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Resumo:

Aidan vive a vida tranquila e contemplativa de um escriba no mosteiro de Cenannus na Ríg,


dividindo acordado o seu tempo entre as orações, as tarefas e os sonhos.

Então, um dia, tem lugar um milagre que quebra a sua confortável mas frequentemente
aborrecida rotina: Aidan é escolhido para acompanhar um pequeno grupo de monges

numa viagem até à área mais longínqua do mundo conhecido - à fabulosa e exótica cidade de
Bizâncio - para presentear o Sacro Imperador Romano com o belo Livro de

Kells.

Aidan nunca poderia ter imaginado as aventuras que o aguardavam, excitantes, pavorosas e
assustadoras para lá dos seus sonhos mais loucos. Muito provavelmente, se

as tivesse imaginado, nunca teria abandonado a segurança da sua abadia.

Aidan vai viajar desde as onduladas colinas verdejantes da Irlanda, através dos tempestuosos
mares atlânticos e das terras dos terríveis nórdicos, até às águas azuis

do Mediterrâneo, às cúpulas douradas de Bizâncio e aos áridos desertos árabes, desde a


solidão e a inocência até ao coração de um brilhante mas corrupto Império.

Durante a sua jornada, acabará por se tornar num escravo, num embaixador, num espião, num
pagão, num viquingue e num sarraceno. Perderá os amigos e o seu caminho,

mas acabará por ver mais do mundo do que a maior parte dos homens do seu tempo, até
acabar por lhe ser concedida uma dádiva muito rara, a do conhecimento e escolha

do seu próprio destino.

Uma jornada fabulosa desde as verdes colinas da Irlanda até ao coração de um Império
brilhante mas corrupto...

*****

STEPHEN LAWHEAD

BIZÂNCIO
Título original: BYZANTIUM

Autor: Stephen Lawhead (c) 1996, Stephen Lawhead

Para Sven e Margareta

PRIMEIRA PARTE

Que Deus esteja contigo em cada colina,

Que Jesus esteja contigo em cada passagem,

Que o Espírito esteja contigo em cada torrente,

Promontório, elevação e campo;

Em cada mar e terra, em cada pântano e prado,

Em cada deitar e em cada despertar,

Através das ondas e na crista de cada vaga,

E em cada passo da jornada, para onde quer que vás.

UM

Vi Bizâncio num sonho e soube que era aí que iria morrer. A vasta cidade pareceu-me uma
coisa viva, como um grande leão dourado, ou como uma serpente coroada enrolada

sobre uma rocha, maravilhosa e mortífera. Com passos trémulos, avancei sozinho para abraçar
a besta, com o medo a transformar-me os ossos em água. Não ouvia qualquer

som excepto o do bater do meu próprio coração e o silvo baixo da respiração da criatura.
Quando me aproximei, o olho semicerrado abriu-se e a besta despertou. A

assustadora cabeça ergueu-se, a boca abriu-se. Um som, como o uivo do vento através de um
céu de Inverno, rasgou os céus e fez tremer a Terra enquanto uma rajada

de um hálito horrendo me atingia, ressequindo-me as carnes.


Continuei, a cambalear, ofegante, incapaz de resistir porque estava a ser empurrado por uma
força muito para lá dos meus poderes. Horrorizado, vi a terrível besta

a rugir. A cabeça ergueu-se nos ares e desceu rapidamente, tão depressa como um raio ou
como o mergulho de uma águia sobre a sua presa... e senti as terríveis maxilas

a lançarem-se sobre mim enquanto eu gritava.

Foi então que despertei, mas o meu despertar não me trouxe alegria ou alívio porque me
levantei não para a vida mas sim para a terrível certeza da minha morte. Ia

morrer e as torres douradas de Bizâncio iriam ser o meu túmulo.

No entanto, antes do sonho - algum tempo antes - encarara tudo sob uma perspectiva muito
diferente. Uma tão rica oportunidade não estava ao alcance de toda a gente

e considerara-me abençoado para além de todas as medidas pela minha boa sorte. E como
não? Era uma honraria rara para alguém tão jovem e eu bem o sabia. Não que

me pudesse esquecer desse facto com facilidade porque era constantemente recordado dele
pelos meus irmãos monges, muitos dos quais me olhavam com

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uma mal disfarçada inveja. Entre os sacerdotes mais jovens, eu era considerado como o mais
capaz e o mais sabedor, pelo que tinha mais probabilidades de vir a alcançar

a honra que todos procurávamos.

Contudo, o sonho envenenou a minha felicidade. Agora sabia que a minha vida terminaria na
agonia e no medo. Fora isso o que o sonho me mostrara e não era tão estúpido

que duvidasse. Sabia - com a confiança das convicções à prova de fogo - que o que sonhara se
concretizaria.

Sim, sou uma daquelas almas amaldiçoadas que vêm o futuro em sonhos...

e os meus sonhos nunca se enganam.

As notícias sobre o plano do bispo haviam chegado até nós um pouco depois da Missa de
Cristo. "Serão seleccionados onze monges," informara- nos o abade Fraoch nessa

noite, à mesa. "Cinco monges de Hy, três de

Lindisfarne e três de Cennanus." Essa selecção, acrescentara, deveria ser feita antes da Páscoa.

A seguir, o nosso bom abb abrira os braços para incluir todos os que se encontravam reunidos
no refeitório. "Irmãos, é da vontade de Deus honrar-nos deste modo.
Acima de tudo o mais, coloquemos de lado as invejas e as orgulhosas discórdias, e que cada
um entre nós procure os conselhos do Santo Rei ao longo dos tempos que

temos pela frente."

Foi o que fizemos, cada um à sua própria maneira. Na verdade, não me mostrei menos ardente
do que o mais zeloso entre nós. Iriam ser escolhidos três e eu queria

ser um deles. Por isso, ao longo dos negros meses de Inverno, esforcei-me por me tornar
merecedor aos olhos de Deus e dos meus irmãos. Era o primeiro a levantar-me

e o último a deitar-me, trabalhava com ilimitada diligência, entregando-me a todas as tarefas


que surgissem naturalmente no meu caminho mas sem deixar de me desviar

dele para ajudar nas tarefas dos outros.

Se houvesse quem rezasse, rezava com eles. Se houvesse quem trabalhasse, trabalhava com
eles. Quer fosse nos campos, na cozinha, no oratório ou no scriptorium, lá

me encontravam, diligente e ansioso, fazendo tudo o que estivesse ao meu alcance para
aliviar os fardos dos outros e para provar que era merecedor. O meu zelo não

podia ser estancado.

A minha devoção não ficava atrás da de qualquer outro.

Quando já não conseguia lembrar-me de nada para fazer, iniciava uma penitência - tão severa
quanto fosse capaz de imaginar - para me punir a mim mesmo e para afugentar

os demónios da preguiça, do orgulho, da inveja, do desprezo... e todos os outros que


pudessem surair no

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caminho. Era com um coração verdadeiro e contrito que humilhava o meu espírito irrequieto.

Então, uma noite...

Mantinha-me no meio das águas rápidas do Blackwater, agarrando uma malga de madeira
com mãos trémulas. O nevoeiro, levemente espectral sob a pálida luz da Lua que

acabara de nascer, descrevia lentos remoinhos sobre a superfície do rio. Quando as minhas
carnes começaram a ficar entorpecidas, mergulhei a malga nas águas geladas

e despejei-a sobre os ombros e as costas. Os meus órgãos internos estremeceram com o


choque da água fria sobre a pele nua e esforcei-me de tal modo para impedir
que os dentes chocalhassem que as queixadas me ficaram a doer do esforço. Já não sentia
nem os pés, nem as pernas.

Formava-se gelo tanto nos locais de águas plácidas, no meio das pedras da margem, como
também nos meus cabelos molhados. O meu bafo pairava e formava nuvens por

cima da minha cabeça. Lá muito no alto, as estrelas brilhavam como pontos de chamas
prateadas, sólidas como o solo do Inverno, duro como o ferro, e tão silenciosas

como a noite à minha volta.

Mais uma vez, e outra, despejei a água gelada sobre o corpo, reforçando a virtude da
penitência que escolhera.

- Kyrie eleison! - ofeguei - Senhor, tem piedade de mim!

Foi deste modo que mantive a minha vigília e tê-la-ia mantido durante mais algum tempo se
não tivesse sido distraído pelo aparecimento de dois irmãos monges que

empunhavam tochas. Ouvi alguém a aproximar-se, rodei o pescoço rígido e viu-os a


cambalearem pela íngreme margem do rio com os archotes bem levantados.

- Aidan! Aidan! - gritou um deles. Era Tuam, o tesoureiro, na companhia de Dda, o ajudante do
cozinheiro. Deslizaram pela vertente até pararem na margem e ficaram

ali por instantes, olhando-me por cima dos movimentos das águas. - Temos andado à tua
procura.

- Então, já me encontraram - retorqui, por entre os dentes cerrados.

- Tens de sair daí - declarou Tuam.

- Só quando terminar.

- O abade convocou toda a gente. - O tesoureiro baixou-se, apanhou a minha capa e estendeu-
ma.

- Como souberam que estava aqui? - perguntei, patinhando para a margem.

- O Ruadh sabia - respondeu Dda, esticando um braço para me ajudar a subir para a
escorregadia margem.

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Ergui as minhas mãos geladas para eles. Seguraram-nas e puxaram-me para fora da água.
Tentei segurar o manto mas tinha os dedos entorpecidos e tremiam tanto que

não o consegui. Tuam colocou-me rapidamente o manto sobre os ombros.


- Obrigado, irmão... - murmurei, enrolando o manto à minha volta.

- Consegues andar? - perguntou Tuam.

- Onde vamos? - interroguei-me, tremendo violentamente.

- Para a gruta - explicou Dda, com um brilho de mistério no olhar.

Reuni o resto das minhas roupas e apertei-as contra o peito enquanto se afastavam.

Segui-os... mas os meus pés estavam tão entorpecidos e as pernas tremiam-me tanto que
cambaleei e caí por três vezes antes de Tuam e

Dda voltarem para trás para me ajudarem. Apoiaram-me entre si e caminhámos ao longo do
trilho do rio.

Os monges de Cennanus na Ríg nem sempre se reuniam na gruta.

Na verdade, só o faziam nas ocasiões mais importantes, e mesmo assim era muito raro
estarmos todos juntos. Embora os meus companheiros nada mais dissessem, acabei

por compreender, pelas suas maneiras secretas, que iria acontecer algo de extraordinário.
Quanto a isso, não me enganei.

Tal como Tuam dissera, todos haviam sido convocados e quando lá chegámos já se
encontravam reunidos no sanctorum speluncae. Entrámos rapidamente e ocupámos os nossos

lugares no meio dos outros. Ainda a tremer, agarrei no hábito e no manto e vesti-me tão
rapidamente quanto mo permitiam as minhas mãos desajeitadas.

Dando pela nossa chegada, o abade avançou e ergueu as mãos numa bênção.

- Fazemos vigílias, jejuamos e estudamos... - declarou o Abade

Fraoch, com uma voz que era como um coaxar áspero na câmara abobadada da gruta. - Esta
noite, rezamos. - Fez uma pausa, como um pastor satisfeito com a reunião do

seu rebanho. - Irmãos, rezamos para que Deus nos guie e abençoe durante a escolha que
temos pela frente, pois é esta a noite em que os Célé Dé irão ser escolhidos.

- Nova pausa, enquanto nos examinava a todos pela última vez. - Que o espírito de Deus esteja
connosco e que a sua sabedoria se manifeste entre nós!

Amém!

- Amém! Assim seja! - responderam todo os que se encontravam ali reunidos.

Chegara finalmente o momento, pensei, e o meu coração acelerou-se.

A espera ia terminar e a decisão seria tomada naquela noite.


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- Irmãos, rezemos! - O abade Fraoch deixou-se cair no chão, prostrando-se em frente ao


pequeno altar de pedra.

Nada mais foi dito porque não era preciso dizer mais nada. Na verdade já há muito que
havíamos extraído todo o significado às palavras através de infindáveis discussões

e debates. Assim, depois de muitas vigílias, jejuns e estudos ao longo dos meses negros,
chegara ao momento de procurar as bênçãos do trono celestial. Jazemos no

chão de pedra nua da gruta e abandonámo-nos às orações. O ar da gruta estava denso com o
calor de tantos corpos e carregado do fumo e do cheiro das velas. Ajoelhei-me.

Dobrei-me sobre mim mesmo, com os braços estendidos e a cabeça a tocar no chão de pedra,
escutando as invocações sussurradas que enchiam a gruta com o seu zumbido

familiar.

Gradualmente, os murmúrios foram diminuindo. Algum tempo depois, a gruta voltou a


recuperar o silêncio profundo e calmo de um túmulo. Se não fosse o suave estralejar

da oscilante chama das velas e a respiração lenta e regular dos monges, não se ouviria um
som. Poderíamos ser os últimos homens sobre a Terra, ou os mortos de uma

outra era, à espera de regressarem à vida.

Rezei com um fervor jamais igualado em toda a minha vida. Procurei sabedoria e conselho, e
essa minha procura era sincera, juro-o! Rezei:

"Rei dos Mistérios, que foste e estás,

Antes dos elementos, antes das eras,

Rei eterno, gracioso de aspecto,

E que reinas para sempre, concede-me três coisas:

Inteligência para discernir a Tua vontade,

Sabedoria para a compreender,

E coragem para a seguir."

Foi assim que rezei e todas as minhas palavras eram sentidas. A seguir rezei para que a
honraria que procurava fosse deposta nas minhas mãos.
Mesmo assim, fiquei surpreendido quando, após longos momentos, escutei passos perto de
mim, senti um toque no ombro e ouvi a voz do abade:

- Levanta-te, Aidan e fica de pé.

Levantei a cabeça lentamente. As velas haviam ardido muito e a noite ia avançada. O abade
Fraoch olhou para baixo, para mim, acenou com gravidade e levantei-me.

Continuou o seu caminho, deslocando-se por entre os corpos prostrados. Observei-o enquanto
avançava para aqui e para acolá.

Pouco depois, dobrou-se junto a Brocmal, tocou-lhe e ordenou-lhe que

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se levantasse. Brocmal obedeceu e olhou em volta. Viu-me e inclinou a cabeça, como que num
sinal de aprovação. O abade prosseguiu, caminhando com passos lentos e

aparentemente sem finalidade, passando e tornando a passar por entre os monges que
oravam, até chegar junto do irmão Libir. Ajoelhou-se, tocou em Libir e ordenou-lhe

que se pusesse de pé.

E ali estávamos nós: éramos três e observávamo-nos silenciosamente uns aos outros. Brocmal
e Libir mostravam-se gratos e satisfeitos enquanto eu continuava surpreendido.

Fora escolhido! O que mais desejara, acima de todas as outras coisas, fora-me concedido! Mal
conseguia acreditar na minha boa sorte e tremia de triunfo e de delícia.

- Levantem-se, irmãos - grasnou Fraoch - e vejam os escolhidos por Deus. - Chamou-nos pelos
nomes: - Brocmal... Libir... e Aidan, aproximem-se. - Convocou-nos e

ocupámos os nossos lugares a seu lado enquanto os outros monges nos olhavam. - Irmãos,
estes serão os três que encetarão a peregrinação em nosso nome. Que o Alto

Senhor dos Céus seja louvado!

Sessenta pares de olhos olharam para nós com uma mistura de surpresa e também, para
alguns, de desapontamento. Quase conseguia ouvir o que estavam a pensar. O Brocmal?

Sim, claro, era o mestre de toda a aprendizagem e da arte dos livros. Libir? Sim, mil vezes sim!
Famoso pela sua sabedoria e pelo reconhecido zelo, a paciência e

a piedade de Libir eram quase lendárias através de todo o Éire. Mas... o Aidan mac Cainnech?
Devia ser engano... A descrença estampada nos seus rostos não era difícil

de ler... e mais do que um monge se interrogava por que motivo fora preterido... por mim.
Contudo, o abade Fraoch parecia mais do que satisfeito com as escolhas feitas.

- Agradeçamos a Deus e a todos os santos esta muito satisfatória conclusão das nossas longas
deliberações.

Conduziu-nos numa muito simples oração de graças e mandou-nos embora, de volta às nossas
tarefas. Saímos da gruta, todos encolhidos para podermos gatinhar pela estreita

passagem, e deparámos com a luz da madrugada de um dia estimulante e ventoso. Enquanto


nos deslocávamos sob uma luminosidade pálida e rosada, senti-me como se fôssemos

cadáveres renascidos. Depois de passar uma eternidade debaixo da terra, fora despertado,
erguera-me e abandonara o túmulo para voltar a caminhar no mundo. Este,

para mim, parecia-me um mundo grandemente alterado, acabado de criar e repleto de


promessas. Bizâncio esperava-me e eu encontrava-me entre os Célé Dé escolhidos

para encetarem a jornada. Chamavam-lhe o Martírio Branco... e assim é.

DOIS

Caminhámos ao longo do Blackwater entoando um hino ao novo dia e só chegámos aos


portões da abadia quando a luz do Sol nascente já tocava no alto da torre sineira.

Depois da prima, reunimo-nos no salão para o pequeno-almoço. Sentei-me na comprida mesa,


muito consciente da minha nova proeminência. O irmão Enan, que leu os salmos

para a refeição da manhã, não foi capaz de conter a sua excitação perante o facto da nossa
comunidade ir, tal como o disse, "enviar os nossos mais reveren- ciados

monges para ajudarem a levar o grande livro através dos mares, até ao Sacro Imperador. Enan
pediu uma oração de graças especial pelos três escolhidos, pedido que

o abade aceitou. Foi assim, com um júbilo estouvado, que leu o Magnificat.

Ao escutar a cadência daquelas palavras bem conhecidas, pensei:

Sim! Então é assim! Isto é o que se sente quando somos escolhidos, quando

Deus nos chama para um grande empreendimento. A minha alma louva o Senhor e o meu
espírito rejubila em Deus, o meu Salvador, que não se esqueceu deste seu humilde

servo! Sim!

Tratava-se, tal como o abade Fraoch afirmava - e toda a gente concordava - de uma grande
honra para todos nós. Na verdade, era uma honra que eu procurara tão ardentemente
como todos os outros. Contudo, agora era minha... e ainda não conseguia acreditar na boa
sorte. Ao ouvir

Enan rezar a Deus agradecendo aquela exaltada bênção, o meu coração como que pairou
dentro de mim. Sentia-me humilhado, satisfeito e orgulhoso... tudo ao mesmo tempo,

o que me provocava uma espécie de vertigem. Tinha vontade de me rir em voz alta... ou
acabaria por explodir.

Uma vez, durante a refeição, levei a taça aos lábios e aconteceu que olhei ao longo da
comprida mesa do refeitório para descobrir que estava a ser observado por

um bom número dos meus irmãos. A ideia de que encontravam em mim algo merecedor de
destaque provocou-me uma vaga de orgulho que me fez sentir culpado. Comi o meu

caldo e o pão de

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cevada e esforcei-me, para bem dos bem-intencionados irmãos, por tentar não parecer
demasiado satisfeito e importante aos seus olhos, de modo a não os ofender.

Quando a refeição terminou, o abade Fraoch chamou-me com um gesto. Aproximei-me e


debrucei-me, para o poder ouvir.

- Suponho que deves ter muito em que pensar, Aidan - sussurrou. Anos atrás, o abade perdera
a voz por causa do golpe da lâmina de um Lobo do Mar, pelo que as suas

palavras nunca eram mais do que sussurros e grasnidos ásperos.

- Sim, abade... - respondi.

- Portanto... - prosseguiu - liberto-te de todos os teus deveres.

Aproveita este dia para descansares, pensares... e para te preparares.

Tentei protestar mas o abade continuou:

- A tua busca desta oportunidade foi muito vigorosa. O teu zelo é louvável, meu filho, mas logo
que o tempo mudar irás ter pela frente muito mais trabalho e uma

jornada esgotante. - Pousou uma das mãos no meu ombro: - Tens um dia só para ti, Aidan... e
poderá ser o último em muito, muito tempo.

Agradeci-lhe, afastei-me e atravessei apressadamente o pátio em direcção à minha cela.


Entrei, fechei a pele de boi que me servia de porta e lancei-me para cima
do catre, onde fiquei a espernear e a rir-me. Fora escolhido. Escolhido! Ia partir para Bizâncio!
Ri-me à gargalhada até os flancos me doerem, as lágrimas me subirem

aos olhos e já não conseguir rir-me mais.

A excitação deixou-me exausto. Como não dormira na noite anterior, fechei os olhos e ajeitei-
me para descansar, mas a minha mente continuava a rodopiar. Pensa, Aidan!

Pensa nos sítios que irás ver, nas pessoas que irás conhecer. Oh, é maravilhoso, não é?

Os meus pensamentos esvoaçavam como aves assustadas e não conseguia dormir embora me
sentisse muito cansado.

Por isso, tentei meditar. Tal como o abade sugerira, tratava-se de uma árdua jornada e tinha
de me preparar tanto espiritualmente como mentalmente. Parecia-me apropriado

trazer à mente todos os perigos e dificuldades que poderíamos ter de encontrar pela frente.
Porém, em vez de perigos, vi vastas cadeias de montanhas envoltas em

nuvens, estranhos mares a cintilarem sob céus exóticos, vi pessoas a encherem as ruas de
grandes cidades e vi os pátios de reluzentes palácios. Em vez de dificuldades,

vi potentados orientais, reis, rainhas, bispos e cortesãos... todos trajados com um esplendor
capaz de rivalizar com a glória do Sol.

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Uma vez que as meditações tinham falhado, virei-me para as orações. Comecei por pedir
perdão pela inconstância dos meus pensamentos. Contudo, muito em breve, descobri-me

a pensar no encontro com o

Imperador, no modo como deveria falar com ele, o que lhe poderia dizer, se deveria ou não
beijar o seu anel ou ajoelhar... bem como em mil outras coisas, muito diferentes

da oração que iniciara. Como não conseguia dormir nem rezar, decidi sair para as colinas. A
solidão e o esforço, pensei, poderiam acalmar o meu espírito irrequieto

e levar-me a um estado mental de maior tranquilidade. Levantei-me imediatamente e


abandonei a minha cela. Atravessei o pátio à pressa e dirigi-me para o portão,

passei pelos alojamentos para os hóspedes e saí. Prossegui pelo caminho ao longo da muralha,
desci ao fosso pouco profundo, subi pelo outro lado e virei para o trilho

da colina. O dia outrora brilhante apagara-se sob um céu mortiço mas o vento continuava
fresco e apreciei as mordidelas amargas do ar frio no rosto enquanto caminhava,
com o bafo a provocar pequenas nuvens de vapor. O trilho era sempre a subir e em breve
atingi as alturas por cima da elevação e comecei a abrir caminho ao longo

do topo da colina.

Andei durante muito tempo, deixando que as passadas me levassem para onde lhes
apetecesse. Era uma alegria sentir o vento frio nas faces enquanto preenchia a alma

com a beleza verde das colinas que tanto amava. Por fim, acabei por chegar à beira da grande
floresta. Não ousando penetrar sozinho naquele escuro domínio, voltei

para trás e refiz o caminho já percorrido... mas a minha mente pairava muito à minha frente,
em trilhos desconhecidos.

Tinha a cabeça cheia de pensamentos sobre paisagens estranhas e costumes exóticos, e


imaginava o que seria pisar uma terra estrangeira, saborear alimentos estrangeiros

e ouvir línguas estrangeiras proferindo palavras que até ali nunca escutara. Porém, mesmo
enquanto os olhos da minha mente me viam a caminhar ousadamente através

de campos pouco familiares, a apresentar-me perante o Papa ou a ajoelhar na frente do


Imperador, continuava a ser-me difícil de acreditar que o homem que estava

a ver nessas imagens era eu próprio.

No fim de contas, tratava-se de um exercício suficientemente agradável, embora frívolo, que


me ocupou até chegar ao meu poleiro favorito:

uma saliência rochosa logo por cima da crista da colina, com vista para o mosteiro, para o
amplo vale e para o rio negro que ficava para lá dele. Sentei-me na turfa

coberta de ervas, com as rochas a protegerem-me do vento, e fi-lo no preciso momento em


que o sino do mosteiro tocava a sexta.

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Apesar de ainda ser meio-dia, o Sol de finais de Inverno já ia muito baixo e banhava o vale com
uma luz suave e enevoada. A abadia continuava como sempre a conhecera

desde os tempos das minhas mais antigas memórias, imutável, tal como o seu oratório e
scriptorium, um local de solidão e de segurança onde nem sequer o tempo, o

Grande Destruidor, se atrevia a entrar.

Chamavam-lhe Cennanus na Ríg, a Fortaleza dos Reis. Em tempos antigos servira como
fortaleza real, uma fortificação no alto de uma elevação e no interior de anéis
protectores feitos de terra e de troncos. Porém, os reis há muito que haviam abandonado
aquela fortaleza a favor de

Tara. Assim, enquanto a antiga sede dos monarcas do Éire se gabava novamente da presença
de um soberano, os fossos e muralhas de Cennanus protegiam agora um mosteiro,

bem como a população de vários povoados.

Chegara à abadia ainda rapaz. Fora desejo do meu pai que viesse a ser sacerdote. Cainnech era
rei e eu o seu segundo filho. Como era considerado auspicioso que o

clã possuísse um sacerdote de sangue nobre, tinham-me enviado para longe, para ser
adoptado não por uma casa nobre mas sim por um mosteiro.

Tinha apenas cinco anos quando havia sido enrolado no pano que a minha mãe tecera para
mim e levado para o mosteiro. O pano seria para fazer a minha capa quando

prestasse os votos sagrados. Usava-a naquele momento, embora fosse cinzenta e as dos
outros monges fossem castanhas, isto porque eu era um príncipe no meu clã. Mesmo

assim, qualquer pretensão que pudesse vir a ter em relação ao trono desfez-se por altura do
décimo aniversário, quando o meu pai e o meu irmão, bem como a maior

parte do clã, foram mortos numa batalha com os dinamarqueses em Dubh Llyn, perto de Atha
Cliath.

Depois das suas mortes, o reino passou para um homem de outra tribo, um primo do meu pai.
Foi no dia em que enterraram o meu pai que também enterrei todas as esperanças

de alguma vez vir a ocupar o meu lugar como sacerdote e conselheiro de um rei. Por outro
lado, também nunca me tornaria num soberano, tal como acontecera com outros

sacerdotes. O mundo dos reis e das preocupações da corte não era para mim.

Ao princípio confesso que me senti amargamente desiludido. No entanto, à medida que o


tempo foi passando, acabei por amar aquela vida do mosteiro onde todas as mãos

se mantinham atarefadas desde a madrugada até ao pôr do Sol, e onde todos se moviam num
ritmo preciso de acordo com o ciclo do trabalho, das orações e dos estudos.

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Dediquei-me à aprendizagem e ao fim de doze Verões atingi o scriptorium, decidido a seguir a


vocação de um escriba embora uma pequena parte de mim ainda ansiasse

por abraçar uma vida com um âmbito muito mais vasto.


Foi por isso que naquela noite gelada de Inverno, quando a notícia sobre o empreendimento
do bispo foi proclamada entre nós pela primeira vez, decidi demonstrar

que era merecedor de me juntar a uma tal peregrinação. E conseguira, Deus fosse louvado! Era
um homem afortunado e ia partir para Bizâncio! Oh, essa ideia, por si

só, deixava-me deliciado. Abracei-me a mim mesmo, oscilando para um lado e para o outro
sobre as ervas e rindo-me da minha boa sorte.

Ao olhar para baixo, do meu poleiro no alto da colina, vi os monges a saírem da capela para
regressarem às suas tarefas. Alguns dirigiam-se para a cozinha, para

prepararem a refeição do meio-dia, outros para o scriptorium, outros para as oficinas e


armazéns, e outros ainda para os campos e para os montes de lenha. Embora

me tivesse sido concedido um dia de ociosidade, era bom ver os meus irmãos entregues ao
trabalho. Depois, virei os olhos para o mundo para lá do mosteiro.

O Blackwater corria no vale para lá do anel de muralhas. No outro lado do rio havia gado a
pastar nas vertentes, com os focinhos junto ao chão gelado e as caudas

a abanarem ao vento. Mais para diante viam-se apenas colinas desertas, cobertas pelo verde-
acinzentado do Inverno, que se prolongavam para leste em ondulações suaves.

A mancha de fumo dispersa pelo vento assinalava o local da povoação mais próxima. Ao longo
do horizonte, logo por baixo das nuvens de chumbo, aparecia a mais leve

das linhas azuis.

Vi essa mancha de cor a alargar-se e a profundar-se até ganhar um brilhante azul de ovo de
pássaro. Na abadia, lá em baixo, a sineta da cozinha anunciou a refeição.

Observei os monges a encaminharem-se para o refeitório mas, contente com a minha própria
companhia, não fiz qualquer tentativa para me juntar a eles. O pão e o caldo

não me excitavam o apetite e preferia banquetear-me com a beleza daquele dia... que o meu
êxito tornara muito mais doce.

Passado algum tempo o Sol perfurou a cobertura de nuvens e a sua luz, com um pálido tom de
mel, espalhou-se pelo alto da colina, tocando-me e aquecendo-me. Recostei-me

contra a rocha fria, fechei os olhos e virei o rosto para o Sol, deixando que o calor me
descongelasse as orelhas e faces... e dormitei.

- Aidan!

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O grito, embora indistinto e vindo de muito longe, despertou-me. Abri os olhos e vi uma
volumosa figura a trepar a colina, chamando-me enquanto caminhava.

Aidan!

Dugal, que era de longe o homem mais alto entre nós, aproximava-se rapidamente e subia a
vertente com grandes passadas. Fora guerreiro antes de chegar a Cennanus

e como tal ainda usava as tatuagens, feitas com tinta de ísatis, que era o símbolo do seu clã:
um salmão a saltar no braço direito, e um disco em espiral no esquerdo.

Depois de tomar os votos, acrescentara um outra tatuagem, uma cruz sobre o coração.

No que se referia a força e destreza, raramente surgia alguém melhor do que ele. Era capaz de
esmagar nozes com punhos, conseguia lançar três facas ao mesmo tempo

e mantê-las a rodopiar no ar por todo o tempo que lhe apetecesse. Uma vez, vira-o levantar
um cavalo. Guerreiro por treino, monge por vocação, era na verdade, e

sob muitos aspectos, um cristão muito invulgar.

Nunca o vira lutar mas as cicatrizes que se entrecruzavam nos braços argumentavam a favor
do seu valor em combate. Contudo, como monge...

bom, digamos apenas que nenhum outro estudioso do latim conseguia atirar uma lança nem
sequer a metade da distância a que Dugal mac Caran a atirava. Entre todos

os irmãos da abadia, era ele o meu melhor amigo.

- Mo anani! - exclamou, quando chegou ao cimo e ficou a pairar sobre mim. - Uma bela subida
para um dia frio! Já me tinha esquecido que esta colina era tão alta.

- Olhou em volta, com um sorriso a espalhar-se-lhe lentamente pelas faces. - Ah, mas tem uma
bela vista!

- Bem-vindo, Dugal. Senta-te e descansa.

Deixou-se cair a meu lado com as costas contra as rochas e ficámos os dois a olhar para o vale.
Nenhum de nós falou durante algum tempo, satisfeito por nos podermos

ensopar no pouco calor que o Sol nos oferecia.

- Não apareceste para almoçar e Ruadh mandou-me à tua procura.

Sabia que te ia encontrar aqui.

- E aqui estou.

Concordou com um aceno e perguntou, apelas um instante depois:

- E que estás aqui a fazer?


- A pensar - repliquei. - Ainda não consigo acreditar que fui escolhido para acompanhar o livro.

- Sim, é uma maravilha! - declarou Dugal, dando-me uma cotovelada. - Irmão, não estás
satisfeito?

25

Sorri-me para ele para lhe mostrar toda a extensão da minha satisfação.

- Na verdade, creio que nunca me senti tão feliz. Achas que é errado?

Como que para responder à minha pergunta, Dugal replicou:

- Trouxe-te uma coisa. - Meteu a mão no cinto e fez aparecer uma pequena bolsa de couro que
endireitou e alisou com a mão. A bolsa era nova e um dos seus lados tinha

um nome cuidadosamente gravado a fogo: Dána. A palavra significava "ousado" e tratava-se


de um nome que me dera anos atrás e que só ele utilizava. Era uma pequena

brincadeira do príncipe dos guerreiros para um dócil escriba.

Agradeci-lhe a dádiva e comentei:

- Deves ter precisado de muito tempo para fazeres isto. Como sabias que iria ser escolhido?

- Nunca o duvidei - respondeu o volumoso monge, com um simples encolher de ombros. - Se


um de nós fosse... tinha a certeza de que serias tu.

- Muito obrigado, Dugal - declarei. - Vou guardá-la sempre comigo.

Acenou de satisfação e virou o rosto para o outro lado.

- Dizem que o céu, em , é de ouro - afirmou, com simplicidade - e que até as estrelas são
diferentes.

- É verdade - confirmei. - Também tenho ouvido dizer que as pessoas têm a pele preta.

- Todas? - interrogou-se. - Ou serão só algumas?

- Algumas, pelo menos - respondi, com uma certa confiança.

- E as mulheres também?

- Suponho que sim.

- Não me parece... - afirmou Dugal, contraindo os lábios - que me agradasse ver uma mulher
de pele preta.

- Nem a mim... - concordei.


Ficámos sentados em silêncio durante algum tempo, pensando na completa estranheza de
céus de ouro e homens de pele preta. Por fim, incapaz de se conter durante mais

tempo, Dugal suspirou:

- Meu Deus, como eu gostaria de ir contigo! Daria tudo para também poder ir!

Ouvi a ansiedade na sua voz e senti a dor da culpa a mordiscar-me o coração. Desde que
soubera da minha boa sorte não pensara uma única vez naquele meu amigo, e

nem sequer tomara em consideração os sentimentos dos que iriam ficar para trás. Na verdade,
não pensara em mais

26

nada, excepto em mim mesmo e na minha própria felicidade. Despertei para a vergonha e
encolhi-me ante a mais recente demonstração do meu tremendo egoísmo.

- Quem me dera que pudesses ir - disse-lhe.

- Ah, que bom que seria! - fez uma pausa, considerando uma tal possibilidade, e soltou novo
suspiro de resignação quando a mesma demonstrou encontrar-se para lá

da sua capacidade de imaginação. Ah, minha alma...

O gado, do outro lado do rio, começou a mugir enquanto se deslocava lentamente para o rio
para ir beber. O pálido Sol descia cada vez mais, tingindo a parte inferior

das nuvens com um tom semelhante ao da manteiga. Reparei que o vento abrandara e
mudara de direcção, arrastando consigo o cheiro do fumo da cozinha.

- Mo croi... - murmurou o enorme monge algum tempo depois.

- Olha para nós dois... Que achas que irá ser de nós?

Eu vou partir e tu ficas, pensei... e foi nesse mesmo momento que compreendi pela primeira
vez que iria deixar para trás todas as coisas familiares que já conhecera.

Iria e passar-se-iam meses - talvez até anos

- antes de poder voltar a abraçar qualquer um dos meus amigos e irmãos.

O tecido bem apertado da minha vida iria rasgar-se de maneiras que ainda nem sequer era
capaz de conceber. Não lho disse, é claro... Como poderia fazê-lo? Em vez

disso, limitei-me a responder:

- Quem o poderá saber?


Ficou calado durante um bocado mas acabou por perguntar:

- Quando voltares, trazes-me um tesouro, Aidan?

- Assim farei - prometi, satisfeito por ter qualquer coisa para lhe oferecer como prémio de
consolação. Desloquei a cabeça para o observar. Continuava a olhar para

o outro lado do vale mas tinha os olhos enevoados de lágrimas. - Tudo o que quiseres -
acrescentei.

- Ouvi dizer que as facas de Bizâncio são as melhores do mundo...

Ainda melhores do que as fabricadas pelos homens de Saex.

- Queres uma faca?

- Ah, sim, claro que quero!

- Então, vou trazer-te a melhor faca que conseguir encontrar em toda Bizâncio - prometi. - E
trago-te também uma lança.

Acenou e fitou o outro lado do vale sob a luz que se apagava rapidamente.

- Tenho de ir... - declarou, passando rapidamente uma das mãos pelos olhos - ou o Ruadh
ainda começa a perguntar a si mesmo se me

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- terá acontecido alguma coisa. Alguns de nós, pelo menos, não tiveram autorização para
ficarem sentados todo o dia, a pensar.

- Vou contigo - declarei. Endireitei-me e Dugal estendeu-me uma das suas enormes mãos.
Aceitei-a e puxou-me para cima com um único puxão. Ficámos a olhar um para

o outro, sem falar.

Por fim, Dugal virou-se e olhou para o outro lado do vale pela última vez.

- Isto aqui em cima é agradável.

- Eu gosto. - Aspirei o ar profundamente, para o interior dos pulmões, e voltei a olhar em volta.
O Sol desaparecia rapidamente e as colinas mais distantes brilhavam

com um suave tom verde, com tonalidades azuis de gelo. - Sim, vou ter saudades deste sítio...

- Contudo, pensa em todos os novos lugares que irás ver, Dána.

Daquela vez, Dugal não olhou para mim. - Em breve esquecerás tudo...
tudo isto... - A voz faltou-lhe e calou-se.

Um corvo que voava por cima das nossas cabeças fez estalar o ar gelado com o seu apelo
solitário e pensei que o coração se me partia.

- Nem imaginas como gostaria de ir contigo... - murmurou Dugal.

- Também eu, meu amigo, também eu.

28

TRÊS

Dugal e eu regressámos à abadia e à rotina diária. Não obstante o abade me ter liberto das
minhas obrigações para aquele dia, pensei que seria melhor retomá-las

ou, na verdade, até aumentá-las se tal fosse possível, pois isso seria uma boa maneira de me
preparar para os rigores da jornada. Dugal dirigiu-se para a cervejaria

e eu segui para o scriptorium com a intenção de continuar o meu trabalho.

O Sol mergulhava por cima dos topos das colinas baixas, envolvendo o pátio numa profunda
luz amarelada com sombras azuladas. Cheguei à porta do scriptorium quando

o sino tocava a nona. Fiz uma pausa e desviei- me para um lado. Um instante depois, os meus
colegas escribas começaram a sair para o pátio. Surgiram outros, vindos

das mais variadas tarefas, conversando em voz alta enquanto trepavam a vertente em
direcção à capela.

- Regressaste tão cedo, Aidan?

Virei-me e vi Cellach, o Mestre da Biblioteca, que me observava com a cabeça inclinada para
um lado como se meditasse numa qualquer complexidade filosófica.

- Ah, irmão Cellach, tenho um trabalho que gostaria de acabar.

- Com certeza - concordou Cellach, afastando-se com as mãos metidas nas mangas.

Quando todos partiram, entrei no scriptorium e dirigi-me ao meu lugar.

O manuscrito incompleto continuava pousado na prancheta. Peguei na pena e fiquei a


contemplar a última linha que escrevera. As letras negras e nítidas, tão graciosas

na sua simplicidade, pareciam-me perfeitamente concebidas para carregarem o peso da sua


mensagem inspirada. Surgiu-me na mente um fragmento de verso que já escrevera
numerosas vezes: "O Céu e a Terra perecerão, mas a minha Palavra nunca morrerá..."

Palavras sobre as Palavras de Deus, pensei, eu sou o vellum e tu és o

Escriba. Escreve à Tua vontade, Senhor, para que todos os que me vejam possam contemplar a
tua graça e majestade!

29

Pus a pena de lado, deixei-me ficar sentado na sala vazia, olhando e escutando, recordando
tudo o que aprendera e praticara naquele lugar.

Observei as mesas quase em cima umas das outras, cada uma com o seu banco, todas
amaciadas pelo uso, com a madeira de carvalho polida por anos de utilização constante.

Naquela sala tudo era bem ordenado e preciso. As folhas de pergaminho estavam muito bem
arrumadas, planas e quadradas, as penas eram colocadas no canto superior

direito de cada mesa e os tinteiros erguiam-se do chão sujo ao lado de cada banco.

A luz descia, em ângulo, através das estreitas fendas de arejamento abertas lá em cima, no
alto das quatro paredes. O vento moribundo zumbia quando circulava pelo

scriptorium, procurando uma passagem entre as fendas dos barrotes, mas tinham sido muitas
as mãos, ao longo de inúmeros anos, que haviam enfiado tufos de lã em bruto

nessas passagens, frustrando todas as suas tentativas, excepto as das tempestades mais
violentas.

Fechei os olhos e respirei aquele ar. Cheirava à turfa do pequeno fogo que lançava clarões
vermelhos na lareira, no centro da sala. O pungente fumo branco saía pela

chaminé aberta no telhado de colmo.

Fora minha obrigação, quando chegara ali pela primeira vez, carregar a turfa, proteger aqueles
carvões e manter o fogo sempre a arder durante os gelados dias de

Inverno. Sentava-me num canto, em cima da minha pilha de turfa, e observava os rostos dos
escribas entretidos com o seu trabalho, de olhos vivos e muito atentos

enquanto copiavam Profetas, Salmos e Evangelhos, com as suas penas a rasparem


constantemente nas bem secas folhas de pergaminho.

Naquele momento via o scriptorium tal como o vira na altura: não como uma sala mas sim
como uma fortaleza em si mesma, auto-suficiente, uma rocha a enfrentar os

ventos do caos que uivavam para lá das muralhas do mosteiro. Ali, quem reinava era a ordem
e a harmonia.
Depois das orações, os meus companheiros escribas regressaram ao trabalho e deixaram as
conversas à porta. No scriptorium, as vozes nunca se erguiam acima do murmúrio,

e mesmo assim só raramente, não fosse o seu som perturbar e distrair. Um lapso momentâneo
na concentração podia significar a ruína de uma página e de dias inteiros

de um trabalho meticuloso.

Voltei a pegar na pena, tratei de completar a passagem que tinha na minha frente e trabalhei,
com grande satisfação, até às vésperas. Por essa altura, guardámos

o nosso trabalho para a noite, abandonámos o scripton um e fomos juntar-nos aos nossos
irmãos na capela. Depois das orações

30

reunimo-nos à mesa para partirmos o pão para a refeição nocturna, um aguado guisado de
lentilhas castanhas e de carne de porco salgada. O irmão

Ferbach leu do livro dos Salmos enquanto comíamos, Ruadh leu parte das

Regras de Colum Cille e a seguir mandou-nos embora para as nossas celas, para estudarmos.

Dediquei-me à leitura dos Hinos dos Três Jovens a que me apliquei com toda a atenção, e a
minha diligência parece ter sido recompensada pois pareceu-me que tinha

acabado de acender as velas quando o sino tocou as completas. Pus o livro de lado, com
cuidado, saí da cela e juntei-me aos irmãos que se encaminhavam para a capela.

Procurei Dugal entre eles mas a noite estava escura e não o vi. Também não o vi depois das
orações.

Foram proferidas orações pela viagem que se aproximava, o que me colocou na disposição
apropriada para fazer uma petição. Por isso, depois do serviço, fui à procura

de Ruadh, o nosso secnab, e pedi-lhe para me encarregar da vigília nocturna. Como segundo
em relação ao abade

Fraoch, era da responsabilidade de Ruadh nomear os leitores e vigilantes de cada dia.

Atravessei o pátio e dirigi-me para a pequena cabana, ligeiramente afastada dos aposentos do
abade. Aí chegado, fiz uma pausa à entrada da cela, puxei a pele de

boi para um lado e bati na porta. Um instante depois,

Ruadh mandou-me entrar. Empurrei a estreita porta e entrei numa divisão brilhantemente
iluminada pelas velas. O ar cheirava a cera de abelhas e a mel. Ruadh estava
sentado numa cadeira, com os dedos dos pés nus quase a tocarem no fogo de turfa que ardia
na lareira. Aproximei-me e vi-o pôr de lado o pergaminho que estava a ler,

para logo se levantar.

- Senta-te junto de mim, Aidan - disse, apontando para o banquinho com três pés. - Não te
farei perder muito do teu tempo de descanso.

Ruadh era, como já disse, o secnab da nossa comunidade, e estava logo a seguir ao abade
Fraoch na hierarquia monástica. Contudo, era também o meu confessor e guia,

o meu anamcara, o amigo da alma, responsável pela minha saúde espiritual e progressos.

Puxei o banco para a beira do fogo, estendi as mãos para as chamas e fiquei à espera que ele
falasse. A sala, como quase todas as outras, era uma cela de pedra nua

com um único buraco de ventilação numa das paredes e um catre de palha no chão. A bulga de
Ruadh, a sua sacola para livros, em couro, estava pendurada pela alça

numa cavilha por cima do catre, e tinha uma bacia com água aos pés da cama. As velas ardiam

31

em árvores-de-velas em ferro, mas também havia outras colocadas em pedras, no chão. O


único adorno da pequena divisão era uma prateleira de pedra com um pequeno

crucifixo de madeira.

Muitas haviam sido as vezes em que nos tínhamos sentado naquela cabana simples,
mergulhados numa conversa sobre uma questão qualquer de teologia ou a desembaraçar

uma das numerosas meadas em que a minha alma irrequieta costumava enredar-se.
Compreendi que aquela podia ser a última vez que me sentava com o meu amigo da alma.

Fui instantaneamente dominado por uma profunda melancolia e senti uma nova guinada de
dor ante a perspectiva da separação. Oh, e ainda teria de passar por muitas

outras separações...

- Muito bem, Aidan... - disse Ruadh passado um instante, levantando os olhos do fogo -
conseguiste o que o teu coração tanto desejava.

Qual é a sensação?

- Oh, estou deliciado, é claro... - respondi. Contudo, a minha súbita falta de entusiasmo parecia
querer dizer o contrário.
- Ah, sim? - interrogou-se Ruadh. - Pois olha, Aidan, parece-me que exprimes a tua alegria de
um modo muito amargo.

- Não, estou muito satisfeito - insisti. - Tal como muito bem sabe, não pensei noutra coisa
desde que ouvi falar no plano do bispo.

- Porém, agora que conseguiste o que querias, começas a ver as outras facetas... - sugeriu.

- Já tive tempo suficiente para analisar o assunto em pormenor retorqui - e conclui que a
decisão do abade me deixou tão feliz quanto eu esperava.

- Imaginavas que essa decisão te traria a felicidade? Era por isso que a desejavas tanto?

- Não, Confessor - protestei rapidamente. - Acontece que estou a começar a compreender


tudo o que terei de deixar para trás quando partir.

- Tal como seria de esperar... - afirmou, com um aceno de compreensão. - Na verdade, ouvi
dizer que para irmos a qualquer lado temos de abandonar o lugar onde estamos

para chegarmos a outro. - Fez um trejeito com os lábios e afagou o queixo. - Apesar de não ser
uma autoridade nessa matéria, estou convicto de que deve ser verdade...

Aquela pequena brincadeira fez com que o meu coração ficasse um pouco mais leve.

- Como sempre, a sua sabedoria é incontestável, Confessor.

- Recorda-te de uma coisa, Aidan... - declarou, inclinando-se ligeiramente para a frente - nunca
duvides, por muita que seja a escuridão,

32

daquilo em que acreditaste à luz do dia. E também disto: se o peregrino não levar consigo o
que procura, não irá encontrá-lo quando lá chegar.

- Não me esquecerei.

- Agora... - começou, voltando a recostar-se na cadeira - que preparativos irás fazer?

A ideia de preparativos específicos ainda nem sequer me passara pela cabeça.

- Penso... - respondi, lentamente - que um jejum poderá ser apropriado. Creio que um trédinus
me preparará para...

- Três dias de jejum são altamente recomendáveis... - concordou

Ruadh, interrompendo-me rapidamente - mas como estamos na Páscoa, por que não outra
disciplina qualquer em que não seja necessário adicionar um jejum ao jejum? Talvez
um jejum espiritual, se estiveres de acordo...

- Sim...?

- Faz as pazes com os que irás deixar ficar para trás - prosseguiu.

- Se alguém te magoou, ou se tens ressentimentos contra outra pessoa qualquer... então


chegou o momento de esclarecer as coisas.

Abri a boca para protestar e afirmar que não tinha ressentimentos, mas Ruadh não mo
permitiu.

- Ouve, meu filho, pois não se trata de uma coisa que possa ser posta de lado com ligeireza.
Gostaria que encarasses essa possibilidade como sendo merecedora de

toda a tua atenção.

- Se insiste, Confessor... - repliquei, algo confuso com a sua veemência. - Mesmo assim, acho
que o jejum podia ser muito benéfico... e podia pôr em prática as duas

coisas.

- Aidan, não estás a pensar... - retorquiu Ruadh. - Pensa! Há um tempo para jejuar e um tempo
para festejar. A jornada que irás fazer é muito árdua. As dificuldades

e privações não fazem parte da lista dos piores perigos que irás ter de enfrentar.

- Sem dúvida, Secnab, estou bem consciente dos perigos...

- Achas que sim? - inquiriu. - Pergunto a mim mesmo se estarás... - Não respondi e Ruadh
inclinou-se para mim, por cima do fogo.

- Chegou o momento de ganhares forças para a jornada, filho. Come bem, bebe bem e
descansa enquanto podes. Guarda o teu vigor para o dia em que irás precisar dele.

- Se acha que é o melhor, Confessor... - respondi - então é isso o que farei.

Ruadh prosseguiu como se não me tivesse ouvido.

33

- Em breve deixarás este lugar, talvez para sempre. É preciso dizê-lo. Portanto, deves partir
com um coração livre e à vontade. Quando partires, parte com a paz

na alma para que possas enfrentar os perigos que terás de enfrentar sem que a coragem e
firmeza te falhem, seguro na certeza de não sentires inimizade para com nenhum

homem, e de que nenhum homem sente inimizade para contigo.


- Como queira, Confessor - repliquei.

- Ah! Não ouviste uma única palavra do que te disse! Não o faças por mim, filho... porque não
sou eu quem vai partir para Bizâncio. Olhou-me com uma leve impaciência.

- Bom, pensa no que acabei de te dizer. - Voltou a pegar no pergaminho, num sinal de que a
nossa conversa chegara ao fim.

- Pode confiar que farei o que me aconselha - afirmei, pondo-me de pé.

- A paz seja contigo, Aidan.

- Que Deus o proteja esta noite, Secnab - respondi, avançando para a porta. Subitamente
dominado pela fadiga, bocejei e decidi que, afinal de contas, não lhe iria

pedir o turno de vigília.

Virando a cabeça para olhar para mim, Ruadh acrescentou:

- Descansa enquanto podes, Aidan, pois está a chegar a noite em que nenhum homem poderá
descansar.

Avancei para a escuridão e levantei os olhos para um céu que brilhava com a sua poeira de
estrelas. O vento morrera e o mundo jazia no silêncio e na tranquilidade.

Numa noite como aquela, quaisquer conversas sobre dificuldades e privações eram sem
dúvida exageradas. Regressei à minha cela e deitei-me no catre, para dormir.

34

QUATRO

O dia seguinte era Dia da Paixão, em que não se trabalha, excepto o estritamente necessário
para a manutenção da abadia e dos seus habitantes. A maioria de nós renovou

a tonsura, para estarmos bem barbeados para o Sabat, ou Dia da Ressurreição.

A tonsura dos Célé Dé é característica. A frente da cabeça é rapada de orelha a orelha,


deixando apenas uma fina linha que forma um círculo, denominado corona, símbolo

da coroa que esperamos vir um dia a receber das mãos de Nosso Senhor. Tem de ser refeita de
tempos a tempos e a renovação da tonsura é um serviço que prestamos uns

aos outros, pelo que todos nós somos bons barbeiros.


Como o dia estava quente, Dugal e eu fizemos turnos e sentámo-nos no pátio, num banco de
mungir as vacas, enquanto o outro executava o ritual da navalha. Como os

nossos irmãos se encontravam ocupados na mesma actividade, enchemos o pátio com o som
das nossas conversas agradáveis, embora fúteis. Estava precisamente a secar

a minha cabeça recém-rapada com um pano quando Cellach me chamou.

- Estão à tua procura... - disse, e ouvi o tom de resignação fatigada da sua voz.

- Perdoe-me, mestre, mas pensei que tínhamos terminado...

- Também eu - retorquiu, com um suspiro - mas não haverá paz até se sentirem satisfeitos. Vai
ter com eles, filho. Vê o que podes fazer.

Pois bem, a nossa parte do livro já se encontrava completa. Contudo,

Libir e Brocmal, ainda a trabalharem nas suas folhas há muito terminadas, insistiam numa
última revisão de todo o trabalho. Tinham insistido junto do Mestre Cellach

com tanto zelo que este acabara por ceder só para deixar de os ouvir, e eu, agora, era
obrigado a dar uma ajuda.

Quando cheguei ao scriptorium descobri que os dois escribas tinham disposto cuidadosamente
todas as folhas, colocando duas ou três em cada mesa vazia. Depois, começando

pelo princípio, foram-se

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deslocando de mesa para mesa, inspeccionado as folhas uma a uma, com as cabeças baixas, os
narizes quase a tocarem nos pergaminhos e os olhos atentos, investigando

os textos e as imagens, em busca de falhas invisíveis. Segui-os, de mãos atrás das costas,
olhando para aquele magnífico trabalho e abafando pequenas exclamações

de admiração. Era na verdade um livro abençoado!

Contudo, ainda no princípio da sua inspecção, os dois exigentes escribas descobriram um


defeito.

- Aidan! - gritou Brocmal, virando-se para mim com um ar tão feroz que a minha primeira
impressão foi a de que o defeito, fosse ele qual fosse, tinha sido meu. -

Precisamos de tinta!

- Podemos salvar esta folha... - entoou Libir com solenidade, com o rosto quase colado à mesa.
- Uma linha ou duas... Vês? Aqui... e aqui...
- Cristo seja louvado - respondeu Brocmal, com um alívio exagerado, dobrando-se sobre a
folha suspeita. - Vou preparar uma pena. Virou-se, viu que estava a olhá-los

e gritou: - Aidan, o que é isto? O bispo vai chegar de um momento para o outro. Precisamos de
tinta! Porque estás aí parado como um poste?

- Não me disseram de que cor é a tinta.

- Vermelha, é claro! - atirou-me.

- E azul - acrescentou Libir.

- Azul e vermelha - ordenou Brocmal. - Despacha-te, molengão!

Foi assim que ficámos a trabalhar durante a maior parte daquele dia, porque os dois homens,
depois de corrigirem o primeiro defeito logo descobriram outros a necessitarem

de atenção imediata, embora eu não visse nenhum dos supostos erros que discerniam com
tanta satisfação. Não tomá- mos parte na rotina do dia e nem sequer fomos almoçar

para podermos continuar a corrigir os defeitos.

Tinha acabado de soar a nona e encontrava-me na mesa de mistura, despejando chumbo


vermelho e ocre num almofariz, quando o sino soou.

Pus as ferramentas de lado, enfiei rapidamente o hábito, agarrei na capa e apressei-me para o
scriptorium.

- O bispo chegou! - anunciou Brocmal, embora Libir e eu já corrêssemos para a porta. Saímos
para o pátio e juntámo-nos à multidão que avançava para o portão.

Dispusemo-nos em filas, à direita e à esquerda do portão, e começámos a entoar um hino de


boas-vindas aos nossos hóspedes. O bispo

Cadoc conduzia o seu grupo e avançava com passadas firmes não obstante ser um homem
muito velho. Todavia, os seus passos eram fortes e os olhos

36

eram tão aguçados como os da águia no topo da cambutta que empunhava. Esse símbolo
sagrado, fabricado em ouro amarelo e instalado no alto do bordão, brilhava com

uma luz santificada sob o Sol do meio-dia e expulsava as sombras à medida que avançava.

Trazia muitos monges com ele, num total de trinta. Observei cada um deles à medida que
atravessavam o portão e perguntei a mim mesmo quais seriam os Escolhidos.
Também me interroguei sobre quem transportaria o livro, isto porque, embora visse mais do
que uma bulga suspensa dos ombros pela respectiva alça, não descobri nada

suficientemente grandioso para o Livro de Colum Cille.

O abade Fraoch recebeu os visitantes no interior do portão e deu as boas-vindas ao bispo com
um beijo. Cumprimentou toda a companhia com calor, dizendo:

- Saudações, irmãos! Em nome de Jesus, Nosso Abençoado Senhor e Salvador, damos-vos as


boas-vindas a Cenannus na Ríg. Que Deus vos conceda paz e alegria enquanto

ficarem connosco. Descansem e fiquem à vontade enquanto vos dispensamos todos os


confortos que se encontram ao nosso dispor.

- É muito amável, irmão Fraoch - replicou o bispo - mas, tal como vós, somos trabalhadores
dos campos do Senhor, pelo que não esperamos receber nada daquilo que

negais a vós próprios. - Lançou um olhar em volta e abriu os braços num gesto amplo: - A paz
do Senhor seja convosco, meus queridos filhos - proclamou, numa voz

bonita e forte.

- E também com o vosso espírito! - respondemos, em coro.

- São muitos os que me acompanham, mas eram muitos mais os que também me teriam
acompanhado com todo o gosto - continuou o bispo. - Trago-vos saudações dos vossos

irmãos de Hy e Lindisfarne. Fez uma pausa e sorriu de prazer. - Também vos trago um tesouro.

O bispo Cadoc passou o bordão do cargo ao seu secnab e fez sinal a um dos monges para
avançar. Quando este se aproximou, passou a alça da bulga por cima da cabeça

e entregou-a ao seu superior. Caloc recebeu-a, retirou-lhe a cavilha que servia de fecho, abriu
a pala e puxou pelo livro no meio dos gritos de espanto e maravilha

de todos os que o rodeavam.

Oh, era magnífico! Mesmo vendo-o de longe, achei-o uma maravilha porque a cumtach não
era de couro, nem sequer do calfe tingido utilizado nalguns livros muito especiais.

A capa do Livro de Colum Cille era feita com uma folha de prata gravada com figuras
fantásticas: espirais, chaves e rosetas. Em cada canto da capa havia um painel

com um desenho

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nosso e no centro de cada um deles fora montada uma pedra preciosa diferente... e os painéis
rodeavam uma cruz feita em nós, incrustada com rubis.

Sob a luz do Sol, a cumtach parecia uma coisa viva, dançante, deslumbrante, movendo-se ao
ritmo da criação do rei da Glória.

O abade Fraoch tomou o livro nas mãos, levou-o aos lábios e beijou-o. A seguir levantou-o
acima da cabeça e virou-o para um lado e para o outro para que todos o

pudessem ver de relance. Depois de dois anos de preparativos, o Livro de Colum Cille era um
tesouro raro e muito belo, uma oferta digna de um imperador. O meu coração

inchou de orgulho ao vê-lo.

Voltando a colocar o livro no seu humilde saco, o abade e o bispo caminharam de braço dado e
subiram a vertente até ao oratório, onde mantiveram uma conversa até

às vésperas. Entre nós, eram muitos os que tinham vivido em Hy ou em Lindisfarne, pelo que
mantinham relações de amizade com os irmãos nossos visitantes, alguns

dos quais até eram seus familiares. Atiraram-se aos pescoços uns dos outros ou agarraram nos
braços dos outros, numa saudação de amizade, e toda a gente começou

a falar ao mesmo tempo. Passado algum tempo, o irmão Paulinus, o nosso porteiro, gritou aos
visitantes que o acompanhassem e conduziu-os aos alojamentos para os

hóspedes.

Brocmal, Libir e eu regressámos ao scriptorium e ficámos a trabalhar até à hora do jantar,


altura em que os dois escribas, incapazes de descobrir um único rabisco

a corrigir, anunciaram que o trabalho estava finalmente completo.

- Está pronto! - declarou Libir. - Fizemos a nossa parte. Que

Jesus tenha piedade de nós.

- E Deus queira que o nosso trabalho mereça a aprovação do bispo. - Finalmente, Brocmal
permitia-se um sorriso de satisfação enquanto o seu olhar passava por cima

das folhas prontas, dispostas em cima das mesas. - Na verdade, merece a minha aprovação.

- Somos verdadeiros bardos do pergaminho - disse-lhes. - Embora a minha contribuição fosse


pequena, orgulho-me de vos ter prestado este serviço.

Os dois monges olharam-me com curiosidade e cheguei a pensar que iriam fazer uma
referência à minha contribuição, agora que manifestavam a sua alegria por o trabalho

ter chegado ao fim. Contudo, viraram-me as costas sem nada dizerem. A seguir juntámo-nos
aos nossos irmãos para darmos início às celebrações da Páscoa, mas não sem

antes guardarmos as preciosas folhas em local seguro.


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O bispo Cadoc, um hóspede que muito nos honrava, leu o Beati e rezou. Escutei com a maior
das atenções, tentando determinar que espécie de homem poderia ele ser.

Já o vira anteriormente, uma única vez, mas na altura era pouco mais do que um garoto e
pouco recordava dessa ocasião.

Cadoc, tal como o meu velho professor Cybi, era um britânico.

Dizia-se que, quando rapaz, estudara em Bangor-ys-Coed sob a direcção do famoso Elffod, e
que quando jovem viajara por toda a Gália, pregando e ensinando, antes

de regressar à Bretanha para dirigir a comunidade da

Cândida Casa, onde fora frequente entrar em discussão com os mais sábios dos Eruigena. O
excelente Sedulius, ou Saidhuil, como nós o conhecíamos, escrevera outrora

um poema comemorando um belo debate entre os dois.

Observei o pequeno bispo e pareceu-me apropriado que homens ilustres procurassem


celebrar a sua amizade. Era de baixa estatura e ia bem avançado nos anos, mas não

deixava de possuir a graça e a dignidade de um rei e exsudava a saúde de um homem ainda em


plena juventude.

Se, não obstante o seu vigor, houvesse alguém que ficasse com dúvidas,

Cadoc só necessitava de falar para que todas as incertezas se desvanecessem. A sua voz era
um instrumento poderoso, rico, cheio e sonoro, pronto para entoar um cântico

a qualquer momento. Segundo me consta, era uma característica que partilhava com os seus
compatriotas, uma vez que uma das coisas que os verdadeiros Cymry mais gostam

é de ouvir a sua própria voz a erguer-se num cântico. Sabem, eu nunca tinha ouvido uma
trompa, mas não me custaria a acreditar se alguém me dissesse que o seu som

era semelhante ao do Bispo de Hy a entoar um hino.

Depois da refeição, Bromal, Libir e eu fomos apresentados a Cadoc.

O abade chamou-nos ao seu alojamento, onde ele e o bispo se encontravam sentados com os
respectivos secnabs, saboreando uma taça do hidromel da Páscoa. Agora que

as festividades haviam começado já esses luxos eram permitidos.

- Bem-vindos, irmãos. Entrem e sentem-se. - O abade indicou-nos lugares no chão, entre as


suas cadeiras. Já tinham sido servidas três taças adicionais, numa antecipação
da nossa chegada. O abade distribuiu-as e disse, numa voz que era pouco mais do que um fino
sussurro:

- Falei com o bispo Cadoc a respeito da vossa contribuição para o livro e está desejoso de saber
o que conseguiram realizar.

O bispo pediu-nos para descrever-mos o nosso trabalho. Brocmal deu início a um longo relato
sobre o empreendimento e sobre o modo como os trabalhos tinham sido divididos

entre os vários membros do scriptorium.

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Libir acrescentou observações de tempos a tempos e o bispo Cadoc fez muitas perguntas aos
dois. Escutei, aguardando a minha vez de falar, mas esta nunca chegou.

O facto de começar a sentir-me menosprezado deveu-se sem dúvida ao meu espírito


orgulhoso, mas não fui o único. O Mestre Cellach, sob cuja esforçada e habilidosa

orientação tínhamos levado a fim aquele grande trabalho, nunca foi mencionado, nem
qualquer dos outros escribas, que eram muitos. Quem ouvisse o relato de Brocmal

e Libir ficava a pensar que tinham produzido todo o livro apenas entre eles. A minha própria
mão copiara nada menos do que trinta e oito passagens separadas, que

haviam enchido mais de vinte páginas... e eu não passara de um dos muitos escribas a
trabalharem em três scriptoria, em três ilhas diferentes. Na verdade, os homens

que criaram as vacas que tinham produzido os vitelos que haviam dado as suas peles para o
fabrico dos pergaminhos não eram certamente menos importantes, pelo menos

à sua maneira, do que os escribas que tinham decorado essas peles com uma arte tão
esplêndida. Apesar disso, reflecti, nenhum pastor fora escolhido para ir a Bizâncio.

Bom, tratava-se de uma pequena coisa, talvez apenas de um lapso, mas não podia deixar de
sentir que o mesmo continha em si a ferroada de um insulto. O orgulho, suponho,

acabará por ser a minha ruína. Contudo, Brocmal e Libir não deixavam de recolher as
recompensas à custa dos esforços de todos os outros, que nem sequer viriam a

ser reconhecidos. Decidi-me a remediar aquela injustiça, se tal fosse possível. Contudo, teria
de ganhar tempo e esperar por uma boa oportunidade.

Por isso, continuei sentado no chão aos pés do abade Fraoch, beberricando o doce hidromel e
ouvindo Brocmal descrever o livro que eu conhecia tão bem - mas que agora
nem sequer parecia conhecer - e entretive- me a pensar na jornada que iríamos ter de
enfrentar, perguntando a mim mesmo como seriam os outros peregrini. Se fossem

como Brocmal e Libir, conclui, então a campanha iria ser muito árdua.

Passado algum tempo, Brocmal terminou o seu relato e o bispo virou-se para o abade.

- Escolheste bem, Fraoch - declarou, sorrindo como um homem que conhece um segredo
valioso. - Estes homens irão servir-nos admiravelmente no nosso empreendimento.

A utilização daquela estranha palavra despertou-me a atenção. Estaria a referir-se à jornada...


ou teria outra iniciativa em mente? O astuto uso da expressão sugeria

que se referia a algo mais do que a simples entrega do livro ao Imperador.

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Contudo, o abade limitou-se a devolver-lhe o sorriso.

- Quando a isso, Cadoc, não tenho a mínima dúvida - afirmou, levantando a taça. - Bebo ao
êxito da nossa missão, irmãos. Que Deus vos abençoe e que nunca deixe de

vos proteger.

- Amém! - replicou Cadoc, e todos nós levantámos as nossas taças com o abade.

O sino tocou as completas naquele momento e fomos mandados embora para as nossas
orações.

- Voltaremos a conversar - garantiu-nos o bispo. Demos as boas- noites aos dois e saímos dos
alojamentos do abade, dirigindo-nos para a capela. Brocmal e Libir,

muito bem-dispostos, cantaram durante todo o caminho até ao alto da vertente. Segui-os, de
olhos baixos, sentindo-me vexado por aqueles dois e aborrecido comigo

mesmo por me sentir assim.

Entrei na capela e encontrei um lugar junto à parede norte, tão longe quanto possível de
Brocmal e Libir. Dugal apareceu e instalou-se a meu lado, dando-me uma cotovelada

para me assinalar que se encontrava ali.

Levantei a cabeça mas não falei, perdido como estava nos meus próprios pensamentos.
Porque serei sempre assim? interroguei-me. Que me interessa que aqueles dois

recebam a honra de serem louvados pelo bispo? No fim de contas, mereceram-na. Não
roubaram o livro nem estão a reclamar mais do que merecem. Que se passa comigo?
As orações terminaram, fui para a minha cela e mergulhei num sono descontente. Na manhã
seguinte, depois das orações da manhã, quebrámos o jejum na companhia dos

nossos hóspedes. Como as tarefas habituais haviam sido suspensas para a celebração da
Páscoa, juntámo-nos todos no pátio para cantar. O dia começara frio e brilhante,

com um céu cheio de nuvens brancas. As nuvens foram-se juntando e fechando enquanto
cantávamos, até a chuva começar a cair, o que acabou por nos persuadir a voltarmos

para o salão onde nos sentámos em grupos, para conversarmos com os nossos hóspedes por
cima dos tampos das mesas.

Ao contrário da maior parte dos irmãos de Cenannus, eu não conhecia ninguém de Hy ou de


Lindisfarne. Mesmo assim, quando Dugal e eu circulávamos por entre as mesas,

um dos estranhos chamou-me:

- Aidan mac Cainnech!

Virei-me e avistei um homem baixo, de rosto quadrado, com uns cabelos castanhos eriçados e
olhos castanhos-escuros, sentado com outros dois estranhos. Era evidente

o interesse com que me observavam.

- Vai ter com eles - incitou-me Dugal. - Querem conversar contigo. - Deixou-me e dirigiu-se a
outra mesa.

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- As minhas saudações - disse, quando me aproximei.

- Senta-te connosco - pediu o visitante. - Gostaríamos de falar contigo, se estiveres de acordo.

- Estou ao vosso serviço, irmãos - declarei, ocupando o meu lugar à mesa. - Teria muito prazer
em dizer-vos o meu nome, mas parece-me que já o ouviram de alguém.

- Não nos consideres como demasiado atrevidos - pediu um dos outros. - Somos Cymry... e a
curiosidade, entre nós, é uma praga. - Os dois que o acompanharam riram-se.

Tratava-se, indiscutivelmente, de uma alegre praga. Gostei deles à primeira vista.

- Sou Brynach - declarou o estranho que me chamara. - Estes são os meus irmãos. Ou antes...
os meus anamcari. - Levantou a mão para os dois homens que estavam com

ele. - Este junco, comprido e magro, é o

Gwilym. - Apontou um homem alto e delgado, com uma cabeleira loura já rala. - E este é o
Morien - acrescentou, apresentando-me um jovem com um espesso cabelo preto
encaracolado e olhos azuis. - Contudo, nunca te responderá se o tratares por esse nome,
porque toda a gente o conhece por Ddewi.

- Irmãos - disse - invejando os modos fáceis que tinham uns com os outros - fico muito
satisfeito por vos conhecer. Rezo para que a

Páscoa que vão passar connosco seja como carne e bebida para a vossa alma. - Fiz uma pausa,
pressentindo que a pergunta era desajeitada ainda antes de a fazer, mas

sem conseguir conter-me. - Por favor não pensem mal de mim, mas nunca visitei Hy ou
Lindisfarne e gostaria de saber qual desses dois belos lugares é a vossa casa.

- Nenhum deles... - replicou Gwilym, muito satisfeito. - A nossa casa é em Ty Gwyn, mas
ultimamente passámos alguns anos em Menevia e Bangor-ys-Coed.

- Ah, sim? - respondi. - Não sabia que o livro também estava a ser preparado nesses sítios.

- E não estava - retorquiu Brynach. - Quando soubemos do livro já era demasiado tarde para
podermos dar alguma assistência material a essa parte do empreendimento.

Mais uma vez, os meus sentidos captaram a sugestão de que havia uma segunda finalidade
para a jornada, uma finalidade que, aparentemente, era conhecida de muitos.

- Parecem bem informados sobre esses assuntos - sugeri. - Terei razão para pensar que se
encontram entre os escolhidos para o grupo que irá fazer a viagem?

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- Sim, é verdade, fomos escolhidos - afirmou Brynach.

- Mas... vocês não são escribas... - gaguejei, surpreendido. - Perdoem-me, mas esta minha
afirmação não soou como eu pretendia. Não a tomem como uma falta de respeito.

- Fica à vontade, irmão - acalmou-me Gwylym. - A verdade é uma delícia constante para os que
a amam, e uma tão grande beleza não tem poder para ofender.

- Sim, é verdade... - confidenciou Brynach - que não somos escribas. No entanto, o Grande Rei,
na sua infinita sabedoria, achou apropriado incluir-nos na vossa exaltada

companhia. Espero que também nos aceitem. - Fez uma pequena vénia com a cabeça e
pousou a mão, num gesto de amizade, no ombro do homem alto. - Aqui o Gwilym é o

artífice para quem o ouro e as pedras preciosas foram propositadamente criadas. O monge
inclinou a cabeça, aceitando o cumprimento com naturalidade.

Brynach virou-se para o jovem de cabelos negros e prosseguiu:

- Ah, e este adolescente que aqui vês é um leighean com dotes raros e extraordinários.
- Há sete gerações que os homens da minha família são médicos

- explicou Ddewi, falando pela primeira vez. - E eu sou o sétimo filho do meu pai, que também
foi um sétimo filho. - Tinha uma voz e maneiras tranquilas, que sugeriam

profundidades invisíveis.

- Infelizmente... - continuou Brynach - não posso gabar-me dos talentos e habilidades de que
estes meus irmãos gozam. A minha única ocupação têm sido os estudos...

e agora descobri que já não sirvo para mais nada.

A modéstia era genuína mas duvidava que tivesse sido escolhido se fosse na verdade tão
humilde como professava. Contudo, antes de lhe poder fazer mais perguntas,

declarou:

- Agora tu, Aidan. Disseram-nos que és o melhor escriba de que esta abadia se pode gabar...

- E não só escriba como também estudioso... - acrescentou

Gwilym.

- É verdade que a abadia mantém muitos bons escribas - admiti - e é verdade que sou um
deles, mas sou também o mais jovem e inexperiente de todos. A minha contribuição

para o livro é muito pequena quando comparada com as de Brocmal, Libir e alguns outros...

- Pois sim, mas a tua pena tocou no livro abençoado - afirmou

Gwilym. - As tuas mãos trabalharam nele. Quem me dera poder dizer o mesmo.

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Brynach acenou, como se essa fosse a maior ambição da sua vida.

Os três homens olharam uns para os outros e deve ter passado um sinal entre eles porque o
monge se inclinou para mais perto de mim, como que para confidenciar um

segredo.

- Posso dizer-te uma coisa? - perguntou.

- Claro que sim, irmão Brynach.

- Os que escolho para amigos tratam-me por Bryn - disse, fazendo-me um gesto para me
aproximar um pouco mais.
Coloquei a minha cabeça perto da dele mas o irmão Diarmot apareceu naquele momento,
antes de Brynach poder falar.

- Confio que o nosso irmão vos tenha transmitido as boas-vindas da abadia - declarou, rígido. -
Não gostaria de pensar que se esqueceu das suas obrigações para convosco,

hóspedes há tanto aguardados.

Brynach voltou a endireitar-se e o seu sorriso reapareceu instantaneamente.

- Pela nossa parte, não há que recear - replicou, com suavidade.

- Fomos mais do que bem recebidos.

- Sem dúvida - interveio Gwilym. - É como se nunca tivéssemos saído de casa.

- Sou o irmão Diarmot e estou ao vosso dispor. Se têm fome, terei todo o prazer em trazer-lhes
qualquer coisa para comer.

- Obrigado, irmão - respondeu Brynach - mas não é necessário.

- Então, talvez algo para beber? - insistiu Diarmot. Olhou para mim e esboçou uma amostra de
sorriso. - Calculo que Aidan vos tenha oferecido uma bebida, mas terei

muito prazer em servi-los.

- Bom - disse Gwilym - um pouco da excelente cerveja que bebemos à mesa, a noite passada,
era capaz de me tentar.

- Com certeza! - replicou Diarmot. - O Aidan e eu vamos buscar as taças. É o mínimo que
podemos fazer pelos nossos hóspedes.

- Por favor, permitem-me que vos ajude - disse Gwilym, levantando-se rapidamente.

- Não, não - respondeu Diarmot, com firmeza. - São nossos convidados e não posso permitir
que vão buscar a vossa própria bebida.

O Aidan poderá ajudar-me.

O teimoso Diarmot pairou sobre mim como uma ameaça, pelo que me levantei e o segui até à
cozinha para encher um jarro enquanto ele procurava as taças. Quando regressámos

à mesa já outros monges se haviam juntado aos três homens e não tive outra oportunidade
para falar com eles a sós. Observei-os e aguardei uma oportunidade durante

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resto do dia, mas os acontecimentos não conduziram aos resultados desejados.

Naquela noite retirei-me para a minha cela a arder de curiosidade, frustrado e ressentido com
Diarmot por causa da sua inoportuna intrusão.

Antes de adormecer, rezei a Cristo que me perdoasse por não gostar de

Diarmot e jazi durante muito tempo a interrogar-me sobre o que seria que

Brynach estivera prestes a dizer-me.

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CINCO

Quando subimos à colina na escuridão de antes da madrugada somos como o Cristo a


ascender do vale da morte. Amontoamo-nos no cimo, como se tremêssemos sob as garras

geladas do túmulo, e aguardamos a chegada da verdadeira e infalível luz da ressurreição.


Esperamos em silêncio, com os rostos virados para leste, de onde provém

a Palavra da Salvação. Muito para lá do rebordo do mundo, a luz do dia concentra as suas
forças, crescendo e crescendo, até ao momento em que, finalmente quando

os poderes da escuridão se mostram incapazes de a conter durante mais tempo - irrompe num
glorioso clarão dador da vida. Ergue-se o Sol vitorioso, o Sol Invictus,

renovado como o Cristo Ressuscitado, tal como irá acontecer a todos os homens no Último
Dia. Respiramos fundo logo que os primeiros raios da luz dourada incendeiam

o céu, e erguemos as nossas vozes para o Trono Dourado:

- Aleluia! Hosana! Glória a Deus nas Alturas! Aleluia!

A seguir descemos a colina em procissão, conduzidos pelo bispo de

Hy com a sua cambutta bem erguida, e entoamos o Gloria enquanto caminhamos. Temos
tantos hóspedes e visitantes que não há espaço suficiente para todos no interior

da igreja, mas como o dia está bonito, a primeira parte da missa é conduzida sob a
cúpula do céu. Observámos as várias partes da missa, o Gradual, seguido

pela leitura dos Evangelhos, do Credo, dos Salmos e do Ofertório.

Durante as orações os visitantes ajoelharam-se no pátio para logo se levantarem e irem


formar uma dupla fileira junto à porta, para a passagem da procissão da Hóstia
e do Cálice até ao altar. O bispo Cadoc, ajudado pelo abade, continuou o Serviço dos
Sacramentos junto ao altar. Fiquei entre os que permaneceram no exterior da

igreja mas não tive qualquer dificuldade de audição porque a bela voz de Cadoc chegava até ao
pátio e para lá das muralhas da abadia.

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- Quanda canitus... - disse o bispo quando ofereceu o cálice a

Deus - accepit Jesu panem...

Ajoelhámos sob a luz do sol da manhã de Páscoa enquanto os nossos corações aqueciam para
o amor de Deus. Um a um, entrámos na igreja e avançámos para o altar, onde

recebemos os sacramentos da mão do bispo, para logo regressarmos aos nossos lugares para a
bênção.

Foi um serviço cheio de beleza e alegria. Quando acabou, cantámos até o sino tocar a tércia,
após o que o abade Fraoch convidou os nossos hóspedes a partilharem

a nossa festa.

- Jesus vive! - grasnou, erguendo a voz acima do seu sussurro habitual... - Alegrem-se, meus
amigos, porque todos os que crêem em

Cristo ganharão a vida eterna. Tal como um dia nos viremos a reunir no

Grande Salão do Céu, gozemos as bênçãos da generosidade de Deus neste bom dia de Páscoa,
numa antevisão da Festa do Cordeiro.

E foi com estas palavras que o festim começou. Carregámos bancos e mesas do refeitório e
colocámo-los no pátio para podermos acomodar todos os nossos convidados.

As mulheres dos povoados vizinhos ajudaram os cozinheiros e os ajudantes-de-cozinha a cobrir


as mesas com todos os tipos de comida: pão negro com o formato especial

próprio da Páscoa redondos, com uma cruz no seu cimo -, ovos cozidos já frios, símbolo do
poder e das promessas da vida, salmões e lúcios - frescos, salgados e fumados

-, em tabuleiros de madeira, mexilhões e ostras, carne picada e pinhões cozidos em leite com
ovos e mel, montões fumegantes de nabos assados, enormes caldeirões

de guisado de borrego, de carne de porco, de vaca e de carneiro assada com erva-doce,


cebolas e alho, gansos em molho de ervas, lebres recheadas com castanhas doces,

frangos recheados com milho e salva, cotovias em bagas de sabugueiro, compotas de ameixas,
framboesas e maçãs, bem como muitas outras coisas.
Aengus mac Fergus, Senhor do Reino, enviou-nos alguns dos seus homens com presentes de
Páscoa, grandes carregamentos de aves de caça e de javali destinados a alegrarem

ainda mais a nossa festa, e esses mesmos homens não perderam tempo e colocaram a carne a
assar em espetos, por cima de fogos acesos no pátio. Despachada que foi

essa tarefa, dedicaram-se rapidamente ao encarregado da adega e tornaram-se seus escravos,


trabalhando afanosamente junto dos cascos de carvalho da escura e espumosa

cerveja e do doce hidromel. Para além disso, como era Páscoa, também tínhamos jarros de
vinho.

Quando tudo ficou pronto, o Secnab Ruadh impôs o silêncio e pediu as bênçãos de Deus para
aquela nossa refeição festiva. A seguir pegámos

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nas malgas de madeira e quebrámos o prolongado jejum da Páscoa, partilhando os pratos que
achávamos mais apetitosos. O dia foi inteiramente dedicado à satisfação

da comida e da bebida, e às conversas harmoniosas com familiares e amigos. Todos os que se


encontrava reunidos no interior das muralhas da abadia eram como que irmãos

e irmãs, pais e filhos, amigos uns dos outros.

Depois das dores da fome terem sido saciadas e banidas, entretivemo-nos com jogos. Incitados
pelos filhos dos nossos convidados, envolvemo-nos em competições de

força e de habilidade: lançamento de pedras e lanças, força de mãos e outras coisas do mesmo
género. Alguns dos homens do senhor local, todos eles guerreiros, imaginaram

uma corrida de cavalos em que os cavaleiros deveriam sentar-se nas suas selas virados ao
contrário. Foi um espectáculo tão divertido que a corrida teve de ser realizada

várias vezes para dar lugar a todos os que quiseram tomar parte nela. A última corrida foi a
melhor porque muitas das crianças mais velhas insistiram em participar.

Para que as mais jovens não se sentissem ofendidas, alguns dos monges resolveram também
entrar na corrida, com cada um deles a levar consigo uma criança pequena

para que não lhes acontecesse nada de mal, o que provocou ainda mais confusões e pôs todo
o vale a ressoar com as nossas gargalhadas. Ah, foi uma diversão esplêndida!

Permaneci ao lado de Dugal durante todas as festividades, dolorosamente consciente de que o


momento da nossa separação estava prestes a chegar. Contudo, como não
queria pensamentos infelizes a intrometerem-se naquela gloriosa celebração da Páscoa, fiz o
possível por não pensar nisso. Se Dugal, por acaso, teve sentimentos

semelhantes... então não os deixou transparecer e divertiu-se ao máximo, correndo do barril


de cerveja para a corrida, para a mesa e de novo para o barril. Tive

muito poucos relances dos nossos três misteriosos visitantes, Brynach, Gwilym e

Ddewi. Pareciam estar sempre a pairar nas sombras do bispo, frequentemente envolvidos em
conversas uns com os outros ou com alguns dos nossos irmãos mais velhos.

Embora as festividades fluíssem facilmente à sua volta, aqueles três homens, e muito em
particular Brynach, mantinham-se isolados. Olhavam, sorriam, mas raramente

participavam nos divertimentos.

O dia foi passando e o Sol começou a descer lentamente, iluminando o céu ocidental com a
sua luz vermelho-dourada. O nosso bom abb chamou toda a gente, disse-lhes

para o seguirem e organizámos uma grande

Procissão em volta da cruz do pátio. Demos uma volta, duas voltas, três

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voltas, após o que o abade reuniu todos num anel em torno da cruz e declarou, com a sua voz
áspera e sussurrada:

- Contemplem esta cruz! Sim, neste momento está nua mas nem sempre foi assim! Quero que
recordem, meus amigos, aquele medonho e terrível dia em que o Filho do Grande

Rei tomou sob os seus ombros todo o peso do mundo enquanto jazia suspenso na árvore do
Gólgota! Pesar e vergonha!

Oh, Coração do meu coração, o teu povo prendeu-te, amarrou-te e bateu-te!

Junco verde em carnes firmes e punhos odiosos em faces avermelhadas! Os amaldiçoados


espinhos transformaram-se numa coroa para a cabeça sagrada e uma túnica emprestada

escarneceu os ombros daquele que carregou com a deplorável mancha dos pecados da
humanidade.

"Depois, ansiosos por mais sangue, agarraram em ti e perfuraram-te as mãos e os pés com os
frios e cruéis pregos! Ergueram-te bem alto, acima do chão, para morreres

numa agonia amarga, com o teu povo a assistir, impotente.


"Hediondo feito! Cuspiram sobre o Criador do Mundo enquanto a morte roubava a luz dos
seus olhos.

A voz de Fraoch tornou-se mais áspera enquanto e as lágrimas rolaram-lhe pelas faces.

- Os trovões e o vento não os detiveram, a chuva e o granizo não os assustou, e nem sequer
temeram a voz que gritou: "Abba, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!"

"Ergue-se a lança de lâmina aguçada, que morde profundamente o

Teu coração ferido. A água e o sangue escorrem pelos teus flancos reluzentes - como o vinho
do perdão derramado por todos - e o maravilhoso Filho de Deus deixa de

respirar!

"A seguir descem-Te da cruz, ansiosos por te levarem dali! Foste arrastado pelas ruas envolto
num saco! Nada de linhos e peles macias para o Alto Rei dos Céus, mas

apenas uma mortalha vulgar.

"O túmulo escavado na pedra torna-se no teu lar, ó Amado. A solidão da casa de turfa é o teu
novo domínio, no cemitério dos ossos, e os soldados de César ficam de

guarda junto à porta de pedra para que os assassinos não perturbem o teu sono de morte.

"Será que já te receiam? Conduziram-te à morte, Senhor de Todas as

Coisas, e montam guarda olhando para a esquerda e para a direita, com as mãos a tremer. A
escuridão desce sobre a Terra. E como não? A Luz da

Vida foi encerrada num túmulo e a sôfrega noite está repleta de demónios.

- Amigos - sussurrou o abade, com a voz enfraquecida pela contemplação daquela terrível
noite - os inimigos da luz e da vida levaram

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a fim uma grande celebração. O som da folia ressoou nos Salões do Céu e o Deus Pai olhou
para baixo, num desgosto magoado. Chamou o seu

Campeão e disse: "Repara, Miguel! Mataram o meu amado filho, o que já de si é muito mau,
mas não deviam alegrar-se tanto. Estará certo que o mal exulte ante a morte

do Único Justo?"

"Miguel, Servo da Luz, replicou: "Senhor, sabeis bem que não está certo. Pronunciai a palavra e
matá-los-ei a todos com a minha espada ardente.
"Ah, mas o Sempre Misericordioso leva um dedo aos lábios e diz:

"Paciência, paciência, tudo a seu tempo. Se a solução para um desastre fosse superior às
minhas forças, então eu não seria um Deus. Afasta-te e vê o que vou fazer."

"O Alto Rei do Céu, com o seu coração a sofrer, espreitou para o sepulcro gelado. Uma única
lágrima escorreu dos seus olhos cheios de amor e caiu no escuro túmulo

onde jazia o corpo do filho, o Príncipe da

Paz. A lágrima atingiu o Cristo em cheio no rosto magoado e a doce vida voltou a inundá-lo.

"O Grande Rei virou-se para o seu Campeão e disse: "Porque te atardas, meu amigo? Viste
como foi. Rola aquela pedra e deixa que o meu filho saia em liberdade!" Miguel,

lançando-se para a Terra como um raio, pousou a sua mão na amaldiçoada pedra e lançou a
grande mó para um lado com o simples agitar de um dedo.

"E tu ergues-Te! Cristo Vitorioso! Atiras o saco para longe e levantas-Te. A morte, essa coisa
fraca e desprezível, jaz estilhaçada a teus pés.

Pontapeias os estilhaços e caminhas para fora do túmulo, com os bravos soldados a caírem por
terra, abatidos pela visão de uma tão imensa glória!"

O abade Fraoch abriu muito os braços e prosseguiu:

- Mil boas-vindas, ó Rei Abençoado! Mil Boas-vindas, Juventude

Eterna! Avé e bem-vindo, Senhor da Graça, que sofreste tudo o que a morte te podia fazer.
Sim, sofreste pela obstinada raça humana e morreste alegremente. Primogénito

da Vida, foi a nós próprios que carregaste para fora do sepulcro com cada um bem agarrado às
tuas largas costas.

"Por isso, olhai para a cruz e rejubilai, meus amigos! Pensem nisso e louvem Aquele que tem o
poder de erguer os mortos para a vida. Amém!

Toda a gente olhou para a alta cruz sob a luz do Sol poente e gritou:

- Amém, Senhor!

Os irmãos que tinham as harpas já esperavam aquele momento e começaram a tocar.


Cantámos. Hinos, é claro, mas também outras canções.

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Canções antigas, mais velhas do que qualquer das tribos ou clãs que as reclamavam como
suas, mais velhas do que as próprias colinas arborizadas. Cantámos enquanto
a noite nos envolvia e voltámos a escutar as histórias da nossa raça, honradas pelas eras.

Naquela noite, quando fomos descansar, íamos satisfeitos de corpo e alma. No dia seguinte
levantámo-nos para prosseguirmos as nossas celebrações. Tentei preparar-me

para a partida ao longo dos três dias da festa da Páscoa. Raramente vi Dugal. Se não o
conhecesse tão bem, teria sido capaz de pensar que me estava a evitar.

Os visitantes só se foram embora no final, já bem tarde, do terceiro dia. Nas vésperas juntei-
me aos meus irmãos para uma última oração. O Sol pusera-se e começava

a estar escuro no interior das muralhas da abadia, mas o céu ainda conservava um pálido tom
azul. A leste, muito baixas, brilhavam duas estrelas. Dizem que o céu

de Bizâncio é dourado, afirmara

Dugal. E que até as estrelas são estranhas.

O meu coração contorceu-se dentro de mim porque ansiava por trocar algumas palavras com
ele. No dia seguinte partiria... e nunca mais voltaria a ver o meu bom amigo

logo que me encontrasse no exterior do anel de muralhas da abadia. Essa ideia deixou-me tão
preocupado que decidi fazer a vigília da noite para tranquilizar o meu

coração.

Fui ter com Ruadh para lhe implorar esse serviço. Pareceu surpreendido com o meu pedido.

- Acho que seria melhor descansares tanto a alma como o coração

- sugeriu. - Por isso, aconselho-te uma boa noite de sono.

- Agradeço-vos a preocupação. - repliquei - O que me aconselhais seria sem dúvida o melhor,


mas é também a minha última oportunidade para uma vigília em frente ao

altar do abade. É por isso que peço, respeitosamente, a vossa autorização...

- E dou-ta com prazer - admitiu Ruadh. - Esta noite é o Diarmot quem está de serviço. Tens de
o procurar para o informar da alteração.

- Sem dúvida - concordei, preparando-me para abandonar o alojamento do secnab. - Obrigado,


Confessor.

- Vou sentir a tua falta, Aidan... - disse Ruadh, acompanhando-me até à porta - mas rezarei por
ti todos os dias, nas matinas. Onde quer que estiveres, saberás que

o dia começou com o teu nome a ser pronunciado perante o trono do Alto Rei. Todos os dias,
nas vésperas, implorarei a misericórdia do Senhor em teu nome. Desse modo,

onde quer que estiveres neste vasto mundo de Deus, saberás que o dia terminou com um rogo
para que regresses em segurança.
51

Estas palavras comoveram-me tanto que não consegui falar... e ainda mais porque sabia que
Ruadh manteria a sua promessa, acontecesse o que acontecesse. Passou os

braços em volta dos meus ombros e apertou-me contra o peito.

- Vai com Deus, meu filho - disse Ruadh.

Acenei, engoli em seco e deixei-o.

Procurei o meu amigo mas não o encontrei. Um dos irmãos disse-me que Dugal fora ajudar a
tratar dos borregos, no vale seguinte, pelo que regressei à minha cela sentindo-me

muito infeliz e atirei-me para cima do catre. Ignorei o toque para o jantar, adormeci durante
um bocado e acordei quando a sineta tocou a compeline, mas não tive

coragem para me juntar às orações dos meus irmãos. Jazi na cela, escutando os sons da abadia
que se preparava para a noite. Finalmente, quando pensei que já toda

a gente fora descansar, espevitei a vela e apressei-me a sair novamente para a escuridão. A
Lua nascera e era uma resplandecente e dura bola de gelo que brilhava

no céu. O vento que soprara durante todo o dia também fora dormir e consegui ouvir os cães a
ladrarem na povoação que ficava do outro lado do rio. Movi-me silenciosamente

através do pátio, sem ver ninguém e com a minha sombra bem nítida por baixo dos pés.

A capela é um quadrado de pedras, simples e sem adornos, com paredes espessas e um


telhado de pedra muito íngreme, terminado em bico. É também um lugar de paz e

daquela tranquila força que tem a sua origem numa longa devoção. O forte luar transformara
a pedra em metal martelado, talvez em bronze, ou até em prata. Dirigi-me

à entrada, levantei o trinco, empurrei a pesada porta e entrei no compartimento nu com o


achatado altar de pedra por baixo de uma fenda de ventilação, muito alta

e estreita. A um canto havia um maciço suporte para livros, agora vazio.

Não era necessário qualquer livro para a vigília da noite. As velas ardiam silenciosamente nas
altas árvores de ferro, enchendo a capela com o seu cheiro quente

e ligeiramente rançoso.

Empurrei a porta atrás de mim, fechei o trinco e avancei para o altar... e só então reparei em
Diarmot.
- Terei todo o prazer em fazer a vigília contigo - declarou, com uma formalidade rígida.

O coração caiu-me aos pés.

- Irmão, não há necessidade... - disse-lhe. - Implorei esta obrigação e suportá-la-ei com alegria.
Perdoa-me, devia ter-te avisado mais cedo.

mas podes ir-te embora.

52

- Seja como for - replicou Diarmot com uma satisfação presunçosa - será bom para mim ficar
contigo esta noite.

Não apreciava a sua companhia mas não consegui pensar em mais objecções e fiz-lhe a
vontade.

- Não me cabe recusar - disse-lhe, e ocupei o lugar no outro lado do altar.

A vigília nocturna é um simples serviço de orações. Não há ritos, salvo aqueles que cada
celebrante leva consigo. São muitos os que recitam os

Salmos e fazem uma genuflexão depois de cada um deles. Outros rezam durante toda a noite,
prostrados com os braços em cruz. Outros ainda guardam o Senhor em silêncio,

meditando sobre o nome divino ou num determinado aspecto da Sua divindade.

Muito frequentemente, prefiro orar, deixando que a minha mente vagueie para onde lhe
apetece e encarando aquela contemplação na presença do

Alto Rei do Céu como uma oferenda. Contudo, por vezes, quando a minha alma está
perturbada, limito-me a ajoelhar e a entregar-me ao Kyrie eleison.

Foi o que fiz.

- Senhor, tem piedade de mim... - rezei, repetindo o rogo a cada respiração enquanto me
mantinha ajoelhado ao lado do altar.

Contudo, pareceu-me que Diarmot decidira recitar os Cento e Cinquenta. Entoava os salmos
numa voz murmurante, fazendo profundas vénias no começo de cada um e ajoelhando-se

quando o terminava. Diarmot, tal como muitos dos irmãos, era honesto e sincero, talvez muito
mais do que eu, facto que confesso sem dificuldade. Mesmo assim, era-me

difícil suportá-lo porque já reparara que muitos daqueles monges, apesar de toda a sua
diligência, pareciam sempre mais preocupados com a aparência de uma coisa
do que com o seu significado. De certeza que uma genuflexão sentida devia valer mais de cem
que fossem feitas apenas para pontuar uma recitação.

Todavia, muito provavelmente, estou enganado quanto a isso, tal como a respeito de muitas
outras coisas.

Resignando-me à ruidosa presença de Diarmot, ajoelhei com a cabeça baixa, respirando aquela
minha simples oração: "Senhor, tem piedade!...

Cristo, tem piedade!" Enquanto rezava, pousei os meus olhos no círculo de luz levemente
oscilante que manchava o solo à minha frente. A luz e a sombra pareciam pelejar

uma com a outra pela supremacia sobre o pavimento de pedra por baixo da árvore-de-velas.
Desejei que a luz triunfasse.

mas havia tanta escuridão à sua volta...

Os Salmos de Diarmot transformaram-se mais num balbuciar do que numa devoção enquanto
a sua voz continuava a zumbir. Já não eram palavras

53

mas apenas um som, um gorgolejar tão sem significado como o de um riacho a murmurar.
Aquele som enchia-me a cabeça enquanto o suave círculo de luz oscilante me enchia

os olhos.

Mergulhei num sonho acordado. Foi então que vi Bizâncio e a minha própria morte.

54

SEIS

O círculo de luz das velas que iluminava o chão à minha frente transformou-se num buraco
através do qual podia ver uma vaga vastidão sem formas, que se estendia

até ao horizonte em todas as direcções, sem características e sem cor, mas com nuvens por
cima e nevoeiro por baixo.

Naquele firmamento sem fim pairava uma grande ave solitária - uma águia - de asas abertas e
olhos vigilantes em busca de um lugar para descansar. Conseguia ouvir
o abafado zumbido do vento a passar por entre as pontas das penas bem estendidas enquanto
estas varriam o céu vazio, e sentia que o cansaço - um cansaço que a penetrava

até aos ossos -, já pesava nas suas amplas asas. Mesmo assim, a maravilhosa ave continuava a
voar, rodeada por todos os lados por uma paisagem onde não havia um

único lugar onde pudesse pousar.

Então, precisamente quando aquelas boas asas começavam a falhar, tive um relance, lá muito
ao longe, para leste, do fraco clarão avermelhado do Sol que surgia por

cima do nevoeiro que encobria o mundo. O Sol ergueu-se, mais alto, cada vez mais alto,
tornando-se gradualmente mais brilhante, resplandecente com o vermelho-dourado

da forja de um artífice.

Encandeado pelo clarão, não consegui suportar a visão e tive de desviar os olhos. Quando
recuperei a vista... maravilha das maravilhas! O que via já não era o Sol

mas uma enorme e resplandecente cidade disposta sobre sete colinas, com cada um dos seus
cumes a brilhar com esplendores e riquezas para lá da minha mais febril

imaginação. Irradiando a luz da sua própria beleza, iluminada pelo fogo da riqueza e da
magnificência.

a cidade dourada brilhava como um ornamento cravejado de jóias e com uma dimensão
inconcebível.

A fatigada águia viu a cidade a erguer-se na sua frente e ganhou alento, batendo as asas com
uma força renovada. Finalmente, pensei, a valorosa ave está salva. De

certeza que algures, numa cidade como esta, haverá um lugar onde poderá descansar. A águia
voou, cada vez mais perto, com cada

55

batimento de asas a aproximá-la rapidamente, com cada batimento a revelar o brilho de


outras maravilhas: torres, cúpulas, basílicas, pontes, arcos triunfais, igrejas

e palácios de brilhante ouro e vidro.

