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MULHERES SEM DONO

NORMAN VOGNER
Para Lori e meu amigo Jim Parks com afeto

Capítulo I
Claire parecia estar sempre com pressa, havia desaparecido dela a
característica que mais prezava. Perdera a capacidade de
organizar o seu tempo e com isso se foi a sua segurança. Cada dia
que passava, um era mais caótico do que o outro; podia culpar o
Drake's e a premência dos negócios da primavera, mas o fato era
que, até então, jamais sentira o emprego como um fardo. Sempre
soube o que estava fazendo, agora, entretanto, fileiras de sinistros
vendedores e os seus dignos irmãos de ofício, apregoando as
liquidações de estoques, enchiam o seu escritório e lá ficavam
queixando-se com azedume, apagando tocos de cigarros nas
xícaras de café e encarando a sua secretária. Ela surpreendia vozes
irritadas que, em tom baixo, faziam especulações sobre o seu
atraso no serviço.
— Ela está com tanto serviço que ficou abobalhada.
— Nada disso. Com certeza está naqueles dias do mês.
— Quem sabe se não é porque vai fazer um aborto?
— O que aconteceu é que eles compraram tanta roupa de malha
que agora têm de engolir a porcaria de qualquer jeito. Drake quer
que ela conte esta história direitinho ou então que vá andando.
Olha, essa é uma moda que vi chegar e passar.
Esse último comentário saiu da boca de um petulante promotor de
vendas que negociava os preços de blazers de poliéster com
estamparia patchwork.
— Lembrem-se — continuou o mesmo, dirigindo-se aos outros ao
redor, todos ansiosos e macacos velhos no ramo — que eu já
estava no Ohrbach's havia 10 anos comprando casacos para eles,
quando me deram bilhete azul um dia antes do Natal. Não tive
direito à gratificação e me disseram apenas para dar o fora.
Os homens faziam sim com a cabeça. Muitos deles já tinham
jogado no time contrário, isto é, na qualidade de compradores ou
de donos de negócios. Era um pessoal capaz de prever as
situações de crise, que sabia identificar a tendência geral do
mercado, que tinha faro e que troçava dos auxiliares de venda
para ver se a linha que vendiam estava tendo saída. Enquanto
isso, Claire mostrava-se distante, com o traseiro pregado na
cadeira. Eles só lhe davam uma piscadela de olho, quando ela saía
para o almoço ou para alguma reunião. Já não havia
cumprimentos muito efusivos para Claire Stuart. Um comprador
sem lápis é como jóquei sem montaria. Claire fora posta de
quarentena.
Entretanto, para alguém, toda essa gente estava errada. É bem
verdade que Claire não tinha a cabeça nos negócios, mal ouvia o
que diziam os seus sócios e amigos, ficava desligada, enquanto
eles esperavam por suas respostas e decisões. Havia mais de dois
anos estava noiva e ocupando aquelas terras de ninguém, de
limites pouco definidos, mas iria sair dessa situação dentro de
dois meses, no dia 30 de junho de 1979, para ser mais exato, na
igreja de St. Alban. Para tornar as coisas mais excitantes, o noivo,
um certo Bobby Canaday, formado em arquitetura, estava
dirigindo-se para Los Angeles naquela tarde, para tentar a sorte
como arquiteto, e ela estava decidida a seguir o senhor de seu
destino até aquelas paragens, se ele conseguisse emprego por lá.
Desse modo, sua situação no Drake's era incerta, não porque a loja
estivesse em decadência diante de uma crise devido a uma baixa
de preços no mercado, mas pela instabilidade da situação de
Bobby.
O complexo de lojas na periferia de Westport, Connecticut, onde
se achava localizado o Drake's, era o paraíso das compras para
quem gostasse de sofás de vinil, conjuntos de cozinha com mesas
imitando cepos de açougueiro, molduras de plástico vitrificado e
ladrilhos que era um arremedo de cerâmica. Diversas lojas tinham
para vender mobílias sem acabamento e por toda parte havia
aquelas que eram dedicadas à venda de ferragem. A área, com os
seus depósitos de madeira e com os seus centros de aparelhagem
doméstica, era o lugar ideal do "faça você mesmo no fim de
semana" ou para o homem habilidoso que economiza, porque as
promessas que fez à mulher para redecorar a casa com um
decorador redundaram em nada. Claire conhecia bem o tipo
dessas pessoas que eram clientes seus no Drake's; uma gente que
disputa roupa em liquidações, que compra aparelhos de televisão
baratos, máquinas de lavar que queimam os fusíveis e inundam as
cozinhas depois de instaladas. As marcas Sony e Maytag não ti-
nham vez no Drake's e estava aí, justamente, o porque do sucesso
da loja. A política de comprar barato e vender por bom preço era
uma fórmula que funcionava. Renovação de estoque era o nome
que se dava a este jogo, e se algum freguês se mostrasse
insatisfeito com o seu novo aparelho, que escrevesse para Gary,
Indiana, ou então para alguma parte remota do país, espinafrando
o fabricante.
Claire era uma ruiva natural com os cabelos na altura dos ombros.
Possuía cintura fina e alta, olhos num tom de azul-pá-lido, traseiro
pequeno, pernas longas e, sem saber, era sensual e provocante.
Tinha 1,72 m de altura e seios firmes e bem-feitos. Com o seu nariz
reto, lábios carnudos e algumas sardazinhas na pele, transpirava
saúde, fazendo um tipo de beleza descuidada, sem exageros e
nada de muitas vaidades. Apesar de a natureza ter sido generosa
com ela, era a sua voz profunda e sonora que chamava a atenção
das pessoas. Uma voz de timbre insinuante e com um tom pouco
comum para a sua idade. Desde a adolescência que os homens
flertavam descaradamente com ela; entretanto, as mulheres
raramente se mostravam ciumentas. Claire tinha um jeito especial
para desfazer suspeitas. Talvez porque não usasse bugigangas e
não fosse vulgar; sua postura natural atraía as outras mulheres.
Também não fazia o tipo que gosta de encorajar marido^
transviados e que tem namorados casados. Tinha uma bossa
especial para vestir-se, sempre original e sem macaquear os
absurdos da moda. Muitas vezes ia comprar as suas roupas de
estilo ultrapassado em lojas cheias de bossa e fora de mão, mas
que vendiam barato, ou, então, em algum estilista que estivesse
fazendo uma liquidação. Sob certos aspectos, parecia uma moça
de outras épocas, de um tempo em que os homens tinham por
pressuposto que uma mulher era respeitável.
O interfone tocou e ela finalmente o atendeu. Sua secretária, uma
mulher de meia-idade, estava aflita. Ela não estava conseguindo
controlar o movimento.
— Ainda tenho meia hora, mande entrar quem chegou primeiro.
No Drake's, era Claire quem comprava e comerciava todos os
artigos femininos, por isso conhecia muito bem a conversa terrível
dos vendedores de cintas e dos frenéticos representantes de
tecidos composés cuja falação desesperada reverberava nos seus
pesadelos.
Um homem com cara de gavião, vestindo um casaco esporte de
tecido xadrez, entrou, espalhando o cheiro de um perfume barato
pela sala. Ele abriu a valise que continha as amostras e estendeu-
lhe o seu cartão.
— Olha aqui, Srta. Stuart, sei que está ocupada, mas me dê um
pouquinho de seu tempo. Acabei de levar a linha de modelos de
Gruskoff para a costa leste e está uma loucura a quantidade de
novas encomendas. No final do ano vão até ter de me promover a
sócio por causa das minhas comissões. — Ele tirou para fora
algumas peças de lingerie: calcinhas transparentes e de cores
chamativas, amarelinhas, vermelhas, estampadinhas de flores e
naturalmente as pretinhas, e estendeu-as pelo braço como se ele
fosse um varal de roupa; em seguida, pegou uma delas e mostrou
como ela ficava sobre os seus quadris avantajados. — Ninguém
por enquanto vai tocar nisso, porque dou exclusividade à
senhorita.
— Mas as calcinhas não têm fundos — observou ela. — Vocês
estão com falta de fazenda?
— Ora, isso é o último grito na costa. De San Francisco já me
chegaram seis pedidos e também de Los Angeles. Lily St. Cyr,
uma garota que fazia strip em Vegas e que dirige agora uma
boutique está vendendo 12 dúzias por semana.
— Sr. Kreb...
— Por favor, me chame de Sol.
— Sol, esta é uma loja que basicamente vende moda con-
servadora para senhoras casadas, mocinhas de colégio e mulheres
esportivas.
— Mas as mulheres de Westport estão gostando delas.
— Elas não compram aqui. Esta é uma loja de mulheres
responsáveis e não uma boutique de gente que só vem bisbilhotar.
Nossas clientes não costumam exibir-se em shows de strip.
— Mas pode acreditar.
— Não, de maneira nenhuma. Se você tivesse biquínis normais
e bermudas de algodão ou náilon, eu daria uma olhada. Mas, por
favor, não traga mais este tipo de mercadoria aqui.
Ela acabou comprando 12 dúzias de sutiãs cor da pele, abotoados
na frente e muito mal-acabados, mas foi o que salvou o dia dele.
Kreb desapareceu de sua vida e foi substituído por um
concessionário de ar servil que havia adquirido parte dos tecidos
composés de um fabricante falido e suicida. Incrível quanto
pareça, o homenzinho desenrolou umas saias rodadas que insistia
terem sido cortadas através de moldes originais de Anne Klein.
Ela estava com dor de cabeça e toda aquela droga acabou
mexendo com os seus nervos. Será que só porque estava com 24
anos esses mascates aproveitadores pensavam que ela não
entendesse de seu negócio? Ela já estava no Drake's há cinco anos
e também já havia freqüentado uma escola de desenho que
abandonou após o primeiro período, quando chegou à conclusão
de que desenhar roupas de alta-costura era uma atividade muito
tediosa para os que se autoproclamam de gênios.
— O senhor vai desculpar-me, mas estas saias não podem ser
consideradas nem parentes afastadas de Anne Klein. São muito
mal cortadas, a costura é de carregação e o tecido não serve nem
para cortina de hospício.
Claire despachou o vendedor. Kreb havia largado lá um de seus
biquínis eróticos que tinha a discreta cor de fúcsia. Seguindo um
impulso, Claire tirou a calcinha que tinha no corpo, jogou-a na
bolsa e vestiu a gostosura de Sol. Sentiu-se meio louca, vagando
no ar, e já estava atrasada. Iria levar Bobby ao aeroporto e só o
teria por quatro horas.
Irrompeu na sala de espera do seu escritório e os vendedores,
todos ao mesmo tempo, se levantaram aos berros, cada um
reclamando a sua vez.
— Desculpem-me, mas vai ter de ficar para outro dia — disse com
petulância, correndo para o elevador.
Era um dia de abril, quente e úmido, e o pessoal que foi às
compras atravancava a área do estacionamento com carrinhos de
bebê. Ela entrou no seu Alfa Romeo de oito anos, recém-pintado
de branco, e rezou para que o maldito do mecânico que lhe cobrou
uma nota para botar uma nova embreagem e fazer uma revisão do
motor não a tivesse tapeado. Da última vez que mandou consertar
o carro, teve de ser tirada de reboque em pleno Merritt Parkway.
Cortou o centro da cidade e, depois de passar por todas as
boutiques, foi pela Ash Avenue para a casa de Canaday, uma que
ficava num terreno de esquina, de janelas verdes e estilo Cape
Code e que tinha a bandeira americana tremulando no ar. O pai
de Bobby era corretor da bolsa e recentemente passou a ter como
cliente a seção local da American Legion; como o Lions e o Rotary
Club já estavam nas suas mãos, a sua casa, cheia de emblemas,
escudos e placas, poderia ser algo recomendado pela Associação
Americana de Automobilismo. Claire encostou na entrada de
carro, atrás do Fiesta dos Canaday, o carro que compraram por ser
econômico, mas que era uma lata de sardinhas; eles o usavam no
lugar do Rolls de 64, quando os jantares no clube campestre não
exigiam muitas formalidades.
O quarto de Bobby, ou apartamento, como sua mãe preferia
chamar, ficava em cima da garagem, com escada e entrada
independentes. Claire gritou e Bobby chegou à janela da
mansarda.
— Suba, meu bem, ainda temos tempo.
— E o trafego? Sua mãe está em casa?
— Sim, ela está — respondeu Lynn Canaday, saindo pela porta
da frente. — O que é que está havendo? — Usava um vestido lilás,
próprio para um coquetel no Plaza. Os seus 55 anos chegaram
com calores e ansiedades e nos seus martínis não entravam nem
vermute, nem azeitonas. Estava fazendo tratamento com um
psiquiatra em Greenwich, com duas sessões semanais, no
momento estava vestida para a ocasião. O único lugar para onde
Bobby já tinha viajado era o Vietnã, mas, sempre que ia pegar um
avião, sua mãe imaginava que ele sumiria em alguma remota
parte da velha Ásia, numa dessas áreas de conflito global,
escolhidas de Kissinger.
Claire deu um beijo na sua futura sogra e, depois de dizer-lhe para
dirigir com cuidado (ela estava com bafo de gim) acrescentou:
— Vão ser só duas semanas. Faz de conta que Bobby está indo
para Camp Berkshire e que vai voltar como salva-vidas.
— Mas, ele nunca esteve na Califórnia — disse Lynn, fran-
zindo a testa.
Bobby era o herdeiro varão dos Canaday. Tinha duas irmãs que
vieram antes dele; sua mãe, contudo, continuava ainda
preocupada com o seu pênis e as más companhias.
— Onde você está? — gritou Bobby.
— Indo já para aí. — Claire virou-se para Lynn. — Não precisa
preocupar-se. Ou ele consegue um emprego ou continuo a
sustentá-lo. Seu filho é um gênio.
Um tanto confusa, Lynn deu um abraço nela e se meteu no Rolls,
estacionado junto do meio-fio. Era uma ocasião formal.
— Dava tudo para saber se foi na quarta ou no domingo.
— Não, na terça-feira.
Ela deu uma piscadela, acenou, puxou o botão do carburador e
disse com ar desalentado:
— Robert, diga a seu pai que ele pode esquentar a carne; eu
chego a tempo para o teatro. — Ela tinha posto colírio nos olhos.
— Claire, ninguém está mais ligando a mínima para mim —
observou lacrimejante, como manda o figurino; depois, se
arrancou com o carro, soltando uma nuvem infernal de carbono e
de fagulhas do cano de descarga. A uma meia quadra, ainda se
ouvia o barulho do Rolls, tão possante quanto as oitavas de
Horowitz na sua volta aos palcos.
— Enfim, silêncio — disse Bobby, dando um sorriso en-
cantadoramente inocente. — Podemos trepar antes de ir para o
aeroporto.
Claire lhe atirou um beijo. A vida era maravilhosa novamente.
— Espere e verá o que tenho para você. Não foi comprado, eu
surrupiei.
Ela subiu a escada para reingressar no mundo de sonhos que os
dois construíram ali. Isto aconteceu, quando a mãe dela veio de
Vegas para visitá-la e Claire teve de ceder-lhe o próprio
apartamento. Ao chegar à porta, sentia-se excitada e cheia de
desejos meio indefinidos. Neste quarto em cima da garagem, ele,
pela primeira vez, fez amor com ela, um acontecimento que veio
culminar e satisfazer as fantasias românticas que Claire tinha,
desde que o viu no corredor da escola, quando ela era ainda
simples caloura e ele terminava o curso. Aos 17 anos, Bobby era
um rapaz comprido, desengonçado, cabelos de trigo, pele alva e
olhos azul-celeste, tão penetrantes que davam, às vezes, impressão
de metálicos. O que lhe salvou de ser simplesmente um rapaz
bonitinho foi o seu nariz um pouco achatado e o seu queixo forte,
bem acentuado. Na escola fazia parte da equipe de boxe e também
da Liga Americana de Pugilismo; iria depois para Dartmouth, com
uma bolsa dada pela Westinghouse. Houve o enorme intervalo de
13 anos em que ela ficou afastada dele, mas, volta e meia, lhe
vinha à lembrança o seu rosto, mesmo depois de ele ter partido
para a universidade. Nunca haviam saído juntos e, da parte dele,
ela era uma das tantas caras familiares que cumprimentava ao
cruzar pelas ruas de Westport, quando vinha para casa de férias.
Jamais haviam trocado palavra, até o dia em que ele entrou no
Drake's procurando um rádio portátil. Nessa ocasião, ela estava
dirigindo o setor de pequenos aparelhos domésticos e ele fazendo
os exames para terminar o curso de arquitetura em Harvard. Ela
desviou dele uma marca chamada Meteor, que era do próprio
Drake's, e lhe botou nas mãos um GE. Dois anos mais tarde, foi ele
quem a convidou para sair, quando a encontrou numa festa de
caridade no clube campestre, aonde Claire havia ido para
organizar um show de modas. Ela nunca lhe revelou que sentiu
por ele, desde o tempo da escola, um amor à primeira vista, mas
ele teria entendido e não se prevalecia disso, tal a delicadeza de
seus sentimentos que às vezes a fazia sentir-se indigna dele.
Na saleta desarrumada que era também o seu local de trabalho,
ele a rodeou com os braços e lhe deu um beijo. Lá havia uma
prancheta cheia de anotações matemáticas, móbiles pendurados
do teto e um velho sofá, escondendo atrás uma pilha de cópias
heliográficas e papéis de plantas. Nas prateleiras da estante,
encontravam-se os prêmios ganhos em concursos de arquitetura e
toda a sala estava abarrotada com plantas de prédios que jamais
iriam ter uma dimensão em tijolos. Ele tinha o idealismo
destrutivo de um perfeccionista e aceitava a rejeição com a
tranqüilidade de um santo. O mundo estava repleto de imbecis
que se defendiam com os projetos que ele recusava. Que assim
seja. Bem, lá estava ele indo pelo país afora, numa derradeira
tentativa para achar trabalho, ou, do contrário, ter de conformar-se
com um cargo de professor e engolir os seus princípios. Ele era
realmente algo bastante complicado. Claire, embora tivesse
algumas vezes tentado contrabalançar as idéias dele com o seu
natural pragmatismo, bem depressa desistiu, compreendendo que
as criaturas bem-dotadas funcionam sob leis diferentes.
— Qual é a surpresa? — perguntou ele, afagando-lhe os cabelos e
a levando para o sofá.
— Meu Deus, que saudade vou ter de você.
— Eu também.
Ela estava rezando para que ele arrumasse algum emprego na
Califórnia ou que pudesse estar ao seu lado para consolá-lo do
desapontamento, quando falhasse esta tentativa. Ela não confiava
no seu jogo de cintura. Ele era de uma honestidade irritante e
burra ao mesmo tempo e ela sabia que nada podia salvar Bobby
dele mesmo ou de seu caráter.
Sentaram-se quietos, entrelaçados, tensos demais para poderem
falar sobre o enigma que se tornara o futuro dele. Era tempo de
esperanças, mas ela se sentia muito sem ação diante das
perspectivas desalentadoras. Ele estava com 28 anos, sem destino,
e era feito para uma outra época. Ele precisava de um patrão, mas
o tempo dos grandes arquitetos já havia passado. Robert Moses
tinha morrido e as firmas agora apanhavam arquitetos tipo Philip
Johnson e, a não ser que algum íncorpo-rador se tomasse de
amores por um determinado arquiteto, ele, do contrário, estaria
fadado a parasitar no fundo de uma sala em alguma firma,
rabiscando plantas que seriam modificadas ou rejeitadas durante
as reuniões dos patrões para estudo dos projetos.
Ela beijou a orelha dele e ele lhe deu um sorriso lânguido.
— Está nervoso? — perguntou ela.
— Acho que sim — disse, dando um suspiro e espichando os
braços. — Dava tudo para saber se era isso mesmo que tinha de
fazer. Se por um milagre conseguir emprego, o que é que você vai
fazer?
—Bem, acharei alguma coisa num magazine qualauer.
No Bullock's ou no Neiman's, por exemplo. Sempre se precisa de
uma boa profissional. Mas não vamos agora nos chatear com isso,
não é? — Ela levantou a saia. A área do alvo dele estava
desprotegida.
— Parece que está pronta para Los Angeles.
— Exato. Posso ser bailarina topless ou me tornar uma call girl.
— Eu pago 100 dólares.
— Se você me der o seu cartão de crédito, eu lhe telefono
depois para dizer se ele tem fundos.
— Claire, você me faz sentir tão bem. Como é que consegue
tolerar-me com todas as minhas taras?
— Contanto que não faça essas coisas com minhas amigas e
não seja bicha, é moleza.
Ela o levou para o aeroporto sem lágrimas e sem fazer cenas, mas,
no caminho de volta para Westport, deu uma parada no Red Lion,
onde tomou dois martinis preparados com vodca, sentindo as
entranhas revolverem-se sempre que pensava que ele estava longe
de sua vida, ainda que fosse por duas semanas. Telefonou para a
firma encarregada do bufê de seu casamento e de lá responderam-
lhe para que desse um pulo ao escritório para combinar os
detalhes finais da recepção. Os hors d'oeuvres constavam do seu
menu. O que gostaria era de que houvesse camarões frescos e uma
variedade de terrinas de patês, mas bombinhas de queijo e ovos
com anchova seriam mais baratos. O dia de seu casamento,
entretanto, era uma data para ser lembrada para sempre, então,
por que emprestar o ar com travessas de salame defumado sobre
cream crackers que se espatifam ou saladas de ovos picados que
invariavelmente acabam enlameando os sapatos e as lapelas? Teria
de fazer economia de outra maneira.
Botou o carro no enorme estacionamento do Papai Micel-li. Essa
área era tão grande que dava um aspecto sepulcral à sala de
banquete de teto de ogivas góticas. Com as colinas rodeando o
edifício que tinha um revestimento imitando tijolos, o lugar
poderia passar por um crematório. Contudo, as fotos nos anúncios
e cartões-postais do Micelli foram tomadas nos ângulos favoráveis
e as atrações que eles ofereciam insinuavam casamentos pastoris
com bolos de múltiplas camadas, "feitos em casa", e podia-se até
esperar que o noivo e a noiva fossem seguidos pela colina abaixo
por uma procissão de angelicais meninos de coro. Mas, por
enquanto, o M verde do letreiro de neon estava enegrecido e um
operário praguejava, em cima de uma escada, en-nnanto tentava
retirar o tubo fluorescente do encaixe.
Micelli, o dono da firma, deixava-a nervosa. Era um homem que
vivia em depósitos e fora conivente com uma mentira dela. Não
seria a mãe e sim ela quem realmente estava pagando as despesas
do casamento. Foi dito a Bobby e à família dele que Milly recebera
uma enorme soma do marido número três, um capataz de Vegas
que sumiu levando as jóias de sua mãe. Ao noivo, como manda a
tradição, competia pagar as flores, os músicos, a bebida e o padre.
Micelli estava no escritório, falando ao telefone com um sorriso
beatífico, enquanto ia repetindo sua arenga habitual.
— É só uma vez na vida, uma ocasião para nunca mais ser
esquecida. — Acenou, indicando uma banqueta de veludo para
Claire sentar-se. Pendurados na parede, havia quadros represen-
tando noivas, pajens e padres, solenemente paramentados, for-
mando tudo um arranjo absurdo. — Basta enviar um depósito de
mil dólares. — Micelli bajulava os seus fregueses. — Natu-
ralmente, se passar, devolvemos. Ouça, Papai Micelli e Filhos não
começaram ontem. Estamos estabelecidos desde 1945.
Nas paredes de Micelli, Claire ficou observando as expressões
derretidas de marinheiros, soldados e fuzileiros na companhia de
suas Ann Sheridan do pós-guerra. Micelli já dava recepções desde
o fim da Segunda Guerra. Era um homem atarracado, com
ondulações geométricas de gordura sob o queixo e com um anel
de rubi. Cortava os seus charutos com um instrumento Dunhill
que prendia numa corrente, juntamente com uma cruz, uma jóia
de Shriner e mais todas as chaves de seu reino. Sua pele estava
sempre branca e cheia de dobras. Depois de meia dúzia de
encontros, Claire passou a abominar as suas maneiras untuosas e
paternais. Todas as vezes em que ia cumprimentá-la, agarrava-lhe
as duas mãos e entortava para o lado a cabeleira leonina grisalha
como que admirando uma netinha que há muito não via. Mas, o
bom avozinho estava abiscoitando 2 mil e 500 dólares de seu
dinheiro. Com voz suave, solícito, ia apontando as imitações dos
hors d'oeuvres. Ele lhe lembrava um agente funerário tratando as
cerimônias de um enterro. Numa travessa, viriam salgadinhos em
forma de pirâmides, saindo de trás de mini rocamboles em tons de
ouro-velho. As almôndegas estariam cobertas de molho de tomate
e servidas em réchauds. Uma das gracinhas favoritas de Micelli
consistia em erguer a vasilha e fingir estar deixando as al-
môndegas cair em seu tapete persa. Ele pôs as mãos de Claire
sobre uns camarões que não tinham cheiro e com consistência de
cogumelo. Ela ficou maravilhada com o novo emprego da espuma
de borracha.
— São iguais aos verdadeiros. Os camarões sempre dão
colorido e classe a um negócio. — Casamentos, batizados, festas
nunca deixam de ser um negócio. Ele tinha uma versão culinária
do museu de cera e um filme que acompanhava a sua
apresentação e ao qual Claire já havia sido submetida na sua
primeira ida lá. Meio quilo está me saindo por 10 dólares e 50
cents, benzinho.
— De quantos quilos você acha que vai precisar? — perguntou
ela.
Ele não fez por menos, meteu a mão.
— Bom, cinco quilos é uma mixaria, mas com 20 você dá
colorido e gabarito à festa e, além disso, está protegida.
— De quê? — Ela percebeu que Micelli vinha com uma outra
de suas jogadas.
— Bem, nestas ocasiões, sempre aparece o desgraçado que
engole um ou dois quilos antes do jantar. Ele fica rondando o bufê
e catando os camarões. Nem prato pega. E igual a um gavião, vai
bicando tudo, e é então que os convidados começam a perguntar
onde estão os camarões.
— Mas 10 dólares e 50?
— Não, este é o preço que ele sai para mim, meu bem... para
você, vai custar 20 dólares. — Ela se encolheu toda. — Claire,
minha despesa é uma loucura. Veja o preço da gasolina, pense na
inflação. E afinal o que é que são alguns trocadinhos a mais no dia
mais importante de sua vida? — Ele já estava escrevendo uma
nota no final da página do contrato, dando-lhe depois o papel
para que ela o assinasse. — Espero que o seu noivo saiba apreciar
o tipo de mulher que ele vai ter, Claire.
Micelli recapitulava o menu para ver se conseguia seduzi-la com
alguma coisa mais. Sobremesa do Alasca, Cerejas Jubiladas no
lugar do bolo de sorvete três sabores, será? A cabeça de Claire
dava voltas. Se pelo menos sua mãe não tivesse mentido, poderia
fazer um casamento mais modesto, de acordo com suas finanças.
Do jeito que a coisa estava indo, iria acabar custando para ela 10
mil dólares. Tudo que tinha economizado. Seu patrão, Gene
Drake, já ia emprestar-lhe 5 mil.
— Com os diabos, tudo do melhor, Sr. Micelli. Vamos botar
pra quebrar. Sobremesa do Alasca.
Ele acrescentou algumas notas suplementares no contrato como se
estas fossem novas cláusulas num testamento.

Capítulo II
Comprimida entre o Bistro e um monte de agências imobiliárias e
mais ainda uma trinca de lojas de antigüidades, especializadas na
venda de luminárias Tiffany, que cobravam pelo menos 30 mil
dólares por uma de suas criações, a firma Hay-ward, Arquitetos
Associados, tinha a sua placa de bronze num prédio de dois
andares, cor de areia. Era lá que Bobby ia fazer a sua última
entrevista, depois que Hayward o deixou esperando três dias
fechado num cubículo do Holiday Inn, uma pensão perto de Santa
Mônica onde os preços eram mais baratos, por ser afastada do
centro. Andava deprimido com os constantes adiamentos,
temendo que o lugar já tivesse sido preenchido. Suas frustrações
começaram no instante em que chegou à cidade.
Preparado para aceitar o julgamento convencional e taxativo que
no leste se faz da cidade, ele descobriu que o lugar era encantador,
com uma arquitetura interessante, aventuroso, nada convencional
e cheio de possibilidades incríveis. Gostou do contorno suave das
montanhas, da vista das colinas, do ritmo nervoso, tudo banhado
por um esplêndido sol. Ele, como a maioria das pessoas que são
de fora, por muitos anos havia pichado a cidade sem conhecê-la.
Gostava de pensar que aquilo fosse um deserto, um falso país das
maravilhas,' sem qualquer caráter distintivo. Mas, pô, nunca
esteve tão errado em alguma coisa. Ficou maluco com Los
Angeles, achando tudo ótimo, só não conseguindo vencer uma
certa ojeriza que tinha pelo rebuscamento do finca espanhol. A
cidade tinha graça, uma indolência displicente, relaxada, e ele
estava convencido de que era melhor achar um jeito de viver ali
do que voltar aos sobretudos, às idas e vindas de trem ao trabalho
e para os prédios tristes e cinzentos de Manhattan, onde passava
os dias no fundo de uma sala sem janela, pensando na merda em
que estava a sua vida profissional. Ele não percebeu as tensões
sociais e atitudes extremistas por que a cidade se havia ce-
lebrizado e nem achava que ela fosse sem graça. Ficou caído pela
sua falta de formalismo e percebeu que os proprietários estavam
furiosos com o controle dos aluguéis, mas acelerando as
construções de condomínios. Ele podia facilmente se imaginar
vivendo com Claire num apartamento, trabalhando e recriando
suas vidas. A apenas 20 minutos de Beverly Hills, em Valley,
fazia-se equitação e, a cinco minutos do Holiday Inn, podia-se
velejar. Não é de admirar que, tendo de escolher entre tantas
possibilidades, o pessoal do leste encontre imediatamente razões
para criticar e desistir sem maiores indagações.
Mas, enquanto se dirigia para a sua entrevista, ele compreendeu
que, mais do que qualquer coisa, era a riqueza imponente de Los
Angeles e dos seus arredores que deixava as pessoas sem
respiração, fazendo os prédios da Quinta Avenida e as residências
da Madison Avenue parecerem acanhadas e sem graça. A
opulência das casas de Santa Mónica e Bel Air em meio ao
bucolismo de Beverly Hills era sem precedentes. Scarsdale,
Greenwich, as propriedades luxuosas que visitou em Westport
eram, comparativamente, um brinquedinho perto dessas. Ele
botou o seu carro alugado num estacionamento ao lado do
escritório de Hayward, abismado com o fato de que o preço de um
dia inteiro de estacionamento ali — três dólares e 50 cents —
equivalesse ao de uma hora em Nova York. Apesar da eterna
neblina que, por sinal, ele não viu durante a sua estada e dos
engarrafamentos e filas nas auto vias, ali era um lugar em que a
exigência de conforto era tão entranhada nas pessoas que somente
os visitantes se davam conta disso.
O piso de madeira de lei, muito bem encerado, começava desde o
vestíbulo, onde ficava a escrivaninha da recepcionista. Bobby deu
o seu nome a uma linda loura de calça jeans e corpete tomara-que-
caia, operando na mesa telefônica. Ele estava com o seu clássico
terno cinza de colete, do Brooks Brothers", gravata listrada, camisa
azul de abotoaduras, e a sua aparência era de um corretor de
seguros no início da carreira. A garota indicou-lhe a sala de
espera, ao lado da dela e onde já estavam três outros rapazes mais
ou menos de sua idade. Nenhum ali estava de gravata; usavam
suéteres informais, calça de veludo côtelé, sapatos esporte, bem
diferentes dos seus de couro de cabra e fechados, pareciam ser
também pretendentes, a julgar pelas pastas encostadas
negligentemente contra a parede. Conversavam sobre o emprego e
ele se sentiu deslocado, por fora, desconhecedor das coisas boas
da vida. Não participou da conversa. Eram seus adversários, todos
seguros de si, possivelmente talentosos, desembaraçados, fluentes,
mas Bobby percebeu que por trás daquelas suas fachadas corteses
havia a mesma ansiedade que o asfixiava.
Na entrevista que teve na University of Southern Califórnia, ele
havia rodado logo de saída; a sua idéia de ministrar um curso
básico de História da Arquitetura não recebeu aprovação do
departamento. Teve impressão de que o coordenador o considerou
muito radical, quando ele elogiou o preceito de Saarinen de que o
estilo deve ser em função da obra, o que está implícito no seu
projeto do terminal da TWA, no Aeroporto Kennedy. Ninguém lá
percebia muito de atitudes simbólicas em arquitetura. Assim, fora
imediatamente excluído.
A outra entrevista foi com um incorporador de San Diego que
estava pretendendo construir uma comunidade para aposentados
em Coronado, e foi igualmente desastrosa. O incorporador e seus
associados sonhavam com amontoar na área o máximo possível
de moradores, pagando taxas extorsivas de administração e
confinados em construções pré-fabricadas. Bobby lamentou as três
horas gastas com aquele homem que, desde o início, tinha
resumido a filosofia da coisa para ele:
— Estas pessoas têm mais de 65 anos, quanto tempo lhes resta
ainda de vida? O que estamos vendendo, Sr. Canaday, são meros
abrigos...
Hayward lhe havia escrito uma carta encorajadora, acertando a
entrevista, mas, do jeito como a sua sorte andava, não tinha
muitas razões para otimismo. O que o chateava era a perspectiva
de ter de voltar de mãos vazias para Claire, ver o olhar
compreensivo no rosto dela e lhe escutar as palavras de enco-
rajamento. Bom, se estrepasse outra vez, faria negócio com
qualquer construtor de caixotes de Long Island, comeria bolachas
do Donuts, pegaria serviços em postos de gasolina e ia dar duro
na vida. Acabaria com essas suas belas idéias de uma vez por
todas. Dois candidatos foram entrevistados na sua frente, e ele,
para matar o tempo, ficou lendo à seção de venda de terrenos do
Times.
Quando finalmente foi chamado para entrar, estava a pique de
abandonar tudo e, já que nada tinha a perder, decidiu que iria
falar do alto, sem papas na língua. Lá dentro, avistou Hayward e
mais dois outros homens com ele. Uma entrevista sempre deixava
Bobby irritado. Elas traziam à tona o seu lado agressivo e isto
alterava a personalidade dele. Ao invés de adotar um
comportamento reservado e jogar com o seu charme natural, ele
geralmente se punha na posição de antagonista. Mas, naquele
momento, com o sol incidindo sobre os metais e o vidro da mesa
de trabalho de Hayward, e vendo os rostos bronzeados das
pessoas ali com expressões inegavelmente acolhedoras, ele se
relaxou. As paredes cobertas de diplomas honoríficos e de
homenagens, um tanto vagas, dirigidas ao cidadão Hayward,
fizeram Bobby lembrar-se da documentação que via pendurada
no consultório de seu dentista. Diversos troféus, agradecendo
serviços feitos em alas de hospitais e conjuntos residenciais,
despertaram sua atenção pela vulgaridade da coisa. Uma galeria
de lojas, ainda em maquete, com o nome de Rodeo Puerta, tinha
um tipo de polimento que entrara em moda nos esquemas de
restauração europeus. Nenhum trabalho exposto apresentava
qualquer originalidade e ele esperava que ninguém lhe pedisse
sua opinião. Estava suando de chegar a manchar a flanela do
casaco e se sentia o próprio caipira por não ter sabido vestir-se
adequadamente, sobretudo depois que reparou nos mocassins
Gucci usados sem meias por Hayward e um dos homens que lhe
foi apresentado como sendo Leonard Martinson, aquele da
Martinson Construção e Incorporação. A decoração do escritório
era feita em tons terrosos, tudo muito elegante, lustroso, mas sem
exageros. O terceiro homem, Gary Rubin, andava pelos 50 anos e
obviamente tinha uma posição inferior aos outros ali. Hayward
pediu para Bobby sentar-se, examinou sua pasta de trabalhos e
entregou a Leonard o curriculum.
— Por que não tira o casaco? — sugeriu Hayward. Ele usava calça
larga de linho azul, camisa Lacoste, fazendo um tipo de elegância
estudada de homem que organiza a vida em torno do jogo de
tênis e de encontros na hora do almoço. — Você tem um histórico
sensacional — disse afavelmente, acariciando sua barba de
príncipe renascentista. — Por que largou o Cummings em Nova
York?
— Porque lá não havia futuro.
— Mas você ficou com ele quatro anos — observou Rubin. Ele
era baixote, tipo temperamental e ombros caídos. Tinha, contudo,
uma expressão bem-humorada no rosto. — O que aconteceu?
— Estava descontente com a maioria das coisas que me
mandavam fazer... shopping centers, minimercados, este tipo de
trabalho. Bom, às vezes acontecia de me darem uma casa ou
prédio de apartamentos.
— E isso é chato para você? — perguntou Martinson. Ele tinha
olhos que pareciam duas opalinas cinza, era de compleição magra
e suas maneiras cavalheirescas combinavam bem com o relógio de
ouro branco Patek Phillipe no seu pulso. Um casaco esporte de
cashmere azul-claro estava atirado com displicência no espaldar
de sua cadeira, cuja gola ele amassava quando se inclinava para
trás, mas isto parecia não incomodá-lo.
— Eu sentia, quase sempre, que as pessoas lá podiam fazer um
trabalho melhor — respondeu Bobby."— Quando o incorporador
procura o arquiteto, já chega com tudo esboçado e a sua idéia já
está feita. E o que o arquiteto tem na frente é um desses livros
infantis, de papel quadriculado, onde basta seguir os números
para se ter a figura. Eles não querem saber de sugestões e ainda
ficam ressentidos se alguém lhes diz que poderia haver melhores
soluções espaciais ou que estão usando materiais inapropriados.
— Você andou pisando nos calos de alguém? — perguntou
Leonard.
— Sou bastante esperto para não fazer isso. Mas, depois de
certo tempo, comecei a achar que nada de interessante iria surgir
ali para mim.
Rubin balançou a cabeça com ar aprovador. Ele também era um
especialista do banal e da falta de criatividade.
— Em que você acha que é realmente bom? — perguntou ele.
Os três homens mostraram-se atentos e Bobby sentiu a
importância da sua resposta naquele instante.
— De certo modo, ainda estou querendo saber.
— Deixe de rodeios. Não precisa disso aqui.
— Muito bem. Gosto de projetar casas, mas acho que dou também
para prédios de escritórios. Sinto prazer com as áreas grandes e
pensar que faço parte da paisagem. Não que seja fanático em
matéria de meio ambiente e de ecologia. Mas parece que não há
continuidade e planejamento no bom sentido nos projetos que o
arquiteto recebe. O trabalho dele consiste em jogar no papel
qualquer coisa pedida pelo cliente e depois acertar o preço. Tudo
isso pode ser razoável, mas, se a gente pensa num arquiteto como
Le Corbusier e na sua preocupação com as partes e a relação entre
elas, no seu conceito de planejamento de cidades, bom... não há
razão para que isto não possa também ser aplicado em bases
individuais.
Bobby teve a impressão de que Rubim estava do seu lado, mas
não querendo comprometer-se. Se bem que estivesse ali exercendo
certa influência sobre os outros dois. Não houve, entretanto,
maiores objeções e discordâncias mais profundas. Martinson pe-
gou o casaco e foi com ele arrastando displicentemente pelo chão.
— Tim — disse ele dirigindo-se a Hayward — por que não ir com
o Sr. Canaday até a casa que comprei em Alpine e ver as idéias
que ele teria para lá? — Ele deu um sorriso para Bobby. — Se
quiser, claro.
Essa deve ser a segunda parte do teste, pensou Bobby, enquanto
seguia com Leonard para pegar o carro dele, um Rolls Comiche de
cor amarela estacionado junto da calçada. Atrás do volante, estava
o chofer com um blazer azul. Leonard lhe disse que fosse almoçar
e que ele mesmo iria dirigindo. Durante o caminho explicou que a
maioria dos serviços de Tim era trazida por ele. Eram amigos já
havia 20 anos, o feliz casamento de um incorporador com um
arquiteto. Nele, havia um jeito simpático e relaxado que parecia
sintetizar o charme de Los Angeles.
Pegaram o rumo norte de Santa Mónica Boulevard e pararam
numa rua muito arborizada, logo abaixo de Sunset Boulevard.
Leonard desceu em frente de uma casa de estilo espanhol, de
paredes grosseiramente revestidas de estuque e com manchas de
umidade. Ao abrir o porta-mala do carro, a sua vida social saltou
sobre ele: raquetes Borg, tacos de golfe, uma infinidade de calções
de banho e um taco de croqué quebrado; em meio a estas coisas,
localizou umas plantas manchadas de mofo.
— Aqui estão as especificações originais — disse Leonard. — Por
que não dá uma volta por aí? Não há pressa. Volto depois... a
chave está debaixo do capacho.
Casas... pensar que sejam só um monte de tijolos com argamassa,
nada mais que abrigos, é negar-lhes espírito e não reconhecer
alma naqueles que as concebem. A maioria delas sai imperfeita
porque os homens que as constroem fazem concessões e têm uma
concepção errada a seu respeito. Desde pequeno, elas fascinavam
Bobby, evocando nele cenas da vida de família nos seus
momentos de maior intimidade. Para o espírito grosseiro e
inculto, elas não passam de objetos inanimados com a função
única de servir de moradias. Mas, vistas neste papel, elas são
carentes de fantasia e não passam de um conglomerado de
materiais, de vigas, madeirames e rebocos. Meras construções.
Não obstante, tanto quanto ele sabia, as casas possuíam uma
essência transcendental. Diferente dos prédios comerciais,
verdadeiras colmeias onde os homens caídos em desgraça
cumprem seus destinos, a casa é o lugar sagrado onde sonhos e
aspirações podem florescer sem necessidade de qualquer
justificação e a comunhão do amor em seu estado mais elevado
pode realizar-se. Finalmente, o lar era para ele o último santuário
da privacidade num mundo de bisbilhotice.
O jardim em frente estava tomado de ervas daninhas; ondulavam
em volta do caminho da entrada maciças moitas de grama dos
pampas e, ao redor das janelas, contorciam-se as trepadeiras de
glicínias. Quando abriu a porta, Bobby se viu num vestíbulo
varrido de correntezas de ar e, no chão de ladrilhos num tom
desmaiado de terracota, notou excrementos de ratos, escutando o
barulho do tropel deles. Havia um living convencional, escuro e
úmido, que levava à sala de jantar com dimensões de um salão de
banquete. Uma porta sem dobradiça estava encostada contra a
parede e o seu vão dava para uma cozinha apertada e bolorenta.
Janelas pequenas com gradis tornavam sinistra a atmosfera na
casa e pesadas vigas de carvalho, só decorativas, não estruturais,
esmagavam as proporções avantajadas do andar térreo, criando
uma sensação de claustrofobia. A luz do sol fora excluída de lá.
Ele subiu a escada para os quartos em cima. Seriam ao todo uns
oito ou 10, todos acanhados e com janelas de celas de prisão.
Espiando para fora, avistou um vastíssimo jardim que precisava
de reforma. Aquilo era mais uma cadeia do que uma casa. Ele
visualizava a sua transformação, adicionando janelas,
aumentando o tamanho dos quartos e botando um pouco de cor
naquele tom choco de terracota. No living, abriria toda uma
parede com janela, triplicaria o tamanho da lareira e aumentaria a
cozinha, reduzindo as proporções da sala de jantar.
Bobby saiu pela porta de serviço, dirigindo-se aos jardins dos
fundos; atravessou um pequeno pátio que tinha uma fonte
revestida de azulejos com desenhos astecas. Ela estava cheia da
água da chuva, escura e com passarinhos mortos e folhas secas
dentro. Avistou Leonard sentado num toco de árvore.
— Comprei este horror por 650 mil dólares para revender depois.
— Incrível — disse Bobby espantado com o preço.
— Paguei em dinheiro... mas acho que não fiz mau negócio.
— Nem sei o que dizer... quase três quartos de um milhão de
dólares. Parece absurdo.
Leonard fez-lhe um sinal para que o seguisse e os dois se puseram
a examinar o terreno em silêncio.
— Vou dar-lhe uma lição sobre valor imobiliário aqui. Se essa casa
estivesse em outro lugar qualquer fora daqui, ela poderia ser
vendida por uns 200 mil dólares em dinheiro e já seria um
absurdo. Só um megalomaníaco pensaria num negócio deste.
Tem-se de jogar um bocado de dinheiro aqui dentro e esse seria
um investimento muito arriscado. Mas aqui em
Beverly Hills isso é uma bagatela... dinheiro aqui não tem valor.
As pessoas pagam pelo endereço e pelo privilégio de dizerem que
moram em Beverly Hills. Não há lógica nisso. Estou disposto a
botar mais uns 500 mil dólares aqui dentro... piscina, quadras de
tênis vão comer uns 150 mil. Assim fico com 350 mil para fazer o
resto. Qualquer arquiteto pode fazer esse trabalho de reforma, e
depois ponho a casa à venda por intermédio de Tim,
economizando, assim, os seis por cento da comissão do corretor.
Devo sair com um milhão de lucro líquido. Mas, se arrumar um
arquiteto com boas idéias e que trabalhe dentro desse orçamento,
posso tirar de um milhão e meio até dois. Pode acreditar, Bobby,
existe por aí um casal rondando, procurando uma casa, com tanto
dinheiro e tão pouca imaginação que ainda vai achar que fez o
melhor negócio da vida. Sabe? Não é só por esnobismo que se
mora em Beverly Hills, é que isso aqui dá status e existe um certo
prazer vulgar de se contar aos amigos que se deu 3 milhões por
uma casa.
Bobby respeitava a análise de Leonard e ficou pensando por um
minuto na resposta que daria.
— O que você vende por esse preço é ostentação e não bom
gosto e isso é um desafio desgraçado. Bem, vamos falar da casa.
Ela é escura e só tem um quarto com uma boa proporção. O resto
não passa de closets para vassouras. Assim, se a gente pensasse
em abrir uma galeria com uma clarabóia, essas duas aberturas
fariam emergir proporções fantásticas. Iríamos ganhar espaço
vertical e ter, ao mesmo tempo, alguma coisa de funcional. Abre-
se uma janela de seis metros que vai do chão ao teto. Desse modo,
a vista exterior viria para dentro de casa e ela ganharia claridade.
O jardim reformado por um bom paisagista vai dar-lhe a sensação
de estar vivendo junto da natureza. Os quartos em cima... acho
que são uns 10, poderiam ser reduzidos a quatro. Dois seriam
suítes, com saleta, sauna, banheiros e enormes closets, e nos
outros faríamos quartos com banheiros privativos. A cozinha teria
de ser ampliada e ter outras janelas para poder ganhar claridade.
A casa de hóspedes nos fundos pode ser transformada em
dependências para empregados. Basicamente seria este o
tratamento que daria aqui. Claro que tenho de pensar também na
quantia que você destinou para estas benfeitorias... a troca de
encanamentos e uma nova instalação elétrica vão comer um
bocado de dinheiro.
— O pessoal que trabalha comigo não é sindicalizado. São
estrangeiros trabalhando ilegalmente no país — informou Leo-
nard. — E uma gente habilidosa, bons ladrilheiros, que nos
permite trabalhar barato, mantendo um bom padrão e ao mesmo
tempo nos deixando fora dos sindicatos.
— Você é o empreiteiro, mas simplesmente não faça economia na
mão-de-obra se quer vender pelo preço que
pretende.
Leonard considerava com atenção as sugestões de Bobby. Havia
nele qualquer coisa de atraente e ao mesmo tempo de seriedade;
ele teve vontade de continuar a discussão, mesmo que se atrasasse
para um outro encontro que ainda teria em Valley. Dirigiu-se para
o carro e chamou do telefone do automóvel, adiando este encontro
para mais tarde. Qualquer arquiteto pode fazer uma casa, mas
pegar uma que esteja abandonada e dar-lhe vida requer talento
excepcional e muita imaginação.
— Não me querendo contradizer, mas você tem de levar uma
coisa em consideração seja quem for que vai fazer o trabalho aqui.
O suporte de uma casa é a família e os membros dela
compartilhando as suas vidas em conjunto. Toda casa encerra
segredos. Ela deve proporcionar intimidade e, não importa que
tamanho tenha, deve ter um sentido acolhedor. É preciso saber
unir o espaço e o tempo que estão contidos nela. Você está
acompanhando meu raciocínio?
— Não muito, mas estou gostando da coisa e simpatizo com
você. Vai fazer alguma coisa no almoço?
— Não. Vou ficar rondando por aí até saber se Hayward quer
ou não me contratar... Não querendo, pego o primeiro avião para
o leste.
— Esse emprego representa muito para você, não é? —
perguntou Leonard, demonstrando preocupação.
— Bom, para ser franco, não estou muito certo do que quero
realmente fazer. Lecionar, sei que não quero. Já fiz isso em horário
de meio expediente na New School em Nova York. Dava aulas
duas vezes por semana à noite. Mas também não gosto de ficar
amarrado a certos construtores e aò tipo de trabalho que eles me
dão.
— A lista de candidatos é pequena — informou Leonard. — É
você e um outro que quer fazer uma remodelação total, usando
madeira e vidro, e acabar com o estilo espanhol da casa. Pretende
algo ultramoderno.
— Isso seria um erro. Essa casa faz parte da tradição daqui.
Não pense no estado dela agora. Você irá encontrar alguém que
goste do estilo espanhol. Uma boa casa moderna pode ser difícil
de ser vendida. Você tem de encontrar um comprador refinado,
alguém com imaginação. Por 3 miIhões, o comprador quer mais
do que vidro e madeira. Vai querer tijolo.
— Foi o que disse ao outro arquiteto.
Eram sete horas na costa leste, quando Bobby conseguiu
comunicar-se com Claire. Ele não pôde conter a alegria. Ao voltar
com Leonard Martinson ao escritório de Hayward, foi contratado
com salário inicial de 25 mil dólares por ano e reajustamento em
seis meses. Teria também uma comissão de meio por cento em
todo serviço que ele levasse para a firma. Leonard estava
telefonando para os figurões e Bobby iria imediatamente ocupar-
se de todos os seus projetos.
Claire olhou para a sua mãe que se achava com ela na sala. Uma
mulher trabalhando de caixa num cassino em Las Vegas e que
estava ali, no momento, esperando um telefonema com a
ansiedade de alguém que está por um número no cartão de bingo.
Não havia extensão no apartamento e Claire deu uma piscadela
para Milly como dizendo depois eu lhe conto.
— Ah, então finalmente aconteceu.
— Foi uma sorte — disse Bobby. — Viremos morar em Los
Angeles.
Seu quarto no Holiday Inn parecia com o camarim de um
acrobata. Quando se alugava quarto por uma semana naquele
hotel, deixavam acumular tanta sujeira que no fim acabava
imundo como um matadouro. Na toalha de rosto havia restos de
geléia do café da manhã que, por sinal, nem pedira, e pendurado
num gancho atrás da porta, havia um blazer verde, não se sabe de
quem, dentro de um saco plástico e com uma etiqueta de
"Negociantes de Buick" e uma conta de sete dólares e 95 cents.
— Diga-me, como é que você está? E o que é que você fez com
a sua calcinha?
— Por enquanto, ela está de molho esperando por você —
respondeu, olhando para sua mãe que procurava nas páginas
amarelas o telefone de um sujeito que teve um caso com ela
durante 18 dias, antes de ele vender uma pizzaria e se transformar
num restaurateur. — Bobby, vou ter de bolar um jeito para me
despedir da loja.
Ele lhe pediu que esperasse mais uma semana, até assinar o
contrato. Não ia passar de uma semana. Leonard Martinson,
descrito como patrão, dera-lhe uns projetos para que começasse a
fazer imediatamente e havia também uma casa em que devia
trabalhar na reforma. Claire ficou eufórica com as notícias. Todas
as suas esperanças em relação a Bobby estavam concretizando-se.
Exultante, dava-lhe beijos em pensamento; o destino sorria e
abençoava a união dos dois.
— Eu te amo tanto — ela exclamou.
— Claire, isso não é sonho, é verdade. Você vai adorar Los
Angeles.
— Mal posso esperar, Bobby.
— Querida, agora tenho de ir... falo com você depois.
Encontrava-se ali um rapaz com pressa, que estava de mudança e
realmente as coisas estavam acontecendo um pouco tarde.
Leonard o tinha convidado para uma reunião informal em sua
casa, onde iria conhecer alguns de seus futuros colegas de
escritório. O mundo de repente se abria e ele avidamente agarrava
as oportunidades que estavam surgindo.
Ele tinha com ele o mapa de Los Angeles e seguia cuidadosamente
as instruções de Leonard. Foi dirigindo pelas estradas tortuosas de
Bel Air West Gate, passando por imensas propriedades que ia
espiando com o rabo dos olhos. Por sorte ainda estava claro, do
contrário estaria perdido num emaranhado de ruas. Logo acima
do Bel Air Country, sobre um outeiro, ficava Bellagio Crescem e
ao fim, atrás de muros cobertos de buganvílias e espirradeiras,
via-se um portão muito alto de ferro batido, dotado de sistema
elétrico. Apertou um botão, anunciou-se e o portão se abriu
silenciosamente.
Entrou por um caminho calçado com lajotas, atravessando um
parque que poderia ter sido uma reserva de caça, e chegou ao topo
de uma colina. Lá, encontrou uns 12 ou mais carros estacionados
na ladeira: Ferraris, Rolls-Royces e Mercedes. O seu Ford Pinto ali
era uma excrescência. A sua frente, estendia-se uma área de uns
20 mil metros quadrados com estufas, campos de croqué, quadras
iluminadas de tênis, onde, no momento, era jogada uma partida
de duplas, é uma majestosa piscina azulejada cuja entrada era
guardada por um par de faunos de alabastro. Estava totalmente
embasbacado com a grandeza dos domínios de Leonard. A casa,
um pretenso castelo francês, tinha do lado de fora uma enorme
fonte cheia de peixes dourados e outros tantos que nunca tinha
visto.
Um empregado, uniformizado à moda européia, veio abrir-lhe a
porta da frente que era monumental e de madeira envernizada.
— Sr. Canaday — disse ele — estão todos na biblioteca.
Acompanhe-me, por favor.
Ele percorreu uma longa distância, passando por um assoalho
magnificamente bem encerado e espaçado aqui e ali com encaixes
de bronze. Nas paredes reparou nas tanerarias e numa
impressionante coleção de quadros. Diante de um Murillo, deteve-
se; uma pintura mostrando um moleque de rua comendo um
camarão. Leonard vivia como um príncipe renascentista e ele,
Bobby, havia ganho a proteção dessa figura superior, iria trabalhar
para ele; suas perspectivas eram agora tangíveis e as
possibilidades ilimitadas.
A sala era biblioteca e sala de projeção ao mesmo tempo e lá havia
um dos muitos bares estrategicamente espalhados pela casa. Um
telão Sony mostrava, no momento, o rosto inteligente e
tranqüilizador de Walter Cronkite com a sua voz saindo de alto-
falantes camuflados. Algumas pessoas prestavam atenção nas
notícias, enquanto outras se deixavam ficar no bar; entre estas,
Tim Hayward. Leonard e uma atraente mulher de uns 30 anos
estavam com os seus drinques nas mãos no terraço que dava para
a biblioteca; conversavam entre eles e, segundo pareceu a Bobby,
de modo ansioso. O rosto de Leonard estava vermelho e os olhos
preocupados, mas a sua expressão modificou-se ao ver Bobby.
A mulher se chamava Ann Shaw e era uma inglesa de rosto bem
delineado, maneiras graciosas e afáveis. Era a secretária particular
de Leonard. Um outro empregado igualmente uniformizado
aproximou-se para perguntar a Bobby o que desejava beber e
imediatamente ele foi servido com um Chivas com gelo.
Bobby se pôs a imaginar qual seria a reação de Claire diante
dessas pessoas que pareciam conviver tão à vontade com aquele
luxo nababesco. Naturalmente não iria impressionar-se nem um
pouco e os veria como simples mortais que eram e não como
deuses. Leonard o levou para dentro e deu a volta na sala com ele,
pacientemente, fazendo a sua apresentação aos outros
convidados. Bobby estava certo de que entre eles dois havia uma
grande afinidade. Leonard tinha planos para ele.
Ele voltou para o terraço onde se via uma escultura moderna e se
achava disposta uma quantidade de bancos. O jogo na quadra de
tênis terminara e os quatro jogadores faziam o caminho de volta,
subindo a colina em dois carts de golfe. Num deles, reconheceu a
cara lúgubre de Rubin. Junto dele, sentava-se uma mulher de
rosto comprido, morena e de expressão mal-humorada. No outro,
estavam duas mulheres que, no azul dos bancos, lhe lembravam
duas flores silvestres flutuando num lago. Enquanto vinham
vindo pareciam habitantes de outro planeta, de um lugar onde
eram elas que faziam as leis, e ele ficou extasiado pela beleza delas
naquele cenário montanhoso da casa de Martinson.
Conheceu primeiro a mais velha das duas. Seu nome era Eilen
Dunlop. Uma moça alta, de pernas longas, bronzeadas, corpo
atlético, cabelos castanhos, penteados para cima. Vestia um
conjunto verde-claro para tênis e na mão esquerda tinha um anel
de brilhante do tamanho de uma castanha de caju. Os seus olhos
eram castanhos e com um quê malicioso, próprio das pessoas
vividas. Era casada com um sujeito truculento, brigão, que Bobby
ficou sabendo ser Frank Dunlop, o presidente da Marine Mutual
Insurance. Ele deu um olhar do alto para Bobby, como se este
tivesse cometido a ousadia de invadir o seu território. Os olhos de
Dunlop eram escuros e maldosos, como os de uma víbora, e o
nariz, de formato adunco, igual ao de um turco. Tinha o dom de
fazer as pessoas a sua volta, inclusive Leonard, se sentirem mal,
irradiando um clima de descontentamento, destoante do universo
de Martinson.
A moça que veio com Eilen não se deu ao trabalho de
cumprimentar Bobby ou outro qualquer ali, avisando apenas que
estava subindo para tomar banho. Nela, havia algo de arredio e
Bobby concluiu que ela devia ser amante de Leonard, já que não
havia nenhuma Sra. Martinson na casa. Era uma moça cheia de
vida, com aquela saúde exuberante das garotas californianas que
via em filmes ou nos shows de televisão, entretanto, nos seus
movimentos, havia um certo nervosismo e eles transmitiam um
clima de energia irrequieta.
— Como foi o seu jogo? — perguntou Leonard, em meio ao
barulho de copos e às idas e vindas dos criados servindo iguarias
da cozinha chinesa. Havia umas costeletinhas de porco com os
ossos revestidos, de modo a não se sujarem as mãos. A moça
piscou para ele, inclinou-se e disse numa voz que só Leonard e
Bobby podiam ouvir:
— Foi uma barbada. ,
— Você jogou com Ellie?
— Não. Contra ela e... Gary.
— Isso não vai ajudar a causa — disse Ann Shaw.
— Quem consegue jogar tênis e fazer política ao mesmo tempo?
Isso está além das minhas possibilidades. — Ela pediu um shooter
e Bobby ficou esperando com curiosidade para saber o que era
isso. Veio uma bebida forte para ser tomada pura e ele concluiu
que fosse tequila, já que ela pegou um pedaço de limão antes de
bebê-la. Pareceu-lhe que ela o ignorava de propósito, entretanto
ele pressentia que ela era uma mulher com faro para distinguir
quem era quem ali dentro. Toda ela exalava um ar de riqueza,
argúcia e de uma sensualidade e osso, uma mulher com tanta
consciência de sua sexualidade e da segurança que decorre desses
predicados naturais. Ela entrou na sala, dando um olá para alguns
que estavam jogando gamão, e todos imediatamente
interromperam o jogo para virem cumprimentá-la e pagar tributo
a sua importância. Rubin, posudo e suando, forçou um sorriso
para Bobby.
—Mais tarde conversaremos. Mas estou contente que tenha
conseguido o emprego.
— Eu fiquei feliz de...
— Essa é a filha de Leonard Martinson... mas, cuidado, ela é
proibida.
— Agradeço o aviso, mas estou noivo. Você devia conhecer
Claire.
Rubin apontou para dois homens que jogavam póquer de dados,
sentados num canto do bar e vermelhos de tanto beber.
— Hillary esteve noiva dos dois... não ao mesmo tempo. Rompeu
com eles, mas os dois continuam amarrados. Ficaram amigos um
do outro. Acho que gostam de sofrer.
Rubin disse isso com ar de quem fizera um comentário muito
arguto e passou pela cabeça de Bobby que, talvez, ele não
estivesse pisando em terras muito firmes, no momento, porém
estava muito feliz para fazer maiores indagações, ainda mais que
naquele meio de potentados não havia lugar para preocupações.
Acabara de aportar na costa e estava encantado com o seu cenário,
sentindo-se privilegiado por estar numa reunião como aquela. A
impressão que tinha era a de que Sinatra a qualquer instante
podia entrar ali para um drinque. Leonard aproximou-se para
perguntar se ele estava se divertindo e travando conhecimento
com as pessoas. Nisso, Dunlop estalou os dedos chamando-o e ele
perdeu completamente a graça. Havia em Frank Dunlop uma
certa vulgaridade ofensiva que fascinava de modo sinistro como
nunca antes Bobby vira em alguém. Não havia dúvida de que
Leonard ficava tremendo ao menor chamado dele e Bobby estava
impressionado com a estrutura de poder que ele começava a
perceber dentro daquela sociedade.
O jantar, servido às 8:30, parecia ter saído da cartola de um
mágico. O cozinheiro de Leonard aprendera a sua arte no Trader
Vic's, de onde tinha sido raptado pelo incorporador sibarita que
conhecia as suas qualidades de excepcional mestre-cuca.
Evidentemente, impossível comparar a comida que ele servia com
os churrascos que os sócios e amigos de Leonard ofereciam
durante o jantar, ouvindo alguns dos que trabalhavam no escritó-
rio de Hayward discutirem com o patrão os problemas que Dun-
lop estava trazendo para o projeto do novo edifício da Marine
Mutual em Century City. Hayward, como convinha ao dire-tor-
presidente da firma, a única coisa que disse foi para que eles
continuassem dando duro no trabalho. Todas essas coisas Bobby
já ouvira antes. Os clientes, invariavelmente, ficavam descontentes
porque não tinham noção do que queriam e somente quando se
lhes apresentava uma coisa que tivesse uma vaga relação com
aquilo que pensavam é que conseguiam visualizar a idéia.
Depois do jantar iam passar O Poderoso Chefão e, apesar de que
não quisesse melindrar ninguém ou parecer chateado, Bobby
preferiu assim mesmo ir para a sala de bilhar e jogar sozinho uma
partida de sinuca. Ele sempre gostou deste jogo e era um grande
craque. Uma vez fez quatro breaks seguidos e quando estava em
Harvard dava suas tacadas valendo dinheiro nos salões de lá. O
jogo tinha o dom de acalmá-lo, isolá-lo do resto do mundo, e o
som do contato das bolas tinha para ele o efeito de uma música
relaxante que só elas davam. Havia o contraponto das jogadas de
tabela, a harmonia de uma combinação de três bolas, a fuga dos
choques das bolas, tudo proporcionando imensa satisfação e
fazendo bem à alma.

Da sombra de um dos pátios que davam para a sala de bilhar, ele


ouviu que o estavam aplaudindo e, como num passe de mágica,
emergiu na luz a princesinha loura de Leonard. Lá estava com
rosto luminoso, pele dourada do sol e suas encantadoras
maneiras.
— Nunca vi uma tacada como esta. Você é ótimo, sim-
plesmente maravilhoso.
— Obrigado — disse fazendo um cumprimento com a cabeça
com ar de quem já sabia disso. Ele, então, enfiou uma bola na
caçapa no outro lado da mesa e em seguida deu uma tacada na
bola branca que percorreu a extensão da mesa e foi acertar numa
que estava na outra extremidade. Guardou o taco e veio sentar-se
na beirada da mesa. Os olhos dela, azuis e cristalinos, tinham um
brilho de satisfação.
— Você é bom em jogos?
— Nem sempre. Eu não jogo gamão.
— Uma parte da vida social das pessoas daqui é jogar gamão.
— E a outra parte o que faz?
— Evitar as pessoas que jogam gamão.
— Você costuma ser sempre tão crítica assim?
— Não necessariamente. É que não gosto dessas reuniões em que
as pessoas se juntam só por alguns instantes, mas é esse o jeito de
o meu pai fazer negócios. Sou Hillary Martinson — disse ela, com
ar especulativo. Evidentemente, a presença dos pretendentes por
ela rejeitados mexia-lhe com os nervos. — E você quem é?
Ele lhe disse o nome, explicando que iria trabalhar com Hayward
e que o seu primeiro serviço seria a reforma da casa comprada por
seu pai. Para surpresa dele, ela se revelou interessada no projeto.
— Bom, eu trabalho numa firma de decorações de interiores e
pegamos este serviço. Pode dizer que é protecionismo, mas, e daí?
— Tenho visto coisas piores.
Por qualquer razão, ela ficara com grande curiosidade a seu
respeito, mas a impressão dele era de que isso não passava de
uma técnica que usava com as caras novas. Entretanto, em Hillary
Martinson, ele não percebeu nada de uma moça caprichosa e dona
de uma mansão como aquela. A vitalidade que deixava
transparecer obstruía a pose afetada das pessoas ricas.
— Por que você decidiu ser arquiteto?
Ele soltou uma risada sem querer e ela o acompanhou como se a
pergunta não tivesse sido tão absurda quanto supérflua.
— Eu não decidi. A profissão decidiu por mim e talvez por isso
eu tenha tantos problemas.
— De que tipo?
— De querer fazer uma carreira sem abrir mão da minha
individualidade. Acabo fazendo com que as pessoas se chateiem e
eu tenho de me decidir de uma vez por todas a fazer o jogo
político das construtoras.
— Como? Lambendo a sola do sapato dos outros?
— Não. Isso nunca. Basta ser um pouco mais diplomático e
não procurar encrencas. Veja, o grande problema da arquitetura
hoje é que a maioria dos arquitetos deixou de pensar no lado
humanístico. Esqueceram-se de que as pessoas têm de viver e
trabalhar nos prédios que eles planejam. Tudo se resume em dar
ao cliente o que ele quer pelo preço justo. Pode ser ingenuidade
minha, mas sei que tenho uma tradição e que faço parte de uma
linha histórica. Quero fazer aquilo que faz bem ao espírito das
pessoas. Eu me importo com aqueles que vão passar suas vidas
trabalhando num lugar que foi feito por mim. Entende o que
quero dizer? — Distraidamente, ele pegou o copo dela com
conhaque e tomou um gole. — Pense nisso, a vida moderna traz
tanta ansiedade... as pessoas são obrigadas a fazer trajetos imensos
para os seus trabalhos, a vontade que elas têm é a de gritar que
estão ficando loucas e que não agüentam mais esta vida... Bom, eu
sei muito bem que não tenho nenhuma resposta para dar a elas...
nenhum sinal de esperança, mas o mínimo que posso tentar fazer
é proporcionar-lhes ambientes, na medida do possível, agradáveis.
É o que venho tentando fazer desde que me formei, mas a coisa
não tem funcionado comigo. Hayward me está dando uma chance
e talvez eu venha a botar tudo a perder. Quem sabe?
Ele se sentiu tomado por um certo entorpecimento inexplicável.
Jamais gostara de falar de si mesmo. Isso sempre dava a
impressão de falta de pudor e de que a pessoa era um
choramingas, mas ele estava realmente desconcertado.
— Bobby, você é fantástico.
— Isso ainda veremos. — O elogio o deixou eufórico. Ele julgava
que uma garota como Hillary, crescida em meio de tais
esplendores, fosse mesquinha nas apreciações. Depois de ter
observado o comportamento dela após a partida de tênis, diria
que palavras duras, ditas para humilhar, seriam bem mais do
estilo de uma moça como ela. Entretanto, ela demonstrava todo
um lado de calor que o desmentia. Gostou do seu perfume e teve
vontade de perguntar o nome, mas não teve coragem, temendo
que fosse rir na sua cara, além de que isso pudesse revelar a sua
falta de traquejo. No entanto, havia qualquer coisa nela que o
deixava desinibido, relaxado, e, sem entender por que, começou a
devotar-lhe um estranho sentimento de lealdade e de
devotamento. Seria ele tão inseguro de si mesmo? Rubin bem o
avisara sobre Hillary. Mas toda a cautela desaparecia, diante da
generosidade da moça, do prazer de sua voz da satisfação de ser
tomado como algo de importante por uma mulher tão
despretensiosamente magnífica.
— Posso fazer uma pergunta embaraçosa?
— Se vamos ser amigos, por que não? — respondeu ela.
— Como você se sente tendo dois ex-noivos debaixo do
mesmo teto?
— Ah, isso?... Talvez funcionasse até como algo provocante,
entende? Em outros tempos, quando era uma pessoa diferente,
poderia até ter-me excitado, mas, agora... bem... é como se eles
fossem parte da mobília da casa. Um deles, o de óculos, é o rei do
shopping center de Orange County e o outro tem uma cadeia de
lanchonetes espalhadas pelo sul da Califórnia. Ambos já entraram
numa quantidade de empreendimentos imobiliários com o meu
pai e acho que é por isso que estão aqui. Leonard gosta de
amamentar gente desse tipo. Eles são velhos demais para mim e
eu não fui feita para ser mulher de homens de negócios, dando
churrascos na beira da piscina para executivos e promovendo
convenções no Havaí para agentes de venda. Francamente, o
essencial é você acordar de manhã e não precisar sentir-se
arrasada porque topou com um cara deste pela frente. Os dois se
tornaram amigos. Meu pai transou a coisa — concluiu num tom
ríspido. —"E que tal falar de você agora?
— Eu estou noivo.
— Não precisa dizer isso como se fosse um remédio preventivo.
Vai casar-se?
— Hã-hã.
— Pela primeira ou segunda vez?
— Primeira, claro.
— Você está em Los Angeles, Bobby, a pergunta não devia
surpreendê-lo tanto. Vivemos numa arena de combates.
— Nova York também é — disse ele para não ficar atrás. O cinema
havia terminado e os convidados começaram
as despedidas. Os carros lá fora manobravam. Encontros — para
conferências, jogos de tênis, almoços, fins de semana em Palm
Springs — eram combinados provisoriamente até que as agendas
fossem consultadas. Leonard entrou na sala de bilhar, dando um
sorriso enigmático para os dois.
— Hill, o pessoal quer vê-la antes de sair. — Ele deu um olhar
para Bobby, superior e condescendente. — Então, divertiu-se?
— Ah, sim. Obrigado, Sr. Martinson.
Ele foi o último a se despedir de Hillary. Ela caminhou com ele até
o carro. À volta dos dois, insetos zuniam. O terreno estava
iluminado por centenas de pequenos holofotes verdes e amarelos
e, para Bobby, era como se ele tivesse esfregado a lâmpada de
Aladim e sido atirado naquele jardim de sonhos. Quando Hillary
sugeriu que almoçassem juntos num dia desses, concordou de
modo distraído; ele apertou-lhe a mão e percebeu que, se fizesse
um gesto, aquela bela figura encarnando todos os prazeres deste
mundo seria sua. Talvez, por uns dias, algum tempo, como saber?

Capítulo III
Aflita com a ausência de Bobby — 10 dias se haviam passado —
Claire se surpreendeu procurando coisas para matar o tempo.
Jamais pensara em si como um ser vulnerável ou frágil. Agora,
entretanto, estava corroendo-se por dentro e cheia de dúvidas. Ela
e Bobby falavam-se todos os dias. Ele ainda não tinha tido tempo
para procurar o apartamento por estar sempre ocupado com os
projetos da reforma de uma casa. Claire se sentia inibida em fazer
perguntas a respeito do que ele fazia durante a noite. Sabia que
tinha jantado com Madeleine, a sua amiga mais íntima, que se
mudara para Los Angeles havia seis meses. Sentia enorme
saudade dos dois e a presença de sua mãe só lhe servia para
aumentar a solidão. As duas nada tinham em comum e não seria
ela a pessoa a quem faria confidências.
Há alguns anos, Milly fora morar em Los Angeles para trabalhar
nos cassinos e Claire sabia que a sua volta tinha dupla finalidade.
A primeira seria checar Atlantic City e ver se valia a pena uma
troca. Milly, entretanto, achou o clima daquela cidade intolerável,
uma verdadeira afronta ao seu permanente bronzeado obtido com
o sol do deserto. A outra era estar com ela no casamento e,
naquela noite, as duas iriam ao chá-de-panela que as garotas do
Drake's lhe iam oferecer.
Apesar de tudo, Claire sentia-se alegre no momento em que Milly,
pouco depois das seis horas, carregada de sacolas do
Bloomingdale's, fez uma entrada triunfal na sala. Ela deixou os
embrulhos caírem no chão e se pôs a desfilar em volta do
aposento.
— Então, que tal estou?
— Não sei direito — disse Claire, olhando a nova cor do cabelo
dela.
— Pode chamar-me de Raposa Prateada. Regine's, Vegas,
Miami, cheguei!
— Por que fez isso? — No café da manhã ela era uma ruiva,
com cabelos num tom de vermelho-caramelo.
— Foi uma concessão que fiz ao Buddy. Ele me queria ver
como loira platinada. — Buddy era o último de uma lista
mtenninável de admiradores e amantes. Ele-vivia de arrematar
propriedades postas em leilões judiciais para depois revendê-las
através de anúncios que colocava nos jornais das cidades do
interior. Ele tinha telefone no carro, um Continental branco,
carregava no bolso de cima do paletó uma minicalculadora e
estava sempre discando para um certo número, a fim de saber
resultados esportivos. Por três semanas fora o número um de
Milly. Ela saía com ele, quando o seu turno terminava no Sands
Hotel. Durante dois anos havia trabalhado como carteadora de
vinte-e-um, depois, aposentou-se da função, passando para a
tranqüilidade da caixa; foi quando o seu turno, que ia até as
quatro da manhã, arrebentou com a sua vida social.
— Está um pouco chamativo.
— Pois para Vegas até que está discreto. Eu estou de saída
com Buddy para Miami dentro de um ou dois dias. Vamos para
um show de condomínios. Depois então volto aqui para o
casamento. Chegaremos a Las Vegas no dia 4 de julho para a
estréia de Wayne Newton.
— Nunca ouvi falar em show de condomínios.
— Bom, se existem shows de carro, shows de ferramentas, por
que não haver também um show de condomínios? Tudo é por
conta de Tio Sam. Livre de qualquer despesa para Buddy.
Aos 48 anos, usando sutiã tamanho 52 e tendo, como maior bem,
as jaquetas de dentes do Dr. Slakoff, um dentista paquerador e o
seu marido número dois, Milly ainda tinha o tipo de curvas e um
jeito de rebolar que atraíam os homens. O que também ajudava
era que ela gostava de sexo e guardava uma leve semelhança com
Jane Mansfield, principalmente agora, neste período de platinum
blonde. Claire lhe dera para ler um livro intitulado Passagens que
ela devolveu depois de 10 minutos, dizendo desdenhosamente:
— Isso de passagens é para outras pessoas, meu bem. Comigo
não. Eu tenho sexo e transo com rapazinhos quando consigo
apanhá-los.
— Você está numa boa fase.
— O negócio é esse aí — ela observou, deixando-se cair numa
cadeira. Tirou os sapatos e tomou um gole do gim-tônica de
Claire. — É pegar e não deixar que escape, porque quando você
menos espera já está em cima de uma mesa com o médico
procurando as suas veias para botar um marcapasso.
Milly tinha uma visão simplista do mundo e Claire compreendia
agora que ela sempre havia reagido contra a vida imoral da mãe.
Não que Claire fosse uma puritana, mas ligações fortuitas, contas
pagas atrasadas, cafajestes em fins de semana e presentes eram
coisas que a chocavam. Fazia o possível para não julgar a mãe com
dureza mas, no fundo, tinha consciência de sua vulgaridade e falta
de classe. Milly raramente se referia ao seu pai. Ela havia sido
uma noiva de guerra e, quando Joe Stuart foi morto na Coréia,
pouco antes do cessar-fogo, ficou indecisa entre fazer aborto e ter
filho de um homem que nunca tornaria a ver. Foi o fato de estar
no quinto mês que decidiu a parada. Claire ouviu a história
quando estava com 16 anos, numa noite de lágrimas de bebedeira
de Milly porque o seu homem tinha ido embora. Era um dos
muitos que passaram pela sua infância e pela cama da mãe, sem
deixar marcas. Tentou reprimir a raiva e o ressentimento que teve
por se saber indesejada. Durante muito tempo conseguiu que a
ferida ficasse escondida, mas, vez por outra, quando Milly
começava a gabar-se e estava pronta para mais uma de suas
aventuras, Claire se sentia irritada com a mãe. Considerando bem,
não é que Milly fosse propriamente uma vagabunda, ela era, como
ela própria gostava de descrever-se, uma pioneira na luta dos
direitos da mulher pela sua liberdade. O fato de nunca se ter
interessado pelos movimentos feministas não a preocupava como
sendo uma contradição de sua parte.
— Você tem tido notícias de Bobby?
— Falei com ele ontem à noite.
— Sinceramente, minha querida, não sei como você consegue
arranjar-se sozinha — disse sorrindo sugestivamente. — E quanto
a ele? — perguntou, fazendo uma festinha em Claire. — Acha que
está todas as noites de mãos abanando?
— Pare com isso, por favor! — Claire foi à cozinha encher os
copos com gim-tônica, espremeu uma banda de limão dentro
deles e os levou de volta à sala. Milly possuía talento especial para
tocar nos pontos nevrálgicos das pessoas e ela conseguia abalar a
sua confiança.
— Você tem é de usar de filosofia com os homens e não fazer
perguntas. O negócio deles é enfiar e depois esquecer. Dar umas
trepadas e pronto.
Uma puta desmiolada, pensou Claire, olhando para as riscas da
calcinha dela. Naquele momento, experimentava um vestido de
noite sem costas e decotadíssimo na frente.
— Ele não deve ser usado com sutiã.
— Você? Está brincando, mamãe. Você não é nenhuma
adolescente. Bom, em todo o caso, acho que, para um show de
condomínios em Miami, qualquer coisa serve.
— Comprei este vestido para o seu casamento.
— Não acredito. O que está esperando fazer lá? Vai rodar a
bolsinha?
— Não seja grosseira com a sua mãe — disse ela chateada. Era
difícil aborrecer-se com ela. Milly era fora-de-série.
— Ora, estou falando sério. Você não pode ir à igreja desse
jeito. A família de Bobby vai ter faniquitos e... falando como a
noiva, bom, você sabe, eu a adoro, mas, vamos fazer uma forcinha
para pôr um pouco de dignidade do nosso lado.
— Meu bem, vamos ser honestas. Os Canaday não gostam lá
muito de mim e eu também não vou com a cara deles. O que
quero dizer é... mas diabos! O que é que há de especial com eles?
O pai de Bobby não passa de um corretor de Wall Street que
costumava dar cantadas em mim no bar do clube, e quanto a
Lynn... credo, aposto que ela não sabe o que é dar uma trepada
nestes últimos 10 anos.
Essa malícia odiosa e todas essas insinuações e indiretas tinham
um fundamento no seu passado. Ela era uma das muitas mulheres
que tinham deixado escapar a sua oportunidade na vida. Agora,
cortejava os homens de modo servil e, se não fosse correspondida,
a culpa era deles e não dela. Foi um alívio para Claire quando ela
finalmente se mudou para Las Vegas. Westport já estava um
campo muito limitado para as suas transas. Claire percebeu que,
em Vegas, no meio de todas aquelas pistoleiras de meia-idade que
trabalhavam em lanchonetes e cassinos, com os seus vestidos
superjustos, colados na pele, os seus penteados parecendo ninhos
platinados e seios postiços, Milly tinha encontrado o seu destino.
Lá, o que conta é um cara com muita grana, de preferência
solteiro, que, depois de ganhar no jogo, vai regalar-se na sua suíte
com champanha, bancando o rei por uma noite. Geralmente
agarravam as prostitutas mais jovens, mas os velhos cavalos de
guerra, como Milly, também tinham saída ao preço de alguns
drinques e ocasionalmente um jantar. Já havia muito tempo que
Claire não se sentia mais chateada em saber dessa coisas da sua
mãe.
— Por que ficou tão ofendida?
— E essa a impressão que eu dou a você?
— Eu gosto de você, mamãe, como você é.
Por instantes, a vulgaridade de Milly desapareceu e uma imagem
sua mais doce e condizente com o que ela deveria ter sido há 20
anos sobrepôs-se as cores emaciadas de seu rosto. O batom grosso,
viscoso, os cílios empastados com rímel deixaram entrever um
brilho animado de inocência.
— O que quer dizer isto?
— Você é minha mãe... mas desejo uma vida diferente para
mim, não a que você teve.
— Não posso culpá-la nem um pouco por isso... mas me sinto
sufocada, voltando aqui. Anos atrás, quis dar o fora, mas você
estava no colégio e eu...
— Não vamos perder tempo remoendo nossas culpas, he'in?
— Ótimo. Vou vestir-me e iremos depois encher a cara com as
meninas. — Ela se levantou e aproximou-se de Claire, dando-lhe
carinhosamente um tapinha no queixo.
— Vou trocar de vestido, meu bem.
Atrás do Cheshire Cheese, um dos muitos restaurantes de
Connecticut que se davam ares de um pub inglês, havia um
pequeno recinto para festas que as garotas do Drake's alugaram
de 7:30 às 10 da noite. Quarenta delas haviam contribuído com
uma quantia que saía mais ou menos a 10 dólares por cabeça para
pagar o especial do Cheshire: o assado do Dr. Johnson servido
com pudim Yorkshire. As bebidas naturalmente foram cobradas
por fora e a atmosfera de alegria, dada pela conversa debochada
das garotas, conseguiu apagar da cabeça de Claire a cena anterior
com a mãe. Milly deixou a sala e foi conversar com o pianista que,
nos intervalos, sentava-se absorto no bar. Claire ficou surpresa
com o número de presentes que as suas colegas lhe compraram.
— Lençóis de cetim para o "especial dos sábados à noite" — disse
Leah Mann, uma moça alta e elegante que carregava uma valise
na mão. Ela estava envolvida com um cara casado que era
varejista, mas, muito sabiamente, adotou a atitude de rezar para
que ele nunca largasse a mulher. Leah contara a Claire que ele
tinha um filho de 12 anos, uma dessas crianças falantes e cheias de
vontades. E, quanto ao pai, a sua idéia de diversão era ir cinco
vezes por semana à noite ao Jóquei ou então enganar a mulher.
O Departamento de Lingerie contribuiu com um aparelho de
porcelana Spode para oito pessoas. O irrepreensível grupinho, que
trabalhava na parte de saldos e pechinchas do magazine,
presenteou-a com um serviço de chá; sobre a bandeja, perto da
cremeira, havia um diafragma. Blusas e Suéteres ofereceu um jogo
de facas e garfos com cabos de osso. Cama e
Mesa, naturalmente, ofereceu seis jogos, tamanho casal, de lençóis
e fronhas e mais um sortimento de toalhas. Lá pelas 8:50, as
garotas estavam todas descontraídas e as que não estavam ainda
completamente altas encontravam-se a meio caminho do etéreo.
Proezas de alcova era o assunto da conversa e, se bem que Claire
geralmente não achasse graça em histórias pornográficas, dessa
vez teve de rir com Patsy, a garota que por engano tinha transado
com dois gêmeos.
— Não foi ao mesmo tempo, claro. Aconteceu no segundo
encontro e como é que poderia saber? — começou Patsy a contar.
— Quando entrei no seu apartamento, ele estava no chuveiro e eu
me meti lá dentro junto dele. Percebi que fui olhada de um jeito
estranho, mas ele deu um sorriso e começamos a ensaboar um ao
outro. Enquanto eu passava sabão nele... bom, como é que vou
dizer, ficamos ali mesmo engatados. Nem chegamos a sair do
banheiro e, digo aqui para vocês, nunca levei um susto tão grande
na minha vida quando, depois que fomos para a sala, encontrei o
Tony lá... o meu namorado... preparando martínis. Ele xingou
Joey, o irmão gêmeo, de tudo, de traidor, disso, daquilo... depois,
ele se virou para mim e disse: "Patsy, será que você tem titica na
cabeça? Não reparou que o Joey tem uma tatuagem no braço?"
Claire dobrava-se de rir com o seu drinque sacudindo na mão.
— Agora não pode deixar a gente assim, tem de contar o final
da história — disse ela.
—E isso mesmo, continua! — berraram as outras.
A festa estava engrossando, pensou Claire, e por que não? Ela
estava sentindo-se livre, cheia de esperanças.
— Está bom. Mas nada de olhares gozadores para mim lá na
loja; se algum rapaz da Expedição descobrir, vai ser o diabo.
Prometido?
— Prometido — berraram todas.
Os seus olhos cinza arregalaram-se cheios de excitação.
— Bom, o negócio foi esse. A idéia da coisa começou a mexer
comigo. Para ajudar lá estavam os martínis de Tony e nós três
sentados apertados num sofá, vendo televisão. Então fiquei
pensando que aquilo não era justo para Tony. Eu estive com Joey,
quando deveria ter estado com ele. Bom, mas o que iria fazer com
o Joey que era também um bom rapaz enquanto estivesse com
Tony acertando as nossas contas? Assim, segurei as mãos dos dois
e disse: "Olhem aqui, detesto ver gente brigando, principalmente
irmãos e mais especialmente gêmeos do mesmo óvulo, por isso
vamos endireitar a coisa. Tony vem primeiro, por que Joey já foi, e
depois vêm os dois, se eu ainda conseguir agüentar." Foi a isso que
eu chamei no meu diário de uma noite memorável.
O jantar estava para ser servido e Leah, por cima da fruteira na
mesa, propôs um brinde.
Com uma taça de champanha na mão, levantou-se e disse em tom
solene:
— Algumas de vocês, meninas, só trabalharam por enquanto no
Drake's. Mas estão aqui as outras que já há alguns anos vêm neste
tipo de serviço, passando pelo Klein's, Macy's, Gemco etc., e elas
podem contar como é a coisa. Já trabalhamos em épocas de vendas
boas e más, com compradores e vendedores subindo até pelas
paredes, mas nenhuma de nós teve até hoje chefe melhor do que
Claire Stuart.
Milly, orgulhosa, apertou a mão de Claire.
— Viu só o que as pessoas acham de você, querida? — Claire
fez sim com a cabeça. Ela estava sem fala com a demonstração de
afeto das garotas do Drake's.
— Assim, nós lhe desejamos, Claire — todas se levantaram —
que seja muito feliz com Bobby, mas, por favor, fique conosco e
não vá para a Califórnia.
Começou-se, então, a vozeria, com hurras e votos de felicidades,
algo de bem incômodo, a notar pelas carrancas fechadas dos
garçons que tiravam as taças de frutas para servirem as saladas.
Leah saiu da mesa e veio abraçar Claire e Milly. A vida de Claire
transformara-se num festival.
— Claire, querida, se você for, metade das garotas vai acompanhá-
la, porque com certeza vão botar alguma nazista em seu lugar.
Olhe, diga ao Bobby que se ele botar você de dona-de-casa com o
dinheiro que você está levando, ele no mínimo vai dirigir um
Cadillac.
Claire estava num dilema que não seria resolvido enquanto Bobby
não voltasse. Ela teria de dar a notícia ao Drake e começar logo as
compras de inverno. Drake lhe havia prometido contrato,
autonomia para escolher o estoque e um montão de ajudas
extraordinárias se permanecesse na firma. Ela, porém, não estava
ainda certa do que iria fazer.
O prato principal foi anunciado e o mulherio foi fazer fila junto do
garçom que ia tirando fatias de uma bela posta de came e botando
nos pratos. Era como se fosse um serviço de bandejão e o pen-
samento de Claire voltou-se para a elegância do pessoal do Micelli
que serviria no seu casamento. Já os tinha visto em ação num
outro casamento e sabia que, por trás da fanfarronada do " papai",
estaria trabalhando uma equipe de profissionais realmente
eficientes.
Durante a sobremesa — sorvete de limão — seguida de cafezinho
e licor de menta, uma cara familiar apareceu na entrada da porta.
O Sr. Eugene Drake em pessoa. Era um homem seguro de si, na
casa dos 60, que começara a vida vendendo gravatas de porta em
porta na época da depressão, quando os executivos andavam
metendo balas na cabeça e ele de pouco precisava para sobreviver.
Foi quem introduziu entre os nova-iorquinos a gravata de um
dólar; mais tarde, quando parecia no auge do sucesso e era
carinhosamente conhecido na cidade por "Seu Gravatinha",
liqüidou o seu estoque e foi aplicar a sua impiedosa técnica de
venda a varejo nos inocentes moradores do subúrbio. Ele tinha
cinco lojas e cerca de mil empregados. Logo que viu Claire,
reconheceu nela uma genuína vocação para o negócio, fazendo
dela sua assistente pessoal e lhe dando a direção do departamento
de roupa feminina. No primeiro ano de Claire lá, os números
subiram em oito por cento. Agora, depois de cinco anos, ela
dobrou o volume de vendas, que andavam na casa de 4 bilhões
por ano. O iminente casamento tirava as noites de sono dele.
— Sinto como se estivesse perdendo uma filha — falou ele
para Milly.
— Ela não vai parar logo de trabalhar, não precisa ficar em
pânico.
Como podia sua mãe ser tão esperta, pensou Claire, e ao mesmo
tempo ser também uma presa tão fácil de uns pés-rapados, uns
vigaristas que a tapeavam de maneira mais imbecil?
Drake limpou a garganta e levantou os braços fazendo um gesto
bem conhecido de todas aquelas que freqüentavam as reuniões
mensais da loja, uma espécie de seminário sobre como obter
sucesso e ministrado por ele próprio.
— Senhoras e senhoritas, perdoem minha intrusão na festinha
que estão dando para Claire. Mas achei que a diretoria do Drake's
deveria estar representada aqui por alguns minutos. Os seus
executivos e eu julgamos convenientes expressar de algum modo
o que sentimos por Claire. Assim, desejo presenteá-la com um
cheque de mil dólares da parte da diretoria. Bem, junto aqui os
meus votos de felicidades aos de vocês, para Claire em sua nova
fase de vida... quero ainda acrescentar que contamos com sua
volta para as vendas de julho.
— Gene, foi um amor de sua parte — disse Claire, dando-lhe
um beijo.
Ele estava quase ficando por ali, quando Thelma, do De-
partamento de Lingerie, com uma dose dupla de brandy num
copo, se levantou e gritou:
— É melhor dar o fora, porque já vai começar o show de strip
masculino e a sessão de filme pornô.
Por um instante, ele achou que ela estivesse falando sério e,
nervoso, deu uma risadinha como que acompanhando a alegria
das meninas, mas, em seguida, tratou de sair às pressas, passando
sem cerimônia por entre as mesas. Depois da comemoração do
Natal do último ano, organizada no Departamento de Embalagens
e que se transformou numa bebedeira geral e em orgia
desenfreada, quando ouviu desta mesma Thelma, uma sílfide
negra, a história de que ela era a amante das terças-feiras, depois
da loja fechada, do digno Sr. Sanderson, do Departamento do
Pessoal, ele achava que tudo era possível. Credo, sem Claire na
direção, aquilo iria virar uma bagunça só. A simples perspectiva
de ela sair para lua-de-mel já o deixava apavorado.
Claire, de pé na porta de entrada, beijando as garotas, dando-lhes
boas-noites e ouvindo até o último instante os seus sábios
conselhos: como se prende um homem; nunca fazer lavagens
depois de seca; pôr a prata no seguro; tenha filhos, ou não tenha
filhos, porque eles crescem, viram drogados e se transformam em
miseráveis egoístas; conserve-se magra etc.
Finalmente, ela ficou sozinha com a mãe. Milly franzia os olhos
por causa da fumaça de cigarro e o seu hálito estava
desagradavelmente recendendo a gim.
— Buddy ainda está na cidade... tratando de algum outro negócio.
Pelo menos é o que ele diz. Bom, que se foda. Vou tomar um
drinque com o pianista. É o Laughs, você conhece. Não espere
acordada por mim.
Claire ficou observando a sua mãe, enquanto ela se dirigia para
dentro; lá, um sujeito franzino, macilento, vestido com um dinner
jacket marrom, segurou a sua mão avidamente.
Ela teve de fazer três viagens de elevador para carregar todos os
presentes para cima. Iria deixá-los empilhados no armário do hall,
havia resolvido esperar por Bobby e abri-los só quando ele
voltasse. Hoje, quando lhe disseram que ele havia telefonado pela
manhã, ela sentiu o pulso acelerar. Ela tinha um número de
telefone em que ele podia ser encontrado. Depois que fez a ligação
surpreendeu-se com a própria ansiedade. Do outro lado,
respondeu uma voz desconhecida que a fez estremecer. Alguém
que se apresentou como Gary Rubin e que passou, em seguida, o
telefone para Bobby.
— Onde você está? — perguntou ela.
— Na casa de uma pessoa do escritório que me convidou para
ficar com ele. O Holiday Inn estava se tornando muito deprimente
e caro. Como é que foi o chá-de-panela?
— Foi bem — murmurou, sentindo-se de repente triste. —
Quando acha que vai estar de volta?
— Dentro de uma ou duas semanas.
— Isso significa que você vai ficar fora um mês inteiro.
— Não fale como se estivesse fazendo uma acusação. Os
serviços aqui estão acumulados e só podem ser começados quan-
do os meus projetos forem aprovados... licença para construir,
essas coisas.
— Desculpe-me, é que estou com saudade e muito confusa
para dar a notícia ao Drake, sem saber quando deve ser. Ele me
deu um cheque de mil dólares e fiquei com medo de lhe contar.
Não vou depositar por enquanto.
— Não seja boba, você merece.
— Você está bem de dinheiro?
— Um pouco apertado, mas vou tapeando com os meus
cartões de crédito.
— Que tal o Sr. Rubin? Ele é bicha? — Ela escutou a sua
gargalhada do outro lado.
— Nada disso. Ele está em pleno processo de divórcio. Claire
gostaria que ele tivesse reafirmado o seu amor por
ela e o seu orgulho a impedia de pedir isso a ele. A separação era
desgastante e estava acabando com os seus nervos.
— Todo o meu amor, querida — disse ele desligando de um modo
que ela imaginou ser abrupto. Ela se sentiu tentada a ligar
novamente. A sua cabeça, no momento, não era confiável e, ao se
deitar, veio-lhe uma sensação como se tivesse perdido algo de
irreparável, como se a distância entre os dois não fosse mais só
uma questão de quilômetros.

