Você está na página 1de 192

Deus nasceu no exílio

Vintila Horia

Vintila Horia éum dos grandes escritores romenos do século


XX. É autor de uma vasta obra literária e de polemista
social e político que integra, além do presente Deus nasceu
no exílio, os romances Les defs du crépuscule e Persecutez
Boèce.

Nota do Tradutor
Deus nasceu no exílio, de Vintila Horia apresenta para o
tradutor uma dificuldade, por vezes quase inultrapassável: a
onomástica e toponímia, em latim, grego e em termos
"bárbaros". No caso dos nomes latinos e gregos, tentámos, na
medida do possível, seguir as actuais regras de
uniformização de tradução; quanto aos nomes bárbaros, para
alguns não conseguimos encontrar correspondente e mantivemo-
los portanto com a grafia usada pelo autor. Acresce que
Vintila Horia por vezes traduz os nomes, outras vezes usa as
formas originais e outras vezes ainda dá-lhes uma
ressonância francesa que contribui para complicar ainda mais
o problema. A opção de traduzir os nomes das personagens e
locais históricos, e manter os de ficção, também não se
revelou viável, sobretudo devido a alguns topónimos, cujo
correspondente actual em português não conseguimos
encontrar.
No que se refere aos nomes de peixes referidos na página 87,
seguimos as orientações do Dicionário Lexicon Latino-
Portuguez, de F.P.Brou - 2.-edição, 1901; aliás, estes
termos não são sequer mencionados noutros dicionários mais
modernos.
Não queremos deixar de agradecer aqui a generosa ajuda que
nos foi prestada pelo Prof. Arnaldo Espírito Santo, do
Departamento de Língua e Literaturas Clássicas da Faculdade
de Letras da Universidade de Lisboa.

© L'Âge d'Homme
Título original: Dieu est né en exil
Direitos para a língua portuguesa cedidos a i 2002, ÂMBAR -
COMPLEXO INDUSTRIAL GRÁFICO, S.A.
Rua Manuel Pinto de Azevedo, 363 - 4100-321 PORTO
Telef. 22 615 1400 - Telefax 22 617 1407
E-mail: area.editorial@ambar.pt
Depósito Legal Nº 178127/02

ISBN 972-43-0575-9 l.a Edição -Junho de 2002


Tradução - Isabel Gentil Penha Ferreira
Capa e Design - Pedro Cruz

Deus nasceu no exílio


Vintila Horia

Tradução de Isabel Gentil Penha Ferreira

AMBARS

Págs.
Descoberta de um
romancista........................................... 9
Primeiro
Ano.........................................................
......... 15
Segundo
Ano.........................................................
.......... 45
Terceiro
Ano.........................................................
............ 75
Quarto
Ano.........................................................
............ 109
Quinto
Ano.........................................................
............ 161
Sexto
Ano.........................................................
............ 205
Sétimo
Ano.........................................................
..........237
Oitavo
Ano.........................................................
..........265
Nota
final.......................................................
...........279

GunaJalomitei Jiscul-Ousanifor
MAPA DA DACIA MARÍTIMA E DANUBIANA E ITINERÁRIO DE OVÍDIO
Descoberta de um romancista por DANIEL-ROPS da Academia
Francesa É sempre uma alegria e uma emoção reconhecer a
marca do talento, ver surgir diante de nós um autêntico
escritor. Abrir a cópia dactilografada: mais uma entre
tantas que se amontoam num canto da secretária. E,
subitamente, há algo que surpreende e retém a atenção, um
não sei quê tão imperioso quanto indefinível, que obriga a
continuar a leitura, a conhecer o destino das personagens, a
ir até não haver mais. Está-se perante a qualidade, essa
misteriosa realidade que é o dom, feito de inspiração e de
estilo, de pensamento e de forma. Então sim, é a alegria.
Maior ainda, talvez, quando esse escritor se revela como
sendo um dos que, mais numerosos do que se imagina,
continuam por todo o mundo a usar o Francês como forma
privilegiada de expressão. É sensibilizadorpensar que esta
"universalidade da língua francesa", outrora comentada por
Rivarol em termos eloquentes, agora ameaçada por
concorrências, seja hoje testemunhada por escritores que não
pertencem à nação francesa, quer estejam em Paris, na
América do Sul ou no Japão. O exemplo de umjulien Green, é
bastante para demonstrar que alguns de entre eles conseguem
ser mestres nessa língua que não é a da sua pátria. Vintila
Horia não será um desses?

Vintila Horia
Nasceu na Roménia, filho de um engenheiro agrónomo. Uma
velha senhora quase cega que citava de cor Baudelaire e
Rimbaud, Anatole France e Rémy Gourmont, ensinou-o a
exprimir-se num Francês com estilo, aprendido nessa escola
de bons modelos. Adido de imprensa em Roma, em 1940,
destituído pouco depois pelo governo da guarda de ferro,
nomeado de novo para Viena em 1942, mas quase logo preso
pelos Alemães, começou em 1945 - recusando voltar ao seu
país, agora submetido a outro domínio - a viver a
experiência trágica de tantos homens da nossa época, a mesma
que um seu compatriota viria a evocar nessa terrível
Vigésima Quinta Hora. Em Itália, onde se ligou com Papini,
em Buenos Aires, na América do Sul, onde ganhou a vida como
escriturário num banco enquanto a sua mulher se esgotava num
trabalho penoso, por fim em Espanha, onde igualmente se
desgastou, dividido entre o trabalho de empregado de hotel e
o de repórter e correspondente literário, foi sucessivamente
conhecendo as impiedosas agruras do exílio. E esta
experiência vital constitui a fonte do que há de mais puro,
de mais essencial na sua inspiração.
O tema do exílio situa-se assim no centro da sua obra; e
existem poucos temas com os quais os homens da nossa época
melhor se identifiquem. O exílio, com os sofrimentos, os
dilaceramentos, as nostalgias trágicas, mas também o exílio
com a sua terrível capacidade de purificação. "Escolhi o
exílio para poder dizer a verdade", afirmava Nietsche. O
exilado, o homem que perdeu tudo, não será o predestinado
para julgar um mundo de homens instalados, para denunciar
hipocrisia e injustiça? E não será também o que está melhor
preparado para viver as grandes experiências espirituais?
Não é de ontem o ensinamento do Evangelho de que é mais
fácil ser o "viajante sobre a terra" a encontrar Deus, do
que o instalado e o satisfeito.

10

Em 1958, Vintila Horia, encontrou alguém, um encontro do


espírito. Celebrava-se nessa altura o segundo milénio de
Ovídio. Retomou a leitura das obras do poeta, mais ou menos
esquecidas desde os tempos de estudante. E a revelação
aconteceu. Ovídio, também ele, fora um exilado. Mais: fora
morrer à Roménia... Entre o escritor latino do século I e o
escritor romeno do século XX criou-se um laço, uma espécie
de laço sobrenatural, procedente de uma misteriosa
semelhança. Vintila Horia reconhecia-se nos Tristia e nas
Epístolas do Ponto de Ovídio Naso. A breve trecho, a ideia
de exprimir a própria experiência, identificando-se com o
seu modelo, impôs-se ao exilado de Madrid. Assim surgiu este
grande livro: Deus nasceu no exílio.
Sabe-se que, poeta em moda, festejado pela alta sociedade
romana, Ovídio foi sentenciado ao exílio por Augusto, no ano
9 da nossa era, por razões que permanecem obscuras. Alguns
pensaram que pertencia a uma seita pitagórica que despertava
a desconfiança do todo-poderoso imperador. Mais provável -
Vintila Horia admite-o - é a versão de que Augusto, que
pretendia conduzir a sociedade romana na via de uma moral
mais rigorosa (embora pregasse, mas não desse o exemplo) se
tenha irritado com a flagrante imoralidade das obras do
poeta e que, quando os amores culposos de Júlia, neta de
Augusto e grande leitora de Ovídio, se tornaram motivo de
escândalo, tenha virado contra este a sua cólera. Desterrado
para Tomos, pequena guarnição romana no país dos Getas junto
ao Ponto Euxino, durante oito anos não cessou de implorar o
indulto ou, pelo menos, a mudança de residência para um país
civilizado. Em vão-, nem Augusto nem Tibério se deixaram
comover. E foi no exílio que o poeta morreu, no ano 17.
O romance de Vitila Horia é assim o diário - apócrifo -de
Ovídio em Tomos. Está ali, exilado, perdido no fim do

11

mundo. "Só as lágrimas me aliviam - geme - correm-me dos


olhos, mais rápidas que as águas no degelo da Primavera,
sempre que penso em Roma, na minha casa, nos lugares que me
foram caros, em tudo o que resta de mim na pátria que
perdi." Neste diário imaginado, anota os seus últimos
amores, e também os acontecimentos, grandes e pequenos, a
que vai assistindo: o cerco da cidade pelos Dácios
esfomeados, a aventura sem precedentes dos soldados romanos
que desertam para se fixar na Dácia, a invasão dos Sãrmatas.
Mas, acima de tudo, faz-nos assistir à sua evolução
interior, e é essa que nos comove.
Ovídio, homem feliz, tinha sido um poeta fútil. "Outros que
lamentem a perda da simplicidade dos costumes antigos!"
exclamara na Arte de Amar. "Eu estou contente por ter vindo
ao mundo nesta época amável!" É este poeta, erótico e
superficial, que Vintila Horia nos mostra no exílio de
Tomos, em plena transformação, a partir do momento em que
descobre que "podemos morrer antes de estarmos realmente
mortos". A ideia da morte, desta morte solitária, perdido em
terra estrangeira, hostil, torna-se-lhe insuportável. Onde
procurar consolo? Voltar-se para os deuses da velha religião
romana? Mas não fora ele próprio a demonstrar a sua
inexistência, nas Metamorfoses? Vacila "diante do vazio que
este livro abriu" nele.
E é assim que, pouco a pouco, Ovídio, o poeta fútil, Ovídio,
o céptico, primeiro pressente, depois descobre, uma outra
verdade e, em breve, a Verdade. "O tempo de loucura e de
esperança que é o nosso, é o tempo da espera de Deus." Quem
virá então trazer aos homens que sofrem a palavra da paz?
Adivinha que um dia "os homens vão encontrá-la, essa
palavra, como uma flor rara na berma de uma longa estrada".
Mas quem divulgará a mensagem? A procura da resposta torna-
se mais ardente para o exilado. Vive no meio dos

12

Getas, povo intensamente religioso, que, segundo adivinha,


crê também num Deus único. Um Deus único? De início,
ironiza. "Se o céu está vazio, conforme penso, esse Deus
deve ser muito pequeno e sentir-se muito só, no meio de um
silêncio e uma solidão insuportáveis." E acrescenta: "Este
Deus único, no fundo, deve parecer-se comigo, pelo menos
nesse aspecto. .." Mas qual dos deuses é ele? Será o
"Zalmoxis" de que falam os Getas? Procura longamente,
tacteando, recolhendo no diário como que resíduos de
Evangelho, trazidos até ele pelas incertas tradições
populares.
E, por fim, a subida decisiva começa. Após o encontro com os
sábios getas, os sacerdotes dessa religião desconhecida,
descobre em si a carência do Deus novo "que trará à
humanidade a frescura de um recomeço", e a irresistível
expectativa "deste novo Deus, deste novo povo, deste novo
sol". A verdade sobre o seu drama, é-lhe revelada por um
sacerdote. E se os sofrimentos, o exílio, tivessem, sido
determinados por uma potência divina, decidida a obrigá-lo
assim a elevar-se acima de si próprio? E se o Deus novo
fosse um homem como ele, um homem de dor, prometido à morte?
Nessa altura o encontro com o médico grego Teodoro, faz com
que tudo de súbito se esclareça. Porque o que ele lhe revela
é que, finalmente, tudo o que esperam acontecerá, toda a
esperança irá ser satisfeita, porque um filho dos homens
nasceu na terra, e virá assumir todas as angústias e todas
as esperanças. Em Belém da Judeia, verdadeiramente, "Deus
nasceu no exílio".

13

PRIMEIRO ANO

Fecho os olhos para viver. Para matar também. E nisso sou o


mais forte, pois ele só os fecha para dormir, e o próprio
sono não lhe traz nenhum alívio. As suas trevas são
habitadas por mortos, assombradas por crueldades. Eu sei que
ele não gosta do repouso, tal como todos os grandes da
terra. O repouso deixa-o a sós com a consciência e os
remorsos, com o arrependimento de ter agido sempre como um
poderoso, ou seja, como um homem aterrorizado pelo seu
poder. Uma vez, há cinco anos atrás, encontrei-o no templo,
de manhã, ainda mal acordado. Tinha os olhos vermelhos,
inchados de fadiga, e não tinha coragem de os fixar nos
nossos, com medo de que pudéssemos decifrar neles o nome ou
as feições dos que o tinham atormentado durante a noite.
Adoram-no como a um deus, mas ninguém o ama. Porque ele é o
autor da Paz, em geral, e criou o maior império de todos os
tempos, mas é também o autor do Medo, em particular, o medo
dos outros e o seu próprio medo.
A tempestade de neve faz vibrar o tecto. O mar geme ao
longe, as vagas, na noite, transformam-se em longos
fantasmas de gelo. Amanhã as pessoas poderão passear sobre
os peixes, e um vizinho qualquer, mais robusto do que eu,
deverá abrir na espessura da neve um caminho até à

15

minha porta, para eu poder sair. Nunca tinha ouvido um


bramido semelhante, acompanhado pelo crepitar da
neve gelada nas paredes exteriores. E, além deste grito
agudo que se abate sobre mim como uma onda, o gemido do mar
soa como a própria voz da noite, como se o tempo tivesse uma
voz e ela se fizesse ouvir num único ponto da Terra: aqui. A
minha casa fica quase encostada às muralhas da cidade e,
quando o vento se acalma, ouço o uivar dos lobos, fora da
fortificação. Têm fome. Mataram um esta tarde, no meio da
rua. Enlouquecido pela fome, o animal tinha-se lançado a
correr para dentro da cidade, precipitando-se sobre o
primeiro ser vivo que encontrara, uma velhota que regressava
do mercado, esfacelando-a num abrir e fechar de olhos.
Acorri aos gritos das pessoas, e tive tempo de ver o lobo,
trespassado por uma lança, jazendo sobre a sua própria
vítima, no meio da neve ensanguentada. Pensei nela nesse
mesmo instante. Não consegui impedir-me de lhe desejar uma
sorte semelhante, o que, infelizmente, é impossível, uma vez
que os lobos nunca entram em Roma. Mas um leão poderia
escapar-se dos bestiários, de noite, penetrar no jardim do
palácio imperial e fazer o que nenhum homem teve, até agora,
coragem de fazer...
Fecho os olhos e mato. Como estas cenas me parecem
presentes, mais vivas e mais claras do que a própria
lembrança da tarde de hoje! Fecho os olhos e vejo. Eu sou o
poeta, ele não é senão o imperador.
O que tem graça, no meio de meu desespero, é que não consigo
habituar-me à ideia de mudança. Estou aqui há cerca de dez
dias; deixei Roma há três meses e, no entan-

16

to, continuo em Roma, e tenho a sensação de que bastaria


prolongar um pouco mais um pensamento ou uma imagem, para
mudar de lugar e integrar-me de novo no meu ritmo e espaço
habituais. E é neste momento, ao escrever estas linhas, que
me sinto invadir por uma dúvida horrível. Roma fica longe,
do outro lado da terra e não há pensamento capaz de me
transportar para outro lugar. Roma está como o passado,
perdida para sempre, já vivida, ou seja, afastada de mim
como um objecto estranho, que pode ser reconstituído com o
pensamento e a imaginação, mas que não está já ao alcance da
mão. O meu passado tem um nome, mas de que me serve isso?
Choro. Tenho medo, tenho frio e os deuses não existem. Esta
verdade começa a tomar a forma das minhas lágrimas, como os
fantasmas de gelo à beira mar. Esteve sempre presente dentro
de mim, mas nunca tive, nem tempo, nem força para a encarar.
A minha vida, tal como os meus versos, contrariavam-na pois
vivia de uma ilusão e cantava-a para o prazer dos outros.
Mas, se ousasse reler as Metamorfoses, como não vacilar
diante do vazio que esse livro abriu em mim, mesmo no tempo
em que falava de deuses todo-poderosos! A crueldade deles é
a marca da sua inexistência. Não são mais do que o reflexo
dos nossos medos e de tudo o que não ousamos fazer sem
remorsos. Se não, como é que os homens poderiam sobreviver
frente a frente com os ódios, os caprichos e a semelhança
dos deuses consigo próprios? Como teria sido possível
existir Prometeu? Eu sou Prometeu, e existo. Tristia, será o
título do meu próximo livro. E continuarei a mentir, para
obter o perdão. Provavelmente ele vai mudar o meu exílio
para outro lugar, e talvez possa viver um dia numa ilha da
Grécia, ou talvez na Sicília, junto de Agripa Póstumo e de
Júlia. As minhas elegias, irão fazê-lo dizer: Ovídio
continua o mesmo, servil e adulador, tem medo de mim; talvez

17

possa perdoar-lhe ou escolher-lhe um exílio mais suave. Mas


ele nunca conhecerá estas linhas, que falam de uma terrível
modificação. Não saberá nunca o serviço que me prestou ao
fazer-me sofrer. E, se um dia alguém descobrir estas notas
secretas, poderá dizer que conheceu a verdadeira face de
Ovídio.
A tempestade acalma pouco a pouco. A neve está tão espessa
que cobre a janela. A casa tornou-se mais quente e mais
familiar. O fogo arde na lareira. Tenho vinho e provisões
para várias semanas e ontem à noite fiz entrar o cão, que
neste momento dorme aos meus pés e espeta as orelhas cada
vez que tusso ou que mudo de lugar para desentorpecer. Dei-
lhe o nome dele. Chamo-lhe "Augusto", dou-lhe de comer e, se
me der na vontade, pontapés no rabo.
Há pouca luz. Será já noite ou é ainda o fim da tarde?
Haverá soldados nas muralhas? Não oiço vozes na hora do
render da guarda. Os Getas podiam aproveitar a neve para
invadir a cidade. Também podiam tomá-la por mar,
simplesmente escalando as vagas, solidificadas por degraus.
Poderá parecer curioso, mas não tenho medo dos Getas.
Disseram-me que são muito religiosos e que acreditam num
único deus, cujo nome me escapa neste momento. Como é que um
único deus pode encher o céu inteiro só com a sua pessoa? Se
o céu está vazio, conforme penso, esse deus deve ser muito
pequeno e sentir-se muito só no meio de um silêncio e uma
solidão insuportáveis. Este deus único, no fundo, deve
parecer-se comigo, pelo menos nesse ponto.
Era ainda muito jovem quando, em Sulmona, poucos meses antes
da minha partida para Roma, pressenti o momento desta
revelação. Encontrava-me nos arredores da cidade, numa
colina quase completamente rodeada pela tor-

18

rente do Avella. O meu irmão estava comigo. Regressávamos


juntos de um longo passeio até à vinha de um dos meus tios.
Estava-se no início do Outono. Parávamos de tempos a tempos
para colher os figos maduros dos ramos que pendiam para fora
dos muros dos jardins. O cair da noite estava calmo, ainda
quente, as folhas das oliveiras reviravam-se docemente com a
brisa e mostravam a outra face, prateada, como peixinhos
numa água límpida. Eu ia contando ao meu irmão histórias
mitológicas, preferencialmente as obscenas; falava-lhe, com
detalhes, sobre os amores de Vénus e Marte, pois lia muito e
sabia já muita coisa sobre as intimidades dos deuses e dos
homens. Ele ouvia-me em silêncio, fascinado, parecia-me, com
o meu saber. Enquanto ia comendo os figos, voltava-se para
trás, parando muitas vezes para olhar em volta,
interrompendo-me o fio da narrativa. "Mas o que é que se
passa?", perguntei-lhe. Respondeu, surpreendido com o meu
tom brusco: "Não tens medo de falar assim dos deuses?"
Lembro-me perfeitamente das palavras que me escaparam na
altura: "Medo de quê, se os deuses não existem?" Ele olhou-
me em silêncio por instantes, à espera de uma explicação,
depois corou como se tivesse sido esbofeteado e gritou, fora
de si: "Não é verdade, não é verdade!" E começou a correr na
direcção de Sulmona, e só consegui apanhá-lo já perto da
cidade, chorando apoiado a uma árvore. Não afastou a minha
mão, pois passávamos ambos pela mesma crise, cada um à sua
maneira. Mais tarde, em Roma, integrámo-nos no ritmo de vida
dos outros, habituámo-nos a acreditar, senão nos deuses,
pelo menos nas atitudes dos homens em relação aos deuses.
Sem isso, teria sido impossível vivermos, fazer carreira,
ter sucesso, fazer amor com uma mulher honesta ou com uma
puta.