Apressando-se ansiosamente em direcção ao refúgio da cidade dourada, a orgulhosa ave, com


o coração a bater mais depressa à vista daquela extravagante recompensa

pela sua longa perseverância, começou a descer e abriu completamente as asas para ir pousar
no cimo da torre mais alta.
Porém, quando a águia se aproximou, a cidade modificou-se. De repente já não era uma
cidade mas sim uma imensa besta com os quartos traseiros de um leão, os quartos

dianteiros de um dragão, uma pele de escamas douradas, garras de vidro e uma vasta boca
escancarada com fileiras de espadas a servirem de dentes.

A águia contorceu-se no ar e soltou um guincho, alarmada, batendo as asas para se escapar.


Todavia, era já demasiado tarde. A besta dourada esticou o seu longo pescoço

serpentino e abocanhou a exausta ave em pleno céu. As mandíbulas fecharam-se e a águia


desapareceu.

O eco seco dos maxilares da grande besta dourada a fecharem-se acordou-me, a tremer, da
minha visão. A sala estava sombria e o cheiro da gordura das velas era muito

forte nas minhas narinas. A árvore-de-velas na minha frente jazia no solo onde caíra, com as
velas apagadas ou a derreterem-se em lagos de cera. Diarmot estava prostrado

no chão ao lado do altar, de braços esticados para os lados, ressonando baixinho. Adormecera
durante as orações.

Levantei-me devagar, avancei para a árvore-de-velas caída e levantei-a. O som da sua queda
fizera-me despertar do sonho... mas que fora que a fizera tombar?

A porta bateu, agitada pelo vento. Sem dúvida que me esquecera de prender o trinco e a
árvore-de-velas fora derrubada por uma rajada de vento.

Caminhei para a porta e segurei-a com a fita de couro, certificando-me que o trinco de
madeira encaixava na respectiva fenda. Regressei ao meu lugar, retomei a minha

postura e iniciei novamente o Kyrie. Porém, o sonho permanecia fresco perante mim,
assaltava a minha mente com o seu terrível aviso e não me deixava rezar. Acabei

por desistir, e limitei-me a ficar sentado, a pensar no que vira. Os meus sonhos nunca se
enganam mas é frequente que necessite de pensar muito para conseguir extrair

deles o devido significado. Virei a minha mente para aí mas a interpretação escapava-me.

Levantei-me e espreguicei-me quando vi que as primeiras luzes fracas do dia já brilhavam na


alta fresta de arejamento. Fiz uma pausa para pensar se deveria acordar

Diarmot. O sino tocou as matinas no momento em que

56

me debrucei sobre ele e Diarmot despertou sobressaltado. Caminhei para a porta e saí, sendo
saudado por vários irmãos que já trepavam a colina em direcção à capela,
com as capas a agitarem-se-lhes em volta das pernas sob o frio vento do norte. Devolvi-lhes as
saudações com toda a boa vontade e aspirei o ar frio bem para dentro

dos pulmões: uma, duas, três vezes.

Quando regressei à capela para as primeiras orações já o Sol se erguia por cima do vale
enevoado, lá longe, para leste. O coração contraiu-se-me no peito ante aquela

visão e foi nesse preciso instante que compreendi o significado do meu sonho. O
conhecimento transformou-me o sangue em água: a águia era eu próprio e a cidade era

Bizâncio. A besta, nesse caso, era a morte.

Deixei-me cair contra a parede da capela, sentindo a pedra áspera contra as costas e ombros.
Senhor, tem piedade! Cristo, tem piedade! Senhor, tem piedade!

O que eu vira era o que iria acontecer. A certeza, tão brilhante e total como o Sol que agora
banhava o meu rosto com a sua luz, removeu até a mais pequena sombra

de uma dúvida. Todas as minhas visões arrastavam consigo uma profunda garantia de
verdade: o que vira era o que iria acontecer. O tempo provaria que eu tinha razão.

A morte pairava à minha frente, tão certa como o Sol nascente. Iria a Bizâncio e era aí que
morreria.

Suportei as orações numa confusão de medo e descrença. Porquê?

Porquê agora? Não servia de nada. Sabia, graças a uma longa experiência.

que não obteria uma resposta. Nunca a obtinha.

Depois das orações juntei-me aos outros no refeitório e quebrei o jejum com pão de cevada e
carne cozida, uma refeição consistente apropriada para marcar o início

da jornada.

- Ah, Aidan, é a tua última refeição antes de te juntares aos vagabundi, não é verdade? - disse
o irmão Enerch, o chefe dos pastores.

- Cautela, irmão - aconselhou-o Adamnan, sentado a seu lado. Quando voltarmos a sentarmo-
nos juntos, um de nós já terá jantado com o Imperador. Pensa nisso.

- Achas que o Imperador janta com todos os vadios esfarrapados que se apresentam junto do
Portão-Dourado? - perguntou o irmão Rhodri, junto de mim.

Ora, tudo aquilo não passava de uma brincadeira mas as palavras daqueles irmãos encheram-
me de apreensão. Embora tentassem envolver-me numa conversa agradável, não

consegui elevar-me à altura das zombarias e abandonei a mesa após algumas dentadas,
afirmando que tinha de ir reunir os meus pertences.
57

Abandonei o refeitório e atravessei rapidamente o pátio em direcção ao scriptorium. Por cima


da minha cabeça, o céu ganhara um desanimador tom cinzento. Tornara-se

obscuro e deixava escorrer uma luz fria e mal-humorada, enquanto o vento, caprichoso,
soprava em rajadas sobre a muralha ocidental. Pensei que se tratava de um dia

desolado, muito de acordo com a minha própria disposição sombria.

Vários dos gansos malhados da abadia atravessaram-se no meu caminho. Como que para dar
ênfase às preocupações, dei um pontapé no que se encontrava mais perto. Os

gansos dispersaram, grasnando barulhentos protestos enquanto fugiam. Olhei em volta com
um ar culpado e arrependi-me da minha maldade quando o rapaz que guardava

os gansos apareceu a correr, com o seu pau, silvando e assobiando para os chamar de volta ao
bando. Lançou-me um negro olhar de desaprovação quando passou junto

de mim.

- Tem cuidado! - gritei-lhe. - Mantém esses gansos longe dos pés das pessoas!

Sozinho, na minha cela, o desespero fez-me cair de joelhos.

- Cristo, tem piedade! - gemi, em voz alta. - Senhor, se isso te aprouver, remove esta maldição
de cima de mim. Restaura a minha felicidade, ó Deus! Senhor, salva

o Teu servo.

Deixei extravasar a angústia batendo com os punhos contra os joelhos. Passado um instante
ouvi vozes no pátio, lá fora, levantei-me e olhei uma última vez para o

meu quarto. Depois de mim, quem ficaria com a pequena cela?, interroguei-me. Fui assaltado
por aquela noção e rezei pelo homem que habitaria o pequeno quarto nu.

Pedi a Deus que o enchesse de bênçãos e lhe concedesse todas as boas coisas... fosse ele
quem fosse.

A seguir peguei na minha bulga, pendurei-a ao ombro, saí da cela e juntei-me ao grupo de
viajantes que se reunira no pátio.

Toda a abadia se amontoara ali para nos desejar uma boa viagem e para se despedir de nós. O
abade e Mestre Cellach, que iriam connosco até à costa, conversavam com

Ruadh e Taum. O bispo e os monges visitantes estavam prontos para a partida. Vi Brocmal e
Libir ali perto e ocupei o meu lugar junto deles. Brocmal olhou-me com

uma expressão azeda quando me sentiu a seu lado, virou-se para Libir e disse:
- Seria de esperar que qualquer monge suficientemente afortunado para ser escolhido para
esta jornada - e ainda por cima contra todas as expectativas - se sentisse

na obrigação de não fazer esperar os outros.

O obscuro comentário destinava-se, suponho, a envergonhar-me.

Porém, como já sabia que não podia esperar qualquer espécie de boas

58

palavras da parte daqueles dois escribas presumidos, deixei-o passar sem me sentir ofendido.
Ignorei o desprezo e examinei a multidão em busca do único rosto que

ansiava por ver. Todavia, Dugal não se encontrava ali.

Senti-me dominado por um terrível pavor ao compreender que chegara o momento da


partida, que teria de me ir embora sem poder despedir-me do meu mais querido amigo

e que, quando partisse, nunca mais voltaria a vê-lo. A compreensão desse facto, a que não
podia escapar, encheu-me de uma inexprimível tristeza. Teria chorado, ali

mesmo... se não fosse toda aquela gente que se encontrava à minha volta.

- E assim se inicia a jornada! - exclamou Fraoch. Ergueu bem alto o seu bordão, virou-se e
conduziu-nos para o portão. Os nossos irmãos gritaram despedidas, ergueram

as vozes num cântico e seguiram-nos até ao portão, sempre a cantar.

Passei através do portão e da muralha... e estava lá fora, já com os meus pés no trilho,
deixando a abadia para trás das costas. Caminhei, dizendo a mim mesmo que

não devia olhar para trás. Contudo, após não mais do que uma dezena de passos, não suportei
a ideia de me ir embora sem um último olhar a Cennanus na Ríg. Espreitei

por cima do ombro e vi a elevação encurvada da muralha de defesa e também, erguendo-se


por cima dela, a alta torre sineira, o telhado do refeitório, a capela e o

alojamento do abade. Os monges tinham-se amontoado à entrada e agitavam os braços numa


despedida.

Levantei a minha mão para responder e vi, a atravessar o portão naquele momento, o boi e a
carroça que transportavam os abastecimentos para a viagem. E quem conduzia

o boi... se não o próprio Dugal? A visão fez-me parar repentinamente.

- Ora, vê se te mexes, Aidan! - protestou Libir, irritado, empurrando-me pelas costas. - Nunca
conseguiremos chegar a Constantinopla se continuares a parar a cada
dois passos.

- Talvez já esteja fatigado e queira descansar - troçou Brocmal. Fica aqui e descansa, Aidan.
Atrevo-me a dizer que seremos capazes de descobrir o caminho sem a

tua ajuda.

Deixei-os passar e esperei que a carroça se aproximasse. Dugal conseguira um lugar no grupo
de escolta para que eu tivesse a possibilidade de caminhar a seu lado.

Que Deus o abençoasse! De facto, ainda tínhamos pelo menos dois dias - o tempo de chegar à
costa - antes de nos separarmos para sempre. Foi uma ideia simples mas

que deu novas asas à minha alma.

Dugal viu-me. Exibiu um sorriso manhoso e presumido e deu-me as boas-vindas quando


acertei o meu passo com o dele.

59

- Pensaste que te ia deixar partir sem nos despedirmos, irmão? perguntou.

- Aí está uma ideia que nunca me passou pela cabeça, Dugal - menti. - Porque não me
disseste?

- Pensei que seria melhor assim - replicou, de novo com o seu sorriso manhoso. - Cellach ficou
mais do que satisfeito por me deixar partir. No fim de contas, alguém

tinha de trazer a carroça de volta à abadia.

Conversámos sobre a viagem enquanto caminhávamos ao longo do vale e atravessávamos o


Blackwater na vau, seguindo pela estrada que se dirigia para leste, para o interior

das colinas. Marchávamos por uma estrada velha, muito velha, marcada por pedras verticais
ao longo do seu percurso e por altares de pedra em todos os pontos onde

havia um cruzamento. Tinha uma boa panorâmica sobre o vale e acabámos por avistar o largo
rio Boann, passando para lá da Colina de Slaine, onde tinham lugar as coroações

reais desde que os Tuatha DeDanaan haviam chegado ao Éire.

Contudo, havia mais colinas, e cada uma delas, ao longo daquele antigo caminho, era sagrada
e possuía a sua própria pedra vertical ou túmulo.

Todavia, era melhor manter no esquecimento os deuses que ali haviam sido adorados em
tempos passados. Os Célé Dé deixavam aquelas colinas e os seus apagados deuses

entregues a si mesmos.
A nossa pequena procissão estendeu-se ao longo da estrada, com os irmãos a caminharem em
grupos de dois ou três, conduzidos pelo bispo e pelo abade. Pela minha parte,

satisfeito, seguia ao lado de Dugal, que marchava à frente do boi. Os misteriosos britânicos -
Brynach, Gwilym e Ddewi - tinham ocupado lugar logo atrás do bispo

e do abade. Caminhámos sem pausas até ao meio-dia e parámos num ribeiro para bebermos.
Dugal levou o boi a beber a jusante dos restantes e pensei em falar- lhe do

meu sonho de morte. Na verdade, já quase ganhara coragem para o fazer quando o abade nos
fez sinal para continuarmos e que nos obrigou a retomar a nossa marcha.

Embora sombrio, o dia manteve-se seco e pareceu-me que toda a gente, excepto eu, se
mostrava ansiosa por se ver longe dali. Olhei para as verdes colinas e para os

vales enevoados e lamentei a minha partida. Infelizmente, o que deixava para trás não era
apenas o Éire mas também a vida, o que fez com que a alegria que sentira

por me encontrar junto de Dugal azedasse dentro de mim, envenenada pelo terrível
conhecimento que o sonho me transmitira. Ansiava por partilhar o meu fardo com ele,

mas não o conseguia. Continuei a caminhar, solitário na minha infelicidade, com cada passo
que dava a colocar-me mais perto do meu próprio fim.

60

Chegámos à vista da Colina de Slaine depois de uma refeição e de um período de descanso. A


colina, alta e orgulhosa, erguia-se sobre o Vale de

Boann, com o seu vasto prado, baixo e de vertentes suaves. As nuvens tornaram-se mais finas
e permitiram que o Sol se mostrasse de vez em quando.

Por vezes, os outros monges cantavam. Contudo, o meu coração não estava para aí virado.
Dugal deve ter reparado na minha disposição sombria, porque perguntou:

- Aqui vai o nosso Aidan, caminhando sozinho e sem amigos! Porque te comportas desse
modo?

- Oh... - respondi, forçando um sorriso - agora que o momento chegou, tenho pena de deixar
esta terra para trás.

Aceitou a afirmação com um aceno conhecedor e não falou mais no assunto. Caminhámos até
ao crepúsculo e montámos o acampamento na própria estrada. Quando desapareceu

a última luz do Sol já o rebordo escuro mas brilhante do mar podia ser visto, para leste. O
bispo conduziu-nos nas orações depois de uma refeição de carne guisada
e pão de cevada, após o que nos enrolámos nas nossas capas e dormimos em volta da
fogueira.

Pareceu-me estranho terminar um dia sem que o som do sino da abadia me soasse aos
ouvidos.

Levantámo-nos antes da aurora e continuámos o nosso caminho ao longo do Vale de Boann


até Inbhir Pátraic, com o seu povoado instalado um pouco atrás das colinas

arenosas da costa. Fora ali, dizia-se, que o Santo

Pátraic regressara ao Éire trazendo consigo as Boas-Novas. Embora muitos duvidassem da


veracidade do facto - uma vez que existiam vários outros locais com pretensões

idênticas - não fazia mal acreditar. No fim de contas, o fogoso santo tivera de desembarcar
num qualquer local da costa e o estuário do rio, onde o Boann se encontrava

com o mar, era suficientemente largo e profundo para os navios. De qualquer modo, agora
que os dinamarqueses lá se encontravam, era melhor que o Atha Cliath.

Chegámos a uma pedra vertical que marcava um antigo cruzamento de caminhos e fizemos
uma pausa para quebrar o jejum e para rezarmos.

Depois das orações seguimos o trilho que descia das colinas em direcção às terras planas da
costa. O vento mudara durante a noite e ar trazia consigo o cheiro ao

sal da água do mar, coisa que eu, anteriormente, só experimentara uma ou duas vezes.

Aproximávamo-nos de Inbhir Pátraic: éramos vinte e oito monges.

cada um com as suas próprias esperanças e medos. Contudo, penso que nenhum deles tinha
medos tão profundos como os meus.

61

SETE

O navio encontrava-se fundeado no rio, à nossa espera, e era o mesmo que transportara o
bispo e os seis companheiros desde a Bretanha. Era uma embarcação baixa e

elegante, com um mastro alto e delgado. Como nada sabia de marinharia ou de navios, achei
que era muito bonito... embora o achasse um pouco pequeno para acomodar

treze monges.
Quando chegámos à povoação, o regedor veio ao nosso encontro e saudou-nos em nome do
senhor da terra.

- Mantivemo-nos de vigia, tal como nos ordenou - disse, dirigindo-se ao bispo Cadoc. - Vou
enviar homens para trazerem o navio.

- Os meus agradecimentos e bênçãos para ti, Ladra - respondeu o bispo. - Prepararemos os


abastecimentos e esperaremos por ti no cais.

Inbhir Pátraic era formada por pouco mais do que um punhado de cabanas de lama
empoleiradas precariamente na íngreme margem norte do Boann, perto da foz do rio.

Era uma pequena povoação onde as mulheres criavam porcos nos prados fluviais e onde os
homens pescavam a partir de duas resistentes embarcações e navegavam ocasionalmente

ao longo da costa sul para comerciarem com as pessoas que encontravam, chegando a
aventurar-se até Atha Cliath. Por isso mesmo, o lugar fora considerado como tendo

importância suficiente para que o monarca pagasse a construção e a manutenção de um belo


cais de madeira. Enquanto o regedor e vários dos seus filhos remavam nos

seus pequenos barcos redondos, dirigindo-se para o navio, seis de nós - os monges mais jovens
- encarregámo-nos da descarga da carroça.

Tínhamos apenas dado início a essa tarefa quando apareceu lorde

Aengus na companhia da sua rainha e de dez guerreiros. Desmontou imediatamente, abraçou


o bispo e o abade, e declarou:

- Estou satisfeito por ter conseguido chegar até vós antes de embarcarem, meus amigos. Os
meus homens falaram-me da jornada e da sua

62

finalidade. Vim desejar-vos boa viagem e pedir a vossa indulgência... porque também vos vou
pedir que levem uma oferta para o Imperador.

o monarca fez sinal à esposa para que se aproximasse. Desmontando com graciosidade - a
rainha Eithne era uma mulher muito bela, de cabelos negros e pele branca,

tal como é próprio de uma Irmã de Brigit -, chamou um dos guerreiros, que retirou um
pequeno e achatado cofre de madeira de trás da sela e lho colocou nas mãos.

A rainha, com as suas costas muito direitas e cabeça erecta, transportou o cofre até onde o
bispo e o abade se encontravam.
- Homens de valor... - declarou, numa voz baixa e doce - foi-me dito que o Imperador dos
Romanos é um homem de grande saber e sensatez. Contudo, até esses têm necessidade

de alguma diversão de tempos a tempos. - Dito aquilo, abriu o cofre e revelou um pequeno
tabuleiro do tipo utilizado para jogar brandub. - As peças - explicou, metendo

a mão no cofre e fazendo aparecer uma pequena figura - são de ouro para o rei e de prata
para os caçadores.

o trabalho do artífice era requintado, tanto no cofre como no tabuleiro, e as peças individuais
estavam bem feitas e eram muito dispendiosas.

- Minha senhora... - respondeu Fraoch - será com grande prazer que colocarei este presente
nas mãos do Imperador e que dedicarei o primeiro jogo em vossa honra.

- Em consideração pelos vossos serviços... - declarou Aengus, que os olhava irradiando


satisfação - gostaria de vos oferecer um penhor da minha consideração. - Chamou

mais três dos seus homens, que se aproximaram com três grandes fardos de pele de ovelha
que pousaram aos pés do amo. Quando abriram o primeiro, o monarca retirou

dele um belo capuz de lã negra. - Trouxe um para cada um dos membros do vosso grupo -
declarou.

o segundo fardo foi aberto e revelou uma selecção de largos cintos de couro, enquanto o
último continha sapatos de couro, novos, do tipo que fabricávamos na abadia.

Eram feitos de uma peça de bom e espesso couro, cortada e dobrada de maneira a formar
uma resistente sandália fechada, presa por fios de couro entrançado. Também

havia ali os suficientes para que pudéssemos escolher e cada monge iniciasse a sua viagem
com um par de sapatos novos.

- A vossa generosidade, lorde Aengus - declarou o bispo Cadoc - só é ultrapassada em


amabilidade. Ficamos em dívida para convosco.

- De vós, não quero ouvir falar em dívidas - replicou Aengus, ao que a rainha Eithene
acrescentou rapidamente:

63

- Digam uma oração por nós quando chegarem à cidade santa.

- Assim faremos - prometeu Cadoc.

Os capuzes de lã, os cintos e os sapatos foram passados de mão em mão e cada monge
escolheu os que melhor lhe serviam. Pela minha parte, fiquei satisfeito por ter
um cinto resistente e sapatos novos, mas o capuz também seria bem-vindo sempre que
soprassem ventos frios. Enfiei-o na cabeça, deixei-o pousar nos ombros, apertei

o cinto em volta da cintura e calçei os sapatos. Os artigos estavam bem feitos e serviam-me
bem. Estranhamente, senti-me melhor só por os usar. Se ia morrer, então

ao menos que o fizesse com um bom par de sapatos novos.

Todavia, a entrega de presentes ainda não terminara. O abade Fraoch chamou Dugal, que fez
aparecer um certo número de odres de couro e bordões, ou seja, um odre

e um bordão, ambos novos, para cada monge.

- Todas as nossas esperanças vão convosco - disse o abb. - Por isso, caminhem como pessoas
merecedoras do vosso encargo, com ousadia e equipados para todos os trabalhos.

Nada receiem, meus amigos. Deus segue à vossa frente.

Só então começámos a transportar os víveres para o cais. Como já disse, a margem era
íngreme, para além de pedregosa, e as pedras estavam cobertas de musgos, o que

fazia com que o caminho fosse perigoso.

Dugal retirava os fardos da carroça e colocava-os nas nossas mãos, e éramos nós quem os
transportávamos até à água.

A medida que a pilha de fardos ia diminuindo, comecei a preocupar- me com a possibilidade


de não poder despedir-me de Dugal.

- Já temos pouco tempo - disse-lhe, aproximando-me enquanto ele puxava o último saco de
cereal para fora da carroça - e queria despedir-me de ti.

- Ainda não nos separámos - replicou, e pensei que o fez de uma maneira algo brusca. Também
não olhou para mim. Em vez disso, virou-se rapidamente, colocou o saco

nas mãos do monge que o aguardava e chamou o abade, dizendo-lhe que a carroça estava
vazia.

O abade respondeu com um aceno e sussurrou a todos os que o rodeavam:

- Desçamos até ao cais. O navio está à espera.

A maior parte dos irmãos já se encontrava reunida no cais. Só o bispo, o abade e vários dos
irmãos mais velhos se tinham deixado ficar para trás, conversando com

o monarca e com a rainha. Peguei num fardo e comecei a descer na direcção. do navio
quando as últimas provisões já estavam embarcadas.

64
Ora aconteceu que havia uma passagem particularmente traiçoeira onde o caminho se
dobrava sobre si mesmo, passando entre duas rochas.

O nevoeiro da manhã deixara aquele sítio realmente muito escorregadio.

Como já o percorrera por duas vezes, sabia que tinha de pousar os pés com cuidado e apoiar
uma das mãos à rocha maior para me firmar. Não era um feito fácil para

quem levava um saco de cereal debaixo de um braço mas tive muito cuidado e consegui evitar
uma infelicidade qualquer.

Porém, pensei em avisar os que vinham atrás de mim. Parei e comecei a virar-me quando ouvi
um grito agudo e estrangulado. Alguém caíra no caminho!

Procurei um lugar a que me agarrar, olhei para trás e vi que Libir escorregara e caíra.
Felizmente, Dugal vinha logo atrás dele.

- Irmão! - gritou Dugal. - Aqui! Agarra-te à minha mão!

Assim dizendo, o forte Dugal estendeu a mão, agarrou em Libir e puxou-o. A tragédia fora
evitada, mas por pouco. O monge mais velho, de rosto branco e a tremer,

pôs-se de pé e libertou-se de Dugal com violência.

- Tira a mão! - gritou Libir, creio que embaraçado com a sua própria falta de estabilidade.

Virei-me, voltei a descer o trilho e ainda não dera um passo quando ouvi um grande estalo,
como o de um ramo a bater contra uma pedra.

Um instante depois, Libir gritou. Quando olhei para trás, vi-o caído na vertente da margem
com uma perna dobrada num ângulo pouco natural.

- Libir! Libir! - exclamou Brocmal, lançando-se para a frente, por trás de Dugal.

- Cuidado! - avisou-o este último. - Também queres cair?

O velho escriba gemia, com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados. Dugal desceu,
colocou-se a seu lado e tomou o monge nos braços com todas as cautelas.

- Calma - disse. - Calma, irmão, eu levo-te.

Dugal endireitou as costas e ergueu o monge que gemia baixinho.

Depois, meio-sentado e meio a trepar, arrastou-se de volta ao alto da margem. Os que se


encontravam mais perto do local do acidente reuniram-se à sua volta para

ver o que se passara.

Brocmal empurrou Dugal para um lado e ajoelhou junto do amigo.


- Disse-te para teres cuidado - declarou, com secura. - Bem te avisei!

- A culpa não foi dele - comentou Dugal. - O caminho está muito escorregadio.

65

- Tu! - berrou Brocmal, rodopiando para o enfrentar. - Foste tu quem fez isto!

Para seu crédito, o corpulento monge deixou passar a afirmação.

- Tentei ajudá-lo - respondeu, com simplicidade.

- Empurraste-o!

- Não, foi ele quem me sacudiu!

- Paz, irmãos - grasnou o abade, intervindo rapidamente e ajoelhando junto de Libir, caído no
chão. - Deste uma má queda, irmão disse-lhe Fraoch para o acalmar.

- Onde foi que te magoaste?

Libir, acinzentado e a suar, murmurou uma palavra incoerente mas suas pálpebras agitaram-se
e perdeu a consciência.

- Creio que foi numa perna - declarou Dugal.

Cellach ajoelhou-se ao lado do abade e ergueu o hábito do monge.

Muitos dos que se encontravam por perto ofegaram e desviaram os olhos.

A perna direita de Libir estava horrendamente dobrada e ferida logo abaixo do joelho, e havia
um bocado de osso estilhaçado a sobressair no ferimento.

- Ah... - suspirou o abade, com pesar. - Deus do céu... - Sentou-se sobre os calcanhares e
passou uma das mãos pelo rosto. - Agora já não podemos partir... - murmurou.

- Temos de o levar de volta à abadia.

Lorde Aengus, de pé junto do bispo, avançou e afirmou:

- Por favor, permitam-me que o leve para a minha fortaleza. Fica mais perto e receberá o
melhor dos cuidados. Mandá-lo-ei para a abadia logo que estiver em condições

de viajar.

- Agradeço-vos... - respondeu Fraoch - mas não é assim tão simples...

- Não há outro que possa ocupar o seu lugar? - interrogou-se o monarca.


- Sim... - concordou o abade - teremos de escolher outro, mas a escolha é difícil porque há
muitos factores a ter em conta...

- Sem dúvida que é como dizes... - afirmou a rainha Eithne - mas seria uma pena atrasar tudo,
nem que fosse por um momento a mais do que o necessário.

- Ora vamos... - disse lorde Aengus, encorajador - estão a tornar as coisas mais difíceis do que
são. Embora não presuma querer intrometer-me nesses assuntos, chamo

a atenção para o facto da maré ser a apropriada. Poderão prosseguir a jornada se escolherem
outro sem perda de tempo.

66

O abade Fraoch olhou para o bispo, mas o bispo declarou:

- Deixo a escolha a teu cargo. Pela minha parte, partirei com toda a satisfação se encontrares
alguém para substituir o Libir. - Indicou alguns dos seus próprios

monges, que se encontravam por perto. - Trago comigo bons homens, que nos servirão bem.
Contudo, como Libir era dos teus, respeitarei a decisão que tomares.

Fraoch hesitou e olhou para o círculo de rostos que o rodeava enquanto procurava decidir qual
seria a melhor opção.

- Não vejo qualquer inconveniente... - concordou Cellach. - Se houver alguém pronto para
ocupar o lugar de Libir... então não teremos de esperar. Talvez o Diabo

pretenda contrariar os nossos propósitos... e não gostaria de ver isso acontecer.

Embora as suas palavras fossem razoáveis, compreendi que o mestre dos escribas encarava
aquela reviravolta nos acontecimentos como uma oportunidade para se destacar.

- Muito bem - replicou o abade, lentamente. Olhou para Libir, ainda inconsciente, com uma
expressão de pena e piedade. - Escolheremos outro... mas vai ser um amargo

desapontamento para este bom monge.

- Não vejo que mais possamos fazer - disse Cellach.

- Abade Fraoch - interveio Dugal, baixinho - permite-me ocupar esse lugar? - Antes do abade
poder responder, Dugal acrescentou: Sinto-me responsável pelo acidente

de Libir...

- Foste tu quem o provocou! - gritou Brocmal, voltando a lançar-se para a frente. - Abade
Fraoch, escute-me: Dugal empurrou o Libir no caminho. Vi-o fazê-lo!
- Irmão, por favor... - murmurou Cellach - não é o momento nem o local para esse tipo de
acusações.

- Mas eu vi-o com os meus próprios olhos! - insistiu Brocmal, espetando um dedo na minha
direcção. - Perguntem ao Aidan. Ele também viu.

De súbito, tornei-me no centro daquela disputa. Desviei os olhos de

Brocmal, com o seu rosto vermelho incendiado pela ira, e virei-os para

Dugal, que permanecia ajoelhado junto ao inconsciente Libir e se mantinha calmo e tranquilo,
aparentemente nada preocupado com as acusações do primeiro.

- Aidan - sussurrou o abade, no seu tom áspero - não preciso de te recordar que se trata de um
assunto muito sério. Viste o que se passou?

- Vi, sim, abade.

- Então, conta-me. Que foi que viste?

67

- Ouvi um grito e virei-me... - respondi, sem hesitações. - O Libir tinha acabado de cair. Dugal
pô-lo de pé e tentou ajudá-lo, mas Libir não quis. Afastou-se com

um safanão e começou a descer a vertente sozinho.

Foi então que caiu.

- Caiu duas vezes? - perguntou Fraoch.

- Sim, duas vezes.

- E tu viste isso?

- Comecei por ouvir o grito e vi Dugal a tentar ajudá-lo. Depois, vi o Libir a afastar-se dele.
Creio que estava embaraçado por ter caído. Voltei a olhar para os

meus próprios pés e tinha acabado de me virar quando caiu pela segunda vez.

- Não foi nada disso! - berrou Brocmal. - Mentiroso! Estão ambos metidos nisto! Eu bem os vi,
aos dois, quando estavam a maquinar...

- Irmão escriba... - interveio Fraoch com gentileza - o senhor está demasiado enervado.
Aparentemente, enganou-se na sua avaliação do que se passou.

Brocmal calou-se mas continuou a olhar-nos com fúria. O abade virou-se para Dugal.
- Brocmal está perturbado, irmão. Não leves a mal a sua ira. Tenho a certeza de que pedirá
desculpas logo que se sentir melhor. Pela minha parte, fico satisfeito

por teres tentado ajudar o irmão Libir...

- Só desejava que não se tivesse magoado...

- Claro, mas a tua rápida intervenção salvou um velho de uma sorte ainda pior - declarou lorde
Aengus. - Procedeste bem.

- Mesmo assim, preferia que nada disto tivesse acontecido - insistiu Dugal. Levantou-se e
encarou o abade. - Bom abb, embora eu não seja um escriba, estou pronto

para o substituir. Se me aceitar... assim será.

- Irmão... - disse Cellach, aproximando-se - a tua oferta é muito nobre mas não falas latim nem
grego. Tal como dizes, não és um escriba e...

Contudo, antes de poder terminar, lorde Aengus interveio:

- Desculpem, meus amigos, mas parece-me que têm convosco escribas e estudiosos mais do
que suficientes para a jornada, e que o que vos faz falta é um homem expedito.

Quem melhor do que um guerreiro para esse lugar? - Colocou a mão no ombro de Dugal, como
se o recomendasse. Perdoem-me a intrusão, mas vivemos em tempos perigosos.

Sentir-me-ia responsável se não vos transmitisse a minha opinião a respeito de uma questão
como esta...

68

- É um bom argumento... - afirmou o bispo, acenando a sua concordância. - Penso que


devemos encarar a sugestão do rei com toda a seriedade.

- Talvez fosse Deus quem permitiu que isto acontecesse... - declarou a rainha Eithne, com
clareza - para que não abandonem a vossa pátria sem a protecção de um forte

guerreiro. Se fosse eu a escolher homens para uma tal viagem, iria mais descansada se
soubesse que pelo menos um deles já tinha prestado servido na hoste de guerra

do rei.

- Não consigo pensar em guerreiro melhor para uma tal tarefa acrescentou o monarca - e
tenho boas razões para saber do que estou a falar.

Ouviu-se um chamamento vindo do cais, lá em baixo:

- A maré está a virar!


- É escolher agora... - disse o bispo Cadoc - ou esperar por outro dia. Deixo isso a teu cargo,
Fraoch.

O abade decidiu-se imediatamente e virou-se para Cellach.

- Lamento, irmão. Sei que ficarias muito feliz por ir connosco mas fazes falta na abadia. -
Encarou o guerreiro que se encontrava na sua frente e continuou: - Bravo

Dugal, se o teu coração deseja ocupar o lugar de Libir, então talvez tenha sido o próprio Deus
quem inspirou esse desejo. Assim seja. Irás connosco... e que Deus

te abençoe, irmão.

Fiquei a olhar, incrédulo. Dugal acenou e pareceu aceitar a decisão do abade quase com
relutância.

- Juro, pela minha vida, que farei tudo o que puder para ajudar a completar a jornada com
êxito - declarou.

Ouviu-se novo grito vindo do cais:

- A maré está a mudar! Têm de se apressar!

- Então, está resolvido - declarou o monarca. - Cuidaremos do vosso homem enquanto vocês
partem. - Virou-se para Dugal e acrescentou: - O mundo é vasto, meu amigo,

e os dias estão repletos de perigos.

- Puxou da espada e ofereceu-a ao seu antigo guerreiro. - Por isso.

leva contigo esta lâmina para protecção dos teus bons irmãos.

Dugal ia aceitar a arma mas o bispo estendeu a mão, dizendo:

- Lorde Aengus, guarde a sua arma - pediu. - A Palavra de Deus é a nossa protecção e não
precisamos de outra.

- Será como desejam - retorquiu o monarca, voltando a embainhar a espada. - Agora,


apressem-se ou não conseguirão transpor a foz do rio.

Encaminhámo-nos para o navio deixando o pobre Libir ao cuidado de Cellach e dos homens do
rei. O resto dos abastecimentos havia sido

69

carregado e a maioria dos monges já tinha trepado para bordo. O bispo içou-se por cima da
amurada com uma grande dignidade e ocupou o seu lugar ao lado do mastro.
Dugal e eu fomos os últimos a embarcar... e eu nunca estivera a bordo de uma embarcação.

- Dugal... - exclamei, num tom de urgência - este navio não é suficientemente grande! Estou
certo de que é demasiado pequeno!

- Nada receies! - respondeu, rindo-se. - É um navio resistente.

- Passou a mão ao longo da amurada. - Foi feito para transportar trinta homens quando
necessário, e somos apenas treze. Vamos voar à frente do vento!

Fiquei a olhá-lo, ainda maravilhado com a reviravolta nos acontecimentos que acabara de
testemunhar. Não teria ficado mais espantado se o próprio arcanjo Miguel

tivesse aparecido para retirar Dugal do cais e para o largar no interior do navio a meu lado.

- Também vais fazer a viagem, Dugal! - exclamei repentinamente.

- É verdade, irmão. - O seu sorriso era largo e encantador.

- É maravilhoso, não é?

- É verdade - concordou.

Um dos monges britânicos gritou uma ordem e quatro outros, que se encontravam junto da
amurada, pegaram em longos remos e afastaram o navio do cais.

O abade ergueu o bordão e fez o sinal da cruz na nossa direcção.

- Levam um tesouro convosco, irmãos! Que possam regressar com dez vezes mais riquezas e
inumeráveis bênçãos! - A seguir levantou a sua pobre voz e começou a cantar:

"Coloco a protecção de Cristo à vossa volta,

Coloco a guarda de Deus à vossa volta,

Para vos ajudar e proteger,

Dos perigos, dos males e das perdas.

Para que não sejam afogados nos mares,

Para que não sejam atacados em terra,

Nem derrubados por qualquer homem,

Nem destruídos por nenhuma mulher.

Manter-se-ão ligados a Deus,

E Deus manter-se-á ligado a vós,


Rodeando os vossos dois pés.

E com as Suas mãos sobre a vossa cabeça.

O escudo de Miguel estará à vossa volta,

70

E a protecção de Jesus estará sobre vós,

O peitoral de Colum Cille vos preservará

De todos os males e malefícios dos idólatras.

O amor de Deus estará convosco,

A paz de Cristo estará convosco,

A alegria dos Santos estará convosco,

E apoiar-vos-á sempre,

No mar, na Terra e onde quer que. fordes,

Abençoando-vos,

Protegendo-vos,

Para sempre, em cada dia e noite das vossas vidas.

Aleluia, amém!"

Deixei-me ficar encostado à amurada, escutando aquela bela canção e sabendo que nunca
mais voltaria a ver a minha pátria.

O navio deslizou lentamente para o centro da rápida corrente do rio.

A maré arrastou-nos consigo e ficámos a ver as verdes colinas a deslizarem e a ficarem para
trás. Os que se encontravam no cais acenavam-nos e cantavam um salmo

de despedida. Continuei a ouvir o seu canto mesmo depois de uma curva do rio que os afastou
das nossas vistas e limpei as lágrimas do rosto com as palmas das mãos

para que ninguém as visse.

As margens altas começaram a diminuir a pouco e pouco, dos dois lados do navio, e entrámos
numa baía baixa e muito ampla.
- Icem a vela! - gritou o irmão que se encontrava ao leme. Quatro monges saltaram para o
mastro e começaram a manobrar os cabos.

Bastou um instante para que a vela avermelhada começasse a descer e estremecesse na brisa,
sacudindo-se e enchendo-se com um estalo. Vi o símbolo do ganso selvagem,

Bán Gwyyddm pintado a branco no centro da vela.

De súbito, o navio pareceu ganhar forças e lançar-se para a frente sobre as águas. Ouvi as
ondas a marulhar contra a proa. Mal eu dera por isso e já nos encontrávamos

no mar, seguindo o nosso caminho. Lancei um último olhar saudoso para as verdes colinas do
Éire e disse um último adeus à minha terra natal. A jornada começara.

71

OITO

A excitação invadiu-me quando o navio ganhou velocidade à frente do vento e deslizou sobre
as ondas suaves e brilhantes tão rápido e vivo como uma qualquer gaivota

de asas negras. O mar abriu-se perante a proa da embarcação e fiquei a olhar, estupefacto,
para aquela visão: uma vastidão imensa de inquietas águas azuis-acinzentadas

que cresciam até ao horizonte e para lá dele, muito mais imenso e selvagem do que jamais
imaginara! Que diferente que parecia quando era visto da amurada de uma

embarcação a navegar a toda a velocidade!

Ofegando e com o vento frio a roubar-me o ar dos pulmões, maravilhei-me com a velocidade
do navio e com o poder das ondas que deslizavam por baixo da amurada. De

tempos a tempos havia uma onda que embatia no casco e que me atirava espuma salgada
para os olhos.

Senti o vento no rosto, saboreei o sal na língua e soube o que era estar vivo. Respirei fundo,
exultando com a corrida do meu coração e com o ar frio nos pulmões.

Voávamos!

Estupidamente maravilhado, olhei para as distâncias marinhas enevoadas e murmurei a


oração do pescador: Salva-me, senhor! O teu mar é tão grande e o meu barco é

tão pequeno! Deus, tem piedade de mim!


Mantive-me no meu lugar na traseira do navio, quase demasiado assustado para me mexer, e
observei os irmãos marinheiros a executarem as suas tarefas. Trabalhavam

com uma hábil eficiência, movendo-se naturalmente de acordo com as oscilações do navio,
com as mãos cheias de cabos, puxando, atando, soltando e amarrando, chamando-se

uns aos outros com uma familiaridade nascida de um longo conhecimento.

No total, eram seis: Connal, Máel, Clynnog, Ciáran e Faolan, cinco dos quais pertencentes aos
muir manachi, ou seja, aos monges do mar, que enfrentavam as águas

profundas sob a liderança de um irmão chamado

Fintán, um homem lúgubre e ossudo que era o piloto. Conservava-se com o leme na mão e
com os olhos vivos postos no céu, observando a vela e

72

gritando ordens secas a que os outros obedeciam instantaneamente. Era óbvio que tinham
navegado juntos anteriormente e que haviam sido escolhidos pela sua maestria

a lidar com o navio.

Olhei em volta, para os meus outros companheiros. O bispo Cadoc instalara-se na frente do
barco, junto dos seus conselheiros, os três britânicos, Brynach, Gwilym

e Ddewi. Brocmal, Dugal e eu próprio, para além de Fintán, que se encontrava ao leme,
tínhamos dado preferência à traseira do navio.

Éramos um total de treze almas, um número sagrado, o número de

Cristo e dos seus discípulos. Treze peregrini escolhidos por Deus, todos eles dedicados Céle Dé.

Não obstante a apreensão da minha morte, não pude deixar de me sentir orgulhoso por me
ver incluído em tão eminente companhia. Como ainda não falara a ninguém na

minha visão, decidi guardar esse segredo para mim e carregar sozinho com um fardo tão
amargo. Estranhamente, foi uma resolução que me agradou. Senti que, de certo

modo, se tratava de uma espécie de contribuição pessoal não manifesta para a nossa
aventura, ideia que me fez sentir nobre e merecedor. Gostei da sensação.

Como que para confirmar as minhas corajosas intenções, o Sol abriu caminho por entre as
nuvens e despejou uma luz encandeante sobre as ondas varridas pelo vento.

Olhei para a vasta e infindável oscilação do mar reluzente e pensei: Vamos a isto... e o mundo
que nos receba com o que tiver de pior. Aidan mac Cainnech está pronto
para o enfrentar.

Ajustei-me gradualmente ao oscilante ritmo do navio e aprendi como prever antecipadamente


as suas repentinas subidas e arrepiantes descidas. Os movimentos para cima

e para baixo não eram difíceis de dominar mas achei que as erráticas e abruptas deslocações
laterais eram enervantes. Sempre que surgiam, agarrava-me à amurada com

as duas mãos e segurava-me com força, não fosse dar-se o caso de mergulhar de cabeça no
mar.

Dugal tinha alguma experiência com navios e riu-se ao ver os meus primeiros passos hesitantes
e cambaleantes.

- Mantém-te direito, Dána - disse-me. - Oscilas como um velho. Compensa os movimentos com
os joelhos. - Dobrou as pernas ligeiramente, para me mostrar como se fazia.

- É como montar um cavalo.

- Nunca montei um cavalo - queixei-me.

- Um celta que nunca navegou nem montou um cavalo? Bom, agora já vi de tudo! - Voltou a
rir-se, no que foi acompanhado por vários dos monges marinheiros.

73

- Alguns de nós não estão tão a par das coisas do mundo como outros - repliquei.

- Acabarás por aprender, meu amigo - declarou Fintán, do seu lugar junto ao leme. - Podes ter
a certeza.

A aprendizagem começou imediatamente com os monges do mar a instruírem-nos a respeito


do manejo dos cabos, da vela e dos remos. A seu pedido, trabalhámos lado a

lado e em breve acabei por reconhecer que a marinharia era uma ocupação rude mas
exigente, tão rigorosa, à sua maneira, como tudo o que eu tivera de enfrentar no

scriptorium.

Finalmente, quando acabámos de pôr as provisões em segurança e o navio em ordem, arranjei


um ninho entre os sacos de cereal e instalei-me.

Dugal foi ter comigo.

- O modo como Deus funciona é estranho, não achas? - comentei, enquanto ele observava a
vela inchada pelo vento. - No fim de contas, sempre vamos juntos.

- É verdade - concordou, olhando a vela com atenção.


- Perdoa-me, irmão, mas preciso de saber... - hesitei, com pouca vontade de pronunciar as
palavras.

- Queres saber se empurrei o Libir? - sugeriu, adivinhando os meus pensamentos.

- Brocmal pensa que o fizeste.

- Preocupo-me muito pouco com o que Brocmal possa pensar. Ele que diga o que lhe apetecer.
E tu, que pensas? - perguntou, virando o olhar para mim. - Viste alguma

coisa?

- Não te vi a fazê-lo... - respondi - nem vejo como o poderias ter feito.

- Então... limitemo-nos a dizer que Deus nos favoreceu grandemente -o replicou. - Na verdade,
não me parece que nos queira ver separados .

- E eu que começava a temer que nunca mais te voltaria a ver!

Quem iria acreditar que isto fosse possível?

- Somos amigos - declarou, com toda a simplicidade. Pareceu pronto para dizer mais qualquer
coisa mas virou novamente a sua atenção para a vela, respirou fundo e

exclamou: - Ah, mo croí! O mar, Aidan! Um navio é uma bela coisa, não é verdade?

- Sem dúvida!

Conversámos durante um bocado mas acabámos por mergulhar num devaneio, observando as
lentas subidas e descidas da ondulação do mar.

Recostei-me no meu trono de sacos de cereal e fechei os olhos. Não pen-

74

sava em dormitar, e acho que não o fiz. Contudo, sobressaltei-me quando

Clynnog, um irlandês Dál Riada, gritou:

- Terra à vista!

- Tão cedo? - interroguei-me, pondo-me de pé. Tínhamos navegado apenas durante meio dia...
ou pelo menos assim me parecera.

- O vento tem sido nosso amigo - afirmou Fintán, passando uma das mãos pela cabeça grisalha.
- Rezem para que este tempo se mantenha.

Passei por cima da forma adormecida de Dugal e avancei para a borda do navio. Agarrei-me à
amurada e estudei o horizonte, mas nada vi para além do grande mar, cinzento,
ondulante e vazio, parte do qual brilhava onde o Sol o iluminava depois de atravessar um
buraco aberto entre as nuvens baixas.

- Não vejo nenhuma terra - exclamei, virando-me para Fintán.

- Além! - respondeu, apontando com a mão direita. - Em baixo, no horizonte.

Olhei para onde ele apontava mas continuei a não ver nada, excepto o mar oscilante.

- Onde? - gritei.

- Continua a olhar! - retorquiu, rindo-se.

Espreitando por cima da amurada, procurei e voltei a procurar... e acabei finalmente por
começar a distinguir uma forma vaga na distância enevoada, uma espécie de

nuvem logo por cima da linha direita que marcava a fronteira entre o céu e o mar. Observei a
mancha confusa durante algum tempo sem lhe ver qualquer modificação

significativa, mas acabei por lhe notar uma pequena variação na cor.

O navio voava para aquela costa baixa, saltando do alto de uma onda para o alto da seguinte,
com os cabos tensos, a ponta do mastro a vergar- se, a vela a esforçar-se

e a empurrar a afilada proa através das profundas águas verdes. Devagar, mas com firmeza, a
distante mancha escura ganhou definição e tornou-se num contorno suavemente

ondulado malhado de cinzento e verde. Algum tempo depois, esses contornos suaves
ganharam características mais nítidas e vi que eram as rudes faces de falésias pedregosas.

Dugal despertou e ocupou um lugar a meu lado, junto à amurada.

- É Ynys Prydein - disse, levantando a mão para a paisagem na nossa frente.

- Já aqui tinhas estado? - perguntei-lhe.

- Uma ou duas vezes... - retorquiu - mas foi à noite e tenho poucas recordações da terra.

75

- À noite? - interroguei-me. - Por que havias de desembarcar à noite?

- Fazíamo-lo quase sempre de noite - respondeu, encolhendo os ombros. - Fez uma pausa e
olhou para a costa de uma maneira quase tristonha. - Oh, mas isso foi há

muito tempo e eu ainda era um jovem.

Enquanto Dugal falava, o céu abriu-se, a luz escorreu através de uma abertura nas nuvens e
encharcou a alcantilada costa com os seus gloriosos raios dourados. O
mar ganhou cintilantes tons de prata e azul, as rochas despedaçadas brilharam, negras como
asas de corvos, e as suaves colinas resplandeceram com o fogo das esmeraldas.

A súbita intensidade daquela beleza sobressaltou-me. Fiquei com os olhos encandeados,


pestanejei e espantei-me com a visão.

Quando não consegui aguentar mais, virei os olhos para a água e captei um reflexo brilhante
pelo canto dos olhos. Voltei a olhar e avistei uma forma rápida e graciosa

a encurvar-se através das águas. Provocou uma leve ondulação e desapareceu. Virei-me um
pouco, para chamar

Dugal... e vi-a outra vez. Tinha um corpo liso e acastanhado, com algumas manchas claras, bem
como um rosto e olhos que me fitavam directamente.

- Dugal! - gritei, alarmado, agitando a mão na direcção da água.

Olha! Olha!

Despreocupado, Dugal espreitou por cima da amurada e passou os olhos pelas profundezas.

- O que foi? Algum peixe?

- Não sei o que era - ofeguei, debruçando-me para ver melhor mas não se parecia com
nenhum peixe que eu já tenha visto.

Dugal limitou-se a acenar e virou-se para outro lado.

- Ali! - voltei a gritar quando a criatura, que deslizava rapidamente, apareceu por baixo do
navio. - Ali está, outra vez! Viste, Dugal? Viste?

O meu amigo limitou-se a abrir as mãos.

- O que era? - inquiri.

- Não sei dizer, porque não vi nada, Aidan. - Voltou a abrir as mãos num gesto de serena
impotência.

Fintán, que era o nosso piloto e se encontrava junto ao leme, riu-se e perguntou:

- Aidan, nunca tinhas visto uma foca?

- Nunca - confessei. - Aquilo era uma foca?

- Era, sim. Dizes que era malhada? - O piloto ergueu as sobrancelhas. -Nesse caso era ainda
muito nova. Mantém os olhos bem abertos, irmão, e verás muitas coisas

nestas águas.

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- Focas, Dugal... - murmurei, abanando a cabeça.

Brocmal, que se encontrava por perto, fungou de desprezo e afastou-se. Não modificara a sua
expressão indignada desde que tínhamos subido para bordo do navio e mirava-me

com desaprovação sempre que os nossos olhos se encontravam.

- Em geral, as focas andam em grupos... - informou-me Faolan e quando as vimos ficamos a


saber que estamos perto de terra.

Momentos depois pareceu-me que as águas estavam repletas de focas.

Havia ali uma vintena, ou mais, daquelas deliciosas criaturas. Reunimo- nos todos junto da
amurada para as vermos a mergulhar por baixo do navio e a brincar nas

ondas, muito perto da proa. Por vezes vinham à superfície para nos observarem, com as
cabeças brilhantes a oscilarem por cima das vagas e os grandes olhos reluzentes

como azeviche polido, para logo depois virarem as caudas para cima e desaparecerem. Houve
uma ou duas vezes em que nos chamaram com os seus latidos ásperos enquanto

rolavam e chapinhavam na água.

Fintán deu uma ordem e virou a embarcação. Quando voltei a olhar já as falésias pairavam
sobre nós e conseguia ouvir o marulhar das ondas na costa e sobre os rochedos.

Avançávamos para sul ao longo da costa, mas aquela parte da terra parecia deserta. Não vi
povoações nem habitações, nem sequer uma única quinta ou uma miserável

cela de um monge eremita.

- Outrora, havia aqui pessoas... - disse-me Gwilym quando o interroguei - mas foram-se
embora há já muitos anos. As povoações mudaram-se para o interior. Procura-as

nos prados e vales e é aí que as encontrarás. - Olhou com amor para a terra onde nascera. - Ty
Gwyn é a única que ainda pode ser vista do mar - acrescentou, com

orgulho.

- Aconteça o que acontecer, a Fortaleza da Fé não mudará de lugar.

- Iremos vê-la?

- Oh, sim, amanhã - replicou. - Pararemos lá para obtermos abastecimentos adicionais.

Quando o Sol começou a descer para o mar ocidental, Fintán, que andava em busca de uma
baía abrigada para passar noite, virou o navio para o que à primeira vista

não parecia mais do que uma fenda na falésia. Contudo, quando nos aproximámos, a fenda
pareceu abrir-se e verifiquei que era na realidade uma pequena enseada.
As águas eram profundas e calmas e permitiam que nos aproximássemos da costa. O bispo
Cadoc serviu-se do pequeno barco circular para chegar a terra mas os restantes

limitaram-se a deslizar pela amurada e a patinhar na água. Deixámos os monges do mar a


tratar de pôr o navio

77

em segurança e começámos a montar o acampamento. Dugal e eu partimos em busca de


lenha, enquanto os outros iam à procura de água e iniciavam os preparativos para

a refeição.

- Não encontraremos nada nesta rochas áridas - comentou Dugal, olhando em volta, para a
praia de seixos de ardósia.

Assim era, pelo que resolvemos trepar ao alto da falésia para ver se descobríamos qualquer
coisa. Embora não existissem árvores, grandes ou pequenas, encontrámos

um certo número de densos maciços de arbustos com muitos ramos mortos, fáceis de quebrar
e de reunir em molhos de boas dimensões que transportámos até à beira da

falésia e atirámos para a costa, lá em baixo. Conseguimos reunir, em muito pouco tempo, a
lenha suficiente para durar toda a noite.

- Vem daí - disse-me Dugal. - Vamos espreitar esta terra.

Caminhámos ao longo da falésia durante um bocado, para vermos o que poderíamos descobrir
a respeito das terras selvagens que nos rodeavam.

A Bretanha, tanto quanto eu visse, não era diferente do Éire. Tinha a mesma turfa verde e o
mesmo tojo, sobre o mesmo tipo de pedras...

e mais nada. Mesmo assim, depois de todo um dia a bordo do navio, era bom poder esticar as
pernas e sentir um terreno sólido por baixo dos pés.

Regressámos à praia, recuperámos os molhos de lenha que havíamos recolhido e


encaminhámo-nos para o acampamento. Em vez de descerem a terra, Fintán e a sua tripulação

tinham ficado no navio e lançado linhas de pesca das amuradas. Sem grandes esforços,
apanharam cavalinhas suficientes para nos alimentar a todos. Enquanto Connal

e Faolan limpavam o peixe, Dugal e eu tratámos da fogueira. Os peixes foram metidos em


espetos, que colocámos em volta do perímetro da fogueira para que cozinhassem,

o que acabou por provocar um fumo prateado que se ergueu para o céu crepuscular carregado
com o aroma a peixe assado.
Escutei as conversas à minha volta enquanto me entretinha a rodar os espetos e a observar o
sol poente que tingia as águas azuis-esverdeadas com um tom de ouro fundido.

O peixe estralejou no fogo e o céu ganhou um pálido tom amarelo sob a incessante tagarelice
das gaivotas que se tinham instalado nas falésias rochosas por cima

de nós, preparando-se para a noite.

Quando as cavalinhas ficaram cozinhadas, afastei os espetos da fogueira, arranquei uma tira
de carne a uma delas com a ponta dos dedos, soprei-a um pouco e meti-a

na boca. Na verdade, pensei que nunca provara nada tão bom em toda a minha vida. Por outro
lado, também com-

78

preendi que não engolira nenhum alimento desde o pequeno-almoço que tomara de manhã,
quando era ainda muito cedo.

Seria realmente verdade que partira naquela manhã? Foi uma pergunta que fiz a mim mesmo
enquanto girava o espeto na frente das chamas. Na realidade, parecia-me que

o Aidan que partira com um coração repleto de receios já não era o Aidan que comia peixe
assado no espeto e lambia os dedos.

Depois da refeição, foi o bispo Cadoc quem nos conduziu nas orações. Um monge em
peregrinação está dispensado dessa obrigação diária, uma vez que a própria jornada

é considerada como uma espécie de oração. Contudo, mesmo assim, não negligenciávamos a
oportunidade de reconfortarmos os nossos espíritos.

Começámos a entoar salmos quando as estrelas apareceram e as nossas vozes ressoaram


tanto nas rochas que nos rodeavam como sobre as águas tremeluzentes... e foi

apenas depois das últimas notas pairarem na noite que nos enrolámos nas capas e dormimos
na praia sob as estrelas.

Acordámos às primeiras luzes para um dia enevoado e de nuvens baixas. O vento mudara
durante a noite e vinha agora do leste numa brisa fraca e intermitente. O piloto

e Maél pararam à beira da água, com as pequenas ondas a lamberem-lhes os pés, observaram
o céu e conversaram entre si. Cadoc juntou-se a eles. Trocaram algumas palavras

e o bispo gritou:

- Levantem-se, irmãos! Temos o dia pela frente!


Enquanto Clynnog e Ciáran - de cada lado do pequeno bote redondo - rebocavam o bispo para
bordo do navio, os outros desfizeram o acampamento e seguiram-nos, patinhando

na água. Uma vez a bordo, Fintán pegou no leme e fez sinal a Connal para içar o ferro. Os
homens agarraram nos compridos remos e começaram a virar o navio.

- Vamos ajudá-los - sugeriu Dugal. - Aprender as artes dos marinheiros pode vir a ser-nos útil.

Pegou num remo, meteu-mo nas mãos e procurou outro para ele.

Dugal colocou-se num dos lados do navio e eu do outro. Clynnog mostrou-me como manobrar
o longo remo para um lado e para o outro, dentro da água.

- É mais como se estivesses a serrar madeira - disse - e menos do que bater as papas, Aidan.
Movimentos longos e fáceis. Não dobres os pulsos desse modo...

79

Lentamente, o navio deu a volta na água, começou a sair da pequena enseada e regressou
novamente ao mar aberto. Uma vez longe das rochas,

Fintán mandou içar a vela. O pesado tecido sacudiu-se uma vez, duas vezes... apanhou o vento
e encheu-se. O navio deslizou suavemente para águas profundas e partimos.

O piloto manteve um rumo paralelo à terra, deslocando-se para sul, ao longo da costa. A
manhã passou-se no meio da humidade do nevoeiro e das neblinas que se agarravam

às falésias e obscureciam as colinas, deixando muito pouco para ver.

Quebrámos o jejum com pão de cevada e com os restos do peixe da refeição da noite anterior.
Levei alguma comida a Fintán, à popa, que me pôs a segurar no leme enquanto

ele comia.

- Ainda acabamos por fazer de ti um marinheiro - afirmou, com uma risada. - Segura-o bem e
não tires os olhos da vela.

- Gwilym disse que íamos aportar a Ty Gwyn... - comentei.

- É verdade - confirmou o piloto, partindo o pão. - Precisamos de abastecimentos.

- É longe?

- A distância não é grande - replicou, pensativo, a mastigar o pão.

Fintán pareceu contentar-se com aquela resposta e pouco disposto a explicitá-la, pelo que
perguntei:
- A que distância?

O piloto continuou a comer o pão como se contemplasse a profunda complexidade da minha


pergunta. Por fim, semicerrou os olhos e respondeu:

- Logo verás.

Contudo, a previsão de Fintán estava errada. Nunca cheguei a ver a abadia a que tinham dado
o nome de Ty Gwyn.

80

NOVE

O vento refrescou, passou a ser de sudeste e soprou cada vez mais forte ao longo da manhã,
agitando as águas cinzento-ardósia em grandes vagas compactas e irregulares

que se lançavam contra a proa e flancos do navio como se quisessem empurrar-nos contra a
costa. Consequentemente, o nosso piloto, que observava o mar com os olhos

semicerrados, foi forçado a afastar o navio para longe da terra para evitar aproximar-se
demasiado e ser atirado para as rochas.

O mar continuou a engrossar, levantando a embarcação cada vez mais alto e mantendo-o no
cimo das vagas antes de a lançar, de lado, para os vales que se abriam entre

cada duas ondas. Concluí que aquele movimento de subida-oscilação-queda era mais do que
conseguia suportar e retirei-me para a popa do navio, onde podia ranger os

dentes e gemer à vontade.

Por volta do meio-dia o vento ganhou a força de uma tempestade e começou a empilhar
enormes vagas negras que lançavam espuma branca sobre todo o navio. Deixei-me

ficar sentado no meu ninho de sacos de cereal, encolhido, agarrado ao estômago e desejando
desesperadamente não ter comido peixe. Dugal, reparando na minha infelicidade,

foi buscar uma malga de água ao barril amarrado ao mastro.

- Toma, Aidan - gritou. - Bebe isto, irás sentir-te melhor.

Teve de gritar por cima do vento e do rugido das ondas porque.

embora já nos encontrássemos muito longe de terra, ainda conseguíamos ouvir o terrível
estrondo das águas que se lançavam sobre as rochas.
Colocou a malga nas minhas mãos e observou a subida do vaso de madeira até aos meus
lábios, enquanto eu derramava a maior parte do seu conteúdo sobre mim mesmo por

causa dos violentos movimentos do navio. A água tocou-me na língua e soube-me a ferro.
Estremeci ante aquele gosto... mas foi um estremecimento que se transformou

em espasmos e senti o estômago a revolver-se dentro de mim. Atirei-me para a

81

amurada mesmo a tempo de lançar o malfadado peixe de regresso ao mar de onde proviera.

- Não te preocupes, Aidan - disse-me Fintán. - Foi o melhor que podias fazer. Agora, já não irás
sentir-te tão mal.

Contudo, esta promessa pareceu-me demasiado remota e voltei a deixar-me cair sobre os
sacos, babando-me e lutando por ar. Dugal fez-me companhia até ao momento

em que os monges do mar o chamaram para ir ajudar a ferrar a vela. Isso, segundo
compreendi, faria com que o navio fosse mais difícil de governar. Contudo, tal como

Máel explicou, ou o faziam ou perdíamos o mastro.

- As coisas estão assim tão más? - interroguei-me, sentindo-me inexperiente e impotente.

- Não... - respondeu Máel, com uma careta - ainda não estão tão más que não possam vir a
estar piores.

- Quer dizer que podem ficar piores.? - perguntei, sentindo a apreensão a invadir-me.

- Oh, claro, podem sempre ficar piores. Isto não é mais do que uma brisa de Verão quando
comparada com algumas das tempestades que já enfrentei - declarou, com orgulho.

- Digo-te a verdade, Aidan, já naufraguei quatro vezes!

Pareceu-me uma gabarolice muito dúbia na boca de um marinheiro, mas Máel mostrou-se
muito contente consigo mesmo. Naquele momento o piloto chamou-o, para ir segurar

no leme, e fiquei a olhar enquanto Fintán se arrastava ao longo da amurada para ir ter com
Brynach e o bispo, que se encontravam junto ao mastro. Os três homens

conferenciaram brevemente, após o que o piloto regressou ao leme. Dugal também assistiu
àquela manobra e dirigiu-se ao local onde o bispo e Brynach se encontravam

com os braços em volta dos ombros um do outro para evitarem cair.

Depois de conversaram por alguns instantes, Dugal voltou para junto de mim e disse:
- Não podemos entrar em Ty Gwyn. A costa é traiçoeira e o mar está demasiado revolto para o
tentarmos.

- Então, para onde vamos? - gemi, embora na realidade já não me preocupasse muito com o
nosso destino.

- Para Inbhir Hevren - explicou. - É um grande estuário, com muitas baías e enseadas... e
menos rochas. Brynach diz que podemos procurar abrigo aí.

Todos os vestígios de terra já haviam desaparecido há muito no meio do nevoeiro e da


confusão de nuvens empurradas pelo vento. Interroguei-

82

- me sobre como seria que o piloto podia saber onde estava, mas faltavam-me as forças e a
vontade para lho perguntar. Tudo o que conseguia fazer era manter-me agarrado

à carga, esforçando-me por conservar a cabeça levantada.

Segurei-me aos sacos de cereal e rezei:

Grande do Céu, Três-em-Um, Todo-Poderoso, que se delícia a salvar homens, ouve a


minha súplica e salva-nos. Salva-nos dos tormentos do mar, da angústia das

ondas, dos grandes e terríveis temporais e dos ciclones! Protege-nos e santifica-nos. Agarra tu,
Rei dos Elementos, no nosso leme, e guia-nos em paz e segurança.

Amém, Senhor, assim seja!

A noite caiu sobre nós rapidamente e a tempestade cresceu ainda mais em vez de diminuir,
como se fosse buscar forças à escuridão. Ovento começou a soprar com mais

violência. Os cabos, tensos contra a tempestade, entoavam lamentos enquanto o mastro


estalava. O nosso pequeno navio era atirado para as profundezas e para o alto

das vagas, e o meu estômago agitava-se a cada subida e descida. Os sacos de cereal
concediam- nos alguma estabilidade, pelo que os homens que não eram necessários

para manter o navio a flutuar se amontoaram ali, agarrados uns aos outros.

A última luz do dia desapareceu e Fintán anunciou:

- Não podemos aproximarmo-nos da terra na escuridão. Seria demasiado perigoso tentar


entrar no estuário no meio desta tempestade, mesmo que o conseguíssemos ver.

- Então, que fazemos? - inquiriu Brocmal, com o medo a fazer-lhe tremer a voz.
- Continuamos a navegar - replicou o piloto. - Não te preocupes, irmão, o navio é resistente e
cavalgaremos a tempestade com toda a facilidade.

Dito aquilo, o piloto voltou para o leme e nós regressámos às orações murmuradas.

Rezámos durante toda a longa escuridão e confortámo-nos uns aos outros o melhor que fomos
capazes. A noite foi passando, interminável, mas acabou por se transformar

gradualmente em dia embora a luz não sofresse uma grande alteração. Dia ou noite, a
escuridão manteve-se pesada enquanto as vagas se erguiam à nossa volta como torres.

Passámos todo aquele terrível dia em busca de um qualquer sinal de terra. Todavia, a noite
voltou a cair sobre nós antes de descobrirmos a mais pequena sugestão

de uma linha costeira. Abrigámo-nos no fundo do navio, segurando-nos uns aos outros e aos
sacos de cereais. O bispo

Cadoc, gelado até aos ossos, tremendo e estremecendo, ofereceu-nos uma

83

contínua litania de salmos e orações de salvação. Os homens do Éire pertencem a uma tribo de
marinheiros e conhecem muitas invocações de natureza oceânica. O bom

do bispo conhecia-as a todas, recitou-as duas vezes, e depois disso ainda disse muitas outras
que eu nunca ouvira.

De tempos a tempos, um dos muir manachi fazia um turno ao leme mas foi o nosso piloto
quem aguentou com a maior parte desse fardo. Era como uma verdadeira rocha

nas garras da tempestade, e nem a pedra de Cúlnahara conseguiria ser mais firme do que
Fintán, o piloto. O meu respeito por aquele homem tornou-se maior a cada vaga

que se precipitava sobre as amuradas.

Trememos e rezámos durante toda aquela noite torturada pela tempestade, com os uivos do
vento e o trovejar das águas a soarem bem alto nos nossos ouvidos. Embora

nos encontrássemos numa verdadeira aflição, a nossa coragem nunca esmoreceu graças à fé
em Deus e à esperança de salvação.

Não desesperámos nem sequer quando o eixo do leme se partiu. Máel e Fintán puxaram o
leme quebrado para bordo e amarraram-no em segurança a um dos lados do navio.

- Agora, estamos à mercê do vento - informou-nos Máel.


- Que Aquele que fixou a Estrela Polar nos guie! - replicou Cadoc. - Senhor, estamos nas Tuas
mãos. Faz-nos seguir de acordo com a

Tua vontade.

Não notei grande diferença no comportamento do navio, com ou sem leme. Continuámos a
ser atirados de uma onda para a outra e soprados por todos os ventos. O mar

e o céu mudavam continuamente de lugar, e a água precipitava-se sobre nós em cascatas


geladas. Não teríamos ficado mais encharcados se nos tivéssemos instalado debaixo

de uma queda-d'água.

Aguentámos a provação durante três dias e três noites, sem conseguirmos comer ou dormir.
Nenhum desses confortos era possível. Ao fim desses três dias, e como ainda

não havia qualquer sugestão de que a tempestade estivesse para terminar, o bispo Cadoc
ergueu a sua cambutta e pôs-se de pé. Então, com os que se encontravam mais

perto dele a segurá-lo pelas pernas e pela cintura para o impedir de ser lançado borda fora
pelo vento ou pelas vagas, o bispo de Hy gritou uma seun para acalmar

a tempestade. A invocação que pronunciou foi esta:

"Que os Três me rodeiem, que os Três me socorram e me protejam, que

Tu me salves sempre!

Ajuda-me na minha terrível necessidade,

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ajuda-me nas aflições, ajuda-me em todos os perigos, que Tu me ajudes sempre!

Nem a água me afogará, nem as inundações me afogarão, nem o mar me afogará, porque Tu
estás a segurar-me!

Afastai-vos, tempestades, afastai-vos, ciclones, afastai-vos, cruéis ondas assassinas!

Em nome do Pai da Vida,

E do seu Filho Triunfante,

E do mais sagrado Espírito,

Com paz para todo o sempre,


Amém, amém, amém!"

Cadoc repetiu esta invocação por três vezes, sentou-se... e esperámos.

Ficámos à espera, agarrados uns aos outros e aos sacos de cereais enquanto a selvagem
tempestade rugia em volta das nossas orelhas. O navio sem leme rodopiava e

era atirado para aqui e para acolá pelas vagas do mar alteroso.

Então... aconteceu que Ciáran levantou a cabeça, olhou em volta e gritou:

- O Sol!

Todos nós nos erguemos de repente.

- Sol Invictus! O Sol conquistou a tempestade! Gloria Patri!

De súbito, toda a gente se esforçava para se pôr de pé, apontando para o céu e gritando
"Glória a Deus!" Louvámos Aquele que Tudo Sabe e todos os seus santos e anjos

pela nossa salvação.

Olhei para onde Ciáran estava a apontar e vi uma estreita fenda na sólida massa cinzenta das
nuvens. Era por ali que passava a luz dourada, numa vasta faixa com

inúmeros raios, perfurando o negrume quase nocturno do céu com as suas lanças de brilhante
luz da manhã.

A fenda alargou-se um pouco e derramou cada vez mais luz sobre o mar tempestuoso... e era
como se esse clarão cor de mel fosse um bálsamo despejado sobre a tempestade

para acalmar as suas águas agitadas.

Ficámos a observar a barra de luz, desejando que se expandisse e que aumentasse. Todavia, o
céu voltou a fechar-se e as nuvens de tempestade uniram-se novamente

umas às outras, ocultando o Sol. As nossas esperanças bruxulearam e apagaram-se com o


desaparecimento do último raio dourado.

Gelados, exaustos pela nossa longa provação, ficámos a olhar, perdidos e infelizes, para o lugar
onde havíamos visto a luz pela última vez.

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O vento voltou a soprar e estremecemos quando o ouvimos. Foi então, quando voltávamos a
encolher-nos para aguentarmos o reavivar da tempestade, que o céu se abriu
por cima de nós.

- Olhem! - berrou Clynnog, dando um salto. - O arco de Deus!

Virei-me e vi um grande arco de cores resplandecentes a brilhar no ar, como uma promessa de
Deus mais uma vez renovada. Céu azul e um arco-íris... duas das mais

belas visões da criação. Estávamos salvos. Virámos os rostos para o céu por cima de nós,
dando as boas-vindas ao regresso do Sol com grandes gritos de alegria e

de agradecimento.

Fintán, o piloto, que permanecia junto ao leme, gritou-nos:

- Vejam! A tempestade atirou-nos para o outro lado do mar!

Era verdade. As nuvens e o nevoeiro haviam desaparecido e ao longe, para sul, distinguia-se a
forma corcovada de uma terra que flutuava no horizonte.

- Conheces aquele lugar, Fin? - perguntou Cadoc, esperançado.

- De facto, até conheço! - replicou o piloto, permitindo-se um grande sorriso de aprovação.

- Nesse caso... - sugeriu o bispo, com ligeireza - serás capaz de nos dizer que terra é aquela que
estamos a ver?

- Assim farei! - declarou Fintán. - Irmãos, é Armórica. Embora as tempestades se tivessem


lançado sobre nós, acabaram por nos prestar um pequeno serviço. A travessia,

não obstante ter sido agitada pelas vagas, foi feita em metade do tempo. Estamos molhados e
gelados, é verdade...

mas Deus é bom e trouxe-nos ao nosso destino.

- E isso aconteceu sem leme? - admirou-se Connal.

- É verdade, Con - replicou Fintán. - A mão de Deus esteve sobre nós e guiou-nos. Agora, o
resto é connosco... - acrescentou, começando a dar ordens.

Os muir manachi lançaram-se rapidamente às suas tarefas. Os remos foram instalados e todos
nos agarrámos a eles e remámos. Sem leme, a utilização da vela, mesmo

sob um vento que acalmava rapidamente, teria sido inútil ou até perigosa e era mais fácil
governar o navio com os remos. Entretanto, o timoneiro pegara noutro remo

e amarrara-o à cana do leme para servir de leme provisório de modo a poder corrigir a
direcção das nossas remadas, uma vez que o mar continuava grosso e violento.

Observei as costas e os ombros dos homens que se encontravam na minha frente. Dobravam-
se endireitavam-se e encolhiam-se ao ritmo do cântico, e em breve também eu
adquiri alguma proficiência naquela tarefa e fiquei satisfeito por poder dar a minha
contribuição.

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Remámos muito tempo e o esforço, depois de três dias de inactividade, despertou-nos tanto a
fome como a sede. Gwilym e Ddewi abandonaram os remos e começaram a preparar

uma refeição. Foi nessa altura que soubemos que havíamos perdido a maior parte da nossa
água potável. Quando Ddewi se dirigiu ao barril do navio encontrou-o quase

vazio e descobriu que a água que restava fora contaminada com água salgada.

A tampa saltara durante a tempestade e a água potável entornara-se com os balanços


provocados pelas violentas vagas.

Não era um problema grave porque ainda tínhamos um barrilete com água e vários odres, mas
estes destinavam-se à nossa viagem por terra e isso significava que teríamos

de voltar a enchê-los logo que possível. O Bispo Cadoc, Brynach e Fintán uniram as cabeças
para conferenciarem por instantes e decidir o que deveria ser feito. Como

eu manobrava o último remo, encontrava-me suficientemente perto para os ouvir.

- Já que temos de ir a terra para reparar o leme... - salientou

Brynach - então que seja perto de um rio.

- Pode haver uma povoação... - sugeriu Cadoc.

- Sim, é possível... - concordou Fintán, contraindo os lábios.

- Não reconheces a costa?

- Não. - O piloto abanou a cabeça e acrescentou rapidamente: Sei que se trata de Armórica
mas não sou capaz de dizer se estamos a norte ou a sul de Nantes.

Foi a primeira vez que ouvi mencionar um local de paragem, mas numa viagem tão longa como
aquela era natural que tivéssemos numerosos destinos. Foi com algum desgosto

que compreendi o pouco que sabia a respeito da jornada em que embarcara, embora isso não
tivesse grande importância. Ia morrer quando chegássemos a Bizâncio. Era

algo de que tinha a certeza... e era mais do que o suficiente para ocupar os meus
pensamentos.

Mesmo assim, interroguei-me. Porquê Nantes? De acordo com o pouco que ouvira a respeito
das abadias gaulesas - e fora realmente muito pouco - os mosteiros da Gália
nada tinham em comum com os que conhecíamos na Bretanha ou no Éire. Dizia-se com
frequência que os monges continentais não eram Fir Manachi, ou seja, Monges Verdadeiros,

e muito menos Célé Dé! Nesse caso, porque iríamos em busca desses homens para nos
ajudarem nos nossos propósitos? Que interesse podiam eles ter na nossa jornada?

Pensei no assunto enquanto remava mas não consegui chegar a uma conclusão e contentei-
me com a ideia de que tudo me seria revelado muito

87

em breve. O bispo Cadoc e os seus conselheiros tinham sem dúvida bons motivos para
reunirem em conselho a fim de discutirem essas questões.

Decidi-me a manter os ouvidos bem abertos a fim de captar qualquer palavra perdida que me
pudesse iluminar.

Quando a refeição ficou pronta guardámos ansiosamente os remos e atirámo-nos a ela com
vontade. Sentei-me ao lado de Dugal e comemos os nossos pães de cevada e a

carne salgada enquanto olhávamos para a terra, a leste. A costa da Armórica, ou Pequena
Bretanha, como também era conhecida, estava agora muito mais perto.

- Algumas vez estiveste na Armórica, Dugal? - perguntei.

- Não, nunca - replicou. - No entanto, diz-se que neste momento há lá mais britânicos do que
na nossa Bretanha.

- Ah, sim?

- É o que dizem. Foi Samson de Dol quem os levou para lá, sabes?

Os que não levou consigo seguiram-no como puderam, para escaparem à praga dos Saexen. -
Dugal encolheu os ombros. - Pelo menos, é isso o que consta.

- Nesse caso... podemos ir a caminho de uma abadia britânica murmurei, narrando-lhe o teor
da conversa que escutara.

- Podes ter razão, irmão - concordou Dugal quando Máel lhe passou o jarro da água. Engoliu
uns bons golos e passou-mo para as mãos.

- Ainda faremos de ti um bom muir manach, Aidan - disse Máel, rindo-se. - Se todos fossem tão
diligentes como tu... poderíamos governar o Império.

A água era doce e boa. Engoli toda a que pude e passei o jarro ao homem. seguinte. Instantes
depois, Fintán voltou a mandar-nos para os remos
Remámos durante todo o dia, fazendo pausas de vez em quando para descansarmos e
bebermos. Os monges do mar pareciam indiferentes ao esforço. Cantavam de uma maneira

regular, marcando as remadas com as suas vozes. Aqueles entre nós que não estavam
acostumados a esse trabalho envolveram as mãos inchadas em tiras de pano e fizeram

o que puderam no manejo dos remos. Ah, mas era um trabalho duro, ficávamos com cãibras
nos ombros e os nossos estômagos começavam a doer do esforço.

A costa tornava-se visivelmente maior a cada remada. As colinas amarelo-acastanhadas


tingiram-se com os primeiros verdes da Primavera e apareceram algumas rochas

cinzentas, mas não tantas como na costa da nossa Bretanha. Mais para baixo, no meio das
colinas, avistei algumas manchas de um verde mais escuro, o que demonstrava

a existência de bosques ou

88

florestas embora ainda não se conseguissem ver bem àquela distância. Todavia, na minha
opinião, a paisagem não era nada parecida com a do Éire. Até a água mudara

de cor e tinha agora um pálido tom cinzento-esverdeado.

Havia muitas algas a flutuar à superfície, que tinham sido arrancadas do fundo pela
tempestade e se agarravam aos remos, dificultando o seu manejo em particular

para aqueles cujas mãos não estavam habituadas a pegarem em coisas mais pesadas do que a
pena.

Fintán mantinha os seus olhos aguçados na linha de costa e procurava sinais de um qualquer
povoado. Não nos parecia que as habitações pudessem ser vistas do mar

mas pensávamos que, no mínimo, devia ser possível avistar vestígios de fumo mais para o
interior. Se isso não resultasse, então continuaríamos ao longo da costa

até nos aparecer um rio ou ribeiro onde pudéssemos desembarcar para arranjar água e fazer
as necessárias reparações.

- Para onde viramos, Fin? - gritou Brynach para o piloto. - Norte ou Sul?

- Norte! - decidiu Fintán, depois de pensar por instantes. Manobrou o leme improvisado com
força, o navio virou lentamente e começámos a subir a costa. As remadas

tornaram-se mais cansativas porque a ondulação continuava a ser forte e já não contávamos
com a ajuda do vento para nos empurrar. Agarrámo-nos bem aos remos, lutando

contra as ondas que ameaçavam afundar-nos a cada balanço lateral.


Sentia o esforço exercido nos remos bem no fundo dos meus músculos doridos, para além de
ter as palmas das mãos esfoladas e a pulsar.

Não foi preciso muito para começar a lamentar a ausência da vela e para compreender até que
ponto fora grave a perda do leme.

O Sol descia para o mar ocidental e ainda não tínhamos visto sinais de qualquer povoação ou
rio.

- Rememos um pouco mais... - sugeriu Brynach - e talvez descubramos qualquer coisa que nos
possa servir.

Não sei dizer o que ele pensava que poderíamos descobrir. A terra para o interior da costa
continuava a ser monótona e incaracterística em todas as direcções, pelo

menos até onde os nossos olhos podiam alcançar.

Se existiam povoações por perto, então estavam 3em escondidas. Manobrei o leme e olhei
com ansiedade para a costa, que aparentemente era quase formada por calhaus,

embora com algumas rochas a erguerem-se na margem e também dentro de água.

A luz do Sol começou a desaparecer e pareceu-nos que iríamos ser forçados a abandonar o
nosso plano.

89

- A noite estás prestes a chegar... - comentou Brynach. - Talvez seja melhor desembarcarmos.
Continuaremos as buscas logo pela manhã...

- Está bem... - concordou o piloto - mas vamos ver o que haverá para lá daquele promontório -
acrescentou, indicando o alto e largo cabo que avançava pelo mar, mesmo

na nossa frente.

Rodeámos o promontório muito lentamente... A costa do outro lado começou a aparecer e


avistei o grande arco de uma baía bordejada por uma praia de areia, sobre a

qual as ondas se lançavam, desfazendo-se em espuma e neblina. Para lá da praia erguiam-se


falésias baixas, que davam lugar a três colinas escuras. Por trás da mais

distante erguia-se um fio de fumo branco. Brynach avistou-o imediatamente e apontou-o.


Estávamos todos a olhar para a fina pluma que se erguia no crepúsculo e a

sonhar com lareiras quentes e boas-vindas... quando Finán gritou:

- Navio na baía!
Virei novamente os olhos para as águas ondulantes e avistei um navio negro e baixo, com uma
proa semelhante a uma serpente, que cavalgava a ondulação e deslizava

suavemente para a baía. Estávamos tão atentos ao fumo da povoação que nenhum de nós
notara a outra embarcação.

Porém, os homens a bordo do navio estrangeiro já nos tinham visto.

O navio negro mudou de rumo e virou-se para nós no momento em que a sua vela caiu e uma
dupla fileira de remos começou a chapinhar nas águas.

- Óptimo! - comentei, para Dugal, que se encontrava ali perto. Talvez nos ajudem ou, pelo
menos, poderão dizer-nos onde estamos.

Dugal não respondeu e olhei-o. Tinha o rosto contraído, os olhos semicerrados e muito
atentos.

- Dugal? - perguntei.

- A única coisa que aqueles nos darão... - murmurou - será uma morte prematura.

Ia perguntar-lhe o que queria dizer com o comentário quando Fintán deu o alarme:

- Lobos do Mar!

90

DEZ

- Aos remos! - gritou Fintán, empurrando o leme improvisado de modo a virar o navio. -
Remem pelas vossas vidas!

Fiquei a olhar, de boca aberta, incrédulo. Lobos do Mar... Escutara aquelas temidas palavras
durante toda a minha vida e receara-as... mas agora, confrontado com

a realidade, custava-me a acreditar nelas.

- Rema! - gritou Dugal, saltando para o seu lugar. Agarrou no remo e mergulhou-o na água
como um homem enlouquecido.

Fintán gritou a cadência e nós acompanhámos o ritmo. O Bán Gwydd virou e ganhou
velocidade a pouco e pouco. A cadência acelerou. Fintán gritava cada vez mais depressa...

e nós remávamos cada vez mais rápido.


Mantive os olhos postos nas largas costas de Dugal. Não me atrevia a erguê-los ou a virar a
cabeça para a esquerda ou direita, com medo do que pudesse ver. Em vez

disso, continuei a golpear a água com o remo e rezei, a cada remada: Senhor, tem piedade!
Cristo, tem piedade!

Cadoc mostrou-se digno do seu papel. A sua voz, bela e forte, ergueu-se para proteger o seu
rebanho e transformou-se numa arma de gume bem afiado. Voltou para o

mastro, ergueu o bordão e implorou a Miguel, o Valente, que nos rodeasse e abrigasse
debaixo das suas asas protectoras. Soltou a invocação com uma voz poderosa e

deu novo alento a todos os que a ouviram.

De algures, por trás de nós, chegavam-me os sons de remos propulsionados com força e de
gritos. Já esquecido de todo o cansaço, baixei a cabeça e remei para salvar

a minha querida vida.

O suor escorria-me para os olhos. A respiração saía-me ofegante e áspera, e o remo tornou-se
escorregadio e difícil de segurar. Olhei para as mãos e vi que tinha

o remo manchado de sangue.

- Remem, por amor de Deus! - gritou Fintán.

Um instante depois ouvi um guincho, espreitei por cima do ombro de Dugal e vi que o navio
negro se encontrava perigosamente perto. Tinha um

91

homem de peito nu agarrado à alta proa, com uma corda na mão. Na extremidade da corda
via-se uma fateixa com três pontas. O braço do homem rodopiou por cima da sua

cabeça, uma vez, duas vezes... três vezes... O estrangeiro soltou outro forte grito e largou a
corda... que se contorceu no ar por cima da cabeça do piloto... e

desceu. A fateixa embateu na amurada com uma pancada pesada e prendeu-se com força.

O cabo ficou tenso e a nossa embarcação deu um safanão na água, o que provocou gritos
selvagens de aprovação por parte dos que se encontravam a bordo do navio negro.

Mantivemo-nos agarrados aos remos mas remar era inútil. Por muito que tentássemos, não
conseguíamos que o navio avançasse.

Ouvi alguns estrondos. Levantei os olhos e verifiquei que as primeiras três filas de remadores
de cada lado do navio inimigo já tinham puxado os remos para bordo
e pegavam em machados e escudos. Naquele momento já todos os marinheiros inimigos
gritavam, num berreiro de fazer estourar os tímpanos.

Dugal retirou o remo dos apoios e correu para o leme.

- Agarrem a fateixa! - gritou. - Depressa!

Vi que o navio inimigo se aproximava à medida que os Lobos do

Mar puxavam a corda. Fintán, Clynnog e Faolan atiraram-se à fateixa e tentaram soltá-la.
Dugal, junto à cana do leme, brandia o remo como se fosse uma arma. Os Lobos

do Mar uivaram, agitando ansiosamente os seus machados.

Cadoc mantinha-se junto ao mastro e implorava a ajuda dos anjos enquanto todos nós nos
debatíamos com os remos e tentávamos desesperadamente mantermo-nos fora do

alcance dos guerreiros do navio negro.

A ondulação ergueu o Bán Gwydd bem alto e inclinou-o para o lado, ameaçando atirar-nos a
todos para dentro de água, mas a onda passou e o navio endireitou-se.

Os Lobos do Mar puxavam o cabo com todas as suas forças, estavam quase sobre nós e a proa
do navio negro encontrava-se prestes a tocar na nossa popa. Tinha seis

guerreiros inimigos amontoados na proa, de pé em cima da amurada, prontos para a


abordagem.

Dugal, descrevendo um grande arco com o remo, mantinha-os em desequilíbrio. Entretanto,


Fintán com o rosto vermelho e as veias salientes no pescoço e testa, esforçava-se

por soltar a fateixa.

- Aidan! - gritou Dugal. - Chega aqui!

Peguei no remo e juntei-me a Dugal. Apoiei-me contra a amurada e fiz o meu melhor para
manter o remo junto aos rostos dos inimigos.

92

Agitei-o para um lado e para o outro, achando-o desajeitado nas mãos ensanguentadas, isto
enquanto os Lobos do Mar, precariamente empoleirados na amurada, se atiravam

a ele com os machados e procuravam uma oportunidade para saltarem para bordo do nosso
navio, onde todos gritavam e caíam uns em cima dos outros, numa confusão.

- Remem! - berrou Máel, tentando fazer-se ouvir sobre a gritaria.


- Não larguem os remos! Remem!

Um dos Lobos do Mar, um grande e forte gigante com tranças avermelhadas a aparecerem por
baixo do casco de guerra, esticou-se para a frente, agarrado ao delgado

pescoço da serpente que ornamentava a proa do navio, e atacou o meu remo com uma
enorme moca. O golpe acertou em cheio, fez vibrar o remo nas minhas mãos e quase

o deixei cair. Máel apareceu a meu lado, brandindo um remo por cima da cabeça. O Lobo do

Mar tentou outro golpe selvagem com a moca mas Máel baixou o remo e atingiu o inimigo
num ombro. O homem gritou de raiva e dor, oscilou e quase caiu ao mar. Contudo,

no último instante, os companheiros puxaram-no para trás e o seu lugar foi ocupado, num
abrir e fechar de olhos, por outro Lobo do Mar.

Os dois navios estavam quase a tocar-se. O mar elevou-se por baixo do Bán Gwydd, fazendo
subir uma das amuradas laterais e obrigando a outra a descer. O mar precipitou-se

para dentro do navio por cima dessa amurada e a embarcação já se encontrava meia cheia de
água quando conseguiu endireitar-se.

- Ajudem-me! - gritou Fintán.

O cabo aliviara um pouco a pressão quando o navio rolara. Por um breve instante, o piloto
conseguira soltar a fateixa mas o inimigo voltara a puxar novamente o cabo

e entalara-lhe a mão entre o metal e a amurada.

Larguei o remo e corri para o piloto.

Agarrei na fateixa, encostei um pé à amurada e puxei-a com todas as minhas forças. Os dentes
da fateixa cederam apenas um pouco.

Ouvi um grito e olhei para cima no momento em que um Lobo do

Mar saltava para a nossa amurada. O machado cortou o ar por cima da minha cabeça e caí
para trás. Fintán soltou um grito de dor quando a fateixa de ferro voltou

a comprimir-lhe a mão. Rebolei para um lado, pus-me de joelhos e agarrei a fateixa, sacudindo
com força a sua única ponta livre.

Entretanto, o Lobo do Mar equilibrava-se sobre a amurada e preparava-se para atacar.

Vi o machado pairar no céu e começar a descer. No mesmo instante, escutei um zumbido no ar


e vi um remo a voar ao encontro da lâmina

93
que descia para mim. O machado embateu com força na pá do remo e ficou preso. Dugal
puxou o remo com violência, desequilibrou o inimigo e arrastou-o na sua direcção.

Quando o guerreiro caiu, Dugal atirou-se a ele, lançou o cotovelo para a frente, atingiu o
homem no peito e propulsionou-o contra a amurada. O remo, ainda com o

machado cravado, caiu no fundo do navio.

Dugal pôs-lhe um pé em cima, agarrou no cabo do machado e tentou libertá-lo... no preciso


momento em que a ondulação crescia, erguia o navio e começava a incliná-lo.

o machado soltou-se e Dugal lançou-o contra o cabo da fateixa.

Ainda estava a tentar cortar o cabo quando apareceu outro Lobo do

Mar.

- Dugal, por trás de ti! - gritei.

o guerreiro inimigo passou um braço em volta da garganta de Dugal e puxou-o para trás... mas
o gigantesco monge não deixou de golpear o cabo. Uma vez... duas vezes...

e ouviu-se um estalo. O cabo partiu-se.

Repentinamente livre do navio negro, o Bán Gwydd balouçou na vaga.

o mar e o céu mudaram de lugares. O navio rolou sobre si mesmo.

Senti-me a escorregar e estendi as mãos... mas não tinha onde me agarrar e caí de cabeça nas
ondas remoinhantes. O sabor do sal na boca interrompeu-me o grito.

o choque da água fria sobressaltou-me. Bati as pernas, agitei os braços e nadei para a
superfície. A capa e o manto colavam-se-me às pernas e puxavam-me para o fundo.

Debati-me, com o pânico a invadir-me e os pulmões a arder.

Avistei uma mancha escura por cima de mim e pensei que era o navio. Esbracejando
furiosamente, nadei para ele, fiz um último esforço e subi à superfície. Todavia,

só tive tempo para uma golfada de ar antes de uma nova onda me cobrir.

Quando a minha cabeça deslizava para baixo de água, uma das mãos embateu em qualquer
coisa dura. Agarrei-a e segurei-me. Alguns momentos depois consegui pôr a cabeça

fora da água e descobri que estava agarrado à amurada do navio, agora virado de quilha para
o ar e meio afundado.

A onda que nos virara também empurrara os Lobos do Mar para longe.

Ouvi-os a troçarem de nós com gritos roucos que assaltavam o céu com as suas vulgaridades.
Icei-me um pouco mais, junto ao flanco do navio, e sacudi a água salgada dos olhos. Via muito
pouco porque me encontrava rodeado, por

94

todos os lados, pelas enormes ondas. Contudo, a ondulação acabou por erguer o navio meio
afundado e tive um relance da embarcação inimiga que se afastava lentamente.

Ao que parecia, os Lobos do Mar tentavam virar o seu navio para regressarem para junto de
nós, mas as ondas empurravam-nos rapidamente para a costa enquanto, simultaneamente,

os afastavam de nós. Calculei que quando conseguissem dar a volta já estaríamos ao alcance
da praia. A vaga passou e o Bán Gwydd desceu para o vale entre duas ondas.

Quando a vaga seguinte voltou a erguer-me, verifiquei que o navio negro já se encontrava
mais longe. Nunca mais voltei a vê-lo.

- Aidan! Socorro!

Ouvi espadanar atrás de mim, virei-me e vi Brocmal a debater-se na água. Segurei-me à borda
do navio, estiquei-me, agarrei-o pelo rebordo da capa e puxei-o para

mim.

- Aqui, Brocmal... Segura-te!

Cuspindo água e tremendo, Brocmal conseguiu segurar-se e içar-se para cima do casco virado
enquanto eu observava o mar à minha volta, à procura dos outros.

- Segura-te bem, Brocmal - disse-lhe, voltando a deslizar para dentro de água.

- Onde vais, Aidan?

- Procurar os outros. - Mantive-me agarrado à amurada submersa e avancei ao longo do casco.


Quando cheguei à proa, passei-lhe por baixo e comecei a percorrer o outro

lado. Clynnog, Faolan e Ciáran estavam seguros ao velame.

- Aidan! Ciáran! - gritou Clynnog, quando nos avistou. - Viste algum dos outros?

- Só o Brocmal - retorqui. - Está do outro lado do navio. E o Dugal?

- Penso que vi o Brynach... - respondeu Ciáran - e mais ninguém. - Olhou em volta, para as
enormes ondas. - Não sei o que lhe aconteceu.

- E agora, que vamos fazer? - perguntei.


- Não podemos fazer nada enquanto não chegarmos à costa - explicou o monge marinheiro. -
De qualquer modo estamos com sorte, o vento e as ondas estão a empurrar-nos

para a praia.

Não consegui deixar de me maravilhar com a sua plácida aceitação da nossa provação. Sorte?
Numa situação extrema como aquela, não me parece que tivesse escolhido

uma tal palavra.

95

- Vou voltar para junto do Brocmal - ripostei - para lhe explicar a nossa boa sorte.

Continuei a minha circumnavegação do navio virado, não encontrei mais ninguém e


aproximei-me de Brocmal, que trepara mais para o alto do casco. Pedi-lhe que me

ajudasse mas não quis estender-me uma das mãos com receio de voltar a deslizar para a água.

- Podes trepar sozinho - declarou, com secura. - Não me arrisco a outra queda.

- Clynnog, Faolan e Ciáran estão do outro lado da quilha - expliquei, contorcendo-me para
subir ao casco, para junto dele. - Clynnog diz que em breve chegaremos

à costa, graças ao vento e à 3 ondas.

- E quanto aos outros? - perguntou Brocmal. - Onde está o bispo Cadoc?

- Não sei. Ciáran só vi u o Brynach, mais ninguém.

- Devem ter-se afogado todos, suponho... - comentou Brocmal incluindo o teu Dugal.

Não soube o que responder àquilo e mantive a boca fechada.

A ondulação tornou-se muito mais severa à medida que nos fomos aproximando da costa.
Agora, quando o navio se erguia no alto de uma vaga já me permitia avistar as

fileiras de ondas, brancas e furiosas, que se lançavam sobre a costa, e também ouvia o seu
rugido constante. Pouco depois, essas mesmas ondas começaram a rebentar

à nossa volta e por cima de nós.

Ouvi um grito e olhei para cima. Os monges marinheiros tinham trepado para o alto do casco e
estavam agarrados à quilha.

- Venham cá para cima! - gritou Clynnog novamente. - Subam para aqui, é mais seguro!

Dei uma cotovelada em Brocmal e indiquei-lhe que se deveria juntar aos outros. Contudo,
recusou mexer-se e manteve os olhos temerosos pousados nas ruidosas ondas
da rebentação.

- Ele diz que é mais seguro lá em cima - gritei-lhe. A boca de Brocmal moveu-se, numa
resposta, mas não o consegui ouvir sobre o trovejar do mar.

- Não se quer mexer - gritei para Clynnog.

- Então, pelo menos, tem cuidado contigo - aconselhou-me o monge marinheiro.

Olhei para Brocmal, que tremia e continuava desesperadamente agarrado ao casco.

- Acho melhor ficar aqui, com ele - respondi.

96

- Segura-te bem - gritou Clynnog, esforçando-se por se fazer ouvir por cima do estrondo das
vagas. - A coisa vai ficar feia... Afasta-te do navio o mais depressa

que puderes logo que sintas a areia debaixo dos pés,

Compreendeste?

Como Brocmal nem sequer fazia uma tentativa para olhar para Clynnog, comecei a repetir o
conselho do marinheiro.

- Eu ouvi! - afirmou o desagradável monge. - Ainda não estou morto.

Não tive tempo para responder porque houve uma vaga que se esmagou sobre o navio e a
partir desse momento necessitei de todas as minhas forças para me manter agarrado.

O mar atirou o impotente Bán Gwydd para um lado e para o outro como se o navio não
passasse de um tronco a flutuar nas ondas, erguendo-o, fazendo-o mergulhar, primeiro

a proa e depois a popa, pondo-o a rodopiar e cobrindo-o de torrentes de água. Mantive-me


agarrado, a tremer de frio e com os dedos a doerem, rezando pela salvação.

97

ONZE

As vagas cobertas de espuma branca precipitavam-se sobre nós vindas de todos os lados ao
mesmo tempo e não conseguia ouvir nada para além do trovejar das ondas que
colidiam umas com as outras e se lançavam contra a praia. Cada vaga que surgia fazia-me
deslizar cada vez mais para baixo ao longo do flanco do navio. Por fim, fui

incapaz de me manter agarrado. Houve uma última grande vaga que se lançou sobre mim, fui
arrancado do meu lugar, rodopiei e rolei debaixo de água.

Afundei-me, tonto e desorientado, agitando os braços e as pernas...

até que o meu joelho tocou em qualquer coisa sólida. Era areia!