Capítulo IV
Rodeo Puerta, o complexo de lojas que Leonard estava
construindo, ficava numa área que fora antes um estacionamento.
A compra desse terreno e os gastos iniciais com a obra esgotaram
suas reservas financeiras. Localizava-se nas proximidades do
American Savings Bank e estava no centro das três quadras mais
valorizadas que compunham a área comercial de Rodeo Drive.
Com a venda de algumas unidades (caso pudesse continuar
tapando os buracos nas suas finanças) ele ficaria sendo o dono do
maior número de propriedades situadas na ma mais cara do país.
Nem mesmo a Fifth Avenue, com o metro quadrado de loja
valendo 1 mil, 250 dólares, podia ser comparada com ela. Os 40
mil metros quadrados que teria, concluído o projeto, iriam render-
lhe 6 milhões de dólares por ano. Isto iria permitir-lhe tornar-se
mais sofisticado nas suas técnicas de manobrar e impulsionar seus
negócios, ti-rando-o das atuais dificuldades.
Sentado no escritório instalado na obra, observava o trabalho ali e
encarava o futuro com serenidade. Rodeo Puerta situava-se no
lado leste de Rodeo Drive. Tinha fácil acesso para o Beverly
Wilshire Hotel e pegava também o movimento do maior centro de
lojas no Wilshire Boulevard. Assim, quando as pessoas já se
tivessem fartado do Neiman-Marcus ou do Saks, era só cruzar a
ma e comprar em quaisquer das 20 lojas que estavam sendo
construídas por Leonard.
Depois de muito pensar, ele se decidiu por um prédio em estilo
mediterrâneo. Havia gostado dos pequenos paseos que vira em
Marbella, que proporcionam ambientes de tranqüilidade às
pessoas que não gostam de fazer compras correndo. Outra
vantagem ainda era a de não ter de atravessar Rodeo com o seu
tráfego ininterrupto. A fachada de Rodeo Puerta era em terracota;
as lojas seriam todas iguais com toldos vermelhos; as galerias
seriam revestidas de mármore travertino negro rajado de cinza.
Uma escada rolante levava à sobreloja onde haveria uma bodega
espanhola com mesas do lado de fora.
No conjunto, Rodeo Puerta seria harmonioso e também o primeiro
empreendimento em Rodeo Drive que daria a Leonard o prazer
de jactar-se com o seu triunfo. A sua fortuna fora feita com
shopping centers medonhos e construções de casas ordinárias em
Orange County e em Valley. Acreditara que o mercado jamais iria
exaurir-se, mas a inflação e o aumento das taxas de juros sobre
bens hipotecados praticamente o liquidaram. Possuía cerca de 1
mil e 800 unidades encalhadas, construídas para serem
especuladas, cujas despesas 0 estavam levando à mina. O seu
capital de giro esgotara-se e ele começava a desesperar-se.
Entretanto, muitas das suas preocupações desapareceram, quando
passou a reparar na surpreendente mudança de Hillary. Ela nunca
fora mais feliz, mais realizada, e ao vê-la de braços dados com
Bobby, atravessando a ma, ele se sentiu plenamente confiante.
Hillary fizera grandes progressos durante este ano em que vinha
trabalhando no Disegno Contemporâneo. Adquirira novo sentido
de objetividade e aprendia uma profissão. Seus problemas
financeiros terminariam se ela se casasse com qualquer dos dois
homens que lhe apresentou, mas ele se sentia consolado com o
fato de que a relação com Bobby possuía um lado de
solidariedade que havia faltado às suas ligações anteriores. Talvez
fosse melhor que ela estivesse interessada num arquiteto sem
vintém, mas de talento.
Contanto que estivesse feliz, o resto pouco importava. Nessas
últimas semanas, depois de seu encontro com Bobby, havia nova
vida nela e o passado parecia ter sido enterrado. Imaginava,
porém, se isso daria em alguma coisa. Bobby estava noivo e,
segundo deixava transparecer, com o firme propósito de casar-se.
Quanto a Hillary, ele não saberia dizer se ela aceitaria deixá-lo
partir, contentando-se somente com a amizade e a devoção dele.
Possivelmente, ela iria ver-se às voltas novamente com outra crise
de depressão. Essa perspectiva de vê-la outra vez doente era-lhe
odiosa.
Saiu do escritório, indo ao encontro dos dois. A expressão de
adoração no rosto de Hillary, quando eles se aproximaram, era
uma mostra evidente de sua paixão. Gostou de ver que Bobby
tinha adotado uma maneira mais informal de vestir-se. Ele estava
de jeans bege, camisa listrada de mangas curtas e tênis. Hillary o
havia levado para fazer compras no Gap, quando se tornara
evidente que o seu estoque de roupa tinha terminado. Naquela
manhã, andara estudando as últimas plantas feitas por ele.
— Acabamos de ver a casa — começou Bobby a falar — e outra
vez mudei de idéia.
— Não muito, espero — disse Leonard. Ele se inclinou para
Hillary e lhe deu um beijo. — Como está a minha linda menina?
— Não podia estar melhor. — Ela resplandecia. Na companhia
de Bobby, transmitia uma imensa doçura que tornava a sua beleza
radiosa, magnetizante.
— Gostaria de fazer um teto em abóbada no quarto... ficaria
imponente. Já que temos de remodelar o teto completamente,
creio que isto não iria aumentar o custo em mais do que mil
dólares. O que é que você acha?
Uma vez que a dívida de Leonard já andava na ordem de uns 75
milhões, a pergunta poderia parecer absurda. Contudo, respeitava
Bobby. Ele havia seguido à risca o orçamento e quebrado a cabeça
para achar soluções inventivas e baratas. Em Bobby, ele percebia
probidade e um quê de inocência que passou a estimar.
— Você é quem manda.
— Não. O patrão é você — respondeu Bobby. — Vale a pena. Iria
dar um grande realce na suíte principal. A outra coisa que gostaria
de fazer era transferir para a parte social o mecanismo de controle
da temperatura. Veja, se você puder ter um aposento com
temperaturas variáveis, as pessoas vão preferir exibi-lo aos
amigos, ao invés de levá-los com esse fim à suíte principal. Há
vezes em que a cama não está feita... a empregada pode ter ido
fazer um teste de gravidez ou, então, ido ao dentista para uma
obturação de canal.
Leonard e Hillary riram. Bobby tinha o dom de deixar as pessoas à
vontade. Parecia estar sempre um tanto deslocado, mas jamais
deixava alguém embaraçado por causa de alguma observação sua
e, com esse jeito de quem não quer, ia fazendo com que as pessoas
tomassem consciência de que seus pontos de vista tinham algo de
diferente; esse ar despretensioso só fazia realçar-lhe mais ainda o
charme. Foram idiotas os nova-iorquinos em não dar uma
oportunidade a alguém como ele. Havia trazido mais negócios
para Hayward do que qualquer outro dos rapazes trabalhando
sob as ordens de Rubin.
— Vá em frente. Acho que já fez um trabalho fantástico para o
tempo em que está aqui.
— Gary disse que mandaria um dos estagiários tratar da
papelada da licença.
— Ótimo. Posso, então, começar a arregimentar uma turma
para começar a trabalhar em meados de junho.
— Acho bom. — Ele passou os olhos de Leonard para Hillary,
as suas maneiras mostravam-se hesitantes. — Bem, sendo assim,
posso reservar minhas passagens de avião, esta tarde. Vou para
casa fazer as malas e estarei de volta pelo meio do mês de julho, se
todo mundo no escritório estiver de acordo com isso. — Hillary
parecia paralisada, completamente sem fala, tal o
desapontamento. Um instante depois, afastou-se. — Ah, outra
coisa, tomara que não estejam ocupados esta noite. Gostaria de
convidá-lo com Ann para jantar e, naturalmente, Hillary também.
— Com todo o prazer.
— Há algum lugar que prefiram?
— Qualquer um de que você goste — disse finalmente Hillary.
— Ouvi dizer que o Giovanni's é excelente.
— Farei a reserva — disse Leonard. — Se Giovanni não
conhece o nome da pessoa, ele diz que só tem mesa para depois
das 11 horas.
Disegno Contemporâneo era um desses showrooms que cobram
os olhos da cara e a sua especialidade era o desenho italiano
convencional: abajur de aço inoxidável na forma de arco, mesas de
vidro e metal, mesinhas de centro de concreto polido, outras todas
de vidro, para gamão, que saíam por 5 mil dólares. Mas a
finalidade, e o forte do negócio, era o departamento de projetos de
decoração de interiores.
Uma vez que o cliente fosse apanhado lá dentro e desse uma
pequena mostra de indecisão, imediatamente alguém dali
marcava uma visita com o pobre ingênuo na sua casa, onde
desenhos, esquemas de cor, escolha de tecidos tinham primazia
sobre a venda de peças avulsas na loja. Os desenhistas tra-
balhavam na base de 30 por cento daquilo que fosse negociado e
deveriam levar a "exclusiva clientela" à loja onde tudo era
marcado com uma etiqueta em código. A função de Hillary era a
de atrair fregueses provindos dos negócios de seu pai, fazer a
primeira abordagem e deixar que um dos especialistas depois
caísse sobre a vítima. Ela executava a sua tarefa com perfeição e
chegou a ganhar perto de 15 mil dólares no seu primeiro ano lá.
Mas ninguém e muito menos ela levava isso muito a sério. Era
nada mais do que a filha de Leonard Martinson que vinha para o
trabalho num Rolls Camargue e que tinha uma mesada pessoal de
5 mil dólares que nem conseguia gastar toda; a sua economia se
fazia no plano do inconsciente, porque, quando se tem liberdade
para comprar qualquer coisa e sempre se teve o respaldo do
dinheiro, tanto faz comprar um vestido por cento e poucos dólares
ou pagar dez vezes mais por um modelo de alta costura.
Hillary não tinha horário certo de trabalho e a maioria de seus
contatos se fazia fora da loja. Estava sempre almoçando com
outros decoradores no Robertson, indo aos leilões do Sotheby's e
ocasionalmente fazia uma visita a um cliente para abrir o caminho
para um dos especialistas, dono da técnica agressiva de venda do
Disegno Contemporâneo. Ela gostava de seu trabalho. Ele não lhe
exigia esforço e nas últimas três semanas e meia, desde que
encontrou Bobby, suas horas de serviço se tornaram uma piada.
Aparecia uma vez por semana com a agenda completamente
vazia, mas ninguém ousava dizer palavra, já que Leonard tinha
penetração no universo dourado dos ricos; além disso, ela era em
qualquer acontecimento uma bela peça de decoração e possuía
prestígio junto dos Ahmanspn, dos Taper, dos MacCulloch, dos
Chandler, de todas, enfim, tradicionais fortunas de Los Angeles.
Os novos clientes que trazia para a firma justificavam plenamente
que se lhe dessem comissões nababescas. A firma alimentava a es-
perança de que quando Leonard começasse a construção do pré-
dio da Marine Mutual Insurance em Century City, o Disegno
Contemporâneo iria pegar o serviço dali. Impossível calcular o
valor disso.
Justiça seja feita, Hillary não se iludia a respeito de sua posição;
quando voltava a casa telefonava ao diretor da firma para
informá-lo de que não ia trabalhar pelo resto da semana não havia
objeção do outro lado do fio, apenas uma voz dizendo "senz'altro,
s'immagini". Esta era a maneira ideal de se conduzirem negócios.
Ao se vestir para jantar, com um jeans de pelica branca de St.
Laurent e um suéter Courrèges verde-limão de capuz, ela achou
que nunca parecera tão atraente e desejável. Por comodidade,
sempre usou sutiã, mas naquela noite teve vontade de se sentir
livre, sem amarras, ter certeza de que Bobby poderia ver os seus
seios através da malha. Ele esperava embaixo, tomando coquetéis
no salão com Ann e o seu pai; quando Hillary entrou, ele se
levantou para cumprimentá-la, tomando-lhe a mão
afetuosamente, e não se mostrou nem um pouco hesitante,
quando ela lhe ofereceu o rosto para ser beijado. Em vez de
desconcertá-lo, como era a sua intenção, foi ela quem se sentiu
perturbada, era esta a primeira vez que ele lhe dava um beijo.
Eles se sentaram em frente de Ann e de Leonard. Hillary ficou
satisfeita por ver Bobby apreciando os canapés de caviar de
esturjão branco que mandara preparar e, sem dúvida, ele' estava
deliciando-se com o champanha Perrier-Jouêt que ela insitira que
fosse servido. Gostava do desenho vistoso da garrafa que parecia
apropriada para gravar bem a ocasião da partida dele. Ann
examinava com ar de aprovação as plantas da casa feitas por ele.
Com a voz de Elton John saindo suavemente das caixas de som
Bang e Olufson, perfeitamente equilibradas, e Hillary sorrindo,
ninguém ali poderia suspeitar a angústia que ia nela.
Valentemente combatia a onda de tristeza que se avolumava no
interior de seu ser.
Tudo que pensou que sempre quis num homem estava a pique de
lhe ser arrebatado por força de uma circunstância que não podia
controlar ou evitar. Era como se os deuses houvessem decretado
que jamais devesse ser feliz e que nunca conhecesse o lado
arrebatador de uma paixão. Tudo que lhe tinha acontecido antes
de Bobby aparecer tornara-se insignificante, e o não poder tê-lo
era como uma espécie de expiação para seus pecados.
— Ficaremos tristes de perdê-lo. Você ficou fazendo parte de
nosso pequeno grupo — disse Ann num tom afetuoso e sincero.
—É só por um mês mais ou menos.
Ele pretendia dizer ainda que iriam adorar Claire, mas a expressão
melancólica do rosto de Hillary o impediu de prosseguir. O
caminho que tinha escolhido era perigoso, oscilava entre amizade
e uma ternura por Hillary que brotava nele espontaneamente. O
comportamento dos dois fora discreto e irrepreensível, mas ele, de
certa forma, lamentava o seu nobre procedimento. Sentado ao seu
lado, achou difícil não estender a mão e tocá-la. A cortesia de
Leonard, a gentileza de Ann e a maneira como ficou pertencendo
a esta vida de sonho e esplendor, que jamais imaginara existir,
deixavam-no emocionado. Retribuir tudo isso a Leonard,
seduzindo-lhe a filha, era algo de que seria incapaz. Algumas
vezes, quando aconteceu de ficar sozinho com Hillary, se sentiu
cerceado por sua moralidade, mas não chegava a ponto de afastar
da imaginação as possibilidades que existiam. Era livre, teria de
arcar com suas decisões, mas desejava ser capaz do envolvimento
cheio de paixão com a mulher que tinha a sua frente, fervilhante
como sua taça de champanha.
Ele já tinha devolvido o carro e foi Ann quem o trouxe à casa de
Leonard: quando Hillary lhe perguntou se queria uma carona
para o aeroporto, sentiu-se tentado a aceitar, mas disse:
—Gary vai me levar... em todo caso obrigado.
Nos olhos dela havia uma sombra de tristeza que ela, de certa
forma, escondia. Quando os dois ficaram sozinhos no carro no
caminho para o Giovanni's, ele teve vontade de dizer-lhe uma
porção de coisas que não conseguiu pronunciar. Hillary dirigia
devagar, fora de seu hábito, dando-lhe a impressão de que queria
prolongar o pouquinho de tempo em que estariam juntos.
— Vou ter saudades de você — disse ela, quando entraram na
Rodeo Drive e pararam em frente de um sinal. — Imagino que não
devia dizer isso.
A frame deles, os guardadores de automóvel disparavam em
todas as direções, como se estivessem disputando uma corrida de
revezamento para atender os clientes do Giovanni's. Um pequeno
letreiro cor-de-rosa com a assinatura do proprietário, em cima da
entrada, era iluminado por dois focos suaves de luz.
— Você sabe da minha situação — disse ele finalmente.
— As pessoas mudam de idéia, não é?
Um guardador veio abrir a porta de Hillary, ele a conhecia pelo
nome. Bobby esperava junto ao meio-fio. O porteiro lhes abriu a
porta e foram introduzidos num encantador albergue italiano com
os garçons vestidos a rigor e onde reinava uma atmosfera de paz e
dignidade. De pé, junto da entrada, estava Ed Giovanni, um
homem alto, elegante, com um ar angelical de astro infantil de
cinema. Houve tempos em que ele fora ator de segundo plano e,
hoje em dia, as mulheres não paravam de dar em cima dele.
— Boa-noite, Hillary. Seu pai está no bar — disse, dando-lhe um
beijo. No jirau em cima, as pessoas se inclinavam para ver se
surpreendiam alguma cara famosa.
Hillary encaminhou-se para o bar, que tinha a sua volta
minúsculas mesinhas, e Bobby sussurrou:
— Sr. Giovanni, por favor, a despesa é por minha conta.
— Está bem. Pode me chamar de Ed. — Apertaram-se as mãos e
Bobby lhe disse o seu nome. — Quando quiser, sua mesa está à
disposição, mas não há pressa...
Ann e Leonard conversavam sentados numa das mesinhas que
estava apinhada com alguns de seus amigos e, ao verem os dois,
acenaram para eles. Ann desejava mais uma rodada de bebida
antes do jantar. Hillary foi, então, para o bar, ajeitando-se num
canto.
— Champanha está bem? Ou será que prefere variar? —
perguntou Bobby para ela.
— Champanha está perfeito.
O barman trouxe-lhes uma Veuve Cliquot enrolada em
guardanapo e com toda a classe fez estourar a rolha. Bobby e
Hillary tocaram as taças uma na outra e então ela disse:
— Isso é para dizer adeus.
— Não vou ficar fora durante muito tempo.
— Mas, quando voltar, não vai ser mais a mesma coisa, ou será
que vai?
Ele só fez sim com a cabeça.
— Posso perguntar-lhe uma coisa? — falou ela.
— Claro. Tudo que quiser.
— Bom. Você está aqui há quase um mês e parece que foi
ontem.
— Para mim também.
— Bobby... — ela se inclinou para perto dele e sua boca estava
a poucos centímetros da dele — será que você ao menos por um
segundo não pensou em como seria bom ficar por aqui, quero
dizer, não voltar mais... fazer de conta que não tem uma outra
vida em outra parte?
Havia diversas pessoas atrás deles, tapando a vista de Leonard, e
Bobby se chegou para mais perto dela, beijando-a de leve.
— Sei, já pensou — disse ela. — O que está impedindo de você...
Não. Esqueça. Retiro o que disse. Nada me faria jogá-lo numa
situação embaraçosa. Não é justo. E que tudo aconteceu de modo
tão inesperado e eu não posso evitar... de estar gostando de você.
Ele estava diante de um dilema insolúvel e tinha perfeita
consciência disso. Fizesse o que fizesse, não iria conseguir
justificar-se perante si próprio.
— Tenho de ser fiel; assumi um compromisso, Hillary, e tenho
de conviver comigo mesmo — falou não muito convencido de
poder resolver a ambivalência que sentia por dentro. — É possível
alguém estar apaixonado por duas mulheres ao mesmo tempo?
— Tudo é possível — disse, sorvendo um gole de champanha.
Ela havia ficado pensativa e ele a achou mais bonita do que nunca.
— Confio em você... vai ser capaz de resolver isto.
— Não é tão fácil. Você sabe sobre Claire, mas ela nunca ouviu
falar no seu nome.
— Você nos costuma comparar? Digo, mentalmente?
— Não.
— É pelo fato de já ter dormido com ela e comigo não?
— Em parte por isso... a experiência conta.
— E vocês dois se sentem bem um com o outro?
— Hã-hã. Claire é uma moça maravilhosa. Houve tempos em
que eu não sabia o que fazer... sobretudo quando larguei o meu
emprego e ela me deu forças, acreditando em mim... e
francamente, Hillary, não havia coisa alguma em que pudesse
acreditar ou me agarrar a não ser nela.
Um ar de resignação abateu-se sobre o rosto dela e Bobby apertou-
lhe o braço sem querer machucá-la.
— Isto não parece muito romântico, Bobby.
— E como é que uma coisa pode ser romântica o tempo todo?
As pessoas têm as suas vidas, ou seus desapontamentos...
precisam esforçar-se para poder estar se sentindo bem.
— Eu sei muito bem disso. O dinheiro não é nenhuma
muralha intransponível que deixa as pessoas a salvo. Já passei por
isso. A culpa não era de ninguém. Era só minha. Veja, tenho no
meu pai um grande apoio, mas ele já comeu o pão que o diabo
amassou comigo. Acredite, houve épocas em que podíamos ter
estrangulado um ao outro e... eu podia ter feito isto também com
os outros homens que conheci — aqui, ela sorriu — durante a
minha fase de loucura. Bom, também eles não eram como você.
Nunca me senti... é difícil de dizer... como se me pudesse entregar
totalmente. — Ela descansou o queixo na palma da mão com o
cotovelo apoiado sobre o bar. — Claire deve ser muito especial.
— Você é completamente diferente dela.
— É ridículo admitir isso, porque eu mesma não acredito. Mas,
no minuto em que botei os olhos em cima de você, eu me
apaixonei. Foi na primeira noite, depois de eu ter jogado uma
partida de tênis. Amor à primeira vista, nesta época e com esta
idade! Não se imagina que possa acontecer, não é? Somos todos
muito inteligentes e experientes. Sabemos tudo e... bom, lá está o
meu pai fazendo sinal para irmos jantar.
Quando ele lhe segurou a mão para conduzi-la através do bar
enfumaçado, em meio de vozes tagarelando e ao som de uma
música de câmara tocada em surdina, sentiu-se indefeso, como
que apanhado em alguma trama esquizóide, em algo insuportável
da vida moderna e não tinha noção do que faria para
desvencilhar-se. Teria ele se apaixonado por Los Angeles, por uma
maneira de vida que os Martinson representavam, ou então era o
quê? Mas, na raiz de tudo, estava Hillary, esquiva para todos,
menos para ele, ela, estranhamente vulnerável e dona, ao mesmo
tempo, de uma incrível segurança. Sua cabeça dava voltas ao
passar pelas pessoas que o cumprimentavam e lhe acenavam
como se o conhecessem há muito tempo. Bem, ele estava em
Beverly Hills.
— Ninguém pode ter tudo — falou ela numa voz doce e
feminina, enquanto Giovanni os levava para uma mesa redonda
no centro da sala, exibindo-os para todo mundo que estava no
restaurante.
— O problema conosco é que queremos ter tudo — disse ele,
deixando-se levar pelo feitiço, subjugado pelo momento,
prisioneiro de Hillary e do tempo.
O menu de Giovanni consistia nos vistosos pratos da cozinha do
norte da Itália, mas, junto, seguia-se um desafio pomposo: "peça e
deixe por nossa conta". Não havia preços na carta. Isso era
novidade para Bobby. Ele propôs que Leonard fizesse a escolha do
vinho que acompanharia o jantar e se deixou levar por aquele
relaxamento inconseqüente de uma sociedade dedicada ao prazer.
Era um alívio, pelo menos por uma vez, não ter de pechinchar, ter
do bom e do melhor e ser tratado como se fosse alguém especial,
um homem de peso. Seu rosto estava corado pela bebida e ele
ouvia com atenção Leonard falando dos planos para Rodeo Puerta
e de como o futuro estaria em suas mãos, caso conseguisse
persuadir Frank Dunlop a aprovar um projeto de 65 milhões de
dólares para o prédio da Marine Mutual Insurance.
— É uma coisa em que você podia ir pensando — sugeriu a
Bobby. — Tim lhe dará as especificações. — Ele rosnou qualquer
coisa e Ann pousou a mão na dele dizendo:
—Não se preocupe. Vai tudo dar certo.
— Mas gostaria de ter isto por escrito — disse Leonard em tom
de desagrado. Ele se chegou para o lado de Bobby. — Veja você,
Frank Dunlop é um gangs ter. Ele é gente de fora. Faz dois anos
agora que chegou aqui e está todo esse tempo tentando
introduzir-se na sociedade, me usando como trampolim. Santo
Deus, o cara fez uma doação de 10 mil dólares só para ver o seu
nome aparecer ao lado de celebridades. É uma loucura, claro. Mas
Dunlop contava ser aceito socialmente por toda essa gente. Vem
dando festas a que ninguém vai a não ser a gentalha de
Hollywood, mas ele não desanima. Sinatra, Carson, Norman Lear
são sempre convidados. Ele costuma telefonar para Tina Galick do
Times e George Christy do Repórter para dar a lista dos seus
convidados. Creio que estes dois foram uma vez a um de seus
rebus. — A palavra foi pronunciada com tal desdém e azedume
que Bobby quase sentiu simpatia pelo desgraçado do Dunlop. —
As únicas pessoas, dignas de menção, foram um casal participante
do programa Hee Haw e um grupo de calouros do Gong Show.
Depois disso Dunlop ficou marcado por eles. Infelizmente, sou
obrigado a carregar com o homem nas costas. Ele não tem pudor,
tenta fisgar os meus convidados e depois vem queixar-se comigo
de que eles não aparecem na sua casa. Mas o diabo é que preciso
dele — concluiu, lamentando-se.
— Leonard, vou dar uma olhada no projeto. Tem idéia do que ele
quer?
— Não. E nem ele.
Como entrada, foi servida uma variedade de massas leves
acompanhadas por duas garrafas de veludoso Meursault; seguiu-
se um aspic com molho de mostarda com mel que acompanhava
um peixe cozido ao funcho e, finalmente, uma apetitosa vitela
preparada com alecrim, tudo regado a esplêndidos vinhos. Bobby
jamais havia comido um jantar como aquele e, quando pensava
que passaria para o café com Cointreau, não conseguiu resistir à
magia de um zabaglione, leve como uma pluma. Entretanto,
ninguém comia muito. Apenas provavam e deixavam. Foi para
Bobby uma lição da arte de comer bem; aquilo era bastante
diferente das batatas com creme de leite e das costeletas
engorduradas do clube campestre.
Durante o jantar, Hillary permaneceu numa atitude atenciosa, mas
com ar um tanto alheio. De certo modo, ele se sentia aliviado por
não estarem sozinhos. Não desejava fazer promessas, nem a ela
nem a ele mesmo, que não pudesse cumprir. O idílio esvaía-se
com o despontar de um novo dia. O maître chegou com a conta.
Nada mais do que 300 dólares para lhe devolverem um troco de
seis dólares. Bobby, magnanimemente, entregou-lhe o seu
MasterCharge, Leonard apertou a sua mão, Ann lhe deu um beijo
e agradeceram sem grandes efusões. Afinal, ele se havia tornado
um deles, fazia parte agora da confraria. Diplomaticamente,
despediram-se, deixando-o com Hillary para ultimar o pagamento
da conta.
Ela e Bobby ficaram esperando por algum tempo, quase meia
hora, até surgir o maître que veio com outro Cointreau para
Hillary.
— O senhor poderia, por gentileza, falar com o Sr. Giovanni por
um momento? — perguntou a Bobby de modo cordial, mas um
tanto constrangido.
Bobby o acompanhou até um recanto atrás do bar onde encontrou
Giovanni sentado numa mesa reservada ao dono. Giovanni deu
um sorriso amplo, fazendo uma magnífica encenação. Pediu a
Bobby que se sentasse, oferecendo-lhe um copo da água mineral
que bebia; Bobby não aceitou.
— Há alguma coisa errada?
— Nada de importante. Apenas não desejo criar nenhuma
situação embaraçosa para você.
— Mas como assim?
— Bem, Bobby — pronunciou o nome como se fosse declamar
um poema — eu estava ocupado com um grupo de pessoas, do
contrário isto não teria acontecido. Acima de 100 dólares a moça
da caixa tem ordens para aceitar só mediante comprovação. E...
— Oh, meu Deus, já estou fora há semanas, devo ter estourado
os limites de minha conta.
— Exato — disse Giovanni amigavelmente. — Isto acontece.
Mas, como não estava lá, não pude impedir a coisa. Um
supervisor do MasterCharge veio ao telefone e disse à caixa que
anulasse o cartão. Ela não podia fazer outra coisa. — Giovanni
entregou, então, um envelope a Bobby com o seu cartão em pe-
dacinhos. — Isto faz parte do contrato que temos com eles. Mas, se
estivesse lá não teria deixado que a moça fizesse isso. Ora,
deixemos o MasterCharge de lado, eu cubro as despesas.
Bobby sentiu-se arrasado. Pegou a carteira e foi tirando American
Express, Visa, Diners, mas depois refletiu e achou melhor não
fazer as coisas apressadamente.
— Esses também devem estar com os limites ultrapassados —
disse num tom de consternação. Por que não deixou que Claire lhe
enviasse algum dinheiro a mais? — Como estou fora de casa, as
coisas certamente se foram acumulando sem que me desse conta.
Mas, estou indo trabalhar como arquiteto no escritório de
Hayward. — Ele pegou a carteirinha de cheques de viagem;
restavam-lhe 60 dólares. — Bom, em julho estarei de volta.
Giovanni não perdeu a expressão amiga.
— Então, você é um arquiteto?
— E, sou... um desses que pagam suas contas com atraso —
acrescentou com jeito de quem se recrimina.
— Não se preocupe com isso. Os ricos sempre pagam com
atraso. É por isso que aqui ninguém tem mais conta aberta.
— Posso enviar um cheque?
— Não se preocupe com cheque. Você acerta quando voltar.
— Tem certeza de que está tudo bem?
— Claro. Essas coisas acontecem. Na verdade, tenho de pedir-
lhe desculpas.
— Ora, que bobagem. — Ele olhou para os lados, esperando
que Hillary não aparecesse para presenciar a sua vergonha. —
Quanto devo deixar de gorjeta, Ed?
— 35 para o garçom e 15 para o maître. Vou adiantá-la para
você.
— Quer que assine?
— Não é necessário. — Estendeu-lhe a mão e Bobby a apertou
muito nervoso. Foi, então, ao encontro de Hillary que, diante de
um espelho na sala, estava se olhando com languidez.
— Está pronta, Hillary?
— Algum problema?
— Não. Ed queria me fazer algumas perguntas sobre como
poderia aumentar o restaurante. Ele é um dos melhores sujeitos
que já encontrei na minha vida.
— Faz parte do negócio dele. Ele é o galã número um aqui na
cidade. Só Deus sabe como ele consegue agüentar. Já está com
quase 50 anos.
Rubin morava num pequeno apartamento tipo casa em Saulding
na zona sul de Beverly Hills, próximo à escola pública, e quando
Hillary achou uma vaga perto do prédio, Bobby a convidou a
entrar. Gary tinha marcado um encontro com uma moça em
Marina dei Rey e passaria a noite fora. No momento em que
Bobby viu Hillary dentro do apartamento, percebeu o erro que
cometera ao convidá-la para entrar. O olhar trocado pelos dois
não deixava a menor dúvida.
Ela se deixou cair num sofá e olhou a sua volta sem interesse. Ele
veio sentar-se junto e lhe tomou a mão com expressão pensativa.
— Já me aconteceu uma porção de coisas, Bobby, antes de tê-lo
conhecido.
— E isso tem importância? — falou com bom humor,
recordando-se dos modos compreensivos de Giovanni e de como
ele o ajuda ao evitar uma cena embaraçosa que acabaria com as
ilusões de Hillary e daria uma nota amarga ao final da noite. Ele
largou Hillary e foi à cozinha pegar uma garrafa de Drambuie.
Suspendeu a garrafa na sua direção e ela fez que sim com a
cabeça.
— Continuo pensando em Claire... você e ela juntos... Ele ficou
tenso, com as têmporas latejando.
— Eu também — admitiu.
— Como se sente?
— Desprezível.
Entregou-lhe a bebida e veio ficar de joelhos a sua frente. Se o
tempo pudesse ficar suspenso, parado naquele instante, ambos
poderiam ter escapado.
Ela afastou a franja espessa da testa, curvou-se e o beijou. Antes
que se desse conta sua mão rodeou-lhe a cintura, arrastando-a
para o chão, junto com ele.
— Você pertence a Claire ou a você mesmo?
— A mim mesmo.
— Então uma parte de você é minha. Existe espaço na sua vida
para mim. — Ela se deitou de lado e foi guiando a mão dele
debaixo do suéter, através de seus seios sedosos, enquanto ele lhe
beijava o pescoço. Os seios muito claros agora estavam à mostra.
Nenhum dos dois protestava. Haviam encontrado uma harmonia
que lhes era destinada e não podiam voltar atrás. Nela havia
cheiro de mel e ele estava embriagado de seu corpo e da perícia
com que manipulava os dedos e a boca. Tirou a calça e a camisa,
indo depois sentar-se no sofá. Com movimentos sinuosos, ela se
livrou do jeans; usava biquíni de cetim branco; sentou-se sobre os
joelhos nus dele, deu-lhe os seios para que ele os chupasse,
enquanto lhe acariciava o pênis. Então, abaixou-se e com a língua
excitou ao máximo a sua extremidade. Ele passou os dedos por
entre as coxas dela; estavam molhadas; ela estremecia
repetidamente; por fim, ele a penetrou e ela se sentou por cima,
encarando-o, delirante de excitação.
— Não se contenha — sussurrou — me dê tudo. Quando não
pôde mais resistir, o corpo dele se sacudiu
com violência, aumentando-lhe o arrebatamento, e ela tirou o
corpo para o lado.
0 suco do prazer escorria pelas coxas dela; ela lambuzou os dedos,
lambendo-os com voracidade, ao mesmo tempo em que passava a
língua na ponta do pênis. Em seguida, tomou os dedos dele e, um
por um, foi introduzindo-os na vagina até que ele, sem poder
acreditar, percebeu que tinha a mão inteira dentro dela e quis
parar, temendo machucá-la.
— Fique com o punho fechado — pediu ela. E ele, subjugado pela
sua magia, fez o que lhe era pedido; a mão inteira, os dedos
cerrados, empapava-se lá dentro. Ela permanecia de joelhos, olhos
fechados, segurando o pulso dele com força, e ritmicamente ia
bombeando a munheca mais e mais nela. Acabou perdendo o
controle num fluxo de múltiplos e arrebatados orgasmos. A
experiência era de um erotismo tão selvagem que ele pensou não
poder parar. Tudo que agradasse a ela deixava-o excitado e
emocionado. Finalmente, retirou a mão e ela, por alguns
momentos, pareceu estar em transe, aí, cobriu-o de beijos, dizendo
palavras doces, numa voz maviosa. Foi deitar-se, exultante, junto
dele no sofá e ele a abraçou; não conseguia ficar sem tocar nela e
lhe retribuir os sentimentos arrebatados.
Ela passou a noite em seus braços, colada nele; de madrugada,
pôs-se de pé, espreguiçando-se, foi preparar um bule com o café
instantâneo que conseguiu encontrar. Ela estava tão à vontade que
não permitiu que ele se sentisse nem um pouco constrangido. Os
dois, nus, sentados, observando o nascer do sol, formavam uma
peça tão integrada na natureza que ele se maravilhou com aquela
intimidade.
Ela ficou a observá-lo, enquanto ele fazia a barba, depois os dois
se meteram juntos debaixo do chuveiro, ensaboando-se
mutuamente as costas, beijando-se e fazendo amor debaixo da
água. Tudo que teve tempo para fazer foi atirar as roupas dentro
da mala e se meter em um jeans.
Às sete horas, Gary Rubin telefonou, dizendo-lhe que estava
vindo da Marina. Tinham planejado tomar o café da manhã juntos
e dar uma parada no escritório antes de irem para o aeroporto.
Sem lágrimas, Hillary aceitou o que havia, antes, sido combinado
por eles. Estava inteiramente recomposta e Bobby sentiu uma
nova onda de ternura aflorando dentro dele.
— Isso tinha de nos acontecer — disse ela.
— Eu sei. E acho que nós dois sabíamos. Nenhum arre-
pendimento?
— Nenhum. E nem poderia. — Ela lhe deu um sorriso
desconsolado, impotente diante das circunstâncias que os trans-
cendiam. — Mas a vida tem de continuar... para você e Claire. Ela
nunca saberá. Mas, se algum dia descobrir, talvez se for o tipo de
pessoa que acho que é, espero que possa entender que não foi
apenas mais uma trepada à toa... um ato inconseqüente, esse tipo
de coisa. — A sua fala impregnada de estoicismo atingiu-o tanto
que teve vontade de chorar. — E incrível pensar que, quando eu
for encontrá-lo outra vez, você já será um homem casado.
Ele lhe beijou o pescoço, a boca, e o contato dela acalmou suas
tumultuosas sensações. Depois do banho, os cabelos dela estavam
presos para cima, deixando à mostra as curvas graciosas da nuca.
Os olhos cintilavam. Ele a havia visto engolir algumas pílulas na
cozinha, mas não fez qualquer comentário. Já tinha ouvido falar
sobre o uso de vitaminas com droga na Califórnia; ela, contudo,
estava lúcida, nem um pouco excitada. Se havia alguém excitado,
era ele.
— Claro que vai — disse ela, botando a mão dele junto de seu
rosto. — Você é muito gente, Bobby. Percebi isto desde o primeiro
minuto. — Ela abaixou os olhos. — A última coisa que pretendo é
estragar a sua vida... e, mesmo que você ame Claire e se case com
ela, nunca se sinta como se lhe tivesse sido infiel.
Mais do que ela, ele tinha consciência da sua falta de culpa, mas
estava abalado com a seriedade deste seu envolvimento.
— Hillary, estou tão confuso que não consigo pensar direito.
— Pois não fique. Você teve uma oportunidade aqui, mas isso
não altera nada. Continuaremos a nos ver de tempos em tempos e
não haverá problemas. Não vou ficar dando em cima de você,
atrapalhando a sua vida. Sinceramente, Bobby, não se preocupe
comigo. Estarei ótima. Seremos amigos. — Os olhos dela diziam
outra coisa. — Bom, acho melhor eu ir andando. — Ele caminhou
abraçado com ela até a porta. — Ficarei sempre gostando um
pouco de você, mas não pense nisto. Não passará disto.
Ela saiu e ele ficou parado em silêncio, olhando para a porta
fechada. Aí, deu uma carreira, conseguindo pegá-la no carro e
agarrá-la por um derradeiro instante.
— Estou sentindo-me do mesmo modo que você... mas está
terminado — disse ele.
— Não sofra, foi bom enquanto durou.
Capítulo V
No avião, durante a viagem para Nova York, ele suava frio, bebeu
em demasia e foi incapaz de concentrar-se nos projetos da Marine
Mutual que fora buscar no escritório. Leonard não era do tipo de
protelar as coisas. Tendo mencionado no jantar que estava tendo
problemas com este projeto, no dia seguinte a pasta com as
plantas rejeitadas já estava esperando no escritório de Hayward
por Bobby, que passou ali no seu caminho para o aeroporto, para
pegar o cheque correspondente ao seu salário. Esquecera-se de
dizer a Claire pelo telefone o número do vôo. Mas o fato mesmo é
que não desejava encontrar-se com ela, preferindo ir diretamente
para Westport botar as idéias em ordem para só depois, então, vê-
la. Um encontro sentimental àquelas alturas era impossível, não
saberia mentir-lhe, fazer falsas promessas e fingir que era o
mesmo homem, inquieto, inseguro, sem perspectivas, que saíra
havia um mês em busca de emprego. Havia deixado para trás
uma vida que desenvolvera em Los Angeles, podia ser que isto re-
presentasse uma racionalização de sua parte, mas a volta a West-
port significava um retrocesso.
Ele pegou um ônibus do aeroporto para a Grand Central e depois
comprou uma passagem para pegar o trem que ia a Westport; lá
dentro, achou-se a anos-luz de distância de todos aqueles homens
que se acotovelam no bar em busca de seus martínis. Os assuntos
eram o último capítulo da guerra entre Steinbrenner e Reggie
Jackson no time dos Ianques, as lamúrias por causa da inflação e a
surra que todo mundo estava levando com o mercado das ações.
Essa era a vida de um outro homem, não mais a sua.
Do trem, olhando com expressão vaga através das janelas
encardidas, via as mulheres que vinham pegar os seus maridos
nas estações e se pôs a imaginar que um dia também Hillary o
estaria esperando, vindo ansiosa ao seu encontro com um amplo e
caloroso sorriso. O pensamento de eles estarem separados por um
continente veio acordá-lo de sua fantasia que sabia iria
desaparecer no momento em que saltasse do trem e entrasse no
mundo familiar de seu passado.
Eram quase seis horas e Claire devia estar saindo do Drake's.
Decidira pegar um táxi para casa e telefonar para ela de lá. Mais
do que tudo, queria dormir, recompor-se, mas precisava ver
Claire.
Ao chegar em casa, viu que o Rolls não estava na garagem. Entrou
no estúdio e, no meio de uma quantidade de boletins da Standard
e Poor e de prospectos com sugestões para novas idéias na bolsa,
encontrou a agenda do pai. Procurou o dia 25 de maio; numa letra
de garrancho estava apontado: "jantar dançante do Lions no C.C.
Drinques às seis".
Desejava que seu pai estivesse em casa para poderem conversar
sobre a viagem a Los Angeles. Ele iria explicar o acontecido e o pai
ficaria ouvindo, quieto, fumando sua cigarrilha e de vez em
quando dando uma bebericada no seu Old-Fashioned preparado
com Bourbon e, sem maiores considerações, iria dar-lhe o
conselho acertado. Jack Canaday adorava Claire. O protótipo da
nova mulher, sem, contudo, ser de uma modernidade agressiva.
Ela conseguia englobar um ar de elegância tradicional que
agradavelmente se harmonizava com os movimentos feministas.
Jack era louco por ela e Bobby sabia que o que ele iria dizer-lhe era
que o seu caso de Los Angeles estava fadado a morrer, que desse
um pouco de tempo, que voltasse para Claire e que fingisse que
Hillary jamais existira. Mas era exatamente o que exasperava:
saber que a maneira de seu pai encarar a situação era a correta, a
sensata e a prática; a única coisa decente a fazer, mas só que isto
ele não conseguia engolir.
Ele carregou suas coisas para o apartamento da garagem, fez a
barba e tomou um banho; com um copo de martini na mão ia
retardando o momento de pegar no telefone; por fim, conseguiu
sair da indolência e chamar Claire. Potencializado pelos drinques,
sentia-se revigorado. Impossível dormir naquele estado.
A voz dela estava transbordante de entusiasmo e alegria.
— Bobby, que bom você estar de volta. Não agüento esperar
para vê-lo.
— Estou com saudade, benzinho — disse ele com sinceridade,
ouvindo a voz do pai mentalmente. A imagem de Hillary
apagava-se na sua cabeça. Claire sugeriu que jantassem no
apartamento dela; Milly iria passar a noite fora e ela poderia botar
dois pedaços de carne na churrasqueira. Ficariam sozinhos,
colocando em dia os assuntos. Ela estava ansiando por intimidade,
mas alguma coisa dizia a ele para que resistisse.
— Que tal o Harbor Inn? — perguntou. Era o restaurante favorito
dela.
— Ótimo. Se você está a fim de ir lá.
— Às 8:30 então?
— A gente se encontra lá. Eu te amo.
Claire tomou um banho caprichado, regalando-se no cheiro de
Vitabath; raspou cuidadosamente a perna e botou uma calcinha
cor da pele combinando com o sutiã, um novo modelo da
Maideform. Em frente do espelho de corpo inteiro, deu um giro
nas pontas dos pés e, dando um piparote no cabelo caído na testa,
achou que não exagerava ao dizer:
— Meu bem, você está irresistível.
Sua excitação aumentou com a Stolichnaya, vodca que guardava
no congelador e que estava bebendo pura. Sem saber se Milly
havia ou não surrupiado o seu perfume, um vidro de Norell, ela
foi procurá-lo no armário de remédios. Sim, ele estava lá, atrás da
coleção das maravilhas farmacológicas de sua mãe; socado entre
Tuinal e Dexamyl, em cima de uma pirâmide de vidros de Valium
e de outros sem rótulos, contendo umas pílulas pretas e cor de
laranja que Milly chamava brincando de bombardeiros nucleares.
Passou um pouco de Norell nos pulsos e nas têmporas,
regozijando-se com a própria sensualidade ao espalhá-lo pelas
coxas.
Vestiu uma saia de linho preto com uma blusa indiana de seda,
bordada de preto e amarelo. Deixou os três últimos botões
desabotoados e fez escorrer um pouco mais de Norell entre os
seios na parte exposta pelo decote.
Dirigindo para o Sound, com a capota do carro arriada, sería-sexy,
fogosa, exultante. Estava adiantada; depois de passar pelo Harbor
Inn, estacionou num trecho estreito da ma que se elevava sobre o
Sound. O dia tinha sido intoleravelmente quente. Agora
refrescava. O vento fazia a água encapelar e as pessoas nos barcos,
apanhadas de surpresa, pulavam atrás das velas e das cordas. O
mundo era deslumbrante, pensou Claire. Deixou-se ficar sentada
atrás do volante, respirando fundo o ar puro da água salgada. As
pencas de flores à volta das árvores ofuscavam os seus olhos com
uma exuberância de cores a refletirem o sol em toda a sua
intensidade. Em alguns minutos, iria vê-lo. Estariam juntos.
No Harbor, deu um largo sorriso para os guardadores de carro e
eles, desconsolados, atrás de um toldo de riscas brancas e azuis,
olharam furiosos para ela. Exalava aquele tipo de confiança da
mulher que tem tudo: mistério, beleza e algo de indefinível. O
restaurante tinha um terraço, mas ela se dirigiu primeiro ao
maître para certificar-se da reserva. Ali estava bem impresso, ao
lado do horário de 8:30, "Canaday 2". Emocionada, mesmo antes
da hora, foi para o bar já repleto de gente. O Harbor Inn arrastava
para ele o pessoal elegante de Westport e o de Greenwich, aqueles
que não hesitavam em dar ao maître uma gorjeta de cinco dólares.
Alguns homens sozinhos sentados no bar de madeira na marina,
com o tabuado bem encerado, deram-lhe um sorriso esperançoso,
e ela, com aquele espírito de estar adorando o mundo, destemida,
certa de que dela se desprendia o cheiro que a denunciava como
mulher de outro homem, retribuiu-lhes o sorriso. Podia permitir-
se corajosa. Estava segura de si mesma.
Habitualmente, Bobby era o atrasado e ela a pontual. Era uma
coisa que aceitava e que foi comprovada, enquanto namorava ali o
seu martíni de vodca. Ao olhar o relógio do bar eram 8:30.
Quando faltavam 15 para as nove, o barman perguntou-lhe se não
queria um drinque novo. Alguns dos caras lá já começavam a
achar que, talvez, a sorte lhes sorrisse, já que ela devia estar
sozinha por sua própria conta. Ela observava as manobras de um
conquistador profissional, mais ou menos com os seus 30 anos,
que fazia toda uma mímica especial, para indicar ao barman que a
despesa dela era para ser posta na sua conta. Em seguida, ele
acendeu um cigarro com o isqueiro Dupont empalmado na mão,
ajeitou o traseiro na calça de algodão marrom e saiu em campo.
Era um alívio que a paquera ali levasse tanto tempo. Se fosse em
Manhattan, antes mesmo de passar pela porta do bar, uma meia
dúzia de rapazes já teria caído em cima dela. Mas, os rapapés
cavalheirescos de Westport, no bom e velho estilo, levavam 20
minutos pelo menos. Ele era um publicitário que recentemente
constituíra uma firma, da qual obviamente era o dono. Estava com
35 anos, era separado e, no momento, discutindo os termos da
pensão que, com toda a certeza, o deixaria só com a pele do corpo.
Compreendia que fora um erro ter-se casado cedo e achava
crianças um fardo que interferia nas suas atividades costumeiras:
jogging, divertir-se no Regine's e tênis. Era uma pessoa divertida,
mas ela não iria permitir que ele pagasse o seu drinque. Ela estava
esperando pelo noivo. Cerimoniosamente, ele enrolou o
guardanapo de papel no seu copo e se retirou.
Começava a preocupar-se com Bobby. Pediu uma moeda para
telefonar. Estava indo ao telefone, quando o viu na entrada. Por
um momento, ele pareceu confuso, enquanto ela corria em sua
direção com os braços estendidos. As duas mãos rodearam o
pescoço dele, ela o beijou no rosto e, com os olhos fechados,
procurou pelos seus lábios.
— Achei que tivesse caído no sono — disse ela, sem entender
direito por que se desculpava e ao mesmo tempo não sabendo
controlar-se.
Ele tinha os olhos injetados de sangue, estava pálido, com um ar
cansado e preocupado, nada combinando com o sentido de uma
volta triunfal.
— Está precisando de sol — disse ela solícita, entrelaçando a
mão na dele.
— Não tive oportunidade. Havia tanta coisa acontecendo lá.
Tive até de trazer algum trabalho comigo. Não estou diretamente
envolvido com este, mas o construtor me pediu para lhe dar
algumas idéias.
— Sabia que isso ia acontecer.
O maitre os conduziu para a mesa e, apesar do cansaço, Bobby,
vendo Claire novamente, começou de forma curiosa e inesperada
a sentir-se bem. Havia nela uma beleza forte que passava para ele
um pouco de seu dinamismo impetuoso. Ele pediu uma garrafa
de Moêt para celebrar o reencontro, e, à luz da vela, observando-
lhe o sorriso amoroso, não pôde deixar de aderir ao estado de
espírito dela.
— Querida, mesmo comigo longe, você acreditou em mim. Por
quê? Isso é uma fé cega, ou o que é que é?
— Era só uma questão de tempo para que desse uma virada.
Você é o tipo de homem que tem de ser rejeitado primeiro para
depois mostrar do que é capaz. Acho que a mudança de ambiente
fez isso. E você não foi forçado a fazer o que não queria. Mal
agüento esperar para irmos morar em Los Angeles.
Tilintaram os copos, brindando à futura vida que os esperava em
Los Angeles. Tal como já o haviam feito muitas vezes antes,
pediram, então, bife Chateaubriand com molho Béarnaise para
dois, ao ponto, sem surpresas ou mistérios incomensuráveis a
serem desvendados. Eles haviam construído uma relação de modo
a ajustar tão bem suas personalidades que, às vezes, ambos
tinham a impressão de já estarem casados. Só numa coisa ainda
não tinham chegado a um perfeito entendimento: era sobre
quando deveriam ter filhos, mas, mesmo nisso, havia uma certa
flexibilidade nas suas argumentações. Bobby desejava primeiro ter
uma posição segura e os dois pretendiam antes se instalar numa
casa.
— Madeleine falou que ia começar a enviar a seção do Times
de Los Angeles e que investigaria qualquer coisa que nos pudesse
interessar. Eu lhe disse que chegaríamos até 400 dólares, se nós
dois estivermos trabalhando.
— Não existe tal coisa, jamais haverá um apartamento por 400
dólares em Los Angeles! — Ele havia visto Madeleine jantando
num lugar que era ponto de encontro de artistas, na sua primeira
semana de Los Angeles, e depois a perdera de vista
completamente. — Encontrei-me com ela uma noite em que estava
com os Martinson num clube chamado Pips — disse, franzindo a
cara. — Não sei que diabo de coisa ela anda fazendo, mas fiquei
bem encabulado de encontrá-la. O cara que estava com ela devia
andar pelos seus 60 anos.
— Algum produtor ou diretor, provavelmente — contrapôs
Claire rapidamente. Toda indireta sobre suas antigas amizades
deixava-a muito chateada.
— Ela está metida no show business até as raízes do cabelo.
Espero que para o seu bem isso dê em alguma coisa. Por falar
nisso, você não iria reconhecê-la. Perdeu uns 10 ou 15 quilos e
está... bom, deixa pra lá. Isso não tem importância.
Claire ficou inquieta e implorou a Bobby para dizer o que ele
estava pretendendo insinuar.
— Ora, não sou nenhum moralista, mas, porra, há anos que já nos
conhecemos. — Ele hesitava e, então, despejou mais champanha
na taça; já estava meio de pileque. — Acho que virou prostituta.
Bom, isto não é da minha conta.
A probabilidade de sua dama de honra não passar de uma
piranha deixou Claire muito sentida e fez com que ela rapida-
mente mudasse de assunto.
— Você já tem idéia de onde vamos morar?
— Na zona leste de Los Angeles ou então em Santa Monica. Talvez
dê para transar um apartamento pequeno por uns 500 ou 600
dólares.
— Tanto assim?
— Nada é barato em Los Angeles. A não ser que se vá para
Valley, mas acho que você não vai gostar dali.
— Pode ser que consiga arrumar trabalho no Bullock's ou no
Neiman's. O que é que você acha?
— Eu não entendo nada de lojas, meu bem. O Gene é quem
pode lhe dar uma boa referência.
— Oh, Deus, gostaria de poder ver o futuro — disse ela,
encolhendo-se. — A idéia de ter de dizer ao Gene que estou indo
embora me chateia muito. Isto é, se ele me pedir para ficar mais
algum tempo e treinar alguém o que é que faço? Sei que vou
gostar de Los Angeles, mas às vezes fico com medo... começar
tudo outra vez, caras novas, ter de abrir caminho...
— Isso leva tempo, Claire, mas você também tem um talento
especial, por isso não se venda barato.
— O meu problema é que sempre quis vencer rapidamente.
Estou sempre com pressa. Posso aconselhá-lo a ter paciência, mas
eu mesma não sigo o meu próprio conselho. Já há anos que venho
lendo sobre Rodeo Drive e fantasiei o modo de me impor numa
ma como aquela. Mas agora realmente que estamos indo para lá,
sinto-me meio perdida, nervosa.
No fundo, ela era uma mocinha vulnerável, de cidade pequena, e
com grandes ambições que ele esperava que, um dia, ela as
realizasse. O papel de dona-de-casa, Bobby estava convencido de
que jamais iria caber nela e acabaria por matar-lhe o espírito. Entre
as muitas coisas que tornavam Claire admirada, não só por ele
mas por todos que a conheciam, era o seu dinamismo e o seu lado
de criatividade. Ela possuía aquele tipo de paixão que se encontra
nas pessoas excepcionais e ele se sentia na obrigação de
corresponder-lhe à confiança. Dispensaram a sobremesa e o café, e
tinha consciência de que forçara aquele jantar fora porque estava
com medo. Ela estava louca para ir para casa com ele.
Quando ele se viu na salinha muito bem arrumada de Claire, a
sua sensação foi de claustrofobia, de estar no lugar errado,
sentindo-se tão deslocado e ansioso que mal pôde olhá-la no rosto.
Ela tinha uma garrafa de champanha na geladeira para a ocasião,
mas ele se deixou ficar ali, abatido, não conseguindo sair de seu
entorpecimento. Não passava de um mentiroso enganando e
decepcionando uma pobre moça e a consciência de estar agindo
mal impedia-o de ter com ela maiores intimidades. Ela foi tirar a
roupa no banheiro e surgiu com um robe de cetim verde que ele
lhe dera no Natal.
Você não admira o seu próprio gosto? — perguntou
inocentemente, vindo aninhar-se junto dele no divã que comprara
em liquidação, havia alguns meses, antes de Los Angeles aparecer
nos planos.
— Nem sei se gosto de mim mesmo.
— Você deve estar confuso por causa do fuso horário.
— Não. E sentimento de culpa.
Ela não se deixou perturbar pela insinuação.
— Não precisa contar. Não estou realmente curiosa.
Foram para o quarto. Este estava também menor, parecendo mais
luxuoso e espalhafatoso. Ele não se lembrava dele assim. Lá estava
a penteadeira com um babado de fazenda estampada que a viu
costurando no inverno, enquanto ele ficava lendo na cama ou
vendo televisão.
— Eu vivo no mundo, Bobby. Sou bem grandinha, as pessoas não
precisam ficar explicando as coisas para mim tintim por tintim.
Ela tentava ajudá-lo, contornar alguma culpa que o espicaçava
naquele momento. — A fidelidade é um estado mental.
— Mas não para você, não é?
— Que é isso! Você se está esquecendo do meu horripilante
passado? E os dois homens que tive antes de me ligar a você? Isso
acontece. Ninguém é santo. Ter remorsos desse tipo de coisa é
absurdo.
— Não. Eu não tenho, mas gostaria de ter — disse com
amargor.
Ele foi deitar-se nu na cama, sentindo a maciez do linho irlandês;
sabia que ela trocara a roupa da cama depois de seu telefonema.
Começaram, então, um certo jogo amoroso, mas sem nenhuma
paixão. Era a brincadeira de velhos amantes.
— Estou vendo que quer realmente que comece a fazer
perguntas... Bem, não estou curiosa — disse Claire apreensi-
vamente — e tudo o que me importa é que você voltou para mim.
Talvez esteja sendo compreensiva demais ou então indiferente...
decida como quiser — acrescentou em tom submisso. Ele
continuava retraído, embora a acariciasse ternamente, sem
desejos. Seu coração estava longe. — Mas você está sentindo-se
obrigado a me confessar alguma coisa. Preferia que não o fizesse.
Mas, já que sempre fomos honestos um com o outro, não será
agora que vou impedi-lo de falar.
— Não quero magoá-la.
— Bom. Então pare com isso porque já estou começando a
sentir-me magoada. — Ela estava angustiada. O papel de mulher
lamurienta não ia bem com ela. Desejava mudar de assunto e
lembrou-se de que tinha guardado os presentes do chá-de-panela
porque queria abrir junto dele. Ficaram deitados imóveis, sem
vontade, ela, entretanto, fazendo força para recompor-se. Rezava
para que ele parasse de encará-la, fechasse os olhos, adormecesse
e acordasse fresco e purificado. O rosto dele estava tenso e, para
relaxá-lo, começou suave e timidamente a massageá-lo no
pescoço.
—Tenho vergonha de mim mesmo — disse ele.
— Pois não tenha. Nem desculpas nem explicações são
necessárias. Eu compreendo. — A indulgência dela podia ser uma
medida de segurança, abria uma perspectiva.
De repente, ele se sentou na cama. Nunca o tinha visto tão
inquieto.
— Meu bem, tenho de lhe contar sobre essa coisa. Estou
baratinado, fazendo uma bruta confusão.
— Mas o que há para preocupar tanto?
Era uma dessas perguntas fatais e, porque nunca usavam de
cautela um com o outro, elas acabavam escapando. Uma das
qualidades mais encantadoras de Bobby era a incapacidade de
dissimulação e isto ao longo de sua carreira custou-lhe sérios
dissabores. Ele falava o que lhe vinha na cabeça.
Muito titubeante, contou sobre Hillary. Claire ouvia com ar
absorto, mas foi aos poucos se deixando paralisar até não saber
mais o que a havia atingido nem onde se encontrava. Nada de
semelhante com a sensação de afogamento que ela sempre
imaginara que teria, quando entrasse em pânico, em vez disso
imaginou-se apanhada num inferno com os cabelos em chamas.
Em vão, lutava para escapar da dor que a dilacerava, batendo com
a cabeça no travesseiro. Bobby a agarrou.
— Claire, pare com isto, por favor, por favor, querida. — Ela
estava num estado de semiconsciência, capaz de absorver
informações, mas sem capacidade para respondê-las. — Não tive
culpa. Não queria que nada viesse perturbar a nossa relação, meu
amor.
Lágrimas sofridas corriam pelas faces dele e automaticamente ela
pôs a mão no seu rosto, querendo acalmá-lo. Sua dor profunda a
comoveu. Nunca o havia visto chorar, e foi arrancada de sua
própria passividade.
— Bem... sei lá... eu não sei o que faremos — disse arquejando,
sem saber direito o que dizia.
Ela descansou a cabeça na dobra do braço dele, olhando-o dentro
dos olhos.
— Estou apavorado — respondeu — de levar o casamento adiante
e depois ir para Los Angeles como se nada tivesse acontecido e aí
encontrá-la. Acordar todas as manhãs pensando se vou ou não
trair minha mulher, enganá-la, ter uma aventura nojenta e mesmo
que não tenha, ela estará imaginando que estou tendo. Entre nós
existem muitas coisas boas, não poderia amargar sua vida desse
jeito. Além disso, quem sou eu para ter tanto poder sobre você!
Não é justo, Claire.
— Ela deve ter dado em cima de você. Ele reagiu com
veemência à acusação.
— Juro que ela não quis fazer isso. Aconteceu apenas... não há
lógica, nem foi premeditação.
— Você quer casar-se com ela?
— Eu não tenho certeza de nada.
— Oh, Bobby, por que é que isso teve logo de acontecer com a
gente e de estragar tudo?
Ele fez um gesto de impotência, de frustração, diante de sua
incapacidade de resolver o trágico enigma que os estava pondo
inteiramente desmantelados. Era tão capaz de entendê-lo quanto
ela. Claire saiu, então, do quarto, voltando, em alguns minutos,
carregando uma bandeja com champanha e copos. Ela não se
lembrava por que fizera isso. Não era sua intenção querer parecer
irônica e muito menos adotar uma atitude sarcástica, fazendo
censuras.
— Não consigo beber nada — disse ele.
Ela sentou-se na beirada da cama, colocando a bandeja no chão.
Suas idéias estavam nebulosas e sentia uma lassidão enorme
invadir-lhe o corpo.
— E o casamento?
— Custe o que custar, eu pagarei.
— Mas você está sem nenhum dinheiro, Bobby... Bobby.
— Pedirei emprestado.
— Verei o que posso fazer. — Ela se sentia enjoada. — Olhe,
será que há alguma chance para nós? Quero dizer, você não volta
para Los Angeles por enquanto. Podíamos tentar, não é?
— Querida, como é que poderíamos começar a vida desse
jeito? Você e eu, como iríamos funcionar um com o outro? Santo
Deus!
Ela sabia que, quanto mais persistisse, mais terreno perderia.
— Você gosta dela?
— Não sei.
— E de mim?
— Gosto — respondeu com convicção — e isso é o que torna a
coisa tão complicada.
Sentia-se esgotada. Mas insistia, buscando a reconciliação. • —
Existe alguma esperança para nós, Bobby?
— Como é que posso responder isso?
Neste momento, soube que ele estava perdido para ela e,
enquanto o observava vestindo-se, prestando atenção a todo
movimento que fazia, no modo de ele calçar os sapatos, de puxar
a calça, de abotoar errado a camisa, ela achou que nunca o amara
tanto e que a vida sem ele seria insuportável.
Com esforço, acompanhou-o até a porta. Ele passou os braços em
tomo dela, abraçando-a com força, como se fossem dois amigos
que estavam na iminência de separar-se por motivo de longa
viagem.
Ao voltar sozinha ao quarto, fez força para se manter em forma.
Aí, reconheceu a chave do apartamento dela. Ele a havia deixado
na mesinha-de-cabeceira. Lembrou-se de que a pintara com
esmalte de unha vermelho para que ele não se atrapalhasse com as
suas outras chaves, quando quisesse fazer uma visita de surpresa.
Foi catar na gaveta da escrivaninha um envelope para mandá-la
de volta, mas ali não achou nenhum objeto de papelaria. Sua mãe
havia requisitado a escrivariinha, que agora era depósito de
maquilagem. Procurava obsessivamente quando, de repente,
parou no meio do quarto, se dando conta de que o trabalho era
absurdo, um gesto humilhante e inútil... Ela desabou. Ficou
desorientada, sentindo a cabeça estourando.
Quando Bobby chegou em casa, as luzes do quarto de seus pais
estavam apagadas. Desejava que o pai ainda estivesse acordado.
Na mesa do hall, encontrou um bilhete dele: "Bem-vindo ao lar,
forasteiro. Vou vê-lo no café da manhã''. Ao lado do bilhete, havia
um telegrama endereçado a ele. Meteu-o no bolso, subiu a escada
de seu apartamento e acendeu a luz. Sua mãe havia tirado as
roupas da mala e feito a cama. Sentou-se na escrivaninha e ficou
mirando o telefone, queria chamar Claire, mas a inércia tomava
conta dele. Será que podia ainda voltar atrás depois de tudo
aquilo que havia dito? Não podia deixar Claire entregue ao
sofrimento. Entretanto, o som da voz dela, a visão do seu rosto
encantador, suportando o golpe com dignidade, o punham
inteiramente sem ação. Lutou contra si mesmo e pegou o telefone,
mas o deixou fora do gancho em cima da escrivaninha, coberta
com uma folha de mata-borrão cheia de garatujas que desenhara
em outros tempos. O som do fone fora do gancho era irritante.
Ouviu a gravação de uma voz de comando ordenando-lhe que o
recolocasse no lugar.
Nunca recebia telegramas, exceto do Governo. Servira oito meses
no Vietnã na divisão de engenharia, quando trabalhou na
construção de depósitos de munições.
Finalmente abriu e leu:
"POR FAVOR NÃO CONTE NADA A CLAIRE SOBRE NÓS.
AMO-O LOUCAMENTE — HILLARY".

Capítulo VI
Às nove horas da manhã, Claire se deu conta de que estava na
banheira. A água estava fria. Seus dedos estavam como borracha e
sentia uma dor latejando na nuca. Não tinha noção de como e
quando entrara ali. Saiu, então, enrolou-se numa toalha e foi para
a sala.
A televisão estava ligada no programa Hollywood Squares. Uma
concorrente feminina estava a ponto de derrubar o seu opositor
masculino, Paul Lynde. O animador do programa, Peter Marshall,
limpou a voz e fez a pergunta:
— Bem, e agora Paul, o que acha que teria acontecido se acordasse
numa manhã e tudo estivesse marrom na sua casa... paredes, chão,
teto?
Lynde botou no seu rosto maroto uma expressão de surpresa e os
olhos brilharam cheios de malícia.
— O que ia pensar? — ele deu uma risadinha, rolando os olhos
nas órbitas como um negro de jazz. — Bom, ia pensar que a OLP
tinha explodido a minha empregada. — Gargalhadas do
auditório.
Claire achou que estava ficando maluca. Finalmente, sem se dar ao
trabalho de enxugar-se, meteu-se num robe, deu uma olhada no
rosto aparvalhado, não se reconhecendo. Estava consciente do
perigo da situação. Os vidrinhos de comprimidos de Milly ai
encontravam no banheiro. Era só voltar e engolir um punhado
deles. Não ia sofrer nada. Nem mesmo deixaria uma carta. No
caso de alguma coisa, quem iria importar-se com ela?
Ela telefonou para sua secretária, escutando uma rajada de vozes
ao fundo. Não ia conseguir enfrentar os vendedores. Disse a
Marcy que chegaria atrasada e que refizesse sua agenda. Não deu
maiores explicações. Voltou para o sofá e ficou vendo televisão
sem ouvir; havia tirado o som. Intimamente, tinha uma leve
esperança de que Bobby se comunicaria com ela. Esquecera-se de
puxar as cortinas e a luz do sol feria-lhe os olhos como picadas de
agulha. Queria falar com alguém, mas a única pessoa de que se
lembrava era de Madeleine. Mas que diabo de coisa ia poder
dizer?
Abriu uma porta corrediça, passando ao terraço, deixando-se cair
numa cadeira de ferro batido que fazia parte do conjunto de uma
mobília. As outras duas estavam guardadas num compartimento
no subsolo do prédio. A cor de laranja de uma churrasqueira
automática chamou sua atenção. Ela a tinha comprado numa
liquidação do Drake's, havia algumas semanas. Estava com uns
arranhõezinhos, por isso o preço fora reduzido. Havia pensado
que seria mais prática do que uma churrasqueira comum. Poria a
carne pela manhã e muito devagar ela iria assando. Quando
chegasse do trabalho a carne estaria pronta; assim ela e Bobby
poderiam ter um jantar quente sem grandes atropelos. A etiqueta
ainda estava no cabo. Sentiu-se tentada a jogar a droga da coisa
longe.
Raiva é sinal de saúde, pensou, mas, depois do primeiro ímpeto,
deixou-se arrastar mais uma vez, caindo no vazio da depressão.
Ela se torturava, procurando uma explicação razoável para o
rompimento com Bobby. Por quê? Havia sido desejada, amante
adorada por dois anos... agora amiga! Em algum ponto ela havia
falhado. Talvez não servisse para os seus amigos de Los Angeles.
Imediatamente, descartou a idéia. Bobby não era nenhum
arrivista, nem capaz de usar de processos tão mesquinhos.
Lamentou que nunca tivesse vivido com ele. Talvez ainda não
fosse muito tarde para isso. E se fosse para Los Angeles, ar-
rumasse emprego em algum magazine, alugasse apartamento e
tentasse um novo esquema de vida junto dele? Cada um podendo
fazer o que quisesse. Nada de furtivo, tudo às claras. Ele teria uma
base de comparação entre ela e a outra garota... Hillary... aí, ele
teria condições de decidir. Mas não. Ela não iria pressioná-lo. Essa
perspectiva era humilhante. Uma disputa...
Voltou para dentro. O sangue subia-lhe à cabeça. O enjôo voltara,
um mal-estar que ia e vinha misteriosamente, horrível, como se
tivesse engolido veneno. Deitou-se no chão, não conseguindo
mexer-se, deixando-se dominar por todo o horror da situação,
com as tripas a darem nós dentro dela. Bobby e Hillary beijando-
se, dando-se um ao outro, tendo relações. Na véspera mesmo, ele
havia estado com ela. O último e desolador encontro, ele fugira
dela, não querendo fazer-lhe falsas promessas.
Finalmente, deu um jeito de vestir-se, mas, quando estava quase
de saída, lembrou-se dos presentes do chá-de-panela. Olhou
dentro do closet; impossível continuar com a farsa que
representavam. Uma compulsão de acabar com tudo de uma vez
obrigou-a a fazer sucessivas idas e vindas até metê-los todos
dentro do carro. Quando terminou estava tão estupidificada que
tinha a impressão de estar vagando num mundo inteiramente
impassível onde nada a afetava.
Ao estacionar na sua vaga atrás do Drake's, um dos rapazes do
Departamento de Embalagens aproximou-se com o seu carrinho
de carregar bagagens e lhe perguntou se precisava de ajuda.
— Devoluções, Claire? — perguntou jovialmente. — Os
fabricantes vão subir pelas paredes. — Aí, entrou no carro, co-
meçando com os embrulhos do assento de trás. — Eles não têm
etiquetas?
— Não, isso é pessoal. Leve todos para o meu escritório. Ela
pegou o elevador para o terceiro andar. Durante todo
o tempo, tremia por dentro. Abriu a porta do escritório e Marcy, a
secretária, ergueu os óculos presos na corrente e, depois de colocá-
los, disse censurando:
— Você não está bem, por que não tira folga hoje?
— Marcy, pare de querer bancar a minha mãe!
Ela estendeu a Claire uma pilha de papéis com recados vindos por
telefone e outros que eram memorandos de um departamento
para outro, tomados na véspera. Em seguida, deu um olhar
furibundo ao carregador.
— Desde quando você descarrega amostras aqui? Nós não
temos espaço.
— Calma, Marcy. Isso é meu — disse Claire e rapidamente
entrou no seu escritório. Fechou a porta, mas, antes de chegar à
mesa, Marcy já estava lá dentro. Sabia que Claire lhe permitia usar
de franqueza com ela. Era um desses lances de escritório em que a
secretária parece ter autoridade sobre o patrão.
— Nós não vamos mais casar-nos — disse Claire de sucinto.
— O quê? Você e Bobby... — Sempre imperturbável e com jeito de
um guarda-costas que já viu de tudo na vida, Marcy, apesar disso,
encostou-se na porta para não cair.
— Isso mesmo. Nós terminamos.
— Mas por quê? — perguntou Marcy com voz de tragédia. — Sei
que não devia perguntar. Desculpe-me. E que o choque foi
grande. Claire, me perdoe, mas isso é uma loucura, devolver todos
os seus presentes.
— E o que faria com eles?
— Oh, meu Deus, estou precisando de um Valium.
E essa foi a maneira como todo mundo reagiu desde que Claire
começou a devolução com o aparelho de prata na seção de
pechinchas do subsolo. Lá por volta de 12:30, ela chegou ao
Departamento de Lingerie para entregar o aparelho de jantar
Spode. Estava levando a tarefa com firmeza, mas a reação do
mulherio começou a desgastá-la e o reflexo de sua humilhação
que ela percebia nas garotas acabou de derretê-la. Todo o setor de
vendas parecia ter sido atirado ao caos, e, quando ela
resolutamente caminhou para a seção de roupas esporte, viu
algumas das meninas formarem grupinhos por trás dos balcões,
mudas de indignação. Veio-lhe, então, a idéia absurda de que
estava sendo responsabilizada pelo aviltamento de uma
comunidade, de que a compaixão silenciosa das pessoas
contaminava a todos como uma peste fatal. Esforçava-se para
manter o autocontrole, mas, apesar de tudo, começava a fraquejar.
Marcy continuava nos seus calcanhares.
— Claire, deixe que eu faço. Devolvo tudo. Você não está
podendo...
— Tenho de poder, você não entende? Tenho de...
Gene Drake estava em reunião e não pôde recebê-la. Assim, ela
deixou o cheque, o presente dele, com a secretária.
Prodigiosamente, ela se sentia melhor, como se tivesse expiado os
seus pecados. Mas isso foi só até entrar no seu escritório e atender
uma ligação feita diretamente da mesa de telefone.
— Marcy não está atendendo — disse-lhe a telefonista. — a
senhorita quer falar com ele? É um tal de Sr. Micelli. — Claire
balbuciou qualquer coisa. — Srta. Stuart, está ainda no aparelho?
— Sim. Eu falo com ele — respondeu Claire. A voz melíflua de
Micelli fê-la suar frio.
— Como vai a minha linda noivinha? Claire, querida, tenho
ótimas notícias sobre os camarões.
— Será que podemos conversar mais tarde?
— Quando?
— Dentro de uma hora.
— Estarei esperando.
Depois de desligar o telefone, olhou para cima, dando com uma
figura muito desconcertada que abria a porta. Nem ela, nem Gene
Drake conseguiam falar. Ele tinha o cheque na mão e o rosto
estava com uma expressão melancólica. Embora fosse enérgico
com o pessoal, que morria de medo dele, Claire era o seu ponto
fraco, a sua cria, a protegida. Enquanto estava ali, ele se recordou
da encantadora e inteligente mocinha de respostas rápidas que
viera um dia trabalhar na loja, quando tinha 19 anos. Ela possuía
faro para o negócio e faltava no Drake's naquela época alguém
com gosto e imaginação para dirigir o setor de roupas femininas.
Naquele tempo a loja vendia vestidos baratos de carregação,
costumes para mulheres de meia-idade e investia sobretudo em
roupas de baixo. Passo a passo, Claire foi reorganizando o
departamento de modas e, no processo, ela ia conseguindo mudar
o pensamento da diretoria do magazine. Ela insistia em trazer à
loja a linha jovem.
Gene Drake, há meses, acalentava a idéia de oferecer-lhe um cargo
na diretoria. Os contratos expiraram e tinham de ser renegociados;
bem sabia ele que nas atuais circunstâncias era praticamente
impossível encontrar alguém de talento para trabalhar em
mercado varejista. Apesar da emergência da nova mulher, a
maioria delas nessa área não desejava fazer carreira num
magazine como o Drake's. Quase sempre tinham marido e filhos
para cuidar. Trabalhavam só o tempo suficiente para garantir a
pensão de desempregado, para se abastecerem na loja,
beneficiando-se com os 25 por cento de desconto que ela dava a
todo empregado seu, e depois desapareciam do mapa. Bons
empregados valem seu peso em ouro e a perspectiva de perder
Claire o apavorava. E absurdo pensar-se que ninguém é
indispensável numa grande organização. Tinha certeza de que
sem Claire os departamentos de moda cairiam lá embaixo. Claro
que existiam outros fazendo a mesma coisa que ela, mas a
mocinha era realmente esperta e sabia como carregar nos preços
da mercadoria. E entendia de tudo, desde lingerie às peças de
roupas avulsas.
— Sei como isto deve estar sendo doloroso para você —
começou ele a dizer — mas há uma porção de gente que gosta de
você aqui, Claire. — Ele era um homem alto, bem encorpado, e
Claire percebeu serem sinceros os seus sentimentos. Ela odiava ser
objeto de comiseração.
— Foi inteiramente inesperado — disse ela, aliviada por
conseguir dominar o nervosismo.
— Claire, as vendas de verão já vão iniciar e a maioria das
compras para a estação você já fez. Sei que economizou
suas férias para a lua-de-mel. Mas você deve tirá-las assim mes-
mo... um mês... talvez seis semanas... vá à Europa. De primeira
classe. — Ele estendeu o cheque na sua direção. — Use isso para
suas despesas. Se vir alguma coisa que possa interessá-la, compre,
mas não com a idéia de que está trabalhando. O que acha de...
Londres, Paris, Milão, sul da França? — Sua expressão era um
pouco a de vendedor quando está usando de sua lábia. — Claire,
gostaria que você fizesse parte da diretoria do Drake's. Você tejia
privilégios na compra de ações da empresa e participação nos
lucros.
— Realmente, Gene, não estou conseguindo pensar direito.
— Desculpe-me. — Ele foi sentar-se na beirada da mesa dela,
querendo confortá-la. — Às vezes estas coisas acontecem para
melhor. Quando já se começa com uma série de problemas, em
poucos meses se está às voltas com advogados tratando do
divórcio.
Ela não conseguia concentrar-se no que ele dizia.
— O que acontece é que perdi Bobby. Se ao menos pudesse
entender o porquê... bom, acho que de nada adiantaria, não é? —
disse ela com impaciência. — Pensei que fôssemos diferentes, um
casal inseparável. Aí, ele foi para a Califórnia ver se arrumava um
emprego por lá que o fizesse mais feliz... e armmou. Eu mesma o
incentivei. Bom, arranjou emprego e uma vida nova onde não
estou incluída. Num mês deixei que tudo escapasse de mim —
falou com raiva.
Drake achou boa esta sua reação, acreditava que lhe faria bem
explodir, botar tudo para fora. Tinha para si que o fracasso, seja na
vida privada ou na profissional, torna os fortes deste mundo mais
fortes. As almas fracas não valem sequer um pensamento. Estas
pouco importa que no fim venham a desaparecer. A cólera de
Claire logo diminuiu; não era a que ele gostaria de ver e
novamente ela mergulhou no seu silêncio.
— Espero que toda essa desagradável experiência possa torná-
la uma pessoa mais forte.
— Duvido. Não sou nem puta, nem mau-caráter. Negócio é
uma outra coisa. Para mim, sempre ele foi um jogo e por isso é que
sou boa negociante; afinal, o que é que está em jogo? Só dinheiro e
eu não levo dinheiro muito a sério. — Ele ficou chocado com esta
admissão, por que Claire, na hora de uma transação, era tão dura
quanto ele e muito mais firme na defesa de suas contas do que
qualquer outra dos cabeças de departamentos.
— Gostaria de ficar a par do que você decidir. Em qualquer
momento que quiser, posso acionar o Departamento de Viagens.
Ela fez sim com a cabeça. Mas sabia que não ia melhorar e que
para ela não haveria processos de cicatrização. Havia depositado
muita confiança em Bobby e se apaixonara demais por ele. Não
era uma dessas coisas que, no fim, se pudesse dar uma volta por
cima. A brutalidade do golpe matara alguma coisa dentro dela.
Não estava mais ligando para o emprego no Drake's ou para o
futuro, pois tudo isso fazia parte de um todo, constituído pela sua
ambição e a sua vida afetiva. Uma se alimentava da outra e um
homem não entenderia por que as duas coisas não podiam ser
separadas. Este era, realmente, ainda o mundo do homem: um
mundo mesquinho, demasiadamente simples e banal, sem
mistérios e com emoções óbvias e desejos superficiais. Os homens
eram incapazes de intenções sutis; pragmáticos como o são as
crianças. Basta uma boa trepada e dinheiro para se esquecerem
das regiões mais elevadas do espírito humano. Apesar de pensar
assim, reconhecia que Bobby fora diferente. Queria mais do que
simples coisas materiais. A atmosfera em que vivia era mais apu-
rada. Desejava fazer alguma coisa. Era um empreendedor e ela
nunca conhecera ninguém assim. Não tinha idéia de como iria
agüentar viver sem ele.
Ela encontrou Micelli do lado de fora da casa, gritando com dois
operários em cima de escadas de mão. Haviam recolocado o M no
letreiro de neon, mas a operação queimara o resto das luzes.
—Veja, Claire, estava arrumando o letreiro para você. Ele
olhou para cima e disse aos berros:
— Ou vocês põem isso funcionando hoje, ou vou tomar sérias
providências. — Ele torcia, nervoso, um tufo de cabelos das suas
suíças. — Mostrem-me um eletricista negro e em seguida eu lhes
apresento um curto-circuito. — Os operários, ambos, eram negros.
— E olha que não tenho preconceitos, mas, depois de dez anos de
experiência, sei que fios e negro não combinam.
Claire não ouvia palavra do que ele dizia e, quando viu,
finalmente, que os seus lábios tinham parado de mexer, ela
balbuciou:
— Sr. Micelli, não querendo interromper...
— Ora, Claire, o que é isso? Para você, sou o papai Micelli. Tenho
boas notícias para lhe dar. — Sua voz parecia uma metralhadora.
— Esqueça os camarões. Qualquer um pode servir camarões. Não
é coisa de classe. Se estão em estoque no entreposto, onde está o
chique da coisa? Fiz um trato com Oregon para me mandar
caranguejos. Puãs de caranguejos fresquinhas que chegam todos
os dias de avião. E custam a mesma coisa que os camarões. Pode
acreditar numa coisa dessas? Não sei o que está havendo lá em
Oregon, mas lhe digo que estamos passando o pessoal de lá para
trás. Já pensou no efeito que vai produzir oferecendo puãs de
caranguejos? Os convidados vão cair duros quando virem as
esculturas de gelo que vou fazer com eles. As puas, vou enrolá-las
com papel para não largar cheiro de peixe nas mãos. Vai ser de
arrasar.
Ela resolveu que não dava para chamá-lo de papai e, por uma
razão qualquer, sentiu-se amedrontada com a visão de centenas
de patinhas de caranguejos, levando as mãos ao rosto.
— Você está sentindo-se bem? — perguntou Micelli.
— Nós não vamos mais casar-nos.
— Céus! Lamento ter de ouvir isto. Quero dizer, estas coisas
acontecem — ele não estava mais sorrindo — enquanto não chega
o dia do grande e decisivo passo. Você parece que fica maluca, ele
também parece que fica, mas tudo isso passa no fim. Já vi isso
acontecer centenas de vezes. Nos meus tempos dava-se um beijo e
depois se esquecia tudo. Mas, hoje, a coisa é mais puxada. Só
depois de acertarem os ponteiros na cama é que os dois vão sair
com um riso na cara. — Ela não se deixou consolar por esta
sugestão e ele começou a desconfiar de que se tratasse de um
cancelamento.
— Vamos entrar no escritório e discutir o assunto.
— Foi ele quem rompeu — disse ela timidamente.
— Mas o que está havendo com este rapaz? Deixe-me ver a folha
de contrato e eu já vou telefonar para ele; vamos discutir isso. Já
fiz muita cama para casais que até hoje estão vivendo juntinhos.
Todos os anos no meu aniversário me mandam cartões. Aqui,
somos como uma família, Claire. — Ela parecia ignorá-lo; ele não
estava gostando dos sintomas. Estaria mais à vontade se houvesse
histeria na coisa. Com histéricas, sabia lidar. Sabia como persuadi-
las a voltar atrás e, se fosse o caso de ser o rapaz quem estivesse
emperrando, iria visitá-lo em casa; lá, junto da família, dava um
jeito de fazer a reapro-ximação. Mas aquela expressão de olho de
peixe morto, que parece que não está vendo nada, o preocupava.
— Stuart-Canady, aqui está a ficha. Robert John Canaday. — Ele
encontrara o telefone do noivo. — É Robert, Robby ou Bobby?
— Não telefone, por favor.
— Claire, isso vai tornar-se um problemão para você se eu não
conseguir agarrá-lo. E você está com cara de quem já tem
problemas de sobra. — Ele desprendeu as folhas do contrato da
pasta, leu apressado duas páginas, chegou-se para junto dela e
apontou para a cláusula que importava. — Claire, você vai ter
muita dor de cabeça se Robert John não mudar de atitude.
Em letrinhas miúdas estava formulada uma declaração legal
inequívoca que aparentemente era de praxe em contratos desse
gênero.
"No caso de as partes neste contrato cancelarem a recepção por
quaisquer razões que sejam (inclusive morte), perderão a
importância do depósito sem direito a reclamação futura contra
Micelli, Filhos & Ltda."

Claire viu sua rubrica rabiscada na margem. Micelli fez com que
ela lesse o que estava escrito. Com os consumidores agora sempre
movendo processos, ele não podia facilitar, não estava para ser
acusado de andar explorando inocentes casais de noivos. As
iniciais de Claire valiam para Micelli 250 dólares que
representavam 25 por cento da quantia que ele exigia para fazer a
reserva de uma recepção. Naquele primeiro rompante, Claire teria
assinado qualquer coisa.
— Vou perder tudo? — perguntou surpresa com o fato de que
todas as coisas ao mesmo tempo pareciam estar contra ela.
— Ora, se você perde! — Micelli estava colérico; a sua fala
tornara-se sarcástica e no seu sorriso profissional só havia
desprezo. — E eu aqui a quebrar a cabeça para lhe arranjar puãs
de caranguejo! E para quê? — Falava dirigindo-se a si mesmo,
abrindo os braços, como um homem crucificado em nome de sua
fé. — Você estava marcada para sábado à noite, num 30 de junho.
Onde vou encontrar outro casamento dentro deste prazo? O que
você pensa? Ontem mesmo, dei duro indo ao açougue e deixei
tudo organizado. De lá, fui dar ordens para enviarem as bebidas.
Garçons, porteiros de libré, músicos, maîtres, pessoal para a
cozinha, empregados para vigiar os vestuários, guardadores de
carro, tudo isso está envolvido numa recepção. Até o primeiro
salgadinho aparecer em cima de um prato, são 40 pessoas que
tenho trabalhando comigo. Isso não é cerveja com pastel num
canto de um bar ou festa de aniversário numa cantina. E essa é a
minha temporada, entende? Finalmente, tinha conseguido um
mês de junho com cinco sábados! Um sonho transformado em
realidade. Um empresário como eu pode morrer por causa de
uma merda de um dia da semana. Encaixei sua festa no melhor
dia e cobrado na base de 100 por casal de convidados, poderia ter
feito uma previsão de 200 convidados e cobrado a 200 por cabeça.
E na quantidade que está o meu lucro.
O ataque era de uma virulência tal que ela se viu aturdida.
— Nunca pensei que isso fosse acontecer — disse ela
desculpando-se.
— Mas antes de vir aqui, devia ter se prevenido contra o
moleque do seu noivo. Hoje mesmo ia mandar imprimir o seu
menu logo depois que desse carta branca para os caranguejos. —
Ele fez, então, uma pausa como se refletisse. — Sabe lá o que é ter
no menu Écrevisse d'Oregon avec de la Sauce Moutarde? É a
glória. Merece figurar na coluna de Suzy, minha cara. Enviam
repórteres do Women 's Wear Daily e do Post só para registrarem
um fato deste. Se não conseguir uma reserva de última hora, pode
estar certa de que meto um processo em cima de você que vai
levá-la para as cucuias.
A raiva dele era inexaurível e ela se encolheu toda diante da
saraivada impiedosa de insultos. Bondoso, meigo e paternal
Micelli...
Quando finalmente alcançou o carro, ela estava ofegante. Tanto
bombeou o acelerador que, sem perceber, acabou por afogar o
carro. Colocou, então, os óculos escuros, afun-dando-se no acento,
totalmente acovardada pela fúria do ataque de Micelli.
Capítulo VII
Inteiramente traumatizada pelos últimos acontecimentos, Claire
foi dirigindo o carro pelo centro da cidade num estado de
semiconsciência. Não teve ânimo para voltar à loja e telefonou
para Marcy de um posto de gasolina, dizendo que não se sentia
bem. Estava sem condições de dirigir. Tudo que desejava era
deitar-se, fechar as cortinas e esconder-se. Avançou um sinal ver-
melho e um guarda fez-lhe sinal para que encostasse o carro, fi-
cando pacientemente à espera do cumprimento da ordem, mas
Claire estava acima dessas práticas do comum dos mortais.
Daí em diante, durante o trajeto para o seu*apartamento, ela
seguiu devagar, não tendo noção de como chegara lá. Havia
decidido telefonar para Bobby. Simplesmente, não era possível
perdê-lo, sem uma tentativa derradeira e heróica. Subiu a escada
correndo. Tremia. Esperançosa, abriu às pressas a porta e estava
para agarrar o telefone, quando avistou um envelope que haviam
feito deslizar por debaixo da porta. Nele estava o seu nome.

"Querida Claire:
Estou a caminho de Los Angeles. O escritório lá está passando
por uma crise. Não há muito mais que eu possa dizer sobre nós,
exceto que também me sinto profundamente infeliz. Junto está
um cheque de mil dólares, tudo que no momento pude arranjar.
Se precisar de mais, darei um jeito de lhe mandar dentro de
alguns meses, quando tiver firmado minha situação. Queria que
pudesse ter sido diferente.
Com todo o meu amor e pesar, Bobby."

Nada havia sobrado deles. O cheque parecia ter vindo apagar o


último resíduo de algum sentimento que ele tivera por ela.
Mostrara não ser a mulher certa para ele, e em Hillary ele havia
encontrado o que vinha buscando.
Ela se sentia desmoronar. Seria fácil culpar Bobby, fazê-lo único
responsável e comportar-se como se fosse a vítima de um homem
inescrupuloso. Mas dentro dela existia uma voz escarnecedora
que a espicaçava a tal ponto que chegou a unhar-se. Estava
convencida de que nenhuma força é capaz de mover um homem
verdadeiramente apaixonado por uma mulher. Nem sexo, nem
dinheiro podem romper uma relação, a menos que a mulher tenha
decepcionado o homem. Em algum momento e em alguma coisa
devia ter falhado. Não fora capaz de satisfazê-lo. Podia ter sido na
cama ou nas suas transas do dia-a-dia. Sabia que não
correspondera às expectativas e, ao olhar-se no espelho, havia algo
nela que a acusava.
— Nenhum homem dá o fora à toa — disse para si mesma.
A intensidade da aversão que sentia por ela mesma era como uma
corrente elétrica passando pelo corpo e foi neste perigoso domínio
de auto-renúncia que encontrou uma inesperada serenidade.
Procurando, devassando, investigando as razões, reconheceu que
havia sido ela quem o colocara numa posição que
subconscientemente ele abominava. Quando Bobby trabalhava em
Nova York, o aconselhara a ter paciência, que pegasse emprego
nas firmas construtoras dali, que agarrasse qualquer serviço que
aparecesse. Ele sempre resistira, e a química entre os dois foi
sendo imperceptivelmente alterada. O fato é que ele foi se
tornando dependente dela e isto dera margem a ressentimentos.
Com a força e o poder de seu amor acabou usurpándome a
masculinidade. Era ela e não ele quem estava acostumada com os
embustes do mundo dos negócios e por experiência própria estava
convencida de que Bobby precisava ser protegido. A análise dos
fatos deixou-a aturdida. Sendo assim, foi ela quem o havia
espantado. Em Los Angeles, Bobby tinha conseguido escapar de
sua esfera de influência. Tais pensamentos, entretanto, não se
coadunavam com a percepção que tinha de si mesma. Afinal, não
era nenhuma mulher dominadora que fizera dele gato-sapato.
No poente um raio iluminou o céu, seguido do estrondo de um
trovão. Estiletes de chuva bateram violentamente nas vidraças.
Chegando à janela, viu o seu carro do lado de fora com a capota
arriada e não ligou para isso.
Não podia mais prosseguir com a mesma vida. A humilhação
pública que sofrera na loja tornava impossível o seu retorno lá.
Podia parecer estranho, mas, naquele limbo de emoções,
encontrou as dimensões de sua liberdade.
Não pertencia a ninguém. As situações tumultuosas, o fluxo da
vida haviam sido interrompidos. Não tinha aonde ir, nada a fazer,
pensou objetivamente. E ninguém poderia tornar as coisas
melhores para ela. A imagem que criara para si estiolava-se e
nenhum esforço fazia para recuperá-la ou recolocá-la no centro do
seu eu.
Que os seus amigos e colegas de trabalho continuassem
enganados, sem compreenderem as razões por que Bobby deixara
de gostar dela. Bastava ela saber que, na relação dos dois,
representava para ele a acomodação, a solução fácil de tal modo
que ele jamais poderia confiar nela porque havia a possibilidade
de um dia convencê-lo a trair-se a si próprio. Isso transcendia o
amor e as vantagens que existem no casamento. Portanto, ele
precisava era de uma mulher diferente dela.
Ela estava acabada e, uma vez admitindo isto, sentiu-se menos
oprimida e a dor da perda passou a ser apenas uma forma
espectral. Ao entrar no banheiro e abrir o armário de remédios,
ouvia as doces melodias da loucura e cantarolava alegremente.
Suas armas de defesa estavam nos vidrinhos. Nem-butal,
Quaalude, Dexamyl, Percodan, Seconal, Tuinal. Havia música
nestes nomes. Tirou as roupas atirando-as no chão.
Estava ficando muito interessante. Os sentidos mostravam-se
alerta. Tomara outra vez a ser o centro de seu universo. Bobby
achava-se excluído dele. Locomovia-se num novo espaço que está
além do prazer e da dor.
Tudo virara um jogo.
Fascinante.
Era ao mesmo tempo a caça e o caçador. As pupilas dos olhos
dilataram-se com a excitação; era uma presa da torrente febril da
tensão que se apossara dela. Era fantástico, o poder sobre a vida e
morte. Sentia-se onipotente, extasiada, cheia de arrojo, ao ter em
suas mãos o jogo de Deus. Podia fazer tudo que quisesse. Regras,
leis não se aplicavam mais a ela. Que Micelli ficasse com o seu
dinheiro. A inspetoria de trânsito que lhe intimasse quantas vezes
quisesse. Gene Drake poderia arranjar uma outra para substituí-la.
Que o mundo continuasse.
Estava salva, inatingível. Foi jogando para fora do armarinho uma
porção de giletes e pegou alguns vidros ali que eram de Milly.
Encaminhou-se para o terraço. Num instante ficou encharcadada e
sentou-se numa cadeira sorrindo. Numa mesinha ao lado, colocou
as giletes e as pílulas. A chuva a atingia com força. No gramado,
nuvens de vapor subiam em torvelinhos, lançando especialmente
para ela. Sentia-se tão excitada que sua primeira escolha recaiu em
dois Quaalude para abaixar um pouco o ânimo. Botou-os na boca
e engoliu um pouco da água da chuva que pingava de uma
goteira. As pessoas, voltando do trabalho, saíam em disparada
dos carros para entrarem no edifício; alguns cobrindo a cabeça
com jornais.
As pílulas surtiram efeito e ela ficou tonta, à deriva naquele meio
torpor entre a consciência e o sono. Pegou uma gilete e, se bem
que tivesse a visão nublada, fez um talho vertical que ia do pulso à
dobra do braço, fazendo calmamente um risco fino nele.
Não sentia dor. Tudo quanto ouvira dizer sobre isso era bobagem,
propaganda para amedrontar as pessoas. Ficou observando com
interesse mórbido o sangue brotar dos dois lados do corte. Pegou
então, uma outra pílula de um vidro sem rótulo e a engoliu. Uma
das bombas de Milly. Um rasgo de luz brilhou no céu escuro e ela
se abraçou esperando pelo barulho do trovão. Levava a coisa com
facilidade e alegremente foi fazendo um segundo corte na pele,
desta vez mais próximo da veia do pulso; brincava consigo,
preparando o momento da libertação total, até o sangue jorrar
inapelavelmente. Estava gostando demais de tudo e não queria
apressar o desfecho.
As pílulas, pensou, estão travando uma batalha dentro de mim
para assumir o meu controle. Dois espadachins atacando e
defendendo os golpes com suas espadas de aço temperado. A
chuva passou e o céu começou a ficar brilhante. Claire, sentada na
cadeira, ria sozinha. Estava passando a um estado mais profundo
de sonolência e adicionou dois Seconal a sua mistura diabólica.
Descobriu que preferia neste jogo as emoções mais suaves. As
sedativas. Levantou-se e se apoiou no parapeito do terraço;
inesperadamente, flechas de sol vararam as montanhas de nuvens,
fazendo com que piscasse os olhos:
— Saia daqui — gritou. — O que você acha que vai fazer?
O sol agora ardia em chama. Era um fim de tarde com aquele calor
derretido que explode e fustiga demoniacamente, quando o
universo parece fora de controle, a pique de incendiar a tetra. Ela
estava odiando a luz e rogou pragas com os punhos cerrados na
sua direção. Com os cabelos molhados, escorridos e emaranhados,
foi cambaleando para dentro.
A vista estava cheia de borrões. Só distinguia os contornos dos
objetos na sala. As cores, já não percebia mais. Ficou balançando
para a frente e para trás, os olhos se fecharam, o corpo fez um
movimento em espiral e caiu no chão.
Claire tinha a sensação de estar sendo agarrada pelos cabelos e
arrastada violentamente. Sua boca foi aberta e sentiu um líquido
asqueroso sendo despejado pela garganta abaixo. Ela estava sendo
carregada, suspensa no ar e metida dentro da banheira.
— Claire, Claire... mais! Ande, vomite!
Milly encheu outro copo de água quente com sal. Ela fora segura
por um homem. Não conseguiu ver-lhe o rosto.
— Buddy, depressa. Ligue a água fria do chuveiro! — ordenou
Milly.
— Céus, vamos chamar a assistência ou então levá-la a um
hospital. A cor dela não está boa.
— Ora para o diabo com isso tudo! Faça o que eu disse. Ela
está respirando.
A água jorrava em cheio. Milly tirou o vestido e, com a ajuda de
Buddy, meteu Claire debaixo do chuveiro. Segurava-a com força e
a obrigava a tomar mais água salgada. Claire tinha ânsias de
vômito. A água explodia no seu rosto. Milly, segurando-a por
baixo dos braços, massageava com os polegares a parte de trás do
pescoço, depois, ali debaixo do chuveiro, fez com que ela ficasse
sentada num banquinho e ia dando-lhe tapas com força no rosto.
Claire queria protestar, mas faltava-lhe energia; estava incapaz de
comunicar-se. Os seus olhos fechados giravam em torno das
órbitas.
— Levante-se! — Milly forçou-a a ficar de pé e com a palma da
mão dava pancadas na parte de cima das costas. —Já não tem
mais o que vomitar. Acho que a maior parte já foi posta fora...
Buddy, mais água salgada. — O líquido desceu pela garganta de
Claire que agora vomitava apenas bilis.
Milly, completamente molhada, apontou o chuveiro em direção às
têmporas de Claire e passou a bombear com força o seu
diafragma. Enormes toalhas de banho foram, então, estendidas
sobre os ladrilhos e ela, com todo o cuidado, retirou Claire do
chuveiro, entregando-a a Buddy. Puseram-na no chão e, depois de
enxuta, foi levada para o quarto, onde a obrigaram a ficar sentada.
Os olhos abriram. Estava desorientada.
— Vamos lá, meu bem. Temos de dar umas voltinhas pelo quarto.
Nada de dormir. — Ela e Buddy revezavam-se nas caminhadas
com Claire da janela até a porta. Quando as pernas bambeavam,
ela era arrastada.
— O pulso está bom — disse Buddy.
— Ela está precisando de uma sacudidela. Pega a minha bolsa.
Milly destampou um vidro de amónia e botou no nariz de Claire
que, sentindo o coração bater apressado, abriu os olhos.
— Ande, benzinho, vamos acordar do sono da morte — disse
Milly sarcasticamente. — Isso não é novidade para mim. Já tirei
algumas de minhas amigas de situações bem piores.
— Vou arrumar uma licença para você clinicar — disse Buddy.
— Quando tiver um enfarte quero que esteja por perto.
— Claire, Claire. Você está ressuscitando. Será que vai parar
alguma coisa no seu estômago? — Claire fez sim com a cabeça. —
Ótimo. Buddy, em cima da pia da cozinha há uns pacotinhos para
fazer caldo de carne. Ponha dois numa caneca e despeje um pouco
de água fervendo em cima. — Quando ele saiu do quarto, Milly
permitiu que Claire descansasse um pouco numa cadeira. Que
bela dupla fazemos, hein? Nunca devia ter deixado esses vidros
espalhados pela casa. Também, uma mulher grandinha fazendo
uma coisa dessas... Deus meu, não durma ainda, meu bem. Vou
deixá-la dormir quando achar que pode agüentar a barra. — Milly
levantou-a e deu mais voltas com ela pelo quarto; Buddy, então,
chegou com o caldo. Ela sentou a filha na cama e segurou a caneca
junto de seus lábios. — Vai engolindo devagar, querida.
O caldo queimou a língua e os lábios de Claire. Milly mandou que
Buddy trouxesse uma colher e começou a dar a comida, com
muita paciência, na boca da filha, mas conservando a mesma
atitude debochada. Por fim, ajudou Claire a vestir uma camisola
de flanela e a botou na cama.
Ficou horas sentada no quarto, tomando-lhe o pulso de quando
em quando. Às 10 horas da noite foi acordá-la. Ajudou-a a vir até
a mesa de jantar, insistiu para que comesse uns ovos quentes
preparados por Buddy.
Ficaram sentados em silêncio, observando Claire levar de-
sajeitadamente a colher à boca. Ela permanecia atordoada, ta-
citurna. Milly fez a cama no sofá para Buddy e lhe deu boa-noite,
voltando, então, com Claire para o quarto.
— Você vai falar comigo? — Claire mostrava-se desconfiada
de sua mãe e ao mesmo tempo tinha raiva dela, mas, acima de
tudo, estava ressentida. — Não. Você não tem forças ainda para
enfrentar uma boa briga. Vamos deixar para amanhã, querida. —
Inclinou-se e deu um beijo na filha. —
Sei que não fui boa mãe pelos padrões convencionais, mas, bolas,
também nunca fui hipócrita. Assim, nada de recriminações.

Claire passou o dia seguinte na cama. Milly telefonou para o


Drake's e comunicou que ela estava com uma gripe muito forte e
que não iria trabalhar por uma semana. Deixou Buddy vendo um
jogo noturno do Yankee na televisão e levou Claire para jantar no
Lobster Pot.
As duas foram, primeiro, ao bar para tomar uns martinis. Claire
durante todo o dia recusara-se a falar com ela, a não ser
respondendo com indiferença por monossílabos. Não quis pintar
o rosto e estava com uma palidez horrível. Milly lhe escovara os
cabelos, prendendo-os num rabo-de-cavalo. Ela se mostrava
obstinada e mal-humorada. Os olhos inexpressivos e ó ar vago
davam-lhe uma aparência totalmente diferente daquela que lhe
era habitual. Seria difícil alguém reconhecê-la. Não por causa da
quantidade das drogas ingeridas, mas pelo ar de desmazelo que
transmitia. Desaparecera nela todo traço de energia, poderia
passar por uma dessas gurias que de tanto ácido acabam ficando
mins da cuca; dessas que vivem em comunidades dando de
mamar a um bando de bebezinhos de tudo quanto é cor, e que, de
vez em quando, aparecem em documentários de televisão para
divulgar as plantações de maconha.
Milly empurrou os pratinhos com queijo e biscoitos na sua
direção, mas ela nem olhou para eles. Dois casais, esperando por
mesa, se achavam na outra extremidade do bar.
— Você está puta comigo, não é?
— Queria que fosse para o diabo. Que nunca tivesse saído de
Miami, de Vegas ou de outro qualquer lugar.
— Eu também. Nunca fui com cidades pequenas. Se o Dr.
Slakoff não me tivesse expulsado da cidade para Westport, nada
teria feito com que eu me mudasse de lugar. — Ela pegou o
pratinho de queijo de volta e pôs um bocado dele sobre um
biscoito. — Quanto tempo durou aquilo? Oito meses, eu acho.
Depois ele foi obturar os seus canais em New Haven. Se está
querendo me chatear com minha ficha passada, não me incomodo.
Sempre fui mesmo uma pé-rapada. Eu só fui me encontrar em
Vegas.
— O que é que estou fazendo aqui? Nem lagosta quero.
— Então experimente uns mariscos.
Sem querer Claire teve de rir. Ela se olhou no espelho do bar e se
viu com uma aparência totalmente diferente da sua.
O sorriso congelou-lhe no rosto. Fez sinal ao barman para fazer
outro drinque. O álcool começava a subir-lhe à cabeça, en-
torpecendo o pensamento.
— Não há qualquer razão para você continuar aqui.
— Sei disso. — Milly brincava com o palitinho da azeitona
para quebrá-lo em seguida. — Do jeito como você me recebe bem,
dá para ver que não vai muito comigo! — Ela estalou os dedos
para o barman. — Estou olhando... por isso faça com Smirnoff e
não com as bombas que tem aí escondidas. — Virou-se para
Claire. — A gente tem de ficar de olho neles.
— Para esse tipo de coisa, você é perfeita.
— Ora, vá à merda, Claire. Li o bilhete que Bobby deixou. —
Ela correu a mão pela cabeleira platinada, ressecada por todos
aqueles anos de descoloração e penteados eriçados.
—É uma pena. Era um rapaz bonzinho. Mas procure ver a coisa
de outra maneira. Isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. De
certo modo, teve sorte que acontecesse antes que estivesse
preparando mamadeiras para um filho, merenda para um outro e
com o corpo parecendo um pneu murcho.
Claire ficou revoltada.
— A realidade não é nenhum conto de fada, meu bem.
—Milly deu uma olhada no menu, enquadrado numa moldura de
metal. — Vamos dividir uma dúzia de mexilhões? Frutos do mar é
coisa que não se deve pensar em comer em Vegas.
— Não estou com fome.
— Puxa, você está sempre rabugenta. — Ela deu ordens para
trazer os mariscos e que pusessem uma porção extra de raiz-forte
e limão.
— Gostaria de ir embora depois disso.
— Estou comendo o meu jantar. Você pode ficar observando-
me. Antes de vir para cá, encomendei duas lagostas de mais de
um quilo cada uma. Amanhã, podemos fazer uma salada com elas
— disse, dando uns tapinhas debaixo do queixo. — Claire, alguém
já lhe disse que você é um verdadeiro chute no saco quando quer?
—Vou tomar um táxi.
— Oh, cale a boca e me ouça. Você quer Bobby de volta, não é?
— Os olhos de Claire encheram-se de lágrimas. — Olha aqui, você
nem bêbada consegue ficar, e chorar não vai adiantar nada. Por
isso deixe de bobagens. Você nunca foi uma chorona e todo esse
lixo lamuriento não é você. Meu bem, você foi passada para trás,
mas nem tudo está perdido.
As duas foram acampar numa mesa perto da cozinha com uma
garrafa de vinho branco c com os "babadouros" de lagostas
amarrados no pescoço. Em vão, Claire esperou sua mãe censurá-la
por causa das pílulas, mas Milly era macaca velha para cair numa
dessas.
Devagar, se puseram a comer uma mariscada. Milly jamais se
apressava nas refeições.
— Anos atrás me puseram rótulo de prostituta — começou ela
dizendo. — Nunca neguei que sou, por natureza, namoradeira e
que tenho prazer de estar com homens diferentes, mas, também,
nunca encontrei um que eu tolerasse por muito tempo. Agora,
você é diferente, Claire. Se faço algo, você vai fazer justo o
contrário. E sabe de uma coisa? Os dois modos têm suas
desvantagens. Eu, pelo menos, não me deixo decepcionar,
enquanto, por uma decepção, você quase virou uma suicida.
A frase dita com toda a frieza fez Claire estremecer. Mas, ao fitar
os olhos vívidos de Milly, sentiu uma certa afinidade com ela; era
a dor que as havia unido.
— Não sei onde foi que eu errei — disse Claire.
— Ele é um rapaz atraente e todos os homens dão suas
voltinhas.
— Dei a ele muitas chances para fazer isso antes e finalmente
ele encontrou alguém.
— Você vai deixá-lo? Ele deve estar muito confuso. Los
Angeles é um lugar muito especial. É fácil a gente sentir-se
sozinha lá. Vá vê-lo, talvez você possa arranjar ainda as coisas. Se
não fizer essa forcinha, nunca será feliz. Vai ficar sempre
imaginando o que teria acontecido.
A sugestão fez com que Claire ficasse pensativa. Tentava
imaginar-se à caça de Bobby.
— Ele está querendo a vida dele.
— E não consegue encará-la. Você foi humilhada, mas e daí? O
que é que esperava? Ele é humano, tinha vontade de trepar e você
estava a 5 mil quilômetros de distância, então, o que acha que ele
tinha de fazer?
A perspectiva de rastejar diante de Bobby, ficar implorando por
ele, não era nem um pouco de seu feitio. Sentia-se inimiga da
esperança.
— Mas ele me rejeitou!
— Mas dê uma chance para ele mudar de idéia. Isso sempre
acontece, os homens entram em pânico quando têm um
casamento pela frente. E para eles é mais duro de voltarem atrás
— disse Milly sentenciosamente.
A verdade é que ela já tinha levado as coisas mais longe.
Falara naquela manhã com Madeleine pelo telefone, e Claire seria
muito bem-vinda pela amiga, que lhe daria hospedagem e a
introduziria na vida de Los Angeles.
— Isso vai ser uma mudança. Mas, se há algum jeito de você
trazer Bobby de volta, este não será com o traseiro grudado no
Drake's, passando conversa em vendedores.
— Você contou a Madeleine o que aconteceu?
— Claro — disse Milly pestanejando. — Como conspiradora, sua
mãe freqüentou a classe dos de Watergate.
— Tudo?
Milly sorria; pegou uma pata de lagosta e a partiu com o alicate,
retirando a carne, deliciada. Era como se fosse engolir uma
salamandra viva.
— Acho que não deixei escapar nada. Deveria falar mentiras para
Madeleine? — disse, mergulhando um pedacinho da carne no
molho de manteiga; mastigava devagar saboreando o gosto. —
Madeleine é sua amiga, por que, diabos, não iria contar as coisas
direitinho para ela?
— Mas isso era tão pessoal...
Claire empurrou a lagosta. Ter de enfrentar Madeleine seria
insuportável. Numa mesa próxima, de oito lugares, as pessoas
estavam esparramando-se de tanto rir. Claire imaginou que
tivessem ouvido o que Milly falara, depois achou que não. Os
drinques a haviam deixado enjoada.
Milly cuspiu um pedacinho de casca de lagosta.
— Ah, sim, muito pessoal mesmo!... Se eu não tivesse entrado com
Buddy, todo mundo na cidade ia ficar sabendo. Suicídio é notícia
em Westport. Jovem e bonita moça... Meu bem, você iria aparecer
no Eyewitness News, como um cadáver com o rabo exposto para a
câmara. Por isso, não me venha com essa de segredo ou
insinuações de eu ter sido indiscreta — disse ela na ofensiva. —
Quando quatro pessoas sabem do que aconteceu. Ah, caso ainda
não lhe contaram, Buddy quer casar-se comigo... gastou 800 pratas
com o presente de noivado. Um jogo de malas de Louis Vuitton. E
isso, sem que eu lhe desse esperanças.
Claire estava com raiva. O vivo sentimento de humilhação
paralisava o seu rosto. Milly parou de comer e espichou-se sobre a
mesa para apertar com força a mão dela.
— Meu Deus, como me odeio — disse Claire.
— Querida, você acabou de passar por uma experiência
abominável. O que aconteceu deixa suas marcas, mas você não
está sozinha. Ninguém se virou contra você. — Ela agora remexia
na lagosta de Claire, retirando a carne tenra e a botando num
prato em separado; chamou um garçom e mandou que ele tirasse
as cascas vazias, insistindo com Claire para provar da carne limpa.
— Quando criança, você sempre gostou de lagosta, mas, às
vezes, a gente não tinha dinheiro para comprar... ah, mas que
diferença faz... — Milly desistiu de levar a coisa avante, largou o
garfo e encarou aquela estranha a sua frente que era carne e
sangue dela. Havia alguns anos essa sua filha se retraíra
desprezando a afeição que ela se esforçava para dar-lhe e não
conseguia. — Claire, Claire, só porque pelos seus padrões não sou
uma mulher direita, isso não significa que não goste de você. Se
renunciar a Bobby agora, está renunciando a você mesma.
— Preciso conservar alguma dignidade — retrucou Claire com
amargura.
Milly entendeu a indireta que estava nestas palavras.
— Escuta aqui, se você acabar nas mãos de um idiota, tiver filhos
com ele e chegar aos 40 se detestando, a sua dignidade vai
realmente valer muito!... Lembre-se de que nem todos os caralhos
são iguais.
A grossura deixou Claire furiosa e ela se mexeu na cadeira. Desde
a adolescência havia desprezado aquela mulher, sempre
considerara a sua vida imunda, um charco em que se vira
apanhada, servindo apenas para degradá-la. Não conseguia ver a
mãe como um ser humano, ela tinha particularidades muito
próprias na sua permissividade.
Elas recusaram a sobremesa e o café. Milly ao invés de cheque deu
uma nota de 100 dólares. Nada de cartões de crédito, em se
tratandode uma aventureira de Vegas, pensou Claire. A mulher
era pura ostentação, uma propaganda barata como a luz de neon
na frente do Micelli's. Apesar de toda essa reprovação, existia algo
tão forte entre as duas que Claire não conseguia conter sua fúria.
No estacionamento, uma encarou a outra.
— Você não gosta muito de mim — disse Claire. — Aliás, jamais
gostou.
Milly recusava-se a morder a isca. Essa era uma história velha, os
homens também falavam assim e, com a sua garota, a coisa seria
facilmente driblada.
— Acho que agora peguei o jeito de seu carro. Eu estava
engrenando errado. Ora, carros com mudança é coisa do século
passado.
— Não me venha com essa conversa de trapaceira de cassino.
Eu fiz uma pergunta.
Milly encostou-se na capota do carro. Suspirou forte, estava
contendo-se, embora estivesse exasperada. Sua vontade era a de
abrir os braços para Claire, mas ela a obrigava a lutar.
— Santo Deus, Claire, não somos duas vagabundas que estão
saindo de um botequim e que vêm brigar na rua.
— Você não entende nada de mim.
Milly balançava nos dedos a corrente com a chave do carro. O
sangue subia-lhe à cabeça. Por fim, acabou perdendo a calma.
— Claire você é uma babaca.
— Isso vindo de uma galinha velha como você até que é um
cumprimento — sibilou. — Você não é nada. Apenas uma fodida.
Quem pensa que é para me dar conselhos? O que é que sabe a
respeito de sentimentos das pessoas? Já teve mais homens do...
Milly afastou-se. Ela nunca fora de levar desaforos ou de bater em
retirada. Mas agora estava sendo espezinhada. Tinha consciência
de que diante dela estava alguém inteiramente irracional... a sua
filha.
— Nunca fui uma mãe só para constar, como algumas...
— Ah, sobre isso posso dar o meu testemunho.
— Acho que o melhor que você tem a fazer é entrar no carro.
— Ora, não me venha dizer o que tenho de fazer, sua
vaca!
Ela estava provocando de todo jeito e isto era demais para uma
mulher que sempre fez o que quis na vida. Milly pôs a bolsa em
cima da capota do carro, aproximou-se de Claire e lhe deu dois
bofetões, primeiro numa face e depois na outra, fazendo com que
ela cambaleasse para trás. Agarrou-a, então, pelo rabo-de-cavalo e
empurrou-a para dentro do carro. Estava ofegante. Claire se
atirara no chão do carro e era impossível dar partida com ela
naquela posição.
— Gosto de você, querida, mas você agora está fora de combate.
— Pegou Claire para botá-la direito no assento, como se ela fosse o
embrulho do açougue que tivesse caído. Amarrou-a em seguida
com o cinto de segurança. — Eh, vocês com esses carros esporte,
só para fingirem que são corredores de automóveis. Eu dou as
minhas voltinhas em carros Seville e Lincoln e não agüento as
porcarias desses cintos de segurança.
A cabeça de Claire pendia para frente e o corpo ficou torto sobre o
assento. Milly concluiu que os drinques tinham dado cabo dela.
De sua incômoda posição, Claire ainda agarrou o rosto de Milly.
— Ora, você não agüenta levantar a mão. Está bietando, querida.
Posso repetir a dose todas as vezes que precisar.
Claire soltou a mão. Opancake de Milly tinha ficado grudado nas
pontas de seus dedos, tal como farinha engordurada. Nem
vontade de chorar ela tinha. Reconheceu que fizera algo errado e
que estava ansiando, agora, por ser castigada. Enquanto Milly
procurava a ignição, fez um movimento na sua direção.
— Mãe, me ajuda...
— Você continua sendo uma babaca — disse Milly, recusando-
se a paparicos.
— Por quê?
— Merda, merda, merda. Para onde foram as porcarias de seus
instintos? Você gosta dele. Vá pra lá e lute por ele. Lute, Claire.
Entendeu?