19

Será que o Inverno está a chegar ao fim? Não tenho a


certeza. Neste país não podemos fiar-nos em nada. Em todo o
caso, eis o sol que aparece. As minhas mãos conseguem de
novo mexer-se. Tive de abandonar as notas secretas, porque
estava frio de mais para escrever. Fiz de urso durante um
mês, na companhia do meu cão "Augusto". Entretanto passaram-
se tantas coisas! Dokia entrou para o meu serviço.
Por enquanto, ela porta-se com indiferença, só conhece
algumas palavras de latim, algumas de grego e ensina-me a
sua língua, o geta. Tem talvez vinte cinco anos e mora junto
de Tomos, no bairro dos pobres, quer dizer, dos indígenas,
que fica fora das muralhas. De manhã, quando chega, parece
um animalzinho, completamente embrulhada numa pele de
carneiro. Poderia ser bela, vestida como Corina. Entre os
Getas, deve certamente passar por uma beleza, de cabelos
castanhos e olhos profundos que tentam parecer severos.
Severos em relação a mim, o Romano conquistador, ou pura e
simplesmente o Homem, pois há uma história de homem na vida
dela e apostaria mil sestércios que ficou viúva ou foi
abandonada e que tem, ou teve, um filho. Informei-me sobre
ela junto do centurião Honório, com quem troco umas ideias
de tempos a tempos. Não é uma escrava, e, segundo consegui
perceber, presta pequenos serviços aos Romanos dando-lhes
informações sobre as intenções dos Getas. E presta
certamente grandes serviços aos Getas informando-os do que
conseguiu entender quanto às intenções dos Romanos. Muito
séria, como todos os bárbaros que ainda não atingiram a
subtileza do sorriso e vivem entre as duas extremidades
rústicas, da gravidade à alegria ruidosa; faz as suas
tarefas quotidianas em silêncio, como se tivesse
permanentemente qualquer coisa a censurar-me. Como apreciar

20

este mutismo amuado? Como não gostar dela? Mas os


ensinamentos da Arte de Amar são inúteis perante este pedaço
de mármore que nunca foi polido por uma carícia.
Ártemis vem ver-me por vezes, quando não tem clientes em
casa, pois não posso viver sem mulher. Honório compreendeu-
me sem dificuldade, e foi ele quem ma apresentou. É Milésia,
ou pelo menos a mãe era. Quando ela entra, lembro-me
imediatamente da viagem que fiz à Grécia na companhia do meu
amigo Gneu Pompeio Macro, no início da juventude. Foi em
Atenas, onde conheci uma primeira Ártemis. Mencionei, a
esta, a aventura distante e ela disse, esfregando-me os pés
gelados entre os seus sempre escaldantes: "É um nome que
traz sorte." Que sorte é que o nome lhe trouxe? Contenta-se
com pouco, como todas as prostitutas. Talvez pense, nos
momentos de solidão: "Podia ter tido pior do que isto." O
que poderá, porém, ser pior do que isto? Um exílio. A
resposta não se fez esperar. Ainda me custa a escrever. Os
dedos perderam o hábito. Mas, quando voltar a Primavera,
hei-dei um dia contar a história de Ártemis, a mulher com
sorte.
Esta manhã, remexendo num cofre, encontrei o focalê de
Corina. O brilhante amarelo de outrora, empalideceu com o
passar dos anos, mas ainda tem o perfume dela, quase
imperceptível, mas tão vivo, tão forte, tão doce e tão duro
para mim. Este lenço, com o seu perfume e a sua cor, fez-me
passar a manhã toda em Roma, em plena juventude. Tinha
acabado de regressar da minha viagem à Grécia e à

21

Sicília, ou não, foi exactamente um ano mais tarde, quando a


conheci, nas calendas de Setembro. Tinha passado dois meses
em Sulmona, em casa de parentes meus, onde tinha começado a
escrever a Medeia - gostaria tanto de nunca mais ter de
encontrá-la, esta Medeia cuja lembrança assombra as muralhas
de Tomos, mas infelizmente reencontrei-a, triste sobra dos
meus primeiros entusiasmos - e também tinha tido tempo de
pensar em Gaia. Gaia era filha de uma violaria e morava no
mercado, com a mãe, num quartinho nos fundos da taberna
delas. A velha saía todas as noites na companhia de um
escravo e de um burro, procurar flores em qualquer ponto da
Via Ápia. Assim, Gaia ficava sozinha nas últimas horas da
noite. Misturando-me com os carroceiros que se espalhavam a
esta hora pelas ruas à volta do mercado, passeava diante da
taberna à espera que a velha saísse. Estava muito escuro.
Ardiam algumas tochas diante das portas abertas das lojas,
onde, entre frutos e legumes, se agitavam rostos ainda
inchados de sono. Eu entrava, sentindo-me em plena atmosfera
de templo, pois, na obscuridade, a taberna impregnada
durante anos pelo cheiro das flores, tinha um perfume mais
forte do que o do templo de Cibele; subia os poucos degraus
que conduziam ao cuniculum, que servia, tanto de de sala de
jantar, como de cozinha e, tac-teando no escuro, procurava a
cama. Gaia dormia. Eu despia a toga e estendia-me ao lado
dela. O cheiro das flores misturava-se com o de azeite frito
e com o do corpo da minha amante. Ainda não era dia claro
quando saía e por vezes cruzava-me com a mãe que regressava,
o escravo e o burro curvados sob o peso dos ramos de rosas,
de violetas, de lírios bravos ou de crisântemos, conforme a
estação. Durante o dia voltava a passar diante da loja de
Gaia, pois ela era muito bela e durante a noite eu nunca
podia vê-la. Comprava-lhe sempre flores e, ao pegar no meu
ramo, aper-

22

tava-lhe furtivamente a mão e dizia-lhe palavras de amor, em


voz alta com um ar muito sério, porque a mãe era surda.
Alertada pela assiduidade das minhas visitas, a velha um dia
perguntou-me: "As flores são para a tua noiva, rapaz? Deves
estar muito apaixonado por ela!" Respondi, inclinando a
cabeça: "Sim, apaixonado por Gaia." A velha só entendeu o
meu gesto e sorriu, piscando-me o olho. Não sabia que quando
se ausentava eu tomava o seu lugar na cama.
Foi nesta loja que encontrei Corina. Ao tempo, ela era
sustentada por um armador que vivia em Óstia e vinha vê-la
uma vez por semana. Escrevi nos Amores:
Non est certa meos quae forma invitet amores Centum sunt
causae, cur ego semper amen (2)

Que mentira! Só a amava a ela, e nunca amei senão a ela.


Corina foi a praeceptorix do praeceptor amoris. Éramos da
mesma idade, e entendemo-nos desde o primeiro instante. Para
se realizar, o nosso amor não precisou de todas as fórmulas
e receitas que inventei no meu "Arte" para os tímidos, os
feios, os tolos, os velhos de mais, enfim, para todos os
que, ao encontrar o objecto do seu amor, não têm a sorte de
encontrar Corina. Segui-a na rua, sem dar importância
nenhuma ao olhar de Gaia, ferido de morte. Muito perto de
casa dela, para os lados do Aventino, mandou entrar a
escrava que a acompanhava numa loja onde eram clientes, e
consegui aproximar-me e falar-lhe. Parecia tímida, mas não
era. Mesmo meses e anos depois, antes de eu a beijar, ela
tinha sempre o ar de quem não me conhecia, de ficar
surpreendida com a minha presença, exactamente como

(2) Não é uma só beleza que desperta o meu amor Tenho sempre
cem motivos para amar

23

nessa manhã na rua, quando lhe dirigi a palavra pela


primeira vez. Corina habitava uma casa recém-construída,
sobre o Aventino. (Será verdade o que acabo de escrever?
Haverá algo que não seja ilusão no que me dá força para
sobreviver, e gritar todo este desgosto? Serei mesmo Ovídio,
o poeta de Roma, o amante de Corina, esse que tudo teve e
tudo perdeu? Tinha-me habituado à ideia da velhice e da
morte. Os homens foram criados com esse destino. Mas sou o
único cidadão de Roma exilado em Tomos, o mais distante
possível de tudo o que foi a minha vida. Como conseguir
convencer-me de que tudo faz parte da ordem natural das
coisas?).
Corina habitava uma casa recém-construída, sobre o Aventino.
O seu protector, um tal Favorino, tinha-lha comprado. A
minha amiga era de Perusa, os pais tinham morrido,
soterrados nos escombros da sua própria casa durante um
tremor de terra, e Favorino, cunhado da mãe de Corina,
tinha-a acolhido em casa e feito dela sua amante. Era
imensamente rico e tinha então a idade que eu tenho hoje. A
idade em que se é traído e em que se começa a trair sem
remorsos.
Ela marcou-me um encontro em sua casa, nessa mesma noite, e
separámo-nos depois de três noites e dois dias passados
juntos. Como falar dela sem pensar na tragédia comum que se
abateu sobre ambos: éramos e somos da mesma idade. Mas para
que servem estas mágoas estúpidas: ela era bela no tempo em
que a amava. É fundamental e ninguém poderá roubar-me esta
verdade. Tinha os olhos verdes. Olhá-la, dava a sensação de
mergulhar numa água clara e fresca. A timidez caía por
terra, a par com o vestido, sempre que ficava junto de mim,
muito perto, e um riso silencioso alegrava-lhe a expressão e
o corpo. Era como se fosse inundada pela luminosidade
maravilhosa desse riso,

24

que se formava no fundo dos olhos e a cobria toda com o seu


brilho. Depois do amor, sentava-me na borda da cama, ela
vinha pousar a cabeça nos meus joelhos, deitada ao comprido,
e eu acariciava-lhe as pesadas tranças, brilhantes como um
crepúsculo de ouro e de cobre.
Como me faz feliz não escrever como estava habituado - ou
era obrigado - a fazê-lo! A minha prosa não tem deuses, não
tem heróis, nem metamorfoses mitológicas. Neste segredo só
meu, sou livre de escrever como penso e como vivo.
Simplesmente. Culta placent, era a minha fórmula, o meu
disfarce, que abandonei ao abandonar Roma. Continuarei a
escrever, mais tarde. Dokia acaba de me trazer o almoço, e
tenho fome.
Levado por um sentimento de que hoje me envergonho, passei
um dia diante da loja de Gaia. Estava lá, como
habitualmente, e recebeu-me apertando-me a mão e dizendo com
ar sério, pois a mãe também lá estava: Espero por ti esta
noite. Não tive coragem de recusar, embora o consentimento
significasse uma noite a menos com Corina. Estávamos a um
mês ou dois do nosso primeiro encontro. Mas como quebrar
assim os hábitos? Lembrei-me em seguida de que Favorino
deveria chegar durante a tarde, e de que eu estava,
portanto, livre. Corria ainda Outubro, e o frio e a humidade
penetrando na toga, faziam-me tiritar enquanto esperava, na
noite, pela saída da velha. Por fim lá ouvi o bater da
porta, os passinhos do burro afastando-se sobre as largas
pedras da calçada, e entrei. A taberna cheirava a cri-

(1) "Tudo o que é requintado me agrada".

25

sântemos como um cemitério, e o cheiro era tão forte que me


faltou o ar, e tropecei por entre as jarras e os vasos. Subi
a escada familiar. Desde manhã que eu tinha a certeza de não
estar a fazer uma boa acção ao aceitar o convite da minha
antiga amante, e, ali na obscuridade, no meio do cheiro a
cozinha, a flores e a miséria, que me fazia pensar nos
suaves perfumes do quarto de Corina, estive a ponto de
voltar para trás. Mas Gaia já se agitava debaixo dos
lençóis. Despi a toga como de costume, e inclinando-me para
não bater com os joelhos na borda da cama, estendi uma mão
prudente. No momento em que tocava aquilo que esperava serem
os seios de Gaia, soou na noite um grito de animal ferido de
morte. Era a velha. Gaia saíra da loja uns minutos antes,
deixando a mãe na cama. Fugi rapidamente, enquanto a mãe
gritava "Agarra que é ladrão! Agarrem o assassino!". Gaia
vingava-se assim da minha traição. Nunca mais a voltei a
ver.
Vem-me uma terrível vontade de rir ao reler esta história.
Esse Outono foi a época mais feliz da minha vida. Tinha
sucesso, o meu nome começava a ser conhecido e tinha já
iniciado a leitura dos primeiros versos da Medeia no círculo
de M. Valério Messala, o perfeito de Roma, onde tinha
encontrado uma vez o divino Virgílio, e onde me dava com
Horácio, Propércio, Tíbulo e outros, todos eles glórias da
Roma de Augusto. Delia tinha-se tornado célebre porque
Tíbulo a cantara. Decidi cantar Corina. Há algum apaixonado
que tenha conhecido estes versos e não tenha tentado imitar
a felicidade desse par perfeito? Os versos, que exprimiam a
minha ventura de então, foram, infelizmente, a causa do meu
exílio. Poderei acusar Corina? Lançar às chamas este lenço
amarelo que assinala no tempo, o início da minha desgraça? O
império de Augusto é grande, mas os amores de Júlia já o
corrompem. Os meus Amores não são a causa

26

deste mal, somente o seu reflexo. O meu crime foi o de


escrever sobre o que os meus olhos tinham visto. Augusto,
entre o furor e a desilusão, confundiu causa e efeitos e eu
fui a vítima propiciatória desta confusão. Tentou por todos
os meios pôr fim ao vício, salvar a família, reforçar o
culto dos deuses e da pátria, mas em Roma quem é que
acredita ainda em tudo isto, apesar das leis e do exemplo do
imperador? E se Augusto é puro, prudente, austero e
patriota, a família dele não o é. Júlia não é mais casta do
que Ártemis, e sem dúvida é-o menos do que Corina. Assisti
tantas vezes aos seus excessos, mas nada nela me chocava,
porque havia em Roma muitas mulheres debochadas. Uma noite,
em casa de Fábio, molhou o dedo numa taça cheia de vinho
tinto e começou a desenhar na mesa os detalhes mais íntimos
do corpo de Silano. Ria-se perdidamente, e todos os
convidados reconheceram que tinha talento. Ela excitou-se e,
aproximando-se de Silano, despiu-lhe a toga e o resto da
roupa para nos fazer ver que o seu desenho respeitava os
cânones de Fídias e que era uma boa cópia da obra da
natureza. Deram-lhe razão. Os homens admiraram o desenho, as
mulheres o modelo. Depois fez o seu próprio retrato e a cena
terminou na orgia habitual. Augusto foi informado e ficou
furioso, como sempre que um acto qualquer lhe parecia ser
dirigido contra a sua própria pessoa. Exilou Silano e Agripa
Póstumo que estavam entre os convidados, e afastou Júlia de
Roma. Mas quem era a causa destes crimes lesa-majestade? Não
queria de forma alguma tomar consciência de que o próprio
império, portanto Augusto, tinha provocado esta derrocada, e
de que quanto mais povos fossem conquistados, mais o império
apodreceria, conduzido à ruína pelas riquezas que, de todos
os lados, afluíam a Roma. Existem em Roma mais de 150.000
pessoas sustentadas pelo erário imperial, 150.000 ociosos
que vivem, no fundo, do

27

trabalho dos povos conquistados. Augusto dá-lhes de comer, e


amontoa-os no circo e no teatro para que gritem "Viva
Augusto", dando-lhe assim a prova da sua popularidade e do
seu poder. Mas quem teria a coragem de lhe dizer: "A causa
da ruína reside em ti próprio, e o teu poder está na base da
nossa decadência, que se aproxima?". Foi-lhe mais fácil
deixar-se convencer de que a podridão começara nos meus
versos. "Ovídio escreveu os Amores e a Arte de Amar
(esquecendo-se dos Fastos). Corrompeu a nossa juventude, deu
maus conselhos às mulheres casadas (ou seja, Júlia), e
maculou tudo: o amor, a família, os deuses. Destruamos a
causa e o mal desaparecerá." Uma noite, comunicou-me a
sentença: desterrado para Tomos. Essa noite dos idos de
Novembro - que descrevi na terceira elegia do primeiro livro
dos meus Tristia, escrita no caminho antes de chegar aqui -,
a imagem dessa última noite em Roma ("Cum subit illius
tristíssima noctis imago...") enche-me ainda de ódio e de
desespero. Eis-me acusado de destruir o império, como se eu
fora imperador! Errava de um quarto para o outro, corria ao
jardim, regressava, procurava por toda a parte qualquer
coisa para levar comigo, uma coisa que me fizesse sobreviver
no exílio, uma imagem de Roma e da minha vida passada.
Encontrei duas: o focale de Corina e o ódio por Augusto. Por
um acaso, essas duas imagens têm a mesma cor.
Não queria consagrar uma só linha ao horror que desencadeou
a catástrofe da minha vida. Mas não posso impedir-me de
falar. Alivia-me. Teria sido alguma vez capaz de dizer a
verdade, ou sequer de a encarar, se a catástrofe se