Puxei as pernas para baixo de mim e levantei-me. Para minha surpresa, fiquei com metade do
corpo fora da água. A costa estava directamente na frente, a não mais

de cinquenta ou sessenta passos. Recordando-me do conselho de Clynnog para me afastar do


navio, mexi os pés e comecei a correr. Contudo, ainda não havia dado três

passos quando fui atingido por trás e atirado abaixo. As ondas enrolaram-me e arrastaram- me
pelo fundo. Quando a onda recuou, debati-me para me ajoelhar e fiquei

a cuspir areia. Dei mais dois passos antes da onda seguinte me apanhar, mas daquela vez já
estava preparado e consegui manter-me de pé.

Verifiquei que o Bán Gwydd se encontrava agora a cerca de cinquenta passos de distância,
com os três monges do mar ainda a bordo, agarrados à quilha. Segui o navio,

caindo uma única vez, arrastei-me para fora da espuma da zona de rebentação e deixei-me
cair na praia. Jazi ali por instantes, de olhos fechados, com o coração a

martelar, recuperando as poucas faculdades e forças que ainda me restavam.

- Deus seja louvado! Estás vivo, Aidan?

- Por pouco... - respondi, tossindo. Abri os olhos e vi Gwylin de

Pe por cima de mim, com o cabelo em cima dos olhos e a escorrer água por toda a parte.

98

- É o Aidan! - gritou para alguém, por cima do ombro. - Não está ferido. - Virou-se para mim e
perguntou: - Estás ferido, irmão?

- Aghhh! - respondi, cuspindo água salgado e ofegando por ar.

A seguir recordei-me: - Brocmal estava comigo, num dos lados do navio.

Não sei o que foi feito dele.

Rolei e pus-me de gatas, mas Gwylim ajudou-me a pôr-me de pé.


- O navio está ali adiante - declarou - pelo que Brocmal não pode andar longe.

O desengonçado britânico começou a caminhar pela praia. As ondas haviam empurrado a


embarcação bem para cima da areia, onde ficara presa, a não mais de trinta passos

de distância. Clynnog, Ciáran e Faolan desciam do casco para a areia quando nos
aproximámos.

- O Brocmal está convosco? - perguntei, tentando fazer-me entender por cima do estrondo das
ondas.

- Infelizmente, não - respondeu Ciáran. - Não o vimos.

- Quem foi que encontraram? - inquiriu Clynnog.

- Brynach e Cadoc estão a salvo - disse-nos Gwilym, apontando para uma saliência rochosa, um
pouco mais para diante, ao longo da praia.

- O Ddewi e eu andávamos à procura dos outros.

- Nesse caso, já somos oito - declarou Faolan.

- Nove - corrigiu-o Gwilym - contando com o Brocmal... se o conseguirmos encontrar.

Ouvimos um grito vindo de algures do outro lado da praia. Virámo- nos, olhámos ao longo da
costa e vimos quatro figuras que cambaleavam na nossa direcção. Mesmo

à distância, consegui perceber que uma delas era a de Dugal. Ele e outro monge apoiavam
uma terceira pessoa entre eles.

- É o Dugal - expliquei - e tem o Fintán com ele.

- E o Con e o Máel! - exclamou Clynnog, protegendo os olhos com as mãos. Apressou-se ao


encontro dos outros e Ciáran foi atrás dele.

- E faz doze... - comentou Faolan. - Só falta o Brocmal.

- Não pode estar longe - repliquei, avançando para a água. O Sol já ia baixo. Protegi os olhos
contra o seu clarão e examinei as ondas em busca de um qualquer sinal

de Brocmal. Os monges do mar também se puseram a observar a rebentação. Estávamos


absorvidos nessa tarefa quando ouvimos um grito de Gwilym:

- Além! O Ddewi encontrou-o!

Gwilym e Faolan começaram a correr na areia em direcção ao local onde Ddewi estava
agachado sobre uma figura que jazia meia dentro de

99
água. Quis segui-los mas, quando me virei, senti qualquer coisa a embater contra a minha
perna. Olhei para baixo e vi a cabeça e os ombros de um homem a oscilar,

para cima e para baixo, na rebentação da onda.

- Aqui! - gritei, surpreendido! - Encontrei alguém!

Contudo, ninguém me ouviu porque me tinham deixado sozinho e continuavam todos a correr
pela praia para irem ajudar Ddewi.

Agarrei num braço nu, puxei o corpo para a areia até onde fui capaz e virei-o. Nem sequer
precisei de ver a corrente de prata ao pescoço e a grossa braçadeira também

de prata para perceber que tinha encontrado um Lobo do Mar.

Era um homem grande. Tinha barba e cabelos louros muito compridos, um urso tatuado a
negro no braço direito e usava um largo cinto de couro em volta da cintura.

Trazia uma comprida faca com punho de ouro enfiada no cinto. Não usava túnica ou manto,
mas exibia perneiras de um belo couro e borzeguins feitos de pele de porco,

ainda com os pêlos.

Parecia completamente sem vida... mas achei melhor certificar-me, pelo que me ajoelhei e
encostei a orelha ao peito do homem.

Ainda tentava ouvir um batimento do coração quando uma onda me apanhou por trás,
fazendo-me cair e atirando-me para cima do corpo.

Aquele abraço gélido desgostou-me tanto que me pus de pé rapidamente e comecei a afastar-
me. Todavia, detive-me e voltei para trás. Não podia deixar o corpo num

local onde as ondas o poderiam arrastar de volta para o mar gelado.

- Que Cristo tenha piedade... - murmurei, por entredentes cerrados. Respirei fundo, agarrei os
dois punhos do homem e arrastei o corpo bastante para cima da marca

da água na areia - a uns bons quinze passos de distância. - após o que me deixei cair a seu lado,
respirando com dificuldade

A minha acção precipitada deve ter reacendido a vida no cadáver porque, quando me sentei
sobre os calcanhares a olhar para a forma pálida e fria a meu lado, o corpo

sofreu uma convulsão e vomitou uma golfada de água do mar. A seguir, o bárbaro começou a
tossir e a engasgar-se tanto que pensei que podia voltar a afogar-se, pelo

que acabei por o empurrar, deitando-o de lado.

Saiu-lhe mais água da boca. O homem aspirou o ar de um modo prolongado e irregular,


gemendo baixinho. Levantei-me, preparado para fugir se se pusesse de pé num salto
e me atacasse. Os meus olhos pousaram na faca que trazia à cintura e ocorreu-me que talvez
fosse melhor tê-la em meu poder.

100

Agachei-me e estendi cautelosamente a mão para o cinto.

Foi nesse momento que os olhos do bárbaro se abriram de repente. A expressão que vi
naqueles frios olhos azuis - uma mistura de surpresa e terror - fez-me parar.

Imobilizei-me, com as pontas dos dedos quase a tocarem no punho da faca. O homem reparou
na mão perto da faca e ficou rígido.

Retirei a mão rapidamente e sentei-me. O bárbaro pestanejou, com as feições a darem forma
a uma expressão de absoluto espanto. Olhei para ele, ele olhou para mim...

e nenhum de nós se moveu. Penso que, nesse momento, passou entre nós uma espécie de
compreensão porque o homem descontraiu-se, voltou a fechar os olhos e encostou

o rosto à areia.

- Que tens tu aí, Aidan? - perguntou alguém. Levantei os olhos quando Dugal e os outros se
aproximaram.

Fintán, com o rosto contraído pela dor e agarrado a um braço, mantinha-se apoiado aos
ombros de Dugal e Connal. O pulso do piloto estava vermelho e inchado e a mão

não se mexia. Máel agachou-se a meu lado enquanto os outros se reuniam em volta a olharem
para o corpo estendido na areia.

- Está morto? - perguntou Clynnog.

- Já esteve... - respondi - mas recuperou.

- Que vamos fazer com ele? - interrogou-se Máel. Começámos a discutir o assunto e
estávamos a chegar a uma decisão quando Gwilym regressou.

- Brocmal não se afogou... - informou-nos - embora me pareça que engoliu o seu peso em água
e areia. Brynach e Cadoc estão com ele.

- Então, sobrevivemos todos - disse Clynnog. - Os treze... e mais um... - acrescentou, tocando
no bárbaro com a ponta de uma pé.

O Lobo do Mar acordou com aquele toque e encolheu-se quando viu os monges sobre ele.
Dugal, sendo um tipo de homem muito diferente de mim, baixou-se e arrancou a

faca do cinto do bárbaro com um só movimento.


- Permite-me que fique com isto, meu amigo - disse. O guerreiro ainda tentou agarrar a lâmina
mas Dugal foi mais rápido. - Paz. Fica quieto e nada te acontecerá.

Era óbvio, pela expressão de medo e espanto no rosto do bárbaro.

que não compreendia nada do que lhe dizíamos. Pensando em tranquilizá-lo, fiz um
movimento calmo e suave com a mão. O homem respondeu com um movimento do queixo

e deitou-se.

101

- Temos de ir - afirmou Gwilym. - O Bryn pensa que a povoação não está longe, mas acha
melhor que a procuremos antes do anoitecer.

- O navio... - interveio Fintán, numa voz abafada - tem de ficar em segurança. Não podemos
deixá-lo à mercê das ondas.

- Navios e povoações! - protestou Connal. - Homem, não serás capaz de me dizer o que terá
acontecido ao livro abençoado?

- Suponho que está em segurança - retorquiu Gwilym, parecendo despreocupado.

- Estamos a perder horas de luz - comentou Dugal. - O Sol irá pôr-se em breve.

- Nada receies pelo Bán Gwydd, Fin - disse Clynnog. - Venham, irmãos, temos de nos apressar.

Ele e os monges do mar apressaram-se na direcção do casco virado e começaram a escavar a


areia ao lado da amurada. Não precisaram de muito tempo para escavarem um

buraco suficientemente grande para deixar passar Máel, que rastejou para o interior. Um
instante depois surgia na areia um cabo, logo seguido por um martelo e por

várias estacas de madeira.

Deixámo-los a trabalhar na amarração do navio e dirigimo-nos para junto do bárbaro. Dugal


obrigou-o a pôr-se de pé, retirou-lho o cinto e enrolou-o em volta dos

braços do guerreiro, fixando-lhos aos flancos.

A seguir dirigimo-nos para onde o bispo e os outros estavam à nossa espera.

Ddewi encontrava-se ajoelhado ao lado de Brocmal, que se sentara contra as rochas com as
pernas abertas na sua frente. Brynach e o bispo estavam de pé, ali perto,

conversando tranquilamente. Viraram-se quando nos aproximámos e exprimiram surpresa


ante a presença de mais uma pessoa no nosso grupo.
- Foi o Aidan quem o salvou - explicou Dugal com simplicidade.

- Não gostámos da ideia de o deixar na praia.

- Só o Aidan se lembraria de salvar um bárbaro... - murmurou Brocmal.

- E eu pensei que te estava a salvar a ti... - retorqui.

Brocmal tossiu e limpou a boca numa manga encharcada. Depois.

como se aqueles movimentos tivessem sido um esforço demasiado grande, voltou a deixar-se
cair contra a rocha.

- Estará em condições de caminhar? - perguntou Fintán, indicando o abatido Brocmal.

Ddewi levantou os olhos quando o piloto falou, viu o braço do timoneiro e pôs-se de pé num
salto.

102

- Está menos fraco do que parece... - explicou o médico. - Deixa-me ver essa mão, Fin.

- Não te preocupes comigo, jovem Ddewi - retorquiu o piloto. Se necessário, posso pilotar o
navio com uma única mão.

Ddewi examinou-lhe a mão inchada com toques leves e rápidos.

- Consegues mexer os dedos, Fin? Experimenta... - A experiência provocou uma contracção de


dor ao timoneiro, que oscilou sobre as pernas.

- Nada disto teria acontecido... - queixou-se Brocmal amargamente

- se não fosse o Dugal. O castigo de Deus caiu sobre nós por termos permitido que a injustiça
que ele cometeu continue por punir. Os desastres acompanharão os nossos

passos enquanto o malfeitor for tolerado entre nós.

- Irmão, tem tento na língua! - atirou-lhe o bispo, num tom zangado. - A questão do acidente
de Libir está encerrada. Escuta-me, Brocmal:

não voltarás a falar nisso ou descobrir-te-ás sujeito a castigo. - O bispo virou-se para Dugal e
acrescentou: - Lorde Aengus tinha razão quando te recomendou. Confesso

que me sinto muito mais seguro sabendo que temos entre nós um homem com a tua perícia.
Posso pedir-te para permaneceres a meu lado, irmão?

- Se isso lhe agrada, bispo Cadoc...

- Agradava-me muito, meu filho.


- Então não precisa de dizer mais nada - replicou Dugal, satisfeito. - A sombra que vê a seu lado
passará a ser a minha.

Brocmal fechou os olhos e deixou-se cair para trás com um resmungo. O médico prosseguiu o
exame ao ferimento do piloto e Brynach avançou para onde eu estava à espera

com o bárbaro.

- Vamos levá-lo connosco para a povoação - declarou. - Os habitantes lidarão com ele...

- Vão matá-lo - afirmei.

- É muito provável - concordou Brynach com um aceno sombrio.

- Nesse caso teria sido melhor deixar que se afogasse - argumentei, sentindo-me zangado e
desgostoso.

- Sem dúvida - admitiu Dugal com toda a franqueza. - Foi este quem tentou abrir-te o crânio
com o machado de guerra... e tê-lo-ia feito se a onda não nos virasse.

Fiz uma careta. O que Dugal dizia era verdade, mas tratava-se de uma verdade amarga que me
deixou engasgado.

- Aidan, as tuas preocupações são louváveis mas não temos outra solução - declarou o bispo
Cadoc. - Não podemos fazer prisioneiros...

103

e a sorte dele não seria melhor se ficasse sozinho. Entregamo-lo ao senhor da povoação que
fica aqui perto e ele que decida.

Os monges do mar juntaram-se-nos nesse momento, depois de terem prendido o navio com
estacas. Connal avistou o báculo do bispo, que dera à costa, e colocou-o nas

mãos de Cadoc. O bispo recebeu-o, virou-se para

Brynach e fez um movimento circular com o bordão. Brynach sorriu, levantou o seu manto e
revelou a bulga de couro que continha o livro.

- O nosso tesouro está a salvo, irmãos - disse Bryn. - Deus permitiu que nos salvássemos, bem
como ao nosso troféu.

Ao ouvir aquilo, Cadoc irrompeu numa exaltação de agradecimentos aos céus.

- Irmãos... - disse, levantando o bordão encimado pela águia Deus é grande e merece ser
louvado. Libertou-nos da tempestade e das mãos dos perversos.
Pusemos Brocmal de pé e partimos para a povoação, entoando um salmo de acção de graças
enquanto marchávamos. O Sol pôs-se antes de conseguirmos chegar ao cimo dos

penhascos mas ainda havia luz suficiente para localizarmos a coluna de fumo branco, que
parecia emanar de um ponto entre a primeira e a segunda das três colinas

que se encontravam na nossa frente. Brynach fixou a localização na sua cabeça e avançou com
passos firmes, indicando o caminho, e todos nós nos colocámos atrás dele.

Como eu era o último da fila, calhou-me ser o guarda do nossobárbaro.

Como não sabia o que fazer com ele, deixei-o caminhar um pouco à minha frente sem o perder
de vista, não fosse tentar fugir, embora considerasse que isso não seria

assim tão mau tendo em conta a recepção que o aguardava na povoação. Como o solo era
irregular e tinha os braços amarrados aos flancos, o homem tropeçava de vez

em quando e descobri-me a apoiá-lo. Quando ficou demasiado escuro para se ver claramente,

Peguei-lhe por um braço para que não caísse. Da primeira vez que o fiz afastou-se com um
safanão violento e grunhiu o seu desagrado. Contudo, a quinta ou sexta vez,

virou a cabeça para olhar para mim, com o branco dos olhos a reluzir sob o crepúsculo. A partir
daí, nunca mais resistiu quando o agarrei.

Logo que deixámos para trás os penhascos salpicados de rochas, o caminho tornou-se mais
fácil e pudemos mover-nos mais rapidamente.

As colinas eram muito arborizadas mas, quando nos aproximámos da primeira, Brynach
descobriu um trilho que nos permitiu caminhar depressa e sem medo de virmos a

tropeçar a cada passo. A elevação era mais

104

íngreme e mais alta do que nos parecera sob a luz do crepúsculo e em breve comecei a suar.
Esse facto, combinado com as roupas encharcadas e coladas ao corpo, deixou-me

cada vez mais incomodado. Para além disso, tinha comichões na pele por causa da água
salgada, as mãos doíam- me dos remos, sentia os olhos simultaneamente secos

e lacrimejantes, e as pernas, ombros, costas e flancos encontravam-se doridas por causa do


esforço de remar. Tinha fome e sede, estava gelado até aos ossos e molhado.

Atingimos o alto da primeira colina e Brynach fez uma pausa para voltar a localizar a coluna de
fumo. Ao longe, para leste, havia uma brilhante fatia de Lua a erguer-se

por cima das nuvens baixas.


- A povoação é ali em baixo... - disse Brynach quando nos reunimos à sua volta. - Penso que é
relativamente grande. Olhem, além...

Vê-se o contorno de um campo trabalhado.

Apontou para o fundo do vale. Embora eu visse o fumo a subir por entre as árvores, não
consegui distinguir nem o campo, nem qualquer sinal de uma povoação. Iniciámos

a descida para o vale, sempre seguindo o trilho que eu não duvidava que nos levaria
directamente ao nosso destino.

Uma vez do outro lado da colina, o vento enfraqueceu e pude ouvir os sons nocturnos dos
bosques à nossa volta: um cuco a emitir o seu apelo de um ramo por cima das

nossas cabeças, logo respondido por outro, a pouca distância, leves restolhadas furtivas nos
detritos de Inverno acumulados em volta das raízes das árvores, o súbito

agitar de asas invisíveis por entre os ramos cobertos de folhas novas.

Tornou-se difícil ver mais do que um passo ou dois à nossa frente.

De vez em quando estendia a minha mão para o bárbaro, tanto para me certificar que ainda ali
se encontrava como para o guiar. Em cada uma dessas vezes, o calor e

a solidez do toque surpreenderam-me, uma vez que quase esperava estender a mão e
descobrir que o homem desaparecera.

O bosque tornou-se menos cerrado quando nos aproximámos da povoação e o trilho foi
alargando até ao momento em que saímos de entre as árvores e entrámos numa clareira

- o campo de que Brynach tivera um relance, lá do alto - e avistámos o amontoado de cabanas


baixas, com tectos de colmo, a pouca distância. Detivémo-nos para olhar

e escutar antes de continuarmos a avançar, mas o povoado permaneceu pacífico e tranquilo.


Aparentemente. a nossa chegada ainda não fora notada.

Contudo, essa tranquilidade não durou muito. Logo que chegámos ao meio do campo houve
um cão que começou a ladrar, no que foi

105

imediatamente imitado por todos os cães do vale, o que provocou um alarido que despertou
os habitantes do povoado e os fez aparecer a correr. Na escuridão era difícil

contá-los mas calculei que estaria ali um total de mais de vinte homens e rapazes equipados
com tochas, e que além disso empunhavam lanças e as forquilhas já prontas.

Não me pareceram muito satisfeitos por nos verem.


106

DOZE

- Tenham calma, irmãos - pediu Brynach, vendo as tochas a precipitarem-se para nós através
do campo. - Não digam nada até vermos como nos recebem. - Fez um gesto

a Dugal para que este se colocasse a seu lado, e o volumoso monge passou para a frente do
grupo.

Quando a primeira fila de pessoas do vale se aproximou de nós, Brynach ergueu as mãos vazias
e avançou lentamente ao seu encontro.

- Pax, frater - disse, falando em latim. Este facto, adicionado ao seu traje e à tonsura, deu-lhes
a saber que se estavam a dirigir a um sacerdote.

O homem que vinha à frente lançou uma olhadela a Bryn e gritou para os companheiros:

- Parem, são apenas monges!

A frase foi proferida numa língua que, embora tivesse um som muito parecido com a do sul do
Éire, usava palavras britânicas e algumas outras que não reconheci mas

que os britânicos que se encontravam entre nós compreenderam perfeitamente.

- São Cernovii... - explicou Ciáran mais tarde - ou, pelo menos.

já o foram, outrora.

- Somos clérigos em apuros... - explicou Brynach, dirigindo-se ao chefe do grupo. - Somos


peregrini e naufragámos na baía. Terão comida que nos possam ceder, e um

lugar onde possamos descansar?

- Temos, sim... - concordou o homem, com um aceno - e são bem-vindos aqui. Vieram de
Dyfed?

- Sim... ou seja, alguns de nós vieram de Dyfed. Os outros... apontou o nosso grupo,
amontoado por trás dele - são sacerdotes de

Lindisfarne e Cennanus, no Éire. - Os homens da povoação chegaram-se para mais perto para
nos verem melhor.

Brynach fez sinal ao bispo para avançar e juntar-se a ele. Quando

Cadoc se aproximou, declarou:


107

- Saúdem o nosso superior. Meus amigos... - ananciou o britânico bem-falante num tom
suficientemente alto para todos ouvirem - apresento-vos Cadocius Pecatur Episcopus,

o Santo Bispo de Hy.

O anúncio produziu uma reacção instantânea e gratificante. Muitos dos habitantes do vale
ofegaram de espanto e vários dos que se encontravam mais perto procuraram

a mão do bispo e levaram-na aos lábios com reverência.

- Paz, amigos - pediu o bispo. - Dou-vos as minhas saudações em nome do santo e abençoado
Jesus. Levantem-se e fiquem de pé. Não sou homem que mereça ser venerado

deste modo.

- São bem-vindos à nossa aldeia - declarou o chefe dos aldeões, utilizando uma palavra que eu
nunca ouvira. - Venham, vamos conduzi-los até lá.

Levantando a tocha, o chefe guiou-nos através do campo, em direcção à povoação. Era maior
do que eu imaginara: tinha cinquenta ou mais cabanas, armazéns, um grande

e bonito salão e um cercado para o gado.

Não possuía muralhas ou fossos e suponho que os bosques lhe serviam de protecção. Por
outro lado, os habitantes pareciam ser homens muito vigilantes.

Conduziram-nos directamente para o salão, onde o fogo ardia brilhantemente numa ampla e
generosa lareira. Entrámos e precipitámo-nos para ela para nos aquecermos

ao seu calor. Como ninguém me deu instruções, levei o bárbaro comigo e mantive-me a seu
lado. Olhou para mim com curiosidade e pareceu prestes a falar - pressenti

as palavras quase a explodirem-lhe nos lábios - mas manteve a boca firmemente fechada e não
disse nada.

Todos nos libertámos das capas, que espalhámos à nossa volta sobre as pedras da lareira, para
depois nos aproximarmos tanto quanto possível das chamas, onde ficámos

a dar voltas lentas. Coloquei o meu manto ante as chamas e momentos depois já as minhas
roupas molhadas fumegavam com o calor enquanto o fogo me aquecia maravilhosamente

bem.

Num dos lados da lareira havia uma enorme mesa feita com um tronco rachado ao meio.
Ainda exibia vestígios de uma refeição, mas o chefe da aldeia deu uma ordem e
aqueles restos foram rapidamente removidos enquanto as mulheres corriam a preparar novos
pratos.

- Cerveja! - gritou o chefe. - Cerveja! Tylu... Nominoé, Adso! Tragam jarros para os nossos
hóspedes sequiosos!

Os rapazes precipitaram-se em busca dos jarros da cerveja e o anfitrião virou-se para nós e
declarou:

108

- Amigos, sentem-se e fiquem à vontade. Penso que tiveram um dia muito tumultuoso.
Descansem e partilhem da nossa refeição. - Levou uma grande mão ao peito e acrescentou:

- Chamo-me Dinnot e sou o chefe desta tuath, tal como vocês diriam. O meu povo e eu
ficamos satisfeitos por terem descoberto o caminho até junto de nós. Aqui, nada

de mal vos poderá acontecer.

Assim dizendo, conduziu o bispo para a mesa e pediu-lhe que se sentasse no lugar de honra.
Os restantes arranjaram lugares nos bancos.

Como ninguém me disse nada em contrário, levei o bárbaro comigo para a mesa.

Contudo, quando nos aproximávamos da extremidade da mesa, Dinoot reparou que o homem
que estava comigo não era um sacerdote.

- Bispo Cadoc... - disse, levantando a mão para mandar parar o bárbaro - perdoe-me a
curiosidade mas parece-me que há um estranho entre vós.

- Ah, sim! - respondeu o bispo com algum embaraço, recordando-se repentinamente do


guerreiro. - Tens olhos aguçados, Mestre

Dinoot.

- Não tão aguçados como os de alguns... - retorquiu o chefe, com os ditos olhos a cerrarem-se
ligeiramente - mas ainda reconheço um

Lobo do Mar quando o vejo.

- Perdemos o nosso leme na tempestade... - começou Brynach a explicar - e vínhamos para


terra...

- Teríamos desembarcado sem problemas - declarou Fintán, intervindo - se não fosse o mais
cobarde dos ataques... - o piloto contou o que se passara com os Lobos

do Mar e abanou a cabeça com desgosto.


- Agora, o pequeno Bán Gwydd está na praia, amarrado com cordas.

- Demos pela tempestade - respondeu Dinoot com uma careta mas não tínhamos consciência
de que os bárbaros navegavam na nossa costa. - Esfregou o rosto coberto do

restolho da barba e acrescentou: lorde Marius vai querer ser informado...

- O vosso senhor... - inquiriu Brynach - não está aqui?

- O seu caer fica a meio dia de distância - explicou Dinoot. Tem cinco aldeias sob a sua
protecção. - Virando-se para o bárbaro, que se mantinha a meu lado, mudo

e resignado, o chefe perguntou: Que vamos fazer com ele?

- Pensámos que deveriam ser vocês a decidir - sugeriu o bispo

Cadoc. - Também somos estranhos aqui, mas estamos convencidos que o vosso senhor saberá
o que fazer.

109

- Então... vou enviar alguém imediatamente, para o avisar. - O chefe chamou um dos homens
jovens da tribo. Depois de uma breve troca de palavras, o jovem saiu do

salão levando dois outros com ele. O machtiern será informado deste lamentável incidente
logo pela manhã.

- Encurvou os lábios com crueldade enquanto olhava para o cativo. podem ter a certeza de que
este monte de merda dinamarquesa não voltará a incomodar-vos.

Dinoot levantou-se, bateu as palmas e pediu ajuda. Surgiram quatro homens que se
precipitaram para ele, a quem o chefe ordenou:

- Atirem este lixo para o poço da estrumeira e vigiem-no até à chegada de lorde Marius. - Dois
dos homens agarraram no bárbaro com violência e começaram a arrastá-lo.

O Lobo do Mar não emitiu qualquer som nem ofereceu a mínima resistência, mas olhou com
anseio para a mesa em que estava a ser colocados cestos de pão e jarros de

cerveja. Apercebi-me disso e o meu coração comoveu-se.

- Esperem! - gritei. A palavra saiu-me dos lábios antes de me poder conter.

Os homens hesitaram. Os olhos de todos os que se encontravam no salão viraram-se para mim
e descobri-me a ser objecto de um repentino escrutínio. Avancei rapidamente

para a mesa, retirei um pão do cesto mais próximo e dei-o ao Lobo do Mar. A excitação infantil
que demonstrou perante este acto tão simples foi maravilhosa de contemplar.
Sorriu e apertou o pão contra ele. Um dos homens que o segurava estendeu a mão para lhe
tirar a comida.

- Por favor... - pedi, afastando-lhe a mão.

O homem olhou para o seu chefe. Dinoot acenou, o homem encolheu os ombros e largou o
pão. Levaram o bárbaro e ocupei o meu lugar à mesa, ansiando por me fazer tão

pequeno que me tornasse invisível.

Depois da saída do bárbaro, o salão ganhou uma nova vida. O bispo e o chefe sentaram-se
juntos numa extremidade da mesa, e Dugal, tal como Cadoc pedira, sentou-se

à direita do bispo. Brynach instalou-se a seu lado e começaram todos a conversar


amigavelmente. Era agradável ver que Dugal conseguia algum reconhecimento. Sempre

o conhecera como um muito capaz e competente mestre das suas próprias capacidades mas,
infelizmente para ele, tratava-se de capacidades que raramente faziam falta

no dia-a-dia de um mosteiro, pelo que nunca tivera oportunidade para se distinguir... até
agora.

110

- Procedeste bem... - sussurrou Ciáran, sentado a meu lado. Eu não me teria lembrado de o
fazer. Parabéns.

Brocmal, a dois passos de distância pareceu ter ouvido a frase e contraiu os lábios numa
expressão de desprezo. Faolan, junto dele, viu e comentou:

- Era um pão, irmão, mais nada. Serias capaz de recusar um bocado de pão a um homem
esfomeado?

O monge arrogante virou os seus olhos frios para Faolan, fitou-o com dureza e acabou por
desviar a cara sem pronunciar uma palavra.

Estendeu a mão, pegou num dos pães que se encontravam no tabuleiro à sua frente, partiu-o e
mordeu-o.

- Demos graças... - disse Cadoc, levantando-se do seu lugar e proferindo uma simples oração
de agradecimento pela comida e de bênção aos nossos anfitriões.

Os pães passaram de mão em mão e os jarros de cerveja despejaram a bebida para as taças e
malgas de madeira. Havia também um guisado quente, de carne salgada e cevada,

que nos encheu as barrigas. Aparentemente, a povoação não dispunha de garfos, pelo que
levámos as malgas à boca e começámos por engolir o guisado para depois ensoparmos
o pão mole e escuro no molho. Para finalizar, empurrámos tudo para baixo com grandes golos
da espumosa cerveja.

Alguma vez tivera melhor comida na minha frente...? Não, nunca houvera nada que se
pudesse comparar àquela refeição simples e alimentícia, que devorei como um esfomeado...

o que até era verdade.

Enquanto comíamos, Ciáran contou-nos o que aprendera durante o caminho para a aldeia.

- Os pais deles vieram de Cerniu, mas isso já foi há muito tempo. Agora, esta terra chama-se An
Bhriotáini - disse-nos, entre duas bocas cheias de comida. Silenciosamente,

repeti o nome para mim: Britânia.

- Estamos a norte de Cannes - continuou Ciáran - mas ninguém sabe muito bem a que
distância. O Fin pensa que a tempestade nos lançou mais para leste do que para

sul, e o Dinoot afirma que lorde

Marius deve saber que distância teremos de percorrer para chegarmos ao rio.

Começámos a conversar sobre os acontecimentos dos últimos dias e a refeição passou-se


numa espécie de neblina muito satisfatória. Recordo-O de ter comido, bebido

e cantado... e de repente Ciáran estava debruçado sobre mim, sacudindo-me suavemente por
um ombro.

111

- Aidan, acorda, irmão. Levanta-te, vamos para as nossas camas.

Levantei a cabeça da mesa e olhei em volta. Alguns dos irmãos estavam já a enrolar-se nas
suas capas quase secas, em frente da lareira.

Outros avançavam para a porta. Recuperei a minha capa e fui atrás de

Ciáran. Conduziram-nos para um estábulo coberto onde havia uma camada de palha nova à
nossa espera. Sem me ralar quanto ao sítio onde iria dormir, cambaleei para

um canto, bocejei e deixei-me cair. Puxei a capa húmida para cima de mim, pousei a cabeça no
feno, com o seu cheiro doce... e fiquei novamente a dormir logo que

as minhas pálpebras se fecharam.

O que me acordou de um sono profundo e insensato podem ter sido os gritos, mas também
pode ter sido o cheiro acre do fumo. Lembro-me de ter tossido quando acordei.
O estábulo estava cheio de fumo. Abri muito os olhos para a escuridão e levantei-me, sem
saber onde estava.

Os cães ladravam. Ouvi o som de pés em corrida a martelarem no chão, lá fora. Ecoou um grito
agudo no pátio, logo seguido por outro.

Não compreendi o que diziam.

Sacudindo o sono, avancei até à porta do estábulo e espreitei para o exterior. Vi formas
rápidas a moverem-se ao luar. O ar estava cheio de fumo. Olhei na direcção

do salão e avistei longos dedos de chamas a lamberem o telhado de colmo. Apareceu uma
figura à porta do salão, olhou em volta rapidamente e desapareceu. Ouvi mais

uma vez o som de passos em corrida e virei-me para o som. Vi o brilho duro do luar na lâmina
nua de uma espada e recuei para dentro do estábulo quando o homem passou

por mim a correr.

Um grito de mulher estilhaçou o silêncio como os fragmentos de um jarro partido.

- Acordem! - gritei. - Levantem-se! Estamos a ser atacados!

Corri de uma forma adormecida para a seguinte, sacudindo os monges do seu torpor. Lá fora,
os cães manifestavam-se, frenéticos.

Ouvi guinchos a perfurarem o tranquilo ar da noite e a gritaria aumentou.

Os Primeiros monges que consegui acordar cambalearam para a porta e saíram. Acordei mais
dois e corri para fora do estábulo, atrás dos outros...

Uma cabana rebentou em chamas do outro lado do pátio. Ouvi gritos no interior e crianças a
chorarem. Corri para a cabana, atirei para um lado a pele que cobria a

entrada e o fumo começou a sair pela porta em

turbilhões

- Depressa! - gritei, lançando-me para o interior. - Vou ajudá-la! Depressa!

112

No centro da cabana havia uma mulher jovem com o rosto iluminado pelas chamas que se
propagavam rapidamente. Segurava numa criança pequena e tinha outra agarrada
às pernas, de boca aberta e com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto aterrorizado. Tomei a
criança nos braços e corri de volta para o exterior, arrastando a mulher

atrás de mim. Uma vez fora da cabana incendiada, a mulher recuperou tanto as faculdades
como as crianças, agarrou-as bem e escapuliu-se para a segurança da floresta

numa correria que a fez desaparecer no escuro.

Virei-me outra vez para o pátio onde agora fervilhava um torvelinho de homens irados e aos
gritos, muitos dos quais se encontravam agarrados uns aos outros, num

combate que ganhava um aspecto diabólico sob as chamas dos telhados e habitações
incendiadas. Alguém soltara os cães e os animais, enlouquecidos pelo medo, atacavam

todos os que lhes apareciam pela frente, quer fossem amigos ou inimigos. Havia gente a fugir
do salão. Vi Dinoot aparecer no exterior, gritando ordens, logo seguido

por Dugal, de espada em punho.

O bispo Cadoc, que o Deus o proteja, atirou-se para a frente, de mãos levantadas, gritando:

- Paz! Paz!

Bryn e Gwilym correram atrás dele, tentando desesperadamente interpor-se entre o bispo e o
ataque. Contudo, sem se preocupar com a sua segurança, Cadoc precipitou-se

para o âmago da batalha e foi imediatamente atacado.

A lâmina de um machado, cruelmente rápida, brilhou sob aquela luz confusa. Ouvi o agoniador
estalo da lâmina sobre ossos e o bispo foi-se abaixo como um boneco de

trapos. Comecei a avançar para o local onde o bispo havia caído mas a batalha deslocou-se
para o meu lado e não o consegui alcançar. A última coisa que vi foi Gwilym

a debruçar-se sobre o corpo imóvel. Logo a seguir, também Gwilym foi atingido pelo mesmo
machado.

- Gwilym! - gritei, correndo com todas as minhas forças.

Contudo, de repente, quando ainda não dera mais de três passos levantou-se na minha frente
um enorme bruto de ombros largos e braços grossos como presuntos, que

soltou um berro. Atacou e derrubou um dos defensores com um único golpe da sua enorme
moca, colocou-se em cima do corpo e levantou a arma para desferir o golpe final.

Os meus pés já corriam quando o homem ergueu a pesada moca acima da cabeça.

Lancei as mãos para a frente e atingi o bárbaro nos rins, atirando-o para a frente no preciso
momento em que a moca descia. O golpe falhou
113

e a arma embateu na terra ao lado do pé do gigante. Soltando um tremendo grito de raiva


estrangulada, o inimigo rodopiou para me enfrentar e foi apenas nesse momento

que compreendi que já vira aquele gigante musculoso a balouçar-se na proa do navio dos
Lobos do Mar.

Este pensamento ocupou-me durante mais tempo do que aquele que a sensatez teria
recomendado. Fiquei colado ao chão, a olhar, enquanto o bárbaro de tranças avançava

para mim, de moca no ar, pronto para me esmagar o crânio e espalhar-me os miolos por cima
da camisa ensanguentada. Mesmo sob aquela luz lúgubre, ainda consegui ver

as veias salientes do seu pescoço e braços enquanto rodava a moca num círculo apertado por
cima da cabeça, avançando para mim com passos lentos e assassinos.

- Aidan! - Alguém gritou o meu nome. Era Dugal, correndo em minha ajuda. - Corre, Aidan!
Foge!

Porém, Dugal foi obrigado a enfrentar outro inimigo quando ainda corria para mim. Tentou
libertar-se daquele ataque baixando o ombro e lançando o punho da espada

contra o rosto do homem. O bárbaro deixou-se cair no chão e atacou Dugal com um golpe de
pernas, fazendo-o tropeçar. Vi o meu amigo cair. Um segundo bárbaro saltou

sobre as suas costas, lançando-se à cabeça de Dugal com um machado.

- Dugal! - gritei, tentando dirigir-me para ele. Contudo, o gigante com a moca desviou-se
rapidamente e bloqueou-me o caminho. A luz iluminou a humidade viscosa

na ponta da sua arma e vi a mancha vermelha no momento em que a moca rodopiava,


preparando-se para descer sobre mim.

Ouvi um grito selvagem atrás de mim mas não consegui desviar os olhos dos assustadores
movimentos da pesada arma. A moca desceu com uma velocidade capaz de imobilizar

o coração... e nesse mesmo instante senti mãos a agarrarem-me o braço esquerdo e a


puxarem-me para o lado. A moca bateu no ar ao lado da minha orelha e tive um relance

de um rosto coberto de sujidade antes de me puxarem o capuz por cima da cabeça.

O gigante rugiu qualquer coisa e ouvi uma voz muito alta a berrar o meu lado. Tentei libertar-
me do meu atacante mas tinha os braços enrodilhados na minha própria

roupa. De súbito, arrancaram-me a capa e enrolaram-ma em volta da cabeça e ombros.


Cambaleei para a frente, tentando correr... e bati com a cabeça em qualquer coisa

dura.
Enquanto caía ainda vi um clarão de luz azul a arder-me nos olhos e

Senti um estranho e violento zumbido nos ouvidos.

114

TREZE

O chão oscilou por baixo de mim. O zumbido nas orelhas tinha dado lugar a um retinir surdo,
semelhante o que pode ser provocado por um sino mal fundido. A cabeça

pulsava-me com uma dor ferozmente hostil e não conseguia sentir nem as pernas, nem as
mãos. O céu continuava negro e tudo permanecia tranquilo. Ouvi o murmúrio baixo

de vozes sussurradas vindo de algures muito perto, mas soavam-me ao grasnar de patos e não
lhes conseguia tirar qualquer espécie de sentido. O ar era abafado e quente,

e a minha respiração era dolorosa.

Tentei levantar-me... e o céu explodiu em flamejantes fragmentos de luz cegante. Fui


envolvido por uma vaga de náuseas e voltei a cair para trás, ofegando com o

esforço.

Houve uma recordação qualquer que abriu caminho através da minha consciência entorpecida
e apenas meia acordada, como se fosse uma pequena bolha a subir num grande

tonel negro... bolha que rebentou no momento em que chegou à superfície. O que fora...? O
quê...?

Ouvi um grito. O som fez-me recuperar as faculdades quando as recordações me caíram em


cima com a violência de uma vaga oceânica a desfazer-se contra uma rocha.

Recordei-me do ataque.

Fechei os olhos com força para resistir às dores, debati-me para me levantar e descobri que
tinha os ombros e braços envoltos em tecidos pesados. Sacudi os braços,

torci-me para um lado e para o outro, libertei-me daquela prisão - a da minha própria capa e
manto - e afastei o capuz.

A luz do dia precipitou-se sobre os meus olhos. Coloquei uma das mãos em frente do rosto e
descobri-me a olhar para o forte clarão vermelho do nascer do Sol. O grito

voltou a ouvir-se e olhei para cima, para um céu claro, e vi uma gaivota branca deslizando
serenamente lá no alto.
O mastro do navio oscilou e entrou no meu campo de visão.

O mastro do navio! Estendi a mão para a amurada e pus-me de pé.

oscilando sobre as pernas inseguras.

115

O meu estômago contraiu-se e vomitei por cima da amurada. Quando terminei, passei a
manga pelos lábios e levantei os olhos muito devagar desta vez com um medo indiscritível

- para o ambiente novo que me rodeava: encontrava-me num navio de bárbaros e tinha Lobos
do Mar como companheiros. Manobravam os remos e não me prestavam atenção.

Avistei um grande bruto vestido com uma túnica sem mangas feita de pele de ovelha, com
borzeguins e um cinto castanho, que se conservava de pé, de costas para mim,

a um ou dois passos de distância. Parecia intensamente interessado no distante horizonte


oriental onde o Sol acumulava forças para o novo dia e enchia o céu de luz.

Um dos remadores levantou os olhos, viu-me e disse qualquer coisa ao homem do cinto
castanho. Este virou-se, olhou para a minha boca aberta e suja de vómito, exibiu

um grande sorriso e voltou a prestar atenção ao que estivera a fazer. Rodei a cabeça para ver
para onde o bárbaro olhava e avistei, ao longe, as colinas irregulares

e acinzentadas de Armórica. Precisei de um momento para compreender que navegávamos


para norte sobre as grandes ondas verde-acinzentadas.

O navio dos Lobos do Mar era comprido e estreito, forte e de quilha aguçada, com uma proa e
uma popa muito elevadas. Tinha cerca de vinte remadores mas possuía bancos

pequenos para mais alguns. Por trás do elegante mastro fora erguida uma plataforma
sobrepujada por paus dobrados em arco, formando uma estrutura semelhante a uma

espécie de tenda fechada, coberta com peles de bois. Havia um fio de fumo a emanar por
baixo das peles, mas que acabava por desaparecer na fresca brisa do leste.

As dores confundiam-me a visão mas de qualquer modo não havia muito mais para ver para
além da vastidão das águas com um tom cinzento-ardósia que se estendiam para

a minha direita, e uma costa incaracterística à minha esquerda. Voltei a sentar-me e aspirei o
ar para os pulmões, para clarificar a cabeça. Tentei pensar. Contudo,

o meu cérebro recusava-se a responder às exigências que eu lhe fazia e tudo o que me vinha à
mente era o facto, de agora, ser um cativo.
Cativo. A palavra ocupou-me durante um tempo descomedido. Saboreei cada uma das suas
solitárias e desesperançadas sílabas, repetindo-os uma e outra vez até acabarem

por perder o seu significado. Que me iria acontecer? O que faziam os Lobos do Mar aos seus
cativos? Cheguei a uma muito sombria conclusão, a de que era provável

que os matassem.

No que se referia aos meus captores, não passam de uma matilha suja, barulhenta e
malcheirosa, manchada de lama e sangue... e cheirando

116

a coisas muito piores. o cheiro daqueles homens chegava-me ao nariz e provocava-me náuseas
sempre a que a brisa marinha soprava do lado deles.

Havia vinte e dois bárbaros no meu campo de visão. Sei-o porque os contei com cuidado.
Estavam vestidos de peles e de couro, e usavam largos cintos de vários tipos,

quase todos em couro, mas também vi alguns com discos de cobre e prata. A maioria usava
facas ou adagas enfiadas nos cintos. Dois ou três entre eles envergavam siares,

ou túnicas, feitas de um tecido muito apertado e tingido num tom amarelo-claro ou castanho.
Pareciam imoderadamente orgulhosos dos seus tufos de cabelos desgrenhados,

uma vez que todos exibiam compridas barbas e bigodes. Alguns usavam os cabelos
entrançados enquanto outros os atavam nas costas com tiras de couro, mas também havia

quem os tivesse soltos.

Mais de metade ostentava uma espécie qualquer de ornamento nos cabelos, tal como um
bocado de fio de ouro, um pente esculpido ou um enfeite de prata representando

qualquer coisa, uma folha, um peixe, uma ave ou mão humana.

Também reparei no surpreendente número de bárbaros que usavam grossos fios de ouro em
volta dos espessos pescoços, e todos eles, do maior ao mais pequeno, exibiam

dispendiosos ornamentos de vários tipos, tal como anéis de ouro e prata, braçadeiras,
pulseiras, pregadores e correntes.

Eram todos grandes... O mais pequeno entre eles era maior do que eu e o maior era ainda
mais volumoso do que o Dugal.

Dugal! Oh, o que lhe teria acontecido? Que acontecera aos meus amigos? Distraído com os
meus próprios problemas, não dedicara um único pensamento aos que haviam
ficado para trás. Tanto quanto soubesse, toda a população do povoado fora massacrada
durante o ataque. Naquele momento podiam estar a jazer no seu próprio sangue

enquanto o Sol se erguia sobre o dia da sua morte.

Kyrie eleison! rezei, com fervor, para dentro de mim. Senhor: tem piedade! Abre os teus
braços de amor em volta daqueles que invocam o teu nome em momentos de necessidade.

Cura as suas mágoas e protege-os de todos os males. Por favor, Senhor, sê piedoso para com o
Teu povo. Perdoa o meu orgulho e egoísmo, Senhor. Salva os Teus servos...

Senhor, tem piedade!

Alguém emitiu uma ordem grunhida que me fez interromper a oração e levantar a cabeça. Vi
um Lobo do Mar de cabelos louros e barba amarela de pé na plataforma atrás

do mastro. Soltou mais um grito e três

117

ou quatro dos outros largaram apressadamente os remos e apressaram-se a ir ter com ele. O
piloto deu uma ordem e dois outros agarraram em cabos e começaram a içar

a vela. Pensei que aquilo queria dizer que iríamos avançar para o largo e para mais longe de
Armórica. Içada a vela, os bárbaros arrumaram os remos e reuniram-se

em volta da plataforma. Entretanto, o navio mantinha o seu curso e seguia paralelo à costa.
Contudo, passado algum tempo, verifiquei que a minha primeira impressão

me induzira em erro uma vez que estávamos, de facto, a dirigirmo-nos para terra ao longo de
uma linha oblíqua, o que nos aproximava um pouco mais da costa a cada

rolar das vagas.

Fiquei encolhido no meu lugar, junto à proa, observando aquela terra... e surgiu-me a ideia de
que me poderia atirar ao mar. Era verdade que não tinha grande vontade

de me afogar mas cheguei à conclusão de que, se escolhesse o local com cuidado, talvez me
fosse possível nadar para a liberdade. Tinha a certeza de que podia saltar

borda fora antes de alguém me conseguir deter.

O piloto bárbaro - o dos borzeguins e manto de pele de ovelha berrou uma estranha palavra
que, para os meus ouvidos, não acostumados àquela língua, me soou a vik.

A vela foi instantaneamente arreada e os remadores voltaram aos seus bancos e remos.
Embora continuasse a observar atentamente a costa que se aproximava, não consegui
ver sinais de povoações nem nada que merecesse qualquer espécie de atenção.

Contudo, mesmo assim, mantive-me vigilante e continuei a observá-la, à espera de uma


oportunidade para me escapar.

Surgiu muito mais depressa do que pensara porque o navio se aproximou da costa e o mar se
tornou rapidamente menos profundo. Não foi preciso esperar muito para avistar

o fundo de calhaus por baixo das ondas, embora ainda nos encontrássemos longe da costa.
Nunca mais teria uma oportunidade como aquela.

Respirei fundo, levantei-me rapidamente e atirei-me por cima da amurada antes de alguém
dar por isso. Caí na água no meio de um grande chapinhar e arrependi-me imediatamente

da minha decisão apressada. O mar estava frio e afundei-me como uma pedra, tocando no
fundo com um joelho. Puxei as pernas para baixo de mim e propulsionei-me.

Infelizmente, calculei mal o salto e voltei à superfície junto ao navio, mesmo entre o casco e as
pás dos remos.

Compreendendo o erro, voltei a respirar fundo e mergulhei. Não sei o mergulho não foi
suficientemente profundo ou rápido, mas senti-me agarrado. Embora agitasse

os braços e as pernas com grande esforço, não

118

me consegui libertar. Voltei à superfície, ofegante, com a ponta da minha capa bem apertada
nas mãos inexoráveis de um dos Lobos do Mar. O bárbaro limitara-se a

debruçar-se sobre a amurada e a agarrar uma ponta das minhas roupas.

Puxou-me para fora da água e manteve-me suspenso no ar, para grande divertimento dos seus
amigos bárbaros. Todos rugiram de gozo ao verem-me pendurado do flanco

do navio como um peixe. As gargalhadas, tal como as vozes, era grosseiras e rudes, e
magoavam-me os ouvidos.

o navio penetrou numa pequena enseada pouco funda e começou a virar quando se
aproximou da costa. Quando isso aconteceu, vi o que o piloto já sabia que existia naquele

local: um rio, não muito largo mas suficientemente fundo para deixar passar a quilha. Sem
pausas ou hesitações, a embarcação deslizou na pequena enseada e penetrou

na foz do rio. Os remadores puxaram os remos e utilizaram-nos como varas para empurrar o
navio mais para montante. Oh, aqueles Lobos do Mar eram realmente astutos...
e fortes. O homem que me segurava só me libertou quando o navio descansou numa larga
praia de calhaus... e atirou-me para dentro de água como um peixe demasiado

patético para ser conservado.

o Lobo do Mar que impedira a minha fuga saltou para a água comigo. Agarrou-me pela capa,
endireitou-me dentro de água e virou-me para ele. Abanou a cabeça lentamente

e falou-me num tom de aviso enquanto agitava um dedo molhado na frente da minha cara.
Embora não compreendesse uma única palavra do que estava a dizer-me, percebi

perfeitamente, pelos modos e gestos, que me avisava para não repetir a tentativa de fuga.

Acenei, mostrando-lhe que compreendia o que me queria dizer. O homem sorriu... e depois,
ainda bem agarrado à minha capa, bateu-me com força no rosto com as costas

da mão. A minha cabeça dorida deu um salto para um lado e a força do golpe derrubou-me e
atirou-me para dentro de água. Voltou a segurar-me pela capa e a endireitar-me.

A boca doía-me e saboreei o sangue na língua.

O bárbaro satisfeito voltou a erguer a mão... ainda com o seu amplo e abençoado sorriso.
Fechei os olhos numa antecipação do golpe e preparei-me. Contudo, não cheguei

a sentir a pancada e ouvi uma ordem grunhida com secura. O Lobo do Mar libertou-me
imediatamente. Abri os olhos e vi outro bárbaro que patinhava na água. Avançava

na nossa direcção e falava com o companheiro com um tom zangado. O primeiro encolheu os
ombros, sacudiu o dedo na minha direcção, largou-me e afastou-me.

119

O segundo Lobo do Mar aproximou-se de mim, pegou-me num braço com violência e
conduziu-me, meio puxado, meio arrastado, para a costa.

Aí chegados, virou-me para ele e deu-me uma bofetada com a mão aberta.

A bofetada chamou a atenção dos que se encontravam por perto mas o seu som fora mais
violento do que a pancada. Embora tivesse provocado sorrisos e gargalhadas nos

Lobos do Mar - alguns dos quais se dirigiram ao bárbaro, que lhes respondeu com firmeza -
não pude deixar de pressentir que o golpe não reflectira uma ira verdadeira

nem qualquer espécie de malícia.

É estranho, mas foi apenas nessa altura que percebi quem tinha perante mim: era o meu
bárbaro, aquele que encontrara na praia, que fora levado para a povoação connosco
e a quem eu dera o pão. Estávamos novamente frente-a-frente... mas em posições
completamente invertidas.

Levei a mão ao lábio rachado e cuspi sangue para o chão. O bárbaro voltou a pegar-me pelo
braço, arrastou-me para uma das maiores rochas na praia e atirou-me contra

ela. Fez um gesto de descida com a mão e proferiu um único grunhido gutural que me fez
saber que deveria sentar-me e ficar quieto, sem pensar em fugir.

Não precisava de se preocupar. De momento, sentia-me muito satisfeito por me poder sentar
na rocha e secar as roupas ao sol. Tentaria escapar-me outra vez, disse

para mim mesmo, mas não podia fazê-lo precipitadamente, à primeira oportunidade.
Precisava de aguardar pelo momento mais apropriado. Consolei-me com esta ideia e

também com o facto de ainda nos encontrarmos em Armórica, e resolvi aproveitar o que
pudesse da péssima situação em que me encontrava.

Entretanto, os Lobos do Mar haviam começado a preparar uma refeição. Fizeram uma
pequena fogueira e trouxeram alimentos do navio, que partilharam entre eles sem

um único relance na minha direcção.

Um enorme bárbaro de tranças vermelhas - que reconheci como sendo o bruto da moca, da
noite do ataque - trepou de volta ao navio, pegou num barril que levantou nos

braços e preparou-se para o transportar para a praia. Contudo, foi detido pelo grito rápido de
um dos outros, um homem louro, com uma longa barba amarela, entrançada,

e uma corrente de ouro em volta do pescoço. Era o bárbaro que eu vira em cima da
plataforma dando ordens aos outros.

O Cabelo Amarelo, conclui, devia ser o chefe do bando. Contudo, embora os homens lhe
dessem atenção, não pareciam demasiados solícitos para com ele e nem sequer

demasiado atenciosos. Mesmo assim, era óbvio que merecia parte do respeito dos outros ou,
no mínimo, uma obe-

120

diência rancorosa, uma vez que o gigante vermelho pousou o barril com um grunhido, saltou
do barco e regressou à refeição.

Depois de comerem, os bárbaros adormeceram. Limitaram-se a rolar para um lado, fechar os


olhos e adormecer como se fossem porcos estendidos ao sol.
Qualquer ideia a respeito de me escapulir enquanto dormiam desvaneceu-se no momento em
que o meu bárbaro acordou de repente e se recordou de mim. Aproximou-se e

amarrou-me as mãos e os tornozelos com um bocado de corda entrançada. Felizmente,


deixou-me à sombra da rocha, num local de onde podia vigiar os meus captores. Todavia,

foi uma ocupação que se demonstrou desanimadora porque os bárbaros se mantiveram


inertes durante a maior parte do dia e só se levantaram quando as sombras já se

estendiam sobre as pedras da praia.

Acordaram, espreguiçaram-se e aliviaram-se no rio. Alguns aproveitaram a oportunidade para


se lavarem, pondo-se de pé sobre as pedras e atirando água para cima dos

corpos... com roupas e tudo. O meu bárbaro aproximou-se, desamarrou-me, pôs-me de pé e


arrastou-me para o navio.

Patinhei até à embarcação, fazendo uma pausa apenas para engolir algumas mãos-cheias de
água. Por causa disso, fui chicoteado com uma corda

- sem grande convicção, é verdade - e os abusos verbais incompreensíveis amontoaram-se


sobre a minha pobre cabeça.

Foi um entretenimento para os Lobos do Mar, que soltaram algumas gargalhadas ao verem-
me em dificuldades. Não que me importasse muito porque, mais uma vez, não senti

uma genuína animosidade naquele exercício. Comecei a formar uma opinião: o meu bárbaro
tentava executar a tarefa que os outros esperavam da sua parte, mas fazia-o

sem grande vontade. Sendo monge, tinha alguma experiência com esse tipo de
comportamento e reconhecia-o rapidamente quando o via. Trepámos por cima da amurada e

uma vez a bordo fui empurrado para o meu lugar à proa, com um grunhido que considerei
como significando que devia ficar ali. De qualquer modo, não me restringiram

os movimentos.

Não comi nesse dia, nem no seguinte, e só me permitiram engolir a água que tinha conseguido
arranjar durante a paragem. O facto não constituiu uma preocupação uma

vez que estava habituado aos jejuns e considerei aquela privação como mais um trédinus que
dediquei, com satisfação, ao Deus Salvador. Quando os outros comiam, eu

rezava. Rezava pelo nosso pobre bispo - que Deus o recompense! - pelos meus irmãos, que
não sabia se estavam feridos ou mortos, pela segurança do livro abençoado

e também por mim, que fora arrastado para um tão cruel cativeiro. Rezei todos

121
os dias, de um modo sincero e prolongado, mas em breve aprendi a esquecer as prostrações
ou até a ajoelhar-me. Os meus captores não gostavam de me ver numa posição

de devoção e pontapeavam-me com força quando me apanhavam a fazê-lo. Contudo, tal não
constituía para mim uma grande provação porque Deus só vê o espírito contrito

e a minha reverência era verdadeira. É verdade que a falta de comida não me preocupava, mas
o facto de continuarmos a avançar firmemente para o norte enchia-me de

uma ilimitada apreensão. Dia após dia, afastava-me cada vez mais da região de

Nantes, o que fazia com que fossem diminuindo as esperanças - as poucas que me restavam -,
de voltar a ver os meus irmãos. Foi por causa disso que as minhas orações

se tornaram ainda mais ferventes e que resolvi fortalecer-me com infindáveis repetições de
salmos.

Um dia, quando permanecia instalado no meu poleiro na proa, olhei para fora do navio e
verifiquei que a familiar costa cinzenta já desaparecera completamente. Não

voltei a vê-la durante dois dias. Continuei a observar o horizonte vazio em busca de qualquer
sinal de terra... e quando isso aconteceu constatei que a paisagem

se modificara. A terra era agora baixa, plana e incaracterística. Os Lobos do Mar também não
navegaram perto da costa, como tinham feito anteriormente. Para além

disso, deixaram de procurar viks para descansarem e arranjarem água, e passaram a manter-se
em guarda tanto de noite como de dia.

Um dos resultados desta mudança foi o facto de me terem dado alguma comida, igual à deles
mas em muito menor quantidade. Era um alimento grosseiro, uma carne dura

e sem sabor, sem tempero e mal seca.

Mesmo assim, satisfazia a sua humilde finalidade: manter o cativo vivo até que este se
reconciliasse com o seu eventual destino, que tanto podia ser a morte como

qualquer coisa pior.

Mantive-me no meu lugar do costume, uma vezes de pé e outras sentado, olhando para
aquela estranha terra sem nome, e rezei com fervor para que a Mão Rápida e Segura

de Deus descesse e me arrancasse a uma tão pesada provação. Pois bem, tal não aconteceu e
o navio de quilha aguçada continuou a voar rapidamente sobre os mares.

Navegámos

Para norte, sempre mais para norte. Só vimos um navio, uma única vez, e fugimos dele.
Ao avistar o navio, o Borzeguins Castanhos chamou o Cabelos-Amarelos, que se juntou a ele
junto ao mastro. Permaneceram os dois ombro com ombro por instantes, num

atento escrutínio do navio estrangeiro, aPós o que o Cabelos-Amarelos começou a gritar


ordens que fizeram com que os indolentes tripulantes se precipitassem para

os remos. "Todos eles

122

remaram com um vigor nunca visto mesmo apesar da vela continuar cheia e do vento ser bom.
Em breve se tornou claro que nos distanciávamos do navio desconhecido.

Passado algum tempo, o inimigo desistiu da perseguição, facto que os Lobos do Mar
celebraram ruidosamente.

A alegria por terem escapado a um potencial rival transformou-lhes os espíritos. Senti a sua
excitação e sorri, mesmo contra vontade. Pensei que eram muito parecidos

com crianças, pelo menos no que se referia à sôfrega satisfação dos seus apetites. Tal como
acontecia com as crianças, só o presente os preocupava. Haviam escapado

a uma confrontação não desejada e a sua alegria não conhecia limites. Saltavam dos bancos
para a amurada, agitavam as lanças no ar e batiam nos escudos, a transbordar

de fanfarronice agora que o suposto inimigo lhes virara as costas.

No fundo, foi uma lição muito instrutiva, que não desperdicei.

Depois disso, já não me senti tão ansioso por regressar a Armórica.

Os bárbaros, segundo me pareceu, encaminhavam-se para um porto seguro.

Virei os olhos para o norte e investiguei aquelas águas frias e negras em busca de um qualquer
destino provável. O tempo voltou a piorar e o vento soprou com força,

fazendo crescer as vagas. O mar estava coberto por nuvens baixas e por um nevoeiro pesado
que obscurecia a costa. No entanto, e apesar disso, não desembarcámos.

Aparentemente, os Lobos do Mar gostavam das águas agitadas.

O Sol regressou ao fim do terceiro dia e pude ver que a terra voltara a modificar-se. Agora era
formada por profundas baías rodeadas por margens de rochas, com florestas

verdes-escuras a crescer nas vertentes para lá das margens. As colinas não eram altas, mas os
seus cumes estavam frequentemente envolvidos em espessas camadas de
nuvens, e nos nevoeiros que eram a pior praga daqueles climas inóspitos. Não vi povoados de
qualquer dimensão e até as habitações isoladas eram muito raras.

Mesmo assim, os Lobos do Mar receavam passar por ali. Sei-o porque depois de penetrarmos
naqueles mares negros passámos a navegar apenas de noite, uma técnica que

os bárbaros dominavam bem.

Nunca antes me ocorrera a possibilidade de também eles poderem ter inimigos. Porém, ao ver
o modo como se tornavam cautelosos e temerosos à medida que se aproximavam

de casa, fiquei a saber que também eles - embora vivessem à custa dos que consideravam
mais fracos -, eram presa de outros mais fortes, e que o receio que tinham

deles era semelhante ao próprio medo que inspiravam. Na verdade, eram mesmo como lobos:
selvagens e brutais, com inimigos prontos para se erguerem contra eles para

onde quer que fossem.

123

Mantive-me atento e tentei aprender tudo o que pudesse sobre os seus modos selvagens.
Quanto mais aprendia maior era a piedade que sentia por aqueles homens, pois

estavam para além da redenção e não tinham nem sequer a menor esperança de salvação.
Que Deus me ajude, mas comecei a sentir-me superior por causa dos meus conhecimentos

e civilização. A arrogância tomou conta de mim, atingiu-me com força e o meu orgulho inchou.
Imaginei que, se me dessem uma oportunidade, poderia levar a fim um

grande trabalho entre eles, transmitindo-lhes as Boas- Novas de Jesus. Já ouvira falar em casos
semelhantes.

Na verdade, o santo Pátraic não realizara o mesmo feito entre os seus antigos captores? Era,
decidi, o que eu tentaria fazer. Tornar-me-ia num Pátraic para aqueles

Lobos do Mar e alcançaria a glória eterna.

124

CATORZE
Navegávamos velozmente para uma terra cinzenta e verde, com baías de águas frias e
elevações de rochas negras eriçadas de grandes bosques de pinheiros e bétulas,

e salpicada por pequenos campos abertos nas florestas sempre presentes por todo o lado,
campos esses onde os solos, finos e pobres, eram cultivados com muitos cuidados

e dificuldades. As povoações eram pequenas, pouco mais do que meros amontoados de


cabanas de madeira dispersos ao longo da costa, à beira das florestas ou em ilhas

arborizadas. Chegámos finalmente ao nosso destino vários dias depois de termos entrado nas
águas do norte e de termos navegado furtivamente junto a numerosas ilhas

e baías: era uma povoação bem aconchegada no fundo de uma larga enseada, protegida por
uma península larga e elevada. Estava rodeada por uma paliçada de madeira

e quase não se distinguia da floresta em que fora aberta tão laboriosamente.

Havia ali outros navios e barcos mais pequenos, tanto na baía como puxados para cima das
duras pedras da margem. Quando o nosso navio apareceu, toda a população

se precipitou para a beira da água e começou a soltar altos gritos de boas-vindas. A chegada
foi ansiosamente saudada por todos, incluindo os cães, que corriam ao

longo da margem latindo alegremente ante a perspectiva de voltarem a ver os seus donos.
Toda a gente gritava, chorava e falava ao mesmo tempo, numas boas-vindas

que se transformaram numa alegre barulheira.

Ansiosos por se reunirem novamente aos seus, foram muitos os Lobos do Mar que saltaram da
amurada para a água e nadaram para terra, onde foram recebidos com grandes

aclamações e muita satisfação. As mulheres abraçaram os maridos, as crianças correram para


os pais, os velhos caminharam nas pedras gritando e gesticulando, os rapazes

brandiram paus afiados e os homens jovens agitaram lanças. Era óbvio que aquele regresso

125

Permaneci no meu lugar à proa, assistindo a toda aquela agitação.

Era como qualquer outra recepção, com as famílias a darem as boas-vindas a maridos, pais e
filhos que haviam estado longe, no mar. Todavia, aqueles homens tinham

estado longe, sim, mas em missões de pilhagem e saque, e em vez de lançarem as suas redes
ao mar haviam deixado atrás de si uma esteira de terror e morte.

o Cabelos-Amarelos permitiu que o navio tocasse em terra e permaneceu atento enquanto o


mesmo era amarrado a dois fortes paus cravados na margem. Depois disso,
quando ficou satisfeito com a operação, ordenou aos seus homens que fossem buscar o
resultado dos saques.

A tenda instalada na plataforma foi rapidamente liberta das peles de boi, pondo à vista cinco
arcas de madeira e um verdadeiro monte de armas, que incluía espadas,

lanças, escudos e outras coisas do mesmo género.

o Gigante-Vermelho baixou-se, tomou uma das arcas nos seus grandes braços, levantou-a
acima da cabeça, soltou um poderoso grunhido e atirou-a para a praia, lá em

baixo. A arca partiu-se, rebentou... e o amarelo do ouro ficou a brilhar ao sol. Enquanto dois
outros Lobos do Mar se debatiam com uma Segunda arca, o gigante agarrou

na terceira e levou-a para terra, colocando-o ao lado das outras. A quarta arca embateu nas
restantes e abriu-se, espalhando os seus tesouros.

As pessoas reuniram-se em volta do tesouro e maravilharam-se com as riquezas ali


amontoadas. Contudo, ninguém, nem sequer os que as haviam descarregado, ousou tocar-lhes

com a ponta de um dedo. Ficaram todos à espera até o Cabelos-Amarelos desembarcar para se
deter junto das arcas.

Aquela era, ou pelo menos assim me pareceu, a primeira vez que os bárbaros continham os
seus apetites durante tanto tempo. Todos se amontoaram em volta com os rostos

a irradiarem uma ansiosa antecipação, com os olhos a brilharem com a luz do tesouro e
murmurando uns para os outros por trás das mãos.

O chefe estendeu uma pele de boi na praia, mandou abrir duas das três arcas restantes e
despejar o seu conteúdo sobre a pele. Reparei que a última arca continuou

fechada e que foi posta de parte, mas o conteúdo das que haviam sido rebentadas foi
escrupulosamente reunido e acrescentado à pilha de peças de ouro, de prata e

de moedas. E não era uma pequena pilha! Nunca vira tantas riquezas num só lugar e tratava-se
na verdade de um saque capaz de rivalizar com o de Tuatha de Danaan.

A seguir, ajoelhando-se reverentemente na frente das suas riquezas, o Cabelos-Amarelos


começou a mexer naquela massa, tal como creio que

126

deveria ter feito muitas vezes na privacidade da sua tenda a bordo do navio. Para grande
delícia dos espectadores, que arrulharam como pombos espantados, fez aparecer
uma grande taça de ouro. Colocou a dispendiosa taça a seu lado e virou-se novamente para o
monte. Depois de alguns instantes de buscas, recuperou uma bela gamela

que colocou ao lado da taça.

A seguir puxou por uma corrente de ouro com elos tão espessos como o polegar de um
homem. O chefe bárbaro levantou-se, segurou na corrente entre as mãos esticadas

e virou-se para um lado e para o outro, falando tranquilamente. Depois, repentinamente e


com um grito selvagem, atirou a corrente ao Gigante-Vermelho. O rosto do

homem abriu-se num grande sorriso de dentes partidos e o bárbaro rugiu de prazer,
sacudindo-se como um urso.

Concluí que o Gigante-Vermelho era o campeão do chefe, facto que estava naquele momento
a ser reconhecido perante todos os outros, tendo portanto o direito ao melhor

prémio. Um a um, também os restantes foram recompensados: um pregador de prata para


um, um par de pulseiras para outro, taças e gamelas para alguns, correntes de

ouro e braçadeiras para outros. Toda a gente recebeu qualquer coisa, suponho que de acordo
com o valor dos serviços prestados. O facto de receberem tão valiosas

recompensas pelas suas actividades assassinas desgostou-me.

Jesus, rezei, livra-me deste antro de iniquidade!

Infelizmente, os meus sofrimentos só agora começavam.

Foi grande o desgosto quando reconheci, no meio do montão de ouro saqueado, a bela águia
do bordão do bispo. A orgulhosa ave tinha sido arrancada ao poleiro que

fora dela por direito e abria agora as suas asas para grande gozo dos seus captores.
Contemplei aquele símbolo sagrado e o meu coração afundou-se como uma pedra.

"Pobre Cadoc," murmurei, "não merecias uma tal morte." Pelo menos, felizmente, o precioso
livro não se encontrava entre o saque, o que considerei como sendo um bom

sinal.

Quando a última peça de ouro foi entregue, o Cabelos-Amarelos virou-se para as moedas e
pratas. Os objectos de prata de maior tamanho fora rapidamente feitos em

pedaços com machados - sem ter em conta nem a sua beleza, nem a qualidade do trabalho do
artífice - e esses pedaços foram acrescentados ao monte. Estremeci ao ver

uma bonita travessa e vários pratos a desfazerem-se sob os golpes, isto para não mencionar as
numerosas pregadeiras, alfinetes, anéis e braçadeiras.

Sempre ajoelhado para executar o seu trabalho, o chefe separou as moedas e os bocados de
prata em montes, de acordo com o tamanho e
127

peso, e dividiu-os meticulosamente em partes iguais, uma para cada Lobo do Mar. Feito isto,
os bárbaros fizeram um sorteio e escolheram a parte que a sorte lhes

designara. A última pilha calhou ao chefe, que a apanhou rapidamente, despejando as moedas
dentro da sua taça.

Foi deste modo que se fez a distribuição dos tesouros. Muitos, reparei, foram imediatamente
transferidos para outras mãos. Na verdade, foram surpreendentemente poucos

os tesouros que continuaram a ser propriedade exclusiva dos que os haviam recebido. Mal um
Lobo do Mar se via com aquelas riquezas nas mãos e logo a sua esposa as

reclamava. Retirava os objectos preciosos das mãos do marido e guardava o ouro - obtido de
uma maneira tão iníqua - atando-o num fardo muito apertado, num canto

do manto.

Depois de distribuir todos os tesouros, o Cabelos-Amarelos passou a receber as adulações do


seu povo. Aclamaram-no ruidosamente, dando- lhe palmadas nas costas e

nos ombros enquanto algumas mulheres lhe puxavam pelas barbas e cabelos num gesto
afectuoso. Foi no meio de tudo isto que o meu bárbaro se aproximou do chefe. Trocaram

algumas palavras rápidas e senti o coração a apertar-se-me no peito quando os vi virarem-se e


olharem-me com atenção.

O Cabelos Amarelos encolheu os ombros de uma maneira desinteressada e enfrentou a


multidão. Disse qualquer coisa e apontou para mim, o que provocou uma certa sensação

entre as pessoas, algumas das quais se riram em voz alta enquanto outras murmuravam de
uma maneira agoirenta. Houve algumas que se aproximaram do navio para me verem

melhor, observando-me com uma curiosidade especulativa.

Uma delas, um homem de espessas sobrancelhas, levantou a voz para o chefe e obteve uma
resposta benigna. O Cabelos-Amarelos olhou para o meu bárbaro, que acenou,

com uma boca firme. O homem das sobrancelhas espessas voltou a dizer qualquer coisa,
apontou para mim e levantou dois dedos. Compreendi, com algum desânimo, que

estavam a regatear por minha causa.

O chefe falou e o meu bárbaro acenou uma concordância. O outro homem olhou para mim,
abanou a cabeça e afastou-se. O Cabelos-Amarelos estendeu a mão. O meu bárbaro
meteu os dedos no cinto e fez aparecer três moedas de ouro que largou na palma da mão do
chefe.

O Cabelos-Amarelos mandou que a última arca de tesouro fosse levada de volta para o navio e
a seguir sentou-se, de pernas cruzadas, sobre a pele de boi, segurando

na taça com uma das mãos e na gamela de ouro com a outra. A pele de boi foi imediatamente
levantada e o chefe bárbaro

128

foi transportado para a fortaleza sobre os ombros do seu povo, que o seguiu no meio de
muitas e barulhentas aclamações.

O meu bárbaro chamou-me, fazendo-me sinal para que desembarcasse do navio, de onde
estivera a observar tudo o que se passava na margem. Trepei por cima da amurada

e juntei-me ao meu novo amo, que pousou a mão no peito e disse.

- Yuu... nar. - Continuou a bater no peito e repetiu a palavra várias vezes, acenando para mim
com uma expressão de intensa expectativa.

- Yu... nar - repliquei, pronunciando o estranho o melhor que podia.

- Gunnar - repetiu. Sorriu, satisfeito com o meu esforço. De seguida, bateu no meu próprio
peito com uma expressão esperançada.

- Aidan - disse-lhe. - Chamo-me Aidan.

- Ed-dan... - repetiu, pensativo.

- Aidan - corrigi-o, falando devagar e acenando. - Aeedan.

- Aeddan - replicou.

Preparava-me para voltar a corrigi-lo quando, de súbito, levantou as mãos, agarrou-me pelo
pescoço e começou a apertar com força. Esforcei-me por lhe afastar as

mãos mas apertou-me ainda com mais força e comecei a recear que me fosse estrangular até à
morte. Os meus olhos esbugalharam-se e não conseguia respirar. Gunnar

obrigou-me a pôr-me de joelhos.

Comecei a ver manchas negras nos olhos e grasnei:

- Piedade!
O bárbaro largou-me. Ofeguei, aspirando o ar para os pulmões. De pé por cima de mim,
Gunnar pegou numa longa tira de couro semelhante às utilizadas para prender

os cães e tratou de a amarrar em volta do meu pescoço. Deu-lhe duas ou três voltas e atou-a
com força. Depois, com um grunhido, estendeu-me a mão direita. Pensei

que queria que me levantasse e aceitei a mão. Todavia, o bárbaro sacudiu-a e colocou a mão
junto do meu rosto.

Como não voltei a mexer-me, pegou-me na cabeça com a mão livre e segurou-a enquanto
comprimia as costas da mão direita contra a minha testa. Entendi esse gesto como

querendo dizer que se considerava meu amo, que eu era o seu escravo e que lhe devia a vida,
que detinha nas suas mãos.

Virou-se e caminhou para a fortaleza. Contudo, deteve-se depois de alguns passos, para
verificar se eu o seguia. Quando viu que continuava ajoelhado, pronunciou

uma seca palavra de comando que tomei como uma ordem para o seguir. Levantei-me e
avancei para o povoado atrás do meu amo.

129

Aproximámo-nos dos grandes portões comigo a tremer de medo e apreensão. Fiz o sinal da
cruz e invoquei a protecção divina, dizendo:

- Protege-me com o Teu poderoso escudo, Senhor. Permite que Miguel, Chefe-das-Hostes,
avance à minha frente neste lugar terrível. Tens a minha alma nas tuas mãos,

Poderoso Rei, e as tuas asas a envolverem-me neste mar de maldade. Assim seja!

Feita a invocação, voltei a repetir o sinal da cruz em cima do coração e entrei na fortaleza,
passando pelos enormes portões e penetrando no reino infernal.

Nunca tinha visto a habitação de um bárbaro mas já ouvira alguns homens a falar do povoado
que haviam construído em Dubh Llyn. Para além da ausência de um rio, o

lugar até podia ser o mesmo. As habitações eram grandes cabanas achatadas de troncos e
barro, com íngremes telhados de colmo. Aquela povoação tinha sete dessas cabanas,

com cada uma delas a servir para quinze ou vinte pessoas.

Havia uma grande estrutura separada das outras, que ocupava um lugar central no interior da
paliçada de troncos. Na sua frente viam-se dois delgados postes de bétula

com os topos ornamentados com grinaldas e ramos cortados de fresco, atados com trapos
brancos e amarelos.
Contudo, mesmo que os postes ali não estivessem, teria percebido que se tratava do salão do
Cabelos-Amarelos.

Gunnar e eu passámos pelas habitações, atravessámos um vasto pátio, seguimos a multidão


por entre os postes de bétulas e entrámos no grande salão. A sala era sombria

e muito parecida com uma floresta, uma vez que tinha troncos de árvores a erguerem-se a
todo o seu comprimento, cujos ramos se encontravam obscurecidos na enfumaçada

escuridão do telhado.

Os troncos que sustentavam o telhado estavam pintados de vermelho, branco e amarelo, mas
um deles, o que se encontrava mais perto do canto ocidental onde o monarca

tinha a sua câmara - pouco mais do que uma baia igual às que usamos para os cavalos - fora
pintado de azul.

As tochas fuliginosas ardiam nos suportes de ferro, projectando uma luz fraca e suja sobre
tudo o que se encontrava no interior. A sala era flanqueada a todo o seu

comprimento por recantos ou compartimentos próprios para dormir, alguns dos quais
protegidos por biombos ou peles de modo a terem alguma privacidade. Os barrotes

por cima das cabeças exibiam escudos redondos, em madeira, suspensos por cima de
amontoados de lanças. Em frente à lareira encontravam-se duas longas mesas apoiadas

em cavaletes com bancos baixos que corriam a todo o seu comprimento, de ambos os lados. O
pavimento fora coberto com juncos e palha e havia

130

cães a dormitarem, preguiçosos, debaixo dos nossos pés, ou a farejarem as pernas dos recém-
chegados.

Todos os lordes são iguais no que toca à ostentação das suas habitações, mas os bárbaros
mostravam uma tendência especial para um excesso de exibicionismo. A cadeira

do Cabelos Amarelos era um enorme trono de carvalho, com anéis e saliências em ferro. A
lareira era larga e profunda, forrada a pedras, com grandes suportes de ferro

capazes de sustentar os gigantescos troncos que aí ardiam dia e noite, para além de estar
equipada com um vasto caldeirão suspenso de um tripé por uma dupla corrente,

e cujo conteúdo borbulhava e fervilhava.

Lorde Cabelos-Amarelos encaminhou-se directamente para o gorgolejante caldeirão, pegou


num comprido garfo com dois dentes e enfiou-o no guisado, fazendo aparecer
um fumegante bocado de carne que levou à boca e do qual arrancou um bocado. Mastigou-o
com vontade, engoliu-o e virou-se para os que o estavam a observar:

- Öl! - berrou. - Öl! Fort!

Foram vários os rapazes que desapareceram a correr para regressarem momentos depois com
espumosas tigelas de cerveja preta, a bebida favorita de todos os Dinamarqueses.

Cabelos-Amarelos bebeu, despejou a tigela na boca e engoliu o espesso líquido com grandes
golos. Quando terminou, limpou o bigode amarelo à manga, passou a tigela

ao seu campeão, cambaleou para o trono, virou-se para a multidão e sentou-se de um modo
excessivamente cerimonial.

Creio que aquele era um sinal há muito aguardado porque mal o rabo do chefe tocou na
madeira de carvalho polida e logo todo o salão explodiu numa agitação frenética.

Instantaneamente, os homens empurraram-se uns aos outros para conseguirem lugares à


mesa enquanto as mulheres corriam para um lado e para o outro e toda a gente

gritava. Que barulheira!

Reinava o caos e a minha cabeça começou a andar à roda.

Os jarros e tigelas com cerveja começaram a aparecer, levados para a mesa pelos rapazes de
serviço que corriam por todo o salão. Os Lobos do

Mar emborcavam a espumosa beberagem, acotovelavam-se uns aos outros de impaciência,


batiam na mesa com as mãos e pediam mais. As taças, jarros e tigelas passavam

de mão em mão e circulavam por todo o salã o.

Surgiram vários homens carregados com um grande barril que pousaram num suporte de ferro
ao lado do trono do rei. Trataram de mergulhar todas as tigelas no barril,

de onde saíam cheias, a verterem espuma. para serem imediatamente atiradas para o
remoinho. Ao ver aqueles homens beber com tanto zelo tornei-me consciente de que

me encontrava nas ganas

131

da minha própria sede, mas ninguém me deu nada para beber, nem pensei que fosse provável
que o fizessem.

Os Lobos do Mar acomodaram-se para beber e logo surgiram as mulheres e raparigas,


carregadas com cestos de pão escuro. A visão de todos aqueles belos pães arredondados
fez-me crescer água na boca e provocou uma dor aguda no meu pobre estômago. Vi cesto
após cesto a ser colocado em cima da mesa, e vi os homens a pegarem em pães,

aos dois ou três de cada vez, a quebrá-los e a enfiarem-nos na boca.

Entretanto, eram vários os homens que se atarefavam em volta da fogueira, onde instalaram
dois grandes suportes de ferro, um de cada lado da lareira. Cumprida essa

tarefa, e depois das chamas bem atiçadas, os homens desapareceram mas voltaram logo a
seguir carregados com a carcaça de uma vaca inteira enfiada num longo espeto

de ferro, que suspenderam nos suportes de modo a poder girar lentamente sobre as chamas.
Muito em breve, o estralejar das chamas passou a ser acompanhado pelo chiar

e estalar da gordura a arder enquanto o grande salão se enchia com o saboroso aroma da
carne assada.

Pensei que ia desmaiar.

Para me distrair do meu dilema, resolvi olhar para outro lado e avistei, sentado num banco,
num canto escuro, um homem muito velho, de costas dobradas. Para além

disso, o homem fixava-me com muita atenção. Quando percebeu que eu notara o seu olhar,
levantou-se e arrastou-se na minha direcção, mas na verdade parecia-se mais

com um urso do que com um homem porque estava vestido com farrapos de trapos sujos e.
porque a sua cabeça oscilava para a frente e para trás quando andava

Tinha as feições cobertas de fuligem e porcaria, e as poucas madeixas de cabelo que ainda lhe
restavam estavam empastada de esterco e misturadas com palhas. De ombros

redondos e coxo, abandonou o seu lugar no canto para parar na minha frente, fitando-me com
olhos tão grandes e lustrosos que parti do princípio de que se tratava

de um louco.

Aquela criatura miserável ficou a olhar para mim durante um bocado.

A seguir chegou-se para a frente, colocou o rosto junto do meu, levantou uma das mãos
cobertas de sujidade e esfregou-a no cimo da minha cabeça, após o que começou

a rir-se em voz alta, expelindo um hálito tão desagradável que me vi obrigado a ofegar e a
agitar o ar com a mão. Voltou a rir-se e eu inclinei-me para trás, sobre

os calcanhares, e quase caí.

O velho deu uma última palmada na minha cabeça rapada, abriu a num sorriso desdentado e
perguntou:

132
- Como te chamas, irlandês?

Surpreendido, fiquei a olhá-lo de boca aberta.

- Chamo-me... - fiz uma pausa, tentando lembrar-me do meu nome - Aidan! O meu nome é
Aidan!

A estranha criatura contorceu-se toda, trocista, e apontou para Gunnar, sentado à mesa a um
passo de distância

- Apanhou-te, não foi, rapaz?

- É verdade - respondi.

O estranho riu-se e voltou a sacudir-se de alto a baixo como se a revelação lhe desse um
prazer muito singular.

- Verdade, verdade... - retorquiu. Sempre a rir-se, começou a cantar: "Os Lobos do Mar partem
a-viking e trazem consigo carne e ossos irlandeses. Gostam mais de

ouro e prata, mas estes Lobos até são capazes de devorar pedras!"

Olhei-o, espantado, perguntando a mim mesmo como teria aquela criatura vil aprendido a
falar latim. Na verdade, tratava-se de um latim preguiçoso e muito desgastado,

mas não deixava de ser a língua dos clérigos.

- Quem és tu, homem? - perguntei-lhe.

- Sou o Scop - replicou - e sou cada vez mais scop.

- Scop? - repeti, porque se tratava de um nome invulgar para o mais invulgar dos homens.

- Quer dizer "adivinho," rapaz. Os homens do norte dizem Skald, mas tu talvez dissesses
"bardo." - Colocou um dedo muito sujo ao lado do meu nariz e assumiu uma

expressão sabedora: - Sou a Voz da Verdade para Ragnar Cabelos Amarelos - acrescentou,
indicando o homem no trono com um gesto reverente da mão.

- Chama-se Cabelos-Amarelos? De verdade? - admirei-me, em voz alta.

- Chama-se, sim e tem cuidado com ele. É o senhor dos Geats e dos Oscingas. - Levantou os
dois punhos e uniu-os com força. Manda em duas tribos, sabes? São muitas

as facas em dívida de sangue para com ele e é um grande distribuidor de ouro... - Scop fechou
um dos olhos e observou-me com atenção. - És um escravo ou um refém,

irlandês?

- Creio que sou um escravo - respondi, narrando-lhe a negociata na praia.


O velho acenou e colocou um dedo coberto de fuligem na minha coleira de couro.

133

- Sim, és um escravo... e ainda bem. É frequente que os escravos sejam melhor tratados do
que os reféns. A tua sorte podia ter sido pior, irlandês... Podia ter sido

muito pior! Há sítios onde os homens de cabeças rapadas como tu ainda rendem um bom
preço.

Nesse momento, Ragnar avistou o velho e chamou-o. Scop arrastou-se, rindo-se e


contorcendo-se enquanto caminhava. Fiquei a olhá-lo, perguntando a mim mesmo que
espécie

de homem era aquele que acabara de conhecer. Contudo, tive muito pouco tempo para
pensar no assunto porque Gunnar me chamou.

- Aeddan! - gritou, torcendo o pescoço.

Aproximei-me e o bárbaro enfiou-me o jarro vazio nas mãos.

- Öl! - ordenou-me, apontando o barril.

Peguei na taça e encaminhei-me para o barril onde os rapazes continuavam a encher os


recipientes. Vi como mergulhavam as tigelas e jarros na cerveja e fiz o mesmo.

Regressei ao meu lugar e coloquei o jarro nas mãos do meu amo, que acenou com um sorriso
de auto-satisfação ao ver que o seu negócio produzira bons resultados em

tão pouco tempo.

Voltei a colocar-me por trás dele e continuei a observar toda aquela agitação. A visão de tanta
comida e bebida, devoradas com tanto vigor, quase me fazia desfalecer

de fome. Não conseguia tirar os olhos dos cestos onde o pão se amontoava, nem das carnes
brilhantes que rodavam lentamente na lareira. Olhei com ansiedade para as

taças e tigelas cobertas de espuma a serem continuamente levantadas e baixadas a todo o


comprimento da mesa, e escutei a cacofonia de gritos, de gargalhadas ásperas

e de mãos a baterem na mesa. O divertimento enchia todo o salão enquanto eu permanecia ali
de pé, esquecido, contemplando a perspectiva de um dia muito comprido

e seco, e de uma noite de fome a estender-se à minha frente.

Quando a carne ficou assada, a carcaça foi esquartejada e os bocados levados para a mesa,
onde os bárbaros se atiraram a ela como os lobos que eram. Vi-os a entusiasmarem-se
com o festim, dobrados sobre a refeição, com as mãos a agarrarem e os dedos a rasgarem, de
cabeças baixas, dentes enterrados nas suculentas carnes, sucos quentes

e saborosos a escorrerem-lhe pelas mãos e queixos. Comiam e tornavam a comer, enchendo-


se até não poderem mais e talvez mesmo depois de já não

Poderem mais, até que, finalmente saciados, caíam sobre a mesa para dormirem. Tenho a
certeza que nenhuma matilha de lobos ressonou mais alto ou dormiu mais profundamente.

Quando acordaram, atiraram-se novamente à comida e à bebida. Apaziguadas as primeiras


fomes, lançaram-se num consumo menos frenético.

134

Agora, o que desejavam era um divertimento que lhes aumentasse ainda mais o prazer, pelo
que começaram a exigir ao seu skald que cantasse para eles.

Ragnar Cabelos-Amarelos levantou-se do seu trono e gritou:

- Scop! Siung Scop!

A Voz da Verdade surgiu a arrastar-se do seu canto silencioso, com a cabeça a abanar
lentamente de um lado para o outro. Coxeou para o trono e baixou-se para abraçar

as pernas do seu amo. Ragnar sacudiu-o, empurrando-o para longe, mas não houve violência
nos golpes. Pondo-se de pé, o velho Scop endireitou-se e atirou os farrapos

para trás das costas... como uma ave coberta de sujidade a preparar-se para o voo.

O salão mergulhou no silêncio e a antecipação cresceu. Os convivas lamberam os dedos


engordurados e inclinaram-se nos bancos, na expectativa, enquanto o homem esfarrapado,

com a garganta a tremelicar de esforço, abriu a boca e começou a cantar.

135

QUINZE

Parece que Nosso Senhor sempre teve o maior prazer em esconder as suas dádivas mais
preciosas nos lugares mais improváveis. No fim de contas, os mais raros dos tesouros
são frequentemente guardados em vasos de barro. Embora já tenha apreciado muitas
canções, entoadas pelas melhores vozes do mundo, nunca ouvi nada que se comparasse

com os sons saídos da garganta do velho Scop. Não eram belos, nem nada que se parecesse...
Eram verdadeiros... mas na sua verdade havia uma beleza que ultrapassava

em muito todos os ornamentos de ouro que lorde Cabelos- Amarelos distribuíra pelos seus.

Diz-se que o tempo pára quando se ouve o canto de alguém que tenha sido abençoado pelo
Dador das Palavras. Pelo menos, era o que pensavam os antigos Celtas. Agora,

também acredito que seja verdade. Enquanto

Scop cantou, manteve todos os presentes no salão submetidos ao som da sua voz,
acorrentando-os como escravos com as suas entoações subtis e astuciosas. O tempo deteve-se

e o seu voo interminável ficou em suspenso, incapaz de se mover.

Não consegui compreender as palavras, proferidas na áspera e pouco agradável língua das
gentes do norte, mas no entanto apercebi-me do sentido mais amplo das suas

estrofes tão bem como me apercebo da minha própria mente, uma vez que as mudanças na
expressão tanto da voz como do rosto era milagres de transformação. Entoou feitos

de valor, fez com que o sangue fervesse nas minhas veias e tivesse vontade de sentir o frio do
resistente aço contra a minha anca e coxa. Quando a canção se tornou

alegre, o seu rosto começou a irradiar um brilho desconhecido de todos excepto daqueles que
já contemplaram o próprio doce

Jesus em visões beatíficas. Quando se tornou lamentoso, a tristeza esmagou-o com um peso
tal que receei vê-lo perecer. As lágrimas corriam livremente pelos rostos

levantados dos seus ouvintes - que Cristo tenha piedade de mim -, e também eu chorei.

136

A canção terminou e quando consegui secar os olhos já Scop desaparecera. Recuperei as


minhas faculdades, pestanejei e olhei à minha volta como alguém que acabasse

de despertar de um sono profundo. Devagar, e a pouco e pouco, o salão foi recuperando a sua
ruidosa agitação e os convivas regressaram à mutonia, libertando-se das

garras do encantamento que o bardo lançara sobre eles.

A carne, o pão e a cerveja voltaram a aparecer e foram colocadas na frente dos participantes
no festim, num abastecimento perpétuo. Começaram também a aparecer outros
pratos diferentes, bem como alguns petiscos requintados: maçãs cozidas em mel, peixe
estufado com cebolas, gordas salsichas cozidas, porco com lentilhas e ameixas

secas a nadar em cerveja.

De vez em quando havia alguém que se levantava da mesa e cambaleava até um dos
compartimentos de dormir, ou então fazia-o para ir vomitar ou para se aliviar, e o

lugar era imediatamente ocupado por outra pessoa qualquer.

Ocasionalmente, aquelas festividades também foram marcadas por querelas quando os


temperamentos dos homens, estimulados e incitados pela bebida, os dominavam. Todas

essas discussões acabaram em pancadaria.

e dois deles terminaram com os contendores caídos e inconscientes, para louca delícia dos
espectadores que aplaudiam efusivamente sempre que alguém começava a sangrar.

Foi desse modo que a ruidosa festa prosseguiu. Era como uma briga de bêbados num salão
sufocante que cheirava a fumo, a sangue a mijo e a vomitado. Já não saberia

dizer se era noite ou dia. Estava cansado.

esfomeado, sequioso... e para mim já nada interessava. Ansiava por me arrastar para um dos
muitos catres ao longo das paredes. Porém, cada vez que tentava escapulir-me,

Gunnar acordava e ordenava que lhe fosse buscar mais cerveja.

Ao abrir caminho para o barril, caminhando com cuidado por entre os ossos e os estilhaços de
tigelas partidas que agora cobriam o chão, reparei que os rapazes que

serviam os bárbaros tomavam frequentemente um golo furtivo da tigela que estavam a encher
antes de voltarem a levá-la para a mesa. Era assim, pareceu-me, que conseguiam

a sua comida e bebida.

Roubavam-na quando ninguém estava a olhar.

Instigado por este pensamento. aproximei-me do barril.. debrucei-me e mergulhei a taça no


líquido fresco e escuro. Chegou-me ao nariz o cheiro entontecedor da doce

cerveja e a minha sede levou a melhor. Antes de conseguir deter-me já a taça se encontrava
nos meus lábios e a cerveja me escorria pela garganta. Ah, abençoada

cerveja! Bebi-a avidamente... e

137
em toda a minha vida só uma ou duas vezes provara uma cerveja tão boa como aquela!

Que o Senhor me ajude! Não me consegui dominar, engoli todo o conteúdo da tigela de uma
só vez, voltei a enchê-la apressadamente, virei-me e afastei-me do barril...

mas descobri o meu caminho barrado por um enorme dinamarquês.

Fitou-me e disse-me qualquer coisa que não compreendi. Baixei a cabeça e tentei passar em
torno dele, mas o homem agarrou-me por um braço e torceu-mo, fazendo a

sua exigência num tom muito mais alto.

Não percebi o que queria mas olhava para a tigela, pelo que lha ofereci.

- Nay! - trovejou. Ao mesmo tempo, fez saltar a tigela das minhas mãos com um violento golpe
do braço. A tigela de metal voou pelo ar, provocou uma chuva de cerveja

à sua volta e acabou por ir cair em cima da mesa, a alguns passos de distância. Os homens que
se encontravam mais perto calaram-se e olharam-nos.

O irado bárbaro voltou a gritar-me qualquer coisa mas, como não respondi, agarrou-me pelos
braços e levantou-me do chão. Aproximou-se do barril com um único passo

rápido e atirou-me com força contra o recipiente de carvalho, forçando a minha cabeça a
descer na direcção do líquido espumoso.

Felizmente, o barril já não estava cheio. O alto da minha cabeça tocou na espuma mas
consegui manter o rosto fora da bebida. Agarrei-me ao aro de metal e segurei-me

com todas as minhas forças. Contudo, a madeira e o metal estavam pegajosos e escorregadios.
Não conseguia manter-me agarrado e fui descendo cada vez mais enquanto

todos os que observavam a cena se riam com vontade ante a minha provação.

Incapaz de me aguentar durante mais tempo, aspirei uma golfada de ar um pouco antes da
minha cabeça mergulhar no líquido espumoso.

As bolhas fizeram-me cócegas no nariz e nas orelhas, agitei a cabeça furiosamente e consegui
respirar mais uma vez antes de ser novamente forçado a mergulhar, agora

para mais fundo. Embora me sacudisse, agitando os braços e esperneando, não era capaz de
me libertar. Deixei de me debater para

Poupar o pouco ar que me restava nos pulmões e rezei pela salvação.

Senhor, Meu Deus, defende-me! pensei. Seria uma pena deixares que oteu servo se afogue em
cerveja!

Repentinamente, quando murmurava a oração, fui puxado para trás com violência. O barril
tombou e derramou toda a cerveja. Rebolei e fiquei de costas. ofegando por
ar, contorcendo-me no chão e protegendo a cabeça com as mãos e braços contra os fortes
golpes que me atingiam.

138

Tive um relance de um rosto vermelho a pairar sobre mim e ouvi um grito de fúria. O Lobo do
Mar pareceu ficar com uma segunda cabeça, que apareceu por cima do seu

ombro... mas era a de Gunnar. De súbito, o oscilante bárbaro cambaleou e caiu sobre mim
com o meu amo montado nas suas costas.

Os dois homens rolaram como serpentes entrelaçadas, esbracejando e escorregando na


cerveja entornada. Escapuli-me à luta e afastei-me um pouco. Os habitantes do

salão, despertos dos mais variados torpores, formaram rapidamente um círculo em volta dos
combatentes e incitaram- nos com provocações e aplausos.

- Hrothgar! - gritaram alguns. - Gunnar! - berraram outros.

Ragnar saltou do trono e bateu com uma lança contra um escudo para chamar a atenção da
multidão durante o tempo suficiente para se fazer ouvir. Gritou uma ordem

e a multidão avançou, agarrou nos dois lutadores e arrastou-os para fora do salão. Levaram-
nos para o pátio onde, no meio de muitos gritos, o círculo de espectadores

se refez muito rapidamente.

Embora o dinamarquês chamado Hrothgar fosse mais corpulento,

Gunnar era mais rápido e indómito. Enfrentava o enorme bárbaro de igual para igual,
encaixando golpes terríveis e devolvendo-os. Os punhos bateram, uma e outra vez,

nas faces, nos pescoços, nos ombros e nos estômagos. O sangue escorria de narizes e bocas
mas os dois homens continuavam a trocar golpes... e qualquer um desses

golpes teria sido o suficiente para derrubar um cavalo.

Hrothgar, vendo-se incapaz de conseguir uma qualquer vantagem sobre o seu oponente,
afastou-se repentinamente. Recuou, baixou a cabeça e lançou-se à carga como um

touro, berrando enquanto corria. Gunnar permaneceu imóvel, com os pés bem plantados no
chão. Hrothgar atirou-se a ele e pareceu que o iria dominar... mas os braços

do bárbaro fecharam-se em volta de um vazio. Rápido como um raio, Gunnar caiu de joelhos e
agarrou Hrothgar pelo pescoço num único movimento. O surpreendido bárbaro

soltou um grito estrangulado e caiu de cabeça no chão.


Tentou levantar-se mas o meu amo já se encontrava em cima dele.

Gunnar juntou as duas mãos, ergueu-as por cima da cabeça e atirou-as com toda a força
contra a traseira do pescoço do adversário, entre as omoplatas. Hrothgar soltou

um grunhido semelhante ao de um boi abatido e pousou o rosto no solo. Ainda tentou


levantar-se mas as suas pernas cederam e caiu de braços abertos, abraçado à terra.

