorado/na tua bunda
loba”15, e assim por diante.
A eletricidade aparece como mais um ativador dos sentidos corporais, como
podemos ler nos versos “A viagem/elétrica/de Dante”16, “eletrificar as cidades os
caramujos santos como jovens Budas de cinza” 17, “canibalismo elétrico na av.
Tiradentes”18, “corrimão elétrico nas veias”19, entre outros versos. O livro extrapola a
barreira da intimidade, tornando públicas as fantasias sexuais mais vorazes, mais
tórridas e extremas, protagonizadas por garotos, jovens que parecem ainda carregar
qualquer coisa de ingenuidade, uma inocência animal, aquela malícia que vemos nos
símios. Estas descargas elétricas estão associadas com as retorcidas visões urbanas e
remetem também à verticalidade do raio, que como a do falo, despende uma imensa
quantidade de energia. Sexo e natureza se fundem no corpo do poema.
No poema que dá nome ao livro “Corações de hot-dog” o amor é luz, o sol é
corpo “potência da potência” e ali os corpos enamorados se fundem à paisagem.
Transcrevo o poema:

12
Piva. “Joãozinho da Goméia” in Estranhos sinais de Saturno, p. 71.
13
Piva. “Era uma vez...” in Corações de Hot-Dog, p. 8.
14
Piva. “Volte do inferno Dante” in Corações de Hot-Dog, p. 16.
15
Idem. “Corpo vestido de lilás & negro” in Corações de Hot-Dog, p. 21.
16
Idem. “Um dia você chega lá” in Corações de Hot-Dog, p. 8.
17
Idem. “Lord of the flies” in Corações de Hot-Dog, p. 12.
18
Idem. “Garoto-Relâmpago” in Corações de Hot-Dog, p 32.
19
Idem. “Cortem as Cabeças” in Corações de Hot-Dog, p. 38.
CORAÇÕES DE HOT-DOG
Para “fu di tal volo
Anselmo Augusto Varoli che nol seguiterìa língua né penna”
“estás aqui desde Paradiso, canto VI
o princípio” Dante

ônibus
viagem de Dante no Paraíso da Paixão
AMOR = LUZ
Guararema Mogi São Paulo
Torsos olhos nos olhos
vigas estreladas
montanhas com coração dentro
mártir é o rabo da mula
fogo no rosto do meu amor
Sol entre nuvens cabeludas
pés inchados
potência da potência
olhos de novo
Osiris crucificado em
seus olhos?
brejos
vento janela cortinas explodindo
boca sem sumo
órgão em sintonia
forno
forno
ônibus um forno
meu olhar no teu no meu
no centro rodopiante
de tua língua louca
fogo no rosto do meu amor
Paradiso Now
pés inchados
botas de couro da Lua
meus pés nos teus nos teus olhos
nos meus pés nos olhos
flocos de pura paixão
tua mão no meu braço &
nuvem na minha boca
sopro olho suplicante
tua boca
olho
na minha boca
qualquer coisa de Valéry na
tua conversa
o deus brinca nos
teus ombros de sal
vertigens
ondas do mar amado &
sem nome
aqui mesmo se acomoda o
princípio
rojões
ônibus que dança no
canto da orelha
o dragão é sonoro
o olho é sonoro
eu posso dançar na tua boca de
trevas rosadas
quaresmeiras
trópico no suor da mão
vidros
satélites
Blake
sim, finalmente o crepúsculo
amado de Blake
flor espiritual no canal cósmico
só você
só você
desenhar um pássaro de água no seu rosto
príncipe
Rei do Universo
pele sem nada dentro
você ficou na minha pele
EU QUERO VOCÊ AGORA
vento
ondas de formigas marinhas
ilhas de doces
marinhos
FODER
até o Sol
derramar suas lágrimas
olho castanho de onde nasce
todas as coisas
você é azul / núcleo generoso
seu olho é um céu
constelado
com minha língua dentro

Ônibus-Cogumelo/Guararema-Mogi-São Paulo
198120

Guardadas as proporções da narrativa, há neste poema, como em “O ânus Solar”,


de Bataille, uma erotização da natureza na ambiência do poema. Nele o poeta compõe
montanhas com corações pulsantes dentro, o mar é “amado & sem nome”, o crepúsculo
é uma “flor espiritual no canal cósmico” e os corpos dos amantes estão confundidos e
amalgamados do início ao fim do poema. É um poema do êxtase em que o
arrebatamento da excitação não leva para algum lugar exterior ou elevado, mas vai, num
movimento agudo, de volta para o corpo somente: “pele sem nada dentro”, diz o verso
69. É a explosão apaixonada de dois corpos que se desejam loucamente e ardem com o
que parece ser a impossibilidade do contato sexual naquele contexto, pois estão dentro
de um ônibus. Entretanto, a trajetória ascendente do desejo potencializado pelo ato
transgressivo de levar a cabo a transa dentro do ônibus, acaba por dissipar a imagem do
lugar onde os amantes estão inseridos e compõe, na imagem do puro prazer, o erotismo
dos corpos & o erotismo sagrado, como podemos ler nos últimos versos: “você é azul /
núcleo generoso/seu olho é o céu/constelado/com minha língua dentro”.
Alexandrian, no prefácio de O Ânus Solar explica que Bataille “proclamava a
necessidade do êxtase e do amor extático como desprezo pela realidade imediata” 21.
Piva opera num campo similar ao de Bataille na medida em que explora o poder do sexo
em favor da poesia. Temos aqui neste poema a potencialização da imagem do olho –
olhos que sentem tão intensamente quando enxergam: “meus pés nos teus nos teus