28

não tivesse produzido? Infelicidade-Felicidade, mas sou ou


não discípulo de Pitágoras? A minha imagem oficial não está
morta, pois nas conversas com Honório falo do "grande"
Augusto, o filho de César (ele acredita verdadeiramente que
o é, tal como acredita ser um deus) e dos benefícios que
dispensa aos Romanos, mas o exílio presenteou-me com outra
face, e tentarei aperfeiçoá-la mesmo que a clemência do deus
me chame de novo a Roma. Não sou o único a ver a verdade.
Provavelmente Agripa também a vê. Mas sou o único a escrevê-
la.
Durante todo o caminho de Roma a Brindisi, de Brindisi a
Léchée e a Cêncreas, de Imbros a Samotrácia e a Tempiros -,
onde Sexto Pompeio me deu uma prova de amizade ao receber-me
à sua mesa, apesar da condenação que me exclui das fileiras
das pessoas honradas, e ao fazer-me acompanhar por uma
escolta para que pudesse atravessar são e salvo o país dos
Bístones -, de Tempiros a Lâmpsaco, a Cízico, a Bizâncio e a
Dionisópolis, até Tomos, não fiz senão pensar e repensar na
injustiça que me foi infligida e nos meios de aplacar a
cólera de Júpiter. Mas foi só depois de ter chegado,
desenraizado de todo o meu passado e de toda a falsidade que
o encheu, que me descobri a mim próprio. Sofro por estar
aqui e luto através das cartas que escrevo para obter o
perdão e regressar um dia à minha casa, ou, pelo menos, para
ser exilado noutro local, com um clima mais suportável e no
meio de homens que não sejam bárbaros, mas não lamentarei
nunca o instante em que pude debruçar-me livremente sobre a
minha alma, sem desgosto, sem medo e sem humilhação. E foi
nas margens do Ponto Euxino, junto a essas águas que por
vezes parecem negras como se fossem o berço da noite, que
aconteceu começar a ser um homem.
29

Durante o dia, tiro a pele de carneiro de frente da janela e


o sol banha-me os pés, como água quente. Entre a hora
septima e a hora nona (4) saio de casa para me acostumar de
novo à luz e ao vento. Não sigo todos os dias o mesmo
itinerário, mas, ao sair, sou obrigado a passar pela rua
que, sempre ao longo da fortificação, conduz ao porto. Só
muito raramente o mar está calmo, e os barcos, na sua
maioria gregos, balançam-se furiosamente sobre as vagas
antes de entrar na pequena enseada. No extremo do pontão,
que defende o porto da violência do mar, há um farol,
graciosa cópia do farol de Alexandria, em miniatura, bem
entendido, até porque em Tomos tudo é mais pequeno do que
nos outros sítios. Também há barcos romanos, que chegam de
Brindisi ou de Óstia e que muitas vezes trazem correio para
mim. Os amigos não me esquecem, e Fábia também não. Chegam a
enviar-me presentes, livros; na semana passada, Fábia fez-me
chegar uma colecção de estiletes em prata, que há muito
tempo me apetecia ter. Sou ainda um homem rico, porque
Augusto não me confiscou os bens (5) e estou certo de que
Fábia vive mais à sua vontade depois da minha partida, pois
ela pensa duas vezes antes de gastar um sestércio, enquanto
que eu estava habituado a satisfazer todos os meus
caprichos. Ao regressar a Roma, um dia, vou encontrar a
fortuna aumentada. Tenho um prazer enorme em falar com os
marinheiros, romanos ou gregos. Sabem tudo o que se passa no
mundo e parecem-se comigo, no sentido de que têm medo de
Augusto, tanto medo quanto têm todos os seres humanos que
compõem o império. Aqui, habituei-me

(4) Entre o meio-dia e as 15,45h, solstício de Verão.

(5) A relegatio não implicava o confisco dos bens.

30

a dar conta de que esse medo se exprime por sonoras palavras


de admiração dirigidas ao imperador. Como os Gregos ficam
insignificantes quando louvam um chefe político! Perderam
tudo, a liberdade, a riqueza e, tal como eu, até o direito
de maldizer. De todos os dons passados, conservaram o do
comércio, mas isso não chega para manter um povo na primeira
linha em relação aos outros. Têm ainda filósofos e poetas,
mas a sombra de Augusto obscurece as suas obras e irá fazer-
lhes secar, pouco a pouco, a fonte do génio. De qualquer
forma, estes marinheiros refrescam-me as recordações, e
faço-os falar das cidades e das ilhas que visitei há mais de
trinta anos. Respeitam-nos, mas há um sorriso ao canto da
boca que deixa transparecer a verdadeira opinião que têm dos
Romanos. Os nossos marinheiros não gostam de se misturar com
eles, porque esse sorriso humilha-os. Há muitas vezes
desordens nas tabernas situadas nas ruelas que vão do porto
para o centro, e já assisti a muitas. Os deuses não
combatiam com menos rudeza. Partem tudo, os corpos enlaçados
rolam na lama das vielas, e vi um marinheiro de Samos ser
atirado para fora de uma janela, como uma bola. Juraria que
ia ficar esmagado, mas levantou-se rapidamente para se
lançar de novo na pancadaria. Cobrem o braço esquerdo com um
bocado de pano enrolado, que serve de escudo. Os dentes
brancos também parecem facas. Mas raramente corre sangue,
pois são todos mestres consumados nesta arte do combate
silencioso, nos fundos de uma tasca, nas trevas de um
lupanar, num canto de rua mal iluminado. Só as mulheres
gritam, mas quando a guarda chega, já só encontra os restos
da tempestade, algum ferido, os therniopolaé (6)
aterrorizados ou também feridos, barris e ânforas quebrados,
e o vinho tinto a escorrer até à rua.

(6) Taberneiros.

31

Às vezes, entro nessas tascas, geralmente propriedade de


Gregos. O vinho é bom, porque vem das ilhas, embora alguns
vendam vinho da região, mais acre e muito forte. Tem o gosto
desta terra que não conheço. Disseram-me que os Getas são
grandes bebedores de vinho e que durante o Inverno enterram
as vinhas para que não gelem. Muitas vezes, o frio faz
rebentar as ânforas, e é preciso partir o vinho em pedaços
que em seguida se aquecem no fogo, para que volte a ser
líquido. Quando estava em Roma, teria jurado que a vinha não
cresce sob a Ursa Maior e que aquilo a que chamamos homens,
aqui seriam animais de duas patas desprovidos de sentimentos
e de razão. Mas verifico que as mulheres, a avaliar por
Dokia, são mais puras do que as nossas e que os homens são
homens. Pode-se viver em qualquer sítio onde seja possível
acender o fogo e trocar umas palavras com alguém. Roma não é
mais do que um capricho, um pontinho, talvez demasiado
brilhante, no meio da noite humana.
Ontem, ao cair da noite, fui ao outro lado da cidade visitar
Ártemis. Comparadas com as de Roma, as distâncias aqui são
ridículas, mas as ruas estão sempre cobertas de lama, de
neve ou de poeira. Ela estava à minha espera e tinha-me
preparado um jantar delicioso, verdadeiramente delicioso,
comparado com os pratos primitivos e monótonos que Dokia
cozinha. Havia mesmo amêndoas cristalizadas, azeitonas
pretas, figos secos e vinho de Quios. São presentes que os
armadores e os capitães ricos lhe dão. Ela está longe de ser
tão bela quanto Corina, mais possui a refinada arte de se
vestir com simplicidade e elegância e sabe dizer coisas que
aquecem o sangue e fazer elogios estúpidos, mas excitantes.
Desempenha o seu papel com talento e não lhe peço mais do
que isso. A sua conversa é uma preparação para o amor. Tudo
o que conta refere-se a homens e a mulheres

32

que se amam apaixonadamente, a casais perfeitos, ou então


fala dos amores dos deuses, que são histórias muito mais
picantes e que constituem o tesouro afrodisíaco de toda a
cortesã sabedora do seu ofício. Reparei, ao longo das minhas
inúmeras aventuras, que o adultério cometido por Marte e
Vénus, esposa de Vulcano, era considerado como o mais eficaz
dos excitantes. Muitas vezes, enquanto nos amamos, Ártemis
sussurra: "Oh, Marte, meu amor!" Põe-se a si própria na pele
de Afrodite.
Escuto-a com prazer, pois ela fala um grego maravilhoso.
Fiz-lhe as honras do festim de ontem à noite e ela contou-me
pormenores da sua vida. A mitologia mistura-se, de um modo
por vezes irritante, com tudo o que diz, e acho que ela
alcançou o grau de loucura feliz que a faz confundir-se com
a deusa do amor e com outras personagens menos famosas.
Corina era muito mais realista. A história de Ártemis começa
por esta evocação absurda: vivia em Sesto, no Bósforo, os
pais eram ricos, e ela apaixonou-se por um jovem habitante
da cidade em frente, Abido, situada na margem onde outrora
Tróia erguia as suas gigantescas muralhas protegidas pelos
deuses. Para se lhe juntar, o jovem atravessava todas as
noites o mar, a nado, e ela esperava-o acompanhada pela ama,
agitando uma tocha cuja chama guiava o nadador. Amavam-se na
praia ainda quente, à luz das estrelas, ao som da música
embaladora das vagas do Helesponto, enquanto, perto deles, a
ama dormia ou fingia dormir. Mas uma noite Ártemis, fatigada
por tantas vigílias adormeceu também, o facho caiu-lhe da
mão, apagou-se na areia e o jovem, que ao largo lutava com
as vagas, privado do seu farol, afogou-se. Louca de dor,
Ártemis abandonou o lar paterno (a mãe era Milésia) e
embarcou no primeiro navio que a levou a Tomos onde, para
esquecer e para sobreviver, se tornou a cortesã favorita das
personalidades

33

com altos cargos e de todos os que tinham dinheiro


suficiente para pagar uma noite com ela. É uma história
muito triste. E ela conta-a com tanta convicção que eu nunca
ouso lembrar-lhe que está a reproduzir a aventura de Hero e
Leandro. Certamente há algo de verdade na tragédia que está
na base da sua carreira, e não me parece necessário traçar
uma fronteira entre a verdade e o mito. Ela não deveria ser
capaz de reconstituir os factos, porquanto, à força de
repetir centenas de vezes a história da morte do seu
primeiro amante, na versão que conseguiu ao entretecê-la com
o drama mitológico, é mais fácil que se identifique com Hero
do que com aquilo que na realidade foi. Confunde o seu
primeiro amor com o de Hero, e os outros, os inumeráveis,
com os de Afrodite. Enquanto a sua juventude é terrestre e
pura, a sua vida de cortesã, integrando-se no corpo da
deusa, é um fragmento da impureza do Olimpo. Não pude
impedir-me de perguntar: "Sabes que a tua história me lembra
a de Hero e de Leandro. Conhece-la? - Não, respondeu-me sem
se comover, mas isso não me espanta. A minha vida é toda ela
feita de semelhanças com o divino. Um oráculo previu que eu
estava destinada a um deus. Até podes ser tu esse deus que
espero. Não tenhas medo, não te trairei." Deixou-se deslizar
para o chão e abraçou-me os joelhos com os braços nus. Estou
certo de que vê esse deus predestinado, em cada um dos seus
clientes. Deve ter frequentes desilusões. Foi-me preciso
chegar a Tomos para encontrar em alguém a fé intacta, como
no tempo de Ulisses quando as metamorfoses faziam parte do
dia-a-dia. Qual das cortesãs de Roma seria capaz de se tomar
por Vénus, de confundir a sua primeira loucura com a de
Hero, e de esperar, noite após noite no seu leito maculado,
o deus capaz de lhe trazer o verdadeiro amor e torná-la numa
estrela eterna, ou numa fonte na orla de um bosque?

34

Estava escuro quando saí de casa dela. A cidade brilhava à


luz da lua. Passando ao longo das docas, no caminho de
regresso, tomaram corpo no fundo da memória dois versos da
carta que Leandro escreveu a Hero, antes da noite fatal.
Unda repercussae radiabat imagine lunae, Et nitor in tácita
nocte diurnus era (7)
Esta manhã, acompanhado por Honório, subi ao alto das
muralhas. Do lado de terra a extensão é tão vasta como do
lado do mar. As cerejeiras em flor brilhavam como círios,
espalhadas sobre a terra ondulada. Da torre ocidental,
protegendo a entrada principal de Tomos, avista-se a cidade
inteira, o mar e a terra dos Getas, de um verde mais suave
do que o do mar, misteriosa e longínqua. Junto das muralhas,
lavradores traçavam sulcos minúsculos com charruas de
madeira puxadas por bois brancos, que tinham o jugo não na
fronte, como na nossa terra, mas preso ao peito. Fiz notar a
Honório que este sistema me parecia mais prático, uma vez
que a força do animal reside mais nos músculos do peito do
que na fronte e no pescoço. Honório encolheu desdenhosamente
os ombros. Despreza tudo o que se passa fora de Itália.
Disse-me que esta terra não produzia quase nada e que os
Getas, vindos do Oeste e do Norte, muitas vezes incendiavam
os campos na época do trigo maduro. E acrescentou: "Um dia,
Augusto deverá submeter à lei de

(7) As ondas reflectiam a imagem da lua e, na noite


silenciosa, era dia claro". (Heroides, Epístola XVII, 77-
78).

35

Roma esta terra, até para lá do Danúbio, para lhe dar paz e
prosperidade." E para ensinar estes bárbaros a aparelhar os
bois... Roma paga-lhe uma boa soldada e ele sabe que dentro
de um ano ou dois será transferido para a Grécia ou para
Itália, conforme os seus méritos. Pode pois falar desta
forma. Quanto a mim, nunca quereria que estes homens livres
fossem um dia obrigados a construir templos à glória de
Augusto.
Tenho muito tempo diante de mim. Muito, se o contar por
horas e por dias. Mas pouco, se pensar nos anos que me
restam de vida. Pitágoras dizia que a vida se divide em
quatro períodos: "A infância, até aos vinte anos; a
adolescência, dos vinte aos quarenta; a juventude, dos
quarenta aos sessenta; e a velhice, dos sessenta aos
oitenta." Segundo este cálculo, estarei pois em plena
juventude. Mas é mais provável que o sábio de Crotona tenha
querido dizer maturidade em vez de juventude. E, se me
tivesse conhecido, ter-me-ia sem dúvida incluído entre os
velhos, sobretudo se lhe tivesse falado das minhas relações
com as mulheres. Ele dizia: "Só se deve fazer uso de Vénus
no Inverno, nunca no Verão; de vez em quando, no Outono e na
Primavera; mas é sempre uma coisa desgastante e muito má
para a saúde." Quando um dos seus discípulos um dia lhe
perguntou qual era o melhor tempo para consagrar ao amor,
respondeu: "Quando quiseres debilitar-te a ti próprio."
Conhecia os ensinamentos de Pitágoras desde a primeira
juventude. Nas Metamorfoses dediquei-lhe uma parte do livro
XV. Mas alguma vez me guiei pela sua sabedoria? Falei

36

de deuses, quando ele falava de um só deus; comi carne,


quando ele recusava todo o alimento proveniente de um
animal; pregava o uso moderado de Vénus, e nesse campo não
fiz senão abusar. Já não sou um homem jovem. Perdi a
juventude aos vinte anos, no momento em que, segundo ele,
estava só a começá-la. Foi exilado, tal como eu, porque
preferiu escolher o exílio em Crotona a suportar os abusos
do tirano Polícrates. No tempo em que vivia em Samos, cidade
onde tinha nascido, contava-se entre os seus escravos,
Zalmoxis, o sacerdote que mais tarde se tornaria pontifex
maximus e o deus único dos meus vizinhos Getas. Que estranha
coincidência! Encontro-me neste momento perante todos os
entusiasmos e todas as angústias da juventude: Pitágoras,
Zalmoxis, Medeia. Um dia, falarei de Medeia, símbolo dos
meus primeiros sucessos em Roma e fundadora de Tomos.
Vivemos seguindo um caminho que sobe, atinge um ponto
culminante, e depois começamos a descer, atravessando pelo
lado oposto todos os mistérios que tínhamos atravessado na
subida. E a morte, assim, não é senão um retorno. Ou, como
dizia Pitágoras, o caminho para outro nascimento. Tenciono
pedir a Dokia informações sobre a sua religião, sobre o seu
Zalmoxis, antigo escravo do meu mestre.
Divulgar a verdade sobre ele fazendo-a chegar aos Partos, ao
mais profundo da África e da Germânia, contar aos povos
submetidos, deslumbrados pela glória e pela lenda moral que
acompanha Augusto, a verdade sobre a sua moralidade.
Defendendo os meus livros, escrevi na Elegia única.

37

Mas ipsa quid est, nisi turpis adultera, de qua Inter


amatorem pugna virumque fui (8)
Se os meus livros são acusados de ter encorajado o
adultério, o que fazem as obras-primas do passado senão
cantar estes amores proibidos que enchem as leis de Augusto
de parágrafos impondo penas e punições? Eu fazia, ao mesmo
tempo, uma alusão à falta cometida por Julia e ao grave
pecado sobre o qual o imperador construiu a sua própria
felicidade conjugal. Não será ele, de facto, o herói de um
adultério? E toda a sua vida sentimental e conjugal não será
um longo cortejo de faltas e de crimes previstos e punidos
pela Lex Julia de adulteriis et de pudititia? Noivo da filha
de Servílio Isáurico, rompe o noivado para casar com Clódia,
filha de Públio Clódio e de Fúlvia, parente de António.
Quando as relações com António, portanto com Fúlvia,
deixaram de ser as melhores, reenviou Clódia à mãe, sem
sequer a ter tocado, é verdade, pois só tinha doze anos.
Tinha-a desposado só para entrar na família de António. Em
seguida, casou de novo, agora com Escribónia, já madura, da
família de Sexto Pompeio, e foi dela que teve a sua única
filha, Júlia, que mais tarde exilaria para a Ilha de
Pandatária. É certo que Escribónia não tinha nada de Vénus
nem de Helena e que era mais velha do que ele, mas o
protector da família romana não pode divorciar-se por tão
pouco. Encontrou então Lívia e desposou-a, tirando-a ao
marido, o pobre Tibério Cláudio Nero, antigo inimigo dos
triúnviros que cedeu a própria mulher ao todo poderoso César
para ter a vida salva. Presenteou Augusto com a sua mulher e
recebeu a liberdade em troca. Dizia-se em Roma

(8) -O que é a Ilíada no fundo, senão a história de uma


ignóbil adúltera por quem se batem amante e marido-.
(Tristia, livro II, 371-373).