Gunnar levantou-se e limpou o sangue dos olhos e da boca enquanto a multidão berrava o seu
nome. Olhou para o círculo de espectadores que

139

o rodeava e levantou um braço, num gesto de triunfo. A multidão atirou-se imediatamente


para a frente, agarrou nele, levantou-o em peso e carregou-o para o salão

para irem celebrar a sua vitória.

Vi-os afastarem-se mas não fiz qualquer esforço para os seguir. O Sol brilhava, estava um belo
dia e não tinha qualquer vontade de regressar ao salão escuro e malcheiroso.

- Estavam a lutar por tua causa, irlandês.

- Scop! - exclamei, virando-me. O facto de o ver ali surpreendia-me e alarmava-me. O homem


tinha os olhos vermelhos e vazios, e vi- lhe gotas de suor a escorrerem-lhe

pelo pescoço. - Por que iriam lutar por minha causa? - perguntei. - Que foi que eu fiz?

- Bebeste do barril de cerveja do jarl Ragnar e a seguir ofereceste a taça a Hrothgar. - Abanou
a cabeça, numa desaprovação fingida. Foi um gesto de muito má educação...

Virou-se para se afastar com os seus passos arrastados, mas chamei-o.

- Não te vás embora. Por favor, Scop. Andei a ver se te via. Pensei que poderias cantar mais
uma vez.

O andrajoso skald rodou lentamente a cabeça, piscou-me um olho com uma expressão astuta
e sorriu.

- É com grande relutância que atiro as minhas pérolas a estes porcos - replicou. - Só canto
quando me apetece.

- E isso não desagrada a Ragnar, o teu senhor e amo?

- O jarl Ragnar é o meu senhor... - replicou, fazendo uma careta e levantando o queixo - mas
não é o meu amo. Só canto quando quero.

- Mas então... não és um escravo?


- Já o fui, outrora, mas deixei de o ser. Precisei de vinte anos mas agora sou um homem livre.

- Perdoa-me, irmão, mas se estás livre, por que ficas aqui? Por que não voltas para o teu povo?

O ignóbil. bardo sacudiu os ombros e sacudiu os farrapos para trás das costas

- Esta é a minha terra. Este é o meu povo.

- Aí está uma coisa em que me custa a acreditar... - retorqui.

- Acredita, rapaz, porque é verdade - ripostou, subitamente irritado..-- Deus abandonou-me


aqui para morrer... mas não morri. Sobrevivi e enquanto estiver vivo sou

livre e não servirei ninguém, excepto a mim mesmo.

- Nesse a caso, diz-me uma coisa, se for possível. Como conheces o latim? - SCop virou-se e
começou a afastar-se. Segui-o, a um passo de

140

distância. - Por favor - insisti - gostaria de saber como é que aprendeste a língua dos clérigos.

Pensei que não me iria responder porque continuou a coxear, sem pressas. Contudo, após
cerca de uma dúzia de passos, deteve-se abruptamente e virou-se para mim.

- Como pensas que foi? - inquiriu. - Achas que encontrei o latim no fundo da minha taça de
hidromel? Ou talvez penses que acompanhei os

Lobos do Mar durante um ataque e o roubei a um qualquer pobre sacerdote indefeso?

- Não fiz a pergunta com má-intenção, irmão - respondi, procurando acalmá-lo. - O facto de
saberes essa língua pareceu-me um mistério, mais nada...

- Um mistério? - repetiu, esfregando o pescoço enegrecido com uma das suas mãos muito
sujas. - Atreves-te a falar-me de mistérios, irlandês? - Fitou-me com fúria.

- Ah, nesse caso talvez penses que a tua própria fala é misteriosa!

- De modo nenhum! - retorqui. - Sou um sacerdote, ensinaram-ma na abadia.

- Pois eu também aprendi o latim desse modo.

- Ah, sim? - Não consegui evitar o tom de surpresa na minha voz.

- Por que te espantas? - contrapôs, num desafio. - É assim tão improvável? Está para lá da tua
estreita credulidade?

- Acho que é... - confessei - muito improvável.


- Então diz-me - desafiou-me - o que consideras mais improvável: que tu tenhas sido feito
escravo dos dinamarqueses, ou que eu tenha sido enviado para o meio deles

como sacerdote?

Dito aquilo, ajeitou as suas miseráveis roupas e afastou-se com os farrapos a flutuarem à sua
volta como as penas sujas de uma qualquer grande ave desajeitada.

Nunca mais voltei a vê-lo porque, depois de mais comida, bebida e jogos - lançamento de
maços, machado e até, que Deus lhes perdoe, de porcos. que os bárbaros apanhavam

e levantavam no ar sob as ruidosas aclamações dos companheiros - Gunnar pediu autorização


ao seu senhor. despediu-se de todos os companheiros, reuniu as armas e

o saque num saco de couro e abandonou a povoação levando-me com ele depois de me
amarrar uma longa corda em volta da cintura.

Caminhámos por florestas cerradas durante todo o dia, deslocando- nos muito devagar porque
Gunnar tinha dores de cabeça e parava frequentemente para se deitar. Aproveitei

um desses descansos para preparar

141

uma refeição com os fragmentos de pão e carne que levava no seu saco.

O meu amo não aguentava comida no estômago mas não levantou objecções quando eu comi.
Foi assim que quebrei o meu longo jejum, com pão duro e carne rançosa, uma

refeição pobre mas que não deixou de ser bem- vinda. Depois da refeição desamarrei-me, fui à
procura entre as plantas da floresta e encontrei algumas ffa'r gos,

que esmaguei e misturei com água limpa de um riacho próximo. Depois de coar a polpa, dei o
líquido a beber a Gunnar, o que acabou por fazer, mas só depois de eu

ter sido o primeiro a beber. Adormeceu outra vez e quando acordou já parecia muito mais
bem-disposto.

À noite acampámos no trilho. Gunnar fez uma fogueira e dormimos de cada lado da mesma,
para voltarmos a pormo-nos em marcha de madrugada, quando os pássaros nos

acordaram. Quando o pão e a carne se acabaram ficámos sem nada para comer mas não
deixámos de parar repetidamente para bebermos nos riachos que abundavam naquela

terra. Procurei bagas e encontrei algumas, mas ainda não estavam maduras.

Caminhávamos durante o dia com Gunnar à minha frente. Levava o saco ao ombro e eu
seguia-o. Embora o saco fosse pesado, não permitia que lhe tocasse e preferia ser
ele a carregá-lo. Devíamos constituir uma visão estranha, pensei, com o amo a esfalfar-se por
baixo da carga enquanto o escravo ia atrás, de mãos vazias. Contudo,

era assim que ele queria.

Como o meu amo não se dignava a falar comigo - e eu também não o entenderia, se o fizesse -
tive muito tempo para pensar. Pensei principalmente nos meus irmãos monges

e perguntei a mim mesmo se alguns deles teriam sobrevivido. Nesse caso, o que lhes iria
acontecer? Regressariam à abadia? Continuariam para Constantinopla? Como

o livro abençoado não aparecera junto do saque, parti do princípio de que alguns irmãos
deveriam ter conseguido escapar e que o nosso tesouro não fora descoberto.

Senti-me seguro nessa crença, raciocinando que se o livro tivesse sido descoberto, então teria
sido roubado, e que se tivesse sido roubado eu tê-lo-ia visto a ser

partilhado entre os bárbaros como recompensa pelos seus odiosos feitos. Como não o vira,
considerei que não fora roubado, o que me deu a esperança de que talvez

a peregrinação prosseguisse, sem

Mim, é claro... mas prosseguiria.

Enquanto caminhava, rezei para que - fossem quantos fossem os sobreviventes do meu grupo,
muitos ou poucos -, pudessem continuar a sua jornada e seguir para Bizâncio

com o presente para o Imperador.

Contudo, essa ideia produziu-me um sentimento peculiar, uma curiosa

142

mistura de remorsos e de alívio. Remorsos pelas vidas tão subitamente requeridas pelo
Martírio Vermelho daquela peregrinação, e alívio por não me ter de juntar a

elas.

Isto porque, apesar da escravidão a que estava sujeito e que parecia contrariar a concretização
do meu sonho, continuava a não duvidar de que iria morrer em Bizâncio.

De qualquer modo, não desejo despertar a ira dos céus tentando negar que o alívio que senti
no mais fundo do meu coração talvez se tenha sobreposto aos remorsos.

Fui sempre uma criatura caprichosa, facto que confesso com toda a franqueza.

O crepúsculo do quarto dia caiu sobre nós e comecei a notar que a floresta se tornava menos
densa. Saímos da floresta pouco tempo depois, quando as primeiras estrelas
começavam a brilhar nos céus, e entrámos numa vasta clareira coberta por um prado, no
centro da qual se erguia uma enorme casa de madeira com um celeiro e um cercado

para gado.

Para leste e para sul da casa podiam ver-se dois campos bem trabalhados, onde os rebentos
verdes exibiam um tom dourado sob a luz do poente.

Gunnar lançou uma olhadela à casa e soltou um grito selvagem que ressoou através do prado.
Os cães começaram a ladrar e bastou o espaço de três batimentos do coração

para eu ver duas negras formas caninas que corriam na nossa direcção, logo seguidas, um
instante depois, por três figuras humanas, duas das quais, a julgar pelas

roupas, eram mulheres.

Os cães foram os primeiros a chegar e Gunnar saudou-os com tanta satisfação como se fossem
filhos há muito perdidos e dados como mortos. Abraçou-os e beijou-lhes

repetidamente os focinhos, chamando-os pelos nomes e afagando-lhes a pelagem brilhante.


Eram cães grandes, com enormes cabeças e maxilas poderosas. Na ocasião senti-me

muito satisfeito por me encontrar na companhia de Gunnar, pois não duvidava que aquelas
mesmas criaturas seriam capazes de rasgar alegremente a garganta de qualquer

intruso.

O meu amo recebeu os seus familiares com o mesmo zelo com que saudara os cães. As
mulheres - uma das quais, como agora já podia ver, pouco mais era do que uma rapariga

- ficaram obviamente satisfeitas por o ver e abraçaram-no muitas vezes, beijaram-lhe o rosto e
o pescoço e seguraram-no pelas mãos e pelos braços. A mais velha das

duas, soube-o algum tempo depois, era Karin, a esposa. A mais nova chamava-se Ylv-a.

era da família da esposa e ajudava-os como criada.

A terceira figura era de um rapaz, alto, elegante e mais jovem do que me parecera à primeira
vista. Quando o rapaz se aproximou, Gunnar deixou de beijar a esposa

e apertou o jovem num feroz abraço. Receei

143

que o esmagasse, mas o rapaz sobreviveu, rindo-se e abraçando o pai.

Depois de mais alguns beijos e abraços, o jovem virou-se e ficou a olhar para mim.
o pai reparou nos seus olhos muito abertos e disse, dando uma forte palmada no meu ombro:

- Aeddan.

rapaz repetiu o nome, após o que o pai pousou a mão no filho e disse:

- Ulf.

A seguir apresentou-me as mulheres, tratando-as pelos nomes, que repeti até ficar satisfeito
com a maneira como eu os pronunciava. Karin, a esposa, era uma mulher

forte, com um rosto largo e bondoso. Tinha cabelos castanhos-claros e olhos tão verdes como
o mar. Os seus movimentos eram hábeis e estavam perfeitamente de acordo,

tal como descobri mais tarde, com as suas maneiras decididas. Era uma mulher prática e muito
perfeita em todas as artes femininas. Por outro lado, nunca nenhum tirano

governou com maior firmeza... porque a sua autoridade sobre a casa era absoluta.

Ylva, a sua familiar, era uma verdadeira sílfide, radiante como os raios do Sol, esbelta e bonita
como uma flor dos bosques. Tinha cabelos amarelos-pálidos, uma

testa lisa, seios e braços bem formados e mãos compridas e elegantes. Era uma alegria tanto
para os olhos como para a mente porque, quando acabei por a conhecer

melhor, conclui que era tranquila, solícita e de fácil trato.

Ulf era um rapaz igual a todos os rapazes, feliz, que gostava de pescar, de caçar e de ir apanhar
bagas, e que exibia o entusiasmo próprio da juventude. Adorava

o pai... e raramente saía de junto dele se não fossem as pescarias no lago.

Todos eles me foram apresentados, um a um, e todos me deram as boas-vindas não como a
um inimigo vencido mas sim como a um convidado ou familiar. Não obstante o

duro tratamento a que fora sujeito durante a jornada, agora que chegara a casa de Gunnar
senti que havia sido admitido sem reservas no quente abraço da sua família.

Talvez a vida nas frias florestas do norte já fosse suficientemente dura para não precisarem de
lhe adicionar amarguras desnecessárias.

Com uma palmada das mãos e um grito, Gunnar enviou os cães a correr através do prado, de
volta a casa, e riu de satisfação ao ver como lhe obedeciam. Ulf, incapaz

de se conter durante mais tempo, soltou um grito e correu atrás deles enquanto Gunnar
passava um braço em volta

144
dos ombros de Karin, puxando-a para si e encaminhando-se para a casa com passadas longas e
rápidas. Atirou a cabeça para trás e começou a cantar ruidosamente, para

grande divertimento das mulheres, que se riram e o acompanharam na canção.

O saco de couro de Gunnar, momentaneamente esquecido, jazia a meus pés. Portei-me como
um bom escravo, coloquei-o às costas e segui o meu amo.

145

DEZASSEIS

Passei aquela noite no celeiro ao lado do boi e das vacas de Gunnar.

Não se preocupou em prender-me ou limitar-me os movimentos de nenhuma maneira, e em


breve compreendi porquê. Os lobos começaram a uivar logo que a Lua se ergueu

por cima dos altos pinheiros. Claro que já anteriormente ouvira lobos, mas nunca tantos nem
tão perto. O som dos seus lamentosos uivos levou-me a crer que as matilhas

enxameavam o próprio rebordo da floresta. O celeiro era suficientemente seguro, como uma
verdadeira fortaleza, uma vez que Gunnar não desejava perder os seus valiosos

animais. Contudo, os uivos mantiveram-me acordado até muito tarde na noite e adormeci com
o seu som nos meus ouvidos.

De manhã, a familiar Ylva foi acordar-me para me conduzir à cozinha.

Os dinamarqueses constróem as suas habitações de modo a que a cozinha faça parte da


própria casa, de que acabam por constituir uma parte muito importante. Na realidade,

a casa de Gunnar era muito semelhante ao salão de Ragnar, salvo no que se referia ao facto de
haver um sótão para dormir

Construído no meio dos barrotes do telhado, por cima da mesa. O sótão estava virado para a
lareira, lá em baixo, e chegava-se a ele por intermédio de uma escada.

Ao lado da lareira existia um recanto onde guardavam os

barris da cerveja e da água, e também havia aí uma porta baixa que dava acesso a um pequeno
armazém. No fundo da grande sala havia um estábulo onde os animais podiam

ser recolhidos em caso de mau tempo, forrado a palha e equipado uma manjedoura para os
alimentar.
Quebrei o jejum com a família e foi assim que se iniciou o que passaria a ser um costume:
Gunnar e o filho sentavam-se num banco na extremidade da mesa mais perto

da lareira. e eu na extremidade oposta,

Junto ao estábulo, empoleirado num banquinho com três pernas. Equilibrava a malga em cima
de um joelho enquanto Karin e Ylva esvoaçavam da lareira para a mesa, conversando

e preparando a refeição. Os dinamarqueses, conforme descobri. gostavam das suas refeições


insuportavelmente

146

quentes e iniciavam quase todas com uma espessa papa de cevada que engoliam de malgas de
madeira, por vezes com a ajuda de colheres, mas mais frequentemente sem

se servirem delas.

Era depois da papa ter sido comida e de serem recolhidas as malgas, que surgia o pão, a carne
e um queijo muito branco. Se a época era de frutas, também as ofereciam.

Gunnar gostava particularmente das amargas groselhas-azuis e de uma pequena e ácida baga
vermelha a que chamavam lingõn, que Karin preparava numa compota fervida

que o marido despejava sobre o pão. Era um molho tão ácido que nunca consegui engoli-lo
sem o misturar com mel.

Por vezes havia peixe, fresco quando o conseguiam arranjar, mas que em geral era salgado ou
preservado numa solução de salmoura e vinagre.

Esse peixe, o lutfisk, emitia um odor capaz de fazer subir as lágrimas aos olhos. Comiam essa
abominação cozinhada em leite e afirmavam gostar, mas bastava o cheiro

para que eu sentisse o estômago a subir-me à garganta e não o conseguia suportar.

Quando não havia peixe comiam salsichas cozidas ou assadas, pois não fazia qualquer
diferença. Ocasionalmente, também aparecia um tipo de carne que era preparada

ensopando pernas de porco inteiras em salmoura durante vários meses, para serem depois
suspensas em paus sobre a lareira de modo a que o fumo as preservasse. Esse

tratamento fazia com que a carne ficasse muito vermelha, como a carne crua, mas o seu sabor
era magnífico, doce, suculento e salgado... tudo ao mesmo tempo. Tornei-me

num grande apreciador da rõkt skinka e comia toda a que apanhava, sempre que podia.

Os dinamarqueses gostavam que a carne, e também o pão, pesado e escuro, fossem servidos
quentes, directamente da lareira ou do forno, e em breve comecei a apreciar
esse estranho costume. A cerveja de Karin era igual ao pão: pesada, rica e satisfatória, com um
gosto doce que me fazia pensar em nozes. Um dia, Karin meteu bagas

na bebida e produziu a mais invulgar das cervejas. Não a consegui beber mas Gunnar achou
que se tratava de uma interessante variação em relação à bebida normal.

Infelizmente, desdenhavam o vinho - que, no fim de contas, tinha dificuldade em obter - mas
compensei essa falta adquirindo um certo gosto pela escura cerveja de

Karin.

Como já disse, comia com a família. Para seu crédito, Gunnar nunca se mostrou avarento
comigo no que se refere à comida, nem me dava alimentos de qualidade inferior.

Comia o mesmo que o meu amo em doses iguais. Ainda hoje me envergonho de ter de
confessar que por vezes

147

me saciei de um modo pecaminoso, sem ter o mínimo respeito pela Regra da Moderação. Não
foram poucas as vezes em que pedi para repetir os pratos que me eram oferecidos!

Continuo a ver o rosto bondoso de Karin a brilhar de satisfação - e do calor da lareira - quando
punha a comida sobre a mesa com as suas mãos vermelhas do trabalho,

mas com umas tranças perfeitamente limpas e roupas tão impecáveis como a sua cozinha. Era
uma mulher meticulosa e trabalhadora e nada a satisfazia mais do que ver

os frutos do seu trabalho a serem admirados e louvados. Claro que esses louvores não eram
difíceis de proferir para os que tivessem a sorte de arranjar um lugar

à mesa; as suas propostas culinárias, apesar de simples, nunca eram menos do que soberbas.

Contudo, sob este aspecto, também havia ali duas pessoas não tão afortunadas, embora o
fossem muito mais do que eu sob outros aspectos.

Eram Odd, o trabalhador, e Helmuth, o guardador de porcos, ambos saex e ambos escravos.
Odd era um homem grande, paciente, incansável e quase mudo. Helmuth era uma

pessoa madura, com boas maneiras e uma disposição tranquila. Apesar das aparências e tal
como vim a descobrir, era um homem com alguns conhecimentos.

O pobre Helmuth nunca era autorizado a entrar na casa por causa do cheiro a porcos que
permeava tanto as suas roupas como a sua própria pessoa. Dormia no celeiro

quando chovia ou nevava, mas nos dias bonitos e, quentes preferia fazê-lo no exterior, com o
vasto campo de estrelas do céu como único telhado. Contudo, mesmo que
não o preferisse, teria de o fazer para proteger os seus preciosos porcos contra os lobos.
Quando ao

Odd, mantinha-se junto de Helmuth sempre que não tinha nenhum trabalho para fazer.

Inicialmente, o facto de eu tomar as refeições com a família enquanto os meus irmãos


escravos comiam sozinhos, na rua, ou juntos, no estábulo,

Provocou-me alguma angústia. Porém, como mais ninguém considerava o facto como uma
injustiça e os dois homens pareciam satisfeitos com a sua

Sorte, não levei muito tempo a aceitar a situação.

Naquele primeiro dia, Gunnar saiu logo depois do almoço, na companhia de Ulf e dos dois
cães, para ir inspeccionar o estado dos seus domínios. Na verdade, tratava-se

de uma bela propriedade, com tudo bem feito e perfeitamente arrumado, e o proprietário
tinha motivos para se

Orgulhar do que conseguira realizar naquelas duras terras do norte. Pela sua parte, o pequeno
Ulf orgulhava-se do pai e verifiquei que nunca saiu do seu lado durante

todo o dia.

148

Caminhámos pelos campos, com Gunnar e Ulf a conversarem e eu a segui-los. De vez em


quando, o meu amo parava para examinar uma qualquer área ou pormenor da propriedade:

um campo arado, um vitelo novo, um fecho de ferro para uma porta, o nível de cereais no silo,
o lago dos peixes, um tapume recentemente levantado, qualquer coisa

que lhe aparecesse pela frente. Até um cego conseguiria perceber a que ponto aquele duro e
musculoso dinamarquês amava a sua terra, preocupando-se com todos os pormenores

da manutenção e exploração.

Passámos todo aquele dia a percorrer as fronteiras do reino de Gunnar, uma espécie de
solitária ilha-fortaleza, ou pelo menos assim me pareceu, engastada num mar

sempre verde e isolada do vasto mundo.

À medida que osdias foram passando, comecei a sentir-me cada vez mais distante do mundo
que conhecera. A nossa pequena abadia, em comparação, fora como um movimentado

porto numa rota comercial muito batida, onde o comércio havia sido conduzido não em prata
mas em palavras.
Não posso negar que Gunnar me salvara de uma morte certa... mas o preço da minha salvação
fora na verdade muito alto. Sentia-me perdido e muito, muito solitário.

Por isso, comecei a rezar durante todo o dia e a recitar salmos sempre que tinha uma
oportunidade. Uma noite, à mesa, rezei em voz alta antes da refeição enquanto

o meu amo e a sua família me olhavam com espanto. Ficaram tão surpreendidos com aquele
comportamento peculiar que nem lhes ocorreu impedirem-mo. Com o tempo, acabaram

por se habituar e esperavam que eu pronunciasse a oração antes de comer. Suponho que o
ritual lhes agradava, mas não faço ideia sobre o que pensariam a seu respeito.

Contudo, naquela primeira noite, quando ergui a cabeça depois da oração, descobri Gunnar a
olhar para mim. Karin encontrava-se a seu lado, também a olhar-me e a

dar insistentes cotoveladas no marido, que se virou para ela, pronunciou algumas palavras e a
fez desistir.

Na manhã seguinte o meu amo conduziu-me até junto de Helmuth.

Serviu-se de uma complicada série de gestos e indicou-me que deveria rezar outra vez, tal
como fizera na noite anterior.

Foi o que fiz.

O efeito sobre o guardador de porcos foi extraordinário. O homem atirou fora o varapau, caiu
de joelhos e chorou. Juntou as mãos e vi-lhe os lábios a tremerem numa

acção de graças enquanto enormes lágrimas lhe enchiam os olhos e lhe escorriam pelas faces.
A seguir deu um salto.

agarrou-me pelos braços e gritou:

- Aleluia! Aleluia!

149

Gunnar observou tudo aquilo com uma expressão divertida. Helmuth acalmou-se alguns
instantes depois e começou a murmurar para si mesmo.

Gunnar disse-lhe algumas palavras, após o que o guardador de porcos pegou na mão do seu
amo, beijou-a e balbuciou entusiasticamente. O surpreendido dinamarquês acenou

cortesmente para o escravo, deu meia volta e deixou-nos sozinhos com os porcos.

- O patrão Gunnar diz que eu... - Helmuth fez uma pausa, rebuscando a sua memória
empoeirada em busca da palavra apropriada. Heyal Tenho de ser aluno... nay, não
aluno... scólere, não... professor!

Aleluia! - Ficou radiante, quase que em êxtase, e tive a incómoda sensação de estar a olhar
para o zeloso irmão Diarmot, mas sob outra forma.

- Ter de ser teu professor... - prosseguiu. - Tu ter de ser aluno meu... - Estudou-me, à espera de
uma reacção.

- Perdoa-me, meu amigo, não pretendo ofender - repliquei - mas como é que todos os skald e
guardadores de porcos desta terra sabem falar bom latim? - Continuei e

contei-lhe o meu encontro com Scop.

- Scop! - exclamou. - Scop foi quem ensinou mim. Um excelente homem, o Scop. Fui mandado
a ele como rapaz para me sentar a seus pés e aprender os mirabili mundi.

Era o melhor dos seus alunos!

- Então, o Scop nessa altura ainda era sacerdote...

- Sacerdote, sim... - confirmou Helmuth - e chamava-se Ceawlin, um homem muito santo e


honesto. Um saecsen, tal como eu. Ensinou-me o amor de Jesus e a veneração

de todos os santos, e muito mais. Pensei em também ser sacerdote... - interrompeu-se e


abanou a cabeça com tristeza - mas tal nunca seria. - Olhou para mim. Embora

não ouça Missa há muito, ainda acredito... e converso frequentemente com o Todo-Poderoso,
pedindo alguém com quem falar. Penso que te enviou a ti.

Falava o melhor que era capaz. Apesar do que eu lhe dissera, o latim de Helmuth não era bom
e estava poluído com muitas palavras estranhas, de várias línguas. Mesmo

assim, nos dias que se seguiriam começámos a compreendermo-nos melhor um ao outro e


acabei por juntar as peças da história sobre como acabara a servir Gunnar. Com

muitas hesitações e incompreensões de ambos os lados, Helmuth acabou por me explicar a


guerra que matara Ake, o Reticente, bem como Svein, o seu belicoso filho,

e que acabara por colocar Rapp, o Maço, no trono.

Rapp não acreditava em nada, excepto no maço-de-guerra que tinha na mão - observou
Helmuth, amargo. - Rapp fazia escravos de todos os não mortos... Não, Rapp fazia

escravos de todos os que viviam...

- Os que sobreviviam...

150
- Heya, sim, os sobreviventes! Vendia alguns, ficava com outros.

Achava que os saecsens eram úteis, e manteve-me a mim e ao Ceawlin.

Pensou que seríamos bons reféns se os saecsens o atacassem. Servimos no salão até morrer...

- E que aconteceu a seguir?

- Teve duplos rapazes...

- Teve dois rapazes. Dois filhos.

- Heya. Thorkel, o mais velho, Ragnar, o mais novo. Depois da morte de Rapp - engasgado com
o osso da medula, no salão - Thorkel ficou com o trono. Não era um mau

jarl, mas também não era cristão...

- Que lhe aconteceu?

- Partiu a-viking... - declarou Helmuth, pensativo - e nunca regressou. Esperaram dois anos e
fizeram Ragnar rui...

- Rei?

- Heya! O Cabelos-Amarelos é rei desde aí. - O guardador de porcos encolheu os ombros. - O


povo gosta dele porque é mais generoso do que o pai e o irmão. Dá tudo

o que tem com pena... Sem pena, quero dizer.

- Incluindo os escravos.

- Sim, incluindo os escravos. - Helmuth suspirou. - Deu-me ao pai de Gunnar, que me fez
guardador de porcos apesar de eu saber ler e escrever... e aqui estou. Não

me queixo, sou bem tratado.

- Alguma vez tentaste fugir?

Helmuth fez um gesto amplo e abriu muito os olhos.

- Para onde iria? Há lobos na floresta... e homens ferozes por todo o lado. - Sorriu com algum
pesar. - O meu lugar é aqui. Tenho de tomar conta dos meus porcos.

- Olhou em volta e contou-os rapidamente, para se certificar que se encontravam todos à vista.

- E o Odd? - perguntei.

- Gunnar comprou-o para trabalhar na quinta - disse Helmuth.

A seguir explicou o modo como uma pancada na cabeça, quando fora capturado, privara Odd
de tudo excepto algumas palavras muito simples.
- O Odd pode ser lento a pensar, mas é um bom trabalhador e muito forte. - Fez uma pausa e
acrescentou: - Sabes, Aeddan...

- Aidan - corrigi-o.

- Gostava de saber como vieste aqui parar. Gunnar ganhou-te ou comprou-te no mercado de
escravos de Jutland?

- Capturou-me - respondi. Contei-lhe o ataque nocturno à aldeia mas tive o cuidado de omitir
qualquer referência à peregrinação ou ao

151

tesouro. - Depois, quando chegámos aqui, comprou-me ao Cabelos Amarelos por três moedas
de ouro.

- Gunnar é um bom amo, heya - disse Helmuth. - Raramente me bate, mesmo quando está
bêbado, e Karin é uma mulher digna de louvores em qualquer língua. Manda na cozinha

e em tudo o que passa por baixo da sua... - o homem hesitou - visão?

- Olhos - sugeri, com delicadeza. - Tudo o que passa por baixo dos seus olhos.

- Heya. São boas pessoas. - A seguir acrescentou, pensativo: Gunnar diz que corta as nossas
duas línguas se não te ensinar a falar como um dinamarquês antes da próxima

Lua Cheia.

Com um incentivo tão atraente na nossa frente, começámos a minha instrução formal naquela
mesma manhã. Helmuth, hesitante e com falta de prática, foi ganhando segurança

à medida que lhe regressaram as recordações dos seus tempos de infância sob a tutoria de
Ceawlin. Depois de um começo difícil, em breve organizámos um sistema de

aprendizagem em que eu apontava para uma coisa e dizia o seu nome em latim, ao qual ele
respondia com o nome apropriado na linguagem nórdica. Depois, eu repetia

a palavra em voz alta, muitas vezes, para a fixar na memória.

Depois de muitos dias de uma tal disciplina acabei por ganhar um certo sentido da língua, se é
que lhe podemos chamar sentido, e já conseguia designar um bom número

das coisas que me rodeavam. Gradualmente, Helmuth começou a introduzir palavras que
implicavam acção, tal como cortar, cavar, plantar, acender uma fogueira e assim

por diante. Encontrei nele um professor cheio de boa vontade e um bom companheiro, afável,
paciente e ansioso por ajudar. Para além disso, deixei de pensar que
o homem cheirava a esterco de porco.

O Odd, depois de terminar o dia de trabalho, sentava-se e ficava a olhar para nós com uma
expressão de espanto. Nunca soube o que ele pensaria a respeito do que

via que porque não lhe ouvi mais do que grunhidos durante todo o tempo em que o conheci.

Gunnar exigiu-me muito pouco durante aqueles dias. Rachei lenha para armazenar, dei de
comer às galinhas, transportei água do poço, ajudei Odd a dar de comer às

vacas e a reparar as cercas quando o gado as derrubava. Ajudei Helmuth a tratar dos porcos,
removi cinzas de lareiras, mudei a palha no celeiro, espalhei esterco

pelos campos, arranquei tocos de árvores e auxiliei Ylva a depenar os patos e a mondar os
campos...

Em resumo, levei a fim as tarefas que precisavam de ser feitas, mas o meu trabalho não era
mais pesado ou árduo do que qualquer um dos

152

que executara na abadia. Na verdade, o meu amo guardava as tarefas mais pesadas para o
Odd e para ele próprio. Porém, de qualquer modo, ninguém trabalhava mais do

que Karin, pelo que cheguei à conclusão de que Gunnar não necessitava, na verdade, de outro
escravo. Fossem quais fossem as razões que o tinham levado a comprar-me

a Ragnar, o trabalho não fora uma delas.

Continuei a tomar as minhas refeições na casa e comecei a sentir que fazia tão parte da família
como Ylva ou Ulf. Não era tratado nem pior nem melhor do que eles.

Quando aprendi a reunir as palavras, formando frases rudimentares e por vezes divertidas, o
meu amo louvou-me e manifestou a sua satisfação com os meus progressos...

e essa sua satisfação foi tanta que o dia do teste surgiu pouco depois da minha primeira e
hesitante conversa com ele.

Resolvi perguntar-lhe o que se passara na noite do ataque, numa tentativa para tranquilizar o
meu espírito.

- Sabe o que aconteceu aos meus irmãos? - perguntei-lhe, tropeçando nas palavras.

- A noite estava muito escura - respondeu, num tom calmo.

- Foram mortos?
- Sim, talvez alguns deles tenham sido mortos - admitiu - mas não sei quantos. - A seguir
explicou que, devido à confusão que se seguira à súbita chegada do rei

e dos seus homens, não tinha certezas a respeito de coisa nenhuma. - O jarl apareceu e nós
fugimos, levando apenas o que conseguimos carregar. Deixámos muitos tesouros

para trás - concluiu, com tristeza - e não sei o que aconteceu aos teus amigos.

Na manhã seguinte, Gunnar foi ao celeiro despertar-me e informou-me que ele e Helmuth
iriam conduzir alguns porcos a Skansun.

- Há um mercado - explicou - e é um dia de marcha. Passaremos a noite e voltaremos para


casa. Compreendes?

- Heya - repliquei. - Vou convosco? - inquiri, esperançado de que teria oportunidade de voltar a
ver qualquer coisa do resto do mundo.

- Nay. - Abanou a cabeça com solenidade. - Ficas com a Karin e a Ylva. O Ulf e o Helmuth irão
comigo. O Odd fica contigo. Heya?

- Compreendo.

- Levo o Garm comigo. Deixo o Surt para tomar conta do gado. Momentos depois já nos
encontrávamos reunidos no pátio para nos despedirmos dos viajantes. Gunnar disse

qualquer coisa à mulher, encarregando-a, suponho, dos trabalhos da quinta. A seguir chamou
Garm, o cão preto, e saiu do pátio sem sequer olhar para trás. Ulf colocou-se

a seu lado

153

e Helmuth, com os porcos, foi ter com eles à saída do pátio. Vimo-los afastarem-se e
regressámos às nossas tarefas.

O dia foi bonito e brilhante, com o ar quente e cheio de insectos, uma vez que o Verão se
aproximava. Odd e eu passámos a manhã a trabalhar no campo de nabos. Depois

da refeição, Ylva e eu enchemos um caldeirão com o leite do dia anterior, que tinha ficado a
assentar, acendemos uma pequena fogueira no pátio e começámos a fazer

queijo. Logo que o líquido começou a fervilhar, deixámos o caldeirão aos cuidados de Karin e
voltei para os campos.

O primeiro indício de que a situação era diferente do que imaginara só surgiu ao pôr do Sol
quando, por acaso, levantei os olhos da monda dos nabos e vi Gunnar e
Ulf a atravessarem o pátio, com Helmuth e os porcos a seguirem-nos a alguma distância.
Pensei que lhes acontecera qualquer coisa terrível, larguei o sacho e corri

para eles.

- Que aconteceu? - ofeguei, sem fôlego por causa da corrida. - Passou-se alguma coisa?

- Está tudo bem - replicou Gunnar com um leve sorriso matreiro. - Regressei.

- Mas... - comecei, acenando a mão na direcção de Helmuth - então o mercado... e os porcos?


Mudou de cabeça... Quero dizer, mudou de ideias?

- Não fui ao mercado - informou-me o meu amo. Ulf soltou uma gargalhada, como se tivessem
pregado uma bela partida a alguém.

- Não compreendo... - queixei-me, olhando de um para o outro.

- Foi um teste - explicou Gunnar com simplicidade. - Queria ver o que farias quando não
estivesse aqui para te guardar.

- Vigiaram-me?

- Sim, vigiámos-te.

- Para ver se eu fugia, sim?

- Sim, e também...

- Não confiaram em mim... - A compreensão de que fora posto à prova, embora de um modo
inofensivo e bem-humorado, fez-me sentir estúpido e desapontado. É claro,

concluí, que um amo tinha o direito de pôr à prova a lealdade dos seus servos, mas mesmo
assim sentia-me ofendido.

Gunnar olhou-me com uma expressão profundamente intrigada.

- Não fiques assim, Aeddan. Procedeste bem - declarou. - Estou satisfeito.

- Mas nunca me perdeste de vista... - queixei-me.

154

Gunnar respirou fundo e endireitou-se.

- Não te compreendo - afirmou, abanando a cabeça de um lado para o outro. - Eu - salientou,


batendo no peito - estou muito satisfeito.

- Mas eu não estou - respondi, numa voz sem entoação. - Eu estou zangado.
- O problema é teu - replicou. - Pela minha parte, estou satisfeito. - A sua expressão tornou-se
altiva. - Pensas que és um homem com conhecimentos, heya? Pois bem,

se conhecesses como as coisas são em Skania, também ficarias satisfeito.

Afastou-se, irradiando contentamento. Mais tarde, quando jazia na minha cama de palha,
arrependi-me do meu comportamento vergonhoso. Gunnar era um bom amo, alimentava-me

bem e nunca levantara a mão contra mim desde que eu ali chegara. A minha amargura não
tinha razão de ser e resolvi pedir-lhe perdão no dia seguinte. Infelizmente,

não cheguei a ter essa oportunidade.

155

DEZASSETE

Ouvi um ruído no pátio e acordei. Ainda estava escuro mas o Sol começava a aparecer quando
saí do celeiro. Gunnar despedia-se de Karin, que enfiava pequenos pães

nas mãos de Ulf. Helmuth já caminhava pelo trilho, de varapau na mão, e ficava parado, à
espera dos porcos, sempre que estes procuravam desenterrar cogumelos por

entre a vegetação. Feitas as despedidas, Gunnar virou-se, chamou Garm, o maior dos dois cães
pretos, e saiu do pátio com o filho e o cão a correrem atrás dele.

- Onde vai o Gunnar? - perguntei, parando junto de Karin.

- Gunnar e Helmuth foram para o mercado - replicou. - Tê-lo-iam feito ontem se não fosse o
teste.

- Compreendo - respondi, sentindo-me levemente enganado por não ter oportunidade de lhe
pedir desculpa.

- Sim - afirmou - fazendo um aceno de confirmação com a cabeça. - Regressam amanhã. Vai
buscar lenha.

Iniciei o meu dia de trabalho com o transporte de lenha para a cozinha, para depois à água.
Odd apareceu com o sacho na mão e arrastou-se para o campo e pouco depois

também me juntei a ele. Trabalhámos num agradável silêncio até ao momento em que Karin
nos chamou para a primeira refeição do dia. Sentámo-nos no pátio, ao calor

do Sol, com as nossas malgas de madeira cheias de fumegantes papas que comemos com a
ajuda de pão escuro, já duro.
Odd regressou ao campo depois do primeiro almoço e eu reparei o cabo do seu sacho, que se
soltara. Afiei-lhe a lâmina, bem como a da faca de cozinha de Karin. A

seguir ajudei Ylva a esfolar três lebres que ela apanhara numa armadilha durante a noite.
Esquartejámos as pequenas carcaças e esticámos as peles em estruturas de

paus, para que secassem. Concluída essa tarefa, levei as vacas até ao lago, para beberem, e
passei o resto da manhã a vigiá-las.

Após a refeição do meio-dia regressei ao campo, onde trabalhei na monda dos nabos até o Sol
começar a afundar-se por trás das árvores.

156

Todavia, quando cheguei ao fim da última fileira, endireitei-me e olhei para trás. Embora fosse
um escravo, executava o meu trabalho com todo o cuidado, como se

ainda estivesse na abadia. Fazia-o para agradar a Gunnar mas também, o que era mais
importante, para agradar a Deus, uma vez que as Sagradas Escrituras nos ensinam

que um escravo deve servir bem o seu amo para o ganhar para o Reino dos Céus, e era isso o
que eu pretendia fazer.

Admirava o meu trabalho quando Odd grunhiu para mim do outro lado do campo. Virei-me e
olhei para onde ele apontava: aproximavam-se duas figuras escuras que saíam

ousadamente da cobertura da floresta e avançavam para a casa.

Agarrei o sacho com força e corri para a casa tão depressa quanto podia.

- Karin! Karin! - gritei. - Vem aí alguém! Depressa, Karin, vem aí alguém!

Ouvi-me e apareceu a correr do interior da casa.

- Que barulho é esse que estás a fazer? - inquiriu, olhando-me rapidamente de alto a baixo.

- Vem aí alguém - repeti. - Além! - Apontei para trás de mim, para o prado. - Dois homens.

Karin semicerrou os olhos e observou a floresta. A sua expressão tornou-se mais séria.

- Não os conheço - disse, mais para si mesma do que para mim, para logo soltar toda uma fiada
de palavras que não consegui compreender. Olhei-a, mas não tinha palavras

para aquela situação e encolhi os ombros.

- Ah! - exclamou Karin, num tom cada vez mais urgente. - Ylva! No lago... Vai buscá-la!
Depressa! - pediu, já a correr para dentro de casa. - Vai buscar o Surt.
Depressa!

Corri através do pátio e para lá do celeiro, com os pés a martelarem no trilho de terra batida
que conduzia ao lago dos peixes, que ficava no pequeno vale a norte

da casa. Não era longe e encontrei a jovem Ilya, com o manto arregaçado até às ancas, a
patinhar na água. Estava de costas para mim mas virou-se quando deslizei

pela margem enlameada e só parei dentro de água.

- Aeddan, heya!- disse, bem-disposta. - Vem nadar!

A visão das suas coxas brancas, tão redondas e firmes, que se adelgaçavam delicadamente até
aos joelhos, fez-me deter de repente. Por instantes até esqueci o que

fora ali fazer. Olhei para as suas belas carnes e debati-me para recuperar a voz.

157

- É... é... - Obriguei-me a desviar os olhos daquelas pernas. - Vem aí alguém! Temos de ir!
Depressa!

Virei-me e comecei a subir a vertente. Cheguei ao cimo e olhei para baixo. Ylva continuava na
água e não fizera qualquer movimento para me seguir.

- Vem, Ylva! - gritei, olhando em volta, para as margens do lago. - Surt! - Chamei. Heya, Surt!

Compreendendo-me finalmente, a jovem saiu da água com leveza, baixando o manto


enquanto o fazia. Tive um último relance daquelas encantadoras pernas quando começou

a trepar a margem.

- Surt!- chamou. - Heya, Surt, vem aqui!

Ouvimos agitação nos arbustos quando o grande cão preto saltou para o caminho por trás de
nós e nos ficou a olhar, na expectativa, com a boca aberta e a língua pendurada.

Ylva correu para ele e segurou-o pela coleira com a sua elegante mão.

- Para casa, Surt!

Corremos os três de regresso à casa e vimos Karin, de mãos nas ancas, a enfrentar os
estranhos que tinham acabado de entrar no pátio. Odd apareceu nesse momento

na esquina da casa, de sacho na mão. Surt lançou uma olhadela aos dois homens, rosnou
baixinho, no fundo da garganta, libertou-se da mão de Ylva e correu para o

lado de Karin, começando a rosnar num tom mais alto. Ouvi Karin perguntar:
- Quem são vocês?

Os homens ignoraram-na e avançaram mais alguns passos. Surt rosnou com mais força, com os
pêlos do lombo espetados como navalhas.

- Parem aí! - ordenou Karin, acrescentando mais qualquer coisa que não percebi.

Os homens pararam e olharam em volta. Um era louro e o outro era moreno, mas eram ambos
guerreiros altos e musculosos, com longas barbas. O moreno usava uma comprida

trança por cima do ombro enquanto o louro tinha o cabelo muito curto. Transportavam lanças,
traziam espadas penduradas à cintura e longas facas enfiadas nos cintos

de couro. Reparei que nenhum deles possuía capa, mas que um vestia uma túnica de couro,
enquanto a do outro era de tecido e sem mangas. As suas botas altas, de couro,

estavam bem gastas.

- Saudações, boa mulher - respondeu finalmente o estranho de cabelos louros, virando os seus
olhos preguiçosos para nós. - Está um dia quente, heya?

158

- Há água no poço - retorquiu Karin. O gelo da sua voz estava de acordo com a arrogância dos
bárbaros.

Os olhos frios do estranho saltaram para Ylva e demoraram-se nela.

- Onde está o teu marido? - perguntou.

- O meu marido está a tratar dos seus assuntos. - Os dois homens trocaram um olhar.

- E os assuntos do teu marido levaram-no até onde? - perguntou o moreno, falando pela
primeira vez. A voz, não obstante a aparência do homem, era agradável e convidativa.

- Longe?

- Não, está perto - respondeu Karin.

O estranho disse qualquer coisa que não compreendi. Sorriu, tranquilizador, dando um passo
lento em frente. Odd agitou-se, inquieto, e Surt rosnou.

Ao que me pareceu, a resposta de Karin foi curta e defensiva mas não sei o que ela disse.
Movi-me para me pôr ao lado de Odd, desejando que o teste de Gunnar tivesse

sido naquele dia em vez de no anterior. Karin voltou a falar, creio que numa espécie de
desafio.
O homem louro respondeu e entendi algumas palavras: "Rei Harald Berro-de-Touro",
"mensagem" e "homens livres de Skania." Pareceu-me tratar-se de uma comunicação

de alguma importância e lamentei os meus reduzidos conhecimentos da língua, que se


limitavam quase só aos trabalhos na quinta.

Penso que Karin os interrogou a respeito da mensagem, mas fê-lo num tom de aguda
desconfiança. Foi o guerreiro moreno quem lhe respondeu. Ouvi-o dizer:

- Só para o Gunnar... queremos falar com ele agora...

- Não devemos lealdade a ninguém, excepto a Ragnar Cabelos-Amarelos! - retorquiu Karin,


sem entoação.

- Ragnar Cabelos-Amarelos - troçou o bárbaro louro - deve lealdade a Harald Berro-de-Touro...

- Sem dúvida - continuou o moreno, com um tom suave - e o próprio Cabelos-Amarelos to


diria, se estivesse aqui. Infelizmente... - Abriu a mão vazia num gesto de

impotência. Contudo, reparei que a outra mão, a direita, pousara no punho da espada.

- Se recusares... - disse o outro, pronunciando palavras que não reconheci - ... com Gunnar,
agora... será pior para ti.

- O meu marido não está cá neste momento - declarou Karin. - Transmitam-me a mensagem
ou esperem pelo seu regresso.

O moreno pareceu ficar a pensar no assunto. Virou mais uma vez os olhos para Ylva, que se
encontrava a meu lado.

159

- Esperaremos - decidiu.

Karin fez um aceno cortês e disse qualquer coisa a respeito do poço e do celeiro. A seguir
virou-se, chamou Ylva e voltou para casa caminhando com movimentos rígidos.

Os homens viram-na a afastar-se sem nada dizerem, mas o seu silêncio era claramente
encrespado. Também não gostei da maneira como olharam para Ylva, pois vi sinais

de ameaça nas suas prolongadas miradas.

O Odd e eu regressámos às nossas tarefas. As vacas encontravam-se no prado mas, com a


ajuda de Surt, reuni-as rapidamente e levei-as para o cercado do gado. Acabei

de as mungir, dei de beber ao cão e levei o leite para a casa.


Ia a entrar no pátio quando ouvi vozes que pareciam estar a discutir. Apressei o passo, dobrei a
esquina da casa e vi Ylva na frente do celeiro, entre os dois bárbaros.

O louro tinha-a segura por um braço, a jovem procurava libertar-se mas o homem segurava-a
com demasiada força. Os dois homens conversavam um com o outro e com Ylva,

em tons brincalhões, todos cheios de sorriso e de lisonjas. Ylva, contudo, parecia implorar -
que a libertassem, creio - e a sua expressão era de medo.

Pousei o jarro do leite junto à porta e entrei no pátio.

- Ylva... - disse, chamando-a e avançando para eles, como se tivesse andando à procura dela - a
Karin está à tua espera.

Ylva virou-se ao ouvir-me e implorou-me ajuda com os olhos.

- Tenho de ir - disse, para os homens.

- Não - retorquiu o louro. - Fica e conversa connosco.

- Vinte moedas de prata - declarou o moreno, ignorando-me. - Darei vinte moedas...

- Vinte! - troçou o companheiro. - Isso é muito mais do que tu...

Não consegui compreender nada do que disse a seguir, mas o amigo replicou:

- Não sabes nada, Eanmund. - Virou-se para Ylva e acrescentou:

- Darei vinte e cinco moedas de prata por uma boa esposa. És uma boa esposa?

- Por favor... - respondeu Ylva, numa voz fraca e muito assustada - tenho de ir. - Disse mais
qualquer coisa, que tomei como sendo um pedido para que a largassem.

- Heya! - intervim, avançando com muito mais ousadia do que aquela que na verdade sentia.
Apontei para Ylva e disse-lhes: - Querem-na na casa.

160

O louro largou Ylva, virou-se para mim, pousou as duas mãos no meu peito e empurrou-me
para trás.

- Vai-te embora, escravo! - gritou.

Ylva, momentaneamente livre, tentou escapar-se, mas não conseguiu dar mais de três passos
antes do homem moreno voltar a agarrá-la. Puxou-a com força para o celeiro,

falando-lhe com modos duros. Pus-me de pé e preparava-me para correr para ir avisar a Karin
quando ouvi um curioso grito estrangulado.
Virei-me e avistei Odd, agarrado ao sacho, que avançava para nós com passos curtos e rápidos.
Tinha o rosto vermelho de raiva.

- Não, Odd! - gritei-lhe. - Pára! - Virei-me para os bárbaros e acrescentei: - Larguem-na, por
favor! O Odd não... - O meu pobre domínio da lingua abandonou-me.

"Pensa" não era a palavra que me fazia falta. Compreende! - Por favor, ele não compreende!

- Odd! - exclamou Ylva - Volta para trás! - Disse mais coisas mas não serviu de nada porque
Odd continuou a avançar, empunhando o sacho como se fosse uma arma. Voltou

a emitir o seu estranho mugido e compreendi que estava a tentar articular o nome da jovem.

Temendo o embate que se iria seguir, virei-me e corri para a casa, gritando por Karin. Não sei
se me ouviu ou se foi atraída pelos gritos no pátio, mas apareceu

à porta quando lá cheguei.

- Depressa! - disse-lhe, apontando para o celeiro onde os estranhos, ainda a segurarem Ylva,
enfrentavam Odd.

- Nay! Nay!- Gritou Karin, já a correr para o celeiro.

De súbito, surgiu-me uma ideia na cabeça: o Surt!

Apressei-me na direcção da cerca para o gado, chamando o cão enquanto corria. Surt ouviu-
me e foi ter comigo ao caminho. Agarrei-o pela coleira e disse-lhe:

- Vem, Surt!

Regressei ao pátio a toda a pressa e encontrei Ylva e Karin a gritarem para Odd, que parecia
estar a abraçar o estranho de cabelos louros enquanto o outro homem

do rei lhe batia nas costas com o punho da espada. Quando me encontrava mais perto, vi Odd
levantar o homem em peso, num abraço esmagador.

Os olhos do louro estavam fechados contra a dor enquanto agitava as pernas para tentar
libertar-se. Por fim, o amigo lançou um golpe contra a base do pescoço de

Odd. O gigantesco escravo soltou um grunhido e largou a sua presa. O louro caiu no chão,
onde ficou a ofegar, enquanto Odd cambaleava para trás e se ia abaixo. Quando

o estranho moreno se

161

baixou para o amigo, Karin aproveitou a oportunidade, agarrou Ylva por um braço e puxou-a
para longe.
Surt, vendo os seus a serem maltratados, rosnava e tentava lançar-se para a frente. A luta
pareceu terminar mas mantive-o bem agarrado pela coleira. Era tudo o que

podia fazer para o dominar. Estávamos a chegar ao local onde Karin e Ylva se encontravam
quando o bárbaro começou a levantar-se com dificuldade. Pôs-se de pé, agarrado

às costelas e a praguejar, com sangue a escorrer-lhe de um canto da boca.

A seguir, o louro arrancou a espada das mãos do companheiro e virou-se para Odd, que se
encontrava sentado no chão, agarrado à cabeça e a gemer. Sem sequer pronunciar

uma palavra, o bárbaro louro cravou a ponta da espada no peito do escravo.

O pobre Odd olhou para cima, surpreendido. A sua mão agarrou na lâmina nua e tentou puxá-
la... mas o estranho obrigou a lâmina a penetrar ainda mais fundo, com o

rosto transformado numa careta de satisfação brutal.

Ylva guinchou. Karin soltou um grito e puxou a jovem para trás das costas.

Vi a maléfica lâmina a sair do corpo de Odd, vermelha e a pingar, e também o bárbaro a


levantar o braço para um segundo golpe. Odd caiu para trás e contorceu-se,

tentando escapar. Antes de compreender perfeitamente o que estava a fazer, deixei que os
meus dedos largassem a coleira do cão.

- Vai, Surt! - gritei-lhe.

Ouvi-se um som estranho, uma espécie de sussurro. O louro olhou para cima e viu a morte a
precipitar-se para ele sob a forma de um cão negro. O bárbaro moreno ainda

fez uma tentativa desajeitada para o agarrar quando aquela mancha escura passou junto dele.

O homem do rei virou-se, com a lâmina a brilhar no braço levantado.

Surt, com os dentes completamente a descoberto, ainda se encontrava a três passos de


distância quando saltou. O animal atirou-se contra o peito do homem com todo

o seu peso, derrubou-o... e o pátio ecoou um grito subitamente interrompido quando as


maxilas do animal se fecharam sobre a garganta do bárbaro.

O moreno lançou-se para a frente mas Surt já sacudia furiosamente a sua vítima loira,
acabando-lhe com a vida. Karin gritou a Surt que parasse mas o animal já saboreara

o sangue e não se mostrava disposto a largar a sua presa.

162
Agarrando na espada caída, o bárbaro moreno lançou um golpe rápido contra a base da
cabeça do cão, que caiu e rolou para um lado com os dentes ainda cravados no

ferimento da sua vítima.

O bárbaro contorceu-se no chão com a garganta a emitir um peculiar som gorgolejante. De


repente, tossiu violentamente e expeliu uma espécie de neblina vermelha de

sangue. As suas pernas endireitaram-se, arqueou as costas, afastando-as do chão... e foi-se


abaixo com um suspiro áspero quando o ar se lhe escapou dos pulmões.

Karin e eu corremos para Odd... que parecia sereno e pensativo como se estivesse a
contemplar o céu sem nuvens. Contudo, os olhos que fitavam as alturas já contemplavam

um reino diferente do nosso. O sangue deixara de lhe escorrer dos ferimentos e a respiração
não lhe agitava os pulmões.

Caiu um silêncio pesado sobre todo o pátio. Sentia a cabeça a pulsar com o som do meu
próprio sangue a correr-me nos ouvidos. Desviei os olhos daquela visão de morte

e avistei Ylva, de mãos apertadas contra a boca, a soluçar e com os seus membros a tremerem
de alto a baixo. O meu primeiro impulso foi o de correr para ela para

a reconfortar... mas ainda mal me virara para dar o primeiro passo quando fui detido por um
rosnido de raiva:

- Escravo!

O estranho que estivera ajoelhado ao lado do corpo do companheiro levantou-se,


empunhando a espada, e avançou devagar para mim cuspindo palavras que não fui capaz

de compreender. Contudo, o seu significado era bastante claro: queria matar-me. Não tenho
dúvidas de que o teria feito - tão facilmente como ao cão -, se não fosse

a rápida intervenção de Karin.

- Pára! - gritou, estendendo a mão para o bárbaro. - Estas terras são de Gunnar Maço-de-
Guerra e já lhe mataste um escravo e um cão... - Acrescentou mais qualquer

coisa que não entendi, mas apontou para Ylva e suponho que estaria a dizer que as ameaças à
jovem seriam relatadas, bem como as mortes de Odd e Surt.

O bárbaro moreno continuou a avançar, espumando de raiva. A lâmina na sua mão levantou-
se para a minha garganta. Vi-lhe o ódio nos olhos mas senti-me estranhamente

calmo, como se tudo aquilo tivesse acontecido há muito... e a um outro Aidan.

A ponta da espada aproximou-se.

O golpe atingiu-me num dos lados da cabeça... Todavia, não fora dado com a espada mas sim
com o punho que a segurava. Caí imediata-
163

mente, cego pela dor, e fiquei à espera do golpe final que me iria separar a alma do corpo.
Estava vagamente consciente dos lamentos de Ylva, que gritava e chorava,

implorando o fim da matança.

Karin soltou novo grito. Olhei para cima e vi que agarrara um braço do estranho, o que
empunhava a arma, impedindo-o de completar o golpe.

- Basta! - exclamou. - Queres matar dois dos escravos de Gunnar?

O homem do rei hesitou e a ponta da espada vacilou enquanto analisava as opções. Karin, com
uma expressão sombria e ameaçadora, pronunciou um aviso num tom baixo

e o braço que segurava na espada descontraiu-se lentamente. Mantendo a sua expressão


assassina, o bárbaro embainhou a espada, proferiu uma jura murmurada e virou-se.

Pus-me de pé com a cabeça a pulsar, e sacudi o pó das roupas.

Karin aproximou-se de Ylva e falou-lhe com rispidez. O choro da jovem transformou-se numa
lamúria fraca.

- Vem - disse Karin, passando um braço por cima de Ylva. Virou-se para o homem do rei e para
mim e ordenou: - Enterrem-nos.

As duas mulheres regressaram à casa, caminhando lentamente e com grande dignidade,


deixando-me a mim, e ao meu inimigo, a tarefa de tratarmos dos corpos. Arrastámo-los

até ao lago dos patos, servimo-nos da pá de madeira de Gunnar e de parte de um arado de


ferro e escavámos duas covas na terra macia da margem. Na verdade, quem cavou

fui eu, porque o homem do rei se sentou logo que chegámos ao lago, não quis fazer mais nada
e deixou todo o trabalho a meu cargo.

Quando terminei, o estranho aliviou o corpo do amigo de todos os artigos valiosos, incluindo o
cinto da espada, as botas e a jaqueta. A seguir voltou a sentar-se

e ficou a olhar enquanto eu rolava os corpos para os túmulos. Entretanto, o bárbaro serviu-se
de gestos e de ameaças murmuradas para me dar a saber que, se pudesse,

em breve me juntaria àqueles dois.

Não me agradava ver Odd a ser enviado para o seu descanso final sem uma última
demonstração de respeito pelo seu falecimento. Era verdade que não se tratava de um

cristão, mas de qualquer modo pareceu-me que continuava a ser filho do Padre Eterno e que
merecia ser tratado como tal. Na realidade, se eu fosse um monge melhor
do que era, poderia ter-lhe falado do Filho Eterno e talvez tivesse acreditado. Por isso, compus
uma oração para ele e proferi estas palavras enquanto atirava terra

para cima do corpo:

164

- Ouve-me, Senhor do Céu, que concedes as tuas dádivas a todas as almas que caminham no
mundo cá em baixo, sejam elas cristãs ou pagãs. Odd era um escravo que trabalhava

duramente para o seu amo. Creio que amava Uva e morreu a tentar protegê-la. Jesus disse que
não há amor maior do que o de um homem que entrega a vida por um amigo.

Conheço muitos cristãos que não o fariam. Por isso, Senhor, concede esse crédito ao Odd. Se
houver espaço no teu salão de banquetes para um homem cuja vida foi vivida

sob a luz em que ele a viveu, então permite-lhe que se junte ao festim celestial, não para seu
bem, mas em nome do Teu próprio Filho. Amém, assim seja.

O bárbaro não deixou de me fitar, furioso, enquanto eu rezava. Quando terminei, agarrou-me
pela minha coleira de escravo e cuspiu... para a minha cara e para dentro

do túmulo. Puxando a coleira com toda a força, obrigou-me a pôr-me de joelhos e pontapeou-
me no estômago, uma vez... duas vezes... À segunda vez largou-me a coleira,

o que me fez cair de costas no túmulo, em cima do cadáver do pobre Odd. A seguir começou a
atirar terra para cima de mim, como se quisesse enterrar-me vivo.

Contudo, em breve se cansou e voltou a sentar-se. Trepei cautelosamente para fora do túmulo
e prossegui com os enterros, fazendo uma pausa para também murmurar uma

oração pelo estranho.

- Meu Bom Deus... - disse - entrego-te um homem que viveu pela espada. Conheces os seus
actos, porque a sua alma está na tua presença neste momento. Lembra-te da

piedade quando fizeres o teu julgamento. Amém.

O homem moreno olhava-me com espanto. Não sei o que o poderia ter espantado tanto, mas
dessa vez não cuspiu para cima de mim. Acabei de colocar a terra sobre os

corpos e de a comprimir, marcando os túmulos com uma pedra redonda que fui buscar ao
lago. Também enterrei o cão numa cova pouco profunda, ao lado dos dois homens,

mas não proferi nenhuma oração pelo animal. Quando terminei, olhei em volta mas o homem
do rei desaparecera e não o vi em lado nenhum quando voltei para casa.
Nessa noite fiquei deitado durante muito tempo, sem conseguir adormecer por causa da
curiosa e inquietante sensação que sentia a esvoaçar-me no peito. Não era medo

do homem do rei, nem me preocupava o facto de poder tentar fazer-nos mal enquanto
dormíamos. Não. Era antes a ideia de que causara a morte a outro ser humano, embora

se tratasse de um pagão. Num certo momento ainda existia, mas agora já não... e o
responsável fora eu.

165

Mesmo assim, não sentia qualquer espécie de remorsos. O que fizera, fora para salvar Odd.
Envergonho-me de o dizer, mas a única coisa que lamentava era ter demorado

tanto. O meu coração, a minha mente, todo o meu ser, estavam consumidos com a certeza de
que Odd ainda poderia estar vivo se eu tivesse libertado Surt mais cedo.

Claro que sabia que deveria sentir um profundo desgosto e culpa por um pecado com uma tão
iníqua envergadura. Que Cristo me salve... mas a verdade é que não consegui

descobrir em mim o mínimo sinal de arrependimento, pelo que continuei a jazer na minha
cama de palha tentando conseguir um sincero sentimento de remorsos pelo mau

acto odioso. Ah, mas a rebeldia ainda continuava a manter-me preso nas suas garras maléficas
e eu sabia, sem qualquer espécie de dúvidas, que não hesitaria se tivesse

de voltar a fazer o mesmo. Por fim, desisti do sono e desci até ao lago, onde me despi e meti
dentro da água até à cintura, recitando os Salmos e pondo em prática

o tipo de castigo que já fora o meu preferido.

Contudo, a água não estava suficientemente fria para dar origem a uma verdadeira penitência.
Na verdade, achei que aquelas águas frescas e paradas eram refrescantes

sobre a minha pele, e que a profunda tranquilidade da noite era um bálsamo para a alma. No
fim, tive de admitir a derrota. Icei-me para fora da água e adormeci na

margem enquanto a pálida Lua lascada pousava sobre as árvores.

DEZOITO

Gunnar regressou ao crepúsculo do dia seguinte. O homem do rei esperara durante todo o
longo dia de Verão, mantendo uma vigília sombria e meditativa no meio dos
bosques. Vi-o uma ou duas vezes enquanto estive à pesca. Mais tarde, quando estava a limpar
o peixe, quando ouvi Gunnar a gritar, anunciando a sua chegada. O senhor

da casa entrou no pátio chamando pela esposa e pedindo uma taça. Larguei o trabalho e fui
ter com ele, com o estômago a contorcer-se numa aterrorizada antecipação.

Estavam todos de pé, no pátio, junto à casa. O pequeno Ulf contorcia-se sob o abraço da mãe e
tinha uma faca enfiada no cinto. Reparei que Helmuth calçava botas

novas e carregava um fardo de roupas.

- Onde está esse estranho? - perguntou Gunnar, quando me juntei a eles. A satisfação da
chegada transformara-se numa amarga desconfiança.

- Não o vi desde as mortes - disse Karin.

Gunnar virou-se para mim com o rosto a contrair-se numa carranca.

- Ajudou-me a... - hesitei, tentando descobrir as palavras.

- A enterrá-los - interveio Karin, completando a minha frase. - Ajudou Aeddan a enterrar os


corpos.

- Eram dois? - grunhiu Gunnar, com a ira a crescer.

- Sim, dois. Um matou o Odd, e o Surt matou-o - expliquei, o melhor que podia. - O outro
matou o Surt.

- O Surt matou um deles?

- Heya - confirmei.

- Disseram que eram homens do rei Harald... e que vinham à tua procura, marido... -
prosseguiu Karin, mas eu perdi o fio à sua narrativa - ... e que só Gunnar podia

escutar a mensagem...

Começaram a falar um com o outro tão depressa que não consegui acompanhar o que
disseram, mas penso que estavam a discutir como as mortes tinham acontecido. Sei

que ouvi o nome de Ylva, e também o meu,

167

porque Gunnar se virou para mim e perguntou qualquer coisa que não compreendi. Abanei a
cabeça, impotente.

Helmuth, que se encontrava por perto, disse:


- Quer saber se é verdade que soltaste o cão. Virei-me para Helmuth e pedi-lhe:

- Explica-lhe que pensei apenas em proteger o Odd, mas que não actuei suficientemente
depressa para evitar o ataque.

O meu amo disse mais qualquer coisa e voltou a repetir a pergunta. Helmuth transmitiu-me as
suas palavras:

- Pergunta se soltaste o cão. Diz-lhe a verdade.

- Sim, soltei-o - repliquei. Que Deus me perdoe, mas não senti qualquer culpa.

- Óptimo - retorquiu Gunnar, num tom rude.

Foi nesse preciso momento que Helmuth levantou a sua vara dos porcos e apontou para o
pátio.

- Aí vem ele, patrão - declarou.

Gunnar lançou uma olhadela ao estranho que se aproximava e virou-se para Karin e Ylva.

- Vão para casa e fiquem lá.

Karin pegou na mão de Ulf e arrastou-o consigo. Desapareceram no interior da casa e Gunnar
avançou ao encontro do intruso.

- Vocês dois vêm comigo - ordenou, fazendo sinal a Helmuth e a mim para o seguirmos. - É
este o homem? - perguntou, quando acertei o meu passo pelo dele.

- Sim - respondi, com um aceno de confirmação.

Quando se encontravam separados por cerca de doze passos, Gunnar parou e esperou que o
estranho se aproximasse. Não parecia estar em pior estado depois de ter passado

a noite nos bosques, mas o seu aspecto também não melhorara. Tinha as mãos sujas e os
olhos vermelhos de falta de sono. Gunnar dirigiu-se-lhe quando o homem se aproximou.

Compreendi algumas das coisas que foram ditas e Helmuth explicou-me o resto mais tarde.

- Dizem que são homens do rei... - declarou Gunnar, com secura - mas pergunto a mim mesmo
o que faria o vosso rei a homens que violassem uma sua familiar e lhe matassem

um escravo e um cão?

- Ninguém violou a tua familiar - murmurou o guerreiro, empalidecendo. - Só queríamos falar


com ela.

- E quanto ao Odd? Como não entendia a vossa fala, devem ter pensado que compreenderia a
espada. Penso que vos compreendeu muito bem...
168

- Eanmund matou-o - replicou o bárbaro moreno. Continuou, apontando um dedo acusador


para mim. - Ele matou Eanmund. Soltou o cão. Quanto à rapariga, não sabíamos

que era da tua família. Pensámos que era uma escrava.

- Por vossa causa - declarou Gunnar - o meu bom escravo está morto, e também o meu cão.
Que tens a dizer a esse respeito?

- Se te sentes prejudicado, apresenta a tua queixa perante o monarca. Quanto a mim, só te


digo isto: chamo-me Hrethel e estou habituado a reunir em conselho nos

salões de jarls e reis, mas tu conservas-me aqui, de pé, como se eu fosse um escravo ou um
estrangeiro.

- Ainda continuas à espera da taça das boas-vindas? Pensas que te deverei oferecer a minha
melhor cerveja depois de teres trazido a morte e o desgosto à minha casa?

- Gunnar soltou uma gargalhada seca. - Dá-te por satisfeito por não derramar o teu sangue.

- Sou um homem de posição - retorquiu o estranho. - Só pretendo que tenhas isso em mente.

- Então deixa de te preocupar... - ripostou Gunnar, com desprezo - porque sei muito bem que
espécie de homem tenho na minha frente.

Hrethel fez uma careta mas abandonou as tentativas para levar a melhor sobre Gunnar.

- A mensagem que trago é esta: O rei Harald Berro-de-Touro proclamou uma theng que deverá
iniciar-se na primeira Lua Cheia depois da próxima. Como homem livre e

detentor de terras de Skania, ordena-te que estejas presente.

- Sou um seguidor do já´rl Ragnar... - respondeu Gunnar, semicerrando os olhos.

- Ragnar Cabelos-Amarelos jurou lealdade a Harald. Portanto, és convocado juntamente com o


teu rei. Se não compareceres, as tuas terras serão confiscadas a favor

do rei Harald.

- Compreendo... - Gunnar afagou o queixo, pensativo. - E é tudo? Então trata-se de uma


mensagem que poderia muito bem ter sido entregue à minha mulher ou ao meu

escravo. Se o tivesses feito, o escravo e o cão ainda estariam vivos.

- Fui encarregue pelo meu rei de transmitir a mensagem aos jarl e homens livres de Skania -
troçou Hrethel - e não às suas mulheres ou escravos. Já o fiz e agora

vou-me embora.
- Sim, segue o teu caminho - respondeu Gunnar. - Não te impedirei. Podes ter a certeza de que
irei ao theng... porque pretendo expor o vosso crime perante o monarca.

169

- Estás no teu direito - confirmou Hrethel com um aceno, exibindo uma expressão indignada.

Deu meia volta, saiu do pátio, atravessou o prado e entrou na floresta. Gunnar observou-o até
o ver desaparecer e virou-se para mim:

- Irás comigo ao conselho - disse, espetando um dedo no meu peito. - Viste o que aconteceu e
explicarás tudo ao rei.

Gunnar não deixou transparecer, nem nessa noite nem nos dias que se seguiram, se a
mensagem que acabara de receber o preocupara. A vida na pequena propriedade prosseguiu

tal como antes. Todavia, com a morte de Odd todos nós tínhamos agora muito mais que fazer.
Tomei ao meu cuidado a maior parte das suas tarefas mas não considerei

isso como uma provação porque me permitia conversar mais frequentemente com Helmuth.
Apliquei-me aos afazeres da propriedade e não fui menos diligente na aprendizagem

da fala. Pratiquei aquela rude língua sempre que pude, tanto com a ajuda de Helmuth como
sozinho. A minha confiança foi aumentando e comecei a falá-la com mais precisão.

Reconheci que, se tinha de ir fazer um relato na presença do rei, então seria bom melhorar a
fluência e foi essa a ideia que inspirou os meus esforços. Helmuth ajudou-me

a preparar a declaração que iria ter de fazer, interrogou-me como se fosse o monarca de todos
os dinamarqueses e eu respondi uma e outra vez até ser capaz de descrever

com clareza tudo o que se passara no dia da morte de Odd.

Quando não me encontrava a praticar aproveitava o tempo para rezar, tal como me parecia
apropriado, e os meus pensamentos viraram-se repetidamente para os meus irmãos

em peregrinação. Era frequente que me interrogasse sobre onde se encontrariam, o que


estariam a fazer e o que lhes teria acontecido desde que os vira pela última

vez. Rezei por eles ao longo dos dias, implorando a Miguel que os protegesse e aos seus anjos
que os guardassem ao longo do caminho. O Verão aproximou-se, os dias

foram passando e a data para o theng estava cada vez mais próxima. Um dia recebemos a
visita de um homem livre, dono de uma propriedade vizinha, que queria falar

com Gunnar. Chamava-se Tolar e ia a caminho do mercado. Parou para uma refeição mas não
ficou durante a noite. Não sei de que falaram, mas Gunnar ficou muito pensativo
depois da sua partida.

A partir desse dia, Gunnar passou a revelar-se cada vez mais irritadiço e embirrento.
Encontrava defeitos em tudo, ninguém lhe conseguia agradar e até gritou com

Ulf por uma ou duas vezes. De facto, uma noite, pouco antes da nossa partida, tornou-se tão
desagradável que saí da casa e fui sentar-me num toco de árvore, no pátio,

para poder comer a minha

170

refeição em paz e não ter de ouvir as suas queixas, Gozava o calor da noite e o prolongado
crepúsculo do norte quando ganhei consciência de que alguém se aproximara

sub-repticiamente e se encontrava agora a meu lado.

Abri os olhos, levantei a cabeça e vi Ylva parada por cima de mim, com as mãos postas, tal
como as minhas haviam estado, numa atitude de oração.

- Estás novamente a cantar ao teu deus, heya? - perguntou.

- Sim.

- Talvez esse teu deus possa ajudar o nosso Gunnar... Como não sabia o que responder àquilo,
limitei-me a concordar.

- Sim, talvez.

- Há qualquer coisa a morder a mente de Gunnar... - declarou a jovem tranquilamente,


ajoelhando-se nas ervas ao lado do toco. - Está preocupado com o theng. Receia

que as coisas possam correr mal quando lá estiver.

Virei-me para lhe ver o rosto sob a suave luz do entardecer. A sua maneira, era um belo rosto,
de feições finas, bondoso, com uns profundos olhos castanhos e um

nariz pequeno e direito. As longas tranças continuavam impecáveis depois de todo um dia de
trabalho. A jovem alisou o manto com as mãos. As suas roupas ainda traziam

consigo o cheiro da cozinha.

- Fala-me desse... desse theng - sugeri.

- Bom, é o theng - respondeu. - É um... - hesitou, pensando na melhor maneira de mo


descrever - um lugar onde os jarls e os homens livres se reúnem para conversar...

- Um conselho - resumi, desenhando um círculo no ar.


- Heya! - exclamou, acenando com vivacidade. - Um círculo de conversas.

- O Gunnar tem alguma finalidade... não, não era isso o que queria dizer... - Fiquei a pensar por
instantes. - Motivo! Tem algum motivo para temer o conselho?

Abanou a cabeça e olhou para as mãos pousadas no colo.

- Nenhum... que eu saiba. Das outras vezes sempre aceitou bem o theng. Toda a gente bebe a
cerveja do rei e se embebeda. É agradável para eles, suponho.

- Ylva... - pedi, numa inspiração súbita - fazes-me uma coisa? Olhou para mim, desconfiada.

- Que queres que faça?

171

- Serás capaz... - Detive-me, porque ainda não conhecia a palavra - A... de me cortar, aqui? -
Levei a mão à cabeça coberta de pêlos. - Aqui?

- Queres que te rape a cabeça? - perguntou, rindo-se.

- Heya! Quero que ma rapes. Se tenho que me apresentar perante o rei, então quero parecer
um...

- Um cabeça-rapada - declarou, fornecendo o termo bárbaro para "sacerdote."

- Sim, quero parecer um cabeça-rapada. Fazes-me isso?

Ylva concordou, foi buscar a navalha de Gunnar e uma taça com água. Instalou-se no toco de
árvore e eu no chão, à sua frente. Seguindo as minhas indicações, renovou

a minha tonsura com gestos rápidos dos seus dedos ágeis. Karin, preocupada com a ausência
de Ylva, apareceu no pátio para nos procurar. Quando viu o que estávamos

a fazer, voltou para casa à pressa e chamou Ulf e Gunnar para que estes também vissem o que
se passava. Consideraram a visão imensamente divertida e soltaram longas

gargalhadas à minha custa.

Se a visão de um monge lhes dava tanto prazer... pois que assim fosse. As gargalhadas, conclui,
eram uma das mais pequenas provações que um sacerdote da Santa Igreja

tinha de suportar. De qualquer modo, não havia desprezo naquele riso.

Tolar chegou no dia anterior ao da nossa partida para o conselho do rei. Tal como descobri em
breve, ele e Gunnar eram bons amigos, faziam frequentemente companhia
um ao outro nas idas ao mercado e também em ocasiões especiais como aquela, em que se
preparava um theng. Na manhã seguinte, Karin, Ulf e Ylva saíram para o pátio

para se despedirem de nós.

Karin desejou boa sorte ao marido e deu-lhe um embrulho com comida, que Gunnar guardou
no saco que usava à cintura. Ylva também lhe desejou boa sorte para a jornada.

Contudo, a seguir virou-se para mim e declarou:

- Fiz isto para ti, para comeres pelo caminho.

Meteu-me uma bolsa de couro nas mãos, inclinou-se e beijou-me rapidamente na face.

- Que Deus te acompanhe, Aeddan. Que faças uma boa viagem e regresses em segurança.

A seguir, envergonhada com a sua própria ousadia, baixou a cabeça e correu para o interior da
casa. Estupefacto, via-a desaparecer na porta.

172

A minha face parecia arder no local onde os lábios da jovem me tinham tocado e senti as cores
a subirem-me ao rosto.

Gunnar já se virara mas Tolar continuava a olhar-me, sorrindo ante o meu embaraço.

- Fiz isto para ti - repetiu, rindo-se sozinho e dando uma palmadinha na bolsa de couro quando
passou por mim.

Ulf e Garm acompanharam-nos até à beira da floresta, altura em que Gunnar mandou o filho
voltar para trás depois de uma última despedida. Virámo-nos para o trilho

e começámos a caminhar a sério. Garm, com o focinho colado ao chão, corria à nossa frente,
investigando a pista e os arbustos de cada lado da mesma. Descansámos

e bebemos por volta do meio-dia. Enquanto os outros dormitavam, aproveitei a oportunidade


para examinar a bolsa que Ylva me dera: no seu interior havia cinco discos

duros, castanhos e achatados, que cheiravam a nozes e mel. Parti um bocado de um, saboreei-
o e achei que era doce e bom. Comi metade de um daqueles discos e ganhei

o hábito de comer uma metade por dia.

Caminhávamos depressa, com passos regulares e firmes, e descansávamos apenas duas ou


três vezes por dia. Parávamos cedo e levantávamo-nos de madrugada para continuarmos

a nossa marcha. Foi apenas ao fim da tarde do terceiro dia que soube quais as dúvidas que
preocupavam Gunnar. Parámos junto a um ribeiro para acamparmos, e o meu
amo sentou-se com os pés dentro de água. Descalcei os sapatos e também me sentei, um
pouco afastado.

- Ah, isto é bom, depois de um longo dia de marcha - disse-lhe.

- Também temos florestas no Eire, mas não como esta.

- É uma grande floresta, creio - respondeu, olhando em volta, como se estivesse a vê-la pela
primeira vez - mas não tão grande como algumas.

Baixou o olhar e a sua expressão voltou a ensombrar-se. Deixou passar alguns instantes e
respirou fundo.

- Dizem que Harald vai, mais uma vez, aumentar os tributos. Ragnar deve a Harald um tributo
muito grande e todos temos de ajudar a pagá-lo. Torna-se cada vez mais

difícil, de ano para ano. - Falava mais para ele próprio do que para mim, como se estivesse
apenas a pensar em voz alta.

- Harald é um homem muito ganancioso. Por muito que lhe demos, nunca é o suficiente. Quer
sempre mais.

- Os reis são todos assim... - comentei.

- Também têm reis gananciosos na Irlândia, heya? - Gunnar abanou a cabeça. - Contudo, penso
que não deve haver nenhum tão ganan-

173

cioso como Harald Berro-de-Touro. É por causa dele que partimos a-viking. Quando as
colheitas não são boas e o Inverno é mau... temos de ir à procura de prata em

qualquer lado.

Ficou em silêncio durante um bocado, olhando para os pés metidos na água como se fossem
eles a causa para os seus problemas.

- Esses ataques são difíceis para um homem com mulher e filho... - suspirou, e eu senti todo o
peso do seu fardo. - São bons para os jovens que não têm nada. Os

ataques ensinam-nos muitas coisas úteis para um homem. Por outro lado, se obtiverem prata
podem arranjar uma esposa e terra suas.

- Compreendo.

- Contudo, as coisas já não são tão fáceis como eram nos tempos em que o meu avô eram um
jovem - confidenciou Gunnar. - Nessa altura, só atacávamos em tempo de guerra...
ou para encontrarmos esposas. Agora temos de atacar para satisfazer a fome de prata de jarls
gananciosos. Não é bom...

- Heya, não é nada bom - concordei, compreensivo.

- Não gosto de deixar a Karin e a Ylva sozinhas. Tenho uma boa propriedade, com boa terra...
mas não há muita gente por aqui e se acontecer alguma coisa quando estou

fora... - Não completou o pensamento.

- As coisas não são tão más para os jovens que não têm esposas. Mas... quem será o
companheiro de Karin se eu não regressar? Quem ensinará Ulf a caçar?

- Talvez Harald não aumente os tributos, este ano... - sugeri, esperançado.

- Nay... - murmurou, virando os seus olhos pesarosos para mim - nunca ouvi falar num jarl que
não o fizesse...

DEZANOVE

Depois de caminharmos quatro dias - sempre mais ou menos para leste - chegámos a um
grande rio rodeado por prados fluviais de ambos os lados. No centro do prado

no outro lado do rio erguia-se uma enorme pedra que marcava o círculo do conselho, o local
do theng. Na vasta planície, e também mais abaixo, nas suaves vertentes

das margens do rio, via-se um certo número de acampamentos, na sua maioria formados por
cabanas improvisadas, embora alguns se pudessem gabar de possuir tendas feitas

com peles de boi.

Atravessámos o prado e caminhámos ao longo da margem do rio até à vau.

- Ah, olha, Tolar... - disse Gunnar, apontando para uma das tendas - ali está a tenda de Ragnar.

Tolar confirmou com um aceno e respondeu:

- Talvez nos possam dizer por que motivo fomos convocados deste modo.

Atravessámos o rio e chegámos à outra margem, onde Gunnar e Tolar foram saudados por
homens de vários acampamentos, a quem responderam alegremente à medida que
avançávamos.

Alguns fitavam-me de esguelha, com olhos pouco amistosos, mas ninguém me fez parar nem
me desafiou, talvez porque fora encarregue da tarefa de segurar Garm pela

coleira para que o cão não fosse lutar com um dos muitos que se encontravam de guarda aos
vários acampamentos. Fosse como fosse, fiquei aliviado por ninguém me pedir
explicações, e satisfeito por poder observar o que me rodeava.

Julgara, devido ao facto de viver entre os bárbaros, que já me tornara indiferente aos seus
hábitos e aparência. Estava enganado. O que os meus olhos viram à medida

que atravessávamos os vários acampamentos quase me fez abrir aboca de espanto. Vi homens
- e mulheres também, porque havia ali muitas - cobertos com as peles de

animais selvagens e

175

com um aspecto muito mais feroz do que as feras cujas peles envergavam. Outros não usavam
nada e tinham os corpos manchados por estranhos desenhos em azul e ocre.

Eram todos grandes, uma vez que os dinamarqueses são uma raça extraordinariamente alta, e
muitos deles, embora fossem adultos, tinham os cabelos tão claros como

donzelas. Contudo, quer fossem louros ou morenos, a maioria usava os cabelos amarrados em
espessas tranças decoradas com penas, folhas, conchas e ornamentos de madeira.

Não pude deixar de abanar a cabeça de espanto.

Alguns bárbaros, acabados de chegar, saudavam os conhecidos com exclamações e muita


agitação, enquanto outros trabalhavam na construção de abrigos e de locais para

dormir. Toda a gente falava alto, no meio de muitos gritos e berros. Oh, são uma raça
barulhenta... e eu quase nem conseguia pensar.

A mistura de cheiros dos cozinhados que tinham lugar nas mais variadas fogueiras fez-me
sentir água na boca mesmo apesar do fumo me arder nos olhos. Passámos por

vários pequenos acampamentos e fogos de cozinha e olhei com ansiedade para as carnes
assadas e para os borbu-lhantes caldeirões.

A tenda de Ragnar Cabelos-Amarelos era feita com uma pele de boi com manchas brancas, em
volta da qual jaziam dez ou mais homens que preguiçavam e esperavam pelo

início do conselho. Quando nos aproximámos, um deles levantou a mão e saudou-nos,


alertando todos os outros para o facto de Gunnar e Tolar terem acabado de chegar.

- Olá, Gunnar!

- Olá, Bjami! Não estão a esforçar-se demais?

- Cá nos vamos aguentando... - retorquiu o homem, com um bocejo. - Ragnar não está aqui.
Foi beber öl com Heoroth e com os jarls.
- Onde podemos acampar?

- Ouvi dizer que há um bom lugar por trás da tenda.

- Muito bem, ficamos com ele... - respondeu Gunnar enquanto Tolar acenava a sua
concordância - mas, por favor, não te incomodes. Não queremos perturbar o teu tão

necessário repouso.

- Vem beber connosco, mais tarde - pediu Bjami, fechando os olhos. Creio que já estava a
dormir antes de darmos seis passos.

Passámos o resto do dia a preparar o acampamento. Fui procurar pedras ao rio para demarcar
um local para a fogueira enquanto Gunnar partia lenha no enorme montão

de troncos serrados que o rei Harald providenciara para esse fim, e Tolar ia colher juncos nas
margens do rio.

176

Estávamos ocupados com os nossos preparativos quando Ragnar regressou à sua tenda.
Gunnar e Tolar foram saudar o seu senhor, deixando-me a dispor os molhos de juncos

no chão para não termos de dormir sobre a terra nua.

Pensei que em breve necessitaríamos de uma fogueira para cozinhar e comecei a arrancar
cascas secas para servirem de acendalhas. Estava absorto nessa tarefa quando

ouvi uma voz áspera que me chamou a atenção. Levantei a cabeça e olhei em volta. Havia um
homem enorme a pairar sobre mim, olhando-me do alto... e senti o coração

a cair-me aos pés.

- Saudações, Hrothgar - disse-lhe, esperando aplacar o homem que tentara afogar-me no barril
de cerveja do rei. Pus a lenha de lado e sentei-me sobre os calcanhares.

- Os escravos não podem estar aqui - declarou, fazendo outros comentários que não consegui
acompanhar. Tinha a fala entaramelada pela bebida e era difícil de compreender.

Como não sabia o que dizer, limitei-me a sorrir de uma maneira inofensiva e a acenar com a
cabeça.

Baixou-se, agarrou-me pela coleira, pôs-me de pé e aproximou o rosto do meu.

- Os escravos não podem estar aqui - repetiu. Tinha um hálito terrível e cheirava a suor e a
cerveja azeda.

- Foi o Gunnar quem me trouxe.


- És um escravo e um mentiroso - declarou, com os olhos semi-cerrados.

- Por favor, Hrothgar, não quero problemas.

- Não vai haver nenhum problema - afirmou, com um sorriso maléfico a espalhar-se-lhe pelo
rosto inchado. - Empurrou-me com força e caí no chão, ao comprido. - Agora

vou mostrar-te o que acontece aos escravos que usam as línguas para dizerem mentiras.
Levanta-te!

Pus-me de pé lentamente, com uma sensação doentia a espalhar-se pelas minhas vísceras.
Olhei à minha volta rapidamente, na esperança de ver Gunnar, mas não sabia

onde ele fora e não o avistei em lado nenhum.

Pensei em chamá-lo e abri a boca para o fazer, mas o punho de Hrothgar já voava para o meu
rosto antes de eu conseguir aspirar o ar para gritar. Baixei-me para evitar

o golpe e desviei-me ligeiramente para o lado. O bárbaro virou-se, voltou a atacar-me... e


baixei-me.

- Pára, Hrothgar, por favor... - implorei, dando mais um passo para o lado.

- Está quieto! - berrou-me.

177

A sua voz ressonante chamou a atenção de alguns dos bárbaros que se encontravam mais
perto. Começaram a gritar uns para os outros que havia uma luta e fomos rapidamente

rodeados por um círculo de espectadores interessados. Alguns diziam a Hrothgar para me


agarrar, outros gritavam-me que me desviasse. Aceitei os conselhos deste últimos

e fui-me desviando para o lado, passo a passo. Cada vez que o enorme dinamarquês se atirava
a mim, chegava-me para o lado, por vezes baixando-me sob o golpe, e outras

vezes inclinando-me para trás, para ficar fora do seu alcance. Por outro lado, Hrothgar soltava
pragas sempre que falhava e ficava ainda mais zangado.

Pouco depois já suava e ofegava, com o rosto tão vermelho que parecia prestes a explodir.

- Vamos acabar com isto - disse-lhe. - Não há nenhuma querela entre nós. Acabemos com isto
e vamo-nos embora.

- Fica quieto e luta! - rugiu, louco de raiva e de bebida.

Lançou novamente o punho contra mim e baixei-me. Contudo, já repetira aquele truque
muitas vezes e o bárbaro antecipou os meus movimentos. Quando a sua mão direita
passou por cima da minha cabeça... lançou-me um murro baixo, com a esquerda. Infelizmente,
vi-o demasiado tarde.

O golpe atingiu-me no queixo. Porém, bêbado como estava, os seus punhos não tinham
grande força. Caí para trás, mais por causa da surpresa e do desequilíbrio do

que pela pancada. Contudo, Hrothgar pensou que me derrubara... e deixei-o acreditar.

- Derrubaste-me, Hrothgar - disse-lhe. - Já não posso lutar mais.

- Levanta-te... - berrou, enraivecido - para que te possa derrubar outra vez!

- Não me aguento nas pernas. Derrotaste-me.

- Põe-te de pé! - Baixou e agarrou num bocado de lenha, um dos que eu estivera a preparar, e
atirou-mo. Foi um lançamento desajeitado, de que me desviei com facilidade

rolando para um lado.

Fingi que me levantava com esforço enquanto sacudia as roupas à minha volta. O bárbaro
soltou um poderoso grunhido e atacou. Voltei a desviar-me com um salto para

o lado. Hrothgar, desequilibrado pela força do murro, caiu para a frente, sobre os joelhos... o
que provocou uma grande rajada de gargalhadas entre os que assistiam

e um rugido de fúria do bárbaro.

- Por favor, Hrothgar - pedi - acabemos com isto. Já não consigo lutar mais.

Ergueu-se com esforço e atirou-se a mim, de braços abertos. Dei um ligeiro salto para trás e o
bárbaro acabou abraçado à terra. A multidão

178

soltou novas gargalhadas e compreendi que exigiam que o derrotasse. Olhei para o anel de
rostos e vi Gunnar e Tolar na primeira fila, rindo-se tal como os outros.

- Gunnar, que devo fazer? - gritei, esforçando-me por ser ouvido por cima do barulho da
multidão.

- Bate-lhe! - respondeu-me Gunnar. - Dá-lhe com força! Hrothgar pôs-se novamente de pé com
um gemido e uma praga, e cambaleou para a frente. A multidão aplaudiu

ainda mais ruidosamente, guinchando a sua satisfação e aprovação... e foi nesse instante que
vi algo a brilhar pelo canto dos olhos.

Virei-me a tempo de ver a lâmina da faca a cortar o ar. Afastei a cabeça e senti a ponta da
lâmina a morder-me o queixo. Caí para trás, sentado sobre o rabo. Hrothgar,
incapaz de manter o equilíbrio, também caiu e aterrou em cima de mim, prendendo-me as
pernas debaixo do seu peso. Bastava-lhe um gesto rápido para me abrir a garganta

ou para me esventrar como a um peixe.

Desesperado por me libertar, agitei as pernas e empurrei-o, mas não consegui soltar as pernas.
Hrothgar, ainda agarrado à faca, lançou-a contra o meu rosto num golpe

desajeitado. Deixei-me cair para trás, ouvi o sopro da lâmina no ar... e também um estalo
quando a minha cabeça bateu em algo duro: o pedaço de madeira que o bárbaro

me atirara. A minha mão fechou-se imediatamente sobre ele. Fi-lo sem pensar e pretendia
apenas utilizá-lo para desviar os golpes da faca.

Hrothgar, atravessado nas minhas pernas, tentou novo golpe às cegas. Estendeu o braço e a
cabeça caiu-lhe, com o esforço. A saliência arredondada da traseira da

cabeça ficou mesmo a jeito... e golpeei-a. A madeira ressaltou no crânio do bárbaro com um
som oco que me surpreendeu tanto... que lhe bati outra vez, mas com mais

força.

Hrothgar soltou um grunhido e ficou caído, com o rosto assente na poeira do solo.

Um instante depois, Gunnar e Tolar rolaram o bruto para um lado e libertaram-me. Os outros
homens aproximaram-se, deram-me palmadas nas costas e proclamaram que

eu era um combatente rápido e astuto.

- Não pretendia bater-lhe com tanta força - declarei, virando-me para Gunnar. - Acham que
ficou magoado?

- O Hrothgar, magoado?! - Gunnar soltou uma risada divertida. - Não, não. Descansa, a cabeça
irá doer-lhe mais por causa da cerveja do que pela pancadinha que lhe

deste.

Duvidoso, fiquei a olhar para o corpo prostrado.

179

- Receio que só tenha piorado as coisas. Agora, o Hrothgar ainda vai ficar mais zangado
comigo.

Gunnar fez um gesto com a mão, como que a dizer que não me devia preocupar.

- Quando acordar já não se lembrará de nada. De qualquer modo, acho que tiveste muita sorte
- comentou, num tom afável.
Tolar, o Taciturno, fez um aceno de sábia concordância.

- Tenho de te ensinar a lutar - continuou Gunnar - para não teres de confiar na sorte... que
nem sempre é muito fiel.

- Heya! - confirmou Tolar num tom que transmitia anos de amargas experiências.

Ragnar Cabelos-Amarelos aproximou-se com passos firmes e uma expressão severa. Scop, A
Voz da Verdade, flutuava a seu lado como um abutre exageradamente grande.

Ragnar desviou os olhos de Gunnar para mim... e fiquei à espera do pior. Estendeu a mão com
uma moeda de prata, que Gunnar aceitou e guardou na bolsa. A seguir,

Ragnar lançou-me uma olhadela sombria, virou-se e foi-se embora. Scop esvoaçou atrás dele.

De súbito ouviu-se um som tão estranho e intenso que interrompeu todas as conversas. Todos
se detiveram e olharam uns para os outros.

- Deve ser Harald Berro-de-Touro - afirmou Gunnar, olhando para os lados do rio.

- Além! - gritou Bjarni, de pé em frente da tenda. - O jarl Harald já chegou!

Olhei para onde o homem estava a apontar e vi uma grande mancha vermelha e branca a
deslocar-se por entre as árvores e arbustos ao longo da margem. Todo o acampamento,

até ao último homem, começou a correr para o rio onde, depois de alguns instantes, voltou a
soar o gigantesco berro trovejante e apareceu um navio.

A embarcação era comprida e de quilha aguçada, com uma proa que se erguia bem alta e
terminava numa feroz cabeça de dragão com olhos de fogo e dentes de serpente.

A popa também se erguia à mesma altura e representava uma cauda dupla. A proa e a popa
tinham sido pintadas de amarelo e vermelho, os flancos do navio eram negros,

e as velas eram compostas por belas faixas alternadas, vermelhas e brancas. Tinha escudos
perfeitamente polidos pendurados nas amuradas e fileiras de remos eriçadas

dos dois lados. Ah, era na verdade uma visão capaz de agitar qualquer coração e de pôr o
sangue a circular rapidamente nas veias.

Os que se encontravam reunidos nas margens saudaram o belo navio com fortes gritos.
Alguns, dominados pelo entusiasmo, saltaram para a água

180

e nadaram para o navio para treparem pelos seus flancos, juntando-se aos guerreiros que se
encontravam na amurada. O tremendo urro voltou a soar, fazendo estremecer
o próprio solo por baixo dos nossos pés, e pude constatar que aquele ruído extraordinário era
produzido por duas enormes trompas de batalha, cada uma delas com dois

bárbaros que faziam turnos para soprar nos instrumentos, não fosse um deles desmaiar com o
esforço.

Ragnar, rodeado pelos seus, pôs-se de pé para assistir à chegada.

- É um belo navio - comentou. - Se eu tivesse um navio assim tão bom... seria o Harald e pagar-
me tributo e não o oposto.

Levantando uma das mãos para a embarcação que se aproximava da margem, Gunnar
declarou:

- Navio? Não vejo nenhum navio, jarl Ragnar. Nada disso! O que tenho perante os olhos é o
nosso tributo em prata... com uma cabeça de dragão e velas às riscas...

mas não deixa de ser a nossa prata!

- É verdade - concordou Ragnar, num tom amargo. - Agora que vejo as riquezas que lhe
entregámos... fico doente do coração.

Tolar acenou, teve uma inspiração súbita e cuspiu para o chão.

Continuaram a queixar-se, com cada um a dizer a sua coisa... mas sem que os seus olhos se
desviassem das longas e elegantes linhas encurvadas da embarcação e das

suas altas e bonitas velas. Passo a passo, foram descendo para o local onde os postes de
madeira estavam agora a ser cravados na margem para receberem os cabos que

amarrariam o navio. Descobri-me a caminhar ao lado de Scop.

- Ah! O monge transformou-se num guerreiro! - troçou. - Agora, talvez os guerreiros possam
vir a segurar nas penas!

- Foi a cerveja que incitou o Hrothgar... - respondi. - Limitei-me a arranjar um lugar macio para
ele cair.

Scop soltou um grunhido desagradável e levantou uma das mãos sujas para me dar uma
palmadinha na tonsura.

- Cabeça-Rapada - fungou, malevolente. Ignorei a sua má disposição e retorqui:

- Pensei que não voltaria a ver-te.

- Ora! - exclamou, com desprezo. - E consideras o facto como uma boa surpresa?

- É verdade... - repliquei, já aborrecido com os seus modos desagradáveis - e agradeço a Deus


por isso.

A Voz da Verdade olhou-me de esguelha. De súbito, agarrou-me por um braço e obrigou-me a


enfrentá-lo.
181

- Olha à tua volta, irlandês. É esta a tua preciosa abadia? Serão estes os teus irmãos
sacerdotes? - Antes de conseguir responder, colocou uma das mãos sujas no

meu pescoço e puxou-me para mais perto. - Deus abandonou-me, meu amigo - sussurrou,
numa raiva estrangulada. - E agora, Aidan, o Inocente, também te abandonou a

ti!

Largou-me e afastou-se à pressa, regressando sozinho ao acampamento. Vi-o afastar-se,


sentindo-me frustrado e zangado com a sua impudência e presunção. Libertei-me

do desgosto daquela provocação, continuei a caminhar para a margem e juntei-me aos outros.

O rei Harald chegara com todos os karlar da sua casa e com três das cinco mulheres. Algumas
das outras mulheres que haviam acompanhado os seus homens deram por isso

e fizeram comentários. Vários guerreiros saltaram da amurada e patinharam para a margem,


enquanto outros preparavam um certo número de compridas tábuas feitas de

pinheiros rachados ao comprido. As tábuas foram colocadas entre a amurada e a margem e


fixadas pelos homens que se encontravam na margem.

Foi apenas nesse momento que Harald Berro-de-Touro se dignou mostrar-se... e quando o fez,
foi para grande delícia e espanto da multidão.

VINTE

O rei Harald Berro-de-Touro, jarl dos Dinamarqueses da Escandinávia, ergueu-se no navio


como se fosse o próprio Odin, vestido no tom de azul da meia-noite nórdica.