Capítulo VIII
Ir para a costa oeste... com espírito de aventura, vagando em
direção ao Pacífico. Isso, entretanto, tinha para Claire a conotação
de uma peregrinação. Mas ela já não se sentia mais sozinha.
Voltara à vida, e novamente estava agindo com firmeza.
Renunciou ao seu lugar no Drake's e se despediu amigavelmente
de Gene. Ele compreendeu que não dava mais para conservá-la ali
e que os seus argumentos não haviam sido suficientemente
persuasivos. Com o dinheiro das férias remuneradas e mais o
cheque de Bobby, o seu saldo bancário pulou para 3 mil e 100
dólares. A confiança em si fora abalada, mas, aos poucos, voltava.
A garota que tentara suicídio representava um lado negro de seu
caráter e ela o enterrou. Quanto às chances com Bobby, admitia,
mas conservando um pé atrás. Assim, sem pensar muito, comprou
mil dólares de cheques de viagem, vendeu o carro para Leah, sua
colega do Drake's, por 1 mil e 100 dólares, aceitando dela uma
nota promissória.
Milly e Buddy a levaram ao aeroporto e pediram-lhe muito para
que não deixasse de se comunicar com eles. Vegas ficava só a 40
minutos de avião de Los Angeles. Milly se ofereceu para guardar a
mobília e discutir com o proprietário do apartamento, caso ele
levantasse algum problema a respeito do contrato. Sua mãe era
ótima para brigar, principalmente quando não tinha razão, aí é
que era de uma insolência tão clamorosa que as pessoas acabavam
recuando. Mas, foi sem prestar muita atenção a essas coisas que
Claire se viu no avião a caminho de Los Angeles.
Madeleine foi encontrá-la no aeroporto. Fazia quase um ano que
as duas se haviam visto pela última vez. Ela abraçou Claire,
apertou-a muito, dando-lhe ruidosos beijos. Era uma dessas
mulheres dominadoras, cheias de energia e que não se importam
de arrumar encrenca onde quer que se encontrem.
A falecida mãe de Madeleine apelidara-a de Grub* e o apelido a
acompanhara durante todo o tempo de escola. Mas ele já não
convinha, pois sua aparência agora estava mudada, era uma moça
muito atraente, se bem que puxando um pouco para o excêntrico.
Os cabelos estavam cortados curtos, com ondas dos lados à David
Bowie, e pintados num tom de vermelho-berrante. Tinha perdido
mais de 10 quilos. Havia nela um jeito extravagante, chamativo,
que se acentuava mais ainda com os jeans ultra-apertados que lhe
deixavam bem à mostra as curvas dos quadris. Para não haver
qualquer dúvida sobre sua intenção de se fazer notada, usava uma
blusinha de malha, tamanho mínimo, que tinha um
resplandecente "DESTRUIDORA DE LARES", escrito em letras
prateadas nas costas e um "ATENDE-SE A DOMICÍLIO"
atravessado nos seios, incrivelmente grandes e firmes. Claire riu.
Era como se tivesse vindo ao seu encontro o próprio carro de
bombeiros com as sirenes avisando: fogo! fogo! A garota
rechonchuda de que Claire se lembrava havia sido totalmente
recauchutada. E verdade, o nariz entortava ainda um pouquinho
para a esquerda, mas os luminosos olhos castanho-escuros,
reveladores de uma adolescência submissa, trágica, agora
lampejavam cheios de audácia. Madeleine não chegava a ser
bonita, como também não precisavam ser bonitos quadros de
pregar avisos ou o estouro de um pneu. Essas coisas apenas
chamam a atenção.

* Grub — cm português: pessoa relaxada. (N. da T.)


— Bem, não é Audrey Hepburn — disse Claire, conseguindo
desvencilhar-se do abraço de Madeleine e do seu perfume de
Wind Song.
— Sou a própria Los Angeles. Falo até um pouco de espanhol.
No está en casa. Essa é a nova Madeleine. Gosta?
— Inacreditável.
— Perdi 12 centímetros de gordurinhas na cintura e faço
diariamente ginástica com aparelhos para desenvolver os seios.
Vou lhe contar, benzinho, mesmo em Los Angeles onde se vê de
tudo, um busto tamanho 50 dá na vista. Aqui nunca vou morrer
de fome.
Houve um momento de silêncio entre as duas, enquanto
esperavam pela bagagem. Madeleine, então, deu a mão a Claire e
lhe perguntou:
— E como você está, querida?
— Outra vez com os meus pedaços ajuntados.
— Logo você, hein? Quem diria que fosse tão maluca!
— Mas isso já ficou para trás.
— É melhor que fique mesmo. — A bagagem de Claire foi
colocada no escorregador e caiu no carrossel. Puseram-na num
carrinho e foram para o estacionamento. O dia estava nublado.
Junho em Los Angeles, lhe haviam dito os entendidos dali, dava
poucos dias de praia e tinha noites frias e muitos divórcios porque
era a época em que se conseguia vender as casas, ao passo que no
inverno, quando não havia compradores, os casais preferiam
reconciliar-se temporariamente.

— Claire, você está muito bem... só um pouco pálida, mas tira


de letra qualquer concorrente por aí.
— Você está trabalhando?
— Hoje não, para variar. Disse que estou doente. Mas o que
estou fazendo de principal na vida — continuou, cheia de
exuberância — é teatro. Tenho aula três vezes por semana...
impostação de voz, essas coisas. Faço parte de um pequeno grupo
que representa duas noites por semana — acrescentou como se
fosse a coisa mais natural do mundo para uma moça fazer. Seus
sonhos eram bem imaturos ainda.
Chegaram a um Mustang conversível, de cor marrom, em-
poeirado, com o pára-brisa imundo e a capota cheia de buracos.
Madeleine abriu o porta-mala do cano, mudou a posição de sua
valise de maquilagem, das malhas de ginástica e de um pneu
careca, conseguindo um lugar para meter as malas de Claire.
— Não vou ficar até os meus 30 anos trabalhando no Guc-ci... De
maneira nenhuma! Ainda hei de vencer — disse ela de modo
sucinto e seguro, tal como um vendedor que acabou de fazer o seu
curso e está cheio de entusiasmo, convencido de que as frases
corajosas são a chave do sucesso.
Madeleine acreditava piamente que ainda seria estrela de cinema,
com 23 anos de fantasias e uma atitude minha-vez-vai-chegar, ela
deixou Claire muito surpresa, achando aquilo tudo muito
despropositado. O micróbio do teatro, ela o havia apanhado
quando ainda estava no colégio, onde fizera todos os cursos de
teatro existentes e precisara sair do palco por causa das vaias dos
valentões do time de futebol; ela, então, fazia a Stella em Uma
Rua Chamada Pecado, num desempenho inqualificável. Mas a sua
confiança, lembrava-se Claire, não fora abalada por mais do que
talvez um fim de semana. Depois que terminou o colégio,
recuperou-se do fracasso fazendo um espetáculo com números
variados em que representava sozinha, mas nunca conseguiu ir
além das pernas. Por uns tempos andou sentindo-se nas alturas,
quando foi amante fortuita de um vigarista de cara desbotada e
falastrão que a engravidou. Depois de muitas ameaças de
processos, o sujeito convenceu-se finalmente de que tinha de
entrar com 500 dólares para o aborto.
Madeleine levou a coisa na calma, da melhor maneira possível;
tinha fibra na adversidade. Arrumou um emprego no Rienzi's, no
Village, transformando-se numa personalidade ali naquele café.
Daí, passou para um emprego não remunerado no Café La Mama,
trabalhando como contra-regra, e foi assim que finalmente se viu
dentro do TEATRO! Durante este período, andou bajulando meio
mundo, sobretudo uma corja de atores com quem trepava. Para se
sustentar e manter o compromisso com a arte, por três anos, foi
vendedora na seção de roupa masculina do Macy's, até que por
fim imigrou para Los Angeles para ficar perto dos estúdios.
As duas eram amigas desde os 10 anos, quando as suas
sassaricantes mães fizeram um arranjo entre elas: caso uma esti-
vesse recebendo alguém em casa de noite, Claire ou Madeleine,
dependendo da disposição e vigor do cavalheiro, seria remetida
para dormir no apartamento que estivesse livre. A vida das ga-
rotas, nessa época, transformou-se em constantes correrias para
converter às pressas sofás em camas e era presidida por titios de
caras suspeitas que desembolsavam notas de cinco dólares para os
hamburgers e cinemas, para mantê-las ocupadas, longe de suas
casas. Assim, Claire e Madeleine partilharam, uma com a outra, de
uma amizade solitária, jantares gelados diante da televisão ligada,
com pizzas encomendadas fora, e iam trocando aquelas
confidências de crianças abandonadas, fazendo planos para um
futuro onde suas mães sirigaitas não entravam.
— Não vou permitir que volte para Westport — disse Ma-
deleine com ar mandão. — Vai conseguir um emprego aqui
ganhando duas vezes mais do que no Drake's. — Ela nunca
deixava de ser uma otimista. — Claire, tenho muita saudade de
você. As amizades que fiz por aqui são diferentes. Não são amigos
de verdade como nós duas somos.
— Já passamos maus pedaços juntas — disse Claire animada.
Afinal, existia alguém que gostava e precisava dela. — É difícil
desprezar essas coisas, elas nos fazem sentir seguros.
— É isso aí. Eu não trocaria por nada os momentos difíceis que
vivemos juntas, por piores que tenham sido. — Diante de um sinal
vermelho ela parou e acariciou com ternura os cabelos de Claire.
— Você andou no inferno, meu bem. Ninguém merece isso. Nem
mesmo Bobby.
— Ele não sabe o que aconteceu e nunca irá saber — disse
Claire com firmeza. — Acho que há ainda alguma chance para
nós.
Madeleine refreou sua impetuosidade ao reparar no desespero de
Claire. Sua amiga era hipersensível, nunca agüentou as pancadas
da vida, pensou. Esse último esforço que estava fazendo para
lavar a honra era patético, por isso deixou que passasse sem fazer
qualquer comentário a respeito. Claire começou a relaxar-se.
Estavam em Sunset, fazendo as curvas fe-chadíssimas desta
estrada.
Claire olhou pela janela, vendo a profusão de palmeiras, as
trepadeiras de buganvílias vermelhas passando de um jardim
para outro, o verde tropical do lugar, intenso, e a variedade das
casas. Passando por uma ma sossegada, reparou numa
inteiramente ridícula, de estilo Tudor, ao lado de uma outra,
imponente, de estilo espanhol, com telhas-canal e gradis de ferro;
do lado oposto, estava uma, tipo fazenda, toda de vidro e
madeira; os vidros rayban pareciam desafiar a de estilo regência
que ficava na esquina. Ela acendeu dois cigarros, passando um
para Madeleine.
O lugar que tinha a placa anunciando Beverly Hills fazia supor
que a patrulha da fronteira tinha ali intensa atividade, pelos
letreiros nas casas: "Cachorros: Cuidado"; "Patrulha de Bel Air";
além de serem dotadas de alarme Westinghouse. Claro, pensou
Claire, atrás daquelas fortalezas se achavam' os pilares das
fortunas do centro-oeste dos Estados Unidos, tipos de milionários
que vieram para ali fugindo de impostos e revoluções e também
alguns do leste, já fartos do frio e da violência da cidade grande.
Vez por outra, seus olhos, como uma borboleta, detinham-se
naquilo que julgava ser o verdadeiro estilo da vida californiana:
casas com fachadas de tijolinhos limosos, crianças louras
brincando nos gramados, vigiadas por governantas mexicanas de
uniforme cor-de-rosa, combinando com os ornatos de estuque das
laterais das casas; reminiscências de um período muito recente
para poder ser chamado de passado. Eram fantásticos a
florescência dos hibiscos e os labirintos formados pelas rosas
trepadeiras nos jardins que explodiam em tons luxuriantes de
verde.
— Essa é a ma das mas — informou Madeleine quando desciam
Rodeo Drive. Ela apontou depois para a loja Gucci. — É ali que
trabalho. — E passando por Beverly Wilshire falou: — Warren
Beatty mora num apartamento neste hotel.
Continuava a eterna fã, fazendo Claire lembrar-se dela aos 14
anos, deitada sobre o tapete, comendo ruidosamente sanduíches
com a cabeça enterrada em revistas de cinema e uma pilha de
histórias de filmes à espera para serem lidas.
Pouco depois das quatro horas, Madeleine sugeriu que parassem
no El Padrino, o bar num hotel, para tomarem um drinque. A esta
hora era certo de encontrarem mesa. Andaram um quarteirão para
não terem de pagar estacionamento.
No bar à meia-luz, buscaram uma mesa perto do piano, pedindo
um coquetel de vodca com laranja; pareciam duas ricas dondocas,
exaustas depois de uma dura jornada de compras. Madeleine deu
um sorriso de banda e a expressão de seu rosto tornara-se
travessa, parecendo manhosa e um pouco sem jeito. Claire já a
conhecia, ela era indicativa de que havia revelações à vista.
Madeleine tinha os incisivos irregulares, não muito, mas dava
para notar-se que era ligeiramente dentuça. Não era bonita,
tornou a pensar Claire, havia nela, contudo, algo de
surpreendente, de original, uma certa força, e dificilmente se
poderia esquecer daquele rosto, apesar de que ela mesma odiasse
o feitio de sua boca. Foi uma cena terrível a que aconteceu,
quando a mãe trocou seu tratamento de ortodontia por uma estola
de pisoa. Na ocasião, ela disse à garota que era uma infelicidade
ter de acontecer aquilo, mas ela não poderia deixar de apresentar-
se bem vestida nos lugares que freqüentava; era algo mais
importante do que corrigir um defeitinho de nada na boca da
filha.
— Vamos esclarecer essa coisa de Bobby — disse Madeleine.
— Gostaria de falar com ele amanhã. Tenho dois números de
telefone dele.
Madeleine não se conteve.
— E falar o quê? Ficar mendigando?
— Só vou dizer a ele que cheguei.
— Não. Você não vai. Claire, faça o favor de me escutar. Se a
situação fosse inversa, você iria querer vê-lo? Claro que não. Iria
esconder-se dele e se sentiria pressionada, não é? Esqueça tudo o
que ouviu falar de Los Angeles. Isso é um lugar pequeno. A
qualquer momento, você vai topar com ele por aí. Meu bem, dê
uma chance para você mesma, vá com calma durante algumas
semanas. Primeiro vai conhecer pessoas e arranjar um emprego.
O conselho deixou Claire extremamente nervosa.
— Tenho medo. Posso chegar tarde... e ele já está com a outra.
— Sei disso — respondeu Madeleine com relutância. —
Quando ele esteve aqui, jantei uma noite na sua companhia. Você
sabe, sempre gostei de Bobby, e afinal por que não iria gostar?
Mas, uma semana depois mais ou menos, a gente se viu numa
dessas situações embaraçosas. Nós dois estávamos no
Pips... um clube privado. Bem, na verdade, nenhum de nós fazia
questão de mostrar que viu o outro. Bobby estava com Hillary
Martinson. Ela estava ao volante do seu Rolls e ele ia entrando no
carro para sentar-se junto dela. E eu, por minha vez, estava com
um cara, tão ranheta e tão ciumento que sempre dá um ataque
quando falo com outras pessoas.
Claire não estava entendendo bem a sua amiga. Afinal, Madeleine
era uma mulher livre e nunca tivera papas na língua.
— Mas por que não queria aparecer para Bobby?
— Por quê? Ora, francamente. — Ela nunca deixara de usar de
sinceridade com Claire, mas não sabia até onde poderia chegar.
— Ande, conte.
— Bom, por favor, não me julgue mal, mas essa é uma cidade
muito cara... — Fez uma pausa, afetando embaraço. — Há
ocasiões em que preciso de dinheiro. Não dá para viver com o que
ganho no Gucci.
—Poderia tê-la ajudado.
— Claire, é um dinheirão que gasto. Esse cara pagou pelo meu
curso de impostação e custeou minhas aulas de teatro. Sem ele,
esses cursos seriam impossíveis.
Claire não tentou simular que estava aceitando a coisa com
naturalidade. Isso seria contra a sua índole.
— E o que é que tem de fazer para ter... bom, esta bolsa de estudo?
— Tudo o que me pedirem.
Bobby estava certo sobre ela. Havia realmente caído na vida.
Claire lhe deu um olhar de simpatia. O destino de Madeleine
estava entrelaçado ao seu.
— Não estou desculpando-me por isso. As pessoas acabam
fazendo concessões. Quer mesmo ouvir falar disso? Afinal, não
sou a única. Hillary é a filha de Leonard Martinson...
— O que é que você está insinuando?
— Que Leonard Martinson tem uma das maiores firmas de
construção de Los Angeles. Acabamos de passar por Rodeo Puerta
em Rodeo Drive e tudo aquilo é dele... inteirinho.
Claire balançou a cabeça, contrariada.
— Isso é uma indignidade de sua parte, Madeleine. Não e não.
Diga o que quiser de Bobby, mas não faça dele um gigolô. Talvez
tenha deixado de me amar, agora isto não quer dizer que se
colocou à venda. Ele foi extremamente leal comigo. Isso que está
dizendo é inteiramente absurdo.
Tocara na ferida de Madeleine e esta, em vez de recuar, mostrava-
se insolente. Era estranho, tanto que tinha desejado ver Claire e
agora estava perdendo a compostura e tomando um ar de
agressividade que nunca pretendera.
— Ora, cresça, Claire! — disse Madeleine com desdém. — Que
diabo de coisa andou fazendo a vida toda? Você nem sabe se está
viva. Só estou tentando ajudar. Ande, telefone para Bobby, esteja à
vontade. Vai ver só a recepção que vai ter.
Claire ficou aturdida e também arrasada com a baixeza dos
motivos que estavam sendo atribuídos a Bobby.
— Se os Martinson são tão ricos, como é que você os conhece?
— Olha, quem falar primeiro come todas as porcarias do
mundo, tá? Como a gente dizia quando era criança. Agora vamos
parar por aí. — Claire desviou os olhos ;retraindo-se e, então, ela
disse: — Conheço os Martinson do mesmo modo como conheço
Barbra Streisand, Cher, Jack Nicholson, para não falar de Allan
Car e Rod Stewart. Atendo essa gente na loja. Mas veja aqui,
querida, se veio para ter Bobby de volta, então, esqueça isso. Eu
me importo com você... ouviu? Agora, tente gostar de Los
Angeles, essa cidade deixa longe West-port. Oh, Claire, você tem
tanta coisa para dar... só que tem de parar de torturar-se.
Quando criança, Madeleine sempre morara em apartamentos que
a mãe alugava já montados e era óbvio, portanto, pensou Claire,
que desse agora preferência a morar numa casa, qualquer que
fosse esta, e nunca em apartamentos que lhe lembrassem os seus,
parecidos com alojamentos de ciganos. Habitava no caminho de
Laurel Canyon, num bangalô plantado no penhasco. Ali, havia
dois quartinhos e uma saleta mínima com lareira. Uma varanda de
madeira, tal como um apêndice, ficava suspensa, de modo
assustador, do lado de fora, à qual se chegava passando pela porta
corrediça da cozinha. Nela existia uma churrasqueira cuja grelha
enegrecida supunha o assassinato de alguns bons pedaços de
carne. Por motivos desconhecidos, Madeleine guardara a prova do
crime, os saquinhos da embalagem da carne, numa tina de
madeira tosca que se achava também ali. De lá, se tinha uma vista
do desfiladeiro, com as colinas de vegetação ressecada ondeando
através da cortina de neblina que engolfava a casa. De vez em
quando, um vislumbre de sol abria uma brecha no céu, mas não
chegava a ser uma esperança naquele panorama.
— Você está pagando 550 dólares por isso? — O espanto e os
transtornos da viagem fizeram-na esquecer por instantes de
Bobby.
— De aluguel e vista! — Madeleine justificou. — E é urna
pechincha. Estou só a cinco minutos de Strip e numa colina em
cima de Valley. Em 15 minutos, chego ao meu trabalho. Topo
qualquer coisa para não passar metade de minha vida dirigindo
em auto-estradas.
Claire foi desfazer as malas e tomar um banho enquanto
Madeleine foi grudar-se no telefone. Tal como um bookma-ker ou
um traficante de droga, ela tinha também um caderninho. Era um
fichário de folhas soltas do tamanho de um caderno escolar com
uma vastíssima lista de nomes de homens. Entretanto, não era
uma simples enumeração de nomes com endereços, mas um
estudo sociológico de perfis masculinos com comentários
pormenorizados relativos à condição matrimonial e financeira de
cada um, sua aparência, o lugar em que tinham sido encontrados e
suas perspectivas em relação a eles. Enfim, uma espécie de folha
corrida.
Madeleine reclinou-se no sofá, o forro era de cânhamo marrom e
espetava. Sobre uma mesa de madeira tosca estava uma bandeja
com cigarros, uma concha enorme contendo uma provisão de
maconha, instrumentos parecidos com alicates em miniatura,
cachimbos, papéis aromatizados e vidros antigos de vitamina que
tinham os nomes "Colombian", "Gold", "Shit", "Home-Grown"
escritos nos rótulos colados neles. Ela cultivava uma variedade de
maconha, plantada em caixinhas que ficavam em cima da
geladeira, junto de uma outra de papelão que continha velas em
forma de frutas. Levando-se em conta que Madeleine era uma
moça que trabalhava fora e estudava, o lugar até que era muito
armmado. Fazia um lindo contraste com o da adolescente que
estocava restos de comida e invólucros de hamburgers nas gavetas
de lingerie de sua mãe.
O telefone tocou e Madeleine contou em voz alta até três. Parecia
uma serpente à espera da presa. Uma televisão em preto e branco
com o som desligado e a imagem embaçada transmitia as notícias
locais.
— Acha que vai ficar? — perguntou Madeleine, finalmente,
tirando a atenção do telefone.
— Quem sabe? Se fico, gostaria de rachar o aluguel.
— Não se preocupe com isto — respondeu, espreguiçando-se.
— Quanto você está fazendo no Gucci?
— Não muito. Uns 825 dólares, por aí — Claire ficou es-
pantada. — O proprietário disto aqui é ótimo rapaz, não me
pressiona quando estou curta de dinheiro. Mora duas casas acima
nesta ma e me deixa usar sua piscina sempre que eu quiser. O pai
lhe deixou uma fábrica de botões que vendeu logo depois de o
velho ser enterrado. Ele vive da renda de um milhão de dólares
mais ou menos. Mas, voltando a você, não estou achando que vai
voltar para o Drake's, meu bem. Para alguém com o seu tipo
aquilo é o fim da picada. Não vai ter a menor dificuldade de
encontrar trabalho em Los Angeles. Há falta de pessoas de talento
na praça.
— Em Rodeo Drive?
O telefone tocou e Madeleine contou em voz alta até três e só
então atendeu. Rodeo Drive caíra no gosto de Claire. Haviam
passado por ali no caminho de Beverly Wilshire. Era uma ma tão
descontraída, tão informal... Jamais vira fregueses entrando e
saindo das lojas vestidos tão à vontade. Nada daquela multidão
apressada da Fifth Avenue. Sem dúvida, Rodeo Drive tinha o
espírito de uma cidade pequena, apesar da presença de Gucci, Van
Cleefi Courrèges ali. Madeleine fazia caretas no telefone, por fim
disse que telefonaria mais tarde.
— Onde estávamos, mesmo?
— Não era nada de importante — disse Claire. — Faça o que
tinha de fazer. Já estou indo dormir.
— Vou ficar por aqui esperando um pouco e cochilando
durante o programa de Carson. — Ela fechou o fichário com suas
anotações. — Podia fazer alguns programas, mas prefiro não ir.
São dois depravados. Uma perda de tempo. Tipo embalo, uma
besteira dessas aí.
— O que você está querendo é ser atriz, não é?
—É. E estou fazendo o grande papel de minha vida. Mas para este
não dão Oscar. Ah, Claire... não gosto nem um pouco desse
negócio. Bom, é a inflação, vamos deixar a culpa com ela.
Claire foi juntar-se a ela no sofá, olhou o fichário cheio de cartões
entre as páginas e depois o colocou em cima da mesa.
— Mas o que significa essa coisa toda?
— Não me posso dar ao luxo de ter um computador IBM. Ainda
tenho de fazer eu mesma as minhas fichas. — Franziu a testa,
espichou o braço para pegar um baseado na concha, acendeu e
deu algumas puxadas.
Claire apontou para o caderno e disse:
— Você chantageia esses caras?
— Isso se eu fosse sabida. Vou catalogando todas as pessoas que
vou conhecendo e dando a elas diferentes categorias. Na verdade
não estou no ramo para valer. Alguns sujeitos me pagam quando
estou desesperada. O meu amigo do Pips e este homem de
Brentwood. Esse tem fixação em seios e me paga 75 dólares para
chupá-los. — Ela se levantou e foi meter uma pizza congelada no
forno. — Que recepção lhe estou dando, hein?
— Não deixe a pizza queimar. O forno está muito alto. Comece
em forno brando e depois aumente.
— Ah, querida, é tão bom você estar aqui. Estava com saudade,
ouviu?
— Ouça, telefone para o cara, se está precisando de dinheiro, e
vá...
— Hã-hã. Mas preferia ficar conversando com você; além do
mais estou bem de dinheiro.
Foi telefonar para Brentwood, enquanto Claire cuidava da pizza.
Subiu a grelha para a parte de cima do forno e depois de ela
assada a poria para corar. Sua amiga gostava da comida bem
estorricada. Madeleine desligou o telefone c disse a Claire onde a
pimenta cm pó deveria estar; veio, então, espalhar-se de braços
abertos no sofá. Tomavam cerveja, enquanto a pizza crepitava no
forno. Claire surpreendentemente sentia enorme bem-estar.
Madeleine era ótima, quando queria disfarçar alguma coisa. Ela a
observava enrolando um baseado.
— Estou contente de ter vindo.
— E eu também. Teria odiado que você sofresse sozinha por
causa de Bobby.
— Não vou telefonar para ele — disse Claire indo ao fogão
retirar a pizza. Cortou-a em dois pedaços com a faca de pão e
depois pegou dois pratos limpos no armário. Era ela quem ia
servir o jantar. Madeleine apagou o cigarro. Claire pegou um
pedaço de pizza e deu um sorriso para Madeleine. A bebida
gelada começava a fazer efeito, ela estava sentindo-se esplêndida.
— Agora me deixa dizer o que tenho para falar e a gente depois
não toca mais neste assunto. Não me sinto incompetente, porque
isto eu não sou. O que se passou com Bobby nada tem a ver com
dinheiro. Pode acreditar, não tem mesmo. Não tire conclusões
apressadas, fazendo dele algo como um prostituto. Nem no
trabalho ele consegue prostituir-se. Ele não se aproveitou de mim.
Nosso caso era de amor mesmo... e gosto dele por isso.

Capítulo IX
Não era porque se estava em meados de junho, a estação de
divórcios em Beverly Hills, que todo mundo iria embarcar nessa
onda. Havia certos pragmáticos chatérrimos como Sylvia Rubin,
por exemplo, que viu ser esta uma boa época para faturar em cima
da reconciliação. Isto, depois de ter enchido os cofres de seus
advogados com depoimentos, processos de investigações e todo
um lixo legal que havia deixado Gary com a corda no pescoço.
Bobby se inteirara da situação no apartamento dele e agora,
enquanto o ajudava a carregar os seus objetos para a nova
caminhonete de Sylvia, uma 300 TCD, havia chegado à conclusão
de que existiam certas coisas no gesto magnânimo dela que eram
inconcebíveis às pessoas normais.
Era um dia de sábado e aquela profusão costumeira de ciclistas,
corredores olímpicos e virtuoses de skate já estava em ação,
atravancando a Spaulding Drive. Homens já entrados em anos
iam batendo bolas nas calçadas enquanto não chegavam a
Roxbury Park para suas partidas de basquete; outros, os aris-
tocratas, com mais raquetes de tênis do que Borg teria levado para
Wimbledon e provavelmente também com uniformes mais na
moda do que os do sueco, aqueciam os músculos dando pulinhos
e fazendo flexões nas esquinas, enquanto não atravessavam as
mas que iam dar nas quadras de tênis. Com uma camisa de malha
cinza e uma velha calça caqui e a barba por fazer, Bobby carregava
o último dos caixotes de Rubin para a elegante caminhonete de
Sylvia.
— Mas, se não consegue suportar Sylvia, por que, então, está
voltando para ela? — Ele não simpatizava com a mulher do
amigo.
— Porque gosto de meus filhos e Sylvia é uma mulher
perigosa. Ela usa isso contra mim e também possui alguns es-
tratagemas que não se ensinam nas escolas de Direito. Para co-
meçar, Sylvia não conseguiu nenhuma oferta pela nossa casa, que
fosse suficiente para ela se sustentar, depois de já estar à venda há
seis meses. A casa deve valer uns 550 mil e ela pede 800 mil
dólares. E você bem pode imaginar que na merda em que está o
mercado, com tudo hipotecado por aí, essa venda não vai
acontecer nunca. Sou eu quem ainda sustenta a casa e faz todos os
gastos.
— Então, quer dizer que o divórcio pifou por causa do preço
da casa?
— Exatamente. Assim, ela não vai precisar de vendê-la. Na
verdade, Sylvia está cagando sobre a gente. Ela está querendo a
reconciliação só para que não haja, durante um certo tempo,
despesas com advogados. Tanto com o dela quanto com o meu.
Bem, Bobby, nesse meio tempo, você vai sublocando o
apartamento por 400 dólares mensais. E... divirta-se.
Bobby apertou-lhe a mão com um sorriso.
— Não vou mandar trocar as fechaduras.
— Tudo bem, garoto esperto. Logo estarei de volta. Estamos
dando um churrasco hoje à noite. Você está convidado.
— Confirmo depois.
Tornando a entrar, Bobby pôs-se a trabalhar: meteu os pratos e
copos na máquina de lavar louça, juntou sua roupa suja num saco
e escreveu uma lista de compras. Inesperadamente, sentia-se
prostrado. Havia gostado de ter Gary por perto e, desde que
voltara, os dois estavam sempre fazendo programas juntos.
Hillary partira para o Havaí um dia depois de ele ter viajado para
Westport. Leonard não tinha notícias dela e nenhuma idéia de
quando voltaria. Isto foi o que Bobby conseguiu entender.
Ninguém se intrometia na vida pessoal de Hillary. Leonard
continuava com o mesmo jeito amigo, mas não mostrou maiores
interesses quando lhe contaram sobre o rompimento do
casamento dele. Estava claro, como Bobby percebeu, que ele
queria manter-se numa posição de neutralidade. Quanto a Claire,
ele havia contado em ter notícias dela, mas duas semanas já
haviam passado e nenhum comunicado seu lhe chegara.
Continuava com o seu sentimento de culpa que, naturalmente,
não poderia desaparecer milagrosamente.
Seguindo um impulso, discou o número de Claire em Westport e,
após alguns instantes, uma gravação lhe informou que o telefone
fora desligado. Perplexo, telefonou ao seu escritório no Drake's.
Toda loja faz feriado aos sábados, Claire, entretanto, estaria lá,
pois, não importava como tivesse sido a sua semana e ainda que
estivesse doente, ela teria de estar na loja para controlar as vendas
e para fazer a remarcação de preços nas mercadorias para a
semana seguinte. Conseguiu falar com uma das secretárias do
departamento de compras que lhe disse que Marcy estava de
férias e que Claire tinha deixado o Drake's e que ninguém sabia
para onde ela tinha ido. Tampouco adiantou ligar para os seus
pais, que não lhe deram maiores esclarecimentos.
Claire havia desaparecido. Convenceu-se de que alguma desgraça
ocorrera. Sentou-se na mesa da cozinha olhando sem ver a página
de esportes do jornal. Lembrou-se da mãe em Las Vegas e
resolveu seguir esta pista, quando voltasse da ma. Pegou, então, o
saco de roupa suja e tirou da garagem o novo carro, um Honda
Civic prateado. Fora Hayward quem generosamente alugara o
automóvel para ele. Dirigiu para Pico Boulevard. Primeiro, largou
a roupa, depois, foi a uma farmácia comprar lâminas de barbear e
daí dirigiu-se ao Owen's Market, um supermercado, onde abrira
uma conta. Perambulava por entre as fileiras de mercadorias,
pegando os mantimentos de todo solteirão: café instantâneo (seis
pacotes), duas embalagens de refeição congelada e garrafas de
uísque e vodca. Ia por ali como um sonâmbulo, sem conseguir
tirar o rosto de Claire da lembrança.
Depois que voltou ao apartamento, não saiu mais. Nossa, o que
estaria havendo com ele? Não era capaz de racionar. Das pessoas
para quem deveria telefonar, a única que estava faltando era
Madeleine. Tirou o caderno de endereços e discou o número dela.
Claire estava na varanda, sentada, e Madeleine lhe gritou, dizendo
que deixasse, que ela atenderia. Ao pegar no fone e ouvir a voz de
Bobby, imediatamente bateu com ele no gancho, mas, depois, o
retirou e deixou o aparelho desligado. Saiu para a varanda. Claire
estava relaxada, tomando um gim-tônica: estava começando a
adquirir um magnífico bronzeado.
— Adivinhe quem telefonou?
— Deixe de brincadeiras, fale logo.
— Bobby... o que é que você acha? Quer falar com ele?
— Claro — disse emocionada. Pulou da cadeira, agarrou uma
toalha para retirar o óleo e foi botar o fone no gancho. Deu um
sorriso para Madeleine. — Meu Deus, como foi bom seguir o seu
conselho!
— Não lhe disse para confiar na mamãe aqui?
Bobby tentou duas vezes mais discar o número de Madeleine, mas
dava sinal de ocupado e aí desistiu. Desempacotou as compras,
abriu uma das garrafas de uísque, ligou a televisão e ia ver o Jogo
da Semana na NBC, quando o telefone tocou.
— E mais difícil falar com você do que com Fred Silverman.
Primeiro, dá sinal de ocupado durante horas, depois, ninguém
atende e depois, ocupado outra vez — disse Hillary.
— Que bom que você está de volta! Por que não me mandou o
seu endereço?
— Tinha a impressão de que nos havíamos dito adeus. — O
tom da voz era provocativo e brincalhão...
— Recebi o seu telegrama... Vamos nos encontrar? — per-
guntou ele aflito.
O riso que ela deu do outro lado estava cheio de ressonâncias
alegres que fizeram com que ele se lembrasse de uma intimidade
por que estava ansiando.
— Não consigo acreditar no que você fez — disse ela. . Houve,
então, um silêncio embaraçoso. — Oh, Bobby... estou sentada no
meu quarto com uma penca de roupa suja pelo chão, chorando e
rindo ao mesmo tempo. Derramei suco de laranja no tapete e... se
nós vamos nos encontrar? Se depender de mim, sim, para nunca
mais nos separarmos. — Aquele extravasamento de afeto deixou-o
emocionado. — Não costumo largar facilmente as coisas que
desejo... Oh, Santo Deus, nunca vou deixar que fique longe de
mim. O que você pensa disso?
— Formidável — admitiu, sentindo que o destino dos dois
agora estava firmemente unido. — Que tal hoje à noite?
— Perfeito.
— Gary voltou para a mulher e me convidou para um
churrasco.
— Que ele fique assando a sua Sylvia sem nós. Você gosta de
futebol?
— Estou justamente nesse instante olhando o jogo Pirate e
Cincy.
— Então a gente podia ir ver os Dodgers hoje à noite. Que tal?
Temos entradas para os jogos do campeonato e o meu pai não vai
usá-las. Ouça, vou encomendar uns sanduíches no Nate'n Al's e
faremos um piquenique.
— Eu pego os sanduíches lá. Tim alugou um carro para mim.
— Só Deus sabe aonde pode chegar depois que sair daí. Venha
logo que puder. Traga o calção de banho. Quero exibir o meu
novo bronzeado.
Ele correu para tomar um banho e fazer a barba; o rádio estava a
toda altura, e, alegre, juntou sua voz às do Supertramp.
Meteu o calção numa sacola e estava quase saindo, quando o
telefone tocou. Distraidamente, tirou-o do gancho e ouviu Ma-
deleine, num tom melodramático, perguntar-lhe como ele estava
indo.
— Com muita pressa. Posso falar com você em outra ocasião? Ah,
uma coisa — acrescentou, como se lhe tivesse ocorrido no
momento —, você tem sabido de Claire?
— Isso é importante?
— Na verdade, não. Só queria saber se ela está bem.
— Vocês terminaram?
— Acho que sim.
Ele foi cumprimentado pelo sobrenome pelos empregados e uma
criada o acompanhou até a piscina. Alçando-se num colchão
flutuante, ele viu surgir a sua deusa. Ela estava usando um biquíni
de cetim branco. A coisa mais reduzida que até então já vira. Os
cabelos louros tinham madeixas quase que platinadas feitas pelo
sol. Com destreza, ela veio trazendo o colchão à borda, manobrou
e pulou para o degrau mais alto da escada de modo que pudesse
sair apenas com os tornozelos molhados. O biquíni era tão cavado
que ele viu abaixo do umbigo um pequeno tufo de cabelos. Não
compreendia como alguém tão loura como ela pudesse ficar com a
pele tão escura. Estava bronzeadíssima e com os olhos azuis-claros
e os cabelos dourados, o contraste era tão acentuado e
surpreendente que ele por instantes ficou sem respirar. Ela não
falava, só sorria com a radiosidade inocente de uma criança.
Pegou a mão dele e o levou para uma mesa sob um guarda-sol,
perto do pavilhão, onde se sentaram. Sobre a mesa, havia uma
quantidade de pratos frios, queijos variados e uma garrafa de
Chablis dentro de um balde de gelo. Ela serviu o vinho.
Novamente, ele se viu presa de seu encanto entrando no clima que
ela sabia criar, de amor e entendimento perfeitos.
— Se nada tornar a dar certo na minha vida, vou lembrar-me
deste momento com você — disse, colocando a mão dele sobre o
seu seio. O coração batia desesperado.
— Que coisa mais estranha para falar, Hillary. Estamos apenas
começando.
— Nunca sonhei que isto pudesse se tornar realidade. Bobby,
Bobby, você não faz idéia...
Ele se inclinou por cima da mesa dando-lhe um beijo. Ela tinha tal
capacidade para estimular emoções ardentes que suas
preocupações em relação a Claire estavam fadadas a desaparecer
no brilho de sua personalidade.
— Foi horrível com Claire?
— A coisa mais cruel que já fiz.
— Você falou sobre nós?
— Tive de contar.
— Ela me odeia?
— Claire não é desse tipo de gente.
Nos olhos dela, Bobby percebeu uma estranha mistura de desejo e
sentimento de culpa. Sabia que estava apaixonado por Hillary,
mas não previra que pudesse ser tão correspondido no seu afeto
por ela. Ficar apaixonado é um acidente da sorte, mas encontrar
uma moça como Hillary, com tais predicados de beleza e fortuna,
querendo possuí-lo, era algo que lhe dava uma estranha sensação
de poder.
— Bobby, posso ser sincera e indelicada?
— Você não consegue ser indelicada — brincou.
— Claro que consigo quando o assunto é você. — Ele bebia o
vinho e olhava a piscina circundada de azulejos franceses. Numa
das extremidades, uma aparelhagem Jacuzzi fazia a água agitar-se
e exalar vapores, como se estes emergissem do centro da Terra —
Bobby, me prometa, por favor, que nunca mais vai ver ou falar
com Claire.
Poderia até ser que o pedido não fosse inteiramente insólito, mas o
rosto de Hillary se achava tão desfigurado e era tal a sua
expressão de abatimento que ele ficou surpreso com a veemência
da sua súplica.
— Não posso prometer... mas isso é provável que aconteça, não é?
— Não vai prometer?
— Bem... Como posso? Pode acontecer de me encontrar com ela e
aí devo fingir que não a conheço?
— Estou sendo desarrazoada?
— Claro que está. Sossegue, Hillary, não se preocupe.
Foi com uma angústia indizível que ele a escutou, contando a sua
viagem ao Havaí. Lá, passava bêbada da manhã à noite, dopada
de remédios e Deus sabe mais do quê. Viveu com ela o seu
tormento, amaldiçoando-se por ter contribuído para ele.
— Uma depressão assim, há anos não sentia. Nunca pensei que
algum homem me fosse levar a esse estado.
— Às vezes você me põe nervoso. — Ele a botou no colo e lhe
acariciava os cabelos, mimando-a como um pai faz com o filho que
acorda de um pesadelo. — Hillary, sou um simples mortal que
também tem problemas. Não espere de mim coisas que estão além
de minhas possibilidades. Só quero fazê-la feliz.
— E eu quero dar-lhe a minha vida.
A maneira como ela se entregava por inteiro a ele era aflitiva, ia
além de uma intenção de agradar ou de um mero devotamento.
Ela se deixava consumir por ele que, mais do que nunca, temia um
fracasso. Ele se via completamente despreparado para enfrentar
este desnudamento de alma e se preocupava com a confiança que
estava sendo depositada nele. Quem poderia satisfazer tais
expectativas? Entretanto, havia algo de tão apaixonadamente
submisso, transcendendo o ciúme, que ele se sentia bem ouvindo
aquelas juras de amor.
Nadaram por uma hora e ela o chamou para trocar de roupa e
tomar banho no seu quarto. O luxo espetacular da suíte deixou-o
estupefato. Na sala de estar havia uma quantidade de quadros
impressionistas, para ser exato, eram oito. Degas, Renoir, Manet;
os outros não se deu ao trabalho de olhar, como também passou
pela escrivaninha Luís XIV como se ela fosse um objeto que todos
os dias estivesse vendo. No banheiro, o boxe do chuveiro também
funcionava como sauna; ao longo dele, havia uma banheira
Jacuzzi, revestida de mármore italiano com veios cor-de-rosa. A
penteadeira era um móvel Chip-pendale, com lavatório, e tinha
sido laqueada de azul-marinho para que não se estragasse com a
água. As três peças eram pintadas em vários matizes de rosa. Ela
dormia num leito com quatro colunas que sustentavam uma
tapeçaria oriental. A vista do terraço dava para a piscina e lá havia
um conjunto de vime formado de poltronas, espreguiçadeiras,
balanços e uma mesa. Só Deus sabe quem ela andou recebendo ali
ou o que acontecia pelas madrugadas adentro. Se chegasse a ser
esse o caso, a perspectiva de conservar Hillary era bem
implausível e ele prontamente a descartaria.
Uma das paredes do banheiro era inteiramente revestida de
espelho, a outra estava ocupada por um armário francês rústico de
três metros de altura que guardava pilhas de toalhas e tudo
quanto fosse perfume e maquilagem do mundo. Ele pegou um
vidro de Norell, lembrando-se daquele cheiro.
— Você gosta desse perfume? — perguntou ela volteando na
banheira entre borbulhas e óleos aromáticos.
— Gostava.
— Lembra alguém a você?
— Ninguém em especial.
Procurando adaptar-se a todo aquele luxo, ele entrou sob o
chuveiro e se pôs a lavar os cabelos com um negócio chamado
Jojoba, recomendado por Hillary. Quando ia começar a secá-los
com uma toalha, ela lhe deu um secador. Passaram, em seguida, à
sala, onde ela pegou do congelador uma vodca Wyborowa que
tomaram pura. Ele ficou surpreso ao ver que ela com todos
aqueles cosméticos a sua disposição, passou no rosto apenas um
creme hidratante e um pouco de água-da-colônia no corpo,
penteando os cabelos simplesmente para trás. Quando ele foi
devolver-lhe o secador, ela bolinou o seu traseiro.
— Gosto de ficar andando por aí ao seu lado... parece tão natural
— disse ela.
— É mesmo, não é?
Ouviram o barulho de um carro e ela foi à janela.
—Meu pai chegou. E melhor se vestir — sugeriu sem qualquer
nervosismo.
— Boa idéia.
— Não que ele seja careta, mas...
— Não precisa explicar.
Num instante, vestiu-se e foi com o drinque para a sala de estar.
Lá, achou um exemplar da Architectural Digest no qual notou
uma página marcada. Ao olhar o que era, deu com a suíte de
Hillary, no centro da revista, fotografada em cores. Percebeu,
então, o que havia de maravilhoso em ir com ela a um jogo dos
Dodgers. A simplicidade da moça, não obstante sua riqueza, era
uma dessas atrações fascinantes e inesperadas que Hillary possuía
em larga escala. Ela entrou na sala, os olhos brilhavam cheios de
amor. Usava jeans de Mac Keen, blusa tipo tomara-que-caia e
levava um casaquinho leve de cashemere azul. Bem inserida no
contexto, pensou.
— Deixei minha bolsa no banheiro — disse ele.
Ela lhe deu um beijinho na boca. Com sua maneira displicente,
serena, Hillary o conquistava por completo.
— Encontro-me com você lá embaixo.
Ele guardou o calção molhado com o resto de suas coisas e
aspirou forte. O ar estava impregnado de uma fragrância ir-
resistível, deliciosa. Junto da penteadeira, numa cesta de lixo de
porcelana, havia uma quantidade de vidros vazios de No-rell. O
perfume era mais forte em volta da privada e ele notou que os
vidros tinham sido despejados dentro dela.
Desceu a escada um tanto desconcertado com a descoberta.
Hillary era possessiva e não fazia mistério disso. Podia entender o
ponto de vista dela. Afinal, fora responsável pela ruptura de seu
casamento e o seu interesse por ele não era exemplo de culpa.
Estava estupefato, jamais pensara em si como sendo posto a
prêmio. Era destituído de vaidades e pretensões em tudo que não
se referisse a sua profissão.
Encontrou Leonard na companhia de Ann na biblioteca. Sobre
uma mesa, achavam-se pilhas de pastas de papéis. Leonard
mostrou-se bastante atencioso, mas a expressão de seu rosto era
de preocupação e abatimento. Era óbvio que o momento não era
para bate-papos inconseqüentes e Bobby, por isso, recusou o
drinque que, só pro forma, lhe ofereceram.
— Qualquer noite destas, iremos a um jogo — disse Leonard. —
Ah, a propósito, eu tenho entrada para o Rams, se gostar de
futebol. É a última temporada dele em Los Angeles.
Bobby sentiu aquele tremor adolescente ao abrir a porta de seu
novo carro para Hillary. Ela era a primeira mulher a entrar nele.
As aparências são enganadoras e no caso de Leonard eram
positivamente mentirosas. Ele vivia cercado por riquezas fa-
bulosas, mas havia muito não tinha condições de pagar as suas
dívidas. Casa, quadros, Rolls-Royces e La Puerta em Rodeo Dri-ve
poderiam ir a leilão dentro de 30 dias e ele nada poderia fazer
para evitar o desenrolar deste infeliz processo. E mesmo que
satisfizesse os seus credores, pagando-lhes os juros, ainda assim
estaria devendo 50 milhões de dólares a bancos e companhias de
seguros. Se ainda conseguia dormir durante a noite e não atirar o
carro num barranco era devido ao seu espírito de luta e à
confiança que depositava no sonho de sua Arcadia para
recompor-lhe o império periclitante. Leonard, o muito conhecido
Leonard Martinson, por 30 anos, havia habilmente jogado com a
especulação imobiliária até ser surpreendido pela retração do
mercado, e foi por causa deste desgraçado incidente que Ann
Shaw se fez presente na sua vida.
Até recentemente, Ann trabalhava na carteira de financiamento do
Barclays Bank em Beverly Hills. Ganhava 28 mil dólares por ano
como assistente do vice-presidente e todos os dias passavam por
suas mãos pedidos de empréstimo da ordem de centenas de
milhões. Uma recomendação dela na primeira fase do processo de
triagem tinha efeito de vida ou morte nos empréstimos.
Alguns meses antes conhecera Leonard num coquetel no Bistro e
vira aí a oportunidade havia muito esperada. Dois dias antes tinha
sido o carrasco dele, botando-lhe a corda no pescoço com
requintes maquiavélicos.
Leonard tinha bastante nome e era um milionário reconhecido. A
sua fama de filantropo, colecionador de arte e construtor
projetava-se igualmente como a placa de HOLLYWOOD. Levou
anos cultivando a imagem de patrono das artes, enquanto
construía horrores em terrenos no Valiey e em Orange County. O
único problema que enfrentava era o de estar sem crédito. Os seus
compromissos iam muito além de suas reais possibilidades.
Aproveitando-se da época em que disparara o mercado no sul da
Califórnia, fez uma série de transações de caráter duvidoso;
entretanto, a sua oferta para construir a nova sede da Marine
Mutual Insurance em Century City tinha sido aceita por Frank
Dunlop, o presidente da companhia. Mas, existiam certos
problemas: o terreno não era dele, só a opção para a sua compra, e
além disso não tinha condições para levantar empréstimo para o
financiamento da obra.
Ann percebeu que, se Leonard estava recorrendo ao Bar-clays e
não ao United Californian Bank ou ao Bank of America era porque
deveria estar atravessando dificuldades grandes. Ao analisar-lhe a
ficha, viu que a situação dele estava negra, e foi assim que
encontrou um homem taciturno e preocupado, quando foi ao seu
encontro no Bistro com o seu copo de martíni na mão.
Apresentou-se e ele, imediatamente, empertigou-se quando ela
lhe disse quem era. Depois o charme dele encarregou-se de fazer o
resto, terminando por sugerir que fossem jantar no Ma Maison.
Ele errara, ao pensar que um jantar num restaurante de categoria e
uma apresentação a Patrick Terrail, o proprietário de maneiras
profissionalmente acolhedoras, fossem produzir algum efeito em
Ann.
Enquanto ele estava brindando o começo de uma nova amizade, a
sua abordagem usual para sugerir com ar inocente que estava
sexualmente interessado, ela pensava na resistência dele para
suportar o golpe que ia desferir. Ele era um homem de espírito
vivo com uma vasta cabeleira grisalha e pele bronzeada, como se
ali o sol nunca se pusesse, tinha o físico magro e compleição
harmoniosa. Tão belo quanto consegue um homem que está
próximo dos 60 anos, ainda vigoroso e se julgando eterno.
— Espero que fale sério sobre essa coisa de amizade.
— Claro. Já me disseram que você é muito bem considerada no
banco.
— Receio que isto seja verdade.
Ele passou os olhos na mousse de salmão que pedira como prato
de entrada e tomou a observação como parte de uma estudada
modéstia britânica.
— Mas me fale sobre você.
— Como sei que você não tem muito tempo, vou dizer só o que
interessa — disse ela usando de franqueza. — Estou aqui há
pouco mais de um ano e trabalhei durante seis anos com um
grupo financeiro em Londres, fazendo consultoria imobiliária.
Mantenho ainda contato com o pessoal de lá. Eies estão
procurando por bons negócios aqui na Califórnia e oficiosãmente
lhes envio informações. Vim para cá porque queria trocar Londres
por alguma coisa diferente.
Estava convencida de que Leonard estava começando a ficar caído
por ela.
— Você está contente no banco?
Ela percebeu o seu interesse profissional nela.
— Muitas vezes não. Sobretudo quando aparecem em cima de
minha mesa cenas coisas desagradáveis. Como funcionária da
carteira de empréstimo, tenho naturalmente de estudar o mérito
de cada caso que me é proposto e não vetá-lo logo de saída antes
que ele seja julgado pela comissão de empréstimo.
Leonard ainda não percebera a intenção existente atrás da
conversa dela. Afinal, ele era um dos filhos diletos de Deus, da-
queles que foram designados pelo Todo-Poderoso para empestar a
Califórnia com construções horripilantes e shopping centén as-
querosos. Seria o projeto em Rodeo Drive que iria reabilitá-lo.
— Posso compreender as suas dificuldades.
Apareceu uma outra garrafa de Blanc des Blancs e o garçom
tornou a encher as taças com mais champanha. Ela esperava que
Leonard não fizesse qualquer outro brinde.
— Bom, voltando à parte suja de meu trabalho... mas que isso
fique aqui entre mim e você...
— Ann, acho que ainda vamos tomar-nos grandes amigos. É
um pressentimento e eu confio no meu instinto.
Com expressão de incerteza, ela mexeu a cabeça afirmativamente.
— Nada sei sobre os seus instintos, Leonard, mas sei que está
enterrado até o pescoço. Você tem comprado adoidado, como faria
um simples amador, terrenos para construir por toda parte.
Os cantos da boca de Leonard caíram, deixando transparecer o
seu desapontamento, e subitamente pareceu mais velho, ficando
pálido, com ar preocupado.
— Não estou entendendo.
— Bom. Eu tive de vetá-lo. Seu pedido foi descartado pelo
departamento de empréstimo por recomendação minha.
A vitela com acompanhamento de legumes havia chegado.
Leonard não conseguia esconder o seu abatimento. Estava a pique
de estourar.
— Posso passar por cima de você — disse ele, desafiando-a.
— Tente. Estamos acima de suas tramóias.
— Olhe aqui... quem você pensa que é?
— Alguém que pode fazer com que você tenha crédito
novamente. Se você, Leonard, não honrar os seus compromissos
com a Marine Mutual, vai acabar construindo tendas no
Afganistão. Está entendendo o que quero dizer? Fiz uma análise
cuidadosa de seu patrimônio e, se não quiser minha ajuda, verá
que daqui para a frente uma boa parte de seus amigos estará
fugindo de você como o diabo da cruz.
Ela, então, deixou de falar de negócios para concentrar-se
inteiramente na sua vitela, tenra, clarinha, no ponto; os legumes
estavam frescos e os rostos felizes de George Hamilton e Kirk
Kerkorian, sentados em mesas próximas, criavam um feliz
interlúdio visual, enquanto Leonard tentava recompor-se.
— E, realmente, estou enterrado até o pescoço — admitiu ele.
— Conte-me sobre isso — disse ela procurando reanimá-lo.
— Percebi que ia haver uma alta no mercado e me descontrolei.
Imagine, logo eu, depois de tantos anos nesse negócio. — Ele não
conseguiu prosseguir; no rosto daquela in-glesinha esperta estava
estampado o fantasma de sua mina. — Mas... parece que você
falou em me ajudar... — A voz não tinha mais as ressonâncias
veludosas de um borgonha, soava como se ele estivesse na UTI de
um hospital.
O garçom apareceu e Ann prestou atenção a sua cantilena,
enumerando as sobremesas.
— Uma mousse de chocolate e depois café, está bem, Leonard?
— Para mim, só café.
— Então divide a mousse comigo, que tal?
Com olhar perspicaz, o garçom fez sim com a cabeça.
— Não posso trabalhar no banco e ao mesmo tempo ficar
inteiramente ao seu dispor. De qualquer modo, mesmo que
pudesse fazer certas coisas por baixo da mesa, haveria conflito de
interesses. Não gostaria de sujar a minha ficha. Quero pedir
demissão, mas saindo limpa. Só então poderei vir trabalhar para
você como relações-públicas do departamento financeiro de sua
firma. Você me pagaria 50 mil mais despesas.
— Por quanto tempo?
— Por alguns meses.
— Meu prazo expira em 1? de julho.
Ela atacava a mousse com toda a delicadeza; era como se fosse um
operador fazendo um transplante.
— Ah, sei disso. Em junho, estarei em condições de entrar com
os meus recursos particulares.
— Quais seriam os termos? — Ele acendeu um cigarro de fumo
escuro, estremecendo com o seu gosto.
— A pessoa em quem estou pensando arrumaria 25 milhões
em dinheiro em troca da metade do lucro de Marine Mutual. Com
tal quantia na sua conta, qualquer banco financiaria a obra para
você.
Ele balançou a cabeça recusando.
— Isso é roubo.
— Bem, então pegaremos o negócio quando você já estiver
arruinado.
Ele levantou a mão num gesto agressivo, dando um olhar furtivo
pela sala. Sua vista bateu em Army Archerd, da Variety, que
estava numa outra, inteiramente absorvido na leitura de um
artigo.
— Fale mais baixo.
— É a primeira vez que me mandam falar mais baixo. Esse é o
ponto de partida da paranóia financeira. Já vi isso acontecer em
Londres. Quanto a mim, vou pedir aos meus advogados Mayer e
Glassman para prepararem um contrato que garanta os meus
honorários de corretora do negócio. — Ela sorriu para ele com
doçura. — Nunca trato nada sem advogados por perto.
Leonard por instantes sentiu uma certa esperança, mas ela era
temperada com inquietude.
— Como posso ter certeza de que realmente vai lançar mão dessas
pessoas?
Ela torceu o sumo da casca de um limão no café e pediu um
Calvados. Gostava do sabor simples e forte do brandy depois de
uma farta refeição. Isso a fazia recordar ser a filha de um rústico
fazendeiro de Yorkshire que até hoje ainda se levantava às quatro
da manhã para cuidar de suas terras.
— Eles confiam em mim. Afinal, fiz a mesma coisa para eles em
Londres. Nós compramos, lá, uma meia dúzia de companhias na
bolsa, antes que os problemas delas fossem conhecidos
oficialmente. Oh, sim, eles fazem o que digo, meu querido.
Leonard sentiu-se aliviado ao saber que Bobby e Hillary não iam
ficar em casa e agora, cara a cara com Ann, não conseguia conter a
sua fúria. Desde o jantar deles em março que ela o vinha fazendo
suar frio. A história sobre o grupo de investidores que ela estaria
reunindo já não servia mais para acalmá-lo. Mas o que fizera com
que explodisse naquela tarde fora uma conversa, ouvida ao acaso,
ao servir-se no bufê na casa de Dunlop. Dois banqueiros, antigos
amigos, estavam na sua frente na fila e um deles comentou que ele
estava arruinado. O outro tranqüilamente concordou e ambos se
mostravam felizes por terem adotado uma atitude prudente, ao
recusarem-lhe empréstimo. Ele, mais do que depressa, saíra da
casa de Dunlop, pouco ligando para o almoço; telefonara
imediatamente para Ann, ordenando-lhe que fosse o mais rápido
para a sua casa.
— Acha que a coisa é séria com Hillary?
— Não pedi que viesse até aqui para discutir a vida sentimental
de minha filha — resmungou. Ela lhe deu um olhar indulgente.
Era dessas mulheres que possuem uma conformação facial que
resiste à ação do tempo. O tom de pele era rosado, com ela nada
de bronzeados, e tinha uma eterna expressão de surpresa no rosto
que deixava Leonard exasperado.
— Qual é a crise?
— Cinco milhões de dólares que têm de ser dados como garantia
para se poder fechar o negócio na sexta-feira que vem ou do
contrário perco minha opção na compra do terreno de Century
City. Frank Dunlop irá processar-me e eu vou à breca.
— Isso não vai ser problema.
Ele levantou as mãos num gesto de desespero.
— Para você nunca nada é problema.
Como garantia do terreno de Marine Mutual, ele já tinha dado 5
milhões de dólares. O preço era de 15 milhões e Leonard tinha
ainda pela frente mais duas prestações: uma em 1? de julho e
outra em 1? de setembro. No contrato rezava que as fundações da
obra não deveriam ultrapassar a data de 1? de dezembro, e,
dificilmente, ele iria poder construir num terreno que não lhe
pertencia.
— Você vai ter um cheque esta semana e o seu empréstimo
será concedido.
— Santo Deus, como pode ser tão displicente nessa coisa toda?
— Leonard, o pessoal que represento tem negócios espalhados
por toda a Europa. E impossível fazê-los comparecer aqui.
Nunca até então tratara os seus assuntos de maneira tão
desleixada e estava profundamente ofendido com o fato de o
mundo financeiro se ter voltado contra ele. Sua vida estava nas
mãos desta mulher e toda aquela mansidão usada como arame
farpado punha-o simplesmente louco.
— De onde está vindo o dinheiro?
— Da Suíça ou das Bahamas... o que for mais conveniente para
eles — falou com indiferença. — Você vai fazer ótimo negócio, não
se preocupe.
Ele quase teve uma congestão ao ouvir essas palavras. Fora
obrigado a ceder metade do lucro de Marine Mutual para obter
esse dinheiro.
— Ann, nosso acordo não é o usual nesses casos. Sua gente me
tem nas mãos.
— Se não gosta disso, ponha sua coleção de quadros em leilão.
— Já foram dados como garantia quando fiz o empréstimo
para a primeira prestação. E os juros estão comendo alto.
— Mas o que aconteceu com o seu espírito de luta? Você está
deixando-se derrubar — disse ela para testar a sua presa, falando
desdenhosamente.
Ele correu, nervoso, as mãos pelo rosto, afundando-se no sofá. A
pressão estava dando cabo dele. Tremia. A vida que
meticulosamente construíra seria arrasada e teria de passar pela
ignomínia de uma falência; se essa quebra fosse avassaladora, e
ele pressentia que seria, a justiça e o imposto de renda destacariam
um batalhão de agentes para vasculhar a sua vida. E encontrariam
muitas coisas, muitas irregularidades. Sem dispor de somas altas
para contratar advogados, a sua cidadela viria abaixo.
— Leonard, escute o que lhe vou dizer — começou ela a falar,
sentindo ter chegado o momento psicológico exato para isso. —
Você vai conseguir os 10 milhões para completar essa compra,
mas acho que deveria estar preparado para negociar os 15 milhões
que vai ter de pedir emprestados para a construção.
Ele se viu aniquilado. Ele, como o construtor, já não cedera a
metade de seus lucros?
— Pensei que estivesse tudo incluído no nosso trato.
— Sim, mas isso foi há alguns meses. As taxas de juros ficaram
uma coisa de doido no mundo inteiro. Eles conseguem com este
dinheiro taxas de 25 a 30 por cento.
— E o que é que eles querem?
— Não sei direito, mas suponho que estariam preparados para
discutir algum tipo de participação em La Puerta.
— Entregar uma fatia de Rodeo Drive? Nunca!

Capítulo X
Madeleine não estava gostando dos sintomas que observava em
Claire. Já eram 19:30 e fazia horas que sua amiga não dava uma
palavra. A perspectiva de passar a noite de sábado em casa era
algo que não a atraía nem um pouco. Se alguém fica com a bunda
grudada numa cadeira vendo televisão, comendo uma tigela de
abacate e com farelos de biscoitos escorrendo pelo peito, nada de
interessante pode acontecer-lhe na vida. Ela havia pensado em
arrastar Claire para o Joe Allen's, o seu ponto habitual, quando
queria travar relações com pessoas que também estavam na
mesma luta para serem descobertas, mas resolveu tomar um outro
rumo. No começo da tarde, fizera uma reserva no Giovanni's.
Alguém lhe havia dito que, lá pelas 22:30, ela poderia ser levada
para o andar de cima, onde ninguém iria vê-la, mas, paciência,
uma hora no bar ali podia ter suas recompensas. Em Los Angeles,
nunca se sabe quando sua vez vai chegar. Basta circular bastante e
selecionar as ocasiões certas.
— Não vou permitir que fique por aí pastando a noite toda —
disse, já não se contendo mais. — Meta-se no chuveiro, pinte o
rosto e ponha um vestido de arrasar. Bobby acabou para você e,
com toda a franqueza, as trepadas que você dava com Bobby não
compensavam a sacanagem que você recebeu dele.
Ela puxou Claire para fora do sofá e foi escorando-a até o banheiro
e, ali, ligou o chuveiro no máximo. Apontou para as toalhas e
deixou aberta a porta do boxe, ficando as duas respingadas.
— Você tem exatamente uma hora.
— E por que não? — disse Claire.
— Puxa, finalmente está entendendo como é a coisa. Você tem
24 anos e, embora não me interesse por mulheres, apesar de já ter
pensado nisso, pelo menos para experimentar... mas o que eu
dizia era que você tem uma bunda e tanto, para não falar na
babaca mais linda que já vi.
— Babaca não.
— É uma palavra feia? — disse com afetação, pronta para
meter-se na pele de um personagem que fizera num teste para
descoberta de novos talentos na Comedy Store. Por sinal, não fora
contratada.
— Tenho ouvido isso ultimamente com muita freqüência. Claire
depositou a roupa em cima de um cesto e ajustou
o chuveiro. Uma das torneiras precisava ser apertada, mas con-
seguiu assim mesmo pô-la no ponto médio e dava para se tomar
um banho razoável.
— Vamos tomar uns drinques e flertar com Telly Savalas e Dick
Zanuck e, quem sabe?, podíamos até esticar no Daisy depois.
— Com um cabeleireiro bicha? — perguntou Claire dando um
salto dentro do chuveiro.
— Ei, sou eu quem vive aqui, não você. Quem sabe portanto
das coisas sou eu, sabia?
Claire fechou a porta. Já não era mais capaz nem de lágrimas, nem
de desapontamentos. Somente iria conseguir sobreviver se
aceitasse o fato de que ela e Bobby haviam terminado
definitivamente. A esperança era uma irumiga e compreendeu
que o melhor era não tê-la, pois ela iria destruir os bons momentos
que ainda tinha na vida.
Vestiu uma calça cinza-pérola com uma blusa de seda num tom
forte de vermelho que combinava com os sapatos também
vermelhos. Penteou os cabelos para cima, deixando cachinhos em
torno das orelhas. Nunca havia recebido anel de noivado, as
únicas jóias que tinha eram um relógio de pulso, um colar com um
camafeu e alguma bijuteria. Ela fazia um gênero século XIX e,
apesar de jamais se ter surpreendido comparando-se com outras
mulheres, estava certa de que podia competir com Madeleine ou
outra qualquer. Madaleine parecia uma bombinha de creme num
vestido branco de decote cavadíssimo. Claire teve vontade de
pedir-lhe que botasse uma echarpe para que a risca do seio não
aparecesse tanto, mas desistiu da idéia.
Ela estava achando constrangedor sair à procura de homens, logo
na primeira noite em que punha os pés fora de casa, mas sabia
também que esta era a única maneira de recuperar a auto-estima.
Ao entrar no bar do Giovanni's, alheia aos olhares interessados
que ela e Madeleine atraíam, pensou na loucura daquela situação.
Os dois, Bobby e ela, finalmente juntos em Los Angeles, mas cada
um tomando rumos diferentes. Apesar de ter sentido por ele uma
onda súbita de desejo, quando recebeu o seu telefonema pela
manhã, não se permitia mais ser levada pelas emoções.
Ele não iria voltar e o que os dois haviam tido juntos era
irrecuperável. Realmente, não tinha vontade de tornar a vê-lo.
Reconhecia, agora, que ter vindo atrás dele fora tolice, ingenui-
dade sua, tudo em desacordo com a última noite que passaram
juntos. Também não estava mais acovardada pelo fato de ter saído
de Westport. Era bem possível que descobrisse alguma coisa nova
para fazer e com o tempo iria perdendo-se no tumulto daqueles
solitários e sem raízes que imigram para Los Angeles.
Do lado de Madeleine, formou-se um grupinho de homens;
estavam passando-lhe cantada. O ambiente estava cheio de ruído
de vozes tagarelando sobre seriados da televisão, programas de
TV e a respeito de pensões obtidas com divórcio. Havia grande
animação no restaurante, enquanto o serviço corria
impecavelmente. Um homem bonito e com jeito de valentão
encontrou um espaço junto de Claire, e o barman, sem que nada
lhe fosse dito, abriu uma garrafa de água mineral e serviu com
uma rodela de limão. Ele lhe parecia familiar e ela poderia jurar
que já o vira na televisão ou no cinema. Era esbelto, atraente e a
pele tinha um esplêndido bronzeado. Dele emanava uma sensação
de virilidade sem ser, contudo, agressiva. Ia dirigir-se a ela, mas
fez uma leve interrupção e Claire gostou dessa reticência deixada
no ar, ela era lisonjeira.
— Está esperando alguém? — perguntou ele depois de alguns
minutos.
— Não. Esta noite é um programa só de mulheres.
— Mora aqui?
— Estou acabando de dar o grande passo. Cheguei do leste e
acho que vou ficar.
— Cada vez mais gente está fazendo isso. Em alguns meses,
estará perguntando-se como pôde suportar todos aqueles
invernos. — Ela percebeu que ele era um homem muito charmoso
e deixou que continuasse falando, querendo convencê-la de que
fora vítima de uma grande catástrofe geográfica até se manifestar
o seu desejo pela Califórnia.
— É verdade, o que seria do mundo sem skates e asas deltas,
não é?
Ele deu um riso meio forçado; já estava acostumado a este tipo de
ironia.
— Peço só que dê uma chance à cidade. Você já deve ter lido
muito sobre isso aqui. — Parecia muito seguro de si e à vontade
na efemeridade daquele pequenino universo constituído pelo
restaurante. — Mas, primeiro, o que tem de fazer é conhecer
pessoas simpáticas.
— Primeiro, tenho é de conseguir um emprego. — Ela, então,
explicou o trabalho que tinha como responsável pelo
departamento de roupas femininas do Drake's, dando uma im-
portância e uma dimensão a sua posição que nada tinha a ver com
a realidade daquele complexo monolítico de bugigangas. Antes,
parecia que ela falava do sofisticado Bendel's.
— Talvez possa ajudá-la — disse, não com fanfarronice ou que
se pudesse daí depreender que esperava algo em troca, e ela
tomou com indiferença o oferecimento, como uma dessas
conversas de bar que depois é esquecida. — Para que horas
reservou a mesa?
— Para as 10 e meia.
Ele chamou o maître com os olhos. Um italiano suave e bonito
aproximou-se e inclinou a cabeça. —- Pois não, senhor.
— Carlo, não haveria uma mesa para a senhorita?
— Há uma que vai ser desocupada agora.
— Pois não, Sr. Giovanni.
— Por favor providencie.
Claire não estaria entendendo absolutamente nada.
— Não sabia que era o proprietário — disse Claire.
— Bem, espero ainda encontrá-la muitas vezes. Claire
apresentou-se e Giovanni afetuosamente segurou
a sua mão.
— Foi muita gentileza sua. Tive muito prazer.
— Bom, é que acho que você é um encanto — ele deu um sorriso
luminoso — e existe sempre uma razão prática nas coisas que
faço. Não gosto de ver mulheres sozinhas sentadas no bar. Dá
margem a interpretações erradas. Pode acontecer de dois rapazes
ficarem indóceis. Não costumo ter incidentes dessa espécie aqui. E
você é bonita demais para ser confundida com as mulheres que
estão à venda nas espeluncas.
Era evidente que ele tinha gostado dela e que estava irritado com
toda aquela turma em volta de Madeleine que tinha três rodadas
já de drinques esperando por ela, pagos pelos seus admiradores.
Ela se inclinou em direção a Claire e lhe perguntou se gostaria de
ir ao Pips depois do jantar com dois dos sujeitos que estavam ali
com olhares vorazes em cima dela.
— Não. Vai você.
— Você se importa? — perguntou Madeleine, já decidida a
aceitar.
— Ora, não seja boba.
Giovanni fez um sinal aprovador com a cabeça e conduziu Claire
à mesa, enquanto Madeleine, excitada, confirmava o programa.
Claire não tinha muita certeza se ela estava a serviço ou só se
divertindo. Giovanni sentou-se em frente de Claire, acenou para
alguns clientes nas mesas próximas e passou, então, a concentrar
toda a atenção nela.
— Tenho impressão de que não está querendo muita com-
panhia esta noite.
— É uma pergunta ou uma constatação?
— Bom, isso me parece encorajador. Será que podemos, nós,
fazer um programa depois do jantar?
— Devo acreditar que um homem como você não tenha
companhia? Ou melhor, que não tenha uma seleção dos melhores
vinhos em belas garrafas esperando só para serem servidos?
— Muito bem. Você adivinhou. — Ele tinha um olhar sincero e
um ar de distinção que atraía Claire. Se isto era verdadeiro ou
mera maneira profissional de fazer a corte parecia não ter
importância para ela. Estava sendo cantada e isto lhe dava prazer.
— Gosto de caras novas — admitiu ele — e depois sou esnobe.
Fiquei observando quando entrou, ignorando o estouro da boiada
a sua volta.
— Não percebi.
— E foi por isso que eu percebi.
— Você é casado?
— Antes de isso acontecer, os meus dentes vão cair primeiro.
Depois de jantar, Claire ficou sabendo por Madaleine, falando
muito e ligeiramente alta, que Giovanni havia sido um ator de
segunda categoria. Havia 10 anos abrira aquele restaurante e o seu
interesse por cozinha, somado à sua arrogância natural, resultara
no restaurante mais badalado de Beverly Hills. Foi então que
Claire descobriu por que achava que o tinha visto antes. Com
efeito, lá estava ele ferido ou morto nos episódios do FBI e Deus
sabe de que outras porcarias mais que vira quando criança. Era
sempre o seu o corpo caído na sarjeta, depois de ele ter
descarregado seu revólver na cara daqueles marcados pela Máfia
para morrer. Ed Giovanni tinha a característica de ser o bom
pistoleiro profissional que topava com o seu assassino em hotéis
obscuros e que depois de morto era muito chorado por todos.
Claire recordava-se de ter lido um artigo sobre ele no New York
Magazine, tratando da personalidade dos proprietários de
restaurantes. Fora na sala de espera do seu dentista, enquanto
aguardava ser atendida. Em pessoa, era muito atraente, nada do
cara caindo para trás com uma bala entre os olhos e depois
beijando a calçada, enquanto Jack Lord ou Robert Stack, limpinhos
e arrumados, ficavam olhando o cadáver.
Por volta das 23:30, ela foi juntar-se a Ed no bar, enquanto os
últimos clientes partiam. Claire não tinha noção do que um
esperava do outro. Estava aberta a qualquer sugestão. Depois de
agradecer efusivamente e beijá-lo nos dois lados do rosto,
Madaleine se mandou para o Pips. Giovanni não apresentou conta
alguma a elas. Cortesia da casa. Visto que no menu não havia
preços, Madaleine teria de estar preparada para mostrar sua
gratidão por outras maneiras mais práticas. Na saída ainda
sussurrou-lhe:
— Você vai ter o fino esta noite.
— Sorte de principiante.
A casa de Giovanni estava empoleirada num beco sem saída atrás
do Beverly Hills Hotel; era muito despretensiosa e Claire não
tinha a menor idéia de quanto poderia custar aquela simplicidade.
Uma casa no estilo rancho não deixa de ser um rancho, pensou
enquanto Ed estacionava o seu Mark I Jensen na entrada de
automóveis.
Antes de entrar, Ed torceu a chave do alarme contra ladrões, só
depois abriu a porta e a fez passar ao vestíbulo cujo piso era de
tacos de carvalho e teca e estava muito bem encerado. No centro,
havia um tapete de pele de um animal que ela não identificou. Ele
acendeu as luzes da sala e regulou a claridade; pressionou, em
seguida, outro botão que fez sair música de quatro caixas sonoras,
distribuindo o som uniformemente à volta deles. Era uma sala
simples, com poltronas de couro, um sofá masculinamente
forrado com tweed e um tapete cor de chocolate, fazendo
contraste harmonioso com a mesinha de centro de vidro e abajures
de metal cromado. A sala rinha equilíbrio e a sua simplicidade
produzia sensação de aconchego e conforto. Alguns quadros
modernos estavam pendurados nas paredes de revestimento
rústico, e, disposta numa vitrine, havia uma coleção de objetos de
artesanato mexicano.
Claire se instalou na janela que moldurava o jardim. Vapores
subiam de uma fonte, tornando mais acetinada a água da piscina.
O bar tinha a maior variedade de garrafas que até então vira em
algum lugar que não fosse um restaurante.
— Presente dos fornecedores — explicou, servindo conhaque
em dois copos apropriados. Ele a observava. A intimidade, que de
saída tinha existido entre eles, curiosamente desaparecera e Claire
mostrava-se reservada, insegura.
— Talvez seja melhor eu esclarecer de uma vez que...
— Não há necessidade de explicações — interrompeu ele.
— Gostaria de falar para não ficar pensando que eu sou uma
aventureira. Estive noiva... quer dizer, durante esses dois últimos
anos só saí com um homem.
— Não se casou?
— Aí é que está o problema.
— Ainda está sofrendo?
— Estou tentando superar. Ficar sofrendo não vai ajudar-me
em nada e francamente me chateia ficar rodando por aí, me
sentindo como se o mundo tivesse acabado.
— E acabou? — perguntou com simpatia.
— Sim.
— Então, sou o primeiro desconhecido com quem sai depois
de dois anos e está sem saber até aonde pode chegar. É isso que a
está incomodando, não é?
— De certo modo. — Ela percebeu que ele gostara de ter
ouvido isto.
— Olhe, para mim é uma coisa repugnante forçar alguém. Só
porque veio a minha casa, não significa que tem de dormir
comigo.
—Eu gosto de franqueza.
— No instante em que botei os olhos em cima de você, gostei
do seu jeito. Mas, Claire, somos pessoas civilizadas. Fazemos
apenas o que nos convém — disse compreensivamente. — Não
estou pressionando. Começamos honestamente. Não estou
querendo que pare de pensar no passado.
— Mas eu quero parar.
— Dê tempo ao tempo — disse calmamente. A perspectiva de
ter uma protegida o atraía. Aos poucos, faria com que ela fosse
desabrochando e, além disso, existia a possibilidade de ela trepar
por vingança, um doce sentimento que bulia com a sua vaidade.
Ela não era muito experiente e a sua candura tocava em alguma
coisa dentro dele. Inexplicavelmente, ele estava gostando mais
dela do que poderia justificar um conhecimento tão recente, e,
como homem vivido, que durante a maior parte de sua vida
passara entrando e saindo de aventuras, essa descoberta o
emocionava, levando-o a pensar que não era tão invulnerável
como pensara que fosse. Além da enorme atração física que sentia
por ela, havia qualquer coisa mais em Claire que não sabia direito
precisar. Talvez fosse o fato de ela não ter idéia de como realmente
era bonita, de como sua voz era musical ou, então„ porque nela
estavam personalizadas certas virtudes de moça de cidade
pequena que foram esquecidas no meio sofisticado em que ele
circulava. E o fato de não estar suspirando por uma carreira
artística tornava-a mais desejável ainda. Centenas de starlets já
haviam passado por ele e agora fugia delas como da própria lepra.
Eram umas tipinhas como a amiga dela, vivendo de casquinhas,
dispostas a entregar tudo de bandeja. A perspectiva de educar
Claire e apresentá-la às pessoas na cidade era das mais sedutoras.
Sabia que, depois de passar com ela, os homens estariam
comentando nas suas costas: "Puxa, onde o Ed consegue essas
gatas estupendas?" Além disso, sentia-se também propenso para
galanteios. Sempre tivera uma atitude displicente, mas Claire fazia
brotar nele uma ternura de que não se imaginava capaz.
— Você parece um tanto perdida — disse ele. — Há alguma coisa
que gostaria de fazer? Tenho centenas de tapes. Podíamos ver um.
Ela hesitou, depois abanou a cabeça.
— Isso provavelmente pode parecer esquisito...
— Vamos, peça — disse encorajando-a.
— Bom, nunca nadei de noite numa piscina. Vai ser complicado?
Quero dizer, você vai ter de botar tudo quanto é máquina para
funcionar?
Fantástico. Com isso, ela o conquistou definitivamente. Por tudo
quanto estava percebendo, ela nunca vira na vida uma piscina
particular.
— Dia e noite, a temperatura da água é de 32 graus. Há uma
batelada de maios na cabana.
Ele foi com ela para fora. Era uma noite perfumada e, para sua
surpresa, quente e sem nenhum vento. Ela se pôs a mirar
encantada a piscina e ele teve vontade de abraçá-la, oferecer-se
para protegê-la, mas, achou que isto poderia assustá-la. Enquanto
esperava que ela se trocasse, mal podia acreditar nos sentimentos
de estima e respeito de que se viu tomado. O caseiro tinha ido
passar fora o fim de semana e foi com prazer que ele colocou sobre
a mesa garrafas de conhaque, vinho, água gasosa, tudo que, por
acaso, pudesse querer o seu novo brinquedinho. Depois das
milhares de noites no seu restaurante e de incontáveis conquistas
que não passaram de trepadas inconseqüentes, nada o havia
preparado para ter Claire.
— Encontrei um que serviu. — Ela usava um maio preto de peça
inteira; ele sorriu para ela timidamente.
O seu corpo tinha algo de etéreo; as pernas eram longas e
graciosas, o busto firme, bem-formado, e os ombros com uma
suave proporção. Era delicada na sua conformação, apesar da
altura, e inconscientemente deixava transparecer sua feminilidade.
Ainda por cima, não queria ser artista, não iria importuná-lo com
apresentações para agentes e produtores. Que sorte a sua!
Ela experimentou a água com a ponta dos pés.
— Está perfeita. Você não vem?
— Não. Vou ficar sentado, me dando ao prazer de olhá-la. Ela
estava ao lado dele e, então, num impulso, deu-lhe
um beijo na boca. Ele não a abraçou, deixou simplesmente que ela
ficasse com o controle da situação. Mas, pegou, depois, no seu
braço e tocou na cicatriz em ziguezague que se formara ao longo
dele.
— Tenho de ensinar-lhe como se parte carne.
—É — disse ela com uma careta e mergulhou, em seguida, na
piscina, nadando com braçadas longas e vigorosas e fazendo uma
volta perfeita debaixo d'água.
Como é que um homem podia fazer uma coisinha daquelas
sofrer?, pensou. A natureza humana o deixava perplexo, se bem
que se considerasse ótimo avaliador de caracteres. Mas não estava
a fim de deixar aquela doçura sumir de sua vida. Ela veio
descansar ao lado da piscina, aos seus pés.
— Você joga tênis?
— Não. Passei esses últimos cinco anos ajeitando um de-
partamento de roupas femininas. Não tinha tempo. Minha grande
realização na vida — disse com sarcasmo.
— Bom, Alex Olmedo terá uma nova aluna. Mandarei que ele
reserve umas aulas para você.
— Por quê? Nós nem nos conhecemos.
— Acho que é um bom investimento. Um dia espero jogar dupla
com você.
— Não faça planos.
— Tem razão, Claire. Mas, às vezes, a gente se sente compelido a
fazer rapidamente cenas coisas para os outros sem medir as
conseqüências.-Receio, querida, que chegou a minha vez.
Ela não respondeu. Era-lhe impossível naquele momento; estava
vivendo o seu primeiro conflito de pessoa sozinha nessa nova fase
da vida. Por que não iria gostar de Ed Giovanni? Se bem que
suspeitasse de que, quando chegasse a hora de ir com ele para o
quarto, e isso era inevitável, ela iria sair correndo. Sentia-se
atraída e, sem dúvida, ele saberia mostrar-se delicado e
apaixonado. Mas como assumir o fato de que aquilo não fosse
nada mais do que simples farra de uma noite? Ele poria o nome
dela na sua lista e depois a abandonaria. Essa era a natureza da
conquista.
Nunca imaginara a possibilidade de alguém que não fosse Bobby
tocá-la. Não estava preparada para outros projetos de vida e se
sentia inteiramente desconcertada nessa situação de ser objeto de
interesse de outro homem. Já não tinha mais importância o fato de
Bobby tê-la chutado. O problema era mais traiçoeiro, estava
centrado no seu julgamento às novas circunstâncias. Los Angeles
era território estrangeiro e Ed, apesar de toda a generosidade e do
luxo que pusera ao seu alcance, representava perigo, era o
desconhecido. Será que ia conseguir passar a noite com ele e
depois ir embora calmamente? A sua volta, existiam mulheres em
quantidade transando sempre com homens diferentes e nem por
isso se sentiam perturbadas ou tinham perdido o respeito dos
outros; ninguém pensava mal delas. Patsy do Drake's, por
exemplo, divertiu todo mundo com sua história de trepar com
irmãos gêmeos e no fim de tudo acabou em gargalhada e com
parabéns para ela.
Ed, percebendo a sua ansiedade, ofereceu-se para levá-la para
casa. Mas ela decidiu ficar.
— Existem três quartos, pode ficar em qualquer um. Acho que
está meio curiosa para saber como seria a coisa com outro homem,
não é?
— Não falemos disso. — Ela enxugava com uma toalha os
cabelos. — Se algum dia tiver uma piscina, vou nadar todas as
noites.
— Enquanto não tiver, será muito bem-vinda aqui.
— Por que você gosta de mim?
— Não tenho a mínima idéia, mas gosto.
— Não estou acostumada a fazer charme para homens. É como se
estivesse de fora vendo outra pessoa em mim. Entende o que
digo? A imagem que tenho de mim está mudando e não estou
conseguindo absorvê-la.
— Na Califórnia, minha querida, isto se chama crescer. Ele, então,
convidou-a para entrar e se vestir dentro de
casa, conservando-se sempre afastado, crente que qualquer ati-
tude precipitada poderia intimidá-la. Certo de que ela valia a pena
ele se dar a este trabalho, resolveu manter o tempo todo uma
postura cerimoniosa. Lembrando-se do número infinito de
mulheres que passaram pelo seu quarto, sentiu que Claire era
especial e por isso tinha de agir com delicadeza. Ela fora
desmoralizada e a sua tarefa seria a de restaurar-lhe a confiança. O
jeitinho de pureza dela o cativava e, ao vê-la saindo do banheiro
com o casaco jogado sobre os ombros e com a blusa vermelha
colada ao corpo, delineando a forma do busto, ele ficou
inteiramente caído por ela. Era de uma doçura espontânea,
fantástica, de uma forma que jamais vira em outra mulher.
Claire veio sentar-se ao lado dele, encostando a cabeça no seu
ombro, mas pelos seus olhos viu que ela estava cautelosa.
— Você parece um tanto incerta.
— Essa noite foi uma surpresa tão agradável... poder conhecê-lo.
— Ele lhe acariciava a nuca, tocando os cabelos ainda molhados
que a toalha não tinha secado. — Ed, vai estragar tudo, se eu for
para casa?
— Claro que não. O que pensa que sou?
— Oh, dava tudo para saber o que gostaria de fazer. Quero
dizer, num instante acho que estou pronta e no outro... — Ela se
afastou, endireitando a posição, e olhou fixamente para ele,
procurando uma resposta. — Realmente, por que está havendo
esse rolo todo?
— Olha, Claire, até que gostaria que existisse rolo mesmo e não
uma coisa de que a gente se esquece. Entenda, é que a hora ainda
não chegou.
Ele estava com 48 anos e Claire tinha o poder de fazê-lo voltar ao
seu tempo de simples ator, quando ainda se esforçava por fazer
carreira e se apaixonava por alguma extra que, no fim, o
abandonava para casar-se com algum diretor, e, para maior azar
seu, a moça acabava quase sempre transformada em estrela.
Desde então, começara a se precaver contra as mulheres e passara
a gozar da liberdade que o sucesso de seu restaurante lhe permitia
ter. Toda primavera, viajava para a Europa, indo comer nos
grandes restaurantes da França e da Itália para ver se algum prato
podia ser incluído no seu menu. Em Bordeaux, passava sempre
uma agradável semana comprando vinhos. Que os seus
competidores servissem e garantissem as excelências do vinho da
Califórnia. Não ele, Giovanni, que realmente fazia a haute cuisine
e por isso os vinhos para acompanhá-la teriam de ser franceses e
italianos. Possuía um apartamento em Aspen e, todo ano, ia
passar um mês lá esquiando. Era uma existência feliz, controlada,
e aonde fosse havia mulheres riquíssimas, solteiras, divorciadas,
oferecendo-se, cortejando-o, caindo em cima dele nas festas,
fazendo desesperados esforços para capturar esse peixão
escorregadio.
Nunca lhe dera vontade de ter vida doméstica normal e, para ele,
criança era uma chatura. Não estava perdendo nada, a vida de
casado não oferecia qualquer atrativo. Sua reputação de libertino
lhe convinha e de fato havia um certo fundamento nisso, mas o
que importava é que ela o ajudava a manter a fama de príncipe
dos restaurateurs de Beverly Hills. Ele ia pensando nessas coisas
todas enquanto vencia as curvas fecha-díssimas de Laurel Canyon.
Ao chegar à Woodrow Wilson Drive, virou e foi devagar por uma
rua estreita que descia uma encosta até localizar a casinha de
Madeleine. Estacionou e se virou na direção de Claire, tal como
um rapaz que pára o carro com a namorada dentro e se coloca na
posição de abraçá-la.
— Ed, fui um desapontamento, não é?
Ele a beijou no pescoço e na testa. Adorou o gosto dela, sentindo o
seu frescor.
— Pensei que já tivéssemos ultrapassado esta fase. Você nunca
me vai desapontar, exceto se deixar de me ver.
— Ah, adoraria vê-lo sempre — disse cheia de entusiasmo. Aos
poucos o espectro de Bobby apagava-se.
— Aos domingos, fechamos, mas tenho um almoço em Malibu,
gostaria de vir?
— Ah, sim. Como devo ir vestida?
— Jeans, qualquer coisa. Não se preocupe. Leve maio.
— Ed, se tivesse insistido, teria acontecido.
— Ainda não era o tempo certo. A verdade é que quero que se
apaixone por mim. Está parecendo que vou entrar na fase de uma
mulher só.
Capítulo XI
Mais de um mês já havia passado e Claire tornava-se cada vez
mais tensa por não conseguir emprego. Estava havendo uma onda
de calor na cidade e ela ficava rodando no Mustang caindo aos
pedaços de Madeleine que não tinha ar-condicionado. O carro
dava estouros, soltava fumaça, rastejava nas subidas, enguiçava
nos estacionamentos, deixando Claire quase louca. Ventos
tempestuosos vindos das bandas de Santa Ana transportavam
nuvens de fuligem provenientes de incêndios desvastadores nos
arredores de Los Angeles. Os boletins meteorológicos
interrompiam a todo instante a programação nas estações para
noticiar os desastres dos incêndios que iam de Ojal a Hollywood
Hills. O mormaço e o calor deixavam as pessoas sentindo-se mal e
Claire ia às entrevistas cambaleando, empapada de suor, só
conseguindo refrescar-se depois de entrar nos ambientes com ar
condicionado das lojas.
No Neiman-Marcus, não conseguiu nem marcar a entrevista; no
Bullock's teve uma série de encontros que redundaram em nada;
onde esteve mais perto de conseguir foi no Ohr-bach's, mas na
hora esta também falhou; o pessoal categorizado do Robinson's
estava de férias e a moça que a atendeu sugeriu que, com o tipo de
experiência dela, o melhor seria que fosse procurar o K-Mart ou o
Zody's. A única oferta que recebeu foi para fazer um estágio no
May Company no centro da cidade, assim mesmo ganhando
salário mínimo, porque não falava espanhol e a maioria dos
clientes da loja era mexicana ou descendente. Fazia o possível para
não usar os cartões de crédito, já que se achava atrasada nos
pagamentos. O saldo bancário estava reduzido a 1 mil e 400
dólares e a constância na recusa de empregos começava a deixá-la
desesperada.
— Por que não fala com Ed para lhe arrumar um emprego? —
aconselhou Madeleine. — Ele tem meios para isso. Não faça
cerimónia, use-o. Santo Deus, você conseguiu que o homem
ficasse inteiramente gamado por você!
E o problema estava justamente aí. Ela não queria misturar esta
sua relação com negócios. Parecia-lhe baixo ligar a sua vida
profissional com o caso que os dois estavam tendo. Já se sentia
muito agradecida por ele ajudá-la a se libertar da amarração com
o passado.
Sempre que quisesse, podia almoçar no L'Esplanade, uma loja de
comidas que era também de propriedade dele. Era um negócio
relacionado com o restaurante e desde a manhã até a hora de
fechar, quando o Giovanni's abria, às seis horas, essa loja estava
sempre repleta de fregueses. Lá, havia de tudo, desde alimentação
natural, galinhas de granja, até os respeitáveis sanduíches de
múltiplas camadas e saladas variadas. Na entrada, ficavam as
vitrinas com pastas caseiras — de queijos diversos, de caviar, de
salmão legítimo escocês, de enguia defumada holandesa, etc. O
negócio de Ed não prosperava somente aí, proliferava, também,
através de serviços para atendimentos de festas para as quais
invariavelmente ele era convidado, e ela, como a boa e querida
amiga, era levada junto. Entretanto, se sentia deslocada, perdida
naqueles ambientes, e além disso tinha o péssimo hábito de dizer
às pessoas que estava à procura de emprego, acabando, com isso,
com a ilusão delas de estarem diante de algum modelo ou de uma
atriz.
Todas as manhãs, deixava Madeleine em frente ao Gucci e
obedientemente ia buscá-la na hora de fechar. Embora de-
sanimada por não encontrar um emprego à altura daquele que
tinha no Drake's; o seu coração, assim mesmo, estava voltado para
Rodeo Drive, era para lá que se sentia atraída. Ela seguia o
crescimento de Rodeo Puena, fascinada pelas suas linhas puras e a
elegância de sua arquitetura. O nome Martinson numa placa
tornara-se tão familiar que havia muito já nem olhava para ele.
Mais do que tudo, admirava as boutiques que não se achavam na
ma para faturar meramente um momento, mas na intenção de
fazerem sólidos negócios. Haviam gasto milhões em decorações;
as fachadas eram esplêndidas, repletas de antigüidades, um luxo
de cores e trabalhos de carpintaria que em nada deviam ao
Chippendale, mas, nessas lojas, o preço era fixado como bem
entendiam. Não havia qualquer lógica para cobrar. Alguém que
estivesse esperando fazer bons negócios teria de procurar em
qualquer outra parte, pois em Rodeo Drive vigorava, sem dúvida
alguma, o princípio do individualismo. Querendo comprar barato,
não adiantava correr a ma, esperando por pechinchas. Que
pegasse o carro e fosse tentar nas lojas de Century City ou em
outras em Wilshire ou na zona este de Los Angeles. O meio-termo
não existia quando se tratava de bom gosto e classe.
A zona das boutiques de Rodeo Drive, que se transformara no
lugar mais caro do mundo para compras, era, havia uns cinco
anos, como ficou sabendo Claire, uma pacata e agradável ma que
servia Beverly Hills. E formada por três pequenas quadras que vão
de Beverly Wilshire a Santa Monica Boulevard, e quem quiser
numa tarde ali gastar 100 mil dólares não precisa andar muito. É
uma ma irresistível para todo mundo menos para as classes pobre
e média que só podem sentir-se indignadas ao ver pessoas que se
dão ao luxo de pagar 500 dólares por uma saia de Céline, 800 por
um casaco em Mr. Guy e têm o privilégio de marcar hora para
provar uma roupa no Bijan que sai por 4 mil dólares.
Tanto quanto Claire estava percebendo, se havia um lugar onde
ela poderia subir na vida, este certamente seria Rodeo Drive.
Havia investigado outras áreas — os shopping centers existentes
em Fox Hills e em Northridge — e elas em nada diferiam daquela
onde estava o Drake's; lá se viam os mesmos monstros de concreto
sem qualquer originalidade, tipo Sears, J. C. Penney ou Ward's.
Servem para satisfazer as necessidades diárias de pessoas que
gostam de comparar preços antes de comprar e acabam
encontrando um lugar onde vão economizar um dólar numa calça
Levi's.
Claire passara anos lidando com a camada mais baixa do mercado
e achava que já era tempo de progredir e descobrir o mundo no
qual Bobby entrara. O poder do dinheiro, terrível e brutal,
representado por cada uma daquelas lojas, deixava-a fascinada.
Ela começara de baixo, como simples balconista, mas esperava que
no final também pudesse fazer uma obra com caráter pessoal de
que muito se falaria e teria ainda influência no resto do país.
Beverly Hills, de Linden Drive até Canon, era um território
inigualável, mas o seu poderio tinha uma atmosfera de
serenidade. Claire, nas suas andanças, descobrira que toda grande
firma de corretagem do país se fazia ali presente e que toda
quadra era dominada por um banco. Em alguns poucos quar-
teirões estava concentrado todo o poder econômico e da indústria
da moda da Europa, de Wall Street e da Fifth Avenue. Essa
concentração de poder num só lugar impregnava a cidade com
um clima de soberania como se neste democrático país existisse de
fato uma corte monárquica. O que na maioria das cidades havia
sido investido em áreas espaçadas por quilômetros, em Beverly
Hills era só atravessar a rua para se ter a mesma coisa. Você podia
ir a pé até o banco para retirar dinheiro, de lá ir ao seu corretor
comprar ações, depois ao Van Cleef's escolher um diamante e, por
fim, comer nos restaurantes Bistro, Giovanni's, La Dolce Vita, tudo
sem ter de pegar o carro. Era um milagre de planejamento dos
mais felizes e as fisionomias relaxadas das pessoas, que raramente
levavam dinheiro, apenas bolsinhas com cartões de crédito,
mostraram a Claire algo de essencial. O pessoal de Hollywood
construíra um palco para fazer compras e viver bem, uma cidade
principesca que superava em muito os cenários mostrados nos
seus filmes.
Nada no passado a havia preparado para a elaborada elegância do
lugar e ela, agora, estava percebendo um pouco do que tinha
atraído Bobby. O mundo também poderia abrir-se para ela. Os
ricos, as personalidades, toda a elite andavam por aquelas poucas
ruas simétricas usando jeans e camiseta, porque as pessoas faziam
questão de estar à vontade. Lembrava-se de que, quando criança,
fora a Nova York com Madeleine e as respectivas mães, e de como
as duas mulheres, então, davam tratos à bola para se
apresentarem elegantes e bem vestidas na esperança de se
misturarem com a society. Absurdo vestir-se com a melhor roupa,
quando tudo que se planejou foi olhar vitrinas, entrar em algumas
poucas lojas e jantar num restaurante francês barato que serve
sopa de cebola enlatada e cuja especialidade, o coq au vin, é uma
poça de vinho tinto com ossos se desmanchando dentro.
Ao chegar ao fim da Rodeo Drive, ela ainda estava espantada com
o cruzamento da linha férrea ao longo da qual rangiam os vagões
de carga que ocasionalmente vinham do sul e faziam com que
uma ilha de Rolls-Royces e Mercedes se formasse ali, até que os
estranhos trens por fim passassem berrando os seus apitos. A vida
ociosa e desestruturada que estava levando não combinava com
ela. Tinha de estar fazendo alguma coisa e, com relutância,
começou a caminhar de volta, descendo a Rodeo Drive em direção
ao L'Esplanade.
Giovanni estava sentado num canto do bar e a porta da entrada
achava-se entupida de gente. Ela se foi esgueirando através da
multidão para encontrá-lo. Ele saiu do bar, fazendo sinal ao Mário
para que assumisse a direção, indo ao encontro dela. Deu-lhe um
abraço afetuoso e a levou para uma mesa junto da janela,
reservada para ele. Cabeças se voltaram quando ele, cheio de
orgulho de proprietário, lhe deu um beijo nos lábios.
— O sol está brilhando, nós estamos vivos, a caixa registradora
não pára de funcionar, então por que todo esse jeito infeliz?
Sabemos todos que está por conta com a vida, mas isso passa.
Ele usava calça de linho azul-claro, muito bem talhada, camisa
Lacoste azulada e sapatos esporte brancos, sem meias. Magro, sem
barriga, de uma gentileza encantadora, ele a envolveu no seu
clima de despreocupação e de serenidade.
— Quer um drinque?
— Não.
— Sim. — Fez sinal com os olhos para Mário e ordenou dois
Campari. Que bicho a mordeu hoje, Claire?
Ela não podia mais conter-se.
— Preciso de um emprego e quero que ele seja em Rodeo
Drive.
— Para ficar perto de mim? — perguntou alegremente. — E o
que mais?
— E de um carro. Não posso continuar usando o de Madeleine.
— Problemas muito graves estes. — Ele se encostou na cadeira,
tentando mostrar-se sério, mas não conseguia ficar sem rir.
— Para mim, eles são, Ed. E pare de fazer troça.
— Darei alguns telefonemas para o pessoal aqui da ma. Não
será problema com a experiência que você tem.
— Foi o que pensei.
— Ei, Claire, você simplesmente se recusa a me escutar. Venho
dizendo-lhe que magazines não é coisa para você. Isso é ninharia e
você já fez. Metade das pessoas aqui em Rodeo Drive nem sabe
onde tem o nariz. Conseguiram ganhar dinheiro mas, a não ser em
alguns casos, a maioria não sabe o que está fazendo. Tudo bem,
então está acertado. Agora, que tipo de carro quer? Um 450 ou um
280Z? De qual você gosta?
— Que tal um Ford Pinto?
Os drinques chegaram e ele ordenou uma salada especial para o
almoço.
— Tenho de admitir que fico feliz por ver que finalmente mudou
de atitude. Você adquiriu essas idéias de classe média e acha que
pedir ajuda é coisa que não se deve fazer. Julga que isso é
degradante. — Ele estendeu as mãos para ela. — Você tem de
aprender a aceitar as coisas que lhe são oferecidas. Francamente,
não sei como conseguiu sobreviver até hoje. Afinal, quem você
conhece nesta cidade a não ser Madeleine que lhe dá tão pouca
ajuda, e eu e mais algumas poucas pessoas que apresentei para
você? Los Angeles parece uma moleza quando se vem de fora. Só
se vêem pessoas jogando golfe, tênis, indo à praia, e isto parece
um vastoplayground. Mas, na verdade, essa é uma cidade dura e
mesquinha. Quando me disse que estava pensando em trabalhar
na May Company, tratei de ficar de bico fechado e deixei que
fizesse o que estava querendo. Sei que não gosta de pessoas
interferindo e não seria por isso que a gente ia entrar numa
guerra, não é?
Ele não estava sendo nem arrogante, nem desagradável, apenas
falava como homem de negócio experiente, conhecedor da roda
em que vivia.
— Não queria que julgasse que estava tirando vantagens da
nossa relação — disse indignada.
— E por que não? Isso iria trazer a você obrigações para
comigo? Ouça, não tenho o menor controle sobre você... suponha
que na semana que vem você chega e me diz que conheceu um
cara e que está dormindo com ele. O que é que vou fazer?
Processá-la?
Eles decidiram fazer negócio com um Toyota Célica de tor creme
num negociante que Ed conhecia no Ventura Bou-levard. Ed
conseguiu que o sujeito reduzisse 500 dólares no preço; uma coisa
incrível, em vista da grande saída deste carro, mas, em
compensação, prometeu-lhe pôr a sua disposição uma mesa na
parte de baixo, não das que ficavam perdidas lá pelo "Himalaia".
O homem, entretanto, só comia no restaurante algumas vezes por
mês e nunca antes das 10 e meia. Claire assinou um contrato de
aluguel por 36 meses, ao fim dos quais poderia comprar o carro.
Apesar dos protestos dela, ele assumiu as responsabilidades da
despesa. O carro seria entregue no seu restaurante no dia
seguinte.
— Sinto que estou vivendo a sua custa — disse atirando os braços
em volta dele depois de saírem da loja.
— Então me faça um favor, assuma o poder e goze a vida. Ele
estava sabendo que ela não tinha a menor intenção
de fazer qualquer coisa neste sentido, e um dos seus atrativos era
justamente querer preservar a sua independência com unhas e
dentes. Fora ele quem insistira para que ela o usasse e não o
contrário; essa era uma novidade para ele, bem melhor do que a
sarna das garotas que ficavam mendigando cartões de crédito e
vales. Estava ceno de que amava Claire, mas entendia que devia
continuar a ter paciência, deixá-la recuperar a confiança, antes de
forçá-la a se comprometer. Tudo que contava era a felicidade que
ela lhe tinha trazido e a sinceridade de suas intenções. Hoje, era
um homem sossegado.
— Vão estrear um filme na casa de um amigo meu esta noite. Al
Brockman, um agente da ICM. Nós dois costumávamos fazer
farras juntos... antes de você aparecer, é claro.
— Posso levar Madeleine?
— Se for preciso — respondeu com ar desconsolado.
— Ed, por favor, isto significa tanto para ela...
— Tudo bem, diga só para ela ir vestida.