38

que o desejo de ter Lívia na sua cama o mais depressa


possível era tão intenso, que Augusto a obrigou a comparecer
à cerimónia nupcial quando estava prestes a dar à luz. Essa
criança, nascida na família de Augusto, era Tibério, filho
do anterior marido de Lívia. E, quando Júlia ficou
suficientemente crescida, obrigou Agripa, e depois Tibério,
a divorciarem-se das suas mulheres para que casassem, cada
um por sua vez, com a filha do Imperador. Será que tudo isto
não é mais complicado, mais desumano e mais imoral do que a
história de amor que desencadeou a guerra de Tróia? E os
versos que ele próprio compôs na juventude, não são muito
mais indecentes do que os meus? Não me perdoará nunca,
porque vi e disse coisas de mais. As últimas alusões da
minha Elegia não lhe irão agradar nada. Fez leis para punir
os outros, porque se considera acima de todas as leis. O que
o contraria e lhe recorda aquilo que na realidade é, são os
meus versos. O tom servil e adulador que adoptei nas cartas
não poderá deixar na sombra o Ovídio, testemunha do seu
passado e das suas turpitudes, presente em Roma através
dessas cartas, que só são servis para conseguirem os seus
fins.
Fugir, mas para onde? Só em Roma a vida vale a pena ser
vivida. Ou então na Grécia. Mas todo o espaço habitável na
terra está ao alcance de Augusto. Iria de boa vontade para o
país dos Getas, mas estou certo de que essa terra não é mais
do que um imenso Tomos onde pagaria a liberdade com o que
resta de saúde e de esperança neste velho corpo usado, cuja
única consolação é a esperança do regresso a Roma.

39

Conheci outro dia o capitão de um navio que rumava a


Trebizonda. Aí, teria podido encontrar uma caravana para o
Oriente, para a índia ou até para mais longe, para lá de
todas as fronteiras conhecidas. Assim seria livre; uma vez
chegado, poderia dizer a verdade toda. Este marinheiro
estava disposto a levar-me com ele, mediante uma soma assaz
modesta. Não sabia quem eu era... Voltei para casa, depois
de ter combinado um encontro com ele para essa mesma noite,
num estado de agitação que punha -Augusto" fora de si. Dokia
ajudou-me a preparar um saco e um cofre, sem dizer uma
palavra, mas os olhos fitavam-me inquietos, e tinham a mesma
expressão de pânico que os do cão. Depois, quando quis
arrastar o cofre, uma dor nos rins pregou-me ao chão. Tive
de me deitar com a ajuda de Dokia, enquanto "Augusto", com
as patas apoiadas na borda da cama, abanava a cabeça de um
lado para o outro, como se quisesse perguntar-me o que se
tinha passado. Estava tão engraçado, que interrompi os meus
gemidos de dor para desatar a rir. No entanto, as lágrimas
não me secaram nos olhos. Esta dor, que durou mais de uma
hora, fez-me alterar os projectos. Fugir, na minha idade,
era uma aventura impossível. As alegrias estreitam-se à
minha volta, como a luz em volta do fogo quando se está a
apagar. Doravante, tudo se concentra na cama e na mesa.
Dormir, fazer amor, comer e escrever. Pedi a Dokia que
arrumasse tudo e saí na companhia de "Augusto". O sol ainda
ia alto no céu quando, deixando para trás a cidade, subi uma
duna de areia à beira-mar. Nesta harmoniosa colina, as
flores e as raras ervas cresciam a uma altura superior à da
minha casa. Sentei-me e pude contemplar a longa praia
estendida para sul, subindo até se tornar, na distância,
numa alta falésia. A água estava azul e calma e as correntes
desenhavam à superfície estradas movediças. À esquerda,
divisava clara-

40

mente o porto de Tomos, com a enseada e o farol alexandrino.


O navio que deveria transportar-me, dobrou-o cerca da hora
duodécima (9) e os remos imobilizaram-se quando o vento do
largo começou a inchar as velas. Segui-o com o olhar até
desaparecer, a direito diante de mim, rumando a leste, para
lá da linha pura do horizonte. Não senti mágoa. Estendi-me
na areia quente e fina, mais fina e mais clara que a de
Óstia, e adormeci, sonhando o mesmo sonho que tenho quase
sempre aqui, quando estou com o espírito tranquilo. Vejo-me
em Roma, na minha casa, passeando no jardim. Chego diante do
muro que o cerca, que me parece demasiado alto e mal
colocado. Queria mandá-lo demolir, para ter de novo diante
de mim a perspectiva do Monte Mário e comunico essse
projecto à minha mulher, que me olha admirada e diz: "Para
quê demolir este muro? Ao menos, impede-te de avistar
Tomos." Lembro-me então de que por detrás desse muro se
encontra Tomos, que não tenho vontade nenhuma de ver.
Quando acordei, ainda havia sol no céu. Apercebi-me de que
Dokia estava sentada, não muito longe de mim, do lado do
mar. Atirava pedras para a água e "Augusto" mergulhava para
procurá-las e, ao sair, lançava-se em loucas correrias pela
praia. Dokia ria em silêncio. Tanto a mulher como o cão
estavam felizes porque eu não os tinha abandonado. Senti-me
em casa, no meio de um pequeno mundo familiar, uma mulher,
um cão, uma casa, seres e coisas que se haviam habituado à
minha presença e não podiam já passar sem ela.
Enquanto me levantava, Dokia aproximou-se e convidou-me a ir
a casa dela. "É muito perto daqui", disse, e deu-me a mão
para me ajudar a descer a duna. O barulho das

(9) Depois das seis horas da tarde.

41

ondas que quebravam na praia e o cheiro das algas que


apodreciam ao sol fizeram-me, bruscamente, amar esta
paisagem solitária. A mão de Dokia reconciliava-me com esta
terra, com este imenso barulho das vagas que não tem nada de
comum com o doce murmúrio das ondas nas praias do meu país.
A casa de Dokia situa-se no limite do bairro pobre, no meio
de um jardim entre o mar e os contrafortes meridionais, não
muito longe da duna. Atravessámos vários canteiros onde
crescem alfaces, couves e tomates, por entre pequenos
canais, até chegar à casa, branqueada a cal, com uma espécie
de terraço abrigado, aberto sobre o jardim e assente em
pilares de madeira. O tecto inclinado é feito de minúsculos
pedaços de madeira, postos uns sobre os outros, como as
escamas de uma couraça. À entrada do jardim, esperava uma
criança, uma menina loira de três anos, que se parece com
Dokia. Um velhote, o avô, apoiado numa enxada, vigiava a
estreita corrente de água que, seguindo pelos canais, ia
espalhar-se num canteiro de vegetais. Cumprimentou-me em
língua geta e continuou o seu trabalho, enquanto a criança
nos seguia para o terraço de terra batida, tal como o solo
de todo o resto da casa. Dokia fez-me sentar num banco
redondo de três pés e trouxe-me uma colher de mel mergulhada
no fundo de uma taça de água fresca. Há já algum tempo que
nos compreendemos perfeitamente, pois ela faz progressos em
latim e eu em língua geta. Do terraço avistava-se o mar, por
cima das dunas de areia, como uma muralha verde cerrando o
horizonte. Ela sentou-se noutro banco, a uma distância
respeitosa. A menina abraçou-lhe a cintura com os dois
braços.
"Como te chamas?", perguntei-lhe, para dizer qualquer coisa.
- "Dokia."
- "E o teu pai?" A criança não respondeu e olhou para a mãe
que me disse:
"O pai dela está longe." Mas não pronunciou

42

nenhum nome.
"É um Geta como tu?" Ela murmurou um "Sim" que punha fim às
minhas perguntas. Então não me tinha enganado. Havia um
homem e uma criança na vida de Dokia, e também um segredo
que não me queria revelar, pelo menos por enquanto.
- Não tens medo dos Getas? Estás ao serviço de um Romano;
eles um dia podem matar-te. Porque é que não vens morar na
cidade?
Abanou a cabeça. "Não. O meu pai tem a sua horta, a menina
brinca entre as árvores e à beira-mar. Sou feliz assim."
- És feliz, Dokia?
Fez que sim com a cabeça.
"Sem marido, tão nova e tão bonita, como é que podes ser
feliz?"
- Para se ser feliz, não precisamos de ter tudo o que
desejamos. Eu sei que a tua opinião não é esta, mas as
coisas são assim." Teria talvez razão, mas a nossa situação
não era a mesma.
- Sabes, Dokia, que eu tinha tudo o que um homem pode
desejar e mesmo assim não era feliz? Ela disse "Sim" e fez
sinal à criança para ir brincar no jardim. "Ninguém é senhor
do seu destino, nem da sua felicidade", acrescentou.
- Então quem é senhor de nós?"
Respondeu sem hesitar: "Zalmoxis."
Este nome encheu a tarde. Era como se o céu, o jardim e o
mar o tivessem também pronunciado, de tal modo era grave e
sonoro, simultaneamente triste e poderoso, como esta
paisagem modelada de acordo com a sua maneira de ser e de
pensar. Senti-me como que invadido pela sua força, obrigado
a obedecer-lhe e a crer nele. Ter-se-ia tornado, antes mesmo
de o conhecer, no senhor do meu destino? Esta mulher,
sentada na minha frente, tinha pronunciado o seu nome e era
a primeira vez que eu o ouvia, proferido pela boca de um ser
vivo.

43

Ao escrever estas linhas, lembro-me de uma coisa estranha:


sentado no jardim rústico, junto de Dokia, enquanto
trocávamos as palavras que acabo de reproduzir, esqueci
completamente a minha desdita, onde estava e porque lá
estava. Através da jovem tomava consciência daquilo a que
Pitágoras tinha chamado, há quinhentos anos atrás, o deus
único. E tudo se apagava diante desta ideia nova, que no
fundo eu já conhecia, mas cujo verdadeiro conhecimento me
esperava nos confins da terra, junto dos muros de Tomos,
surgindo como a única forma possível de consolação. Porque
não somos senhores do nosso destino.

44

SEGUNDO ANO

Existirão aves mais trágicas do que estas gaivotas de voo


harmonioso e um piar que me dilacera a alma, como se fosse
prenúncio de uma desgraça, como se tentasse ressuscitar a
memória de uma outra vida consagrada aos mais terríveis
crimes? Penso em Medeia... As nuvens baixas cobrem o céu por
inteiro, dando ao mar uma cor sinistra, simultaneamente
verde e cinzenta, sobre a qual se destacam as asas brancas
desses pássaros agoirentos, que mergulham de tempos a tempos
no meio dos redemoinhos para apanhar um peixe. Pairam sobre
as águas e lançam o seu grito agudo no meio da tempestade,
como se quisessem livrar-se do peso do passado. Estou no
alto da colina, perto da casa de Dokia. É um Inverno ainda
suave, mas tenho a certeza de que a neve vai chegar esta
noite ou amanhã, trazida pelo vento norte. A erva secou e o
vento assobia através dos troncos ossudos e torturados. O
mundo está cheio de dor e a vida passa através dos homens,
como este vento, fazendo tremer os corpos e as almas: o
Inverno aproxima-se, o Verão foi só esse curto espaço de
deslumbramento em que a morte se torna possível. Não se vê
vivalma. As águas e as margens estão desertas. O porto, ao
longe, vazio. Só as gaivotas suportam este clima e fazem eco
à pouco hospitaleira natu-

45

reza. Voavam com a mesma indiferença no dia em que Medeia


matou o irmão, aqui, nesta margem, no meio destes gritos
feitos para acompanhar os pecados dos homens. Do alto desta
mesma colina ou da falésia que se perde para o sul, avistou
o navio de Eetes, seu pai, a quem outrora abandonara para
seguir Teseu. Tinha sido a mulher de Jasão e tinha-o ajudado
na conquista do Velo de Ouro, na Cólquida, situada nesta
mesma costa, um pouco mais a norte. Ela tinha matado... Mas
já contei essa história. Vejo diante de mim a bela e
perversa feiticeira, com os olhos cheios de angústia,
errando na praia estrangeira. O pai encontrara-a, enfim, ia
desembarcar, não poderia mais escapar à cólera dele. "...e,
embora uma imensa audácia lhe restasse ainda no espírito, a
palidez invadiu a face da mulher estupefacta." Estes versos,
da Elegia Nona, escrita há menos de um ano, avançam para mim
ao ritmo das ondas, como se o mar fosse a minha memória.
"Fui apanhada, tenho de deter o meu pai, preciso de um
estratagema!" A sua vida tinha sido cheia deles. Não
conquistara Jasão com um estratagema? Conhecia todos os
segredos da arte da magia. Mas, diante do seu velho pai as
fórmulas mágicas não funcionavam, baralhavam-se-lhe na
cabeça, tornavam-se confusas e inúteis, e o grito das
gaivotas impedia-a de pensar. O vento assobiava nos caules
das ervas secas e o barulho das vagas enlouquecía-a. Junto
dela encontrava-se o irmão Absirto. Descobriu nele a
solução. Empunhando o gládio, trespassa-lhe o flanco
inocente e desfaz em pedaços o jovem corpo, carne igual à
sua, e expõe sobre um rochedo, bem à vista - no local onde a
falésia é mais alta -, a cabeça ensanguentada e as mãos
lívidas de Absirto, como um farol resplandecente, mais forte
do que a luz, para que o pai as avistasse de longe. Depois
espalha pela praia e pelos campos os membros arrancados que
Eetes, na sua demanda obstinada, irá descobrir pelo meio

46

dos espinhos e das pedras. Assim, será obrigado a atrasar a


perseguição para recolher estes fragmentos horríveis e
Medeia ganhará tempo na fuga. Consigo ver esta fuga, ouvir
os soluços do velho Eetes, curvado, procurando no chão para
não abandonar aos corvos a carne do seu filho, mas avançando
sempre para punir a filha criminosa. Medeia já vai longe
quando o velho consegue enfim dar uma sepultura ao corpo
estraçalhado, esse corpo cuja lembrança paira sobre a cidade
de Tomos como uma revoada de gaivotas.
Inde Tomis dictus locus hic, quiafertur in Mo Membra soror
fratris consecuisse sui.
Começa hoje o meu segundo ano de exílio. No próximo ano
estarei em Roma, haverá já vários meses. Augusto terá
certamente morrido, os meus livros vão estar de novo em
todas as bibliotecas (11) e eu vou estar a contar, nas
termas ou em minha casa ao canto do fogo, os feitos de
Medeia. Esta mulher causa-me horror e, ao mesmo tempo,
inspira-me profunda piedade. Foi joguete dos deuses, que
impelem os homens para a prática de acções odiosas, para
melhor os punir em seguida.
Uma noite, acordei com os latidos de "Augusto". O vento
soprava forte, chovia, o fogo extinguira-se na lareira.
Acalmei "Augusto" e, enquanto esperava por adormecer de
novo, ouvi claramente uma voz de mulher chamando na noite:
"Medeiaaa, Medeiaaa!" O cão recomeçou a ladrar. E tive medo,
enfiado na cama fria.
"Vem daí a origem do nome Tomos, porque, diz-se, foi nesse
local que uma irmã cortou os membros do irmão". (Tristia,
Elegia IX) Tomy, em grego significa corte, amputação.

(11) Augusto tinha retirado os livros de Ovídio de todas as


bibliotecas públicas.

47

Mais um Inverno passou, com as neves, as rajadas de vento, o


isolamento. Ouvi de novo o uivar dos lobos e os lamentos do
vento no telhado da casa. Estive doente durante muito tempo.
O meu corpo, abalado pela febre, não conseguiu deixar a cama
durante dois meses, enquanto o meu espírito, como um veado
que recupera a liberdade, não cessou de, deliciadamente,
retomar todos os caminhos do passado. Bastava um cheiro a
madeira queimada para me fazer regressar a casa, para junto
dos meus; um cheiro a carne grelhada, para mergulhar na
infância e reviver os Invernos de Sulmona, quando o
cozinheiro dos meus pais assava no pátio um enorme porco da
Úmbria, temperado com louro e funcho selvagem; o perfume de
uma rosa meio-murcha que Ártemis me veio oferecer uma tarde,
para reviver as noites que passei em casa de Gaia, em casa
de Corina, em casa de tantas outras mulheres, amadas ou
simplesmente desejadas no final de uma orgia. Tive tempo de
refazer todos os meus livros, de escrever outros com a pena
veloz da imaginação, e tive sobretudo o vagar, como nunca
antes na vida, de pensar em mim mesmo, de me deixar embalar
pela doçura do passado, e sacudir pela realidade deste
presente que para mim é um contacto impiedoso com a verdade
da vida. Todo o homem que envelhece deve ter estas horríveis
visões que o desinteressam da ilusão do quotidiano e lhe
mostram a inutilidade de tudo o que fez e de tudo o que foi,
mas o imenso maquinismo da mentira do dia-a-dia, a família,
a riqueza, a casa, os amigos, a paisagem natal, estão todos
presentes para voltarem a apanhá-lo e o situarem rapidamente
à beira de uma nova ilusão. Somos feitos assim, de pequenas
eternidades que nos levam à morte, por entre as lúgubres
clareiras que constituem estes momentos realistas