Ficou imóvel sob o brilhante Sol, a cintilar de ouro e prata, com a longa barba vermelha bem
escovada e com as pontas entrançadas. Tinha ouro a brilhar no peito,

na garganta e em cada pulso, bem como sete faixas de prata nos braços e sete pregadores de
prata a segurarem-lhe a capa.

Quando subiu para cima da amurada verifiquei que estava descalço mas que tinha pulseiras de
ouro e prata a cintilarem nos tornozelos. Era um homem grande, com um

peito profundo, braços grossos e musculosos, pernas fortes e compridas. De pé sobre a


amurada, era um rei no apogeu da vida a observar as hostes ali reunidas com
olhos vivos e inteligentes.

Pensei: um monarca é um monarca, seja onde for. Harald ostentava uma pose tão real como a
de todos os outros senhores que eu já vira. Por baixo da pele, ele e lorde

Aengus eram como irmãos... e teriam reconhecido a realeza mútua se por acaso viessem a
pousar os olhos um no outro. Não tinha dúvidas a este respeito.

Levantou as mãos numa saudação, abriu a boca para falar e verifiquei que as batalhas da sua
juventude lhe haviam deixado uma cicatriz lívida desde o queixo até à

garganta. Falou numa voz simultaneamente profunda e alta, virando-se para aqui e para ali, e
abrindo os braços como se desejasse abraçar todos os que se tinham amontoado

na margem por baixo dele.

A substância do seu discurso pareceu-me ser a respeito de pôr as divergências de parte


durante o conselho. Creio que pediu a todos que se sentassem em paz como homens

livres, de modo a decidirem melhor o que deveriam fazer... ou qualquer coisa do mesmo
género. É o tipo de discurso que todos os lordes fazem quando querem impor

a sua vontade,

183

pelo que se ouviram muitos grunhidos de cepticismo e muitas gargantas a pigarrearem.

Depois, sem qualquer hesitação, Harald levantou um dos seus pés descalços e avançou da
amurada do navio para... o ar. Algumas mulheres ofegaram, mas não tinham motivo

para preocupações. Logo que o monarca deu o primeiro passo, apareceu uma mão que lhe
segurou o pé. A seguir, houve uma segunda mão que se juntou à primeira e Harald

deu um segundo passo. Duas outras, as dos guerreiros que haviam colocado as tábuas,
agarraram no pé direito do rei e empurraram-no para o alto...

Foi assim que o jarl Harald fez o percurso até à margem, transportado pelos karlar da sua casa
enquanto se mantinha direito, o que constituiu um feito muito impressionante.

Ninguém falou de outra coisa durante todo o resto do dia: "Viste como o transportaram?!"
"Heya! Os pés do rei nunca tocaram no chão!"

Harald Berro-de-Touro foi transportado para o local onde a sua tenda seria erigida.
Estenderam uma pele de boi vermelha no chão e o monarca sentou-se para receber

as homenagens do povo. Todos se apresentaram perante ele, alguns para se prostrarem a seus
pés e outros para lhe concederem dádivas de honra e de boas-vindas. O
jarl aceitou as honrarias com bons modos e descobri-me a gostar do homem - por causa da sua
deferência fácil -, não obstante as dúvidas que Gunnar ou Ragnar pudessem

ter e sem duvidar que os seus receios fossem genuínos e justificados. Contudo, Harald era um
homem cativante, todo sorrisos e irradiando confiança, que sabia aproximar-se

do seu povo com um gesto ou com uma palavra íntima.

Observei-o enquanto permaneceu sentado na pele de boi, tratando os nobres pelos nomes e
desarmando-os com lisonjas e louvores. O theng ainda nem sequer começara

e o monarca já se lançara a fundo na sua campanha. Os homens aproximavam-se dele,


entorpecidos tanto na fala como nos movimentos, cheios de dúvidas e de desconfiança...

para voltarem a levantar-se momentos depois, radiantes, com a convicção e a fé reacendidas


por uma palavra ou um toque.

Oh, o jarl Harald era na verdade um mestre na arte dos reis: subtil, astuto, persuasivo e
tranquilizador, que derrubava as objecções dos seus opositores antes que

estes soubessem como o contradizer ou como se lhe opor.

Sim, já anteriormente vira aquele tipo de poder, pelo menos uma ou duas vezes. Não obstante
todo o seu ouro e prata, o lorde bárbaro lem-

184

brava-me o bispo Tuwal de Tara, famoso pela compostura, pela confiança e pelo domínio fácil
sobre os homens.

Nem sequer Gunnar e Tolar, não obstante as suas apreensões, permaneceram indiferentes ao
considerável encanto do monarca. Fiquei à espera enquanto apresentavam os

seus respeitos... e vi-os regressar com corações novamente alegres e confiantes. Quando lhes
perguntei o que Harald lhes dissera para provocar uma tal mudança, Gunnar

retorquiu:

- Terei alguma vez proferido uma só palavra contra o rei? Tens de aprender a ser mais
confiante, Aeddan.

Foi um conselho que provocou um aceno de concordância da parte de Tolar.

Entre todos os jarls e homens livres que observei, só Ragnar se mostrou indiferente para com
as maneiras convincentes de Harald. Talvez conhecesse o suficiente daquela

arte para se deixar enganar pelos métodos que ele próprio utilizava de tempos a tempos... ou
talvez lhe fosse difícil, sendo um lorde, permitir-se a indulgência
da convicção total. Eram muitos os membros da tribo que dependiam dele e das suas decisões.
Fosse o que fosse que os outros pensassem ou fizessem, os seus próprios

pensamentos e acções estavam circunscritos pelas obrigações. Assim, se quisesse continuar a


ser rei, e não apenas no nome, Ragnar Cabelos-Amarelos não podia submeter-se

completamente a nenhum homem.

Os homens orgulhosos são todos iguais. Sem dúvida que se ressentia por ter Harald como seu
superior. Pagar um tributo já era suficientemente mau... e não gostava

que também o vissem a fazer vénias. Imagino que o mesmo se passaria com outros lordes, mas
não os podia observar a todos. Mesmo assim, pareceu-me que, quando a cerimónia

das saudações ficou concluída, foi como se tivesse terminado uma batalha... de que o monarca
reclamara o campo. Conseguira, ou pelo menos assim me pareceu, lançar

entre o seu povo as sementes de uma antecipação repleta de esperanças, para logo se retirar
de modo a permitir que essas sementes rebentassem e ganhassem raízes.

É claro que, naquela noite, o ambiente no acampamento fervilhava de expectativas. Por todo o
prado, os homens olhavam uns para os outros por cima das fogueiras e

especulavam sobre o conselho: o que lhes traria o dia de amanhã? Qual seria a proposta do
rei?

Embora eu não tomasse parte nos procedimentos - nada do que decidissem me poderia
afectar, de uma maneira ou de outra - não deixava de sentir a intensa antecipação

da assembleia e já era muito tarde na noite antes de alguém conseguir dormir.

185

Na manhã seguinte, muito cedo, um tambor convocou os jarls e os homens livres para a pedra
do theng. Estávamos a tomar o pequeno-almoço quando o tambor começou a

rufar. Gunnar e Tolar levantaram-se imediatamente.

- Vai começar! - declarou Gunnar, atirando para um lado o osso que estava a roer. - Depressa,
para nos sentarmos nas filas da frente!

Infelizmente, todos os outros haviam pensado o mesmo, pelo que o toque do tambor deixou
de ser uma convocação e transformou-se no sinal de partida para uma corrida,

uma vez que os homens, distribuídos pelos acampamentos dispersos, se apressaram a dirigir-
se para o local da reunião. As poucas mulheres ali presentes levantaram-se

e ficaram a olhar com expressões de ânsia, mas houve algumas que foram atrás dos seus
homens para se instalarem o mais perto possível do perímetro do conselho, cujos
limites estavam assinalados por um círculo de pequenas pedras.

Encorajado pelo exemplo dessas mulheres, ocupei um lugar no círculo exterior enquanto
Gunnar e Tolar abriam caminho para o centro. Como os melhores lugares já se

encontravam ocupados, tive de me manter de pé no meio do aperto, esforçando-me por


conseguir ver alguma coisa. Ao princípio pareceu-me que não havia nada para ver,

mas depois reparei num velho que se arrastava em volta da pedra theng agitando uma cabaça
cheia de calhaus. Murmurava e resmungava, deslocando-se com movimentos

estranhos e rígidos em torno da pedra vertical.

- Skirnir - disse alguém perto de mim, e calculei que se tratasse do nome.

Provavelmente, concluí, era uma daquelas curiosas criaturas conhecidas por skalds, que
desempenhava o papel de conselheiro do rei Harald.

Vestido com uma túnica curta e com calções de pele de veado a que haviam raspado os pêlos,
o velho Skirnir prosseguiu durante algum tempo com os seus encantamentos

murmurados. A seguir pôs a cabaça de lado, pegou numa malga de madeira e começou a
aspergir um líquido - talvez uma espécie qualquer de óleo - sobre a pedra vertical,

servindo-se de um pequeno molho de raminhos de bétulas já muito desgastado em que


segurava com a mão direita. Entoava o nome do deus cada vez que metia os raminhos

na malga... e espirrava sempre que aspergia a pedra com óleo.

Completou um certo número de voltas em torno da grande pedra, colocou a malga no chão,
meteu as mãos no óleo e deu início a um processo de marcação da superfície

da pedra com impressões das mãos, por vezes batendo-lhe com as palmas ou, noutras vezes,
rodeando-a com um

186

grande abraço. Harald, o monarca, emergiu do lugar que ocupava entre os espectadores
enquanto o velho Skirnir prosseguia com a sua função. Levava qualquer coisa

metida debaixo do braço mas não consegui perceber o que era.

O skald virou-se para o monarca logo que concluiu a unção da pedra e gesticulou na direcção
do objecto que este transportava... que era apenas uma galinha. Antes

de ter tempo para pensar porque motivo andaria o jarl Harald com uma galinha debaixo do
braço, o rei levantou a ave para que todos a pudessem ver e entregou-a a
Skirnir, que também a levantou, uma vez, duas vezes, três vezes... A seguir devolveu-a ao rei,
que, por alguns instantes, meteu o bico e a cabeça da galinha na sua

própria boca. Era uma estranha visão: um rei, de pé na presença do seu povo, com a cabeça de
uma galinha viva metida na boca.

O skald soltou um grande grito e começou a sacudir-se de alto a baixo. As suas mãos e ombros
estremeciam, as pernas abanavam e todo o seu corpo tremelicava. De súbito,

apoderou-se da galinha, levantou-a bem alto e começou a rodopiar sem nunca deixar de
tremer. Descreveu voltas e mais voltas até dar um repentino safanão seco com

um dos braços. Ouviu-se um estalo e a cabeça da galinha soltou-se do corpo. A pobre ave
começou a correr, a saltar e a esvoaçar. O velho Skirnir, de olhos muito

atentos, pôs-se de gatas e seguiu atentamente as convulsões de morte da galinha decapitada,


cujo sangue o salpicava, tanto a ele como à pedra.

Toda a gente susteve a respiração e se inclinou para a frente, numa expectativa ansiosa à
medida que os movimentos da galinha iam diminuindo gradualmente. Por fim,

a pobre ave ficou quieta, com as penas a estremecerem suavemente enquanto morria. Skirnir
pôs-se em pé num salto e proclamou, em voz alta, que os augúrios eram favoráveis.

Contudo, fê-lo em termos tão insólitos que não consegui compreender tudo o que disse. As
pessoas pareceram satisfeitas, acotovelaram-se umas às outras e acenaram

solenemente.

Que fique aqui bem claro que não acredito em oráculos ou augúrios, tal como também não
acredito nos velhos deuses. Os seus poderes, se é que os têm, derivam da vontade

daqueles que persistem em modos de pensar tão repletos de erros. Não afirmo que os velhos
deuses sejam apenas demónios - não obstante muitas cabeças mais sábias

do que a minha me garantirem que assim é -, mas não passam de vasos vazios, incapazes de
suportar o peso das crenças dos homens. Nesses tempos tudo era escuridão

e os homens agitavam-se às cegas na sua ignorância em busca de algo que os protegesse


contra os perigos da noite.

187

Porém, como sabem, a luz já chegou e o dia amanheceu finalmente! São boas novas! Por isso
mesmo, já não é aceitável adorar todas aquelas coisas envoltas em escuridão.

É essa a minha crença. Não condeno os bárbaros por causa da sua fé mal conduzida mas talvez
me possam perdoar essa atitude, que alguns dos meus irmãos mais zelosos
irão certamente considerar como sendo uma pecaminosa falta de piedade e devoção. Não
tenho a mínima dúvida de que, se se encontrassem no meu lugar, teriam chamuscado

a própria terra com o fogo da indignação e com a vontade de modificar o estado de coisas.

Porém, sou um monge fraco e pecador, o que admito livremente. Mesmo assim, estou
decidido a contar a verdade e podem julgar-me como entenderem.

Logo que os augúrios foram considerados favoráveis, Skirnir proclamou o início do theng. O
skald desapareceu da cena depois de reunir a cabaça, a malga de madeira

e a carcaça da galinha, e Harald colocou-se perante a assembleia, declarando-se imensamente


satisfeito por terem sido tantos os que haviam respondido à sua convocação.

- Companheiros e amigos... - entoou, na sua profunda voz de touro, abrindo amplamente os


braços como se quisesse abraçar toda a assembleia - alegra-me vê-los aqui

na minha presença, pois somos na verdade um povo poderoso. Pergunto-vos: quem será capaz
de enfrentar um dinamarquês logo que a sua ira desperta? As nossas capacidades

são simultaneamente terríveis e formidáveis! O poder dos nossos braços é receado por todo o
mundo. Quem poderá levantar-se para se lhes opor?

Harald ergueu um braço no ar como se brandisse uma espada e gritou:

- Quem será capaz de se erguer contra os dinamarqueses quando a fúria de Odin enche as suas
veias de fogo?

Ouviram-se vozes murmuradas garantindo que ninguém se poderia opor à ira dos
dinamarqueses. O monarca iniciou então um longo discurso em que descreveu o modo como

o mundo tremia quando as quilhas dos navios viquingues cortavam as águas profundas, e
como todo o mundo se encolhia de medo quando as matilhas dos Lobos do Mar saíam

para a caça nos trilhos marítimos. Esses sentimentos foram acompanhados por muitos golpes
de espadas imaginárias e pelo entrechocar de lanças igualmente imaginárias

contra muitos escudos invisíveis.

Os murmúrios transformaram-se em coros de concordância e foram vários os que soltaram


vivas, encorajando o monarca com altos gritos. Contudo, embora a maioria permanecesse

silenciosa, todos se mantinham

188

atentos, com as orelhas e os olhos bem abertos, ansiosos para saberem os motivos que
haviam levado o grande jarl a convocar o theng. Logo que verificou que os tinha
do seu lado, Harald decidiu avançar para o cerne das suas preocupações.

Já tenho ouvido falar em guerreiros que são capazes de saltar de um cavalo para outro, em
pleno galope, sem nunca perderem a compostura. Foi esse o feito que Harald

realizou naquele momento.

- Irmãos - declarou - sei que o tributo anual é um grande fardo sobre os vossos ombros, e sei
que esse fardo é difícil de suportar.

O monarca fez esta declaração com uma expressão de convincente compreensão, como se
tivesse sido outro senhor qualquer, e não ele, a impor um tão oneroso fardo sobre

o seu povo. A seguir afirmou, com uma convicção total, que seria na verdade um muito mau
rei se deixasse que as coisas continuassem assim, sem nada fazer para aliviar

os ombros dos seus súbditos do fardo daquela lei.

O facto provocou uma pequena agitação enquanto o povo tentava perceber o que estaria
Harald a tentar dizer-lhes.

- Por isso - continuou o jarl - imaginei uma maneira que irá permitir... - os ouvintes do rei
inclinaram-se para a frente, na expectativa - ... o perdão desse mesmo

tributo.

É claro que a agitação entre os ouvintes foi tão grande que o monarca se viu obrigado a repetir
o seu espantoso decreto, não uma, mas sim três vezes.

- Heya, sim, ouviram-me bem! - garantiu-lhes, agitando os punhos no ar - O tributo será


perdoado!

Harald concedeu-lhes mais alguns momentos para que a novidade conseguisse chegar até às
fileiras mais recuadas, para logo ser passada aos que se encontravam fora

do círculo de pedra. Conservou-se erecto, de punhos nas ancas, com um grande sorriso e com
os seus cabelos vermelhos a brilharem ao Sol. Resplandecia de convicção

e a confiança irradiava do seu rosto como se fosse o calor de uma chama.

O jarl prosseguiu, descrevendo como se decidira por uma aventura que traria a fortuna e a
riqueza a todos os homens livres da Dinamarca. Abriu muito os braços e

implorou-lhes que o escutassem. Contudo, a gritaria geral quase abafava a sua voz tonitruante.
Harald voltou a pedir atenção, implorou a indulgência dos presentes

e explicou-lhes como decidira ir a Miklagard, onde havia ouro e prata para além do que era
possível imaginar, e onde o mais reles dos escravos era muito mais rico

que o mais rico rei da Escandinávia.


189

O povo espantou-se com a audácia do rei: Ouviram aquilo? Miklagardf Exclamaram. O jarl vai a
Miklagard! Imaginem!

- Agora, sou eu quem vos pergunta, irmãos... - prosseguiu Harald, com a voz a trovejar por
cima da excitação que ele próprio criara - será correcto que os escravos

do Sul gozem de mais riquezas do que os reis do norte? Será correcto que nós, os filhos
favoritos de Odin, demos cabo das nossas costas a trabalhar, a lavrar, a

cortar lenha, a colher e a acarretar água, enquanto os escravos escuros vivem na ociosidade à
sombra das árvores de fruto?

Deixou a questão a pairar no ar até produzir resultados.

- Não! - gritou uma voz, que me pareceu muito semelhante à de Hrothgar. - Não está certo! -
gritou outra... e toda a gente pareceu concordar que aquele estado de

coisas não poderia continuar.

Harald agitou as mãos a pedir ordem. Continuou, falando em tons razoáveis e de um modo
algo relutante, como se se limitasse apenas a concordar com os pontos de vista

prevalecentes, pontos de vista que parecia não ter grande vontade de apoiar. Falou do modo
como jurara, no fundo do coração, que tinha de aliviar os fardos que recaíam

sobre o seu povo. Afirmou que iria a Miklagard, se fosse isso o que todos desejavam, e que
transportaria de volta as riquezas dos escravos do sul. Traria consigo

essas riquezas e utilizá-las-ia para melhorar as vidas dos Dinamarqueses. Seriam tantas
riquezas que não teriam de pagar o tributo que lhe era devido. Faria tudo

isso e muito mais... se fosse isso o que eles desejavam.

Virou as mãos para o rio, onde o seu grande navio novo se encontrava fundeado. Aquele
navio, aquele mesmo navio, declarou, era o mais rápido jamais construído na

Escandinávia. Seria nele que embarcaria para conduzir a hoste de guerra até à cidade do ouro.
Ele, Harald Berro-de-Touro, encheria aquele grande e rápido navio com

tantos tesouros que deixaria todos os outros reis doentes de inveja quando vissem as riquezas
de que os seus jarls e homens livres iriam gozar.

O povo não conseguia aguentar uma tão grande boa sorte em silêncio. Abraçaram-se a eles
próprios e uns aos outros, gritaram e pularam de alegria ante a perspectiva

de tantas riquezas e tão fáceis de alcançar. Aclamaram o seu rei, bem como a sua sabedoria e
visão. Ali estava um monarca que, na verdade, sabia o que era o melhor
para o seu povo.

- Por isso mesmo... - proclamou Harald quando a barulheira perdeu o ímpeto - vou perdoar-vos
o tributo anual que me é devido como vosso senhor!

190

O monarca foi mais uma vez avassalado por uma verdadeira maré de aclamações e foi forçado
a esperar que enfraquecessem até poder continuar.

- Vou perdoar-vos o tributo anual... - repetiu, falando lentamente - mas não apenas por um
ano, nem por dois... e nem sequer por três ou quatro anos! - gritou. -

Perdoarei os tributos anuais por cinco anos a todos os homens que se armarem e me seguirem
até Miklagard!

Oh, era um senhor na verdade muito astuto. Não me parece que um só dos seus ouvintes
tivesse reparado na subtil armadilha que lhes preparara com aquelas palavras.

Tudo o que conseguiram ouvir foi que o monarca lhes perdoava o tributo por cinco anos. Nem
sequer se aperceberam de que, para receber o benefício do tributo perdoado

teriam de o acompanhar a Miklagard, a fim de o ajudarem a encher as arcas dos seus tesouros
com saques e pilhagens.

Harald chamava-lhes companheiros e chamava-lhes amigos. Pedia-lhes que voassem para o


Sul, onde os aguardavam riquezas incontáveis... e fazia com que parecesse que

precisavam apenas de pegar em pás para apanharem essas riquezas do chão. Mais uma vez,
abriu os braços a toda a sua largura:

- Quem está comigo? - gritou o monarca - ... e todos berraram a sua aprovação, atirando-se
para a frente e lutando entre eles para serem os primeiros a declarar

o seu apoio a um plano tão inspirado.

Tendo conseguido o que queria, Harald anunciou rapidamente que o conselho terminara, isto
para que, pelo menos assim o penso, não começassem a ouvir-se vozes discordantes

capazes de arruinar a sua impressionante vitória. Todavia, quem iria discordar se até o próprio
Ragnar abandonou o círculo do conselho com a sua carranca de protesto

suavizada por um sorriso pensativo, se não benevolente?

A seguir, o monarca declarou que o resto do dia seria dedicado às festividades e à bebida. Para
esse efeito, fez com que fossem colocados três grandes barris no
centro do acampamento e deu ordens para que, durante os restantes dias e noites da reunião,
fossem continuamente enchidos a partir das reservas que tinha a bordo.

A seguir ofereceu também três bois e seis porcos que deviam ser assados para alimentarem o
seu povo.

As celebrações que se seguiram à audaz decisão de Harald corresponderam inteiramente à


exuberância demonstrada pelo rei. Nessa noite, o ousado nome do jarl e as

suas capacidades de clarividência, talvez até visionárias, foram louvadas, taça a pós taça, por
todos os presentes. Em volta de cada uma das fogueiras, os homens,

com os rostos a brilharem

191

da gordura das costeletas que seguravam nas mãos, lamberam os lábios e proclamaram Harald
Berro-de-Touro como o melhor rei que jamais caminhara na Terra sobre duas

pernas. Louvaram-no como sendo um verdadeiro e nobre senhor, um governante bondoso


que pensava apenas em como beneficiar e elevar o seu povo, um homem entre os homens,

sábio para lá dos seus anos de vida e muito para além do seu tempo, um soberano bravo e
corajoso mas também compreensivo, que conseguia sonhar e ousar grandes coisas

a favor do povo.

Também contavam, é claro, com o skald do rei, sempre pronto para lhes avivar esses
sentimentos lisonjeiros. Skirnir vagueava pelo prado, saltitando de acampamento

para acampamento a fim de entoar cânticos de louvor ao seu patrono, deparando sempre com
ouvintes que, embora já tivessem os olhos um pouco nublados, se mostravam

predispostos a escutarem as suas espirituosas execuções.

Quando o dia terminou e o último folião se deixou cair no catre ao lado da fogueira, todos
concordaram que o theng daquele ano fora o melhor desde que Olaf Nariz-Quebrado

matara um boi com as suas próprias mãos.

Foi nessa noite, quando a pesada quietude do Verão jazia sobre os foliões adormecidos, que
voltei a sonhar.

VINTE E UM
Um mocho acastanhado voou baixo sobre o prado com as suas asas silenciosas, de olhos muito
abertos de surpresa ao ver tantos humanos estendidos no seu terreno de

caça. A ave soltou um abafado guincho de irritação e prosseguiu o seu voo ao longo do rio.

O vento levantou-se e soprou em rajadas suaves que fizeram ondular as ervas do prado e que
produziram um estranho silvo oscilante. Ouvi aquele som, levantei-me do

meu colchão de juncos e olhei em volta. As tendas e os círculos das fogueiras haviam
desaparecido. As pessoas que dormiam no chão haviam desaparecido, bem como a

pedra do theng e o local da reunião. Enquanto olhava, o prado modificou-se e transformou-se


num mar. O lento oscilar das ervas ao vento tornou-se em ondas e as flores

em manchas de espuma branca que cobriam a ondulação.

Interroguei-me como era possível que conseguisse manter-me de pé sobre as águas, mas o
solo em que me apoiava era agora o convés encurvado de um navio. O navio propriamente

dito não podia ser visto na escuridão mas ouvia as velas a estalarem ao vento e o som da proa
aguçada a abrir caminho através das vagas.

O céu, por cima de mim, mantinha-se obscuro. Não havia Sol, nem Lua, e as poucas estrelas
visíveis tinham configurações estranhas. O navio transportava-nos rapidamente

por cima de águas negras e desconhecidas, a mim e aos restantes navegantes porque, embora
não os pudesse ver, ouvia-os a trabalhar ali perto e a conversarem uns

com os outros em sussurros abafados. Mantinha-me junto à murada, olhando para a distância
enevoada, na direcção de um horizonte invisível.

Não sei durante quanto tempo navegámos; um ano, um dia, ou toda uma era. Não sei dizer.
Porém, gradualmente, as águas modificaram-se, perderam o frio tom acinzentado

das tempestades nórdicas e ganharam um profundo e brilhante azul. Investiguei o horizonte


distante e plano em busca de um qualquer sinal de terra, um rochedo, uma

ilha, o pico

193

nublado de uma colina ou montanha, mas a minha busca foi em vão. Era tudo céu, mar e
estrelas estranhas em céus alienígenas. Contudo, o navio corria ousadamente

à frente do vento, deslizando tão rapidamente como uma gaivota alada.

A pouco e pouco, o céu começou a alterar-se. Suavizou-se, aclarou e coloriu-se com uma luz
pérola com a cor das pétalas das rosas. Esse tom aprofundou-se e ganhou
uma franja dourada que rodopiou e foi ganhando brilho, acabando por se fundir no arco de um
brilhante disco de luz ardente, ainda meio escondido abaixo da linha

do horizonte marinho. Foi então que soube que estávamos virados para o Oriente e que
voávamos em direcção ao Sol Nascente.

Navegámos e continuámos a navegar. O Sol ergueu-se cada vez mais alto, com os seus raios a
perfurarem o céu com lâminas de luz tremeluzente, tão brilhante que tive

de fechar os olhos e virar o rosto. Quando voltei a olhar, o que vi não era o Sol mas sim uma
vasta cúpula dourada, a enorme esfera de um telhado palaciano apoiada

em pilares de mármore branco com a espessura e a altura das mais altas árvores. Maravilhei-
me com o facto de um palácio tão gigantesco poder flutuar sobre o mar

instável. Porém, à medida que nos aproximávamos rapidamente, verifiquei que aquela
extravagância oriental repousava sobre uma ponta de terra e que os contornos das

muralhas do palácio e dos seus edifícios de muitas câmaras abraçavam a íngreme corcova de
uma colina. Era uma colina que se levantava do mar para separar três grandes

rios e três grandes povos.

Ergueu-se um som sobre a terra e sobre o mar. Ao princípio pensei que devia ser o suspirar das
águas sobre a costa rochosa porque aquele suave trovejar subia e descia

com a regularidade das ondas. Todavia, de mais perto, o trovejar do mar definiu-se e
transformou-se em vozes humanas que entoavam um cântico curioso e sem pausas.

De repente vi-me no interior de uma enorme câmara construída com pedras de muitas cores,
cuja abóbada era tão vasta como a grande e encurvada taça dos céus, tão

grande que o Sol e as estrelas ardiam no seu alto firmamento. A luz descia do alto em cortinas
de feixes e saí da sombra de um poderoso pilar para a área brilhante

caminhando por cima de pedras perfeitamente polidas por séculos de passos lentos e
respeitosos.

Avancei e ouvi alguém a chamar-me pelo nome. Olhei para cima, para a luz brilhante, e vi o
rosto de um homem que me fitava com grandes olhos tristes e com uma expressão

de infinito amor e tristeza.

- Aidan - disse, com suavidade, e o coração agitou-se dentro de mim porque sabia que era o
próprio Cristo quem estava a falar. - Aidan

194
- repetiu e mais uma vez, e oh! o meu coração derreteu-se ao escutar a tristeza daquela voz -
Aidan, por que foges de mim?

- Senhor - respondi - servi-Te durante toda a minha vida.

- Afasta-te de mim, falso servo! - retorquiu, e a sua voz ressoou como o trovão do Juízo Final.

Fechei os olhos com força. Quando voltei a abri-los era novamente noite e jazia no chão ao
lado de uma fogueira reduzida a carvões reluzentes.

As celebrações que se seguiram ao anúncio do rei Harald prosseguiram durante todo o dia
seguinte sem darem mostras de esmorecimento., Ninguém levantava a mínima

objecção às minhas idas e vindas desde que Hrothgar falhara a tentativa para me matar. Até o
meu corpulento atormentador, a quem já vira várias vezes depois da luta,

parecia ter perdido todo interesse por mim. Talvez, como Gunnar sugerira, já nem sequer se
recordasse da escaramuça.

Gunnar, tal como todos os outros, mantinha-se intensamente ocupado com os festejos e com
a bebida, exigia muito pouco do seu escravo e deixava-me livre para vaguear

por onde muito bem entendesse. Por isso, servi-me dessa liberdade para me retirar para um
local tranquilo a fim de poder rezar. Não era fácil encontrar um tal lugar,

mas um sombreado abrigo de bétulas junto à margem serviu perfeitamente como uma espécie
de capela no meio da verdura. Era um sítio fresco, tranquilo, com o solo

forrado por uma espessa e macia camada de ervas... e passei aí a maior parte do dia, longe das
ruidosas festividades do acampamento.

Cantei os salmos e executei a lúirch léire, a vigília da cruz. Depois, sentindo-me penitente e
contrito pela minha ausência de práticas diárias, recitei o Cântico

dos Três Jovens, cujas provações na fornalha do fogo sempre produziram em mim um
renovado entusiasmo pela devoção.

Passei um dia feliz. Como recompensa pela minha diligência, satisfiz-me com um dos doces de
Ylva. O sabor que me deixou na boca provocou-me pensamentos agradáveis

a seu respeito, que apreciei tanto como o gosto a mel do seu biscoito. Por acaso, ao sair
daquela minha cela no meio da verdura, passei junto ao local onde o navio

do rei se encontrava fundeado. Houve um movimento a bordo da embarcação que me chamou


a atenção e vi duas mulheres a emergirem da tenda erguida por trás do mastro,

logo seguidas por uma terceira figura, a do próprio rei Harald. Disse qualquer coisa às
mulheres e desembarcou pela pran-
195

cha. Daquela vez não havia ninguém da sua casa para o sustentar em pleno ar.

Viu-me a pairar junto do navio e deteve-se. Como pareceu querer falar, também me detive. O
monarca ficou a olhar para mim por instantes, com a testa contraída e

um olhar ameaçador. Depois virou-se abruptamente, como se o facto de me ver o ofendesse, e


regressou ao acampamento aparentemente mergulhado em pensamentos, agitando

o braço direito como se fosse uma arma.

Também regressei ao acampamento e encontrei Gunnar, Tolar, Rag-nar e vários outros


sentados em volta de um barril vazio, com as taças nas mãos, como se tentassem

decidir quem deveria ir buscar mais cerveja.

- Penso que devem ir o Jarn e o Leif - dizia Gunnar. - O Tolar e eu fomos lá da última vez.

Tolar olhou para a taça vazia e concordou com um aceno desanimado.

- Falas a verdade, Gunnar, mas estás a esquecer-te de que o Jarn e eu já lá tínhamos ido duas
vezes - replicou o homem chamado Leif. - Sim, acho que te esqueceste...

Ragnar levantou a taça e esvaziou-a.

- Bom - declarou - parece que tenho de lá ir.

- Nay, jarl... - interveio Leif, estendendo a mão para deter o seu senhor - Não podemos
permitir tal coisa. Essa é uma nossa obrigação.

- Então espero que a cumpram em breve... - replicou Ragnar - pois receio acabar por ficar
demasiado velho para erguer a taça.

Leif soltou um suspiro pesado, como se estivesse a carregar com um imenso e muito incómodo
fardo.

- Vamos lá, Jarn - disse, sem demonstrar a mínima intenção de se levantar. - Receio que a sorte
não esteja do nosso lado. Calhou-nos a pedra preta, mais uma vez...

Entrei no acampamento e todos os olhos se viraram para mim, esperançados.

- O Aeddan vai buscar a cerveja! - gritou Gunnar. Apontou para a barrica vazia e acrescentou: -
Mais! Vai buscar mais!

Acenei uma confirmação, baixei-me para a barrica e peguei-lhe.

- Não poderá transportá-la sozinho - observou Gunnar. Os seus olhos percorreram


rapidamente o círculo de homens. - O Tolar tem de ir com ele.
Tolar levantou a cabeça, olhou para Gunnar, encolheu os ombros, pousou a sua taça e
levantou-se.

196

- Vem, Tolar - disse-lhe. - Esperemos que ainda restem algumas gotas.

- Então, temos de nos apressar - respondeu. Agarrou na barrica de cerveja, tirou-ma das mãos
e colocou-a ao ombro. - Por aqui... - disse, afastando-se rapidamente.

Na verdade, nunca o ouvira dizer tantas coisas de uma só vez nem o vira caminhar tão
depressa. Acertei o meu passo com o dele e apressámo-nos em direcção ao local,

no exterior do círculo de pedras, onde o monarca mandara acender as fogueiras para os


cozinhados. Já havia mais porcos nos espetos e um boi inteiro a assar sobre

o lume. Tinham descarregado um montão de barris do navio, que estavam a ser abertos e
despejados em tonéis de maiores dimensões. Juntámo-nos aos outros que já se

encontravam à espera e vimos o líquido castanho-dourado a escorrer para os tonéis, com uma
bela espuma cremosa, que fazia com que o odor ligeiramente adocicado da

fermentação nos chegasse às narinas.

- Ah! - disse eu, para Tolar - quem me dera ter um lago de cerveja!

Sorriu e lançou-me uma olhadela de compreensão.

- Se eu tivesse um lago de cerveja - prossegui, levantando a mão num gesto bárdico velho de
eras - organizaria uma grande festa para o Rei dos Reis e Senhor dos

Senhores, e gostaria que as Hostes do Céu bebessem comigo para toda a eternidade!

Tolar sorriu, pelo que continuei a recitar a Oração do Cervejeiro: "Gostaria de ter os frutos da
Fé amontoados na minha casa para todos os poderem saborear, gostaria

de ter os Santos de Cristo no meu próprio salão, e que as tinas do Sofrimento estivessem
sempre ao seu serviço. Gostaria de ter taças de Caridade para estancar a

sua sede e jarros de Misericórdia para cada um dos membros dessa angélica companhia.
Gostaria que o Amor nunca se esgotasse no meio deles, e que o Abençoado Jesus

se sentasse no trono do herói.

"Ah, mo croi, gostaria de organizar um festim de cerveja para o Alto Rei dos Céus, um festim
que durasse para todo o sempre, e que Jesus bebesse sempre na minha

companhia.
Não sei o que Tolar terá pensado daquela explosão. Muito provavelmente, traduzira tudo
muito mal para a língua em que ainda me exprimia de uma maneira pouco elegante,

mas Tolar aguentou, limitando-se a exibir um vago sorriso. Logo que os tonéis ficaram cheios,
abrimos caminho à cotovelada e mergulhámos o nosso barril nas suas

espumantes profundezas. A seguir segurámos bem nas pegas de corda, com as duas mãos,

197

e transportámos a barrica de volta ao nosso acampamento tendo o cuidado de não derramar


nem uma só gota pelo caminho.

Os outros louvaram a nossa diligência e habilidade enquanto se amontoavam em volta da


barrica com as taças nas mãos.

- O Cabeça-Rapada... - disse Tolar, referindo-se a mim - encantou esta cerveja com uma runa
ao seu deus.

- Ah, sim? - interrogou-se Ragnar.

- Disse uma oração conhecida do meu povo - expliquei, com simplicidade.

- Tens muito respeito por esse teu deus - afirmou Leif, inclinando a cabeça para um lado.

- É verdade - garantiu-lhe Gunnar, aparentemente com algum orgulho. - Aeddan nunca deixou
de rezar ao seu deus desde que está connosco. Até reza antes do jantar.

- Ah, sim? - perguntou Ragnar, admirado. - O Scop nunca o faz... e dizem que também foi um
Cabeça-Rapada. É o vosso Deus que vos exige isso?

- Não é uma exigência de Deus - repliquei. - É... - Fiz uma pausa, tentando desesperadamente
descobrir como descrever a devoção. - É uma coisa que nós fazemos por

gratidão por cuidar de todos nós.

- Quer dizer que o vosso deus vos fornece comida e bebida? - exclamou o homem chamado
Jarn. - Agora é que já ouvi tudo!

Começaram a discutir sobre se valeria a pena um homem perder tempo com os deuses e sobre
quais seriam os melhores para adorar. Leif insistiu que não faria qualquer

diferença, quer um homem adorasse todos os deuses, ou nenhum. O debate ocupou-os


durante um bom bocado, com a barrica de cerveja a fornecer a necessária humidade

sempre que os argumentos secavam as gargantas.

Por fim, Ragnar virou-se para mim.


- Cabeça-Rapada, que nos dizes? Será que os homens devem obedecer aos velhos deuses, ou
desistir deles?

- Os deuses de que estão a falar - repliquei, descuidado - são como os restos atirados aos
porcos, são como a erva seca, amarrada e queimada para atear as fogueiras.

Valem menos do que o ar necessário para pronunciar os seus nomes.

Ficaram todos a olhar para mim... mas a cerveja fizera-me sentir efusivo e sábio, pelo que
continuei.

- O Sol já se pôs sobre o tempo desses deuses e não voltará a erguer-se.

198

- Ho! Ho! - exclamou Jam, trocista. - Ora ouçam! Temos um thul entre nós! Ho! Ho!

- Cala-te, Jarn - grunhiu Ragnar Cabelos-Amarelos. - Quero ouvir a resposta porque há muitos
anos que este assunto me preocupa. - Depois de imposto o silêncio, virou-se

para mim: - Diz mais coisas. Estou a ouvir-te.

- O Deus que eu sirvo é o Mais Alto - disse-lhes. Jarn resmungou ante a minha presunção, mas
ignorei-o e continuei, confundindo as poucas palavras que tinha à minha

disposição mas sem desistir. - Este Deus é o Criador de tudo o que existe, o Senhor tanto do
Céu como da Terra, bem como dos reinos invisíveis, tanto em cima como

em baixo. Não é adorado por intermédio de ídolos de pedra ou de madeira, mas sim no
coração e no espírito dos que se humilham perante Ele, e é Seu desejo permanente

receber e dar as boas-vindas a todos os que invocam o Seu nome.

- E como sabes tudo isso? - perguntou Leif. - Já alguém viu esse teu deus? Já alguém falou com
ele, comeu com ele, bebeu com ele? - Tomou um grande golo da sua taça

e os outros recuperaram forças seguin-do-lhe o exemplo.

- Ah! - respondi. - Há muitos anos, foi precisamente isso o que aconteceu. O próprio Deus
desceu à Terra vindo do seu Grande Salão. Ganhou carne, nasceu como criança,

tornou-se adulto e surpreendeu toda a gente com a sua sabedoria e com as maravilhas que
realizou. Foram muitas as pessoas que acreditaram e o seguiram.

- Maravilhas? - troçou Jarn. - Quais foram essas maravilhas?

- Trouxe pessoas mortas de regresso à vida, restaurou a visão a homens que tinham nascido
cegos, e deu audição aos surdos. Tocou nos doentes com as suas mãos e ficaram
curados. Uma vez, na celebração de um casamento, até transformou a água em öl...

- Ah, isso sim, esse é na verdade um Deus digno de ser adorado!

- exclamou Leif, entusiástico.

- Heya, mas os jarls e cantores da verdade daquela terra não suportaram a Sua presença -
prossegui. - Não obstante todas as coisas boas que fez e ensinou, os skalds

dos reis receavam-no. Por isso, numa noite escura, lançaram-se sobre ele, agarraram-no e
levaram-no perante o magis-ter romano. Acusaram-no falsamente e exigiram

a sua morte.

- Ho! - exclamou Gunnar, cada vez mais excitado com a história.

- De certeza que os seus seguidores soltaram o grito de guerra, caíram sobre os Romanos e
chacinaram-nos. Cortaram-lhes as cabeças e as mãos e organizaram um festim

para os corvos.

199

- Infelizmente... - informei-o, com tristeza - os seus seguidores não eram guerreiros.

- Nay? Então o que eram? Jarls?

- Não, também não eram senhores. Eram simples pescadores... - expliquei.

- Pescadores! - berrou Jarn, que agiu como se nunca tivesse ouvido nada tão divertido.

- Sim, pescadores, pastores e outros do mesmo género - repliquei. - Por isso, quando os
Romanos o prenderam, todos os seus seguidores fugiram para as serranias para

que não os apanhassem, torturassem e matassem.

- Ha, ha! - riu-se Jarn, desdenhoso. - Eu não teria fugido. Tê-los-ia expulso com a lança e o
machado. Ter-me-ia erguido perante eles, com o meu escudo, para lutar

como um homem!

- E que aconteceu a esse Deus-Homem? - perguntou Gunnar.

- Foi morto pelos skalds e pelos Romanos.

- Que estás tu a dizer?! - exclamou Leif, incrédulo e horrorizado. - Esse teu deus foi morto
pelos Romanos? Se era o verdadeiro criador do mundo, podia tomar qualquer
forma que desejasse. Por que não se transformou num fogo e não os queimou? Não os podia
ter capturado e esmagado com todas as suas forças? Não podia ter enviado

o vento da morte para o meio deles, matando os inimigos nas suas próprias camas?

- Estás a esquecer-te - disse-lhe - que Ele se havia tornado num homem e que só podia fazer o
que os homens fazem.

- E permitiu que o matassem? - perguntou Leif. - Nem sequer o meu cão permitiria uma coisa
dessas!

- Talvez o teu cão seja um melhor deus do que aquele que o Aeddan adora - sugeriu Jarn,
malicioso. - Talvez todos nós devêssemos adorar o cão do Leif!

- Ah, sim? - perguntou Ragnar, com a testa franzida de preocupação. - Permitiu que os
Romanos o matassem? Como pôde isso acontecer?

- Os guerreiros Romanos prenderam-no e levaram-no. Despiram-no, amarraram-no a um poste


e açoitaram-no com um chicote de pontas de ferro - expliquei. - Bateram-lhe

com tanta força que as suas carnes se lhe soltaram dos ossos e o sangue cobriu o chão. Mesmo
assim, não gritou.

- Pelo menos, aguentou-se como um homem - comentou Gunnar, muito impressionado. -


Duvido que o cão do Leif conseguisse fazer uma coisa dessas.

200

- Depois, quando já estava meio morto, colocaram-lhe um tronco sobre os ombros e


obrigaram-no a carregá-lo através da cidade, todo nu, até à Colina da Caveira.

- Os Romanos são cães cobardes - declarou Ragnar, como se cuspisse. - Toda a gente o sabe.

- Depois, os romanos deitaram-no no chão... - Pousei a minha taça, deitei-me e coloquei-me na


posição da cruz. - Enquanto um guerreiro se ajoelhava sobre os seus

braços e pernas, um outro pegou num martelo e em pregos e pregaram-lhe os braços e as


pernas ao tronco. A seguir levantaram-no e espetaram o tronco no chão, deixando-o

pendurado até morrer.

Os meus ouvintes abriram as bocas de espanto.

- Quando já estava pendurado acima do chão, o céu ficou muito escuro, o vento enfureceu-se
feroz e os trovões rugiram pela abóbada celeste.

- Transformou-se numa tempestade e matou-os a todos com raios? - perguntou Gunnar,


esperançado.
- Nay - respondi.

- Então, que foi que fez? - inquiriu Jarn, desconfiado.

- Morreu. - Fechei os olhos e deixei descair os membros.

- Se o teu deus era tão fraco e inútil como isso... - fungou Jarn - então acho muito bem que o
tenham morto!

- Houve uma vez - salientou Ragnar - em que Odin também se sacrificou desse modo. Ficou
pendurado na Árvore do Mundo durante nove dias e nove noites e permitiu que

as suas carnes fossem consumidas pelos corvos e mochos.

- E para que serve um deus morto? - perguntou Leif. - Aí está uma coisa que nunca consegui
compreender.

- Ah, essa é precisamente a parte mais importante - disse-lhes. - Depois de estar bem morto,
os skalds desceram-no do tronco, meteram-no numa gruta e fecharam a

entrada com uma enorme pedra, uma pedra tão grande que nem dez homens a conseguiriam
mover. Procederam desse modo porque tinham medo dele mesmo na morte. A seguir

obrigaram os guerreiros romanos a ficarem de guarda ao túmulo, não fosse acontecer


qualquer coisa...

- E aconteceu alguma coisa? - inquiriu Ragnar, duvidoso.

- Voltou à vida. - Levantei-me do chão num salto, para grande espanto dos meus ouvintes. -
Voltou a erguer-se três dias depois de morrer e saiu da gruta... mas não

antes de ter descido ao mundo subter-

201

râneo para libertar todos os escravos do Hei. - Servi-me da palavra que utilizavam porque tinha
mais ou menos o mesmo significado: o lugar das almas torturadas.

O facto deixou-os grandemente impressionados.

- Heya! - exclamou Ragnar com um aceno de aprovação. - E lançou a sua vingança sobre os
skalds e os romanos que o mataram?

- Nem sequer exigiu o preço do sangue, e foi assim que demonstrou a sua divindade, porque
ele é um deus da justiça e não da vingança, da vida e não da morte. É um

deus que estabeleceu, muito antes da era do mundo, que o amor e a bondade deveriam ser os
pilares do seu Grande Salão. Continua vivo e continuará para sempre. Por
isso, quem quer que invoque o seu nome será salvo da morte e dos tormentos do Hei.

- Se está vivo... - interveio Jarn, desdenhoso - onde é que se encontra neste momento? Já o
viste?

- Já muitos o viram - repliquei - porque é frequente que se revele aos que o procuram com
diligência. Porém, o seu reino é nos céus, onde está a construir um grande

salão onde todo o seu povo se poderá reunir para a festa do casamento quando regressar à
Terra para tomar a sua noiva.

- E quando irá regressar? - perguntou Ragnar.

- Em breve - respondi. - Quando regressar, os mortos voltarão à vida e Ele irá julgá-los a todos.
Os que praticaram malefícios e traições contra ele serão exilados

para o Hei, onde ficarão a lamentar-se para sempre por não lhe terem dado ouvidos quando
tiveram a oportunidade.

- E que acontecerá aos que o respeitarem? - inquiriu Leif.

- Aos que lhe demonstraram lealdade... - expliquei - ser-lhes-á garantida a vida eterna e juntar-
se-ão a Ele no salão celestial, onde festejarão e celebrarão para

todo o sempre.

Os meus ouvintes gostaram da ideia.

- Esse salão deve ser muito grande, para poder conter tanta gente... - observou Gunnar.

- O Valhalla também é grande - comentou Ragnar, dando-me uma ajuda.

- É maior do que o Valhalla - declarei, com toda a confiança.

- Se é assim tão grande, como é que o consegue construir sozinho? - interrogou-se Leif.

- É um deus, Leif - respondeu Gunnar. - Os deuses, como todos sabemos, conseguem fazer
essas coisas.

- Para além disso... - acrescentei - tem sete vezes sete hostes de anjos para o ajudarem.

202

- Quem são esses anjos? - perguntou Ragnar.

- São os campeões do céu - esclareci - que são conduzidos por um chefe chamado Miguel que
empunha uma espada de fogo.
- Já ouvi falar dele... - declarou Gunnar. - Helmuth, o meu guardador de porcos, refere-o
muitas vezes.

- Não deve ser um grande deus, se permite que pescadores e guardadores de porcos o
invoquem... - troçou Jam.

- Todos o podem invocar - retorqui. - Reis e jarls, homens livres, mulheres crianças e escravos.

- Não seria capaz de respeitar um deus que fosse adorado pelos meus escravos - insistiu Jam.

- E esse deus tem um nome? - perguntou Leif.

- O seu nome é Jesus, a quem também chamam o Cristo, uma palavra que quer dizer jarl na
língua dos gregos.

- Falas muito bem por esse teu Deus - declarou Ragnar. Gunnar e Tolar acenaram a sua
concordância. - Estou convencido de que se trata de um assunto merecedor da

nossa atenção.

Todos concordaram que sim, que o assunto merecia mais atenção. Contudo, cogitações tão
profundas precisavam da ajuda da öl, a que passaram a dedicar toda a sua atenção.

Para além disso foi imediatamente sugerido que não era possível enfrentar pensamentos tão
extenuantes sem a força que só um estômago cheio lhes poderia dar. A simples

contemplação de uma tal tarefa sem o devido sustento seria uma verdadeira loucura. Por isso,
a conversa virou-se rapidamente para o problema de se saber quem deveria

levantar-se para ir buscar a carne que muito em breve sairia dos espetos.

Por fim, Gunnar, Leif e eu fomos reclamar a nossa parte da carne. Comemos e bebemos
amigavelmente e acabei por adormecer a pensar que, fosse o que fosse que me viesse

a acontecer em dias futuros, o meu tempo de permanência entre os bárbaros não fora
inteiramente desperdiçado.

VINTE E DOIS

Na manhã seguinte o rei Harald reuniu a corte no interior do círculo de pedras. Quem quer que
tivesse uma queixa ou procurasse uma compensação podia apresentar-se

perante ele, para julgamento. É um costume bastante semelhante ao praticado pelos reis
irlandeses e pelos seus povos. Talvez aconteça o mesmo em todo o lado, mas

não sei se assim é. Contudo, bastava-me observar como se comportavam as pessoas para
compreender o processo bastante bem. Apresentavam-se perante o monarca, por
vezes sozinhas e outras vezes aos pares, com os respectivos apoiantes por trás deles, para os
encorajarem. A seguir declaravam a natureza das suas queixas e suplicavam

uma decisão, enquanto o monarca permanecia sentado sobre uma tábua apoiada em duas
pedras.

O rei Harald parecia apreciar os procedimentos. Inclinava-se para a frente ansiosamente, de


mãos pousadas nos joelhos, escutando as queixas e tomando uma decisão,

que por vezes era muito rápida e surgia logo depois de uma ou duas perguntas. Observei os
rostos dos que se colocavam na sua presença e pareceu-me que, pelo menos

na maior parte dos casos, as pessoas ficavam satisfeitas com a justiça que haviam recebido.

Porém, outras vezes, também se viam carrancas e se ouviam murmúrios sombrios quando os
ofendidos se afastavam para lamberem as suas feridas. É também assim no Éire,

uma vez que é impossível agradar a todos, mesmo com toda a justiça... e porque há pessoas
que nunca se dão por satisfeitas.

Enquanto esperávamos pela nossa vez perguntei a mim mesmo se Gunnar iria ficar satisfeito
com o julgamento, tendo em conta que a responsabilidade dos acontecimentos

recaía sobre o próprio rei. Qual seria a decisão de Harald Berro-de-Touro?

Finalmente, quando foi chamado, Harald avançou com ousadia arrastando-me com ele e
obrigando-me a permanecer a seu lado. O monarca

204

fitou-me e aquele seu olhar recordou-me o nosso encontro anterior, uma vez que a sua
expressão revelou os mesmos traços pensativos.

Levantou a mão para Gunnar, reconhecendo o meu amo como um homem livre da tribo de
Ragnar e perguntou-lhe ao que ia. Gunnar respondeu com toda a frontalidade, dizendo

que se tratava de uma queixa que envolvia nada mais, nada menos, do que o assassinato de
um escravo em quem confiara e que o servira durante muito tempo.

O monarca concordou que se tratava, de facto, de um caso muito grave.

- Aparentemente - afirmou Harald - é um assunto merecedor de grande atenção. - Fez uma


pausa para que todos os que o rodeavam pudessem apreciar a sua inteligência,

e só depois perguntou: - Dizes que se tratou de assassinato. Porquê?

Gunnar replicou que se tratava de assassinato quando os escravos de um homem era atacados
por guerreiros armados - que na verdade, eram homens do rei! - e eram mortos
sem motivo.

- Odd não tinha nenhuma arma... - concluiu. - Nem sequer uma pedra.

- Agora que me falas nesse assunto... - respondeu Harald - lembro-me que enviei dois karlar da
minha casa para essa região e que só um deles regressou. Talvez me

possas explicar como foi que isso aconteceu.

Gunnar, antecipando a pergunta, já tinha a resposta pronta.

- Durante o ataque, o meu bom cão matou o homem que assassinou o meu escravo. Por causa
disso, também o meu cão foi morto. Como podes ver, perdi um cão e um escravo

sem que existissem razões para isso. É um prejuízo que não posso suportar com facilidade.

O monarca não mostrou nenhuma pressa em concordar com Gunnar, mas admitiu que os cães
não matavam homens do rei a não se que fossem provocados.

- Quem provocou o cão? - perguntou.

- O vosso homem - respondeu Gunnar.

- E quem soltou o cão? - inquiriu Harald, sugerindo que sabia mais a respeito daquele incidente
do que admitira.

- Este homem, meu escravo - declarou Gunnar, apontando-me. - Foi ele quem soltou o cão.

Os olhos de Harald Berro-de-Touro ganharam dureza e as suas feições tornaram-se rígidas.

- Foi assim? - perguntou-me.

205

Creio que estava à espera que eu negasse ou que tentasse dar uma qualquer explicação.
Apanhei-o de surpresa quando me limitei a responder:

- É verdade!

- E sabias que o cão mataria esse meu homem?

- Não, senhor - respondi.

- Pensaste que isso poderia acontecer?

- Sim.

- Pensaste que o cão poderia matar um dos homens do rei - repetiu Harald, num tom zangado
e mais alto - e mesmo assim soltaste-o?
- Pensei que seria bom que o cão impedisse o vosso karlar de matar Odd.

A resposta deixou Harald confuso. Creio que já se decidira por uma solução para o assunto,
mas que a minha admissão dera um aspecto ligeiramente diferente aos acontecimentos

pelo que se interrogava sobre como deveria proceder. Desviou os olhos de mim e disse,
dirigindo-se a Gunnar:

- Perdeste um escravo e eu perdi um guerreiro. Pagarei o teu escravo...

- ... e o cão... - acrescentou Gunnar, com todo o respeito.

- Pagar-te-ei a perda do escravo e do cão... - repetiu Harald - e tu pagar-me-ás a perda do meu


guerreiro. Agora, afirmo que o meu guerreiro valia vinte moedas de

ouro. Creio que o teu escravo não valia nem metade disso...

- Não, meu senhor. - O rosto de Gunnar perdera toda a cor e a sua sede de justiça já não era
tão forte como fora apenas momentos antes.

- Então, quanto? - inquiriu o monarca.

- Oito peças de prata - sugeriu Gunnar.

- Ou talvez cinco? - interrogou-se Harald.

- Seis - admitiu Gunnar - e mais seis pelo cão.

- Se admitirmos que doze peças de prata valem duas de ouro, então ainda me deves dezoito
peças de ouro pela morte do meu guerreiro - afirmou o rei Harald. - Paga-me

agora e o assunto fica resolvido.

- Senhor - declarou Gunnar, com pesar - nunca fui possuidor de uma tão grande soma, nem o
meu pai, nem o pai do meu pai. Nem sequer Ragnar Cabelos-Amarelos dispõe

de tanto ouro. - Numa súbita inspiração, acrescentou - Tudo o que possuímos é entregue como
tributo...

O rei Harald pôs aquela questão de lado com um gesto impaciente da mão.

206

- Isso não interessa para o caso. Fizemos um negócio e tens de arranjar maneira de pagar a tua
parte, heya?

- Nunca conseguiria juntar tamanha riqueza mesmo que vendesse tudo o que tenho - afirmou
Gunnar.
Harald pareceu deixar-se comover. Levou uma das mãos ao queixo e ficou aparentemente a
pensar no que poderia fazer para ajudar Gunnar a sair de uma tal provação.

Afirmou que não era bom deixar assuntos daqueles por resolver e admitiu que era verdade
que, para começar, o responsável pelo ataque fora o seu próprio karlar.

- Tomando isso em conta... - concluiu - não exigirei todo o preço do sangue. A dádiva do teu
escravo será o suficiente.

Gunnar, incapaz de acreditar na sua boa sorte, não levantou mais objecções e concordou
imediatamente para não se dar o caso de ver o monarca a mudar de ideias. Harald

chamou um dos seus homens, que avançou para o rudimentar trono do rei e lhe entregou uma
bolsa de couro. Harald meteu a mão na bolsa e fez aparecer um punhado de

moedas de prata.

- Não quero que fiques a pensar mal do teu rei... - disse. Seleccionou algumas moedas e fez
sinal a Gunnar e a mim para que nos aproximássemos.

- Isto é pela perda do teu escravo... - declarou, despejando seis moedas nas mãos estendidas
de Gunnar. Depois, como se considerasse melhor a sua oferta, escolheu

mais três moedas e juntou-as às outras. - E isto é pelo teu cão - acrescentou o monarca,
entregando a Gunnar mais seis moedas de prata. - Heya?

Gunnar olhou para mim e encolheu os ombros.

- Heya - respondeu, grandemente aliviado.

A um aceno do rei, o meu amo retirou-se, manifestando a sua gratidão e guardando as moedas
no cinto. O guerreiro avançou, segurou-me por um braço e arrastou-me até

ao trono do monarca. Harald Berro-de-Touro estendeu a mão, agarrou-me pela coleira de


couro e obrigou-me a ajoelhar.

- Agora és meu escravo! - declarou. - Compreendes o que te estou a dizer?

Manifestei a minha submissão baixando a cabeça, após o que me puseram de pé, me


empurraram com alguma violência para trás do rei e me obrigaram a juntar-me aos outros

servos. Pensei para comigo, enquanto me esforçava por me adaptar a esta surpreendente
mudança na minha sorte, que o monarca preparara a sua justiça com todo o cuidado.

Creio que come-

207
çara a planeá-la desde o momento em que me vira na margem do rio, e que aquele era o
resultado final do seu plano.

Instalei-me no meio do séquito de servos e escravos do rei. Uma vez longe das vistas, o
monarca pareceu perder todo o interesse por mim. Por outro lado, como não

me deu nada para fazer, mantive-me fora do seu caminho e aproveitei para observar o
funcionamento da corte. Todavia, os meus esforços de pouco serviram uma vez que

parecia não existir qualquer espécie de funcionamento ordenado.

Na manhã seguinte, aquando da conclusão do theng, toda a gente se despediu dos amigos e
familiares, que na sua maior parte só voltariam a ver quando surgisse uma

nova convocação que os levasse a reunirem-se no círculo do conselho. Os trilhos da floresta à


nossa volta ecoaram com os sons dos dinamarqueses que regressavam a

casa, que se chamavam uns aos outros e que soltavam altos gritos de exuberância ante a
perspectiva de navegarem para a fama e para a fortuna na companhia de Harald

Berro-de-Touro, isto porque, antes de os mandar embora para as suas diversas jornadas, o
monarca se instalara na proa de dragão do seu belo navio e reafirmara as

condições da oferta: quem quer que o seguisse até Miklagard ficaria isento do pagamento de
tributo durante cinco anos e também ganharia uma parte de todos os tesouros

que fossem conquistados. Como é óbvio, a maior parte dos homens livres e dos nobres tinha-
se imediatamente comprometido a juntar-se a Harald.

A maior parte, sim, mas não todos. Ragnar Cabelos-Amarelos não lhe manifestou o seu apoio.
Em solidariedade para com a relutância revelada pelo seu senhor, Gunnar,

Tolar e vários karlar da casa de Ragnar também não se comprometeram com o monarca
embora, a verdade seja dita, não tenham ficado muito satisfeitos com a oposição

do jarl ao plano de Harald.

Concluídas as últimas despedidas, o monarca embarcou no seu navio e começámos a descer o


rio. Encontrei um lugar junto à amurada e observei o local do theng a desaparecer

ao longe, atrás de nós. A tristeza invadiu-me ao constatar que não voltaria a ver a Ylva, a Karin,
o Helmuth, o pequeno Ulf ou até o próprio Gunnar. Haviam sido

bons para mim e nem sequer tivera oportunidade para me despedir deles. Contudo, fiz o que
pude, rezei por eles e pedi a Nosso Senhor Jesus Cristo para enviar um

anjo para os defender. Como não sabia que espécie de amo poderia ser o jarl Harald, também
aproveitei para rezar por mim mesmo, para que me demonstrasse merecedor

do destino que me havia sido preparado.


Atingimos a foz do rio após três dias de viagem, tanto de dia como de noite. Foi preciso ainda
mais um dia de viagem, para norte e leste ao

208

longo da costa, para alcançarmos finalmente as terras do monarca, situadas numa minúscula
enseada chamada Bjorvika. Na verdade, pouco mais eram do que um acampamento

armado, protegido por uma muralha pouco elevada, feita de turfa, que se erguia em volta de
um punhado de casas de lama e colmo. Todavia, o povoado dispunha de um

resistente cais de madeira para as embarcações do rei, que eram três. O navio com a cabeça
de dragão era o maior, mas os outros, mesmo assim, dispunham de vinte

bancos cada um.

Em breve descobri que aquela propriedade do rei era apenas uma de três. Para além daquele
porto, Harald também mantinha uma instalação de Verão, com campos e com

gado, e uma outra de Inverno onde bebia e caçava durante os meses frios. Uma vez que
planeara partir da Dinamarca com a próxima Lua Cheia, o monarca levara consigo

apenas as pessoas que iriam ser necessárias no porto e deixara as restantes noutros lados.

Nos dias que seguiram foi-me permitido vadiar pelas terras do monarca à minha vontade e até
explorei os recantos mais longínquos da pequena enseada sem que ninguém

levantasse objecções. Ocasionalmente mandavam-me executar algum pequeno trabalho, tal


como transportar lenha, ir buscar água ou dar de comer aos porcos. Numa certa

manhã apareceram dois homens do rei que substituíram a minha coleira de couro por outra de
ferro, e que a seguir aproveitaram para me espancar. Esmurraram-me e pontapearam-me

com tanta força que perdi a consciência e quase não consegui caminhar durante três dias.
Tirando isso, fui deixado em paz não obstante andarem todos muito atarefados

de sol-a-sol, preparando abastecimentos e provisões para a grande jornada do monarca.

Pela minha parte, decidi que aproveitaria o tempo para melhorar tanto quanto possível o meu
domínio da língua dos dinamarqueses, pelo que pratiquei aquele idioma

desajeitado até os lábios ficarem dormentes e me doer a cabeça. Mesmo assim, o tempo
pesava-me e pensei frequentemente em Gunnar e na sua família, desejando poder

estar junto deles.

A estação mudou e o Verão transformou-se rapidamente num Outono frio e húmido. Os


ventos também mudaram e sopraram mais insistentemente do norte e do leste, isto
enquanto o Sol se ia mostrando cada vez mais baixo no céu. Assinalei essas mudanças e
entretive-me o melhor que pude, tendo o cuidado de me manter longe dos guerreiros

não fosse dar-se o caso de um deles se lembrar de aproveitar a oportunidade para me


espancar. Depois, apenas dois dias antes da data prevista para a partida, o monarca

recordou-se subitamente da minha existência e fui convocado ao salão por um dos seus karlar.

209

O salão de Harald era muito semelhante ao de Ragnar, talvez ligeiramente maior mas
essencialmente igual. Para além disso, também não havia uma grande diferença nas

actividades que lá se desenvolviam. A lareira era larga e confortável, os bancos eram


compridos, a mesa ampla e eternamente cheia de homens que comiam e bebiam a

todas as horas do dia e da noite. Contudo, ao contrário de Ragnar, Harald instalara um trono
de madeira de carvalho no lado sul da lareira. As costas dessa enorme

cadeira tinham a forma de um grande escudo, com aplicações e pregos de bronze polido e com
um rebordo de prata fixo com pregos de ouro. Os pés nus do monarca repousavam

sobre uma banqueta baixa coberta com as peles de Inverno, inteiramente brancas, de focas
jovens.

O guerreiro empurrou-me para a frente do trono e foi-se embora sem proferir uma palavra. O
monarca, que falava com um dos muitos conselheiros que era habitual encontrarem-se

em volta do trono, avistou-me pelo canto dos olhos e mandou o homem embora. Harald
pousou as mãos nos joelhos, fitou-me com uma expressão de modo nenhum amigável

e semicerrou os olhos lentamente como se o que via na sua frente não fosse inteiramente do
seu agrado.

- Dizem... - afirmou, passado um momento - que falas sozinho. Porquê?

- Para aprender a língua dos dinamarqueses - respondi, com toda a franqueza.

Contraiu os lábios e aceitou a minha resposta sem comentário. A seguir acrescentou, como se
estivesse a fazer uma observação:

- Pertences aos Cabeças-Rapadas.

Mantive-me em silêncio uma vez que não me parecia que o comentário necessitasse de uma
resposta.

- Compreendes o que te estou a dizer neste momento? - perguntou o monarca.


- Sim, jarl - afirmei. - Compreendo.

- Então, responde!

- É verdade, senhor, sou um dos Cabeças-Rapadas.

- E sabes alguma coisa sobre os runor?

- Perdoai-me, senhor, mas não conheço essa palavra. O que é um runor?

O monarca encheu as bochechas, exasperado.

- Runor! Runor! Uma coisa como esta... - Deu um estalo impaciente com os dedos. Um dos
seus homens entregou-lhe uma pele enrolada, que o monarca desenrolou e me

mostrou.

210

Examinei-a e verifiquei que se tratava de um mapa rudimentarmente desenhado com uma


lista de povoados ao longo de um dos lados. Junto de cada povoado havia uma concisa

descrição dos povos que viviam na região e do comércio que aí se podia desenvolver. Estava
escrito em latim e eu disse ao monarca que sim, que se um runor era aquilo,

então podia lê-los sem qualquer dificuldade.

Pensei que a minha afirmação agradaria ao jarl Harald, mas estava enganado. Deu um segundo
estalo com os dedos e surgiu outro pergaminho.

- E isto? - inquiriu, atirando-me o rolo. Abriu-o e olhei para aquele antigo documento.

- Também o posso ler - declarei.

- Então, diz-me o que aí está escrito - pediu, transformando o pedido num desafio.

Voltei a olhar para o pergaminho e verifiquei que se tratava de uma espécie qualquer de
inventário, tal como é costume fazer dos bens existentes num armazém. Partilhei

essa minha opinião com Harald, que insistiu:

- Nay, nay! Lê-o!

Comecei a fazê-lo mas ainda só murmurara meia dúzia de palavras quando me mandou parar.

- Nay! Lê-o em dinamarquês!

- Perdoai-me, jarl... - disse, recomeçando a leitura: - Cevada, seis sacos... Toucinho salgado,
três costelas... Azeite, sete barris pequenos...
- Basta! - ordenou Harald, distraído. Olhou-me com dureza, como que a tentar decidir se
deveria pressionar-me mais ou banir-me da sua vista para sempre. Passado

alguns instantes pareceu ter chegado a uma conclusão porque levantou a mão e chamou dois
do seus karlar, que se aproximaram carregados com um cofre de madeira reforçado

com tiras de ferro e fechado com uma estranha tampa semelhante ao telhado de uma casa.

O cofre do tesouro foi aberto na minha frente e revelou um objecto quadrado envolto em
panos, que os dois homens depositaram nas mãos do rei. Harald pousou o embrulho

no colo e começou a desenrolar as longas tiras de pano. Tive um relance do brilho da prata
quando um dos panos caiu. A seguir, o monarca pegou no objecto e mandou-me

avançar.

Não sei o que estava à espera de ver... mas a visão com que os meus olhos depararam fez com
que o coração me subisse à garganta. Ofeguei e fiquei a olhar, mergulhado

num espanto doentio, para o objecto que se encontrava nas mãos do rei... isto porque ali,
quase ao alcance das minhas mãos, se encontrava a cumtach de Colum Cille.

211

Não se tratava do livro inteiro, nada disso - uma vez que que não teria qualquer espécie de
interesse para os Lobos do Mar - mas sim a sua grande encadernação em

prata cravejada de jóias, muito mais atraente para os olhos avaros dos saqueadores
dinamarqueses.

Kyrie eleison! Murmurei. Deus tenha piedade! Cristo tenha piedade!

Harald abriu a capa do livro e vi que ainda lhe restavam algumas folhas, mas não muitas, talvez
apenas três ou quatro. Muito provavelmente, as outras haviam-se soltado

durante a precipitação da pilhagem. Para meu santo horror, o monarca pegou numa daquelas
páginas e separou-a das restantes com o punhal. Tive de me esforçar muito

para não soltar um grito. O Livro de Colum Cille tinha sido profanado!

- Lê-o - ordenou o monarca, entregando-me a página sagrada. Contudo, não estava em


condições de falar. Peguei no fragmento com dedos trémulos e levei-o aos olhos

- era uma das páginas iniciais dos Evangelhos conhecidos por Livro de Mateus - e observei mais
uma vez as cores ricas e brilhantes, bem como o intrincado rendilhado

de cruzes, espirais, chaves e folhas, sem nunca deixar de murmurar para mim mesmo: Senhor,
Nosso Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.
- Lê-o! - ordenou o monarca mais uma vez, com mais firmeza. Dominei a minha perturbação e
obriguei-me a permanecer calmo sob a mirada do monarca. Pensei que não

seria bom revelar-lhe que sabia alguma coisa a respeito daquele livro. Mesmo naquela
situação e com o coração à beira da ruptura, apercebi-me que não revelar qualquer

espécie de apego por aquele tesouro seria a melhor maneira de me conseguir manter perto
dele.

Virei a página na mão, inspeccionei as linhas e concluí que se tratava de uma das páginas
escritas na nossa própria abadia. Abri a boca e li a passagem... mas não

sei o que li. As palavras oscilavam na frente dos meus olhos e foi-me muito difícil manter a
mão firme. Li uma linha, e depois outra, com a minha voz a soar a vazio

aos meus próprios ouvidos. "E quando Jesus nasceu em Belém da Judeia durante o reinado do
Rei Herodes, os Magos do Oriente encaminharam-se para Jerusalém..."

- Basta! - rugiu Harald, como se o som daquelas palavras lhe magoasse os ouvidos. Ficou a
olhar para mim por instantes, com o silêncio a enrolar-se aos seus pés

como uma medida de corda. O grande salão mergulhou no silêncio, com toda a gente à espera
de ver o que iria fazer a seguir.

Permaneci sob o seu olhar, inseguro, tentando determinar se o meu comportamento traíra o
facto de conhecer aquele livro. No entanto, ape-

212

sar do monarca me olhar com atenção, creio que não era em mim que pensava e que a sua
mente se concentrava num qualquer outro assunto. A minha leitura talvez fizesse

parte das suas preocupações... mas não era de modo nenhum a parte principal.

Por fim, acabou por levantar a mão com uma expressão distraída e fez um gesto para me
mandar embora. Virei-me para sair do salão, implorando por um pouco de força

nas pernas, mas ainda não dera mais de três passos quando o monarca voltou a chamar-me:

- Cabeça-Rapada... - gritou de repente, como que num impulso súbito - vais acompanhar-me
até Miklagard!

VINTE E TRÊS
O vento soprava e o dia estava bonito quando dobrámos o escuro e pesado promontório do
Geats e entrámos num mar cinzento e agitado pelos ventos. Não sabia onde me

encontrava e muito menos para onde nos dirigíamos. Não fazia a mínima ideia sobre onde
seria Miklagard e nem sequer me preocupava com isso. Até poderia estar a navegar

para o inferno levando o próprio diabo a cavalo nas minhas costas que não teria feito qualquer
diferença.

Permanecia no convés do navio de Harald como um homem dominado por uma forte decisão.
Depois de pensar muito no assunto, concluí que não podia alhear-me e permitir

que a sagrada cumtach continuasse a ser profanada pelos bárbaros. Acontecesse o que
acontecesse, arriscaria tudo para preservar o tesouro pelo qual os meus irmãos

haviam dado as suas vidas.

Infelizmente, a preservação daquele tesouro exigia que fosse cúmplice da malignidade do rei
Harald. Que Cristo tivesse piedade de mim!

Contudo, um homem só pode fazer o que lhe cabe. Aquela fora a sorte que me coubera e faria
o que fosse preciso. Harald, decidi, podia contar com toda a minha ajuda

enquanto essa mesma ajuda me permitisse manter a cumtach sagrada ao meu alcance. Se
uma tal ajuda contribuísse para facilitar os seus planos odiosos... pois que

assim fosse. Pagaria pelos meus pecados tal como acontece a todos os homens, mas salvaria a
capa de prata do livro de Colum Cille mesmo que tivesse de desistir da

paz eterna e estivesse condenado ao tormento das chamas para todo o sempre.

Infelizmente, o precioso livro propriamente dito perdera-se. Fora um maldito desperdício de


uma bela criação mas a cumtach sobrevivera. Para além disso, encontrava-se

mesmo à mão de semear: Harald trouxera a encadernação de prata com ele e guardava-a no
seu aposento a bordo do navio - dentro do cofre com a tampa em forma de telhado

-, ao

214

lado das duas arcas cheias de ouro e prata que pensara virem a ser necessárias para a viagem.

Não estava interessado nem nas arcas, nem nos seus tesouros, mas pretendia vigiar o cofre de
madeira com olhos de águia.

Oh, a dura certeza da provação que teria de enfrentar fizera com que a minha determinação se
tornasse verdadeiramente feroz. Tudo o mais - tanto a vida anterior
como também a que poderia vir a ter - nada eram ao lado da força da minha recém-
descoberta fortitude... e se os decretos do acaso exigissem firmeza, então eu seria

como uma rocha, como uma verdadeira fortaleza de arrojo.

Os quatro navios partiram de Bjorvika e vi-me obrigado, nesse mesmo dia, a reforçar o coração
para poder enfrentar a minha nova vocação: ser conselheiro de um Lobo

do Mar saqueador cuja luxúria pelo ouro iria consumir as vidas de muitos. Harald Berro-de-
Touro estava disposto a lançar as garras a tudo o que pudesse... e as suas

garras eram realmente muito grandes.

Ninguém conseguia decidir, pelo menos de um modo satisfatório, se o plano do rei Harald era
pura loucura ou pura astúcia. As opiniões pendiam demasiado facilmente

para ambos os lados e era frequente vacilarem de um extremo ao outro conforme o dia ou a
direcção do vento. Quando o vento soprava do Norte, frio e violento, toda

a gente resmungava que era uma loucura abandonar o calor e a segurança das lareiras numa
altura em que a época já ia tão avançada. Porém, quando o Sol brilhava e

soprava uma brisa constante de Oeste ou do Sul, todos concordavam que ninguém estaria à
espera de um ataque precisamente porque a estação ia adiantada, e que esse

facto seria o suficiente para conseguirem grandes pilhagens entre os desprevenidos habitantes
de Miklagard.

Para mim, tanto me fazia que fizesse chuva ou sol. Ocupava o meu lugar no grupo do monarca,
antecipando as suas ordens mas mantendo as distâncias. Cumpria o meu

dever, executando as obrigações de um escravo, e mais nada. Se as ambições de Harald


tivessem de ser contidas, então seria por intermédio das mãos de Deus e não

das minhas. Eu era o vaso feito para ser destruído, uma promessa de vaso que saíra perfeita
das mãos do mestre oleiro mas que se estragara no forno e que agora só

merecia ser esmagada debaixo do calcanhar e deitada fora.

Porém, Deus é bom! Teve piedade de mim e enviou-me amigos para me reconfortarem.
Gunnar e Tolar, ansiosos por se verem perdoados de cinco anos de tributos, tinham

acabado por se decidir a favor da viagem até Miklagard. Contudo, como o seu próprio jarl,
Ragnar Cabelos-Amare-

215
los, se recusara a apoiar o plano de pilhagem do rei com homens ou navios, haviam
conseguido lugares a bordo da embarcação de Harald. O facto alegrou-me imensamente

porque sentira a falta deles muito mais do que esperara. Por outro lado, como já não era
escravo de Gunnar, tratavam-me como a um igual.

Estávamos no mar há apenas dois dias e encontrava-me sentado perto da popa com as costas
para a amurada, encharcando-me nos breves raios do Sol que surgira no fim

de um dia de chuva quando ouvi uma voz a dizer:

- Pareces triste, Aeddan.

- Ah, sim? - Abri os olhos e vi Gunnar, Tolar e um outro homem parados na minha frente. O
estranho era alto e louro, com um rosto ver-melhusco profundamente marcado

e uns olhos claros, permanentemente semicerrados por passar o tempo a olhar para o
horizonte distante sob todos os tipos de clima.

- Tens o aspecto de quem perdeu o seu único amigo - acrescentou Gunnar, concluindo o seu
comentário.

- Suponho que é por sentir a falta de uma bela cama seca no teu celeiro. É difícil adormecer em
cima de uma tábua nua, num navio que está sempre a balouçar.

Gunnar virou-se para o estranho.

- Vês? Eu bem te disse que ele era irlandês.

- Sim, não há dúvida de que é irlandês - admitiu o homem, num tom plácido. - Outrora, o meu
primo Sven teve uma mulher irlandesa. Comprou-a em Birka por seis peças

de prata e uma braçadeira de cobre. Era uma boa esposa, mas tinha mau temperamento e não
lhe permitia outras mulheres. Afirmou sempre que bastaria que ele pensasse

em levar outra mulher lá para casa para ela o esventrar como a um peixe. Acho que isso o
deixava muito vexado. A mulher morreu ao fim de cinco anos, apanhada por

um lobo, ou por um gato-selvagem. Foi uma infelicidade para o Sven, que não tinha posses
para conseguir outra mulher como aquela.

- Sim deve ter sido uma infelicidade... - concordei. - És o timoneiro do rei. Já te vi com ele.
Chamo-me Aidan.

- E tu és o novo escravo do rei - afirmou o estranho. - Também já te tinha visto. As minhas


saudações, Aeddan. Sou o Thorkel.

- Já navegámos juntos anteriormente, o Thorkel, o Tolar e eu - disse Gunnar. - Esta é a terceira


vez... e toda a gente sabe que a terceira vez trás muito má sorte.
216

Tolar confirmou com um aceno e uma expressão muito grave.

- Diz-se que és cristão - informou-me o piloto. - Também se diz que o facto do rei confiar num
cristão nos pode dar muito má sorte. Receiam que, por isso mesmo,

as pilhagens não corram tão bem como seria de desejar quando chegarmos a Miklagard. -
Thorkel fez uma pausa, como que a distanciar-se das opiniões dos boateiros.

- Bom, as pessoas dizem muitas coisas... e na sua maior parte são asneiras, é claro.

- Aeddan é um sacerdote - declarou Gunnar alegremente, levantando a mão para a minha


tonsura, cujos cabelos estavam já demasiado crescidos. - Diz muito bem do seu

Deus. Devias ouvi-lo, um destes dias.

- Ah, sim? - admirou-se Thorkel. - Um sacerdote cristão? Nunca tinha visto nenhum.

- É verdade - confirmei, decidindo ir à procura de uma navalha em qualquer lado para


restaurar a minha tonsura.

O marinheiro mirou-me com uma olhadela especulativa e chegou imediatamente a uma


conclusão.

- Bom, mesmo assim, não me parece que confiar num cristão seja pior do que confiar a nossa
sorte à Lua e às estrelas, coisa que os homens estão sempre dispostos

a fazer. Penso que és suficientemente inofensivo.

A partir daquele momento, Thorkel e eu ficámos amigos. Como não tinha quaisquer
obrigações determinadas, passava uma boa parte dos dias na sua companhia. Por vezes

sentava-me no seu banco junto ao leme, e outras vezes instalava-me na amurada enquanto ele
perscrutava o mar com os seus vivos olhos azuis. O alto timoneiro tomou

a seu cargo informar-me de tudo o que pudesse sobre os nossos progressos, embora não
houvesse muito para dizer. Para além de algumas vagas marcas terrestres - serras,

rochas, rios, quintas e outras coisas do mesmo género - havia muito pouco para ver ou que
valesse a pena ser mencionado.

Continuámos a sulcar o mar varrido pelas vagas. As tempestades do Outono aproximavam-se e


os dias, nos reinos do norte, tornavam-se mais frios e curtos. Thorkel

mantinha um rumo firme ao longo de costas pouco familiares e o monarca resistia


resolutamente a expedições contra povoados não protegidos embora as oportunidades

que se apresentavam não fossem muitas. Os sinais de habitações humanas eram escassos ao
longo das costas escuras e cobertas de florestas, uma vez que seguíamos em
direcção ao nosso destino pela rota do norte, que poucos conheciam e em que ainda menos
confiavam. Sendo mais difícil do que a rota do sul, a rota do norte gozava

da apreciável vantagem de encurtar a jornada. Todavia, ninguém era capaz de dizer até que
ponto a mesma seria mais

217

curta. Alguns apostavam que no Jul, o festival do solstício do Inverno, já estaríamos a beber òl
no salão de Harald. Contudo, os pessimistas que se encontravam entre

nós tinham tendência para pensar que o Verão já iria bem avançado antes de conseguirmos
provar a cerveja do rei.

Foi desse modo, saltando de promontório para ilhota e de ilhota para promontório, que fomos
navegando ao longo da costa enevoada, avançando sempre para leste. Na

verdade, o Mar Oriental é uma expansão pouco amigável de água salgada, fria e negra,
atravessada apenas por baleias solitárias e por outros monstros das profundezas

salpicadas de espuma, e nunca vi um navio qualquer para além dos três que seguiam na nossa
esteira.

Finalmente, doze dias depois de termos partido, chegámos ao sítio que Thorkel começara a
procurar três dias antes, a foz do rio Dvina. Fizemos uma pausa apenas suficiente

para os outros navios nos alcançarem, penetrámos no profundo canal do rio e iniciámos a
parte da viagem que nos levaria para o sul.

Na verdade foi uma viagem peculiar, isto porque deixámos as rotas marítimas para trás de nós
e navegámos pelos cursos de água do interior, sempre para sul, pelo

Dvina e pelo Dniepre, passando através das terras dos Gardáricos, dos Curled, e por outros
sítios sem nome, bem como pelos reinos bárbaros do Polotjans e Poljans,

Dregovitas, Severians, Pat-zunaks e Kazars. Fomos atacados por duas vezes, uma delas em
plena luz do dia e quando navegávamos. Os nossos adversários surgiram do

meio dos campos de juncos, soltando gritos agudos e atirando-nos pedras e paus. Como não
parámos, perseguiram-nos ao longo do rio, saltando sobre as margens rochosas

montados em pequenos e peludos ponies, uma visão que fez com que os Lobos do Mar se
rissem à gargalhada e que ocasionou muito divertimento nos dias que se seguiram.

O segundo ataque surgiu durante a noite, ao quarto dia da grande varação por cima das
colinas entre o Dvina e o longo e profundo Dniepre. A luta foi selvagem, brutal
e durou até ao meio dia. De acordo com as ordens do rei Harald, Thorkel, eu e cinco outros
recuámos para bordo do navio para guardarmos as velas e as provisões.

Não tomei parte no combate mas observei-o da amurada, rezando para que os anjos de
Miguel protegessem Gunnar e Tolar, que conseguia avistar de vez em quando, labutando

no meio do fumo, do sangue e dos gritos.

Que criatura peculiar é o homem, tão caprichoso como o vento e igualmente inconstante!
Entre aqueles mesmos Lobos do Mar encontravam-se muitos dos que, em circunstâncias

semelhantes, tinham atacado

218

os meus queridos irmãos, mortos não sei quantos, arruinado a nossa peregrinação e roubado
o nosso principal tesouro. Todavia, ali estava eu, de mãos unidas numa

oração fervente, abrindo o meu coração por eles e rezando com todas as minhas forças para
que conseguissem rechaçar os assaltantes. Era desse modo, assim o creio,

que Deus me estava a mostrar até que ponto eu havia caído. De certeza que não era
necessária nenhuma outra prova adicional.

Harald perdeu um total de dezassete homens, onze dos quais foram mortos e os restantes
tomados como escravos. Os inimigos perderam mais - penso que muitos mais -

mas não parámos para os contar nem para tomar escravos. Logo que a batalha terminou, os
Lobos do Mar apressaram-se de volta aos navios, agarraram nos cabos e continuaram

a puxá-los até atingirmos um local mais abrigado, no meio de uma floresta de carvalhos.
Passámos aí o dia, descansando e tratando dos feridos. Na madrugada do dia

seguinte a varação prosseguiu como se nada de especial tivesse acontecido e o embate do dia
anterior se encontrasse completamente esquecido.

Poucos eram os povoados com dimensões capazes de chamar a atenção. Contudo, um desses
poucos era uma fortaleza de troncos chamada Kiev, um entreposto comercial na

posse de uma tribo dinamarquesa a que creio que davam o nome de Rhus e onde pensávamos
desembarcar para trocar parte da prata do rei Harald por carne fresca e por

outras provisões.

- Essa tal Kiev está talvez a um dia ou dois para lá das águas baixas - informou-nos Thorkel
alguns dias depois do ataque. Tínhamos passado o dia a puxar o navio
por cima de baixios lamacentos, o que constituía um trabalho aborrecido e opressivamente
cansativo. Thorkel, Gunnar e eu estávamos sentados junto a uma pequena fogueira

ao lado do navio, na margem do rio, porque tínhamos ganho o hábito de comer a refeição da
noite em conjunto, dividindo o pão entre nós e ensopando-o na mesma panela.

Não sei explicar por que motivo Harald tolerava esta estranha comunhão entre um escravo e
os seus homens. Porém, por outro lado, e para começar, também ainda não

conseguira descortinar porque razão se mostrara tão desejoso de me ter como seu escravo.
Para mim, toda aquela questão era inescrutável mas tirava conforto da companhia

familiar de Gunnar e dos outros, e não me envergonho de dizer que eram meus amigos.

Thorkel parecia conhecer bem a região, apesar de nunca ter estado tão a sul. Gunnar fez um
comentário a esse respeito, levando o piloto a sorrir e a inclinar-se

para a frente, numa confidência:

219

- Tenho uma pele, sabem? - murmurou, batendo num dos lados do seu nariz com uma
expressão significativa.

Em breve descobri que o homem pretendia dizer que tinha em seu poder uma pele oleada na
qual fora desenhado um mapa rudimentar.

- Aqui está Kiev... - declarou, desenrolando a pele que conservava debaixo da camisa. Os rios
eram rabiscos negros e os povoados eram pintas castanhas. Pousou um

dedo sobre uma dessas pintas, deslocou-o mais para a frente e voltou a pousá-lo noutra - e
aqui está Miklagard. Estão a ver? Estamos quase a chegar!

- Ah, mas ainda temos muito que andar! - comentei.

- Nay - replicou, abanando a cabeça e fazendo uma careta ante a minha ignorância. - Tudo
isto... - acrescentou, apontando uma vasta expansão vazia por cima de Miklagard

- daqui até aqui... são águas calmas, que atravessaremos facilmente em três ou quatro dias se
os ventos nos forem favoráveis.

Passou-me a pele para as mãos. Aproximei-a do fogo e baixei a cabeça sobre ela. Estava muito
gasta, amarrotada e suja, mas ainda se viam algumas letras bem como

fragmentos de palavras latinas.

- Como conseguiste este mapa? - perguntei-lhe.


- O meu pai era Thorolf, piloto do jarl Knut do Olho-Torto, e comprou-o a outro piloto em
Jomsborg - declarou Thorkel, orgulhoso. - Esse homem tinha-o adquirido

a um mercador de Frencland... ou seria de Wenland? Já não me lembro! É muito valioso!

Muito em breve, o mapa de Thorkel iria demonstrar todo o seu valor isto porque, dois dias
mais tarde, tal como previsto, chegámos finalmente ao tal entreposto comercial

conhecido por Kiev.

VINTE E QUATRO

Construída na larga margem do Dniepre, Kiev crescera a partir de um pequeno entreposto


comercial dinamarquês e transformara-se numa grande cidade mercantil inserida

numa floresta de bétulas, carvalhos e olmos, sobrepujada por uma colina na qual se erguia
uma grande fortaleza de troncos onde os senhores de Kiev, segundo se dizia,

amontoavam a prata que obtinham do comércio. As peles de visão, de marta, de castor e de


raposas negras, os panos de seda do oriente, as espadas e facas, os vidros

e as contas, o couro, o âmbar, o marfim das presas de morsa, os cornos de alce e de rena, bem
como muitos outros artigos, eram transportados para cima e para baixo

ao longo daquele rio e os lordes mercadores de Kiev impunham portagens sobre todos esses
bens em denarii de prata ou em solidi de ouro.

Quando chegámos havia sete navios atracados ao longo da margem do rio, e momentos
depois vimos aparecer mais dois, vindos do sul, onde as tripulações haviam passado

o Verão a comerciar com os Eslavos e Búlgaros. Eram astutos mercadores dinamarqueses,


alguns dos quais provinham da Sjaland e outros da Jutlândia. Na verdade, tinham

sido os dinamarqueses de Skania quem havia fundado Kiev e muitos dos seus habitantes ainda
falavam o dinamarquês, embora com alguns estranhos embelezamentos.

O rei Harald ordenou que os seus quatro navios atracassem juntos e que ficassem dez homens
de guarda a cada um, uma vez que não confiava nos outros dinamarqueses

para deixarem as suas embarcações em paz. Não permitiu que ninguém desembarcasse
enquanto não viu as suas exigências satisfeitas, e não sem que todos fizessem um

solene juramento de sangue garantindo que nem sequer sussurrariam uma palavra sobre o
nosso destino final, para que não se desse o caso de outros Lobos do Mar virem

a atacar a Cidade do Ouro, arruinando a nossa oportunidade de apanharmos os seus cidadãos


de surpresa.
221

A seguir, o monarca reuniu os karlar à sua volta e encaminhou-se para o mercado. A primeira
coisa que fez foi comprar uma cabra, uma ovelha e quatro galinhas, que

levou directamente para um local que se erguia no centro do mercado e que se encontrava
delimitado por um semicírculo de altas estacas. O chão por baixo dos pés

estava húmido, o sítio cheirava a sangue e a podridão, e havia vários crânios de animais
espalhados em torno dos postes.

Harald avançou para o centro do círculo. Aí chegado, o monarca prostrou-se na frente de um


pilar vertical esculpido com as feições de um homem.

- Jarl Odin... - gritou, numa voz suficientemente alta para ter a certeza que todos o ouviam -
vim de longe com quatro navios e muitos bons homens, em busca de comércio

e de muitas pilhagens, e trouxe-te esta bela dádiva!

Dito aquilo, o monarca levantou-se, puxou pela faca e cortou rapidamente as gargantas aos
animais, mantidos bem seguros por um dos seus karlar. Começou pela cabra

e pela ovelha, chacinou os pobres animais e recolheu numa malga uma parte do sangue que
escorreu para o chão. A seguir aproveitou esse sangue para pintalgar o pilar

que tinha na frente e deitou o resto para os postes em volta. As galinhas foram decapitadas e
atiradas ao ar para que o sangue se espalhasse por todo o lado, tanto

sobre o pilar como sobre os postes, que representavam as mulheres e os filhos do Lorde Odin.
Depois dos animais estarem mortos, o monarca retalhou as carcaças, deixou

os melhores bocados para os deuses e enviou o resto de volta ao navio, para o seu jantar.

Penso que toda esta agitação se destinou mais a impressionar os mercadores de Kiev do que a
satisfazer o desejo de Harald de honrar Odin, Thor e Freya. Porém, apesar

dos balidos, dos saltos dos animais e da ruidosa proclamação do monarca, o sangrento
sacrifício não despertou mais do que um interesse fugidio por parte da populaça

de Kiev. Sem dúvida que o espectáculo, demasiado repetido, já os aborrecia.

Observado o ritual, o rei Harald marchou com toda a confiança para o mercado, onde
negociou a água, os cereais e a carne de porco salgada que deveriam ser fornecidos

aos seus navios. Entretanto, os homens lançaram-se à descoberta de uma outra faceta
comercial de Kiev, talvez não tão descarada mas de modo nenhum menos proeminente.
Numa das extremidades do mercado, por baixo da fortaleza, erguiam-se grandes habitações
na frente das quais se viam longos bancos onde se encontrava reunido um certo

número de mulheres jovens que, tal como tudo o mais em Kiev,

222

se encontravam à venda. Era possível comprá-las imediatamente por um determinado preço e


já muitos homens tinham conseguido boas esposas desse modo. Porém, por

um preço inferior, também era possível adquirir uma pequena medida dos confortos de uma
companhia feminina.

Era esse tipo de companhia o que mais atraía os Lobos do Mar. Harald proibira toda a gente de
levar mulheres para bordo dos seus navios, e os homens, na sua maioria,

haviam deixado as esposas em casa. Contudo, as preocupações do próprio monarca eram de


um género menos lascivo.

Não procurava o comércio ou a companhia feminina, mas sim informações. Thorkel ouvira
dizer - e o seu mapa assim o parecia indicar - que a sul de Kiev existiam enormes

remoinhos e cataratas capazes de esmagar até os navios mais resistentes. Harald desejava
saber qual a melhor maneira de evitar esses perigos e esperava, se tal fosse

possível, encontrar um guia ou, no mínimo, inteirar-se do que os outros mercadores sabiam a
respeito do curso do rio lá mais para o sul.

Foi com essa ideia em vista que Harald vagueou pelo mercado fingindo admirar os produtos e
envolvendo-se em conversa com os vários mercadores. A pedido do monarca,

Thorkel e eu acompanhámo-lo nas suas deambulações por entre os mercadores, para a


eventualidade das nossas capacidades virem a ser necessárias. Como já disse, a

maior parte dos mercadores falava o dinamarquês ou, no mínimo, faziam-se compreender
nessa língua. Mesmo assim, foram muito poucas as informações que conseguimos

obter não obstante todos os nossos esforços, uma vez que os mercadores estavam apenas
interessados nos negócios e no comércio e desviavam todas as perguntas para

o valor e qualidade dos seus produtos. No que se referia a outros assuntos, mostravam-se
reticentes quase até ao ponto da grosseria.

- Tenho sede! - declarou Harald, finalmente. Tínhamos percorrido todo o mercado,


aguentando encolhidelas de ombros, silêncios e insultos. - Creio que um pouco de

öl nos ajudará a decidir o que fazer a seguir.


Atravessámos a praça do mercado e dirigimo-nos directamente para uma das casas maiores,
que se distinguia pela pequena montanha de barris de cerveja empilhados ao

acaso, no exterior. Havia várias mulheres sentadas no banco, observando a actividade do


mercado e gozando os fracos raios do Sol. Ao verem que nos aproximávamos,

começaram a compor-se, suponho que para revelarem melhor as suas virtudes. Eram
mulheres com um aspecto estranho, escuras, com cabelos negros e finos como teias

de aranha, com profundos olhos escuros dispostos obliqua-

223

mente em rostos cheios e redondos como luas. Tinham membros curtos mas de carnes firmes,
com uma pele da cor das amêndoas.

O monarca parou para as observar mas não viu nada a seu gosto e entrou na casa, que fora
construída à maneira de um salão mas com uma galeria superior onde, a partir

de alcovas semelhantes a baias, as pessoas podiam observar o que se passava em baixo. Vimos
compridos bancos ao longo das paredes, bem com mesas e cavaletes instalados

em volta de uma grande lareira quadrada construída no meio da sala. Eram poucos os homens
sentados às mesas a comer e a beber, uma vez que a maioria se encontrava

nos bancos e tinha taças nas mãos. A enorme sala era barulhenta, tenebrosa e sombria, uma
vez que não existia nem um único orifício de ventilação nas paredes, nem

uma chaminé no telhado, e porque toda a gente demonstrava uma certa tendência para
gritarem uns aos outros. Bastou-me um passo no interior daquela sala para sentir

o conteúdo do estômago a subir-me à garganta por causa do pivete a vomitado, a


excrementos e a urina. O solo estava coberto por palha suja e viam-se cães esquálidos

caídos ao longo das paredes e encolhidos pelos cantos.

Harald Berro-de-Touro não teve qualquer dificuldade para tornar conhecida a sua presença.
Avançou com passos ousados e gritou:

- Heya! Tragam-me öl!

Toda a casa estremeceu com a força da sua exigência e surgiram três homens mal-amanhados
para o servirem, cada um deles com um jarro de cerveja e várias grandes

taças. Despejaram a cerveja escura e rica nas taças e enfiaram-nas nas nossas mãos. Eu fiquei
com uma, mas Thorkel e Harald receberam duas cada um, que emborcaram
avidamente sob o encorajamento ardente dos portadores dos jarros, que competiam uns com
os outros para nos manterem as taças cheias.

Bebi a primeira imediatamente para depois bebericar a segunda com todo o vagar enquanto
olhava em volta. Havia ali homens de muitas tribos e raças diferentes, que

na sua maioria eram novas para mim: homens corpulentos e de cabelos claros, vestidos de
peles, homens trigueiros e baixos, com mãos ágeis, elegantes e olhos encovados

por cima de narizes que pareciam bicos de águias, homens de membros compridos e delgados,
de peles pálidas, com roupas largas e botas macias feitas de couro tingido,

bem como outros cuja aparência me fez pensar em lugares áridos e desertos. As únicas tribos
que reconheci eram formadas por homens dos nossos navios ou por outros

dinamarqueses, e não havia ali um único britânico ou irlandês. À medida que Harald e Thorkel
foram bebendo, deixaram que os pés os conduzissem para onde lhes apetecesse.

A ousa-

224

dia do rei e a sua ostensiva boa vontade atraíram os outros nórdicos para junto dele, pelo que
em breve conseguira reunir à sua volta um amigável grupo de marinheiros

e de mercadores do rio, a quem começou a extrair as informações que desejava.

- Devem ser homens na verdade muito corajosos... - afirmou - para já terem estado no sul.
Segundo tenho ouvido dizer, só os barqueiros mais valentes se atrevem a

enfrentar os rápidos a sul de Kiev.

- Ora, não são assim tão maus... - gabou-se um grande e desgrenhado dinamarquês que
cheirava a gordura de urso. - Neste Verão já fui duas vezes até ao Mar Negro.

- Ah, Snorri! - troçou o seu companheiro, com uma risadinha de desdém - Foste lá duas vezes,
é verdade, mas uma delas foi no dorso de um cavalo!

- Da outra vez fui com um navio - ripostou o homem, assanhado - e é difícil de dizer qual das
duas viagens será a mais perigosa.