Claire pensou que Madeleine fosse ter uma convulsão quando lhe
deu a notícia. Seu rosto ficou branco e ela começou a respirar
fundo.
— Al Brockman! Claire, você tem noção do que conseguiu?
— Que você fosse assistir a um filme, só isso. Acho que vai ter
um bufê ou qualquer coisa do gênero. Ele e Ed...
— Al Brockman! — gania. A capota estava abaixada e elas
estavam paradas numa fileira de automóveis tentando pegar a
corrente que ia para Laurel Canyon. As pessoas meteram as
cabeças para fora das janelas dos carros, pensando que Madeleine
estava tendo algum derrame ou um acesso de loucura. Ela se
levantou sobre o encosto do banco, botando os pés por cima do
pára-brisa, parecendo uma doida.
— Madeleine, pare com isso, ouviu? — Claire recordou-se da
cara de resignação que Ed havia feito.
— Este é o meu début. Ele é nada mais nada menos que o vice-
presidente da ICM, o grande descobridor de talentos de lá.
Ela ainda estava inteiramente fora de si quando chegaram em
casa; impossível de se falar com ela; cantava, delirava, .uma
chatice.
— Claire, você me dá sorte. Sabia que...
Ela correu para o quarto, despejando todas as suas roupas em
cima da cama ainda desfeita e começou a jogar para o lado tudo
quanto achava que não ia servir para sua grande performance.
Botas, sapatos, sandálias estavam jogados pelo meio da sala e ela
corria de um lado para outro, esbaforida, com blusas, vestidos,
pedindo a opinião de Claire.
— Uma coisa mais formal, não decotado, fazendo gênero mais
conservador — disse Claire.
Madeleine abanou a cabeça e, mergulhada em profunda reflexão,
considerava a sugestão.
— Talvez tenha razão, posso explorar algo contrastante. Mas não
se preocupe. Vou estar dentro do figurino.
Dava para se perceber, por esta demonstração de falso glamour,
que a pobre da Madeleine deixava Claire arrepiada. Esse tempo
que estavam vivendo juntas estava sendo uma provação para
Claire, com ela decorando trechos da peça Piquenique que seria
levada num fundo de armazém em La Brea ou então cantando
num gravador, de um jeito cômico e de-senxabido, tentando
imitar Bette Midler e Tina Turner. A Strei-sand, ela respeitava.
Para não falar das suas idas duas vezes por semana a Brentwood;
das caminhadas que dava para ir a uma casa perto, inteiramente
nua, pois este era o jeito como o seu senhorio, um bicha que ali
morava, gostava de recebê-la; do caro tratamento dentário pago
de modo não ortodoxo; dos seus encontros, finalmente, com o seu
benfeitor de 65 anos que a convidava para sua casa onde se
sentavam empertigados na sala, enquanto ela lhe acariciava as
mãos com manchas de fígado e ficavam ali sem falarem, com ele
olhando para os lados temendo o aparecimento de algum netinho
que fosse trair-lhe o segredo. Este é quem soltava a grana para o
seu malfadado curso de impostação e para as aulas de teatro
numa coisa chamada Oficina dos Futuros Astros. Bem, tudo isto
começava a enervar Claire, certa agora de que paciência tem
limites.
Do banheiro chegou o som cacarejado de uma gargalhada e
Madeleine saiu de lá com o rosto coberto por uma lama verde, a
sua máscara de menta, examinando uma guimba de maconha que
segurava com uma pinça. Ela parecia mais um entomologista
transformado em canibal. A fumaça intoxicava. Claire recusou a
puxada que ela oferecia. Da última vez, havia ficado grogue.
— Al Brockman!
— Santo Deus, o que fui fazer — murmurou Claire.
— O quê?
— Nada. Tudo vai dar certo, não é?
— Que pergunta. Espere só até ele me ver. — Ela deu um riso
enigmático. — Sabe? Estive com Brockman, antes de ele partir de
férias. — Continuava com a mesma excitação infernal. — Vendi
para ele uma pasta de documentos de couro de porco bege no
Gucci.
— Ótimo. Você pode puxar esse assunto de couro a noite
inteira.
— Claire — a pobre moça tornara-se mortalmente séria; as
pálpebras pesavam, numa indicação de que estava para fazer uma
daquelas confidências de que Claire já se achava farta. — Não
posso continuar do jeito que estou. Não passo de mais uma entre
outras tantas babacas que andam por aí mendigando entrevistas
com produtores e, quando consigo falar com algum diretor de
produção, esses caras me deixam plantada até meio-dia e meia, a
hora em que as secretárias saem para o almoço. A primeira coisa,
então, que acontece é eles me jogarem num sofá e abrirem o fecho
da calça. Fui feita para coisa melhor do que trepadas em hora de
almoço. Se Al Brockman me apadrinhar, ninguém vai atrever-se a
se engraçar comigo. — Lágrimas jorravam através das suas
pálpebras semicerradas e já não havia mais riso no seu rosto, só
borrões escorrendo pelo pescoço.
— Tudo vai sair maravilhoso, mas acalme-se — pediu-lhe Claire.

Capítulo XII
Na casa de Brockman em Camden, na zona de prédios de Beverly
Hills, Madeleine fazia o seu melhor papel, assumindo um
comportamento suave e reduzindo sua infernal tagarelice tanto
quanto possível. Na verdade, vestida com um jeans rosa-pálido e
blusa amarela florida, podia passar por uma figurinha numa
alcova de um pastel de Bonnard. Ela se misturava com as pessoas,
ria discretamente e fazia o possível para criar um clima de mulher
misteriosa. O único problema era que atacava vorazmente os hors
d'ouvrés chineses e o garçom que, circulando com bebidas, estava
sempre atrás dela com um novo drinque.
Fosse com quem fosse que estivesse falando, seu olhar não
desgrudava de Al Brockman que, em vez de ficar indo de grupo
em grupo, preferiu encostar-se na pedra da lareira, enquanto os
membros daquele círculo fechado vinham pagar-lhe tributo,
sussurrando na sua orelha. E que turma se achava ali! O pessoal
que era ligado aos seriados de televisão, executivos de cinema e
TV, diversas atrizes e um diretor. Embora não houvesse umas 30
pessoas ali, para Madeleine aquilo parecia uma première.
Brockman estendera-lhe a mão quando ela chegara e ficara só
nisso. Ele apresentava, naquela noite, um filme de duas horas para
a ABC, com a intenção de, se fosse bem recebido, transformá-lo
num seriado de curta duração para a TV. Chamava-se Soltos na
Vida e era sobre adolescentes transviados vivendo num centro de
recuperação, dirigido por uma ex-prostituta e ex-drogada que
agora ajudava a recuperar garotinhas grávidas e rapazolas
homossexuais. Havia um rapaz que fazia o papel principal de um
perito em manipulação de pó. Como Angie Dickinson não estava
disponível para fazer o papel da mulher, eles arrumaram uma
outra parecida com ela. Por um segundo, o espectador podia
imaginar estar vendo Angie mas aí Jill Vickers abria a boca e saía
aquela voz empostada, tipo Actor's Studio, parecendo Bacall
gargarejando.
Ninguém tinha dúvidas de que a ABC havia conseguido outro
trunfo para a programação de outono. Uma vez que Brockman
arranjara o diretor, a atriz, o escritor e o produtor, ele estava sendo
considerado o cérebro por trás do filme, como se fosse o autor de
um filme do porte de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.
Todas as peças na casa de Brockman eram pintadas num branco
luminoso e a mobília espalhava-se pelas salas numa gradação de
marrom. Madeleine achou o decorador o máximo. Em cima do
piano, havia fotografias de Brockman com Zanuck, Jack Warner e
Fred Silverman. Al era um homem baixo, de 40 e poucos anos,
com cabelos pretos e finos penteados de forma a cobrir sua careca.
O nariz era curto com narinas parecendo asas de mosquito. Usava
óculos de lentes rosadas e falava numa voz tão baixinha que até os
amigos tinham de espichar a cabeça para poderem usufruir a sua
sabedoria. Embora um número de moças de seu séquito lhe desse
bola, ele deixava transparecer claramente não estar interessado.
Um chinês, contratado para fazer o serviço da festa, anunciou que
o bufê, digno de um mandarim, estava para ser servido; as portas
abriram-se de par em par e os convidados passaram à sala de
jantar onde a mesa e as cadeiras, combinando com as peças
orientais de laca vermelha ali, esperavam por eles.
Madeleine permanecia afastada de Claire, que passava a maior
parte da noite conversando com uma mulher mais velha.
Informada de que esta senhora não era da área, ela se manteve
distante. Rondando pela periferia de Brockman, sem conseguir
passar pela guarda desta imperial figura, ela esperava surgir uma
oportunidade. Ao observar, então, que houve uma certa dispersão,
enquanto ele checava o suprimento de Meursault no bar, ela se
acercou dele.
— Há alguma coisa que eu possa fazer, Al? A pergunta
pareceu tê-lo deixado estupefato.
— Como o quê? — sussurrou.
— Bom, como você não tem anfitriã, achei que... bem, sabe como é,
poderia cuidar para que todos tenham os seus drinques e comida.
Ele caiu das nuvens com a oferta.
— É muita gentileza sua, mas acho que os garçons podem fazer
isso.
Ela nunca havia chegado perto de um figurão da indústria
cinematográfica e a adrenalina subiu-lhe no sangue, deixando-a
tonta. De repente, viu atrás do bar o objeto responsável pela
apresentação de um ao outro: a pasta de documentos.
— Como estava o México? — perguntou, sabendo dos planos
de viagem dele pela conversa que ouvira na loja.
— Turistas demais. — Ele suspendeu os óculos e ela deu com
uns olhos num tom de castanho desbotado olhando para ela.
— Você é... é... quem?
— Madeleine Gilbert. Vim com Ed Giovanni e Claire.
— Nós nos conhecemos? — perguntou com voz abafada.
— Gucci! — exclamou, gorjeando com a voz. — Eu lhe dei uns
conselhos na compra da pasta. Está lembrado agora?
Aparentemente, o acontecimento para Brockman era menos
prodigioso do que o era para ela. Ele fez uma tímida tentativa
para se soltar do canto onde fora encurralado.
— Você já comeu do pato de Pequim? — disse num murmúrio, e,
quando ela deu a entender que não, ele, mais do que depressa,
segurou o seu braço, conduzindo-a à mesa do bufê, ali falando: —
Maitre, faça um prato para esta moça, por favor. — E, antes que
ela se desse conta do que tinha acontecido, dois sorridentes
chineses a rebocaram, pondo-a sentada numa mesinha de madeira
entalhada, em frente do homossexual, perito em pó, que havia
sido reformado e estava precisando novamente de Missy, a alma
caridosa da espelunca de Soltos na Vida.
O rapaz tinha uns 16 anos e imediatamente abordou Madeleine.
Perguntou-lhe se ela gostava de ser chupada e ela fingiu não
ouvir, mas ele escorregou a mão para cima do seu joelho e
solenemente informou-a de que ela devia acompanhá-lo até o
banheiro para esticar uma fileira de pó. Ela largou o rapaz lá e foi
refugiar-se no bar, onde um grupo da claque de Brockman estava
tomando conhaque e outras bebidas depois do jantar. Para sua
consternação, ouviu que falavam maravilhas da atuação
estupenda do garoto e da certeza que tinham de estarem diante de
um grande astro. Todo mundo na ABC estava à cata de um
projeto para encaixar o desgraçado daquele lunático.
De vez em quando, Claire dava uma olhada em Madeleine; para
alívio seu, ela não tinha até agora provocado nenhuma confusão.
Claire havia passado a maior parte da noite na companhia de uma
mulher atraente de seus 30 e muitos anos que, tanto quanto ela,
não gostara do filme.
— É uma piada — disse ela para Claire. — Mas, por causa de
Frank, entramos numa lista de espectadores permanentes de pré-
estréias que ele também abomina. Tenho impressão de que andam
pensando que ele é algum investigador em potencial e ele insiste
em vir, achando que pode estar perdendo alguma coisa.
Eilen Dunlop era delgada, do tipo felino, com um rosto fascinante
de maçãs salientes que realçava os seus inteligentes olhos
castanhos. Os cabelos, também castanhos, formavam um coque,
preso por uma travessa de brilhantes, e o anel no dedo brilhava
como um cometa. A boca era bonita e tinha um modo hábil e
indulgente ao mesmo tempo para tratar o seu marido, um tipo
baixote, bem o oposto dela. O nome dele era Frank Dunlop e a
noite toda esteve alvoroçado por causa de pequenos detalhes
idiotas da festa. Ia de grupo em grupo — sabia-se logo onde ele
estava pela sua voz estridente e a risada alta e debochada — e
depois voltava para Eilen trazendo algum nome para ser incluído
na lista de convidados da próxima recepção deles.
— Frank não gosta de admitir isto, mas ele coleciona pessoas. Na
verdade, ele tem dado azar. Para conhecê-lo bem, leva-se tempo, e
ele tem tendência de forçar as pessoas. Isso não funciona em
Beverlly Hills...
Entretanto, em seus outros empreendimentos, Frank não se havia
mostrado tão azarento. Possuía uma companhia, como Claire
ficou sabendo, chamada Marine Mutual Insurance cuja concepção
envolvia talento e risco. Frank segurava computadores,
presidentes de companhias e embarcações de qualquer tipo, desde
que não transportassem petróleo. Aviões, planos de saúde,
indenizações trabalhistas eram outras coisas que Frank não cobria.
Isso era uma mão-de-obra. O que ele queria mesmo era um Peron,
uma Indira Ghandi ou, então, executivos tipo David Rockefeller
ou Ross Perrot, que fazem seguros no valor de 50 milhões para
ficarem protegidos contra sequestros ou qualquer forma de morte
não natural. Ele era todo solicitude quando se tratava de dar
proteção a corporações do aço, conglomerados da indústria
química e a financistas ameaçados por inimigos. A razão deste
tipo de seguro ser tão vital é que nele se achavam incluídos as
taxas e os danos causados à propriedade. Essa proteção de alto
gabarito possibilitava a Frank cobrar prêmios astronômicos.
Enquanto Eilen fazia a explanação desta intrincada matéria,
Dunlop veio ficar do lado de Claire, sondando-lhe o interesse,
estudando-a em seus mínimos detalhes.
— Seu marido é um gênio, e com uma cabeça como a dele que
diferença faz ser convidado ou não para as festas importantes?
Qual o critério? A festa de hoje é importante? Uma mesa cativa no
Giovanni's ou no La Dolce Vita é importante? Que diferença faz?
Frank Dunlop agarrou o braço de Claire e pela primeira vez
naquela noite mostrou no rosto uma certa expressão de prazer que
fez desaparecer o seu rosnado habitual.
— É assim que se fazem as coisas, querida. Anos atrás,
encontrei um computador IBM a que dei o nome de Lori. Bom.
Lori me disse que eu não podia perder se entrasse nesse negócio.
É um cassino onde eu sou o banqueiro — Claire percebeu que,
com aquele seu pescoço flácido e braços de orangotango, o
simples fato de comprar camisas devia ser um pesadelo para ele.
Era um homem em desacordo com o universo, na sua postura
agressiva e nunca iria controlar essa sua odiosa vaidade que lhe
obscurecia a inteligência sem refinamento. Tudo que estava
querendo era ganhar a atenção dela. Segurou as duas mulheres,
escoltou-as até o bar onde havia três banquinhos vazios, meteu-as
sentadas ali e pediu três Grand Màrniers.
— Frank, o nome dela é Claire.
— Ponha na lista.
— Já botei — respondeu Eilen.
O tempo todo ele ficava franzindo os olhos.
— Stuart é o seu sobrenome, certo? Nunca esqueço. Claire
elogiou-lhe a memória e não imaginava que ele já
estivesse um tanto quanto bêbado.
— Todos os dias acordo, Claire, não é, patroa? — deu uma piscada
para Ellen — e rezo para que a OLP esteja bem e com boa saúde;
que o IRA continue firme no negócio e que as Brigadas Vermelhas
na Itália e na Alemanha tenham seus carros bem abastecidos e
mantenham o alto padrão de violência. Em Milão é um problema.
— Engoliu apressadamente o licor e, com salamaleques, fez um
gesto, levantando o cálice na cara do barman para que este
tornasse a enchê-lo. Acendeu em seguida o cigarro de Claire com
um isqueiro de platina. Igual àquele, ela jamais vira. Entre os
diamantes de Ellen e as preciosidades de Frank, Claire se sentiu
ofuscada. Olhou para Giovanni, mas ele estava sempre ocupado;
ia como uma abelhinha de flor em flor, sem nunca pousar. — O
mais importante é que, quanto mais existirem no mundo pessoas
amedrontadas, mais dinheiro eu ganho. O ano passado, paguei
apenas 50 mil dólares pelo dedão de um fabricante de sapatos. Foi
um que foi seqüestrado por uns garotos. Três anos antes, ele havia
feito um seguro com a Marine Mutual de 4 mil e 500 dólares por
ano. Nós não perdemos dinheiro. — A sua risada escandalosa fez
o barman dar um pulo. — Bom, mas para que serve um polegar se
ele não está na mão que segura a raquete de tênis, não é?
Não era difícil de entender por que Frank Dunlop era tão
impopular, pensava Claire, enquanto ele a massacrava contando
bravatas. Os Dunlop, depois de saírem de Chicago em 1977 e
pagarem 3 milhões por uma propriedade chamada Verona, em
Lexington, não haviam feito o furor que Frank estava crente que
faria.
— Isso foi antes de o mercado ficar completamente louco — disse
ele a Claire quando Eilen se afastou para ir ter com Ed. — Agora
no momento ele oscila entre oito e 10. O que é que você acha
disso? Eu estou construindo o maior prédio de Century City.
Ela ficou curiosa de saber por que um sujeito com uma fortuna
daquelas não conseguia ser um tipo tranqüilo e resolveu tentar
uma aproximação com ele.
— Tenho quatro entrevistas marcadas para amanhã.
— Não me fale de cinema.
— Nada disso, são em lojas na Rodeo Drive. Tenho de aprender...
Ele fazia sinal a Eilen para que ela desse um cigarro, era a mulher
quem guardava o maço de Kent para ele. Como ela não viu, ele
pegou um Carlton em cima do bar, examinou a embalagem e
finalmente acendeu um.
— Você reparou nisso, Claire? Nunca deixo o meu isqueiro por aí.
Sempre torno a guardá-lo. — Dando um sorriso forçado, meio
desajeitado, ele pegou a mão dela e beijou-a. — Ouça, por favor,
acredite. Nunca convido pessoas estranhas, mas, depois que você
estiver instalada, telefone para Eilen e venha almoçar lá em casa.
Claire não ia muito com bêbados, mas, apesar disso, havia sentido
uma certa simpatia por Frank.
— Por quê? Está querendo exibir a casa?
— Não. Porque você me parece sincera e, afinal, vou ter
também um pedaço de Rodeo Drive.
— Não posso telefonar para Eilen. Fica parecendo que estou
atrás de alguma coisa.
— E todo mundo não está?
Ela, condescendente, lhe deu um beijo na testa; não queria que
aquela praga voltasse para casa com o mau humor com que
chegara ã festa.
— Você está precisando de camisas, Frank. As suas não estão
caindo bem. Meu Deus, no Drake's não resolveríamos o seu caso,
mas, em Rodeo Drive, certamente deve achar alguma coisa que
sirva.
— Telefone para Ellen. — Ele atirou um cartão em cima do bar
que caiu entre os cubos de gelo que se derretiam. Claire deixou
que ele ficasse lá; viu, então, que Ed lhe fazia sinal para irem
embora.

No caminho de volta, Claire percebeu que ela e Ed não estavam


muito sintonizados emocionalmente. Ela se manteve distante e
pouco comunicativa. Durante toda a noite, ele ficara circulando,
livre, fazendo charme para uma porção de mulheres. Ellen lhe
dissera que eram conhecidas antigas dele, por isso ela se
conservara longe. Quanto a ele, estava expansivo, cheio de
transbordamentos românticos, bem ao seu jeito. Era a primeira vez
na vida dele que quatro mulheres com quem havia tido relações
íntimas no passado se reuniam com ele numa mesma noite,
debaixo do mesmo teto. Uma proeza que dificilmente outro
homem poderia igualar.
Atravessaram Sunset e deram num declive de ma, conhecido por
quebrar freqüentemente molas de carro. Foi então que ela disse:
— Nem pensar nisso esta noite.
Ele reagiu como se tivesse sido apanhado de surpresa.
— O que é que eu fiz?
— Para casa, por favor.
Ele encostou o carro junto à calçada e se chegou para o seu lado,
mas ela se afastou.
— Esta noite, me senti fazendo parte de todo esse mulherio
que anda atrás de você.
— Ah, agora estou compreendendo — respondeu imen-
samente lisonjeado com o que achou fosse ciúme. — Elas nunca
foram importantes para mim.
— Às vezes você se transforma num... perfeito carcamano. Ele
adorou a observação, estimulava a possibilidade de um
reencontro amoroso, cheio de palavras doces e confortadoras.
Ficaria encantado de ter esse papel junto de Claire. Não podia
levar a sério a recusa dela.
— Estava apenas sendo sociável.
— Verdade? — Ela gostaria que ele dissimulasse mais. — Você
estava tão besta... beijinhos para cá, beijinhos para lá. O que você
pensa que eu sou? Isso se costuma chamar de grossa sacanagem,
ouviu?
— Claire, você está doida.
— Ed, você está liberado esta noite. Chame uma dessas suas
mulheres e vá jogar boliche ou engolir uma pizza. O que preferir.
Impossível explicar alguma coisa. Nem mesmo ferida ela estava,
apenas desanimada, não passava de um número a ser adicionado
nas colunas de sua contabilidade sexual, o que demonstrava que o
seu relacionamento não tinha o menor valor. Ele a levou de volta
para Hollywood, clamando por justiça e bom senso.
— Você não pode levantar o passado contra mim.
— E por que não?
— Você está com ciúme.
— Para o seu próprio bem, queria que fosse verdade.
De repente, a posição dele tornou-se insegura, vulnerável. Ela o
tinha ferido. As semanas junto de Claire se constituíram no
capricho mais feliz de sua vida, uma paixão que não dava mostras
de que ia desaparecer, pelo contrário, estava aumentando,
subjugando-o. A vitalidade e o charme dela o tinham seduzido,
sem falar que na cama era a mulher mais incrível com quem já
tinha trepado. Mesmo depois de estar com o corpo mole, achando
que já tinha tido o bastante, ele se virava, querendo mais, e se
conhecia muito bem, para saber diferenciar desejo de gula.
— Isso não vai acontecer de novo.
— Ed, não me dê tanta força assim. Eu não tenho esse direito e
depois isso faz a responsabilidade ser mais minha do que sua. Foi
você quem me introduziu aqui. Sou sua devedora.
Ele não podia tolerar ser chutado.
— Claire, eu adoro você.
— Vou pensar nisso. Boa-noite.
Ele ficou fora de si; observou quando ela acendeu as luzes na casa
e puxou as cortinas, sem tomar conhecimento dele lá fora. Ainda
permaneceu uns 10 minutos, para o caso de ela fraquejar è sair.
No frio, do lado de fora, despedido, isso era uma novidade para
ele. Ao chegar em casa, tentou telefonar-lhe, mas o fone dela
estava fora do gancho.

Não se deve perder as oportunidades e Madeleine, às escondidas,


subiu a escada, antes de os últimos convidados de Brockman
saírem. Seu descaramento alcançou um ponto novo até para ela
mesma. Usando a parte de cima de um pijama de Al, de popelina
francesa cor de café, ela se sentou no bidê, lendo com atenção o
livro Zen e A Arte de Manutenção de Uma Motocicleta,
imaginando que se tratasse de algum manual de mecânico
amador mais sutil do que os outros que o agente lia quando
queria consertar a sua moto. O fato de o livro não ter nenhuma
ilustração demonstrava ainda mais a extrema versatilidade de
Brockman.
O próprio banheiro já era uma obra de arte, dando-lhe uma nova
visão do funcionamento da parte oculta de Hollywood; ali
estavam uma biblioteca com centenas de livros, telefone com linha
de telecomunicação, aparelhos de televisão e estéreo, uma
banheira cavada no chão, pilhas de scripts cheios de anotações
dos ledores, uma engenhoca, onde ele punha as calças que, com o
apertar de um botão, saíam passadas, e uma geladeira provida
com um aparelho para fazer na hora suco de laranja.
Como se isso não bastasse para confirmar o alto conceito em que
tinha Al Brockman, o agente dos monstros sagrados, ela localizou
entre os vidros de perfume um par de garrafas antigas, cheias de
cristais transparentes e luminosos, do tamanho de uma lasquinha
de unha. A visão de que estava diante de um verdadeiro pó
peruano encheu-a do desejo de envolver Brockman nos seus
braços. O único pó que já tinha encontrado, que lhe fora dado por
um traficante, teria tido melhor destino se tivesse sido usado para
adoçar café. Depois de se ter lavado, continuou a ler; a aspiração
de ser intelectualmente digna de Brockman era uma questão que
exigia múltiplos conhecimentos, motor de dois tempos, pistões,
por aí afora.
Languidamente espreguiçando-se e bocejando ruidosamente—
musicalmente, ela achou — Brockman, sem suspeitar de nada, foi
entrando despreocupado no seu quarto; vendo-a, deu um pulo
para trás, como se estivesse na presença de uma pavorosa aranha-
carangueeira. Ele recuou e ela o surpreendeu num instante em que
a sua propalada fleuma havia sumido por completo. Ele realmente
tinha perdido sua capacidade de ação. Ela, então, foi na sua
direção com um sorriso de canto a canto na boca.
—-Temos o mesmo manequim — informou-o, alegre, antevendo
com prazer o momento em que seria brutalizada por ele.
— Pessoas como você não deviam ser permitidas em Be-verly
Hills sem um visto da polícia.
Ela estava achando a situação hilariante. Brockman havia
levantado a voz.
— Vê? Você não precisa sussurrar o tempo todo. Sabia que podia
falar alto se fizesse um esforço.
Ela permanecia imperturbável, imune ao sarcasmo dele, e Al ficou
tão surpreso que se deixou cair numa cadeira junto à estante de
scripts, fechou os olhos e acenou com a mão na direção dela como
se o gesto fosse capaz de fazê-la sumir.
— Que idéia é essa de...
— Ouça, Al, não precisa ficar falando para mim desse jeito
devagar — disse ela troçando. — Você é o máximo, Al. É ma-
ravilhoso em tudo que faz — continuou, não para adular, mas
com sincera admiração.
— Você costuma abrir as gavetas das pessoas? — perguntou
como se o fato não tivesse grande importância.
— Só abri duas, até encontrar a que você guardava os pi-
jamas... e também o armarinho de remédios, procurando alguma
coisa contra acidez. Puxa, Al, aquele garotão que você me
apresentou torrou o meu saco. Era um cínico, tinha jeito de
tarado...
Brockman parecia cochilar, e ela o lembrou de que ele ainda tinha
uma hóspede. Foi, em seguida, massagear o pescoço dele, igual ao
de uma galinha depenada, assegurando ser o remédio perfeito
para aliviar tensões. Ela já havia estipulado para si um papel em
que se prestaria a tudo, tipo refém de inimigo, e fingia não
entender as intenções dele. Definitivamente, ele não estava
correspondendo as suas expectativas e estes baixos registros nas
vibrações sexuais deixaram-na insegura. Ele levantou-se e
caminhou pelo quarto. Ela, meio incerta, o seguiu.
— Alguma coisa errada?... Está contrariado?
Ele tirou os óculos. A vista estava irritada, e os seus olhos
castanhos, úmidos, evitaram os dela.
— Possivelmente. — Com ela, não se podia ser ambivalente. —
Esta cidade — observou no seu tom abafado de voz — é
construída na base da confiança, real ou imaginária. As pessoas
têm posturas.
Ela se sentiu como se estivesse novamente lendo aquele estranho
livro sobre motocicleta.
— Não estou entendendo.
— Então vou explicar de outro jeito. Quando era criança,
vivendo em Rego Park, minha mãe trabalhava fora e era eu quem
depois da escola tinha de fazer as compras. Detestava
principalmente ter de ir ao açougue, ver nas vitrinas todas aqueles
nacos de carne sangrenta...
— Ah, é? — Talvez ele também se interessasse por culinária.
Nada nele poderia surpreendê-la, pensou.
— E você me lembra uma posta de carne naquele toco de
madeira de açougues. Só falta a serragem espalhada pelo chão e o
avental imundo de açougueiro.
— Puxa, Al, você é delicadozinho, hein?
— Seu nome é Madeleine, ou qualquer coisa no gênero, não é?
— Ela fez que sim. — Será que não pode entender que encontrá-la
aqui no meu quarto é muito embaraçoso e que este seu ato é
extremamente complexo, já que não tem idéia da impressão que
causa nos outros? Você é uma imbecil. Já encontrei muita gente
cínica antes, mas você está numa classe à parte. — Ignorando-a,
ele foi ao banheiro, se despiu e voltou. Fantasticamente, ela achou
algo de positivo naqueles cometarios obscuros e cheios de
floreados. Ele a havia situado numa classe à parte, isso queria
dizer que ela ainda estava no páreo, não fora desclassificada. Na
ausência dele, ela tinha desabotoado o casaco do pijama.
— Você sufoca o mundo com esses seus peitos imensos, cheios
de ignorância. E toda você exala cheiro de coisa alugada... por
hora ou por dia. — Não havia raiva na sua sinceridade, apenas
cansaço e enfado. Falava como um crítico que mostra detalhes
num falso Rembrandt. — O que quer de mim?
A pergunta direta deixou-a embatucada, arrasada pela maneira
serena e sem rodeios com que foi posta. Nada de bolina-ções e das
palavras românticas que imaginara. Ele dava as cartas e ditava as
regras do jogo.
— Ajuda — gaguejou.
— Ajuda? — repetiu a palavra com expressão sinistra na cara.
—Para se tornar estrela, não é?
— É. — Ela se sentia judiada, psicologicamente emporcalhada,
reduzida a nada.
— Quantos anos você tem?
— Vinte e três.
— Não parece ter essa idade. — Ele fez silêncio e depois
suspendeu o queixo dela, como um cirurgião examinando o
paciente. — Parece mais velha. Está muito acabada. Vinte e oito
nos seus melhores dias e olhada pelo ângulo mais favorável.
— Você está fazendo sentir-me como um calhambeque caindo
aos pedaços — queixou-se ela.
— Madeleine, estou sendo camarada... tentando varar essa
atmosfera de bosta que cobre essa cidade. Você é uma nulidade e
sempre será até que meta na cabeça que não tem talento.
A ferida que se abriu enquanto ele falava acabou esguichando na
forma de um grito agudo, desesperançado, emanado do fundo da
alma. Poderia tê-la chamado de puta, traste nojeto, piranha, mas,
não, ele teve de ser perverso, vasculhar o seu interior e arrancar o
que lhe dava vida; isso era desumano.
Ela se atirou na cama dele e, desesperada, batia com as mãos
contra o edredom grosso ali estendido, arrancando nuvens de
poeira. Ele levantou-a para botá-la de pé, mas ela caiu em seus
braços. Inadvertidamente, ele surpreendeu-se com um seio
apertado contra a palma de sua mão e, tal como um receptador
avaliando uma mercadoria quente, examinou a sua carne à
procura de defeitos. Nenhum visível.
— Você me faz sentir tão miserável.
— Eu diria que isso é uma felicidade. Devia atirá-la pela escada
abaixo e mandar a empregada, amanhã de manhã, varrê-la com o
aspirador. — A enorme burrice dela começava a fasciná-lo, como
uma extravagância de sua parte. Ele, quando menino de colégio,
tinha sido um garoto que olhava para as meninas bonitas e de
seios bem desenvolvidos, sem ter coragem da mais leve bolinação.
Estranho como agora as mulheres gravitavam na sua órbita, pois,
na verdade, em nada mudara, a única diferença é que hoje detinha
um certo tipo de poder.
Ao se recompor, ela percebeu que a mão dele não tinha soltado a
sua arma de guerra e se regozijou com o triunfo que a sua
fraqueza pusera nas suas mãos. Muitos homens antes já a haviam
tratado desdenhosamente, mas nunca até então fora espezinhada
de modo tão meticuloso. Entretanto, ele não era de todo um
perfeito filho da puta. Poderia perdoá-lo se ele se mostrasse
bonzinho e atribuir todo aquele desprezo a uma falha de seu
caráter.
— Ainda não tive chance — disse ela — e... você tem direito de
dizer que não tenho talento. Nunca me viu representar. ..
Ele foi sentar-se na beirada de uma cadeira de bambu, olhando-a
com paciência e simpatia, como um professor ouvindo a arenga de
um aluno pedindo para passar de ano. De certo modo estava
impressionado com sua doentia obsessão; por causa de sua
ambição, era capaz de absorver injúrias e sobreviver como se nada
tivesse havido.
— Onde é que tenho de vê-la representando?
— Você nunca vai a teatrinhos ou a espetáculos experimentais?
— Se puder evitar, não.
— Então — ponderou — como descobre talentos?
— Eles vêm a mim.
— Bom, eu vim a você.
Sem sentir, ela pôs a corda no próprio pescoço.
— Não foi bem isso — disse em tom de censura. — Simplesmente,
você chegou aqui servindo o seu cu como o prato especial do dia.
É bem diferente de telefonar e marcar uma entrevista e chegar ao
meu escritório trazendo o seu porta-fólio, o curriculum ou um tape.
Ela lhe deu um olhar angustiado e ao mesmo tempo des-
consolado. Sua fisionomia parecia passar por uma explosão em
câmara lenta, ia desabando, entrando cm colapso por etapas.
— É que eu não tenho nada disso. Só algumas fotos de anos
atrás. — Tiradas por um professor da Arthur Murray, que tentara
convencê-la a posar nua para ele.
— Nem mesmo uma pasta de fotografias?
Ela começou a chorar, afinal ele estava certo sobre sua maneira
não profissional de apresentar-se e agora não havia mais
necessidade de castigá-la. Demonstrara que tinha trabalhado
contra ela mesma. Brockman era um cavalheiro e não iria su-
cumbir diante de uma piranha afoita. Mas tudo isso estava além
de sua compreensão.
— Por onde devo começar?
Uma dessas idéias infames mas brilhantes ocorreu a ele. Havia um
certo sujeito de temperamento pouco confiável chamado Eugene
Roth que já tinha sido cliente dele. Era um diretor de futuro mas
sem perseverança e tudo com ele tinha de ser de um dia para
outra Roth tomara-se fotógrafo de still seguindo o exemplo de
John Derek. Podia ser que um artigo fogoso como Madeleine fosse
ao encontro de seu gosto extravagante. Isso também daria a Al a
oportunidade de entrar em contato com ele. Puxa, até que gostaria
de ver Roth outra vez. Só que agora iria estruturar-lhe a carreira,
fazendo com que começasse nos comerciais para depois ser
lançado em seriados de televisão.
— O que você acharia se eu lhe desse o número do telefone de um
fotógrafo que vai fazer um trabalho decente para você, sem cobrar
uma fortuna? Ele já foi meu cliente... muito talentoso. Ninguém na
cidade ilumina melhor do que Eugene. Depois que acabar de tirar
as fotos, mandaremos apanhá-las lá. É... fim de papo.
Ela levantou os olhos com uma expressão amuada. Entretanto, era
ponto pacifico que, por mais baixa que tivesse sido a sua tática,
fora ela, Madeleine, quem levara a melhor. E verdade que não
tinha sido capaz de seduzi-lo, mas isso ela encarou como um
achado maravilhoso, uma nova faceta sua para ser utilizada como
uma arma.
— Você quer que eu fique? — perguntou, quando o viu perdido
em pensamentos.
Ele encolheu os ombros com indiferença.
— Tenho um encontro amanhã cedo e não gosto de garotas
dormindo por aí. Cria ilusão de permanência. Assim, é melhor ir
embora. — Mas o modo como disse isso deixava entrever que
alguma coisa havia abalado suas grandes normas de vida.
— Para mim tudo bem. — Lá no fundo de sua humilhação,
encontrou uma fonte intangível de forças. Havia tocado na raiz de
seus problemas, mas isto a afetou como alguém que tropeça junto
do meio-fio, cai na sarjeta e depois se ergue novamente. Nada de
grande monta.
— Al, queria lhe dizer o quanto gostei...
Ele levantou os braços como um maestro pedindo silêncio.
— Por favor, nunca fui muito com sentimentos de gratidão.

Capítulo XIII
Leonard Martinson não sabia como conseguira sobreviver
naquelas duas primeiras semanas de agosto. Tinha agora sempre
uma expressão distraída nos olhos, perdia o fio das conversas e,
no tênis, estava também perdendo para Frank Dunlop, que
defendia tudo quanto era bola dele. Havia feito o seu check-up
anual com o cardiologista de sempre e este não se mostrara muito
satisfeito com os resultados dos testes de resistência. Além disso,
desenvolvera uma forma de neurose caracterizada por um estado
crônico de ansiedade que levou o Dr. Herbert Stein a sugerir-lhe
uma temporada de repouso e prescrever-lhe Inde-ral no caso de
taquicardia aguda. Por duas vezes, Leonard pensou que estivesse
morrendo. O seu lado esquerdo enrijeceu-se e o sistema
neurovegetativo ficou em completa desordem; por outro lado, a
belezinha que encontrava duas vezes por semana percebeu que a
sua "medicação" não estava adiantando de nada. Leonard havia
brochado. Tornara-se uma panela de pressão.
Ele tinha conseguido vender a um saudita duas de suas
propriedades em Valley com um lucro de 30 por cento e, deste
modo, pôde continuar pagando os juros de Rodeo Puerta que
pretendia ver completamente saldada até março do próximo ano.
Entretanto, os inspetores de obra não se comoviam com as suas
aperturas, recusando constantemente os projetos do
estacionamento subterrâneo que ele tivera de submeter repetidas
vezes à apreciação deles.
Tim Hayward, amigo e conspirador de 20 e tantos anos, começava
a preocupar-se com ele. A fortuna dos dois estava entrelaçada e
sinais de um desastre iminente ficavam cada vez mais evidentes.
Tim era um amigo leal, o arquiteto da casa de Leonard, mas não
estava disposto a se arruinar por causa dessa amizade.
- Hayward & Associados sabiam reproduzir às maravilhas aquilo
que fosse do agrado do cliente e, para isso, não mediam esforços.
Se alguém quisesse, em plena Beverly Hills, uma casa parecendo
uma fazenda ou um minicastelo com torreões ou mesmo uma casa
de praia de madeira na forma de barco, Tim daria um sorriso
amável para a vítima, dizendo:
— Não tem problema. Com o dinheiro que está gastando, tem
todo o direito de ter o que deseja. Você fez por isso.
Raramente, estava de mau humor, era bom conhecedor de vinhos
e podia ser sempre visto na companhia de algum basbaque no
Bistro, no La Maison ou no St. Germain. Com incrível facilidade,
deitava mão em grandes importâncias e fechava contratos. O que
ele oferecia era uma construção de estrutura sólida e isto lhe
deixava uma margem de lucro.
Conservador ao extremo e um indecente surrupiador de idéias
alheias, era natural, portanto, que ele gozasse de excelente
reputação. As pessoas em Beverly Hills eram despreconceituosas
até investirem milhões em alguma casa, aí a tendência delas era a
de se tornarem reacionárias. O que jamais contara fora que teria a
oportunidade de fazer um importante edifício de escritórios em
Century City, mas, desde o primeiro minuto, ele se mostrara
hesitante, quando Leonard lhe fizera a proposta para ser o
arquiteto do prédio da Marine Mutual Insurance. A conversa de
Leonard havia sido a mesma de sempre: rachariam o custo da
obra, passariam Dunlop para trás, iriam embrulhá-lo direitinho,
seria uma moleza. Num prédio de 50 milhões de dólares, sem
contar com excedentes e despesas finais de acabamento, Hayward
contava tirar uma comissão de 7 milhões e meio de dólares.
Naturalmente, Leonard levaria a maior parte disso, mas,
pensando no prestígio da firma e na margem de lucros que teria,
suas dúvidas acabaram dissipando-se.
E agora, sentado atrás de sua escrivaninha, com o seu rosto
ossudo, enrijecido pelo medo, ele desviava os olhos, sem coragem
de olhar para Leonard. O seu amigo bebia conhaque às três da
tarde, isso era mau sinal. Estava preocupado com aqueles olhos
estatelados, com duas bolsas escuras debaixo, e a bebida que se
tornara um hábito na vida de Leonard. Ann havia entregue os
primeiros 5 milhões do pacote e agora eles esperavam por mais
outros cinco para poderem completar o sinal da garantia.
— Não queria levantar essa questão — começou Tim a dizer,
sorvendo um gole de seu refresco feito com café instantâneo —
mas tive um encontro com o meu advogado ontem.
Stan Einberg me disse que posso ser legalmente responsabilizado
por prejuízos, caso Dunlop não aceite nossos planos. Veja, ele
pode provar que a gente andou fazendo muita sujeira e uma ação
dessas na justiça vai nos custar uma fortuna. Cansei de dizer a
você que nós não devíamos meter-nos com um tipo como Dunlop.
Esse cara é um animal. Você pensou que podia tapeá-lo e passar a
perna nele; pois bem, o que está acontecendo é que estou
morrendo de medo.
O fato é que qualquer firma de arquitetura do país teria ficado
entusiasmada por uma comissão daquelas, Leonard entretanto
quisera provar que o seu arquiteto poderia constmir tão bem o
prédio quanto Johnson ou Luckmunn, e, ao pegar esse serviço, ele
não só pensara nele próprio como em Tim também. Os dois
estavam no mesmo tolo, ligados como irmãos siameses. Ambos
seriam responsabilizados igualmente na justiça.
— O meu homem do dinheiro está chegando no fim do mês de
Londres — disse Leonard, tentando acalmar o seu parceiro. —
Eles nos avisaram quando fizeram o primeiro pagamento.
Hayward deu um safanão, varrendo da mesa uma pilha de
esboços do Marine, que caiu no chão. O seu ceticismo trans-
formara-se em desprezo.
— Nunca fui com a cara da Ann. Acho que ela nos está metendo
numa fria.
— Eu não tinha outra alternativa.
— E ela sabia disso. Mas essas coisas já são águas passadas. —
No futuro, pensou, sua relação simbiótica com Leonard teria de
ser revista. Como médicos e advogados, teriam de seguir
caminhos diferentes e descobrir que eram antagonistas e não
aliados.
— Namralmente ela está fazendo o papel dela. A sua profissão
é a de descobrir bons negócios. Só nos resta ficar cozinhando
Dunlop.
Tim achou que ele estava parecendo com Nixon nos melhores
tempos de Watergate e previa que disso tudo não ia sair nada de
bom.
— Frank virá aqui às quatro e meia.
— Deixe que ele esperneie. Você não pode dar nada para ele
aprovar antes de eu ter a pane financeira resolvida.
Tim tinha uma série de recomendações dadas por seu advogado.
Ele não estava disposto a se deixar ser apanhado por fraude.
Outros arquitetos da firma tinham estado presentes às reuniões de
discussão do projeto e por isso estavam muito bem informados de
tudo. O trabalho ficara a cargo de Gary Rubin, cuja experiência era
a de shopping centers e loteamentos visando ao máximo de
moradias no mínimo de espaço. Por que, então, dar um projeto
destes a Gary? Era como se mandasse um pediatra fazer um
transplante de coração. Não é esta a maneira de o arquiteto
trabalhar. O único fato a favor de Hayward era o de Frank ter
rejeitado uns oito ou 10 projetos de outros arquitetos antes de
encontrar Leonard e ser por este assediado a mais não poder.
— Vou sugerir a ele diplomaticamente, do jeito como só eu sei
fazer, que está havendo divergências na concepção do prédio
entre Hayward & Associados e ele. Depois, então, caio fora do
negócio. Nossos advogados acertarão as contas e, no mais,
seguimos sem nenhum ressentimento — disse Tim procurando
uma solução medianeira.
Leonard chegou a perder o bronzeado.
— Com isto, você me derruba. Não tenho saída. Teria de revender
o negócio para ele. Isso não pode ser feito. Serei um homem morto
daqui para frente.
Hayward se sentia encaçapado. Até o desastre de agora, Leonard
fora capaz de vender qualquer coisa. Há alguns anos, antes de eles
se tornarem uma presença respeitável em Beverly Hills, os dois
haviam tido diversos empreendimentos nos arredores de Los
Angeles que arrebentaram com a paisagem local e isto não deixou
de contribuir para divórcios, crimes, e muitos outros prejuízos
imprevisíveis no futuro para centenas de milhares de pessoas. As
habitações apertadas e baratas construídas por eles nunca levaram
em conta o sentido de privacidade. Jamais nas obras de arte de
Leonard o verde teve vez. Foi um dinheiro fácil e rápido, ganho
com o sistema de financiamento de casas onde os pisos eram
cobertos por tapetes vistosos e baratos,- as paredes revestidas de
papel, os tetos acústicos parecidos com uma massa de queijo
poroso, as cozinhas, mínimas, com material de fórmica e
aparelhagem vagabunda que explodia e inundava os ralos
pequenos e inapropriados e playgrounds inúteis que viviam
fechados por causa de acidentes. Leonard foi dos primeiros a
aderir à não-segregação racial nos conjuntos habitacionais que
vendia. As casas tinham um preço razoável e operários brancos e
negros iam morar nelas, achando que estavam indo para um
paraíso; só que a convivência tornava-se depois impossível pelas
próprias condições do lugar.
— Como pôde acontecer isso logo com você?
Leonard levantou-se. Eram 3:50 da tarde e ele não queria
topar com Frank no escritório. Estava em má forma. Encontrar
Frank socialmente era coisa que não podia evitar e ainda dava
para manter a pose; mas, no escritório, era uma puta chateação.
— Fiquei voraz, Tim, e você me seguiu para pegar as sobras.
— Com quem acha que está falando?
Leonard retrocedeu. Havia gasto toda a sua munição. Faltavam-
lhe forças.
— Estou de pés e mãos atados. Por Deus, Tim, me dê, só mais
duas semanas. Confie em mim.
— Será que não entende? Não posso ficar dando só notícias
ruins ao cara. Parece que ele enxerga através de mim. Não dá mais
para continuar botando panos quentes.
— Por favor, Tim.
Ele acompanhou o antigo patrão até a porta dos fundos para que
ele não tivesse de atravessar as outras salas e sofrer maiores
humilhações.
— Farei o que puder — disse Tim, imediatamente arrependido de
ter cedido. Leonard havia conseguido engazopá-lo novamente.
Informou-se com a sua secretária para saber se Dunlop havia
chegado, sentindo-se aliviado com a notícia de que ele chegaria
uma hora atrasado. Tim não tinha outro recurso senão o de botar
Rubin no negócio e lhe pedir ajuda. Isso poderia significar ter de
fazê-lo seu sócio e estaria, por este modo, sacramentada a
conspiração. Por um momento, antes de mandar chamar Gary,
ainda pensou como solução apelar para alguma firma coirmã, o
que também não deixava de ter seus perigos, pois os problemas
dele viriam à tona; assim sendo, não tinha outra escolha possível.
Rubin estava apreensivo e infeliz. Fazia meses seu trabalho vinha
sendo torpedeado por Dunlop e isto lhe minava a confiança. O seu
casamento continuava no mesmo pé, com brigas ininterruptas
dentro de casa. Lamentava que tivesse voltado atrás, pois, se não
tivesse feito isto, teria já dado um fim a esta situação. Quando
apareceu, Tim ofereceu-lhe um drinque, dizendo para que ficasse
à vontade. Essa recepção calorosa desconcertou-o. Ele correu a
mão pelos cabelos muito tesos e pegou o uísque que o patrão
oferecia.
— Estamos em apuros, Gary.
Rubin percebeu que alguma coisa de mim vinha pela frente.
— Admito que estou tendo dificuldades com o prédio da Marine.
— É. Por causa dele, você ficou afastado dos condomínios de
Sherman Oaks e das reformas.
— Tive de passar esses serviços para Bobby e Slater. — Este último
era um dos tantos arquitetos medíocres da firma. — Olhe, Tim, foi você
mesmo quem sugeriu uma linha conservadora para o Marine. Mas o
cliente parece que tem outras idéias. Além disso, nunca lidei com alguém
tão mal-humorado e que critica tudo quanto digo.
Tornava-se dato para Hayward que o seu burro de carga do escritório
estava procurando uma saída para o impasse e só o que queria era livrar
a cara. Nenhuma necessidade de acenar-lhe com promessa de sociedade.
— Sei que você tem feito o possível para ajeitar Dunlop. Mas nós não
estamos diante de um sujeito normal. Ele é um cara com um ego fora do
comum.
— Estou desnorteado com este projeto — admitiu Rubin.
— Com que então não ficaria chateado se tivesse de largá-lo?
Rubin engoliu de um trago a bebida. Essa era a melhor notícia que
recebia depois de meses.
— Poderia voltar para minha especialidade. O shopping center em
La Cienega está mofando, esperando por mim.
— Há alguém aqui no escritório que pudesse de pronto sugerir algo
para Dunlop?
Começaram, então, a passar em revista os 12 arquitetos da firma,
discutindo o conjunto de seus trabalhos e suas competências e rejeitando
a maioria por ser incapaz de ter um pensamento próprio. Hayward já
estava a ponto de perder todas as esperanças.
— Que tal Bobby? — disse Rubin. —Já discuti meus problemas com ele
e sei que anda bolando uma porção de coisas.
A pergunta seguinte de Hayward deixou Rubin estarrecido. Ele
percebeu que o seu patrão estava por fora da maioria dos detalhes dessa
obra e que os seus critérios eram quase sempre fora da realidade. Sua
incapacidade para avaliar o trabalho de alguém era algo que não dava
para ele entender.
— Ele é bom?
— Bobby tem imaginação para arquitetura e entende um bocado de
mecânica e planejamento. Às vezes é meio agressivo, mas dá para ser
domado. Olhe, Tim, a despeito da idade dele, é o arquiteto mais
completo que temos.
Hayward mostrava-se indeciso. Um projeto deste porte para um calouro
poderia significar mais dores de cabeça.
— Certamente, ele não segue uma linha tradicional.
— E por isso mesmo o trabalho dele é muito criativo —
informou Rubin. — Ele está à procura de uma definição de estilo.
— O que também torna arriscado confiar nele. Será que ele
agüenta pressões?
— Não sei. — Gary hesitou. Pessoas críticas exasperavam
Hayward. — Devo dizer-lhe que ele acha a maioria do que
fazemos uma porcaria. Não diz isso com essas palavras, mas
pensa. Ele é diplomático, não deseja ferir o amor-próprio das
pessoas. Mas dá a entender que o tratamento arquitetônico que
temos dado ao Marine é ultrapassado e sem graça.
— E você não fica chateado?
— Não. Essa é a verdade. Não estou satisfeito com o que faço.
— Você é perseverante, Gary. Acha que devemos mandar
chamá-lo para o nosso encontro com Dunlop?
— E um tiro no escuro. Bobby às vezes se mostra muito
independente quando está na mira das pessoas.
— Mande chamá-lo.
Bobby já tinha recebido cinco recados de Hillary e a nenhum deles
havia respondido, por falta de tempo no momento em que ela o
chamara. Gary contou a ele, resumidamente, o que se estava
passando. Apesar de o trabalho no escritório ser rotineiro e não
lhe exigir qualquer esforço ele estava gostando dele porque lhe
permitia fortalecer a relação com Hillary. Estava convencido de
que fizera o certo, optando por Los Angeles e Hillary. De certo
modo, as duas coisas se casavam.
Dunlop, furibundo, estava já na sala de Hayward quando ele
entrou. Ele e Bobby já se haviam encontrado inúmeras vezes na
casa de Leonard, mas sempre evitaram discutir negócios.
— Como está você, Frank? — perguntou Bobby, cum-
primentando com a cabeça Hayward que estava atrás do bar,
preparando os drinques, fora da linha de fogo.
— Como sempre danado da vida com o seu patrão. Há meses
que ele me vem apresentando projetos que está parecendo mais
que vamos construir um mausoléu.
— Então, Bobby, vamos lá, exponha o seu ponto de vista —
disse Tim.
Embota Bobby concordasse com Dunlop, seria falta de ética e
também perigoso criticar os seus colegas. Ele desejava ter o seu
próprio escritório, antes que o queimassem de vez. Fora Leonard
quem sugerira a possibilidade de ele participar do projeto de
Marine Mutual, mas, depois, o assunto havia morrido. Exceto
alguns esboços que fizera mais por brincadeira, ele nunca pensara
seriamente nesse projeto. Tinha lá suas idéias e era melhor que
ficassem guardadas com ele, não valia a pena ficar passando por
cima dos outros. Entretanto, a oportunidade de pegar esse
trabalho a partir da estaca zero o entusiasmava. Tim lhe trouxe
um uísque.
Os olhos de suíno de Dunlop seguiram os passos dele pela sala.
Apesar de suas maneiras insolentes, Bobby passou a respeitá-lo. O
cara fugia aos padrões, jamais dissimulava e sabia muito bem que
as idéias que queriam impingir-lhe eram inaceitáveis. Bobby deu-
se conta de que já estava uma hora atrasado no seu encontro com
Hillary e suspirou.
— Eu vi a maioria dos esboços feitos por Gary e o seu pessoal.
Alguns são interessantes. — Ele mentia. — Talvez muito da
confusão que está havendo é que as coisas não foram su-
ficientemente esclarecidas durante as discussões preliminares.
— Bom, adiante. Vá direto ao que interessa — disse Dunlop
estalando os dedos.
— Veja você, Frank, antes de querer estabelecer a forma que o
prédio vai ter futuramente, há certas coisas que deve considerar e
que vou sugerir. Primeiro de tudo, devo dizer que conseguiu um
local esplêndido e que vai tornar-se parte integrante do horizonte
de Los Angeles. Os outros prédios de Cen-tury City não dão para
competir. São convencionais, e Marine Mutual deveria ser único e
também se constituir num marco como o Hancock é para Chicago
e a pirâmide do Trans-América é para San Francisco.
Frank Dunlop ouvia com atenção, bem como Hayward, e Bobby
de repente se sentiu livre de todos aqueles negocian-tezinhos
falastrões que conhecera em Nova York. Diante dele, estava um
homem que era capaz de assumir riscos e que bem poderia, no
fim, ser sensível a conceitos mais arrojados. Como a maioria dos
multimilionários que Bobby conhecera recentemente através de
Leonard, Dunlop também procurava por uma identidade que o
dinheiro não dá.
— O que estou querendo que entenda, Frank, é isso: que, quando
se chegar a Century City, o seu prédio não seja igual a todas as
caixas de vidro que existem lá. Ninguém distingue um edifício de
outro. Chega-se até a pôr o carro na garagem errada, como já
aconteceu comigo. O edifício Tiger é um emaranhado de materiais
e" também o são os outros.
O rosto de Dunlop, até agora extremamente tenso, relaxou-se. Ele
se voltou para Hayward e estendeu seu copo, pedindo outro
uísque.
— Prossiga, Bobby, estou gostando.
— Bom, o público tem uma imagem bem ruinzinha das
companhias de seguro. Elas ficam enchendo o saco das pessoas
para fazerem seguros e não vem ao caso aqui discutir se têm ou
não razão. Normalmente os prédios projetados para elas parecem
mais fortalezas... para infundir confiança, acho eu. Bem, isso está
errado. É desagradável. No instante que se ouve a palavra
"seguro", pensa-se logo em morte, desastre ou numa outra merda
qualquer. Então o que você tem de nos dizer é como isso reflete
sobre você. A esse respeito andei bolando umas idéias meio
estranhas. Diga, Frank, este prédio é para ser o quartel-general da
Marine, um monolito onde está tudo incorporado, ou pretende ser
também alguma coisa mais que isso?
— Como o quê? — perguntou Tim, intrigado pelas sutilezas do
enfoque de Bobby. Ele não estava acostumado com discussões
dessa ordem.
— Vamos supor, Frank, que você pense nele como escritório,
mas que ele também encerre um sentido de domestici-dade. Se for
o caso, é uma coisa que vai diferenciar o prédio, está ao seu
alcance e pode realizar, querendo. Bom, mas é justamente aqui
que está o x da questão. Você não pode misturar as coisas. Ou
você tem um cubo de gelo ou algo de original. E uma casa pode
ser tanto convidativa e aberta como pode também dar a idéia de
ser um lugar onde se conspira e que o público tem de manter-se
afastado porque você não quer que se saiba o que se está passando
lá dentro.
O rosto de Dunlop tremia excitado.
— Nada de cubos de gelo — disse resolutamente. — Quero
uma casa.
— Acho que não entendi bem — disse Hayward, começando a
sentir-se pouco à vontade.
— É uma questão de saber se a família da companhia vai
residir no prédio ou se você prefere que as pessoas pensem que ali
está uma cidade defendida por tropas. Você tem de fazer esta
opção, Frank. Qualquer coisa que eu faça — ele olhou em direção
a Hayward — se pegar este projeto, vai depender do que você
sentir. Não existe nada de intelectual nisso. Siga os seus instintos,
sem duvidar deles. Nunca ficará satisfeito com os projetos que
farão para você, enquanto não resolver esse impasse. Você é um
sujeito que venceu sozinho, sem ajuda de ninguém. Construiu sua
companhia a partir do nada. Gostaria de exibir ao público o que se
passa lá dentro? Ou, ao contrário, esconder?
Dunlop acompanhava atentamente a linha do pensamento dele e
mais do que nunca se mostrava exacerbado com Hayward.
— Ora merda! Por que não me pôs desde o início em contato
com Bobby?
— Infelizmente, ele ainda não trabalhava aqui quando
começamos.
Bobby tinha acabado de falar. Podia ficar ali para sempre
discutindo conceitos arquitetônicos. Estava no seu elemento e
sabia agora que estivera certo ao recusar todo aquele refugo de
projetos de minimercados e loteamentos. Era um arquiteto de
visão. Como um pintor, diante de uma tela branca, ele tinha de
interpretar o espaço para que o público vivesse bem.
— Só para que você tenha uma outra idéia. Esse seria um lugar
aonde Eilen gostaria de ir almoçar ou jantar com você, amigos e
pessoas de suas relações?
Dunlop estava admirado, eram muitas as possibilidades postas a
sua disposição.
— Genial — disse ele.
— Bom, então por que não haver no edifício um esplêndido
restaurante? E, em lugar de uma lanchonete, que funcione durante
o horário de trabalho, por que não haver diversos tipos de
restaurantes, como no World Trade Center de Nova York, que são
abertos ao público?
— Salas de espetáculos... um complexo — berrou Tim.
— Aí você estaria competindo com o Plitt — explicou pa-
cientemente Bobby.
Continuaram a discutir. Bobby, que ainda não estava por dentro
das especificações e do plano original, ficou sabendo que a Marine
empregava apenas 600 pessoas que poderiam ser instaladas nos
três últimos pavimentos de um prédio de 25 andares. E o grande
negócio seria alugar o restante para salas de escritórios. As
possibilidades de transformar aquilo em salas alugadas com
contratos de prazo curto e aumentos de aluguéis progressivos
jamais havia ocorrido a eles.
— Não podemos misturar as duas coisas — explicou Tim.
— Ora, por que não podemos operar segundo o mesmo
princípio? — disse Dunlop alvoroçado. — Temos companhias na
Inglaterra e na França, estabelecidas em locais nossos, e fazemos
isso lá. O truque do negócio está em estabelecer uma modalidade
de arrendamento. Se consigo isto, os aluguéis poderão ser
estruturados sob esta forma. O inquilino terá, assim, uma dedução
nos impostos e nós financiamos através de apólices de seguro. Já
imaginou, Tim, que tipo de coisa isso poderá ser? Sou eu
pessoalmente quem financia o prédio. O quadro de diretores é
formado por advogados meus, contadores da firma. Eilen e alguns
caras que já tiveram mandatos na Câmara e que hoje eu pago para
emprestarem os seus nomes. Marine não é uma companhia aberta,
nem é controlada por mim. Eu sou dono dela! — gritou ele.
Hayward jamais vira esse animal tão acessível e lhe deu até
vontade de comemorar. Ele e Leonard ainda tinham o pato deles
nas mãos. Ora viva, até que enfim! Tão logo Dunlop se pusesse a
caminho iria telefonar a Leonard e aparecer como herói aos seus
olhos; aí, poderia fazer com que ele voltasse atrás e lhe entregasse
metade dos lucros do negócio e ainda estaria devolvendo um
pouco de cor às bochechas pálidas do amigo.
— Não deve ter pressa em resolver — aconselhou Bobby a Frank.
— Por que não? Estou entusiasmado com a idéia. Bobby já tinha
visto projetos evaporarem da noite para
o dia e não estava disposto a pegar neste trabalho enquanto
Dunlop não parasse para refletir e estivesse em condições de dar
as suas próprias dicas.
— De quanto tempo vai precisar para me entregar alguns esboços?
— perguntou a Bobby.
— Isso depende de Tim.
— Não me venha com as embromações daqui de dentro — disse
Dunlop, levantando-se devagar.
Bobby conseguiu prender a sua atenção antes que ele partisse
novamente para cima de Hayward.
— Frank, há uma maneira correta de se fazerem as coisas. —
Ele observou que os dois pareciam relaxados. — Agora pense
nisso: Eilen é muito importante para você, não é? Ela é uma
mulher extremamente inteligente. Veja o que ela tem a dizer.
— Sou eu quem toma as decisões — trovejou Dunlop,
gesticulando como um chimpanzé enlouquecido.
— Eu ainda estou aqui amanhã, não vou desaparecer. Finalmente,
às seis horas, quando Dunlop foi embora,
Tim caiu no sofá exausto. Sua vontade era a de lamber e matar
Bobby ao mesmo tempo. O que mais o deixava surpreso era a
pressa de Bobby em sair e não ficar com ele ali, remoendo os
acontecimentos. Tim insistiu para que ele tomasse outro drinque.
O ar circunspecto de Bobby o desconcertava; além do mais, depois
de observar a sua maneira de agir, teria de dar-lhe algumas
instruções sobre o negócio.
—Só mais este e depressa — disse Bobby, levantando o copo. —
Hillary já está há duas horas me esperando no Alpine e eu nem
pude avisá-la.
— Que se foda o Alpine.
— Não diga isto. Esse é um negócio de Leonard e o meu
primeiro projeto. Adoro aquela casa.
Hayward estava excitadíssimo, sem entender nada. Bobby tinha
um parafuso a menos. Precisava receber urgentemente conselhos e
ser instruído.
— Sem dúvida nenhuma você é o melhor vendedor que já
tivemos na firma. Mas por que diabos não agarrou de uma vez o
Frank? Isso faria a gente ganhar tempo e poderíamos ficar
sabendo das intenções dele.
— Sou arquiteto e não um camelô vendendo idéias. Só por isso
— respondeu.
— Mas você já tinha o homem com a faca no peito. A imagem
deixou Bobby revoltado.
— Acho que não me está entendendo. Se Frank topar a minha
idéia, aí sim, vou mandar-lhe um relatório com as minhas
pretensões.
— E quais seriam elas?
— Coisa simples. Ser o arquiteto responsável.
Tim estava um pouco alto, mas ainda conservava a lucidez,
podendo ainda ler um balancete ou amarrar um negócio. Resolveu
que não pressionaria Bobby. Faria o que fosse conveniente para
ele e pronto.
— Esqueça a casa. Gary tomará conta dela.
— Nunca. Vou terminá-la. — Bobby estava abismado com as
técnicas maquiavélicas utilizadas para envolvê-lo. Claro que
dinheiro era importante, mas onde ficava o prazer de curtir uma
idéia e de realizar bem um trabalho? O gosto pelo fazer, como um
ato de amor, era algo de ininteligível para Hayward.
— Há quanto tempo já está aqui?
— Desde maio. Mas o que isto tem a ver com tudo?
— A folha de pagamento não está aqui comigo, por isso não
sei. Mas quanto está tirando?
— Vinte e cinco mil, com promessa de aumento e opção para
renovar o contrato em seis meses.
Era um dia de festas para Tim. Ele observava a ansiedade de
Bobby para sair e, apesar de ser um homem de temperamento frio,
lhe deu um abraço.
— Você vai ser aumentado para 35 mil, contando da data de sua
entrada aqui. Você foi contratado com um salário baixo e, se for o
arquiteto responsável na fase de complementação do Marine, terá
ainda uma gratificação.
Bobby lhe apertou a mão. Dinheiro podia ser importante no
mundo em que vivia, mas tudo quanto queria realmente era uma
oportunidade para realizar sua ambição no decorrer de sua
existência. Um dia o dinheiro chegaria. Não tinha necessidade de
muito. Os Dunlop da vida tinham alvos diferentes dos dele. Que o
deixassem projetar e estaria satisfeito.
— Gostei do aumento, mas, se se arrepender, não vou ficar
chateado com isso.

Sentada no gramado, fumando um cigarro de maconha, Hillary


deliciava-se com o restinho do sol. Havia sido um dos
empregados da casa, um descendente de mexicanos, que tinha
fornecido um bocado da erva, quando ele e alguns outros estavam
passando a bagana no jardim dos fundos. Ela já curtira droga
anteriormente, mas não estava inclinada a se deixar prender
novamente pelo vício. Estava curada. Entretanto, a maconha a
punha relaxada e estranhamente não produzia estragos maiores
nela. Fazia-a sonhar e isso talvez fosse perigoso, mas Bobby estava
lá para ajudá-la. Ele a tinha modificado. Contudo, não conseguia
identificar direito um certo mal-estar que, aos poucos, a ia
corroendo por dentro. Havia uma parte dele que lhe escapava,
permanecia longe, e esta pertenceria sempre a Claire. Ele se
mostrava franco, aberto e amoroso, mas um tanto hesitante, se
Leonard estivesse por perto.
Faziam amor no apartamento dele, quase todos os dias,
compulsivamente. Mas o estranho era que jamais ele fez força
para que ela passasse a noite lá.
Bobby já estava mais de duas horas atrasado e ela começava a ficar
com raiva. Estava a ponto de sair, quando avistou o seu Honda
subindo com estardalhaço a ma. Correu em direção ao carro, abriu
a porta e atirou os braços em volta dele. Seus olhos brilhavam e
ele a estreitou fortemente, com tal trans-bordamento que suas
inseguranças desapareceram.
— Desculpe-me o atraso... — Ele estava sem fôlego e com rosto
animado. — Bom, acho que consegui o meu primeiro trabalho de
verdade. Marine Mutual! Dunlop, praticamente, me pediu para
fazê-lo. Tim botou mais 10 mil em cima de meu salário. Hillary,
pode imaginar o que isso representa para mim? — Ela se mostrava
gelada diante de toda aquela exuberância que jorrava de uma
fonte inteiramente misteriosa para ela. — O que você diz disso?
Trinta e cinco mil por ano! Só dei pela coisa depois que saí do
escritório. Lá, eu estava calmo e à vontade. Tão absorvido nas
minhas idéias para este projeto que cheguei a esquecer-me de
tudo.
— Inclusive de mim.
— Com quem iria eu partilhar isso senão com você? Vamos a
algum lugar beber alguma coisa para comemorar. Oh, Hillary,
estou maluco por você.
— Está mesmo?
— E eu já não dei provas disso?
Foram para o Bistro Garden e pegaram uma mesa do lado de fora,
no terraço. De vez em quando, ele almoçava ali por conta da firma
e era já conhecido do maître que o cumprimentava pelo nome.
Agora pertencia a esta sociedade, mas não sabia como se dera esse
salto que o afetava de maneira sutil, pois que, conscientemente,
nada fizera para isso.
— Querida, por que está chateada? — Ela se havia afastado e o
seu rosto perdera a vivacidade costumeira.
— Estou contente por você. Ao seu futuro — disse, levantando
a taça de champanha.
A alegria dele sumira. Muitas vezes ficava sem compreender as
repentinas mudanças do temperamento dela. A relação dos dois
atingia paroxismos difíceis de serem explicados, mas em seguida
ela se tornava impenetrável, caindo numa profunda depressão.
Quando estavam juntos, o desejo selvagem que sentia por ela
produzia o efeito de uma droga entorpecedora. E então, sem que
esperasse, a moça que ele amava lhe escapava, sobrevindo um
clima de impassibilidade extraterreno, quando ela se recolhia para
um outro mundo.
— O que está havendo? — Ele lhe apertou a mão, beijando e
acariciando-a.
— Sabia que você ia vencer. — Os olhos dela estavam
perdidos. Por que será que ela não podia regozijar-se com ele e
partilhar deste futuro cheio de promessas, ao alcance deles? —
Um dos empregados me arrumou um pouco de maconha e isto é
uma coisa que não me faz bem e eu já superei. — Ela se
desvencilhou dele. — Sempre fui sozinha, mas agora, que estamos
juntos, é pior, porque quero que fique junto de mim o tempo todo.
Está fazendo quase cinco meses que nos encontramos... — Ele
tinha conseguido pegar o fio do pensamento dela e estava
surpreso com a sua ambigüidade. — A minha situação é tão
estranha... não sei como vou poder sair desta. — Ela prosseguiu
falando num tom deprimido e remoto. — Será que temos algum
futuro? Odeio trazer problemas para você. Está com medo? — Ela
bebeu um gole da champanha e, perdendo o controle, deixou
escapar com raiva: — Você ainda está apaixonado por Claire.
Ele franziu o rosto. Todo aquele entusiasmo inebriante de
instantes atrás cedeu lugar a uma dor que o dilacerava. Fazia
semanas que não pensava em Claire.
— Por que tem de lembrar-se dela agora? O que é que está
insinuando? Um pouco de bom senso, por favor. Todo mundo se
apaixona e se esquece depois. Fica-se noivo, casa-se e se acaba
divorciando no fim.
— Não você e Claire. Vocês nunca se divorciariam. Eu o
conheço, Bobby. Você é do tipo fiel. Os dois ficariam casados
porque vocês nunca deixariam de se amar.
Terminaram com a garrafa de champanha e não quiseram jantar.
Ao entrarem no apartamento dele, não notaram a cozinha suja ou
o embrulho azul com a roupa que chegara da lavanderia e ainda
estava sobre o sofá — ele ia tirando a roupa dali à medida que
precisava, sem se dar ao trabalho de guardá-la na cômoda; na
parede, dançando uma saltitante gaivota estava um inseto com
patinhas muito compridas que também passou despercebido.
A pele dela tinha textura de pêssego maduro. Ele não pôde refrear
a sua sofreguidão, aquela não seria das noites enternecedoras em
que os dois iam para o banheiro e emergiam de lá com bolhas de
Vitabath nas orelhas. Ele a segurou no pescoço, abrindo dois
botões da blusa e arrebentando o fecho da frente do sutiã. Sem se
conter, beliscava-lhe os mamilos com força e levou em seguida o
seio à boca, chupando-o sequiosamente. Passou os dedos na
vagina e esfregou o outro seio com o mel que ficara neles e,
enquanto se movia insaciavelmente para frente e para trás, ia
lambendo-lhe os seios. A xoxota dela nunca havia estado tão
quente e molhada.
Não conseguia saciar-se dela. A força propulsora de sua
sexualidade nunca fora tão vigorosa e a engrenagem de seus
corpos o embriagava. Seus corpos comprimiam-se de modo quase
a doer. As unhas dela cravavam-se nele e havia um des-
comedimento lascivo, impenitente, quando alcançavam o auge de
suas exaltações que os fazia sempre ansiar por mais.
Ela enfeixou o rosto dele nas palmas das mãos.
— Você me pertence... é só meu — dizia insistente com voz
ofegante. — Meu para sempre, Bobby.
Quanto a isso, ele não tinha a menor dúvida. Os dois haviam ido
longe demais.

Capítulo XIV
Rodeo Drive estava cheia de mocinhas em triciclos motorizados
que cumpriam zelosamente o seu trabalho. Ficavam trançando de
um ponto para outro, com incrível precisão, checando os
medidores de estacionamento que estavam com tempo esgotado.
Era um sábado de temperatura agradável que trouxera à rua
turistas e moradores do lugar; alguns fariam compras e outros
voltariam para Clevelend ou Minneapolis, contando que,
realmente, tinham visto um ser humano dar 1 mil e 500 dólares
por uma bolsa, ou uma saia sendo comprada por 700 dólares.
Giovanni prometeu e cumpriu sua promessa. Arrumou entrevistas
para Claire nas lojas Polo, Tede Lapidus, Theodore e mais numas
tantas outras; todas lhe ofereceram lugar para trabalhar. Duas
razões a fizeram decidir por uma de nome Minerva's: havia
gostado das roupas dela, que, na sua maioria, eram importadas da
Inglaterra, e do modo de pagamento do salário, que lhe daria
maiores chances de faturamento. Recebia um fixo de 800 mensais
e uma comissão de seis por cento que poderia chegar a sete, se
vendesse acima de 25 mil dólares. Além disso, teria um desconto
de 40 por cento nas suas compras pessoais.
A loja era financiada por um grupo de capitalistas ingleses e
dirigida por Minerva, uma mulher calculista, casada duas vezes e
que tratava a clientela com desdém e zombaria. O seu maior
desprezo era reservado para os negros da música popular que,
com suas comitivas, entravam na loja cobertos de anéis, brincos,
correntes de ouro, vestidos com roupas claras e com gosto especial
para Rolls-Royces equipados com telefones, televisões, aparelhos
de som e bares. Todos tinham choferes que entravam também na
loja para transportar os embrulhos para que os patrões não
carregassem peso. Referia-se a eles, quando não a podiam ouvir,
chamando-os de "bantus" ou então de "índios", dependendo do
seu humor.
Minerva's localizava-se pouco abaixo do Beverly Rodeo Hotel. O
seu exterior era de tijolinhos limosos, janelas em arcada, e Claire
nunca vira numa loja um trabalho de carpintaria tão magnífico
como o que existia ali. O piso era de tacos de jacarandá do Brasil.
Ela se diferenciava da maioria das lojas de Rodeo Drive por exigir
uma padronização nas cores da vestimenta dos funcionários.
Eram seis vendedoras vestidas com saias pretas e blusas brancas.
Cerca de um quarto da loja era destinado a roupa de homem:
capas de gabardina, casacos esporte, botas de cano curto, suéteres
de cashmere com etiqueta de Bernard Altman e camisas de Jermyn
Street. No espaço restante, predominavam saias de tweed de estilo
clássico costumes, blusas, suéteres e bolsas feitas a mão por um
especialista em couro de Canterbury. Nenhum poliéster ou
qualquer outro material sintético entraria na loja. Apenas lã, linho
ou algodão do Egito.
Espiando por trás de seus óculos de armação de tartaruga presos
numa corrente de ouro e com o nariz, comprido, cheio de
veiazinhas, apontado para o ar, Minerva poderia passar por
alguma diretora de um colégio para nobreza na Inglaterra. Apesar
de estar nesse negócio fazia apenas um ano, Minerva dirigia a loja
como se ela fosse uma instituição, e a sua reputação, aliás, bem
merecida, entre os outros proprietários de boutiques era a de ser a
mulher mais insolente de Rodeo Drive. Entretanto, ela tinha um
ponto de vista com que Claire estava de acordo.
— O que vendemos aqui é tradição e este é o nosso segredo. Que
outros vendam as porcarias que daqui a 15 dias vão estar fora de
moda. Já fiz isso durante anos na Biba's e esse é um negócio
arriscado e desgastante.
Ela usava os cabelos grisalhos com um cone curto masculino,
estava sempre vestida com costumes, abominava ar-condicionado,
mas dava graças a Deus por tê-lo nos dias de calor forte. Em
princípio nada faria modificar as linhas carrancudas que vincavam
a sua boca de lábios finos, a não ser se estivesse fazendo o caixa do
dia ou recebendo sua amiga Ann Shaw que, contrariando a
política da casa, tinha também um desconto de 40 por cento nas
suas roupas.
As horas para Claire eram compridas e cansativas. Ela ficava de pé
mais de 40 horas por semana e, se não houvesse movimento, ia
para os fundos vistoriar o estoque e desempacotar mercadorias,
esforçando-se para estar sempre ocupada. Já estava na loja havia
um mês e, como conseguira vender 28 mil dólares de roupa,
perfizera um salário de quase 2 mil dólares. Era um dinheiro
suado; sua semana era de cinco dias, mas ela, para mostrar boa
vontade e também porque queria aprender, não tirava nem uma
hora de folga durante o dia. Estava aflita para colocar suas
finanças em ordem. Nas prestações do carro e do seguro iam 240
dólares; de aluguel pagava 250 dólares, e roupas e comida,
somente o necessário, acabavam por deixá-la sem poder fazer
muito mais coisas. Ainda estava devendo a Giovanni perto de 500
dólares e resolveu que começaria a reembolsá-lo logo que
recebesse o seu cheque no fim daquele dia.
Enquanto esperava do lado de fora da salinha de Minerva, no
fundo da loja, ela se lembrava das suas palavras: Rodeo Drive é
para pessoas que não sabem o que fazer com dinheiro. Dê a elas
qualquer coisa que não se compra em magazines populares que
você terá a venda garantida.
Claire, entretanto, achava que o sucesso de uma loja dependia
também dos fregueses certos e não daqueles que, quando
aparecem, se abarrotam de mercadorias mas não voltam nunca
mais. A continuidade expande um negócio. Era esse o lema do
Drake's. Claire foi a última a receber o pagamento; era a
vendedora mais recente e também a mais jovem.
Numa prateleira, Minerva tinha uma quantidade de gar-rafinhas
de bitter e uma de gim Beefeater's. Gostava de tomar os seus gins
cor-de-rosa nos sábados, depois da loja fechada. Fez sinal para que
Claire se sentasse num banquinho de madeira próximo da sua
mesa e continuou fazendo a soma a máquina de suas notas de
venda enquanto Claire também passava em revista as suas no seu
bloco de vendas.
— Quanto conseguiu fazer?
— 1 mil, 960 dólares.
— Nada mau. E você está errando contra você em 20 dólares —
disse orgulhosa. — A troca que fez de uma mercadoria não era do
mesmo valor que a outra. Assim, está roubando de você mesma.
— Ah, bom, ainda bem que errei em meu favor.
— Claire, você acabou em segundo lugar nas vendas. Realmente,
estou gostando de ver sua atitude aqui e o seu jeito para o
negócio. — Ela lhe apontou a garrafa de gim. — Lave um copo e
beba comigo.
— Mas não puro.
— Na geladeira tem soda-limonada e tônica.
Claire foi ao banheiro, lavou um copo, apanhou dois cubos de
gelo numa forma de plástico e tornou a encher a forma. Ela foi
servida com uma dose monstro e teve de despejar a metade de
volta no copo de Minerva.
— Tenha dó, ainda tenho de dirigir de volta para casa. Minerva
fez o cheque e o entregou a ela.
— Como está de finanças? — perguntou.
— Um pouco apertada este mês.
Ela abanou a cabeça com ar superior.
— Achei que devia estar mesmo. Bem, por natureza não, sou dada
a atos de generosidade e nem costumo fazer-me simpática aos
funcionários. Também não é de meu caráter fazer uma política de
favoritismo. Mas, em vista das informações que chegaram a seu
respeito durante todo este mês de uma quantidade de fabricantes
e também do Sr. Drake, pretendo abrir uma exceção. Daqui por
diante vou dispensá-la dos três meses que se contam como
período de experiência — ela aqui levantou o copo na direção de
Claire — e assinarei a sua carteira, podendo, portanto, contar com
o seu seguro social.
— Obrigada, posso mesmo precisar.
— Você realmente é uma profissional — disse ela, arre-
bentando-se de tanto tossir e olhando para o maço de Roth-man
em cima da mesa. — Pretende ficar aqui conosco ou isto para você
é provisório?
— Boa pergunta.
— Sei que já pensou no assunto. Pode dizer.
— Vou ficar.
— Parece hesitante. Está esperando que apareça alguma oferta
melhor no futuro?
— Não. Em absoluto, Minerva. Só quando eu abrir minha
própria loja em Rodeo Drive.
A risada rouca que Minerva deu provocou-lhe novo acesso de
tosse; estava ali como uma diretora de colégio no alto de sua
importância, satisfeita, profissionalmente segura, diante da aluna
impressionada e fantasiosa.
— Claire, querida, vou tê-la até os seus 50 anos. Você vai me dar a
sua juventude. E são esses os anos que quero de você. Até
segunda, meu bem.
Seguindo a corrente do tráfego, a caminho de sua casa, Claire se
sentia satisfeita consigo mesma. Livre de sofrimentos, viva,
recomeçando a vida, ela sorria lembrando-se, divertida, da pose
de Minerva. O cheque dentro da bolsa dava-lhe segurança. Aquele
seu espírito forte, que havia ido por terra, estava recuperado. Não.
Ela não era uma vencida. Talvez tivesse feito um pouco de bravata
para Minerva, mas Giovanni realmente lhe tinha assegurado que,
se ocorresse a ela alguma idéia original para montar um negócio,
ele conseguiria financiamento para ela abrir uma loja em Rodeo
Drive. Ele conhecia pessoas à procura de bons negócios para
investimento de capital. Um grupo com dinheiro que bancaria o
negócio para ela. Portanto, era só ter a idéia que ela seria posta em
prática.
Como todo restaurante francês que se preze, também o de
Giovanni ficava fechado nas duas últimas semanas de agosto para
ser reaberto só em 1? de setembro. Normalmente, Ed ia passar as
férias no sul da França, mas no último minuto cancelou a viagem
por Claire se ter recusado a acompanhá-lo. Ela havia desprezado
de uma só vez a Costa Azul, Puerta Vallarta e Roma. Não porque
se tivesse em alta estima ou que pensasse que poderia conseguir
coisa melhor. Apenas não tinha a intenção de ser mantida por um
homem. Essa era uma idéia tão estranha a ela que mesmo que
tivessem ultrapassado as suas presentes dificuldades e estivessem
constantemente se vendo um ao outro, por natureza, ela se sentia
mal numa situação destas.
Giovanni não tinha intenções de aborrecê-la. Ela não o estava
enganando e nem queria deixá-lo na esperança de que houvesse
um compromisso mais sério entre eles. Finalmente, começava a
ser dona de si mesma, preservando sua independência e com
novos propósitos diante da vida. Talvez fosse presunção, mas
procurava por alguma coisa mais e que ela própria não sabia
identificar, algo que, se tivesse permanecido no Drake's, teria sido
absurdo de acontecer, que estaria além das suas possibilidades.
Madeleine já se encontrava em casa, estava macambúzia,
preocupada, soltando baforadas de maconha.
— Ed, coração de ouro, telefonou — disse em tom sarcástico.
— Ele está sentado do lado do telefone. Nossa, você deve ter feito
alguma coisa para ele ficar desse jeito. Quando pronuncia o seu
nome é como se estivesse esporrando.
— Pare com isso. — Claire arrancou os sapatos. Os pés
estavam inchados e o que estava pedindo era por uma boa ba-
nheira e ficar deitada nela durante uma hora com um drinque,
lendo uma revista.
— Acho que ele quer falar com você sobre uma festa no
Colony.
— Pode ser que eu não vá.
— Quem você pensa que é? Uma festa em Malibu e você age como
se fosse numa espelunca qualquer?
Claire mal podia acreditar na animosidade que Made-leine, sem
querer, projetava. A garota estava nessa última semana com tal
mau humor que não sabia o que fazer com ela. Tão logo se
pudesse permitir um apartamento, ainda que fosse de uma peça
só em Fountain Avenue ou uma água-furtada em Studio City,
daria o fora dali. Dividir, ainda que seja com uma amiga íntima,
apresenta tal quantidade de problemas que ela jurou nunca mais
se meter numa situação semelhante à que estava vivendo agora.
Simplesmente não valia a pena. Estar sujeita a prestar contas, o
dinheiro rachado, o problema da limpeza, tudo mexia com seus
nervos. Claire decidiu, então, sair. Não dava para agüentar uma
noite com Ma-deleine olhando para sua cara com ar de inveja. Fez
um cheque no valor da metade do aluguel e deixou Madeleine ali
ainda fula da vida.
Fora um mês duro para Madeleine. Mesmo tendo o dinheiro de
Claire, ainda assim não tinha a quantia para o aluguel. Sua
situação no Gucci tornava-se cada vez mais perigosa. O gerente
suspeitava dela e fora forçada a reduzir seus bicos até que as
coisas serenassem.
Havia vendido a clientes particulares bolsas com defeito que eles
levavam para consertar numa lojinha barata em Third Street. Com
isto, ela fazia mais uns 500 dólares de extraordinário por mês, mas
as reclamações começaram a chover e, quando houve uma reunião
na loja com o representante da fábrica, ela ficou gelada. Ficou,
então, sabendo que um investigador iria tomar depoimentos de
todas as moças e pô-las sob vigilância até que se esclarecesse essa
questão de desvio de mercadorias. O gerente deixara bem claro
que quem quer que estivesse fazendo comércio à parte com as
bolsas seria responsabilizado judicialmente por furto.
Sem o extra de umas centenas de dólares a mais, seria impossível
para ela sobreviver unicamente contando com o salário. Se ao
menos achasse um cara rico como Giovanni para sustentá-la, de
modo que pudesse largar o emprego e continuar com suas aulas
de arte... Tinha desistido de telefonar a Brock-man. Ele nunca
estava para ela; quanto ao fotógrafo, continuava insistentemente
buscando-o, rangendo os dentes cada vez que ele deixava de
responder aos seus chamados. Eugene Roth era o seu passaporte
para uma nova vida. Por que ninguém lhe arrumava uma brecha?
Que tinha feito para merecer tratamento tão insultuoso?
Pelo menos uma dúzia de vezes, deixara recado com o pessoal de
Roth. Ficava exasperada quando a pessoa no telefone lhe garantia
que, diariamente, ele checava os recados e que o seu nome e
número já lhe tinham sido entregues diversas vezes. Sim, estava
sendo inconveniente, mas quem em Hollywood conseguia
qualquer coisa sem pistolão dos outros?
Ela temia um novo encontro com o seu senhorio. A última vez que
fora a sua casa, ele estava lá com um amigo. Ele prosseguia em
suas extravagantes experiências e ela fora obrigada a assumir
todos os dois. A experiência deixou-a alquebrada e desiludida. Ela
foi sodomizada com violência e por dias se sentiu dolorida.
Estava considerando a hipótese de ir até o Joe Alien's para ver se
conseguia alguns contatos, quando o telefone tocou. Num tom
azedo de voz e com mau humor, respondeu pensando que fosse
Giovanni novamente.
— Você tem deixado meu pessoal em polvorosa — disse uma
voz. — Aqui é Gene Roth.
— Céus! Desculpe-me, Gene. Mas nosso amigo comum Al
Brockman me disse para continuar insistindo.
Houve uma pausa do outro lado.
— Não me venha com essa — respondeu Roth. — Não nos
falamos há mais de um ano.
— Honestamente, foi ele quem me deu o número de seu
telefone.
Quando Claire surgiu, muito bem vestida e maquilada, Madeleine
fez-lhe um sinal de aprovação e deu um sorriso radiante. Claire
sabia que ela tinha uma galeria de tipos no seu repertório,
nenhum deles, porém, representado convincentemente. Mas sem
dúvida devia existir mesmo alguém do outro lado da linha. Talvez
fosse o seu mentor de Palm Springs para sua sessão mensal.
Madeleine pediu-lhe que esperasse e apontou para a maconha
sobre a bandeja.
— Em quanto tempo pode estar aqui em Valley? — perguntou
Roth.
— Em uma hora.
— Traga um biquíni, botas, roupa de baixo sexy, malhas e outras
merdinhas e vamos ver o que consegue.
Ele lhe deu o endereço e desligou sem maiores cerimônias.
— Claire, finalmente! — disse Madeleine alvoroçada. Saltou,
então, do ninho de travesseiros em que se instalara e começou a
dar rodopios com sua amiga pela sala.
— Algum produtor? — perguntou Claire.
— Melhor que isso. Um diretor! Ele me pediu para fazer um teste
com ele. — Largou então Claire e saiu correndo para o banheiro.
— É melhor que eu tome um banho quente antes.
No carro, balançando-se ao seu lado, ia a valise de maquilagem
profissional, contendo uma infinidade de caixinhas, potes, tubos
amarrotados, que ela acariciava todas as vezes que parava num
sinal, como que querendo transmitir vibrações positivas ao seu
arsenal de beleza. Também ia ali um saco de vinil com os trajes a
serem usados, onde despejara toda a sua gaveta de roupa de
baixo. Chegara até a lavar um sutiã de renda transparente e as
calcinhas de cetim que o amigo de Palm Springs lhe comprara na
Trashy Lingerie, quando da sua última visita. Se Eugene tivesse
um ferro ou um secador, estaria salva. Em cinco minutos o
conjunto ficaria seco.
Atravessou Laurel Canyon, indo para Valley, e depois tomou a
direção oeste para Ventura Boulevard, passando por bandos de
garotos e por um comércio desenfreado de lanchonetes com
letreiros de neon, formando uma serpente multicolorida de focos
luminosos ao longo da rua cheia de curvas. Não conhecia direito
Valley e se perdeu ao chegar a Van Nuys. Foi, então, dirigindo,
passando por uma série de conjuntos de pequenos apartamentos,
todos com garagem subterrânea, varandas parecendo caixões e
piscinas concretadas onde os moradores se reuniam, enfastiados,
nas noites de sábado para fazerem seus churrascos. Em seguida,
pegou Miranda Street e localizou uma casinha do tipo rancho com
as ripas do teto estragadas e a janela da frente quebrada.
Uma caminhonete enferrujada e coberta de lama seca estava
estacionada na entrada de carro de chão de cascalho. A luz de
dentro do seu carro estava queimada e ela acendeu a lanterninha
de bolso para dar uma checada no rosto. Procurou suavizar a
pintura com um pouco de base, agarrou as bolsas de maquilagem
e de roupa e ofegante foi andando ruidosamente pelo caminho
cheio de altos e baixos.
A luminária de bronze em cima da porta de entrada estava toda
cheia de manchas. Tocou a campainha e tentou recompor-se. Um
homem barbado, sem camisa, de olhos azuis com expressão
mortiça, vestindo uma bermuda de jeans e puxando uma bagana,
ficou encarando-a por um momento, depois fez sinal para que ela
entrasse. Ela se encontrou num grande living que tinha como
mobília cadeiras forradas de pano de aniagem, um sofá já roto,
cortinas desbotadas cor de laranja e duas mesinhas de plástico
para televisão onde se achavam tampinhas de vidros de maionese
com tocos de cigarros.
Eugene Roth tinha enorme nariz adunco, dentes regulares e
amarelados, e parecia um profeta bíblico. Uma estrela-de-davi, do
tamanho de uma libra, balançava-se no seu peito.
Tinha mais de 1,80 m, magro, com tendência de ficar curvo, e
exalava uma sensualidade descontraída que deixou Madeleine
excitada. Tinha cabelos compridos e pretos que amarrava com um
elástico formando um rabinho-de-cavalo.
De duas caixas Tarroid vinha o som de um fita do Kiss. Através
das portas de correr que davam para os fundos, ela viu uma
pequena piscina de água quente. Roth sentou-se no chão, junto da
lareira, esticou os pés sobre uma das cadeiras e começou a beber
cerveja no gargalo da garrafa.
— Al Brockman... como é que anda aquela solteirona velha?
— Al está ótimo... como sempre trabalhando. Só pensa em
trabalho, você sabe como ele é — disse ela cheia de atrevimento.
— Constantemente fala em você.
— Estou impressionado — observou Roth com ceticismo. — O
que é que você faz lá dentro?
Sem ter o que responder, ela fez uma de suas poses e se pôs a
caminhar numa postura ereta, tarefa, aliás, nada fácil em cima do
linóleo arrebentado da sala.
Enquanto isto, ele a estudava.
— Há vinho na geladeira, se é que ainda presta. — Ele lhe
apontou o corredor. — À esquerda e depois à esquerda outra vez.
Com passos seguros, ela caminhou pelo corredor e chegou àquilo
que em outras eras devia ter sido a cozinha e que hoje era um
templo profanado e em ruínas. Ali, a anarquia era total, latas
vazias de cerveja, cacos de vidros e um carreirão de formigas que
fizeram uma estrada nos monturos de lixo e iam por ela atarefadas
e cheias de pressa. Uma garrafa de te-quila Cuervo, só com dois
dedos no fundo, estava sobre o balcão, e, em vez de prosseguir
investigando o sortimento da casa, ela preferiu apanhá-la e dar o
fora dali. Em cima da pedra-mármore havia um montão de copos
empilhados e ela agarrou um deles.
— Há pessoas que não desistem fácil — observou Roth.
— Não se pode, quando se tem de sobreviver neste negócio —
disse ela muito ansiosa. — Tenho minhas convicções.
— Convicções! — disse com azedume, dando uma gargalhada.
— Vou dizer-lhe o que você tem, você tem são dois peitões.
Ela se sentiu atingida pela franqueza sem rebuços, mas não deu o
braço a torcer, era uma verdadeira profissional, capaz de enfrentar
qualquer situação dramática.
— Isso faz parte do negócio. Por que não usar aquilo que é meu?
— Serviu-se de um drinque e bebeu a bomba. — Al tem muito
respeito por você. Ele disse que você é um iluminador de
primeira.
— Ele não passa de um agente. O que é que entende de
iluminação? Santo Deus, você acredita em tudo que lhe dizem.
Ela começava a sentir-se confusa. Roth era do tipo do contra,
daqueles que criticam como uma ação reflexa. Ela, entretanto,
estava preparada para suportar o seu mau humor. Afinal, o tinha
atrás da máquina, iria tirar as suas fotos e faria com que ele
acabasse entrando na dela.
— Como você e Al se conheceram?
— Há anos... antes de ele ir para a ICM. Ele tinha, então, um
pequeno escritório e me agenciava para filmes comerciais. Mas,
acabei ficando de saco cheio, tendo sempre de fazer a mesma
porcaria. Estava esperando alguma coisa na televisão... estrelar
talvez um programa. Recebi dois scripts e fui aprovada. Mas
aconteceu que eram tão imbecis que mesmo em desespero de
causa recusei. Aí, fiquei cansada de esperar e também das
promessas de Al, por isso desisti. Mas não liguei a mínima.
Era do que ela precisava para reerguer o seu ego. Em seguida,
passou a explicar como ela e o ilustre Brockman se encontraram
no Gucci, saindo uma história das mais embelezadas com um
Brockman que a assediava com constantes convites para as festas
na casa dele. De uns tempos para cá, resolvera ceder, tal a
insistência dele para que mandasse uma série de fotografias ao
departamento de modelos da ICM, a fim de que pudesse lançá-la
adequadamente e lhe estruturar a carreira, com ele à frente,
confiando levá-la ao estrelato.
Roth fechou os olhos, reprimindo um bocejo, e disse:
— Nunca ouvi tanta besteira junta. O que é que acha que sou?
— Você é uma pessoa extremamente difícil, Eugene.
— E você não é minha mãe, por isso pare de me chamar de
Eugene. Bom, olha aqui, eu dou um duro danado trabalhando
para revistas especializadas em traseiros e peitos, e agora, se está
pronta, tire a roupa que começo a explorar os Andes e ver se o
canal do Panamá não vai embaçar as minhas lentes.
— Então, você faz poesia nas suas horas de folga? — disse ela
mordendo os lábios e extremamente nervosa.
Ele foi com ela para o jardim que estava em pandarecos e onde
havia um galpão aberto com o telhado sustentado por vigas de
ferro; ao lado, se achava a piscina de água quente e que
comportava umas oito ou 10 pessoas. A água borbulhava
convidativamente. Ele acendeu a luz e ela reparou no pequeno
estúdio improvisado com um fundo de papel branco e algumas
Nikons em cima de uma mesa. Pendurada numa corda de roupa e
segura por pregadores de metal, estava uma batelada de fotos de
uma garota nua. Ela teve um momento de indecisão, enquanto o
observava arranjando as luzes. Ele, então, levou um medidor junto
da sua cara. A sua indiferença a ofendia. Tinha raiva de ter de
admitir que, nele, existia um tipo de virilidade selvagem, rude,
que a atraía. Era da espécie de homem que subjuga mulheres e
maltrata. Sua tática era a grosseria. Contudo, os seus maus bofes
pareceram diminuir um pouco, quando ele lhe explicou que
trabalhara durante cinco dias num layout para uma revista pornô
{Hustler) com escritório em Carmel e que não quiseram utilizá-lo
porque não gostaram da garota. Aí, em vez dos 3 mil que ia
cobrar, acabara acertando o preço por uma ninharia, mil dólares e
mais o custo dos materiais.
— Al acha vital para mim que eu faça essa série de fotografias.
— Então diga a sua babaca para sorrir.
— Mas o que é que há com você? Por que é que tem de ser tão
grosso? Olhe aqui, nunca fiz nada contra você. — Ela estava quase
chorando. Os homens com quem se encontrava, além de lhe
pagar, a tratavam com respeito. Tomava um Lude ou um outro
tranqüilizante qualquer para agüentar a barra e saía dos encontros
com sua dignidade intacta. Enquanto isto, ele continuava a
reajustar a iluminação com ela sentada num banquinho alto. —
Sabe? Não vou passar minha vida toda em Rodeo Drive
embrulhando bolsas e lambendo sola de sapatos dos outros no
Gucci.
— O que é que há de mau nisso? Pode ter a sorte de pegar um
cara que esteja entre um divórcio e outro e se casar com ele em
regime de comunhão de bens.
Era revoltante o modo como ele a tratava.
— Pretendo ser atriz.
— Uma simples sessão de fotografias vai custar-lhe 600 dólares —
disse, sem tomar conhecimento dela.
— Pensei que...
— Consulte as páginas amarelas e se certifique do preço de uma
foto para passaporte. — Ele empurrou o baseado para dentro da
boca. — Pense que só fazer as cópias e as provas vai ficar em 250
dólares.
Ela saltou do banquinho e o encarou. As luzes deixavam-na
suando. Ele lhe deu as costas e lhe sugeriu que fosse trocar a
roupa. Perguntou, então, se ela queria um outro drinque. Ela
caminhava apressada ao lado dele, protestando. A grama crescida
batendo-lhe nos calcanhares era ainda pior do que o linóleo da
sala.
— Gene, não vou conseguir essa quantia.
— Pagamento em dinheiro.
— Você me está arrancando os olhos da cara.
Ele pegou a garrafa de tequila e se deixou cair numa das cadeiras
com a garrafa na mão. Tomou um longo trago e olhou para ela
sem compaixão.
— Não temos mais bebida. Por que não dá um pulo na venda
em Van Nuys?
— Eles não mandam entregar em casa?
— Estou devendo um dinheirinho lá. Vão querer cobrar. Ela abriu
a bolsa, um modelo toalete Gucci com corrente
dourada para ser usada a tiracolo; estaria bem na mulher avarenta
de um contador.
— Estou com 63 dólares.
— Será que não tem um trocado para o parquímetro? — Ele se
levantou e puxou de leve a ponta da orelha dela. — Bom, dá uma
corrida até lá. Ora, vamos, seja boazinha e pague uma parte da
minha conta.
— Fala sério?
— Claro. Ouça, hoje é noite de sábado e há quatro horas não
estupram ninguém no estacionamento deles. Você vai e volta sã e
salva. Os tiras todos estão rondando por aí. E, além disso, quem
vai querer currá-la?
Ela lhe puxou o cabelo e ele deu um sorriso maldoso, sem fazer
menção de tocar nela.
— Viu esses retratos pendurados no estúdio? Não quiseram ficar
com eles por causa do jeito como iluminei. Também o diabo
daquela avestruz tinha uma porção de estrias debaixo dos seios.
Não eram bem estrias, pareciam mais calombos, e ainda por cima
fez uma plástica na cicatriz da cesariana que ficou outra
excrescência. Tive então de fotografar com a câmara quase no chão
com o meu traseiro colado no carrinho e eles não aceitaram as
fotos.
— E agora você quer se vingar em mim.
Ela comprou a bebida e pagou 10 dólares da conta dele. O
caixeiro, falando com o sotaque arrastado dos latinos, convidou-a
a ir aos fundos da loja para lhe dar uma dose de mescalina. Ela
não aceitou. Ele segurou a porta para que ela passasse e acenou
para os ocupantes de uma radiopatrulha, meio escondida na
escuridão, junto ao estacionamento. Em seguida, ajudou-a a entrar
no carro. Será que estaria livre amanhã para ir a uma tourada? Ela
meteu o pé no acelerador furiosa. Eugene Roth era um maluco.
Ele estava ajustando as lentes da câmara no estúdio, ou melhor, na
sua choça, e ela desempacotou a garrafa de Cuervo Gold, uma
caixa com meia dúzia de cervejas e alguns pacotes de salgadinhos
de coquetel. O cinismo dele em relação a ela era repugnante.
Havia esperado que um amigo de Al Brock-man fosse encorajá-la,
dar-lhe conselhos sobre cursos de arte, e em vez disso, esse só
fazia demolir os sonhos que embalavam as suas noites solitárias,
quando saía das aulas e ia chorar dentro do carro. Como explicar
que eram estas fantasias que a sustinham, que a animavam, e que,
sem elas, estaria numa seção de roupas do Macy's, almoçando no
Blarney Stone, até que um dia a morte chegasse?
— Estou vendo que é mesmo um diretor de verdade — disse ela,
com alegria.
— Sério?
— Claro, basta ver como põe à prova os nervos das pessoas.
— Vou precisar de cílios postiços para você. Agora, vá tirar,
por favor, essa maquilagem pavorosa da cara. Está parecendo
untada de banha.
— Gene, você me está devendo 34 dólares — disse apre-
sentando um recibo.
— Você falaria assim com Stanley Kubrick? Arranque logo
essas roupas e se meta numa malha. — Ele pôs um filme numa
Polaroid SR-70 e testou o medidor de luz. — Você quer saber mais
do que eu? Pois pode acreditar que está numa enrascada. Antes de
ir embora vou dar-lhe uma nota com o preço dos meus serviços. E
outra coisa, dinheiro na mesa. Eu não corro riscos.
Ela teve vontade de dar um beijo nele, mas parecia que ele estava
falando sério, enquanto passava por cima de fios, estudava as
sombras no recinto, mexendo num montão de coisas, esquecido
completamente dela.
— Mas, Gene, você falou de 850 dólares. Como é que vou
conseguir isto?
— Eu não sou conselheiro financeiro. Vamos, tire essa roupa e
vamos ver se você vale alguma coisa.
— Seu filho da puta.
— Ouça, pestezinha, a razão por que estou querendo que fique de
peitos de fora e sem essa borradeira nos olhos é para ver se você é
interessante, tá bom?
O banheiro estava empilhado com toalhas do Holiday Inn,
The Concord, Sheraton, The Punes e de outros do mesmo gênero.
Ela desistiu do inventário e tratou de botar o sutiã com uma meia
arrastão, ligas e calcinha amarela rendada. As malhas estavam
com fios corridos e nojentas demais; ela as jogou fora pela janela
do banheiro. Removeu a pintura dos olhos com óleo Johnson para
bebê e passou só delineador com um pouco de máscara. Calçou,
então, um par de chinelos surrados dele e muito coquete
introduziu-se no estúdio. Graças a Deus não chovia.
Ele a colocou contra um painel de papel branco, levantou-lhe os
ombros, instruindo-a para encarar a lente da Polaroid, distante um
metro ou pouca coisa mais de onde ele estava, e lhe disse que
testava a luminosidade. Nada de sorrisos ou poses, por enquanto.
— Está quente — queixou-se ela; as luzes lhe batiam em cheio,
ofuscando os olhos.
— Veja se não pisca. E molhe os lábios, já que está pagando
pelo filme.
Ele fez uma meia dúzia de fotos, colocou-as sobre uma bancada e
inspecionou. Estava satisfeito com a iluminação e o modo como
ela fotografava.
— Agora tire o sutiã.
— Credo, tenho mesmo?
— Faça de conta que sou o seu ginecologista.
— Ah, bom. — Ele a botou inclinada sobre um banco. — Gene,
não vou poder pagar tudo de uma vez só.
— Fique quieta. Estou gostando da expressão. Parece que está
com medo. Falaremos de dinheiro depois.
Ele gastou outro pacote de Polaroid. Raramente, pensou ela, se
sentira tão pouco animada na vida. Todo o seu charme havia
desaparecido e estava morrendo de medo das criticas dele.
Tornara-se apreensiva. Uma coisa era tirar a roupa para fazer
amor, e outra, expor-se cruamente, isso era atemorizante.
— Puxa, que peitões — disse ele — e verdadeiros.
— Faço exercícios.
— Muito excitante. — Ele assentou a Nikon num tripé e se chegou
para perto. Berrava sem parar ordens para ela. A máquina fazia
cliques um atrás do outro e ela ouvia o zumbido do mecanismo.
Ele estava sempre mudando os ângulos e as poses dela. — Agora,
tire a calcinha.
Ela estremeceu. Seu espírito de aventura sumira e essa exploração
vil do corpo era humilhante. Ela começou a chorar e ele apagou as
luzes. Ofereceu-lhe maconha, serviu duas doses de Cuervo e fez
um carinho na sua bochecha. Era a primeira vez que a tocava.
— Qual o problema? Nunca ficou sem calcinha?
— Você é tão bruto. O que é que eu fiz?
— Esse é o meu jeito. Já apanhei muito da vida. Não é nada
contra você.
— Gene, eu preciso conseguir esses retratos.
— Você quer negociá-los? — perguntou com indiferença. —
Vamos dar um telefonema ao seu agente. Deixe que ele tire a sua
comissão.
— Deus meu, isso não!
— Madeleine, não gosto de trabalhar baseado só em
promessas.
Ele, então, explicou que iria completar a sessão e tomaria certas
medidas se ela concordasse em fazer algumas fotografias nua. As
fotos, depois, ele tentaria negociá-las com revistas pomo e racharia
o dinheiro com ela. Talvez fosse difícil, porque o que agitava o
mercado no momento eram fotos de lesbianismo feitas com
garotas brancas contracenando com pretas. Ela estava repugnada.
Aquele seu jeito atrevido com os homens ia aos poucos
desaparecendo, enquanto ele a massacrava contando os arranjos a
serem feitos de modo a facilitar a venda. Isso poderia render a ela
algumas centenas de dólares.
— Mas isso ainda não chega -— disse em tom de lamúria.
— Que tipo de experiência sexual você tem? — perguntou com
ar de quem não está dando muita importância ao fato.
A pergunta deixou-a assustada. Nunca alguém fora tão
implacável e severo com ela, desafiando suas particularidades
mais íntimas. Como nunca também imaginou que existisse nela
um lado tão cheio de melindres.
— Tenho tido algumas transas — admitiu relutante.
— Nunca fez com outra garota?
— Está brincando? — A sugestão deixou-a apavorada, atingia
a sua feminilidade em cheio. Em que tipo de antro teria ela se
metido? Encontros ocasionais com homens não se consumiam no
centro de sua vida, nada eram para ela senão bicos que fazia e de
que depois se esquecia. — Não ia conseguir transar com uma
mulher.
— Olhe, há uma coisa que não combina em você. — Ele
pensava no modo como poderia falar. O misto de burrice e
sexualidade em Madeleine transmitia a impressão de uma Goldie
Hawn acreditando-se uma Laura Antonelli. Fotograficamente,
essa mistura projetara uma sensação de sexualidade inesperada.
Até os instantâneos da Polaroid saíram bons. Para sua surpresa, a
câmara tomara-se de amores pela variedade de caras que ela
possuía. — Pode ser que consiga para você mais de 500 dólares
por Um filme. Você tem um jeito não profissional que agrada. Vou
tirar algumas cópias das fotos e mandá-las às revistas.
Ele deixou que ela ficasse remoendo o assunto e foi buscar o seu
último grama de pó, fazendo algumas fileiras em cima de um
espelho. Apanhou um canudinho de plástico na mesa e o ofereceu
a ela, que cheirou duas das fileiras e passou um pouquinho do pó
nas gengivas.
— É uma mistura de procaína com um pouco de anfetamina,
própria para as noites abafadas de verão.
— É gostoso, Gene... bom demais.
— Vê? Por isso, não consigo pagar minhas contas de bebida.
Ela matutava na proposta que ele lhe fizera. No mundo anárquico
dele nada era proibido ou sagrado. Madeleine tinha curiosidade
de saber até onde iria chegar, valendo-se exclusivamente de sua
audácia. Será que acabaria fazendo um filme? Desde criança que
dinheiro havia sido um empecilho para que ela conseguisse as
coisas. Sua mãe nunca lhe proporcionara o suficiente e jamais lhe
dera qualquer oportunidade. Os anos passados no Macy's ven-
dendo cuecas e camisetas eram irrecuperáveis. A seqüência de
atores que a unham enganado com falsas promessas, usando-a
inescrupulosamente, passou-lhe pela lembrança naquele instante.
— As fotos de nu dariam para pagar tudo? — perguntou ela.
— Vou especular com elas, benzinho.
Um filme! A idéia de que seria vista em cores numa tela de cinema
veio alimentar suas fantasias.
— Você vai aparecer nele?
— O que é que há? Andou tomando bolinha? Eu sou o diretor.
Brockman havia insistido ser ele talentoso. Intratável, sem dúvida
ele era, mas não mercenário. Ela não tinha outra saída.
— Vamos fazer os nus, mas posso pensar no filme?
— E por que tem de pensar nele? Deixe que o cérebro dos
outros organizem a coisa para você. Jay Bernstein, Al Brockman,
seus advogados, empresários. Eles vão calcular a sua percentagem
do total, e a sua programação.
— Merda! Será que não consegue ser bonzinho por cinco
minutos?
— Se você for comigo, vou fazer as suas fotos para o seu porta-
fólio numa outra sessão e lhe dou de presente.
— Ora viva, o meu patrocinador!
Ele cheirou a metade da última fila, reservando a outra metade
para ela.
— Vamos, Xerazade, tire a calcinha e nos mostre os doces
sonhos da masturbação.
— Você é pura poesia.
Ele conseguiu que ela pusesse os dedos sobre a xoxota e fizesse
caras eróticas enquanto simulava masturbar-se. Depois, fez com
que levantasse os seios na direção dos lábios e pusesse a língua
para fora como se fosse chupar os bicos. Fez ainda com que
ajoelhasse, esparramando o traseiro com o rosto voltado para a
câmara.
— Fantástico, Madeleine. Nenhum limão no jardim.
— Preciso de intérprete para entendê-lo.
— Nenhuma espinha na bunda. Deus meu, nunca encontrei
nenhuma mulher tão feita para a perversão quanto você... se ao
menos tivesse cabeça para combinar com o resto.
Ela começava a entender a sua aspereza que, na verdade, era uma
forma de defesa. Ele não acreditava na metade das coisas que
dizia. Sua idéia de cumprimentar uma pessoa era com um
pontapé na boca do estômago. E quanto aos seus problemas, ele os
inventava.
— Bom! Genial! — ia dizendo para encorajá-la enquanto
gastava rolos e rolos de filme, ora agachando-se para as tomadas
de baixo, ora subindo em cadeiras para as de cima, real; mente
trabalhando firme. — Ótimo. Gosto da inocência. E dinheiro. Vou
conseguir bom preço por isso.
— Quantas mais? — Ele a botou posando com um martelo
levantado como se fosse bater com ele no sexo, tudo isso
acompanhado por constantes oferecimentos de baseados, te-quila
e cocaína; o pó era oferecido em doses menores, não tão
generosamente.
— O mundo espera por você.
Quando pararam era por volta de uma hora da manhã. Ela estava
exausta e ainda indecisa. Ele tirou a roupa, subiu a escadinha e foi
banhar-se na piscina borbulhante. Nenhum convite para ela. Mas
ela foi assim mesmo juntar-se a ele, mantendo-se afastada,
sentando-se no lado oposto ao dele, que não fez qualquer menção
para aproximar-se dela. Espantoso. Com certeza, essa era uma
nova técnica. Ele lhe ofereceu um daiquiri, mas lembrou-se de que
faltavam os ingredientes.
— Gene, como você chegou a este ponto?
— Oh, a terapia transacional numa tina de água quente?
Chupe o dedo ou dê um grito primal, meus vizinhos já estão
acostumados.
— Espere, ouça o que quero dizer. Como chegou ao ponto de
fazer um filme como este que...
— Claro, você ainda não leu o script e nem deu o sim para quem
vai co-estrelar com você. Vou falar com Donna Sum-mer ou com
Diana Ross. Motown pode fazer a trilha sonora e não podemos
descuidar da publicidade.
Então fora a isto que ela chegara? Que maneira para se começar
uma carreira. O que é que iriam dizer no seu curso de arte?
— Quem vê este tipo de filme?
— Vou ver se consigo Ray Stark e Bob Evans.
— Ah, não brinque.
— Gente que gosta de pornografia. Homens, mulheres. Eles
compram esse tipo de coisa, passam em cassettes em casa quando
já estão de cuca cheia de vodca e totalmente brochas.
Como é que iria conseguir ter acesso a um cara destes? Seu corpo
excitava qualquer um. Para Gene Roth, np entanto, não passava de
um produto comercial como qualquer outro. Ele tanto podia estar
ali como em Detroit, assentando frisos cromados em portas de
carro numa linha de montagem. Assim molhado, ele a atraía e ela
ignorava a barreira construída pelas suas observações ferinas.
— Gene, por que faz isso?
— Devia pensar uns cinco segundos e depois dizer qualquer
coisa que pudesse impressioná-la. — Ele mergulhou a cabeça na
água e por instantes ela chegou a ficar preocupada, mas então ele
voltou à tona, esguinchando água pela boca.
— Tudo bem?
— Precisa molhar a garganta.
— Mas, voltando ao assunto.
— Achei que já tínhamos terminado.
— Ora, vamos lá.
— Bom, o que aconteceu é que não consegui agüentar as
pressões e todo um tipo de rejeição que eu estava tendo... então,
comecei a me comportar como um panaca. Dispensei Al e me
estabeleci como retratista. Naquele tempo, eu costumava largar,
furioso, reuniões pelo meio, gritar nos estúdios como
mandachuvas do tipo de Don Rickles quando ele fazia de anfitrião
So programa de Carson. Comecei, então, a me dedicar a retratos e
é o que Al pensa que ainda faço... mas depois, sem gaita, acabei
caindo na pornografia. Há um bom dinheiro aí. Faço uma coisa
sem pretensão e não tenho que ficar paparicando as pessoas. Uma
vez o produto pronto já não tenho mais nada a ver com ele. E você
deve pensar como eu se quer entrar na coisa. Não tem de ficar
quebrando a cabeça e não vai complicar-se.
Ela, sucumbida diante daquela demonstração de selvageria, tinha
curiosidade de saber o que pensaria dela no plano humano. A
aversão que tinha de si mesmo era contagiosa e o seu sarcasmo
atingia em cheio os sonhos que alimentara desde a adolescência.
Uma coisa era rolar-se na cama com um homem e outra atuar em
público, fingindo paixão, expondo-se a uma platéia de
transviados. Aquilo, que era um modo de vida para Gene, para ela
significava apenas falência. Sentia-se ferida, caindo de cansaço, e
se num momento rejeitava a oferta absurda, num outro estava
convencida de que era a primeira oportunidade real que lhe fora
dada desde que chegara a Los Angeles.
Mas e se ela conseguisse realmente atuar? Mostrar que poderia ter
um desempenho ainda que fosse num terreno destes? Não seria o
teste que finalmente a ajudaria a banir suas fantasias de uma vez
por todas? Ou que fosse o contrário, que viria provar que possuía
a centelha do talento? Bem ou mal, iria ter o seu carretel. A
perspectiva de ver-se num filme de verdade, pouco importava o
assunto, chamava à tona o lado narcísico de sua personalidade.
Monroe e Mansfield, os seus ídolos, haviam feito a mesma coisa e
nem por isso saíram machucadas.
Ela tinha sido uma guria gorda, sem atrativos, que, durante anos,
pelejara para perder peso, fazendo dietas, ginástica,
experimentando tipos de maquilagem, roupas, em vão tentando
atrair a atenção, e agora este diretor dissoluto de comerciais
confirmava que ela transmitia sensualidade e tinha algo de
original. Será que daria para levar adiante a coisa e emocio-
nalmente conservar-se fora da experiência?
— Ok. Tudo bem — disse ela. — Eu aceito.
— Gozado, pensei que não fosse concordar.
Mas, logo depois de tomar a decisão, foi tomada de remorsos. Por
que não dava sorte de encontrar um produtor sério ou então um
agente que reconhecesse que ela tinha algo que atraía os outros?
— Pelo menos um pouquinho, você gosta de mim? — perguntou
ela enxugando-se. Ela sabia que a pergunta ia servir para
aumentar mais ainda a sua insegurança e não para lhe trazer
tranqüilidade.
Ele emitiu um som desagradável onde estavam expressos a sua
grosseria e o seu desprezo, mas qual não foi a surpresa dela
quando percebeu que na verdade ele estava rindo dos dois.
— O que gostaria que eu dissesse é que você é algo de especial,
não é?
— Hã-hã.
Ele deu um sorriso triste e cansado.
— Você vai ficar sabendo quando as cópias estiverem prontas.
Nu, caminhando pelo gramado, um campo de batalha, cheio de
garrafas de cerveja e buracos de rato, ele a levou até o carro sem se
incomodar com os vizinhos ou transeuntes.
— Vejo que não me quer para passar a noite com você, aliás nem
chegou a me tocar.
Com indiferença, ele lhe deu um beijo na boca.
— Este foi só o nosso primeiro encontro, Madeleine, e eu sou
um homem respeitador — disse era tom de piada.
— Você é um grande filho da puta.
Na volta para Hollywood Hills, passando pelos caminhos desertos
de Valley, ela não se permitiu chorar. Cheia de espanto, pensava
na enorme crueldade dele e na sua capacidade para agüentar tudo
aquilo. Sentia-se vazia por dentro. Gene tinha sido capaz de
demonstrar que ela podia atingir o fundo de sua miséria e por um
momento sentiu uma certa satisfação por se saber livre da
carapaça de uma falsa moralidade.
Chegou à conclusão de que não tinha nada, nem inteligência rara,
nem preconceitos, nem coisa alguma, apenas um espírito servil,
ávido de sucesso e tão ignóbil quanto puro. O que era impossível
de expressar ou de revelar, inclusive até para Claire, foi a sua
sensação ao passar por um dos estúdios. A proximidade deles
deixava-a enlouquecida. Atrás dos portões da Fox, Paramount,
Burbank e da Universal com a sua torre negra, existia um mundo
de riquezas, de influências, que atingia cada vida neste planeta.
Ela estava excluída dele, e só passaria por aqueles portões se
forçasse o seu caminho através deles.
Ela e Gene formavam um lindo par unido por Brockman. Talvez o
agente lhe tivesse feito um favor ao proporcionar-lhe a saída de
uma prisão para entrar num universo de trevas. Madeleine já
tivera muitos homens antes, mas, sempre agarrándose a vagas
promessas podia conservar uma esperança indefinida. Gene seria
mais um a ser acrescido à lista dos benfeitores que a haviam
explorado. Começava a perceber que neste seu trabalho era
vulnerável e sem qualquer respaldo com que pudesse contar. As
mulheres eram pulverizadas e tomavam as mais estranhas e
irreconhecíveis formas. Lutava contra a maré e iria sucumbir por
esses sonhos impossíveis... pelo menos até segunda-feira, quando
tinha de assinar o ponto do Gucci.