48

que acabariam por nos matar mais depressa, se tivéssemos a


coragem de os prolongar. A primeira coisa que fui obrigado a
abandonar, ao vir para Tomos, foi o maquinismo da mentira.
Estava quase a criar um substituto, quando a doença me
deixou, sem piedade, face a mim mesmo. Poderá haver um ser
mais puro, quero dizer, menos contaminado pelas ilusões, do
que um exilado em Tomos? Estou como o bandido Seluro,
sozinho no meio do Fórum, diante das feras selvagens que
dentro de instantes se vão lançar sobre ele e, como ele, sei
que nenhuma esperança é possível.
Uma noite, contei a Dokia, que praticamente não me deixou
durante estes dois meses, a morte de Seluro. O meu corpo já
não sofria, a febre tinha passado, os pulmões respiravam sem
dores e conseguia falar. Seluro era um assassino célebre na
minha juventude, um bandido do Sul de Itália que reinou
durante longos anos sobre caminhos e florestas. Um dia a
polícia apanhou-o e levou-o para Roma. Augusto transformou o
seu castigo em espectáculo. Fui vê-lo, na companhia de
Corina, que costumava assistir aos munera e às venationes
com uma assiduidade, provocada menos pelo desejo de
presenciar a morte e o suplício dos gladiadores e das feras,
do que pelo prazer de ser vista no meio da multidão elegante
do circo. Seluro foi amarrado a um pelourinho erguido no
meio do Fórum e soltaram panteras e leopardos esfomeados. Eu
tinha já visto algumas venationes, embora não gostasse deste
género de espectáculo, mas eram quase sempre as feras que
estavam em pior posição, pois combatiam contra homens bem
armados e mestres na sua arte. Desta vez, o homem tinha os
braços amarrados. Quando as feras chegaram junto dele, com o
pé direito atirou areia para os olhos de uma pantera que se
preparava para lhe saltar em cima. Ainda tenho na memória o
gesto da pantera, esfregando com uma pata os olhos feridos,
numa
Vintila Horia atitude de inocência infantil. Durante um
instante, a tragédia que se desenrolava diante dos meus
olhos tomou o aspecto de um jogo: o homem parecia um
rapazinho, um pouco cruel, que, levado por uma brusca
cólera, tinha atirado areia para os olhos de um gato que
esperava antes uma carícia. Mas a ilusão só durou um
instante. Seluro continuava a lançar areia na direcção dos
seus inimigos, com a desvairada rapidez de alguém que julga
ter encontrado a salvação num gesto insensato, quando um
leopardo saltou por cima da pantera que fora cegada. Fechei
os olhos e tapei os ouvidos, mas foi tarde de mais. Tinha
visto o olhar de surpresa do criminoso, o sangue que lhe
jorrava da garganta, e ouvido o grito, curto e rápido, que
se extinguiu num jacto de sangue. A espera da morte fora
longa, mas a morte durou um instante. O corpo do assassino
foi rapidamente devorado, pois, ao reabrir os olhos, já só
vi a corda ensanguentada pendente do pelourinho onde minutos
antes havia mãos com vida, mãos de homem, e as feras que se
matavam entre si com patadas e golpes das garras, fazendo
tremer o ar de Roma com os seus rugidos.
Ao terminar a narrativa, disse a Dokia: "Neste momento,
estou como Seluro."
Ela respondeu, sorrindo: "Então eu serei a pantera. Ou o
leopardo?"
- Nenhum. Tu serias a esperança absurda. A areia nos olhos
do destino.
Passou um ano desde que ela entrou para o meu serviço, e
durante esse tempo aprendeu a sorrir. Fiz uma amiga. No
entanto, nunca me fala de si própria e a vida dela ainda é
um mistério para mim. Sei que não me odeia e consegui saber
também que nunca me amará, pois tem o coração preso a outro
e o corpo de uma mulher geta nunca trai o coração. Não terei
mais do que amizade, ou piedade. Limito-

50

-me, assim, a aplicar os princípios da minha Ars amandi às


relações com Ártemis. Por quanto tempo ainda?
Honório também veio ver-me durante estes meses de
imobilidade. É alto e robusto e, envolto na sua penula (12),
parecia ainda maior e mais impregnado da sua "romanidade". É
um dos piões que Augusto espalhou pelo mundo para se
defender dos perigos mais longínquos e mais insuspeitáveis.
Tem uns olhos castanhos e pequeninos e, pelo menos no início
das nossas relações, empenhei-me em descobrir no fundo dessa
cor - que lembra a dos descendentes dos Etruscos da Úmbria
-, algum reflexo de bondade e de inteligência. Foi ele que
me trouxe Dokia para casa e que me apresentou a Ártemis.
Todavia, depois da nossa conversa nas muralhas, não tinha
voltado a procurar a sua companhia e as nossas relações não
eram as mesmas de anteriormente.
Quando veio visitar-me, eu ainda fa2ia esforços para falar
pois estava no início da convalescença. Foi, portanto, ele
que teve de procurar assuntos de conversa e de os
desenvolver à sua vontade. Achei-lhe qualquer alteração na
cara; parecia mais magro e mais preocupado, mas depressa
percebi que a alteração não vinha do interior e que a
transformação da face se devia à barba que deixara crescer,
como os Romanos no tempo de Catão, o Antigo. Ou como os
Getas. Apontei-lhe para a barba, sorrindo. Corou
ligeiramente e disse: "Assim tenho menos frio." Mas
compreendi rapidamente que havia outra razão. Os Gregos
também não voltaram a usar barba desde o tempo de Alexandre.
Só os

(12) Grande casaco de lã de pêlo raso, usado nos dias de


frio, de vento e de chuva.

51

bárbaros conservam este hábito, que os aproxima dos animais


selvagens. Logo em seguida a conversa deslizou para outro
terreno, e só agora, ao escrever, é que a barba de Honório
me volta à memória. Estabeleci uma curiosa relação entre
esta barba e as palavras que o centurião pronunciou minutos
depois. Entrou muito depressa no assunto, pois a sua
inteligência não tem subtileza:
- Nunca gostaste dos militares, pois não? - perguntou-me. -
Até escreveste versos para explicar esse sentimento. Li os
versos, há alguns anos atrás, e já não me lembro em qual dos
teus livros foi. Não tens simpatia pela carreira das armas e
achas que matar homens é crime.
Fiz um sinal afirmativo com a cabeça e fui invadido por um
súbito terror. Este homem recebera ordens de Roma e estava a
interrogar-me. Portanto, acumulavam de novo provas contra
mim, para justificar a minha supressão. É típico da técnica
imperial. Assassinaram pessoas muito mais importantes do que
eu, e são esses mortos que assombram o sono de Augusto e de
Lívia. Todavia, o mar está gelado. Quem teria podido trazer
instruções a Honório em pleno Inverno? O interrogatório
continuou.
- "Já deixei Roma há alguns anos. És capaz de confiar em mim
e dizer-me se há muitas pessoas em Itália a pensar assim?
Sei que depois do desastre de Varo na Germânia, o imperador
teve muita dificuldade em encontrar jovens que desejassem
alistar-se nas legiões e dedicar-se à vida militar."
Era verdade. Culpavam-me assim de uma coisa ainda mais
grave. Já não era só o corruptor moral das mulheres romanas,
mas também o da juventude masculina, pois era nos meus
versos que os futuros soldados tinham aprendido a desprezar
o exército e as suas honras. Para quê defender-me? Uma morte
brusca ter-me-ia poupado a sabe-se lá quantas desditas.
"Sim, tens razão no que dizes. A juventude de

52

hoje perdeu o entusiasmo guerreiro. Mas transformarem-me no


culpado de todos os males que afligem o império, é atribuir-
me demasiada honra, é dar-me importância de mais."
- Não era essa a minha intenção. Não te acuso de nada.
Admiro muito a tua poesia para poder considerá-la culpada
seja do que for. E, além disso, eu próprio sou um militar
que não gosta da profissão.
Esta afirmação não deixou de me surpreender. Estaria a ser
vítima de uma simulação? Ao longo de um ano inteiro de
relações bastante estreitas com Honório, nunca tinha
observado nenhuma fissura entre o homem e a farda.
- Achas que estamos a pensar de maneira justa? O
engrandecimento do império é feito à custa do
enfraquecimento ou da destruição dos outros povos do mundo.
- E o que é que querias? Não há na terra senão
conquistadores e conquistados. O homem não é capaz de
imaginar outra solução. No momento em que Roma cessasse de
conquistar, seria a sua vez de ser conquistada por outros.
Não percebo onde queres chegar.
Honório hesitou uns instantes, cofiando a barba, um gesto
novo que acrescentava uma certa nobreza ao seu aspecto.
- Augusto está velho. Tibério irá suceder-lhe. Achas que o
império é a melhor solução?
- Augusto é um deus. Tibério será outro. Não temos direito
de duvidar dos deuses. Sabes isso melhor do que eu.
- Será que os jovens romanos que não querem deixar Roma e
partir para a guerra também pensam assim?
- Ignoro-o. Já não sou novo e sabes quanto admiro Augusto.
- Claro, claro. Era só para saber. Estou a embrutecer aqui.
E, às vezes, penso coisas absurdas. Alguma vez pensaste, por
exemplo, na nossa religião? Alguma vez a com-
53

paraste com outras, com as dos outros povos? Não me refiro


aos Gregos.
- Os cultos estrangeiros, sírios, persas, egípcios, pululam
em Roma...
- Não, não. Referia-me às religiões que falam aos homens de
um Deus único. É possível que estas religiões tenham
encontrado novas soluções para os problemas que consideramos
já resolvidos e de uma única forma. Uma forma talvez injusta
e falsa.
Ia dizer-lhe que estava pouco informado sobre estes
assuntos, para deixá-lo continuar com as suas considerações,
mas Dokia entrou nesse momento e ofereceu ao centurião vinho
quente cujo aroma encheu o quarto. Mudámos de assunto, para
falar do frio e da minha doença.
Repensando agora nesse estranho diálogo, revejo a barba de
Honório. Que me quer este homem? Será um militar hábil,
encarregado por Augusto ou por Lívia de maquinar a minha
perdição? Receberia como recompensa um quarto da minha
fortuna. É o preço para os delatores, essa instituição
criada no tempo do nosso primeiro imperador. Trata-se de um
descontente que começa a confiar em mim? E, nesse caso, qual
é o sinal que lhe fez presumir o meu possível acordo ou
cumplicidade? Sabe bem que escrevo para Roma e que uma
palavra minha poderia perdê-lo. Não consigo ver claro. E
estou cansado. No entanto, aquela barba...
Pois bem, começo a ver claro nesta história da barba de
Honório. Nunca ouvi falar de um caso parecido - um soldado
contra o império! -, mas muito poucas pessoas em

54

Roma, de entre os civis, conhecem o verdadeiro estado de


espírito das tropas. Os civis deixaram de ser militaristas,
como eram no tempo da república, quando os Romanos estavam
dispostos a participar em todas as aventuras de Roma, e,
após o desastre de Varo e das suas legiões, tivemos
oportunidade de avaliar as proporções do abismo que se
cavara entre o povo romano e os militares. Mas mesmo esta
diferença implica um esclarecimento de ordem política: os
civis adoram o imperador, enquanto não forem chamados a
incorporar as forças armadas; os militares adoram Augusto,
enquanto estiverem em guerra, ganharem louvores e
participarem nos saques, quer dizer, quase sempre, porque o
império nunca cessou de empreender campanhas no intuito de
entreter os ociosos de Roma e reforçar a dedicação das
legiões. Cada vitória significa uma possibilidade de saque.
Portanto, é normal pensar-se que a oposição ao império ou a
Augusto pessoalmente, se é que oposição existe, só pode
desenvolver-se no meio dos civis. Por isso, é-me difícil
acreditar que Honório seja um partidário desta oposição,
mesmo se se tratasse de uma atitude individualista. É certo
que me falou dos nossos deuses e dos dos outros, do Deus
único, ou seja, do Deus dos Getas. Não é impossível que se
tenha informado sobre a religião dos bárbaros, que tenha
descoberto uma verdade que se opõe à nossa, e que esta
verdade lhe mostre o império e a sua política de conquista
permanente a uma nova luz, a da injustiça. Nesse caso, é
provável que tenha pensado desta maneira: "Ovídio foi
exilado em Tomos, portanto pecou contra o imperador e estará
certamente disposto a partilhar a minha opinião e a tornar-
se um aliado." Mas o termo aliado pressupõe uma ideia em
comum, uma organização destinada a destruir o estado de
coisas vigente e a reconstruir a sociedade romana sobre
novas bases. Ora, tudo isto é pura utopia. Não existe oposi-

55

ção constituída em Roma. Nos meios intelectuais, nas


escolas, apresenta-se sempre a República aos alunos como um
ideal social e político, entre os filósofos também
poderíamos falar de uma atitude anti-imperial. Mas isto está
longe de constituir um perigo.
E não há dúvida que a polícia imperial está sempre à escuta.
No Campo de Marte, onde muitas pessoas conversam reunidas em
circuli, e onde se discute tudo o que se passa nos limites
do império e para lá deles, o imperador espalhou soldados
vestidos à civil para ouvirem e fazerem relatórios
detalhados sobre tudo o que se diz. Vários cidadãos foram
presos com base nesses relatórios. Muitos foram exilados ou
assassinados por causa de uma frase imprudente. E os
escravos que vivem no meio das nossas famílias e têm ocasião
de escutar tudo o que é dito durante um banquete ou uma
simples reunião de família, não são também espiões da
polícia imperial? Foi um destes escravos que contou a
aventura de Júlia e de Silano e que denunciou o meu nome e o
dos outros convidados. A vida em Roma tornou-se impossível,
no sentido de que se vive no terror dos nossos próprios
escravos. Rodeamo-los de atenções, damos-lhes presentes, já
ninguém ousa ralhar-lhes e nem sequer libertá-los com medo
de parecer que queremos livrar-nos de uma testemunha
incómoda e perigosa. Um escravo delator tem direito a um
oitavo dos bens do seu senhor, se a delação for considerada
verídica. É a forma mais segura de fazer fortuna, a mais
fácil, e pratica-se mais a delação que o desporto.
Recordo-me do pobre Cornélio Galo, o poeta que foi
Governador do Egipto. Após a batalha de Áccio foi
encarregado por Augusto de perseguir António, cujo suicídio
provocou. Logo em seguida, foi nomeado Governador do Egipto,
onde, durante um certo tempo, embriagado pela glória e pelo

56

sucesso, considerando-se talvez descendente dos faraós, se


deixou adular como um deus e ousou julgar-se igual a
Augusto. Por todo o lado foram erguidos templos e estátuas
em sua honra. Proclamou-se todo-poderoso num círculo de
amigos, sem pensar que o ouvido do delator estava presente.
Foi chamado a Roma, julgado e condenado ao exílio. Fez o
gesto que eu não tive coragem de fazer: pôs fim aos seus
dias antes de partir. Augusto não se encontrava em Roma, na
altura. No regresso, chorou, lamentando diante de
testemunhas a morte do amigo, achando que o castigo teria
sido demasiado duro, mas simultaneamente agradecendo ao
Senado por ter sabido mostrar-se tão sensível às injúrias
proferidas por Galo contra a sagrada pessoa do imperador.
Tudo isto evidencia uma situação. É preciso ser-se
inconsciente ou um privilegiado pelo regime para não desejar
uma mudança, para não se dar conta de um facto muito grave:
perdemos toda a liberdade e basta uma só palavra, sussurrada
por um escravo ao ouvido de um polícia, para perder os bens
e a vida. É lógico, portanto, pensarmos que a paz de Augusto
é uma paz dominada pelo medo e que, em Roma ou em Tomos, há
pessoas que pensam de maneira diferente da dos senadores.
Muitos, pagaram directamente com sofrimento, como eu, e
descobriram a verdade depois de experimentarem na própria
carne o rigor de "Júpiter". Mas também os há que chegaram à
mesma conclusão ao tomar contacto, longe de Roma, com outras
verdades. Como Honório.
Disse a Dokia: "A malana hoje estava muito boa." Como
poderia dizer malana em latim, se o prato é desconhecido em
Roma? Aqui, e em toda a região, come-se todos os dias.

57

É uma papa de milho miúdo, ou de trigo, servida com queijo e


manteiga, que também pode ser preparada com mel. Come-se com
a carne, tal como o pão na nossa terra. Malana é um termo
geta que uso diariamente. Habituei-me à palavra, ao prato
que ela representa, como à língua do país. O meu latim
perdeu a pureza original, pois só o falo com Honório e com
Dokia, mas a conversa dela é uma mistura geto-latina que
compreendo perfeitamente, uma vez que entendo o geta tão bem
como o latim. Tentei até escrever versos em geta, língua de
que descubro pouco a pouco os segredos, a doçura e a beleza.
Parece feita para a poesia, pois, se ao primeiro contacto
soa como dura e bárbara, através das barbas das gentes do
país, tem outra ressonância quando a escrevo ou quando
Dokia, cuja boca foi modelada por influência do latim, a
pronuncia diante de mim sem se dar conta da modificação.
Também estou tentado a traduzir as Geórgicas em geta, porque
é uma língua feita para descrever os encantos da natureza, e
as palavras têm por vezes o som dos fenómenos que
representam. Aqui, ninguém ou quase ninguém compreende os
meus poemas. E quando eles chegam a Roma, quem é que ainda
tem tempo para se debruçar sobre versos escritos tão longe,
e numa língua de onde desapareceu ou desaparecerá em breve
toda a pureza, violentamente influenciada pelas palavras
estrangeiras que ouço de manhã à noite? Quem recebe uma
carta minha, tem o cuidado de não a ler em público; poderia
trazer-lhe aborrecimentos, é a carta de um exilado, portanto
de um inimigo de Augusto. Mais vale esconder a carta logo
que chega, mesmo antes de ser lida longe dos olhares
indiscretos dos amigos e dos escravos. Sem leitores, para
quê escrever? Claro que não posso viver sem escrever.
Morrerei no dia em que a minha mão se tornar incapaz de
segurar o estilete. Escrever em geta, para mim significaria
recriar um públi-

58

co e uma celebridade. Tentarei tornar-me um vates na terra


dos Getas. Ainda sou novo, pelo menos no critério de
Pitágoras.
A pequena Dokia veio ver-me esta manhã e ficou durante todo
o dia junto da mãe, dentro de casa e na cozinha. Não é a
única coisa curiosa que aconteceu hoje. No início da tarde,
quando o sol iluminava a cidade pelo lado de terra, ouvi o
apelo das sentinelas e, logo a seguir, passos precipitados
nas ruas. Dokia entrou a correr no meu quarto. "Não saias. A
cidade está cercada." Saí na mesma, e choquei à porta com
Honório que acabava de chegar. Levou-me até à torre mais
próxima, no interior da qual se agitavam já vários soldados,
e convidou-me a trocar de roupa. Era inútil protestar ou
dizer qualquer coisa. Assim, cobri os cabelos brancos com um
pesado capacete, enfiei uma armadura sobre o meu frágil
peito, peguei no gládio, no arco e nas flechas que Honório
me estendia e, vacilando sob o peso inesperado, subi os
degraus de pedra. As muralhas estavam semeadas de soldados.
Desde a adolescência até à velhice, todas as idades estavam
representadas, mas o aspecto destes soldados improvisados
estava bem longe de inspirar terror. Os Gregos já não são os
guerreiros de outrora. Ao meu lado estava um taberneiro meu
conhecido. Gritava injúrias e ameaçava com o gládio a
campina distante, mas os gestos eram os de todos os dias e
não tinham nada da disciplina e da sobriedade do verdadeiro
soldado, longamente treinado para o combate. Todos estes
bravos que se dispunham a defender Tomos não estavam
habituados à guerra. Desempenhavam, sem vontade, o papel de
soldados, tal como eu, o desterrado.