- Diz-se por aí... - continuou Harald, despejando mais cervejas nas taças - que há dez cataratas,
cada uma delas maior do que a anterior e todas suficientemente

grandes para engolirem navios inteiros.

- É verdade - confirmou Snorri, solenemente.


- Nay... - afirmou o homem pequeno que o acompanhava - não são assim tantas. Talvez sejam
quatro.

- Sete, pelo menos - corrigiu-o Snorri.

- Ou talvez cinco - interveio outro. - Contudo, só três são suficientemente grandes para
engolirem um navio.

- Que sabes tu disso, Gutrik? - ripostou o enorme Snorri, num desafio. - Passaste todo o Verão
em Novgorod, com dores de dentes.

- Fui lá há sete Verões - declarou Gutrik. - Na altura havia apenas quatro cataratas e não me
parece que o rio se tenha modificado muito.

- Ah, se a tua memória fosse de tanta confiança como o rio... - comentou outro homem, numa
leve provocação. - Eu próprio contei seis.

- Oh, são seis, é claro, se também incluirmos as mais pequenas. Pela minha parte, nem sequer
lhes prestei atenção.

Thorkel, embora ainda segurasse as taças nas duas mãos, não bebia de nenhuma delas e
escutava-os atentamente, tentando compor toda uma verdade a partir dos vários

fragmentos com que cada um daqueles homens contribuía.

- Começo a pensar que nenhum deles desceu o rio... - acabou por sussurrar, para Harald.

225

- Nesse caso, vamos ter de pôr as coisas a limpo... - replicou o monarca. Virou-se para os
homens, que naquele momento já deveriam ser uns sete, e disse: - Falam

como se fossem homens com uma experiência considerável. Porém, para além do Snorri,
quem mais poderá ter descido o rio neste Verão?

Olharam uns para os outros, não conseguiram arranjar uma resposta e baixaram os olhos para
as taças. Contudo, o homem chamado Gutrik declarou:

- O Njord desceu o rio e regressou hoje mesmo com os seus navios.

- Heya! - concordaram todos. - O Njord é o homem que vos interessa.

- Encontrem o Njord - garantiu-nos Gudrik - ficarão a saber tudo o que há a saber sobre o
Dniepre. Nenhum homem o conhece melhor.

- Uma moeda de prata para o primeiro homem que me trouxer o Njord... - anunciou Harald,
tirando uma pequena moeda de prata do cinto - e mais outra se isso não demorar
muito!

Três daqueles homens desapareceram imediatamente e instalámo-nos para esperar. Thorkel e


o monarca continuaram a conversar com os outros, mas a curiosidade fez-me

olhar à minha volta. Em breve se tornou óbvio que aquela casa tinha muito mais para oferecer
do que apenas comida e bebida. Verifiquei que, de tempos a tempos, uma

das mulheres que se encontrava no banco exterior entrava na casa arrastando um marinheiro
atrás de si. Por vezes subiam à galeria, dirigiam-se a uma das alcovas

e deitavam-se juntos, mas o mais frequente eram encontrarem um lugar num dos bancos ao
longo da parede, onde copulavam à vista de todos os que se dessem ao trabalho

de olhar.

A coisa acontecia tão casualmente e provocava tão-pouco interesse por parte dos presentes
que eram como se fossem cães ou porcos com o cio e não seres humanos. Vi

um homem entrar na casa e dirigir-se directamente para um amigo envolvido numa dessas
relações. Os dois homens trocaram saudações e conversaram durante alguns momentos.

Depois, o primeiro homem sentou-se no banco ao lado do par de amorosos enquanto o amigo
prosseguia com o acto sexual até à sua consumação, após o que trocaram de

lugares e o segundo homem começou onde o outro terminara.

A iniquidade era de cortar a respiração. Só conseguia abanar a cabeça de desespero. Contudo,


no fim de contas, tratava-se de bárbaros e até era bom que me recordasse

esse facto de tempos a tempos.

Acontece que Njord estava entretido com uma ocupação semelhante, numa casa próxima.
Quando despachou tanto a mulher como a bebida, concordou em acompanhar Gutrik,

que reclamou as moedas de prata apresentando o piloto ao rei Harald e anunciando:

- Tens na tua frente o melhor timoneiro existente desde o Mar Branco ao Mar Negro, Njord
Mente-Profunda.

O homem que se encontrava na presença do monarca não podia ser menos impressionante.
Um varapau enrugado exigiria muito maior consideração. Njord era um homem de

ombros descaídos, de ossos compridos e orelhas-de-abano, como uma pele sulcada e curtida
pelos ventos e pelo ar salgado até se assemelhar a couro. Tal como Thorkel,

mantinha os olhos sempre semicerrados e usava um grande bigode que quase lhe tapava a
boca. As mãos eram ásperas, habituadas a manobrar os cabos e o timão do navio,
e mantinha-se sobre uns pés muito abertos para conservar o equilíbrio sobre as tábuas
inclinadas de um casco a balouçar. Os seus cabelos estavam reduzidos a um mero

farrapo acinzentado pelo Sol. No conjunto, o homem parecia um bocado de cartilagem roída
pelos cães e deitada fora.

- Saudações, amigo! - berrou Harald. - Estes teus amigos não se cansam de gabar os teus
conhecimentos e capacidades! Dizem muito bem da tua habilidade como marinheiro!

- Se me honram, os meus agradecimentos... - replicou o piloto com uma pequena vénia da


cabeça. - Se me insultarem, lanço-lhes uma praga! Sou Njord, jarl Harald,

e aceita as minhas melhores saudações.

- Amigo... - declarou o monarca, expansivo - nada me daria mais alegria do que tomar uma
bebida na tua companhia! Mais öl! Servidores, ao trabalho! As nossas taças

estão vazias e as gargantas estão secas! - Virou-se para Njord e acrescentou: - Toda esta
conversa também me deixou com fome! Sentemo-nos e comamos, e poderás falar-me

das tuas viagens!

- Um homem deve ser cuidadoso quando se senta na companhia de reis - comentou Njord com
astúcia - pois pode sair-lhe caro, tanto no que se refere à vida como aos

membros.

Compreendi então porque lhe chamavam Mente-Profunda, porque em breve se tornou


aparente que o homem se considerava um filósofo com o dom de exprimir os seus pontos

de vista por intermédio de aforismos astuciosos.

Os homens à nossa volta ficaram boquiabertos ante a ousadia, mas Harald atirou a cabeça
para trás e soltou uma gargalhada.

227

- Receio que seja uma grande verdade - admitiu, satisfeito. - Contudo, até pode ser bom
arriscar a saúde e a fortuna, heya? Quem sabe se os riscos não valerão a

pena?

Thorkel e eu encontrámos um lugar para o monarca e para o seu novo e estranho amigo.
Gutrik, Snorri e os restantes juntaram-se ao grupo, empurrando outros para o

lado a fim de ficarem suficientemente perto para chegarem à carne e à cerveja que
começaram a aparecer em cima da mesa. Instalámo-nos para uma refeição que se prolongou
até ao crepúsculo e terminou com Harald e Njord a trocarem votos solenes, embora bêbados:
o piloto iria guiar-nos para lá das traiçoeiras cataratas e o monarca,

em troca, recompensá-lo-ia generosamente com os lucros do seu empreendimento. Por acaso,


reparei que Harald se esquecera de mencionar qual era a natureza desse empreendimento.

O pequeno problema referente à obrigação assumida por Njord de conduzir os navios do seu
próprio jarl de volta a casa foi rapidamente resolvida quando Harald se

ofereceu para pagar a parte dos despojos de Verão a que o piloto tinha direito, como
compensação pela perda dos seus serviços. O mestre do outro navio foi convocado,

concordou rapidamente e o negócio foi fechado ali mesmo.

Depois de ter obtido tudo o que pretendera e até um pouco mais, o monarca mostrou-se
ansioso por se ir embora dali. Levantou-se da mesa e apressou-se em direcção

à porta, arrastando atrás de si um considerável grupo de servos, com cada um deles a exigir
pagamento e a gritar a plenos pulmões para se conseguir fazer ouvir por

cima dos outros. Harald parou junto à porta, virou-se, meteu a mão no cinto e puxou por um
punhado de moedas de prata, que entregou ao servo que se encontrava mais

à frente, dizendo:

- Partilhem isto entre vocês como entenderem.

Espantados, os servos olharam para aquela miserável recompensa e berraram ainda mais alto.

- Esta é a nossa recompensa?! - guincharam, incrédulos. - Um dia inteiro de comida e bebida...


por isto?!

Contudo, o monarca limitou-se a levantar uma das mãos, num gesto de admoestação, e saiu
para o exterior.

- Nay, não quero ouvir palavras de agradecimento, porque o prazer foi todo meu! Adeus, meus
amigos!

Njord acenou com a cabeça, demonstrando a sua admiração perante o comportamento de


Harald.

- É na verdade um rei... - murmurou.

228

Quando passávamos junto ao pilar de Odin, com os seus odores rançosos, pensei que era bom
estar fora do salão mesmo que isso significasse a troca de um mau cheiro
por outro. Depois de um dia inteiro ao Sol, o cheiro dos animais sacrificados e já em
putrefacção era bastante pungente. Contudo, bem vistas as coisas, o odor a

carnes podres sempre era melhor do que a ruidosa mistura de fumo, suor, fezes, cerveja azeda
e vómito que se acumulara no interior do salão.

Não havia ninguém a bordo dos navios para além dos guardas, que já não eram os dez que
havíamos deixado para trás para vigiar as embarcações uma vez que tinham sido

rendidos por companheiros já saciados de bebida e de cópula, e que estavam agora


profundamente adormecidos sobre o convés. Os dorminhocos foram acordados e mandados

em busca dos camaradas.

Afastar os Lobos do Mar das delícias de Kiev demonstrou ser uma tarefa muito mais difícil do
que alguém conseguira prever. As casas de prazer eram grandes e continham

muitos quartos, alguns dos quais completamente isolados, que se destinavam aos que
procuravam uma maneira mais privada de exprimir as artes carnais. Desse modo tornava-se

necessário revistar cada uma dessas casas e cada um desses quartos, para chamar ou até,
talvez com mais frequência, para carregar com os marinheiros de volta aos

navios que os aguardavam.

A Lua já ascendera no céu e atingira o seu ponto máximo quando todos os guerreiros de
Harald foram recuperados e os navios empurrados para longe da margem. Felizmente

não era preciso remar porque o fluxo da corrente nos arrastava consigo, pelo que ninguém foi
obrigado a agarrar num remo e não se verificou nenhuma espécie de acidente.

Contudo, no dia seguinte não tivemos tanta sorte. Logo a sul de Kiev, o rio corria por serranias
que o apertavam e transformavam numa torrente rápida que esculpia

uma passagem entre altas falésias de pedra que quase não permitiam a passagem do navio.
Nem sequer era possível utilizar um remo de cada lado do casco. Se alguém

o tentasse fazer, os remos ficariam estilhaçados, pelo que Thorkel teve grandes dificuldades
para manter a quilha centrada na parte mais profunda do canal. O timoneiro

passou todo o dia com o rosto franzido numa expressão preocupada, como se esperasse que a
calamidade nos atingisse de um momento para o outro. Njord, pelo seu lado,

manteve-se com a cabeça escondida por baixo da capa, curtindo a festança da noite anterior.

Quando acabou por aparecer já o pior da passagem se encontrava pelas costas e as águas
eram novamente plácidas.

229
- Ah, estás a ver... - declarou, olhando em volta - isto é esplêndido! Creio que és um verdadeiro
timoneiro, meu amigo Thorkel. As tuas capacidades são iguais às

minhas sob todos os aspectos... menos um. - Recusou esclarecer que falha singular seria
aquela e passou a louvar as qualidades marinheiras da embarcação. - Oh, é

um belo navio, heya? Penso que sim! Tem mastro fortes mas o timão é leve. É na verdade um
belo navio.

- Foi o que sempre pensámos - replicou Thorkel, talvez um pouco rígido. - No entanto, fico
contente por o dizeres.

- Todavia, veremos como se irá comportar dentro de três dias - continuou Njord. - As primeiras
cataratas não são muito más... e podemos até afirmar que pouco mais

são do que rápidos. Passaremos quatro delas com toda a facilidade porque as águas, nesta
altura do ano, não têm muita força. O problema é completamente diferente

quando as chuvas da Primavera inundam os vales. Têm bons motivos para agradecer às
estrelas o facto de não estarmos na Primavera.

- E as restantes cataratas? - pergunto Thorkel.

- Todos os homens se metem em dívidas... - retorquiu Njord de um modo críptico - mas só um


louco se mete em sarilhos. - Virou-lhe as costas e afastou-se, fazendo

deslizar os dedos sobre o polido corrimão da amurada.

- Não me preocuparia tanto se soubesse o que tinha pela frente... - resmungou o piloto.

Foi o próprio Senhor Jesus Cristo quem afirmou que as preocupações do dia são mais que
suficientes para o dia, e que as de amanhã devem ficar para amanhã. Foi também

o que eu disse ao Thorkel, que se limitou a fungar ante aquela noção e nunca mais falou
comigo durante todo o dia.

VINTE E CINCO

As primeiras três cataratas foram ultrapassadas com a ajuda de varas. Tal como Njord previra,
as águas iam baixas nas apertadas passagens que o rio percorria no

seu caminho para o Mar Negro. Servimo-nos das extremidades dos remos e fomos desviando
os navios lentamente em volta das rochas, ora apoiando-os, ora guiando-os

ou empurrando-os, até voltarmos a atingir águas mais calmas. Quando passámos para lá da
terceira catarata já o rei Harald desejava não ter trazido tantos navios
consigo. Depois da quarta, começou a pensar se não seria mais sensato deixar dois navios para
trás, para os recuperarmos mais tarde.

Todavia, a cobiça despertou-o a tempo de o persuadir de que necessitaria de todos os seus


navios para carregar as pilhagens de Miklagard de volta a casa, e foi isso,

mais de que qualquer outra coisa, que o convenceu de que fora uma estupidez não ter trazido
mais navios, com dimensões ainda maiores.

A quinta e sexta cataratas puseram à prova a força e a resistência de todos os tripulantes,


excepto as do rei e as de dez guerreiros que permaneceram na margem a

guardar as provisões contra possíveis ataques. De acordo com Njord, os membros de uma
pouco honesta tribo local, conhecidos por Patzinaks, tinham o mau hábito de

montar emboscadas precisamente nos locais onde os navios se encontravam mais vulneráveis.

Foi necessário transportar fardo após fardo e dei uma ajuda nesse laborioso processo
enquanto cada um dos navios era encalhado e descarregado. Era preciso retirar-lhe

todos os sacos de cereal, todos os barris de água, todas as panelas, espadas e lanças, todos os
cabos, velas e bancos dos remadores. Depois, quando os navios não

passavam de cascos vazios, os homens despiam as roupas, ficavam nus e patinhavam nas
águas remoi-nhantes que lhes subiam até à cintura enquanto puxavam pelos cabos

- uns à proa e outros a meio navio - servindo-se da força bruta para arras-

231

tarem as relutantes embarcações. Alguns tripulantes utilizavam remos para desviarem os


cascos das rochas mais próximas e todo o grupo avançava lentamente, mantendo-se

tão perto da margem quanto possível para evitar serem puxados para águas mais rápidas e
atirados contra as rochas alcantiladas. Depois, quando as embarcações já

se encontravam fora de perigo, todos os abastecimentos eram transportados ao longo do rio e


novamente carregados a bordo.

Esta labuta ocupou-nos dois dias inteiros para cada catarata... e se as primeiras seis foram
suficientemente más, a sétima foi a pior de todas elas. Estava salpicada

não só de rochas e de remoinhos como também de duas quedas de água que era preciso
ultrapassar. Njord, que até ali fora muito menos útil do que o monarca considerava

suficiente, não se apressou a apresentar uma solução.


- E agora, que fazemos? - inquiriu Harald, cada vez mais impaciente face à tarefa impossível
que tínhamos pela frente.

- Um homem viaja por muitas estradas... - comentou Njord sabiamente - mas só uma o conduz
ao seu destino.

- Sim, pois... - grunhiu Harald - e foi por isso que te trouxe comigo! Mostra-nos por onde
devemos seguir!

Njord acenou, os seus olhos estreitos transformaram-se em fendas e os dentes morderam o


lábio inferior como se estivesse a trabalhar numa complicada solução.

- Vai ser difícil... - admitiu o piloto grisalho após algum tempo. - Os teus navios são demasiado
grandes.

- Mas que vem a ser isto?! - rugiu o monarca, fazendo a terra tremer com a força do seu grito. -
Trouxe-te até aqui para te ouvir dizer que os meus navios são demasiado

grandes?!

- Não é por minha culpa se os navios são grandes - retorquiu Njord, petulante.

Se alguma vez houve um homem com os pés assentes em areias movediças... então esse
homem foi o Njord. No entanto, parecia não dar pelo perigo que corria naquele

momento.

- Se mo tivesses perguntado - acrescentou o piloto, fungando - já to teria dito.

- E será que tens mais alguma coisa para me dizer? - perguntou Harald num tom que passou a
ser baixo e ameaçador. Quase podia ouvir a lâmina da sua faca a deslizar

na bainha...

Njord fez beicinho e olhou para as águas com uma expressão profundamente inescrutável.
Contudo, de repente anunciou:

232

- Se a montanha é demasiado alta para ser trepada... temos de a rodear. - Virou-se para o
monarca e declarou: - Já que me pedes conselho, digo-te que os navios

têm de ser transportados!

Harald ficou a olhar para ele, incrédulo.

- Impossível! - gritou Thorkel, incapaz de se conter durante mais tempo. A seguir atirou-se para
a frente para fazer um apelo ao rei: - Arranca-lhe aquela cabeça
inútil de cima dos ombros e acabemos com isto! Eu próprio o farei com toda a satisfação!

A carranca de Njord aprofundou-se ainda mais.

- Se é assim que querem recompensar o melhor conselho que ouvirão ao longo de todo este
rio... então entreguem-me a minha parte da recompensa e desaparecei da vossa

vista.

- Não! - declarou Harald, com firmeza. - Vais ficar connosco! Os navios chegaram até aqui, mas
não graças a ti. Chegou a altura de mereceres a tua prata e de os

pores em segurança do outro lado da catarata, tal como combinaste fazer. Falha nessa tarefa...
e terás a recompensa que mereces!

Incitado por aquelas palavras, o piloto magricela despertou da sua indolência e começou a dar
ordens para a preparação das embarcações.

- Afastem-se para um lado... - declarou - e vejam bem o que vou fazer!

Tal como anteriormente, os navios fora esvaziados e foi apenas depois disso que Njord
começou a exibir a sagacidade por que era tão aclamado mas que até àquele momento

nunca nos demonstrara. Ordenou a remoção dos remos e a retirada do mastro. Mandou que
fossem à floresta cortar altos troncos de bétulas e que os limpassem de todas

as ramagens. Também foram abatidas outras árvores para servirem como alavancas. A seguir,
os cascos vazios foram retirados do rio e arrastados para a margem com

cordas, sendo colocados em cima dos troncos redondos.

Deve ser dito que Njord, depois de começar, se dedicou com calor à sua tarefa e se saiu
bastante bem. Parecia saber sempre com exactidão o sítio exacto onde deveria

ser aplicada uma alavanca, conseguia prever as dificuldades antes delas surgiram e tomava
medidas para as evitar ou, pelo menos, para mitigar a sua severidade. No

fim daquele dia, um dos navios já se encontrava para lá dos rápidos e o outro ia a meio
caminho.

Nessa noite acampámos na margem. Voltámos ao trabalho no dia seguinte sob uma chuva que
começou a cair logo pela madrugada. A chuva tornou a tarefa mais complicada

porque os trilhos ficaram lamacentos e os paus molhados eram difíceis de segurar. Contudo,
os restantes navios

233
eram mais pequenos do que o do monarca e puderam ser deslocados mais rapidamente e com
menos esforço. A noite encontrou-nos com os dois últimos navios já a meio

do percurso em seco. Na manhã seguinte, os Patzi-naks atacaram.

O rei Harald foi o primeiro a aperceber-se do perigo. Soltou o seu berro de touro, que
despertou os fatigados dinamarqueses do seu sono. Se não fosse isso, não tenho

dúvidas de que teríamos sido chacinados em pleno sono. Levantaram-se como um só homem
e já com as lanças nas mãos porque os Lobos do Mar envolvidos numa expedição

de pilhagem dormem sempre com as armas prontas, muito em particular quando estão em
terra.

Os Patzinaks eram pequenos, escuros e astutos, e atacavam-nos com furiosos golpes,


deferidos com espadas de lâmina larga e com machados, para logo se afastarem rapidamente.

Todas aquelas fintas e correrias tornavam-os difíceis de atingir e frustavam os Lobos do Mar,
que preferiam um inimigo que defendesse o seu terreno e trocasse golpe

por golpe. Contudo, os Patzinaks já anteriormente haviam enfrentado os dinamarqueses e


sabiam qual a melhor maneira de lidar com um opositor mais poderoso.

Harald compreendeu que o inimigo pretendia esgotar os seus guerreiros ou aproveitar-se da


sua frustração para os levar a cometer um erro fatal, pelo que fez sinal

aos seus para que retirassem para os navios e se defendessem na margem do rio. Foi aí, com
as costas protegidas pelos sólidos cascos de carvalho, que se prepararam

para enfrentar os fugidios Patzinaks.

Porém, os inimigos perderam rapidamente o interesse pela continuação da luta logo que
verificaram que os Lobos do Mar não se deixariam atrair para campo aberto.

Contudo, não ficaram desencorajados e limitaram-se a mudar de estratégia: retiraram para


alguma distância, reuniram em conselho e elegeram um enviado que avançou

para nós sob o sinal do ramo de salgueiro.

O monarca chamou-me com um gesto quando viu o enviado a aproximar-se.

- Vamos conversar com ele, tu e eu... - disse - embora pense que aquilo que vamos ter de ouvir
não será ao nosso gosto.

O grupo dos Patzinak avançou até uma distância de cerca de cinquenta passos, parou e
esperou por nós. Harald, dez dos seus karlar e eu próprio, fomos ao seu encontro.

O monarca exibiu uma carranca muito carregada e inspeccionou as fileiras dos inimigos com o
desdém a franzir-lhe a testa e a encurvar-lhe os lábios.
234

O enviado dos Patzinak começou a falar, balbuciando qualquer coisa numa algaraviada
ininteligível. Como não produziu efeito, tentou noutra língua ainda mais incompreensível

do que a primeira, se é que tal era possível. Vendo que nenhum de nós o entendia, desistiu e
experimentou uma terceira.

- Trago-vos as nossas saudações, homens - disse, num latim miserável.

Compreendi-o bastante bem e devolvi-lhe as saudações, para depois explicar ao rei o que o
outro dissera.

- Vemos que não têm medo de lutar... - prosseguiu o enviado, num tom suave. - Por isso, o
nosso lorde tem todo o prazer em deixar-vos passar pelas suas terras sem

serem molestados.

Repeti as palavras ao rei Harald, cuja resposta foi pronta:

- O vosso lorde tem uma maneira muito peculiar de expressar o seu prazer! - grunhiu o
monarca. - No entanto, já tenho sido mais molestado. Não perdi nenhum homem,

por sorte para o vosso lorde e para os que os seguem, porque nesse caso a discussão que
estamos a ter neste momento seria de um tipo muito diferente...

- É verdade, Vossa Grandeza, e podeis agradecer esse facto ao nosso lorde, que estende
sempre as suas mãos num gesto de irmandade a todos os que desejarem a sua

amizade. - O enviado, um homem ligeiramente trigueiro a quem faltava a maior parte da


orelha direita, fez uma pausa, sorriu com afabilidade e acrescentou: - Claro

que uma tal amizade ficará melhor estabelecida com o apropriado gesto de consideração -
declarou, esfregando a palma da mão direita com as pontas dos dedos da esquerda.

- Está-me a parecer... - replicou Harald, logo que lhe transmiti as palavras do enviado - que o
teu senhor estende as mãos para uma recompensa um pouco mais tangível

do que a simples irmandade.

O enviado sorriu e encolheu os ombros.

- As exigências da amizade são muitas e têm as suas próprias obrigações. Um homem da vossa
eminência de certeza que o sabe muito bem.

Harald abanou a cabeça ao ouvir aquilo.

- São uns alegres ladrões - disse-me. - Pergunta-lhes quanta prata será necessária para
estabelecer esse laço de amizade entre nós.
Fiz a pergunta e o enviado respondeu:

- Não me cabe a mim dizê-lo, Gracioso Rei. Olhe para os seus homens e navios, e calcule o
valor que lhes dá. Como é obviamente um homem de posição, estou certo de

que se irá comportar de acordo com isso.

235

Harald pensou naquilo e chamou um dos seus karlar, que se apressou na direcção do navio e
voltou a correr trazendo um pequeno saco de couro. O monarca meteu a mão

lá dentro e fez aparecer uma braçadeira de prata.

- Isto é pela amizade - declarou, colocando a prata na mão estendida do enviado dos Patzinak.
- E isto... - continuou Harald, voltando a meter a mão no saco - é

pela amizade dos meus homens. - Colocou uma gema amarela e perfeitamente polida na mão
do homem. - Agora, isto... - repetiu, metendo a mão no saco pela terceira

vez - é pela futura boa vontade entre os nossos povos se por acaso voltarmos a passar por
aqui. - Pousou uma gema verde ao lado da amarela, fechou o saco e devolveu-o

ao membro da sua casa.

- Imaginava... - disse o enviado, lançando um olhar de desapontamento para os objectos que


tinha na mão - que um homem com o vosso estimável merecimento daria um

valor mais elevado à amizade entre os nossos dois povos.

- O meu desejo resume-se a um mero conhecimento - foi a resposta de Harald. - Não pretendo
casar com o vosso lorde nem com ninguém do seu povo, por muito agradáveis

que possam ser.

O enviado dos Patzinak não gostou da resposta. Suspirou e afagou o queixo, mirando o saque
que tinha nas mãos e abanado a cabeça com tristeza de um lado para o outro

como se estivesse a contemplar um erro trágico.

- Detesto ter de pensar... - acabou por dizer, largando o tesouro na bolsa que trazia ao cinto -
que dais tão pouco valor aos vossos novos amigos. Receio que esse

facto seja muito perturbador e estou certo de que, quando o meu lorde for informado da
pouca estima que lhe tendes, irá requerer compensações adicionais.

- Ah, mas que estupidez a minha! - replicou Harald depois de eu lhe transmitir aquelas palavras
- Esqueci-me de mencionar que, para além da prata e das pedras preciosas
que tão rapidamente fizeste desaparecer, também vos estou a conceder, a ti e ao teu
ambicioso lorde, a dádiva das vossas vidas.

O monarca dos Lobos do Mar fez uma pausa para ver qual o efeito que as suas palavras iriam
ter. Depois, quando o enviado começou a protestar contra uma tal linha

de raciocínio, acrescentou:

- O quê? Dais assim tão pouco valor às vossas próprias cabeças? Dito aquilo, puxou do
machado e preparou-se para fazer sinal aos seus para retomarem a luta. O enviado

dos Patzinak ficou a olhá-lo por instantes e declarou:

236

- Agora que vos compreendo melhor, fico amplamente persuadido do vosso sincero desejo de
amizade. Como tal, tratarei de entregar a vossa generosa oferta ao nosso

lorde. Todavia, devo recordar-vos que terão de passar outra vez por aqui quando voltarem
para casa... e rogo-vos que tenhais em conta o tipo de recepção que ireis

ter quando do vosso regresso.

- Encontraremos a recepção que encontrarmos - grunhiu Harald, já farto daquele jogo.

- Então, sigam o vosso caminho... - declarou o enviado dos Patzi-nak. - Direi ao meu lorde para
vos preparar a recepção que mereceis.

- É esse o meu maior desejo - ripostou Harald, passando o polegar ao longo do gume do
machado.

- Pois que assim seja! - concluiu o enviado. Fez um sinal aos seus e todo o grupo se retirou
rapidamente.

- A situação foi muito bem resolvida, jarl - disse um dos homens de Harald. - Achas que
voltarão a atacar-nos?

- Não me parece - replicou o monarca. - Desta vez comprámos um salvo-conduto. Contudo,


também fomos avisados: para a próxima irá sair-nos mais caro.

Regressámos aos navios e preparámo-nos para continuar em frente. No fim daquele dia já as
quatro embarcações estavam outra vez na água e desciam o rio tranquilamente.

Como a Lua era suficientemente brilhante para se poder navegar, nessa noite não houve
descanso e a nossa jornada prosseguiu. A manhã descobriu-nos já muito longe

das terras dos Patzinak e do último obstáculo que se interpunha entre Harald Berro-de-Touro e
a Cidade do Ouro.
Segunda Parte

Que o Cristo Eterno

Possa estar sempre convosco,

E que vos guarde no seu abraço de amor

Quer enfrenteis os tempestuosos

Mares Ocidentais

Ou estejais a percorrer as ruas,

Escuras e mortíferas,

Das Cidades Douradas do Oriente.

VINTE E SEIS

Tanto quanto eu pudesse ver, o Mar Negro não era mais escuro do que qualquer outro e a
superfície das suas águas brilhava como jade polido sempre que o Sol o iluminava.

Contudo, o Sol era uma visão rara uma vez que os dias eram frequentemente cinzentos e os
nevoeiros matinais que se espessavam sobre a água não se dissolviam até

bem depois do meio-dia. Mesmo assim, o ar era mais quente do que eu imaginara. Por vezes
refrescava durante a noite mas de dia, quando o Sol brilhava, tornava-se

quase agradável.

Pelo que podia ver da amurada do navio, tínhamos chegado a uma terra de apertadas
serranias. As serras com um baço tom castanho que se erguiam para lá da costa irregular

não eram muito elevadas mas estavam cobertas por um denso matagal de pequenas árvores e
de arbustos espinhosos. Por vezes conseguia avistar ovelhas magricelas a

escolherem o caminho por entre os ramos cheios de espinhos, em busca de alimento, mas
nunca notei a presença de pessoas.

Harald, que considerava que a sua frota era capaz de enfrentar qualquer inimigo, avançava
ousadamente, navegando durante o dia e procurando abrigo durante a noite.
Numa dessas noites, os homens que haviam ido em busca de lenha regressaram ao
acampamento com algumas daquelas ovelhas peculiares. Eram altas, esguias, de espáduas

estreitas e longos pescoços, e estavam cobertas por peles malhadas de castanho e cinzento.
Na verdade, eram mais parecidas com cabras do que com ovelhas. Matámos

os animais e pusemo-los a assar em espetos por cima das fogueiras. A sua carne era forte e
dura e a gordura a arder punha-nos os olhos a chorar. Nenhum dos homens

a conseguiu comer e até o próprio Hrothgar acabou por desistir passado muito pouco tempo,
dizendo que o seu cinto de couro era com certeza mais tenro e deveria ter

um sabor mais agradável. Depois de uma refeição tão miserável, nunca mais ninguém se
lembrou de incomodar aquelas ovelhas.

240

A experiência recordou-me a parábola de Cristo. Não seria tarefa fácil distinguir as ovelhas das
cabras, e para isso seria preciso um pastor que conhecesse o seu

rebanho e conseguisse chamá-las pelos nomes. Na verdade, teria necessariamente de ser um


pastor muito bom.

Durante a manhã, por várias vezes, avistámos algumas embarcações de pescadores. Eram
pequenos barcos que transportavam apenas dois ou três homens, que sulcavam as

águas com a ajuda de compridos remos e que não apresentavam qualquer interesse para os
Lobos do Mar, que prosseguiram o seu caminho sem os molestar. Só avistámos

a primeira povoação depois de três dias de navegação mas Harald deu ordens para que
ninguém se entregasse à pilhagem. Agora que a perspectiva de riquezas ilimitadas

se encontrava quase ao seu alcance, o monarca não queria desperdiçar esforços num saque de
tão pequena importância.

- Não devem ter nada que valha a pena levar - declarou, franzindo a testa com desdém. - Para
além disso, podemos sempre saqueá-los quando formos a caminho de casa.

Os povoados tornaram-se mais numerosos ao longo dos dias seguintes. Sentindo que já devia
encontrar-se perto de Miklagard, o monarca revelou-se muito cuidadoso na

aproximação. Por isso mesmo, passávamos os dias abrigados em enseadas de onde só


emergíamos ao crepúsculo para navegarmos nas águas enevoadas até de madrugada. Ocupei

o meu lugar ao lado de Thorkel, ao leme, observando o céu que brilhava com um número
incontável de estrelas embora o mar permanecesse envolto em neblina e oculto
sob um manto branco e denso como o algodão.

Passávamos a noite inteira a observar o céu incandescente, salpicado de estrelas que não nos
eram familiares. A contemplação daquela maravilha fez-me recordar as

palavras de Dugal: até as estrelas do céu são diferentes.

Oh, Dugal, se ao menos as pudesses ver, pensei. Daria tudo para que estivesses neste convés, a
meu lado, com os olhos virados para o céu e com a luz das estrelas

a iluminar o teu rosto simpático.

- Estamos perto - declarou Thorkel, apontando para oeste por cima da amurada.

Olhei e vi as luzes de uma povoação de bom tamanho. Eram os clarões de lareiras e de velas,
os lampejos de uma centena ou mais de habitações, algumas amontoadas

em baixo, junto à costa, enquanto as outras se espalhavam pelas colinas.

Não compreendi por que motivo a existência de uma tal povoação significava que nos
encontrávamos perto do nosso destino.

- Conheces este sítio? - interroguei-me.

241

Não, respondeu Thorkel, nunca antes o vira. Por isso, perguntei-lhe porque razão pensava que
um povoado junto ao mar era indício de estarmos perto de Miklagard.

- Para um Lobo do Mar... ainda tens muito que aprender - retorquiu Thorkel. - As pessoas não
constróem um povoado junto à água a não ser que se sintam seguras por

trás da protecção de uma muralha.

Semicerrei os olhos e investiguei a costa, que me pareceu desolada sob a luz prateada das
estrelas.

- Estás enganado, Thorkel. Não vejo nenhuma muralha.

- Miklagard... - ripostou o piloto, com um sorriso - é a sua muralha.

O piloto falava verdade. Na noite seguinte passámos no meio de dois promontórios apertados
e entrámos num canal estreito, com margens muito íngremes. Quando o dia

nasceu a oeste, no meio de uma neblina leitosa, a grande cidade revelou-se aos nossos olhos e
todos nos amontoámos na amurada para observarmos aquela tremenda visão.
Olhei através do mar enevoado pela humidade da manhã e vi uma povoação de enormes
dimensões, espalhada sobre os dorsos corcovados de sete colinas, onde as grandes

cúpulas dos palácios se erguiam por cima de apertados amontoados de casas brancas, e os
topos arredondados das montanhas pairavam por cima das nuvens... e tudo aquilo

brilhava sob a luz da madrugada como estrelas semeadas numa espécie de firmamento
terrestre.

Olhei para a cidade por cima da superfície da água... e comecei a sentir-me invadido por uma
estranha sensação de reconhecimento que fez com que um medo obscuro

começasse a pulsar através de mim mesmo, ao ritmo cada vez mais acelerado do meu coração.

Virei-me para Thorkel e disse:

- Isto não pode ser Miklagard.

- E por que não? - replicou. - Não há duas cidades como esta em todo o mundo.

- Mas... eu conheço este sítio - insisti, num reconhecimento cada vez mais forte.

- É possível... - admitiu o piloto, com toda a sensatez - porque esta cidade tem muitos nomes. -
Levantou a mão na direcção da povoação espalhada pelas colinas.

- Esta é a famosa Cidade do Ouro, a Cidade de Constantino!

- Constantinopla... - murmurei, sentindo-me entorpecido da cabeça aos pés.

- Heya! - concordou Thorkel, afável.

242

- Bizâncio... - A palavra era um sussurro de incredulidade nos meus lábios rígidos de medo.

- Essa é uma palavra que não conheço - disse o timoneiro. - Para os dinamarqueses, foi sempre
Miklagard.

Passei uma das minhas trémulas mãos pelo rosto. Tinha a certeza de que era um homem
condenado... e também muito estúpido. Pensara ter escapado às terríveis consequências

do meu sonho enquanto, no fim de contas, navegava directamente para ele.

. Contudo, não tinha tempo para meditar no meu destino. Harald, vendo-se próximo da sua
presa, ordenou aos guerreiros que se preparassem para o ataque. A sua voz

de touro disparou uma estonteante fiada de ordens que foram repetidas nos outros navios.
Num espaço de instantes já todos os bárbaros se precipitavam para um lado
e para o outro nos conveses dos quatro navios, enfiando armaduras e vestindo-se para o
combate. O estrondear daquela agitação era horrendo.

Vi Gunnar a correr no meio da confusão e chamei-o.

- Aeddan! - gritou-me. - É hoje que vamos encher as nossas arcas de tesouros, heya!

Sim... e é também o dia da minha morte, pensei. A morte esperava-me em Bizâncio. Virei-me
para Gunnar e comentei:

- Harald está a pensar em atacar a cidade a esta hora? Não seria melhor esperar pela noite?

- Nay - respondeu, apertando com força as fivelas da sua camisa de cota-de-malha. - No


escuro, numa cidade tão grande como esta, acabávamos por nos perder. Como

iríamos encontrar as casas dos tesouros? É melhor atacar agora enquanto a cidade dorme.

- Mas... os guardas vão avistar-nos - avisei, numa voz que ganhara um tom agudo e frenético
aos meus próprios ouvidos.

- Sim, e ficarão tão assustados quando nos virem que nos abrirão as portas da cidade de par
em par!

- E quando te virem, Gunnar Maço-de-Guerra... - declarou um bárbaro que se encontrava


perto de nós - de certeza que nos trarão os seus tesouros às carradas!

Os guerreiros começaram a discutir quem iria conseguir carregar mais tesouros das pilhagens
do dia, qual deles era o mais corajoso e qual o mais tímido, quem iria

ganhar fama e quem cairia em desgraça. Também se interrogaram sobre o que seria mais
pesado: um elmo de guerra ou um ceptro de ouro? Toda esta conversa foi acompanhada

por grandes gritos e por gabarolices verdadeiramente ultrajantes. Contudo, reparei que
ficavam

243

cada vez mais excitados e veio-me à mente que se estavam a incitar uns aos outros para o
calor dos combates. Quando chegássemos à costa já seriam Lobos do Mar a

babarem-se de entusiasmo.

Retirei-me para o meu lugar junto ao mastro e agachei-me. Não sabia que mais poderia fazer.
Era claro que não me cabia lutar ou participar nas pilhagens. Tudo o

que tinha em mente - se é que tinha alguma coisa -, era uma grande vontade de permanecer a
bordo do navio e manter-me fora das vistas. Se não pusesse os pés em solo
bizantino... então talvez não morresse.

Todavia, até essa pequena esperança me foi roubada quando o rei Harald, magnífico no seu
traje de batalha, emergiu da tenda montada sobre a plataforma e me viu agachado

junto ao mastro.

- Tu! - gritou. - Aeddan, vem cá!

Levantei-me e fui ter com ele. Oh, o monarca estava esplêndido: tinha os cabelos presos por
baixo de um elmo de couro, tiras de ferro a rodearem-lhe os braços e

envergara uma camisa de uma malha muito fina. Usava uma espada e um punhal numa das
ancas e tinha um machado de guerra suspenso do cinto. Para além disso transportava

uma lança curta numa das mãos e um elmo de guerra na outra.

- Quero-te ao meu lado - declarou, num resmungo. - Quando me apoderar do governante de


Miklagard... irei precisar de ti para me traduzires a sua rendição.

O coração caiu-me aos pés e senti-me invadido por um grande desânimo. Não só iria
desembarcar em Bizâncio como o faria logo nas primeiras fileiras. Para além disso,

no meio de todos aqueles guerreiros era eu o único que não tinha armas, e nem sequer um
escudo com que me pudesse defender.

É assim que vou ser morto, pensei. Vou ser abatido logo na frente do ataque. Serei um dos
primeiros a cair assim que as lanças e setas dos defensores começarem a

assobiar em volta das nossas cabeças.

Harald lançou uma olhadela para o céu.

- Está um belo dia para uma luta - anunciou, colocando o elmo de guerra na cabeça. - Vamos,
homens! - gritou, avançando para o mastro. - Aos remos! Aos remos! Façamos

com que os fracos tremam nas suas camas e amaldiçoem o dia em que nasceram! Façamos
com que os fortes preparem os seus próprios túmulos! Façamos com que todos os

homens temam o grito dos Lobos do Mar!

A febre do ouro já os invadira. Saltaram para os remos e começaram a remar para a costa.
Agachei-me ao lado do mastro, encostando-me ao

244

sólido carvalho em busca de um pouco da sua força, rezando o Kyrie uma e outra vez, por
entredentes. "Senhor, tem piedade! Cristo, tem piedade! Senhor, tem piedade!
Cristo, tem piedade!..."

A toda a minha volta, reluzentes no seu equipamento de guerra, os homens dobravam-se


sobre os remos e impulsionavam os navios ao ritmo das rápidas batidas dos nossos

corações... e as colinas de Bizâncio ficavam mais perto a cada puxão nesses mesmos remos.

Harald Berro-de-Touro permaneceu na sua plataforma, de pernas bem abertas, agitando o


machado de guerra por cima da cabeça e marcando a cadência aos remadores. Berrou

com uma voz tão profunda como o estrondo de um tambor, espevitando a coragem dos
guerreiros e inflamando a sua ânsia de sangue com exortações grosseiras.

- As frias tábuas cortam as ondas! - gritou. - O Portador do Machado desliza veloz! O casco
curvo abre caminho nas águas! As espadas apressam-se para a tempestade

das armas!

"Os crânios rolam! Os membros cortados contorcem-se! Bebam da grande taça vermelha no
salão do Rei dos Vermes!

Desvairado, como um louco, o monarca rugia, incitando-se a si mesmo e aos seus para o
frenesim da batalha.

- Sou o jarl Harald Berro-de-Touro, Dador do Ouro, Fornecedor da Cerveja, o Provedor de


Mãos-Largas! Sigam-me, Fazedores de Cadáveres,

Destruidores de Homens, porque colocarei as riquezas nas vossas mãos! Farei com que rios de
ouro corram aos pés do campeão, e que a prata chova dos céus!

"Homens de Aço, que quebrais espadas e fabricais viúvas...! Apressem-se rumo à Glória! Sigam
o vosso Provedor de Tesouros à Toca dos heróis, onde o frio do ouro

extinguirá o calor da batalha! Voem! Voem! Sim, voávamos cada vez mais depressa, com a
afiada proa de cabeça de dragão a cortar as águas calmas. Alguma vez terão

existido homens que se apressassem tanto ao encontro da morte?

Constantinopla, confiante sob a madrugada leitosa, estava cada vez mais próxima... e era
quase como se fosse a cidade a voar para nós e não o contrário. Parecia-me

ver a morte a deslizar para mim a cada remada

mas, no entanto, não era capaz de desviar os olhos daquele lugar.

Quanto mais próximo, maior se tornava. Era um colosso, uma maravilha . com sete corcovas,
espalhadas pelo vasto dedo de uma península que apontava o mar. Não precisei

de esperar muito para começar a distinguir as costuras negras das ruas, que eram como cordas
embaraçadas umas nas outras, contorcendo-se por entre as massas de habitações

quadradas
245

e brancas. Havia uma nuvem suja sobre as suas alturas, formada pelo fumo de incontáveis
lareiras, fumo que subia para o alto e se acumulava numa espessa mancha castanha

que girava sobre si mesma. Continuámos a avançar velozmente, direitos à margem mais
próxima. Contudo, já conseguíamos ver, mesmo a partir do mar, que a cidade estava

rodeada por uma alta muralha de protecção que parecia erguer-se das águas. Harald não se
mostrou desencorajado e mandou avançar os navios para a poder examinar de

mais perto. Todavia, o que viu foi um verdadeiro balde de água fria atirado sobre um plano
demasiado ardente, isto porque toda a cidade se encontrava rodeada por

uma espessa cortina de tijolos e pedra com a altura de dez homens, que se erguia da própria
água e se estendia a perder de vista para ambos os lados. Em baixo, na

água, inúmeros pequenos barcos de transporte carregavam artigos de comércio para um lado
e para o outro, ao longo da costa.

Bastou uma só mirada às dimensões e extensão das muralhas de Bizâncio para que os Lobos
do Mar se mostrassem abalados. Senti o choque daquela descoberta a percorrer

o navio como uma vaga inesperada. Harald soltou um berro para mandar parar os navios... e
os remadores viram-se forçados a arrastar os remos dentro de água numa

tentativa desesperada para abrandar o impulso que nos empurrava para a frente. O último
navio só recebeu a ordem de Harald quando já era demasiado tarde, o que o

levou a colidir com o que seguia na sua frente. O embate fez saltar e quebrar uma dúzia de
remos em ambas as embarcações. Os respectivos remadores soltaram pragas

e contorceram-se de dor, agarrados aos membros magoados, e a barafunda daí resultante


provocou autênticos uivos de ultraje.

Harald, de pé no alto da sua plataforma, ignorou toda aquela confusão e examinou a muralha.
Alguns dos barcos mais pequenos, ao notarem a nossa súbita aproximação,

apressaram-se a vir ao nosso encontro empurrando-se uns aos outros para serem os primeiros
a chegar. Suponho que pensavam que tínhamos bens comerciais para descarregar...

e todos eles queriam ser os primeiros a fornecer esse serviço.

As embarcações aproximaram-se e os homens que se encontravam a bordo dirigiram-se-nos


em grego. Há muito que não ouvia ninguém a pronunciar aquela língua em voz
alta, pelo que os meus ouvidos a acharam estranha. Mesmo assim, consegui entender algumas
palavras e frases no meio da algaraviada de vozes.

De repente, muito zangado, Harald chamou-me.

- Que estão eles a dizer? - inquiriu.

246

- Oferecem-se para descarregarem os nossos navios - repliquei, aproximando-me da amurada.


- Dizem que o farão por cinquenta nomismi.

- Descarregar os navios! - exclamou o monarca. - E o que são esses nomismi?

- Não faço ideia... mas deve tratar-se de dinheiro.

- Explica-lhes quem somos! - ordenou o monarca. - Diz-lhes que viemos saquear a cidade, em
busca de riquezas e de pilhagem!

Debrucei-me sobre a amurada e gritei para o barco mais próximo, onde dois homens com
turbantes de lã branca nos faziam barulhentas súplicas. Disse-lhes que aqueles

navios pertenciam a lorde Harald, um guerreiro feroz, e que tínhamos vindo da Dinamarca em
busca de riquezas. Os barqueiros riram-se e chamaram alguns dos seus amigos

nos outros barcos, que também se riram. Ouvi a palavra barbari a ser transmitida de barco
para barco. A seguir explicaram-me algumas coisas básicas a respeito do

porto do Imperador.

- Que estão eles a dizer? - perguntou Harald, desabrido, com a paciência a esgotar-se.

- Afirmam que toda a gente vem a Bizâncio em busca de riquezas - afirmei. - Também dizem
que já não há ancoradouros vagos e que não nos podemos atrever a seguir

em frente a não ser que estejamos preparados para enfrentar os guardas do Mestre do Porto.

- O Mestre do Porto que vá para o hei! - grunhiu Harald. Deu meia volta e ordenou aos
remadores que seguissem o canal ao longo da costa norte.

Continuámos o nosso caminho, mas agora mais lentamente, sem nunca deixarmos de ser
seguidos por uma multidão de pequenas embarcações cujos barqueiros gritavam e

nos chamavam com vozes agudas. Havia inúmeros navios, grandes e pequenos, espalhados
pelo canal, pelo que Thorkel teve de se esforçar muito para navegar por entre

todos esses obstáculos sem colidir com um ou outro. Tivemos de navegar no meio de muitos
gritos, pragas e braços agitados no ar, utilizando os remos tanto para afastar
as embarcações da nossa frente como para remar. A barulheira que acompanhava o nosso
lento avanço era ensurdecedora e a confusão era completa.

Contudo, ainda os navios não tinham conseguido avançar muito quando deparámos com uma
enorme corrente de ferro. Estava fixa a gigantescos anéis encravados na parede

e os seus elos - cada um deles tão grande como um boi! - estendiam-se através de todo o canal
de uma margem à outra, impedindo a passagem a todas as embarcações

de grande porte. Os barcos pequenos passavam facilmente por baixo daquela corrente mas

247

os navios dos Lobos do Mar tiveram de se deter à vista de muitas belas casas e de vários
palácios.

Perplexo, frustrado, Harald Berro-de-Touro, rei dos Dinamarqueses, ficou a olhar para a
corrente com a boca aberta de incredulidade. Sem saber que mais poderia fazer,

ordenou a alguns dos guerreiros que a destruíssem. Debruçando-se sobre as amuradas, os


bárbaros começaram a golpear os elos mais próximos com os seus machados. Como

é óbvio, os golpes não produziram qualquer efeito sobre a pesada barreira, pelo que os
homens em breve tiveram de desistir. Tentaram empurrá-la com os remos mas

nem sequer a conseguiram fazer oscilar.

O rei Harald ordenou ao piloto que virasse os navios e seguisse ao longo da margem sul,
pensando que talvez desse lado pudesse vir a encontrar uma qualquer fraqueza

nas defesas da cidade. Os remadores retomaram o seu labor, embora com um pouco menos
de zelo do que anteriormente uma vez que aquelas águas interiores estavam muito

mais cheias de navios e de barcos. Abrir caminho por entre eles requeria uma táctica tortuosa,
mas os Lobos do Mar perseveraram e acabaram eventualmente por rodear

a península para descobrirem uma baía não com um único porto mas sim com três ou mais, o
maior dos quais também era protegido por uma muralha, tal como o resto da

cidade.

Harald ordenou a Thorkel que se dirigisse ao primeiro daqueles portos e em breve ficámos à
vista do cais mas não conseguimos avançar por causa do número de navios

e de pequenos barcos amontoados à entrada. O monarca ainda estava sem saber como
deveria proceder quando um grande navio de casco quadrado se aproximou de nós.
Transportava
dez ou mais homens vestidos com belas capas vermelhas, armados com lanças e pequenos
escudos redondos. Tinham as cabeças cobertas por elmos ornamentados, feitos

de bronze polido, e usavam calções vermelhos que terminavam logo acima das suas altas
botas de couro.

O homem na frente do grupo era baixo mas fazia-se parecer mais alto graças à grande crista de
crinas de cavalo que usava no cimo do elmo. Mantinha-se na proa do

navio e empunhava uma vara com uma bola de bronze na extremidade. O indivíduo começou
a chamar-nos e a gesticular com a vara, enquanto os que o acompanhavam gritavam

com vozes zangadas.

Alguns dos Lobos do Mar riram-se da presunção daqueles homens. Pensando que tinham
vindo para lutar connosco, os dinamarqueses começaram a provocá-los, gritando

coisas como "Será esta a poderosa hoste de guerra de Miklagard?" ou, "Quem são as donzelas
que vemos à nossa frente? Terão vindo receber-nos com beijos?"

248

O jarl Harald observava os homens do barco com os olhos semicerrados pela desconfiança.

- Descobre o que estão a dizer - ordenou, empurrando com rudeza para a amurada.

Dirigi-me ao chefe daqueles homens em grego e tive uma resposta razoável. Implorei-lhe que
falasse de um modo simples e devagar porque a minha língua não estava

acostumada a uma tal fala, e disse-lhe que transmitiria as suas palavras ao monarca.

- Sou o quaestor do porto de Hormidas - declarou o homem com um ar importante. A seguir


explicou-me, com palavras simples e directas, o que eu deveria transmitir

ao rei Harald. - Então? - murmurou Harald, impaciente. O suor escorria-lhe pela cara e pelo
pescoço porque o Sol já subira para lá do meio da manhã e brilhava agora

como um disco quente e sujo num céu branco-acinzentado.

- Diz que temos de pagar a taxa portuária - afirmei, explicando que os homens no navio faziam
parte da guarda do porto e estavam encarregues de receber o dinheiro

e manter a ordem.

- Disseste-lhe quem eu sou? - grunhiu Harald.

- Disse-lhe... e respondeu que não faz diferença nenhuma e que temos de pagar a taxa como
toda a gente.
- A taxa que vá para o inferno! - rugiu Harald, dando finalmente vazão à sua frustração. -
Montaremos cerco à cidade e vamos submetê-los pela fome!

Este sentimento provocou resmungos e grunhidos de aprovação por parte dos bárbaros que
assistiam à cena e que, tal como o seu senhor, se sentiam frustrados e ansiosos.

A dimensão da cidade desanimara-os e procuravam libertar-se da consternação por


intermédio de uma qualquer espécie de acção louca que lhes fosse familiar.

- Um cerco seria uma bela coisa, claro... - comentou Thorkel com suavidade - mas é uma
grande cidade, jarl Harald, e só trouxemos cento e sessenta homens. Receio

que não nos fosse fácil cercá-la mesmo que tivéssemos dez vezes mais.

Harald exibiu uma expressão dura e fez um sinal para afastar o piloto, mas um dos karlar da
casa do rei resolveu intervir:

- Talvez fosse melhor... - sugeriu, com gentileza - se pagássemos essa taxa e procurássemos
outra maneira de entrarmos nas casas dos tesouros.

- Sou um rei! - berrou Harald. - Recebo tributos de jarls e de homens livres e não pago tributos
a ninguém!

249

Thorkel acenou, compreensivo, e aproximou-se do seu senhor.

- Nay, jarl- sugeriu. - Não consideres este pagamento como um tributo... mas sim como um
pouco de milho para engordar o ganso para o festim...

Harald examinou as enormes muralhas e lançou uma olhadela à movimentada vastidão do


porto. Nesse instante ouviu-se o som de qualquer coisa pesada a embater no casco

do navio. Espreitei por cima da amurada e vi o guardião do porto a bater nos flancos da
embarcação com a esfera do seu bastão.

- Não podemos ficar aqui todo o dia - declarou. - Paguem a taxa ou chamarei o navio da
guarda.

Respondi que estávamos a discutir qual a melhor maneira de efectuar o pagamento e pedi-lhe
mais alguns instantes para podermos tomar uma decisão. Virei-me para o

monarca e acrescentei:

- Exigem uma resposta, jarl Harald. Que vamos fazer?

Ficou paralisado pela indecisão, olhando para as muralhas da cidade que pareciam pairar
sobre nós como uma alta cordilheira de montanhas que nos impedia de chegar
ao nosso destino. Passados alguns instantes o guarda voltou a agredir o casco do nosso navio e
gritou, afirmando que estávamos a despertar a ira do Imperador e que

corríamos o perigo de um aumento da taxa por nos recusarmos a pagar, ameaças que
transmiti a Harald.

- Agh! - exclamou este, frustrado. - Um homem nem consegue pensar no meio de tanta
barulheira! Quanto? - gritou. - Quanto é que ele quer para se ir embora?

Voltei a inclinar-me sobre a amurada e transmiti a pergunta.

- Quatrocentos e cinquenta nomismi- respondeu o guarda. - Cem por cada um dos navios mais
pequenos e cento e cinquenta pelo maior.

Harald concordou com relutância e entregou-me uma moeda de prata que retirou do cinto.

- Pergunta-lhe quanto é que isto vale - ordenou-me, pedindo a um dos karlar para ir buscar
uma bolsa de moedas à sua arca.

Aproximei-me da amurada e mostrei a moeda.

- Estamos prontos para pagar a taxa - declarei. - Por favor, diz-me quanto vale esta moeda de
prata.

O quaestor rolou os olhos com um ar aborrecido e retorquiu:

- Vou subir a bordo do vosso navio.

Ele e dois dos seus homens, ajudados pelos que ficaram na embarcação, treparam à amurada
e viram-se na presença do rei bárbaro.

250

- A moeda! - pediu o cobrador da taxa, estendendo a mão. - [ Mostrem-ma!

Coloquei a moeda na sua mão esticada e disse:

- O homem que vês na tua frente é Harald, rei dos Dinamarqueses da Escandinávia, que veio
apresentar os seus respeitos ao vosso Imperador.

O guarda do porto emitiu um som pelo nariz, como se, para ele, aquela informação não tivesse
qualquer significado.

- Pode apresentar o que quiser ao Imperador... - retorquiu, examinando a prata que tinha na
mão - mas primeiro terá de pagar ao quaestor. - Levantou a moeda e afirmou:

- Este denário de prata vale dez nomismi.


Contei as vinte moedas de prata que Harald me dera e virei-me para o monarca:

- Já pagámos duzentos... - expliquei-lhe - e ainda temos de pagar mais duzentos e cinquenta.

Harald exibiu uma tremenda carranca, despejou as moedas restantes na mão, contou-as e
mandou buscar mais uma bolsa, de onde extraiu sete moedas que também me entregou.

Os Lobos do Mar observavam a cena, espantados e zangados por verem o seu soberano a
entregar a sua prata a um homenzinho tão insignificante.

Quando contei mais vinte e cinco denários de prata, que depus na mão do cobrador, este
pediu:

- Mais duas!

- Mais duas? - interroguei-me. - Ter-me-ei enganado nas contas?

- Não, contaste bem. - Meteu os dedos na minha mão e pegou numa moeda. - Esta... - explicou
- é por me terem feito esperar. - Apoderou-se de nova moeda e continuou:

- E esta é por terem perturbado a paz do porto!

- Peço muitas desculpas - respondi - mas não conhecíamos os costumes deste lugar.

- Agora já os conheces - replicou o quaestor, enfiando as moedas na bolsa. Meteu os dedos no


cinto e fez aparecer um fino disco de cobre. - Preguem-no na proa -

explicou. - Serve para comprovar que pagaram a taxa.

Fez um gesto com a mão, virou-se e começou a descer da nossa amurada, ajudado pelos seus
dois homens. Olhei para o disco, gravado com a imagem de um navio de velas

içadas, e perguntei:

- Por favor, quero saber quando temos de voltar a pagar.

251

- Podem entrar e sair do porto à vossa vontade até ao fim do ano - respondeu o homem sem
sequer olhar para trás. - Terão de voltar a pagar se regressarem a Constantinopla

depois dessa data.

Transmiti a informação a Harald, que exibiu uma careta feroz e declarou que no fim do ano já
estaria no seu próprio salão a gozar as riquezas saqueadas em Miklagard,

saque esse que, conforme jurou, iria começar sem mais demoras.

O monarca agarrou-me pelo braço e encostou o seu rosto suado ao meu:


- E tu, Cabeça-Rapada - grunhiu, com uma voz carregada de ameaças - vais conduzir-nos à casa
de tesouros mais próxima!

VINTE E SETE

Para ser possível saquear uma casa de tesouros era necessário ir à cidade para a descobrir.
Foram discutidas várias maneiras de concretizar esta estratégia e no

fim acabou por se decidir que, para evitar despertar as suspeitas da populaça, só três ou
quatro guerreiros deveriam desembarcar para irem à procura dos melhores

lugares para serem atacados. Para além disso, também foi decidido que devia ser eu a dirigir o
grupo uma vez que era o único falava a língua local, embora o fizesse

muito mal.

Por estranho que possa parecer, a ideia de pôr os pés em Bizâncio não me alarmou
excessivamente. O choque de ter descoberto que chegara ao local da minha morte
desaparecera

rapidamente e em seu lugar surgira uma sensação de resignação perante o inevitável. Sentia-
me como se estivesse a ser puxado por acontecimentos demasiado complexos

para serem compreendidos e demasiado poderosos para que lhes pudesse resistir. Era como
uma folha a esvoaçar num vento ciclónico, ou como uma pena lançada para um

mar enlouquecido pela tempestade.

Rezei ao Pai dos Céus para que fizesse comigo o que quisesse. Por outro lado, também rezei
para que pudesse de algum modo poupar-me à necessidade de ajudar o rei

Harald no seu odioso plano de pilhagem e matança. Depois de me ter esforçado tanto para
conseguir ser um bom monge, digno dos Céle Dé, não queria ser obrigado a

iniciar uma vida de crimes, e ainda por cima numa altura em que sabia que me encontrava
muito perto do Julgamento Final. Cheguei à firme conclusão de que seria muito

melhor morrer a opondo-me a Harald do que ter de me apresentar perante o Trono dos Céus
fedendo a pecado e com as mãos sujas do sangue de inocentes.

Ocorreu-me que seria assim que morreria: com a espada do rei na minha garganta, como
castigo por me recusar a acompanhá-lo a terra. O pensamento não me produziu

qualquer espécie de medo mas sim de desespero, porque me pareceu tratar-se de um fim com
uma cruel falta de
253

significado. Deus seja louvado, porque esse meu desespero foi de curta duração. O jarl Harald
considerou que uma expedição de exploração o diminuiria, e preferiu

ficar no navio a aguardar o nosso regresso.

- Três dos meus karlar irão prestar-me esse serviço - declarou, virando a sua atenção para a
escolha dos guerreiros.

Harald começou por chamar o homem que lhe sugerira o pagamento da taxa portuária, que se
chamava Hefni e em quem o monarca confiava por causa da sagacidade dos seus

conselhos. Também mandou avançar um guerreiro chamado Orm, o Vermelho, que para além
de ser muito hábil com a lança e a espada era também muito ligeiro de pés e

furtivo. O monarca preparava-se para escolher o terceiro membro do grupo quando lhe sugeri
que poderia ser útil para os nossos fins que fôssemos acompanhados pelo

menos por um homem que eu conhecesse e em quem confiasse, e que pudesse falar com os
outros se tal viesse a ser necessário.

Harald, com a paciência novamente a esgotar-se-lhe, perguntou-me se conhecia um tal


homem. Disse-lhe que sim e mencionei o Gunnar.

- Muito bem - concordou o jarl, impulsivamente. - Gunnar Maço-de-Guerra também irá


convosco.

Foi desse modo que nós os quatro nos descobrimos a trepar por cima da amurada do navio e a
embarcar num dos muitos pequenos barcos que se empurravam uns aos outros

para nos prestarem os seus serviços. Saltei para o barco e disse ao barqueiro que queríamos
ser conduzidos a terra, junto da porta da cidade que se encontrasse mais

perto.

- Foi uma escolha sensata, meu amigo... - declarou o barqueiro, num tom agradável. -
Descansem e não se preocupem. Estarão lá num instante. Chamo-me Didimus Psidia

e estou ao vosso serviço. Escolheram bem, porque este é o melhor barco em toda Bizâncio.
Rezo a Deus para que a vossa sabedoria seja recompensada cem vezes.

- Obrigado, amigo Didimus - respondi. A seguir confidenciei-lhe que, como nada sabíamos de
Constantinopla, lhe ficaria muito grato pelos conselhos que me pudesse

dar.

- Ah, és o mais afortunado dos homens... - replicou o barqueiro - porque estás na presença de
alguém para quem a cidade é um Jardim de Delícias. Podes depor toda
a tua confiança em mim. Nada temas, de certeza que serei o melhor guia que poderias
desejar!

Hnefi e Orm desceram para o barco naquele momento. Orm, talvez supondo que tinha a
obrigação de me recordar qual era a minha posição, empurrou-me com rudeza. Desequilibrei-
me

no pequeno barco e fui cair contra um dos seus lados.

254

- Nem uma palavra! - avisou-me. - Não desviarei os olhos de ti! Gunnar, que vinha atrás deles,
intercedeu a meu favor, afirmando:

- Deixa-o em paz, Orm. É um escravo do rei e não teu.

- Diz a este homem para nos conduzir à porta da cidade que ficar mais próxima - ordenou
Hefni, instalando-se no fundo do barco.

- Já o fiz - repliquei. - Era precisamente o que estava a fazer quando o Orm me bateu.

Hefni respondeu com um aceno brusco.

- Agora, sou eu o chefe... - declarou - e farás o que eu te disser. - Fez um gesto na direcção de
Didimus, que nos observava, e acrescentou: - Diz a esse tipo sem

préstimo para começar a trabalhar ou estripá-lo-ei como a um peixe.

Virei-me para Didimus e disse-lhe:

- Estamos prontos para seguir, por favor.

- Com todo o gosto - respondeu o barqueiro, afastando-se do navio com um empurrão das
mãos. - Sentem-se, meus amigos, e não se preocupem. Este é o melhor barco de

toda Bizâncio. - Colocou um longo remo à popa, manteve-se de pé sobre um banco e começou
a agitar o remo para um lado e para o outro. O barco virou e afastou-se

do navio.

Os que nos observavam a partir da amurada gritaram-nos que não ficássemos com todos os
tesouros e deixássemos alguma coisa para eles pilharem. Orm respondeu-lhes

com uma cuspidela para a água e Hnefi disse-lhes que mais valia que aproveitassem o tempo
para cuidarem das armas em vez de estarem a preocupar-se connosco.

Gunnar instalou-se a meu lado, contra os flancos curvos do barco.


- Por que foi que me escolheste? - perguntou.

- Pensei que podia ser útil ter a meu lado alguém em que pudesse confiar. - Como não fez
comentários, inquiri: - Porquê? Preferias ter ficado para trás?

- Nay - retorquiu, encolhendo os ombros. - Isso não me diz respeito. - Olhou para a cidade por
instantes mas acabou por me mirar de esguelha. - Pensei que pudesses

ter uma razão diferente.

- Cala-te! - rosnou Orm, dando-me um pontapé com a biqueira da bota.

- Orm... - interveio Hnefi - agora, o chefe sou eu. Se não conseguires lembrar-te disso, deixo-te
no barco enquanto vamos à procura do tesouro.

Orm resmungou, puxou pela faca e começou a polir-lhe a lâmina nos calções. Hnefi virou-se
para mim.

255

- Mantém a boca fechada. Avisar-te-ei quando quiser que fales.

Virei a minha atenção para a cidade, que se aproximava a cada movimento do remo de
Didimus. A partir do ponto em que nos encontrávamos era muito pouco o que se podia

ver de Constantinopla e só se tinha uma pequena visão da cidade nos locais onde as cabeças
das colinas espreitavam por cima das muralhas. Pelo seu lado, as muralhas

propriamente ditas eram impressionantes. Os tijolos e as pedras haviam sido dispostos em


camadas sucessivas de modo a criar um cercado que era simultaneamente alto

e resistente, e que ostentava nítidas faixas vermelhas e brancas, o que fazia com que a
muralha fosse diferente de todas as que eu já vira. Ao longo do topo da muralha

podiam ver-se pessoas em movimento, talvez guardas da cidade, mas encontravam-se


demasiado longe para se poder ter a certeza. Aqui e acolá avistavam-se copas de

árvores, algumas das quais eram pinheiros, bem como os ramos nus de outras que já haviam
perdido a folhagem.

O mar estendia-se até às próprias fundações da muralha, deixando apenas uma estreita
passagem que dava acesso a uma muito variada colecção de cais de pedra e de

madeira, grandes e pequenos, novos e velhos, em torno dos quais os navios se amontoavam
como leitões em volta das tetas da mãe.

E que navios! Vi embarcações com dois e três mastros, e algumas outras que possuíam mais do
que um convés. Havia ali velas de tantas cores diferentes que em breve
lhes perdi a conta, e as cargas dos navios era ainda mais variadas. Avistei sacos e arcas, barris,
potes e cestos em números incontáveis. Se uma determinada mercadoria

podia ser transportada por mar, então era certo e sabido que a podíamos encontrar na cidade
de Constantinopla.

Didimus mantinha um rumo serpenteante através do apinhado porto. Avançámos ao longo


dos infindáveis cais, desviando-nos dos barcos maiores e procurando um local

onde pudéssemos desembarcar. Tornei-me consciente do mau cheiro à medida que nos fomos
aproximando dos cais. A água estava coberta de lixo, excrementos e refugo

de todo o tipo porque os despejos eram continuamente lançados borda fora, para a baía, e
constituíam efluentes tão ofensivos que soltavam o odor mais potente e desagradável

que eu jamais tivera de suportar.

Contudo, o nosso barqueiro parecia não se preocupar com isso. Manobrava o remo com os
braços, sorria e cantava durante todo o tempo, e para além disso apontava para

vários locais característicos sempre que lhe ocorria fazê-lo. Orm e Hnefi olhavam-no com
desconfiança e com um desprezo

256

injustificado, e mantinham as bocas firmemente fechadas como se receassem poder vir a


revelar o odioso plano do rei Harald.

Quando embatemos finalmente contra o lanço de escadas de pedra de um cais, em frente de


uma das enormes portas da cidade, fiquei muito satisfeito por me poder libertar

daquele cheiro nauseabundo. Virei-me para agradecer ao barqueiro mas recordei-me do aviso
de Hefni e fiquei calado, tal como competia a um bom escravo. Orm saltou

do barco, logo seguido por Gunnar, ambos aparentemente esquecidos de Didimus, que nos
chamou e estendeu a mão à espera do pagamento.

Hnefi ignorou o barqueiro e disse:

- Vamos, Cabeça-Rapada, seguirás à nossa frente. Não quero que desapareças das nossas
vistas.

- Perdoa-me, jarl... - repliquei - mas temos de lhe pagar.

O bárbaro olhou para o barqueiro com uma expressão impassível e respondeu:

- Nay! - Virou as costas ao homem e desembarcou sem mais uma palavra, pelo que não tive
outra escolha e fui obrigado a correr atrás dele.
- Por favor! Por favor, meus amigos! - implorou Didimus. - Prestei-lhes um serviço leal. Têm de
me pagar! Por favor, escutem-me, têm de me pagar! São dez nomismi!

Apenas dez!

Parei nos degraus o tempo suficiente para lhe dizer: - Desculpa, Didimus, gostaria de te pagar
mas não tenho dinheiro. Vendo que não ia ser pago, Didimus começou

a gritar-nos pragas e a chamar os guardas do porto para nos virem espancar. Subi os degraus
de pedra a correr perseguido pelos gritos de "Ladrões! Ladrões!" que

me deixaram as orelhas a arder.

Os três dinamarqueses aguardavam-me no alto das escadas.

- Não está certo! - queixei-me, dirigindo-me a Hnefi. - Devíamos ter-lhe pago!

Hnefi limitou-se a virar-me as costas.

- O homem podia ter-nos ajudado! - insisti. - Agora, está a chamar os guardas para nos virem
dar uma lição! Devíamos dar-lhe qualquer coisa!

Senti o punho de Orm a embater nos meus dentes ainda antes de perceber que o bárbaro
levantara a mão.

- Faz o que te dizem, escravo - ordenou-me, empurrando-me com força. Caí pelos degraus de
pedra e teria mergulhado na água se Gunnar não me tivesse agarrado por

um braço e impedido de rolar por cima da beira.

257

Voltei a pôr-me de pé e segui-os pelas escadas. Avançámos em direcção à muralha, com os


dinamarqueses a movimentarem-se cautelosamente e sem nunca tirarem as mãos

dos punhos das espadas. Parámos junto à entrada da cidade, onde Hnefi se virou para mim:

- Vai à frente. Nós seguimos-te.

A entrada da cidade tinha uma enorme porta dupla, em madeira cintada a ferro. Eram imensas
as pessoas que passavam através dela, muitas das quais carregadas com

fardos dos mais variados tipos. Algumas empurravam pequenos carrinhos de duas rodas,
outros puxavam carroças, mas a maioria transportava os fardos às costas. Por

cima da porta havia um triângulo de pano vermelho com um símbolo cosido a branco. Não
reconheci o símbolo e não consegui entender o seu significado.
Juntámo-nos à multidão que atravessava a porta mas quando lá chegámos fomos detidos por
um homem numa capa verde, que usava um chapéu de lã preta e transportava

um pequeno bastão de latão.

- Disca! - gritou-nos, sem entusiasmo, estendendo a mão com um ar impaciente.

- Perdoe-me, senhor... - disse-lhe - mas não sei o que pretende de nós.

Lançou-me um olhar fatigado e observou os bárbaros. Se a aparência deles o alarmou, então


ocultou muito bem o medo. Reparou na minha coleira de escravo e perguntou:

- Qual deste homens é o teu amo?

- Ele - respondi, apontando para Hnefi.

- Então diz-lhe que os barbari precisam de ir ter com o Prefeito da Lei para obterem uma
autorização para entrarem na cidade.

- Dir-lho-ei... - repliquei - mas talvez possa ser suficientemente amável para me informar onde
poderei encontrar o Prefeito da Lei.

Dominando um bocejo, o homem levantou o bastão de latão e apontou para uma tenda
montada nas sombras da entrada.

- Além!

Agradeci ao homem e expliquei aos Lobos do Mar o que ele me dissera. Dirigimo-nos à tenda e
deparámos com um homem pequeno e careca, sentado numa cadeira almofadada

ao lado de uma mesa onde se viam balanças e uma pilha de pequenos discos de cobre. Fiquei
na frente dele por instantes sem que me prestasse atenção. O homem parecia

completamente concentrado numa nódoa castanha nos seus calções verdes e estava a raspá-la
com uma comprida unha.

258

- Por favor... - comecei - disseram-me para pedir autorização de entrada...

- Dez nomismi - retorquiu o homem, sem sequer olhar para cima. Virei-me para Hnefi e traduzi
o que o Prefeito da Lei acabara de me dizer. Hnefi soltou um grunhido

de desaprovação e começou a afastar-se. Orm e Gunnar hesitaram, encolheram os ombros e


seguiram-no... o que provocou uma reacção imediata.

O Prefeito levantou os olhos, viu os bárbaros a entrar na cidade e gritou, numa voz muito alta:
- Parem! - berrou. Pôs-se de pé num salto e correu atrás de Hnefi. - Têm de pagar! - insistiu o
careca. - São dez nomismi! - repetiu, agitando um dos pequenos discos

de cobre na frente do rosto do Lobo do Mar.

Hnefi agarrou a mão do homem, aliviou-o do disco, guardou-o no cinto e continuou a andar. O
homem ficou a olhar para ele, incrédulo, e começou a gritar:

- Guardas! Guardas!

Ignorando a barulheira, os Lobos do Mar seguiram em frente e não tive outro remédio se não
ir atrás deles. Contudo, ainda não tínhamos dado dez passos quando fomos

detidos por oito guardas com capas vermelhas que apareceram no nosso caminho. Usavam
elmos de bronze e empunhavam lanças curtas e grossas. O chefe também transportava

uma vara de latão, não muito diferente da do Mestre do Porto mas que era encimada por uma
cabeça de leão e não por uma bola.

- Alto! - ordenou o soldado que se encontrava mais à frente. Era um jovem, pouco mais do que
imberbe, mas que não deixava de se comportar com um ar de plácida autoridade.

- Não pagaram! - guinchou o velho careca. - Não pagaram pelo disca!

O guarda olhou primeiro para os bárbaros e depois para mim. Deve ter pensado que era mais
provável que eu lhe respondesse, porque me perguntou:

- É verdade?

- Tenho de vos pedir perdão, senhor - respondi. - Acabámos de chegar à cidade e nada
sabemos sobre os vossos costumes. Pode ser que, por ignorância, tenhamos...

- Paguem-lhe - ordenou o soldado, nada interessado em explicações.

- Dez nomismi - disse o Prefeito, de mão estendida. Virei-me para Hnefi e disse-lhe:

259

- Dizem que temos de pagar pelo disco de cobre, que é a nossa autorização para entrarmos na
cidade. Sem ele, fazem-nos prisioneiros e atiram-nos para o poço dos

reféns. - Não sabia se esta última afirmação era verdadeira mas pensei que talvez resumisse
melhor a situação e de uma maneira que o Lobo do Mar conseguisse compreender.

- Se pagarmos - perguntou Hnefi - ficamos em liberdade?

- Sim.
Carrancudo, Hnefi meteu a mão no cinto e fez aparecer um denário de prata, que me
entregou. Dei-o ao Prefeito, que encheu as bochechas de ar, exasperado.

- Não têm mais nada? - perguntou.

- Por favor, não compreendo! - expliquei. - . Esse dinheiro não é suficiente?

O jovem guarda interveio antes do Prefeito ter tempo para responder.

- É demasiado - declarou. Indicou a moeda e disse: - O denário de prata vale cem nomismi. -
Virou-se para o Prefeito e acrescentou: - Vê se lhes dás o troco correcto.

O careca resmungou, mirou o guarda com alguma irritação e puxou-me pela manga.

- Vem comigo.

Arrastou-me de volta à sua tenda. Aí chegados, colocou a solitária moeda de prata numa
balança, ajustou os pesos... e transformou todas essas manobras num grande

espectáculo. Depois de confirmar que a moeda de prata tinha o peso correcto, meteu a mão
por baixo da mesa e fez aparecer um saco de cabedal cheio de moedas, de

bronze, cobre, prata e ouro, e começou a contar moedas de bronze e de prata que foi
metendo na minha mão. As moedas de bronze estavam marcadas com letras gregas,

algumas com um E, outras com um K, e outras ainda com Mel. Supus que as letras serviam
para indicar os valores, mas o homem contou-as tão depressa que não os consegui

entender.

Os Lobos do Mar, sempre interessados em tudo o que fosse negócios, observaram a operação
com interesse. Quando o Prefeito terminou, Hnefi fez-me sinal para lhe entregar

o dinheiro.

- Primeiro dez e agora cem... - comentou. - Ao que parece, o valor das nossas moedas de prata
está sempre a aumentar. O jarl Harald tem de ser informado...

Pensei em toda a prata que tínhamos entregue ao guarda do porto, mas achei melhor não me
manifestar. Contudo, Orm não precisou que lhe recordassem o assunto.

260

- Creio que o Mestre do Porto também vai ouvir falar no assunto... A seguir, o Prefeito da Lei
contou mais dois discos, que deu a Orm e

Gunnar. Quando estendi a mão para lhe pedir um para mim, o homem abanou a cabeça.
- São apenas para os barbari - explicou, dizendo que os discos lhes davam o direito, até ao fim
do ano, de entrarem na cidade sempre que o desejassem. - Contudo...

- avisou, com um tom ácido - só podem utilizar a Magnaura e todas as outras portas lhes estão
vedadas.

- Compreendo - respondi. - Agora, diga-me, qual é a porta Magnaura?

O careca olhou-me com uma expressão de desagrado.

- Aquela! - atirou-me, indicando a porta por trás de nós. - É a única porta que devem usar.
Desapareçam daqui!

Mandou-nos embora com um gesto breve e voltou a instalar-se na sua cadeira. Continuámos o
nosso caminho, passando rapidamente pelos guardas que nos observavam. Agora

que tinham liberdade para entrarem em Bizâncio, os bárbaros estavam desejosos de descobrir
até onde poderiam aproveitar essa mesma liberdade.

VINTE E OITO

Afastámo-nos da porta da cidade... e perdemo-nos. Contudo, esse facto só nos chamou a


atenção muito mais tarde porque continuámos a caminhar pelas ruas estreitas

e serpenteantes, vagueando para onde a curiosidade nos levava mas sem deixarmos de
procurar a principal casa de tesouros da cidade. O que a bordo do navio parecera

um problema muito simples e directo em breve se revelou monumentalmente complicado


quando nos vimos parados no meio de uma rua repleta de pessoas que iam e vinham

numa aparente maré sem fim. As nossas primeiras tentativas para nos orientarmos
provocaram gritos zangados de pessoas que nos queriam fora do seu caminho.

- Mexam-se! Mexam-se! - gritou um guarda que ia a passar. - Não podem parar aqui!
Continuem!

- Está a dizer que temos de continuar a andar - expliquei, para os dinamarqueses.

- Para onde? - interrogou-se Gunnar.

- Vamos seguir aquele homem - sugeriu Orm, apontando para um gordo que arrastava atrás de
si uma longa capa púrpura. - De certeza que nos conduzirá a uma casa de

tesouros.

- O chefe sou eu - recordou-lhe Hnefi - e digo que vamos pelo outro lado.
Foi assim que continuámos, avançando cada vez mais para o interior da cidade até atingirmos
uma rua muito larga, flanqueada por habitações que, tanto nas dimensões

como no custo da construção, não tinham igual em lado nenhum. Eram verdadeiros palácios.

- Estão a ver? - perguntou Hnefi, orgulhoso. - Sei como encontrar bons tesouros. Sigam-me!

Os gananciosos Lobos do Mar avançaram com ousadia, manifestando-se ruidosamente sobre o


palácio que deveria ser assaltado em primeiro lugar e sobre qual deveria

conter mais riquezas... o que na verdade não

262

era uma tarefa fácil porque cada nova casa que descobríamos parecia possuir uma grandeza
que excedia tudo o que já havíamos encontrado. Os Lobos do Mar paravam na

rua em frente de cada uma delas, olhavam para os imponentes edifícios e faziam juramentos
solenes em que afirmavam que era ali mesmo, na frente deles, se encontrava

a maior casa de tesouros de toda a cidade... e ficavam felizes com essa ideia até chegarmos à
casa seguinte.

Uma das ruas era flanqueada por mansões com uma altura de dois e três andares. Enquanto as
paredes dos andares mais baixos eram de tijolo nu e sem aberturas, as

superiores exibiam janelas de ventilação cobertas por vidro. Nunca tinha visto janelas de vidro
em toda a minha vida... mas elas ali estavam! Ainda por cima, todas

as casas daquela rua as tinham! Muitas das mansões, se na verdade o eram, possuíam portas
com ornamentos esculpidos e ombreiras pintadas. Uma ou duas dessas estruturas

até ostentavam estátuas, montadas em plintos ao lado das janelas. Muitas delas eram
encimadas por coberturas inclinadas, cobertas por telhas, mas as maiores possuíam

coberturas planas onde se via folhagem verde. Já ouvira dizer que os romanos ricos tinham
casas assim, mas nunca deparara com tamanha riqueza. Como se isso não fosse

suficiente, quase todas as casas possuíam uma outra característica que me era desconhecida:
uma extensão do último andar, que sobressaía sobre a rua. Essas protuberâncias

- muitas das quais eram notavelmente substanciais - estavam fechadas com biombos de
madeira que, ao que suponho, podiam ser abertos para que o ar fresco da noite

penetrasse nas divisões superiores.

Era de esperar que uma cidade como Constantinopla contivesse mansões e palácios... mas
eram tantas! Eram às centenas! Sentia-me a caminhar envolto numa neblina de
incredulidade. Não conseguia compreender uma tal riqueza, nem era capaz de imaginar de
onde ela viria.

Os dinamarqueses estavam fora de si de excitação. Discutiam continuamente sobre qual o


palácio que deveria conter mais tesouros e qual deveria ser o primeiro a ser

pilhado. Orm queria lançar-se ousadamente sobre um deles - ou todos! - para roubar todos os
objectos valiosos que lhe aparecessem pela frente. Pela sua parte, Hnefi

era da opinião que devia ser o rei Harald a decidir qual a casa a saquear.

- Mas o jarl Harald não está aqui! - queixava-se Orm, e o seu raciocínio, como sempre, era
inatacável.

- Então esperamos, até que chegue. - Hnefi mostrou-se firme, afirmando que não devíamos
levantar suspeitas entre os habitantes da cidade. Argumentou que iríamos

alertar as pessoas se começássemos a entrar nas

263

casas, pelo que já estariam prevenidas quando regressássemos para um assalto em grande
escala. - Cabe-nos procurar e localizar os sítios onde poderão ser encontrados

os melhores tesouros - declarou. - Podemos voltar amanhã, para os levarmos.

Orm acabou por concordar, embora com alguma relutância, e afirmou:

- Continuo a pensar que devíamos levar qualquer coisa para mostrar ao rei.

Gunnar concordou com Hnefi e admitiu que as coisas podiam correr mal se despertássemos a
ira do povo. Entre os dinamarqueses, só ele parecia intimidado pelas enormes

dimensões da cidade e passara a mostrar-se cada vez mais silencioso, como se tivesse vontade
de desaparecer nas sombras.

Continuámos o nosso caminho, vagueando para aqui e para acolá, olhando para as casas e
observando as pessoas. Naquela parte da cidade não se viam muitos habitantes

e os que encontrámos pareciam andar a tratar dos seus negócios com uma pressa indecorosa.
Talvez o aspecto dos bárbaros os assustasse, mas não posso ter a certeza.

De qualquer modo vimos um número suficiente de cidadãos para concluirmos que os


habitantes de Constantinopla eram, sob todos os aspectos, uma raça média: não eram

nem demasiado altos nem excessivamente baixos, as suas peles não eram nem muito escuras
nem muito claras e o seu aspecto não podia ser considerado nem feio... nem
bonito. Pareciam possuir físicos fortes, com membros curtos e corpos compactos, que
sugeriam mais vigor do que força bruta, mais resistência do que graciosidade.

Quanto às preferências, as mulheres usavam os cabelos compridos, que penteavam em


tranças oleadas, e os homens tinham tendência para as barbas, também oleadas e

trabalhosamente encaracoladas. Os trajes, na sua maior parte, eram compostos por uma
simples capa que usavam sobre camisas ou túnicas compridas, com volumosos calções

para os homens e saias para as mulheres. Os tecidos desses trajes eram simples, quase sempre
de cores claras, e adornavam-se com pregadores ou com outras peças de

joalharia do mesmo género. Para além disso, todos eles, tanto os homens como as mulheres,
parecia ter um gosto descomedido pelos chapéus.

Nunca vi gente tão dada aos chapéus como o povo de Bizâncio. Todos os que se podiam
permitir esse luxo usavam qualquer coisa na cabeça, nem que se tratasse de algo

de muito rudimentar, desde um farrapo de um pesado tecido de lã dobrado em bico, ou palhas


tecidas entre si para formarem um chapéu amarrado com trapos. Muitos desses

chapéus pare-

264

ciam possuir uma sanção oficial e eram usados como símbolos de cargos. Outros pareciam
seguir os ditames de uma qualquer convenção cujo sentido não consegui penetrar.

Marchávamos pelas ruas no meio de devaneios de estupefacção, olhando para tudo o que nos
aparecia pela frente, até ao momento em que Gunnar nos deteve:

- Escutem! - murmurou.

Os Lobos do Mar pararam de repente e sustiveram a respiração, à escuta.

- O que será aquilo? - perguntou Orm, após alguns instantes.

- Parecem os sons de um animal - comentou Hnefi. - Um animal muito grande...

- Nay - retorquiu Gunnar. - São pessoas!

- Nesse caso, devem ser muitas - admitiu Orm.

- É uma batalha! - exclamou Hnefi. - Por aqui! Depressa! Partiram em corrida em direcção ao
som, de armas em punho, na esperança de conseguirem obter um tipo qualquer

de saque. Apressei-me atrás deles para não ser deixado para trás. A rua começou a alargar na
nossa frente e comecei a avistar movimentos e cor sob a luz.
De repente descobri-me à entrada de uma praça de mercado. Na verdade, aquele era mercado
maior, mais agitado e mais barulhento que eu jamais vira, repleto de verdadeiras

hordas de pessoas que berravam com toda a força dos seus pulmões. Os mercadores,
instalados por baixo de toldos ricamente tecidos, gritavam as virtudes dos seus

produtos a toda a gente, tentando atrair clientes em seis línguas diferentes, isto enquanto os
compradores em perspectiva passavam por eles lentamente, observando

os produtos e regateando com desmesurado fervor. Estranha batalha aquela que, no entanto,
não deixava de ser um combate em que os vários sons do comércio se fundiam

para formar a monstruosa barulheira que tínhamos ouvido.

Arrastados para o remoinho, os dinamarqueses cambalearam para a frente, sempre agarrados


às armas. Quando a mim, ainda mal dera meia dúzia de passos quando os meus

olhos se encheram de água e comecei a espirrar. Directamente à minha frente havia uma
banca repleta de especiarias de que nunca tinha ouvido falar, vermelhas-escuras,

amarelas do tom da poeira, pretas, alaranjadas, verdes-claras e brancas. Aquelas misteriosas


especiarias estavam amontadas em pirâmides, numa abundância casual,

desde montes de um pó que cheirava a mel quente e que se chamava canela, como vim a
saber mais tarde, a pequenas sementes escuras,

265

com bicos e um cheiro pungente, que eram cravinhos, três ou quatro tipos diferentes de
pimenta, açafrão-da-índia amarelo, montanhas de cominhos e de salsa da cor

da terra, brilhantes pimentões vermelhos moídos até não passarem de um pó, montes de
amêndoas moídas e de pequenos feijões arredondados, com a cor das pedras, a

que chamavam grão-de-bico. A mistura de todos aqueles aromas criava um odor tão pungente
que me cegava e me obrigou a afastar-me à pressa.

Ao lado do mercado de especiarias encontrava-se a primeira das muitas bancas que vendiam
verduras. Parei e fiquei a olhar para a longa linha de bancas de vegetais

de todos os tipos existentes sobre a Terra: alhos-porros, cebolas, alhos, lentilhas, pequenos
objectos vermelhos denominados capsicum, pepinos, pequenas coisas verdes

semelhantes a dedos e a que davam o nome de okra, couves, dúzias de variedades de feijões,
abóboras e melões. E não era tudo! Na verdade, nem sequer era uma mínima
parte do que vi! Era como se todo o mundo tivesse enviado bens para aquele mercado, desde
o ouro e a prata, ao sal e à pimenta, aos animais vivos, coiros egípcios,

cerâmicas macedónias, vinhos da Síria, poções mágicas e ícones Sagrados abençoados pelo
bispo de Antióquia. Bastava pensar numa coisa qualquer... e de certeza que

havia alguém a vendê-la naquele mercado!

Deparei com um mercador que vendia apenas azeitonas... e que tinha quinze ou vinte
variedades diferentes, facto que me espantou mais do que qualquer outra coisa.

Claro que não as conseguia distinguir umas das outras porque nunca tinha visto uma azeitona
em toda a minha vida. Porém, ao olhar para tigela após tigela de azeitonas

- verdes, pretas, púrpuras e muitas outras - ocorreu-me que uma civilização que se preocupava
com tais pormenores a respeito de um fruto tão pequeno e insignificante

deveria possuir poderes muito para além da minha imaginação.

Vinte variedades de azeitonas! Pensem bem nisso!

Por muito poderoso ou rico que pudesse ser, nenhum monarca do Eire jamais vira, e muito
menos provara, uma única azeitona solitária. Empreender o transporte daquele

fruto seria desperdiçar quase todos os recursos e energias do Eire. No entanto, ali, na grande
Bizâncio, até os mendigos podiam comer azeitonas cultivadas nas mais

longínquas paragens do Império. Fiz uma pergunta a mim mesmo: como medir uma tal
realização? Confesso que não consegui uma resposta.

Para mim, pouco habituado a tão casuais exibições de riqueza, o mercado constituía mais uma
revelação de uma magnificência sem rival quando comparado com tudo o

que eu vira anteriormente do que propriamente

266

um local de comércio. Passados alguns momentos deixei de conseguir de compreender as


coisas. Embora continuasse a percorrê-lo e a olhar para tudo o que era oferecido,

a minha mente recusava-se a acreditar.

De súbito, quando passávamos em frente de uma banca onde se vendiam tigelas e taças de
latão, para além de outros pequenos objectos, o mercador gritou-nos, em dinamarquês:

- Heya! Heya! Venham cá, meus amigos!

Os Lobos do Mar pararam e olharam para o homem.


- É dinamarquês! - exclamou Orm.

- Se o é... então é diferente de todos os que já conheci - comentou Gunnar.

- É, sim, digo-vos eu! - insistiu Orm, que se virou e começou a falar rapidamente com o
homem, que se limitou a sorrir, a abrir as mãos e a encolher os ombros.

- O Gunnar tem razão... - concluiu Hnefi - o homem não é dinamarquês.

Desagradados com o que consideraram um truque baixo, os Lobos do Mar afastaram-se.


Contudo, o vendedor de peças de latão não foi o único a dirigir-se-lhes na sua

própria língua porque houve muitos outros que o fizeram enquanto avançávamos ao longo das
bancas, muito juntas umas às outras. Este acontecimento simples, repetido

tão frequentemente, começou por deixar os Lobos do Mar desconfiados mas acabou por os
encantar quase tanto como as riquezas ali exibidas. Pararam constantemente

para se envolverem em conversas com os variados comerciantes, conversas essas que não se
prolongaram muito para além das primeiras palavras de saudações por parte

dos vendedores antes destes passarem para o grego, para o latim ou para outra qualquer
língua.

A fome começou a fazer-se sentir quando ainda continuávamos a vaguear por entre a profusão
de bancas. Orm lamentou-se ruidosamente, afirmando que a visão de tanta

comida o deixava tonto. Pela sua parte, Gunnar afirmou que saqueadores tão ousados como
nós precisavam de sustento para se manterem alerta e para manterem as forças.

Hnefi sugeriu que a comida talvez não fosse boa para os nossos estômagos. Não estávamos
habituados a ela e poderíamos ficar doentes. Ao ouvirem aquilo, Orm e Gunnar

protestaram com tanta violência que Hnefi acabou por ceder. Era preferível ter uma dor de
barriga, afirmou, do que ver-se obrigado a aturar os seus queixumes a respeito

da fome que sentiam.

Hnefi decidiu que não deveríamos comer nada mais invulgar do que peixe salgado. Os outros
concordaram e fomos em busca de um dos ven-

267

dedores de peixes que havíamos visto antes. Contudo, enquanto o procurávamos, aconteceu
passarmos por um homem de pé junto a um braseiro de carvões ardentes sobre

o qual assavam longas tiras de carne enfiadas em compridos espetos de madeira. A carne
estralejava sobre o lume e soltava um aroma de fazer crescer água na boca.
O cheiro chegou ao nariz de Orm, que se deteve imediatamente. Ele e Gunnar ficaram lado a
lado, hipnotizados com a visão e o odor da carne assada. O vendedor, com

o rosto a brilhar sob o calor dos carvões, viu que estávamos interessados nos seus produtos e
chamou-nos.

- Heya! Heya!

- Quanto custam? - perguntou Hnefi, apontando para os espetos. O homem abanou a cabeça.

- Quanto? - insistiu Hnefi, falando ainda mais alto.

O vendedor exibiu um grande sorriso e encolheu os ombros.

- Perdoa-me, meu amigo, mas não compreendo... - declarou, em grego.

- Está a perguntar quanto custa cada um dos espetos que tens a assar - expliquei.

- Ah! - exclamou o homem - Temos aqui um escravo com conhecimentos! Bem-vindo à grande
cidade de Constantinopla, meu amigo!

- Como sabes que somos recém-chegados? - perguntei-lhe.

O homem riu-se outra vez e disse que toda a gente sabia que os espetos custavam dois
nomismi.

- Quantos vão querer, meus amigos? - perguntou.

- Quatro - respondi, dizendo a Hnefi para lhe entregar oito das pequenas moedas de latão.

Depois de contado o dinheiro, o homem permitiu que escolhêssemos os espetos. Os


dinamarqueses engoliram a carne à pressa e exigiram mais, que o vendedor forneceu

com toda a satisfação em troca de mais oito moedas. Pegámos nos espetos e continuámos
através do labirinto de bancas do mercado, mastigando a carne e olhando em

volta. Os Lobos do Mar pareciam homens a moverem-se num sonho.

Passávamos ao longo de uma fileira de bancas onde se vendia incenso e perfumes quando o
nosso avanço foi detido pela visão da mulher mais bela jamais nascida, que

estava a ser transportada através do mercado numa cadeira suspensa em varas. Tinha quatro
escravos para carregarem a cadeira e um quinto para segurar num pára-sol

redondo feito de um pano esticado, preso a uma cana fina. A mulher - que era de certeza uma
rainha - usava um vestido de rebrilhante seda azul, tinha os cabelos

268
elegantemente encaracolados e amontoados em cima da delicada cabeça, e um rosto pintado
que permanecia impassível enquanto olhava para o que se passava por baixo

dela.

Os Lobos do Mar decidiram segui-la para ver para onde ia, na esperança de assinalarem o local
para lá voltarem mais tarde a fim de o saquearem. Foi por isso que

seguimos os escravos que transportavam a cadeira logo que os vimos sair do mercado para
começarem a descer uma das muitas ruas que irradiavam da praça.

A rua era estreita e escura, com as casas tão em cima umas das outras que pouca era a luz do
Sol ou do céu que conseguia atingir o pavimento. Os transeuntes apressavam-se

para um lado e para o outro, ou amontoavam-se em grupos, conversando uns com os outros.
Alguns lançavam-nos uma olhadela quando nos viam passar mas a maioria ignorava-nos.

Aparentemente, os bárbaros selvagens a vaguear pelas ruas não eram nenhuma novidade,
embora naquele dia ainda não tivéssemos visto outros Lobos do Mar.

As casas da zona em que nos encontrávamos eram de construção mais humilde, com telhados
muito inclinados e fachadas menos ornamentadas do que as que tínhamos visto

anteriormente. Via-se muito pouco vidro e nenhuma estátua. A rua propriamente dita não
estava pavimentada, excepto no que se referia a uma estreita faixa de pedras

achatadas ao longo do seu centro. Continuámos o nosso caminho e acabámos por chegar a um
cruzamento. Nesse local, a rua estava tão cheia de carros e de carregadores

que rapidamente perdemos de vista a rainha e a sua cadeira. Parámos no centro do


cruzamento, tentando decidir qual a direcção a tomar. Pensando que regressaria ao

bairro rico que havíamos atravessado pouco antes, Hnefi escolheu o caminho da direita,
embora fosse ainda mais escuro e estreito do que o anterior.

Talvez tivéssemos dado uma dúzia de passos quando uma porta baixa e larga se abriu
subitamente numa parede, deixando sair uma baforada de ar quente e um carro de

madeira puxado por dois homens, nus até à cintura e a suar. O carro estava cheio de pães
acabados de cozer e o cheiro que saía daquela porta fez-nos parar de repente.

- Bròd! - exclamou Orm, correndo atrás dos homens. Alcançou-os, obrigou-os a parar e
apoderou-se de um dos pães empilhados no carro. Os homens gritaram-lhe, arrancaram-lhe

o pão das mãos e afastaram-se à pressa, continuando a berrar enquanto andavam.

Vendo o que sucedera a Orm, Hnefi virou-se para mim:

- Arranja-nos algum daquele pão! - ordenou, mandando-me correr atrás do carro.


269

Alcancei os homens e acertei o meu passo com o deles.

- Por favor - disse - gostaríamos de comprar um pouco do vosso pão.

- Não! Não é para venda! - gritou um dos padeiros, irritado.

- Temos dinheiro... - expliquei-lhe.

- Impossível! - retorqui o outro padeiro. - Este pão é para os theme...

- Desculpem, mas não compreendo...

- Pão para os theme - repetiu o primeiro padeiro. - É pão para os soldados e não estamos
autorizados a vender nas ruas. Ainda nos metem em sarilhos! Vão-se embora!