20
O poema está transcrito obedecendo o máximo possível sua formatação original.
21
Bataille. O Anus Solar, p. 5
olhos/ nos meus pés nos olhos/ flocos de pura paixão” (...) “sopro olho suplicante”, e ao
final do poema, “olho castanho de onde nasce/todas as coisas”; notadamente uma
“história do olho” – obviamente referindo-se aqui ao ânus como parte do corpo
privilegiada para o prazer – um fim e um início de tudo.
Seus poemas corrosivos e intensamente homoeróticos abrem uma porta de entrada
para uma dimensão em que a vida não é regida pelo calendário cristão, ou pelo tempo
profano do trabalho, mas por um tempo sagrado onde a dança, o jogo e o sexo revelam
um estado selvagem da poesia. Talvez uma força animal, primitiva, uma animalidade
acessada através do delírio dos sentidos e expressada nas várias figurações dos garotos,
que são, no Corações de Hot-Dog sua imagem privilegiada.

2. O datiloscrito intitulado Out-Door, encontrado nos últimos minutos do


último dia de minhas pesquisas no IMS-RJ, revela, não uma questão que se tornou
filosófica como a do erotismo, mas um trabalho fundamentalmente voltado à palavra. O
livro é composto por 36 poemas, escritos provavelmente nos anos 80, pois embora não
estejam datados no datiloscrito, pudemos ler alguns deles publicados no Ciclones
(1997). Os poemas do inédito são curtos, repletos de aliterações e versos em italiano,
francês e espanhol; a onomatopeia “Pongo Dombo” que lemos como um título na
página 24 do livro parece remeter ao som do tambor, instrumento muito presente em
toda obra de Piva e que dá o ritmo a seus poemas. Um ritmo fundamental, o ritmo do
coração.

PONGO DOMBO
MALA NA MÃO & ASAS PRETAS

Loose desire!
We naked cry to you –
“Do what you please”
William carlos Williams

Na trilha deste ritmo de origem, Piva parece experimentar muito com a


respiração neste livro. Os versos curtos são em sua maioria incompletos; a cesura no fim
faz com que sua unidade sintática só termine no verso posterior, na metade do verso ou
com a adição de uma palavra somente. Assim, como num encadeamento, ele constrói
versos de leitura longa em grafia curta e versos curtos que de repente cortam o fôlego
em poemas que parecem terminar antes de chegar ao fim. O ritmo destes poemas está
longe de ser constante, é como se o corpo fosse desordenadamente arrebatado por
instantes de excitação e calma.
Charles Olson em seu manifesto a favor do verso “projetivo”, diz que a
respiração deve ser entendida e utilizada no trabalho poético como uma forma distinta
de ouvir. Para ele e seus seguidores da Black Mountain College, a criação poética estava
ligada mais à fisiologia e à fala cotidiana do que ao conjunto de regras que
determinavam a métrica poética. Nos anos 1950, o manifesto vinha combater as formas
fixas da poesia, propondo a abertura da composição em que “a forma não é mais do que
uma extensão do conteúdo”22, determina Olson. O que mais nos interessa nesta teoria é
a consideração da fisiologia para o trabalho do poeta. Ainda que os poemas de Out-
Door sejam curtos, rápidos como slogans, o corpo está presente através da respiração.
Vários dos poemas que lemos neste livro inédito são familiares por terem sido
publicados entre as páginas do Ciclones. Reunidos sob outro título e apresentando outro
tipo de diagramação, estes poemas têm no Out-Door toda uma conotação diferente. A
título de comparação transcrevo os poemas publicados no Ciclones:

Hic habitat felicitas

fastos & nefastos


deus fascinus
na soleira da porta
aponta
a glande rosada
pro seu olho xereta
Ilha Comprida, 83

signos selos & sigilos


serpente solar serpenteando
a seta
solitudes
solo de sax santificando
o Satori
Juquehy, 83

22
Olson. Projective Verse, p. 2. Disponível em: http://writing.upenn.edu/~taransky/Projective_Verse.pdf
cem planetas? cem pupilas?
simpatia das coisas distantes
o nada árido das areias
Praia do Guaiúba, 82

Heidegger
quando escreveu sobre Trakl
era um dia assim
com este vento devasso
entre o crepúsculo
& o renascimento
Praia do Guaiúba, 82

Meio-dia dourado
acaricia garotos & pássaros
luz de sonho
partindo o Mundo
no centro do coração
lâmina da Eternidade
Ilha Comprida, 8623