59

Com efeito, desde que estou aqui, é a primeira vez que a


cidade é atacada e, apesar do aspecto lastimável dos meus
concidadãos, ninguém tem ar de ter medo. Perguntei ao
taberneiro: "Isto vai durar muito tempo? - Algumas horas,
alguns dias ou alguns meses." E desatou a rir, num riso que
lhe fazia ondular a barriga e encarquilhar as juntas da
armadura. "Não tenhas medo, o mar está connosco. Deves é dar
atenção às flechas. Estão envenenadas. Matavam-te num
instante."
Um grupo de cavaleiros galopava em direcção à cidade. Vinham
ainda longe. Mais à esquerda, movendo-se no espaço
ensolarado, distingui outro grupo. A árvore em flor
encontrava-se no mesmo lugar onde a tinha visto na última
Primavera. O campo, sob a muralha, já estava lavrado, os
sulcos de terra amarelada brilhavam ao sol e a estrada, de
cor mais clara, desaparecia direita à planície, em ponta de
lança, pacífica e inútil. Entre a cidade e os Getas que
avançavam não havia ninguém. A árvore florida, o campo
preparado para as sementeiras e a estrada deserta eram os
únicos sinais de uma presença, que parecia de repente frágil
e perecível, ante a imensidão selvagem da planície, ante a
força viva desse galope que surgia do nada e se precipitava
sobre nós como uma tempestade decidida a destruir tudo o que
tivesse em frente. Olhei para o outro lado, para os telhados
de Tomos e para as fortificações que os rodeavam. Como era
possível viver em semelhante lugar de uma pequenez
assombrosa, esmagado entre a parede azul do mar e a planície
infinita, achatado sob um céu manchado por nuvens informes,
inexpressivas como coisas inanimadas? De novo a imagem de
Medeia e os membros esparsos do irmão surgiram diante dos
meus olhos. Como era possível viver com esta recordação no
sangue, como fora possível fundar uma cidade no local de um
crime tão atroz? E

60

Roma, não é também construída sobre um fratricídio? E


depois, quem em Tomos, além de mim, conhece a história de
Medeia? Se eu a contasse neste momento ao taberneiro que
dorme a sesta ao abrigo das ameias, ia lançar-me um destes
palavrões!... Por todo o lado a mesma situação. O mar e a
terra não estão à medida do homem. Parecem vastos de mais e
perigosos de mais, quando uma força desconhecida, surgindo
do desconhecido, avança a galope sobre nós. Em Roma
esquecemo-nos destas coisas, porque lá nenhum perigo parece
iminente e porque vivemos fora da realidade. Julgamo-nos
imortais porque nos banhamos nas termas por entre estátuas
de mármore. Vamos ao circo assistir à morte como
espectáculo, tão absurda como as paixões irreais no teatro.
Confundimos a morte com o seu espectáculo, mas basta sair de
Roma para encontrá-la de novo, e para nos apercebermos de
que ela nunca deixou de existir em nós, e de nos esperar à
beira da primeira estrada para fora da cidade.
A armadura magoa-me, o arco é pesado de mais para mim.
Apoio-me na seteira. Tenho frio e tenho medo. Morrer aqui,
ao lado deste bruto que ronca...Onde estão os deuses neste
momento? Marte, Minerva, Apoio, Mercúrio, Vénus e Júpiter e
todos os outros que cantei nos meus poemas e que tinham o
saudável hábito de assistir aos combates do alto das
muralhas de Tróia, agora não os vejo. Os deuses da guerra,
do sangue e da astúcia fugiram. Estamos sós, com as armas e
o medo, na companhia de coisas inúteis perante a morte que
se aproxima. Onde estás, filho de Júpiter? A minha boca
procura os sons de um nome novo. Um arco não serve para nada
se a tua mão não se apoiar na mão de um deus, e se a vitória
e a morte não forem, para um soldado, igualmente desejáveis.
Em que pensa Honório neste momento? E Dokia, que não tinha
um ar muito assustado?

61

Tinha trazido a filha para o abrigo das muralhas, mas o pai


ficara em casa. Será que sabia que os Getas iam atacar hoje?
Os Getas estão aqui, sobre mim. Alguns usam barretes
frígios, e parecem ser os chefes. Os outros estão de cabeça
descoberta, longos cabelos ao vento. Alguns trazem
estandartes, com cabeças de lobo e corpo de serpente,
ondulando ao ritmo da corrida. O ar que penetra pela goela
aberta do lobo faz uivar esta bandeira feroz, num grito sem
fim, cada vez mais forte à medida que se aproximam, e que me
enche de terror. O taberneiro acordou, ajusta uma flecha na
corda do arco e atira. A flecha cai no campo, longe do alvo.
Há outros que também lançam flechas, tentando manter os
bárbaros a distância. Mas eles estão já perto dos muros,
posso ver claramente os seus gestos precisos, de verdadeiros
soldados. Uma chuva de flechas vem abater-se sobre as
ameias, sobre os tectos das casas, do outro lado da muralha.
Ouço um grito, mas não posso olhar para trás. Também atiro,
flecha atrás de flecha, sem olhar, estou certo de não ter
atingido alvo nenhum, um Geta cai do cavalo (há quem atire
melhor do que eu), vejo o ferido deitado de costas, tentando
com as duas mãos arrancar o ferro do peito, vejo o sangue na
camisa branca, já não se mexe, as mãos estão imóveis,
crispadas sobre a arma, como se ele próprio a tivesse
enterrado na carne. O barulho das flechas que chovem sobre
os tectos, sobre os muros, nas ruas vizinhas, é
ensurdecedor, ou então é o meu medo que o amplifica; lembro-
me do granizo que caía em Sulmona, nos Verões da minha
infância, e que me dava esta mesma sensação de medo sem
abrigo possível. Volto a atirar, já só tenho duas flechas,
preciso de as guardar para mais tarde, pego no gládio e
ponho-o ao alcance da mão. Volto a olhar, há alguns
cadáveres, feridos, e os bárbaros afastam-se, param a uma
certa distância. As serpentes pendem ao longo das hastes, e

62

os focinhos de lobo estão todos virados na nossa direcção,


mudos. Os Getas com barrete parlamentam entre si. Um dos
feridos arrasta-se para junto dos seus. Um cavaleiro desce
da montada e socorre-o. "Fui eu que atingi aquele." O
taberneiro fala grego, logo estou vivo. Todo este horror é
verdadeiro. Não sonho. E não fui trespassado por nenhuma
flecha. Os dedos fazem-me doer, estou cansado, mas continuo
no meu posto, de pé, com o peito apoiado na pedra fria, para
ver o que se passa. Do lado do mar, onde fica o bairro
pobre, sobe uma fina coluna de fumo. Um barco de velas
brancas está a entrar no porto, e a bordo ainda ninguém sabe
o que se está a passar do lado de terra, dentro das
muralhas. Este barco traz seguramente uma mensagem para mim,
pois é o primeiro que chega de Itália nesta Primavera, esta
Primavera portadora de mensagens. O bom tempo, fundindo os
gelos e a neve, incita os bárbaros do Norte a atacar os
postos avançados do império. É a mensagem do mal. Ao mesmo
tempo, os barcos da pátria chegam do Sul. Em Roma conhecem o
tempo propício para a navegação em todos os mares do mundo e
as nossas velas lançam-se em todas as direcções, levando da
Britânia ao Ponto Euxino a mensagem do bem e da paz. Diante
destes bárbaros a cavalo que, como armas, têm flechas
envenenadas, como não se sentir feliz por ser cidadão de
Roma? Se Augusto aqui estivesse, à frente de uma legião, eu
cairia de joelhos diante dele e adorá-lo-ia como um deus, o
deus da civilização e da paz. E estes selvagens
desapareceriam, esmagados pela força organizada dos nossos
soldados. Aqui estou eu, entorpecido de fadiga, com os dedos
ensanguentados, velho e ridículo dentro de uma armadura
emprestada, segurando armas que quase não consigo aguentar,
em cima de uma muralha minúscula, diante de uma cidade que
não é a minha. Sou um estrangeiro perante tudo isto, e
detesto tudo

63

o que neste momento me rodeia. Uns poucos soldados romanos


seriam suficientes para que toda esta extensão, com os
homens, o mar e a terra, se tornassem noutra coisa, um sítio
familiar, uma parte de Roma. Mas só vejo Gregos,
embrutecidos pela falta de inteligência e pelo comércio, e
Getas, embrutecidos pela miséria e pela ignorância. Entre
dois contrastes, sou o único representante do equilíbrio
perfeito: Roma. Bastou um ataque ridículo, para que tudo o
que tinha pensado e escrito sobre Roma e sobre Augusto me
pareça falso e estúpido. A minha pequena dor pessoal poderá
justificar que eu deixe de acreditar em Roma?
O dia começa a declinar. Os Getas continuam lá, não voltaram
a atacar a cidade e preparam-se para passar aqui a noite. O
taberneiro já mo tinha dito. Pode durar horas, dias... Em
grupos pequenos, chegam outros cavaleiros. A planície está
salpicada deles. Honório passa por mim e pára. "Como vai
isso? Se quiseres, podes descer, mas volta antes do cair da
noite. É provável que eles ataquem de novo."
- É grave? Tem um ar calmo. Reparo que rapou a barba.
- Nunca se sabe.
Levou-me até à muralha, em frente dos Getas, para fazer
cumprir as ordens que tinha recebido de Roma durante o
Inverno. Será um inimigo, ou um aliado como me quis dar a
entender? Neste momento, tem a possibilidade de me eliminar
sem se desmascarar, sem trair a nossa aparência de amizade.
Encontro diante da minha porta uma flecha inimiga, apanho-a;
vou enviá-la para Roma, como testemunha dos perigos que
corro aqui. Estou sentado a escrever, há ainda alguma luz, e
a flecha está sobre a mesa diante de mim - a ponta parece
manchada, de um vermelho com reflexos esverdeados. Veneno de
víbora, provavelmente, ou extracto de uma planta que
desconhecemos. Este dia ficará presente

64

na minha memória: o primeiro dia de guerra da minha vida.


Sinto-me ridiculamente orgulhoso, eu que odiei as armas e a
guerra, o sangue derramado por causas duvidosas. Mas hoje
defendi-me a mim próprio. Todo o corpo me dói. Acabei de
jantar e excita-me a ideia de passar a noite ao relento.
Dokia preparou a minha penula de Inverno, que vou pôr por
cima da armadura, quando sair para retomar o meu lugar na
muralha. Escrevo rapidamente. Um sangue jovem anima-me as
veias com um fogo já esquecido. Sou um guerreiro e, apesar
da idade, suporto bem o cansaço e as emoções. Ainda sou
capaz de viver. Se os Getas tomarem a cidade, morrerei de
armas na mão. Dokia pediu-me para a deixar dormir na minha
casa, com a filha. "E o teu pai?" Nem olha para mim. "Ele
não tem nada que recear." Certamente irá sair de casa ao
abrigo das trevas, falará com os seus, enquanto que a filha
já tem medo, e esconde-se na casa de um Romano onde se sente
mais em segurança do que na própria casa. Que se passará no
íntimo desta alma? Pouco a pouco a luz cede o lugar à noite,
uma noite fresca e clara de Primavera. O Tibre corre
mansamente sob as pontes, jovens Corinas preparam-se para
sair, ouço o roçagar dos vestidos na rua, o murmúrio das
vozes, um cipreste abana no jardim, um namorado atira um
ramo de violetas para a janela iluminada da sua amada. Roma
está em mim e estou pronto a dar a vida para que ela possa
durar, com os seus prazeres e pecados, até ao fim dos
séculos. A que Deus implorar, para que o meu voto se
realize?
Do alto dos muros, observei as fogueiras dos Getas até
depois da meia-noite. O céu estava cheio de estrelas e a

65

Ursa Maior cintilava, dominando o firmamento com a sua


silhueta gigantesca. Depois, vieram o silêncio e a noite
absoluta. Adormeci, e acordei cem vezes, tacteando o meu
arco e uma nova provisão de flechas. Trouxeram-nos vinho
quente para beber, e para comer carne de borrego e fatias de
malana fria. Mas não se passou nada. As fogueiras do inimigo
extinguiram-se e esperámos em vão pelo ataque. Doíam-me os
olhos, à força de tentar prescrutar as trevas. E, de manhã,
antes mesmo de o sol sair do mar, vi que os Getas já lá não
estavam. Tinham desaparecido durante a noite, levando os
cadáveres e os feridos da véspera. O cerco acabara, a
planície estava deserta. Ainda podiam ver-se as manchas
cinzentas e redondas, deixadas na terra pelas fogueiras. Do
outro lado, sobre o mar, uma vela branca, ainda distante,
avançava para Tomos, e o sol encheu-a de luz no momento em
que o seu disco emergiu das ondas.
Anoto aqui a conversa que tive durante a noite com Hérimon,
o taberneiro. Passou-se um pouco antes da meia-noite. A Ursa
Maior descaía para ocidente, num céu pouco claro. Os fogos
inimigos extinguiam-se pouco a pouco e pensava-se que o
ataque estava iminente. Tinham-se acendido grandes tochas
sobre as muralhas, que conseguiam alumiar a planície até à
distância de uns passos, dando à massa das trevas um aspecto
ainda mais ameaçador e mais espesso. Distinguia bem o perfil
do meu vizinho, enquanto ele fazia as honras às provisões
que trouxera num saco bem cheio. De tempos a tempos
oferecia-me qualquer coisa, que eu recusava, agradecendo. De
repente, sentiu-se em maré de confidências.

66

- Disseram-me há bocado que escreveste versos de amor.


- Infelizmente.
- Porquê infelizmente?
- Porque esses versos são a causa da minha presença aqui.
- Ah! Não ousou entrar em detalhes. Pensou com certeza que
conhecer o meu segredo teria sido perigoso para ele. "Na
minha juventude também escrevi versos de amor. Recitava-os
às raparigas que amava. Mas, agora, já não sou capaz. Sabes
dizer-me porque será?"
- Ainda és capaz de amar? Por vezes as duas coisas andam
juntas.
- Achas que sim? Ouve: vou confessar-te uma coisa. Uma coisa
que ficará entre nós. Não tem nenhuma importância, já não
tem nenhuma importância, porque se os Getas atacarem, pode
ser que eu deixe a pele nesta maldita muralha e, então, nada
mais terá importância. É como se nunca tivéssemos existido.
É isto: apaixonei-me por uma mulher muito mais nova do que
eu. Gostaria de lho dizer em verso, como fazia dantes, mas
já me esqueci dos que compunha na juventude, e não sou capaz
de fazer novos. Tenho quase cinquenta anos, sou casado, sou
grande e gordo e ela é jovem e esbelta. Como declarar-lhe o
meu amor, sem cair no ridículo. Parece que és célebre por
ter escrito um livro de conselhos aos apaixonados. Serei
digno de te pedir um conselho? Estou na idade em que se
sofre de amor mais do que aos vinte anos.
Hérimon sofria por amor. Quem diria? Não tinha aspecto
disso, mas o aspecto de um homem, muitas vezes, não é mais
do que uma falsa aparência. Dar-lhe conselhos não era coisa
fácil, pois nos livros não me dirigia a pessoas reais, que
se encontrassem na minha frente, mas a uma categoria

67

humana, a um conjunto de apaixonados, sem cara nem


personalidade. Dizer-lhe: leve a sua amada ao circo ou ao
teatro e faça tais e tais gestos e diga tais palavras, não
faria sentido, primeiro porque aqui ocasiões dessas são
raras, e depois porque Hérimon é casado e não poderia ser
visto em público acompanhado por uma mulher. Não estamos em
Roma. Nada do que eu escrevi na Arte de Amare válido em
Tomos.
- Trata-se de uma rapariga, ou de uma mulher casada?
- Uma rapariga, bem entendido. O que complica as coisas, não
é? Tinha parado de mastigar, e olhava-me com uns olhos
pequenos, tristes e sem esperança.
- Sim e não. Em geral, uma rapariga procura um homem da sua
idade e pensa no amor ao mesmo tempo que no casamento. Mas
também é muito mais sensível do que uma mulher casada à
homenagem que o amor é, venha ele de onde vier. A tua
situação é sem esperança e simultaneamente tem vantagens.
Ela é rica ou pobre?
- Pode considerar-se pobre.
- Costumas vê-la muitas vezes?
- Quase todos os dias. Compra vinho na minha loja. Mora
muito perto, com a mãe, já velha. O pai morreu há alguns
anos, caiu no gelo enquanto pescava.
- Está noiva?
- Noivos, tem muitos. Acusam-na de ser de costumes fáceis.
Compreendes. Para sobreviver. É uma provocadora diabólica.
Lança-me olhares que me vão direitos ao coração e me fazem
corar como um adolescente. Na minha idade é estúpido, sou o
primeiro a reconhecer. Mas nunca ouso dar-lhe a entender a
minha paixão. E, depois, a minha mulher está quase sempre
por perto, a fazer qualquer coisa na loja.
- Começa por lhe oferecer um presente, sem que a tua mulher
veja, e combinar um encontro, por escrito.