Capítulo XV
No Beverly Hills Hotel, Claire passou a toalha pelo rosto e pescoço
e se encaminhou devagar para o banco junto da cerca da quadra
de tênis. Acabara de ter sua primeira aula com Alex Olmedo.
Giovanni tinha o maior empenho em que ela aprendesse a jogar e
havia insistido que o professor fosse nada menos do que um ex-
campeão de Wimbledon. Olmedo mostrara-se paciente,
encorajando-a a não desanimar. Ela se deslocava bem na quadra,
tinha agilidade e reflexos excelentes.
Ed apanhou a sua raquete e lhe deu um beijo na testa molhada de
suor.
— Que infância carente deve ter tido — disse ele.
Ela tomou do suco de laranja que ele trouxe numa garrafa térmica.
Sorriu para ele, agradecida por aquela dedicação e o tempo que
perdia com ela; por um momento, sentiu-se vencida pela sua
gentileza, chegando a pensar que se apaixonaria por ele.
Embora bom jogador, Ed tinha ainda aulas com Olmedo uma vez
por semana. Ela ficou observando as batidas seguras do mestre
com o aluno; os dois rebatiam a bola com uma força
extraordinária e usavam com destreza os ângulos da quadra. O
esplendor daquele domingo de sol brilhante com o horizonte
limpo de névoa, pela primeira vez naquela semana, deixando à
mostta o perfil das montanhas, deu a Claire uma sensação tão fone
de alegria que se considerou uma felizarda por estar ali.
Durante algum tempo, ficou observando Ed jogar, depois, aquelas
bolas no ar parecendo uma cascata inesgotável acabaram por
cansá-la e ela foi passar os olhos no Times de domingo. O Dia do
Trabalho estava próximo e mal agüentava espetar pelo fim de
semana prolongado. Passou os olhos ao acaso em alguns anúncios,
deu uma checada na programação de filmes para depois separar o
gordo caderno dos classificados. Quando estava pondo de lado a
parte social do jornal, os seus olhos bateram na foto de uma moça
de cabelos louros e longos e com expressão petulante. A garota
sorria para a vida, já privando com o futuro que estava ao seu
alcance; Claire ficou paralisada ao ler o nome debaixo da foto.

"Senhorita Hillary Langley Martinson"


Algumas bolas rolavam junto aos seus pés e uma chocou-se na
cerca bem. ao seu lado.
— Desculpe-me — disse Ed para Olmedo — tenho de bater com
menos força.
— Jogue mais na frente, Ed... está indo muito para trás. Claire
colocou sua viseira contra o sol e começou a ler as
linhas debaixo da foto.

"A Srta. Hillary Langley Martinson, filha do Sr. Leor-nard


Martinson e da falecida Gloria Martinson, de Bel Air, e o Sr.
Robert John Canaday, filho do Sr. e da Sra. John Canaday, de
Westport, Conn., casar-se-ão na Al Saint's Church, em Beverly
Hills, no sábado, dia 8 de setembro. Seguir-se-á uma recepção na
casa da noiva. O seu pai é diretor da Martinson,
Empreendimentos e Incorporações, e conhecido colecionador de
arte bem como benfeitor de várias de nossas entidades. O noivo
é formado pela Harvard School of Design e trabalha como
arquiteto na firma Hayward & Associados, de Beverly Hills. A
noiva concluiu o seu curso na Bishop School, em La Jolla.
Debutou em 1975 no tradicional baile de Coronado."

Claire largou o jornal, deixando-o cair aos seus pés. Reprimiu um


gemido, saiu da quadra e foi perambular pelos jardins do hotel.
Encontrou uma sombra debaixo de um eucalipto, onde,
completamente aturdida, ficou observando garçons empurrarem
carrinhos de chá para os bangalôs, criadas que passavam
tagarelando em espanhol e casais de braços dados que iam rumo à
piscina. Fazia um certo esforço para argumentar consigo mesma.
Sabia que alguma coisa desse tipo deveria estar para acontecer,
mas de nenhum modo estava preparada para receber a notícia.
Santo Deus, estava sentindo-se tão bem, tão em paz consigo,
libertando-se das crises emocionais, divorciada do passado. E,
agora, a dor que sentia era tão angustiante que chegou a dobrar-
se, agarrando o estômago com a mão. Pensou que fosse desmaiar.
Ouviu chamá-la pelo nome e logo em seguida apareceu Ed, que
havia conseguido localizá-la. Ele se ajoelhou, endireitando-lhe as
costas, cingindo-a com os braços. Preocupado, olhava para ela.
— O que é que foi? Será que tomou muito sol? Meu amor,
como você está branca. Vamos para casa, vou chamar um médico.
— Não. Já vai passar, está tudo bem — disse ela. Lutava para
recompor-se diante do inevitável.
No pequeno trajeto até a casa de Ed, quando estavam em Oxford
Way, atrás do hotel, ela respirava com dificuldade e permanecia
silenciosa, sentindo-se tonta, esperando poder recuperar-se
sozinha. O empregado dele havia posto iogurte e taças com salada
de frutas para o café da manhã. Enquanto Claire estava numa
espreguiçadeira, sem querer, franzindo o rosto e apertando os
olhos, ele veio perguntar a Ed como gostariam dos ovos.
— Não por enquanto, vamos esperar — ela ouviu Ed falando. Ele
veio sentar-se na beirada de sua cadeira e, confuso e solícito,
acariciava-lhe os tornozelos. Tirou os tênis e as joelheiras dela. —
Sua cor está voltando. Está querendo ficar sozinha, não é?
— Acho que sim.
— Você me chama quando quiser alguma coisa ou sentir que quer
conversar.
Ela pegou na mão dele e beijou-a. A presença de Ed confortava-a.
Alguém se importava com ela. Entretanto, preferia ficar só. Talvez,
refletiu, o anúncio do casamento fosse o que estivesse esperando
para sentir-se desobrigada e livre. Não tinha mais de no seu
subconsciente ficar guardando vigília ou mortificando-se. A
chama extinguira-se e, de certo modo, sem saber muito por que,
sentia-se aliviada. Apesar de não ter feito qualquer tentativa para
encontrar-se com Bobby, ela, na sua solidão, alimentava lá nos
recônditos do pensamento uma luzinha de esperança, remota que
fosse, de que algum dia Bobby iria reencontrá-la e pedir que
voltasse. Enquanto persistisse tal possibilidade, uma parte dela
não se entregava, estava reservada para ele. O sol queimava,
dirigiu-se então para a cabana para vestir um de seus maios e
depois mergulhou na piscina. Já não era a garota embasbacada
por poder nadar à noite numa piscina de água quente, mas uma
mulher que emergira da crise mais violenta de sua vida. Gostaria
de pensar que tivesse renascido, mas isso não era tão fácil assim.
Giovanni estava falando ao telefone de seu gabinete e acenou para
ela. Alguma coisa a magoara e não fora fisicamente.
— Está melhor? — perguntou ele da janela.
— Completamente.
— Os Dunlop estão convidando para uma partida de tênis na casa
deles... Você topa?
— Acho que vai ser ótimo.
Os acontecimentos sucediam-se tão rapidamente para Bobby que
ele estava tendo dificuldades para enquadrar-se num outro tipo
de vida totalmente diferente da que levara até então. Na casa de
Martinson havia um montão de gente: Milton Williams, o
responsável pelo bufê, floristas de John Patrick Bur-ke, três
mulheres de lojas da Rodeo Drive mostrando a Hillary feitios e
fazendas para o vestido de noiva, um alfaiate do Bi-jan tomando
as suas medidas para o fraque. Chamadas telefônicas constantes
dele para os pais e vice-versa. Num momento, estava no quarto de
Hillary que queria mostrar-lhe amostras de fazendas, num outro,
era chamado por Leonard à biblioteca para discutir o menu. Como
atração principal, Milton concebera trufas e madeleines para
combinar com o estilo da casa... devia ser um banquete
proustiano, mas com toques da Nouvelle Cuisine, valendo-se das
virtudes não engordati-vas desta. Leonard balançava
aprovativamente a cabeça com ar de conhecedor, maravilhado
com a criatividade de Milton, que era capaz de metáforas tão
altiloqüentes. A pessoa pode comer como um porco sem engordar
e ainda por cima passar nos testes de colesterol e de lipoproteínas.
Será que de repente teria ele se transformado numa autoridade em
cozinha? Só faltava essa! Só que para ele um bom hambúrguer
bastava.
O alfaiate finalmente acabou de tomar as suas medidas e marcou
três provas para a semana seguinte. Ele conseguiu, então, refugiar-
se no salão que se achava vazio, indo sentar-se num sofá de dois
lugares num canto perto da janela. Escondeu-se ali, dando graças,
a Deus por, pelo menos um momento, poder estar só.
Não sabia a que atribuir o seu estado físico de exaustão. Talvez
fosse a combinação de duas coisas: as exigências de Hillary e o seu
trabalho nestes últimos tempos para dar andamento no projeto da
Marine Mutual. Hayward e Leonard estavam agora sempre em
cima dele. Tinha sorte quando conseguia dormir quatro "horas por
noite antes de voar para o escritório às sete para encontrar-se com
desenhistas e projedstas. Ainda não conseguira definir o projeto
que pudesse considerar digno de ser executado. Via-se muitas
vezes obrigado a defender-se de Hillary quando, à uma da manhã,
tinha de explicar-lhe, usando de diplomacia, que precisava
dedicar-se mais ao seus compromissos de trabalho.
Ela deveria passar parte da semana no Disegno Contemporâneo
por causa de alguns novos clientes, mas achava sempre desculpas
para ausentar-se e vir ao seu escritório, interrompendo
conferências, arrastando-o ao St. Germain ou ao Le Restaurant
para almoços que levavam três horas.
Ele sugerira que fossem morar no apartamento dele depois do
casamento, ela, porém, recusou de pronto a idéia. Acharia um
lugar para os dois... confiasse nela. Entretanto, quando lhe
perguntava sobre os seus progressos nessa empreitada, ela evitava
dar detalhes. Sua cabeça estava a mil e isso se refletia em seu
trabalho. Não podia perder aquela comissão. Hayward deixara
bem claro ser aquele o serviço mais importante que a firma até
hoje pegara. Era um período feliz e rico, mas ao mesmo tempo
frustrante, estava faltando-lhe ordem, coisa essencial ao seu
trabalho.
— Ah, está aí, meu garoto — disse Leonard com voz
cantarolada, dando com ele na sala. — Que tal tomar um pouco de
ar. Essas provas põem a gente maluco. — Seu fraque ficara fora de
moda e ele estava passando pelo mesmo drama de Bobby.
— Queria achar um quarto sem ninguém dentro e dormir dois
dias seguidos.
— Ora, vamos lá, Bobby — disse Leonard, estendendo-lhe um
uísque com gelo. — Nunca arranjamos um minuto para conversar.
Havia dois meses Bobby não cortava os cabelos. Nem barbeiro
tinha. A sua geladeira estava vazia. Felizmente, a roupa suja era
agora lavada por uma das empregadas de Martinson. Daria o seu
braço direito para ter uma tarde tranqüila no seu apartamento,
olhando distraído um programa esportivo e mandando vir uma
pizza para comer, bem melhor do que um "Pato de Pequim" no
Mr. Chow's.
Pelo menos por uma vez, não havia convidados na casa e ele não
se via obrigado a ficar passando de grupo em grupo, ouvindo
besteiras. A dama de honra de Hillary, um perfeito vampiro, já no
segundo divórcio, estava sempre grudando-se nele de modo
pegajoso. Se acontecia de estar sozinho, fazia uma marcação
cerrada e ele ficava sem jeito para desvencilhar-se dela e também
não sabia como dizer a Hillary que, na noite passada, durante o
jantar, Kitty Oliver lhe havia perguntado onde poderia encontrar-
se sozinha com ele. Fizera-lhe, então, confidências, contando que
ela e Hillary já tinham tido muitas transas juntas e que o novo
casal seria muito bem-vindo na roda das veteranas da Bishop
School. Ele não acreditara nas coisas que ela contara. O fato é que
estava tendo muitas dificuldades para aturar esse tipo de
sociedade aberta. Não que tivesse pruridos de donzela ou que não
soubesse tomar conta de si, mas essa forma de agressão deslavada
começava a deixá-lo tenso.
Leonard passou o braço por cima do ombro dele — gesto que
quando estavam juntos não lhe era habitual e tampouco poderia
ser interpretado como de afetividade — e foram caminhando em
direção a uma casinha que ficava depois da piscina, a uns 400
metros da casa principal, descendo a colina. Era um chalé comum
com telhado recente de ardósia e de formato interessante pelos
constantes acréscimos que fora recebendo ao longo dos anos. Não
era, porém, construção caótica e mal-acabada, ao contrário, tinha o
encanto de uma casa de campo inglesa que tivesse sido reformada.
Quando criança, ele folheava revistas inglesas de arquitetura que
mostravam igrejas do interior, antes e depois de restauradas, e
maravilhava-se, então, com a engenhosidade dos artistas
britânicos.
— Acho que podemos resolver o seu problema de moradia —
disse Leonard, dando-se ares de importância e sorrindo
prazerosamente. — Poderia dar-lhe uma casa num dos seis lo-
teamentos que tenho. — Bobby franziu a testa. — Mas isso não é
coisa para você nem Hillary.
— Obrigado pelo oferecimento, mas, se Hillary fizesse um
pouquino de esforço, poderia achar um apartamento para nós. Eu
disse a ela que podia chegar até um pouco acima de 600 dólares
por mês. Com as comissões que pode tirar no trabalho, ela pode
fazer de uns 15 a 20 mil dólares por ano. Ela me falou também de
algo como uma mesada, mas isso tem de parar. Estou ganhando o
suficiente para viver.
Com os cantos da boca de linhas nobres caídos e apertando os
olhos, Leonard tinha uma postura de frieza que fez Bobby sentir-
se um tolo.
—Hillary não tem mesada, ela dispõe é da renda de um dinheiro
depositado em seu nome.
— Isso significa a mesma coisa.
— Não, Bobby, de maneira alguma. — Ele levantou os braços
como se pedisse desculpas. — Eu, pessoalmente, não tenho
qualquer controle sobre a fortuna de Hillary.
Eles se sentaram em duas cadeiras de palhinha, postas sobre o
gramado em frente do chalé.
— E o que é que isto tem a ver com tudo? Discussões sobre
dinheiro afligiam Bobby e o deixavam
inseguro. Ele via a riqueza de Hillary como algo de embaraçoso
que atingia o cerne de sua masculinidade. Não era um caça-dotes,
as outras pessoas poderiam pensar como bem entendessem, mas
gostaria era de um pequeno apartamento, mesmo com a loucura
da espiral inflacionária no mercado imobiliário. Gastaria uma
parte do ordenado em aluguel e, como todo mundo no país, iria
também viver de crédito- Suas ilusões de fazer uma reserva de
capital por meio de bons negócios ficariam para mais tarde,
quando ele pudesse permitir-se isto. Não era sua intenção
misturar o capital de Hillary com suas economias.
— Leonard, para mim dinheiro no vale merda nenhuma.
Desculpe-me a franqueza, mas realmente estou pouco ligando.
Por mim, todos esses sabichões podem continuar fazendo
shopping centers com os seus advogados e contadores
espertalhões. Eu não estou nessa. Olha, se amanhã esse país
virasse socialista, isso não iria afetar-me o mínimo. Iria projetar
casas para operários ou prédios para o governo. Claro, não
gostaria de sentir-me oprimido por causa de regimes políticos,
mas continuaria trabalhando da mesma? forma. E é isso aí. — Ele
riu. — Talvez as escolas oficiais não me aceitem, mas sempre
existirá uma escolazinha para onde posso ir. Percebe? Vou sempre
poder sustentar Hillary.
Eles tinham vindo com os copos na mão e Bobby gostaria de
tomar outro drinque sem ter de subir a rampa de volta ou fazer
um criado descer com uma bandeja para servi-lo. Leonard entrou
no chalé, mobiliado com funcionalidade, provido apenas com o
necessário para ser um lugar confortável, e Bobby se achou ali
como um intruso, julgando estar numa das acomodações de
empregado. Havia uma cozinha, dois quartos e uma saleta com
televisão e a indefectível mesa de gamão. Na saleta, Leonard
pegou uma garrafa de Black Label de um armário repleto de
bebidas. Sem dúvida, ali devia ser o seu refúgio.
— Vou esclarecer algumas coisas para você — disse Leonard,
movido pela franqueza e inocência de Bobby. — Quando me casei
com minha falecida mulher, eu era um rapaz como outro qualquer
voltando da Segunda Guerra Mundial... já ouviu falar dela, não é?
Bom, havia construído barracas para o Exército. Assim, resolvi
tirar um curso técnico de empreiteiro e conseguir minha licença de
construtor para poder construir qualquer coisa que desse
dinheiro. Gloria vinha de família rica e tradicional de San Diego.
O negócio da família dela era hotéis e loteamentos. O pai não
gostava de mim e não me tinha em muita conta. Durante três anos
nem sequer falávamos um com o outro, mas, quando as coisas
começaram a melhorar para o meu lado, a família me aceitou.
"Em 56, Gloria ficou grávida de Hillary. Já estávamos casados
havia 10 anos e pensávamos que nunca iríamos ter filho. Foi uma
alegria imensa nas nossas vidas... O pai de Gloria resolveu dotar
Hillary com uma certa quantia, mas só que colocou tudo de forma
irrevogável no nome dela. Embora minhas relações com o velho
tivessem melhorado, ele ainda me julgava como sendo um
vigarista. — Leonard ficara de pé, gesticulava com raiva como se
tivesse ali nas mãos uma prova irrefutável de sua honorabilidade
para atirar na cara do sogro. — O velho botou um milhão em
nome de Hillary, mas com a condição de que só recebesse a renda
do dinheiro depois que fizesse 21 anos. O fato é que arrumaram
uma forma complicadíssima para amarrar a coisa e os advogados
foram tão competentes que o dinheiro não pára nunca de
aumentar. Quando Hillary tinha três anos, a mãe morreu de
câncer. O meu negócio, então, estava indo a mil. Começava a
ganhar dinheiro para valer e foi quando passei a freqüentar os
círculos tradicionais de Beverly Hills e que são os nossos de hoje.
— Ele fez uma pausa e, por alguns instantes, Bobby imaginou que
Leonard estivesse a pique de chorar. — Quando perdi Gloria
fiquei com uma garotinha de três anos que infelizmente já tí-
nhamos estragado de tal maneira que nós mesmos não conse-
guíamos compreender por que fazíamos aquilo. E apesar de tudo
continuei sempre a mimá-la, talvez por sentir-me culpado de ela
ter perdido a mãe. Mas a verdade é que eu não sabia de que outra
forma tratá-la. Houve algumas mulheres na minha vida e algumas
por quem me apaixonei e com quem tive vontade de me casar,
mas nunca fiz isso. Hillary e eu nos havíamos transformado num
casal. Assim, quando você me pede para parar com a pensão de
Hillary, está pedindo à pessoa errada, Bobby. Ela vai poder tocar
no dinheiro quando tiver 30 anos e os cheques que lhe chegam
todos os meses estão fora de meu controle.
Leonard pôs a garrafa de Black Label sobre uma bela mesa de
sequóia, desses objetos magnificamente talhados para a
composição de um interior. Se precisasse, Bobby ficou sabendo
que haveria gelo, mas ele despejou puro nos copos. Agarrou a
mão de Leonard e o apertou nos braços. Haviam passado para o
plano da amizade, estabelecendo-se entre os dois uma verdadeira
ligação.
— Bom, vejo então que você pode compreender minha
situação — disse Bobby.
— Claro! Como não? O que pretendo é oferecer-lhe este meu
velho esconderijo para morarem temporariamente. Podemos tirar
alguns homens do Alpine e decorar isso aqui numa semana.
Arranjaremos um bom lugar para você trabalhar e eliminaremos
assim um ponto de discórdia entre vocês dois. Hillary não vai
encontrar apartamento nenhum. Nem mesmo vai chegar a
procurar. Vamos ser realistas, Bobby. Posso chamar Mike
Silverman ou Joyce Rey e numa hora você já está com a casa
pronta. Isso é moleza, percebe?
Ele percebia e este era o problema. A sua afeição até então por
Leonard nunca fora tão profunda como agora. Ele gostava do cara.
Mas dentro dele havia uma certa resistência. Leonard, pensou
consigo, precisava ainda de ter Hillary por perto. De nenhum
modo iria abrir mão dela, não obstante o casamento prestes a
realizar-se fosse com as suas bênçãos. Havia qualquer coisa
unindo aquele pai com a filha onde Bobby não poderia
intrometer-se.
— Aceito a oferta — disse ele com cautela. Seria absurdo ir contra
isso. — Ficaremos alguns meses aqui até conseguirmos instalar-
nos em outro lugar e nesse meio tempo dou um empurrão em
Hillary — sugeriu, enquanto tomava o seu uísque puro e servindo
depois outras doses aos dois.
A amizade dele com o futuro sogro era para ser das duradouras.
O homem estava lá, revelando o seu interior, nada escondendo e
isto para ele era uma indicação de que estava diante de uma figura
excepcional. Entretanto Leonard mostrava-se ainda preocupado e
passou o braço sobre o ombro dele de jeito protetor e disse:
— Bobby, Hillary é uma menina que teve problemas na idade de
crescimento... e esses seus noivados... bom, prefiro não entrar em
detalhes. Ela é, pode-se dizer de certo modo, uma moça frívola.
— É exigente.
— Uma coisa faz parte da outra. Você tem de educá-la. Mostrar-
lhe a diferença entre o certo e o errado.
As palavras surpreenderam Bobby, deixando-o confuso.
— Acho que ela sabe isto.
— Não quis dizer bem assim. Ela, sem saber, não tem meias
medidas quando se trata de satisfazer os seus prazeres. Se entende
de dispor do tempo de outra pessoa não há como impedi-la.
Claro, isto é culpa minha. Não dá para ela compreender, por
exemplo, o que pode estar em jogo quando se está trabalhando.
Ela se torna extremamente possessiva.
Bobby espichou-se, botando as pernas em cima da mesa. Ele
estava alto e precisava desesperadamente de alguém com quem
pudesse conversar.
— Ela planejou uma lua-de-mel. Você sabia disso? Vamos no
domingo de avião para Washington e de lá para um lugarejo
aprazível chamado John Hay.
— Ela foi lá comigo quando tinha 12 anos. Numa ocasião em
que tive de transar empréstimos com a Administração Federal de
Moradia.
Leornard enxugou os lábios e pegou a garrafa, mas não encheu o
copo de Bobby. Já estava ficando com os gestos lentos.
— Segunda-feira, viajamos no Concorde para Paris. Almoço no
Lapérouse. Ela reservou uma suíte no Ritz. Leonard, é como se eu
fosse a noiva, você entende? Em Veneza, o Gritti Palace. Vamos
ficar fora até novembro! Ela jogou tudo isto sobre mim esta
manhã, enquanto os alfaiates espetavam minha bunda com
alfinetes. Será que ela não sabe que estou fazendo um projeto para
um edifício e que nada de mais importante já me aconteceu até
hoje, a não ser o fato de eu ter nascido?
— Faça com que ela desista — cortou Leonard rapidamente
num tom inflexível.
— Faça você.
— Não sou eu quem vai casar-se com ela.
— Então vamos aliar-nos contra ela — sugeriu Bobby com
amizade.
Leonard estremeceu, estava cambaleando.
— Eu não. Não poderia fazer isso de novo. Você agora é quem
manda, Bobby.
Aos domingos, Ellen Dunlop gostava de cozinhar, para desgraça
do seu cozinheiro. Ela era do tipo que queima panelas, esturrica a
carne e adiciona cerveja, queijo, bacon, cominho e chouriço no
Carroll Shelby's, um molho onde tudo isto está perfeitamente bem
dosado. O cozinheiro, com seu próprio dinheiro, comprou um
jogo de panelas para Eilen na esperança de que pudesse preservar
as suas imaculadas, que eram de cobre e que deviam ser beijadas
pelas chamas só quando ele estivesse preparando um Fettucini
Alfredo ou Steak Diane à table para os Dunlop, uns miseráveis
filisteus. O autor do projeto da cozinha havia instalado nela uma
aparelhagem à base de microondas e que era tratada pelo
cozinheiro, um polonês dos mais petulantes, como trataria um
soldado da infantaria russa, um invasor de seu terreno. Mas Frank
adorava a geringonça e gostava de exibi-la orgulhoso de seus
ladrilhos coloridos e dos seus botões parecidos com os de um
computador. Eilen podia fazer tantos cursos quantos quisesse,
mas não tinha o direito de usar o diabo da coisa e queimá-la, por
isso estava ela ali agora, vigiando um molho que fazia, sem ousar
sair da cozinha a não ser por um minuto e deixando Claire na
guarda do monumento. Ed e Frank estavam na quadra de tênis
jogando, sem muito interesse, uma partida.
Eilen enxugou as mãos no seu avental de risquinhas, igual aos que
os mestres-cucas usam.
— Não se trata de estar chateada — disse ela — porque eu não me
chateio na minha vida. Mas preciso fazer alguma coisa. Você
entende, Claire? — Ela pegou páprica pensando que fosse
pimenta-do-reino; estava completamente tonta.
— Não muito.
Com as mãos nos quadris, parou de olhar a sua misturada que
fervia crepitosamente e observou com azedume.
— Sou a terceira mulher de Frank e a última que ele vai ter. Eu
gosto dele. Sei a impressão que ele causa nos outros, mas não me
importo com isto. Só para que tenha uma idéia do homem que ele
é, vou contar-lhe. Imagine que destinou para mim três prédios de
apartamentos que ele tinha em Beverly Hills e que hoje eu alugo.
Isso tudo adiantadamente, sem a mesquinharia de tratos pré-
matrimoniais. Se eu quiser, veja você, posso amanhã dar um
telefonema para Marvin Michelson e tirar o couro de Frank.
— Olha! O molho está fervendo muito.
— Ah, isso é bom. Se eu tapar a panela agora, ele não vai
engrossar. — Ela mexeu a caçarola com uma colher de pau, dando
uma ordem de comando ao molho: — Ande, comporte-se direito!
— Em seguida, encaminhou-se para uma mesa operada
eletronicamente que saía da parede como uma cama embutida e
pegou uma garrafa de Sancerre. Frank comprava vinhos tirando
os nomes nas enciclopédias; a dica daquela jóia, entretanto, fora
dada por Giovanni.
— Não me interessa ficar fofocando por aí. Durante seis anos
fui dona de uma agência de empregos em Chicago e tinha um
apartamento em Lake Shore Drive. Eu não precisava de Frank, de
seus problemas ou de seu dinheiro.
Eilen, com 38 anos, desafiava a idade que tinha e podia ser para os
homens como uma dessas melodias inesquecíveis que se está
sempre cantarolando sem jamais se cansar dela. Sua pele era lisa e
os dentes extraordinariamente brancos. Era polonesa e o seu nome
de solteira tinha as ressonâncias de uma marca de vodca. As
linhas de seu corpo lembravam aquelas que uma criança faz
brincando com o seu primeiro compasso numa folha de papel. Era
bonita, mas de uma maneira indistinta, de um jeito em que as
pessoas iam aos poucos se apercebendo até que a beleza dela as
surpreendia e passavam a achá-la magnífica. Com efeito, o
conhecimento de Eilen envolvia um processo de elaboração.
— Realmente esperei que você viesse visitar-me e fiquei
danada da vida porque não veio.
— Eilen, eu estava precisando de arranjar emprego. Ed não me
sustenta.
— Bom. Mas que diabo de coisa está fazendo na Minerva'sí
Frank não pisa mais os pés ali, depois do jeito como foi tratado
por aquela mulher. Ele pediu um suéter de cashmere cor de
laranja e essa dona... vá ser atrevida assim no inferno!... saiu lá do
fundo para vir dizer-lhe que o negócio dele era uma loja de
carregação. — Ela respirou fundo. — Não dava para a gente
acreditar. Claire, veja só, ela teve coragem de dizer isso para Frank
Dunlop. Bom, nem preciso contar que ele fez o maior escarcéu e
aquela louca nos barrou. Frank ficou estético. Procurou até
advogados... bem pode imaginar a loucura que isso gerou aqui em
casa. — Ela deu uma piscada de olho para Claire. — A gente tem
arranjado cada uma! Só uma não, uma porção de situações das
mais desagradáveis, e, se Frank já estava paranóico, com essa ele
endoideceu de vez.
Bom, aquilo era conversa de tarde de domingo. Claire tinha
pensado em pedir a Ed para levá-la para casa, mas, antes, tinha
telefonado para Madeleine e ouvira o fone sendo batido com
força. Por isso, nada de voltar para lá e ficar segurando-se,
querendo manter a calma. Teria de agüentar uma noite inteira,
com Madeleine caindo aos pedaços, e aí, dependendo só de seu
humor, acompanhá-la ao Imperial Garden onde ficariam no bar
com ela dando um jeito para serem convidadas para jantar.
— Admito que estou entrando de sola, mas como uma pessoa
inteligente como você pode trabalhar para uma mulher daquelas?
Pela cabeça de Claire, passou rapidamente a visão de Bobby e
Hillary diante do altar, prometendo-se um ao outro.
Pegou o seu copo de vinho e foi perambular pela galeria do lado
de fora, no jardim. Estava ventando e os homens na quadra
batiam bola, fazendo lobs.
— Claire, estou abrindo-me com você. Bem, já deve ter percebido
que não temos muitos amigos. Nossa vida aqui é um fiasco. Céus,
é verdade, a gente já contou com os Roger e o Cowan por uns
tempos, mas que parada! Jantares de caridade todas as noites com
Frank distribuindo 5 mil por semana para comer peito de galinha
recheado com grude. Fomos usados e cometemos muitos erros.
Socialmente foi horrível.
Ah, o que daria para ter agora um cantinho escuro e sossegado
onde pudesse dormir e esquecer.
— De que estávamos falando? De sua lealdade, não é? Você me
convenceu. Acredito palavra por palavra. Ou era do meu
emprego?
— Claire, quero começar a trabalhar. Estou precisando de fazer
alguma coisa. — Ela inclinou a cabeça sobre o ombro de Claire
que forçou um riso meio a contragosto. — Estou falando sério.
Gosto de você, sua tola. Bole alguma coisa para a gente.
Os rapazes pararam de jogar e vinham vindo, virando na boca
garrafinhas de água mineral que lhes escorria pelos rostos,
molhando as camisas suadas. Em seguida, como duas crianças,
começaram a atirar o conteúdo das garrafas um no outro.
Molecagens, numa tarde de domingo, depois do jogo.
— Não estou atravessando uma boa fase — disse Claire.
Gostaria que Giovanni a tomasse nos braços e a estreitasse muito,
jurando-lhe amor. — Não pretendo trabalhar para Minerva até
ficar de cabelos brancos.
— Claire, vamos, coragem! Oh, agora estou parecendo Frank
falando. A gente arranja dinheiro e você fica à frente do negócio...
tudo que quero é um lugar para mim mesma.
O projeto a seduzia, embora fosse difícil acreditar que os Dunlop
dessem cobertura a uma estranha num lugar tão sofisticado e caro
como Rodeo Drive. Depois do choque do anúncio do casamento, o
dia inesperadamente passara a ter o seu lado positivo. Tomando
cerveja e comendo cachorro-quente com molho, Frank veio meter
a colher de pau na conversa; Claire percebeu que tinha de
mostrar-se segura e confiante. O seu futuro podia estar
dependendo de como ela se portasse ali no momento. Tinha de
mostrar-se cuidadosa, sem parecer ansiosa demais.
— Rodeo Drive não precisa ter mais uma outra loja — disse ela. —
Por isso se você e Eilen estão pensando em montar algo de muito
luxo lá acho que estão no caminho errado. — Ela sorriu para
Frank. — Olha, Minerva pode ser muito desagradável, mas ela
dirige como ninguém o seu negócio. Você precisa ir a umas seis ou
oito lojas diferentes para encontrar o que ela tem estocado ali.
— Mas o modo de ela tratar as pessoas é podre — disse irritado.
— Isso faz parte do negocio. Ser esnobe, arrogante, combina
com o padrão de qualidade.
— Ela tem razão — observou Giovanni. — Se eu tratasse os
clientes no meu restaurante da maneira dela, numa semana teria
de fechá-lo. Já o Studio 54 adota a fórmula de manter o público
afastado. O London Club vem tentando, mas, aqui em Los
Angeles, ainda não estamos preparados para isso. — Ele segurou
a mão de Claire como a indicar que era da sua opinião. —Já disse
a Claire que, se ela tiver alguma coisa em mente, eu arranjo um
grupo para financiar o negócio dela.
Dunlop remexeu-se inquieto. Apesar de nada ainda estar
assentado, a idéia de que talvez Eilen estivesse sendo posta de
lado o deixou furioso. Ele conhecia muito bem esses grupos
financeiros. Uma dúzia de pessoas com algum dinheiro resolviam
empatar um pequeno capital num negócio e, com isso, se sentiam
no direito de interferir, fazer sugestões imbecis até que um dia a
brincadeira ia à breca. Tio Sam ficaria com o prejuízo, absorvendo
os impostos devidos. Mas o que ele queria mesmo era ver Eilen
lançada na sociedade, cortejada por todos aqueles que os tinham
esnobado. Se ela pudesse ter sua presença em Rodeo Drive,
estariam abertas as mesmas portas que haviam sido batidas nas
suas caras.
Ele reconhecia que Giovanni era um homem de sucesso no seu
negócio e sabia que ele tinha uma ligação amorosa com Claire,
mas um grupo bancando um negócio, além de gerar conflitos
doentios pelo fato de as pessoas terem personalidades diferentes,
quase sempre não tinha dinheiro suficiente para agüentar as
operações posteriores. Uma vez feito o investimento inicial,
mostravam-se relutantes se tivessem de investir algum dinheiro
adicional. Frank considerava-se bom conhecedor de caracteres e
em Claire percebia um dinamismo que o deixava intrigado. Era
um bisbilhoteiro inveterado e, depois de tê-la conhecido, acionara
o seu departamento de investigações para ter a ficha dela. O
relatório que lhe chegara fora extremamente animador, contando
em detalhes a passagem dela pelo Drake's. Impossível imaginar
por que tinha ela pegado um emprego na Minerva's, mas devia ter
lá suas razões para isso. Se havia alguém com capacidade
excepcional para se tornar um executivo, seria esse encanto de
garota. De posse dos informes, passara a ficar em cima de Eilen
para sondá-la sobre alguma possibilidade de negócio. Precisava
de alguém como ela, com experiência de venda a varejo para
participar do plano que havia bolado.
— O que você acha que iria funcionar, Claire? — perguntou ele.
Por que estariam querendo a opinião dela? Sem dúvida, isso
deveria ser algum hobby para Dunlop. Mas, por que não se soltar
e tentar saber a razão pela qual eles estavam dando-se ao trabalho
de paparicá-la?
— Sou ainda muito moça e tenho certa dificuldade com lojas
comerciais, mas o que eu estava pensando — ela sorriu de modo
irresistível — enquanto estávamos aqui a dar voltas no assunto era
em algo que pudesse funcionar no país inteiro.
Dunlop chegou-se para frente na cadeira. Giovanni fechou a cara
como se um trabalhador braçal estivesse ocupando o lugar de
honra no seu restaurante.
— Ei, Claire, pare de brincar com a gente — disse Dunlop,
pressionando-a para falar.
— Uma loja é algo de concreto, Frank. Não é a mesma coisa
que ficar teorizando sobre o mercado de bens de consumo ou altas
finanças com papeluchos que pulam de um escritório para outro e
trazem lucros na ordem de milhões. — Ela exagerava, mas por
que não meter um papo-furado para cima dele? — Aqui o negócio
é mercadoria... um bem de verdade. Se você montar uma
Minerva's em Cherry Hill, Nova Jersey, numa área de afluência
qualquer, em Beacon Hill ou em Grosse Pointe, pode ser que vá
funcionar, mas poderia você entrar numa delas e gastar 500
dólares? Estou só tentando dar uma idéia do que pode dar certo. E
já que estamos aqui apenas dando palpites, o tipo de loja em que
estou pensando seria uma que abrangesse a família inteira.
— Continuidade do mercado — sentenciou Frank, como se ele
fosse um estadista responsável por um determinado tipo de
política.
— Comercialmente, isto quer dizer manter uniformidade na
compra de estoque — disse ela, observando o entusiasmo
amadorístico de Eilen. — E o que sinto sobre Rodeo Drive é que
isto também pode ser usado lá. Veja o que existe na ma... Gucci, St.
Laurent, Ted Lapidus têm suas marcas próprias. Dick Carroll
ainda guarda o conceito de cidade pequena, mas ele trouxe Brooks
Brothers para operar na ma. Antes de Rodeo ser qualquer coisa,
Dick Carroll já tinha um ponto com uma clientela de homens e
mulheres querendo uma moda e um estilo próprio da costa leste.
E, pense nisso, se um negócio como o de Courrèges sofrer
algumas quedas, isso não vai ter a menor importância, porque
existe um interesse financeiro atrás dele. O que estou à procura é
de um conceito que funcione com Rodeo Drive, que se torne
respeitável, que não saia de moda e que, ao mesmo tempo, não
tenha de ser reformulado de três em três meses. Essa é uma linha
capaz de fazer expandir um negócio. E foi o meu problema no
Drake's. De qualquer modo como encare a coisa, ele não passa de
um magazine do mesmo gênero do Jefferson's na Flórida ou do K-
Mart, que arrebanham o grosso do mercado. Agora, se eu achasse
algo para Rodeo Drive que atendesse mais de um tipo de clientela,
eu teria de fato um senhor negócio. Claro, teria de estar apoiado
numa marca, porque é o que o público consome.
Ela adorava falar de negócios e se sentia lisonjeada por ter os três
ali escutando-a atentamente. Ela não tinha muitas ilusões e a coisa
acabaria dando em nada, fosse com Dunlop ou com Giovanni. Era
conversa fiada. Mas, por outro lado, por que Frank não poderia
realmente investir num negócio para distrair e manter a sua
mulher ocupada? Estavam todos brincando e ela também se
divertia. No seu ramo, era uma boa profissional. Eles podiam ter
mais dinheiro, mas seriam expulsos de seu escritório no Drake's,
que não era nenhuma firma vendendo blablablá e sim um campo
de batalha onde diariamente se tinha de adivinhar as intenções do
público.
A fantasia de ter a própria loja, com todas as dores de cabeça e o
trabalho que uma coisa dessas dá, veio reavivar-lhe a ambição.
Giovanni, enquanto a levava para casa, mantinha uma atitude de
criança a quem não se dera a devida atenção. Ela o estava
mandando mais cedo para a cama e ele não estava acostumado
com esse tipo de frustração. Os Dunlop também o haviam deixado
por conta da vida. Uns merdinhas que tiveram a audácia de
ignorá-lo na vista de Claire. Não era à toa que esses dois haviam
dado vergonhosamente com os burros n'aqua em Beverly Hills.
Santo Deus, que jeito também de tratarem as pessoas!
— Eles não têm o mínimo de classe — comentou Ed com
azedume. Não estava realmente no seu melhor humor.
— Concordo. Mas ela está falando sério, ele tem dinheiro e
ambos não têm escrúpulo.
Ed percebeu que Madeleine estava espiando por trás de uma das
persianas quebradas no canto daquele seu bagunçado living.
— Que dia brabo, hein, Claire? — disse ele desapontado. — Você
nunca me diz o que vai na sua cabeça. Como então será que vou
poder aproximar-me de você?
Ela já estava na porta e também notou Madeleine espionando-os.
Teve vontade de chegar de mansinho por trás e lhe acertar um
pontapé na bunda que fizesse sua cabeça atravessar as persianas
da janela.
— Ed, procure uma outra — disse Claire, mais zangada com
Madeleine do que com ele mesmo.
— Devia fazer isso. — Ele ia abraçá-la, mas ela escapuliu. —
Bem, amanhã eu telefono. — Com passo altivo, voltou para o
carro e, cheio de sentimentalismo, deixou escapar um queixume:
— Ah, o jeito de você tratar as pessoas...

Capítulo XVI
Ellen abriu o mês de Claire brilhantemente, gastando quase 6 mil
dólares em saias, suéteres, blusas e alguns conjuntos, fazendo com
que Minerva, feliz, cantarolasse de boca fechada, enquanto
passava em revista o talão de vendas de Claire. Ele já havia
insultado pessoas demais para se lembrar de que distinguira
Frank com tratamento especial. A Central de Cartão de Crédito
aprovou a compra e era tudo quanto lhe interessava. Entretanto
Minerva se esquecia logo das coisas e, quando Claire foi vê-la no
sábado seguinte, pela manhã, para avisá-la de que estava doente e
não ia trabalhar, sua voz ressoou com aspereza:
— Já trabalhei com febre de 39 graus e com pneumonia.
— Você tem uma natureza melhor do que a minha —
ponderou Claire.
— Bem, a gente se arranja sem você — cortou ela com frieza.
Claire foi para Beverly Hills e estacionou o carro na Bedford
Drive, à altura da quadra 600. Caminhou, em seguida, para Santa
Monica Boulevard e se colocou do lado oposto da AU Saint's
Church, pondo-se a olhar a frota de limusines dirigidas por
choferes que iam chegando e despejando os convidados do
casamento. Era uma manhã sem vento, com céu luminoso e com
uma temperatura de uns 30 graus. O ar estava cheio de vagas
promessas colocadas pelo verão agora plenamente amadurecido.
Um dia perfeito para casamento. Ela já vira, anteriormente, uma
loura vestida com jeans, dirigindo um Rolls-Royce, a mesma que
vinha, agora, seguida por um séquito de carros. No sol, o anel de
noivado da moça brilhava fantasticamente. Logo depois, surgiu
um batalhão de fotógrafos e de repórteres que saltaram de
pequenos carros e Claire ficou observando-os tomarem posição no
pórtico da igreja. Era um templo de estilo espanhol, pequeno e
romântico, que tinha o encanto intimista das capelas de cidade do
interior.
Permidr que Bobby continuasse vivendo na sua imaginação seria
manter uma ferida sempre aberta. A realidade, a sua presença
física ali, naquele momento, funcionaria como um paliativo. Não
tinha intenção de embaraçar Bobby e nem de fazer cenas. Era
necessário que visse para poder libertar-se de vez.
Às 10:30, viu um Cadillac Fleetwood parar na frente da igreja. Jack
e Lynn Canaday saltaram e Bobby os seguia. Estava vestindo calça
listrada, casaca cinza-pálido, de corte austero, e gravata de cetim
branco. A cartola preta ia na mão. Dois fotógrafos pediram-lhe
para ficar onde estava. Parecia surpreso, com ar atordoado, depois
foi juntar-se aos seus pais. No rosto de Lynn, havia um sorriso
forçado e ela dava a impressão de estar soluçando. Só Deus sabe
quantos Valium engolira com gim no café da manhã.
Os sons de uma tocata de Bach num órgão invadiram a atmosfera
pacata da ma. Claire e Bobby haviam combinado que no
casamento deles seria tocada uma sonata de Beethoven no
momento em que estivessem saindo da nave. Claire encostou-se
numa árvore, com os olhos fixos na igreja, sem nenhuma noção do
tempo.
Da igreja, veio o som de vozes misturado com o da música. Os
convidados, alegres, falando alto, vinham caminhando
vagarosamente para fora. As mulheres com vestidos de verão
estampados e os homens de ternos escuros, ou então com trajes de
cerimônia, elegantes-ricos, distantes, regozijando-se com o casal
de noivos que emergia da igreja.
Claire correu para o carro. Estava fana de casais perfeitos e
nostalgias incuráveis. Ele estava agora casado e ela, esquecida;
aquilo que uma vez os unira tinha sido enterrado. Havia esperado
sentir-se estraçalhada e de cetto modo estava até desapontada por
ter saído ilesa, praticamente reconstituída, inteira, em paz consigo
mesma pela primeira vez, depois de um longo pesadelo. Tinha
passado porém por uma prova terrível e jamais tornaria a ser a
mesma. Isso, talvez, fosse para o seu bem, pensou, já que nada
mais ela tinha a perder.

No dia 12 de setembro às quatro horas da tarde, Leonard recebeu


um telefonema de Ann pedindo-lhe para marcar um encontro com
o homem do dinheiro. Foi num estado de grande tensão que, às
4:30, ele entrou no bar do Bel Air Hotel. Sentado com Ann, numa
mesa perto da janela, estava um homem de cabelo ruivo, cara
descarnada, nariz de papagaio e olhos azuis de expressão dura.
Ele se levantou para apertar a mão de Leonard. John Blaire, de pé,
era mais alto do que se supunha, tinha cerca de 1,80 m e as mãos
eram cobertas de sardas. Andava pelos seus 30 anos, usava terno
cinza de ris-quinhas finas e gravata de lã. Sem dúvida, existia nele
algo de matreiro e a voz era empostada como as que se adquirem
em certas escolas públicas que retiram delas os traços sugestivos
de doçura de caráter. Leonard podia bem imaginá-lo numa escola
tipo Eton, dando bengaladas nos meninos menores e intimidando-
os com o seu jeito valentão. Ele estava bebendo cerveja preta com
champanha, Black Velvet, uma combinação indescritível
recomendada para enjôo.
— Gostaria de ter sido avisado antes — disse Leonard, olhando
para Ann. — Teríamos arrumado um jantar para John. Ele poderia
ter ficado hospedado na minha casa.
— Cheguei inesperadamente. De qualquer maneira, obrigado.
Talvez em outra ocasião.
Leonard pediu um Black Label com gelo.
— Eu trabalhava em Slater Walker, no centro financeiro de
Londres. Mas, depois, quando a coisa começou a andar mal, me
estabeleci por conta própria — explicou ele.
— Foi quando decidimos trabalhar juntos — comentou Ann.
— Não estou muito a par do meio financeiro inglês.
— Slater Walker era uma casa bancária de caráter mercantil e que
depois começou a diversificar os seus tipos de transações e fez
uma série de investimentos imbecis. Veio, então, a débâcle —
explicou Blaire.
Ann pegou na mão de Blaire, um gesto afetivo, sem outras
intenções.
— John e eu nos ligamos muito há alguns anos, quando ambos
éramos funcionários numa companhia chamada Sun Life — disse
ela.
— Santo Deus, Annie, acho que a gente ganhava 20 libras por
semana — disse em tom de reminiscência. — Foi depois que
descobri como se faz dinheiro de verdade. A experiência de Slater
Walker me foi útil. Foi por causa dela que consegui um montão de
contatos.
— Quer dizer então que hoje você trabalha sozinho?
— Não sei se poderia dizer bem assim. — Ele e Ann riram,
aumentando o desconforto de Leonard.
— Veja você, ganhei o meu primeiro dinheiro mexendo com
bens postos em penhora. Conseguia o controle de uma companhia
com o dinheiro de outras pessoas e depois usava as cotas dessa
companhia para ficar com o controle de uma outra que tivesse
alguma propriedade livre e desembaraçada de ônus. Vendia,
então, a propriedade para pagar às pessoas a quem estava
devendo. Hoje, posso dizer, estou nadando em dinhei-. ro com
duas companhias para entrar nessa jogada. Elas podem servir
para firmas que estão precisando de satisfazer certas condições
para poderem atuar na bolsa de valores. E o caso, por exemplo, da
John Bloom's Rolls Razor que nada tinha a ver com a companhia
original. Ele entrou no negócio de máquina de lavar roupa e
depois saiu.
Blaire era de um descaramento total, mas tinha prazer em contar
como aos poucos se fora tornando um homem respeitável.
— Conseguimos trabalhar com capitais fora do país. Apólices de
seguro e títulos de propriedades. No Lichtenstein, a gente não
paga impostos e é por isso que nós podemos permitirnos ir bem
mais além do que a maioria dos capitalistas ingleses. Nossa
companhia, a Brighton Property Bonds, cobra juros da ordem de
14,5 por cento.
Leonard perguntou quem estava atrás da Brighton.
— Eu, assim como Ann também, representamos um grupo com
capital privado. Você não precisa preocupar-se com a identidade
deles. — Ele abriu sua valise e tirou um fichário lá de dentro.
Soltou um clipe para papéis, mostrando a Leonard uma cana de
crédito no nome dé Brighton Property Bonds no valor de 20
milhões de dólares do Barclays Bank, uma sucursal em Beverly
Hills do Bank of America.
— Leonard, acho que cumpri o que prometi, não é? — falou Ann
com voz sarcástica. — Entretanto, nunca disse que estava
autorizada a negociar o resto do empréstimo.
Leonard sentiu-se esmorecendo. Percebia que nessa não ia levar a
melhor.
— Olhe aqui, parece-me que essa sua gente está levando demais.
Com 5 milhões, você está ficando com a metade dos meus lucros
num prédio a ser construído em Century City. Os 50 por cento de
Marine dados a vocês é um altíssimo negócio que fizeram, e
quanto ao que combinamos, Ann, era de que o resto do dinheiro,
os 5 milhões para assegurar o terreno e os 15 milhões para a
construção que vão permitir que eu tenha um crédito bancário
logo que fecharmos aqui este negócio, devia satisfazer a todos.
Ele não precisava de ter gastado saliva. Blaire não o ouvia e
mostrava-se chateado com a direção que a conversa unha tomado.
— Leonard, eu vim aqui não para barganhar, mas para informá-lo
das novas condições — disse friamente.
—Mas nós temos um contrato.
— Não, apenas um trato— corrigiu-o Ann. —John, in-
teiramente de boa fé, colocou 5 milhões no negócio, apenas
confiando na minha palavra. E você quem está parecendo que
quer dar volta na coisa.
— Ora, vamos deixá-lo — disse Blaire para Ann com in-
diferença. — Se ele conseguir levantar o dinheiro em outro lugar
dentro de dois dias, nós o receberemos com todo o prazer.
Francamente, Leonard, o que estamos levando é 30 por cento e
uma parte num empreendimento que é dos mais arriscados.
Também somos agressivos na maneira de comerciar a nossa
mercadoria. Como você sabe, a maioria do meio circulante é de
uma instabilidade total com essa bruta inflação que está havendo.
Devolva-nos os 5 milhões, que nós compramos ouro com eles.
Ele se levantou e fez sinal ao garçom para que lhe trouxesse a
conta. Leonard ficou branco.
— Jogou dinheiro fora, Leonard — disse de modo cortante Ann.
Durante um ano, ele havia tentado, sem conseguir, obter os 25
milhões de que precisava; como agora iria poder levantá-los em
dois dias? Aproveitavam-se de'sua desgraça e ele se sabia
impotente.
— John, me dê uma chance. Eu ainda não dei o meu não
definitivo. O que é que você quer?
Blaire pediu mais champanha com cerveja preta e friamente expôs
as suas condições.
— Olhe, meu caro, há uma alternativa. Você pode estar querendo
processar-me por não cumprir aquilo que considera como sendo
um contrato, mas que é, segundo nós entendemos, um acordo,
que, em princípio, estava sujeito à revisão final. Nós podemos
ficar demandando para sempre. E você, será que pode? No
Lichtenstein? Por acaso tem a leve noção da dificuldade que seria
isso? Irá perder o dinheiro que deu para a garantia do terreno e a
Marine Mutual ainda vai processá-lo. Está disposto a isto?
Eles o tinham nas mãos. Sabia que em todo negócio com capital
privado a pessoa fica vulnerável a este tipo de manobra.
— O que é que está querendo a mais?
— Rodeo Puerta. Certamente, também este é um negócio
arriscado. Lojas comerciais... mas pelo menos isso fortifica a nossa
posição, até que Marine esteja construído e rendendo.
Se o prédio não estiver alugado no prazo de um ano, estaremos
com um elefante-branco nas mãos.
Leonard balançou negativamente a cabeça, lembrando-se de que,
quando Ann aventara essa possibilidade, ele fora inflexível na
recusa.
— Cinco por cento — sugeriu por fim.
— Você pensa que sou idiota? Quero 51 por cento!
O princípio inabalável de Leonard sempre fora o de jamais ceder o
controle nos lucros de um negócio. Mas, aqui, fora batido pelas
táticas diabólicas usadas contra ele.
— Meu caro, o seu crédito anda péssimo. Se não fosse por isso,
nunca teria ido procurar Ann.
A proposta era de uma impiedade extrema e ele se sentiu zonzo.
— Tem noção do que me está pedindo para ceder?
— Rodeo Drive pode ter seu charme e ser incensada pela
imprensa, mas há alguma garantia de que vai conseguir alugar
todos aqueles andares pelo preço que está pensando? —
perguntou Ann.
Os dois juntos caíam em cima dele, dando-lhe um golpe atrás do
outro. Santo Deus, caíra como um patinho na jogada deles. Agora
percebia isso claramente. O papel de Ann como agente na
transação do empréstimo e o emprego subseqüente que lhe dera o
haviam deixado sem qualquer defesa. Ela estava por dentro de
todas as suas desgraças financeiras.
— Como posso saber que, amanhã, não vai mudar de idéia e
pedir 90 por cento de tudo? — protestou ele.
Blaire tirou da pasta um contrato, indo direto à última página.
— Ficaria feliz em poder dar agora um telefonema para o banco e
de ir lá assiná-lo com você para que possa ficar tranqüilo.
Na última página havia um parágrafo curto descrevendo Rodeo
Puerta e estipulando que 51 por cento da propriedade descrita na
forma legal passaria para Brighton Property Bonds em troca do
capital por esta investido na Martinson, Companhia de
Desenvolvimento. Ele não tinha outra alternativa senão aceitar os
termos impostos. Sentiu, entretanto, um certo alívio com o fato de
que Ann Shaw estaria para sempre fora de sua vida.
Os trabalhadores mexicanos empastados de poeira e suor que
Leonard havia tirado da casa de Alpine para reformar a casa de
hóspedes ainda estavam ali, quando Bobby chegou pouco depois
das cinco. Ele estava atarantado, correndo daqui para ali,
apreensivo com o encontro que tinha às seis com Dunlop para
mostrar-lhe os estudos preliminares de seu projeto. Ele e Hillary
estavam casados havia apenas cinco dias e a sua vida cada vez
ficava mais complicada.
A noite do casamento fora passada numa casa em Malibu Colony
que Kitty Oliver pusera à disposição deles por um mês. Ele ainda
não fizera a mudança inteira de seu apartamento e estava achando
as idas e vindas diárias que tinha de fazer para Malibu mais uma
outra coisa a prejudicar o seu trabalho. Não conseguia trabalhar
naquela casa e acabaria louco se ficasse sentado num terraço
olhando ondas se espatifarem na areia. Talvez fosse o seu estado
de espírito ou a tensão por causa do trabalho, mas o fato é que não
conseguiu achar um ponto comum entre ele e aquela vizinhança.
Hillary, desapontada, aceitara adiar a lua-de-mel, mas agora
punha a culpa tanto no pai como nele por terem conspirado às
escondidas. Ficava ruminando a coisa, incapaz de compreender as
responsabilidades que Bobby tinha pela frente, e ele percebeu a
sua maneira inteligente de fazer com que se sentisse culpado.
Hillary nunca aprendera a cozinhar e não tinha a menor intenção
de iniciar qualquer curso relacionado com atividades domésticas.
Quando a empregada faltava, a cama permanecia sem fazer e as
toalhas acumulavam-se no banheiro. Apesar de não estar
apaixonado pela casa de hóspedes, ele se sentiria feliz de trocar
Malibu por ela.
Um Mercedes branco 450SL estava parado em frente da casa e um
mexicano de peito nu encontrava-se sentado na balaustrada. Sua
pele acobreada estava riscada de suor. Tinha um peitoral forte de
carregador de peso, cintura fina, bíceps mostrando as veias
desenvolvidas, e rosto sombrio, mal-encarado. Bobby tinha a vaga
impressão de já tê-lo visto botando telhas na casa de Alpine. Ele
não gostava muito da expressão desafiadora e fixa que percebia
nos olhos castanhos daquele homem, era a de um baderneiro, com
ar provocativo.
— Você fala inglês?
O homem saiu de junto do gradil e encaminhou-se calmamente na
sua direção, encarando-o com arrogância.
— Devia. Sou descendente de mexicano. Nasci em Boy-le Heights.
— Está trabalhando aqui?
— Estou. Bancando o mestre-de-obras para ter certeza de que a
garotada não está fazendo muita besteira. Você é o arquiteto?
— Sou.
— Na outra casa está botando toda a droga abaixo. Vai fazer a
mesma coisa aqui?
— Não. Deus me livre. Só pintura, papel de parede e algum
serviço de carpintaria.
Bobby foi para dentro e ficou furioso ao ver Hillary sentada no
sofá tomando um coquetel à base de tequila. Ela usava short de
jearis, deixando à mostra suas coxas, e uma blusa tomara-que-caia
amarela, numa fazenda fininha e transparente que deixava ver as
linhas do seio. Alguns operários, em cima de escadas de mão,
arrancavam o papel da parede, um outro, debaixo da pia da
cozinha, consertava um vazamento e havia mais dois que estavam
no quarto. Na cozinha, um rádio berrava uma música a todo
volume.
— Olá, seu desconhecido — disse Hillary. Ela se levantou, não
muito firme, rodeando-o com os braços e conservando o copo na
mão. — Hora do drinque. Veja só isso, um dos rapazes preparou
um montão de coquetéis deliciosos. Ele pode dar aulas para
qualquer barman desta cidade. — Ela não estava bêbada, apenas
articulando mal as palavras.
Bobby segurou-a pela cintura e foi manobrando com ela para o
lado de fora da casa. Ela escorregou os dedos pela abertura da
camisa dele com os botões de cima desabotoados e ele, sem
conseguir barrar-lhe o gesto, passou nela uma esculhambação.
— Mas que diabo há com você? Ficar andando por aí na frente
desses homens meio bêbada e acenando na cara deles com esse
anel de brilhante. — Leonard dera a Hillary o anel de noivado de
sua mãe, um imenso solitário. E ninguém perguntou a ele, Bobby,
como ele se sentiria com uma mulher que ostenta uma pedra de
oito quilates.
— Calma. Santo Deus, tome um drinque e fique calmo.
— Hill, vá trocar de roupa.
— Ora, deixe disso.
Nunca sentira tanta irritação com ela e estava a ponto de estourar.
— Parece que está querendo arrumar barulho com esses peitos e
traseiro à mostra.
Ela se zangou.
— Não me venha com essa agora de como eu tenho de andar e
vestir. Se acha que gosto de ficar vigiando esses caras para que
não ponham o teto da casa abaixo, está muito enganado. Estou
fazendo isso por nós, para que tenhamos nosso canto.
— Será que podemos passar a noite na cidade?
— Ótimo. Vou reservar uma mesa na Lucy's Adobe. Esta noite
me sinto mexicana.
— Hillary, esta noite eu tenho de trabalhar. Ela tomou de um
trago o resto do drinque.
— Primeiro, já não houve lua-de-mel e agora você vem para
cima de mim que nem um bruto. Bom, você não gosta de Malibu,
mas o que é mais importante? Eu ou a merda de seu prédio?
— Não tenho tempo agora para discutir.
— Você não tem tempo para coisa alguma. Já ouviu falar
alguma vez em algo chamado prazer? Quando é que vai entender
que não precisamos de dinheiro? Podemos fazer tudo... qualquer
coisa, Bobby. Estou dando-lhe a oportunidade para se ver livre da
bostinha do seu trabalho que só serve para deixá-lo maluco.
Ficou tão furioso que até bater nela teria podido.
— Para mim, meu trabalho não é nenhuma bostinha. Em toda a
sua vida, você nunca trabalhou um só dia honestamente, por isso
o que é que sabe sobre o assunto?
Ela abaixou o queixo na direção do peito, sem graça, vencida,
sentindo-se deprimida por não poder fazer-se compreendida, e ele
quis, por um instante, pensar em alguma coisa de razoável que
pudesse ser partilhada pelos dois para poderem fazer as pazes.
Ela se afastou indignada, depois se voltou. Enfiou a mão no bolso
e tirou um molho de chaves que atirou na direção dele.
— Você nem notou, não é? Ou, se notou, nem se deu ao
trabalho de me dizer se gostou.
— De que está falando?
— Do carro. Mandei entregá-lo e os rapazes estavam fazendo
uma limpeza, porque na loja o serviço deles é uma droga.
Ele se virou, percebendo que o automóvel estava sem placa e com
um adesivo do Departamento de Veículos Motorizados colado no
pára-brisa; na porta do lado da direção, achavam-se gravadas as
iniciais RJC num tom castanho-escuro. Nunca vira nada de tão
vulgar na vida. Agora, ela queria comprá-lo e suborná-lo. Ele
atirou as chaves para ela com o seu orgulho ferido, fulo de raiva.
— Por acaso está pensando que sou algum gigolô? Se o que
faço é bostinha para você, então pegou o homem errado.
— Seu filho da puta — rosnou ela.
Ele nunca sentira tanta raiva na vida como quando acelerou o seu
Honda, mal conseguindo raciocinar, mas teve de frear para
esperar os portões elétricos abrirem-se. Porra, ele abominava tudo
isso. Não iria deixar que Hillary ou qualquer outra pessoa viesse
impedi-lo de fazer o que bem entendesse. Tudo o que interessava
eram as plantas com os estudos preliminares que levava no seu
porta-fólio e que Dunlop estaria vendo dentro de alguns minutos.
O encontro com Dunlop não durou muito, mas foi animador.
— Talvez seja aceito — disse ele a Tim Hayward, que, nervoso, o
esperava no bar do Westwood Marquis. — Quase chegamos a um
acordo.
Bobby queria passar em revista o seu trabalho durante alguns
dias, para depois apresentar um bolo de plantas já num estágio
mais avançado e com mais detalhes. Ele e Hayward passaram
horas agradáveis, trocando idéias sobre as perspectivas que Los
Angeles, de modo geral, tinha para oferecer, e lá por volta das
nove horas, em vez de cair na farra, voltou para casa com espírito
conciliador. Talvez conseguisse que Hillary entendesse o seu
ponto de vista.
A porta da frente não estava trancada a chave e havia um cheiro
forte de cola, terebentina e pintura dentro da casa. No balcão da
cozinha, encontrou uma pizza do Numero Uno, um clássico
produto da indústria alimentícia de Chicago, uma comida que
estava empacotada desde longa data e que só servia para encher
sem alimentar, mas ele achou que Hillary a tinha comprado
porque sabia que ele gostava e estava querendo agradá-lo. Entrou
no quarto, encontrando-a de jeans, cochilando na cama com a
televisão ligada. Ele se abaixou e lhe deu um beijo na testa.
— Olá, menino mau — disse ela.
— Quanto ao carro...
— Joguei pelo despenhadeiro abaixo. — Ela ria nervosamente e foi
subindo a mão pela perna da calça dele, abaixou o fecho e
acariciou os culhões. — Bobby...
— Hã-hã...
— Vou fazer umas maldades com você.
Estava fora de qualquer possibilidade terem uma conversa,
fazerem alguma tentativa para solucionar as dificuldades que os
cercavam.
— Claro, vamos ao trabalho.

Capítulo XVII
Achei que fosse vê-la no casamento — disse Eilen, comendo um
prato de frutos do mar. Elas estavam no Bistro, suficientemente
perto da loja para que Claire não tivesse de enfrentar o tráfego e
pudesse voltar a tempo para o trabalho. Minerva não admitia
almoços demorados, mesmo na companhia dos bons clientes. —
Estava curiosa de saber como estaria vestida. Gosto da sua
maneira de se arrumar. — Mesmo com uma saia de linho preto e
blusa branca de algodão de mangas curtas, com bordadinho na
gola, Claire dava jeito de parecer charmosa.
— Tinha outras coisas para fazer.
— Minerva, claro. — Nos olhos de Eilen entreviam-se afeto e
amizade. — Ed chegou tarde à festa e... sozinho. Nunca pensei
que fosse desacompanhado a algum lugar e saísse sem carregar
uma boneca com ele. Claire, você conseguiu agarrá-lo mesmo.
— Nós nos damos bem a maior parte do tempo. Que mais que
eu poderia querer?
— Você gosta dele?
Se a curiosidade dela não fosse bem-intencionada, a pergunta
seria impertinente.
— Não penso muito no assunto.
Claire surpreendeu-se tomando uma atitude defensiva, com
imagens de Bobby e da noiva povoando o seu pensamento. Era
ainda perigoso o terreno em que estava pisando.
— Você não gosta muito de falar de você ou de seus problemas
pessoais, não é?
— Praticamente nada há para contar. Minha mãe foi instalar-se
em Vegas há alguns anos. Ela tem um emprego de caixa no Sands.
Estou sempre pretendendo ir até lá e nunca vou. Desde que
cheguei a Los Angeles só falei uma vez com ela. Nunca fomos
muito chegadas uma à outra. Temos personalidades diferentes.
Ela é uma mulher completamente livre que vive cada dia como se
este fosse o último de sua vida e nossa relação do ponto de vista
emocional é muito difícil. — Claire mostrou-se por instante
hesitante. Talvez Ellen com toda a sua simpatia pudesse ajudá-la a
exorcizar o fantasma de Bobby. — Eu perdi o homem por quem
estava apaixonada — disse, por fim, sem sentir-se humilhada por
isto ou dar-se ares de tragédia. A sua atitude era de tamanha
neutralidade que ela só podia significar uma enorme dor por esta
perda. — Posso, na maior das inocências, ter sido a própria
culpada de tudo. Até conhecer Ed, estava completamente fora
deste mundo. Antes eu tinha um emprego no Drake's, um homem
e um belo futuro me aguardando. — Ela sorriu com amargura. —
Mas eu estava cega. Tinha tendência em simplificar coisas que
eram importantes para ele. Ele queria sentir-se livre e eu lhe dei
carta branca. E isso é tudo.
Claire contara o seu drama de uma maneira tão singela que Ellen
se sentiu comovida.
— Você se devotou demais a ele.
— Sim, isso é uma falha de caráter que tenho. Existem agora
outros homens com quem poderia sair, mas Ed tem sido muito
bom para mim e a vida de mulher sozinha não combina muito
comigo. Sinto-me mais feliz quando sou só de um homem. Talvez
haja algum milionário a minha espera ou então um pobre-diabo,
nunca se sabe, mas esse é um problema que tem de resolver-se por
si mesmo, são possibilidades que não vou explorar. Eu moro com
uma garota que está nessa procura.
Ellen quis saber de sua relação com Madeleine; sem fazer rodeios,
Claire explicou que, mesmo existindo uma base de amizade entre
as duas, elas freqüentemente entravam em choque Começou,
então, a parecer que existia um sentimento de rivalidade entre ela
e Madeleine, e Claire parou de falar. Já estava na hora de voar
para o trabalho. Pegou 10 dólares, botando-os sobre a mesa.
— Não seja boba, o próximo você paga — disse Ellen as-
sinando um cheque. Ela foi andando com Claire para a loja e lhe
perguntou sobre o que acharia de mudar de casa.
— Daria tudo para ter o meu próprio cantinho. Ed me chamou
para morar com ele, mas isto iria tirar minha independência.
—Tive uma idéia. — Ellen rabiscou um endereço e o entregou a
ela. — Encontre-me nesse lugar depois de terminar o serviço.
— Às seis e meia?
— Perfeito.
O lado sul de Wilshire Boulevard ficou sendo a parte de Beverly
Hills habitada pelo pessoal mais conservador. Pouco importava
que apartamentos de um quarto fossem alugados por 800 dólares
por mês ou que outros de dois quartos que nem 100 metros
quadrados tinham e dando para estacionamentos alcançassem um
quarto de milhão de dólares. Qualquer mudança seria abençoada
por Claire e aquele prédio de três andares em Camden Drive
representava um paraíso. Eilen esperava na frente do prédio,
dentro de seu Rolls Comiche de cor amarela. A capota estava
abaixada e ela olhava a revista Cosmo que abrira por cima do
volante. Deu uma buzinada quando viu Claire surgindo junto da
calçada à frente dela.
Claire não sabia o que a estava esperando, pois Eilen fazia
mistério e, mesmo quando a levou ao terceiro andar de um prédio
de esquina, ela se manteve numa atitude de indiferença que
aguçava cada vez mais a sua curiosidade.
— O que você acha? — perguntou a Claire, de pé no centro da
sala. O tapete branco e espesso sob os pés era fora do comum.
Dois sofás de cor azul-marinho ficavam defronte um do outro e
separados por uma mesinha de espelho. Uma bergère forrada com
morim estampado em tons de azul-claro fazia perto de um canapé
um arranjo num dos cantos da sala. A lareira de mármore branco
era para funcionar a gás e decorada com toras incandescentes.
Eilen abriu as cortinas brancas, apontando para um canto
contornado por um balcão.
— Fala sério? O que é que eu acho? E o maior barato. Mas
devem pedir mais de mil dólares por mês por isso aqui.
— Veremos. Dê por enquanto uma olhada.
Havia dois quartos com banheiro. Um funcionava também como
escritório e tinha estantes de livros, sofá, poltrona e uma
escrivaninha com papeleira que ficava contra a janela. O quarto
principal tinha uma cama de casal com cabeceira de capitoné na
cor azul-pastel e uma colcha também azul de babado com
padronagem provençal, combinando com as cortinas. O banheiro
era grande com o último modelo de banheira, boxe para chuveiro
e um recinto destinado a maquilagem. Foram gastos tempo e
trabalho naquela decoração. Os detalhes de madeira dos dois
quartos eram na cor de mel. A cozinha dava para uma saleta de
jantar onde havia uma mesa redonda de vidro e quatro cadeiras
de espaldar alto, com estrutura de metal cromado e assento de
couro. Eilen pegou dois refrigerantes da geladeira, uma
Westinghouse conjugada com o freezer, e ofereceu um a ela.
— Então gostou dele?
— E o apartamento mais lindo que já vi na minha vida.
— Ele é meu — disse Eilen com um largo sorriso. — Quero
dizer, o prédio. Eu contei a você que tinha três edifícios, lembra-
se? Nós costumávamos alojar aqui os executivos vindos de
Chicago. Mas Frank prefere que eles fiquem em nossa casa para
poder estar junto deles dia e noite. Eu pensei em alugá-lo
mobiliado ou então vender, mas estou contente de não ter feito
isso. Gosto muito dele e o dinheiro que ele me ia render não ia
adiantar de muita coisa. Quanto você está pagando a Madeleine?
— Há certos meses que são 300 dólares e outros que pago 400.
Oficialmente são 250 dólares, mas isso depende das finanças de
Madeleine. Não poderia achar nada por menos em nenhum outro
lugar.
— Então gosta?
— Eilen, ele é magnífico.
— Ele é seu por 300 por mês.
Claire perdeu a fala, ficou simplesmente olhando para ela
embasbacada até que conseguiu abrir os braços e foi dar-lhe um
beijo.
— Ellen, tudo isso é real e não um conto de fada? Por que me está
dando isso?
— E a coisa não está óbvia? Eu e Frank gostamos imensamente de
você e de que adianta ter tanto dinheiro se não se pode fazer as
coisas de que se gosta? Se eu fosse alugá-lo ou vendê-lo, o que
iríamos fazer com o dinheiro senão pagar mais impostos? Marine
Mutual é a sexta maior companhia de seguros do país. Acho até
que Frank nem sabe o que ela vale, mas é algo de assustador como
200 milhões de dólares. O outro lado da moeda é que estou
morrendo de vontade de começar com alguma coisa que seja
minha mesmo, e, com você, tenho o pressentimento de que vai dar
certo. Por isso, querida, mãos à obra que vamos nós duas começar
um negócio.
Do terraço, dava para ver as duas torres triangulares de Century
City, Roxbury Park e pessoas caminhando pela rua. Claire não
apreciava o isolamento de Hollywood Hills. Ela gostava era de se
saber participante de uma cidade com uma comunidade bem
estruturada. Nunca mais daqui para frente precisaria ficar à mercê
de seu carro, driblando as colinas tortuosas e se esquivando de
todos aqueles motoqueiros abusados que cortam dia e noite os
caminhos das encostas. Poderia ir a pé a Rodeo Drive. Mais do
que tudo, porém, o apartamento lhe daria a abençoada
privacidade, iria permitir-lhe pôr em ordem a vida, reconstituí-la,
finalmente.
— Ellen, posso impor uma condição? Existe em mim um lado
infernal de classe média. Gosto de pagar da minha maneira. Se eu
ganhar bem num mês, iria sentir-me melhor pagando mais por
este aluguel.
— Aceito. Amanhã virá o pessoal da limpeza e você já pode
mudar-se quando quiser.
Por estranho que possa parecer, não havia uma só pessoa com
quem Claire pudesse partilhar a sua felicidade. Giovanni ficaria
ressentido com a independência dela e Madeleine, conforme o
humor, dos mais instáveis, ou iria acusá-la de deserção, ou
tentaria persuadi-la para que a levasse junto. De qualquer jeito
sairia perdendo, num e noutro caso. Quando chegou em casa,
porém, tudo deixou de importar. Pelo menos por uma vez faria o
que lhe agradasse.
Madeleine, descalça, andava pela casa fumando um baseado. Os
seus olhos, por um momento, pararam no rosto de Claire e depois
os desviou e foi tirar de cima da pia um saco com lixo e, em
seguida, buscar uma garrafa de vinho Chablis. Suspendeu um
copo vazio na direção de Claire, que aceitou beber com ela. A
primeira coisa, entretanto, que Claire fez, foi ir tirar sua saia preta
e botar a blusa na cesta de roupa suja. Ela estava querendo um
banho e a banheira estava com um anel de sujeira, assim a lavou
com as últimas gotas existentes de detergente, usando um pano
que estava enroscado como um bichinho dentro do armário de
remédios.
— Vai sair? — perguntou Claire ao voltar para a sala.
— Vou. Dentro de uma hora — respondeu Madeleine, falando
sem entusiasmo. Ela lhe passou o seu copo de vinho com dois
pedacinhos de gelo dentro. — Você tem um minuto? — per-
guntou, nervosa e pouco à vontade. Claire, mentalmente, elaborou
uma múltipla escolha dos temas prioritários de Madeleine; um
novo pedido de empréstimo; a discussão sobre se aceitava ou não
uma transa valendo 100 dólares ou então duas horas de análise
das razões por que Al Brockman continuava evitando-a. Ela
admitira ter dormido com ele e estava sem saber se tal coisa fora
um erro na estratégia de sua carreira. Se ao menos tivesse alguém
como Lee Strasberg para burilar os seus talentos...
Pelo menos dessa vez, Claire não havia acenado. Madeleine,
agora, estava metida numa grande enrascada.
— Acho que suspeitam de mim no Gucci.
— Verdade? Desde quando é da conta deles saber com quem
anda dormindo? Pensava que eles fossem negociantes de couro e
não guardiães da moral.
— Claire, não se trata disso. — Ela estava em pânico e Claire
ficou perplexa e preocupada ao mesmo tempo.
— O que é que há? Conte.
As mãos de Madeleine tremiam.
— Já devia ter parado há meses. Mas o dinheiro era fácil e eu
estou sempre na merda. Andei surrupiando bolsas devolvidas por
causa de defeitos e outras que eram para consertos. — Claire não
devia ter ficado surpresa, mas ficou. — Consegui arrumar uma
dúzia mais ou menos de mulheres para quem vendia e pagavam
em dinheiro. O Gucci teve um rombo de cerca de 3 mil dólares em
bolsas.
— Sabem que foi você?
— Está ficando muito óbvio. Oh, Claire, o que aconteceria se
fosse no Drake's? Por favor, me diga.
Ela não desejava amedrontar Madeleine. Mas a atitude do Drake
era igual à de Savonarola para esses casos. Queimava os ladrões
na fogueira. Em matéria de furtos, ele ficava possesso. Já era
bastante desagradável ter de aturar roubos de fregueses, quanto
mais ter de agüentar os praticados pelo pessoal da casa, isso já era
traição de Judas. Ele forçava as acusações, baseando-se em
evidências plausíveis.
— Você é contratada?
— Claro.
— Querida, como às vezes você pode ser tão burra! E agora
como a mamãezinha aqui vai poder salvá-la? Eles têm câmaras
instaladas, aparelhos para espionar?
— Têm.
— Se você tiver sido filmada, tem uma chance. Uma garota no
Drake's alegou que esta era uma prova ilegal. Acontece que o
namorado dela era estudante de Direito e ele estava certo. É uma
coisa, parece, que é inconstitucional. — Ela deu uma puxada no
baseado. — O que é que vou fazer com você, Maddy?
— Se for descoberta, estarei perdida. — Ela chorava, me-
lodramática. —Jornais e televisão vão me crucificar. — Suspirou
com ar de abandono e medo. — Faço parte do que chamam área
de interesse. Não vão mais esquecer-se de mim.
— As companhias de seguro contra roubo, certamente, não
vão. Vá com calma. Não é a mesma coisa que Bette Midler ser
apanhada no ato.
— Ela pode pagar a fiança e eu não — disse Madeleine
levantando os punhos cerrados na direção de um universo im-
placável que não tinha outro objetivo a não ser o de espezinhá-la e
oprimi-la.
— Se você for realmente condenada, poderá conseguir sus-
pensão da sentença — ponderou Claire. — Você é primária?
— Claro.
— Ótimo. Por outro lado, não houve mais de uma testemunha
que a pegou em flagrante, não é?
— Não.
— E a palavra de uma garota contra a sua. Você pode
defender-se dizendo que ela está mentindo porque tem inveja de
você. Eles na loja têm de ter provas contra você. Credo, parece até
que já estou em pleno tribunal. No Drake's, graças a Deus, eu
ficava fora de toda essa podridão. O único jeito de eles botarem
realmente as mãos em cima de você é se pegarem uma das
mulheres para quem vendeu uma das bolsas e ela estiver disposta
a testemunhar contra você. Drake arrumou uma assim, num caso
de roubo de pequenos aparelhos eletrodomésticos. Ele encostou a
garota contra a parede.
Claire tinha de descansar um pouco. A maconha deixava-a
atordoada. A última coisa que Madeleine precisava de ouvir
naquele instante era que estaria de mudança dentro de pouco
tempo. Simplesmente, isso seria demais para ela.
— Mas, voltando às companhias de seguro contra roubo, a loja faz
a queixa e joga tudo para cima delas. Elas, então, mandam um
espião, geralmente uma mulher. Esta pode ser tipo suave e
bondoso ou ser do gênero de Joan Rivers, a super-mulher. Nunca
se sabe. Assim, se você não vendeu bolsas para ninguém mais, há
ainda alguma chance.
A análise da situação feita por Claire não trouxe maior alívio para
Madeleine. Ela nem sequer se lembrava para quem tinha vendido
as bolsas. Uma dúzia seria uma estimativa por baixo. Vendia às
pessoas recomendadas por outras; seu fã-clube de "rapinadoras"
funcionava como uma corrente de cartas. A grande jogada fora
uma bolsa estilo clássico do Gucci, de magnífico crocodilo, e
fechada por uma fivela, pela qual ela recebeu 418 dólares e mais
uma entrada para ver a peça Zoot Suit. O dinheiro foi torrado de
uma só vez, num terninho de seda vermelha na liquidação do
Hermes. Madeleine sabia que podia não ser responsabilizada
simplesmente por roubo, este seria mais um caso de receptação.
— Oh, meu bem — disse ela — vou ter de ir embora daqui e
trabalhar outra vez em teatrinhos mambembes. — Ela levou a mão
ao peito esquerdo como se prevenisse contra sabe-se lá o que e,
para espanto de Claire, começou a chorar de modo tão
desesperado que fez com que a outra se sobressaltasse.
— Madeleine, pare com isso. Acho que sei o que deve fazer. —
Madeleine se ninava nos próprios braços, balançando-se para a
frente e para trás, com os peitos tocando na orelha de Claire. —
Você vai forçar uma acusação deles e aí diz que não responde a
uma só pergunta, enquanto não falar com o seu advogado. Aquilo
é Gucci e não o Drake's. Eles têm uma reputação para zelar e é aí
que vão dar-se mal. — Claire ficara excitada, contagiada pela
loucura de Madeleine. — Você vai ameaçá-los. Depois, peça que
seja indenizada pelo tempo de serviço. Vão fazer qualquer coisa
para se verem livres de você. Pelo menos eu faria.
Movimentos rápidos de olhos sugeriam que a idéia estava
passando por algum processo de digestão na mente daquela
trapaceira gorducha. Ela olhou de banda, esboçando um sorriso
afetado.
— Em 10 anos, você será a segunda Sra. Archie Bunker —
disse Claire animada.
— E por que não Meryl Streep? — Pegou os apetrechos e se
preparou para enrolar um novo cigarro, uma grande novidade na
casa, já que Madeleine normalmente fumava maconha com
piteiras em forma de pinça.
— Uma outra coisa, meu bem — disse ela, piscando para
Claire, no seu melhor estilo para representar a menininha que
barganha uma fatia extra de pizza — tenho um encontro esta noite
e não sei se vou conseguir agüentar a barra. Vai ser algo de
realmente muito estranho.
Claire saiu da sala carregando o seu copo de vinho gelado.
Diabos, ela tinha de tomar um banho e fazer Madeleine sair logo
para que pudesse ter a cabeça outra vez no lugar.