Estes poemas reunidos sob o título “Hic habitat felicitas” 24, que aliás tem toda
uma conotação associada à magia da potência sexual como potência de vida e de
abundância, vemos que nesse conjunto de poemas há algo de solar e árido, imagens
quentes e douradas que colocam o sol numa relação de equivalência a do falo. Já no
Out-Door onde lemos os mesmos dois primeiro poemas sob o mesmo título, seguidos
de mais sete poemas, todos com entre 7 e 10 versos cada, não há relação entre os
poemas, não é possível vislumbrar uma imagem capaz de reuni-los, nem sequer é
possível afirmar com clareza que todos eles estão reunidos sob um mesmo título; estão
colocados como que numa espécie de montagem surrealista em que cada poema é um
flash, algo que possa ser lido com rapidez; não compõem propriamente uma imagem
poética, são como abstrações que requerem muito da imaginação do leitor para
atravessar sua barreira sintética.
23
Piva. Estranhos Sinais de Saturno, pp. 46-51
24
Emblema que pode ser lido do alto relevo de um falo encontrado na parede de uma padaria em
Pompéia. Vulgarmente pode ser entendido como “Aqui mora a felicidade” mas “felicitas” (do latim felix)
pode ser entendido também como fertilidade, ou ainda “abençoado, frutífero, com sorte”. Portanto o falo
para o povo de Pompéia era símbolo, além da fertilidade, da abundância e da boa sorte.
Para adentrar um pouco mais na linguagem retorcida da poética de Piva é
preciso seguir suas pistas. No poema da página 11, o primeiro verso “Roberto Piva
parolíbero” indica a derivação libertária de suas palavras além de contribuir para a
composição “autobiográfica” de um personagem, por assim dizer:

Roberto Piva parolíbero


di nuove potenze
zagaias de Almada Negreiros
plano-sequência del cavalier
Marino
que viu
o garoto depredar
l’auree fiammelle

Parolíbero é um estilo de linguagem identificado na comunicação pós-moderna


como “um estilo tipicamente veloz, audacioso, simultaneísta e sintético” segundo De
Maria25. Remete imediatamente à imaginação sem fios e às palavras em liberdade dos
manifestos de Marinetti, que propunha romper “a cadeia sintática [de modo que] as
relações passavam a se fazer através da analogia”, como explica Mendonça Teles.26
Constatamos em sua biblioteca pessoal que tanto a vanguarda italiana como seus poetas
tradicionais foram leituras apaixonadas de Piva. A partir dessas e outras tantas
referências sem dogma, ele compõe o Out-Door como uma grande tela por onde passam
imagens aéreas, infladas de suavidade, formando um filme inimaginável e simultâneo,
que é mais musical do que visual.
Obviamente há muito mais a ler neste livro enigmático, de poemas herméticos,
sem apresentação alguma, prefácio ou posfácio. O que podemos afirmar com certeza é
que como em todos seus livros, Piva imprime aqui também sua voz provocadora de
estripulias.

Referências Bibliográficas
Bataille, Georges . O Anus Solar; trad. Anibal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora, 1985.

25
De Maria, Teoria e invenzione futurista, p. 208-209. (Tradução minha).
26
Mendonça Teles. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro, p. 80.
Bataille, Georges. El Erotismo; trad. Antoni Vicens e Marie Paule Sarzin. Buenos Aires:
Tusquets Editores, 2009.

____________. História do olho; trad. Eliane Robert Moraes. São Paulo: Cosac Naify,
2003

D’Ávila, Santa Tereza. Escritos de Tereza de Ávila; trad. Adail Ubirajara Sobral et al.
São Paulo: Edições Loyola, 2001.

Derrida, Jaques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana; trad. Claudia de Moraes
Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

De Maria, Luciano (org). Teoria e invenzione futurista. Milano: Arnoldo Mondadori


Editore, 2005.

Kristeva, Julia. Senso e contra-senso da revolta – Poderes e limites da psicanálise I;


trad. Ana Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

Mendonça Teles, Gilberto. Vanguarda europeia e modernismo brasileiro. Petrópolis:


Vozes, 1976.

Nietzsche, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral: uma polemica; trad. Paulo César
de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

_______________________. Além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro;


trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia da Letras, 2005.

Olson, Charles. Projective Verse: projectile, percussive, prospective vs. The NON-
projective. 1950. Disponível em:
http://writing.upenn.edu/~taransky/Projective_Verse.pdf

Paz, Octavio. O Arco e a Lira, trad. Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac
Naify, 2010.

__________. A dupla chama: amor e erotismo; trad. Wladir Dupont. São Paulo:
Siciliano, 1994.

Piva, Roberto. Corações de Hot-Dog. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, Inédito.

___________. Estranhos sinais de Saturno. São Paulo: Globo, 2008.

___________. Out-Door. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, Inédito.

Spitzer, Leo. Três poemas sobre o êxtase: John Donne, San Juan De La Cruz, Richard
Wagner; trad. Samuel Titan Jr. et al. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.