68

- Era nisso que tinha pensado. Mas esse escrito devia ser um
poema. Como compor um poema sem cair na banalidade de todos
os dias, dos milhares de dias prosaicos que são a minha
vida?
- Compreendes latim?
- Bastante bem. Aprendi com os marinheiros.
- Então ouve:
Sit tibi credibilis sermo consuetaque verba, Blanda tamen,
praesens ut videare loqui.
- Compreendo. Que a minha carta seja como a minha própria
voz, como se, lendo-me, ela me visse em sua frente. Não é
fácil. Em mim, a vida matou a poesia. Se lhe escrevesse como
falo ou como penso, ela assustava-se. Diria a si própria:
"Que bruto nojento!"
- Segundo o que me dizes, não se trata de uma menina
inocente. Os teus pensamentos não poderiam assustá-la porque
já sabe o que é a vida. Mas, ao certo, o que queres dela?
- Um pouco de amor. Preciso de amor para esquecer a velhice
que se aproxima, a morte, o meu aspecto, o meu presente e o
meu passado, a estupidez da vida que criei para mim próprio,
dia após dia. Para esquecer tudo, preciso de amor. É a
última coisa que peço aos deuses antes de morrer. Será pedir
de mais?
Devia ter respondido: "Sim, meu pobre amigo, é de mais. Esse
amor tão puro, ou essa aparência de amor que desejas com
toda a alma, para esquecer tudo, não existe, não é possível.
Assim a tua felicidade seria completa e, nunca devemos
esquecê-lo, a vida não acaba entre louros e rosas. Eu
contento-me com Ártemis nos momentos em que também tenho
vontade de esquecer tudo. E é triste." Mas, como dizer-lhe
semelhantes coisas, sobretudo nesta noite que

69

poderia ser a última para ele e para mim? Respondi: "Não,


não é pedir demais. Trata-se simplesmente de se fazer
entender. Eu talvez possa dar-te uma ideia, ajudar a
escrever a carta.
- Não ousava... É uma honra grande de mais para mim. És um
poeta de Roma e eu sou um simples taberneiro...
- És um homem. E temos a mesma idade. Compreendo-te a ti e
ao teu desgosto."
Procurou no saco e ofereceu-me uma maçã. Era um fruto
maravilhoso, grande, luzindo à luz das tochas como uma
luasinha avermelhada. Uma maçã na Primavera, não é coisa
corrente. Devia ser a última que tinha guardada, e teria de
esperar vários meses antes de poder colher outras no jardim.
Aceitei-a. Tinha um sabor a juventude.
- Um dia, vais dar-me a honra de vir a minha casa. Serás
sempre bem-vindo. E, se passares um pouco antes do almoço,
vais poder vê-la. Assim, será mais fácil... escrever-lhe. E
como poderei agradecer? Ah! Esquecia-me do essencial. Ela
não compreende latim. E mal fala grego. A mãe dela é Geta.
- Vamos escrever-lhe em geta, Hérimon.
Olhou-me estupefacto, com os olhinhos cintilantes e
incrédulos na face redonda, que horas antes me tinha
parecido estúpida e orgulhosa, e neste momento parecia a
cara de uma criança a quem fazem uma promessa tentadora e
impossível.
Há já muito tempo que Fábia deixou de se preocupar comigo.
Se a minha própria mulher começa a habituar-se ao meu exílio
e talvez mesmo à ideia de uma separação definitiva, que
pensar dos outros, de todos os amigos que

70

vinham visitar-me para passarmos juntos uns momentos


agradáveis, entre os versos que recitava e uma boa refeição?
Estou demasiado longe para que a distância não os tenha
tornado, pouco a pouco, indiferentes à minha sorte. Podemos,
pois, morrer antes de estarmos verdadeiramente mortos. "Non
omnis moriar", dizia Horácio. Era nos versos que pensava e
não em si próprio, no dia em que escreveu estas palavras
optimistas. Esta tarde fui até ao porto, receber a carta que
Fábia me enviara, e os livros que lhe tinha pedido na minha
carta de Setembro passado. Também havia uma caixa cheia de
coisas boas, que vou dar de presente a Dokia, à filha e a
todos os meus amigos de Tomos. E esta noite vou responder à
minha mulher, com amargas censuras. Ela deveria ir todos os
dias a casa de Lívia, falar-lhe de mim, e tentar encontrar
um meio de me fazer regressar. Não expiei ainda todas as
faltas? E se Honório já recebeu ordem para me fazer
desaparecer, de que servem todas estas insistências? Para
quê, sobretudo, a minha atitude servil diante de Augusto?
Não deveria, pelo contrário, insultá-lo nas cartas em vez de
lhe implorar, como a um deus? Não. É possível que Honório
não tenha recebido nada. Quem lhe poderia ter trazido a
ordem durante o Inverno, através do Hemo (13) coberto de
neve, ou através de um mar impraticável? Não mudarei de
atitude nas minhas cartas, pois o perdão pode ainda chegar,
e a humilhação é o único caminho que leva ao coração de
Augusto. Ser digno, para ele, significa condenar-se a si
mesmo. Se o regime imperial continuar depois da morte de
Augusto, todos os Romanos serão seres humilhados, porque
para o imperador não existe no mundo senão um homem livre:
ele próprio. Os outros todos são escravos. Devem-lhe tudo, e
ele não lhes deve nada. Se uma força
(13) Os Balcãs.

71

ainda desconhecida provocar um dia a queda do império, e a


maneira de viver que ele trouxe à sociedade não for mais do
que uma lembrança distante, esta época irá aparecer como a
mais gloriosa da história de Roma e a mais penosa para os
Romanos. Porque perdemos a liberdade no momento em que
desistimos, em favor de César, do direito de pensar em voz
alta.
Neste momento, mais vale refugiar-me em mim mesmo, tentar
passar o tempo agradavelmente e tomar parte na vida que me
cerca. Dokia, Honório, Hérimon, Ártemis, fazem já parte
dessa vida. Uma Geta misteriosa como o país que se estende
para lá do Istro, um Romano revoltado contra o império, um
Grego apaixonado e uma cortesã de província. Através deles
abre-se um mundo novo diante de mim, não isento de perigos e
de armadilhas, mas entrei na idade da prudência e da
sabedoria. Roma representa o passado que conheço. O futuro
está aqui, à minha volta, cheio de segredos e de dias que
desconheço. A guerra, a própria guerra que execrei durante
toda a vida, já não me mete medo.
Regresso, depois de acompanhar Dokia a casa. Passámos por
detrás das muralhas, diante de duas casas queimadas - o fumo
que eu vira durante o cerco. Mas as outras estavam todas
intactas. O velho estava no jardim, a cavar a terra. Soube
então o seu nome. Chama-se Dyzzace. Conversámos alguns
instantes, enquanto Dokia desaparecia dentro da casa, onde
tinha de preparar comida para os seus, depois de dois dias
de ausência. Perguntei ao velho: "Porque é que não vieste
para minha casa durante o cerco? Aqui não estás em
segurança." Olhou-me com os olhos azuis pequeninos, quase
completamente cobertos com as sobrancelhas que lhe caem até
às faces como dois bigodes espessos, com ar de quem diz: não
receio ninguém. E respondeu: "Agradeço, mas não tenho medo
dos meus. E além disso, sou velho.

72

Para quê esconder-me?" Hesitou um momento, fez menção de


recomeçar o trabalho, por fim apoiou o braço direito na
enxada e disse-me: "Os meus não são tão cruéis como se
imagina. São homens como os outros."
- Concordo. Mas preferem a linguagem das flechas envenenadas
à das palavras.
- São recebidos com flechas e com portas fechadas. Como é
que querias que respondessem?
- Porque é que eles incendiaram estas casas?
- Foram os próprios habitantes que incendiaram as casas.
Voltaram para o seu povo. Longe daqui, para lá do rio, há
grandes extensões de terra que só esperam por braços de
homens para dar fruto. E, além disso, lá vão ser livres.
- E os vossos cavaleiros vieram de tão longe e em tão grande
número só para levar alguns homens?
- Vieram de tão longe porque tinham fome. O Inverno este ano
foi duro e longo. Queriam comer e levar qualquer coisa para
os filhos. Teriam dado ouro em troca de trigo, e teriam
mesmo atacado a cidade para poderem matar a fome, mas
estavam demasiado esgotados para combater. Eu vi-os. Falei-
lhes. Dei-lhes tudo o que havia em casa. E acrescentou:
"Podíamos viver em paz, se não tivéssemos medo uns dos
outros. O medo faz-nos falar linguagens diferentes. E a vida
torna-se numa guerra sem fim, a vida é a guerra, cada vez
mais, a cada dia que passa. E fabricam-se armas, em vez de
se inventarem palavras de paz. Já que trabalhas as palavras
como eu trabalho a terra, porque não inventas a palavra da
paz?"
A palavra da paz! Iremos procurá-la ainda durante muito
tempo. Porque é uma palavra que não se inventa. Os homens
hão-de encontrá-la um dia, como uma flor rara na beira de um
longo caminho. Mas o tempo desta alegria ainda não chegou.
Nascerão e morrerão na terra milhares de

73

poetas, glorificados em línguas ininteligíveis umas para as


outras. E, mesmo que encontrássemos hoje essa palavra de
paz, teriam ainda de passar séculos antes de ela se tornar
um bem comum a todos os homens, inteligível para todos.
Porque o seu sentido não é fácil de apreender, sobretudo
quando as armas que trazemos são o reflexo de apelos agudos
do fundo dos nossos corações. Explicar o verdadeiro sentido
desta palavra, não será a missão do poeta?
Dokia tinha aparecido na soleira da porta, e olháva-nos
calada, de braços caídos, com os olhos cheios de um terrível
desespero. Não encontrara nada na cozinha, os Getas
esfomeados tinham levado consigo todas as provisões da casa.
Ficou a segui-los com o olhar, acompanhando a sua penosa
jornada.
Voltei para casa tarde, estava calor, a noite rodeava-me,
calma, sentia-me bem no meio da Primavera, e o mar enviava-
me o som manso da sua voz. Pensava nas centenas de
cavaleiros que tinham abandonado o cerco a meio da noite,
com o estômago vazio, impotentes diante destas muralhas que
eu considerara demasiado frágeis para lhes resistir.
Imaginava-os, errando na planície, voltando para casa de
mãos vazias. Que irá ser deles? Para onde irão? O que vão
comer até ao Verão? Quem poderá vir em seu auxílio? Homens
como eu morriam de fome e nós, mesmo antes de os ouvirmos,
tínhamo-los recebido com flechas e portas fechadas, como
dizia o velho Dyzzace. Não tinham sabido falar-nos, e não
tínhamos sabido ouvi-los. É só isto.

74

TERCEIRO ANO

Demasiadas cartas para escrever, à minha mulher, aos amigos


distantes, durante o ano que se acaba. nunca esqueci estas
páginas escondidas, mas vivi entretanto, emo-cionadamente,
na esperança de um regresso, e esse sentimento exterior de
orgulho impediu-me de ver claro dentro de mim mesmo, de ser
justo, ou seja, reconhecer a verdade e escrevê-la. Durante
longos meses preferi a mentíra, a velha, fiel e familiar
mentira. Voltar à realidade que me tinha comprometido a
dizer nestas páginas, teria significado dar-me por vencido,
aceitar o desespero com estoicismo e renunciar à ilusão do
regresso, para concentrar de novo a atenção nas personagens
e nos factos reais que me rodeiam, na minha vida tal como o
destino a quis. Perdi de novo a esperança; tombou junto com
a neve e as primeiras geadas. Enterrado cá longe, nos gelos
do Ponto e nas neves do Hemo, nenhum sinal de Roma poderá
alcançar-me durante muitos meses. Até mesmo o perdão do
imperador, se ele quisesse manifestá-lo, teria de esperar
pelo degelo. E sei que já ninguém pensa em mim nem na
possibilidade de ser indultado. Augusto tem mais que fazer.
Cada um de nós é um Augusto, senhor de um império sem
fronteiras que nos dá, a cada instante, trabalhos sem fim.
Não temos tempo para

75

pensar, durante dois meses de seguida, nos desgostos dos


outros. Compreendo, e recomeço a demanda do meu próprio Velo
de Ouro.
O meu silêncio teve outra razão, que bem gostaria de
esconder, mas impus-me dizer a verdade e vou dizê-la, pois
pouco me importa o que irão pensar de mim os que um dia
lerem estas notas íntimas. Um novo amor fez-me recuperar a
esperança perdida. Revivi a juventude graças a essa jovem
que me dizia ao ouvido palavras de amor em língua geta. As
noites com Gaia ressuscitaram, longe de Roma, em terras e
tempos pouco propícios ao amor. Encontro-me em Tomos, tenho
mais de cinquenta anos, os cabelos que restam estão quase
brancos, mas o ardor do meu corpo, que julgava extinto,
conheceu uma nova Primavera, a última, provavelmente. Ao
lado de Lídia, reencontrei-me, tal como era há dez anos e
sonhei com um regresso a Roma, na companhia dela, bem
entendido. Durante longas tardes contei-lhe todas as
maravilhas da minha cidade, passeei com ela pelas ruas
ensolaradas, comprei-lhe uma casinha sobre o Janículo,
cobri-a de flores e de jóias, pois fui sempre um amante
generoso. Ela ouvia-me em silêncio, com os olhos muito
abertos contemplando essa história mágica em que ela era a
heroína principal, e recompensava-me largamente, à sua
maneira, inundando-me de todas as carícias subtis que lhe
ensinei. Posso dizer orgulhosamente que levei a civilização
até ao país Geta.
Vou contar como é que a conheci. Foi logo depois de termos
sido cercados pelos Getas esfaimados, pelas calendas de
Junho. Decidi-me um dia a visitar o meu amigo Hérimon, o
taberneiro apaixonado, e fui vê-lo um pouco antes do meio-
dia. Recebeu-me como me havia prometido, com uma alegria que
me deu prazer. Estava sozinho na loja, porque a mulher
sentira-se doente. "Nada de grave", disse-

76

-me com uma sombra de pesar na voz. Compreendi que o amor


pela rapariga de quem tanto me falara na noite do cerco, não
estava morto. Ofereci-lhe um pequeno poema de amor que tinha
composto para ela em língua geta, e a sua alegria não
conheceu limites. Vi-me forçado a engolir várias grandes
taças de vinho de Quios, sentado com ele a uma mesa, perto
do balcão. Entravam e saíam raros clientes, e ele levantava-
se para os servir. A cada um, fazia o meu elogio. "O grande
poeta Ovídio Naso, o mais digno sucessor de Homero." Homero
era o único poeta que conhecia, além de mim. Leu o meu poema
com alguma dificuldade, pois estava escrito em caracteres
latinos; informou-me de que a mulher que amava não sabia ler
nem escrever, e de que iria decorar o poema e recitar-lho,
logo que aparecesse uma oportunidade, ou então dar-lho para
uma amiga lhe ler como se de uma carta se tratasse. "Não te
vás embora tão depressa. Ela deve estar a chegar de um
momento para o outro, e vais conhecê-la. Vale bem a pena,
juro por Afrodite."
Valia realmente a pena. Lídia entrou na loja uns minutos
depois e Hérimon convidou-a logo para a nossa mesa. Por
Afrodite, era bela, muito mais do que eu teria podido
imaginar! A mistura de sangue grego com geta é uma mistura
feliz. Já vi vários exemplares em Tomos, homens e mulheres,
de uma pureza plástica impecável. Era mais para o delgado,
de olhos verdes, cabelos negros, a pele de uma brancura de
neve e mármore, porte altivo e harmonioso, boca sensual e
pés pequenos, arqueados nas sandálias demasiado gastas.
Hérimon leu-lhe o poema, cometendo a imprudência de revelar
o nome do autor. Estava a tornar-se corajoso. Durante o
tempo que durou a leitura, ela não cessou de olhar para mim
e os seus olhos disseram toda a admiração que os versos lhe
inspiravam. A minha poesia teve sempre

77

o maravilhoso dom de comover as almas mais simples e


encantar mesmo os corações mais duros. O efeito do poema foi
instantâneo, e pude aperceber-me de que, à medida que
Hérimon proclamava a sua paixão, Lídia a considerava como
minha, pois era eu o autor do poema e ela estava ali, diante
de mim. A voz de Hérimon fazia o papel de hábil
casamenteira. Acabada a leitura, ela levantou-se, depositou
um beijo casto na face de Hérimon - que se tornou ainda mais
vermelha e desajeitada do que habitualmente, perdido num céu
de esperança infinita -, encheu de vinho a ânfora que
trazia, e foi-se embora, sem pagar, deixando atrás de si um
silêncio que nenhum de nós ousou perturbar.
- Então, o que me dizes? - perguntou por fim o meu pobre
amigo.
- És um homem de sorte. A única coisa que te falta é um
pouco de coragem.
- Já não preciso disso. Ela percebeu tudo, tenho a certeza
de que percebeu tudo. E enchendo de novo as taças:
"Acreditas que irá resistir-me ainda por muito tempo?"
- De agora em diante só depende de ti. Não forces as coisas.
Ela vai cair-te sozinha nos braços, como um figo maduro. Eu
queria era ganhar tempo.
Voltei a vê-la no dia seguinte, na rua. Vinha do porto, e
trazia na mão um cesto cheio de peixes. Sorriu ao
cumprimentar-me. Quis evitá-la e seguir o meu caminho, mas
aquele sorriso era como uma rede.
- Acabo de os pescar - disse mostrando-me os peixes. - Nós
somos pobres. Não posso ir sempre ao mercado comprá-los.
Posso oferecer-te alguns?
- Agradeço, mas não gosto de peixe cru.
Não demorou muito a entender. "É ousadia convidar-te para
minha casa, esta noite? É uma casa modesta, para um Romano e
para um homem como tu, mas sei preparar o

78

peixe. Não te vais arrepender." E sorriu-me de novo.


Aceitei.
A tarde pareceu-me longa. Estava calor, o Verão chegara
bruscamente, nesse mesmo dia, tal como é hábito nestas
paragens que não conhecem a doçura das transições. Lídia
morava no primeiro andar de uma casa de pedra, com acesso
por uma escada exterior. A divisão onde me recebeu, só
estava iluminada pelo fogo da lareira, e em cima desta
pendia, presa por uma cadeia, uma grande marmita onde cozia
o peixe. Sobre uma mesa redonda e baixa, havia uma malana
fumegante, virada em cima de um pano de linho branco. O
cheiro do peixe, misturado com o das ervas aromáticas,
enchia o interior. Ao lado da malana estavam dois cornos de
boi, que nos iriam servir de copos, à moda geta.
- A tua mãe não está em casa? - perguntei.
- Foi passar a noite em casa da mulher de Hérimon, que ainda
está doente.
A atmosfera deste quarto e a sua pobreza, a filha e a mãe,
sozinhas, o medo de ser surpreendido, fizeram-me lembrar
Gaia. Mas aqui era muito mais complicado, conforme iria
verificar pelo que se seguiu. Sentei-me, ela serviu-me o
único prato que havia preparado e, quando se inclinou sobre
mim para deitar a sopa numa espécie de prato de terracota,
rodeei-lhe a cintura com os braços. Ela pousou com cuidado a
marmita na mesa, e veio sentar-se docemente nos meus
joelhos. Quase não tinha peso, mas a minha boca encheu-se
dela com uma violência que suprimiu o tempo e a tristeza,
como uma maravilhosa tempestade. Eu tinha esquecido que a
vida sem amor não tem sentido, e que todas as filosofias do
mundo, e todas as dores, podem desaparecer num beijo.