— Não tenho nenhuma certeza disso, Gene. — Madeleine


reparou que havia um novo suprimento de bebidas e que um
vidro da janela do lado tinha sido retirado e que agora estava
sendo usado como superfície das fileiras de coca.
— Bom, creio ser esta uma suprema decisão que você e o
presidente têm de discutir para poderem chegar a um acordo.
— Olha, pare com isso. — Ele encheu o copo dela com vodca.
— A propósito, eu senti na garganta um pouco de gosto de
remédio por causa do pó.
— E era desagradável?
— Não tenho muita certeza.
— De outra vez, escreva para o sindicato dos consumidores.
Ele estava barbeado, calça limpa de flanela branca muito folgada e
uma camiseta que tinha impresso na frente o nome do vulcão do
Havaí"Mauna Kea". Eles haviam conversado sobre as ilhas que
Madeleine era louca para conhecer. Ela insistia em referir-se a elas
como se as ilhas fossem do sul do Pacífico e Gene desistiu de
explicar-lhe de que se tratava do Havaí.
A má sorte ainda não havia frustrado inteiramente seus sonhos de
futuro grandioso. Gene recortara algumas das fotos de seu rosto,
conseguindo captar uma síntese expressiva da arte de Madeleine.
Numa composição, simulando uma seqüência, ela, segundo sua
própria opinião, conseguiu, fazendo beicinho, pegar o clima
angustiante de Gilda Radner. Bem, se agora tivesse sua voz,
estaria com o mundo nas mãos. O olhar encantado de Madeleine
ia daqui para ali, narcisistamente, deliciando-se com a galeria de
suas expressões: de surpresa, ela fascinantemente sensual, risonha
e maliciosa, em pleno êxtase orgásmico... Com efeito, ela tinha
algo mais.
— Existe alguma coisa em mim — disse ela, sem modéstia — que
faz lembrar Anne Baxter com Montgomery Clift em Um Lugar ao
Sol.
— Não. Você parece é com Gene Tierney em A Malvada —
sugeriu ele.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Exato. Você conhece um bocado de cinema, hein?
— O que conheço é a babaca de uma pateta, quando vejo uma.
Você não viu nenhum desses dois filmes.
Ela estava acostumando-se com essas agressões e começava a tirá-
las de letra. Esse bruto precisava era de amor e carinho. Tomou
um ar de suavidade, um brilho maternal nos olhos.
— Oh, Gene... que infância desgraçada deve ter tido. É por isso
que é tão agressivo.
— Será? Tanto meu pai como minha mãe eram médicos e a
minha infância foi esplêndida. Nunca me faltaram amor, educação
e liberdade. Fui primeiro à escola Horace Mann e depois para Yale
de onde fui expulso no meu segundo ano ali por ter sido
surpreendido sendo chupado no refeitório, depois que ele já
estava fechado. Mantenho ótimas relações com o meu pessoal.
Onde arrumou essa idéia de que não tive uma infância feliz?
Numa revistinha de astrologia?
— Você se rebela contra tudo — observou, ainda examinando
as fotografias. — Está sempre por conta da vida e xingando...
— Basta. Eu sou um homem pela ordem e pela lei e votaria em
Warren Burger para presidente.
Ela olhou para ele com um ar aparvalhado e disse meio rosnando:
— Você é mesmo uma figura! Acha que eu cairia nessa?
— Em quê?
— Warren Burger. Você acabou de inventar, não é? Confesse.
Não existe essa pessoa. — Ele ficava andando pela sala, dando
pulinhos, tentando manter contato com a realidade, sem querer
estourar. — Os retratos estão sensacionais. Você tem um bocado
de talento.
Vindo dela, isso era um insulto, mas achou melhor mostrar-se
amável.
— Se levar em conta que eu estava de pura sacanagem e sem a
mínima intenção de fazer fotos de rosto, até que não saíram maus.
Espere e vai ver como você fica, depois que a gente fizer um
trabalho levando em conta todos os pormenores. — Ele enfiou a
mão no bolso e tirou 150 dólares, dando-os a ela. — Mostrei as
fotos na Beavers andBoobs e eles compraram duas por 300
dólares; estou rachando meio a meio com você. Até que putaria
compensa, hein?
Ela ficou surpresa com a sua honesddade e os seus impulsos
generosos. Se ao menos ele pudesse deixá-la sentir-se segura. Mas
este devia ser o jeito dele.
— Se quisesse, podia ter-me passado a perna nesse dinheiro.
Nunca iria saber. Será que Beavers and Boobs me quer para uma
reportagem?
— Não. Eles próprios arrumam a deles.
Isso era chato, vinha refrear o seu salto para a celebridade.
— Que dpo de coisa eles fazem?
— Como gostaram do meu material, você provavelmente vai
aparecer num lugar na página oposta à dos anúncios oferecendo
serviços sadomasoquistas e eles vão apresentá-la como
estrangeira. Helga, ou um outro nome alemão qualquer, a que foi
seqüestrada e que está rodando de carona pelo país afora com
quatro marginais.
Isso não era nada promissor. Entre outras coisas, Gene lhe drava
todo o prazer que pudesse ter ddo na coisa e ela não sabia como
fazer para se entender com ele no plano sentimental. Afinal não
era nenhuma puta e tinha de ficar chateada com o seu jeito de
tratá-la. Quando o comparava com Giovanni, um homem suave e
elegante que cortejava Claire com todos os paparicos, ela ficava
exasperada. Santo Deus, como a sorte custava a chegar. Mas,
enquanto não chegasse, aceitava modestamente as duas fileiras de pó
que lhe eram oferecidas e ela, num instante, ficava a mil. Nossa, que
barato! Gene se aproximou dela e esfregou a gengiva dele com pó.
— Já sei por que sentiu gosto de remédio. E porque está misturado com
procaína, mas faz o mesmo efeito.
Madeleine serviu-se de mais bebida, aumentando cada vez mais o seu
barato, o que deixava Gene aliviado. Ele sentia prazer em zombar dela,
mas nenhuma intenção de magoá-la. Era essa sua desgraçada idéia de
fazer carreira que o punha furioso. Entretanto, ele ficara tocado por um
certo ar de ingenuidade que ela transmitia. Era diferente da maioria das
vigaristas com quem lidava. Madeleine era tão desprovida de malícia
que ele se percebeu simpatizando com ela. Embora fosse entusiasta de
temas de trepadas, sentia-se feliz por não ter arranjado um cara para
atuar com ela. De qualquer modo, a demanda do mercado para o
produto que vendia era o lesbianis-mo. Mesmo os heterossexuais
estavam começando a se encher com sexo normal.
— O que é que vai acontecer esta noite? — perguntou ela. Talvez tivesse
reconsiderado a sua decisão. Tinha o rosto angustiado e ele viu
preocupação nos seus grandes olhos castanhos.
— Só uma brincadeira... jogos e prazer.
— Olhe aqui, eu não sei em que é que estou me metendo.
— Arrumei uma pessoa competente para trabalhar com você. Uma
profissional. Ela vai gostar de você. Tem de ser apenas espontânea. O
grosso do trabalho fica por conta dela porque é essa a sua especialidade.
Será uma experiência marcante. Veja a coisa como uma fantasia... algo
que se faz só uma vez e depois nunca mais.
Ele se sentou do lado dela, colocou o braço em torno de seu pescoço e lhe
deu um beijo.
— Sinceramente, queria que gostasse de mim — disse ela.
— Madeleine, se eu não suporto a mim mesmo como é que vou gostar
dos outros? Mas, em princípio, gosto de você, sim. Sé não gostasse teria
corrido com você no primeiro dia.
Ela se aninhou nos seus braços.
— Vou fazer com que goste de você mesmo.
— Não queira perverter os meus prazeres.
A conversa teve de ser interrompida por causa da entrada de uma
boneca cor de chocolate, muito sorridente e desembaraçada, com o nome
de Alana, que espalhou cheiro de almíscar por toda parte. Era
extraordinariamente magra, de nariz aquilino e os cabelos arrumados
com fileiras de trancinhas. Estava acompanhada por um rapaz que
tinha cabelos curtos oxigenados e as sobrancelhas da mesma cor;
ele carregava uma enorme valise toda estragada.
— Oi, princesa, sou Jeremy — disse para Madeleine. — Vamos
preparar as moças, Gene?
— Tome um trago e depois vamos.
Com efeito, a presença deles deixou Madeleine mais confiante. Já
não estava mais diante do desconhecido. Finalmente, ia fazer o
seu primeiro teste cinematográfico. Ela se levantou com ar digno
da cadeira esfarrapada em que se sentava. Ali não estava a
principiante ema que ficava atrás dos bastidores abrindo e
levantando o pano, mas uma consumada profissional. Este era o
primeiro desempenho na sua vida que deixava longe as emoções
da primeira trepada. Iria lembrar-se disso, se Deus o permitisse,
até os 80 anos, quando talvez pelas estatísticas fosse considerada a
grande estrela de todos os tempos do filme pornô. Bom, no
começo tudo é sempre difícil, pensou, enquanto acompanhava a
sua parceira e o rapaz da maquilagem para um dos quartos da
casa de Gene, uma pocilga, imunda, sem janela, onde se viam
brochuras, discos, roupas velhas, malas, equipamentos
fotográficos, um catre coberto com um pedaço esburacado de
espuma de borracha e um conjunto de cômoda e armário com
espelhos que constituíam o mobiliário e a decoração daquela peça.
Ela teria um desempenho tipo Momento de Decisão, filme que
adorava por causa de Ann Bancroft e Shirley MacLaine. Na
terceira vez que fora ver este filme, levara o seu gravador para o
cinema e contrabandeara para ele o diálogo. Dessa vez, iria botar
para quebrar. Mandaria Alana de volta para a Nigéria. Roubaria
todas as cenas, deixando a outra na ma da amargura. O agente de
Alana teria de levar o caso ao sindicato, antes de ela, Madeleine,
acabar com a carreira da pobre coitada. Gene, claro, iria ter um
ataque ao perceber que ela sabia de todos os macetes.
Interromperia cenas, exigindo múltiplas tomadas, seria, enfim, o
primeiro gostinho que ia ter da fama, pensava ela exultante.
Saboreava o seu momento, bebendo do vinho branco que Jeremy
havia trazido com ele. Tomaria o vinho no copo sujo de vodca.
Tudo uma bobagem, ela é que não ia ficar catando um limpo na
cozinha do diretor. Dane-se.
— É porque sou mulher e negra que aqueles sujos andam
torrando o meu saco — disse Alana para ela. — Porra, não posso
ficar em Beverly Hills porque eles não me deixam tirar minha
licença senão dava para fazer uns mil dólares de comissões por
semana, com os negócios que arrumo para as minhas amigas.
— Interessante — disse Madeleine. Enquanto isto o
maquilador das estrelas tirava da valise o material de maquila-
gem. — O que é que você faz?
— Sou recepcionista numa firma em Westwood. Bem, nada de
nomes. — Ela segurou os peitos de Madeleine por baixo. — Puxa,
você tem os tanques cheios, hein? Quem fez isso para você?
— Deus. — Madeleine estava lacônica e cortou a conversa.
Falas longas cansam o público, a não ser quando ditas por Ann
Bancroft.
— Bom, vou descobrir isso daqui a pouco. Quando são
artificiais, eles têm gosto de inhame.
Jeremy olhava para Madeleine analisando-a criticamente.
— Você não tem rugas de gente acostumada a sorrir — disse ele
passando base no seu rosto, pescoço e testa. Depois, usou
delineador marrom e uma sombra que na luz tomava uma
tonalidade de azul-esverdeado.
Alana lhe lançava sorriso provocadores.
— Nós duas vamos nos divertir, queridinha. Vou fazer com
que sorria muito. Oh, você não deve levar a coisa a sério. Tudo é
uma questão de postura mental — disse ela. — Fique numa boa e
leve na gozação. Falo sério.
— Posso aceitar a coisa — respondeu Madeleine.
— Nós somos eleitas, meu bem. Pense nas pobres infelizes de
pernas tortas e com acne que aqui jamais teriam vez. Nunca vão
pedir a elas para fazerem isso. Bom, de qualquer jeito este mundo
de merda é uma loucura, mas e daí?
Gene entrou e fez circular a bagana entre eles. Madeleine tinha de
estar bem drogada.
— A primeira cena vai ser no banheiro — disse ele para
Jeremy. — Eu fico com uma luz de lado e você vai apontar o
suavizador de contraste para as áreas críticas: Depois entraremos
no quarto.
— O que é que você está usando?
— Duas lâmpadas de tungsténio projetando luz indireta de
cima, uma luz saindo do lado e um suavizador de contraste. Isso
deve chegar.
Quando Madeleine ficou pronta, Gene passou o braço a sua volta
e, pela primeira vez desde que o havia conhecido, pensou ter
percebido uma pontinha de preocupação nele por sua causa, um
leve vestígio do sentimento que normalmente existe nas pessoas.
Mas isso logo desapareceu e ela se encontrou novamente com a
sua dolorosa sensação de abandono, o estado emocional que
sempre a acompanhou em Los Angeles. Fazia tempo que já não se
importava muito com isso. Mesmo com Claire vivendo com ela,
nada podia trespassar este sentimento denso de solidão que
existia dentro dela e sentido na própria pele. Talvez fosse esse o
tipo de chance por que havia esperado. Mas recusava tornar-se
vítima da desilusão. Talvez Gene estivesse incentivando-a por
alguma outra razão. Ela teria de ficar de olho.
Gene conduziu-a ao banheiro e fez a água correr. Em seguida,
despejou sais de banho, fazendo com que a água se enchesse de
espuma verde.
— Está com medo?
— Hã-hã. Gene, o que é área crítica?
— A sua xoxota.
— Como é que você vai querer a gente? — perguntou Alana.
— Vestidas, como estão.
Jeremy entrou segurando um fotómetro, enquanto Gene
coreografava a cena. A um sinal dele, Madeleine iria para a porta
da frente e, ao abri-la, já encontraria a amiga lá dentro. Alana
estaria com expressão de tristeza e lágrimas nos olhos, se
conseguisse produzi-las. Madeleine passaria a consolá-la. Alana,
eternecida e cheia de gratidão, começava a dar beijos na amiga.
Um banho iria relaxá-la. Madeleine havia justamente ido ali para
tomar um. Por que não entrarem juntas na banheira como duas
garotinhas? Elas tiram a roupa, indo brincar dentro da água.
Meia hora mais tarde, depois de diversas interrupções para trocar
de lentes, as pernas de Madeleine balançavam-se sobre a murada
da banheira, enquanto Alana esguichava creme de barbear nos
pêlos púbicos da amiga, ao que Gene chamou de corte de cabelo
bicósmico, à moda persa. Alana tinha uma expressão sensual e
maliciosa, enquanto que Madeleine, seguindo instruções, sorria
feliz. Alana, com perícia, ia passando o aparelho de barbear pelas
curvas da virilha de Madeleine, tirando rapidamente os pêlos,
vindo depois com o aparelho para a parte central, abaixo do
umbigo e, enquanto tudo isso, a câmara ia rodando.
Gene gritava encorajando:
— Ótimo, ótimo, você está gostando, Madeleine. Começa a ficar
excitada.
Um minuto depois, todo o pêlo estava removido e Alana foi a
primeira a sair da banheira. Gene parou com a câmara e instruiu
Madeleine para se pôr de pé, cobrindo o sexo com uma toalha
para depois, devagar, ir deixando-a cair. Ele queria pegar a reação
das duas. No seu papel, Madeleine era ajudada a sair da banheira
por Alana, que, em seguida, enxugava carinhosamente o seu
corpo. Ela, então, passou a beijar os seios de Madeleine e a
acariciar-lhe os bicos. Madeleine, contra a sua vontade, se
percebeu ficando excitada.
— Alana, ponha a mão no campo pelado! — gritava Gene. —
Genial! Agora, andem para o quarto. Madeleine, você devia fazer
um ar meio confuso, você não sabe direito como se sente. Alana
faz você ficar excitada, mas ela é sua amiga. Esta é a sua primeira
vez.
E, realmente, ela se sentia confusa sobre o que estava sentindo.
Entraram no quarto, agora, superluminado. Na cama, havia uma
colcha de cetim vermelho. Alana, então, começou a seduzir
Madeleine com as mãos segurando os quadris dela. Foi, em
seguida, agachando-se devagar e abriu os lábios rosados da
vagina, passando a lambê-los. Sua boca, então, dirigiu-se para o
clitóris e Madeleine teve um estremecimento, percebendo que
estava tendo um orgasmo. Ela se deitou de costas na cama. Alana,
habilmente, pôs sua cabeça entre as coxas dela, de modo que nada
bloqueasse a consumação do ato, e com arrebatamento meteu a
língua dentro de Madeleine. De novo jorrou a calda grossa e
espumante. Se bem que, há poucas horas, a idéia de uma relação
lésbica á repugnasse, ela se deixou levar pelo momento, pela
doçura das mãos acariciantes de Alana e pela manipulação de sua
língua infernal. Já tinha tido antes prazer, só com homens,
naturalmente, mas nada se aproximara daquela sensação e, por
um segundo, ficou apavorada. E se daqui por diante se tornasse
lésbica? O pensamento deixava-a em pânico, angustiada,
sentindo-se excitada e ao mesmo tempo cheia de incertezas.
— Faça com que ela goze — gritava Jeremy, excitadíssimo com os
corpos se contorcendo e com os gemidos de orgasmos verdadeiros
que as duas se davam incontrolavelmente. — Genial! Genial!
Elas continuaram ainda por uns 15 minutos e Madeleine achou
que jamais tivera uma experiência de um erotismo tão
arrebatador. Ela tentava estabelecer compartimentos estanques na
sua cabeça, mas nada a fazia esquecer do gosto de mel da boca da
garota negra. Finalmente, Gene lhes disse que havia terminado. As
duas deitaram-se, suando sob as luzes dos refletores. Os olhos
castanhos de Alana pararam no rosto de Madeleine e ela se voltou
para dar-lhe um beijo na boca.
— Você é uma gostosura — disse ela.
— Esta foi a minha primeira vez.
— E não será a última para nós, não é?
— Não sei — respondeu ela, incerta.
Gene pagou a cada uma 300 dólares com notas novinhas de 100 e
Madeleine meteu o dinheiro na bolsa. Havia saído de casa aquela
noite com apenas sete dólares e 50 cents e jurara que jamais seria
apanhada nesta penúria novamente. Ela e Alana se deram os
respectivos números de telefone, prometendo-se não se perderem
de vista. Alana foi embora com Jeremy e Madeleine foi juntar as
suas coisas para depois despedir-se de Gene que fora para sua
oficina de trabalho no fundo do quintal. Ele veio para fora, pegou
a mão dela e a olhou fixo no rosto.
— Você conseguiu botar minha cabeça dando voltas... que tal eu
estive?
Ele não respondeu. Alguma mudança operara-se na sua
fisionomia. Desaparecera o ar de desprezo por ela. Ele se inclinou
e roçou-lhe de leve os lábios, depois passou a mão na sua coxa. Ela
apertou o seu corpo contra o dele.
— Será que vai gostar tanto de mim quanto de Alana?
— Isso é uma proposta?
— Claro. Quero casar-me com você. Mas meus pais podem
insistir para que você se converta ao judaísmo.
Ela o empurrou.
— Você nunca vai deixar de ser desse jeito, não é?
— Nossa, quando fizer tudo que quero fazer com você, vai
sentir-se reduzida a cinzas.
Ela pesava as suas palavras. Achava-o atraente e ele exercia um
grande fascínio sobre ela, mas será que haveria aí algum futuro?
Deveria envolver-se e se arriscar a ser passada para trás, quando
surgisse outra garota a interessá-lo? Talvez fosse melhor manter
relações estritamente comerciais, mas ela, entretanto, sentia-se
curiosa, seria como que um desafio. Isso até então tinha sido o
máximo de desejo que já havia demonstrado por ela e gostaria de
saber que tipo de amante seria ele. Ela estava tendo prazer nesta
brincadeira.
— Vou ser paga para isto?
— Não. Eu só compro presentes... um casaco de vison... um
brilhante de cinco quilates.., coisas assim...
Ele pôs a mão entre as virilhas dela e com ar sonhador apoiou a
cabeça sobre os seus seios e deixaram-se cair no chão, rolando um
dentro do outro. Sua boca se abriu e ele pôs a língua dentro; pelo
menos uma vez ele havia aberto a guarda, estando à mercê dela.
Sumiram os modos arrogantes e sarcás ticos para dar lugar a uma
expressão de súplica.
— Só uma coisa, Gene. Não quero mais trabalhar em lo jas e
peço que me aproveite sempre que houver chance.
— Você é realmente surpreendente.

Capítulo XVIII
Separar-se de Madeleine foi uma coisa fácil. Não houve brigas e
nem foi também algo de traumático. Claire chegou até a receber
de volta os 200 dólares que dera como adiantamento do aluguel.
Bendito dinheiro. Ela foi apresentada a um fotógrafo inteligente, o
novo homem da vida de Madeleine; ele tirou uma linha de seu
corpo com os olhos e a convidou para ir ao seu estúdio fazer um
teste quando lhe desse vontade. O cara tinha passado abertamente
uma cantada nela, mas isso não deixou Madeleine nem um pouco
chateada. "Gene é assim mesmo quando simpatiza com uma
pessoa. E completamente sem malícia", dissera ela. Os dois
pareciam ter sido feitos um para o outro: a futura atriz e o seu
mentor. Ele ia arranjar trabalho nas revistas Hustler e High
Society para Madeleine, e Claire não tinha mais dúvidas de que,
algum dia, daria com a foto de sua amiga em alguma revista
pendurada numa banca de jornais olhando para ela de soslaio.
A mudança para o apartamento de Camden Drive foi simples, já
que não havia mobília a ser transportada. Na sua primeira noite
lá, Eilen veio visitá-la. Estouraram uma garrafa de champanha
Louis Roederer e a sensação de Claire foi a de ter encontrado em
Eilen uma amiga leal e afetuosa com quem poderia contar.
A vantagem que Giovanni levara até então diminuiu e Claire
começou a perceber que ele tinha um lado possessivo dos mais
amargos. Viam-se cada vez menos e ela já se sentia chateada de ter
de marcar sua presença no restaurante. A independência, livre de
qualquer compromisso, por que tanto buscara a inebriava.
Adorava o seu apartamento e, nas horas livres,ficava pensando no
que realmente gostaria de fazer.
As vezes, pegava alguma sessão das seis num cinema em
Westwood, seguida de hamburgers no Apple Pan, voltando depois
para casa, onde ficava fazendo urna série de listas e apontamentos
em blocos de folhas amarelas, atrás da idéia que a lançaria em
Rodeo Drive. Já não havia mais qualquer desafio para ela na
Minerva's; vendia ali o impossível. Provara ser melhor do que
qualquer um naquela ma e estava doida para entrar numa nova
fase.
Depois das lojas fechadas, ficava rondando por elas, olhando as
roupas, os seus truques de venda, os novos restaurantes servindo
a miraculosa comida macrobiótica ou, então, pesquisando as
prateleiras da Aunt Tilly's, uma loja de produtos naturais que era
um verdadeiro tributo à fé da população na alquimia. No
momento, por exemplo, era in xampu de ervas e farelos de cereais;
a carne era algo de definitivamente out. Quanto ao jogging, havia
duas correntes de pensamento: daqueles que o defendiam como
benéfico ao coração e a dos que, igualmente contundentes,
estavam convencidos de que provocava dilatamento de vasos e de
que era causa de enfarte. Ela concluiu que o tênis estava por baixo.
Viam-se cada vez menos pessoas usando os clássicos apetrechos
de cores pastel em Rodeo, onde, antes, o traje era quase que
obrigatório. O que realmente se tornava claro para ela era o fato
de aquela sociedade sei atraída por qualquer coisa que tivesse um
cunho de novo e diferente.
Certas noites, ela ia até o centro da cidade, no Fashion Mart, que
abrangia duas quadras, com centenas de salões de vendas. Com
excitação cada vez maior, caminhava por corredores que pareciam
não ter fim. Possuir um negócio e abastecê-lo, guiando-se pelo seu
gosto pessoal, é algo bem diferente do que vender simplesmente
aquilo que outra pessoa selecionou. Sentia saudade da agitação do
mercado. Vendo dezenas de negociantes passando apressados
com os seus blocos de venda e as bolsas e valises atochadas, a
tensão aumentava mais ainda dentro dela. Ao nível da moda, seria
impossível competir com Courrèges, Lapidus, ou qualquer das
companhias multimilio-nárias que usavam Rodeo Drive para
vitrina de suas criações.
Uma vez, à hora do almoço, enquanto esperava para atravessar
Little Santa Monica para comer um sanduíche no Le Grand Buffet,
uma salsicharia um pouco mais acima na ma, ela se viu ao lado de
um rapaz desengonçado, com trajes de militar em campanha. Fora
o tom desenxabido verde e amarelo da roupa que lhe chamara a
atenção. Ele, em lugar das simples bolsinhas da moda, carregava
uma mochila. Faltavam-lhe somente uma metralhadora e
granadas presas no seu cinturão para estar pronto para conduzir
sua tropa ao combate pela mata adentro. Inconscientemente, ela o
acompanhou por dois quarteirões e viu quando ele entrou num
furgão pintado num tom vertiginoso de amarelo-metálico com
uma pintura no lado de um homem pescando numa correnteza. O
furgão se achava equipado com televisão, telefone, barracas
desmontadas e um aparelho de som que foi ligado, enchendo a
rua com as vozes em falsete dos Bee Gees. A parafernália devia ter
custado uma pequena fortuna. Claire encostou-se contra um carro,
como se hipnotizada. O destino lhe viera ao encontro.
Rodeo Drive fornecia o que era da moda. Mas o seu negócio iria
um passo além, teria fantasia. Seria uma loja revolucionária, se
bem que com preços sensatos, sugerindo ser erro das pessoas
gastarem fortunas em boutiques. As lantejoulas e os vidrilhos, os
cortes elegantes dos franceses e dos italianos, o estilo clássico dos
ingleses, vendido em Minerva's, não seriam mostrados na sua loja.
Já havia bastante gente comprando só pelo preço, sem terem outra
coisa mais para satisfazerem seus egos.
A moda nos magazines estava tão confusa quanto os clientes.
Saias mini ou não? As cores do momento seriam as sóbrias ou as
tonalidades vivas? E os jeans, folgados ou justos? Ninguém sabia
direito o que fazer. A inflação afetava o orçamento de todos, só os
muitos ricos não eram atingidos por ela; estes, em qualquer
circunstância, podem manter sempre os seus guarda-roupas em
dia.
Claire chegou eufórica aquela noite para encontrar-se com Eilen e
Dunlop no Pips. Usava um terninho cor-de-rosa com uma blusa
púrpura de seda e tinha os cabelos muito bem penteados.
Enquanto se achavam sentados no bar tomando uísque com gelo e
esperando mesa, ela contagiou todos com sua enorme excitação. A
música de discoteca invadia tudo e havia um tumulto de vozes se
cumprimentando e de pessoas correndo à sala de gamão nos
fundos para jogar ou saber os resultados dos jogos.
Eilen encorajava Claire. Nunca a tinha visto em tal estado de
espírito, ela estava irresistível. Claire chegara à conclusão de que
pegar as pessoas de surpresa era uma estratégia traiçoeira que
podia voltar-se contra ela, por isso tratou de organizar bem o seu
pensamento. Não tinha ilusões a respeito do enorme trabalho que
teria pela frente. Uma coisa é dizer que estariam por trás do
negócio e outra bem diferente seria fazê-los soltar o dinheiro. Teria
de persuadi-los, aos poucos.
— Desde que cheguei aqui nunca entendi por que as pessoas que
têm um Rolls e um Mercedes precisam também ter um carro com
tração nas quatro rodas. Beverly Hills está cheio deles, afinal as
estradas aqui estão sempre em forma e estes carros consomem um
bocado de gasolina. Também aqui jamais vai nevar e quem é que
dirige por caminhos de terra? Frank assenta com a cabeça,
interessado.
— Nós compramos um Cherokee Chief. A maior pane do tempo,
ele fica na garagem.
— E por que compraram? Eilen riu sem
jeito.
— De piada — disse ela.
— Mas você compreende os motivos por que fez isso? —
perguntou Claire.
— Para ser sincera, não.
— Eu gosto de dirigi-lo — disse Frank. — Quando vamos à
região dos lagos, ele é o carro perfeito.
— Mas, na verdade, o que vocês estão querendo mesmo é
representar um papel, não é? Por algum tempo gostam de se
sentir um casal de operários, dando uma de desbravadores. De
certo modo, tentam buscar o estilo da vida simples, longe disso
tudo. O "Homem de Marlboro" está bem vivo e morando em
Beverly Hills ou em Bel Air.
Os Dunlop mostravam-se curiosos, sem, entretanto, conseguir
pegar o que ela estava querendo dizer.
— Até em casa, despreocupadas, fazendo churrascos, estão as
pessoas fantasiando a figura do homem pioneiro. Todo mundo
está. Elas já estão cheias da cidade, de seus empregos, da vida de
apartamento. Estão ansiando por vida ao ar livre e por lugares
onde possam movimentar-se à vontade, e só querem saber de
férias no campo. Respirar ar puro e comer peixe assado na brasa.
O maître veio chamá-los para a mesa e os conduziu a um
reservado, recomendando-lhes uma das especialidades chinesas
da casa: galinha ao limão. No restaurante havia uma quantidade
de caras familiares, mas, depois que ela já tinha dado com Dustin
Hoffman no Nate'n Al's, com Cher fazendo compras no Courrèges
e com um Kirk Douglas com a barba por fazer olhando vitrina,
Claire compreendeu que todos eles eram simples mortais e que
estavam ali pelo fato exclusivo de ser aquele o território deles.
— Cada vez mais existe gente que deseja fugir da cidade,
arrumar um cantinho e se meter na pele dos desbravadores que
aparecem nos outdoors. É verdade que ainda se usam originais de
Givenchy, que se carregam bolsas Louis Vuitton e que os homens,
para ocasiões especiais, vestem roupas do Giorgi, mas a maioria
de toda a gente aqui se veste como mendigos. E aí está o que
gostaria de pegar, o espírito de aventura. Rodeo Drive não conta
ainda com nenhuma loja com um estilo assim.
Este era um terreno em que Eilen se sentia insegura e ela reagiu
sem entusiasmo. Quanto a Frank, estava com o rosto sério,
examinando com atenção a carta de vinhos. Estavam os dois
decepcionados. Eles estavam com a faca e o queijo e ela pusera
tudo a perder, mas recusava a dar-se por vencida.
— Não discuto as suas observações — disse Frank — mas o
que está planejando vender?
— A loja poderia chamar-se Rodeo Wilderness e iria vender
trajes militarizados, fogões de campanha, bússolas, isqueiros
Zippo, roupas estilo safari, apetrechos de pesca, barracas, tudo
enfim que fosse para camping.
— Devo admitir que tinha em mente algo mais sofistic?4o.
— Dê a ela uma chance, Eilen.
Claire, desolada, sentia que estava perdendo terreno. Depois do
jantar, evitando falar no assunto Eilen foi jogar gamão com outra
mulher. Claire estava exausta, via-se rejeitada, sentia-se arrasada.
Frank nada fazia para encorajá-la e, então, ela resolveu que iria
embora logo que terminasse o café. Claire percebia sua chance
escapando e sendo condenada a passar anos num trabalho
inglório, a serviço dos outros. Minerva provavelmente tinha razão.
Se não fosse ela, seria alguém mais a sugar a sua juventude.
— Se você montasse um negócio como esse, numa rua
exclusiva como Rodeo é, ele já nasceria com nome e ganharia
respeitabilidade, não é isso? — perguntou Frank de modo
incisivo.
— Acho que sim. — Ela já se sentia enervada com tudo aquilo,
mas se esforçava por ser delicada. Talvez pudesse descobrir onde
errara e corrigir a falha, quando discutisse o assunto com Ed. —
Nunca pensei neste negócio para ficar reduzido a apenas um tipo
de coisa. Isto não é só para Beverly Hills, o estilo de vida pode
funcionar também no resto do país... Dallas, Houston, Nova York.
— Ela forçou um sorriso no rosto, exasperada pela mediocridade
entrevista no seu esquema grandioso. — Rodeo Wilderness seria
uma experiência piloto a estender-se futuramente numa cadeia de
lojas por todo o país. Não é essa uma maneira de enriquecer,
Frank?
Por instantes pensou ter-lhe reavivado o interesse, mas percebeu
que ele estava apenas sendo polido. Apesar de ser um homem
grosseiro Frank mostrava-se paciente, dando o contra
delicadamente, fazendo o tempo passar.
— Como Eilen entraria nisso?
— Pensei que ela pudesse ficar com a parte promocional. Eu
administraria, venderia e faria as compras. — A coisa cada vez
mais se tornava impossível, desencorajante. Entretanto, ela não ia
desistir. — O bom do negócio, Frank, é que não precisamos ficar à
mercê de fabricantes... o Governo se sente muito feliz quando
pode dar vazão aos seus excedentes. Iria precisar unicamente de
duas moças para fazer consertos em roupas. Frank, desculpe-me.
Realmente, sinto muito. Eilen tem sido maravilhosa para mim e eu
levei a sério essa sua vontade de montar alguma coisa. Talvez isso
não seja próprio para Rodeo Drive ou Hollywood Boulevard, mas
quis bolar algo que não existisse ainda no mercado.
— Estou usando Eilen como um pretexto — disse ele de modo
evasivo. — Naturalmente, se ela quiser distrair-se um pouco com
um negócio, eu financiaria para ela qualquer um, mas não este.
Claire concordou. Havia muito deixara de ser a garota que levava
lambadas e ia depois chorar com os seus travesseiros, ficando com
um nó preso na garganta. Esse era um mundo mesquinho e cruel.
Mas ela tinha algo de precioso, a sua crença inabalável de que
ainda iria ter a sua vez e que esta idéia deveria funcionar com o
investidor certo.
— Não é só em Rodeo Drive, mas, na cidade inteira, não há uma
única loja que nos possa fazer concorrência e isto não é nenhum
tmque passageiro para vender e sim um estilo de vida destinado a
ficar.
Nossa, como gostaria de ter discutido a coisa primeiro com Ed.
Pelo menos, ele não teria deixado que ela parecesse tão idiota.
Lembrou-se da sua última semana em Westport, quando não
tivera ninguém para ampará-la. E da noite com a mãe no Lobster
Pot. Havia sido Milly que fizera, então, com que ela se aprumasse
novamente.
— Frank, você se importa se eu sair agora? São 10 e meia e meus
pés estão em fogo. Acho que eles estão cada vez mais chatos.
Ele não acreditou nela e levantou a toalha da mesa. Os pés,
calçados com sandálias de salto alto vermelhas, apoiavam-se
firmes sobre os calcanhares. A visão era atraente. A presença de
Claire eletrizava as pessoas. Fisicamente, não fazia o seu tipo Ellen
de seios como botão de rosa e silhueta esguia.
Toda uma vida passada com as prostitutas da mais alta classe não
fora capaz de satisfazê-lo. Era de Eilen o corpo que satisfazia as
suas fantasias, procuradas em dois casamentos anteriores. Ela
tivera a rara virtude de eliminar a promiscuidade de sua vida.
Cinco em sete dias na semana, acordava com ereção, e ele, como
dono de companhia de seguro, acostumado às estatísticas, não
estava inclinado a alterar essa percentagem de 71,4.
— Tome mais um drinque. — Frank agia de modo estranho e,
a esta altura, ela já estava achando que na manhã seguinte estaria
fora do apartamento.
— Prometi a Ed que lhe daria um telefonema, se ainda
estivesse acordada. Ultimamente ele anda extremamente sensível.
— Não fale de negócios com ele — disse Frank; sua voz tremia.
— Você não precisa dele para isso.
Ela caiu das nuvens, por essa não esperava. Talvez fosse por essas
coisas que Frank era tão odiado. Primeiro, enchia as pessoas de
esperança e depois passava a espezinhá-las pelo prazer de
desconcertá-las com sua arrogância.
— Mas por que guardar segredo? Ed talvez se interessasse.
Acredite, pretendo tocar essa idéia para frente.
— Ed Giovanni — ele pronunciou o nome com azedume —
dirige apenas um restaurante. Passa o dia inteiro ouvindo pessoas
lhe contando planos mirabolantes e encorajando todo mundo.
Realmente, soube fazer um bom restaurante, mas, Claire, não vai
além disso. Entende? Lasanhas, carne de vitela e no mais tudo se
reduz aos beijinhos que dá nas senhoras e aos seus salamaleques.
Puxa, ele queria mesmo ferir. Depois dessa, ela deixaria de insistir.
Dormia com Ed e adorava esse homem.
— Sua idéia é fabulosa. Estou gostando muito dela. — Umas gotas
de conhaque escorriam pelo seu queixo. — Esqueça Eilen. Já
impedi que ela fosse decoradora, que comprasse uma indústria de
tênis e só Deus sabe que mais outras coisas. O ano passado foi
uma academia de ginástica. Sou eu quem sempre quis Rodeo
Drive. Lá está a vitrina do capitalismo. — Claire ficou
extremamente confusa. Frank olhou com desdém para Hugh
Hefner, de pé na entrada do salão. — Aquele ali, se eu quiser,
posso comprar. Entende o que digo? — Ele esperou Hefner sair e
disse com todo o desprezo pela celebridade do outro: —Já em
Chicago, eu detestava esse sujeito. Veja você, eu construo prédios
e Hefner explorando garotas é que ganha fama... mas deixa pra lá.
Voltando a sua idéia de uma cadeia de lojas, acho isso
maravilhoso. Claire, sou um homem de atividades diversas e,
sempre que uma idéia me chega, a primeira coisa que levo em
conta é o seu potencial de expansão.
Claire engoliu o seu conhaque e olhou para Frank pensativa. Já o
tinha visto antes muito efusivo por causa de bebida.
— Você amanhã vai lembrar-se dessa conversa?
— Claire, lhe dou um murro na cara, se não calar a boca.
— O que você tem realmente a ganhar com isso? — perguntou
ela.
— Logo de saída vejo uma vantagem. — Ele estava intei-
ramente sóbrio e ela ficava cada vez mais nervosa. As palavras lhe
saíam com tal impetuosidade que ela acreditou que realmente
estava sendo sincero. — Quero toda a publicidade através deste
empreendimento e também todos os méritos, para mim, de autor
da idéia. Em outras palavras, você tem o bebê, mas ele foi feito por
mim.
Ele lhe ofereceu a mão e ela a apertou. Claire se levantou e disse:
— Vamos dançar? Há muito tempo não faço isso. Ele a
segurou pela cintura.
— Eu não danço.
— Eu lhe mostro como é.
Eram 11:30, quando Frank, divertindo-se e falando muito,
arrastou-a para o bar enxugando a testa; ali, pegou dois copos de
água gelada e depois puxou-a, esgueirando-se por entre os
jogadores de gamão, para a parte dos fundos do Pips. Os
espectadores se comprimiam em volta das mesas onde se apostava
violentamente. Eilen estava metida num modesto joguinho de 100
dólares a jogada, valendo dobrar. Em outras mesas, milhares de
dólares passavam pelas mãos dos jogadores que, impassíveis, iam
fazendo os dados rolarem, mexendo as peças com precisão e, de
vez em quando, correndo os olhos com indiferença pela sala. A
atmosfera de riqueza que circundava Claire tinha um efeito
esmagador e, curiosamente, suscitava dois tipos de reação: de
início, inebriava, e depois, começava a incomodar e a cheirar mal.
O fastio ali era contagioso. Lá estavam os mesmos tipos que ela
encontrava todos os dias em Rodeo Drive; nas lojas, exigentes e
grosseiros, e agora de noite, longe do sol, revelavam as suas faces
fabricadas com jaquetas de dente, transplante de cabelos,
operações plásticas e corpos cadavéricos à custa de dietas, a
decadência desfilando ao ritmo dos dados e da cocaína. Quando ia
ao banheiro de mulheres via colherinhas de medida, espelhos,
espátulas de ouro, canudinhos, tudo passado abertamente, sem
distinção de idade. O descaramento com que era feita a coisa
deixava-a chocada. De vez em quando, ela puxava um fumo com
Madelei-ne, mas Claire gostava mesmo era de um drinque. Já
organizara tantas festinhas para as garotas da loja e tinha
comparecido a tantos casamentos e banzados do pessoal do
Drake's que estava acostumada a beber com classe. Agüentava em
perfeita forma umas oito rodadas de bebida e esse detalhe até que
a ajudara a firmar a sua reputação, entre os vendedores, de mu-
lher dura nos negócios.
Ao vê-la, Eilen lhe deu uma piscadela, deliciava-se com as
emoções do jogo; estava ali no seu elemento. Claire já tinha jogado
gamão algumas vezes, mas o fizera sem atenção, já que não fora a
dinheiro e nem havia limitação de tempo para jogar. Na verdade,
gostava bem mais de assistir a uma partida de futebol ou de
baseball, espremida nas arquibancadas entre milhares de
torcedores, comendo cachorro-quente e bebendo cerveja. Tendo-
lhe faltado na vida aqueles quatro anos de malandragem que se
adquirem dentro das universidades, no convívio,dos grêmios, ela
lia constantemente sobre o assunto, assimilando o comportamento
dos estudantes, mas sem que houvesse nisso uma intenção
imitativa. Entretanto, ficaram-lhe na cabeça suas maneiras de ser e
chegou à conclusão de que era carente de um tipo de aprendizado
próprio da elite. Pior ainda do que não saber jogar direito gamão
era o fato de nunca ter aprendido a jogar bridge, e tênis, em que só
recentemente, por causa de Giovanni, havia começado a dar as
suas ra-quetadas. Comparada com as moças californianas, parecia
ter sido educada em outro planeta. Era uma garota que trabalhava
desde a adolescência e muito cedo começaram a lhe confiar tarefas
de grande responsabilidade. Ela estava ciente de sua total
indiferença a toda forma de prazer relacionada com raquetes,
cartas, fichas ou maquininhas caça-níqueis. Ir às corridas, apostar
numa dupla e ficar curtindo um Blood Mary à espera do resultado
era bem mais a sua idéia de diversão do que ficar bebericando um
cálice de licor de café, com os olhos atrás de lentes coloridas
vigiando a movimentação das fichas.
Ela achava que devia esperar Frank contar a Eilen que seria ele e
não ela o seu sócio no negócio. Só para saber se a loucura que ele
estava fazendo ia ser corretamente transmitida. Estava de costas
para uma mesa que ficava a umas duas fileiras de onde se achava,
quando ouviu uma conversa que a deixou paralisada.
— Não me foi possível...
— Isso é o que sempre ouço de você.
— Mas estava em reunião e não podia sair. Ainda nem comi.
— Bom. Acabei de perder 14 mil dólares para um desgraçado
que não tem onde cair morto.
Claire virou-se devagar, revelando apenas o perfil. Viu uma
lourinha de rosto angelical com ar de patroa quando acusa um dos
empregados de ter furtado.
— Quatorze mil? Como é que vamos pagar isto?
— Esse problema é meu, meu caro — disse ela num tom tão
veemente que as palavras atingiam os ouvidos como ferroadas. —
As minhas dívidas são por minha conta. E para ser franca, você se
está tornando um saco.
— Bom, acho que está passando dos limites. Vamos para casa
— Eu vou ficar... por isso até logo. Só vou para casa quando
tiver vontade, está bem?
Bobby, de cabeça baixa, apertava as mãos na mesa. Sua pele estava
emaciada e pálida. Santo Deus, como tinha envelhecido. O rosto
estava enrijecido pela raiva. Este outro lado dele, ela não conhecia.
Quase não dava para reconhecê-lo. Até parecia que tinha saído de
uma câmara fechada onde houvessem testado os efeitos da
poluição sobre ele. Fazia quanto tempo que estava casado? Ela não
se lembrava da data. Ele saiu derrubando uma fileira de cadeiras e
dando encontrões nas pessoas. Claire foi despedir-se dos Dunlop,
dizendo-lhes que pegaria um táxi para voltar para casa.
Bobby, do lado de fora, pressionava o guardador de carros, e
causou um pequeno tumulto entre aqueles que tinham chegado
ali na sua frente. Às vezes, suas maneiras podiam ser bem
grosseiras. Ela, furtivamente, foi colocar-se junto dele e, quando
ele a viu, deu um pulo como se tivesse levado um empurrão.
Claire, sem olhar para os lados, pedia ao porteiro que lhe
chamasse um táxi, Bobby agarrou o seu braço, dando um berro
para o guardador:
— Esse é o meu carro! — Ele atirou um dólar para o homem,
enquanto abria a porta para ela. Em seguida, correu para o lado
do motorista, pegou a direção do carro e arrancou com ele pelo
Robertson Boulevard.
— Gosto de seu carro, Bobby. Eu poderia estar dirigindo por aí
um Mercedes 450. Iria combinar comigo, não acha?
— Quando chegou aqui?
— Há uns meses. Mas agora já pertenço ao lugar.
— Para onde você vai?
— Ao Giovanni's.
O pensamento de que Claire pudesse estar sentada ali com ele
fazia-o estremecer. Ela havia mudado tanto desde a última vez em
que a vira que não tinha a menor sensação do déjà vu. Era Claire
e, ao mesmo tempo, não era. Estava muito mais bonita do que
costumava imaginá-la e não viu qualquer expressão de acusação
no seu rosto ou sinal de desapontamento enquanto a observava
encostando a cabeça no assento, espichando os braços e
arrancando as sandálias dos pés. Havia mesmo uma espécie de
beleza lasciva na sua serenidade.
— O que você está fazendo?
— Vou abrir uma loja em Rodeo Drive. Ele olhou
incrédulo para ela.
— O Drake's então já era —disse ele cauteloso, jogando verde.
— Na verdade não tinha isso em mente.
— Incrível, Claire.
Haviam chegado ao Giovanni's e ela pediu que ele fosse com o
carro pela entrada dos fundos. Era meia-noite e a porta da frente
estaria fechada. Bobby tinha um sorriso de descrença no rosto.
Cheio de assombro, sentia-se feliz por estar vivo. Claire tocou a
campainha da porta da cozinha e Pietro veio atender. Tinha um
pano passado à volta do pescoço com uma mancha de vinho,
desbotada como uma veia sem sangue. Ele e mais dois outros
maîtres e o chefe de cozinha estavam sentados ao lado do fogão,
comendo uma carbonara e calculando a féria do dia feita em
gorjetas.
— Ainda há gente lá dentro? — perguntou Claire.
— Só uns dois na parte de cima. Já entregamos as chaves do carro.
Festa de aniversário de 15 anos. — Ele deu um risinho, voltando
novamente para sua macarronada. — Gente de fora, Claire.
Ficaram chateados quando eu disse que não se cantava neste
restaurante.
Os maîtres e o chefe cumprimentaram Bobby como se tivessem
obrigação de conhecê-lo. Acenaram para ele, como faz um
porteiro chamando um táxi.
— O Sr. Giovanni está na mesa dele — disse Pietro. Bobby fez um
movimento para ir abrir a porta, mas Claire já tinha dado um
empurrão nela.
— Você deve comer um bocado aqui, heim?
— Com os empregados — respondeu ela, feliz, partilhando
com ele alguns resíduos que ficaram de suas alegres noitadas de
antigamente.
— Olá, Claire — Mário, o barman, cumprimentou-a. Era um
florentino gorducho e careca, parecido com Garo Yepremian.
Estava com Giovanni desde o dia da abertura do restaurante. Deu
a Claire um cálice de Strega, colocando ao lado uma garrafa de
água mineral. Em seguida, cumprimentou Bobby. — Signore? —
Bobby pediu conhaque, qualquer marca. Mário serviu-lhe Bisquit.
Ia começar a amaldiçoar o Rams, como se o time tivesse cometido
uma injustiça pessoal com ele, quando a moça da caixa passou por
ali carregando uma calculadora.
Ed estava sentado no seu canto de onde enxergava o bar. Ele não
trabalhava num escritório. Sua caixa é quem cuidava da
correspondência e o maitre tinha também a incumbência de fazer
as reservas. Ed já não tinha mais o que crescer, agora era ficar ah
no seu Eldorado. Na Europa, falava-se de seu restaurante como de
um lugar fechado e, em nome dessa fama, os caixas-altas europeus
tinham de se esforçar para penetrar ali. Era espantoso, um almoço
de três pessoas estava custando 200 dólares, pagos em dinheiro ou
cheques de viagem. Desse modo, não fazia mal se a recessão em
Beverly Hills durasse até os próximos 90 anos.
Ele fechou os livros; os cheques estavam presos por duas voltas de
elástico. Pietro, nas quartas-feiras, saía para fazer os depósitos na
conta bancária do restaurante no Security Pacific.
Bobby queria ficar conversando com ela no bar, mas gostaria que
fossem os dois espremidos num cantinho, tipo marido infiel que
dá dinheiro às escondidas à amante para que ela compre
cashmeres na Minerva's. Ed estava usando os seus óculos de aros
grossos. Deixara os de armação de metal em casa. Havia sido ela
quem escolhera aqueles, com armação leve de cor cinza. Os óculos
davam-lhe um ar intelectualizado, poderia passar por um crítico
de cinema ou por um diretor de publicidade. Ele os empurrou
para o alto da cabeça e depois os meteu no bolso do casaco que se
achava em cima da mesa; toda a sua pessoa irradiava uma
atmosfera de um lindo dia de verão. Ele deu um abraço nela.
— Olá... ah, Bobby, você aqui? — Bobby cumprimentou-o
formalmente. Era a terceira vez que ia ao Giovanni's redimir sua
conta ali e... merda, melhor não tivesse ido desta vez. Mário trouxe
uma garrafa de água mineral. Ed convidou-os a se sentar num dos
reservados. — Sente, Claire, por favor...
Carlo veio dizer-lhe que ia embora; terminara com a última mesa:
— Finalmente, os reservados estão todos vazios. Tomei o nome
desses últimos que saíram. Da próxima vez é melhor que se
mandem para o Peppone ou o Adriano. — Era ele quem
confirmava as reservas feitas pelo maitre. Bem diferente de Gio-
vanni, Carlo tinha por hábito julgar a clientela da casa e era um
esnobe insuportável que dava mesas ruins às pessoas para elas
voltarem ao bar e beberem mais enquanto aguardassem uma nova
mesa; com isto as forçava a lhe darem gorjetas para serem bem
atendidas. Tudo era relativo. De qualquer modo, a comida seria
excelente e as gorjetas maiotes. E todo mundo ficava feliz.
— Bobby, o que você anda fazendo? — perguntou Giovanni.
— Trabalhando em duas coisas.
— Está ainda com Hayward, ou já saiu de lá? — Ele estava
habituado com executivos e pessoal de estúdios e de televisão que
trocam de emprego como crupiês de cassinos.
Claire, admirada, ergueu o copo e bebeu a metade de seu drinque.
— Que memória a sua, Ed.
— Como a de um computador. E fui ao seu casamento, Bobby,
certo?
— Se você diz que foi... — O copo de conhaque dele estava
vazio e ele acenou pedindo outra dose. Mário já estava com a
roupa de sair, mas leu o pensamento de Bobby e veio até a mesa,
vestido com o seu blusão de camurça, trazendo mais bebidas para
os boas-vidas que ficavam ali.
Giovanni segurou á mão de Claire por baixo da mesa. Bobby se
achava bem afastado dos dois. Ele se inclinou e a beijou no
pescoço.
— Você já está morando sozinha há duas semanas e só falamos
por telefone. Será que brigamos sem ao menos haver discutido?
Quando é que vou saber?
— Hoje à noite.
Bobby estava sentado na ponta da mesa, fingindo que nem estava
ali. Olhava em outra direção com o ouvido pregado no que
diziam. Queria que Claire se visse livre desse cara de uma vez.
— ...nada de cair na piscina depois do jantar. — Um sorriso
sonhador havia parado na boca de Ed. Ele estava tão
compreensivo, suave, que Claire lhe deu um abraço. Tudo que a
cercava lhe era familiar. Com ele, estava em casa. Faziam-se
companhia e eram amigos. Ela adorava o seu temperamento
sempre com um bom humor fantástico. Normalmente, de noite,
ele estava cansado, preferindo ler, mas, pela manhã, enroscava-se
nela cheio de encantamento e isto lhe dava uma sensação de
prazer bem merecido.
— Como foi com Eilen? — perguntou calmamente.
Ele próprio não estava fazendo muita fé no grupo que arranjara
para financiar o negócio de Claire e que era constituído por dois
diretores de anúncios comerciais de televisão, um produtor de
cinema, o agente de uma garota protagonista de um seriado
disputado por duas estações e Andrew Wald da ON-TV.
— Ela ficou de fora, mas Frank está com vontade de entrar.
— Não acredito.
— Chegamos a apertar a mão um do outro. Ele se mostrava
descrente.
— Por enquanto, não diga nada a Minerva — falou. Bobby
levantou-se, chamando a atenção dos dois. Ele não
estava tão magoado, sentia-se principalmente frustrado.
— Onde vocês se encontraram?
— No Pips — respondeu Bobby. — Dei uma carona a sua
namorada.
— Obrigado. Foi gentileza sua. Giovanni virou-
se para Claire.
— Ellen melhorou no gamão? — Bobby se encaminhou para a
saída. — Bobby, até qualquer dia. — Ele tocou com as costas da
mão os seios de Claire e lhe deu um beijo na boca. Ouviram,
então, o barulho feito pelo ferrolho que era usado de noite na
porta. — Você vai continuar me fazendo sofrer ou será que...
Eles foram até o bar e Claire abraçou-o. Ele pegou as chaves do
carro que ficavam atrás de uma garrafa de Pastis, numa das
prateleiras de baixo.
— Esta noite, não.

Capítulo XIX
O humor de Hillary foi sofrendo mudanças graduais, passando
por diferentes erapas. Perder era uma coisa que a deixava furiosa;
assim, depois de assinar um cheque de 14 mil dólares para o
espertinho que a tinha esfolado no gamão, ela saiu às tontas para
o bar do Pips. Ali, se viu entre Frank e Eilen e pediu uma dose
dupla de brandy. Frank não tinha visto Bobby. Estivera muito
ocupado com a sua amiga Claire Stuart.
— Você precisa conhecê-la, Hillary.
O entusiasmo de Frank provocou-lhe um nó na garganta. Havia
imediatamente ligado o nome à pessoa. Já passava de uma hora,
quando telefonou para casa. Ninguém respondeu. Só se deu conta
da raiva que sentia quando saiu para pedir seu carro. O guardador
conhecia-a, havia anos, e lhe informou que Bobby saíra às pressas
com uma moça. Voltou, então, ao Pips e fez uma chamada no
telefone da recepção. A voz do outro lado era obsequiosa, poder-
se-ia dizer mesmo suave.
— Não. Eu não estava dormindo. Claro, seu cheque será aceito. —
Do outro lado lhe era dado um endereço. — Você pega Pacific e
depois dobra à direita em Club Court Drive. E uma rua estreita.
Dobre, então, à esquerda no primeiro beco para Westminster... o
nome é La Guita. Entendeu? — Ela escreveu o endereço. Correu,
em seguida, para o carro, girou com ele no parqueamento, indo à
toda pela Santa Mónica Free-way, avançando sinais, a mais de 100
por hora. Bobby cometera um ato de apostasia que não admitia
qualquer justificativa ou desculpa. Ela confiara nele e agora tudo
se tornava terrivelmente claro.
Os dois estavam de combinação para acabar com ela. A raiva
cedeu lugar a um sentimento parecido com o de ultraje, e quando
parou numa ruela, em frente de uma casa de cômodos com
paredes descascando, o fiozinho de fidelidade que ligava os dois
se tinha partido de forma irrecuperável. Este pensamento a fez
tremer.
Já era demais que tivesse posto uma contra a outra para tirar
vantagens... mas casar-se com ela e continuar com Claire, isso
vinha demonstrar uma premeditação criminosa que a reduzia a
menos que nada. A premência de trabalho por ele alegada nada
mais era do que boa tapeação. Fazer isso com ela publicamente,
testemunhado pela ingenuidade do sócio de seu pai, era algo de
uma maldade que transcendia a simples traição. A culpa que
havia sentido em relação a Claire sumira de todo. Por Deus, iria
fazer com que Bobby pagasse por isso. Por enquanto, ele ainda
não sabia, mas havia cometido o grande erro de sua vida. Ela não
iria ficar fazendo recriminações e nem entrar em disputas na
justiça. Era a guerra. Entretanto, embora se rebelasse contra a
idéia, uma parte dela queria que houvesse ainda um fragmento de
esperança, algum fio que conduzisse à reconciliação.
A frente da casa estava quase às escuras. Não havia qualquer
lugar para estacionar. Ela parou o carro na entrada de automóveis,
atrás de três caminhonetes que só serviam para transporte de lixo.
Bom, dane-se. A traseira do carro ficou para o lado de fora,
chegando até a ma. Ela estava com uma saia de seda pregueada e
com uma blusa branca também de seda. Havia se arrumado para
jantar às nove horas com Bobby. Os cabelos estavam soltos,
partidos do lado e presos para trás por duas travessas de
madrepérola. O penteado favorito dele.
Quando Geraldo e a sua turma estavam fazendo a reforma da casa
de hóspedes, ela vira a cocaína correndo solta entre eles. Uma
tarde, deram-lhe umas fileiras e ela passou a comprar um grama,
triplicando depois essa dose.
Ela estava gostando de fazer a decoração de sua primeira casa e
havia bolado para lá um esquema monocromático, usando
diversos matizes do cinza que sutilmente era acentuado na sala e
no quarto. A cozinha tinha recebido novos e luminosos azulejos
com discretos motivos astecas, e alguns decoradores conhecidos
dela estavam sempre lhe levando novas peças para que escolhesse.
O Disegno Contemporâneo fornecera-lhe um sofá em forma de L,
forrado de veludo cinzento. Ainda aguardava o resto da mobília,
mas algumas das pessoas que viram a casa acharam,
sinceramente, que ela tinha originalidade e estava interessante.
Não era convencional e Hillary nâo quis saber da decoração de
bordel de luxo e dos maneirismos rebuscados de Leonard. Seria o
amor dela e de Bobby que iria colorir a sua casa.
Subiam-se uns cinco degraus para a varanda de entrada de chão
de tábuas corridas que rangiam sob os pés. Pendurado
verticalmente numa das janelas, estava um letreiro escrito a mão
com tinta verde: "Cocina La Guita''. Havia um grupo de mesas
com cadeiras empilhadas em cima e um garoto esfregando o
linóleo que cobria o assoalho. Ela ouviu um homem sussurrando
do outro lado do alpendre e na escuridão enxergou a brasa de um
cigarro.
— Olá, Hillary. Ah, então soube achar isso aqui.
Dois homens vinham caminhando devagar, fazendo balançar o
chão debaixo dela. Eram jovens e magros, não correspondendo os
seus volumes ao barulho de suas passadas pesadonas.
— Geraldo, como vai você?
— Bem... Muito bem. Eu estava de saída para Fatbur-ger... poderia
ter ido encontrar-me com você.
Os jovens lépidos que ela pensou ter visto não eram tão jovens,
mas homens de quase 30 anos, todos bem barbeados, com cabelos
cortados e usando camisa de zuarte. Os seus rostos tinham uma
expressão parada, quase apática, os olhos eram mortiços e no
mutismo deles havia algo de ameaçador que amedrontava. Eles
usavam coldres passados pelos ombros e, por fora dos estojos,
percebia-se o enorme volume das armas. O homem à esquerda
dela segurava um revólver engatilhado e apontado para baixo.
— Bom, que surpresa! — disse ela de jeito alegre. A situação era
embaraçosa porque Geraldo estava atrás dos dois homens.
— Incrível mesmo — disse Geraldo abrindo a porta de tela. Ela
entrou primeiro. O garoto havia acabado de esfregar
o chão e colocar as cadeiras nas partes secas. Atrás da escada, ela
viu um corredor que ia dar numa sala retangular onde havia uma
lareira e dois sofás ordinários, uma televisão e três homens
passando um cigarro de maconha entre eles, enquanto jogavam
cartas em cima de uma mesa baixinha.
— Quer um drinque ou está com fome? Acho que consigo ainda
arrumar alguma coisa na cozinha.
— Um drinque me vai fazer bem.
Os dois homens da varanda, sem que ela percebesse, foram juntar-
se ao jogo dos outros, acenderam cigarros e apanharam duas
cervejas do chão. Geraldo foi para a cozinha, caminhando na
frente dela, e lá se dirigiu para um armário. Havia cinco mesas
redondas e uma quantidade de cadeiras. Ela percebeu que estava
num pequeno restaurante. Em cima das mesas havia menus
envolvidos com plástico.
— Um amigo meu deixou aqui essa tequila. — Ele suspendeu a
garrafa, sacudindo-a para fazer o colarinho de borbulhas, e depois
serviu dois tragos em copos de publicidade de Coca-Cola que
pegou numa bandeja de plástico sobre a janelinha do passa-prato
da cozinha. Era uma atmosfera muito caseira, por isso não se
senda amedrontada. — Você quer uma cheirada? — perguntou.
Foi, então, buscar uma sacola no guarda-louças e uma faca no
compartimento de talheres. Com a ponta da faca dosou uma
porçãozinha e foi triturar o pó em cima do balcão. Apanhou um
canudinho numa caixa, cortando pedaços aproximados de cinco
centímetros e dando um deles a ela. — Veja se gosta.
Hillary cheirou uma fileira que devia ter uns 12 centímetros. Ele
não tinha delimitado as doses e ela teve de trocar de narina.
— Não tem pressa. Esse aí ainda nem foi tocado. Então o que está
acontecendo por Beverly Hills? Há uma semana que não vejo o
arquiteto. O que é que ele anda fazendo? — Ele deu um amplo e
caloroso sorriso. Tinha os maxilares largos e belos dentes, um
tanto delicados para o seu tipo de boca, e, embora fossem duas
horas da manhã, havia nele uma aparência tão bem cuidada que
ela achou que ele devia estar de saída para algum programa.
— Que se toda — disse ela, curvando-se sobre o balcão.
— Vocês, garotos, precisam de conselheiros matrimoniais. Você
devia levar um pouco para ele. O homem só vive trabalhando.
— Ele não cheira.
— Então precisa ser educado.
Geraldo puxou uma cadeira, botou o espaldar de costas para ela e
sentou-se de perna aberta. A atenção dela foi chamada por um
papel de apanhar moscas que o garoto tentava pendurar atrás
dele.
— Não, isso para lá — disse Geraldo. O garoto agarrou, em
seguida, o esfregão e o balde e saiu arrastando os pés.
Ela olhou para Geraldo. Ele tinha cintura fina, cabelos
encaracolados e estava usando uma jaqueta de vinil preto, com
gola em V. Os seus olhos unham uma expressão de segurança,
mas não sugeriam um passível encorajamento ou avanço amoroso.
— Vou querer três ou seis gramas, se você conseguir.
— Que tal um quilo? — disse ele troçando. Ela não pescava direito
o que se estava passando, mas a sua sensação era a que as
mulheres têm, quando estão em algum lugar onde nunca
deveriam estar na companhia de um homem com quem se sentem
seguras. — Vamos subir, Hillary.
Ela, sem qualquer inquietude, subiu com ele a escada, passando
por uma série de vãos, até chegar a uma saleta no fim de um
corredor. Via o mar, para além das antenas de televisão e dos
telhados a umas centenas de metros de distância.
— Essa casa é de minha tia, comprei para ela em 71... ela aluga
quartos para amigos meus. — Ele abriu a porta do quarto, havia
sido recentemente pintada numa cor de mate. Do lado de dentro,
havia mais de uma fechadura. — Vou preparar para você seis
gramas bem pesados, ok?
A saleta tinha duas janelas e uma varandinha de quebra onde
existiam algumas plantas. Numa parede, fora montada uma
estante e alguns discos e fitas tinham sido atirados nela, num
canto. Do lado oposto, achava-se uma cadeira de jantar que tinha
sobre o assento uma balança de laboratório protegida por uma
caixa de acrílico e, junto, um rádio Pioneer.
— Como consegue um pó assim?
— Você é muito curiosa.
Olhando para o seu rosto de maçãs salientes, sorrindo se-
dutoramente, ela descobriu nele uma elegância inesperada e uma
força que lhe transmitia segurança. Ele não estava ali para
arrancar-lhe as roupas e depois meter-lhe uma bala na cabeça e
largar o seu corpo numa praia perdida. Geraldo era um doce de
pessoa. Era exatamente a companhia ideal para uma viagem. Ele
abriu uma gaveta da escrivaninha e tirou de lá uma bolsa do
tamanho de um melão.
— Você é traficante para valer.
— Isso é favor que estou fazendo. Você é fichinha. Meu
negócio é de quilo e você é freguesa de grama.
Ele tinha 34 anos e passara sete numa penitenciária, na Duell
Prison, condenado por assassinato, mas houvera atenuantes para
o seu crime. Estava em liberdade condicional desde agosto, e os
seus amigos lhe arranjaram emprego em construção civil de modo
que ele pudesse adoçar o oficial da penitenciária e tivesse o seu
atestado de boa conduta. Este mergulho no baixo mundo
fascinava-a.
— Você fica chateado de falar disso?
— Não. O meu crime foi premeditado e fui apanhado com a
arma na mão. Mas pude recorrer, consegui não ser classificado
como crime de primeiro grau.
Intrigada, ela ficou a olhá-lo, tão calmo, pesando seus seis gramas
de pó.
— Então você matou o homem intencionalmente?
— A gente estava vivendo uma guerra e ela até hoje ainda existe.
É uma guerra entre a Máfia mexicana e nós.
— Nós, quem?
— Nuestra Família.
— Mas, sete anos... — disse ela, surpresa com sua serenidade.
— Não foi tempo perdido. Lá dentro consegui recrutar mais
homens. — Ele sintonizou o rádio numa estação que tocava jazz e
depois terminou de pesar a coca.
Ela observava, admirada, a paciência de Geraldo, a sua maneira
natural de inclinar a cabeça, como um passarinho à escuta de sons
estranhos, indicadores de perigo. Ela já tinha lido sobre
traficantes, mas, até hoje, só havia comprado em marginais de
pouca monta cujas fontes não davam para fornecer muito mais de
seis gramas. Esses aqui eram diferentes, assassinos barras-
pesadas, tinham gang organizada, verdadeiros profissionais. E
estava claro que o homem debruçado ali no parapeito da janela
devia ser o chefe. Ela estava fascinada por ele e, com
tranqüilidade, perguntou-lhe se havia pílulas para vender.
— A gente está vendendo 714 caixas de Roers. E um tipo de
Quaalude sintético, mas vou arrumar para você um vidro de
bolinhas.
Ele abriu a porta e ela viu um quarto muito asseado, digno de um
espartano; no fundo, havia um banheiro. Ele lhe entregou um
vidro com 50 Quaaludes. Ela, na mesma hora, engoliu um. Ele
havia separado meia dúzia de fileiras sobre um espelho, cheirou
duas e depois segurou o espelho para ela. Na sua moderação e
dignidade, uma fantástica mistura de inteligência e força bruta
exalava por todos os seus poros. Não podia imaginá-lo como
sendo capaz de levantar a voz. Não. conseguia ir embora e deixá-
lo. O Quaalude começou a fazer efeito, dando-lhe uma sensação
maravilhosa de relaxamento, e a combinação dele com pó levou-a
para um novo plano de percepção.
— E todo esse tempo você ficou sem mulher...
— Esse era um problema — admitiu ele, imperturbável. —
Duell não é uma prisão moderna. Lá não se permite que os presos
saiam.
— E o que você fazia? — Ela sabia que estava falando demais,
fazendo perguntas indiscretas.
— Céus! Você não pára, hein? — Ele encolheu os ombros com
indiferença. — Você começa a curtir um certo ripo de relação...
Foi como se ele tivesse acertado entre os seus olhos com algum objeto
contundente, pois imediatamente o peito dela pôs-se a arfar. Â calcinha
ficou molhada. Em toda a sua vida nunca se sentira tão excitada
sexualmente. Estava sentada numa poltrona baixa, estofada com uma
estamparia florida de mau gosto. Ele se mantinha distante. Os dois se
viam ali presos numa armadilha, tensos, na expectativa de algum
acontecimento que os arrebatasse. A porta do quarto ainda estava aberta.
Ela se levantou, vacilante.
— Posso usar o banheiro? — Ele fez sim com a cabeça e ela, em
silêncio, atravessou o quarto. Sobre uma cômoda de cerejeira que fazia
um móvel conjugado com um espelho muito embaçado, achavam-se
pente, escova, água-de-colônia e alguns quadros de santos. O chuveiro
era em cima da banheira de forma oval e, sobre uma canastra de vime
estavam xampu, secador de cabelo e uma pilha de toalhas ordinárias. Ela
deixou a água quente escorrer dentro de uma velha pia e abriu as pernas
para lavar-se. Mal podia se tocar sem ter de reprimir um ganido. Pensava
que ia subir pelas paredes, tão intenso era o desejo por Geraldo. Escovou
os cabelos, passou batom e botou perfume atrás das orelhas e na nuca.
A confissão sobre "um certo ripo de relação" não lhe saía da cabeça.
Claro, tinha de ser assim... o corpo dele, esbelto e musculoso, acoplado
com o de outro homem. Onde será que fariam? Dentro das celas? No
chuveiro?
Quando ele trabalhava na casa de hóspedes, ela costumava observá-lo
deitado na grama, fumando e tomando sol; ficava lá como um cachorro
preguiçoso que espichava um rabo de olho para ela sempre que passava
por ele. Nunca pensaram em se falar, houve apenas a troca inocente de
algumas palavras sobre sanduíches e caixas de cerveja, por isso mesmo
tinha ficado furiosa com Bobby, com o seu maldito puritanismo e os
seus pensamentos torpes ao vê-la de sbort e tomara-que-caia. Ela não
estava querendo exibir-se. Inconscientemente, sentia-se segura na
presença de Geraldo. Entendia agora a ascendência que ele tinha sobre
os outros rapazes que trabalhavam lá. Por trás de suas brincadeiras,
entrevia-se o respeito que os outros tinham por ele. Era um deles, mas
mantinha uma posição à parte, se bem que não pretendesse dar-se ares
de importância.
Bobby... Claire, por ela, podiam cair mortos. A vergonha dela falava
por si mesma. Bom, melhor descartar este pensamento. Que os
dois se fodessem.
Flutuando com as bolinhas... ah, era deliciosa essa curtição de
pensamentos libidinosos. Ela tinha um riso de fora a fora,
parecendo uma adolescente. A cama dele era antiquada e de
solteiro, com uma cabeceira de bronze onde ele foi reclinarse,
enquanto ela se dirigia para uma cadeira de balanço, comprimida
perto da janela.
—Você vai fazer um cheque?
—Quanto devo? — A sua cabeça zunia.
— Setecentos pelo pó e seis por bolinha. São exatamente mil
dólares. Na verdade, preferia que me pagasse em dinheiro, talvez
guarde o cheque até você ir ao banco.
Ela foi à saleta, pegou sua bolsa, indo, depois, buscar uma caneta
na escrivaninha. Estava morrendo de raiva dele. Mexicano filho da
puta! Não passava de um bostinha de carpinteiro que
provavelmente comia tudo quanto era bicha na Santa Mónica.
Quem esse monte de lixo estava pensando que era? Na raiva, teve
vontade de raspar, com o seu anel de brilhante, a cara dele e vê-la
sangrando.
Ela fez um cheque errado e rasgou-o. Em seguida, sentou-se
bufando na cadeira, engoliu outra pílula e percebeu que tinham
sobrado ainda duas fileiras sobre o espelho; cheirou uma e levou a
outra para ele com a bolsa pendurada no braço e segurando o
talão de cheques sob o espelho. Ela se livrou da bolsa, curvou-se
sobre os joelhos e levou o espelho para junto do nariz dele com
um canudinho. Os seus olhos estavam turvos e tinham uma ex-
pressão casta. Ela pôs o espelho em cima de um capacho de fibra,
sentindo a frieza do linóleo nos joelhos.
— Vai ainda ao Fatburger? — Já passava das quatro horas. —
Você ia só comer um hamburger ou tinha algum encontro? — Ela
pegou o talão de cheques sobre o travesseiro.
— Gostaria de que preenchesse e assinasse.
— Você não é homem... me dá nojo.
Ele, imediatamente, segurou-a, pegando-a pelos cabelos com
brutalidade e a atirou no chão. Ela se machucou no ombro,
batendo as pernas com força no assoalho.
— Então é um encontro com um homem, hein?
Ele apertou os joelhos e saltou da cama, passando por ela.
— É besteira a gente querer tratar bem as pessoas. — Preocupado,
ajudou-a a ficar de pé. — Hillary, volte para o arquiteto. Não
arrume confusão comigo.
Ela cruzou as pernas, botando os pés sobre as coxas, na clássica
posição iogue, uma ginástica de seu tempo de colégio.
— Eu devo realmente meter medo em você. — Tirou as
travessas e ficou penteando-se com elas..
— O que significa isso? — perguntou ele exasperado. — Ora,
deixa disso, você não está podendo dirigir, um dos rapazes vai
levá-la para casa. Nós conhecemos o caminho. Ei, Hillary?
Ó último Quaalude acabara de explodir na cabeça dela, fazendo
sua visão ficar embaçada. Ele pegou o seu braço e a puxou com os
pés arrastando. A cabeça caiu para trás e ele teve de ampará-la
enquanto a colocava na cama. Estava ah o bombeiro em plena
ação de salvamento da vítima.
— Cheguei com atraso de sete anos — disse ela.
Entorpecida e cheia de desejo, ela se inclinou na direção dele,
passou os braços em volta do seu pescoço e beliscou-lhe as costas;
segurou-o, então, pelos cabelos, forçando a cabeça dele para baixo
e ele escondeu o rosto no rego dos seus seios. Ela acariciava a risca
das nádegas e ia com a mão escorregando até os testículos. Ele se
deixou ficar deitado ao seu lado, inerte, num misto de raiva e
perplexidade; depois, apoiou o braço no travesseiro, pegou um
cheque, fez com ele um canudinho e esfarelou, sobre o espelho,
um montinho de coca que tirou da bolsa dela. Ela fechou os olhos
e abriu-os logo depois, para não perder os sentidos. Os dedos dela
dirigiram-se vagarosamente para a braguilha da bermuda e foram
abrindo a parte de cima, até que conseguiu meter a mão pela
abertura e prender com o indicador e o polegar o pênis que estava
quente e úmido. Ela massageava o pau e o pôs para fora com ele a
olhá-la, desconfiado e temeroso. Com a língua, demoniacamente,
separou-lhe os lábios que se apertavam um contra o outro e ele
pôde provar do decantado sabor dos favos de mel. Os Quaaludes
lubrificavam-lhe o cérebro. A língua dele, inexperiente, se retraía.
— Você vai para casa — disse ele apreensivo. — Hillary, por
favor, seja boazinha.
Ela havia posto a língua no pênis e rodopiava com ela a sua ponta;
ele lançou a mão sobre o ombro dela, como um jogador
angusdado que põe a última ficha na mesa. Porra, por que ela
tinha de ter o seu número de telefone? Ele começava a ficar de pau
duro e os seus sentidos mostravam-se alertas. Não, isso não podia
acontecer-lhe... não a ele. Não tinha necessidade dessa porcaria na
vida. Ela botou os dedos dele no clitóris, guiando-lhes os
movimentos e procurou o dedo médio para fazê-lo deslizar pela
passagem.
— Você não faz outra coisa, senão trepar, hein? — disse, chocado
com a reação dele mesmo.
— É. Costumava fazer isso.
— Com caras ricos e tudo quanto... Ei! Pare!... Não, por favor,
pare com isso. — Sem jeito, ele puxou a cabeça dela para o
travesseiro, sem querer machucá-la, apenas tentando
desvencilhar-se.
— Quando esteve com uma mulher pela última vez? —Santo
Deus... pare...
Ele estremeceu. Ela, com os olhos enevoados, abriu os dedos dele
e guiou cuidadosamente a sua mão através da vagina, desse
modo, sentia uma pressão no ânus. Depois, segurando o pulso
dele fez com que ele a retirasse. A mão estava toda melosa, cheia
de pecado. Amedrontado, ele se afastou furtivamente.
— Chega, rubia... Não!... — As palavras sumiram em meio à
loucura. Ela lambeu os dedos dele, ajeitou outras fileiras e encheu
o seu nariz de pó. Estava na hora de ela agir. Pôs a bunda dele
perto de sua cabeça, era um traseiro pequeno e firme, e botou o
pênis na boca, chupando as gotas que vinham prematuramente.
Os testículos firmes a animavam.
— Geraldo me chupe.
— Não consigo.
— Ponha a boca.
— Tenho nojo.
Ela desceu da cama e esfregou, por instantes, as suas partes na
ponta do pênis que reluzia como uma espada brilhante.
— Chupe, chupe — insistia ela. Ele botou o dedo mínimo na vulva
e depois, com a testa franzida o cheirou. — Deixa de ser covarde.
Vamos, chega disso.
Antes tivesse sido ele posto diante de um pelotão de fuzilamento.
— Há oito ou nove anos... mesmo antes de eu... nunca... Ela forçou
a sua cabeça para baixo, querendo educá-lo,
em seguida, segurando os testículos, meteu o pênis dentro dela,
percebendo que ele aumentava de volume. Ele gozou rapida-
mente, humilhado com sua explosão.
— Não se preocupe. Ainda tem mais. Ele está tão duro. Não
deixe que amoleça. Assim... assim...
Ela suspendeu o corpo e construiu outra ereção, não inteiramente
falsa. Depois, afrouxou, retirou-se dele e ficou do seu lado, alegre,
dando-lhe beijos na boca e no queixo largo e másculo.
— Guapa — balbuciou, cheio de remorsos.
Ela estava lambendo os testículos e, manobrando-se, ficou numa
posição de lado e abriu-lhe as nádegas. Havia uma borboleta
vermelha tatuada logo abaixo dos quadris.
Sua insegurança e falta de experiência deixavam-no mortificado.
Era um legionário cheio de cicatrizes que passara a vida entre
homens e só conhecia guerra. Sabia o que eram camaradagem e
lealdade, mas as armas de uma mulher não faziam parte de sua
experiência. Entretanto, ela não dava descanso, animalescamente,
não parava de pervertê-lo e ele se viu dentro dela, outra vez, tal
como criança perdida na escuridão da caverna, esperançoso e com
a doce ilusão de ter uma mulher a sua mercê. Esta era para ela
uma das tantas experiências com droga, iguais a muitas que já
tivera havia alguns anos, no seu tempo de rebeldia; só que agora,
mais velha e experiente na arte do prazer, o animal existente
dentro dela possuía um certo fascínio. Ele sorriu para ela com
orgulho e mergulhou a cabeça entre os seus seios, ternamente.
— Nunca tinha pensado nisso.
— Em quê? — perguntou ela.
— No fato de ser ou não homo.
Ela suspendeu a cabeça dele, apertando-lhe o rosto entre os seus
dedos afilados, e olhou para ele, sondando-lhe o interior.
— Você sempre foi normal, apenas não sabia.
— Precisei achá-la para saber.
Deste arroubo do primeiro encontro, da folie à deux em que
haviam embarcado, nada restou na memória dela.
Sair de uma lanchonete sem queijo cremoso nos lábios e batom
nos dentes tinha para Madeleine a significação de que ia chegar ao
Gucci sem maiores atropelos. Santo Deus, como precisava de botar
jaquetas nos dentes! Mas isso teria de ficar para quando tivesse 10
mil no banco, e até lá de que ia adiantar? O Governo já estaria
dando assistência dentária gratuita. Mal estava agüentando andar.
Ela e Gene se haviam regalado durante três dias e, agora, nem
fazia idéia de como iria conseguir terminar o dia em cima dos pés.
Um fuminho bem que iria ajudar.
Para variar, chegou ao Gucci cedo, consciente do perigo
avolumando-se à sua frente. Teve a impressão de que o guarda de
segurança a ficara encarando mais do que de costume, enquanto
ela marcava o ponto. Ele era um sujeito truculento, com olhos
muito juntos, e ela lhe deu um sorriso, mas ele o ignorou e passou
por ela como se não existisse ninguém ali. Madeleine dirigiu-se ao
seu balcão, no fundo da loja, e ele veio abrir o mostruário. Se
fossem acusá-la de roubo, certamente, teria um troço.
A sugestão de Claire de ameaçá-los com processo era uma fantasia. Ela
iria desmaiar e o seu pânico a denunciaria imediatamente. Sem querer,
teve um estremecimento ao ver o guarda cumprimentando as outras
moças. Os empregados começaram a limpar as mercadorias e o
assistente do gerente trouxe do cofre os estojos de jóias para a seção de
objetos valiosos. Ela teria preferido pedir as contas a este, mas sabia que
era com o gerente que teria de tratar. Fora quem suspeitara dela e, por
isso mesmo, tinha obrigação de enfrentá-lo.
Desde sua primeira noite com'Gene até agora, ela vivera toda uma
eternidade e, embora seja difícil guardar objetividade em relação a uma
filmagem, essa experiência não a tinha afetado fundamentalmente.
Manteria essa parte de sua carreira em segredo e separada da sua vida
do dia-a-dia. O negócio lhe havia rendido bom dinheiro e fora através
dele que, finalmente, encontrara um homem por quem se interessava.
Gene não representava um dos tantos homens com quem já havia
dormido. Percebera-se gostando, constantemente pensando nele, estava
envolvida emocionalmente. Fora quem lhe dera confiança para largar o
emprego. Ele garantira que haveria continuidade de trabalho para ela
como modelo fotográfico e que não teria mais necessidade de fazer
filmes pornô.
Deus a tinha agraciado com um corpo magnífico e agora não havia mais
dúvidas de que poderia usá-lo. Teria, no fim desta semana, uma
entrevista com Al Brockman na ICM, marcada por Gene, quando então
iria mostrar o seu porta-fófilo e ela seria posta em contato com clientes da
agência para amar em comerciais.
O gerente entrara na loja. Era um milanês gorducho de meia-idade que
falava um inglês perfeito e parecia mais um embaixador do que gerente
de loja. Era o tipo do homem que se podia esperar ver batendo papo com
Henry Kissinger e nunca examinando bolsas de couro à procura de
defeitos.
Os olhos de Madeleine cruzaram com os dele.
— Sr. Verona...
— Sim, Srta. Gilbert.
Subitamente, ela se sentiu segura, sem nenhum medo. Ele ficou
esperando-a atrás do balcão, na passagem. Quem sabe não seriam de sua
imaginação todas aquelas provas que supunha que ele e o pessoal da
segurança tinham acumulado contra ela?
— Posso falar com o senhor um momento na sua sala?
— É importante? — perguntou como se o estivessem atrasando de falar
com o Papa e não com a fábrica de Milão, para onde ligava
diariamente a fim de checar as remessas de mo-
cassins.
—É sim, senhor.
Ela foi atrás dele passando pela sua secretária. Ele deixou a pasta
em cima do sofá e deu uma olhada na pilha de correspondência
sobre a mesa.
— O que deseja?
— Creio que tenho de deixar o emprego ainda hoje.
— Sem aviso? — Isso era uma afronta.
— É que consegui marcar algumas entrevistas para esta semana
e... bom, o meu futuro depende delas. Além disso, nas segundas-
feiras não há muito trabalho por aqui.
Ela não recebeu qualquer convite para sentar-se e ele mergulhou
na sua cadeira imponente de espaldar alto. Ele tinha olhos
castanhos, olhar penetrante, pele cor de azeitona e cabelos pretos e
lustrosos, formando um bico-de-viúva na testa.
— Há quanto tempo você está aqui?
— Quase um ano.
— Não tem gostado?
— Não é bem isto. E que nunca pretendi fazer carreira de
balconista e passar a vida vendendo bolsas.
— Mas Gucci não é uma simples loja de bolsas.
— Sei disso, Sr. Verona. Mas tenho esperanças de me tornar uma
atriz.
— Você também? — replicou com sarcasmo.
— O senhor não vai ter a menor dificuldade de arrumar uma
outra moça para o meu lugar. Deve haver umas 20 candidatas
para cada vaga que aparecer aqui.
Ela suava tanto que transparecia no seu suéter de algodão e se
sentia cada vez com mais raiva. Quem poderia acreditar,
sobretudo o gerente, que ela fosse indispensável à loja?
— Ficaria muito grata se o senhor enviasse pelo correio o meu
cheque.
Ele contorceu o rosto como se estivesse sentindo alguma cólica.
— Alguém avisou a você do que está acontecendo? Será que ela
ouvira direito? Ela fingiu não entender. Os
olhos dele não a largavam.
— Avisou o quê? O senhor também vai sair daqui?
— Dentro de alguns dias, mandaremos a sua casa um oficial com
mandado de busca e apreensão.
Ela achou que o papel de personagem indignado ou atrevido
daria muito na vista. Tinha sido chamada a representar e daria
uma bela exibição, mas a escolha certa do papel e a interpretação
correta seriam cruciais. Escolheu ao acaso um do seu parco
repertório. Nas aulas de teatro, nada mais desconcertante do que
um personagem que foge de toda a lógica.
— Eu não tomo droga.
— De que é que você está falando? — perguntou aturdido.
— Bem, há moças que puxam fumo e cheiram pó, mas
acontece que tenho verdadeira mania por saúde.
— Olha, eu estou referindo-me às bolsas que estão faltando.
— Que bolsas?
— Você esteve na reunião com o pessoal de segurança, não foi?
Ela lhe deu um olhar vago, de quem nada estava compreendendo.
— E que não escutei nada do que disseram. Estava tentando
memorizar um papel que tinha de representar.
Ele achou que fosse perder a cabeça.
— Você não sabe que alguém anda roubando bolsas que alguns
clientes devolvem? — perguntou com voz trovejante e acusadora.
— Onde?
— Aqui! No Guori.
— Se eu pegasse alguém roubando na loja, juro, Sr. Verona,
entregaria essa pessoa imediatamente, não ia pensar duas vezes.
Ele estava a ponto de explodir e se entregar a um acesso de cólera,
igual ao que tivera ao ver um suspensório deixado fora do lugar
na vitrina.
— Não estou falando de ladrões de fora.
— Então quem está tirando as bolsas?
— Por acaso não sabe que está havendo sumiço de mercadoria
aqui dentro mesmo da loja?
— Não — disse eia, levantando os olhos impassíveis e sem
despregá-los da cara dele. Um ar de surpresa havia parado no seu
rosto totalmente inexpressivo. — Desculpe-me não ter avisado
antes, Sr. Verona, mas me sentiria muito melhor... bom, é como se
isto me fosse dar sorte, saber que o senhor está torcendo por mim
e me desejando felicidades.
— Isso é intolerável. Adeus, Srta. Gilbert.
Ela foi para Beveriy Wilshire e lá entrou às pressas num toalete de
senhoras onde abriu a porta do W.C. e vomitou. Em seguida,
lavou o rosto pálido, botou batom e blusb e, com as pernas
bambas, subiu a escada para o salão de chá da Pink
Turtle. Sentou-se, deu um risinho para si, enquanto a garçonete
esperava que ela fizesse o pedido. Nossa, que maravilha! Ela dava
mesmo para ser atriz. Tudo era possível. Havia triunfado e
encarou esse fato como um sinal de encorajamento para a prova
que tinha pela frente, a sua entrevista com Brockman na agência.

Capítulo XX
As pessoas querem sempre alguém que as faça não se sentirem
culpadas e o Dr. Ira Parks, com consultório em Bedford Drive em
Beverly Hills, havia anos vinha sendo para Hillary o seu
confessor, conselheiro e psiquiatra. Ela ia ao seu consultório três
vezes por semana e nem mesmo o seu pai tinha conhecimento de
que esta relação ainda perdurava, já que era ela quem pagava as
consultas com o dinheiro de sua conta particular. Como não tivera
coragem de voltar para casa e encarar Bobby, ela foi, na manhã
seguinte, fazer hora numa lanchonete 2") ar livre que ficava perto
da pista de bicicleta de Veni-ce, até poder ir para a sua consulta
que era às 11 horas.
Sua relação com o Dr. Parks havia começado 12 anos antes,
quando seu pai lhe revelara sua intenção de casar-se e ela fugira
de casa. O romance de Leonard, entretanto, dera em nada. Mais
tarde, passados cinco anos, ele se envolvera nova-menre com
outra mulher e Hillary ficara desaparecida por dois meses da
escola, a Bishop School, tendo sido encontrada, depois de todo
esse tempo, morando numa comunidade perto de South Fork
River em Humboldt County. Na cabeça de Hillary, o interesse de
seu pai por outras mulheres significava uma traição a ela. Afinal,
dera-se por inteiro a Leonard e ele retribuía o seu amor com uma
absurda infidelidade. Bastava afastar-se um pouquinho e ele já
estava fugindo dela, querendo casar-se. Talvez, lá no íntimo dele,
a odiasse e estivesse louco para substituí-la por outra mulher que
viria usurpar-lhe o lugar na casa. Mas era ela o centro de tudo,
ninguém mais poderia ser.
Parks estava pelos seus 60 anos, tinha porte pequeno, bigode
fininho e fronte calva. As lentes grossas de seus óculos
aumentavam desproporcionadamente o tamanho de seus olhos.
Ela passara esses anos todos apaixonando-se e se desapaixonando
por ele. Agora, de vez em quando, tinha dado para pensar que ele
poderia morrer e o pensamento a deixava desconsolada. Onde
encontraria uma amizade que se comparasse à deles?
— Você não está com muito jeito de quem saiu de casa às oito da
manhã para o trabalho — disse Parks.
Ela havia tomado banho, mas sua roupa estava amarfanhada, os
cabelos escorridos, gordurosos e salpicados de areia. Às sete
horas, fora dar um passeio na praia com Geraldo. Na boca de
Parks havia um sorriso de tédio.
Ele escutou a história da perversidade de Bobby, do complô dele e
da noiva contra ela, tudo para levar à justificativa de uma orgia
desenfreada na companhia de um traficante que vivia rodeado
por uma turma de assassinos armados até os dentes. Não havia
dúvidas de que ele estava em Beverly Hills, num dia de quinta-
feira. O que, então, faria essa população de loucos no fim de
semana para conseguir saciar os seus apetites? Perguntar para
onde está caminhando este mundo, havia muito, era para ele uma
figura de retórica. Ele sabia.
— Você falou com Bobby a respeito deste complô?
— O que vou fazer é cuspir na cara dele.
— Isso é uma abordagem pouco adulta.
— Ele se casou comigo por causa de dinheiro.
Parks consultou suas anotações. Uma vez que Bobby, antes de
conhecer Hillary, já havia conseguido emprego, que pedira a ela
para ambos mudarem para um apartamento pequeno, não
querendo morar numa casa pertencente ao pai dela e que lhe
sugerira viver dentro de um orçamento compatível com o seu
salário, sem necessitar de lançar mão de sua renda pessoal,
dificilmente a interpretação de Hillary resistiria a uma análise.
Fazendo isto, estaria apenas alimentando antagonismos. Todo o
processo mental dela — desvirtuamentos da realidade e
regressões — se manifestava. Emocionalmente, ela tinha cerca de
12 anos de idade e não havia como combater isso. Ele estivera com
Bobby duas vezes e, ingenuamente, alimentara esperanças de o
rapaz poder ajudar Hillary. Achara-o deveras inteligente e
criativo, com um tipo de idealismo bastante original do qual
Beverly Hills se encarregaria de curar. Para Hillary, ele tinha
vindo a calhar.
— Hillary, por que você não tem uma conversa franca e aberta
com Bobby?
— Você parece que não está entendendo. Esse homem está
tripudiando sobre mim. Não me dá atenção. Está sempre exausto.
O trabalho para ele vem sempre em primeiro lugar. Ele não tem a
menor graça. Nem lua-de-mel a gente teve.
Parks, desalentado, lembrava-se da consulta dela depois do
episódio do casamento. Ela era o seu caso sem esperança, o seu
fracasso profissional. Apesar de já ter havido períodos em que
reagisse aos chamados da razão, controlando os impulsos,
invariavelmente voltava a sua casa de bonecas, subjugada pelo
complexo de Electra. Nenhum tipo de análise ou de terapia iria
alterar a natureza de sua estrutura mental. A relação amor-ódio
com o pai fora desviada para Bobby. O estranho fora que, Leonard
com tantas moradias a sua disposição, os dois, pai e filha, tivessem
decidido que uma casa dentro do terreno da casa paterna, era o
limite máximo de distância que poderiam agüentar-se separados
um do outro.
A indiferença sexual de Bobby, sua inadaptação ao casamento,
conjugada com esquemas maquiavélicos, tudo uma bela e
simplística racionalização para justificativa da infidelidade e do
desejo de perdão. Em suma, o que ela pretendia era continuar esse
seu caso desesperado com o traficante, para poder estar perto da
fonte de suprimentos. Até que esta era uma solução das mais
convenientes.
— Hillary, da última vez em que você se envolveu com drogas,
você...
— Eu sei, houve problemas. Sou a primeira a admitir isto. Mas
acho que você está tentando afastar-me da questão central que é
Bobby.
Ele a fez sentir que era ela quem estava invertendo a situação.
— O contrário. É você quem está tentando afastar a minha e a sua
atenção do problema fundamental que é o da droga. — Era
justamente o que ela não queria ouvir. — Você é alérgica a cocaína
e a toda droga de um modo geral.
— Não acredito nem um pouco que droga cause psicoses.
— Bom, se sabe tudo, talvez fosse eu quem deveria estar
pagando a você, aqui, os 100 dólares por esta hora — observou ele
dando um riso irônico.
— Não aceito a sua interpretação e, para provar que está
errado, vou parar com este tipo de relações.
— Ótimo. Sinto-me mais seguro assim. Veja bem, Hillary, esse
ambiente com essas pessoas que descreveu não é lugar que sirva
para você freqüentar. Será que me pode dar a sua palavra de que
isso não vai acontecer outra vez?
Por uns dois minutos, ela ficou vacilando; odiava-se por não
conseguir vencê-lo em esperteza. Ela ainda tinha consigo os seis
gramas de coca e os comprimidos de Quaalude. Eram de Geraldo,
ele ainda não tinha pegado o dinheiro. De qualquer forma os dois
estavam quites. Talvez a cocaína pudesse tornar um pouco mais
interessante a sua vida com Bobby.
— Vou tentar. Realmente, farei o possível.
No minuto em que se viu no carro sozinha, abriu o seu
esconderijo e usou a própria unha para dar uma cheirada, estava
louca para chegar em casa e poder triturar o pó para, depois,
guardá-lo em vidrinhos.
Claire fazia um enorme esforço para concentrar-se enquanto
estava sentada na frente de Dunlop e do advogado deste, um
sujeito com papada, de jeito bonachão, mas esperto e que a
enrolou com uma tal quantidade de procedimentos legais que ela
pensou que fosse enlouquecer. O encontro com Bobby arruinara a
sua relação com Giovanni. Embora tentasse tirá-lo da cabeça, ficou
abaladíssima pelo efeito que a presença física dele exercia sobre
ela. Será que estaria... ou ainda não curada? Boa ocasião para
descobrir isto. Sentiu um arrepio na espinha. Estava no décimo
oitavo andar de um daqueles blocos monolíticos de Century City e
observava dois jogadores deixando o campo de golfe do Country
Club de Los Angeles.
Que negociação! Aliás, seria absurdo chamar aquilo de
negociação, pois a única coisa que ficara garantida para ela foram
750 dólares por semana mais despesas pagas. Também, depois de
se chegar a uma elaborada fórmula, ficou assentado que ela teria
uma participação de 10 por cento no lucro líquido e que o seu
salário seria contrabalançado pela percentagem de sua retirada.
Frank dera jeito para que Claire não tivesse ali a representá-la nem
advogado, nem contador e nem mesmo um amigo. Ela se teria
dado por feliz com um salário de 300 dólares semanais, desde que
tivesse alguma participação na sociedade. Frank, entretanto, foi
inflexível neste ponto. Ela era apenas uma empregada a quem fora
dado um incentivo e nada mais do que isso.
Rodeo Wilderness, nome, marca, logotipo, tudo pertencia a Frank
Dunlop. Ela, porém, via ali uma oportunidade e não queria perdê-
la. Frank era o dono do dinheiro. Quando ele lhe deu um beijo
depois da assinatura do contrato, ela jurou para si que ainda o
faria engoli-lo.
Seu salário começava a vigorar a partir do momento da assinatura
e ela estava, portanto, na obrigação de deixar Minerva sem lhe dar
aviso prévio. Este fora um ponto em que Frank fizera absoluta
questão e chegara a batalhar pela idéia de que ela fosse almoçar e
depois não voltasse mais. Mas a isso ela se recusou, fazendo pé
firme. Seria aberta uma conta em nome de Rodeo Wilderness com
Fred Gray no Banco da Califórnia com um fundo inicial de 100 mil
dólares. Seus planos se haviam concretizado e ela começou a
sentir o impacto da responsabilidade de administrar uma tal
quantia e de enfrentar os mil e um problemas que surgem quando
se inicia um negócio da estaca zero.
Frank foi deixá-la na Minerva's, tagarelando alegremente sobre a
associação dos dois.
— Não acho bom você entrar comigo — disse ela.
Frank era de mentalidade tacanha, mas perigosa, e naquele
instante estava inflamado. Breve, os inimigos que acumulara
estariam sabendo das novidades e torcendo pelo seu fracasso. Ele
tinha um temperamento de Robespierre.
— Acho que tem razão, mas bem que gostaria de ver a cara
daquela filha da puta.
Ele parou o carro, fazendo fila dupla, em frente da Minerva's.
— Pode ser prematura a pergunta, mas onde vai ser a nossa
loja? Aqui só temos três quarteirões, de modo que tem de ser num
destes.
— Você vai ficar sabendo no fim da semana. Com isso, não tem
de preocupar-se.
— O que ajudaria também — disse ela, sarcástica — era se
você me desse um tempo para preparar a inauguração. Vamos di-
zer, no mais tardar, na primavera, para pegar ainda a estação.
— Tenho certeza de que essa é uma boa estimativa.
— Isso me dá tempo suficiente para tratar das compras,
contratar pessoal, fazer os pedidos e estar com a decoração do
interior da loja pronta. Bom, assim espero.
— Claire, você tem carta branca — disse condescendente, com
ar alegre, alheio à parte concreta do negócio.
Ela entrou na loja na hora do almoço, um momento calmo, mas
nada poderia salvá-la do tom áspero e irritadiço da voz de
Minerva. Ela fez um aceno para que Claire se dirigisse ao seu
reduto, atrás da loja; estava estourando de raiva e não deixava
qualquer possibilidade para uma despedida amigável.
— Quem você pensa que é? Essa já é a segunda vez que
telefona na última hora!
— Desde que estou aqui, venho trabalhando seis dias por
semana — respondeu Claire, já começando a se esquentar tam-
bém. A mulher era tirânica e tinha bebido. O hálito de gim batia
em cheio na cara de Claire.
— E com isso você aprendeu a vender na melhor rua do país.
O trabalho que você me deu...
— Mas você tinha uma boa matéria-prima.
— Não seja impertinente. Diabos, você é apenas uma
balconista.
— Gostaria, por favor, que fizesse meu cheque agora para
deciclirmos isso já.
Minerva não esperava de nenhum modo por aquele ato de
rebeldia e tentou uma retirada estratégica. Claire no mês anterior
dera um lucro líquido à loja de 35 mil dólares. Arrumar outra
moça com o Natal à vista, faltando só seis semanas e com ela
própria tendo de estar à frente do negócio, era algo de impensável.
No fim da semana, teria de partir para Londres a fim de checar as
remessas e comprar a linha de verão e estava justamente
pretendendo deixar a loja aos cuidados de Claire.
— Você é uma mulher de negócios fantástica, Minerva, só que
não sabe como tratar as pessoas.
— Tenho os meus motivos para explodir — respondeu ela
resmungando, mas aceitando a censura.
— Já tive um departamento inteiro de roupa feminina sob o
meu comando e nunca tive desses bate-bocas.
— Acontece que você está em Rodeo Drive e há certas coisas
que se esperam de você.
— Se quiser, posso indenizá-la com uma semana de trabalho.
O rosto de Minerva despencou. Ela percebeu que fora longe
demais. Claire não era uma simples balconista. A garota parecia
ter açúcar para os clientes e já tinha feito a sua própria freguesia.
Achou, então, que o que Claire estava visando era a um aumento
de salário e estava pronta a ceder um pouco mais. Claire recusou a
oferta e ela sugeriu que fossem as duas jantar naquela noite para
ver se conseguiam chegar a algum entendimento.
— A razão por que estou saindo é que vou abrir uma loja em
Rodeo Drive... com um sócio, claro.
Minerva deu um pulo para trás como se tivesse levado um soco.
— Besteira.
— É verdade. Acabei de empenhar a minha vida para obter o
financiamento.
— Você me está sabotando desde o dia em que embarcou nesta
sua aventura, não é? Vamos, admita. Sua traidora de uma figa. Já
devia ter adivinhado.
— Não vou concorrer com você. Não faria uma coisa destas.
Ora, Minerva, confie um pouco em mim. Você conseguiu um tipo
de exclusividade dentro do mercado — disse esperando
tranqüilizar a mulher que parecia ter enlouquecido.
O rosto de Minerva contorceu-se numa careta.
— Você não pode fazer isso comigo. Levei anos para fazer esta
loja, estou aqui desde que saí da Biba's.
Nada que Claire falasse poderia persuadir Minerva de que ela não
tinha a mais leve intenção de suplantá-la ou de lhe roubar a
freguesia. Claire lhe inspirava um medo atroz e ela, furiosa,
descarregou uma torrente de impropérios que deixou a outra na
maior estupefação. No fundo, Claire sentia pena de Minerva e,
como nada mais podia fazer, foi calmamente esvaziar o armário
de suas coisas e deixou, em seguida, o recibo da lavanderia — da
saia e da blusa — sobre a caixa registradora com uma nota
pedindo o seu cheque e contendo o seu novo endereço.
A próxima hora, Claire a passou caminhando à toa pela rua a fim
de poder refrescar a cabeça. Sua vida abrira-se com uma
perspectiva de tal ordem e de forma tão inesperada que ela
dificilmente podia reconhecer-se na garota que fora publicamente
humilhada e que uma vez havia perdido a vontade de viver.
Bobby passara a maior parte do dia com um maquetista
explicando-lhe os esboços de seu projeto. A concepção que tinha
em mente precisava ser tridimensionada, pois Frank nunca iria
entender os seus desenhos. Durante todo este tempo, Bobby havia
revertido ao seu estado de espírito habitual que era o de uma
pessoa fechada, de pouca conversa. Ele tinha dificuldades de
trabalhar em equipe e já que Hayward não o pressionava nesse
senddo — mais por medo do que por uma questão de prática
costumeira — ele ia trabalhando com autonomia, encontrando no
seu serviço uma satisfação que não obtinha na vida pessoal.
O seu lado afetivo e a sua paixão por Hillary se constituíam num
mistério que o fazia mergulhar em profunda meditação. O que é
que seria deles e como iriam moldar as suas vidas? As respostas
agora estavam claras e, enquanto observava o projeto da casa em
Alpine Drive, em fase de acabamento, o seu sentimento de
fracasso era indizível. Não havia uma pessoa para quem se voltar
e com quem pudesse partilhar o seu desespero solitário. A ironia
de sua situação não passou despercebida a ele. Agora, que sua
carreira ia de vento em popa, o único aspecto que acreditara fosse
intocável desmoronava ante os seus olhos. O seu casamento em
vez de crescer à medida que ele e Hillary se iam conhecendo
melhor, estava reclamando medidas enérgicas para não vir abaixo.
O namoro fulgurante e o esplendor de sua relação não tinham
fundamento na realidade.
Por volta das seis, ele ficou pensando em ir juntar-se a Gary para
os dois tomarem um drinque. Rubin e a sua mulher estavam às
voltas novamente com advogados e no que tocava a Gary, desta
vez, ia batalhar pelo divórcio. Mas papo sobre guerras conjugais
não era o que convinha ao seu presente estado de espírito.
Hillary não fora para casa na noite anterior e nem telefonara
durante o dia para o escritório. Ele concluíra que ela devia ter
passado a noite em Malibu, na companhia de Kitty, lamuriando-se
e se queixando dele. Enquanto dirigia de volta para casa, parou o
carro no acostamento a fim de recompor o pensamento. Contra a
vontade, imagens de Claire passavam obsessivamente diante de
seus olhos. Ela se mostrara inacessível e ele sabia que a perdera
para sempre.
Chegando a Los Angeles, Claire se havia sentido atraída por Ed
Giovanni. Mas, sem dúvida, viera para ali a fim de encontrar-se
com ele e perdera, depois, a coragem. A dor que ele lhe causara o
deixava mortificado e achava que jamais conseguiria resolver a
ambigüidade de sentimentos que a presença dela despertava nele.
Tratando-se de Claire, nada demais que tivesse uma loja em
Rodeo Drive. Isso era o esperado. Nenhuma surpresa para ele. Se
havia alguém que pertencesse a Beverly Hills esta era Claire. Ele
construíra a sua vida sobre os escombros da desgraça dela e nunca
poderia perdoar-se pelo erro terrível que havia cometido. Violara
as leis básicas da arquitetura humana.
Claire e ele... os dois em Los Angeles, vivendo num
apartamentinho, entendendo-se silenciosamente e ela discutindo
os seus projetos, cheia de entusiasmo, mesmo quando ele não
tivesse razão. O que não valeria isto?
O seu humor não melhorou quando chegou em casa e encontrou
Hillary. As paredes cinzas lhe davam sensação de estarem
confinados num caracol. Quanta porcaria deve ter Hillary feito nas
casas dos bocós que atraía para o showroom. Logo de início, ela se
mostrou tratável, preparando-lhe um coquetel. Ele ficou feliz por
não ter havido nenhum beijo de reconciliação, nem qualquer
impulso dela de carregá-lo para o quarto a fim de lhe oferecer
uma de suas chupadas especiais, a técnica que tinha para resolver
todas as suas dificuldades.
— Como foi a sua noite? — perguntou ele sem a menor intenção
de procurar briga.
— A pergunta devia ser invertida, não? Como estava sua
queridinha? Vocês dois treparam?
Bobby resistiu ao impulso de pegá-la pelo pescoço e socar-lhe a
cabeça contra a parede. Ele já se sentia bastante podre, sem
precisar do subterfúgio de bater na mulher. Ela investiu contra ele
com uma nova carga de acusações: a negligência dele e a merda de
vida sexual que levavam, além de agora tudo se ter tornado claro
para ela. Ele estava abastecendo a bolsa de Claire. Uma bela
maneira de surrupiar-lhe dinheiro. Curiosamente, os seus olhos
injetados de sangue pareciam comprazer-se com a dor. Apesar de
ser ela quem ficara fora a noite toda, era ele quem estava em
julgamento. Não podia deixar de admirar a sua habilidade, a
astúcia de sua lógica, se bem que ingênua.
Ele atirou o seu paletó sobre uma poltrona de couro cinza,
guarnecida com botões de bronze, e foi sentar-se num banquinho
alto forrado de camurça, mantendo-se distante dela.
— Será que se pode dizer á verdade?
— Se você for capaz.
— Ora, Hillary, vamos, cresça. Não tinha a menor idéia de que
Claire estava aqui. Eu só fui deixá-la no restaurante de Giovanni.
— Sério? Eu cresci aqui e sei que Giovanni fecha às 11 horas.
Por isso, não me venha com essa de...
Ele se serviu com uma dose brutal de uísque, botou duas pedras
de gelo dentro e ficou, com ar absorto, sorvendo a bebida até que
recobrou por fim o controle e disse:
— Ela está namorando Ed.
— Ah, verdade? O que é que ela está querendo? Jantar de graça?
— Ela sacudiu a cabeleira loura com raiva. — Isso é bem possível,
ela trepa com qualquer coisa... Dunlop, Giovanni. Credo, Bobby,
você se envolveu com uma ninfomaníaca. Não é de admirar que
se tenha agarrado a mim. Sou a coisa mais parecida com uma
virgem que até hoje você já encontrou na vida. — O caráter dela
era de uma baixeza prodigiosa, excedia os limites de tudo quanto
já vira. — Vocês dois têm uma relação bem estranha. Relação não,
melhor talvez seria dizer negócio. Você fica excitado com ela ou
esta é simplesmente uma relação comercial? Se pensa que, porque
casamos em comunhão de bens, você vai sair com a metade do
que é meu, a coisa não é bem assim, meu caro. Eu tenho só a renda
e não a posse da herança.
Ela pulou do sofá e correu para o quarto, batendo com a porta,
desafiando a sua entrada lá. Havia uma parte dele que queria
entrar em entendimento com ela, falar de coração aberto, ficar
livre das angústias e reencontrar aquilo que uma vez os unira.
Para onde fora o amor deles? Será que tudo não passara de uma
fantasia cruel que jamais existira? O que estaria acontecendo com
eles? A paixão extremada que havia forjado a união dos dois ruía
fragorosamente. Ele não se achava de nenhum modo preparado
para toda essa sujeira. Talvez, alguns puxões de orelha. Não, nem
mesmo isso valia a pena. O melhor a fazer seria perdoar e
esquecer. Daqui a cinco dias, dentro de uma semana no máximo, o
maquetista já teria posto em maquete o seu projeto e ele estaria
livre para poder fazer uma viagem à Cidade do México ou dar
uma escapada para um lugar qualquer que estivesse nas suas
posses.
Ele fora educado com o sentimento de respeito aos outros e Claire
era por natureza gentil, de modo que agressões deste tipo lhe
eram estranhas, parecendo-lhe aviltantes. Era um homem de força
de vontade e, uma vez passado o choque de ver Claire nas novas
circunstâncias, estaria pronto para enfrentar uma vida tranqüila.
Mas que fora feito da bela moça que conhecera? Quem sabe as
coisas melhorariam se tivessem uma conversa inteligente e
fossem, depois, jantar e passassem algumas horas descontraídas
falando-se abertamente? Quando tinha entrado em casa, estava
pronto para ver Hillary ocupando para sempre um lugar na sua
vida. Mas onde estaria a garota que transformara a sua vida, a
princesa de cabelos de ouro que morava num castelo?
Ela estava no quarto, estremecendo com uma barulheira infernal.
Ele detestava música no volume em que ela escutava; era um som
berrante, violento, que lhe feria os tímpanos. Deitada atravessada
na cama, vestida com uma saia azul aberta e com os seios
achatados pela posição de bruços, ela cheirava cocaína através de
um canudinho de ouro.
— Ah, chegou um convidado para o jantar. Há bastante para os
dois. Você vai sentir-se excitado, Bobby, com vontade de trepar a
noite inteira. — O telefone soou, mas ela deixou que ele ficasse
tocando, até que algum empregado o atendesse e viesse chamar.
— E Kitty... nós vamos dar um giro por aí. Sim, duas reservas... no
Mandarin e no Peppone's. Bom, a gente vê no que vai dar e depois
vamos ao Daisy. Quero dançar até que me carreguem para fora. —
Ela deu uma risadinha. — Que tal, Bobby, convém a você?
Ele se sentia farto de Hillary. O que iria, Santo Deus, fazer com
ela? Não estava vendo qualquer futuro para os dois, a não ser
discussões desgastantes pela vida afora. Ela o tratava como um
empregado que dispensava quando isto fosse de seu agrado. Ele
não era moralista e nem tampouco um desses falsos santarrões de
virtude, mas era contra a permissividade descabida com que ela
ameaçava envolvê-lo.
— Estou fazendo com que se sinta mal?
— De uma maneira que nem consigo dizer como.
Ela era fútil e vazia demais para que pudesse pensar na
possibilidade de existir algo de mais forte entre os dois.
— Talvez entenda, agora, como me senti quando você saiu com
aquela vaca.
Impossível qualquer tipo de argumentação. O bom senso voara
pela janela e, na sua companhia, ele se sentia ignóbil. Será que
ainda haveria chance para terem uma vida social razoável, para
encontrarem interesses comuns aos dois e construírem uma boa
ligação? Ele abaixou o volume do som e se sentou na beirada da
cama. Recém-casados têm sempre problemas.
— Ora, deixe disso. Santo Deus, relaxe... pelo menos tente.
— Não estou drogado e, além disso, cocaína custa uma fortuna —
disse ele, observando o caos que ela espalhava a sua volta.
— Você é meu convidado.
— Acalme-se, Hillary, por favor.
— Diabos, você não dança, não trepa, não joga e ainda por cima
não cheira...
— Sou uma perfeita nulidade.
— E você quem diz. Será que não pode soltar-se um pouco?
— Se isto quer dizer ficar acordado todas as noites até as três da
manhã e cheirar pó, a resposta é não.
Sem perceber, ele se afastou, sentindo-se mergulhar nas
profundezas de um abismo infernal. Ao nível da relação humana,
como viver uma vida em conjunto, sem o mínimo necessário para
que se estabeleça um relacionamento de dois seres? As
divergências se aprofundavam e se avolumavam e eles ficavam
cada vez mais separados um do outro, atirados em campos
opostos, cheios de recriminações mútuas. Já não eram com-
panheiros e sim duas feras a se darem marradas uma na outra.
— Querida, faça esse favor para mim. Desmarque com Kitty e
vamos ficar em casa fazendo uns hamburgers.
— Para quê? E ficar discutindo os seus projetos? — rosnou ela.
— Ou será que é para assistir a mais uma das suas aulas de
arquitetura. — Ela arrumou o pó e os apetrechos numa bolsinha
bordada com petit-point. Arranjava os vidrinhos, colheres,
canudinhos em vários compartimentos, como um mecânico
guardando suas coisas depois do trabalho feito. — Você nunca me
amou. Pelo menos uma vez, admita que isto é verdade. Sempre
amou Claire... Claire, Claire!
Ele não fez o menor esforço para impedi-la de sair e, passando de
inocente a culpado pela insistência das acusações, acabou
convencido de que acreditava nela. Ficou sentado sozinho no bar
até as 10 horas. Então, movido por um desejo irresistível,
procurou o número e o endereço de Claire através do serviço de
informação.
Ele não pensou nem nas conseqüências, nem na sua condição de
casado, enquanto dirigia o carro para Camden Drive. Um dos
moradores estava saindo e ele pôde entrar no hall do prédio sem
se fazer anunciar; localizou o nome dela na caixa do correio e
subiu de elevador até o terceiro andar. Caminhou pesadamente
pelo corredor, respirando forte, e por um instante escutou do lado
de fora da porta, depois apertou a campainha. Tapou com a palma
da mão o olho-mágico e, dentro de um minuto, ela veio abrir sem
tirar a corrente de segurança. Ela ficou a olhá-lo, indecisa, de pé
com os braços cruzados, barrando-lhe a entrada.
Ele tinha o jeito de quem estava de pileque, com os sintomas que
ela bem conhecia. Cabelos desgrenhados, olhos vermelhos, a boca
com expressão grave e bafo de uísque. Lá estava o patife. Nos
velhos tempos, isso normalmente queria dizer que lhe haviam
dado no escritório algum serviço de que não gostava e ela teria de
pacientemente ficar escutando-o e concordar com ele que os seus
talentos estavam sendo desperdiçados. Ele, entretanto, era um
bêbado muito agradável, nada abusivo ou violento. Ela o deixou
entrar.
— A festa é na semana que vem e o seu convite foi pelo correio.
— Claire, não me bata com a porta na cara.
Não estava tão alto quanto ela havia suspeitado. Ele tentou tocar-
lhe no rosto, mas ela, arisca, conseguiu desvencilhar-se. Já não era
propriedade dele e de ninguém mais. Ele caminhou em volta da
sala. A televisão estava ligada baixinho, num noticiário, e sobre a
mesa de vidro espalhavam-se pilhas de catálogos e impressos:
pelo chão, alastravam-se uma quantidade de fazendas coloridas,
roupas, misturando-se com cantis, chapéus e equipamentos para
camping e praia. Ela usava jeans, tênis e uma blusa avermelhada e
estava sem maquilagem. Ele ficou bisbilhotando a sala,
saboreando o aconchego dela e o calor que Claire havia trazido
para ali.
— Sinceramente, Bobby, estou por aqui de serviço — disse ela,
levando a mão até o alto da cabeça.
Claire era, no seu normal, delicada, mas não estava no momento
para gestos de extrema generosidade.
— Será que podemos tomar um drinque juntos? Eu gostaria
muito.
Ele achou um canto no sofá, perto da lareira, o que ela tinha
arrumado no momento em que entrara em casa. A incerteza dele
lhe causava um certo mal-estar. Ela havia exagerado a sua relação
com Giovanni, fazendo papel de dona do restaurante e da
namorada de um libertino que fora por ela regenerado. Era certo
que mais cedo ou mais tarde os seus caminhos teriam de cmzar-se
e, quando isto acontecera, ela agira de modo contrário a sua
natureza, tirando partido de uma situação. Usara Giovanni e se
arrependia do que havia feito; mas ninguém está imune aos
prazeres da vingança.
— Continua no uísque? Duas pedras de gelo?
Os olhos dele a seguiam na cozinha. Ela ainda guardava as
bebidas num armário perto da geladeira e lá também deviam estar
um pote com pistaches, uma lata de patê e outra de ostras
defumadas. Apostava que, se abrisse a geladeira, iria dar com um
tablete de queijo cheddar, salame italiano, ovos, sardinhas sem
pele e espinha, um vidro de picles e algum presunto polonês. Ele
aceitou um uísque com um pratinho de amêndoas.
— Você está mesmo entrando num negócio?
Talvez ele estivesse ali apenas fazendo hora para ir depois buscar
sua princesa no Pips ou num outro lugar qualquer em que
estivesse desfilando.
— Vou. A loja vai ser em Rodeo Drive e Deus me guarde se sei o
que estou fazendo. Mas, se a coisa não funcionar, sempre se pode
voltar para o Drake's ou dar um tiro no ouvido — disse, não com
intenção de lamuriar-se. Ela se serviu com uma dose brutal de
vodca. Quando acabasse, estaria morrendo de cansada. Tinha
passado o dia correndo pelo centro da cidade, comprando
amostras no Fashion Mart e nos depósitos de excedentes do
Governo. A mala do carro estava abarrotada, havendo de tudo lá
dentro: desde walkie-talkies a fogões portáteis que não davam
para serem trazidos para dentro de casa. Estava com o corpo
moído. Ela apagou a televisão e olhou em direção aos Times de
quatro dias que ainda não tivera tempo de botar fora. Naquela
noite, não tinha querido encontrar-se com Ed. Era cedo ainda para
celebrar. Já estava farta de festas com o pessoal de cinema, das
reuniões que eles se davam para eles mesmos, com prêmios
duvidosos e discursos que congratulavam os ricos por terem um
maravilhoso talento para serem ricos. Era Ed quem fornecia o bufê
para muitas dessas memoráveis festinhas e ela se achava no ponto
de, se visse mais um prato de cannelloni recheado com espinafre,
atirá-lo contra a parede.
Sentia-se mal com o silêncio de Bobby.
— Você está contente de me ver? — perguntou ele, querendo
testá-la e tomando uma atitude de familiaridade.
— Quer a verdade?
— Claro.
— Não particularmente. Acho que você me conhece bastante bem.
Não sou de temperamento brigão. Nossas brigas nunca foram
para valer. — Ela brincava com as pontas dos cabelos, só iria lavá-
los no dia seguinte. Essa noite estava muito cansada. — E quanto a
você? Nunca pensei que ainda fosse perguntar-lhe como faz para
divertir-se.
Ele sacudiu o copo vazio, depois se serviu com outra dose, pondo-
se à vontade, o que a irritou. Isso era uma demonstração de falta
de respeito. A atitude dele lhe parecia grosseira. Em seguida, sem
nada dissimular, com toda a candura e sem também qualquer tom
de lamúria, ele lhe fez confidências sobre as condições em que se
encontrava o seu casamento. Ela ficou orgulhosa dele por vê-lo
contar a história simplesmente, sem querer mostrar-se superior ou
se pôr na posição de rejeitado. Não podia, porém, perdoá-lo. Seria
fácil malhá-lo e lhe tirar a pele naquele instante. Mas viu-o tão
indefeso que todo o rancor que pudera ter conservado contra ele
se transformou em compaixão.
Finalmente, ela compartilhou o seu prazer de vencer como
arquiteto. Todas aquelas noites discutindo Mies, Le Corbusier,
Bauhaus, a abordagem expressionista de Saarinen, o
funcionalismo de Pei e a trajetória de seus heróis, afinal, valeram a
pena. Robert John Canaday estava a pique de realizar o sonho de
ser o arquiteto responsável por um grande edifício e Claire, sem
qualquer rancor, o cumprimentou, abraçando-o.
O gelo estava num balde de plástico que ela tinha colocado com
duas garrafas sobre a mesinha de centro, para que tivessem as
coisas à mão. Tudo que estava faltando eram os ovos escaldados
para serem comidos com muffins e a xícara de café instantâneo. Os
pequenos detalhes que são compartilhados na vida do dia-a-dia e
de que jamais se esquece. Coisas que lhes davam uma maneira de
ser e os uniam.
— Estou feliz por você.
— Acredito — disse ele, agarrando-lhe os dedos.
— E por que não haveria de estar? Somos tão miseravelmente
egoístas que na maioria das vezes a cabeça fica como que perdida.
E o que é que a gente fica pensando? Ter ou não ter filhos, a quem
pedir dinheiro emprestado para pagar a casa e daí surge todo um
tipo de amarração. Eu não estou perdendo grande coisa, não é
mesmo? Bom, mas o que interessa é que o meu querido Bobby vai
projetar um edifício em Cen-tury City e eu vou abrir uma loja em
Rodeo Drive. Você sabe do que mais? Talvez nós tenhamos sido
feitos para viver aqui. Para sermos livres. Meu Deus, quando...
bom, deixa isso pra lá. Esqueça. Mas o lado positivo da coisa me
faz sentir bem. — Ela estava alta sem dúvida alguma e os dois
sorriam um para o outro. — Foi uma oportunidade que você nos
deu... e isso já é uma grande coisa. Estou falando de outros
aspectos. Estávamos enclausurados num tipo de situação, numa
daquelas acomodações em que a gente fica com medo de jogar na
sorte. Bom, pelo menos, eu estava assim.
— Claire, realmente quero falar com você.
— Primeiro me ouça.
Ela ligou o rádio numa estação que ia até altas horas da noite,
como nos tempos de antigamente. A proximidade dele a
encantava. Ah, se fosse nos velhos tempos, o que não dariam para
ter uma semana de sol numa praia. Como, nas manhãs de
domingo, gostavam de ficar fazendo planos de férias, lendo a
seção de viagens do New York Times! Quadras de tênis
ensolaradas, churrascos em beira de praia, ilhas do Caribe, golfe,
pesca submarina, restaurantes exóticos... Mas suas grandes
noitadas se reduziam a tomar drinques no Sign of the Dove e
jantares em Chinetown. Ela queria explicar-lhe que havia
emergido de dentro dela uma outra pessoa. Ela havia mudado e
era imprevisível aonde a levaria a aventura em que se metera.
Podia, se quisesse, hoje, embarcar num desses velhos cargueiros
que tanto pode ficar no mar dois meses como um ano e atracar em
Yokohama ou em Cingapura, conforme o tipo de carga que esteja
levando.
Ela foi buscar queijo, salmão defumado, fatias de pão preto,
salame italiano cortado em fatias grossas e uma terrina de patê.
Levou um minuto para colocar tudo sobre um tabuleiro de
madeira tosca que comprara no Akron.
— Acho que também fui feita para as boas coisas e não sabia. —
Ela fez um movimento de ombros. Os catálogos em cima da mesa
que esperassem. Ele a apertou contra o seu corpo; não havia
motivos para resistir. O sofrimento que isto, antes, poderia ter
causado já não existia mais. — Por favor, me ouça. Você é um
homem inteligente. — As mãos dele lhe acariciavam os seios. —
Bobby?... Talvez não tenha sido criada para botar suas camisas
para secar no mesmo varal da minha roupa, para esfregar as
manchas de molho de suas gravatas, para sair às 11 da noite atrás
de uma pizza, fazer fila nos açougues para comprar carne sem
gordura, enxugar alface em toalha de papel ou, enquanto você
estiver vendo futebol nos domingos, ir para o tanque lavar as suas
cuecas e pedir emprestado o tira-manchas da vizinha porque
esqueci de comprá-lo e as manchas só saem com ele.
Ele pôs o drinque em cima da mesa, ignorando a comida, e
encostou-se na cadeira.
— Ouça, Bobby: seria mesmo o meu destino me virar para que
você pudesse dar-se ao luxo de torcer o nariz a loteamentos, e ficar
com a barriga coberta de estrias e um mundo de filhos com
problemas de alergia? O que quero dizer é isso. Veja, você está
agora aqui. O esperado não era que eu fosse buscar o jornal para
você ler e depois sair correndo para tomar banho, me empapar de
desodorante íntimo, porque você já está todo arrumadinho e há
uma lei superior que me proíbe de cheirar mal? Não poderia
mesmo haver uma noite em que eu quisesse ler um livro ou
escrever uma carta ou, até mesmo, ficar só pensando e o que você
estaria fazendo enquanto isso, a não ser esperar para me levar
para a cama, não é? Onde fico em tudo isso?
Ele a olhou, sem poder acreditar, estava arrasado; escutava-a com
a fisionomia tensa.
— Não tome isso como algo de pessoal ou pense que estou
falando como mulher frustrada querendo tirar vingança e
desejando que você se dane. Eu, talvez, não servisse realmente
para você, Bobby.
Ela o havia ferido, sem que essa fosse a sua intenção; apertou-se,
então, contra ele, deu-lhe um beijo no rosto e usou o seu polegar e
indicador para massagear-lhe o pescoço e livrá-lo da tensão
muscular. Ele passara tantos anos debruçado sobre pranchetas
que acabara tendo problemas de musculatura e sofrendo de
cãibra. Nos seus olhos apareceu um brilho de compreensão.
— Bobby, procure entender que sou uma pessoa que acre-
dita em si mesma e que também fui feita para ter coisas me-
lhores na vida.
— Tudo isto estava guardado dentro de você?
— Talvez eu quisesse uma relação que não fosse do nada por você.
Ela se afastou e levantou-se espreguiçando-se. Ele, contudo, fez-se
de desentendido, permanecendo impassível no canto do sofá,
acabrunhado a mais não poder. Estava surpreso de que a sua
relação passada tivesse sido um fracasso. Claire ascendera a um
outro nível. Tornara-se inatingível, impossível para ele. Havia
descoberto um outro lado dela e se desprezava por não ter sabido
valorizá-la. Retraiu-se confuso, humilhado com a sua burrice.
— Tudo o que me importava era vencer como arquiteto.
— E o que é que há de errado nisso? Um pouco tarde para se
culpar por ser ambicioso. Acredite, nunca desejei vê-lo fazendo
projetinhos insignificantes. Você, melhor do que ninguém, pode
avaliar o que estou passando. Ainda vou descobrir o que há
dentro de mim.
A velocidade cíclica da vida ia mais rápido do que a sua
capacidade de se medir com ela. Não que estivesse ficando para
trás, mas tinha de esforçar-se para conservar os símbolos das
coisas em que acreditara e que agora estavam sendo dilacerados.
— Está tudo terminado entre mim e Hillary.
Ela deu um sorriso benevolente e calmo, pegou o copo vazio da
mão dele e o conduziu à porta, sem demonstrar ressentimento.
— E cedo demais para saber.
— Sei que estarei saindo disso tudo muito machucado, mas
não posso continuar com ela. Vejo claramente isso agora. — Claire
não tinha a menor intenção de encorajá-lo na sua loucura. Que
algum outro e não ela fosse o juiz dessa questão. Ela estava
começando um negócio e o trabalho que tinha pela frente era tudo
de quanto poderia dar conta. — Vou morar com um amigo meu
em Spaulding. Um que vive divorciando-se da mulher. Mas desta
vez ele vai comer fogo.
— Boa-noite, Bobby — Ela o viu entrar no elevador, dando
graças a Deus de ele estar no andar e não terem de ficar
esperando. Voltou-se então apressada e bateu com a porta. Seu
corpo estava tenso. Ligou a televisão e se surpreendeu vendo uma
cena de Fredric March e Myrna Loy em Os Melhores Anos de
Nossas Vidas. Deitou a cabeça no tapete, ouviu um carro do lado
de fora ser posto para funcionar; o cachorro do vizinho de baixo
acordou e saiu para o terraço, ficando ali uivando.