- Temos fome. Talvez nos possam dizer onde podemos comprar pão igual a este.

- Fora daqui! - murmurou o primeiro padeiro, afastando-se. Contudo, o outro homem deteve-
se durante o tempo suficiente para me dizer:

- Experimentem ali! - Apontou para uma porta aberta, um pouco mais adiante, na mesma rua.

Gritei os meus agradecimentos aos homens e regressei ao local onde os dinamarqueses


estavam à espera.

- Dizem que podemos comprar pão além... - declarei, indicando-lhes a casa que o padeiro me
apontara. Dirigimo-nos para lá enquanto Hnefi retirava um punhado de moedas

da bolsa, escolhia uma marcada com um "K" e ma entregava.

- Vai comprar-nos o pão - ordenou.

Olhei para a pequena moeda com algumas dúvidas, prometi fazer o possível e penetrei na
escura entrada. O interior do edifício estava quente e era iluminado apenas

pelo fogo de um enorme forno. Um homem grande e gordo, na companhia de um rapaz


magricela, atiçava as chamas com bocados de lenha cortada. No chão, ao lado deles,

havia uma pequena montanha de pães ainda quentes do forno.

Saudei-os e expliquei-lhes que queria comparar pão. O homem limpou as mãos ao avental de
couro e estendeu a mão para a moeda.

- Isto tudo? - perguntou.

- Sim - respondi.

Encolheu os ombros, debruçou-se para o montão de pães quentes, escolheu três e entregou-
mos. Recebi-os e agradeci-lhe... enquanto o homem escolhia três outros pães,
que também me entregou. Voltei a agradecer-lhe... e recebi mais três pães. Os pães não eram
muito grandes mas nove eram

270 o bastante para ficar com os braços cheios. Agradeci-lhe a sua generosidade... e o homem
colocou dois outros pães em cima dos restantes e despediu-se.

Cambaleei de volta à rua e juntei-me aos espantados Lobos do Mar.

- Todo este pão... - perguntou Hnefi - apenas por uma moeda?

- Sim - disse-lhe. - Já não conseguia carregar nem mais um.

- Nesta terra podíamos viver como reis... - comentou Orm.

Os Lobos do Mar serviram-se dos pães, ficando cada um com três e deixando-me dois, o que
era mais do que o suficiente. Seguimos o nosso caminho muito satisfeitos,

arrancando pedaços aos pães e comendo enquanto andávamos.

O fraco calor daquele dia começou a desaparecer logo que o Sol se afundou e surgiram as
primeiras nuvens da noite. As ruas tornaram-se sombrias e o céu ganhou um

tom púrpura. Hnefi começou a ficar preocupado com o facto de necessitarmos de regressar ao
navio para relatarmos o que tínhamos aprendido a respeito da cidade. Porém,

descobrimos que enfrentávamos um problema complicado logo que pensámos em voltar para
trás para tentarmos refazer os nossos passos. Tínhamos vagueado tanto e ao

longo de um percurso tão labiríntico que essa ideia em breve se revelou completamente fútil.

- Vais perguntar o caminho para o porto - declarou Hnefi. Encontrávamo-nos parados num
espaço aberto e pavimentado, perto de um amontoado de bancas que vendiam tecidos

e lãs tingidas. A pequena praça tinha duas saídas: uma rua que subia a colina numa direcção
que nos parecia ser para oeste, e uma outra que descia para o norte.

Não nos parecia provável que qualquer delas nos conduzisse ao porto, que imaginávamos jazer
algures para o sul. Todavia, nenhum de nós tinha a certeza, uma vez que

Gunnar dizia que o porto ficava para leste, e Orm afirmava que ficava para oeste.

- Pergunta àquele homem - Hnefi, apontando um velho que se apressava com um molho de
lenha às costas.

Dirigi-me ao homem e chamei-o:

- Perdoe-me, senhor! - disse-lhe - Pode indicar-me o caminho para o porto?

O velho olhou para mim e respondeu, sem sequer parar:


- Segue o teu nariz!

- Que estranha resposta... - comentou Hnefi, quando lha traduzi. - Tens de voltar a perguntar.

271

Experimentei junto de outra pessoa, que me disse que devíamos seguir pela rua que subia a
colina. Embora nos apressássemos, o céu já estava a escurecer quando chegámos

ao alto da colina, onde descobrimos outra praça rodeada por vários grandes edifícios e com
uma boa vista para leste e sul.

- Heya! - gritou Orm, apontando para leste. - O Gunnar tinha razão. Ali está o porto.

Gunnar não respondeu. Quando me virei para ele, verifiquei que toda a sua atenção estava
concentrada num grande edifício branco que se encontrava mesmo por trás

de nós.

- Olha! - disse, indicando-me o telhado.

Vi para onde estava a apontar e o meu coração deu um salto. Havia uma cruz dourada no cimo
do telhado, brilhando sob as últimas luzes do Sol poente, facto que despertara

a atenção de Gunnar.

Fui instantaneamente dominado pelo avassalador desejo de correr para o local para me
ajoelhar em frente ao altar. Fiquei a olhar para a cruz e pensei: Cheguei, finalmente!

Atravessei muitos oceanos para chegar aqui... e cá estou. Também me lembrei que devia falar
com alguém a respeito da peregrinação. Os irmãos sacerdotes de Constantinopla

precisavam de saber. Tinha de os informar.

Sem pensar, avancei na direcção da igreja. Infelizmente, ainda nem sequer dera três passos
quando Hnefi me agarrou brutalmente por um braço.

- Fica aqui! - rosnou.

Orm interpretou mal o significado do interesse de Gunnar pela cruz.

- Não é ouro - declarou.

- O mais provável é ser de latão - acrescentou Hnefi. - Não vale a pena levá-la.

Gunnar ignorou-os e afirmou:

- É o sinal... tal como tu disseste, Aeddan...


- Sim, e serve para assinalar uma igreja... - expliquei-lhe. - Um lugar onde Nosso Senhor Jesus
Cristo é venerado.

Estávamos envolvidos nesta conversa quando vimos as grandes portas duplas a abrirem-se.
Ouviu-se o som de uma campainha vindo do interior da igreja e apareceu uma

procissão de sacerdotes, empunhando velas e estandartes de pano montados em altas varas.


Avançaram para a rua vestidos com os seus compridos hábitos negros, enquanto

entoavam um salmo num cântico lento e ondulante. A tonsura era do tipo latino, diferente da
minha. Contudo, as roupas eram semelhantes às usadas pelos sacerdotes

ocidentais, embora com uma ornamentação mais rica. Vários deles usavam

272

compridos lenços de seda ao pescoço - o orarion - com cruzes bordadas a fio de ouro. As
mangas dos hábitos eram compridas e também com padrões ornamentais.

A frente da procissão seguia um bispo, que usava uma mitra e transportava um báculo
encimado por uma cabeça de águia. Era seguido por um par de monges com casulas

brancas, um dos quais carregava uma grande cruz de madeira e o outro uma imagem de Cristo
pintada num painel de madeira. A pintura representava Cristo pregado na

cruz, com os olhos levantados para o céu, implorando piedade para os que o tinham
crucificado.

O som das vozes sacerdotais erguidas num cântico encheu-me de satisfação. Parecia-me que já
se passara toda uma vida desde que ouvira um salmo cantado, embora o

cântico fosse em grego. Mesmo assim, senti um arrepio a percorrer-me o corpo ao escutar as
palavras tão familiares: "Louvai Deus nas alturas, oh, homens! Louvai

o Senhor das Hostes, oh criaturas da Terra!"

Gunnar encostou a cabeça à minha.

- É ele! - sussurrou. - É o Deus Pendurado de que nos falaste! É o mesmo, heya?

Disse-lhe que era o mesmo, e que a cruz se tornara no símbolo de Cristo.

- Mesmo em Miklagard?! - interrogou-se Gunnar. - Como pode ser isso?

- Está em todo o lado - repliquei - e é o mesmo em todo o lado.

- Então, é verdade... - concluiu. - Tudo o que disseste dele era verdade!


Orm ouviu-o e decidiu conceder-nos o benefício dos seus vastos conhecimentos sobre
assuntos religiosos.

- Está enganado, Gunnar - declarou, com brusquidão - Não deixes que esse Cabeça-Rapada te
engane. Trata-se certamente de outro Deus. Como é possível que o mesmo

Deus esteja em dois lugares ao mesmo tempo?

- Não podem existir dois deuses iguais - insistiu Gunnar. - Aeddan disse que os Romanos o
tinham pendurado numa cruz. Ali está ele... e a cruz...

- Os Romanos matavam toda a gente na cruz... - replicou Orm, muito satisfeito com a sua
inteligência superior - e nem todos podiam ser deuses!

273

Hnefi começou a ficar impaciente com a conversa.

- Os Cabeças-Rapadas estão a descer a colina - declarou, indicando a procissão de sacerdotes. -


Vamos segui-los. Talvez nos conduzam até ao porto.

Os sacerdotes deslocavam-se lentamente e seguimo-los a curta distância, mantendo-os à vista


graças à luz das velas. Enquanto caminhava, tentei descobrir uma maneira

de conseguir falar com eles. No fim de contas éramos todos irmãos em Cristo e já que chegara
até ali devia de algum modo declarar a minha presença aos dirigentes

da Igreja. De súbito ocorreu-me que talvez eles, como sacerdotes, tivessem notícias dos meus
irmãos de peregrinação e essa perspectiva fez com que o meu coração

batesse um pouco mais depressa.

Seguimos a procissão ao longo da colina, passando por mais casas cujas janelas brilhavam com
uma quente luz amarela interior. A seguir passámos por uma segunda praça

de mercado, agora vazia excepto quanto à presença de alguns cães vadios que lutavam por
restos. Num certo local caminhámos ao lado de um aqueduto verdadeiramente

grande, em volta de cujas muralhas se amontoava um grande número de abrigos rudimentares


que pareciam ser feitos de madeiras velhas e refugo, unidos entre si de

qualquer maneira. Na frente de alguns deles havia pessoas dobradas sobre pequenas
fogueiras, cozinhando bocados de comida espetados em paus. Observaram-nos
silenciosamente

quando nos viram passar.


Quando os sacerdotes chegaram ao seu destino já as estrelas brilhavam no céu. Era outra
igreja, um pouco maior do que a anterior, com um telhado arredondado e fileiras

de janelas com vidros, bem no alto das paredes. A luz das velas tremeluzia nos vidros,
atraindo-me para o interior. Senti a dor da saudade e ansiei por poder entrar

e acompanhar a missa do anoitecer. O simples facto de me encontrar entre os meus pares


teria sido uma bênção. Porém, o cheiro do Porto já chegara às narinas dos

Lobos do Mar e nada seria capaz de os deter durante o tempo suficiente para me permitirem
entrar na igreja.

- Talvez devêssemos perguntar a alguém qual é o melhor caminho para os navios... - sugeri,
dirigindo-me a Hnefi, embora também já sentisse o odor húmido e o cheiro

a peixe das águas do porto.

- Nay - replicou Hnefi, metendo por nova rua escura. - Agora já sou capaz de descobrir o porto.
Por aqui!

- Mas... está a ficar escuro! Podemos perder-nos!

Respondeu com um grunhido. Orm interveio, colocando-se atrás de mim e dando-me um


empurrão para a frente.

274

- Mexe-te, escravo!

- Deixa-o em paz - pediu Gunnar, intercedendo por mim. A seguir acrescentou: - Vem Aeddan,
não os irrites. Tal como as coisas estão, creio que o jarl Harald não

vai ficar nada satisfeito quando souber como passámos o dia.

O infalível nariz de Hnefi acabou por nos levar ao porto. A porta da cidade estava fechada mas
havia uma guarda de quatro homens junto da porta pequena. Os guardas

deixaram-nos sair depois de nos pedirem para apresentarmos os discos de cobre. A baía estava
escura e calma, e as águas brilhavam com as luzes das lareiras das cozinhas

e das lanternas dos navios fundeados. Caminhámos para um lado e para o outro ao longo do
cais em busca de um barco que nos levasse ao navio, mas não havia nenhum.

- Vamos ter de nadar - declarou Hnefi.

- Não sabemos qual é o nosso navio - salientou Orm e não podemos nadar até junto de cada
uma das embarcações que se encontram na baía.
Começaram a discutir sobre qual seria a melhor maneira de resolver o problema quando
Gunnar disse:

- Escutem! Está alguém a chamar!

Ouvimos uma voz vinda da água. Aproximámo-nos da beira do cais, olhámos para baixo e
vimos um pequeno barco com um homem sentado à popa, segurando uma lanterna no

alto de um pau. Reconheci o rosto virado para cima.

Ao ver-nos, voltou a chamar-nos e respondi-lhe:

- Saudações, Didimus! Lembras-te de nós?

- Lembro-me de toda a gente, meu amigo... mas muito em especial daqueles que não me
pagam!

- Sim, foi uma infelicidade - retorqui. - Lamento muito... mas talvez a nossa disposição, neste
momento, já seja melhor. Levas-nos de volta ao nosso navio?

Hnefi colocou-se a meu lado. - Que está ele a dizer?

- Diz que nos levará ao navio com toda a satisfação, mas que temos de lhe pagar.

- Quanto? - inquiriu Hnefi, desconfiado.

- Vinte nomisrni - respondeu Didimus quando lhe fiz a pergunta.

- Duas moedas... - expliquei, dirigindo-me a Hnefi - mas temos de lhe pagar antes de
embarcarmos.

- Sempre é melhor do que nadar - comentou Orm, esperançado.

275

- Heya! - concordou Hnefi. - Diz-lhe que pagamos. Uma moeda agora e outra quando
chegarmos ao navio.

- Então, desçam a escada - retorquiu o barqueiro quando lhe transmiti a proposta de Hnefi.

Dirigimo-nos para a escada onde Didimus já nos aguardava com o barco. Hnefi retirou cinco ou
seis moedas de bronze da sua bolsa, seleccionou duas e disse-me para

pagar ao barqueiro.

- Hnefi diz que te tenho de te dar uma agora... - expliquei ao barqueiro - e a outra quando
chegarmos ao navio.

Levando a moeda à luz, o homem viu a marca do "K" e afirmou:


- Mas... isto é demasiado...

- Estou certo de que quer que a aceites... - menti - como agradecimento por teres esperado!

- Que Deus seja bom para ti, meu amigo! - respondeu o barqueiro, guardando a moeda.

Trepámos para bordo e instalámo-nos tal como anteriormente. Os Lobos do Mar


permaneceram em silêncio mas Didimus, satisfeito com a recompensa, mostrou-se
conversador.

- Sabia que vos voltaria a ver - afirmou. - Correu bem, o vosso primeiro dia na Cidade do Ouro?

- É uma grande cidade - comentei.

- Sim, mas talvez seja mais latão do que ouro, não é?

- Talvez... - admiti. - Estiveste todo o dia à nossa espera?

- Não todo o dia... - retorquiu o barqueiro, sorrindo por causa da sua própria esperteza - mas
sabia que mais cedo ou mais tarde tinham de voltar ao vosso navio

e vigiei a porta da cidade até a fecharem.

Manobrando o longo remo com movimentos rápidos e eficientes, o barqueiro conduziu-nos


rapidamente até ao navio. Hnefi chamou os que se encontravam a bordo e alguns

dos homens debruçaram-se sobre a amurada para nos puxarem para bordo. Entreguei a
segunda parte do pagamento a Didimus enquanto os outros subiam.

- Que Deus recompense a tua paciência e perseverança -. disse-lhe. O barqueiro observou a


moeda sob a luz da lanterna e o seu rosto abriu-se num grande sorriso de

satisfação.

- Já o fez, meu amigo - retorquiu Didimus, feliz. - Deus já o fez! Ergui os braços, fui puxado pelo
flanco do navio e arrastado por cima da amurada.

- Até amanhã, meus amigos bárbaros! - gritou Didimus quando já me virava para enfrentar um
monarca extremamente irritado.

VINTE E NOVE

O jarl Harald Berro-de-Touro, rei dos Dinamarqueses da Escandinávia, não conseguia


compreender por que motivo tivera de esperar a bordo do navio durante todo o dia

enquanto vagueávamos pela cidade e gastávamos as suas moedas. Localizar o tesouro fora
assim tão difícil? Trovejou Harald. Permanecia de pé, iluminado pelas tochas
tremeluzentes, mantinha os braços cruzados sobre o peito e exibia uma carranca poderosa
enquanto exigia uma resposta para aquele mistério. Gunnar e eu permanecemos

em silêncio sob a sua ira fervilhante enquanto Hnefi e Orm se esforçavam por lhe dar
explicações.

- É muito difícil, jarl Harald - disse Hnefi. - Esta Miklagard é muito maior do que pensávamos.
Não é fácil encontrar uma casa de tesouros.

- No entanto, encontrar um salão de bebidas não foi assim tão difícil, heya?

- Não descobrimos nenhum salão, jarl - respondeu Orm. - Só conseguimos encontrar vinho.

- Ah! Então estiveram a beber vinho! - grunhiu o monarca, num tom perigoso.

- Nay, jarl- interveio Hnefi rapidamente. - Andámos em busca da principal casa de tesouros, tal
como nos ordenaste. Vimos muitas coisas, incluindo muitas belas casas.

Estou certo que devem ter muito que saquear.

Como Harald gostou do som da afirmação, Orm embelezou-a:

- É verdade, jarl Harald. Há centenas de casas dessas... ou talvez milhares! Os tesouros que
contêm são muito mais do que poderíamos levar mesmo que tivéssemos dez

navios!

- Viram esses tesouros? - inquiriu o monarca. - Viram muito ouro e prata?

- Nay, jarl Harald - replicou Orm. - Não vimos o ouro ou a prata mas aquelas casas são
certamente salões de reis.

277

- Salões de reis! - troçou Harald. - Às centenas ou aos milhares? Então, pergunto-vos: como é
que esta Miklagard pode ter tantos reis?

- Talvez nem todos sejam reis... - admitiu Hnefi, judiciosamente - mas as casas são de homens
ricos. Quem mais poderia construir tais palácios?

O monarca fez uma careta para os seus batedores e puxou pelas pontas do bigode enquanto
tentava decidir o que fazer. Por fim, virou-se para Gunnar e

para mim e perguntou:

- Então? Que têm a dizer a este respeito?


- É tal como Hnefi e Orm te contaram, jarl Harald - replicou Gunnar. - Os palácios eram tantos
que não os conseguimos contar e alguns deles devem conter tesouros

que vale a pena pilhar.

- Alguns deles, heya... - grunhiu o monarca, num resmungo de assentimento. - Em geral, é o


que acontece. E que mais?

- Não bebemos nem öl nem vinho - afirmou Gunnar - embora tenhamos comido um pouco de
pão e alguns bocados de carne no espeto. Para além disso, vimos um mercado capaz

de fazer com que Jomsburg e Kiev pareçam pocilgas...

- Aí está uma coisa que eu gostaria de ver... - murmurou Harald.

- Na verdade, esta Miklagard deve ser a maior cidade que jamais existiu - acrescentou Orm,
entusiástico. - É diferente de todas as outras!

O monarca lançou-lhe um olhar carregado e deu preferência ao relato de Gunnar, um pouco


mais plausível. Virou-se novamente para ele e continuou:

- Até eu posso ver que é um povoado muito grande, embora não tenha entrado na cidade. Há
muitos guardas nas portas?

- Jarl, há mais gente de todos os tipos do que eu jamais vi num só lugar, e há guardas em todas
as portas. São pelo menos oito e não duvido que tenham muitos mais

noutros sítios.

- Se assim é, como conseguiram entrar?

- Fizeram-nos pagar para entrarmos na cidade. - Gunnar fez aparecer o disco de cobre que lhe
havia sido dado. Harald pegou-lhe examinou-o com atenção.

- Custou dez nomismi - explicou Gunnar.

- Há uma outra coisa que precisas de saber - afirmou Hnefi, de repente. - As moedas de prata
que trazemos connosco valem cem no-tnismi e não apenas dez.

O monarca virou-se de Hnefi para Gunnar em busca de uma confirmação.

278

- É verdade, jarl - declarou Gunnar. - Foi o que nos disseram na porta da cidade. Pergunta ao
Cabeça-Rapada, que falou com eles sobre isso.

O rosto de Harald fechou-se como um punho quando a enormidade do roubo que fora
praticado contra ele se tornou aparente.
- É verdade? - perguntou, numa voz abafada pela raiva contida.

- Sim, senhor! - respondi, explicando-lhe o que o soldado na porta da cidade e o Prefeito da Lei
me tinham dito.

- Vou pregar a cabeça desse ladrão no mastro - resmungou o monarca. - Eu, Harald Berro-de-
Touro, faço essa jura!

Todas as ideias a respeito das pilhagens foram imediatamente esquecidas quando a discussão
se focou sobre como poderia Harald executar a sua vingança sobre o desonesto

Mestre do Porto. Esboçaram rapidamente um plano rudimentar mas eficiente que os Lobos do
Mar poderiam executar com toda a facilidade. Para celebrar aquele seu odioso

plano, o monarca resolveu partilhar a sua öl e todos beberam a que quiseram. Contudo, não
bebi com eles. Encolhi-me à proa, por baixo da cabeça de dragão e fiquei

a observar os bárbaros que espevitavam a sua coragem com liberais goles de cerveja.

O porto de Hormisdas começou a ganhar vida pouco depois do nascer do Sol e um dos Lobos
do Mar trepou ao alto do mastro para poder avistar um navio qualquer que

estivesse a entrar no porto. Contudo, como não havia navios no horizonte, voltou a descer e
aguardámos. Passado algum tempo, Harald mandou-o subir ao mastro pela

segunda vez e a busca repetiu-se, mas o resultado foi o mesmo.

Depois da terceira tentativa, Harald declarou:

- Não podemos esperar mais!

O monarca ordenou que o ferro fosse içado. A seguir, servindo-se dos remos, os
dinamarqueses dirigiram o navio para uma das embarcações mais próximas, que Harald

já assinalara. O navio foi manobrado de um modo muito furtivo, para dar a sensação de que se
encontrava à deriva, e procederam desse modo a fim de não levantarem

suspeitas uma vez que o que pretendiam fazer era perverso e cruel.

Aproximaram-se o suficiente da outra embarcação e lançaram-lhe ganchos de ferro para o


segurarem, após o que seis Lobos do Mar saltaram para bordo do navio capturado

e incendiaram-lhe as velas servindo-se de archotes acesos especialmente para aquela ocasião.

Felizmente, havia muito pouca gente a bordo do outro navio, uma vez que o mercador, o
piloto e a maior parte da tripulação tinham ido para

279
a cidade no dia anterior para comerciarem os seus produtos. Contudo, as chamas e o fumo
acordaram os restantes tripulantes. Como o seu número era muito reduzido,

os estrangeiros viram que não tinham hipóteses de resistir e nem sequer tentaram fazê-lo.
Limitaram-se a sentar-se no convés, entregando-se às mãos do destino.

O facto agradou a Harald, que não estava interessado em perder nenhum homem. A vela
incendiada soltou um fumo negro, o que deixou o monarca ainda mais satisfeito.

- Heya! - gritou. - Vejam! Aí vêm eles! Soltem os cabos!

Tal como o monarca esperara, os guardas do porto, alertados pelo fogo, apressavam-se em
direcção à perturbação e chegaram a tempo de ver os Lobos do Mar a regressarem

ao seu navio e a afastarem-se do outro. Vendo que os guardas do porto se aproximavam para
os ajudar, os tripulantes da embarcação em chamas puseram-se de pé num

salto e começaram a gritar, pedindo ao barco dos guardas que impedisse a fuga dos bárbaros.

Harald fingiu que tentava virar o seu navio, como que para fugir, mas foi facilmente apanhado
pela embarcação dos guardas, que gritavam para os Lobos do Mar e agitavam

as lanças.

- Cabeça-Rapada! - gritou Harald. - Que estão eles a dizer?

- Dizem que temos de parar imediatamente ou enfrentaremos a frota de guerra do Imperador.

O monarca dos Lobos do Mar sorriu ao ouvir aquilo e disse:

- Então, suponho que temos de parar. - Virou-se para Thorkel, ordenou-lhe que recolhesse os
remos e gritou numa voz trovejante: - Preparem-se para sermos abordados!

- Para mim, acrescentou: - Diz a esse nosso amigo ladrão que vamos parar.

Ocupei o meu lugar junto à amurada e debrucei-me para o Mestre do Porto, que se
encontrava na proa da sua embarcação:

- Vamos parar! -- disse-lhe. - Harald, rei dos Dinamarqueses, autoriza que o seu navio seja
abordado.

- Então, afastem-se! - ordenou o quaestor, zangado. Fez um sinal com a mão, ordenando aos
seus homens que escalassem o flanco do nosso navio. O Mestre do Porto trazia

consigo oito guardas armados com lanças e com espadas curtas, de lâmina larga.

Quando já se encontravam todos no convés, o Mestre do Porto avançou com um ar arrogante


para onde Harald o aguardava, e exigiu saber por que motivo atacara a outra

embarcação. Depois de lhe ter traduzido a pergunta, o monarca respondeu com placidez:
280

- Porque a visão dele me desagradava.

- E não sabem que é uma ofensa molestar um navio no porto do Imperador? - inquiriu o
Mestre do Porto.

Transmiti as palavras do homem e Harald replicou:

- E roubar a prata de um homem não será também uma ofensa no porto do Imperador?

- Claro que é! - replicou o guarda. - Afirmam que estavam a tentar roubar-vos a vossa prata?

- Nay! - confessou Harald. - Os ladrões não são eles. Foste tu quem roubou a minha prata.

Ainda aquelas palavras mal lhe tinham saído da boca quando todo o grupo de bárbaros se
ergueu com um grito terrível e se lançou contra os guardas. A luta foi breve

e os Lobos do Mar conseguiram desarmar os seus oponentes - em inferioridade numérica -,


sem grande esforço e sem derramamento de sangue.

Harald agarrou o quaestor, atirou o ladrão para o convés e colocou-lhe um pé em cima do


pescoço. Os guardas esbracejaram ao verem o seu chefe a ser tratado daquele

modo... mas já estavam desarmados e bem seguros pelas mãos de ferro dos Lobos do Mar
inflamados por uma ira justa, pelo que nada puderam fazer.

O quaestor gritou e agitou-se, exigindo ser libertado. O jarl Harald, com o pé bem posicionado
e pronto para lhe esmagar a garganta, ignorou a agitação e pediu que

lhe entregassem a espada. A lâmina apareceu e foi deposta na sua mão estendida.

- O que é isto? - grasnou o quaestor, estendido no convés do navio. - Mas que...? - Virando-se
para mim, o cativo guinchou miseravelmente: - Diz-lhe... agh... que

tem de me libertar imediatamente... a ira do Imperador! Diz-lhe!

Harald fez sinal de que deveria transmitir-lhe as palavras do prisioneiro. Convenci o monarca a
aliviar a garganta do homem apenas o suficiente para que o infeliz

pudesse falar e repeti a ameaça do quaestor. Harald riu-se.

- Óptimo! Já não mato um ladrão há muito tempo! Vou gostar de dizer ao seu amo por que
motivo o fiz. - Harald calou-se e levantou a espada.

- Esperem! - gritou o cativo, a contorcer-se.

- Diz-lhe para estar quieto - ordenou-me Harald - ou não conseguirei um golpe limpo...

- O quê? O quê? - ofegou o quaestor.


281

- Está a dizer para ficares quieto ou o corte não será limpo...

- Diz-lhe que foi um engano! - gritou o Mestre do Porto. - Diz-lhe que lhe devolverei tudo!

- É demasiado tarde - respondi. - Harald decidiu vingar-se por causa do modo como ontem o
enganaste. Já não está interessado no dinheiro. - Então o que quer?

- Quer pregar a tua cabeça no mastro deste navio - respondi - e acredito que o fará.

Harald retirou o pé de cima do homem e pousou o gume da sua afiada espada contra a carne
macia. A pele delicada abriu-se, deixando escorrer algumas grandes gotas

de sangue que deslizaram pelo pescoço do condenado e caíram sobre o convés.

- O teu amo sabe quem eu sou...? - guinchou o cativo.

- Sabe que foste tu quem o fez passar por tolo em frente dos seus homens e que lhe roubaste
a prata - repliquei.

- Estão a cometer um erro! - uivou o Mestre do Porto.

Harald pousou o pé nas costas do homem e levantou a espada acima da cabeça, preparando-
se para o golpe final.

- Não! Não! - guinchou o quaestor. - Esperem! Escutem! Sou um homem importante, um


homem rico! Podem pedir um resgate!

- Que está ele a dizer agora? - perguntou Harald, semicerrando os olhos enquanto avaliava o
sítio em que a lâmina iria cair.

- Afirma que é uma pessoa de alguma importância e que podes prendê-lo em troca de um
resgate. - E quem iria pagar? - inquiriu Harald, levantando uma sobrancelha.

Transmiti a pergunta ao cativo, que respondeu:

- O Imperador! Sou um dos homens do Imperador, que pagará pela minha libertação! -
Escorriam lágrimas pelo rosto avermelhado e manchado do desgraçado e o cheiro

do medo erguia-se do seu corpo como um perfume muito desagradável.

O rei Harald escutou atentamente enquanto eu lhe traduzia as palavras do Mestre do Porto...
e resolveu tomar em consideração a nova possibilidade que se lhe apresentava.

- Quanto?
- O nosso rei quer saber quanto pode vir a receber pelo teu resgate... - expliquei, dirigindo-me
ao cativo, que já suava tanto que as gotas haviam formado uma poça

sob a sua cabeça.

282

- O dobro do que lhe tirei! - afirmou o homem.

Harald sacudiu a cabeça com firmeza quando lhe comuniquei as palavras do Mestre do Porto.

- Nay!- respondeu, recusando a oportunidade. - Diz a este ignorante que tenho escravos que
valem muito mais do que isso. Para além do mais, vou levar toda a prata

que conseguir carregar quando saquear a cidade, e vou pregar a sua cabeça no mastro como
um aviso a todos os que pensarem em roubar a prata de Harald Berro-de-Touro.

Transmiti a afirmação ao quaestor do Porto de Hormisdas, que balbuciou de raiva e frustração.

- É impossível! Compreendes o que estou a dizer-te? Esta cidade nunca foi pilhada por nenhum
bárbaro! Serão todos mortos ainda antes

de conseguirem ultrapassar a porta da cidade! Libertem-me imediatamente e pedirei ao


Imperador que seja clemente para convosco!

- Será melhor que peças clemência pelos teus homens... - respondi-lhe. - Se não deres a este
dinamarquês uma boa razão para que te poupe a vida... então tu e os

teus já estarão mortos antes da frota do Imperador conseguir manobrar um único remo. - Os
homens do Mestre do Porto agitaram-se, inquietos, e murmuraram imprecações

dirigidas ao seu superior. Contudo, verifiquei que as minhas palavras não o tinham conseguido
persuadir e fui forçado a acrescentar: - Acredita no que te digo, porque

estou a dizer a verdade. Sou um escravo que, de qualquer modo, irá morrer nesta cidade. A
minha vida está nas mãos de Deus e isso basta-me. Porém, tu... ainda tens

o poder necessário para te salvares, bem como aos teus homens.

O Mestre do Porto fechou os olhos com força.

- Digo-vos que o Imperador pagará! Conceder-vos-á tudo o que pedirem! Poupem-me!

Expliquei a Harald o que o cativo desesperado acabara de me dizer e acrescentei:

- Pensa bem nisso, jarl... O próprio Imperador a pagar tributo a Harald, rei dos Dinamarqueses!
Seria uma maravilha, não é verdade?
Surgiu um sorriso no rosto do rei... e Harald admitiu que sim, que seria uma coisa maravilhosa
ver o Imperador a vergar-se na sua frente, com o resgate nas mãos...

e essa ideia levou-o a tomar uma decisão imediata.

- Vou fazê-lo!

Tirou o pé de cima do homem, levantou-o à força, libertou-o do cinto e das botas, e arrancou-
lhe o anel de um dedo. A seguir pegou no elmo

283

com a crina de cavalo e no bastão com a extremidade de bronze que era o símbolo do seu
cargo, e todos aqueles objectos foram embrulhados na capa vermelha do quaestor.

Quando o embrulho ficou pronto, o monarca deu ordens para que, se não o vissem regressar
antes do pôr do Sol, então os cativos deveriam ter as gargantas cortadas,

as cabeças pregadas no mastro e os corpos lançados para as águas do porto. A seguir escolheu
doze homens para o acompanharem a terra. Hnefi, Orm e Gunnar, que já

haviam desembarcado no dia anterior, bem como eu, como intérprete, éramos os mais
importantes do grupo. Virei-me para o quaestor enquanto o monarca tratava dos
preparativos.

- É verdade que respondes perante o Imperador?

- É verdade - murmurou, solene.

- Então reza para que o Imperador considere que a tua vida vale a pena ser salva.

TRINTA

Harald exultava com o seu triunfo e estava deliciado com a ideia de forçar a mão ao
Imperador. Era uma possibilidade que apelava tanto ao seu sentido de justiça

como à vaidade, uma vez que imaginava que apanhar um servidor do Imperador a cometer um
roubo lhe daria um certo domínio sobre o grande governante, que se iria sentir

obrigado, por uma questão de honra, a redimir a injustiça.

O facto de Harald e dos Lobos do Mar terem chegado a Constantinopla com a única finalidade
de roubar tanto o Imperador como o maior número possível dos seus súbditos
não passava de um pequeno pormenor que não tinha qualquer influência sobre a mente do
bárbaro. De qualquer modo, não havia dúvida que os dinamarqueses possuíam um

muito forte sentido de honra, que podia ser peculiar mas que eu já vira amplamente
demonstrado. Na verdade, não fazia ideia sobre qual seria o resultado daquela

acção mas entendi que não seria inteiramente má se servisse para impedir o derramamento
de sangue.

O Rei do Mar ordenou às suas três outras embarcações que se aproximassem e protegessem o
navio-dragão no caso de alguém tentar interferir. Mandou buscar homens aos

outros navios para vigiarem os reféns e encarregou os Lobos do Mar de se armarem para a
batalha e esperarem pelo seu regresso mantendo a mais atenta das vigilâncias.

- Vou cobrar uma dívida de honra... - proclamou Harald quando já se preparava para a partida -
e serei o primeiro rei dinamarquês a receber um tributo do Imperador

de Miklagard!

Na realidade, o homem estava bêbado de arrogância.

O monarca, depois de envergar os mais belos trajes que possuía, ocupou o seu lugar no barco
do quaestor e ordenou aos homens que remassem. Os Lobos do Mar não tiveram

qualquer dificuldade para manobrar a pequena embarcação no porto a abarrotar de navios, e


em breve desembarcávamos nos degraus por baixo da Porta Magnaura e tratávamos

de a

285

atravessar. A nossa missão quase fracassou ainda antes de pormos os pés na cidade. Logo que
avistou os bárbaros, o Prefeito da Lei saltou da sua mesa e exigiu ver

os nossos disci. Harald, a caminho de cobrar um resgate, não estava com disposição para pagar
o privilégio de entrar na cidade e recusou-se a fazê-lo.

Vendo que o monarca continuava a avançar, o Prefeito chamou os guardas, gritando:

- Detenham-nos! Detenham-nos!

Só se calou quando os guardas apareceram com as armas em punho e bloquearam a nossa


passagem com as lanças. Harald estava disposto a lutar, mas avistei o jovem guarda

que nos ajudara no dia anterior e implorei ao rei que se contivesse enquanto tentava explicar
o assunto ao oficial.
- Ah, és tu, outra vez! - exclamou o guarda. - Pensei que o dia de ontem te tivesse ensinado
melhores maneiras...

- Desta vez a coisa é mais grave... - respondi. A seguir expliquei-lhe, o mais depressa que fui
capaz, que o quaestor do porto e os seus homens tinham sido feitos

reféns.

- Podes prová-lo? - inquiriu. Fiz sinal a Gunnar para avançar com o fardo. Desamarrou-o sob os
olhos vigilantes de Harald, que permitiu que o guarda espreitasse

o seu conteúdo. Ao ver os pertences do Mestre do Porto, o guarda comentou: - Bom, então é
verdade que o apanharam! Queres explicar-me por que o fizeram?

- Esse é um assunto que só diz respeito ao rei - retorqui. Agora que já conhecia um pouco os
costumes da cidade, pensei que a melhor maneira de obtermos a atenção

do Imperador era dizendo o menos possível a todos os outros, uma vez que os homens são
curiosos por natureza e gostam de ver os mistérios resolvidos.

- Aeddan! - trovejou Harald que, conforme pude observar, começava a perder a paciência com
as restrições triviais que a cidade erguia no seu caminho. Verguei-me

perante o monarca e pedi-lhe que me concedesse uma oportunidade para negociar uma
passagem em segurança até ao palácio do Imperador. Em troca, implorei-lhe apenas

o luxo de alguns momentos. O monarca resmungou a sua aprovação àquele plano, pelo que
voltei a fazer uma vénia ao meu bárbaro amo e virei-me novamente para o guarda.

- O nosso rei está a ficar impaciente. Pretende cobrar um resgate em troca do quaestor e dos
seus homens e é por isso que quer ver o Imperador imediatamente.

286

- Nunca o conseguirão! - informou-me o guarda. - Os guardas do palácio nunca vos deixarão


entrar no recinto... e matar-vos-ão se tentarem abrir caminho à força.

- Então, por favor, ajuda-nos... - pedi.

- Eu?! - protestou o jovem oficial. - O assunto não me diz respeito!

- Se não nos ajudares, o quaestor e oito dos seus homens morrerão antes que o Sol se ponha.
Harald Berro-de-Touro decretou que as cabeças dos cativos servirão para

adornar o mastro do seu navio se não regressar a tempo com o resgate, e tem quatro navios
cheios de guerreiros prontos para executar esse acto vil. Mesmo que os
vossos soldados tentem evitá-lo, será derramado muito sangue de ambos os lados e o Mestre
do Porto não se salvará.

- Ah, então é essa a situação... - murmurou o guarda, olhando com cuidado para os bárbaros e
avaliando a questão apenas por instantes. - O quaestor Antonius é um

pedante que se considera um patriarca - acabou por afirmar. - Estou disposto a partir do
princípio de que têm bons motivos para o manterem prisioneiro. De qualquer

modo, devo informá-los que o homem possui uma certa medida de influência junto das
autoridades. Se a razão não estiver do vosso lado, então acabarão acorrentados...

ou pior. - Antes de poder protestar, garantindo que tínhamos boas razões para o nosso acto
precipitado, o guarda levantou a mão. - Nem mais uma palavra! Tal como

disseste, trata-se de um assunto que só diz respeito ao Imperador. Contudo dou-te um


conselho de amigo: se querem ganhar os favores do Imperador, devem levar-lhe

uma garantia de segurança.

- Não compreendo - confessei. - O que quer isso dizer?

- É um penhor - respondeu. - Um sinal de boa fé para indicar a elevada posição do teu amo e
para transmitir a importância da vossa petição.

- E para que precisaríamos de um tal penhor? - inquiri. - O anel, a vara e o elmo do quaestor
parecem-me prova suficiente da importância do assunto. Por seu lado,

Harald é tal como o vês, um verdadeiro rei. A sua posição não levanta dúvidas.

- O que dizes é verdade, claro... - admitiu o guarda - mas o quaestor Antonius é bem conhecido
e respeitado na corte... e vocês não o são. Se conseguirem chegar

até ao Imperador, e aviso-vos que isso é muito improvável, para pedirem um resgate pelo
mestre do Porto de Sua Majestade, então a vossa causa terá muito mais força

se provarem que são homens de riqueza e poder, de acordo com os costumes desta cidade.
Para o conseguirem, o melhor caminho é o tal penhor...

- Mas... se temos o Mestre do Porto e os seus homens como reféns...

287

- Sim, e quanto menos falarem nisso, melhor será... - aconselhou o guarda - se na verdade
quiserem ser recebidos pelo Imperador.

Comecei a compreender.
- Nesse caso, quanto mais valioso for o objecto dado como penhor, maior será a credibilidade
da nossa palavra...

- Exactamente - concordou o jovem guarda.

- E se o Imperador não redimir o seu homem? - perguntei.

- Nesse caso... - concluiu o guarda - que Deus vos proteja... e também ao Mestre do Porto.

Senti-me intimidado, porque a ideia de extrair um resgate ao Imperador estava a transformar-


se num verdadeiro desafio. Como que para dar ainda mais força ao seu

ponto de vista, o guarda acrescentou:

- Para além disso, meu amigo, não abusem da paciência do Imperador. A prisão é o menor dos
tormentos à espera dos que fazem falsas acusações. - Fez uma pausa e olhou-me

com uma expressão duvidosa. - É um risco, sim... Porém, de qualquer modo, é assim que os
assuntos desta natureza são conduzidos em Constantinopla. Pensei que precisavas

de saber...

Fitei o guarda, olhos nos olhos.

- Por que me estás a dizer isto? Por que motivo nos estás a ajudar, contra os teus próprios
compatriotas?

O guarda baixou a voz mas aguentou o meu olhar com toda a firmeza.

- Digamos que, ao contrário do que acontece com muita gente desta cidade, preocupo-me
com coisas como a honestidade e a justiça.

- Meu amigo - perguntei-lhe - como te chamas?

- Chamo-me Justin e sou o Chefe dos scholarii da Porta Magnaura. Se quiserem dar andamento
ao assunto... posso levá-los até à corte do Imperador mas é duvidoso que

vos deixem entrar.

- Nesse caso, ficará tudo nas mãos de Deus... - disse-lhe.

- Amém!

Dirigi-me a Harald, que já fumegava por ser obrigado a esperar enquanto homens menos
importantes do que ele davam à língua.

- Então? - inquiriu. - Fala! Que foi que ele disse?

- O homem é o chefe dos guardas e diz que nos conduzirá à corte do Imperador. Contudo,
avisou-nos: as coisas irão correr-nos mal se não levarmos um penhor que ateste

a vossa posição e a importância do caso. Algo que prove que sois de confiança.
- Provas! Apresentar-lhe-ei a cabeça do ladrão como prova! - declarou o monarca.

288

- Nay, jarl Harald - disse-lhe. - Isso de nada servirá. Expliquei-lhe, o melhor que pude, a
estratégia delineada por Justin, incluindo o que poderia acontecer se

o Imperador ficasse desagradado com o nosso pedido de resgate. Numa inspiração súbita,
comentei que talvez o Imperador não estivesse disposto a redimir o seu servidor

mas pudesse ser persuadido a compensar os prejuízos causados pelo roubo e a devolver a
prata.

A testa do monarca franziu-se em pensamentos. Embaraçado pelas estranhas formalidades da


cidade, pareceu disposto a considerar a hipótese de uma simples restituição.

- Penso... - sugeri - que nada temos a recear, uma vez que estamos seguros da veracidade do
nosso protesto.

O monarca hesitou. O que começara por ser a cobrança de uma simples dívida de honra estava
rapidamente a transformar-se numa questão legal que já não conseguia entender.

- Jarl Harald... - interveio Gunnar - será que preferes que um qualquer outro rei dos
Dinamarqueses seja o primeiro a conseguir receber um tributo das mãos do Imperador?

Seria bom que pensasses nisso... - Fez uma pausa, dando tempo ao monarca para sentir a
presa a escapar-se-lhe, e acrescentou: - Procede como o Aeddan te está a dizer...

e a tua história será cantada em todos os salões da Dinamarca. Ganharás mais renome do que
Eric Calções-Peludos. Será uma vitória digna de toda a prata de Miklagard!

- Vou fazê-lo! - gritou Harald, numa decisão imediata. Virou-se para Hnefi e disse: - Leva quatro
homens contigo e vai buscar o cofre do tesouro ao navio.

Naquele momento, se por acaso estivesse a pensar com mais clareza, teria compreendido o
significado de uma tal ordem. Infelizmente, estava tão preocupado com a manobra

do nosso navio de preocupações através dos escolhos que tínhamos de enfrentar que o
significado das palavras de Harald me escapou.

Informei Justin que o monarca ia enviar homens de volta ao navio para trazerem o necessário
penhor, e o guarda respondeu:

- Então, venham comigo. Vou deixar aqui alguns dos meus homens para os escoltarem quando
regressarem. O palácio não é longe e esperaremos por eles quando lá chegarmos.
O Chefe da Porta Magnaura nomeou vários dos seus soldados para escoltarem os homens de
Harald até ao navio e durante todo o percurso de regresso ao palácio do Imperador.

A seguir fez-nos sinal para que o seguíssemos e o nosso estranho grupo foi autorizado a
atravessar a porta

289

da cidade sem que um só nomismi tivesse mudado de mãos. Justin e eu marchávamos lado a
lado, na frente do grupo, conduzindo uma procissão de bárbaros simultaneamente

orgulhosos e espantados, acompanhados por uma escolta de soldados que protegia a


retaguarda. Tal como Justin dissera, o palácio não se encontrava a grande distância

da porta por onde havíamos entrado na cidade, mas ficava na direcção oposta à que tínhamos
seguido no dia anterior pelo que não reconheci nada do que vi.

Harald, com um ar muito régio mas algo atordoado, marchava pelas ruas de Constantinopla
como um conquistador, embora estivesse muito impressionado com tudo o que

via. Virava a cabeça para um lado e para o outro mas mantinha a boca firmemente fechada, ao
contrário dos restantes Lobos do Mar, que soltavam altas exclamações

a cada nova maravilha que surgia perante os seus olhos. As grandes e belas casas provocavam
muitas especulações sobre as riquezas que lá poderiam estar dentro, e

o primeiro relance do anfiteatro originou exclamações de maravilha e delícia... para grande


divertimento dos cidadãos de Constantinopla, muitos dos quais se detiveram

para verem passar o nosso curioso grupo.

Contudo, creio que não se teriam sentido tão divertidos se compreendessem o que os
bárbaros estavam a dizer. Os Lobos do Mar espantavam-se perante a visão de tantas

riquezas e discutiam acaloradamente quais os melhores métodos para as conseguirem.


Interrogavam-se sobre se seria melhor matar imediatamente os ocupantes das casas

para se apoderarem dos seus valores, ou se seria preferível matar apenas os que resistissem.
Também se interrogavam sobre se deviam pegar fogo a casas isoladas ou

incendiar toda a cidade... Fiquei muito satisfeito com o facto dos espectadores, que tanto se
divertiam com o espectáculo dado pelos Lobos do Mar, não perceberem

nada do que eles estavam a dizer...

Chegámos à vista das muralhas do palácio e as conversas passaram a ser sobre as melhores
estratégias para saquear um local tão imponente como aquele. A dificuldade,
do ponto de vista dos bárbaros, estava no facto do palácio não se apresentar como um único
edifício ou habitação mas sim como um conjunto de construções dispersas

no interior de um complexo muralhado, ou seja, como uma verdadeira cidade dentro da


cidade. A opinião prevalecente era a de que o palácio deveria ser saqueado como

qualquer outra habitação, provocando incêndios e abatendo os ocupantes à medida que


fossem fugindo das chamas para depois poderem pilhar à vontade... desde que os

soldados não interviessem. Os Lobos do Mar não faziam ideia sobre quantos soldados teria o
Imperador sob o seu comando mas calculavam que, a julgar pelo aspecto

dos guardas da porta da cidade, a sua

290

maior força e estatura seriam mais do que suficientes para enfrentarem um número qualquer
de defensores, mais pequenos e com um equipamento de combate mais leve.

A aparência algo benigna da nossa pequena escolta de guardas com capas vermelhas também
não contribuía para moderar a descontrolada avareza dos bárbaros.

Curiosamente, à medida que nos aproximávamos do palácio, as casas à nossa volta exibiam
um tipo de construção mais tosco e desigual. As grandes villas dos ricos

estavam a ser substituídas por habitações de menor porte e desenho mais irregular, com cada
uma delas mais rudimentar do que a anterior, até não serem mais do que

barracas feitas com bocados de madeira encostados a uma parede e cobertos com ramos e
trapos. Toda a extensão da muralha do palácio, nos dois sentidos, servia de

apoio a essas patéticas estruturas, repletas de um verdadeiro enxame de sujos mendigos.

De repente, ainda antes de percebermos muito bem o que estava a acontecer, vimo-nos
rodeados por uma massa agitada de pessoas sujas e esfarrapadas que pediam esmola.

Alguns desses desgraçados agitavam membros ressequidos ou cotos na frente das nossas
caras, enquanto outros expunham feridas gangrenadas de onde escorria pus. Os

bárbaros, embora também fossem incultos, ficaram assombrados com a pobreza daquela
multidão malcheirosa e lançavam golpes irados sempre que algum dos pedintes se

aproximava demasiado. Os guardas, já acostumados ao mau cheiro e ao barulho, passaram


para a frente e abriram caminho por entre a multidão com os escudos e com os

cabos das lanças. Por fim, acabámos por conseguir chegar ao portão do palácio e fomos
recebidos por um grupo de guardas de capas azuis que - depois de darem uma
única a olhadela aos bárbaros -, puxaram pelas armas e nos enfrentaram com as pontas das
lanças.

- Alto! - gritou o chefe do grupo. - Alto ou morrem!

Os dinamarqueses, vendo as lanças apontadas para eles, lançaram-se para a frente prontos
para a batalha, o que levou a que a nossa escolta de guardas se fosse juntar

aos seus compatriotas. Justin ergueu a voz por cima do entrechocar dos escudos e gritou:

- Scholare Titus! Deixa-nos passar! Estes homens estão comigo e vou escoltá-los para uma
audiência com o Imperador!

O guarda chamado Titus fez sinal aos seus homens para deterem o ataque e pediu:

- Explica-me esta procissão!

- Bom, nós vamos... numa espécie de missão diplomática. É uma questão da maior
importância!

291

- Não posso autorizar! - retorquiu Titus, examinando os bárbaros.

- Escuta-me... - insistiu Justin, aproximando-se do outro. - Há vidas em perigo e foi o quaestor


do Porto de Hormisdas quem nos enviou - declarou, mentindo. - Temos

de passar imediatamente. - Fez-me sinal para avançar com o fardo, que retirei das mãos de
Gunnar. Justin desamarrou a capa e abriu-a para o seu camarada a poder

inspeccionar. - Espero resolver este incidente sem derramamento de sangue.

Titus remexeu nos objectos contidos no fardo.

- Estão armados! - retorquiu, com firmeza. - Não posso permitir a entrada a bárbaros armados.
É a minha cabeça que está em jogo... e também a considero da maior

importância!

Justin virou-se para mim e declarou:

- O vosso rei tem de concordar em entregar as armas.

Fiz sinal a Harald para se nos juntar e expliquei-lhe rapidamente as condições para a entrada
no palácio. Fez uma careta e abanou a cabeça com uma expressão perigosa,

respondendo:

- Nay! Não entrarei desarmado! Prefiro queimar o palácio. Diz-lhe isso.


Virei-me para Justin e disse-lhe:

- Lorde Harald pergunta quais as garantias de que não será atacado se ele e os seus
entregarem as armas.

Justin, que vira o movimento do queixo do rei, dirigiu-se ao outro guarda. Conversaram um
com o outro por instantes após o que Justin me mandou aproximar.

- O meu amigo Titus pede que digas ao teu rei que, no interior do recinto do palácio, a força
bruta foi substituída pelas influências e pelas negociações. Não somos

bárbaros. Se o teu rei quer conversar com o Imperador, então terá de deixar as armas e
avançar em paz.

Transmiti a frase a Harald que analisou a situação por instantes e acabou por perguntar:

- Será uma armadilha?

- Não me parece, jarl Harald - declarei. - De qualquer modo, continuas a ter o quaestor como
refém. A vida dele e dos seus homens permanecem nas tuas mãos quer estejas

ou não a empunhar uma espada. Na verdade, se queres cobrar a tua dívida de honra, penso
que terás de fazer a vontade a estes guardas.

- Assim farei - replicou o monarca, tomando uma decisão rápida.

- Muito bem - declarou Titus quando lhe transmiti o assentimento de Harald. - Diz-lhe para
entregarem as armas.

292

O monarca ordenou aos dinamarqueses que entregassem os machados espadas e maços-de-


guerra aos soldados, para serem guardados, o que fizeram no meio de muitos resmungos

e desconfianças. Contudo, reparei que as pequenas facas que os Lobos do Mar usavam junto
ao corpo - debaixo dos cintos ou nas botas - não se encontravam entre as

armas entregues aos guardas. A seguir, Justin deu instruções a Titus a respeito da prevista
chegada dos bárbaros com o penhor. Resolvida essa questão, o scho-larae

Titus fez sinal aos porteiros, que se desviaram para o lado e abriram o enorme portão,
permitindo-nos passar rapidamente, deixando os pedintes e o ruído para trás

das costas.

Uma vez no interior das muralhas, descobrimo-nos no que parecia ser num enorme jardim na
extremidade de uma comprida alameda flanqueada por árvores. Altas muralhas
dividiam o recinto do palácio em secções mais pequenas pelo que, para onde quer que nos
virássemos, os nossos olhos deparavam com as vastidões vazias de uma ou outra

muralha. Aqui e acolá, por cima delas, viam-se os ramos de árvores e os topos arredondados
de cúpulas, muitas delas encimadas por cruzes.

O solo erguia-se suavemente, como se o palácio do Imperador se encontrasse situado no alto


de uma colina com vista para o Mar de Mármara, cujo tom azul reluzia ao

longe, para sul. Conduzidos por Justin, o nosso variado grupo, que agora era composto por oito
bárbaros, nove guardas, Justin, Titus e eu próprio, encaminhou-se

na direcção de outra muralha em que se via um portão suficientemente grande para deixar
passar, lado a lado, quatro homens a cavalo. Para além disso, por cima daquele

enorme portão fora construída toda uma casa onde viviam os guardas e os porteiros.

Passámos esse portão e entrámos noutro jardim com mais alamedas de mármore flanqueadas
por árvores. Havia pequenos amontoados de construções espalhadas ao acaso

naquele complexo interior, que incluíam cozinhas, armazéns, habitações de vários tipos e
várias grandes capelas. Os edifícios eram quase todos de pedra, de um belo

mármore colorido vindo das pedreiras de todo o Império, e na sua maioria tinham janelas
cobertas com vidros, mas não só, porque a maior parte também ostentava azulejos

coloridos em azul e verde colados à zonas superiores, pelo que a inclinação do Sol fazia com
que os topos dessas habitações brilhassem como jóias.

Avistei seis belos cavalos negros a pastarem nas ervas, soltos e sem qualquer vigilância.
Quando fiz um comentário a esse respeito, Justin limitou-se a responder

que o Imperador, um antigo moço de estábulo, gostava dos seus cavalos.

293

Não há dúvida de que o próprio Céu tocou neste lugar com a sua glória, pensei. A
magnificência daquele sítio causava inveja a todo o mundo e quase não queria acreditar

que caminhava nos seus jardins.

Dentro do recinto existiam nada menos do que quatro palácios e três capelas adicionais.
Enquanto caminhávamos, Justin foi-me explicando o que eram.

- Aquele é o Octógono - disse, apontando uma das estruturas. - São os aposentos privados do
Imperador. Além... - declarou, referindo-se a outro imponente palácio
- é o Panteão, que é utilizado pela Imperatriz e pelas mulheres da corte. Ali está o Palácio
Daphne e ao lado encontra-se a Igreja de Santo Estêvão.

- E aquele além, o que é? - perguntei, apontando um grande edifício de pedra com uma tripla
cúpula de telhas vermelhas que se destacavam por cima das copas das árvores.

''- É o Palácio Triconchus - replicou o guarda. - Contém a nova sala do trono, construída por
Teófilo. Contudo, o Imperador prefere a velha sala do trono, instalada

no salão do Chrysotriclinium. - Indicou mais um edifício enorme, construído em pedra amarela.


- É para lá que vamos.

- E o que é aquilo, por trás daquela alta muralha? - interroguei-me, apontando para lá do salão
do trono.

- Aquilo, meu amigo... - respondeu Justin com um sorriso - é o Hipódromo. Se sobreviverem a


este dia, então talvez possam assistir às corridas de cavalos que ali

têm lugar. O Imperador é um grande apreciador de cavalos, como já disse, e também gosta de
corridas.

O jarl Harald, desconfiado da minha conversa com o guarda, grunhiu para mim e exigiu que
traduzisse ou que ficasse calado. Disse-lhe que Justin me estava a informar

a respeito do apreço que o Imperador tinha pelas corridas de cavalos. Harald fez uma careta
de desprezo e afirmou:

- Os cavalos são dispendiosos e comem demasiado.

O conjunto de belos edifícios e de jardins era espantoso. O recinto interior, por si só, era
muitas vezes maior do que toda a Abadia de Kells. Em breve perdi todo

o sentido de orientação ao ver-me confrontado com tantas muralhas e edifícios. Continuámos


a andar, passando por portões e entradas que pareciam que nunca mais acabavam,

e comecei a tomar consciência de um pormenor que até ali me escapara: o Grande Palácio, por
baixo do lustro aparente, entrara em decadência.

Apesar de todas as suas riquezas, o recinto tinha um ar de fadiga. Era como se os edifícios
estivessem velhos, cansados e tristes por baixo da

294

patina da opulência. O brilhante fogo do seu esplendor inicial apagara-se e estava reduzido a
um leve clarão. O caminho sob os nossos pés era de mármore branco mas
as dispendiosas pedras encontravam-se descoloridas e rachadas, com tufos de ervas a
crescerem por entre as fendas. As cruzes de bronze por cima das capelas tinham

um tom verde-baço, e não dourado, e faltavam muitos azulejos às fachadas coloridas. Para
além disso, também havia várias árvores mortas ao longo do caminho.

Aqui e acolá, como que para contrariar a aparência decrépita, os pedreiros atarefavam-se no
alto de andaimes de madeira, restaurando secções danificadas de alguns

edifícios e renovando as fachadas e tectos de outros. Na verdade, quando se prestava atenção,


o principal som que se ouvia era o dos martelos a baterem nos cinzéis.

O caminho de mármore terminava num grande edifício quadrado de pedra amarela-clara, que
suportava uma enorme cúpula flanqueada por duas outras mais pequenas. Havia

duas árvores plantadas de cada lado da entrada em arco, árvores essas que, sob a fraca luz do
Outono, projectavam pálidas sombras azuis sobre um adro pavimentado.

Directamente em frente da porta via-se uma fonte de pedra com a forma de uma taça, e foi aí
que nos detivemos.

- Diz ao vosso rei que pode escolher dois homens para virem connosco - disse Titus,
esclarecendo que os restantes deveriam esperar à entrada, com os guardas. - Um

dos meus guardas irá avisar-nos quando os outros chegarem com o penhor.

Transmiti estas instruções ao rei, que escolheu Hnefi e Gunnar para o acompanharem e deu
instruções aos outros para atacarem e incendiarem o palácio se ouvissem

o seu grito de guerra. Os Lobos do Mar juraram fazê-lo e deitaram-se nas ervas, à espera.
Justin olhou para mim e perguntou:

- Têm a certeza de que querem continuar? Se o fizerem, podem ter muito a perder...

. Lancei uma olhadela para Harald, que dominara rapidamente todo o seu espanto. Não seria
preciso muito para que começasse novamente a calcular, em sangue, o valor

da ofensa que lhe fora feita.

- Também podemos ter muito a ganhar... - respondi. - Por isso mesmo, continuaremos... e
veremos onde o caminho nos irá levar...

- Olha, vai levar-vos para ali... - replicou, indicando a maciça porta central por baixo dos altos
arcos de pedra. - É por trás destas portas que bate o coração

do Império.

TRINTA E UM
Titus avançou e bateu na porta com a sua vara de bronze. Um instante depois entreabriu-se
uma pequena porta dentro da porta grande e vimos um porteiro a espreitar.

- Sou o scholarae Titus, Chefe da Guarda da Porta Bucoleon, e trago emissários para o
Imperador.

O porteiro olhou para os bárbaros, encolheu os ombros e abriu a porta. Titus fez-nos sinal para
o seguirmos e fomos admitidos num pátio pavimentado com os quatro

lados rodeados por altas muralhas. Tinha frondosas vinhas a crescerem pelas paredes mas as
suas folhas já haviam ganho cor e começavam a cair. A brisa remoinhava

no pátio, fazendo estralejar as folhas contra as pedras do pavimento, e esse som dava-nos a
sensação de que nos encontrávamos num lugar desolado e vazio.

O porteiro fechou a porta por trás das nossas costas e conduziu-nos para uma outra, numa das
muralhas. Também era de madeira mas estava fortemente reforçada por

espessas faixas de ferro da largura da mão de um homem, cravadas com grandes pregos de
bronze. Os guardas com capas azuis e lanças com lâminas longas que se encontravam

de cada lado dessa porta miraram-nos com uma curiosidade aborrecida. O porteiro agarrou
num anel de ferro e empurrou um dos grandes painéis, abrindo-o. Chegou-se

para o lado e fez-nos sinal para avançarmos.

Agora que já cumprira o que prometera, Titus deixou-nos entregues à nossa sorte.

- Vou voltar para o portão e enviar-vos-ei o penhor assim que chegar - disse, dirigindo-se a
Justin, para logo se afastar.

A sala em que entrámos era imensa. A luz entrava por quatro janelas circulares e iluminava
quatro grandes quadros, um de São Pedro, um de São Paulo e dois outros

que, a julgar pelos trajes púrpura, eram de personagens reais. Representavam um homem e
uma mulher e pensei que deveria tratar-se de um imperador e de uma imperatriz,

embora nem sequer

296

imaginasse quem poderiam ter sido. As paredes tinham um tom vermelho-claro e o pavimento
era de mármore branco.

A sala estava nua de mobiliário, excepto no que se referia a uns quantos bancos baixos
dispostos ao longo das paredes norte e sul, mas não se encontrava vazia porque
havia ali um bom número de homens que envergavam os mais variados trajes. Alguns
conversavam baixinho, entre si, enquanto os outros se limitavam a olhar. Viram-nos

entrar e lançaram-nos miradas aguçadas e pouco convidativas. Entre eles viam-se homens com
o aspecto lívido e desesperado das pessoas que passaram longos anos na

prisão. Contudo, outros pareciam astutos e calculistas, como se estivessem a avaliar o nosso
valor potencial. Todavia, a visão de três bárbaros e de um monge esfarrapado

pelas viagens, com um guarda a reboque, não os impressionou e voltaram rapidamente a


prestar atenção aos seus próprios assuntos.

A sala, não obstante as dimensões, era abafada, com uma atmosfera pesada, bafienta e
ligeiramente ácida. Pensei que, se a ambição tivesse cheiro... então era isso

o que eu estava a cheirar naquele momento.

No centro da antecâmara erguia-se um par de grandes portas de bronze com o dobro da altura
de um homem e cobertas com imagens de cavaleiros a perseguirem a caça.

No meio de cada uma dessas portas havia um enorme anel de bronze, por baixo do qual se
encontrava um homem empunhando um machado-de-guerra de dois gumes com um
comprido

cabo. Tinham crinas de cavalo vermelhas presas aos cabos dos machados, transportavam
pequenos escudos redondos aos ombros e usavam túnicas vermelhas, sem mangas,

seguras com cintos negros. Usavam os cabelos rapados, excepto no que se referia a uma única
madeixa que lhes caía para as têmporas. O aspecto que apresentavam ao

mundo era na verdade feroz, e todo os que abriam a boca dentro daquela sala ficavam sujeitos
ao seu impiedoso escrutínio.

Reparando no meu olhar, Justin disse:

- Aqueles são os farghanese, que fazem parte da guarda pessoal do Imperador.

Acabara de me dar aquela explicação quando fomos abordados por um funcionário que
segurava numa placa de cera e num estilete. Olhou para mim com um ar desdenhoso

e observou os bárbaros antes de se virar para o Chefe da Guarda.

- Quem são estes e o que estão aqui a fazer? - perguntou.

- Este homem é rei do seu povo e veio em busca de uma audiência com o Imperador.

297
- Hoje já não haverá mais audiências com o Imperador - replicou a pomposa personagem.

- Com todo o respeito, prefeito, ocorreram alguns problemas no porto...

- E são problemas... - fungou o prefeito - que requerem a atenção do Imperador? Pensei que
esses assuntos eram da responsabilidade da guarda do Imperador.

- Estes homens tomaram reféns, nas pessoas do quaestor do Porto de Hormisdas e do seu
pessoal - replicou Justin. - Qualquer intervenção por parte da guarda resultará

na morte de todos os envolvidos. Como sou apenas um scholarae, não tenho autoridade para
pôr a vida do quaestor em perigo. Contudo, se desejardes ser vós a tomar

essa decisão, vergar-me-ei perante a vossa superioridade.

O funcionário, que se preparava para escrever qualquer coisa na placa de cera, levantou a
cabeça e olhou para Justin. A seguir virou-se para os bárbaros, pesou os

prós e os contras e tomou uma decisão.

- Guardas! - gritou.

Os dois farghaneses ouviram o grito do prefeito e avançaram rapidamente. Harald rugiu uma
ordem, os Lobos do Mar puxaram pelas facas e prepararam-se para enfrentar

o ataque. Os cortesãos que se encontravam mais próximos levantaram as mãos e fugiram para
todos os lados no meio de uma grande agitação.

- Parem! - ordenou Justin. Agarrou-me por um braço e gritou: - Fá-los parar! Diz-lhes que é um
engano! - A seguir virou-se para o prefeito: - Queres que nos matem

a todos? Manda-os parar!

Atirei-me para a frente de Harald e disse-lhe:

- Espere! Espere! É um engano! Mande guardar as vossas lâminas, jarl Harald!

- Avisei-vos que o assunto era sério! - murmurou Justin para o prefeito. - Por amor de Deus,
homem, deixe que seja o Imperador a lidar com estes homens!

O prefeito pareceu reconsiderar a sua acção apressada. Pronunciou uma palavra e os


farghaneses descontraíram-se, voltaram a assentar os cabos dos machados no chão

e o perigo passou.

Sacudindo os trajes com gestos muito agitados, o prefeito olhou em volta como um amo que
acabasse de descobrir os servos a discutirem.

- Vou fazer queixa de si, scholarae. O senhor sabe muito bem qual é a conduta apropriada... -
declarou, num tom ácido. - Não preciso de lhe recordar que os protocolos

oficiais existem precisamente para estas


298

ocasiões. Sugiro que se vá embora daqui imediatamente e que leve os bárbaros consigo.

- Sim, prefeito. E quanto ao quaestor?

O homem baixou os olhos para a placa e comprimiu o estilete contra a cera macia.

- Como já lhe disse, o Imperador não recebe ninguém. Está a preparar uma embaixada a
Trebizonda e vai passar os próximos dias na companhia dos seus conselheiros.

Todos os assuntos da corte foram suspensos. Por isso, aconselho-o a apresentar as suas
preocupações ao magister officiorum...

- Segundo sei, o magister está na Trácia... -- salientou Justin - e não se espera que volte à
cidade antes da Missa de Cristo.

- Quanto a isso, nada posso fazer - respondeu o prefeito, manejando o estilete contra a cera
com gestos hábeis. - De qualquer modo, é o melhor conselho que lhe posso

dar. - Levantou os olhos para mim e para os dinamarqueses e acrescentou: - Isso irá dar-lhes
algum tempo para se lavarem e vestirem convenientemente.

Transmiti as palavras do prefeito a Harald, que se limitou a grunhir:

- Não vou esperar - declarou, avançando e retirando uma moeda de ouro do cinto.

Segurando na placa, Harald comprimiu a moeda de ouro contra a cera. O prefeito olhou para o
dinheiro e para Harald e passou os seus compridos dedos por cima da moeda.

Quando se preparava para fechar os dedos sobre o ouro, Harald segurou-o pelo pulso e
apertou-lho com força. O prefeito soltou um grito de surpresa e deixou cair

o estilete. Harald apontou calmamente para a entrada.

- Creio que lhe está a dizer que quer ver o Imperador... agora mesmo! - comentou Justin.

Os farghaneses avançaram mais uma vez para defenderem o prefeito mas o homem agitou a
mão livre para os afastar.

- Em nome de Cristo, abram as portas! - ordenou-lhes.

Os dois guardas chegaram-se para o lado e puxaram pelos anéis de bronze. As portas abriram-
se e Harald largou a mão do funcionário. O prefeito conduziu-nos a uma

pequena sala com biombos, o vestibulum, onde veio imediatamente ao nosso encontro um
homem com um comprido traje branoo, que empunhava um fino bastão de prata e
a que chamavam magister sacrum. O homem, que nos mirou com severidade, era alto,
macilento, tinha cabelos grisalhos e um rosto muito marcado e cheio de cicatrizes.

299

- Qual é o significado desta indecorosa intrusão? - perguntou.

- Houve problemas no Porto de Hormisdas... - respondeu o prefeito - e estes homens foram os


responsáveis. O assunto exige a atenção do Imperador.

O magister fez uma careta como se lhe cheirasse a algo muito desagradável.

- Não abrirão a boca até que falem convosco... - entoou, dirigindo-se aos visitantes indesejados
- e as vossas respostas deverão ser tão sucintas quanto possível.

Quando se dirigirem ao Imperador poderão tratá-lo pelo seu título oficial, basileu, ou por
soberano senhor. Qualquer das duas designações é aceitável. Para além

disso, os visitantes devem desviar os olhos quando não estiverem a falar com ele.
Compreenderam?

Harald olhou para mim, em busca de explicações e transmiti-lhe as regras impostas pelo
magister. Para minha surpresa, o monarca exibiu um grande sorriso ao ser informado

a respeito das normas do protocolo bizantino. Soltou um "Heya!" verdadeiramente sincero e


deu uma palmada nas costas do magister com a sua enorme mão.

Contudo, o cortesão conservou a sua rigorosa dignidade e conduziu-nos para o salão do


Imperador sem pronunciar mais uma palavra. Saímos do vestíbulo e entrámos num

salão sem igual em todo o mundo. O espaço por baixo do tecto em cúpula era vasto, alto e
largo, e estava cheio da luz de dez mil velas. As paredes, pavimentos e

colunas eram de um mármore azul-escuro, tão bem polido que as suas superfícies reflectiam a
luz como espelhos. Os nossos olhos deparavam com o brilho do ouro por

todo o lado. Havia ouro entretecido nos panejamentos e nos mosaicos que cobriam as
paredes. Naquela sala, todas as peças de mobiliário e acessórios eram em ouro,

desde as árvores-de-velas às arcas, cadeiras, mesas, taças, jarros e urnas. Até o próprio trono
era de ouro maciço, o que fazia com que toda a sala fosse banhada

pelo brilho meloso do mais precioso dos metais.

Que poderei eu dizer sobre as maravilhas de um tal salão e sobre o seu famoso ocupante? No
centro da vasta sala erguia-se um trono de ouro colocado sobre uma plataforma
com vários degraus, e que se encontrava coberto por uma espécie de tenda feita com um
tecido de ouro. Três degraus - esculpidos em porfirite, segundo me disseram,

e polidos até ficarem lisos como o vidro, davam acesso à plataforma, e era no cimo do degrau
mais alto que jazia o apoio de pés do Imperador. O trono real propriamente

dito, mais sofá do que trono, com duplas costas e suficientemente grande para dois homens se
sentarem nele à vontade, situava-se

300

precisamente por baixo da grande cúpula central. Na abside dessa cúpula resplandecia a
maior imagem que jamais vi, um mosaico do Cristo Ressuscitado, ardente de

glória, tendo por baixo dos pés as palavras "Rei dos tf I Reis" escrita em grego.

Em volta do trono havia uma verdadeira multidão de pessoas dis-' postas em filas compactas.
Conclui que deveriam ser cortesãos de vários tipos, uma vez que quase

todos usavam trajes verdes, ou brancos, ou negros, com a excepção dos farghaneses, que se
encontravam mais perto do trono e que, tal como os guerreiros de guarda

à porta, estavam armados com machados-de-guerra e escudos.

Demos os primeiros passos naquele salão e começamos imediatamente a apercebermo-nos de


uma espécie de sopro de vento, para logo de seguida todo o salão se encher

com os sons incríveis da mais requintada das melodias. Era como uma música tocada
simultaneamente por gaitas-de-foles e por flautas, mas a que tivesse sido adicionado

o som de todas as brisas e ventos que eu escutara ao longo da vida. Sim, também se ouviam os
trovões e tudo o mais que pudesse ressoar sob os céus. Nunca ouvira

uma música assim e nunca mais voltei a ouvi-la. Era, pelo menos assim o penso, o som da
majestade divina tornado audível aos ouvidos . humanos, e que parecia provir

de uma grande arca dourada um pouco atrás e ao lado do trono.

Talvez pudesse ter descoberto mais a respeito da fonte daquela música gloriosa, mas na
verdade só tinha olhos para o trono e para o homem nele instalado. O Imperador

Basil, envergando trajes com um profundo tom púrpura que brilhavam e tremeluziam sob a
luz, permanecia sentado num dos lados do vasto trono e olhava-nos com toda

a frontalidade.

O esplendor do salão e a opulência de tudo o que me rodeava combinaram-se para me


fazerem ganhar consciência da minha própria aparência. Olhei para baixo e reparei,
para meu grande embaraço, que o hábito outrora tão bom estava manchado e rasgado, e que
tinha uma capa suja e esfarrapada nos rebordos. Levei a mão à cabeça, senti

que o cabelo me crescera, que a tonsura necessitava de ser renovada, que a barda estava
emaranhada e suja, e que usava uma coleira de ferro em volta do pescoço.

Em resumo, parecia-me mais com um dos mendigos que enxameavam as muralhas do grande
palácio do que com um emissário da Igreja irlandesa. I' Contudo, não era um emissário.

Na verdade, não era mais do que aquilo que parecia ser, ou seja, um escravo.

Foi desse modo que me apresentei perante o Imperador, não vestido com o traje branco e
com a capa dos peregini, mas sim com farrapos

301

desfeitos por uma longa viagem e com uma coleira de escravo, não na companhia do
abençoado bispo Cadoc, mas sim ao lado de um monarca dinamarquês e pagão. Para além

disso não fora ali para entregar uma dádiva preciosa mas sim para regatear a vida de um
refém.

Ah, a vaidade! Deus, que não tem qualquer utilidade para o orgulho, providenciara para que a
minha postura se mantivesse humilde na presença do seu Vice-Regente

sobre a Terra.

Levantei os olhos mais uma vez e vi-me a enfrentar o rosto do homem mais poderoso do
mundo... que era como o rosto de um macaco inteligente. Contudo antes de conseguir

abarcar inteiramente aquela visão, o magister sacrum ergueu o bastão e fê-lo embater no chão
com toda a força.

Nesse mesmo instante, o trono dourado começou a erguer-se no ar! Juro, por Miguel, o
Valente, que estou a dizer a verdade! O trono, que se parecia com uma cadeira

de acampamento romano, embora fosse muito maior e feito de ouro, ergueu-se no ar e ficou a
pairar na nossa frente... como se tivesse sido levantado pelos sons da

soberba melodia que saía da caixa dourada a que chamavam órgão, tal como vim a saber mais
tarde.

Antes de conseguir compreender o artifício daquela nova maravilha, o magister vestido de


branco bateu mais uma vez no chão com o seu bastão e fez um movimento com

a mão aberta, na horizontal. Justin caiu de joelhos, para logo se prostrar com o rosto virado
para baixo. Segui o exemplo do guarda mas os bárbaros que se encontravam
comigo permaneceram de pé, sem perceberem que insultavam o Imperador. A música
aumentou de tom e calou-se. Sustive a respiração, sem sequer saber porquê.

A voz que ouvi a seguir foi a do próprio Imperador.

- Quem perturba a serenidade destes procedimentos com uma agitação tão imprópria? -
inquiriu. A sua voz era regular e profunda e provinha de um ponto por cima de

nós.

Para meu grande susto, Justin sussurrou:

- É a tua oportunidade, Aeddan. Diz-lhe quem vocês são. Pus-me rapidamente de pé, endireitei
os ombros, engoli em seco e respondi:

- Senhor e Imperador, tendes perante vós o jarl Harald Berro-de-Touro, rei dos Dinamarqueses
da Escandinávia, bem como este seu escravo e dois dos seus muitos guerreiros.

Esta minha saudação foi seguida por um leve sussurro de gargalhadas, que se apagou
imediatamente quando o Imperador murmurou:

- Silêncio!

302

- Basileu... - interveio o magister sacrum, ansioso por se absolver sem parecer irresponsável -
aparentemente, estes homens conseguiram chegar até aqui graças à

perfídia.

- Assim parece. - O Imperador observou os bárbaros e ordenou: - O rei que se aproxime.


Falarei com ele cara a cara.

O funcionário bateu com o bastão no chão e fez sinal ao rei para obedecer. Coloquei-me
imediatamente ao lado de Harald.

- Vai falar contigo - disse-lhe, e avançámos os dois.

O trono flutuante desceu lentamente para a sua base e vimos o Imperador Basil na nossa
frente. Era um homem pequeno e careca, com uma pele cor de azeitona, tal como

a dos seus compatriotas Macedónios, e com os membros curtos e a estrutura compacta de um


soldado de cavalaria. Tinha olhos negros e muito vivos, e as mãos - pousadas

nos braços do trono, com os dedos pendentes por causa do peso dos seus anéis de patriarca -
eram pequenas e elegantes.
- As minhas saudações, Senhor dos Dinamarqueses, em nome de Cristo, Soberano dos Céus -
declarou, estendendo a mão coberta de jóias a Harald, que estava a conseguir

comportar-se com uma dignidade régia.

Justin tocou-me no ombro, indicando que devia transmitir as palavras do Imperador ao rei, o
que fiz, acrescentando:

- Quer que lhe beijes a mão, num sinal de amizade.

- Nay! - replicou Harald. - Não o farei! - A seguir ordenou-me que perguntasse ao Imperador se
estava disposto a oferecer um resgate pela vida do seu servidor, ou

se queria ver o corpo do homem, sem cabeça, a flutuar no porto.

- Que diz ele? - perguntou-me o Imperador. - Podes falar em seu nome.

- Soberano e senhor... - repliquei rapidamente - Harald Berro-de-Touro, jarl da Dinamarca e da


Escandinávia, diz que lamenta não poder observar nenhum gesto de amizade

para convosco até vos ter apresentado o propósito da sua missão.

- Assim seja! - replicou Basil, sem mais delongas. Falou com cordialidade mas as suas maneiras
deram-me a entender que não estava disposto a desperdiçar mais delicadezas

com aqueles rudes bárbaros. - Qual é a natureza das suas preocupações?

- Quer saber o que te trouxe aqui - expliquei, para Harald.

- Então diz-lhe - ordenou o monarca, zangado - que lhe ofereço uma oportunidade para
redimir a vida do ladrão a que chamam Capitão do Porto.

303

- Imperador e lorde... - comecei - o nosso rei deseja informá-lo que tomou como reféns o
quaestor Antonius e os seus homens, e que aguarda agora um resgate pelas

suas vidas. - Prossegui, explicando como tínhamos sido imediatamente enganados pelo
quaestor logo depois da nossa chegada a Constantinopla. - O meu senhor Harald

capturou o Capitão do Porto e pretendia cortar-lhe a cabeça, bem como aos seus homens... -
expliquei - mas o quaestor disse-nos que tinha a certeza que o Imperador

pagaria uma grande recompensa pela sua vida, e foi por isso que o meu senhor Harald, jarl dos
Dinamarqueses da Escandinávia, veio à vossa presença requerer esse

mesmo resgate.
Basil não respondeu. Na verdade, o seu rosto não revelou qualquer reacção, pelo que fiz sinal
a Gunnar para avançar mais uma vez com o seu fardo. Pousei-o no chão,

desamarrei-o e abri a capa vermelha. Ali, à vista de toda a gente, estava o elmo do quaestor, o
bastão do seu cargo e o anel oficial. O Imperador inclinou-se ligeiramente

para a frente, observou os objectos e voltou a recostar-se, dando um ligeiro sinal de agitação.

- Onde está o quaestor Antonius? - perguntou.

- A bordo do navio de Harald, basileu, bem como os seus homens. Virando ligeiramente a
cabeça, o Imperador pediu para chamarem o prefeito. O magister apressou-se

a ir buscá-lo e o homem aproximou-se do trono. Basil virou-se para mim e disse:

- Diz ao teu senhor que vou mandar este homem para trazer o quaestor à minha presença.
Têm de o entregar ao prefeito e só depois poderemos resolver este assunto.

- A seguir ordenou a Justin que acompanhasse o prefeito.

Harald protestou logo que lhe transmiti as palavras do Imperador:

- Nay! - berrou. - O Imperador terá de pagar o resgate se desejar ver o seu homem libertado.
Toda a gente sabe que é assim que as coisas funcionam!

Vi-me forçado a explicar ao basileu que os guerreiros de Harald não libertariam o seu cativo
enquanto o jarl não lhes comunicasse que o resgate fora pago. Falei

com muito mais coragem do que a que sentia e recuei para ver o que aconteceria a seguir.

Contudo, em vez de mostrar desagrado, o basileu limitou-se a acenar e deu ordem ao prefeito
para ir buscar uma taça a uma das mesas. O funcionário assim fez e pegou

numa bela taça de ouro que colocou na frente do trono.

- Entrega-a ao rei - ordenou Basil, após o que o prefeito colocou a taça nas mãos do rei dos
bárbaros.

304

Satisfeito com o peso e com a arte da taça, Harald deu o seu assentimento. Chamou Hnefi e
encarregou-o de acompanhar o prefeito para irem buscar o quaestor.

- Diz aos meus karlar que o resgate foi pago... - declarou Harald, para logo acrescentar, num
sussurro - mas não libertem os homens do ladrão. Esta taça não chega

para pagar as suas vidas.


Os três homens partiram imediatamente e o magister conduziu-nos de volta à antecâmara
onde todos os outros continuavam à disposição do Imperador.

Titus, acompanhado pelos quatro bárbaros a quem Harald mandara regressar ao navio para
trazerem o penhor, surgiu algum tempo depois quando ainda estávamos à espera.

Os recém-chegados vinham cheios de admiração pelas riquezas que haviam visto ao longo do
percurso e quiseram saber quanto fora que o Imperador pagara pela vida do

quaestor.

- É difícil de dizer... - retorquiu Harald alegremente, com o seu tesouro bem escondido por
baixo da capa. - Neste sítio, nada é tão simples como parece...

O magister acabou por aparecer, para nos conduzir de volta à sala do trono. Quando
entrámos, já Justin e o quaestor se encontravam na presença do Imperador.

- Quaestor Antonius... - entoou o Imperador num tom grave, quando regressámos aos nossos
lugares - já fomos informados a respeito de algumas das tuas actividades

mais recentes. Tens alguma coisa dizer a esse respeito?

- Soberano e senhor... - respondeu Antonius imediatamente, com uma voz e uma expressão de
puro desafio - estes homens cometeram um erro grave. Como não tinham conhecimentos

sobre o valor das moedas de Constantinopla, calcularam erradamente o valor das suas
próprias moedas e agora pensam que foram enganados.

- É uma explicação razoável... - respondeu o Imperador com suavidade. Contraiu os lábios


como se estivesse mergulhado em pensamentos, entrelaçou os dedos das mãos

e levou-as ao queixo. Só voltou a falar alguns momentos depois e dirigiu a sua pergunta para
Harald.

- A taxa do porto é paga em prata. Têm mais moedas iguais às que entregaste ao quaestor
Antonius?

- Tenho, sim - replicou Harald, através de mim. Puxou pela bolsa que tinha no cinto, abriu-a e
despejou alguns denánios de prata na mão.

Passou-os ao Imperador, que examinou as moedas rapidamente, escolheu uma e comentou:

305

- Não foram cunhadas em Constantinopla... mas creio que estas moedas são muito vulgares,
tanto aqui como em todo o lado. - Mostrou a moeda a Harald e perguntou:
- Qual é o seu valor?

- Cem dos vossos nomismi - replicou o monarca dinamarquês quando lhe traduzi a pergunta.

- E quem te disse isso? - inquiriu o Imperador tranquilamente.

- Aquele homem. - Traduzi as palavras do rei e Harald apontou para Justin. - Na verdade, se
não fosse a ajuda do scholarae, não tenho dúvidas que teria havido derramamento

de sangue e perda de vidas. - Tratou-se de uma afirmação que eu próprio acrescentei por
pensar que era importante que o papel de Justin também fosse reconhecido.

O Imperador limitou-se a acenar e continuou a examinar as moedas. Levantou uma e


perguntou:

- E tu, que me dizes, quaestor Antonius? Qual é o valor desta moeda?

- Cem nomismi, basileu - respondeu Antonius, rígido.

- Muito bem... - comentou Basil, com um sorriso. -Já resolvemos a questão do valor. - Virou-se
para o Capitão do Porto e afirmou: - Harald, rei da Escandinávia,

apresentou uma queixa contra ti, Antonius. Afirma que deste um valor de dez nomismi a cada
denário. É verdade?

- Exaltado basileu... - replicou o quaestor- não foi assim. Um erro desses era impossível. O
bárbaro deve estar enganado.

- Então, a culpa é toda do rei... - murmurou Basil, contraindo os lábios.

- Lorde e Imperador... - respondeu o quaestor, adoptando um tom mais razoável - não estou a
lançar culpas sobre ninguém. Na verdade, penso que ninguém é culpado.

Os costumes de Bizâncio podem ser confusos para alguém que chegou há tão pouco tempo. Já
lho expliquei, mas o bárbaro prefere não acreditar na minha explicação.

- Pronto... - disse o Imperador, abrindo as mãos como se estivesse satisfeito por ter
conseguido finalmente resolver aquele mistério. - Tratou-se de um simples erro

de cálculo. Como não resultou daí qualquer mal, ficamos satisfeito por podermos encerrar esta
questão e enviar-vos de volta aos vossos assuntos, com os nossos melhores

desejos de boa sorte. - Fez uma pausa, para observar o efeito das suas palavras. - Desculpamos
a vossa ignorância, tal como perdoamos a perturbação da nossa paz.

Devolvam-me a taça e não se falará mais neste assunto. Que me dizem?

O rosto de Harald ensombrou-se quando lhe transmiti o que Capitão do Porto dissera e lhe
expliquei as palavras do Imperador.
306 - Com todo o respeito, jarl Harald, o imperador está dar-te uma oportunidade para
retirares a queixa sem incorreres na ira do Império. Ao que parece, o julgamento

virou-se contra ti.

- Fala-lhe no penhor - ordenou-me Harald.

- Lorde e soberano... - comecei, sentindo a apreensão a invadir-me - Harald, rei dos


Dinamarqueses, trouxe um penhor que gostaria de vos apresentar em consideração

pela sua queixa.

A afirmação voltou a despertar o interesse do Imperador.

- Há mais bárbaros à espera na antecâmara, basileu... - informou o prefeito. - Deverei admiti-


los?

- Sem dúvida, prefeito - declarou o Imperador. - Ao que parece, vamos ser inundados por
bárbaros enquanto o assunto não for resolvido.

Alguns dos cortesãos riram-se educadamente e o prefeito apressou-se a ir convocar os


restantes dinamarqueses. As portas de bronze abriram-se alguns momentos depois

e os quatro Lobos do Mar surgiram do vestíbulo, com dois eles a carregarem o cofre de
tesouro com a tampa em bico. Avistei o cofre e o meu coração bateu mais depressa.

Os dinamarqueses aproximaram-se de Harald e colocaram o cofre a seus pés.

- Bom...? - disse o Imperador, impaciente.

- Basileu... - respondi, esforçando-me por afastar os olhos do cofre - Harald, rei dos
Dinamarqueses, coloca perante vós a sua garantia de honra quanto a esta questão.

- Ah, sim? - Com um mero movimento do pulso, Basil chamou o magister, que abriu a tampa
do cofre e pôs à vista - que Jesus me ajude!

- a cumtach de prata. Claro que Harald tinha de entregar aquilo como penhor de fé e
honestidade! O livro desaparecera mas, mesmo assim, a capa sagrada descobrira

o seu caminho até ao Imperador. Contudo, não fora daquele modo que imaginara a sua
entrega...

O funcionário ajoelhou-se, extraiu a preciosa capa do seu local de repouso e colocou-a aos pés
do Imperador, mantendo-se sempre sobre os joelhos dobrados. Basil

inclinou-se para a frente, permitiu que os seus olhos imperiais pousassem no requintado
trabalho da prata e nas jóias da capa. Nesse momento, Harald avançou e colocou

a taça de ouro do Imperador ao lado da cumtach de prata.

- Vemos que dás um grande valor à tua palavra, rei dos Dinamarqueses - afirmou o Imperador.
O quaestor olhava com incredulidade para aquele tesouro e imaginei que estivesse prestes a
renegar a sua versão dos acontecimentos... mas o momento passou e o Capitão

do Porto manteve a boca firmemente fechada.

307

- Magister! - chamou o Imperador, fazendo sinal ao funcionário para se aproximar. Murmurou-


lhe qualquer coisa junto ao ouvido e o homem acenou e afastou-se, saindo

da sala a recuar.

- Iremos saber a verdade muito em breve... - declarou Basil, acrescentando logo de seguida: -
... se for essa a vontade de Deus.

TRINTA E DOIS

O Imperador ordenou que a música tocasse e escutámos novamente as notas do maravilhoso


órgão que tínhamos ouvido quando da nossa entrada na sala. Esperámos, encantados

com os sons celestiais daquele extraordinário instrumento. Contudo, a pouco e pouco, os


dinamarqueses foram revelando a sua inquietação. Pouco acostumados a passarem

tanto tempo sem gritar, beber ou lutar, começaram a mudar o peso do corpo de um pé para o
outro, no meio de uma agitação crescente.

- Quanto tempo vamos ter de ficar aqui, de pé? - inquiriu Harald, num tom muito alto.

- Paz, jarl Harald - respondi, procurando acalmá-lo. - Creio que o Imperador pôs um plano em
prática...

Calou-se, mas não sem soltar um grunhido, e contentou-se em observar todo o ouro que se
encontrava à vista. Hnefi e Gunnar conversavam abertamente sobre a comichão

que os seus dedos sentiam por se encontrarem tão perto de tais riquezas... e por se verem
impossibilitados de roubar qualquer coisa para eles próprios. Podia ter-me

sentido embaraçado com aquela conversa, mas na verdade não me fez diferença porque
ninguém mais entendia o que os bárbaros diziam.

O Imperador, pelo seu lado, fingiu não reparar no grosseiro comportamento dos seus
hóspedes bárbaros. Recostou-se no trono, cruzou as mãos sobre o estômago e fechou
os olhos. Contudo, quando eu já pensava que devia estar a dormir, o Imperador endireitou-se
e ordenou:

- Escravo, aproxima-te.

Não havia escravos por perto, pelo menos que eu pudesse ver. Por isso mesmo, apanhou-me
de surpresa quando levantou a mão e me chamou.

- Perdoa-me, basileu... - murmurei, dando um hesitante passo em frente.

O Imperador fez sinal para que me aproximasse ainda mais e estendeu a mão para que lha
beijasse. Respeitei aquele costume e fiquei

309

parado na sua frente, com os olhos baixos, tal como vira o magister a fazer.

- Apercebemo-nos de que és um homem com conhecimentos... - declarou Basil. - Como é


possível que sejas escravo destes bárbaros?

- Lorde Imperador, participava numa peregrinação com os meus irmãos monges quando o
nosso navio foi atacado pelos Lobos do Mar... - Expliquei-lhe brevemente como

havíamos sobrevivido ao naufrágio do navio e encontrado a povoação gaulesa. Concluí,


dizendo: - A povoação foi atacada nessa mesma noite e fui tomado como cativo.

- Apontei a cumtach que descansava no cofre, aos pés do trono, e acrescentei: - Outrora, esta
capa de prata que hoje vos foi oferecida como penhor... era nossa.

- Ah, sim? - interrogou-se o Imperador. - E os teus irmãos sacerdotes? Que foi feito deles?

-- Soberano senhor... - respondi - quem me dera saber! Acontece que esperava que fosse o
Imperador a dizer-mo.

Basil olhou-me com uma estudada expressão de espanto.

- Esperavas que te pudéssemos dizer? - repetiu, com uma gargalhada. - Embora os


conhecimentos do Imperador a respeito do Império sejam exaustivos, não são de modo

nenhum infinitos. O que levou um homem com os teus conhecimentos a pensar que te
poderíamos dar uma explicação para um tão obscuro acontecimento?

- Perdoe a minha presunção, basileu... - retorqui - mas a peregrinação de que estou a falar era
a Constantinopla. Tratava-se, de facto, de vos pedir uma audiência

e de vos presentear com uma dádiva simultaneamente rara e preciosa.

- Ah, sim? - O Imperador declarou-se fascinado e ordenou que me explicasse melhor. -


Conseguiste captar o interesse dos ouvidos imperiais, ousado sacerdote... pelo
menos até ao regresso do magister. Conta-nos mais coisas dessa história maravilhosa.

Durante todo o meu tempo de cativeiro nunca me atrevera a pensar, nem sequer por
capricho, que viria a encontrar-me perante o Imperador, a entretê-lo com o relato

das minhas desventuras. Todavia, estava ansioso por me informar sobre a sorte dos meus
irmãos e foi por isso que falei, pondo de lado todo o nervosismo. Referi-me

à abadia de Kells e à criação do livro. Narrei-lhe como haviam sido escolhidos os treze que
iriam fazer a peregrinação, todos os preparativos para a viagem e a tempestade

que nos arrastara através dos mares e nos colocara no caminho dos Lobos do Mar.

310

Parti do princípio de que a peregrinação prosseguiria sem mim... - afirmei. - Porém, se o


Imperador me disser que não os recebeu, terei de concluir que os amigos

voltaram para trás ou que foram mortos no ataque, tal como receei.

O Imperador Basil ficou calado por instantes, a pensar, e depois perguntou-me:

- Qual é o teu nome, sacerdote? - Soberano senhor... - respondi - chamo-me Aidan mac
Cainnech.

- Aidan, entristece-me ter de te dizer que os teus irmãos sacerdotes nunca chegaram a
Constantinopla. Nunca estiveram na nossa presença. Bem desejaria que as coisas

tivessem corrido de outro modo porque, a julgar apenas pela capa, seria uma dádiva
merecedora de veneração e um tributo à devoção do vosso mosteiro. Lamentamos muito.

O magister sacrum regressou naquele momento e o Imperador convocou-o. Preparei-me para


me afastar mas o Imperador disse-me:

- Fica, sacerdote - e foi assim que permanecia ao lado do trono.

- Basileu - declarou o magister, os komes já regressaram.

- Vai buscá-los - ordenou Basil. O magister retirou-se e o Imperador exibiu um sorriso astuto e
afirmou: - É agora que iremos ver que espécie de verme apanhámos...

O magister reapareceu, conduzindo três homens jovens, todos vestidos do mesmo modo.
Usavam longas túnicas justas em tons de amarelo e azul, com mangas largas, calções

amarelos com as pernas enfiadas nas botas altas e tinham espadas curtas, com punhos de
ouro, suspensas dos cintos. O que vinha à frente, delgado como uma espada,
com cabelos pretos e feições aguçadas e perfeitas, avançou rapidamente para o trono e
prostrou-se.

- Levanta-te, Nikos - disse o Imperador, reconhecendo o cortesão. - Levanta e relata-nos, na


presença de toda esta ilustre assembleia, o que foi que descobriste.

- Basileu... - respondeu o homem chamado Nikos, depois de se pôr de pé - segundo parece, o


nosso quaestor tem sido um homem muito industrioso e ricamente abençoado

por Deus em todos os seus negócios.

- Sim? Então esclarece-nos... - O Imperador desviou os olhos do cortesão e pousou-os no rosto


preocupado do Capitão do Porto.

O komes Nikos, um jovem de cabelos escuros com olhos negros e inteligentes num rosto
macio e simpático, fez um sinal e mandou avançar os outros dois cortesãos que

haviam entrado com ele e que transporta-

311

vam um grande vaso de barro. Nikos pegou no vaso, ergueu-o e manteve-o no ar.

- Lorde e Imperador, com Deus e estes homens como testemunhas, afirmo que este vaso foi
encontrado na casa do quaestor Antonius - anunciou, com a voz a tremer-lhe

ligeiramente por causa do esforço, uma vez que o vaso parecia ser pesado. - Com a vossa
autorização, basileu...

O Imperador acenou e Nikos deixou cair o vaso. O recipiente de barro embateu no polido chão
de mármore e desfez-se em bocados, libertando uma cascata de ouro e de

prata formada por centenas de solidi de ouro e denários de prata que se espalharam pelo
pavimento.

Nikos baixou-se, encheu as mãos com as moedas e deixou-as escorrer por entre os dedos.

- Sinto-me intrigado, basileu... - declarou. - Ou o nosso estimado quaestor é um homem muito


frugal, ou é muito desonesto. - Olhou para o rosto cor de cinza do quaestor.

- Gostaria de saber como adquiriu tais riquezas.

- Quaestor Antonius... - ordenou o Imperador - avança e explica-nos como obtiveste tantas


riquezas, uma vez que estamos persuadidos que um homem com um salário de

dois solidi por ano nunca poderia acumular tanto dinheiro. Talvez tenhas vendido
propriedades? - sugeriu Basil, num tom razoável. - Talvez tenhas apostado numa corrida?
Ou ter-te-ão entregue o dinheiro do festival, para que o guardasses?

Taciturno, Antonius olhava para o dinheiro espalhado pelo chão.

- Não tinhas o direito... - murmurou para o cortesão.

- O decreto do Imperador deu-me esse direito - replicou Nikos, sucinto. As suas maneiras eram
as de um homem que sentia uma imensa satisfação mas que fazia um grande

esforço para a conter.

- Estamos à espera, quaestor Antonius... - insistiu o Imperador, levantando a voz. - Como


obtiveste este dinheiro? Exigimos uma resposta.

Antonius conseguiu erguer a cabeça não obstante o seu aspecto abalado e receoso.

- Soberano senhor, o dinheiro que foi encontrado em minha casa é uma herança de família.
Entrou na minha posse aquando da morte do meu pai, há oito anos.

- Não há duvida de que provéns de uma família muito rica, quaestor Antonius - comentou
Nikos com um tom insinuante e acusador. - Pelo aspecto dessa pilha, o teu

pai devia ser proprietário de metade de Pêra.

- O meu pai era um astuto homem de negócios - admitiu Antonius. - Todos o sabem.
Perguntem a alguém que tenha lidado com ele.