Capítulo XXI
Bobby ficava sempre uma pilha durante a apresentação de seus
trabalhos. Deu a maior confusão, quando o maquetista com o seu
assistente chegaram ao escritório de Hayward carregando a
maquete de seu projeto. O tom do gesso estava muito claro, não
na cor de mel que ele tinha recomendado, e havia uns
bonequinhos ridículos fixados nas janelas. A maquete podia servir
para ser usada num filme barato de terror. Não seria de admirar
se Dunlop ficasse uma fúria.
A adrenalina subiu no seu sangue. Ele olhou o relógio: 2:55.
Dunlop e Hayward tinham ido almoçar com Leonard. Deviam
estar chegando a qualquer minuto do Bistro Garden. Duas
secretárias arrumavam em fila, colocando em cavaletes de
alumínio as plantas do tamanho de posters e cobertas por placas
de acrílico. Eram 10 plantas mostrando a projeção vertical do
prédio, o seu interior, o escritório de Dunlop, áreas de circulação,
a entrada do parqueamento, o conjunto dos elevadores, uma
imponente rotunda, salas de conferência e um auditório de 500
pessoas sentadas, que podia, por meio de painéis corrediços,
colocados em lados opostos, abrir e acomodar mais mil pessoas,
no caso de haver ali grandes seminários.
Ele cobriu a maquete com um pedaço de veludo marrom. Será que
fora longe demais? Iriam considerar o projeto extremamente
revolucionário? O suor corria-lhe pelo pescoço. As centenas de
horas gastas desde a fase preliminar do projeto até os resultados
finais haviam sido emocionantes. A alegria do trabalho fora a
experiência mais gratificante de sua vida. Pouco importava que o
seu casamento estivesse desintegrando-se e ele e Hillary mal se
falassem. Não tinha idéia do que resultaria disso e afastou o seu
pensamento para outra coisa ao ouvir Hayward pedindo a sua
secretária para tomar recado dos telefonemas para ele.
Os três homens foram entrando na sala. Leonard o cumprimentou
efusivamente. Ele ficava limpando a garganta com olhares
ansiosos que iam da mesa para as plantas tapadas nos cavaletes.
Um sinal encorajador era a curiosidade infantil de Frank e o seu
visível bom humor. Hayward, o inescrutável camaleão, achava-se
preparado para qualquer eventualidade. Os homens sentaram-se,
esperando que Bobby começasse. Se existisse uma chance para
alguém fazer carreira, esta estava certamente ali e Bobby ficou
surpreso consigo mesmo ao ver o surto de confiança que assomou
de dentro de si. Ele jamais fugira com medo de alguma coisa e
possivelmente, se havia chegado até aquele ponto, isto se devera à
sua vida, ao seu esforço, aos estudos e à crença de que ainda iria
ter a sua oportunidade.
— A convicção de Tim é a de que posso vender minhas idéias
e eu sou contrário a isto. O fato é que as idéias se vendem por si
mesmas. Foi com isso em mente e também levando em
consideração que Frank, como presidente da Marine, pretendia
um edifício que fosse conceitualmente de grande originalidade e
ao mesmo tempo funcional, que estudei uma variedade de opções
que poderia tomar para este projeto. Nenhum me satisfazia. Não
gosto de ângulos pontudos e das formas dos prédios de Century
City. — Eles o ouviam atentamente e com interesse cada vez
maior. — Por algum tempo, fiquei remexendo com as formas em
arco, porque elas sugerem movimento e, como devem estar
lembrados, eu expressei, na nossa primeira entrevista, o que penso
sobre companhias de seguro e as imagens que transmitem ao
público. Kemper's, por exemplo, imaginou um ataque de cavalaria
para preservar o interesse do cliente. A da Allstate é a de que as
pessoas estão em boas mãos, contanto que estejam fora das garras
dela.
— Concordo inteiramente com você — disse Dunlop — e estou
curioso de saber como você vai poder vencer esta barreira.
— Estruturas monolíticas desencorajam o público e além do
mais você quer alguma coisa mais do que meros caixotes para
empacotar seres humanos. Bom, o arco sugere um abraço — aqui,
ele levantou simbolicamente os braços para caracterizar a idéia —
um trabalho de equipe. Eu me senti atraído pela forma, até que
dei uma outra olhada no Century Plaza Hotel e percebi que a
forma não ia funcionar e que ia dar uma mão-de-obra infernal
para se poder passar de um lado para outro do prédio e isto
dificilmente seria funcional — Frank sorria, aprovando, e Leonard
e Hayward trocavam olhares.
Bobby juntou as mãos e continuou:
— Em termos humanos, aquilo a que cheguei foi uma idéia básica
e perfeitamente compreensível... o círculo! Bom, essa idéia foi
desenvolvendo-se por etapas, mas as plantas e o projeto em si têm
unidade... a unidade que se vê numa roda, aquela que é existente
no círculo. Não posso dizer que esteja satisfeito com o trabalho da
maquete, mas ela dá para transmitir a idéia do prédio. — Ele
levantou o pano e viram, então, uma estrutura circular de vidro
com janelas em tons desmaiados e elevadores que podiam ser
vistos da rua, sugerindo a visão de uma espiral quando passavam
de um andar para outro. — O vidro em tons esmaecidos é um
expediente usado para conservação de energia. O projeto dos
elevadores teve a intenção de as pessoas poderem ver a corrente
do tráfego humano, o que dará ao prédio idéia de movimento e de
atividade. Um lugar onde estão acontecendo coisas. — Ele retirou
as capas que cobriam as plantas. — Com este tipo de estrutura,
você estará projetando uma imagem de amplidão irrestrita. O arco
é incompleto e implica uma acolhida parcial. Ele é agressivo. Já o
círculo é a forma total. É moderno, mas tem uma ligação direta
com o passado.
Por um momento, ninguém pronunciou palavra e ele achou que
era um homem liquidado. O conceito era demasiadamente
simples e não bastante fantástico para Frank que, provavelmente,
visualizava fortalezas voadoras e a fachada com que Albert Speer
sonhara para a nova Berlim. Ele dera o seu recado e estava
exausto. Dunlop dava voltinhas em torno da maquete como um
gato desconfiado, depois voltou sua atenção para as plantas que
Leonard e Hayward examinavam. A boca de Bobby estava seca e
os seus joelhos tremiam. Ah, se pudesse desaparecer e ficar
invisível. Da euforia inicial passou para um estado de depressão
mórbida. Não tinha mais o controle da situação, a energia da
criação havia sido extinta.
Dunlop agarrou o braço dele e o encarou com admiração. Por
segundos, ficou abanando a cabeça.
— Bobby, está espetacular... É tudo com que tinha sonhado e
que não conseguia visualizar e nem sabia como exprimir. Não
estou apenas satisfeito, estou emocionado.
A cor voltara ao rosto de Leonard e Hayward sorria para, ele.
Quando Dunlop olhou o seu escritório, localizado no último andar
— o espaço, o teto alto, a sua mesa de linhas curvas como um
painel de controle do Gemini, a mesa de conferências perto da
entrada, o elevador privativo — ficou igual a uma criança com o
seu primeiro trenzinho elétrico de brinquedo. Bobby conseguira
captar a sua personalidade, a do sujeitinho rejeitado, irritadiço e
sem educação, que queria olhar o mundo de cima e ter a aceitação
social que o dinheiro não lhe proporcionara.
— Quando podemos começar as fundações, Leonard?
— Logo que estivermos com a papelada arrumada e que o
departamento de obras der aprovação. Dentro de duas semanas.
Dunlop apertou a mão de Bobby e disse a Leonard que tinha
alguns detalhes para discutir com ele e que desejava dar uma
olhada em Rodeo Puerta. Saiu do escritório exultante. Todas as
peças começavam a se encaixar.
— Bobby, isso é a glória — disse Hayward. — Você conseguiu
agarrar esse filho da puta.
Era uma observação curiosa que veio arrefecer o entusiasmo de
Bobby. Não dava para ele se acostumar com a duplicidade dos
métodos de Leonard e de Tim.
— Só tentei dar ao cara aquilo que achava que ele estava
querendo.
Tim sugeriu-lhe umas férias, algum tempo longe do escritório e,
logo que voltasse, discutiriam os termos de uma sociedade. Mas
Bobby não desejava mais sair da cidade. Tinha de dar um jeito
para fazer a vida parecer que estava em ordem. Baixinho, soltou
uma praga. Se ao menos pudesse procurar Claire e partilhar com
ela o grande triunfo de sua carreira. Aquilo era como uma
plataforma de foguetes que o lançaria às estrelas. Mas ele se sentia
ali frustrado, com uma terrível sensação de impotência, e pesava-
lhe na consciência o sacrifício de Claire para que pudesse realizar
o seu sonho.
Frank Dunlop era um dos raros homens de negócio que ainda
idealizavam a conquista. Que outros se deitassem sobre os lauréis
de pequeninas vitórias, não ele. O lançamento de Marine Mutual
iria aparecer na seção imobiliária de domingo do Times com fotos
do projeto de Bobby e o nome Dunlop mencionado para depois
ser esquecido e só ressurgir quando a obra estivesse pronta. Mas
Frank queria mais do que isso. Desejava ter uma presença em
Beverlly Hills que lhe desse a notoriedade que fora negada a ele e
Ellen. O encontro com Claire constituíra-se num novo elemento
que viera aumentar mais ainda a sua enorme sede de poder. As
possibilidades a longo prazo de uma cadeia de lojas Rodeo
Wilderness representavam um enorme potencial de expansão dos
seus negócios. Claire podia saber como dirigir a coisa dela, mas
nada sabia do mundo financeiro. Ele a conseguira quase que de
graça. A idéia tinha sucesso garantido e ele estava convencido de
que ela tinha o talento necessário para levá-la avante.
Caminhando devagar, junto de Leonard, para o coração da rua de
ouro de Los Angeles, ele viu que o aumento de seu poder, o
reconhecimento deste, estava cristalizado em Rodeo Puerta, a sua
porta para Rodeo Drive. Antes de contratar Leonard para ser o seu
construtor, ele fizera uma sindicância completa sobre ele. Leonard
puxara a corda demais. Frank havia previsto uma situação de crise
no mercado financeiro para o ano de 1978, quase dois anos antes
de ela afetar as grandes carteiras de financiamento do país. Sua
experiência européia lhe ensinara que homens como Leonard, que
estão sempre andando na corda bamba, vêm abaixo nas ocasiões
de crise. Leonard ia sorrindo, caminhando pela obra, em fase de
acabamento. Mas Frank havia detectado aquele cheiro que exalam
os homens que vivem perigosamente acima de suas posses.
— Quer bater um pouco de bola no Bel Air Club? — per-
guntou Leonard. Ele tinha apresentado Frank para sócio ali, mas,
intimamente, desejava que o outro levasse bola preta. Como não
mostrara grande empenho, os seus companheiros de clube leram
as entrelinhas de seu pensamento. Frank Dunlop era um tipo que
agredia as pessoas. Leonard olhou para a sua pele rosada, o seu
blazer deselegante, suas maneiras grotescas de homem do
interior, pensando que podia comprar a entrada para a sociedade.
Ele o detestava. Logo que começassem as fundações do prédio,
Dunlop seria riscado de sua lista de convidados.
— Não. Estou apenas tendo o prazer de dar uma voltinha na
sua companhia. Quando acha que terminará com isso?
— Depois do Ano-Novo.
— Você já separou algumas lojas para alugar? Leonard sorriu com
ar de superioridade.
— Nada disso. Acho que, quando estiverem prontas, podemos
subir para 170 dólares o metro quadrado e reajustamento depois
de três anos.
Frank foi esbarrando num punhado de carpinteiros, pintores e
pedreiros, que trabalhavam sob a direção arrogante de
decoradores vindos de alguma organização italiana, que ficavam
em cima dos desgraçados pingando suor, como sanguessugas.
Ele passou por cima de uma trave de madeira que barrava um
canto de uma loja. Haviam colocado concreto ali e o cheiro era
forte. O local estaria perfeito para Claire.
— Qual é o tamanho delas?
— Têm 180 metros quadrados.
— Raios, gosto da música desses números... então são 30 mil
dólares por mês. E eu que já achava que a 120 dólares o metro
quadrado fosse um bom dinheiro.
— Você está interessado numa loja para Eilen? Quem sabe, nós
poderemos resolver o problema. Arrumaria uma de primeira para
você. Já tenho quase 400 pedidos, mas você vai encabeçar a lista.
— Acredita mesmo que pode conseguir um aluguel destes?
— É o preço do mercado, Frank. A rua é internacional e a mais
exclusiva em todo o país.
— Como é que está conseguindo transar empréstimos?
— Estou dando um jeito. — Leonard, imperturbável, deu um
sorriso que nada revelava.
— Você sabe o que sempre admirei mais em você, Leonard?
— Diga.
— A sua classe de vigarista e a habilidade que tem para
demonstrar que nada o está preocupando, ainda que a sua casa
esteja pegando fogo.
— Isso é um talento.
— Depende.
Frank comprazia-se com este tipo de jogada em que o adversário
ia às cegas. Eles estavam ali como dois pesos pesados no primeiro
round da luta pelo campeonato.
— Por que não recorreu a mim quando lhe cortaram o crédito
no Bank of America? Eu podia ter apanhado o telefone e garantido
a você a sua participação no empreendimento.
Leonard começou a se inquietar. Como é que esse diabo conseguia
as suas informações?
— Você me teria engolido.
— Bom. Já sabia desde o começo de suas aperturas, por isso
aceitei a sua oferta para Marine.
— Foi o que imaginei.
O prazer de uma confrontação com o adversário e a formulação de
estratégias a serem usadas eram, para Dunlop, o sangue da vida.
Era um gênio para descobrir firmas com dificuldades financeiras
nas quais injetava dinheiro para depois confiar a reorganização
delas a grupos de especialistas. Leonard não era um homem de
negócio astuto, mas um oportunista sem nenhuma visão de
conjunto. O seu princípio era o de comprar e vender rapidamente;
quando, porém, o mercado imobiliário se retraía, ele se estrepava.
Era um sujeito capaz de tirar partido de negócios fáceis, mas,
carente de idéias, jamais penetrara nos santuários dos homens do
tipo de Dunlop, que detinham o poder e se sentavam em torno de
uma mesa para decidirem sobre as alterações que iriam impor no
mercado.
— Então, Frank, qual o seu interesse nisso?
— Pode estar certo de que não é um interesse dos mais
honestos.
— Você conseguiu jogar os bancos contra mim?
— Sugeri apenas que eles o espremessem um pouco, e eles
entenderam a mensagem.
— Por quê? — Leonard, nesta confusão toda, ia tateando em
busca de uma explicação.
— Olhe aqui, o meu papel é o de homenzinho excêntrico e
imbecil que fica de fora das boas coisas. A idéia que se tem de
mim é a de um cara reles, barulhento e chato, está lembrado? A
imagem até que me convém.
Leonard tentava achar uma pista do que se passava na cabeça do
outro. Praticamente tinha dado de presente a jóia mais preciosa do
seu império e agora tiraria o sangue de Dunlop em cada loja que
ele quisesse alugar. Assistir a essa hemorragia seria delicioso. Ele
saboreava o seu momento.
— Frank, você está querendo a minha falência?
— Claro que não. Apenas achei que, se você estivesse a
descoberto no seu saldo bancário, iria procurar outras fontes para
salvar o que tinha.
— E eu fiz isso.
— Naturalmente — disse Dunlop com frieza. — Eu fui o
condutor da operação.
— E você me arruinou.
Dunlop foi com Leonard para a ma e se deteve olhando as lojas.
Rodeo Puerta era rodeado por uma série de arcos alados que se
abria para o espaço. O concreto polido pintado de amarelo-pálido
transmitia uma sensação de elegância sóbria. Seria o imóvel mais
exclusivo da ma.
— Bem, sinceramente, Leonard, eu não podia aparecer para
você e dizer que estava doido para ter um pedaço deste pequeno
conjunto de lojas. O que você teria feito?
— Perguntado qual seria o meu lucro na coisa.
— Exato. E você estaria com um cliente quente nas mãos e eu
fodido, não é? — O riso escarnecedor de Frank gelou Leonard e
ele se tornou mais cauteloso. — Olha, meu caro, você não está
brincando com crianças. Nós jogamos duro.
Leonard esforçava-se para juntar as peças do quebra-cabeça e
estabelecer qualquer conexão. Na sua mente dançavam possíveis
implicações, indícios, mas ele condnuava confuso.
— Por acaso, está sugerindo que não me saí bem? Pois olhe o
panorama financeiro.
— Meu querido, você é um idiota — disse Frank, deleitando-se
com esse momento. — Você é um construtor que deu sorte de lhe
ter aparecido há alguns anos uma área de estabelecimento que
rigorosamente não sabia o que fazer com ela, até que Rodeo Drive
se transformou na rua da moda do país. Só por isso construiu um
prédio comercial. Suas casas não conseguiram ser vendidas e teve
de ficar correndo de banco em banco, pensando que ainda fosse o
maioral da cidade. Acontece que os bancos preferem pessoas que
depositam e não as que retiram. Nunca ninguém lhe explicou
isso?
Leonard sentiu uma vertigem momentânea e dificuldade para
respirar. Sua pressão subia de modo perigoso. Os meses de tensão
lhe tinham debilitado o organismo. Diante de seus olhos tudo
estava embaralhado. Ele se sentou sobre um muro do lado de fora
do prédio e Dunlop botou o pé em cima, perto dele, apoiando o
cotovelo sobre o joelho.
— Tive apenas de aguardar a ocasião certa. Eu sabia que possuía
este imóvel e quando você se apresentou para fazer Marine, armei
toda a jogada. Você tinha assumido compromissos maiores do que
podia pagar e eu exerci minha influência para dificultarem o seu
crédito.
— Essa não...
— Tenho uma companhia no estrangeiro chamada Brigh-ton
Property Bonds que está com boa folgando no imposto de renda e
onde trabalha um sujeitinho esperto, mas filho da puta, a quem
dei emprego quando a Slater Walker se encrencou. E o Sr. Blaire
que, antes, vivia de negócios que fazia com bens de pessoas
falecidas e que agora tornei uma pessoa respeitável,
encarregando-o de uma parte do trabalho daqui. Ele é meu testa-
de-ferro. Bom, o Sr. John Blaire conhece uma senhora também
muito esperta e ávida por dinheiro com quem havia trabalhado
em Londres. Acontece que esta senhora era funcionária de uma
carteira de financiamento e foi quem analisou o seu pedido de
empréstimo. Ela entrou em contato com Blaire e este, por sua vez,
me mandou um telegrama. Os bancos estavam fechados para você
e... Ann teve apenas de recorrer a sua fonte particular. Foi o meu
dinheiro que você tomou emprestado, Leonard, para construir o
meu edifício, porque eu queria esta sua propriedade. Bom,
compreenda que era a minha única possibilidade de botar as mãos
no que você imobilizou em Century City ou em Rodeo Drive. O
que iria fazer? Ficar pagando aluguel ou dar os tubos por uma
dessas
lojinhas?
A história estava além da compreensão de Leonard que se sentia
amedrontado e confuso. Como isto se teria passado? Sim, ele sabia
que a sua interpretação do mercado imobiliário havia sido errada.
O dinheiro obtido com hipotecas evaporara e a outra parte a
Martinson Empreendimentos e Incorporação se encarregara de
sugar, até que no fim não restara senão um cadáver.
— Eu lhe dei 51 por cento de Rodeo Puerta.
— E eu aceitei. Mas veja aqui, meu caro, o que você conseguiu em
troca... solvência. Agora, pode construir Marine. Nenhuma merda
de banco está mais de olho em cima de você que, finalmente, vai
poder estar relaxado.
— Devo, então, agradecer-lhe esta patifaria? Segundo a visão de
mundo de Leonard, a atitude de Frank
era a de um ladrão e para Frank, no nível seleto em que transava,
ele era salvador e não vilão.
— Mas foi mesmo, patifaria? Gente como Charlie Bludhorn e
Norton Simon, que eu respeito, não é patife. Quando eles
encontram um problema, resolvem-no da forma que melhor lhes
convier. Acontece que nós entendemos de negócios e você não.
Mas o que eu estava querendo acima de tudo era ter a minha
presença em Rodeo Drive, porque isso aqui é um negócio certo e o
lugar certo para a década de 80. O imóvel não tem preço, é como
possuir uma coleção de Rembrandt.
Ele tentava transmitir a sua emoção a Leonard, em lugar de tratá-
lo como o carcereiro que teve as suas chaves roubadas. Toda a
dificuldade com o pessoal dessa cidade residia justamente aí.
Nunca dão oportunidade aos de fora, pois já têm tão calcificados
os seus modos de vida e estão de tal maneira presos ao que
consideram respeitável que o talento e a imaginação foram
excluídos, de suas jogadas. Construíram um muro frágil em torno
de prendas sociais e de dinastias enfraquecidas. Isso se passava na
Califórnia, nada menos do que em Los Angeles.
Eles, com os seus clãs fechados, o haviam humilhado. Quando
resolveu montar em Los Angeles a base de seu negócio e o seu lar,
ele sabia de melhores oportunidades em Nova York, entre os
acolhedores sócios do Salomon Brothers, e em Londres, onde não
pôde permanecer por períodos maiores por causa da guerra dos
sindicatos — lixeiros, carteiros, engenheiros sempre em greve —
que estragava todos os bons momentos dele e de Eilen, onde quer
que estivessem. Bombas em Harrods, em Selfridge's... blackouts
em Cadogan Gardens, o hotel favorito dos dois. Para ele, Los
Angeles era incompreensível. Estivesse você ou não por dentro da
indústria cinematográfica. Contudo, dezenas de pessoas que
conheceu haviam excluído de suas vidas este lado da cidade
ligado ao show business. Era um círculo fechado e muito elitista
que controlava a cidade e ele já estava cansado de bancar o trouxa
em festas de caridade e havia muito não respondia os convites
para este ripo de coisa. Fazia parte de seus cálculos ser uma força
no mundo do monopólio e estava firmemente determinado a
vencer aí. O edifício de Century City poderia ser um lugar
aconchegante de trabalho como concebera Bobby, mas Rodeo
Drive seria o seu carro-chefe, aquilo que o conduziria a uma
camada da sociedade na qual seria ele quem ditaria as regras.
— Nunca pretendi arruiná-lo, Leonard, ainda que possa pensar
que eu não passe de um filho da puta. Bom, mas uma porção de
gente acha a mesma coisa de Bobby Fischer. O que se esperava
que eu fizesse? Que eu, Frank Dunlop, pusesse um anúncio
dizendo que desejava um imóvel em Rodeo Drive? Já pensou no
número de pessoas com quem teria de me bater? O pessoal do
mercado imobiliário... Mike Silverman, Jack Hupp, Stan... são por
acaso imbecis? Nunca iria conseguir fechar esse negócio
satisfatoriamente. Meu interesse pessoal iria provocar uma
escalada ainda maior nos preços da rua. — Frank não dava folga,
não parava de socar Leonard. — Não que estivesse fora de meu
alcance, mas, porra, por que não agarrar a coisa logo no início, na
boa época? Você estava com problemas... bom, eles foram
resolvidos por mim e você não precisou arruinar-se.
Leonard recuperara-se da surra. Era o pugilista que lutara
bravamente e que tivera a luta interrompida no sexto round por
estar sangrando demais. Frank segurou o seu braço para ajudá-lo
a levantar-se com dignidade do muro.
— Posso fazer-lhe uma pergunta pessoal, Frank?
— Está parecendo até Eilen falando.
— Por que se comporta como um idiota tão desagradável?
Quando os bancos me recusaram financiamento, será que você
como um gentleman não poderia ter vindo a mim e me dito tudo
honestamente?
Eles caminhavam pela Rodeo Drive, na altura da vitrina de Mr.
Guy's, cheia de tweeds ingleses com padronagens em xadrez,
espinha-de-peixe e escocês. Eram do ano anterior e fariam a bela
moda de amanhã em Rodeo Drive.
—Um gentleman é rico e eu só tenho grana.
Leonard sacudiu a cabeça com ar pesaroso, nada tinha a fazer
senão aceitar os termos desta criatura que fugia a todos os seus
padrões. Frank, depois de caminhar o suficiente, arrastou-o para o
outro lado da rua, onde Rodeo Puerta estava sendo construído.
— Deveria sentir-me satisfeito como construtor. Tinha grandes
idéias — disse Leonard, sentindo os ossos doloridos.
— A primeira regra é conhecer a força e a flexibilidade de sua
base financeira. Isto é o seu alicerce. Qual das lojas tem melhor
localização?
— Outra vez depende do que vai vender.
— Quero apenas o lugar que seja mais concorrido. Ele levou Frank
a uma loja dando vista para uma escada
rolante. Ela tinha uma clarabóia arredondada que lhe dava linda
luminosidade.
Um arquiteto chegou para entregar a Leonard um rolo de plantas.
Explicou que iriam terminar as lojas só quando tivesse um
contrato de aluguel por longo prazo para algumas delas. A loja
tinha 180 metros quadrados, sem contar com uma galeria para
depósito de mercadorias.
— Aqui, haverá sempre gente passando em frente. As pessoas são
obrigadas a passar pela escada rolante, mesmo se querem usar as
escadas comuns. Mas veja bem, Frank, tem de ser um negócio de
classe ou, do contrário, você vai matar as outras lojas. Não pode
ser lanchonete ou fliperama.
— Não se preocupe com isso.
Leonard, outra vez, ficou assustado. Como sócio majoritário,
Dunlop poderia substituí-lo quando lhe desse na veneta e a sua
humilhação e a publicidade que se faria em torno do caso
acabariam com o seu status na cidade. A perspectiva de a notícia
espalhar-se aterrorizava-o.
— Por que resolveu jogar agora às claras? — perguntou ele.
— Esperava por uma idéia que desse dinheiro e que tivesse
potencialidade de expansão. E ela apareceu; por que iria eu deixá-
la escapar? Resolvi pô-la em prática de uma vez. Conheci, através
de minha mulher, a moça mais esperta desta cidade e não podia
deixar passar adiante esta idéia.
— Quem é ela?
— Claire Stuart.
— Não conheço.
— Leonard, há uma porção de coisas que não conhece. Por
exemplo, por que se anunciam as delicatessen de Chicago?
Simplesmente, porque são as melhores. Você é um administrador
de primeira, Leonard, e também o melhor relaçõespúblicas que se
podia pedir para atuar em Rodeo Drive. Você tem os contatos
perfeitos. Não precisa ter medo. Eu quero continuar com você.
Jamais alguém falara a Leonard desta maneira. Ele se tranformara
num subalterno, num assalariado, sem autoridade de fato, e isso
era desesperador. Tornara-se propriedade de Dunlop, que podia
dar um chute nele e ficar com as lojas de Rodeo Puerta sem alugar
se assim fosse conveniente para ele, obrigando-o a sair do negócio.
Tudo estaria perdido: casa, quadros e, pior ainda que lojas ou suas
casas invendáveis, era Hillary. Quem poderia dizer o que ela seria
capaz de fazer com ele? Não confiava nela.
— Frank, por que essa coisa de ter a própria loja, quando os riscos
disso são tão grandes?
— Eu quero sacudir esta cidade.
A vontade de Leonard era tão forte de agredir esse homem que se
estivessem em casa teria dado um tiro nele e depois contratado
um advogado para fazer a sua defesa.
— Você deve saber o que as pessoas aqui pensam de você.
— Não estou dando a mínima bola para isso.
— Isso é claro. Mas sabe qual a diferença entre ser rico e só ter
grana? Veja, Mark Taper tem as duas coisas, e se ele tivesse
chegado para mim com dinheiro de verdade...
Dunlop deu-lhe tapinhas no ombro. Leonard tinha verdadeira
ojeriza pelos tipinhos reles e cheios de arrogância, que costumam
deliciar-se com suas falcatruas.
— Eu era o garotinho feio do meu bairro na zona sul de
Chicago.
— O que quer dizer ter grana? — perguntou Leonard. Frank
olhou para seu relógio, coçou a bunda e apontou para a loja em
Rodeo Puerta, estava obcecado com ela. — Como você agiria
numa hora destas?
— Como? Ora, que pergunta. Eu tenho liquidez e os bancos
não soltam dinheiro fácil. — Ele caminhou para o seu carro, um
Bentley S-3 conversível que fazia semanas não era lavado.
Estupidez manter um carro daquela classe em tais condições. Nem
fechado estava e o couro do assento arrebentado deixava o
enchimento no lugar do chofer aparecendo do lado de fora. —
Leonard, você vai construir Marine Mutual. — Ele escorregou
para dentro do carro. Abriu o porta-luvas e pegou um talão de
cheques com capa de plástico. — Vou agora para casa tentar
enfronhar-me numa chatura de jantar que Eilen arranjou para
hoje. Mas, se quiser entrar aqui comigo no carro e pegar um
cheque do Western Union, em três minutos ficará sabendo que o
meu saldo está calculado em 212 milhões de dólares. Vê? Esta é a
diferença entre ser rico e ter liquidez.
Madeleine esperava num compartimento perto do lugar das
escrivaninhas das secretárias na agência do ICM. Ela agarrava com
força o seu porta-fólio e a palma da mão largava gotas de suor
sobre o vinil. Bem que gostaria de ter comprado um que fosse de
couro, mas tudo que viu e de que gostou estava custando por
volta de 500 dólares. Talvez, não mais do que talvez, os planetas
estivessem em perfeita conjuntura e ela fosse aceita pela agência.
Encarava a sua saída do Gucci como presságio de boa fortuna.
Santo Deus, e pensar que poderia ter estado sentada na sala de
algum departamento policial de investigações de Beverly Hills,
sendo submetida a rigoroso inquérito...
Um novo encontro com Al Brockman deixava-a nervosa. Seu
estômago estava roncando e ela esperava que ninguém ouvisse.
Brockman concordara em conceder-lhe a entrevista somente
depois que Gene telefonara para ele, garantindo que as fotografias
haviam saído boas e que Madeleine seria perfeita para atriz de
comerciais. Ela deu uma olhada no espelhinho da carteira para
checar a maquilagem. Parecia bem, nada pesada, distinta, mas
sugerindo certa sensualidade provocativa. Naturalmente, o ponto
de mira de todo mundo eram os seus seios, o tamanho e a forma
deles. Claire, entretanto, a ensinara a ser menos exibicionista com
o que guardava debaixo dos suéteres apertados e ela tinha dado
agora para usar blusas de feitio solto.
A secretária de Brockman respondeu o interfone e fez sinal para
que Madeleine a seguisse. Enquanto a acompanhava pelo
corredor, sentia-se muito perturbada, com o coração nas mãos. A
boca ficara seca e do estômago saíam sons como se dentro dela
houvesse uma orquestra. Rapidamente, passou-lhe pela
lembrança a visão de Al, deitado ao seu lado na imponente cama
de casal dele, gemendo de prazer, enquanto ela o chupava. Que
idiota fora ela. Como iria ele reagir diante de sua especialista em
chupadas que o tinha atendido por uma noite? Ele gozara duas
vezes e depois a mandara embora às quatro da manhã.
Certamente, era algo de repugnante para ele ver-se acordando do
lado dela. Os homens nesta cidade eram estranhos seres repletos
de contradições. Falavam muito apaixonados sobre a importância
de um bom relacionamento, mas só o que queriam era dar uma
bimbada e se verem depois livres das pobres infelizes como ela.
Tudo que realmente pareciam estar à procura era de vantagens e
de trepadas fáceis.
Al parecia muito calmo, mas com jeito de ocupado. Ele conversava
com uma mulher magra de cabelos grisalhos, de olhos azuis
penetrantes, com ar. importante e que usava um temo de
xantungue verde-limão que Madeleine vira na vitrina do Hermes.
Ele beijou Madeleine de leve na bochecha e inesperadamente deu-
lhe um abraço, depois a apresentou a Sue Price, que era quem
dirigia os comerciais para a agência. A secretária de Al entrou
trazendo café para os três e quando ele se sentou na sua cadeira de
couro, sorrindo satisfeito, Madeleine começou a relaxar-se.
— Como está o meu querido Gene? — perguntou ele.
— Ótimo. — Quando ela estava nervosa, a sua voz tinha
propensão a tornar-se estridente.
Al olhou para Sue.
— Quando vim para cá e comecei a trabalhar, mandei trazer esse
rapaz, o Gene Roth, que era um grande diretor comercial em Nova
York. Ele trabalhou para a BBD & O, para Doyle Dane e também
para Grey. Realmente genial. Claro que o que interessava para ele
era dirigir os filmes dos horários nobres. Mas, enquanto isso não
acontecia, precisava de comer e lhe arrumei um contrato de 100
mil dólares por ano com a Film Fare. Depois de seis meses, largou
essa companhia. Ele se queixa de que os scripts que lhe mando
são todos porcarias, que não levam a nada, e diz que odeia fazer
comerciais. Basta pensar-se em pressioná-lo que ele pára de
trabalhar imediatamente. Aí, bateu em retirada e está estabelecido
como fotógrafo autônomo. Imagine só Gene fazendo stills...
Sue estava observando o rosto de Madeleine e ela percebia isso.
— Ele não podia entrar nessa guerra, isto aqui é uma verdadeira
selva — disse Madeleine. — Essa é a diferença que existe entre
mim e uma porção de gente. Eu não tenho nada a perder e por
isso não tenho também o que temer, não é?
Sue mexeu com a cabeça afirmativamente; já ouvira isto milhares
de vezes.
— O que é que você faz?
— Trabalhava em Rodeo Drive, no Gucci, mas já me despedi.
— Ficou sem saber se deveria ou não dizer que fora onde
encontrara Al pela primeira vez. Decidiu, porém, que ele, por si
mesmo, passasse a informação. Vendo que Al não pegava a dica,
continuou: — Faço também um curso no Actors' Workshop em La
Brea e tomo aulas de impostação de voz.
— Por que largou o Gucci? — perguntou Sue.
— Resolvi tentar a sorte nesta entrevista. Consegui economizar
um pouco de dinheiro e, se continuasse trabalhando, ficaria para
sempre com a idéia de que nunca me dera uma chance. Estaria
sempre presa a um determinado ripo de salário.
— Você tem fibra — disse Sue.
— Madeleine, falando honestamente, não temos certeza se
vamos contratá-la — observou Al repentinamente. — Sabemos
que você quer representar e atuar em comerciais, mas, no que me
diz respeito, eu, não conhecendo a qualidade de seu trabalho, não
posso indicá-la para nada. A razão por que está aqui é que Gene
disse que as fotos ficaram muito boas e que você é um dos
melhores modelos que já teve. — Ele se voltou para Sue. — Gene é
um artista e é este o problema. Mas, em todos estes anos que
conheço o cara, nunca o escutei falando qualquer coisa mais
amável do seu trabalho ou de um modelo. Assim, a bola está com
você, Sue.
Madeleine lutava com o zíper da pasta que tinha emperrado.
Credo, ela ali, com essa porcaria de fecho atrasando a sua vida, e
os dois com os olhos em cima dela. Seus dedos já estavam ficando
duros de tanto fazer força. Sue veio ao sofá, colocou a pasta reta
sobre ele e a abriu.
— E que está novinha em folha — disse Madeleine, pegando as
fotos e entregando-as a Sue, que foi sentar-se com elas na beirada
da mesa de Al, e, à medida que ia vendo, ia passando para ele.
Nas fotos, Madeleine estava inteiramente mudada. A luz, os
ângulos, as fotos de corpo inteiro com traje de banho estavam
simplesmente fantásticas. Havia algumas que eram close-ups.
Numas, estava vestida normalmente e em outras usava calcinha
de renda, envolvendo-se com os próprios braços de modo a se
verem apenas algumas partes do volume dos seios. Ela não era só
aquela garota comum e rechonchuda, de cintura fina e de quadris
rebolantes, sentada na frente deles, mas, no mínimo, umas 20
outras mulheres mais.
— Estão um estouro — disse Sue excitada. — Santo Deus, já
estou há 20 anos neste negócio e fico sempre espantada com o que
um bom fotógrafo pode fazer. — Ela apontou para uma em que
Madeleine dançava com uma expressão de alegria e de animação
que lhe saltava do rosto para fora. Ela, feliz, num momento seu de
glória quando o mundo, subitamente, ficara maravilhoso. Este era
o segredo desta cidade. Nunca deixe de confiar em você, torne-se
acessível para quem possa ajudá-lo e seja condescendente. No fim
tudo dava na mesma, quando chegasse o sucesso. Madeleine faria
10 filmes pornô, chuparia Al todas as vezes que ele quisesse, mas,
se lhe desse uma boa chance, tudo se ajustaria milagrosamente.
O jeito de Al, olhando as fotos, era encorajador. Depois ele olhou
para Madeleine. Via-a sob outro prisma. Ela era bonita, meio
absurda, engraçada, nada da piranha da madrugada que se
metera no seu quarto. Lembrou-se do quanto fora duro com ela
tratando-a com desdém. Empurrara-a para cima do Gene, nunca
esperando ouvir falar dela novamente. E imaginava que fosse um
caso dado por encerrado.
Ocorreu-lhe então que, por mais difícil que fosse Gene, talvez,
agora, ele estivesse mais tratável. De qualquer modo, ele, Al, sabia
reconhecer um talento e achava que, se Gene Roth pudesse ser
controlado, se perdesse o hábito de largar reuniões, batendo com
as portas, ou não mandasse mais presidentes de estúdios tomarem
no cu, ele poderia usá-lo como diretor; ainda tinha muita vontade
de empresá-lo. Nada mais frustrante para um empresário do que
abandonar as pessoas de talento e saber pouco tempo depois que
foram contratadas por outro agente que lhes dera trabalho e fama
e que estavam ganhando um quarto de milhão de dólares por um
filme ou, então, fazendo bons cachês com exibições de seriados.
Todo empresário na cidade já cometera erros, mas Al não desejava
perder aquele mulheraço que tinha dentro de si uma batelada de
personalidades para desfilar. Se Sue lhe conseguisse alguns co-
merciais e ela tivesse o seu visual difundido, ele poderia conseguir
para ela algum papel de coadjuvante. Tudo que essa garota
precisava fazer era dar uma voltinha de biquíni à volta de uma
piscina e dizer uma besteira qualquer que a platéia viria abaixo de
gargalhadas e o sucesso dela estaria garantido. Mas decisões o
deixavam irritado.
— O seu agenciamento por nós depende da decisão de Sue —
disse ele. — Se ela conseguir fazê-la amadurecer e encaixá-la em
alguns comerciais de televisão para termos um rolo seu, aí
ficaremos com você. A coisa que tem de entender, Madeleine, é
que no começo não posso ajudá-la. O negócio agora é com ela.
Sue entendeu imediatamente o piá que Al lhe passava; ela olhava
com atenção o rosto de Madeleine que parecia confusa.
— O que estamos tentando dizer, Madeleine, é como a coisa se
passa aqui na nossa agência. Bem, uma agência pequena pode
ficar vibrando se, depois de um ou dois anos, você estiver
ganhando de 30 a 50 mil dólares por ano. Mas, tanto quanto
sabemos, isso seria um desastre. Nós não podemos botar nossos
recursos e todo o pessoal daqui a sua disposição para tirar no fim
só uma comissão de 5 mil por ano. Nossos clientes ganham bom
dinheiro e é por isso que a ICM e a William Morris dominam o
mercado. Você pode até se prejudicar, vindo procurar uma grande
agência, mas, existindo um ganho em potencial, nós sabemos
elevá-lo ao máximo. Assim, alguns tantos mil de comissão por ano
pode parecer, do seu ponto de vista, formidável, mas é que temos
em mente a comissão de 100 mil e, por ser esta uma agência sólida
financeiramente, nós nos permitimos escolher as pessoas a quem
empresamos.
Madeleine estava perplexa e assaltada por dúvidas. O que
estavam tentando dizer-lhe?
— Eu decidi começar por cima em vez de ficar rodando por outras
agências, justamente por causa destas razões que você mencionou.
— Ela tinha de demonstrar que acreditava em si mesma, já que
este era um negócio onde todo mundo se sentia inseguro. —
Estamos falando a mesma língua — acrescentou. Acredite, se você
acha que não vou acabar conseguindo fazer 1 milhão por ano,
então nem devia considerar a possibilidade de me apanhar.
Al deu um sorriso.
— Nossa, quanta ousadia!
— Basta que me ponham junto de pessoas como Gene, que faço a
minha parte.
Na garota, havia atrevimento e ao mesmo tempo uma certa
doçura, pensou Sue. Ela era fácil de se gostai, tinha autenticidade
e eia bem diferente das louras de dentes de jaqueta que a
assediavam todos os dias com pedidos de entrevista.
— Vou pegá-la por um ano — disse ela — e, então, veremos daí
para frente o que vai acontecer.
Madeleine saiu em estado de choque. Dirigiu-se para o carro, não
caminhando, mas voando como um passarinho. Estava tão feliz
que quando, finalmente, entrou no seu velho Mustang sujo e
enferrujado, deitou-se no assento e chorou.

Capítulo XXII
No ano anterior, Ed Giovanni havia considerado, não muito a
sério, a idéia de aceitar alguma oferta pelo seu restaurante.
Periodicamente, gente do ramo, algum diretor de uma cadeia
importante de restaurantes, procurava-o para sondar-lhe o
interesse de passar o negocio à frente. Apesar de não ver grande
ciencia na maneira de operar um restaurante, o seu era es-
sencialmente uma criação dele próprio que havia sido moldado
pela força de sua personalidade e de sua dedicação. Se o
abandonasse por seis meses, dificilmente encontraria o mesmo
lugar quando voltasse. Era como uma criança que nunca acaba de
crescer e que está sempre precisando dos cuidados dos pais para
conservar os seus padrões.
Restaurante é o tipo do negocio especial, ele não se enquadra nas
fórmulas ensinadas nas faculdades de Administração. No ano
anterior, o Lawry's tinha tentado expandir-se. A Peterson
comprara o Scandia de seu amigo Ken Hansen. Joe Stellini abrira
um na zona sul de Beverly Hills que atraíra para ele clientes da
New Hollywood e viera reanimar o Pico Boulevard. Peter Morton,
que tinha bom gosto e imaginação, comprara uma velha loja de
antigüidades em Robertson e montara um restaurante de caráter
popular.
O trabalho rotineiro de noite após noite começava a desgastar
Giovanni e a perspectiva de mudar-se para Palm Springs e
comprar um apartamento no fechado condomínio de Indian Wells
ficava cada vez mais tentadora. Isso iria dar-lhe a paz de espírito
tão almejada.
Sempre que quisesse poderia ter o seu tênis ou o seu golfe.
Conservaria a casa de Beverly Hills e a alugaria durante o verão,
enquanto estivesse na Europa. Com a venda do restaurante, ficaria
com quase 2 milhões de dólares líquidos e poderia reduzir os
impostos amortizando-os com os dividendos das aplicações que
faria. Entretanto, nada ter para fazer na vida era um sonho muito
vago, assim, ele não excluía a possibilidade de abrir um pequeno
restaurante que funcionasse dentro de horário limitado e com um
menu composto de poucos e selecionados pratos. Ficaria aberto
apenas para jantar das seis às 10 da noite. Mas, acima de tudo, o
que preocupava e afetava o seu modo de pensar era a
proximidade dos 50 anos, este marco de vida.
Não era muito tarde para ter um filho. Os exames tinham
mostrado que ainda era fértil. Não pensava em ter três ou quatro,
mas apenas um, e Claire era a mulher com quem desejava
partilhar a vida. Em todo o caso, era bem estranho esse interesse
amoroso num velho e reconhecido galanteador como ele.
Giovanni a tinha persuadido a ir com ele passar o dia em Palm
Springs e ela se sentira atraída pelo ar puro do deserto e pelo sol
glorioso que fazia. Além disso gostava da rigidez e da cor azulada
das montanhas nas proximidades de Los Angeles. Durante o
percurso, ele lhe contara o que ia pela sua cabeça e ela sentira
como se lhe estivesse devendo algo, mas tomara a coisa mais com
simpatia do que com paixão. Ele não a pressionara. Ela percebera
que o que ele buscava era uma relação duradoura. Entendia a
verdadeira natureza dele existente sob uma capa de sofisticação e
de pessoa vivida. Mas, no fundo, era um homem extremamente
só, apanhado dentro de uma sociedade fechada. A atração que
sentia por ela não era tão estranha quanto poderia parecer. Ela era,
em essência, uma moça simples, de cidade pequena, estranha
àquele círculo e, como tal, representava o tipo inverso do
exotismo, nada a ver com a experiência dele com outras mulheres.
A vida de Giovanni era circunscrita às pessoas que pagavam
algumas centenas de dólares por um jantar no seu restaurante e à
multidão que enchia o L'Esplanade na hora do almoço. Seus
amigos estavam sempre correndo em busca de programas ou
pegando aviões à procura de uma realidade inexistente em
Beverly Hiils. Caire percebia que Ed lutava para romper com essas
coisas. Ele, por sua vez, se havia convencido de que eia possuía
um segredo que iria desmascarar a fragilidade de seu mundo e
reconstituí-lo como pessoa.
Eles estavam do lado de fora de uma casa de padrão médio, numa
alameda de Mission Hills, pela qual pediam 320 mil dólares. O
corretor sugerira que dessem uma olhada nas. várias benfeitorias
do condomínio. O campo de golfe estava cheio de pessoas idosas.
Os homens estavam vestidos com shorts ou bermudas e as
mulheres faziam intrincados movimentos para acertarem as suas
tacadas.
— O que é que há de errado comigo? Realmente, gostaria que me
dissesse, Claire. — A pergunta pegou-a de surpresa. O belo rosto
dele perdera toda a vitalidade e a boca caía mole, sem energia. —
Isso me está preocupando. Nunca esperei que você fosse tornar-se
um problema em minha vida... bem, você sabe disso. Quando a
conheci, pensei comigo, aí está uma garota sincera, inocente, bem
diferente das calculistas com quem me meti durante todos esses
anos. Uma moça que me pode tornar um homem sério. E eu me
tornei.
Eles ladearam a alameda e foram andando, com ela segurando
apertado a mão dele e enfrentando uma verdadeira batalha dentro
de si.
— Morro de medo de me envolver ou deixar um homem me
dominar novamente.
— Você se machucou uma vez, mas compromissos desfeitos é
coisa bastante comum. Foi azar do seu ex. Não deixe que isso
estrague nossa relação. Não sou nenhum rapazinho e não me
interessa mais ficar de farra por aí. Já estou cansado. A única coisa
que quero saber é se, quando você superar essa crise, estará
pronta para me aceitar. — A ansiedade e a frustração que deixava
transparecer a emocionaram. Ela passou o braço em volta da
cintura dele, inclinando a cabeça sobre o seu ombro, quase como
se ali estivesse um pai e ela quisesse partilhar com ele as suas
preocupações.
— Giovanni, você é o único homem com quem saí, desde que
cheguei aqui. Não sou uma mulher muito experiente e achava que
nunca iria conseguir ir para a cama com outra pessoa que não
fosse ele. Você mudou a coisa. Mas esta adaptação foi para mim
uma parada. Se me der uma chance, gostaria de me apaixonar por
você. Não há alguém por quem me queira apaixonar tanto como
por você.
Eles se viam cada vez menos e o futuro o preocupava. Ela estava
na iminência de começar um negócio e iria atirar-se de corpo e
alma no trabalho. A ambição de Claire se constituía um outro
obstáculo. Sentia que isto prejudicava a relação deles, como
também achava que trabalhava contra ele o fato de ter o dobro da
idade dela. Os dois punham ênfases diferentes na maneira por
que pretendiam construir suas vidas. Entretanto, ele ficou
profundamente tocado com o que eia tinha dito. Preferia
apaixonar-se por ele mais do que por qualquer outro e tão confuso
e emocionado ficou que se afastou um pouco dela.
— Gostaria de lhe dar tudo — disse ele com suavidade. — Você
terminou completamente com esse outro homem?
Ela tentou ser honesta, mas a negativa saiu pouco convincente.
— Praticamente terminado. — As palavras foram ditas com tal
expressão que ele se sentiu mais ainda atingido por perceber que
ela não tinha consciência da esperança indizível que transpareceu
nos seus olhos. Seria esta a imagem com que ela se via no espelho,
reveladora de uma capacidade infinita para um sofrimento que
não conseguia esconder? Em Claire se configurava tudo quanto,
outrora, achava que fosse bom e valioso e que, depois, perdera,
quando o seu tipo de vida passara a contrapor-se aos seus ideais.
Mulheres como ela eram raras em Beverly Hills e ele começou a
entender a razão por que Claire exercia tanto poder sobre ele.
Nada do que ela fazia era premeditado e ele se sentiu compelido a
protegê-la dela mesma.
Sentia-se esmagado pela força de seus sentimentos, pelas nuanças
finas de suas emoções e a ternura que ela lhe inspirava.
Normalmente, não era dado a sentimentalismos ou a fazer
descobertas sutis da própria sensibilidade, mas foi uma surpresa
para ele aperceber-se de que, no papel de protetor de Claire,
estava tão encantado com o drama dela quanto ela mesma.
Sempre associara força e saúde com a capacidade de amar, mas
estava sofrendo agora do mal de amor, envenenado pelas raízes
do passado dela.
Leonard estivera demasiadamente voltado para a salvação da
Martinson Construção e Incorporação para prestar atenção ao
clima doméstico que prevalecia na casa da filha. Os seus
problemas já eram mais do que suficientes e, afinal, Hillary tinha
agora outro guardião que era encarado como o próprio salvador
que o destino havia expressamente posto nas suas mãos. Os
acontecimentos, em certa medida, correspondiam as suas
estimativas. Bobby se mostrara à altura de um gênio no trabalho
de restauração da casa e no projeto para Marine Mutual. A
ascendência dele sobre Dunlop, um tipo obcecado pelo poder,
vinha confirmar sua crença de que Deus estava de seu lado. A
afeição pelo genro fora acontecendo aos poucos para assumir
finalmente a forma de quase veneração mística.
E verdade que Dunlop lhe havia tirado o couro, mas ele tinha
consciência suficiente para dar graças a Deus por estar vivo e pela
primeira vez em dois anos ser um homem com crédito na praça.
Num certo clima de celebração, convidou as
"crianças" para subirem até a sua casa e botarem em dia os
assuntos de família.
Eles vieram separados. Bobby estava retraído, pouco co-
municativo, e, para matar o tempo, ficou conversando com
Leonard sobre licenças de obra, escavações e encontros a serem
marcados com engenheiros encarregados da parte das fundações.
Hillary chegou cerca de meia hora depois. Contrastando com a
calça de trabalho que Bobby usava, ela vestia uma saia de veludo
vermelho de cintura alta, botas e um suéter de cash-mere com
capuz. Durante os drinques, mal olhou para Bobby e Leonard
ficou alarmado ao perceber nela uma superexcita-ção
desconcertante. Ela olhava para Bobby com desprezo.
— Se é para ficar aqui ouvindo sempre as mesmas baboseiras
sobre arquitetura, então vou embora.
Ela se encontrara duas vezes naquela semana com Geraldo e a sua
atração por ele não diminuíra, ao contrário, sentia-se cada vez
mais estimulada e cheia de desejos por ele. No momento, estava
vivendo duas vidas. Durante o dia, era uma digna aristocrata de
Beverly Hills e, de noite, uma testemunha de planos secretos sobre
embarques de cocaína, com o pessoal do submundo.
No porão de La Guita, Geraldo escondia verdadeiro arsenal de
pistolas e rifles automáticos que, no princípio, a amen-drontava e
depois passou a encantá-la. Na noite anterior, havia atirado pela
primeira vez; fora na praia, com uma pistola de nove milímetros
armada com silenciador. Acertou sem querer nas portas de dois
carros e, ao ver o resultado dos tiros, ficou siderada com a
enormidade dos estragos. Do ponto de vista psicológico, estava
passando por uma fase reveladora do desejo de onipotência.
Ninguém iria estragar-lhe os momentos de prazer. Dr. Parks fora
posto de lado por uns tempos e canceladas as consultas até
segunda ordem. Não iria largar a festa no melhor dela.
Impassível, Bobby acabou de tomar o seu drinque. Naquela
semana havia ficado num vaivém constante entre o seu
apartamento e a casa de hóspedes; parecia vacilante, perplexo,
cansado, depois do imenso esforço feito para projetar o prédio da
Marine Mutual. E, pela primeira vez em que se lembrava na vida,
sentia-se sem objetivo, um tanto vago, e isto lhe tirava o prazer
que deveria estar tendo com a sua grande façanha. Precisava
urgentemente de dar uma parada, mas nem mesmo sabia qual o
lugar em que gostaria de estar. Talvez voltar a Nova York por uma
semana ou, então, passar alguns dias no Havaí. Hayward tinha
falado de um condomínio fechado em Maui que a firma poderia
pegar. Mas o que o atraía para ali era a possibilidade de trabalhar
pela primeira vez numa marina. Loteamentos frente ao mar se
constituíam num desafio com características únicas. Entretanto,
ele não podia partir sem antes resolver a situação com Hillary. Já
nem conseguia avaliar os seus sentimentos em relação à mulher.
Seria a relação dos dois algo do tipo de que se costuma falar "foi
bom enquanto durou", para depois admitirem os respectivos
fracassos e cada um seguir o seu caminho sem maiores rancores?
Parecia-lhe que o mais lógico seria dar um fim a tudo. Mas ele
considerava também os danos que resultariam daí. A ruptura com
Claire tinha de valer mais do que isto e ela continuava a corroerme
as entranhas. Sua perspectiva da situação achava-se obscurecida
por conflitos internos. Nunca fora de largar coisa alguma, mas, ao
se ver separado de sua mulher por um mar de recriminações,
cheias de azedume, ele não tinha outro caminho a tomar.
— Você nunca quis fazer nada na vida, então como vai entender o
que eu estou passando agora? — observou ele perdendo a calma.
Hillary franziu a boca como se tivesse comido uma ostra
estragada e não encontrasse lugar para cuspir.
— E este tipo de merda que eu estou tendo de aturar — disse ela
dirigindo-se ao pai. — Pode acreditar numa coisa dessas?
Leonard assumiu a postura defensiva que lhe era peculiar. Ele era
daqueles qué largam pela metade o jogo de golfe quando começa
a relampejar. Havia feito reservas no L'Oran-gerie e deveriam
estar saindo dentro de 10 minutos. Apanhou um catálogo de leilão
da Sotheby-Parke Bernet que recebera no mês anterior. Será que
não gostariam de ir com ele até lá? Havia algumas Hepplewhite
que talvez fossem interessantes.
— Não mude de assunto, ouviu, Leonard? — disse Hillary,
fuzilando-o com os olhos. Ela apontou um dedo acusatório para
Bobby. — Esse... esse aí, durante todo o tempo, vem fazendo
conosco a maior das sujeiras.
— Ótimo, Hillary, é bom esclarecermos tudo de uma vez —
disse Bobby.
Surpreendido entre dois fogos, Leonard aconselhou Bobby a ir
buscar o paletó na casa de hóspedes, dizendo que o apanharia lá,
dentro de cinco minutos, mas ninguém o ouviu. Sentado no seu
salão e cercado por sua coleção de Vuillard, Bon-nard e Soutine,
ele deveria sentir-se imbatível, mas Hillary o deixava inteiramente
acovardado. Ele via ali a adolescente intratável, cheia de vontades,
que o manipulara e escarnecera dele; tão astuciosa que acabara de
rastros aos pés dela. Seu caráter vingativo estava acima dos limites
do que alguém pode suportar. Ela arrasara com a vida pessoal
dele ao criar entre os dois uma espécie de código nojento que o
transformara numa pasta inerte. Não poderia permitir que fizesse
o mesmo com Bobby. Já era tempo de resistir-lhe. Dar um basta
aos anos de tirania.
— Se vamos chegar tarde, é melhor então telefonar para Virginie
no restaurante.
Em público, Hillary evitava escândalos, preferia fazer entradas
triunfais, sorrir amavelmente, fazendo-se o foco das atenções. .
— Você gasta bastante dinheiro lá. Que eles esperem — disse
ela.
— A questão não é essa, Hillary — defendeu-se Leonard. —
Estou travando uma guerra para conseguir sobreviver. É um
milagre que eu não tenha ainda afundado. Consegui renascer,
meu bem, e desejava celebrar com as duas pessoas mais preciosas
que tenho no mundo. Os meus filhos — acrescentou com voz
embargada. Ele levantou a mão num gesto majestoso, pedindo
trégua.
— Se estava em apuros, devia ter recorrido a mim — disse ela,
levantando o queixo com superioridade. — Poderia ter pago a sua
fiança.
— Desculpe-me, eu ter levantado o assunto — disse Leonard,
retrocedendo.
Bobby observava a maneira visível de Hillary manobrar o pai,
fazendo com que ele ficasse confuso. Se num instante estava
agindo como filha devotada, já no outro estava botando o pai no
banco dos réus. Que mulherzinha! A perversidade em pessoa.
Bater e contra-atacar era o jogo deles.
— Talvez — disse Bobby, baseando-se em suposições — haja
dinheiro demais nesta família.
Leonard deu uma risada amarga.
— Uma das melhores coisas em você, Bobby, é que não entende
nada sobre dinheiro. Vivi todos esses anos tão acima das minhas
posses que o dinheiro se tornou uma espécie de abstração, até o
dia em que topei com um porco da raça de Frank Dunlop que me
fez compreender a força dele... o seu poderio no mundo. Hillary,
instintivamente, sabia disso.
Por que ir para o banheiro e se esconder desses caretas?, pensou
ela. Não. Já tinha passado da fase de precisar fingir. Ela abriu a
bolsa e apanhou um vidrinho contendo cocaína;
salpicou um pouco sobre a mesa de vidro, fazendo umas filas
espessas que ajeitou com uma pequena lâmina; em seguida,
atrevidamente, cheirou três das filas. Seu suprimento jamais iria
acabar e, se ela assim o quisesse, mandaria Geraldo aqui com dois
caras da turma dele para matar Bobby e o seu pai. Ela tinha poder
sobre a vida e a morte. Geraldo poderia simular um roubo... ela
seria trancada no banheiro, os empregados, amarrados, seriam
postos juntos dentro de uma quarto, apenas Claude ficaria no
serviço e, deste modo, lá se teriam ido todos os seus probleminhas
mesquinhos e idiotas. Dr. Parks estava errado. As drogas
combinavam bem com ela, eram o que delineava a estrutura de
seu poder; suas grandes amigas e colaboradoras no esforço para
alcançar a liberdade infinita que desejava. Sua posição era
inexpugnável.
— Hillary, isso não — implorou Leonard. Ele deixou a cadeira e
veio acariciar o rosto dela, restabelecendo a antiga aliança entre os
dois. — Vocês têm o mundo pela frente, Bobby — disse querendo
arrastá-lo também para a corte de cavaleiros a serviço de Hillary.
— Não leve tudo isso a sério, hein querida?
Bobby levantou-se e encostou a bandeja com as garrafas de
bebidas para o lado, numa mesa que ficava perto do tabuleiro de
xadrez de Leonard. Quando não havia convidados, a regra era
cada um servir-se; não havia qualquer criado rondando por perto.
Leonard possuía uma coleção de uísques à base de malte, todos
com etiquetas Glen... qualquer coisa. Apanhou um copo, serviu-se
e deu as costas às baboseiras que Leonard dizia para bajular. A
voz dele era suave como um cetim.
—É um alívio ter uma testemunha por perto — disse Bobby.
— Eu preferia estar em qualquer outro lugar.
— Aposto que sim — falou Hillary com atrevimento. Ela se
levantou, deixando seu pai sentado, com os ombros caídos, na
beirada do sofá. — Esse casamento não passa de uma farsa. .. nós
dois fomos tapeados. Ele trouxe a namorada para cá. O que acha
disso? — Leonard levantou as mãos num gesto de renúncia. —
Quer ouvir a história como ela é? Nós fomos simplesmente
usados.
— Hillary...
Leonard foi impedido de falar por causa do grito que ela deu.
Seria grito ou uma louca gargalhada uivada escarnecedo-ramente?
De pouco adiantava o fato de ela ser bonita, derramar aquela
sensualidade exuberante com que a natureza às vezes dota
displicentemente certas mulheres. Ela estava plantada em terras
pouco firmes, corroídas por erosões, e as chuvas ocasionais não
iriam contribuir para o seu desabrochar, pensou Bobby, só fariam
arrancar as raízes e arrastá-la em direção ao barranco. O germe da
destruição já nascera com ela.
— Enquanto eu estava tentando fazer um lar de sua antiga
garçonnière, ele e Claire estavam agindo por trás. Acho que
planejavam pegar uma parte de meu dinheiro e depois se mandar
para um lugar qualquer. Nós somos dois idiotas.
Leonard estava alarmado, muito abatido, procurava alguma
mágica capaz de dar uma aparência de ordem àquela loucura.
Bobby pegou o copo e se mexeu no sofá. Ele olhava para as fileiras
de pó que sobraram formando ziguezagues como uma espinha
recurvada, atacada por escoliose. Apanhou o canudinho, passou o
polegar na abertura da sua entrada e botou no nariz para ver que
sensação dava. Nada, apenas um metal frio encostado na narina.
Lembrou-se de seus tempos de criança, quando se encontrava com
outros garotos depois da escola num drugstore chamado Labell's.
Doe Larry costumava aviar receitas, além de contar anedotas para
a meninada, contanto que eles não fossem mexer nos sifões das
caldas e das sodas e não atirassem sorvetes no letreiro ou
metessem nas orelhas das garotinhas biscoitos banhados em
milkshakes. Ah, doce e inconseqüente vandalismo daqueles
tempos... Bobby botou ha boca o canudo e deu uma chupada com
ele no uísque; quando a bebida lhe alcançou os lábios, ele botou o
dedo em cima do canudo, criando um vácuo retendo o uísque
dentro do tubo. Sacudiu-o, em seguida, por cima da coca, fazendo
uma sujeira de uísque misturado com pó branco e, Hillary,
horrorizada, caminhou na sua direção.
— Está querendo encrenca, meu caro. — Ela segurou o braço
de Leonard. — Isto é o que ganho... por ser honesta em vez de
fazer as coisas na moita. Já estou cansada de fingir.
— Foi você quem começou, Hillary — gritou Leonard. Ele
daria tudo para pô-la em cima dos joelhos e lhe dar umas
chineladas. — Foi você quem o provocou, aliás, quem nos
provocou.
Bobby deu um salto, ficando de pé, quando Hillary veio vindo na
sua direção para atacá-lo como um torpedeiro pronto para atirar.
— Não vou tolerar essa união dos dois contra mim. — Ela viu
que Bobby não estava intimidado; Leonard, inimigo dela, um
cachorrinho covarde e choramingas que precisava mais dela do
que ela dele, recebeu em cheio todo o impacto do seu desprezo. —
Puxa, meu pai, você permitir uma coisa destas! Isto é o fim para
nós.
Ela pegou às pressas a bolsa, abriu-a, e, com ar triunfante, sacudiu
nas mãos dois vidrinhos mais de pó.
— Hillary, espere um minuto — falou Bobby, bloqueando a sua
saída. — Só para que fique tudo perfeitamente claro, devo dizer
que lamento muito por nós dois e o que eu fiz foi a coisa mais
burra e sórdida do mundo. Eu não amo você.
Por momento, parecendo uma corça ferida e acuada,.ela se tornou
uma daquelas debutantes vulneráveis, de olhar esquivo, que,
depois de decepcionarem os namorados, passam a pressioná-los,
quando estes ameaçam ir embora.
— Você não está sendo sincero... Explique para ele, Leonard, como
são as coisas. — Em seguida, saiu. Bobby ficou junto da porta,
enquanto eia entrava no seu Rolls e calmamente o punha para
funcionar, até que ele pegou e ela cruzou a colina para pegar
ainda a segunda parte do programa daquela noite.
Claire saiu da loja com um rolo de plantas na mão. A loja era
quase quadrada, 12 por 15 com cinco de altura. Com esse pé-
direito, ela poderia perder metade da altura e instalar um jirau,
aumentando o espaço de vendas com 135 metros quadrados que
poderiam ser usados para mostruário de tendas, mochilas, balsas.
Mas como iria ficar? As duas vitrinas dando para a rua e a própria
localização da loja não podiam ser melhores. Será que com o jirau
iria conseguir o espaço visual que imaginava? Os dois arquitetos
do Disegno Contemporâneo, enviados por Leonard, só fizeram
aumentar a confusão. Eles não tinham noção do que falavam e ela,
de modo delicado mas firme, pediu-lhes que lhe dessem algum
tempo para pensar melhor na sua idéia.
Um telefone provisório fora instalado no fundo da loja e ela havia
comprado uma mesinha com quatro cadeiras e uma luminária.
Entretanto, estava realmente atrapalhada e temerosa de tomar
uma decisão. Em desespero, telefonou para Hay-ward e deixou
um recado para Bobby com a sua secretária. Eram quatro horas e,
se ele não aparecesse logo, já não haveria muita luz.
Já fazia mais de uma semana que ele irrompera pelo seu
apartamento, tirando a sua paz de espírito. Ela o havia, en-
tão,.repelido e se tivesse de fazer isso novamente seria da mesma
forma, sem segundas intenções ou qualquer espírito de vingança.
A sua fome dele, entretanto, persistia, não havia como combatê-la
ou esquecer, era uma coisa que resistia a toda lógica.
Ele chegou logo depois das quatro, enlameado, com o rosto e
cabelos cheios de poeira e grãos de areia nas sobrancelhas. Tinha
estado no local em que se ergueria o prédio da Marine, com
agrimensores, vendo os tratores fazer o movimento de terra.
Estava de bom humor, despreocupado, deixando transparecer a
alegria que sentia por estar longe do escritório, fora das discussões
de dinheiro. O levantamento topográfico do terreno estava sendo
uma coisa de doido, disse ele.
— Podia ter tomado uma chuveirada antes, mas, como estava
aqui peno... Bom, como vai você? — Ele refreou a vontade de
abraçá-la e beijá-la. As condições agora eram outras. No entanto,
ele era a mesma pessoa com quem ela se teria casado uns tempos
atrás. Mas os dois tinham passado uma esponja no passado.
— Preciso de um favor especial seu. Sei que essa não é a sua
linha de trabalho, mas estou necessitando urgentemente de
confiar em alguém. Os arquitetos que trabalham para Leonard são
do tipo que gostam de impor suas idéias. Não entendem patavina
de vendas em lojas e, quando faço alguma sugestão, eles me
derrubam sem a menor cerimônia.
Ela via Bobby relaxado, rindo, e o passado dos dois voltando de
modo aterrador. Procurou, então, abafar os seus sentimentos.
Nada a faria voltar para a linha de fogo e ficar à mercê dele.
— Você está precisando é de um assessor amigo.
— Você é quem está dizendo e não eu.
— Não entendo muito de lojas e isso aí já está construído. O que
Leonard deveria fazer era entregar este prédio para uma
companhia de demolição — disse dando uma risada sonora. —
Mas acho que a coisa se vende.
Ela estava realmente preocupada, não querendo ficar presa de seu
fascínio. Explicou, então, qual era o seu problema e ele se pôs a
examinar a planta baixa.
— Qual é a coisa mais importante? — perguntou.
— Espaço. Tenho de poder exibir a mercadoria.
Ele caminhava, fazendo comentários sobre a porcaria que era
aquele projeto. Bom, pensou, mas era o que tinha e nada podia
contra isso. Ela viu na prática o lado profissional da personalidade
dele que tinha a compulsão pelo trabalho de um verdadeiro
capataz.
— Se você puser dois andares aqui, vai ficar igual a um caixão.
— Mas tenho de fazer concessões e sei muito bem o que você
acha disso.
— Só que, do jeito que está pensando, para ganhar espaço vai
perder espaço. As pessoas que você quer aqui dentro gostam de ar
livre. Faça uma loja aberta e informal. Você joga uma escada
dentro e o efeito desaparece, mas, se abrir paredes, fazendo isso
parecer um celeiro de madeira, você terá espaço para a
mercadoria e ainda pode também dispor as roupas em prateleiras
com suportes móveis.
Ela balançava a cabeça aprovando. Estava preocupada com o
centro da loja que lhe parecia confuso, perdendo passagens por
onde poderiam correr balcões.
— Tem outro jogo de plantas com você?
— Não, estas são minhas — respondeu, agarrando-se a elas
como se fosse o que provasse a legitimidade de sua posse.
— Bom, eu pego com Leonard ou peço no escritório. Deve
haver um montão delas dando sopa por aí. — Ele suspendeu a
cabeça, o seu pescoço estava com riscas de sujeira. — Barracas,
balsas, roupa para camping... poderia ser...
— O quê?
Ela o acompanhou ao lado de fora, subindo por uma escada de
metal que dava num terraço. Ele pegou um punhado de pedras e
disse em tom de desprezo:
— Frente de ladrilho e teto de cascalho com alcatrão. Que
economia porca, santo Deus.
— Não estou compreendendo.
— O teto não tem caimento, meu bem. Se der uma chuva forte,
vão aparecer goteiras.
Credo, ele estava trazendo mais dificuldades do que ela previra.
Ele dava voltas, com as mãos na cintura, balançando a cabeça,
ignorando-a.
— Sabe o que ficaria ótimo aqui?
— Não. Gostaria de saber.
— Suponha que pusesse as balsas, barracas, e outras coisas que
terá, lá em cima. Aí, você poderia refazer a clarabóia em módulos,
faria uma arrumação com eles em ângulos diferentes, bem
assimétrica para quebrar a monotonia, de modo que quando os
fregueses olhassem para cima pudessem sentir-se em céu aberto.
Não é essa a sua intenção?
— E, quando chovesse, você estaria abrigado. Oh, estou
adorando.
— Você estaria. Eu não. — Ele concordou em fazer um estudo
para a loja e desajeitadamente foi descendo a escada. Era uma
noite escura de dezembro e havia uma onda de frio na cidade,
mas longe de ser o frio intenso com que estavam acostumados.
Nada de neve, trenós ou de baterias de carro sem auerer pegar.
Jamais os dois iriam compartilhar novamente das situações
difíceis que o frio traz. Ele deixou claro que estava resolvendo sua
situação, sem aprofundar-se muito no assunto. Ela não podia
deixar-se levar por ele, mas estava implícito que ambos
abominavam o tipo de relação que tinham no momento
conscientes do grande erro daquela situação que estavam vivendo.
Essa consciência era, certamente, mais confortadora, havia nela
uma espécie de fatalismo.
— Posso pagar um jantar para você, sem segundas intenções?
— Em outra ocasião.
— Já tem algum compromisso para hoje?
— Não. Só com o trabalho. Examinar o crédito de um punhado de
fabricantes, referências bancárias, ver formulários...
Ele não pressionou e ela o adorou por vê-lo contido, sem suscitar-
lhe desejos. Para os dois, foi um momento amargo aquele,
contendo uma situação que poderia explodir ao menor vacilo de
um ou de outro.
Gene estava ocupado fazendo um baseado com a nova maconha
que acabara de chegar à cidade. Duas puxadas e você fica falando
uma hora sem parar; três, as pessoas começam a se dissolver
diante dos seus olhos; quatro, você vai direto para o hospício com
Leonard Bernstein regendo a sinfonia de sua paranóia. Gene
disse-lhe para ir com calma.
— Este árabe me está oferecendo mil dólares por semana e um
apartamento em Sierra Toweres só para ter-me lá quando ele
estiver na cidade — disse Madeleine.
Ela gostava de testar as reações dele por meio de técnicas
indiretas. Porra, afinal ela era uma atriz. O que acontecera não era
realmente tão vantajoso assim e nem lá muito decente. Um
cafajeste fortão, no bar do Joe Allen, onde ela tinha parado para
tomar um drinque, lhe pagara uma rodada e depois a sua conta;
ele a acompanhara até o carro, desenrolara na sua vista um maço
de notas e a convidara para um jantar de lagostas em Palm
Springs.
— Você devia ter aceitado o programinha. Eu iria, como seu
irmão, e a gente espetava uma conta no cara que ele iria precisar
até de chamar o médico.
Gene nunca se deixara envolver por uma mulher. Com Madeleine,
infelizmente, já era um pouco tarde para isso. Ela, com sua
persistência muda e sua habilidade infernal para contorcer e
apertar ao máximo a sua xoxota, valia um mês inteiro de um
bordel servido por chinesas. Os olhos de Madeleine arregalaram-
se cheios de apreensão. Gene era uma parada e o caso principal de
sua vida. Estava louca por ele. O seu grande amor.
— Em outros tempos, podia topar um programa. Agora, nunca
mais. — Ela fechou os olhos; era uma heroína de Tennessee
Willians que mergulhara um pouco demais no lado amargo da
vida. — Eu gosto de você.
Ele estendeu a mão para pegar o seu seio, do modo como um
garçom faz na hora da gorjeta.
— Oh, estamos num momento de circunspecção. — Ele havia
ligado a televisão portátil num canal onde um fanático religioso
ameaçava catástrofes, artrites, cenas do juízo final, caso não
telefonassem imediatamente para subscrição de donativos.
— Gene, você quer apagar isso? — Ele era o dono absoluto dos
aparelhos elétricos. Ela não se metia com os controles de som.
Eles estavam deitados no deque, junto da piscina de água quente,
sobre toalhas do Holiday Inn e do Ramada, sob um sol vacilante,
num céu pelejando com as nuvens. O tempo em Los Angeles era
de uma imprevisibilidade irritante. Não havia neblina, mas
apenas chuvinhas finas; o tempo de calor infernal e de turistas em
Strip tinha terminado, agora era o paradoxo cruel das decorações
de Natal que ficavam zurrando com o vento batendo sobre elas.
Tudo fazia crer que este seria mais um 25 de dezembro cheio de
atropelos para Madeleine, com estranhos acotovelando-se na
cozinha para pegar os garrafões de Paul Masson Chablis e catar
gelo nos copos usados. No último Natal, ela formara numa
comitiva de recepção para vendedores de cosméticos e acabara
numa mesa de 18 pessoas num restaurante chinês, uma
verdadeira pocilga. A noite inteira, fora bolinada debaixo da mesa
por um sujeito que tinha as mãos pegajosas de molho de costeletas
de porco e que lhe oferecera 50 dólares. Não treparia com ele por
nada deste mundo.
Cada vez tornava-se mais patente que qualquer coisa que fizesse
não iria adiantar para tirar Gene de sua apatia que existia já muito
antes de os dois se conhecerem. A última semana, ela a tinha
passado comparecendo às entrevistas que haviam sido finalmente
marcadas e estava otimista quanto a conseguir um emprego. O
diretor do elenco artístico na Doyle Dane pedira-lhe que voltasse
depois do Natal para uma segunda entrevista.
Sue achara que Madeleine causara boa impressão. Uma segunda
entrevista significava que o patrocinador do programa estaria
presente. Este mesmo já contratara a agência para a campanha de
Suave Alívio, um novo veneno efervescente para indigestão e azia
que ia aparecer no mercado nacional. Só uma pequena contra-
indicação: o uso demasiado de Suave Alívio causava cegueira
noturna. Entretanto, se fosse ela a escolhida para o lançamento da
campanha, estaria em anúncios na imprensa e numa série de
comerciais da televisão. Fora honorários, receberia percentagem
sempre que os comerciais fossem ao ar. Era a ofensiva. Al estava
mexendo com os seus pauzinhos. Ele sugerira Gene para diretor,
mas viera um telegrama de Nova York, da parte do diretor
financeiro, vetando Eugene Roth.
Começou a chuviscar. Gene carregou a televisão para o quarto,
enquanto ela desligava a piscina. As toalhas não tinham
importância. Ele roubaria outras mais. Gene dava cinco dólares às
arrumadeiras e elas enchiam a mala do seu carro com a rouparia
do hotel. Ora, ao diabo a sua dignidade, não seriam esses
roubozinhos inocentes que iriam arranhá-la. Mas, porra, valia a
pena. Sexualmente, ele enchia as medidas dela, impossível ir mais
além. Ou quem sabe? Talvez fosse... dependendo das fantasias que
passassem pela cabeça dele. Sua criatividade gerou uma causa: ela
era a mulher, a única capaz de regenerá-lo, fazer com que
recuperasse a carreira abandonada.
— Você tem de arranjar um trabalho sério.
Ele estava urinando e ao virar-se respingou no assento.
— Ótimo, professora. Só sei que vou sair disso com grana e
usando roupas de classe. — A voz dele era alegre, mas seu tom de
piada era grosseiro. — Tetas e traseiros dão para pagar contas.
Ela agora tinha dado para ler as seções comerciais de revistas
como Variety e Repórter, podia encontrar alguma chance para
Gene aí. Brockman queria ser o empresário dele. Naturalmente,
ele preferia Jeff Berg.
Os seus olhos injetados de sangue encheram-se de indignação.
— Madeleine, não queira me promover. Gosto de você como é.
— Se consigo este emprego, paro de tirar fotos de minha
babaca.
— Deixe disso, você está com muito fogo.
E era isso aí. Ele estava além do céu e da terra, nada o atingia. Seus
dedos estavam rolando pelos confins do corpo dela. Os pêlos
púbicos projetavam-se na pele como espinhos. Nada de muito
agradável quando ralavam dentro das calcinhas.
Ela o empurrou para o lado.
— Estou falando sério.

— Neste caso, telefone para embaixada árabe... emirados. Aqui


comigo, está só perdendo tempo e deixando de aproveitar uma
ereção que vale ouro. Eu não acredito em mim. Se tenho de fazer
porcarias, deixe que eu mesmo escolha.
Ela tomou uma decisão. Estava de sutiã; as calcinhas não tinha
conseguido encontrá-las, provavelmente estavam molhadas no
banheiro. Meteu-se, então na sua digna calça cor de caramelo, já
um tanto fora de moda e que fora comprada numa liquidação do
Bonwit's.
— Se não significo para você nada mais do que uma boa
trepada, tudo bem. Vamos esquecer. Não dá para transar com um
cara que não tem uma ponta de auto-estima.
Ele não estava muito certo de como agir diante deste ato de
rebeldia.
— Vai embora?
— Mil vezes comer com um árabe e trepar com ele do que com
você.
— Pelo menos está promovendo uma redistribuição do
petrodólar.
Que teria dado nela? Com a mão fechada deu um murro nele.
Acertou no meio da testa. As juntas dos dedos ficaram
massacradas, com uma dor infernal. Sua vista empanou-se com
lágrimas quentes, picando-lhe a pele. Ela clamava contra as
injustiças da vida. Ele se havia recuperado do choque sentido com
o murro.
— Você apareceu e eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, iria
tentar querer me botar na linha. Deus me guarde de mulheres
querendo ser atrizes e de peitões burros. — Ele passou o braço em
volta da cintura dela e arrulhou no seu ouvido: — Faça uns bifes
para variar. — Ela agarrou aquilo que era o centro de sua
existência, a bolsa. — O que você quer que eu faça? — perguntou
ele.
— Que procure Al e vá trabalhar.
— Por quê? Já passei por essa besreira.
— Não comigo. Gostaria que, de uma vez por todas, você
perdesse o medo de arriscar o seu cu.

Capítulo XXIII
O aparecimento de um carro-reboque proclamando um
"remanejamento de vidas" era fato que poderia passar prati-
camente despercebido em qualquer parte de Los Angeles. En-
tretanto, se o reboque está atrelado a um Mercedes 450 SL e vai
balançando-se pelas ruas panorâmicas que contornam Bel-lagio
Road e pára em frente da casa de Leonard Martinson, isso só
poderia significar a iminência de um assalto. Os vizinhos, neste
paraíso verdejante, ocultos atrás de sebes grandiosas como
muralhas, não são, por natureza, curiosos. Possuem milhões
trancados dentro de suas casas, filhas casadoiras, além de serem
maníacos por privacidade; atrás dos portões de ferro, acionados
eletronicamente, vivem inteiramente apavorados.
A polícia particular dessa gente, a Bel Air Patrol, tem como regra
agir educadamente e sempre com cautela. Mas, quando ela recebe
três chamadas telefônicas dessas distintas pessoas que deixam
Dobermans famintos acorrentados nos seus quintais, ou daqueles
simpáticos iranianos que mantêm vigias residentes fazendo a
ronda com armas automáticas, ou, então, dos atores que têm
sistemas de alarme nos bolsos, os tiras começam a ficar nervosos.
Eles se aproximaram de Bobby com as armas à vista, pediram-lhe
a identidade e deram um olhar cé-tico para as coisas empilhadas
dentro do reboque: ternos, duas valises, pranchetas, réguas-T,
caixotes com livros de arquire-tura. Nenhum Sony, nem casacos
de vison e diamantes.
O pequeno drama para provar quem era ele deixou-o divertido.
Tornara a ser o que sempre fora, voltado para sua posição de
intruso naquela casa. Foi necessário o aparecimento de Leonard
para tranqüilizar as feras. Havia evidências de que Hillary rinha
passado algumas vezes pela casa de hóspedes, mas ninguém a
tinha visto; Dr. Parks fora alertado, mas ele, também, não tinha
notícias dela. Deu-se falta de duas de suas malas e parte do
guarda-roupa. Entretanto, nenhum dos vestidos caros de toalete
havia sido tirado.
Leonard estava de pé, diante dele, cabisbaixo, sofrendo. A união
que começara tão promissoramente estava terminando em
tragédia. Se Bobby fosse o tipo de caça-dotes inescrupuloso que
Hillary garantira, o abalo por causa de sua saída seria menos
sentido. Ao contrário, Bobby provara ser independente, um
homem de caráter, antiquado no seu modo de agir e pensar, digno
de confiança. Leonard o adorava. A perda do genro e da filha ao
mesmo tempo havia acabado com ele.
— Tim alugou novamente o Honda para mim e assim estou
devolvendo o Mercedes para Hillary. — Ninguém devolve um
cano de 35 mil dólares. Era um gesto não só sem precedentes,
como também humilhante.
— Legalmente, ele é seu — protestou Leonard, sem insistir
muito. Tudo o que acontecia só o fazia sentir-se pior.
— Ora, o que é isso... — Bobby estendeu a mão. Leonard a
agarrou, como se quisesse salvar a sua vida. O vazio terrível em
que mergulhara combinava com a tarde fria e triste daquele dia.
— Por Deus, não tome isso como coisa pessoal... Eu preciso me
mudar. — Ele hesitou. O sofrimento de Leonard o incomodava,
tinha de sair limpo, sem lhe dar falsas esperanças. — Procurei Bob
Mayer para tratar do divórcio. Será tranqüilo e digno. Não existe
envolvimento de dinheiro e de filhos. Eu não tenho bens e
também não estou querendo nada de Hillary; assim, quando você
a encontrar, peça-lhe que procure um advogado e vamos deixar
que eles trabalhem sossegados.
Uma das supremas alegrias da vida de solteiro reside na
irresponsabilidade. Bobby passou a tarde inteira remexendo nos
caixotes de livros. Um de seus heróis era Sir Basil Spence e ele
nunca se cansava de rever as plantas e fotografias de Co-ventry
Cathedral, destruída em 1940 e reconstruída em 1962. Saber
combinar inteligentemente o velho com o novo parecia a Bobby o
maior achado em arquitetura e isto estava simbolizado no
humanismo artístico de Spence. Nada a ver com o seu projeto para
a Marine Mutual Insurance. Será que ele realmente iria projetar-se
em Los Angeles e realizar aqueles altos ideais que desenvolvera
durante a vida? Tudo que podia ver no seu futuro era uma
progressão infinita de prédios comerciais, casas fumrísticas nas
encostas de colinas impróprias à construção, ou, então, fazer
restaurações e desenhar ambientes convencionais para
apartamentos de milionários.
Era perigoso inquirir a respeito do fato de sua recente aceitação
como arquiteto, mas ele precisava se dar respostas e estas só
poderia achar dentro de si mesmo. Será que como arquiteto estaria
acabado daqui a uns cinco ou, quem sabe, 10 anos? Quem sabe? E
será que iria encarar sua obra como indigna, comercial,
inconseqüente, tal como Rubin? E uma firma como Hayward, será
que ia ter? Uma associação com um tipo como Martinson e
prostituindo-se para enquadrar-se dentro de uma linha de
produção, seria isso possível? Era quase um alívio ter a vida
pessoal arrebentada, contanto que não deixasse de concentrar-se
na quintessência daquilo que o motivara para a arquitetura.
Preparou um sanduíche de várias camadas e se pôs a observar,
sem muita atenção, uma entrevista de Dick Cavett, depois ficou
fazendo de brincadeira uns estudos para a loja de Claire; o
problema do projeto o fazia sentir-se útil. Ele faria esse trabalho
com amor, como uma homenagem a um passado que ele
malbaratara.
O que começara como um ato de desafio, de acordo com os seus
padrões usuais de vida, transformara-se numa nova forma de
prisão para Hillary. Ela começava a recuperar-se do porre de
drogas em que estivera durante semanas, mas a quantidade de
barbitúricos ingeridos arrebentara com o poder de sua vontade.
Sua existência passava-se num limbo criado pelos efeitos
hipnóticos do Quaalude e naquele momento, tomando um banho
de chuveiro, lutava/para ver-se livre da bruma que a envolvia.
Pensou em Bobby com ímpetos de ternura. Tinha saudade da sua
delicadeza, uma das coisas nele que mais a atraíra. Ele era um
rapaz bonito, cheio de idéias e de ambições, e ela o descartara,
deixando-se levar por sua fraqueza para passar uma temporada
grotesca no inferno, Ela desencadeara a sexualidade atormentada
e latente de Geraldo e o que se iniciara como uma brincadeira
acabara gerando nele uma dependência, mas este era um amor tão
devasso que desfigurava todo o panorama da vida civilizada da
qual, uma vez, fizera parte. Geraldo havia partido, cedo, naquela
manhã, para transar uma compra de droga em San Diego.
Ela tivera o gostinho da vida do submundo e agora desejava
escapar. Vestiu-se com uma calça jeans desbotada e com uma
blusa que vagamente recordava-se de ter visto Geraldo
comprando para ela num vendedor de rua que ficava ao lado da
pista de bicicletas de Venice. Seus olhos turvos, enormes e fixos
escarneciam dela no espelho partido, mostrando-lhe um rosto de
uma palidez esbranquiçada. Uma vez vestida, passou pelo living
imundo de La Guita. Naquele instante, tendo calafrios e com a
testa gotejando um suor frio, que escorria através de sua pele,
estava na firme determinação de nunca mais tocar em drogas.
Andara experimentando uma receita fatal: coca misturada com
anfetamina.
Ao sair da estrada de San Diego para pegar Sunset Boulevard e se
dirigir para Bel Air, ela olhava pela janela do carro como uma
turista admirando as belas residências protegidas por folhagens.
Passou pelos portões de sua casa e teve uma enorme sensação de
alegria quando viu o Mercedes de Bobby estacionado do lado de
fora da casa de hóspedes. Ele estava em casa! Arrastar-se-ia de
joelhos aos seus pés, imploraria para que permanecesse junto dela,
entretanto teria antes de confessar-lhe a verdade. Eles iriam
concordar que ela precisava de ajuda psiquiátrica. Lutariam os
dois juntos. Convenceria Bobby de que ela era somente dele. Suas
vidas seriam construídas em conjunto, mudariam para um
apartamento e ele voltaria a trabalhar.
Os caixotes no chão do hallíotam um grande desapontamento.
Ficou em pânico, examinou a sua volta e viu que as estantes
estavam vazias e as portas dos armários abertas.
Cautelosamente, foi ao estúdio e gritou:
— Bobby, Bobby - meu querido, estou em casa... para sempre!
No seu rosto havia um sorriso de arrependimento. Nada sério,
apenas a filhinha de Leonard sentindo-se culpada por ter feito
uma travessura sem importância, buscando perdão. Ela teve,
então, uma entranha regressão, voltando aos tempos alegres de
sua infância de menina mimada, quando tudo que tinha a fazer
era correr1 para Leonard que ele daria um jeito de as coisas
melhorarem. Bateu diversas vezes na porta, aí resolveu abri-la. As
cortinas estavam presas e o aposento banhado pela claridade
ofuscante do dia.
Sumira todo vestígio de Bobby. Sua mesa de trabalho, livros,
réguas de cálculo, máquinas de calcular, papéis de desenho, tudo.
O aposento estava desolado. Hillary correu ao quarto deles dando
gritos:

— Por favor, não vá, vou ser boazinha. Juro! Juro, por favor!
Ela deu um puxão na porta do armário e depois abriu as gavetas.
Nenhum vestígio do homem com quem se casara.
Um envelope, preso por durex num espelho do banheiro, dava-lhe
as boas-vindas.
Querida Hillary:

Aqui estão as chaves do Mercedes (do porta-mala e da ignição)


e também as dá casa. O meu advogado é Robert Mayer, 553-
8111. Sugiro que o seu advogado entre em contato com ele.
Mayer julga que todos os detalhes podem ser resolvidos
imediatamente. Não levei nada daquilo que recebemos de
casamento. Espero que, de maneira diferente dele, no nosso
divórcio possamos evitar complicações e agir com discrição
para não trazer maiores aborrecimentos ao seu pai. Ele está
aceitando muito mal tudo isso. Em comparação com você,
minhas posses são limitadas, eu não posso arcar com grandes
despesas de procedimentos legais; sendo assim, ficaria grato se
você levasse isso em consideração. Espero que encontre o que
está procurando e que isso posso trazer-lhe felicidade.
Boa sorte,? Bobby"

O tom generoso e deplorável da carta deixou Hillary arrasada.


Todas as esperanças de reconciliação pareciam condenadas. Mas
estava preparada para lutar e tê-lo de volta e sabia que, para isso,
podia contar com a ajuda de Leonard. Telefonou para o escritório
de seu pai e lhe disseram que ele estava numa reunião de
planejamento no escritório de Hay-ward. Perfeito. Teria a chance
de encontrar todos os dois e se entregar à misericórdia deles. Não
iriam deixar que ela se afundasse.
Como, santo Deus, tinha deixado que isso lhe acontecesse? Ela
havia amado Bobby. Numa prateleira no banheiro, havia um
pouco de maconha, mas ela não poderia tocar naquilo. Com as
mãos em forma de concha, pegou um pouco de água e engoliu
dois Valium azuis, depois, apressadamente, botou Visine nos
olhos e coloriu as faces com blush.
Ela esperava pacientemente na recepção do escritório de Hayward
que o seu pai e Bobby saíssem da reunião. Ali estava uma nova
Hillary, dizia para si, uma garota doce, sincera e amada por dois
homens que havia desafiado. Iriam perdoá-la logo que
percebessem que estava mudada. Iria ser comportada, esposa e
filha amorosa, e ter um filho de Bobby. De noite, ficariam em casa
tranqüilamente. Leonard poderia vir jantar uma vez por semana
ou, quem sabe, fariam um grande almoço nos domingos como se
usa na Inglaterra. Iria ter aulas de culinária na Cookstore e
comprariam um cachorro.
Ela se sentou num estado de estupor, sorrindo para a re-
cepcionista através de suas alucinações. Raramente otimista,
estava gozando de uma paz fantástica. Tomara uma decisão vital
que não lhe fora imposta, mas que brotara sozinha de dentro dela.
Já estava mudando, regenerando-se. A antiga Hillary teria
passado pela recepcionista, interrompido a reunião, gritado o que
lhe tivesse passado pela cabeça, pouco se importando com quem
estivesse presente.
Ao vê-los teve um estremecimento. Um sorriso abatido e submisso
dava-lhe uma expressão desolada ao rosto. Parecia como se
sofresse de alguma doença crônica e dolorosa. Leonard passou o
braço a sua volta, aconchegando-se contra ele. Os olhos dela
estavam presos em Bobby.
— Querida, você não sabe o quanto temos andado preocupados
com você — falou Leonard. Ela se desvencilhou do abraço do pai e
abaixou a cabeça com ar compungido. Pegou, então, a carta de
Bobby.
— Isso é verdade?
— Desculpe-me — disse Bobby.
Saíram juntos do edifício e pararam de pé em Canon Drive, sem
saberem o que fazer para se despedirem, tanto o marido como o
pai.
— Você não quer me dar uma chance? — perguntou ela chorosa.
— De nada vai adiantar.
— Talvez umas férias... Europa... a lua-de-mel que não tiveram
— sugeriu Leonard, afoito, mas retrocedendo diante do olhar de
Bobby.
— Olha, isso é embaraçoso pra diabo, Hillary. Nós dois
erramos... mas a vida continua. Você precisa de tempo para
colocar as idéias em ordem. Vai acabar achando o homem certo.
Apenas não deve afobar-se — acrescentou, como que dando
pêsames. — Não estamos despedindo-nos como inimigos... — Ele
não fazia mais parte da tragédia dela.
— Por favor, por favor — sussurrou ela — me aceite no-
vamente.
— Hillary, isto não vai fazer bem a ninguém — disse Leonard,
com benevolência. — E que não tinha de ser. Essas coisas
acontecem. Estarei junto, cuidando de você.
— Paizinho... — Leonard pareceu surpreso com a sua ternura
— estou na pior confusão de minha vida.
Hillary era impiedosa nas suas exigências emocionais e a
propensão que tinha para arranjar encrencas dava raiva em
Bobby. Embora pudesse perdoá-la, ele a desprezava pelas ar-
timanhas de que se valia para satisfazer os seus desejos pessoais.
— Não há mais cartas para serem jogadas, Hillary. Nós dois
perdemos — disse Bobby.
Leonard torceu a cara. A ele caberia cuidar da angústia da filha, a
velha relação permanecia intacta. Como poderia novamente
reconstruir o mundo de sua princesa? Hillary estava nas últimas e
Bobby desculpou-se, indo embora antes que houvesse ali uma
cena. Ao cruzar a ma, tentou esquecer-se do rosto inchado, olhar
vago e lábios trementes da garota com quem se havia casado.
Um punhado de vendedores se amontoava do lado de fora da loja
de Claire, enquanto dois deles a retinham nos fundos, mostrando
uns anoraques e umas parkas magníficas de Kelty. Veio-lhe,
então, à lembrança um pouco do que ele conhecia dos dias dela no
Drake's, levando-o a recordar-se do último Natal. A festa na loja,
os cachorros que passavam agasalhados, o gosto dos salgadinhos
de queijo, o empregado que fora apanhado com a calça arriada na
seção de embalagens e os dois, por fim, plantados no piano-bar
Cheshire Cheese e com uma bruta ressaca no dia seguinte. Como
teria ela conseguido sair da cama na manhã do outro dia e ido
trabalhar? Mas chegara em casa às três horas da tarde, trazendo
carne moída, e lhe fizera o melhor bife tártaro que já tinha comido.
A receita era uma mistura de molho inglês com uma porção de
temperos picantes que acabam com ressacas, contara ela. Depois,
apagara até as seis, quando ele fora acordá-la e ficara sentado num
banquinho vendo-a na banheira raspando as pernas. Ele a secara,
esfregando-lhe as costas de cima para baixo e por entre as pernas
com uma toalha. Fizeram amor, debandaram em seguida para
outra festa e tomaram novo pileque. O prazer dessas lembranças
era uma pane dele e não podiam ser esquecidas.
Os vendedores começaram a esbravejar, quando ele se aproximou
de Claire e ela explicou que os negócios estavam suspensos até as
duas. Ia sair para almoçar. Andaram duas quadras até o Bread
Winner na South Beverly Drive, especializado em saladas naturais
que o próprio freguês prepara na hora. Escolheram dois
sanduíches de queijo com presunto. Ela examinou o projeto para a
loja, maravilhada com o capricho de sua apresentação, a fluidez
das linhas de seu traço e a clareza primorosa de sua mente.
Pessoas fazendo compras, prateleiras, balcões, uma galeria no
segundo andar, uma canoa posta como móbile, uma seção de
material de pesca e, pintada em tinta verde-esmeralda, uma folha,
onde se achava inscrito o nome Rodeo Wilderness; tudo isto
estava no papel. Por cima da mesa, ela apertou a mão dele,
olhando-o com respeito. Ele havia assinado os desenhos: "De
Bobby para Claire, com amor".
— Você se comportou como verdadeiro amigo. As coisas que você
consegue fazer... incrível. Acho que nunca soube dar valor a você.
Dizia que dava, mas falava sem pensar.
A aprovação dela encheu-o de satisfação. Era como ver um aluno
atribuir nota ao trabalho do professor. Com cautela, contou-lhe
sobre o seu divórcio, omitindo a última tentativa de Hillary para
remediar a situação. Por que chateá-la com isto? Claire parecia
desatenta, suas emoções afloravam indistintas, frouxas, como sons
tirados ao acaso de um piano.
— Quero dormir com você — disse ele. — Estou doido para
isso;
— Às vezes, também penso nisso. — Ela estava realmente com
medo de se ver, novamente, envolvida pelo seu fascínio. O que
estaria fazendo que ela, a parte injuriada, sufocasse com tanta
culpa? Inquieta, via que não conseguia dominar a sua vontade...
tinha necessidade dele.
— Está querendo tirar uma forra?
— Não. Já não quero mais — admitiu ela. — Estou muito
ocupada para isso. Não vamos estabelecer condições e esperemos
para ver no que é que vai dar. Está bem?
— Você está meio vacilante — disse ele, surpreso.

— A vida é curta. Não é isso que se costuma dizer? — Ela


parou de comer e bebeu sua xícara de café.
— O que é que você vai fazer no Natal?
— Ainda não sei direito.
Ele e ela formavam a única família que unham naquelas latitudes
agrestes, onde nenhum dos dois tinha raízes. Ele lhe deu o
número do telefone do endereço que se convertera numa reserva
de machos com divórcios pendentes. Divórcio, entretanto, não era
mais a palavra correta e sim dissolução, conforme explicara
Mayer, em virtude de uma mudança na lei, visando a igualdade
das partes. Ele entregou o cartão com o seu telefone, mas ela o
deixou cair no chão junto da caixa registradora.
— Eu sei o número. — Seu rosto estava bastante calmo. — Eu
costumava telefonar para você e deixar recados com o Sr. Rubin.
— Ela o abraçou, segurando as plantas debaixo do braço. — Até
logo.
Madeleine não conseguia acreditar no que o diretor de arte da
agência de anúncios estava fazendo com ela. Havia lavado os
cabelos com uma nojeira de xampu que os deixara com uma
textura de goma de mascar, depois foram enxutos com toalha para
que ficassem espetados e duros. Colaram-lhe cílios postiços que
fizeram os seus olhos chorarem e a enrolaram num roupão
disforme, de uma fazenda com umas bolotas altas e esfiapadas.
— Isso não é mais um comercial — protestou — é um
assassinato.
— Coma outra barra e deixe o chocolate escorrendo um pouco
nos cantos da boca — ofdenou-lhe Richie Wald, um cara roliço e
peludo, contratado pela Doyle Dane para prepará-la para o teste
do comercial do Suave Alívio.
O produto era uma mistificação; uma coisa fervilhante de sabor
limão que lhe provocou diarréias e uma catadupa de arrotos,
fazendo-a sentir-se. uma metralhadora. O seu diafragma estava
como se alguém lhe tivesse dado chutes com botas cheias de
pregos.
Eles estavam num estúdio profissional que ficava em Strip e Wald
não saía de cima de Madeleine e do ator que contracenava com
ela, um tipo acostumado a fazer pontas, com barriga de chope e
uma careca indisfarçável. Madeleine fazia o papel de mulher
grávida, com desejos mórbidos por espécies de misturas de
comida que dariam cólica em canibal. Sua dedicação à arte,
entretanto, fazia-a representar andando como mulher grávida,
com o corpo jogado para trás, para contrabalançar o peso na
frente. Wald lhe dava as dicas e ela, com a barriga empinada,
passava em revista o menu para o jantar, num cenário que era o de
uma falsa cozinha.
— Espere só até provar ostras com molho de ameixa preta e
sopa fria de rabanete... — Aqui, ela fazia uma pausa, enquanto
Howard Adler, o suposto marido, dava um salto para trás. — Mas
deixe lugar para as almôndegas cozidas no vapor de vinagre de
morango. E uma receita da nova cozinha. — Adler parecia que ia
dar um salto em cima dela, enquanto ela, alegre, mastigava
ruidosamente uma barra de chocolate e mexia uma panela no
fogão.
— Lindeza — dizia ele numa voz de lamento — ainda nem fiz
a digestão da banana com suflê de atum.
— Basta tomar Suave Alívio que tudo vai fkar melhor — dizia
cantarolando para o herói, sobrevivente da sua culinária de louco.
Num segundo, Adler despejava o remédio num copo de água e a
ação se interrompia por instantes para, como explicara Richie,
uma voz em off comentar os milagres do produto, com ele
fervilhando, mostrado em dose e tendo a sua embalagem ao
fundo. Adler, em seguida, o engolia e fazia uma expressão
radiante de alívio para ela.
— Será que amanhã não poderíamos comer algo como carne
assada? — pedia ele.
— Claro, estava mesmo pretendendo experimentar uma receita
de carne assada com o meu molho de iogurte com azeitonas.
Um ar de resignação passava pela fisionomia pastosa de Adler. Os
dois, então, se aconchegavam um no outro, enquanto os olhos dele
procuravam o vidro de Suave Alívio.
Wald desligou a aparelhagem do video tape. Antes de fazer o
filme, teria de mostrar o tape ao cliente.
Apesar de ter aparecido como uma vaca prenha, Madeleine estava
alegríssima; afinal, era o seu primeiro trabalho real como atriz. E
que conquista! Não conseguia agüentar-se, estava louca para
contar as coisas incríveis que sempre acontecem durante as
filmagens que, por sinal, sucedem com todas as atrizes. No replay,
ela sentiu um clima de tanta autenticidade que, quando estava
arrumando-se e vestindo-se já não ligava mais ao fato de que
estaria irreconhecível para qualquer um que a conhecesse. Jamais
seria dessas atrizes que se parecem sempre com elas mesmas!
Adler, um tipo que, quando não estava "estritamente em serviço",
era algo como trovador indice que circulava em festas de
casamento cantando, contando piadas e compondo versos, foi
bater no seu camarim.
— Madeleine, você esteve sensacional.
— Obrigada, fico feliz de ouvir isso.
— Tudo saiu num ritmo perfeito.
— Por que Wald não disse nada?
— Bom. Ele pertence à agência. Todo mundo evita comprometer-
se. Agora, se o cliente deles gostar de você, então ele vai lamber os
seus pés e aí chega a vez de seu empresário cair em cima dele que
vai estar de pés e mãos amarrados. Essa gente nunca elogia, a não
ser quando pega uma Farrah Fawcett ou uma outra do mesmo
gabarito que já tenha uma companhia por trás. Todos os diretores
artísticos de comerciais não diferem um do outro. No fundo, não
são de nada. Fazem trapaças com os orçamentos de filmes e
passam os fins de semana de pileque porque estão morrendo de
medo de encontrar na manhã de segunda-feira um outro tomando
o seu lugar.
E, realmente, quando Madeleine passou por Wald na sua saída do
estúdio, a cara emburrada dele fazia jus àquelas observações de
Adler; ele lhe fez um aceno formal de cabeça e a informou de que
o tape seria despachado por avião para Nova York. Los Angeles
ficava cada vez mais importante como centro comercial, mas Nova
York continuava considerando.o lugar apenas como uma base
para a escolha de elencos; todas as decisões e o dinheiro ainda
saíam de lá.
— Ficaremos aguardando a resposta deles — observou ele,
olhando por cima do ombro dela para o estacionamento onde
estava o seu Porsche 912, cinza-metálico, ano 73, um testemunho
vivo de sua péssima realidade financeira.
Ela resolveu que o faria suar por tê-la tratado com tão pouca
consideração.
— Tem idéia de quando vai saber?
— Entraremos em contato com o seu empresário.
— Ótimo. Ele pode dizer-lhe melhor do que eu se estarei ou
não disponível.
Ele piscou os olhos nervosos. Estaria frito, se a aprovassem e
depois ela não estivesse à mão. Uma grande parte do sucesso
nesse negócio assentava-se na capacidade de blefar e tapear e ela
sabia que a sua única chance de vencer seria se afetasse um ar de
independência, mostrando-se indiferente, como se fosse uma das
mais solicitadas.
— Já tenho acertado um produto de higiene feminina e um
outro com a Avis que já foi confirmado — mentiu. — Também
tenho marcada uma segunda entrevista com a Toyota nacional. —
Nessa história toda, a única coisa de verdade era que havia
apanhado um biscate num centro de convenções para ser
demonstradora num show de veículos de recreação. Lá estaria
junto de rapagões ofegantes entrando em trailers para falar dos
prazeres de um banho sobre rodas. Iria ganhar 25 dólares por hora
e ficaria andando de um lado para outro, vestida num biquíni
verde-limão e com um capacete de baseball na cabeça.
— Seu empresário ficará sabendo por mim das novidades,
Madeleine.
— Contanto, Sr. Wald, que não ponha depois a culpa em mim.
E que simplesmente estou atolada de serviço — disse para chateá-
lo.
A caminhonete de Gene estava no estacionamento e Madeleine
saiu correndo em direção ao seu mestre. Ela começava a entendê-
lo. Depois de anos passados naquele mundo de mistificação, ele
chegara a um ponto de não conseguir aturar mais. Entre
Mercedes, Porsches e Jaguares, a sua velha pickup, suja e batida,
sobressaía por uma dignidade ostensiva. Gene vivera e rejeitara
aquele mundo de símbolos vazios e de brilho fugaz. Ela entrou no
seu calhambeque e ele, amorosamente, correu o dedo pelas suas
bochechas.
— Então minha peitudinha, como é que você se saiu?
— O ator que contracenava comigo achou que estive ótima.
Um sujeito chamado Richard Wald é que fez o video tape.
— Richie ainda está nessa? — disse pensativo. — Bem, pelo
menos a iluminação de câmara de video tape é automática e ele
não pode fazer merda. Eu conheci esse cara há anos tentando
vencer como diretor. Ele não sabia iluminar. Costumavam chamá-
lo de príncipe das trevas. Nos seus filmes só apareciam as
silhuetas das pessoas. Mas, para fazer layouts, ele é bom.
— Ele é um filho da puta.
— Mas o que você esperava? Há 10 anos que esse cara vem
pisando em ovos. A mulher o abandonou por uma outra porcaria.
Bom, Richie despediu esse cara e, seis meses depois, ele próprio
largava a agência. Foi trabalhar com um publicitário de meia-
tigela a quem estava passando para trás. Ele é um incompetente.
— Mas comigo ele ficou suando frio.
— Da próxima vez veja se escolhe alguém melhor para enfrentar.
— Ele se inclinou, deu um beijo nela, então se afastou de repente e
lhe sorriu com ar embaraçado. — Acabei de ver e assinar contrato
com Al Brockman. Parece que vou fazer um comercial do Kotex, o
produto das mocinhas de vida ativa e regrada. Logo depois, terei
uma entrevista para dirigir um seriado no Havaí.
— Fantástico.
— Agora vamos comer uma lagosta no Palm que eu não como isto
desde a noite do meu Bar Mitzvah.
A imagem cultivada por ela começara a desabrochar. Um diretor
surgia no horizonte. O poder que demonstra ter sobre Gene estava
agora mais tangível. Ela tinha muitas razões para amá-lo, mas um
aspecto, sobretudo, avantajava-se sobre todos os outros, este era o
seu compromisso com ele, um fato que fazia Gene a prova viva de
que ela era capaz de influenciar um ser humano. Dificilmente
Gene iria aceitar isso, mas ele se transformara no símbolo de sua
vitória, num acólito seu.
— Gene, estava pensando se...
— Não faça isso, pode afetar o seu cérebro.
— Ora, não amole, Se eu realmente começar de verdade a fazer
filmes, há alguma chance de alguém escamotear aquele pornô e
depois me chantagear com ele?
— Isso seria a sua grande sorte na vida. Daremos exclusi-
vidade ao National Enquirer e entrego o negativo a eles.
Ah, nunca mais o Joe Allen's com suas saladas de espinafre e
pimentão com o molho da casa. Agora só o Palm... Avis, Kotex...
imagine pegar tudo isso com Gene! Los Angeles, terra de sonhos.
O guardador de carros olhou para ela como se a identificasse. Ela
fez um cumprimento frio de cabeça. Assim fazem celebridades.

Capítulo XXIV
O natal aproximava-se e a perspectiva de reatar com Bobby era
uma obsessão de Claire. Ela não procurava iludir-se. Ainda
subsistia, no fundo, um resto de mágoa que não conseguia fazer
desaparecer. Pensava constantemente nele e, apesar de ser um
caráter obstinado, era-lhe impossível controlar o seu desejo por
ele, que resistia a uma natural desconfiança que ia nela. Não fazia
o tipo de mulher vingativa, mas uma vozinha dentro dela
continuava a lhe falar, enchendo-a de dúvidas. Ela dirigiu o carro
para o apartamento dele em Spaulding. O automóvel de Bobby
estava parado do lado de fora. A tentação de vê-lo era
esmagadora, entretanto ela cerrou os dentes e foi embora,
sentindo-se mal. O momento havia passado.
Ela ia ter muito que lamentar esta decisão, pois, chegando em
casa, encontrou Hillary na escada de serviço do outro lado da
porta de entrada.
— Ò que está fazendo aqui?
— Eu... tinha de... me encontrar com você — disse Hillary,
cansada até para falar. Cambaleou em direção a Claire que se
afastou de seu caminho.
— O que é que há?
— Estou um pouco tonta...
Claire, indecisa, se encostou contra a parede. O que tornava
Hillary ainda mais lamentável era o seu esforço para mostrar uma
certa dignidade. Os olhos não conseguiam focalizar e, pela voz, a
garganta devia estar irritada.
— Por favor, posso entrar?
— Por quê? — perguntou Claire, perdendo a paciência. — A coisa
está cheirando mal. Você não tem escrúpulo nenhum. Afinal o que
é que quer de mim? — A raiva era tão forte que, por instantes,
quase não acreditou que fosse capaz de tanta animosidade. Ela,
que nunca conseguira censurar alguém sem sentir-se culpada,
percebia agora como as pessoas perdem a cabeça e se tornam
assassinas. Se tivesse com uma faca poderia cravá-la no peito de
Hillary. O pensamento fez com que se controlasse mais.
— Eu não culpo você...
Claire ignorou-a; destrancou a porta, hesitou um instante e, em
seguida, deu meia-volta e encarou Hillary.
— Diga o que tem a dizer, mas não espere favores.
— Você tem razão de me odiar.
— Não me venha falar em razão, minha cara.
Hillary, desajeitada, ficou na entrada, enquanto Claire jogou as
chaves e a bolsa numa mesa no hall, indo, depois, para a cozinha
servir-se com uma dose de vodca pura que pegou no congelador.
Ela tentava recompor-se, mas o seu peito arfava e, quando engoliu
a vodca, teve a sensação desagradável de ela lhe queimar a
garganta, fazendo-a pensar que engolira algum ácido.
— Eu estou envolvida com um homem...
— Verdade? E o que é que eu tenho com isso? A garota ou era
louca ou débil mental.
— Estou em dificuldades — disse, com os olhos abaixados,
sem poder enfrentar o olhar de Claire. — É coisa séria:
— Mas, com tanta gente no mundo para procurar, por que logo
eu? Acha que o fato de você viver ou morrer faz a mínima
diferença para mim? — A voz cortante de Claire em nada afetava
a expressão do rosto de Hillary, abatido e pálido. Dava impressão
a Claire de que o clima de frustração que a envolvia neutralizava
todas as formas de agressão.
— Não permita que Bobby se divorcie de mim... pelo menos
por enquanto.
— O quê? Olhe, acho melhor você sair imediatamente. — Ela
devia ter despachado Hillary logo de início. — Fale com Bobby ou
com o seu advogado.
Hillary fez sim com a cabeça e continuou como se ela e Claire
fossem confidentes uma da outra de longa data, como se fossem
duas pessoas amigas havia anos.
— Deixe-me explicar. — Ela agarrou a mesa, buscando um
apoio. — Eu estava querendo escapar de meu pai e de Bobby e
encontrei um homem que acabou de sair da prisão... ele me enche
de drogas... e é um sujeito muito perigoso. É traficante. O que era
apenas um negócio excitante para mim transformou-se numa
obsessão para ele e eu estou com medo.
— Será que não consegue aprumar-se e depois se mandar,
saindo dessa enrascada?
— Não é tão fácil assim. Ele sabe que estou grávida.
— Não estou entendendo e nem sei se faço questão de
entender — respondeu Claire. Uma difusa e inexplicável sensação
de piedade veio embaralhar os seus sentimentos. Quanto mais
Hillary permanecia ali, mais aguda e fora de propósito era esta
sensação. Tinha de ver-se livre dela.
— Olhe, isto está sendo duro para mim. Eu me sinto hu-
milhada vindo aqui. Esse homem me vê como uma deusa. Ele me
adora. Logo que eu me divorciar, ele tem intenção de casar-se
comigo.
— Diga-lhe que não quer saber dele — falou Claire,
desafiando-a.
— Não tenho bastante coragem para isto. Se eu fugir dele, para
onde irei? Meu pai já está farto dos problemas que eu tenho
arrumado. E, se ele e este homem se encontrarem, ele é um
homem morto. O sujeito é marginal em todos os sentidos. A vida
humana não tem importância para ele. Só o que lhe interessa é a
satisfação de seus desejos. Por isso pensei que, se Bobby pudesse
agüentar a barra e não forçar as coisas, eu poderia ter algum
tempo para resolver a situação. Geraldo não quer que o seu filho
seja ilegítimo. Ele está pronto para matar qualquer um que se
meta no seu caminho e, por outro lado, também ele deseja ter uma
respeitável vida de casado. Tudo isso é uma loucura, mas é deste
modo que as coisas estão sendo para mim.
Hillary tirou uma pílula do bolso e a engoliu sem água.
Claire mal sabia o que responder. Uma situação trágica como
aquela estava inteiramente fora de sua linha de experiência. Ela
lhe fez sinal que se sentasse e as duas ficaram sentadas, lado a
lado, no sofá.
— Você aceita alguma bebida? — Ela se arrependeu de ter
oferecido. Bolinhas e álcool não devem ser misturados.
— Claro, qualquer coisa... por favor.
O que teria dado nessa linda guria, filha de milionário, para
querer destruir-se? Claire dirigiu-se ao bar e serviu vodca com
gelo. Deu a Hillary o copo e voltou a sentar-se no sofá.
— Por que é que acha que posso conseguir fazer Bobby mudar de
idéia?
Havia na boca de Hillary uma expressão de meiguice natural que
perturbou Claire; era a de uma fé sincera, um traço doloroso de
outros tempos mais felizes e despreocupados. Seria mais fácil
desprezar a Hillary concebida por suas fantasias. Mas, diante
daquela criatura humilhada, ela se viu envolvida por uma certa
vontade de protegê-la. Sentia-se dividida, ao mesmo tempo com
raiva e pena, o que era muito desconcertante. Impossível odiar
Hillary.
— É você quem Bobby ama. Senti isso durante todo o nosso tempo
de casados. Nós tentávamos passar por cima. Eu pensava em você,
mas você não parecia real. Era a namorada do soldado que ele
esquece quando está de licença. Depois, não sei o que aconteceu.
Perdi o controle. E mandei Bobby de volta para você...
completamente arrasado. Tudo não passou de uma loucura de
momento e não éramos nem um pouco feitos um para o outro. Foi
então que comecei a me sentir angustiada. Puxa... como tudo deu
tão errado... Deixe que eu confesse. Nunca funcionou... e aqui,
sentada ao seu lado... eu lhe digo que me sinto suicida, exposta a
tudo quanto é perigo.
Foi para Claire horrível ouvir da boca de Hillary o seu lado da
história e ela ficou praticamente sem fala. A traição que sofrera
não tinha sido, afinal, arquitetada maquiavelicamente por duas
pessoas sem qualquer princípio. Eles tiveram aquele momento de
magia desenfreada que depois desaparecera no caos avassalador
da existência diária.
— Não vou conseguir persuadir Bobby a fazer nada que ele
não queira. Aliás, nunca consegui isto — admitiu Claire de modo
categórico.
— É você quem Bobby ama — continuava ela a dizer com
insistência como se esta fosse uma fórmula encantada capaz de
tirá-la do desespero. — Você e só você.
— Gostaria que parasse de dizer isto. — Contra a sua vontade,
Claire via a própria autoridade esvaindo-se. Ela tinha de dar
alguma ajuda à garota. — Será que não percebe a posição em que
vou ficar? Bobby estaria fazendo por mim! Mesmo que seja para
você... vou ficar devendo esse favor a ele. — A sua situação
deixava-a apreensiva.
— E isso tem importância?... — Ele gosta de você.
— Você está pedindo muito.
— Claire, alguma coisa dentro de mim me diz que preciso de
me salvar. E vou conseguir. Apenas me dê tempo — suplicou
Hillary.
Elas ficaram senradas, envolvidas pelo silêncio, os copos vazios,
os dedos de Hillary se contorcendo e Claire sentindo-se uma
prisioneira da trama urdida pela outra. No rosto doce e infeliz de
Hillary havia um brilho de esperança, de quê?... Estaria esperando
pela redenção?
— Eu vou pensar sobre isso. Você tem alguma noção de tudo por
quanto passei?
— Precisava de me perguntar isto?
— Entre vocês... como é que era? — perguntou Claire,
estremecendo.
— Difícil. Ele estava sendo infiel a você. Isso fazia com que se
sentisse tenso... culpado, e aí tudo acabou.
Claire encontrara a sua inimiga, e depois que ela saiu ficou
torturando-se, pensando no seu papel nesta história. De quem a
culpa? Dela? Deles? De quem, afinal? Via-se cercada, envolvida
como participante na traição de que fora vítima.
O Natal chegou e passou sem mais aquela para Claire. Ela tinha
dificuldades de deixar-se envolver pelo espírito natalino, mesmo
que, por volta das 10 da manhã, Beverly Hills já estivesse lotada
com uma multidão buscando angustiadamente vagas para
estacionar, fazendo compras e mais compras, com listas de
presentes nas mãos para simples conhecidos a quem dariam
lembranças do Pierre Deux, David Orgel, Geary's e de outras
boutiques onde se gastavam os olhos da cara. Havia também
aqueles que receberiam só cestas de vinho e queijo do Jurgensen's.
Estrelas prateadas e papais-noéis em trenós puxados a renas
enchiam as mas, animando o espírito de Natal, ou senão do
comércio. Era um ritmo nervoso, mas Claire não conseguia
associar Natal com climas quentes. Dava graças por poder ir a pé
do seu apartamento para Rodeo Drive e não ter de enfrentar as
placas de "Lotação Esgotada" nos estacionamentos.
Ela foi a diversas festas com Ed, conheceu, através dele, caras
novas e, entre estas, alguns jornalistas do New West e do Los
Angeles Magazine que se mostraram interessadíssimos em Rodeo
Wilderness. Giovanni fazia um pequeno jantar no Natal. Alguns
dos empregados ficavam lá para tomar uma bebida. Quando a
noite estava começando, os dois ficaram sozinhos e ele
ficoudecidindo em que outras festas iriam bater, apenas para fazer
uma ligeira aparição e deixar presentes.
O terreno em que pisavam era pouco firme e subitamente
surgiram rachaduras. Ela lhe dera um casaco esporte de lã cor de
areia, de fabricação da Jansport, cuja iinha iria representar. Ele lhe
comprara mais coisas: um suéter de cashmere cor-de-rosa juschi,
uma bolsa Gucci e uma raquete de tênis Donnay. Até aqui, ela
jogava com raquetes de aluguel. Pouco antes de saírem para uma
festa que o colunista Dick Kleiner estava dando com a sua mulher
Chicki que trabalhava de relações-públicas, ele desapareceu por
alguns minutos e voltou sorrindo com o apmmo de um rapazinho,
pedindo-lhe para que fechasse os olhos. Colocou, então, na mão
dela um estojo da Fred's, a joalheria de Rodeo Drive. Relutante e
sobressaltada, ela foi abrindo, enquanto ele esperava com o rosto
que era o próprio espírito natalino que, estranhamente, estava fal-
tando. Com um toque, a tampa do estojo de veludo preto abriu-se
e ela deu com um relógio Piaget, de borda de platina e mostrador
salpicado com chuviscos de brilhantes.
O que é que ela estaria achando, ele se perguntava, encantado,
esperando pela sua reação, como um cortesão. Curiosa pergunta.
Era a primeira visão que ela tinha na vida das paragens das Minas
do Rei Salomão. Enquanto ele estava levantando o punho da blusa
para abotoá-lo no seu pulso, ela fez uma daquelas imbecilidades
horríveis como só as mulheres honestas costumam fazer. Recusou.
Ele confundiu a recusa com aquela modéstia de moça de cidade
pequena que a fazia tão querida para ele, mas, ao ficar claro que
não se tratava de um caso de recato feminino, ele ficou, realmente,
por conta da vida. O gesto era de desdém.
— Já fui insultado por muitas razões, mas este é o caso que escapa
a minha compreensão. — Ela ficou em silêncio. Seria apenas uma
questão de preço, de marca? Que diabos estava querendo dele?
Não era natural que um homem desse à mulher que ama e com
quem pretende casar-se alguma coisa que revele o seu afeto? A
intenção e não o preço era o que ela deveria ter considerado em
primeiro lugar. — Sinto-me como se tivesse levado uma paulada.
— Ela permanecia emburrada, sentindo-se culpada por ter tais
tipos de sentimentos. — Você me está deixando maluco. Aonde
quer me levar?
Ela passou os braços à volta dele, fazendo-lhe carinho, e cheia de
pesar disse-lhe que não iria mais passar o feriado de Ano-Bom no
Tennis Club de Palm Springs com ele. Havia concordado em
encontrar-se com Bobby. Giovanni estava boquiaberto. Era como
se tivesse recebido um chamado do corpo de bombeiros, dizendo
que o seu restaurante pegara fogo inteiramente. A impotência que
deixava transparecer era tão grande e aflitiva que ela caiu de
joelhos com a cabeça abaixada. Era insuportável olhar para a
expressão de seu rosto, pois não havia ali qualquer
sentimentalismo. Ela bem poderia jogá-lo por uma janela, que ele
tornaria a levantar-se olhando cegamente para ela com o rosto
sangrando dos estilhaços da vidraça. A revelação de seu passado
com Bobby e do casamento deste com Hillary foi mais do que um
choque para ele. Era como se estivesse sendo empalado.
O fato de ter sido capaz de machucar tanto uma pessoa é de
maltratar um tipo como Giovanni, vivido e experimentado, a
atormentava enormemente. Na festa anual que Hayward dava no
escritório para empregados e clientes às 5:30, na véspera do Ano-
Novo, com uma exposição das obras realizadas pela firma — as
realizações dos anos vistas em maquetes e plantas, acompanhadas
por champanha e salgadinhos — Claire estava tão deprimida que
só passou pela mostra e foi sentar-se numa mesa na sala de
recepção, enquanto os convidados tagarelavam sobre dinheiro,
moradias, materiais de construção, divórcios, reconciliações,
sistemas de proteção para casas etc. Tendo perpetrado a execução
de um homem e ouvido o telefone bater o dia inteiro, ela não
conseguia sair de uma letargia que lhe tomava conta de todo o
corpo.
Todo aquele tumulto para animar à força uma véspera de Ano-
Novo — comemorava-se nada menos que o romper de uma nova
década — não comovia Claire. De vez em quando, localizava
Bobby no meio da multidão olhando para ela. Com isso se sentia
aterrorizada. Havia pessoas procurando pelos banheiros,
juntamente com garçons que paravam ao lado da maquete de
Bobby, mostrada numa redoma, na entrada do escritório. Lá
estava uma placa de bronze:

"Edifício Marine Mutual Presidente: Frank


Dunlop Arquitetos: Robert J. Canaday
Hayward & Associados
Construtor: Martison Construção e Incorporação"

Louvores já não tinham grandes significações para Claire. Tudo


quanto podia visualizar era um monte de telegramas que jogara
sem abrir nó armário do hall, com o resto dos bagulhos que
estavam no depósito de mercadorias em Westport e que mandara
transportar para la. Havia lido apenas o telegrama de Ed e isso
fora o bastante. Ele a unha feito chorar inconsolavelmente no dia
seguinte ao Natal e esse seu comportamento causara péssima
impressão num representante da marca Tumbleweed Transit com
cujas mochilas queria negociar.
O esforço para montar a loja e manter a estabilidade emocional
estava dando cabo dela. Tinha pegado o hábito de ficar acordada,
agüentando o sono, até as três da manhã e às seis já estava
desligando o despertador e começando a sua movimentação pelo
dia afora: penetrando em depósitos de mercadorias vedados aos
donos de boutiques, dirigindo-se às bases militares para compra
de souvenirs para guarnecer a loja, discutindo com empreiteiros
de obra e com Leonard, que não permitira outro pavimento para
não abrir precedentes, telefonando a Frank, deixando recados,
batendo boca com Eilen, cujo interesse pela loja começava a se
tornar uma chatura.
Bobby pedira e ela planejara alguma coisa para os dois
comemorarem a noite de Ano-Bom: drinques e um bufê frio no
seu apartamento para entrar na nova década. Madeleine e Gene
também viriam. Seriam só os quatro. Bobby não teve nada a
objetar. Estariam juntos. Que importância tinha o resto?
Com uma herdeira italiana, grudada nele como uma lesma em
cima de uma planta, Bobby foi abrindo o caminho pela sala até
ela.
— Então, como é que é?
— Estou sufocando aqui dentro.
A italiana esperava por ele, falando inglês espasmódico, querendo
levá-lo para onde estava a maquete, do outro lado da sala, mas
visível dali. Ela desejava ir com ele para o seu escritório, nos
fundos, e conversarem sobre um serviço que estava querendo
tratar. Ela e o marido, um gorducho, metido num terno preto, com
cara de facínora e que não falava inglês, haviam discutido a
possibilidade de contratado para fazer exatamente o mesmo
prédio em Milão. Naturalmente, era para ser a sede de uma firma
e teria no alto do edifício letras em neon cor de laranja compondo
o nome do fundador do produto.
— Scolaro — informou a mulher do proprietário a Claire. Era a
marca de um sapato comum para criança em idade escolar que a
garotada inteira na Itália usava. Corrigiam e preveniam contra pé
chato e mais outros problemas dessa espécie. O Signore Scolaro,
que cheirava como se tivesse sido marinado em Aqua di Selva,
pegou no braço da mulher, uazendo-a para a retaguarda. Ele e
Roberto, explicou ela, iriam reunir-se depois do Ano-Bom para
discutirem sobre sapatos.
Bobby segurou na cintura de Claire e a foi guiando para o lado de
fora. Curiosamente o toque dele parecia o de um estranho, embora
o tivesse sentido protetor.
— Clientes — disse ele. — Você deve saber o que é isso. Está com
sono ou sentindo alguma coisa, meu bem?
— Só um pouco alta.
— Deixe-me despedir das pessoas.
— Encontro com você na minha casa.
— Claire...
Ele havia cortado os cabelos e parecia mais jovem. Vestia um
blazer azul-marinho que ela escolhera para ele na liquidação do
Paul Stuart e calça folgada, num tecido com desenho de pé-de-
galinha que unha desde os tempos de faculdade e que lhe davam
uma aparência de jogador de golfe. Estava com o rosto magro e
sem barriga. Ah, os bons tempos dos sanduíches de carne em
conserva no Blarney Stone e das pizzas à meia-noite, isto nunca
mais. Devia estar com uns quatro quilos menos desde a última vez
que o havia visto sem roupa. Difícil de calcular. Ele a escoltou até
o carro.
— Estamos no inverno, Bobby — disse ela inesperadamente.
— Não dá nem para acreditar.
Ela baixou o vidro do carro e ele lhe fez um carinho no rosto.
— Claire, eu a amo.
Madeleine e Gene deviam chegar às 10 horas. Claire empilhou uns
pratos na cozinha, pegou alguns copos e depois foi meter-se no
chuveiro por cinco minutos. Enquanto a água lhe batia nas costas
e no pescoço, o telefone começou a tocar furiosamente; ela largou
o chuveiro e pingando pelo chão foi tirá-lo do gancho. Morrendo
de frio, voltou novamente para o banho.
Não tinha mentido para Giovanni, esse era um pequeno consolo.
Desligou o secador de cabelos e se havia metido na calcinha
quando a campainha do interfone tocou e logo depois a da porta
da entrada. Viu-se, então, como uma doida correndo em duas
direções. Ao pegar o interfone, alguém pediu-lhe desculpas. Um
bando de pessoas havia apertado o botão errrado. Bobby estava na
porta, tocando pela terceira vez. Não tinha tempo para pudores,
por isso fez com que ele entrasse. Muito romântico... Ela lhe disse
para ir tirando o gelo e abrindo o vinho, enquanto corria para o
quarto. Passou um pouco de blush, máscaras nos olhos e só isso;
atirou, então, o jeans e as botas no chão do armário e vestiu uma
saia de lã preta com um suéter branco de lã de carneiro com deco-
te em V, a primeira combinação que lhe ocorreu.
Bobby apertou o botão para acender a lareira california-na —
brasas feitas com chamas de gás — abaixou a intensidade das
luzes e ligou o rádio em FM, trazendo a voz clara e limpa de Barry
Manilow para dentro de casa.
— Você está parecendo mais magra, querida.
— E eu acho que você também está — disse ela. O telefone
começou a fazer um som irritante e os dois voltaram a atenção
para ele. Bobby o recolocou no gancho. Num momento, voltou a
tocar e eles ficaram ouvindo o barulho até que os seus nervos não
agüentaram mais.
— Você vai atender?
— Vou carregá-lo para o meu quarto.
Ela estava sentada no chão, com o fio enrolado nos pés. Bobby
ficou de pé a meio caminho do quarto, um pouco à frente de um
biombo que camuflava algumas bolsas. Claire estava sem sapatos
e falava em voz baixa. Não dava para ele ouvir quase nada, fora
poucas palavras:
— Sim, sim. Eu sei... — Silêncio. Os olhos dela estavam postos na
parede. — Ok — disse sussurrando. Seguiu-se enorme silêncio.
Vieram outras palavras que Bobby não conseguiu pegar. — Bom,
tenho de ir agora. Feliz Ano-Novo...
Ela tinha o rosto perturbado, com uma expressão indizível de
acusação contra ele. Infelizmente, ela não fez qualquer
comentário. Ele teria preferido pôr as coisas em pratos limpos.
Sem dúvida alguma, existia enorme afeição entre Claire e
Giovanni e ela estava lutando para terminar com esta relação. O
Ano-Novo iria começar com uma nota melancólica. Se pudesse,
ele apagaria tudo e voltaria àquela noite divertida,
despreocupada, que passaram com o seu colega de quarto na
faculdade e mais a mulher deste e um bando de caras conhecidos;
apesar de estar colhendo os primeiros frutos do sucesso, ele os
sacrificaria de bom grado. Após a ruptura com Hillary, ele havia
começado a perceber todo o mal que tinha causado...
— Claire...
— Deixe pra lá.
No rádio, o disc jockey estava dando uma retrospectiva dos
sucessos de 1979 e eles ouviram a Fifthy-Second Street de Billy
Joel. Bobby trouxera duas garrafas de champanha do escritório;
estourou a rolha de uma; a outra, enfiara no congelador. Passou
um copo para Claire e ia fazer um brinde, mas ela já tinha
começado a beber.
—Tem visto Hillary? — perguntou ela.
A pergunta o deixou animado, servia para demonstrar a seriedade
de sua decisão.
— Só uma vez... algumas semanas atrás. Meu advogado está
fazendo força para acabar logo com este divórcio.
— Talvez ele devesse retardar — observou enigmática. Ele,
então, ouviu com uma raiva cada vez maior, a história que ela
contou de Hillary, estarrecido com o modo como Claire havia sido
manipulada.
— Ora essa, então tenho de virar mártir porque ela está
grávida. O forte dela é esse papel de pobre moça perdida — disse
com raiva.
— Não pude recusar o que ela me pediu. Prometi que falaria com
você.
O mundo tinha saído dos eixos. A cabeça de Bobby dava giros.
Claire não odiava Hillary, agia como se fosse sua advogada.
—Que diferença fazem alguns meses?
Bobby estava furioso com a maneira absurda de ela encarar as
coisas. Será que ela estava testando-o, querendo deixá-lo
eternamente em suspenso, defendendo-se contra ele? Ou debaixo
de todas essas manobras haveria uma irmandade secreta
promovendo um ponto de união entre as mulheres? Ele se via
claramente numa armadilha. O ressurgimento de seu amor por
Claire era bem mais profundo do que supusera. Um fatalismo
sombrio apoderou-se dele. Odiava Hillary. A hipocrisia dela
arruinava o seu futuro com Claire.
— Se eu adiar o divórcio, como é que vamos ficar?
— Não precisa apressar-se. Não vou a lugar algum — disse ela.
Ele lhe sorriu e a tensão desapareceu. Ela tinha a rara qualidade
de envolver com o seu espírito tudo o que tocava, uma vivacidade
que soerguia o seu ânimo. Ele se aproximou dela, segurando-a, e,
sem saber qual seria a sua reação, deu-lhe um beijo. O calor da
pele dela tinha uma encantadora familiaridade e ele se regozijou
com a sua boa sorte. Era um milagre ter conseguido recuperar o
que parecia irrevogavelmente perdido.
Madeleine e Gene chegaram pouco depois das 10. Claire servia
patê, queijo, pão francês e alguns frios. A reunião tinha a
significação de um novo começo e Claire conseguiu animar-se.
Não existia mais qualquer desavença entre Bobby e Madaleine e
ela descobriu que Gene, na intimidade, não correspondia à
lembrança que tinha dele.
— Nunca pensei que fosse começar o ano dando uma virada
destas — Ele fora contratado para dirigir um seriado no Havaí. —
E um filme de ação com atores adolescentes para ser levado no
horário família. Aventura, pesca submarina, três gurias e dois
garotos. Seios e bundas permitidos para 12 anos. Entendem o que
digo? — Ele fez circular o seu cachimbo com haxixe da Turquia. —
Grande quantidade de surfe de seqüências na praia. Nada de
chupadas, só carícias nas proximidades de acampamentos. Todas
as semanas, nosso bando de detetives vai aparecer na televisão
praticando boas ações e fazendo grandes salvamentos.
Ele era de uma excentricidade e de uma despretensão tão
surpreendentes que Claire pôde entender Madeleine e o seu
fascínio por ele.
— Começamos com a turminha chegando para ajudar um cara
que fez sua cabana na praia e está a ponto de ser desalojado por
uma firma de loteamentos. O sujeito não quer mudar-se e usam de
força contra ele. Os garotos aparecem para retirá-lo de um barco
onde estava preso e descobrem que ele é um grande pintor. Uma
espécie de Gauguin. O pai de uma das gracinhas é da polícia e a
mãe de outra é repórter do Bugie de Mahi-Mahi. Ah, existe
também o cão nadador... um Mark Spitz da raça dos pastores
alemães. Ele é o grande talento desse seleto grupinho de...
Bobby havia relaxado com a história fantasiosa de Gene e entrava
num estado de descontração incontrolável. Gene insista para que
ele desse uma puxada de haxixe e, de vez em quando, ele dava
umas cachimbadas. A mistura de champanha com haxixe fez com
que deixasse suas preocupações para trás.
Madeleine, observando os dois, junto de Claire na sala de jantar,
pensava naquela amizade que há anos vinha unindo as duas.
Claire havia chegado a Los Angeles no meio de uma das piores
crises de sua vida, explicou Madeleine, e fora esta a razão de ter
havido alguns arranhões na amizade delas.
— Bem, você sabe, eu sempre fui de "dar", mas não sou nenhuma
puta e, santo Deus, Claire, não sei o que aconteceu comigo para
achar que devia cobrar.
Suave Alívio ainda não tinha dado a resposta de que lhe confiaria
a campanha, mas Budget Cars a escolhera para um anúncio de 30
segundos e Demure Douche oferecia-lhe mais dinheiro do que
Kotex, e sua agenda estava cheia de anúncios em perspectiva.
Entretanto, tinha muito tempo livre e não sabia como ocupá-lo.
— Há alguma coisa na loja que eu possa fazer para ajudá-la?
E Claire a contratou imediatamente, seria a sua primeira
empregada em caráter provisório. Ela teria Madeleine, tirando 200
dólares por semana de Dunlop. Com isso, ela poderia fazer mais
coisas, não precisando ficar o tempo todo presa na loja.
A conversa, por fim, descambou para Bobby.
— Não quero ser indiscreta, mas, por acaso, você está pen-
sando em entrar numa outra fria?
— Espero que não.
— Claire, eu já me danei uma porção de vezes, mas acabo
sempre dando uma volta por cima. Agora você, querida, depois
de tudo que passou, me deixa preocupada. — Ela abraçou Claire.
— Você não foi feita para sofrimentos. Levar porrada foi o meu
pão-nosso-de-cada-dia até conhecer Gene e, mesmo agora, não me
sinto muito segura dele. Ele vai filmar lá longe e, sabendo como
ele é, tudo pode acontecer. Você e Bobby têm valores antiquados,
de gente de cidade do interior, e nem fazem questão de mudar
suas maneiras de ser.
Ela havia tocado num ponto-chave. Com Bobby outra vez na sua
vida, pensou Claire, será que iria sucumbir novamente? É verdade
que estava mais segura e mais independente, uma mulher que
recentemente havia terminado com um caso e que estava prestes a
começar um negócio que iria exigir muitíssimo dela. A carreira de
Bobby estava em ascensão. Ele nunca mais teria de ficar
mendigando serviço. Seria possível ela ainda se ajustar a um tipo
de vida doméstica na companhia dele?
— Terei de esperar para descobrir.
A segunda garrafa de champanha foi aberta e os quatro cantaram
de mãos dadas Auld Lang Syne (Os Velhos Tempos) no despontar
de uma nova década de incertezas. Bobby tomou-a nos braços,
beijando-a apaixonadamente, e todas as suas dúvidas, naquele
instante, se dissiparam. A imagem do amor deles levou-os de
volta no tempo, mas este clima pouco durou para Claire.
Ficaram então até às duas, trocando confidências, numa conversa
de redor de mesa. A vantagem que Madeleine levava, explicou
Gene, era a sua capacidade de refazer-se de seus golpes, ela caía e
se levantava com a mesma cara. Ele próprio admitia que os seus
temores estavam tão arraigados que nunca esperara que ainda
fosse vencê-los.
—, Precisava de alguém que soubesse dar um jeito em mim —
disse ele ao sair, agarrando-se a Madeleine como a uma tábua de
salvalção.
Depois que foram embora, Claire sentou-se junto de Bobby e
ficaram tomando café com conhaque. Ele parecia embaraçado,
com jeito solene, como se mil e uma idéias passassem pela sua
cabeça e estivesse com medo delas ou então que, se fizesse um
movimento qualquer,- Claire fosse repeli-lo.
— Madeleine me acha um filho da puta. Ela não disse
propriamente, mas me olhava com uma cara... Bom, de certo
modo concordo com ela. Que direito tenho eu de querer me impor
a você novamente? Forcei a barra e fiz pressão para que rompesse
com Ed. Na verdade, não forcei, mas a pressão estava implícita.
Oh, meu Deus, Claire, o que é que estou fazendo com você? Não
posso viver com esse...
Madeleine não deixara de dar suas alfinetadas e contara a ele
sobre a tentativa de suicídio de Claire. Ele ficara profundamente
chocado.
Claire possuía uma sensibilidade especial para perceber quando
ele estava por baixo. Pegou a sua mão e o conduziu ao quarto,
com um sorriso acolhedor. Espichou-se na cama, pegando o lado
costumeiro, perto da janela, pois Bobby não conseguia dormir a
não ser que ficasse junto da porta. Ele como homem é quem devia
guardá-la. Quando começaram a dormir juntos é que ficara
sabendo deste seu lado carinhoso e protetor. Depois da ruptura,
ela dormia no canto que era o dele, subconscientemente,
reservando o lugar para ele. Com Giovanni, era indiferente em
qual lado dormia. Bobby permanecia afastado e ela estendeu a
mão na sua direção. Ele se aproximou, sem jeito, sentindo-se
culpado a mais não poder.
— Quero abraçá-lo — disse ela, seus olhos azuis sorriam
convidativamente.
Ele apoiou a cabeça no seu ombro. Ficaram por instantes deitados
de lado, olhando um para o outro, ele, então, a abraçou e se
beijaram um tanto embaraçados, como dois adolescentes
travessos. Ela, delicadamente, acariciava-lhe a nuca com os dedos.
O desejo por ele nunca desaparecera e havia bloqueado da
lembrança a última noite que tinham passado juntos, quando se
vira repudiada. Ele agora voltara e reclamava o seu lugar no
centro da vida dela; curioso, era como se nunca tivesse ido
embora.
Às 4:30 da manhã, a festa em La Guita começava a perder o gás.
Geraldo, como anfitrião, providenciara para o seu distinto grupo
de convidados 50 gramas de pó boliviano em estado puro que fora
colocado sobre um espelho, junto com um canivete e um copo
com canudinhos. Ali, restavam apenas quatro homens e duas
mulheres, dançando embriagados em volta de uma pilha de
garrafas vazias de tequila. A maior parte da noite, Hillary a havia
passado numa viagem proporcionada por picos e pó. Ela, na
frente de Geraldo, não ousava tomar injeções. Ele tinha uma
especial antipatia por agulhas.
Hillary sentava-se junto dele numa mesa, no fundo da sala. Ele
bebia sua tequila no gargalo da garrafa e os seus olhos de lince
não saíam de cima dela, cheios de adoração. Ela lhe sorria. O
sorriso se havia transformado num tique nervoso. Ele lhe beijou a
mão; ela pôs um cigarro na boca e ele, sempre perfeito cavalheiro,
tirou do bolso o isqueiro Zippo, fazendo com ele uma pirueta. A
personalidade de Geraldo tinha passado por transformação
radical, que ela achava, ao mesmo tempo, ameaçadora e
emocionante. O lado reprimido e ascético desaparecera,
sobrevindo-lhe uma certa indulgência meio alucinada e uma
licenciosidade desmedida. Para ela, era como uma viagem por
águas desconhecidas, uma visão através do portal do inferno;
tudo tão libertino que quase chegava a ansiar pelo homem inibido
e austero de antes.
Bem, cedo naquela noite, ele já estava bêbado e havia passado
uma cantada em Hillary para saírem da festa por algum tempo.
Foram para cima e ele fizera a encenação de um estupramento,
arrancando-lhe a roupa do corpo e amarrando as suas mãos no pé
da cama. Sem querer machucá-la, mandando que ela gritasse e
pedisse por socorro até que, finalmente, se resignasse ao seu
destino. Quando ficara suficientemente sóbrio, ele se pusera a
chorar, implorando por perdão. Antes de dar meia-noite, voltaram
a descer para a festança embaixo.
— Vou ter de ir a Fresno por uns tempos e não quero que fique
rondando sozinha por aí.
Ela havia escutado uma conversa de que dois homens dele
estavam sendo passados para trás em 250 gramas de coca por um
traficante menor de lá. O cara, então, tinha pedido ajuda aos rivais
de Geraldo, rompendo, assim, a trégua estabelecida entre as duas
gangs latinas.
— Quando voltar — continuou ele — pode ser que vamos à
Flórida. Precisamos pegar um pouco de sol. Você não está com
jeito bom. A pele muito branca. Talvez devesse procurar um
médico. Gostaria que fosse examinada, comesse direito e
descansasse bastante. Nós vamos ser pais. Ter família! —
acrescentou, cheio de orgulho.
Hillary viu aí sua oportunidade. Voltaria para casa do pai e daria
um chute nas drogas... dessa vez para sempre. Não era ainda
muito tarde para fazer aborto. Agarrou-se a esses planos, um tanto
frágeis, esperando poder manter esta sua decisão. Sabia que, se
não fosse embora logo que ele partisse, nunca conseguiria escapar.
— Vai ficar com o seu pai, enquanto eu estiver fora?
— Acho que isto seria o melhor — respondeu pensativa.
— Com isto você terá uma chance de falar com ele a nosso
respeito. Seu pai e eu temos de nos encontrar para discutir os
nossos projetos. Vê se dá um jeito para ele apressar o advogado,
senão sou eu quem vai dar.
Geraldo, o marginal, o frio assassino que passara metade da vida
numa prisão, tinha algumas noções estranhas a respeito da
sociedade. Tanto quanto percebia Hillary, ele se sentia obrigado a
fazer as coisas de maneira correta, com decoro. Ela bem podia
imaginar o seu pai recebendo Geraldo no seu château francês. Em
dois minutos, Leonard faria soar o alarme e a casa estaria
formigando de tiras e do pessoal de segurança da Bel Air Patrol;
seria essa uma grande cena, com Geraldo vindo para fazer um
visita social e pedir a mão da filha em casamento, enquanto os
homens dele estariam do lado de fora, sentados dentro da Lincoln,
agarrados com suas armas bem lubrificadas.
— Não sei se vou poder. Ele é muito possessivo e...
— Você tem de poder — ordenou. Geraldo estava inflexível. —
Gostaria de que ele me entendesse. Que eu não estou nem atrás de
seu dinheiro, nem das relações dele. Nós saímos de meios
diferentes, mas isso não significa que não goste de você ou que
não queira protegê-la.
Havia um toque de loucura no seu sincero desejo de aceitação
social e, nesses momentos, quando se deixava levar pelo orgulho é
que era mais perigoso.
— Eu e o seu pai vamos nos entender. Nós dois somos líderes.
Pode acreditar, há muita coisa de comum entre homens como nós
— disse, dando largas às fantasias, sentado numa cantina infecta
de Venice, enquanto Leonard, a alguns poucos quilômetros,
estaria deitado em lençóis de seda numa cama James I, do século
XVII. Ela visualizou por momentos o encontro dos dois. Leonard
pegaria o seu talão de cheques, oferecendo-lhe uma quantia para
dar o fora da vida deles e ele, imediatamente, ofendido com as
maneiras grosseiras e inesperadas de seu pai tratar de negócios,
sacaria sua Magnum 357 e estouraria os miolos de Leonard.
Na cama, pouco mais tarde, Geraldo pegou-a nos seus braços
fortes e musculosos e lhe acariciou, delicadamente, os seios que
estavam maiores e mais firmes. Os bicos estavam intumescidos e
ele os beijou cheio de ternura. O futuro pai havia emergido do
casulo.
— Eu nunca fiz nenhum mal a você, não é?
— Não — respondeu ela.
— Todas as noites, quando durmo, me imagino segurando o
nosso bebê. Sempre quis isso a vida inteira... una familia.
Ela engoliu dois comprimidos de Seconal. Geraldo iria partir logo.
Estava querendo pegar no sono, quando sentiu que ele penetrava
nela. Essa intimidade já nada mais representava, era como se
entrasse num outro mundo, governado pela loucura dele.
— Feliz Ano-Novo, cariño — sussurrou amoroso.

Capítulo XXV
Em sonhos, Claire escutava barulho de serras, pregos sendo
martelados, betoneiras, via rostos de operários misturados aos de
negociantes e também o de Leonard Martinson, que era a quem ia
queixar-se da morosidade da obra. Ele, então, tomava uma nota e
passava uma descompostura no mestre-de-obras. Estava
completamente aturdido, de caixa baixa, e passava os dias
andando entre os terrenos de Marine Mutual e Rodeo Puerta. Os
seus problemas pessoais com Hillary jamais eram mencionados;
ele tinha o rosto cansado, parecendo com vergonha. Claire se
odiava por rebaixá-lo, mas era o seu futuro que estava em jogo.
Nem sempre os operários estavam à mão e muitas vezes o
trabalho era inaceitável. Paredes que tinham de ser refeitas, fiscais
de obras que encontravam irregularidades, intimações judiciais e
outras tantas chaturas. Dunlop a havia provido de dinheiro, mas
achava o seu brinquedo de Century City bem mais interessante.
Ela estava sozinha. Eilen aparecia ocasionalmente só para
bombardeá-la com sugestões idiotas. Entretanto, os Dunlop
estavam montados numa máquina de publicidade organizada por
um relações-públicas da Rogers & Cowan e se deliciavam com a
badalação que tinham conseguido arrumar. As colunas sociais nos
jornais celebravam o talento dos dois e uma delas se havia
referido a Claire como sendo a gerente de Rodeo Dri-ve. As
inúmeras dificuldades que surgem para se montar um negócio a
partir do nada e o seu devotamento extremado ao trabalho
punham-na de mau humor e fizeram aparecer o seu traço de
mulher implacável e enérgica. Estaria subindo pelas paredes se
ouvisse mais uma desculpa para atraso na remessa de
encomendas.
Quando Madeleine estava disponível, ela a deixava na loja para
vigiar os empregados e assinar notas de entrega, checar faturas e
organizar tudo na área reservada à guarda do estoque que tinha
dado um jeito de os operários terminarem. Isso lhe permitia viajar
à base aérea de Edwards onde arrematava lotes de indumentárias
de piloto de provas e negociava, com o encarregado da
intendência, material desviado de diversos setores da
Aeronáutica. Pelo preço oficial de 10 dólares, conseguia uma
roupa das mais originais. Depois, corria para Camp Pen-dleton,
outra base militar, ao lado de San Clemente, e comprava trajes de
camuflagem das Forças Especiais do Exército. As bases da
Marinha nada negociavam, mas ela conseguira entrar em contato
com um tipo que possuía um enorme depósito em Los Angeles
com um imenso sortimento de roupas e equipamentos novinhos
em folha.
Marv Baker só vendia a dinheiro e só aceitava cheques se visados.
Crediário e pagamento a prazo eram práticas desconhecidas no
seu negócio. Recusava-se a fazer entregas e não aceitava
devoluções. O grosso do seu negócio estava na venda de
mercadorias próprias à mineração, pesticidas à base de produtos
químicos, utensílios avariados da Marinha e alguma mercadoria
que vendia por reembolso postal.
Ele ficava sentado no seu escritório, um verdadeiro cubículo,
bebendo refrigerantes dietéticos, roendo as unhas e rabiscando no
forro de mata-borrão da mesa. Era um homem baixo, magro, testa
grande lustrosa, olhos juntos de avarento, nariz de furão e uma
cara alvacenta onde a barba crescia formando manchas
irregulares. Nas linhas amargas de sua boca, percebiam-se o seu
caráter desconfiado e a deplorável arrogância daqueles que
odeiam o seu semelhante.
De má vontade, concordou em dar uma volta com Claire pelo
depósito, enorme e empoeirado. A mercadoria estava empilhada
dentro de caixotes mofados. Havia, ah, óleos para passar na pele,
sacos para dormir, equipamentos para camping, mochilas, redes,
roupas, botas, sapatos, tudo fedendo terrivelmente a graxa.
Algumas barracas achavam-se montadas e duas balsas estavam
infladas e Claire pôs-se a imaginar como ficariam na loja. Ela
fuçou dentro dos caixotes repletos de macacões e de blusões de
camuflagem com manchas verdes e checou os tamanhos, depois
encontrou uniformes de batalha e shorts de caqui que poderiam
ser reformados, ganhando uma aparência mais esportiva.
— O primeiro pedido tem de ser no mínimo de 5 mil dólares,
pagos a vista ou em cheque visado. Não faço entregas e qualquer
estrago fica por sua conta — disse Baker.
Claire já estava acostumada a negociar com saldos; já fizera isto,
quando era aprendiz no Drake's e comprava para o departamento
de refugo de mercadoria e era, então, obrigada a negociar com o
submundo do comércio. A experiência fora para ela de valor
incalculável.
— Da minha parte só há uma condição, se é que vamos fazer
negócio. Falemos sério. — Ele lhe deu um olhar mal-humorado. —
O meu primeiro pedido é da ordem de 15 a 25 mil dólares.
Ele já ouvira estas histórias antes e ela teve de esperar, enquanto
ele telefonou ao banco para investigar-lhe o crédito. Nesse meio
tempo, ela ficou esquadrinhando os caixotes e tomando notas
num caderno. Baker a encontrou na seção de camping.
Visivelmente, ele havia mudado de atitude.
— Liguei para o banco e ouvi boas falas — disse ele.
— Ótimo — falou com indiferença. — Esses fogões estão com
placas de ferrugem.
— Ei, vá com calma. Eles vão ser vendidos por reembolso. Os
novos estão chegando.
— Marv, se você está vendendo a mercadoria no estado, só
aceita pedidos grandes e quer pagamento a vista... bom, então,
tem de me dizer qual o desconto que vai fazer.
— Só posso dar 10 por cento.
—E pode ficar com eles. — Ela botou as notas dos pedidos dentro
da pasta e já ia indo embora. Ele estava acostumado era com
funcionários de firmas, que são facilmente subornáveis e que se
vendem por qualquer porcaria.
— Farei negócio com você, Srta. Stuart.
Palavras fatais. Uma vez ditas, o fornecedor estava frito nas mãos
dela.
— Comece a escrever, Marv, e veremos como vão ficar essas
contas no fim. — Depois de anotado o pedido e somados os
preços, ela estaria em condições de puxá-los para baixo e fazer
pressão sobre ele. Estar de volta à ação era algo de fantástico e ela
pôde se dar conta da falta que sentira do ritmo trepidante do
mundo de negócios. Isso estava no seu sangue. Rodeo Wilderness
era o seu sonho e o seu gosto é que iria moldar a loja.
Ela passava noites em claro relacionando notas de compra,
escriturando, endereçando cartas a compradores; consumia toda
sua energia aí e isto acabou contribuindo para aumentar os
desentendimentos com Bobby. Os dois não conseguiam acertar o
passo e, embora evitassem discussões, tornava-se claro que o
cansaço dele somado com o dela e mais a intolerância pela
independência de Claire estavam conduzindo-os a um confronto
irreversível.
Trazendo apenas uma sacola esfarrapada de vinil que encontrara
no portão de La Guita, Hillary dirigia o carro, subindo sua muito
conhecida e tortuosa estrada que a levava para casa. Geraldo
gostara muito das suas malas Gucci e ela lhe fizera presente delas.
Desde Ano-Bom que esperava ansiosamente pela sua saída para
Fresno. Ele, entretanto, por diversas vezes tinha adiado a partida.
Naquela tarde, finalmente, havia viajado e ela levara o seu Rolls a
um posto para lavá-lo. Mais do que de uma lavagem, o carro
parecia precisar era de uma oficina de consertos. As baterias que
acionavam o controle remoto do portão de sua casa haviam
secado e ela teve de se valer de suas chaves. A entrada furtiva à
noite era preferível a ter de encontrar o pai à luz do dia. Rezava
para que ele tivesse saído e assim poder passar direto para o
quarto em vez de ir para a casa de hóspedes. Leonard
interpretaria isto como prova de boa vontade e não iria submetê-la
a interrogatórios. Ao parar na passagem de carro, ela deu com o
caseiro e com o mordomo de pé na entrada.
— Alguma coisa de errado? — perguntou Hillary, saindo do
carro.
— A senhora acionou por engano o alarme luminoso, Sra.
Canaday — falou Claude, o mordomo. Ele girou a chave no
sistema de alarme para cancelar o aviso à polícia, depois desceu a
escada e foi até o carro segurar a sacola para ela.
— Meu pai está em casa? — perguntou com voz trêmula.
— Está na biblioteca — informou o caseiro.
Hillary teve aquela sensação de volta à casa, ao passar pelo hall. A
sala de jantar estava às escuras, na cozinha brilhava uma luz e
havia um cheiro de móveis bem tratados, de objetos de arte raros.
A serenidade da riqueza. Isso era uma barreira protetora, punha
um espaço entre ela e Geraldo que ele jamais ousaria cruzar. Pela
primeira vez, em muitos anos, se senda agradecida a Leonard, ao
seu poderio, à adoração cega por ela e por asfixiá-la com um amor
desmedido.
Estava ali uma princesa retornando do exílio e chegando aos seus
domínios. Como, pensou cheia de amargura, pudera dar as costas
para aquilo que era dela por direito de nascimento? Passou pela
biblioteca. A porta estava aberta e Leonard achava-se espichado
na sua espreguiçadeira de couro, dormitando em frente da
televisão. Um copo de leite e um pratinho de biscoitos de
chocolate estavam sobre uma mesa ao seu lado. Ele franziu as
sobrancelhas, esfregou os olhos e deu uma piscadela para ela. Fez
um movimento para se levantar, mas ela correu em sua direção,
atirando-se nos braços dele; ele lhe tocou o rosto com infinita
doçura e depois se pôs a mirá-la ternamente.
Ela tinha medo de que ele começasse a chorar e disse num tom
brando de voz:
— Papai, estou de volta para casa. Quero ficar com você... Ele
permanecia sem falar, tomado por indizível emoção.
— Querida, faz tanto tempo, desde que me chamou de papai pela
última vez.
Ela apagou a televisão; tinha de se sentar, não se agüentava sobre
os pés.
— Estou em dificuldades — disse ela. Ele ficou encantado de
ouvir isto.
— Você está com um ar cansado. Vamos para cima. Seu quarto
continua sempre arrumado.
Enquanto subiam a escadaria de braços dados, ela perguntou com
voz desiludida e cansada:
— Onde será que eu errei?
Ele não desejava passar em revista todas as suas loucuras, com
medo de afastá-la novamente.
— Você voltou e é só o que importa.
Depois de meses em La Guita, a sua suíte majestosa, com todo
aquele conforto material, estava ainda mais convidativa. Ela abriu
as persianas e viu que tinha começado a chover; era uma chuvinha
fina como uma penugem que limpava e punha frescor nas coisas.
— Você tem passado uns maus pedaços comigo, não é? Ele não
estava para recriminações e a lógica não fazia parte de suas vidas.
— Nunca desejei outra coisa senão ser seu amigo. — O estado
de desmoralização dela o preocupava. Passara noites sem dormir,
desde que ela partira, mas dava a impressão de que Hillary
sofrera mais do que ele.
— Confio em você — começou ela a dizer — só que não vai
gostar do que vou contar. — Ela se mostrava sem energia e ele não
desejava pressioná-la.
— Por que não dorme um pouco e amanhã falamos sobre isso?
Ela era um tipo de mulher compulsiva, dominada por um espírito
voluntarioso que alimentava a sua autocomplacência.
— Não posso esperar. — Dizendo isto, soltou um gemido horrível,
tão estranho e de tal modo angustiante que a pressão de Leonard
subiu lá em cima e poderia ter estourado naquela hora. Ela
chorava, soluçando convulsamente. Ele já a tinha visto chorar
muitas vezes, quase sempre quando estava irritada ou querendo
impedi-lo de exercer a sua autoridade, mas, desta maneira, nunca
a vira, uma Hillary tão perdida e prostrada.
— Querida, por favor... não.., — Ele lhe acariciava os cabelos,
depois, sentou-se na beirada da cama. Havia anos não
compartilhavam uma intimidade como esta. Que ele se lembrasse,
fora quando ela caíra com escarlatina aos 10 anos. O quarto, então
era de um tom róseo-claro, com cortinas de renda e cheio de
bonecas. Ele ficava ali sentado na cama, alimentando-a com sopa
de tomate Campbell, a sua comida favorita. Havia sentido orgulho
de tratar dela durante o período da doença, ela com febre de 40
graus. A sua filhinha.
— Hillary, vou ajudá-la. Farei qualquer coisa, o que você
quiser — implorava ele.
— Papai, estou grávida e eu não quero a criança. — As
lágrimas escorriam-lhe pelas faces sem cor.
— Arrumaremos um médico amanhã. Eu estou junto de você,
querida. Estou com você.
— Arruinei a minha vida — disse, desesperada.
— Não seja tola. Ainda teremos ótimos momentos outra vez.
Prometo. Isso é só uma fase. Vai passar.
— Geraldo me matará quando descobrir.
— De que você está falando, Hillary? Não vou deixar ninguém
fazer mal a você. Você é a minha filhinha... e sempre será. — Ele
tinha esperado anos para dizer isso sem que ela protestasse. Um
momento que sempre acalentara no seu íntimo: ele e Hillary
juntos, unidos com amor. A sua devoção por ela nunca tinha
diminuído e ele não iria renunciar ao que o destino lhe reservara.
Hillary precisava dele.
— Ele... Geraldo... é um assassino — disse ela com firmeza.
— Bem, mas você está salva agora — afirmou seu pai. Ele
estava mais preocupado com a paranóia de Hillary do que com as
ameaças fantasiosas deste seu amante.
— Se for preciso, você sairá daqui. Ele não irá descobri-la.
— Irá, sim. Irá persegui-lo e fará com que você diga onde
estou.
— Não sou propriamente um desamparado. — Ele a mantinha
afastada e a olhava, querendo penetrar em seus pensamentos. —
Então você acha que depois de todos esses anos vivendo aqui eu
também não tenho minhas relações? Hillary, existem pessoas que
me devem favores; já vendi uma quantidade de casas e existe
muita gente dependendo das minhas hipotecas. Detetives das
divisões de homicídio, homens ocupando altos cargos dentro do
FBI. Não se pode dizer que nos faltem amigos.
— Papai, mas ele é louco. Passou a maior parte da vida na prisão e
se julga uma espécie de rei... de líder. É chefe de uma gang.
A estratégia da batalha em vista atraía Leonard, iria permitir-lhe
pôr à prova o seu valor. A volta de Hillary, tão esperada, não seria
perturbada impunemente. Chamaria Ira Parks, explicar-lhe-ia a
situação e pediria um conselho seu.
— Sabe de uma coisa, Hill, já passei pela experiência de ter muitos
valentões querendo extorquir dinheiro de mim. Por acaso não
sabe que o mercado imobiliário serve para encobrir dinheiro
escuso das pessoas? Também tive minhas ameaças. Mas nunca
deixei que elas me atingissem. Querida, ninguém vai entrar no
meu escritório e me dizer o que tenho de fazer. Não sou nenhum
frouxo, nenhum pobre-diabo. Essa gente vai ter pela frente um
homem que dispõe de certos recursos. Esse ano, sofri uma queda
financeira terrível, mas consegui sair inteiro.
Ela se espichou na cama, os seus olhos cansados eram o espelho
de uma rebeldia fracassada. Queria subtrair-se à vida, encontrar-
se consigo mesma, voltar ao convívio social.
— Eu vou mudar. Desta vez vou...
— Não faça promessas, não é necessário. Se eu vou até as últimas
por você é porque você merece, Hillary. Amo minha filha e
sempre amarei.
O ar de arrependimento dela era irresistível. Ela queria
penitenciar-se e tudo quanto ele sentia era alívio por vê-la salva
em casa.
— Estou com sono. — Ela estendeu os braços. Ele se abaixou e lhe
beijou a testa, os cabelos e o rosto. Jamais iria dividi-la com outro
homem novamente.
Era bem depois da meia-noite, quando Gene irrompeu pela porta,
dando um susto em Madeleine. Ela estava vendo John Garfield em
Body and Soul. O filme deixava-a fascinada. Em geral, quando
Gene chegava tarde, numa hora daquelas, estava faminto e os dois
se batiam para o Canter's, um pequeno restaurante em Firfax que
funcionava a noite toda. Lá, ele se fartava com um pratarraz de
comida, não importava que hora fosse. A não ser no seu
ressuscitado interesse pela carreira, a maioria de seus hábitos
continuava irregular como sempre.
Ultimamente, ela vinha achando que ele estava desinteressando-se
dela. Era indiferente para ele se ela estava ou não trabalhando. Na
verdade, ele a estava mantendo, pagando o seu carro e, pior ainda,
assumindo o aluguel da casa dela. Ficava imaginando se ele não
estaria dando voltinhas com as modelos de seus comerciais, só
que isto não tinha coragem de perguntar-lhe. Para ela, era motivo
de grande preocupação saber que, por mero capricho, ele poderia
passá-la para trás, depois tornar a possuí-la, instalar outra garota
no apartamento e, se não gostasse, que fosse bater em outra
freguesia. Estava apaixonada e a dependência dele manifestava-se
nela através de um ressentimento destrutivo.
— Você vai para o Havaí — anunciou ele com voz retumbante.
— O pessoal da televisão deu sinal verde e você vai como a garo
tona do papai. Todas as despesas pagas.
— Emocionante. — Ela olhava a televisão. John Garfield, estava
sendo triturado no ringue.
— Você será minha assistente de produção, Madeleine. Que
acha de ganhar um título destes? Você pode segurar o meu
cronômetro ou usar o meu visor. — Ela estava zangada, de poucas
palavras, protegendo-se do vandalismo dele. — Mas, diabos, o
que é que há? Tudo de graça. O Kahala Hilton, passagens de
primeira classe, até carro com chofer! — Sem se tocar com o
oferecimento, ela continuava carrancuda, distante. — Porra, reaja!
Você está um saco. — Ela não respondia. — Ora vamos, me dê um
sorriso e vamos pegar um salame com ovos no Canter's.
— Não tenho vontade de ir. Por que não leva outra pessoa?
Não teria a menor dificuldade. Telefone para alguém da sua lista
de modelos.
Ele ainda não tinha perdido o bom humor. Pegou um cigarro de
maconha na mesa, acendeu e, dando umas puxadas, sorriu
afetuosamente para ela.
— Você está parecendo a minha mulher com quem eu não me
casei há cinco anos. Eu a larguei. Ei, ouça isso, quando voltar, vou
fazer na ABC o programa O Filme da Semana. Ele abriu a sua
pasta e tirou um script amarelado, batendo com ele sobre a coxa.
— Já li isso e é uma beleza. Mãe morrendo de câncer, filha
drogada e o pai, um tira criminoso que transa com a melhor amiga
da filha. História policial para arrancar lágrimas ou sei lá o quê.
Posso chamá-la para fazer o papel de assistente social que trabalha
na moita e reconcilia a família. Por isso, trate de beijar os meus pés
e pare de bancar a idiota.
Tudo que restara do fotógrafo pornô por quem se encantara era a
linguagem desbocada. Gene se amaciara. Estava agora comprando
calças no Mr. Guy, usando sapatos Bally, e Michael Rosati tinha
civilizado a sua cabeleira com um corte moderno. Parecia anos
mais moço. Esbelto, havia largado as drogas pesadas, bebia sucos
naturais, tomava vitaminas e pensava em comprar um Mercedes.
Todos os símbolos do sucesso que antigamente repudiava, ele
agora os tinha retirado das páginas do Los Angeles Magazine para
adotar, passando a servir a sua nova fé com zelo de cristão novo.
Ora vivas! Gene finalmente estava a caminho do sucesso.
— Qual a razão do mau humor da peitudinha? Há pouco tempo
você daria a vida por uma viagem ao Havaí. — Ele tirou cinco
notas novinhas de 100 dólares. — Faça o que der na sua cabeça.
Compre umas coisas para você. — Ela o ignorou. — Madeleine,
quer fazer o favor de não dar as costas enquanto estou falando?
Garfield estava em close, abraçado apaixonadamente por Lilly
Palmer. Eles eram fantásticos. Davam um beijo langoroso, os dois
arfando. Garfield era o máximo.
— Eu não vou.
— Isso é uma ameaça, Madeleine?
— Não. Estou esperando um comercial da Tegrin.
— Esqueça isso. Eu recusei e o diretor que contrataram pegou
a mulher dele para o papel.
O olhar de desprezo dele botou-a furiosa.
— Essa porcaria de trabalho... nunca vou conseguir sobreviver
com ele — lamentou-se.
— Se você desistir, não vou me incomodar, mas e você?
— Dane-se tudo. Claire está abrindo a loja dela e acho que
cheguei a um ponto que seria melhor se fosse trabalhar com ela.
Ele chegou a ficar de queixo caído e por instantes achou até que
fosse bater nela, mas deu uma última puxada na sua guimba e
espremeu o toco num pires.
— Ouça aqui, não deixei que você me tirasse da merda para vê-la
novamente como vendedora. Claire tem cabeça para esse negócio,
mas você... ora, você é uma tola. Todo esse tempo e esforço gastos
com aulas de arte, o seu filme e eu por trás para se chegar a isto?
Por uma vez, Madeleine, tenha bom senso.
O rosto angustiado dela serviu apenas para enfurecê-lo mais
ainda.
— Eu não sou nada. Tenho tido algum trabalho, mas o que sou
realmente? Apenas uma puta que toma conta de sua casa.
— Desde quando uma babaca de primeira não merece
respeito?
— Pare — berrou. — Perdi o respeito por mim mesma. Vivo
como uma mendiga. — O dinheiro que Claire lhe pagava
rapidamente evaporava. Naquele dia, dera cabo de duas notas de
100 com um tratamento de pele em Aida Thibiant e comprando
um par de botas. Tudo quanto ganhava desaparecia. — Tenho de
estar sempre recorrendo a você para me dar injeções de dinheiro.
O sucesso está começando para você, Gene, dê o fora. Você
ressuscitou.
Ele passou o braço a sua volta e ela deu um pulo para trás como se
tivesse visto uma aranha.
— O que lhe dá o direito de se menosprezar tanto, Madeleine?
— Eu parei de me enganar. Talvez tenha futuro com Claire. Ele
estava ofendido, fora de si por sentir-se tão frustrado.
Havia acreditado no otimismo absurdo dela, no seu ar de mulher
burra; fora a ignorância de Madeleine que lhe trouxera novas
esperanças. A insanidade da coisa estava em que a inspiração para
a sua luta para regenerar-se provinha dela e, aí, ele compreendeu
o quanto era frágil este seu apego à vida, se Madeleine lhe faltasse.
— Não faça isso conosco, Madeleine. Você quer saber da coisa
como ela é? Al assinou com você no escuro. Ele fez isso só para me
ter de volta. O diretor é a peça-chave neste negócio e os clientes
podem vir no pacote dele. Eles vão continuar enviando chamados
para você e marcando entrevista enquanto eu estiver trabalhando.
Foi uma armadilha para me apanharem de volta. A sua chance
nesse mundo sou eu e eu preciso de você.
Era uma revelação tão atroz que ela soltou um gemido de
impotência. A verdade vinha toldar-lhe as aspirações, fazendo de
seus sonhos uma palhaçada.
— Ora, pare, já chega — insistia ele. — Eu faço com que eles
tenham de engoli-la. E com todas essas entrevistas, alguma coisa
vai acabar aparecendo.
Ela passou pelo estado de choque, de depressão e de pânico, até
dar o maravilhoso estalo do entendimento de si mesma quando,
finalmente, foi tomada pelo sentimento de auto-respeito que se
apossou dela com a força de uma conversão religiosa. Por fim,
compreendia.
—Gene, você sozinho, só com a sua garra, está indo ótimo
__disse ela calmamente. — Não faço mais falta para você. As
oportunidades que tinha para mim... pode enfiá-las no seu cu.
— Porra, pare de falar como puta de rua.
— Até logo.
Ela foi embora e não voltou naquela noite.
Los Angeles está cheia de clínicas particulares, lugares serenos
para alcoólatras, drogados, lunáticos e pessoas que tiveram seus
cérebros avariados pelos acontecimentos normais da existência
diária. Nenhuma, entretanto, é mais exclusiva e fechada do que
Melody Park, onde Hillary foi fazer o aborto que transcorreu sem
qualquer dificuldade. O curso de sua terapia visando ao problema
da droga, prosseguia sob a supervisão do Dr. Ira Parks, com
resultados surpreendentes. A disposição de sua paciente em
cooperar com o tratamento deixava-o animado. Hillary se
esforçava para regenerar-se.
Leonard sentou-se com ela no jardim, feliz com o seu progresso.
Ele conseguira extrair uma série de informações sobre Geraldo,
durante a estada de Hillary na clínica. Ela estava extremamente
flexível e de coração aberto. A sua garota rebelde transformara-se
numa vítima sofrida que olhava para ele como uma amante infiel.
Leonard sentia-se extremamente culpado e ao mesmo tempo
desconcertado pelo tipo de vida que Hillary vinha levando. A
união sufocante em que se encerraram por anos a fio tornara-se a
fonte de sua ignorância mútua, arrasadora e ofuscante.
Quando Leonard, junto da piscina de terapia da clínica, olhou
para o rosto de Hillary, banhado pelo sol, não podia imaginar
alguém mais doce e complacente do que ela. Ele havia conversado
sobre Geraldo com um detetive da divisão de homicídios que
conhecia de algum tempo atrás. Ficara, então, sabendo que
Geraldo Flores era um monstro, um cara que havia instigado uma
guerra de morte entre as gangs locais. O seu grupo, Nuestra
Família, era formado por um tipo de gente de quem é bom manter
distância. Geraldo fora preso dias atrás, em Fresno, por violar a
liberdade condicional de que estava gozando, mas devia ser solto
por intervenção de um advogado da União Americana das
Liberdades Civis. Aparentemente os direitos de Geraldo tinham
sido violados. Por coincidência, dois mexicanos pertencentes à
EME foram mortos durante a estada de Geraldo em Fresno.
— Entretanto, não precisa preocupar-se. Geraldo está mais
interessado em drogas do que em sexo — revelara o detetive.
Embora, exteriormente, Leonard demonstrasse confiança, ele
temia a volta de Geraldo a Los Angeles. Esperava que a avaliação
do detetive sobre as prioridades de Geraldo estivesse correta,
apesar do medo de Hillary; ele, porém, não contava muito com
isso. Logo que Hillary estivesse bem ele a levaria para fora do
país. Para o Extremo Oriente, num cruzeiro a bordo do Princess.
Flores não tinha passaporte. Eles desapareceriam e esperariam
que fosse preso por homicídio quando violasse novamente a sua
liberdade condicional. Só voltariam, com ele seguro na prisão.
— Tenho de ver Geraldo... e explicar — disse Hillary.
— Explicar o quê? — Leonard ficou com raiva. — Hillary, este
capítulo está encerrado. Não pense por um segundo mais nisso.
O sol ressaltava as suas mechas de cabelo naturalmente douradas
e Leonard se lembrou de como, quando ela era criança, ele
costumava esfregar creme sobre a sua pele para que não se
queimasse. Ela havia, então, sido uma meninazinha frágil e dócil.
Depois, algo de inexplicável subitamente ocorrera quando ele
pensara em casar-se. A partir daí, passara a desenvolver toda uma
maneira de ser que a tinha tornado ingovernável. Mas novamente
estavam juntos e fariam uma frente única.
— Não se preocupe com flores. Você é Hillary Martinson e
ninguém vai ameaçá-la enquanto eu estiver por perto. — Havia
nele aquele clima de força e suficiência que o dinheiro cria, e ela,
ao olhar os seus olhos cinza-claros, o seu queixo forte, sentiu-se
segura.
— Sabe, querida, que há meses que não vejo você tão bem
assim?
— Estou montando outra vez... e dormindo sem Seconal.
— Poderíamos comprar alguma coisa em Santa Ynez, para
termos cavalos — sugeriu ele.
A idéia a atraiu e eles falaram de uma viagem à Irlanda para
assistirem a um leilão de puros-sangues. Ele tinha vendido a casa
de Alpine por 2 milhões e 800 mil dólares e um milhão em
dinheiro já estava esperando por ele em Zurique. A conversa
seguia inconseqüente, mas, depois, ela foi traída por suas
fraquezas.
,— Tenho pensado ultimamente em Bobby. Nós fantasiamos
muito um sobre o outro no começo. Se nos tivéssemos conhecido
melhor... tinha medo de perdê-lo e fui muito possessiva. — Ela
estava arrependida. Juntaram-se lágrimas nos cantos de seus
olhos. O seu lamento cheio de bom senso apertou-lhe o coração. —
Por um tempo tenho certeza de que ele quase chegou a me amar.
Ele não é o tipo de homem que finge uma coisa dessas.
— Ele não era para você.
Leonard havia observado Bobby com Claire. A beleza, o brilho e a
sofisticação de Hillary o tinham atraído no começo. Mas não
passara de uma ilusão passageira. Os dois juntos não dariam
certo. Não se poderia tratar Bobby como se ele fosse um reles
caçador de dotes. Cedo ou tarde, Bobby acabaria tendo sucesso.
Leonard sabia reconhecer talento, quando o encontrava nas
pessoas. Bobby não tinha necessidade de Hillary para vencer na
sua carreira. Ela lhe tinha virado a cabeça e ele fora incapaz de
resistir. Mas estava certo de que Bobby havia realmente gostado
dela.
— Você pediria a Bobby para me vir ver? — Leonard hesitava,
mas o sorriso pesaroso de Hillary acabou com a sua resistência. —
Eu quero só pedir desculpas e esclarecer umas tantas coisas.
Ele a beijou na testa, sentindo o gosto de seu suor sedoso nos
lábios. Enquanto dirigia de volta a Bel Air, sabia que não
conseguiria negar à filha a oportunidade de reparar o seu erro. Ele
adorava Hillary.
Bobby usava um capacete de fibra amarelo e óculos protetores
contra a lama e o cimento que eram açoitados para o ar. Seu
macacão de caqui — presente de Claire — estava coberto das
pelotas duras e cinzentas que espirravam das betoneiras gigantes.
As fundações de Marine Mutual estavam sendo feitas e Bobby se
achava dentro de um colossal buraco, cinco andares abaixo do
nível do solo, enquanto a sua volta frotas de pesados caminhões,
dragas escavadeiras estavam a postos como que formando uma
estranha linha defensiva de zagueiros. Havia centenas de homens
lá, cavando e botando escoras no muro de arrimo do imenso
estacionamento, e, apesar de já estar ali havia 10 horas seguidas,
comendo apenas sanduíches de presunto com os outros rapazes
na cantina montada numa caminhonete, ele se sentia empolgado.
Mas a grande emoção para homens como Bobby reside no
conceito. O círculo — a unidade em si — que iria brotar deste
enorme buraco rinha propriedades mágicas.
Seu entusiasmo arrefeceu quando deu com os olhos em cima de
Leonard que vinha na sua direção. A harmonia do dia fora
quebrada. Gostaria de que Leonard deixasse o seu encarregado de
obras conduzir livremente o serviço. Aquela era uma relação
maluca. Antes de o cliente aceitar o projeto, construtor e arquiteto
poderiam ser unha e carne, mas, uma vez assinado o contrato e a
construção começada, o papel insidioso do construtor vinha à
baila. E o construtor que contrata os arquitetos e todo o pessoal da
obra, mas ele representa, em última instância, o cliente. Na obra,
transforma-se num policial idiota, num espião, querendo pairar
nas alturas, e todo mundo o despreza.
Leonard passou um olhar rápido pela obra, vinha munido com
um jogo de plantas que não conseguia decifrar. Sem cerimônias,
interrompeu a reunião que Bobby estava tendo com os
engenheiros e estendeu a planta da infra-estrutura do prédio
contra a carroceria de um jipe que estava sendo usada como
prancheta.
— Por que você está estendendo-se muito mais do que aquilo
que está previsto nas plantas originais? — perguntou. Bobby
despachou o pessoal para poupar algum vexame a Leonard.
— Tem de haver uma margem de 10 por cento para oscilação.
Já ouviu falar em cedimento de terreno? O relatório do seu
geólogo pode explicar. Isso aqui não é de pedra. Veja por você
mesmo. É barro... lama. Somos obrigados a reforçar a con-
cretagem.
Leonard deu-lhe um sorriso desajeitado.
— Estou tendo muita coisa para fazer ao mesmo tempo.
Uma escavadeira trabalhava a pouca distância deles fazendo
deslocamento de terra. Um empreiteiro, pensou Bobby com
desdém, não se interessa por porra nenhuma, a não ser pelo que
vai ganhar. E assim vai pela vida até entrar pelo cano. Em
qualquer outra atividade: computadores, carros, tanques, o que
quer que seja, seria impensável querer sobreviver sem conhe-
cimento prático. No fim, uma firma de incorporação não passa de
uma agência de casamento onde não existe nenhuma res-
ponsabilidade depois de o cliente ter sido apanhado. Leonard era
um mero negociante de prédios, casas, shopping centers e nada
mais.
Ao cliente se dá o que ele quer. Se for um louco pensando em ter
uma privada com 30 metros de diâmetro, Leonard, ou um outro
da mesma confraria, põe o seu preço e o empreiteiro que trate de
se haver com o código de obras. Não fariam perguntas, exceto
sobre o excedente nos custos e questões trabalhistas. Jogavam
golfe, iam às festas, cantavam clientes em potencial, ficavam em
cima dos infelizes que tinham planos grandiosos, depois,
contratavam homens como Bobby e deixavam as idéias mal
formuladas, as discrepâncias entre projeto e custo para eles
resolverem. Pouco estavam ligando e, de certo modo, eram piores
do que os Dunlop da vida, que pelo menos tinham um ego para se
afirmarem.
— Bobby, posso falar de um assunto pessoal?
— Barro não é assunto pessoal.
— Mas Hillary é.
Eles entraram no trailer da obra e se refugiaram no com-
partimento dos fundos. Bobby tirou do armário uma garrafa de
uísque. Serviu duas doses em copos de papel.
— Você tem sido muito compreensivo com Hillary — começou
Leonard com dificuldade — e eu agradeço.
— Ah, sim... — Bobby amenizou o tom. — Como está
passando ela?
— Hillary está mudada... para melhor. Como você sabe, ela era
uma moça cheia de qualidades — disse ele, emocionado — e noto
que este seu lado está começando a aparecer de novo. Claro, não
vai ser da noite para o dia. Temos de ser pacientes. Esses últimos
meses, ela passou por maus pedaços, Bobby.
— Estou incluído nisto?
Os telefones tocaram ao mesmo tempo e o seu bip ficou
grunhindo.
— Hillary mesma cavou os seus problemas. Mas você já gostou
dela, Bobby. Deve desejar também que ela saia dessa.
— Naturalmente — admitiu. — Mas, mais cedo ou mais tarde,
preciso de ficar livre. Para o meu próprio bem.
Leonard abaixou os olhos e parecia realmente com a saúde
debilitada quando tornou a falar.
— Tenho de pedir a você um favor.
— Qual?
— Apenas para você ir visitá-la. Ela quer que você a perdoe.
Isso vai fazer uma enorme diferença. Santo Deus, não estou
pedindo que você tente outra vez. Não é o que eu quero. Apenas...
bem... — ele remexia, nervoso, na gravata — isso vai dar a ela
confiança para encontrar o seu caminho de volta.
Seria mau-caratismo tripudiar sobre Leonard. Ele estava arrasado,
havia levado uma lambada terrível.
— Vou pensar sobre o que me está pedindo — garantiu-lhe
Bobby.
— Você é um ótimo sujeito, Bobby — disse isto e saiu.
O pedido de Leonard fez com que ele perdesse a concentração.
Permaneceu mais uma hora ali, inspecionando as fundações, e
depois, sentindo o corpo cansado, foi para o seu apartamento.
Claire estava de volta na sua vida, mas apenas de modo parcial e
vago, e ele roía-se de ciúme dela.
Só uma vez ela tinha permitido que ele passasse a noite em sua
casa, a véspera de Ano-Bom, e se recusava a ir à dele, a não ser
para tomar um drinque antes do jantar. Encontravam-se quando
ela podia, em restaurantes. Não só era ela livre, como ainda fazia
só o que queria. Mas o que lhe dava mesmo nó nas entranhas,
mais até do que o pouco tempo que ela lhe concedia, era o desejo
irresistível que tinha por ela. Tornara-se possessivo e Claire
deixara-lhe bem claro que isso não ia combinar com ela. Para
tornar as coisas piores, continuava vendo Giovanni. Ele e Claire
estavam reduzidos a trepadas de uma vez por semana que davam
depois do jantar. E era uma verdadeira desgraça a maneira como
ela procedia, pois não tinha a menor intenção de enganá-lo ou
frustrá-lo por vingança.
Na noite anterior, pouco antes das 11, quando estava para
começar o jornal na televisão, os dois estavam na cama dela, nus,
relaxados, e ele se virou, beijou-lhe o ventre liso e firme, dando a
entender que a queria novamente.
— Tenho de estar de pé às cinco da manhã para telefonar para
Nova York, por isso, vamos deixar para outra noite.
Ele não seguiu à risca as suas palavras e continuou a beijá-la,
ficando os dois excitados, mas aí ela o afastou com firmeza. Foi tão
inesperado que ele perdeu a calma.
— O que acha que eu sou? Algum macho que pode dispersar na
hora que se chateia?
Ela o olhou. Sua expressão era de indignação.
— A vida é minha e só eu mando nela. Sou dona de mim. mesma.
Você é convidado, portanto comporte-se como tal.
A autoridade que exercia sobre ele era intolerável, inadmissível e
ele suspeitava dela. A postura equilibrada e a prática que
instaurara na relação deles retiravam todo o lado romântico. Sob
certos aspectos, apesar de sua satisfação, ela lhe dava a impressão
de que o encarava como alguém com quem apenas se exercitava
sexualmente. Não sabia direito identificar esta sensação. Ele a
atirara às feras, mas isso era assunto encerrado e ele suspirava
pelos velhos tempos dos dois juntos, agora desfigurados pelas
normas que ela impusera.
— Você está esperando alguém? Algum retardatário?
— Que tipo de coisa está querendo insinuar?
— Nada. Apenas curiosidade. — Ele estava vestindo-se.
— Se estivesse, diria.
— Ed vem aqui, depois que fecha o restaurante?
— As vezes. Ultimamente não.
Ele a arrancou da cama, segurou-a pelos ombros, empurrando-a
contra a parede.
— Está dormindo com ele também? O puto daquele carcamano
bicha?
Ela pegou o seu robe de lingerie e vestiu. Não era mulher que
escarnecesse de homem, mas Bobby ultrapassara certos limites.
Ele não era dono dela e os direitos que se arrogava pertenciam ao
passado. Recusava-se a ser tratada com ameaças e queria estar
certa de que ele entendesse que não estava também para agüentar
nenhum cafetão a lhe dar ordens.
— A vida é minha. Faço o que quiser com ela.
Ele levantou a mão, estava a ponto de bater, mas deixou-a cair e
foi pegar os sapatos.
— Não me lembro de você tão estourado e agressivo — disse ela
da porta do banheiro. — Por que ficou tão maluco? Eu disse a
verdade. Tenho de acordar cedo.
Ele a odiava com tal paixão que achava ser capaz de matá-la. Ela
havia ferido a sua masculinidade e o obrigava a se ver numa
posição de subserviência. Engenhosamente, estava dando-lhe o
troco, pensou.
— Claire, você me trata como um joão-ninguém. A conversa
claramente a entediava.
— Você é um idiota.
— Porra, será que não existe entre nós uma coisa chamada
confiança?
— Acho que tenho demonstrado isso. Agora, você, como é de
seu costume, vem com suas exigências. Não sei o que se está
passando com você. Mas sei que não sou mais a garota que lavava
as suas meias tricotadas por sua mãe. Não queira se impor a mim.
— Você trepa só por trepar? — perguntou com amargura.
— Não é bem assim. Mas não é um cataclisma na minha vida.
Tudo tem seu lugar... As vezes, quando, há clima, é importante. O
que estou tentando dizer, Bobby, é que não somos duas pessoas
que estão há muito tempo casadas. Você está dando por demais as
coisas como garantidas. Só entende o que vê. Eu não pertenço a
você, mas sim a mim. Estamos partindo de pontos diferentes, por
isso, ou nós nos entendemos de vez, ou cada um vai para o seu
lado. Nenhum drama nisso. O mundo não vai mudar por nossa
causa. Eu vejo quem eu gosto de ver e você faz o mesmo. Não faça
a coisa parecer uma obrigação que a gente tem de cumprir. Nem
oito, nem oitenta, Bobby.
O espírito de briga foi embora e ele se aproximou dela com uma
expressão melancólica de resignação.
— Você está certa. — Ele a beijou e ficou mais animado quando
ela o abraçou. — Não quer ir para fora no fim da semana... só para
mudar de cenário?
— Se eu puder.
— Podemos ir para Santa Barbara... alugamos um barco a
vela...
— Adoraria. Mas vamos ver. — Ela caminhou com ele até a
porta e lhe deu um beijo afetuoso no rosto.

Capítulo XXVI
Madeleine ao ler numa coluna da Variety que Gene se achava no
Havaí, apesar de saber que se quisesse ainda poderia estar
trabalhando com ele, teve vontade de se matar. Ele estava,
segundo revelou uma outra nota no Repórter, explorando o
cenário, e enquanto isto ela ficava ali a desempacotar, por duas
notas de 100 por semana, mochilas Tumbleweed com nomes como
Cacunda e Cavalinho, "o perfeito companheiro para o seu
primeiro dia na escola ou para explorar a selva de seu quintal.
Recomendadas para crianças de três a cinco anos". Ela se
consumia no seu desespero e recaiu nos velhos hábitos da comida
de carregação: pizzas, hamburgers e tortas que engolia sem
pensar, sentindo-se cada vez pior. A sua falta de perspectiva era
uma fonte de tormento. Trabalhar numa loja lhe repugnava,
mesmo tendo optado por Rodeo Wilderness.
Os caminhos que levavam rápido ao show business tornaram-se
morosos e Madeleine se sentia cada vez mais desencorajada. Na
última hora, Suave Alívio não lhe deu preferência para fazer
outros comerciais e abandonaram a campanha pretendida.
Contudo, ela persistia e achou um trabalho para aparecer num
catálogo que vendia roupa por reembolso postal. Acharam
Madeleine fantástica com o sutiã deles Gatona e a camisola
Diamante. Presa, encurralada, ela lia tudo quanto fosse anúncio
dizendo "jovem mãe ou moça que deseja fazer carreira" e se
apresenrava em qualquer lugar onde estivessem selecionando
artistas para comerciais ou seriados. Recentemente, havia sido
registrada por alguns dias na folha de pagamento de um filme de
horror que estava sendo rodado em Valley. Era o primeiro e
verdadeiro trabalho dela como atriz para ser incluído no seu
curriculum. No filme, ela tinha a cabeça e os braços esquartejados
pelo ator principal, um rapazola em idade colegial e fascinado por
toda espécie de ferramenta de serra. O garoto pareceu-lhe familiar
e ela acabou reconhecendo-o como o rapaz espinhenro que tanto
sucesso causara em Soltos na Vida, a série de TV que nunca fora
apresentada, o mesmo que lhe fizera propostas indecorosas na
festa de Al Brock-man. Ele não se recordava dela e Madeleine não
estava a fim de fazê-lo lembrar-se do encontro dos dois
anteriormente.
No seu papel, ele matava Madeleine e mais três mulheres que se
tinham reunido para o joguinho de bridge semanal. Depois de
matar, ele fotografava os cadáveres e fazia conserva com as partes
dos corpos na fábrica de comidas congeladas onde trabalhava. A
foto da cabeça decapitada de Madeleine era mostrada no filme
diversas vezes pelo detetive encarregado do caso. Por fim, um tipo
de velhinho excêntrico reconhece a cabeça de Madeleine num
molde de gesso pendurado num gancho de açougueiro, onde
também estavam os quartos de um cordeiro destinado ao
caldeirão fumegante. Deste modo, por vias indiretas, Madeleine, a
favorita do assassino, é quem promove a sua caprura. Palmas para
ela.
Claire deu-lhe folga para que pudesse comparecer à estréia do seu
filme. Na verdade, a generosidade de Claire era a única coisa onde
ela ainda reconhecia um pouco de sua velha amiga. A energia de
Claire, a sua vontade indomável eram como farpas espetando na
came de Madeleine. Claire, ora estava gritando ordens para
carpinteiros instalando montantes e balcões e para os eletricistas
encarregados da iluminação, ora recebendo representantes de
fábricas e lhes dizendo, cheia de autoridade, que a mercadoria
deles não servia ou ao contrário, se gostasse, fazendo encomendas
condicionadas à data de entrega a ser confirmada pelas fábricas.
Não seria o dinheiro dela que iria ficar parado à espera de
mercadorias.
No fim do dia, quando ela e Claire saíam da loja, Claire insistia em
caminhar pela Rodeo, parando em cada vitrina para pesquisar as
novidades, e depois ainda tornava a voltar para dar uma última
checada em Rodeo Wilderness. Não se cansava de admirar os
progressos da loja.
—Claire, preciso falar com você.
— Enrendo o que está acontecendo. Sei que trabalha comigo só
provisoriamente... você está apenas me ajudando até...
— Até quando? — Madeleine torceu a cara. — Oh, Claire,
estou pior do que n