312

- Sem dúvida que era astuto - declarou Nikos. Voltou a baixar-se para a pilha e agarrou numa
mão-cheia de moedas. - Parece ter poupado muito para o futuro... e também

no futuro. Ora repara! - exclamou, levantando uma moeda. - Este solidus foi cunhado apenas
no ano passado... e este é do ano anterior. De facto... - remexeu nas

moedas que tinha na mão, examinando-as atentamente - agora que olho bem para eles, não
consigo encontrar um único solidus com mais de três anos. No entanto, dizes

que os recebeste há oito anos.

- Tenho andado a trocar os novos pelos velhos - explicou Antonius, com presunção. - Prefiro as
moedas novas porque têm um peso mais uniforme.

O escorregadio quaestor parecia estar a safar-se. A sua explicação, embora fosse difícil de
acreditar, não deixava de ser plausível. Mais importante ainda era o

facto de não poder ser desmentida. Sem dúvida que antecipara mil vezes aquele dia e
preparara bem a sua história.
Olhei para as moedas no chão... e foi como se visse a cumtach de prata nas mãos do pouco
honesto quaestor. A prata!

- Soberano senhor... - comecei, surpreendendo-me a mim mesmo com a minha acção


precipitada - se me permitirdes que fale...

O Imperador acenou lentamente, sempre com os olhos postos no quaestor.

- Há moedas de prata no meio do ouro. Talvez também possam ser examinadas... - Debrucei-
me e estendi a mão para o monte de moedas.

O komes Nikos deteve-me. Segurou-me pelo pulso e declarou:

- Permite-me que te ajude, meu amigo... - Embora falasse de uma maneira educada, o aperto
no meu pulso era significativo e não havia qualquer simpatia nos seus olhos.

Recuei, permitindo ao cortesão remexer na pilha em busca dos denários de prata. Conseguiu
uma mão-cheia em pouco tempo e virou-se para mim.

- Não há tantas moedas de prata como de ouro... - declarou - mas ainda são bastantes. Por que
estás tão interessado nelas?

- Por isto... - respondi, avançando para onde Harald permanecia em silêncio e ligeiramente
confuso. Estendi a mão para ele:

- A tua prata, jarl Harald - pedi, em dinamarquês. - Dá-me algumas moedas.

- Que se passa aqui? - perguntou, enquanto retirava a bolsa do cinto. - Que estão eles a dizer?

313

- Paciência, senhor. O assunto ficará resolvido em breve e depois conto-te tudo.

Foi com relutância que o monarca colocou o saco de moedas na minha mão, após o que voltei
para junto do trono. Nikos já percebera o que eu tinha em mente e disse:

- Mete a mão na bolsa e tira uma moeda. Também pegarei numa destas. Agora, mostra-a ao
Imperador.

Estendemos as nossas mãos e cada uma delas tinha uma moeda na palma. O Imperador Basil
examinou-as com atenção.

- São iguais.

Nikos pegou em várias das moedas que retirara do monte e inspeccionou-as uma a uma.

- São todas iguais, basileu. - Quaestor Antonius, gostaria de saber... - disse o Imperador - como
foi que as moedas do rei dinamarquês foram parar à tua posse. Continuas
a afirmar que faziam parte da herança do teu astuto pai?

- Senhor e Imperador... - retorquiu o Mestre do Porto - como toda a gente sabe, esses denários
são uma das moedas mais vulgares em todo o Império. Talvez fosse melhor

que perguntassem ao rei bárbaro onde é que foi arranjar moedas cunhadas em
Constantinopla...

- Não foram cunhadas em Constantinopla, quaestor Antonius... - declarou o komes. - Foram


cunhadas em Roma e todas comemoram Theophilus. - Baixou-se novamente para

o monte, remexeu nas moedas, retirou todas as que eram de prata e contou-as. - Basileu... -
anunciou, levantando-se - gostaria de o informar que há aqui quarenta

e cinco denários romanos.

O Imperador lançou uma olhadela furiosa para o seu cobrador de taxas.

- Ao que parece, tinhas em teu poder o número exacto de denários, moeda a moeda, que este
rei te acusou de roubar. Para além disso, todas eles são moedas romanas,

com uma cunhagem exactamente igual às da bolsa do bárbaro. Se consegues explicar isso,
então faz-me esse favor...

O Mestre do Porto, descarado até ao fim, limitou-se a encolher os ombros.

- Trata-se apenas de uma coincidência infeliz, basileu, e nada mais - declarou.

- Oh, pensamos que se trata de muito mais do que uma coincidência - afirmou Basil, incisivo. O
Imperador olhou para o seu infeliz quaestor com uma satisfação cruel

e acrescentou: - Permite-me que te sugira outra hipótese muito mais lógica: roubaste a prata a
estes homens e guar-

314

daste-a no vaso com a intenção de a trocares por solidi, juntamente com todos os outros
denários que tens andado a roubar no decurso das tuas funções. Para além

disso, quaestor Antonius, pensamos que, a julgar pelo número considerável de provas que
temos na frente, há muito que andas a abusar da tua posição como Mestre do

Porto de Hormisdas. - O Imperador Basil endireitou-se no seu enorme trono. - Vamos pôr fim a
isso.

- Soberano senhor... - declarou Antonius, muito rapidamente - o ouro é meu, juro-o, pelo
Santo Nome. Estou a dizer a verdade e foi uma herança. Com todo o respeito,
não pode acreditar na palavra desses bárbaros...

- Respeito? - inquiriu Basil. - Admira-nos que utilizes uma tal palavra. Mostraste muito pouco
respeito por nós, ou pela nossa posição. Contudo... - acrescentou

o Imperador com secura - embora a questão já não seja a prata, não está provado que
roubaste o ouro...

Basil fez sinal ao magister para se aproximar. O funcionário da corte pegou numa placa de cera
semelhante à do prefeito e entregou-a ao Imperador. Basil pegou no

estilete e começou a escrever.

- Basileu... - arriscou o quaestor, hesitante - foi apenas uma pequena transgressão. De certeza
que não é caso para prisão...

- Estamos de acordo, quaestor Antonius, em que não é caso para prisão. Seria um cruel
desperdício de um homem com os teus impressionantes talentos, para além de

uma perda para o Império. Contudo, também se tornou claro que a tua presente posição está,
digamos que... a limitar-te as capacidades...

O Imperador levantou os olhos da escrita e permitiu-se um leve sorriso.

- As minas imperiais estão sempre com falta de homens como tu... homens com um grande
apetite pela riqueza e com bons olhos para o brilho da prata. Estou certo que

a companhia de outros como tu te dará um novo vigor...

O antigo Mestre do Porto abriu a boca de espanto, para logo a fechar e engolir em seco.

- Não... não... Por favor. Santo Jesus, não... - murmurou.

Basil, depois de dispensar a justiça ao seu gosto, encerrou definitivamente a questão:

- O transporte já foi providenciado. Serás hóspede do Imperador até à partida do navio. - Fez
um sinal com as mãos e foi o bastante para que cinco dos farghanese

avançassem imediatamente. Basil passou a placa de cera ao magister, agitou as mãos na


direcção da porta de bronze e ordenou: - Levem-no daqui.

315

- O meu dinheiro! - exclamou o quaestor, tentando avançar enquanto os guardas o agarravam.


- Esse dinheiro é meu!

- O teu ouro irá ficar connosco - replicou Basil. - Uma riqueza com uma tal magnitude podia ser
um perigo no local para onde vais. Quanto a isso, estamos a revelar
muito mais caridade do que a que revelaste para connosco.

As portas de bronze abriram-se e o prisioneiro foi arrastado para a antecâmara. Fez uma
última tentativa para protestar mas o chefe dos farghanese silenciou-o com

um golpe seco na boca e o homem resignou-se ao seu destino e permitiu que o levassem.

O Imperador Basil fez um gesto para que o ouro e o vaso partido fossem levados dali. O komes
Nikos aproximou-se do rei Harald e entregou-lhe as moedas de prata que

haviam sido recuperadas.

- Aqui tem os seus denários, senhor... - declarou.

Harald aceitou a prata e a seguir, num acto em que tenho meditado muito, avançou para a
base do trono, e pediu-me para traduzir as suas palavras e disse:

- Nobre Imperador, vou dizer-vos a verdade. Vim aqui para saquear os vossos tesouros e para
me apoderar de tudo o que pudesse levar comigo para a Escandinávia.

O Imperador recebeu aquela confissão com bons modos.

- Não sois o primeiro a ter tais noções, lorde Harald.

O monarca dos Lobos do Mar prosseguiu depois de eu lhe ter transmitido as palavras do
Imperador.

- Agora encontro-me perante vós, olho à minha volta... - lançou uma olhadela em volta com os
olhos arregalados de admiração - e vejo riquezas que os homens da minha

terra nem sequer conseguem imaginar. - Fazendo um gesto para a pilha de moedas de ouro
que se encontravam no chão, Harald acrescentou: - Para além disso, verifico

que os homens ao vosso serviço são recompensados com muito mais riquezas do que seria de
esperar.

O Imperador acenou com satisfação.

- Tiveste apenas um mero relance do poder e da riqueza do Sacro Império Romano e


compreendeste a futilidade de entrar em colisão com esse poder. Sob esse aspecto,

revelas a tua sabedoria, lorde Harald.

- É verdade... - concordou Harald prontamente quando lhe traduzi as palavras do Imperador - e


pergunto a mim mesmo: se um simples servo pode acumular tais riquezas,

então o que poderá um rei conseguir? Tenho comigo quatro navios e cento e sessenta
homens. Viemos em busca de pilha-

316
gem, mas prefiro obter riquezas e fama numa relação de amizade para convosco, Grande jarl.
Por isso, Nobre Imperador, coloco-me ao teu serviço, bem como aos meus

homens e navios.

Maravilhei-me com a audácia de Harald mesmo enquanto estava a traduzir as suas palavras.
Seria tão confiante e arrogante para acreditar que todos os seus homens

o seguiriam naquele gesto grandioso? Seria tão inocente que acreditasse que o Imperador iria
aceitar a sua oferta, e recompensá-lo por isso?

Porém, neste caso, o inocente era eu, isto porque, maravilha das maravilhas, o Sacro
Imperador Romano, Senhor Soberano de Toda a Cristandade, olhou para Harald Berro-de-
Touro,

monarca bárbaro e saqueador, e examinou-o com atenção, como um homem a calcular o valor
de um cavalo, e tomou uma decisão imediata.

- Aceitamos a vossa oferta, lorde Harald. Já deve ter visto que os homens de valor são bem-
vindos ao nosso serviço e que são na verdade bem pagos. O facto de serem

homens do mar é um forte argumento a vosso favor. Necessitamos, neste preciso momento,
de mensageiros rápidos, uma vez que as águas do sul se tornaram perigosas

por causa dos ataques dos árabes.

"Desse modo, iremos pôr a vossa lealdade à prova. Estamos a preparar um enviado a
Trebizonda, que irá necessitar de uma escolta. Aceita esse serviço e passarás a

pertencer à frota imperial. Acontece que as convenções da guerra no mar permitem que o
vencedor guarde para si todos os despojos que adquirir durante o combate com

um inimigo. Como é natural, esse privilégio também vos será concedido... e até rezaremos pela
vossa prosperidade.

Harald aprovou calorosamente aquele plano logo que entendeu o significado das palavras do
Imperador.

- Passaremos o vosso teste de lealdade, Soberano e Imperador - garantiu. - Os vossos inimigos


serão os nossos inimigos. As nossas vitórias serão as vossas vitórias.

Eu, jarl Harald Berro-de-Touro, garanto-o com a minha vida e com as vidas dos meus homens.

É possível que o jarl Harald, ele próprio um homem de autoridade, tivesse reconhecido um
poder muito maior do que o seu e isso o levasse a adoptar a posição mais

sensata. Apercebendo-se do poderio que o Império poderia lançar contra ele se prosseguisse
com o seu plano de pilhagens, a sua astuta mente bárbara divisara a melhor
solução possível. Ou então, talvez Deus, operando de uma maneira invisível e desconhecida no
fértil solo da alma imortal de Harald, tivesse plantado uma semente

que produ-

317

zia agora os seus frutos inesperados. Fosse como fosse, o resultado maravilhou-me e
surpreendeu-me.

- Aceitamos o vosso compromisso, lorde Harald... - replicou o Imperador com graciosidade - e


rezaremos para que o Pai Celestial recompense ricamente a vossa lealdade.

Regressem aos vossos navios e preparem-se. - Fez um gesto para o magister, que lhe entregou
nova placa de cera. O Imperador pegou no estilete e começou a escrever.

- Amanhã, enviar-vos-emos o protospatharius para tratar do vosso aprovisionamento. O nosso


enviado partirá dentro de três dias. - Basil entregou a placa de cera

ao magister e estendeu a mão a Harald, para que o rei lha beijasse.

Dessa vez, o jarl Harald Berro-de-Touro dobrou o pescoço e selou a sua obediência com um
beijo. O Imperador levantou-se do seu trono, recuperou a taça de ouro que

se encontrava a seus pés e ofereceu-a ao astuto dinamarquês. A seguir desceu do estrado,


baixou-se e foi com a sua própria mão que apanhou um punhado de moedas de

ouro da pilha que se encontrava no chão e as despejou na taça de Harald com um magnífico
tilintar, como se fosse um mercador rico a dar uma esmola ao seu mendigo

preferido. O monarca bárbaro exibiu um sorriso tão amplo e uma delícia tão manifesta que o
Imperador repetiu o gesto. Contudo, não pude deixar de reparar que a cumtach

de prata não voltou a ser mencionada e ficou esquecida aos pés do trono.

Basil mandou embora o seu novo aliado, dizendo:

- Serve-nos bem, rei da Escandinávia, e a glória e os tesouros que procuras serão teus, se Deus
assim o desejar.

Harald agradeceu ao Imperador e despediu-se, afirmando que regressaria aos navios e ficaria à
espera das ordens do Imperador. Seguimos o magister e fomos conduzidos

para longe da presença do Imperador, de olhos baixos e recuando lentamente. Quando já nos
encontrávamos ao pé da porta resolvi fazer uma pausa para uma última olhadela

àquele salão maravilhoso... e foi nesse momento que o magister pousou a mão no meu
ombro.
- O basileu deseja falar contigo, a sós - declarou, apontando-me o trono. Levantei os olhos e vi
o Imperador Basil a chamar-me. - Informa o teu rei que lhe serás

devolvido logo que o Imperador já não precise de ti.

Harald, feliz com o seu ouro, grunhiu uma aprovação. Refiz os meus passos em direcção ao
trono, perguntando a mim mesmo o que pretenderia de mim o Vice-Regente de

Deus sobre a Terra.

TRINTA E TRÊS

- Vivemos tempos incertos, irmão Aidan... - disse o Imperador, com um tom simultaneamente
familiar e imperioso - tal como pudeste ver hoje mesmo. Funcionários em

quem confiamos servem-se dos seus poderes para roubarem e para obterem lucros, enquanto
saqueadores bárbaros exigem justiça e juram lealdade.

O Imperador mandara embora todos os que se encontravam na sala do trono, excepto os


membros da guarda imperial. Esses homens permaneciam alinhados em volta do trono,

com rostos inexpressivos, sem olharem... e sem deixarem de olhar. Ninguém mais ouviria o
que o imperador tinha para me dizer.

Levantando a mão na direcção dos seus guardas farghaneses, Basil acrescentou:

- Olha bem e diz-nos: quem é que se encontra mais perto do Imperador?

Como pareceu ficar à espera de uma resposta, perguntei-lhe:

- Também são bárbaros, lorde Soberano?

- O teu amo é um bárbaro e já vimos muitos como ele. Não nos deixamos levar por ilusões,
irmão Aidan, e sabíamos que enfrentávamos um inimigo que veio para roubar

e matar. Disse a verdade a esse respeito, é verdade, mas já sabíamos. No entanto, quando lhe
foi dada essa oportunidade - e nós sabemos muito bem quem a colocou

ao seu alcance, Subtil Sacerdote - este rude bárbaro demonstrou ser merecedor de maior
confiança do que o homem nascido e criado para as suas funções.

"Aqui, a confiança é o cerne da questão. Em quem confia o Imperador? Nos seus amigos? Em
amigos doentes de inveja e repletos com o veneno do rancor, que mais facilmente

lhe cortarão a garganta do que vergarão os joelhos? Confiará nos seus funcionários, nesse
número imenso de homens sem nome e cobiçosos, que mais facilmente lhe envenenariam

a bebida do que lhe beijariam o anel? Confiará talvez nos filhos, demasiado jovens
319

para suportarem o fardo do estado, ou demasiado ambiciosos e ansiosos pela coroa?

Avaliou o efeito das suas palavras e acenou, com uma satisfação sombria.

- Começas a compreender como são as coisas. Sempre que o Império necessita que uma tarefa
seja executada... vemo-nos forçados a avaliar a lealdade do homem a quem

pedimos que a execute. A lealdade requerida não é muita para a maior parte dos cargos, pelo
que se torna indiferente se nomeei este ou aquele. Contudo, algumas tarefas

exigem uma grande lealdade... e é nesses casos que as escolhas têm de ser muito mais
exigentes.

Escutei as palavras do Imperador e comecei a sentir uma estranha sensação no estômago,


talvez semelhante ao medo, ou ao terror, mas que não era nenhuma dessas coisas.

Era como se tivesse feito uma aposta gigantesca e estivesse prestes a descobrir se ganhara ou
perdera.

- O komes Nikos, como pudeste ver, é um servo leal e de confiança... - continuou o Imperador
Basil - e está muito perto do trono. O scholarae Justin está pronto

para uma promoção rápida. A sua diligência e honestidade serão particularmente


recompensadas. Temos sempre necessidade de homens desses e é por isso que os agarramos

sempre que os encontramos e onde quer que os encontremos.

"Irmão Aidan... - prosseguiu o Imperador, observando-me com os seus olhos escuros e


inteligentes - vemos na nossa frente um desses homens e detestamos ter de o perder

de vista.

- Então também podeis ver, Soberano Lorde... - declarei, levando a mão à coleira de ferro que
me rodeava o pescoço - que não passo de um escravo.

A resposta do Imperador foi seca e carregada de desprezo.

- Desapontas-nos, sacerdote! Se imaginas que isso possa ser um impedimento... então parece
que não entendes muito bem todo o poder de um Imperador. Permite que te

tranquilizemos, irmão monge: a capacidade para recompensar os amigos do Império está


perfeitamente ao nosso alcance.

- Perdoai-me, Soberano Lorde - implorei - mas pouco sei a respeito das maneiras da corte.
Falei quando devia ter ficado calado.
O Imperador voltou a recostar-se contra os estofos do trono.

- Nada receies, pois não te forçaremos contra a tua própria vontade. O que anseio por
conseguir é a tua lealdade e não a obediência - declarou, alisando a seda púrpura

do seu traje imperial.

"A tua peregrinação não foi em vão, irmão sacerdote. Estás bem colocado para nos poderes
ser útil... e até pode acontecer que o que temos

320

em mente seja precisamente a tarefa para que Deus te chamou. Escuta-nos, irmão Aidan, os
teus trabalhos só agora começaram...

- Soberano Lorde... - repliquei, com os pensamentos num torvelinho de confusão - ordenai o


que vos aprouver. Sou um vosso servo.

Basil esboçou um sorriso tão ligeiro que nem sequer lhe tocou nos lábios.

- Óptimo. Estamos satisfeitos, irmão monge. - Chamou-me para mais perto dele e disse: -
Escuta com cuidado, pois vamos dizer-te o que queremos que faças...

Escutei com a maior das atenções enquanto Basil me explicava que todas as preocupações
imperiais se encontravam concentradas no envio da embaixada a Trebizonda.

Tratava-se, afirmou, de um caso da maior delicadeza.

- Como é natural, o Império tem inimigos de todos os tipos e cujas finalidades nem sempre são
fáceis de discernir. É por isso que somos obrigados, para o bem do

Império, a servirmo-nos de todas as protecções possíveis. - Olhou para mim com uma candura
que me desarmou e disse: - O segredo tem a sua utilidade, irmão sacerdote.

Se conseguires guardar um segredo, a tua presença em Trebizonda será muito bem recebida.
Para além disso, também a recompensaríamos.

Repliquei que a discrição era uma virtude, e que a mesma me servira bem durante o meu
tempo na abadia. A seguir, o Imperador partilhou comigo as suas preocupações

secretas e pediu-me para ser os seus olhos e ouvidos em Trebizonda. Deveria observar tudo o
que pudesse, para depois o informar quando regressasse a Bizâncio. Quando

terminou, perguntou-me se tinha compreendido. Garantido que sim e levantou-se


abruptamente. Os farghaneses recuaram todos um passo. Fazendo um gesto a mandar-me

embora, acrescentou:
- Vem ver-nos quando a tua jornada estiver completa.

- Farei como desejas, basileu - respondi. Baixei a cabeça e afastei-me a recuar, tal como vira
que os outros tinham feito.

O Imperador chamou o magister para me conduzir ao exterior do palácio.

- O guarda do portão... - perguntou Basil - ainda está connosco?

- Aguarda as tuas ordens na antecâmara, basileu - replicou o cortesão vestido de branco.

- Nesse caso, diz-lhe para conduzir este homem ao seu navio... - ordenou o Imperador, para
logo acrescentar, como se lhe tivesse ocorrido uma ideia: - Porém, como

creio que não há pressa, diz ao guarda que

321

deve mostrar a este nosso servidor tudo o que ele quiser ver ou experimentar na nossa cidade.
- Olhou para mim e continuou: - Para além disso, o guarda que lhe dê

de comer. Entrega-lhe um solidus para esse fim, magister.

- Assim será feito, basileu - replicou o cortesão.

Fui mandado embora e conduzido para fora do salão. Já me encontrava perto da porta quando
o Imperador Basil acrescentou:

- Que Deus te conceda uma viagem em segurança, irmão sacerdote, e um rápido regresso. Até
lá, contentemo-nos em antecipar o prazer de discutir o que poderemos fazer

pela tua liberdade.

Quando emergi da minha audiência encontrei Justin à espera, sozinho, na antecâmara. Todos
os outros se tinham ido embora. O magister chamou-o, colocou-lhe uma moeda

de ouro na mão e transmitiu-lhe as ordens do Imperador. A seguir virou-nos as costas e


desapareceu no vestíbulo, deixando-nos a responsabilidade de sairmos do palácio.

- Ah! - exclamou Justin, quando nos vimos no exterior. - Foi um dia de que não me esquecerei
tão depressa!

Foi com toda a convicção que admiti que também eu nunca passara por um dia como aquele.

- És uma pessoa notável, meu amigo... - O guarda olhou-me com uma admiração genuína. - O
quaestor foi enviado para as minas e o bárbaro foi contratado como mercenário...
Os meus scholarii nem vão acreditar! - Parou e olhou para a moeda que o magister lhe
entregara. - Um solidus, inteirinho... - comentou, respirando fundo - e ainda

é dia! Bom, que prazeres é que pretendes para esta tarde? Estou à tua disposição... por ordem
do Imperador!

- Há muito tempo que não ponho os pés numa capela... Se não for muito difícil, gostaria de ir a
uma igreja para rezar.

- A única dificuldade está na escolha da igreja que vais favorecer com a tua presença. Em
Constantinopla há centenas de igrejas. Podemos ir à de Santo Estêvão -

disse, apontando a cruz mais próxima, que se erguia por cima da muralha - onde o Imperador
e a sua família vão rezar em certos dias. Ou então, posso levar-te à Hagia

Sophia, onde todos os visitantes da cidade querem ir.

- Por favor, se não der muito trabalho, gostaria de ir onde tu rezas...

- Onde eu rezo? - admirou-se Justin. - Ora, é apenas uma pequena igreja, junto da minha
casa... Não tem nada de notável... e tu tens toda

322

Constantinopla à tua disposição, meu amigo! - Embora protestasse, não era difícil de ver que
ficara satisfeito com a minha escolha. - Deixa-me levar-te a Santa Sofia...

- Prefiro ver a tua igreja. Levas-me lá?

- Claro, se é isso que queres... - Afastámo-nos do Grande Palácio e caminhámos pelo recinto
muralhado, de onde saímos por uma das pequenas portas junto do Hipódromo.

Seguimos por um caminho estreito, cheio de curvas e rodeado por muralhas que passavam por
trás dessa enorme construção e fomos dar a uma rua larga, flanqueada por

árvores.

- Esta é a Mese - disse Justin. - É a rua mais comprida do mundo, e começa ali, no Milion. -
Apontou para uma alta coluna isolada, no meio de uma praça, a curta

distância.

- E onde termina?

- No Fórum, em Roma - respondeu, num tom grandioso. - Vamos por aqui, a minha igreja não
fica longe.
Virámos para oeste e seguimos ao longo daquela larga rua que era, segundo me informou, a
principal rota cerimonial da cidade.

- Todos os imperadores e exércitos marcham ao longo da Mese e passam através do Arco


Dourado quando partem em campanha. Depois, quer regressem vitoriosos ou derrotados,

voltam pelo mesmo caminho.

A Mese enxameava de gente que caminhava sob o fresco da tarde. Era como se, depois de um
dia de trabalho, toda a população da cidade estivesse agora a regressar

a casa. A maioria daquelas pessoas levava consigo os produtos necessários para um jantar
frugal, um pão, alguns ovos, uma ou duas cebolas e oleosos embrulhos contendo

azeitonas temperadas com especiarias. Todavia, os mais afortunados tinham a possibilidade de


fazer uma pausa e apreciar uma refeição num dos inumeráveis locais de

comidas e bebidas existentes ao longo da Mese, a que davam o nome de tabernas, tal como
Justin me informou.

Podiam ser reconhecidas pelas tabuletas brilhantemente coloridas e com nomes pintados,
nomes como Casa de Baco, Cocheiro Verde ou Cotovia Saltitante. Havia estátuas

de deuses gregos e romanos no exterior da maior parte dessas tabernas, bem como
fumegantes braseiras assentes em tripés.

Como se a visão dos brilhantes carvões numa noite gelada não fosse suficiente para atrair as
pessoas esfomeadas, os proprietários daqueles lugares permaneciam ao

lado das suas braseiras, cozinhando carne em espetos e implorando aos passantes que
parassem e aproveitassem a hospitalidade que lhes era oferecida. "Entrem, entrem!"

chamavam. "Meu amigo,

323

há calor lá dentro. O vinho é bom. Esta noite temos porco assado e figos. Vão adorar a comida!
Entrem agora, porque ainda há espaço para vocês!"

Os aromas vindos das braseiras e das cozinhas invisíveis combinavam-se para formarem vagas
de odores, opulentas e densas, que fluíam para cima e para baixo à nossa

volta enquanto descíamos a rua mais comprida do mundo. Passámos por um certo número
dessas tabernas e começou a crescer-me água na boca e senti o meu estômago a

grunhir.
Contudo, Justin continuava em frente, aparentemente indiferente tanto ao aroma das comidas
como aos rogos dos homens das tabernas, ignorando tudo menos o caminho

que tínhamos de percorrer. Passámos por uma magnífica igreja - dos Mártires Sagrados,
conforme Justin me informou -, e foi nesse momento que os sinos começaram a

tocar. Soou um primeiro sino, provavelmente de Santa Sofia, logo seguido por outro, de uma
igreja mais distante, e por outro, e por muitos mais, de perto e de longe,

até toda Constantinopla retinir com aquele som. Embora fosse uma pessoa há muito
acostumada à labuta do dia-a-dia, não pude deixar de me maravilhar com aquela multidão

de sinos com os mais variados tons, desde os mais altos, com a clareza das vozes celestiais, até
aos mais profundos, capazes de fazer tremer a terra. Os sons abençoados

chegavam-nos vindos de todos os cantos da cidade, como uma dádiva de paz ao fim de um dia
de trabalho.

Virámos para uma rua estreita e juntámo-nos à multidão que se encaminhava para a igreja que
se erguia no fim do caminho de terra batida. As portas estavam abertas

e a luz das velas escorria para as ruas e sobre as cabeças dos que se amontoavam à porta, à
espera de poderem entrar.

- É a igreja de Santa Eutímia e São Nicolau, onde costumo vir rezar - explicou Justin. - Há outras
mais bonitas, mas poucas são tão frequentadas como esta.

Avançámos para a multidão e esprememo-nos para conseguirmos arranjar lugares junto a uma
das colunas. Havia velas a arder em todos os recantos e candeias penduradas

em complicadas grelhas suspensas por cima da cabeça dos fiéis. Na verdade, as pessoas eram
tantas e estavam tão apertadas que pouco conseguia ouvir do que o sacerdote

dizia. Mesmo assim, sei que se fizeram muitas orações e reconheci a leitura como fazendo
parte do Evangelho de S. Lucas.

Sob esse aspecto, o serviço era muito semelhante aos que eram realizados na abadia, mas as
similaridades terminaram quando os fiéis começaram a cantar. O seu canto

era diferente de tudo aquilo que eu jamais ouvira. Não sei como conseguiam aquela música,
mas enchia toda a igreja

324

com um som flutuante e exaltado composto por muitas partes que de algum modo se
misturavam e uniam para formarem uma única voz com uma força admirável. Fiquei
consideravelmente
comovido e impressionado, e senti o meu coração cheio de saudades dos monges de
Cenannus na Ríg. Os filhos de DeDanaan's gozam das melhores vozes do mundo e daria

muito para os ouvir a cantar daquela nova maneira.

Para além da música, o serviço era, como já disse, muito semelhante aos que conhecera antes,
excepto quanto ao facto de as pessoas permanecerem de pé para rezarem

em vez de se ajoelharem ou prostrarem, e de levantarem as mãos ao alto em vez de as


unirem. Por outro lado, os sacerdotes usavam muito mais incenso do que seria

permitido na nossa abadia. Na realidade, pareciam querer encher toda a igreja com nuvens de
fumos fragrantes.

No fim, foi isso que acabou por ser demais para mim. Talvez que os acontecimentos do dia,
bem como as luzes, sons, fumo e aperto da multidão, se tenham combinado

para me dominarem. O certo foi que, num determinado momento me encontrava ao lado de
Justin... e no momento seguinte me descobri caído contra a coluna com o guarda

agachado a meu lado, exibindo uma expressão preocupada.

- Senti-me um pouco tonto... - disse-lhe, logo que nos encontrámos novamente no exterior.
Fazia escuro e soprava um vento gelado vindo do mar. - Contudo, já me sinto

melhor. O ar fresco fez-me bem.

- Não me admira que tenhas desmaiado - replicou. - Percorreste metade da cidade ao longo do
dia de hoje, e sempre com o estômago vazio. - Fez uma careta de desaprovação.

- Está na hora de ires comer.

Voltámos à Mese e continuámos um pouco para oeste até chegarmos a um cruzamento. Justin
virou para a rua da direita, íngreme, escura e tranquila, e conduziu-me ao

longo de uma dúzia de passos até uma pequena casa com uma porta baixa e um grande
degrau. Ouvimos gargalhadas vindas do interior logo que nos aproximámos e na ombreira

da porta havia uma tabuleta pintada com as imagens de uma ave assada e uma ânfora de
vinho.

Justin bateu na porta com a palma da mão.

- Sou de Chipre - disse-me, fazendo uma pausa no seu assalto à porta. - O dono desta casa
também é de Chipre... e é daí que vem toda a melhor comida. É verdade,

pergunta a quem quiseres!

De repente, a porta abriu-se para revelar um homem com uma barba negra e um aro de ouro
numa orelha.
325

- Justin! - gritou imediatamente. - Ah! Afinal, não nos esqueceste! Pretendes uma refeição, não
é? Pois irás tê-la! - Justin mostrou ao barbudo a moeda que o prefeito

de lhe dera... e o homem exibiu um grande sorriso. - Que estou eu a dizer? Uma refeição? Vais
ter um festim! Vou oferecer-te um banquete! - Virou-se para mim e acrescentou:

- Bem-vindo à minha casa! Não te conheço, meu amigo, mas posso afirmar que foste
duplamente abençoado!

- Então como? - admirei-me, encantado tanto com a recepção efusiva como pelos requintados
aromas que nos envolviam, vindos das salas do interior.

- É simples! Escolheste visitar a melhor taberna de toda Constantinopla e vieste na companhia


do mais excelente soldado do Império! Oh, mas a noite está fria! Entrem,

meus amigos! - gritou, enquanto quase nos arrastava para o interior.

Fechou a porta rapidamente atrás de nós e disse-me:

- Chamo-me Theodorou Zakis e sinto-me honrado por te ter na minha casa. As preocupações
do dia não te incomodarão aqui dentro. Por favor, segue-me.

Fez-nos subir um estreito lanço de escadas e levou-nos para uma grande sala com uma bela
braseira de bronze a brilhar no seu centro, como se fosse uma lareira, e

em torno da qual se encontrava um certo número de sofás baixos. Vários desses sofás estavam
ocupados por homens reclinados em grupos de dois ou três, que se debruçavam

sobre bandejas repletas dos mais variados pratos. Havia também algumas mesas instaladas em
alcovas formadas por biombos de madeira, bem como uma outra colocada naquela

parte da sala que ficava suspensa sobre a rua, e foi para aí que Theo nos levou.

- Como vês, Justin, guardei esta mesa para ti. Sei que é a tua preferida. - Virou-se para mim e
acrescentou, como que em segredo: - Os soldados preferem sempre as

mesas... e nunca consegui perceber porquê. - Puxou a mesa e ajeitou os dois bancos baixos,
com três pernas. - sentem-se, sentem-se! Vou buscar-lhes vinho!

- E pão, Theo! Montes de pão! - pediu Justin. - Não comemos nada durante todo o dia!

A nossa chegada despertou pouco interesse aos restantes comensais, que continuaram a sua
refeição como se não existíssemos. Pensei que se tratava de algo muito invulgar

até ao momento em que Justin me explicou que era o costume e que ninguém o considerava
como uma falta de educação.

- No leme não têm tabernas? - inquiriu.


326

- Não. São uma coisa nova para mim... tal como tudo o mais nesta cidade.

- Cheguei a Constantinopla há quatro anos. Não tinha amigos, pelo que vinha aqui muitas
vezes, embora nem sempre pudesse fazê-lo com tanta facilidade porque na altura

não passava de um legionário.

- Tens família?

- Apenas a mãe e uma irmã - replicou - que continuam a viver em Chipre. Não as vejo há sete
anos mas sei que estão bem. Escrevemo-nos com frequência. Essa é uma

das bênçãos da vida no exército do Imperador. Um soldado pode enviar cartas para qualquer
lado do mundo e tem a certeza que chegarão ao seu destino.

Theo regressou com uma bilha com duas asas, semelhante a uma pequena ânfora mas com
um fundo achatado.

- Para vocês, meus amigos, reservei o melhor! Vinho de Chios! - anunciou, fazendo aparecer
duas taças de madeira que colocou ao lado da bilha. - Bebam isto... e

esqueçam-se de todos os vinhos que já provaram até hoje!

- Se o bebermos todo... - retorquiu Justin com uma gargalhada - vamos esquecer-nos de tudo.

- E seria uma coisa assim tão terrível? - Theo riu-se e bateu em retirada, para regressar um
instante depois com quatro pães num cesto de verga. Os pães ainda estavam

quentes.

- Diz-me, Aidan... - pediu Justin, despejando o vinho nas duas taças de madeira - que pensaste
do Imperador?

- É um grande homem - respondi, pegando num dos pães e entregando-o a Justin.

- Ah, sem dúvida! - admitiu, bem-disposto e partindo o pão ao meio. - Nem sequer é preciso
dizê-lo! Fez muito para benefício da cidade e do Império.

À maneira de Constantinopla, Justin murmurou uma oração pela refeição, oração que nem
sequer foi muito diferente das que eu poderia ter ouvido no mosteiro. Terminada

a oração, peguei noutro pão e parti-o ao meio, libertando um odor a fermento que me fez
crescer a água na boca. Comemos e bebemos durante algum tempo, saboreando

o pão e aquecendo para o vinho.


Passado um bocado, Justin comentou:

- Podemos estar numa cidade romana, mas Constantinopla tem um coração bizantino e os
corações bizantinos são, acima de tudo, desconfiados.

327

- E desconfiados porquê?

- - Precisas de perguntar? - retorquiu Justin, com um sorriso que se tornou mais secreto e
astuto. - Aqui, nada é simples, meu amigo. Todos os acordos ocultam traições,

e toda as amabilidades são astúcias disfarçadas. As virtudes são calculadas até ao mais
pequeno pormenor e negociadas em busca de vantagens. Tem cuidado! Em Bizâncio

nada é o que parece!

Pareceu-me improvável e disse-lho, mas só serviu para que Justin se tornasse mais insistente.

- Olha à tua volta, sacerdote. As desconfianças andam à solta em todos os locais onde exista
riqueza e o poder. Até Roma, nos seus momentos de maior glória, não

conseguiu ultrapassar a riqueza e o poder que Constantinopla possui neste momento. Nesta
cidade, as desconfianças são uma necessidade. São a faca que escondes na

manga e o escudo que te protege as costas.

- Mas... somos cristãos... e dispensámos esses conceitos terrenos... - salientei.

- Tens razão, é claro - concedeu Justin, esvaziando a taça pela segunda ou terceira vez. - Talvez
eu tenha vivido demasiado tempo nesta cidade. No entanto, também

os cristãos ouvem os boatos... - Inclinou-se para a frente, por cima da mesa, e baixou a voz. -
Diz-se que o nosso antigo imperador, o basileu Miguel, morreu de

uma queda. Contudo, será que um homem perde as duas mãos pelos pulsos... por ter
escorregado no banho? Até os amigos do Imperador afirmam que a ascensão de Basil,

o Macedónio, se deveu mais ao hábil uso da lâmina do que à interferência divina. - Justin
calou-se e serviu-se do indicador para desenhar uma linha sobre a garganta.

O Rei dos Reis, Eleito de Cristo, Vice-Regente de Deus sobre a Terra... envolvido num
assassínio? Como era possível que houvesse alguém capaz de pensar numa tal

hipótese... e de a pronunciar em voz alta? Era assim que os cidadãos de Constantinopla


passavam os seus dias, envolvidos em especulações vis e em calúnias maldosas?
Ah, mas o homem bebera uma tão grande quantidade daquele forte vinho que lhe perdoei as
calúnias e não liguei ao que me disse.

O proprietário da taberna regressou e pousou na nossa frente duas malgas com um caldo
leitoso e duas colheres de madeira. Foi-se embora sem uma palavra, encaminhando-se

para outro grupo de três, reclinados nos sofás. Momentos depois, os quatro homens riam-se à
gargalhada. Levei a malga aos lábios para beber mas Justin mexeu a sopa

com a colher, o que me fez ver até que ponto me adaptara às maneiras dos bárbaros.

328 - Contudo, penso que todos os possíveis desgostos pelo falecimento de Miguel foram
sepultados juntamente com o seu corpo ensanguentado - afirmou Justin com

ligeireza, levando a colher aos lábios e soprando a sopa. - Era um libertino e um bêbado, que
quase levou a cidade à ruína com as suas extravagâncias e dissipações.

Toda a gente sabe que seduziu a mulher de Basil e que a levou para a cama, não apenas uma
mas sim muitas vezes... e que Basil sabia. Na verdade, até há quem afirme

que um dos filhos do Imperador não é dele, e que foi graças ao facto da mulher do cornudo ter
produzido um bastardo real que o infeliz Basil conseguiu envergar a

púrpura e transformar-se em co-regente.

Olhei rapidamente em volta para ver se alguém o ouvira e vi, para meu grande alívio, que os
outros convivas pareciam indiferentes à nossa conversa.

- Como podes dizer coisas dessas? - perguntei, num sussurro áspero e ofendido.

Justin encolheu os ombros e engoliu o caldo.

- Não estou a dizer que o basileu Miguel era um mau homem... mas sim que era um fraco.

- Um fraco! - ofeguei.

O meu companheiro levantou os cantos da boca, num sorriso sombrio.

- Já tivemos papas e patriarcas que, em comparação, fariam com que o pobre tonto do Miguel
parecesse um santo. Diz-se que Phocus manteve dois rapazes abissínios

como amantes e que torturou heréticos só para divertir os seus convidados para o jantar. Por
outro lado, também se diz que Theophilus matou dois irmãos e um filho

para conseguir o trono... e o próprio Basil tem o filho encerrado numa prisão neste preciso
momento.

Justin levou a malga para mais perto da boca e começou a comer a sopa. Fiquei a olhá-lo, de
boca aberta, incrédulo. - Não estás a comer, Aidan... - comentou, por
cima da sua malga.

- Não gostas da sopa?

- Não é por falta de apetite que me contenho... - retorqui, com secura. - Estou horrorizado com
os modos desumanos que estás a utilizar para caluniar o Sacro Imperador,

e com a facilidade com que repetes as mais vis difamações. Mesmo se uma pequena parte do
que dizes fosse verdade, tal deveria levar-te a rezar pelo perdão para o

nosso soberano caído, e não à repetição de boatos maliciosos.

Justin pousou a malga da sopa.

329

- Vejo que te perturbei... As minhas palavras foram mal escolhidas. Perdoa-me, irmão, mas é a
nossa maneira de falar. Juro-te, pela minha vida, que não pretendia

ofender-te. Peço desculpa.

A sua contrição suavizou a minha ira e acalmei-me.

- Talvez as minhas objecções tenham sido exageradas. No fim de contas, sou um estranho
nesta terra. Se falo quando deveria escutar... então és tu quem terá de me

perdoar.

- Não, fizeste bem em recordar-me os meus deveres de caridade - replicou Justin, pondo a
malga de lado. Voltou a pegar nas taças e entregou-me uma. - O melhor, para

bem desta bela refeição, é lançarmos todas essas coisas desagradáveis para trás das costas e
fazermos uma saúde. - Levantou a taça e imitei-o. - À amizade entre

homens cristãos! - proclamou.

- À amizade entre cristãos! - respondi, levando a taça aos lábios. Comemos em silêncio durante
algum tempo, bebericando o vinho e molhando o pão no caldo dourado.

Comecei a sentir-me genuinamente renascido. Justin estava novamente a encher-nos as taças


quando a mulher do proprietário apareceu junto à nossa mesa trazendo uma

travessa de madeira... com um frango assado para cada um de nós! A travessa cobria quase
toda a mesa e obrigou Justin a pousar os copos e a bilha do vinho no chão.

A mulher colocou-a na nossa frente e ficou parada a admirar o seu trabalho antes de nos
incitar a comer e a divertirmo-nos.
- Agora... - declarou Justin com ligeireza - demonstremos o nosso respeito para com estas
negligenciadas aves. - Tirou a faca do cinto e começou a cortar o frango,

indicando-me que deveria fazer o mesmo. Quando hesitei, perguntou: - Não tens faca? -
Contudo, acrescentou imediatamente, ainda antes de lhe conseguir responder:

- Claro que não tens! Olha, usa a minha! - disse, estendendo-me a faca. - Perdoa-me, Aidan,
mas nunca me lembro que és um escravo.

As aves estavam recheadas com amêndoas e carne doce condimentada com cominhos e mel, e
vinham rodeadas por pequenos embrulhos feitos com folhas, que continham carne

de borrego temperada com menta, lentilhas e cevada. Cada boca cheia, cada pedaço, eram
uma verdadeira revelação de maravilhas. Cada dentada era uma delícia que -

e envergonho-me de o dizer -, devorei avidamente, deixando-me arrastar por aqueles sabores


exóticos. Sabem, nunca tinha provado limões mas discerni o seu esplêndido

aroma e sabor em quase todos os pratos, incluindo a sopa. Também nunca provara folhas de
videira, sementes de anis, azeitonas... nem metade de todas as especiarias

utilizadas naquela refeição.

330

Estou convicto de que nunca saboreei comida tão boa e sumptuosa, e poder fazê-lo na
companhia de outro cristão foi para mim uma verdadeira bênção. Recordei as refeições

na mesa da abadia e censurei-me a mim mesmo por todas aquelas vezes que me sentira pouco
caridoso para com um qualquer dos meus irmãos, mas muito em particular para

com o Diarmot.

Essa recordação fez-me pensar no Éire e senti uma vaga de saudade pelos monges de Kells.
Sentia falta deles, do ritmo firme e regular da roda dos dias, dos Salmos,

das orações e da leitura dos Evangelhos durante a refeição da noite. Tinha saudades do abade
Fraoch, de Ruadh e de Cellach, do scriptorium e da sensação de ter uma

pena na mão. Ah, que Deus o abençoasse... como sentia a falta do Dugal!

Ah, mo croi, pensei, que terá sido feito de ti?

- Não comia tão bem e em tão boa companhia desde que saí de Kells - comentei para o Justin
depois de termos extinguido os primeiros ardores da fome.

- Tenho-me interrogado a esse respeito... - retorquiu. - Como foi que um sacerdote de Ierne
acabou como escravo no meio dos bárbaros selvagens?
Foi nessa altura que, enquanto escolhíamos os bocados mais apetitosos da travessa que
tínhamos na nossa frente, lhe narrei a minha estada entre os Lobos do Mar da

Escandinávia. Falei-lhe da abadia, do trabalho que lá executava, do facto de ter sido escolhido
para a peregrinação e do livro que havíamos feito para o Imperador

e cuja capa vira naquele mesmo dia.

- Foi fabricada pelos irmãos de Hy... - expliquei - mas os bárbaros destruíram o livro.

- Pertences a uma seita?

- Pertenço aos Célé Dé. As palavras significam Servo de Deus - disse-lhe, acrescentando que
éramos uma pequena comunidade de monges que viviam de um modo simples,

rezavam continuamente, trabalhavam para se sustentarem e para manterem a abadia, e que


serviam o povo da sua região das mais variadas maneiras.

Justin escutou atentamente tudo o que lhe disse, fazendo perguntas de vez em quando mas
contentando-se, durante a maior parte do tempo, em escutar. O vinho soltou-me

a língua e falei - muito mais do que teria julgado possível - ao longo de todo o resto da refeição
e muito para além dela.

Chegado o momento de abandonarmos a taberna, Justin pagou ao proprietário, que se


despediu, nos desejou as boas-noites e nos brindou

331

com alguns pequenos bolos doces para comermos durante o caminho de regresso a casa.

- Ainda não me contaste como foi que passaste a ser escravo de Harald - declarou Justin,
quando já nos encontrávamos de regresso à Mese. - É uma história que gostaria

muito de ouvir.

Satisfiz-lhe a curiosidade enquanto caminhámos pela rua quase vazia e contei-lhe tudo.
Descrevi-lhe todo o trabalho que envolvera três mosteiros no fabrico do livro

e da sua capa de prata, bem como na infeliz peregrinação a Constantinopla. Concluí, dizendo:

- Fui muito afortunado porque, pelo menos, consegui chegar até aqui. Não faço ideia sobre o
que aconteceu aos outros e temo o pior.

- Quanto a isso... - replicou Justin - tenho amigos entre os scholarii das portas da cidade.
Falarei com eles. É muito pouco o que entra ou sai da nossa cidade sem
que eles dêem por isso, e é possível que alguém da minha coorte tenha ouvido alguma coisa a
respeito dos teus irmãos. - Virou-se e levantou a mão para a Porta Magnaura,

que se encontrava na nossa frente. - Chegámos ao fim do caminho. Vamos procurar um barco
para ti para te levar ao navio.

Justin conversou brevemente com o guarda e o homem deixou-nos sair pela porta da noite.
Apesar de ser tarde, ainda se encontravam algumas pequenas embarcações à

espera no fundo das escadas. Justin regateou com um dos barqueiros e pagou-lhe.

- Vai levar-te ao navio. Boa noite para ti, Aidan - disse, ajudando-me a embarcar.

- Obrigado, Justin - respondi. - E obrigado também por todo o que fizeste por mim ao longo
deste dia. Rezarei a Deus para que pague a tua bondade e te recompense

mil vezes...

- Por favor, não digas mais nada... - respondeu. - Já tive a minha recompensa. O Imperador
favoreceu-me com o seu ouro, e para além disso comi o pão e bebi o vinho

com um irmão. Foi um óptimo dia para mim. - Levantou a mão numa despedida e acrescentou:
- Lembra-te que vou procurar notícias dos teus amigos... e que é possível

que já saiba qualquer coisa dentro de um ou dois dias. Vem ver-me quando puderes.

- E como é que te encontro? - gritei, quando o barco se afastava do cais.

- Estou sempre na porta da cidade. Adeus, meu amigo, e que Deus te acompanhe!

- E a ti também. Adeus, Justin!

TRINTA E QUATRO

Na manhã seguinte, muito cedo, Harald iniciou os preparativos para receber o protospatharius
a bordo do navio... e maravilhei-me com a ansiedade com que aquele saqueador

de barbas vermelhas se apressava a adoptar as aparências da civilização. Observei-o a andar


de um lado para o outro no convés, ordenando que o navio fosse preparado

para a inspecção pelo Superintendente da Frota, e pensei para comigo: ontem não passavas de
um patife pronto para a pilhagem, mas hoje já és um leal defensor do

Império.

O aguardado funcionário chegou ao meio-dia numa pequena embarcação e apareceu na


companhia de quatro homens que envergavam capas azuis. Todos eles usavam cintos
castanhos, chapéus pretos de copas baixas e abas largas, e traziam sacolas de pano preto
suspensas junto aos flancos, penduradas nos ombros por uma correia de couro.

Como se tratava } de um funcionário da corte imperial, o protospatharius também empunhava


um bastão de marfim com uma bola de bronze em cada extremidade.

O superintendente e os seus homens subiram a bordo trazendo saudações do basileu e um


documento redigido num pergaminho em que se reconhecia que o jarl e os seus

homens eram mercenários ao serviço do imperador.

- Sou Jovians, protospatharius da Frota Imperial - disse-nos, entregando o pergaminho selado a


Harald, que o recebeu com genuína gratidão e se sentou com uma expressão

quase abençoada enquanto lho lia. A seguir, os dois homens instalaram-se em frente de uma
refeição de pão escuro, peixe e öl, comeram e conversaram amigavelmente,

e só depois se lançaram na discussão dos negócios, ou seja, na discussão dos valores e


métodos de remuneração pelos serviços a prestar por Harald.

O Imperador, como vim a saber, avaliara o valor dos serviços de Harald em mil nomismi por
mês. No entanto, verificou-se alguma confu-

333

são a este respeito até ficar esclarecido que o termo "mês" devia ser entendido como o espaço
de tempo entre duas Luas Cheias.

- São cem denários de prata por mês - esclareci. - Acho que é muito bom, jarl Harald.

Hnefi e Orm, que se encontravam sentados ali perto, ouviram o número e nem quiseram
acreditar na sua boa sorte.

- Jarl Harald... - exclamaram - isso é mais do que conseguimos obter com as pilhagens de todo
o Verão passado!

Todavia, o saqueador dinamarquês não estava habituado a aceitar imediatamente a primeira


proposta que lhe fizessem.

- Talvez seja suficiente pelos meus serviços e pelo uso dos navios - retorquiu, astuto. - No
entanto, tenho quatro navios e cento e sessenta homens. Quanto é que

lhes vou dar?

- Não sabia que tinha tantos homens... - respondeu Jovian. - Talvez seja possível acrescentar
mais qualquer coisa... - Levou a cabo uma breve conferência com os
seus subordinados e acrescentou: - Nesse caso, dois mil nomismi serão suficientes? Mil por si e
pelos seus navios, e outros mil pelos homens. Que me dizem?

- São menos de dez denários por homem... - queixou-se Harald.

- Mas é mais do que a maioria deles jamais teve nas mãos de uma só vez... - salientou Hnefi.

- Não! - declarou Harald, abanando a cabeça de um modo lento e obstinado. - Dez por cada
homem!

Transmiti a resposta ao superintendente da frota.

- Bom, talvez oito... - respondeu este, cauteloso. - Para além disso, permitirei que os vossos
homens também partilhem o pão dos theme.

Harald escutou a proposta, analisou-a e estendeu a mão ao homem, à maneira dos bárbaros.
O protospatharius olhou para a mão do monarca dinamarquês com uma expressão

confusa.

- Está a dizer-lhe que concorda... - informei o funcionário. - Se estiver de acordo, aperte a mão
dele e faça assim... - expliquei, fazendo um movimento com as mãos

para lhe mostrar como era.

Jovian pegou na mão do Rei dos Mares e o acordo ficou selado. Depois daquele assunto ter
ficado esclarecido, passaram a discutir os direitos, privilégios e deveres

dos dinamarqueses como novos súbditos do Império. Por fim, decidiram como, onde e quando
iriam buscar as provisões para a viagem, bem como os métodos a utilizar

pelos Lobos do Mar para se juntarem aos navios da frota Imperial que iriam partir para
Trebizonda. Escusado será dizer que passei todo o dia a traduzir o que diziam

um ao outro. Foi uma

334

tarefa aborrecida mas aprendi muito, tanto sobre a frota do Imperador como sobre a natureza
da viagem que ia ser empreendida.

Compreendi que não se tratava apenas de uma viagem de comércio, embora este também
estivesse incluído uma vez que Trebizonda - dado o facto de se encontrar no extremo

mais longínquo da fronteira oriental -, há muito que abastecia Bizâncio com as suas sedas,
especiarias, jóias e outros luxos essenciais que, como vim a aprender
rapidamente, eram controlados pelos árabes. Uma vez por ano, partia de Bizâncio uma grande
frota de navios de mercadores que se dirigiam a Trebizonda para participarem

no grande festival comercial que tinha lugar na Primavera, onde se encontravam com
delegações de mercadores vindas de todo o mundo.

Contudo, recentemente, a delegação bizantina começara a ter problemas com os piratas


árabes que atacavam os navios de passagem para o mercado tanto na viagem de

ida como na de volta, o que criara a necessidade do envio de uma escolta de navios de guerra
para proteger os mercadores. Tratava-se de uma acção dispendiosa, que

a marinha imperial preferia evitar, tanto mais que essas embarcações eram cada vez mais
necessárias noutros sítios. Era por esse motivo que o Imperador ia arriscar

os seus navios nos mares invernosos, a fim de enviar um emissário que se reuniria em
conselho com uma entidade chamada Califa de Samarra. Se a reunião tivesse êxito

e os actos de pirataria pudessem ser controlados, então evitar-se-iam muitas despesas e


perdas de sangue por altura do festival do ano seguinte.

Já era tarde quando o protospatharius concluiu as negociações e se foi embora. Pedi


autorização para regressar à cidade, pensando que poderia voltar a rezar numa

das igrejas de Constantinopla ou ter alguma notícia de Justin quanto ao destino dos meus
irmãos monges, mas o jarl Harald não mo permitiu e aproveitou para exigir

que o informasse sobre o que : se passara entre mim e o imperador no dia anterior. Acalentara
a esperança de que não mo perguntasse mas já decidira, caso isso viesse

a acontecer, que lhe diria a verdade, ou pelo menos aquela parte da verdade que me era
possível transmitir-lhe sem trair a confiança do Imperador.

- Era muito tarde quando regressaste ao navio - salientou o monarca. - Pergunto a mim mesmo
que espécie de utilidade terá o Imperador descoberto no meu escravo...

- Jarl Harald... - respondi - é verdade que estive longe de ti durante muito tempo. O Imperador
quis falar comigo a respeito da viagem a Trebizonda.

335

- Estou a ver... - respondeu, de um modo que sugeria que não compreendia de modo nenhum
porque motivo o Imperador se dera ao trabalho de falar comigo.

- Creio que te ficou grato por teres levado o Capitão do Porto a enfrentar a justiça... - sugeri,
fugindo um pouco ao assunto.
- Ah, sim... - replicou Harald como se já quase não se recordasse do incidente - ... o Capitão do
Porto. Mais nada?

- O Imperador pensa que não pode confiar em muitos dos seus funcionários da corte -
continuei - e é por isso que faz um uso tão liberal de mercenários, homens que

prosperam com os seus êxitos e nada têm a ganhar com a sua morte... e mostra-se disposto a
recompensar amplamente todos aqueles que lhe agradarem.

- Acho que esse Basil é um homem esperto, que se sabe servir muito bem das ferramentas da
sua arte... - murmurou Harald. - Perguntou alguma coisa a meu respeito?

- A teu respeito, jarl Harald? Não, não me perguntou nada a teu respeito, nem sobre os teus
negócios. No entanto posso afirmar-te que pareceu ter ficado muito satisfeito

com o acordo entre os dois. De qualquer modo, não falou mais no assunto... excepto para
dizer que considerava estas alianças como muito úteis, uma vez que não podia

confiar nos outros.

- Heya... - retorquiu Harald, distraído. Era óbvio que eu não lhe estava a dizer o que ele queria
ouvir. Permaneceu em silêncio durante um bocado e acrescentou:

- Ficarás a bordo até partirmos. Está decidido!

Mandou-me embora, pelo que me dirigi para a proa e me instalei no recanto muito agudo
formado pela elevação da quilha e pelas amuradas. Foi aí, por baixo da feroz

cabeça pintada de um dragão, que virei o rosto para as tábuas, fechei os olhos e tentei impor
alguma ordem ao caos dos meus pensamentos. Aqueles últimos dias haviam

sido muito confusos para mim e sofria os efeitos de todo o esforço despendido a tentar
navegar contra uma verdadeira maré de acontecimentos.

Para começar, chegara à cidade da minha morte. Por estranho que pudesse parecer, o facto
deixara de me meter medo. Suponho que vivera o suficiente com esse conhecimento

para que todo o medo desaparecesse. Agora que ali estava já pouco sentia, excepto talvez
uma curiosidade ambígua. Contudo, os meus sonhos lúcidos nunca faziam previsões

falsas e uma longa experiência nesse campo há muito que me ensinara que aquilo que neles
via nunca deixava de acontecer. Mesmo assim, chegara a Constantinopla, caminhara

pela cidade e continuava vivo... e não fazia ideia sobre o que deveria pensar a esse respeito.

336
Também não sabia o que pensar acerca da sugestão de Justin de que talvez conseguisse ter
notícias dos meus irmãos monges. Se tivessem chegado a Constantinopla, então

de certeza que o Imperador o saberia uma vez que lhe teriam pedido uma audiência mesmo
que não o pudessem presentear com o livro. A lógica sugeria que a peregrinação

falhara, mas a esperança argumentava em contrário.

E depois... havia o segredo do Imperador. Que deveria pensar a esse respeito?

- Neste momento, temos uma hipótese de paz com os maometanos do Abássida - dissera-me o
Imperador logo que havíamos ficado a sós. Apesar da paz ser uma meta louvável

e digna de ser perseguida em todas as circunstâncias, não fazia ideia sobre quem ou o que
seriam esses tais maometanos... e fora precisamente por causa disso que

o Imperador quisera incluir-me na embaixada a Trebizonda. - Necessitamos de uma


testemunha imparcial, astuto monge - afirmara o Imperador. - Precisamos de alguém

que observe e recorde o que lá se passar, de uma pessoa desconhecida e de quem ninguém
desconfie...

A seguir, o basileu deixara implícito que me libertaria do cativeiro de Harald se estivesse de


acordo em informá-lo sobre o andamento das reuniões entre os seus

emissários e os do califa. Que homem escolheria continuar como escravo, nem que fosse
apenas por um momento, se lhe dessem a oportunidade de se ver livre da escravatura

com uma única palavra?

Oh, mas eu também era cauteloso! Por muito que tentasse, não conseguia discernir os
motivos do Imperador. Talvez pretendesse apenas ajudar-me, ou recompensar-me

com a liberdade por ter ajudado a colocar um quaestor desonesto perante a justiça. Contudo,
se fosse isso o que tivera em mente, então podia tê-lo feito logo ali,

no momento...

Meditei nas palavras do Imperador, dando-lhes voltas na minha mente. Também prestara uma
atenção especial a tudo o que se passara entre Harald e o Superintendente

da Frota, na esperança de captar uma sugestão, por muito pequena que fosse, sobre os
receios do Imperador a respeito de alguém ou de alguma coisa, receios esses

que o tinham levado a tomar precauções tão ilícitas. Ficara a saber muita coisa, mas nada que
justificasse quaisquer apreensões nem que respondesse à interrogação

mais vexatória: porque fora que o imperador me escolhera?

Talvez, como sugerira, não pudesse dispensar nenhum dos seus homens de confiança para
aquela missão e tivesse chegado à conclusão de que eu, como escravo de Harald,
tinha de seguir nos navios e podia prés-

337

tar-lhe um serviço útil. Contudo, não deixei de me interrogar: seria de facto tão difícil
encontrar homens leais?

Provavelmente agira apenas por impulso e nada mais. Foi o que repeti para mim mesmo... mas
mesmo assim não consegui deixar de pensar que havia algo muito mais sinistro

por trás de tudo aquilo. Sem dúvida que estava a ser influenciado pela vil má-língua de Justin,
pois tenho de confessar que a mesma me perturbara grandemente. Falar

daquele modo fora uma atitude muito descuidada da sua parte. Fosse eu um melhor sacerdote
e ter-lhe-ia imposto uma penitência para o inibir de repetir boatos sempre

que, no futuro, voltasse a sentir-se tentado a fazê-lo.

Estes pensamentos rodopiavam sem descanso na minha mente inquieta, sem nunca se
deterem. Contudo, no fim, cheguei a uma conclusão: fora o próprio Sacro Imperador

quem pedira os meus serviços e eu, como sacerdote da igreja, era obrigado a obedecer-lhe ou
faltaria ao meu juramento.

As desconfianças, dissera Justin, são a faca escondida na tua manga e o escudo a proteger-te
as costas. Tentei afastar aquela ideia da cabeça mas não conseguia deixar

de recordar as palavras do guarda: As desconfianças andam à solta em todos os locais onde


exista riqueza e o poder.

Tais eram os pensamentos, que me enxameavam no cérebro como vespas. Acabei por
abandonar a ideia de lhes impor alguma ordem e limitei-me a aliviar o meu coração

na presença de Deus. Rezei durante muito tempo mas não obtive nenhuma espécie de alívio.
Desisti e sentei-me tranquilamente, ouvindo as conversas dos homens à minha

volta. Instantes depois, levantei-me e entretive-me a tratar de outras coisas.

No dia seguinte, o Superintendente da Frota enviou-nos um homem com um mapa que


indicava o nosso destino e a rota que deveríamos seguir. O monarca e o piloto estudaram

o mapa, serviram-se de mim como intérprete e interrogaram o homem durante muito tempo.
O mapa era muito mais pormenorizado e preciso do que qualquer outro que Thorkel

já tivesse visto, e revelava muito a respeito dos mares do sul, até ali completamente
desconhecidos para os dinamarqueses. Depois de se sentirem esclarecidos sobre
tudo o que puderam, Harald mandou o homem embora... e ainda mal este acabara de descer
do convés e já o monarca me ordenava que lhe fizesse uma cópia do mapa. Perseverei,

não obstante ter de me servir das ferramentas mais primitivas - tal como uma pena de ave
para escrever! - e acabei por descobrir que aquele trabalho me era agradável.

Não consegui resistir à tentação e desenhei algumas espirais e nós entrelaçados num dos lados
do pergaminho. A pena, embora rudimentar, serviu-me bem. Gostei tanto

de praticar a minha antiga arte que também desenhei um ganso

338

selvagem - símbolo do Espírito Santo - por cima do vazio dos mares do sul, numa bênção a
todos os que viessem a pegar naquele mapa em anos , futuros. O trabalho

ocupou-me durante o resto do dia e afastou-me a mente do meu desejo de ir a terra.

Na manhã seguinte, os navios foram transferidos para o Porto de Theo-dosius, que servia a
frota do Imperador e se encontrava mais perto dos armazéns e dos celeiros.

Passei toda aquela desagradável manhã de chuva a ver as carroças que rolavam para o cais e
os sacos e cestos de provisões que eram descarregados para os navios que

os aguardavam, sempre à espera de uma oportunidade para abandonar o navio. Não obstante
as ordens de Harald, ainda tinha a esperança de conseguir trocar algumas

palavras com Justin. Algum tempo depois a chuva parou e surgiu um sol baço e enevoado. As
gaivotas rodopiaram no ar, mergulhando nas águas do porto em busca de restos.

O meio-dia aproximou-se e comecei a recear que Harald mantivesse a sua decisão e que não
me desse uma última oportunidade de ir à cidade.

Felizmente, Gunnar veio ter comigo quando os últimos sacos de provisões já estavam a ser
armazenados.

- Heya, Aeddan! - declarou, à maneira de saudação - O jarl Harald disse que eu e o Hnefi temos
de ir buscar a nossa parte do pão. - Passou-me para as mãos um pequeno

quadrado de pergaminho com o selo imperial, em que alguém escrevera um número. -


Também disse que tens de ir connosco para o caso de sermos questionados pelos que

detêm a autoridade sobre o pão.

Era a oportunidade por que eu tanto ansiara. Enfiei o pergaminho no cinto e respondi:

- Quando o jarl ordena, devemos obedecer. Vamos, depressa!


- Heya! - concordou Gunnar, olhando-me com uma expressão dúbia.

Chamámos duas das inúmeras pequenas embarcações que trabalhavam no porto e partimos
com um grupo de dez homens para irmos buscar o pão para os navios. Um dos pequenos

privilégios do serviço nas forças imperiais era aquela ração de pão que podia ser obtida em
qualquer das várias padarias imperiais espalhadas pela cidade. Embora

os quatro navios de Harald se encontrassem completamente carregados de provisões, o


monarca tinha a intenção de exigir tudo o que lhe era devido. Se o acordo com

o Superintendente da Frota incluíra o pão, e se o Imperador decretara pão gratuito para os


que o serviam... então Harald queria receber esse mesmo pão até à última

migalha.

339

Não obstante estarmos agora ao serviço do Imperador, continuávamos a ser bárbaros e


tínhamos de utilizar a Porta Magnaura. Este facto significava um regresso ao

Porto de Hormisdas, mas os barqueiros não se importaram porque iriam ganhar mais. Não
perdi tempo a dirigir-me à porta logo que desembarcámos. Deixei Gunnar e Hnefi

com o prefeito da porta, para adquirirem os disci para os outros, e corri até ao posto dos
guardas. Justin não se encontrava entre eles e não o vi em lado nenhum.

- Onde está o scholarae Justin? - perguntei, dirigindo-me ao soldado mais próximo.

O homem olhou-me com uma expressão de desprezo.

- Põe-te a andar - grunhiu.

- Por favor... - insisti. - É importante. Fiquei de me encontrar com ele aqui e preciso de saber
para onde foi.

- Não tens nada com isso! - retorquiu o guarda. Preparava-se para me afastar dali à força
quando um dos outros intercedeu por mim.

- Lucca, diz-lhe o que ele quer saber - pediu o outro. - Não faz mal nenhum...

- Então diz-lho tu! - replicou o primeiro soldado, franzindo o nariz para mim e virando-me as
costas.

- Se sabes onde ele está - disse, apelando ao segundo soldado - ficaria muito grato pela tua
ajuda.
- O scholarae Justin foi recolocado - declarou o homem. Olhou-me com mais atenção e
perguntou: - És tu o sacerdote chamado Aidan?

- Sim, sou eu.

O soldado acenou um assentimento e declarou:

- Disse-me para te informar que o poderás encontrar no Grande Palácio.

- No palácio...? Mas onde...? - Senti o coração a cair-me aos pés ante a perspectiva de ter de o
localizar no meio daquele labirinto de muralhas, salões, residências

e escritórios, isto partindo do princípio de que me deixariam entrar. - Em que parte do palácio?

- Não mo disse - retorquiu o guarda, encolhendo os ombros. - Provavelmente, está num dos
portões.

Agradeci ao guarda e afastei-me, interrogando-me sobre quando teria a hipótese de regressar


ao Grande Palácio, e sobre como iria localizar o Justin mesmo que conseguisse

lá chegar.

TRINTA E CINCO

Gunnar e Tolar estavam à minha espera quando regressei à tenda do prefeito.

- Bom... - disse Gunnar, olhando para a rua cheia de gente - agora só temos de descobrir um
sítio onde façam o pão.

Olhei em volta e reparei nas pessoas que entravam e saíam pela porta da cidade. Eram muitas
as que transportavam fardos, mas algumas eram conduzidas por outras que

seguiam à frente e abriam o caminho. Tive uma inspiração súbita e comentei:

- É mais fácil dizê-lo do que fazê-lo. Todos sabemos o que aconteceu da outra vez, quando
andámos a vaguear pela cidade.

- Sim, e o jarl Harald não ficou tão contente connosco como esperávamos... - admitiu Gunnar
enquanto Tolar acenava com um ar sombrio.

- Pois não, não ficou - concordei. - A melhor maneira de evitarmos a ira do rei é arranjando
alguém que nos sirva de guia.

- Tens boas ideias, Aeddan - afirmou Gunnar - mas não me parece que Hnefi nos autorize a
fazê-lo.

Pensei rapidamente e perguntei:


- Quantas moedas de prata tens contigo?

- Não mais de dez moedas - retorquiu, olhando-me com desconfiança.

- Óptimo! - exclamei. - Devem ser suficientes... e talvez nem sequer venham a fazer falta. -
Olhei para os outros, à espera a uns dez passos de distância. - Vamos

perguntar ao Hnefi.

Seguiu-se uma curta consulta, com Gunnar e Hnefi a argumentarem a respeito da ideia de
contratação de um guia.

- Esta Miklagard é uma povoação muito grande e confusa, tal como sabes - salientou Gunnar. -
Se o jarl estivesse aqui, de certeza que se serviria de um guia.

341

- O jarl Harald nunca se serviria de um guia - insistiu Hnefi - e eu também não o farei. Somos
Lobos do Mar e não precisamos da ajuda de ninguém para descobrirmos

o caminho.

Os dinamarqueses que nos olhavam acenaram a sua concordância e percebi que as suas
opiniões eram em grande parte a favor da posição de Hnefi.

- Estás enganado, Hnefi. Num sítio como este, é bem melhor termos alguém que nos indique o
caminho - insisti.

- Da última vez andámos sozinhos e as coisas não nos correram bem - acrescentou Gunnar. - O
jarl ficou muito zangado connosco. Acho que vale a pena recordares-te

disso.

- Serve-te tu de um guia - troçou Hnefi, como se se tratasse de um insulto. - Nunca me


rebaixarei ao ponto de aceitar uma tal indignidade.

- Muito bem! Arranjaremos um guia... - declarei - e entregaremos o pão nos navios antes de
vocês.

- Falas demais! - grunhiu Hnefi. - Não dou ouvidos ao palavreado de escravos!

Aproveitei a oportunidade e lancei o meu desafio:

- Então façamos uma aposta e veremos quem tem razão!

- Foi por tua culpa que o jarl ficou zangado - replicou Hnefi, num tom descuidado. - Não estou
interessado em dar-te ouvidos.
- Só dizes isso porque não queres separar-te da tua prata - comentei, embora com algum
receio de ser agredido. - Sabes que tenho razão mas não queres admiti-lo em

frente dos teus amigos. - Indiquei os dinamarqueses que nos olhavam com um interesse
crescente.

Tal como esperava, Hnefi mordeu o isco.

- Não faço apostas com escravos - declarou, endireitando-se com um ar altivo. - Para além
disso, não tens prata.

- É verdade - admiti. - Contudo, Gunnar tem a bolsa bem recheada.

- Mas não tão recheada que não possa levar mais moedas - acrescentou Gunnar num tom
grandioso. - Vamos Hnefi, façamos essa aposta... se não tiveres medo de perder.

Três peças de pra...

- Dez peças de prata! - declarei, intervindo rapidamente. - Dez denários para os primeiros a
chegarem ao navio com metade da ração de pão.

Gunnar hesitou e olhou-me com algumas dúvidas.

- Ah! Já não pareces muito convencido, Gunnar Gabarolas? - exclamou o altivo Hnefi, rindo-se.
- Dez peças de prata é demasiado para ti, heya?

342

- Estava apenas a pensar em como irei gastar os meus ganhos - respondeu Gunnar
calmamente. - É difícil saber o que fazer com tanta prata, toda de uma só vez. Essas

coisas precisam de ser planeadas... e vou ter de comprar uma bolsa maior.

Tolar soltou uma risadinha.

- Sigam o vosso caminho! - troçou Hnefi. - Veremos quem chega primeiro aos navios. - Hnefi
virou-se para os restantes bárbaros. - São livres de escolher. Querem

ir com o Gunnar ou comigo?

O convite deu origem a uma breve discussão sobre os méritos de cada um dos lados. Alguns
deles sentiam-se intrigados e talvez fossem capazes de alinhar com Gunnar,

mas a aposta mais segura era ao lado de Hnefi. Os bárbaros, ao que parecia, confiavam mais
no seu chefe de batalha do que num escravo e num guia desconhecido.

- Talvez seja melhor entregares-me já a tua prata - riu-se Hnefi. - Parece-me que vais ficar
sozinho com o teu amigo escravo.
- Tolar também fica comigo - replicou Gunnar.

- Sim, mas os outros vão comigo.

- Como é que vocês três vão conseguir carregar tanto pão? - perguntou um dos bárbaros.

- Ora, isso não os preocupa... - troçou Hnefi - porque nunca o encontrarão! - Fez um gesto para
que o grupo o seguisse e afastaram-se, muito bem-dispostos, discutindo

como deveriam ajudar Hnefi a gastar o dinheiro que iria ganhar com a aposta.

- O Hnefi tem razão... - comentou Gunnar, pesaroso. - Mesmo que sejamos os primeiros a
encontrar o pão, nunca o conseguiremos transportar. Fiz uma aposta estúpida.

- Não sejas tão pessimista, Gunnar - retorqui, com ligeireza. - Não te preocupes e nada temas.
Deus está pronto para ajudar todos os que o invocarem em momentos

de necessidade.

- Então, é melhor que o invoques agora, Aeddan - incitou-me Gunnar. - Somos três... contra
dez.

De pé, no meio da rua, rezei a Deus para que nos conduzisse rapidamente ao padeiro mais
próximo e nos concedesse a vitória. A oração deixou Gunnar muito agradado...

e afirmou que um deus que ajudava um homem a ganhar apostas era um deus que valia a
pena conhecer. l|, - Agora... - disse-lhe - só temos de descobrir um guia.

Corri de volta ao cais... e uma rápida vista de olhos pela baía produziu rapidamente os
resultados desejados.

- Ali! Ali está ele! - exclamei. - Depressa, ajudem-me a chamá-lo!

343

Gunnar, Tolar e eu parámos no cais, agitámos os braços e gritámos como loucos. Não foi
preciso esperar muito para termos o pequeno barqueiro na nossa frente.

- Saudações, Didimus - disse-lhe. - Precisamos de um guia. Podes arranjar-nos alguém?

- Meu amigo... - retorquiu o homem, feliz - dizem ao Didimus para "arranjar um guia", e eu
digo-vos: não procurem mais. Têm na vossa frente o melhor guia de toda

Bizâncio. A cidade não tem segredos para Didimus. Podem colocar toda a vossa confiança em
mim, meus amigos bárbaros, e em breve vos levarei onde quiserem ir.

Desceu os degraus à pressa para regressar à sua embarcação, amarrou-a a um anel de ferro na
muralha do cais e regressou imediatamente, ansioso por nos conduzir.
- Vejamos, onde é que querem ir? Talvez uma visita à Hagia Sophia? Ou à Igreja da Sagrada
Sabedoria? Posso levá-los lá. Querem ir ao Hipódromo? Também vos levo até

lá. Sigam-me, meus amigos, e em breve vos mostrarei tudo o que há de mais interessante
nesta cidade.

Tive de o deter porque o barqueiro queria partir imediatamente.

- Didimus, espera um momento, por favor - pedi-lhe. - Temos um assunto urgente para
resolver e precisamos da tua ajuda.

- Sou um vosso servo... e é como se esse vosso assunto já estivesse resolvido. - Sorriu, desviou
os olhos para o Gunnar e voltou a fitar-me.

- Onde querem que vos leve?

- A padaria imperial mais próxima.

- Uma padaria! - exclamou o pequeno barqueiro, fazendo uma careta de desconsolo. - Têm
toda a cidade à vossa disposição e querem ir a uma padaria! Levo-vos à Hagia

Sophia! Vão gostar de a visitar!

- Com certeza, leva-nos à Igreja de Santa Sofia... - repliquei - mas primeiro é da maior
importância que encontremos uma padaria para podermos levar a ração de pão

para os navios.

- Se é isso o que querem... - respondeu Didimus, encolhendo os ombros - então o vosso desejo
em breve será satisfeito. Sigam-me!

Avançou com vivacidade, gritando às pessoas que se afastassem do nosso caminho.


Entretanto, Gunnar parecia preocupado.

- Não tens nada a recear - disse-lhe, logo que começámos a andar.

- Vamos ganhar. Como podes ver, Deus já respondeu às nossas orações.

Fomos atrás do nosso guia palrador, que parecia decidido a que apreciássemos todos os
possíveis pontos de interesse que avistávamos ao longo do caminho enquanto

percorríamos ruas estreitas e cheias de gente. Acon-

344

teceu que a padaria imperial mais próxima ficava perto dos celeiros e a pouca distância do
porto, pelo que não tivemos de andar muito.
- Meus amigos, aqui têm a padaria - anunciou Didimus, apontando para o edifício pintado de
branco que se encontrava na nossa frente.

Se não fosse a coluna de fumo que saía do tubo de barro erguido no telhado, aquilo até
poderia ser um estábulo. Didimus avançou para a porta pintada de azul e bateu-lhe

com a palma da mão. Ouvimos uma voz a ressoar no interior.

- Diz para esperarmos - informou-nos um barqueiro.

Ficámos na rua, observando as pessoas que se apressavam à nossa volta. O vestuário e a


aparência dos bizantinos mais ricos voltou a divertir-me e a espantar-me.

A sua atenção excessiva e extraordinária a cada uma das peças de vestuário e a cada caracol
do penteado era espantosa. Vi três homens a passarem por perto, mergulhados

numa viva conversa, com o que seguia à frente a esmurrar a palma de uma das mãos. Todos
eles envergavam compridas capas com cores brilhantes, bem como túnicas ricamente

bordadas e com ombros estufados para os fazerem parecer mais largos, o que me parecia ser
um absurdo. Usavam os cabelos compridos e muito oleados, dispostos em caracóis

bem ordenados, tal como acontecia com as barbas. Passaram por nós e notaram a presença de
Gunnar e Tolar. Levantaram os narizes e viraram os rostos para o outro

lado, apressando-se como se estivessem a farejar um qualquer odor repelente. Pessoalmente


senti-me ligeiramente ofendido, mas o Gunnar riu-se da pomposidade daqueles

homens.

A porta azul abriu-se alguns instantes depois.

- Pronto! - exclamou um homem gordo, com um traje castanho muito justo. Os seus cabelos e
roupas estavam quase brancos de farinha. - Lançou-nos uma única olhadela

e gritou: - Desapareçam! Vão-se embora daqui!

Nem sequer nos deu tempo para abrirmos as bocas. Voltou a meter a cabeça para dentro e
bateu com a porta.

- É um homem muito pouco amigável... - comentou Didimus. Fez tenção de voltar a bater na
porta mas Gunnar avançou, indicando-lhe que se desviasse. Fez um sinal a

Tolar, mandando-o colocar-se junto à porta, e bateu com força.

Aguardámos algum tempo. Gunnar insistiu nas suas batidas, servindo-se do cabo da faca e
fazendo com que a porta vibrasse nas dobradiças. Momentos depois, o homem

voltou a meter a cabeça de fora, já muito zangado.


345

- Eh, vocês! Acabem com isso! Já -lhes disse para desaparecerem daqui! - berrou, enquanto
fazia um gesto com a mão a mandar-nos embora.

Rápido como um pestanejo, Gunnar agarrou o padeiro pelo seu gordo pulso e puxou-o para o
exterior, para a rua. O padeiro resmungou de ira e virou-se, mas Tolar colocara-se

rapidamente por trás dele e bloqueara a porta, impedindo-lhe a retirada.

- Meu amigo... - disse-lhe - temos negócios a discutir contigo...

- Mentiroso! - rosnou o homem. - Só faço fornadas para o Imperador! Os pagãos e os bárbaros


não provam o meu pão! Desapareçam antes que chame os scholares!

- Estes homens também estão ao serviço do Imperador - declarei, num tom já irritado - que os
enviou aqui para receberem a sua ração de pão.

- Volto a dizer que és um mentiroso! - fungou o homem, cujo rosto se tornara muito vermelho
e parecia prestes a explodir. - Nunca vos vi! Acham que roubar-me o pão

é assim tão fácil? Não sou como os outros, que entregam os politikói ao primeiro que aparece,
para depois cobrarem preços exorbitantes ao estado! O meu pão é um

pão honesto, e eu sou um homem honesto!

- Nesse caso, nada tens a temer de nós... - declarei, tentando acalmá-lo. - Os homens que vês
na tua presença prestam serviço na guarda de bárbaros. Vieram buscar

os politikói, tal como dizes, para os navios que vão escoltar a delegação comercial que vai
partir para Trebizonda.

O padeiro gordo ficou a olhar para mim.

- Chamo-me Constantius - afirmou, acalmando-se um pouco. - Se vêm por ordem do


Imperador, onde está a sakka? - estendeu a mão para mim, com a palma virada para cima.

- O que é isso? - perguntei-lhe.

- Ladrões! - gritou o padeiro. - Bem me parecia! Já sabia! Ponham-se a andar, seus ladrões!

- Por favor... - insisti - o que é a sakka?

- Ah! Não conheces os politikói e nunca ouviste falar na sakka! Se fossem realmente
farghaneses... - troçou - então tinham a obrigação de saber o que isso é eu não

precisava de lhes explicar...

Gunnar acompanhava aquela troca de palavras com uma expressão perplexa, observava todos
os nossos movimentos com atenção e não tirava a mão do punho da faca.
346

- Somos homens do Imperador - insisti - mas nunca fizemos isto. Os costumes de Bizâncio são
novos para todos nós.

- A sakka é fornecida pelo loghotete e indica o número de pães a que têm direito - explicou o
padeiro. - Se não a têm, não podem levar o pão. Agora, saiam da minha

frente. Já me fizeram perder demasiado tempo!

A compreensão atingiu-me repentinamente. Meti a mão no cinto e fiz aparecer o pequeno


quadrado de pergaminho que Gunnar me entregara.

- Será isto a sakka de que falas, ou não?

Constantius arrancou-me o pergaminho das mãos, lançou-lhe uma olhadela e devolveu-mo.

- É impossível. Não tenho tanto pão. Voltem amanhã!

- Precisamos dele hoje - declarei. - Há mais alguma padaria a que possamos ir?

- Há mais padarias... - afirmou Constantius, rígido - mas não vos servirá de nada. Ninguém tem
tanto pão pronto para ser levado. - Podes cozê-lo?

- Claro que o posso cozer - exclamou - mas não todo ao mesmo :' tempo! Se querem levar
tantos pães de uma só vez... então terão de esperar.

- Não nos importamos de esperar - declarei.

- Pois esperem... - resmungou - mas não aqui! Não quero bárbaros a pairar junto à minha
padaria. Não seria próprio...

- Está bem - concordei. - Diz-nos quando devemos voltar... e regressaremos quando os pães
estiverem prontos.

- Vocês, os quatro?! - admirou-se o homem. Não conseguirão levar tantos pães.

- Porquê? - perguntei, sentindo o coração a cair-me aos pés. - Quantos pães são?

O padeiro lançou uma segunda olhadela para o pergaminho e respondeu:

- São trezentos e quarenta pães.

- Traremos mais bárbaros para nos ajudarem... - repliquei. - Iremos buscá-los agora.

- Dizes que têm navios - murmurou Constantius. - Onde estão esses navios?

- No Porto de Theodosius - respondeu o barqueiro.


- Não é longe - declarou o padeiro. - Vou lá levá-los quando > estiverem prontos.

- Não há necessidade. Nós próprios os transportaremos...

347

- Não, insisto! Deixem esse assunto comigo - ripostou o padeiro. - Desse modo, tenho a certeza
de que não os vendem pelo caminho quando os levarem para o porto.

- Está bem, só queríamos poupar-te trabalho... Ficaremos muito gratos pelos teus serviços. São
quatro navios dinamarqueses... daqueles muito compridos...

- Ah, sim, são fáceis de descobrir. - O homem baixou a cabeça e virou-se abruptamente. Tolar
continuava a bloquear a porta.

- Deixa-o passar - pedi-lhe. - Este homem vai ter de trabalhar muito para nós. - Tolar desviou-
se e deixou passar o padeiro.

Constantius desapareceu novamente no interior da sua padaria, afirmando:

- Sou um homem honesto e faço pães honestos. Encontrar-me-ão no cais... mas não esperem
por mim antes do pôr do Sol! - declarou, batendo com a porta.

- Que se passou aqui? - perguntou Gunnar. Expliquei-lhe toda a nossa conversa. Ouviu-a e
abanou a cabeça.

- Não devia ter apostado todo aquele dinheiro - resmungou, pesaroso. - O pôr do Sol ainda
vem longe. É quase certo que Hnefi e os outros vão chegar antes de nós...

- Esqueces-te que somos nós quem tem a sakka. - Expliquei-lhe qual era a finalidade do
pequeno mas muito importante bocado de pergaminho que ele me dera e que eu

entregara ao padeiro. - Ninguém lhes dará pão sem ela!

- Heya! - Exclamou Gunnar, com a carranca a transformar-se num grande sorriso. - Nesse caso,
devia ter apostado mais!

- Gunnar Gabarolas! - comentou Tolar, rindo-se.

- Hnefi e os outros nem sequer se aperceberão do erro... - acrescentei - a não ser que
aprendam o grego muito rapidamente. Quando se lembrarem de vir à nossa procura

já estaremos a bordo, com os pães.

- Foste muito astuto, meu amigo - murmurou Didimus. - Um verdadeiro Hércules do intelecto.
Os meus cumprimentos... - Levantou a mão, numa grosseira imitação da saudação

imperial. - Agora, como não podemos ficar aqui, mostrar-lhe-ei o que quiserem.
- Por favor, podes levar-nos ao Palácio Imperial? Preciso de falar com uma pessoa.

- Descansem, levo-vos lá... - replicou Didimus - e a seguir também vos levo à Hagia Sophia,
onde acenderás uma vela por mim, pedindo ao Deus Todo-Poderoso que me

conceda uma astúcia igual à tua. Sigam-me!

TRINTA E SEIS

Os guardas do Palácio Real correram connosco. Nem sequer tinham ouvido falar de Justin e
tinham a certeza de que não se encontrava no contingente dos portões porque

havia mais de um ano que não se verificavam novas nomeações. Contudo, um deles sugeriu
que Justin talvez fizesse agora parte dos scholare do palácio interior.

- Podes procurá-lo lá - disse-me o guarda.

- Seguirei o teu conselho... se me fizeres o favor de me dizer onde me devo dirigir - repliquei,
mas fui imediatamente informado que era impossível, a não ser que

tivesse um assunto oficial para tratar no interior dos portões.

- O meu assunto é com o próprio scholarae - expliquei.

- Ninguém pode entrar no recinto interior sem uma convocação oficial - insistiu o porteiro.

Agradeci-lhe a ajuda e resignei-me à perspectiva de abandonar a cidade sem conseguir falar


com Justin.

- Agora, vamos à Igreja da Divina Sabedoria... - afirmou Didimus, guiando-nos de volta através
do enxame de mendigos que tinham feito as suas casas contra as muralhas

do palácio - e acenderemos uma vela pelo teu amigo, ou talvez muitas velas.

Gunnar parecia preparado para dar uma última vista de olhos pelos pontos de maior interesse
da cidade antes da partida dos navios. Pela sua parte, Tolar nada vira

de Constantinopla e ficava contente por nos seguir para onde quer que fôssemos.

- Não me interessa onde vamos - afirmou Gunnar - desde que chegue a tempo de receber a
prata que vou ganhar ao Hnefi.

- Não é longe daqui - declarou Didimus. - Nada receiem, pois têm muito tempo para
regressarem aos navios. Estão a falar com o melhor guia de toda Bizâncio. Vamos,

meus amigos, e pelo caminho também lhes mostro o Hipódromo e o Fórum de Augustus...
349

O Hipódromo era impressionante. O Fórum era um espaço vazio rodeado por duzentas
colunas, quase todas retiradas a templos gregos, explicou-nos Didimus, porque já

ninguém se recordava como as mesmas se faziam. Não acreditei naquilo, mas as colunas eram
definitivamente mais antigas do que o fórum, pelo que talvez houvesse um

grão de verdade nas suas palavras. Todavia, por muito imponentes que aquelas estruturas
pudessem ser, tornavam-se insignificantes ao lado da espantosa realização

da Hagia Sophia.

Que o céu me abençoe, mas a Igreja da Santa Sabedoria é uma revelação sagrada tornada
visível, um verdadeiro testamento de fé em pedra e argamassa. É uma oração

em vidro, azulejos e metais preciosos. É uma verdadeira maravilha do mundo, capaz de


envergonhar os tão gabados espectáculos arquitecturais da antiguidade. De certeza

que foi o próprio Deus quem inspirou aquela igreja e que guiou os passos de cada um dos que
nela trabalharam, desde os que manejaram trolhas e barrotes aos que conceberam

e desenharam os planos.

Depois do Fórum acertámos o passo com as pessoas que entravam na igreja e passámos
directamente para a primeira das duas grandes salas. Tal como muitos outros também

faziam, parámos numa banca de vendas para que Didimus pudesse comprar velas e incenso, e
em seguida avançámos rapidamente para a segunda sala, muito maior do que

a primeira e inteiramente forrada a grandes placas de mármore vermelho e verde. O tecto em


abóbada por cima de nós estava decorado com milhares de estrelas e cruzes

de ouro. No alto das gigantescas portas de bronze que se abriam na nossa frente via-se um
mosaico da Virgem e do Menino. A criança divina segurava numa pequena cruz,

como se quisesse abençoar todos aqueles que passavam sob o seu olhar benevolente.

Fomos arrastados pela multidão, passámos por baixo do mosaico e da porta a que dão o nome
de Maravilhosa e entrámos na nave da igreja. O imponente colosso avermelhado

de Hagia Sophia pode parecer pesado quando visto do exterior, como se fosse uma verdadeira
montanha de tijolos e pedras cujas enormes vertentes se erguem muito acima

das copas das árvores que a rodeiam, e com uma cúpula enorme envolvida por maciças
muralhas de pedra e por gigantescos botaréus de apoio, mas o interior é precisamente

o oposto, todo leveza e espaços abertos.


Entrar pelas grandes portas de bronze é como entrar num dos grandes salões do céu. Os feixes
de luz dourada provenientes de milhares de aberturas provocam reflexos

e brilhos em todas as superfícies, e descem sobre nós vindos de uma cúpula tão vasta e aberta
como o próprio céu.

350

Milagre dos milagres, não há nenhuma espécie de colunas de suporte por baixo da cúpula de
Santa Sofia e nada impede os olhares ou obstrui a visão quando erguemos

os olhos para aquelas alturas exaltadas. A majestosa cúpula paira lá no alto, sobre o chão de
mármore, como se tivesse sido suspensa do próprio céu por mãos angélicas.

O pavimento, tão vasto como uma planície, é todo feito com um belo mármore polido. As duas
galerias com dois pisos, muito acima do chão, também são inteiramente

em mármore, mas com um tom escuro e atraente para os olhos. Há biombos e painéis de
mármore, trabalhosamente esculpidos com todo o tipo de desenhos; formas geométricas

intrincadas, cruzes, sóis, luas, aves, flores, plantas, animais, peixes. De facto, incluem tudo o
que existe tanto nos céus como na Terra. As galerias são flanqueadas

por enormes colunas de pórfiro cujos capitéis foram esculpidos com a forma de plantas. Os
escultores praticaram a sua arte com tanta astúcia que é como se essas

mesmas colunas suportassem massas de videiras de folhagem luxuriante.

As galerias e corredores pareciam-me intermináveis. Os arcos suportados por pilares erguem-


se em camadas sobrepostas. Por cima deles podiam ver-se centenas e centenas

de janelas em arco que admitiam a luz vinda do céu. Embora dentro do corpo principal da
igreja se encontrassem talvez mil pessoas, as suas dimensões são tais que

podem acomodar facilmente o dobro ou o triplo.

Os tectos e frontões estão quase todos cobertos por mosaicos com os desenhos mais
complicados. Os monges do scriptorium eram adeptos ferventes dos padrões altamente

complexos, sofisticados e intrincados... mas até o nosso bom mestre de Kells poderia ter
aprendido muito se pudesse fazer um estudo aprofundado dos painéis e tectos

de Santa Sofia. Na verdade, a majestade daquela igreja era tal que sustinha a respiração nas
nossas bocas. Gunnar, Tolar e eu sentíamo-nos incapazes de proferir

uma palavra e limitávamo-nos a olhar, de boca aberta, observando maravilha após maravilha,
com as mentes entorpecidas pelo espanto. Mesmo assim, continuávamos a
olhar, bebendo cada uma daquelas visões incríveis como se fosse a última coisa que iríamos
ver neste mundo.

Gunnar tornou-se cada vez mais abatido, mas não por aborrecimento ou por incapacidade de
apreciação. Longe disso! Olhava maravilhado para tudo o que o rodeava e

de tempos a tempos chegava a apontar-me pormenores artísticos que eu deixara escapar.


Todavia, os seus comentários passaram ser cada vez menos e mais espaçados.

Embora parecesse ansioso por abarcar tudo o que os olhos lhe revelavam, essa sua apreciação
ganhara

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uma qualidade diferente, quase de encantamento. Uma vez, quando me virei para ver se ainda
me acompanhava, vi-o de pé na frente de um dos enormes biombos esculpidos,

que examinava como se estivesse em transe. Tinha uma das mãos levantada para a figura de
uma cruz esculpida no painel como parte do desenho e acompanhava os seus

contornos com um dedo, repetindo constantemente os mesmos movimentos.

Gunnar parecia especialmente fascinado pela cruz. Quando passámos sob o centro da cúpula,
senti um toque no ombro, olhei em volta e deparei com o corpulento bárbaro

a olhar directamente para cima, para um mosaico dourado com a maior cruz que eu jamais
vira.

- É o sinal... - sussurrou Gunnar, numa voz trémula de espanto. - Está por todo o lado...

- Sim - confirmei. Expliquei-lhe que a cruz era reverenciada em lugares tão distantes como o
Éire, o extremo limite do Império. - Embora a cruz dos bizantinos seja

ligeiramente diferente da cruz dos celtas, e também da dos romanos, todas elas honram o
auto-sacrifício do Senhor Jesus Cristo por todos os homens.

- E tanto ouro... - comentou Gunnar, provocando um aceno sombrio da parte de Tolar.

Didimus conduziu-nos para o lado esquerdo da nave, onde fora erguido um painel que
suportava um grande número de imagens pintadas em placas de madeira. Aqueles ícones

exibiam figuras de Cristo, bem como dos vários apóstolos e santos por quem o povo de
Bizâncio tinha uma veneração especial. Na frente do painel, que Didimus designou

por iconostasis, encontrava-se uma série de tábuas dispostas em degraus que serviam para
segurar as velas aí colocadas pelos fiéis. Pegando nas suas velas, Didimus
acendeu uma na chama de outra já acesa e colocou-a num dos poucos orifícios vazios. A seguir
ficou parado por instantes, oscilando levemente para a frente e para

trás antes de largar um pouco de pó de incenso sobre a chama, o que provocou uma nuvem de
fumo perfumado.

- Pronto... - declarou, virando-se para nós - enviei uma oração através de Elias, pedindo ao
Santo Jesus que me conceda a tua astúcia, e outra através de Barnabé,

pedindo a Deus que me conceda a força deste teu amigo bárbaro.

Traduzi aquelas palavras para Gunnar, que pareceu muito impressionado com o procedimento
e estendeu a mão para Didimus, pedindo-lhe uma vela. Enquanto Tolar e eu

o olhávamos, espantados, Gunnar acendeu a vela e executou pequenos movimentos


balanceados, imitando o bar-

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queiro. Perguntei a mim mesmo o que o teria levado a rezar - e o que dissera - mas pensei que
não seria correcto interrogá-lo a esse respeito.

Gunnar e Tolar mostravam-se confundidos com a grandeza da igreja, e muito em particular


com a sua extravagante exibição de prata e ouro, que não deixava de os espantar.

Não é exagero dizer que o brilho desses metais raros atraía os olhos em todo o lado, mas
muito em particular quando nos aproximávamos do santuário, para onde Didimus

nos conduziu a seguir. No pavimento erguia-se uma plataforma circular, o ambo, a que se
subia por dois lanços de escadas baixas e largas, à esquerda e à direita.

O ambo estava rodeado por uma série de pilares com capitéis dourados, que suportavam uma
prateleira onde se via uma multidão de lanternas e de cruzes, algumas em

prata, outras em ouro, muitas das quais adornadas com pérolas e pedras preciosas.

- Não podemos avançar mais - explicou-me Didimus, logo que chegámos à beira da plataforma.
- Só os clérigos e os altos funcionários podem seguir para além do ambo.

- No Éire... - disse-lhe - toda a gente se pode aproximar do altar. É a mesa de Deus, onde todos
são bem-vindos.

O pequeno barqueiro olhou-me com curiosidade, como se nunca tivesse ouvido nada tão
peculiar.

- O coro instala-se ali... - prosseguiu. - Nos dias de festa, há sempre um coro. - Apontou para lá
do ambo e indicou uma passagem elevada. - Aquela é a solea, que
só pode ser utilizada pelos sacerdotes e pelo Imperador, quando se aproximam do altar. Dizem
que o biombo do coro é em prata maciça...

O coro era rodeado por três lados por um biombo rendilhado que emitia um brilho branco e
radiante sob a luz de toda as lanternas e velas, e tinha uma série de colunas

que suportavam um parapeito baixo onde se podia ver um certo número de sacerdotes e de
funcionários da corte, todos vestidos com as cores das suas funções: os sacerdotes

de branco, e os cortesãos de vermelho e negro. As colunas e o parapeito eram forradas a prata


e a luz das velas e lanternas suspensas no alto permitiam que os olhos

se regalassem com os belos trabalhos em metal, que incluíam imagens de Cristo, da Virgem,
dos profetas, de santos, anjos e serafins, bem como monogramas imperiais.

O coro, com o seu biombo e parapeito, formava uma espécie de santuário interior separado do
altar, instalado mesmo por baixo. Os fiéis não podiam passar para além

do ambo e da solea, mas o parapeito era baixo

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e o altar relativamente alto, o que permitia que a congregação pudesse assistir às cerimónias
que decorriam no altar.

Este era de mármore-rosado e estava rodeado por uma espécie de tenda de ouro.

- É o ciborium - disse-me Didimus, quando o interroguei. - As pedras vieram de Damasco... -


declarou, mas fez uma pausa e acrescentou: - ou talvez fosse de Atenas.

O tecido daquela espécie de tenda fora feito com fios de ouro e enfeitado