79

Ela vinha muitas vezes a minha casa, nas noites em que a


mãe, que cuidava dos doentes e fazia a última toilette dos
mortos, não estava ocupada na cidade. O nosso amor durou até
ao fim do Verão e, porque eu a amava, duraria ainda, se um
acontecimento, que não constituiu uma surpresa para mim no
sentido de que o julgava possível em Roma, mas impossível em
Tomos, não tivesse acalmado os meus impulsos. Eu tinha
dúvidas, mas nada mais do que suspeitas. Não foi por causa
dela que me desgostei, mas por causa do homem que a tinha
nos braços. Uma noite, muito pouco tempo depois de nos
termos despedido - e a lembrança ainda não me deixara
adormecer - vesti-me e saí de casa, decidido a aproximar-me
da casa dela, falar-lhe e ficar lá, se estivesse sozinha, ou
a fazer-lhe qualquer sinal e convencê-la a voltar comigo
nesse mesmo momento, ou mais tarde. Subi a escada sem
barulho, afastei a cortina de pano grosseiro que servia de
porta, e vi Lídia nos braços de Hérimon, beijando-o com
paixão. Tinham ambos os olhos fechados, vi o suor escorrer
pelas enormes bochechas do meu amigo, e senti um cheiro
infecto enchendo o interior miserável, feito à medida desses
seres inferiores. O que me impressionou mais foi a cara da
mulher que poucas horas antes eu cobrira de beijos. Pareceu-
me feia e vulgar, os traços descompostos pelo calor e por um
sentimento que oscilava entre a excitação e o nojo. Era
evidente que Hérimon tinha sabido aproveitar o meu poema e o
seu dinheiro. Desci sem barulho e voltei para casa. Não os
odiava. Hérimon exercia os seus direitos e Lídia encontrara
uma solução para a sua miséria. O idílio deles era obra da
minha poesia, mas isso não me punha mais satisfeito. Uma
espécie de desespero atormentava-me o corpo.

80

Dirigi-me para a casa de Ártemis, mas também aí já havia


alguém.
Alguns dias depois, empreendi com Dokia a minha primeira
viagem em território dos Getas. A ideia foi dela, sem me
dizer qual era o destino. Misteriosa como habitualmente veio
buscar-me no início da tarde, numa carroça com um burro
atrelado. Sentei-me à esquerda dela em cima de uma prancha
de madeira, e atravessámos a cidade para sair pela porta
setentrional, em pleno campo.
Tomámos em seguida um caminho, melhor dizendo, um duplo
carreiro ao longo das falésias e, a trote, dirigirno-nos
para um local cujo nome esqueci e onde Dokia tinha assuntos
a tratar "com os pescadores". E foi tudo o que me disse. Não
muito longe da cidade, à sombra de uma acácia, avistei
várias lápides funerárias e consegui ler, sob uma flor de
lótus gravada na pedra, as conhecidas palavras "Tende
confiança". Estes mortos de Tomos haviam praticado o culto
de ísis, tinham sido felizes antes de morrer, porque tinham
confiança, seguros de ter conquistado a vida eterna. Agora
dirigiam-se aos vivos, tentando inspirar-lhes a mesma
esperança. Não será tudo uma farsa? Esta voz não era uma
voz, pois as letras esculpidas na pedra cinzenta não vinham
do além, eram obra de um artista vivo, de quem não se sabe
se tinha fé nem se estava certo da sua eternidade. Tudo o
que ouvimos sobre o além e a vida eterna é dito por bocas
ainda vivas. Após duas horas de viagem, chegámos a um
ribeiro onde Dokia deu de beber ao burro. Atravessámo-lo sem
dificuldade. O caminho descia, em vez de subir como eu tinha
imaginado, e pouco depois desaparecia, enterrado na areia,
obrigando o animal a penosos esforços. A praia alargou-se
cada vez mais, a areia foi-se tornando cada vez mais fina e
sedosa, o ar tinha uma pureza quase vegetal. Sentia-me
inspirado pela frescura que me enchia a alma e

81

contei a Dokia toda a espécie de histórias que a faziam rir.


Tinha-a negligenciado durante os últimos meses e, sentado ao
lado dela, sentia a anca redonda e flexível através da
túnica branca e suavemente perfumada, e tinha vontade de
tomá-la nos braços. Não o fiz, nem sei bem porquê. Havia
nela uma espécie de alegria em total harmonia com a paisagem
deserta que nos rodeava, uma alegria que me embaraçava por
lhe ignorar as causas. Sentia-a como que rodeada por uma
multiplicidade de aliados que teriam podido defendê-la. Eu
estava só e inteiramente em poder dela. Gracejava para a
fazer rir, como se as relações entre nós tivessem mudado de
repente, e de forma inexplicável. No meio deste espaço que
lhe era familiar e que eu via pela primeira vez, Dokia
tornara-se a senhora e eu o escravo, ou qualquer coisa
parecida.
Depois de três horas de viagem, chegámos por fim diante de
uma aldeia de pescadores. Casebres miseráveis, semi-
enterrados, sustentados por traves e cobertos de terra seca.
A uma centena de passos, o mar. Estávamos sobre uma pequena
elevação, de onde pude contemplar, virando-me para Oeste,
uma paisagem de inefável beleza. Não muito longe, as cores
do poente reflectiam-se nas águas de um outro mar,
completamente tranquilo, e as margens eram perceptíveis na
distância. Soube em seguida que era um lago de água doce. Aí
fundeados, espalhavam-se em toda a extensão do lago,
pequenos barcos imóveis, de velas caídas, como ilhotas
negras; barcas de pescadores que nunca tinham ouvido falar
nem de Augusto nem de mim, e que pareciam estar ali desde o
começo do mundo. Diante das cabanas crepitavam fogueiras, e
as mulheres agitavam-se em torno das chamas. Na praia, do
lado do mar, havia mais barcos com homens que preparavam as
redes. Um dos pescadores abandonou o trabalho e dirigiu-se
para nós. Ao ver-
82

-me, levantou a mão numa saudação à romana e falou-me em


latim. Respondi-lhe em latim, depois em geta, mas ele
continuou a conversa na nossa língua que falava sem sotaque
estrangeiro. Os traços eram os de um Romano, a barba, os
gestos, as roupas, de um aborígene.
- Sou de Óstia, disse, e fez-me sinal para me sentar no
chão, diante do fogo onde cozia ruidosamente a sopa de peixe
com um cheiro que reconheci. Ao lado, virada sobre uma mesa
pequena e baixa, uma malana fria brilhava, húmida e
amarelada. "Chamavam-me outro nome na minha terra. Aqui sou
Mucaporus." Sorriu e estendeu-me um corno de boi que enchera
de vinho. "Que novidades há de Roma?
- Saí de lá vai fazer três anos. Que novidades poderei dar-
te?
- Para mim serão sempre novidades. Deixei Óstia há quinze
anos. Sou o que se chama um desertor." Sorriu de novo, sem
se preocupar com o efeito que a palavra pudesse ter
produzido em mim. Era um homem de cerca de quarenta anos,
alto e robusto, cabelos castanhos em desordem, a longa barba
espalhada pelo peito nu, tisnado pelo contacto com o sol e o
mar, os pés também descalços. "Foi de Tempiros, na Grécia,
que me evadi. Esta terra - e apontou-me o horizonte, para lá
do lago tranquilo onde o sol, no ocaso, morria - está cheia
de desertores, casados com mulheres getas e felizes como
eu."
- Porque é que és mais feliz aqui do que em Tempiros ou em
Óstia?
- Porque sou dono dos meus dias e das minhas noites. E
porque ninguém me obriga a matar. Sou livre. O que mais
posso querer? Voltou a sorrir e a servir-me de beber. A sopa
estava pronta. Dokia e a mulher de Mucaporus serviram-nos em
silêncio. Não pude impedir-me de perguntar:
- Continuas a adorar os nossos deuses?

83

- Adoro Zalmoxis, o Deus Verdadeiro. Aproximou da boca a


pesada colher de madeira e soprou a sopa. Comia com
decência, como um verdadeiro Romano; seria provavelmente
filho de um armador, e por certo conheceria Favorino, que
fora o primeiro amante de Corina; no entanto, adorava um
deus bárbaro e vivia entre os bárbaros. Subitamente este
destino pareceu-me horrível, a mais horrível das coisas que
podia acontecer a um homem do meu povo, mas o sorriso deste
antigo legionário não mentia. Era feliz, e isso via-se. Que
mais se pode pedir à vida? A liberdade paga-se cara, mas
vale sempre o preço. É assim tão difícil de entender? Basta
saber escolher: uma existência nova, não importa onde, para
além dos limites do império, um Deus novo, o verdadeiro,
para renascer aqui, sobre a terra, e não depois da morte,
como ensina a religião de ísis. Tudo é possível. Só é
necessário ter, a tempo, a coragem de desertar, de cortar
bruscamente com o passado. Mucaporus. Este nome não lhe
fazia medo. Sob este nome desengraçado, abrigava-se um homem
novo. E proclamava sem vergonha a sua felicidade, diante de
mim, cidadão romano. A minha indignação muda era só pose. Em
frente deste fogo, desta cabana infame, desta terra limitada
a Leste pelo mar, a Oeste pelo lago, eu sentia que aquele
homem não era digno de admiração unicamente por se ter
transformado e sabido encontrar a paz, mas sobretudo por ter
descoberto uma nova possibilidade humana. Um Romano podia
viver longe de Itália, mesmo fora do império, renegando
Augusto e os deuses de Roma, e sentir-se melhor do que
antes, sentir-se feliz no meio desta miséria primitiva e sã,
com um Deus superior a Júpiter e a toda a sua divina
família. Naquele momento, eu estava perto de reconhecer que
este homem, longe de ter dado um passo atrás ao escolher um
destino aparentemente triste e miserável, tinha ganho
qualquer coisa

84

que os Romanos ainda não tinham conseguido alcançar. Mas


calei-me. A sopa estava excelente e a viagem de carroça
tinha-me aberto o apetite.
Algo de estranho está a acontecer à minha volta e em mim
mesmo. Que procuram todos estes desertores de que Macaporus
me falava? Nada mais do que terras para trabalhar e mulheres
getas? E porque é que as mulheres da nossa terra preferem
ísis e Osíris ao culto de Júpiter e de Augusto? Será que
essas mulheres, se pudessem escolher, não seguiriam também
os homens que fogem para as terras dos Getas, em busca não
só do Deus único, mas também de qualquer coisa que me seria
difícil definir ou exprimir em frases lógicas? Quem poderia
impedir Macaporus de adorar, mesmo em segredo se fosse
preciso, o seu Deus único, fosse em Tempiros, fosse em
Óstia, não importa onde, dentro das fronteiras do império e
das do seu ofício de soldado? Abandonou tudo para se
estabelecer aqui, neste deserto pouco hospitaleiro, para não
poder ser obrigado a matar, e para se sentir "dono dos seus
dias e das suas noites". O que é que isto quer dizer, ao
certo? O império não lho permitia. Mas os Getas são mais
livres de dispor do tempo à sua vontade? E depois, os nossos
deuses também nos garantem uma vida eterna. Será que aqui
alguém consegue sentir-se um homem, mais do que sob a
protecção de Júpiter e de Augusto? Não ter de matar, ser
livre, ter a certeza da vida eterna, não acredito que
religião alguma, nem mesmo a de Zalmoxis, assegure aos seus
crentes tais direitos, que nenhuma lei e nenhum culto
conseguem definir com precisão. Ou, então, existem aqui
segredos que ainda ninguém quis revelar-me. Simultaneamente,
sinto que tudo isto é uma ilusão e que tudo o que acontece à
minha volta, esta "migração" de desertores, não é mais do
que uma expectativa sem nome e sem rosto. Vou reler
Virgílio, que teve pressentimentos. O

85

império expande-se para dar lugar a uma outra coisa, maior e


melhor. Tudo o que neste instante está a acontecer no mundo,
não é mais do que a preparação para uma nova metamorfose (a
palavra surgiu-me por si própria, sem pensar) do homem. E
entre nós existem seres que pressentem a sua chegada, como
uma inundação longínqua, e se preparam para a receber.
Escolhem Zalmoxis ou ísís, para ficarem mais próximos das
águas que um dia hão-de trazer a solução, um Deus que todos
esperamos, mesmo sem o saber.
Quando, mal acabáramos de jantar, o sol desapareceu para lá
do lago, e da malana só restava um pedaço que se atirou aos
cães, e do fogo só algumas brasas quase enterradas na cinza,
Mucaporus levantou-se e disse-me:
- Queres vir comigo à pesca? Voltamos amanhã antes da
aurora. O mar está calmo. Ficarás a conhecer todos os peixes
do mar e, se estiveres cansado, podes estender-te no fundo
da barca e adormecer."
A minha primeira ideia foi: "Dokia transmitiu-lhe as ordens
de Augusto da parte de Honório. Convida-me para me fazer
desaparecer no mar." Mas aceitei. Preferia o barco à cabana
de Mucaporus e tinha confiança nele, em Dokia, em Honório.
Não era certo que o meu hospedeiro estava ali exactamente
para não ter de matar? Entrei para a barca, sentei-me atrás
de Mucaporus, enquanto os três outros pescadores arrastavam
a embarcação pela areia para dentro do mar. Enrolado na
minha penula, não sentia a brisa que se levantara do lado de
terra. As águas estavam calmas sob a luz da lua, brilhante
como uma longa espada, que subira no céu logo que
embarcáramos. Uma lua quase vermelha, mesmo diante de mim,
maior que todas as luas do meu passado. Avançávamos
impelidos pelos remos e, algum tempo depois, parámos para
lançar as redes. Avistava na minha frente a linha do
horizonte, voltando-me, a margem e as fogueiras distantes
piscando frou-

86

xamente e, para o Sul, o reflexo cortante e imóvel do farol


de Tomos. As horas passaram depressa. Não sentia a menor
fadiga. A água estava tão clara que se viam os peixes
debatendo-se na rede, como raios prateados, antes de serem
trazidos para a superfície. A barca encheu-se dos seus
frémitos desesperados. Macaporus indicava-mos de vez em
quando: "Os pequenos escombros, o milano de dorso negro, o
precioso esturjão, o duro peixe-espada, cujo choque é tão
rijo quanto o de uma espada, o pompilo que segue no sulco
dos navios, o paguro cintilante..." E muitos outros ainda.
Também me disse que ao largo pescavam outras espécies, e
que, perto da margem, havia ainda outras completamente
diferentes. Cada zona do mar abriga espécies novas. "E nas
profundezas, que ainda ninguém atingiu, existem seguramente
peixes desconhecidos dos homens, monstros que por vezes
sobem à superfície para aterrorizar os marinheiros." Estas
palavras impressionaram-me. A terra, o mar e talvez o céu
escondem muitos segredos. Os homens também, aliás. Tal como
estas águas sem fundo, que as redes não atingem, abrigamos
dentro de nós segredos esplêndidos ou terríveis. Qual será a
rede capaz de no-los arrancar? Seremos melhores ou piores no
momento em que nos conhecermos até ao íntimo? O tema de um
poema novo surgiu-me, espontâneo, na imaginação, e os versos
formaram-se nas profundezas da minha alma:
Descripsit sedes varia Natura profundi Nec cunctos una
voluit consisterepiseis (14).
No caminho de regresso à costa, adormeci e tive um sonho:
estava nesse mesmo barco, mas completamente só e

(14) "A Natureza tornou variado o fundo do mar e não quis


que todos os peixes ficassem nas mesmas águas".
(Halieutiques, 91-92).

87

não vogava à superfície da água, como habitualmente se faz,


mas sulcando a espessura do mar, como se fosse um peixe.
Parecia-me uma coisa natural e sentia-me à vontade. A barca
navegava sozinha, empurrada por uma corrente ou por uma
força invisível. Eu não via, nem o fundo, que se perdia nas
trevas, nem a superfície, de onde caía uma luz azul, muito
agradável de ver. Em compensação, distinguia formas
imprecisas movendo-se à minha volta, talvez outros barcos,
ou então seres desconhecidos, animais estranhos que não
ousavam aproximar-se. Seguia atenta e concentradamente o
avançar do meu barco, e, com os olhos, procurava qualquer
coisa na distância. A minha viagem tinha um destino, eu
estava como que possuído por uma força, mas ignorava tudo o
mais. A solidão não me fazia medo. Uma luz, talvez um raio
de sol, veio iluminar as águas diante de mim, e a essa
claridade inesperada vi um peixe que nadava na mesma
direcção. Era um peixe comum, relativamente pequeno, mas que
não pertencia a nenhuma espécie conhecida. Sem cor definida,
nenhum sinal o distinguia dos outros, mas, independentemente
de qualquer ideia, os sentidos diziam-me que era o peixe, um
ser que representava ao mesmo tempo todos os peixes, o
símbolo original da espécie ou da vida em geral. Agitava-se,
vivia, mas parecia um desenho feito de um só traço, como se
alguém o tivesse esboçado sobre o fundo azul da água e essa
forma tivesse começado a viver. Também sabia que o peixe
representava qualquer coisa que me interessava de
sobremaneira, mas como eu não estava sob controlo da razão,
nem sequer tentava compreender. Enquanto seguia o peixe, era
inundado por uma enorme felicidade. Essa forma que nadava
docemente, iluminada pelo raio de luz que vinha de cima,
guiava-me para um destino que, instantes antes, ainda não
sabia qual era, mas que agora era claro e conhecido, sem
ser, no

88

entanto, um conhecimento visível e presente. Encontrara o


caminho que tinha procurado em vão durante a vida inteira.
As outras formas indefinidas que me rodeavam progrediam na
mesma direcção. Subíamos ligeiramente para uma superfície,
que eu sabia não ser a do mar e que o que iríamos encontrar
em cima não seria nem o ar, nem o vento, nem a vida com o
seu aspecto de todos os dias. Depois, subitamente, perfilou-
se ao longe uma sombra, mesmo entre mim e o peixe. Era como
se alguém estivesse ao cimo da água, e a sombra do seu
corpo, projectada pelo sol ou pela luz deste espaço
desconhecido, mergulhasse nas águas, conservando os seus
contornos. Era a sombra de um homem e, à medida que avançava
para ela, apercebia-me de que era feita de uma luz mais
intensa do que a da claridade que me rodeava. E, de uma
maneira qualquer, essa luz era a sua consistência. Dizia de
mim para mim: "Cheguei. Cheguei enfim. Eis-me no termo da
minha longa viagem" e preparava-me para descer, como se esta
sombra, quero dizer, esta luz, fosse um porto onde iria
encontrar tudo o que procurara inutilmente até agora. Uma
sacudidela. O peixe desapareceu, engolido pela luz com forma
humana. Pensava: "O meu barco chegou à margem." Era verdade,
mas tratava-se do barco de verdade, onde tinha adormecido, e
da margem de verdade. A pescaria acabara.
Na aldeia, mulheres e crianças dormiam. As fogueiras tinham-
se apagado. O mar calmo parecia metal, cinzento e liso sob o
vasto céu sem nuvens onde Hélio preparava já as suas
correrias. Estava cansado, mas não segui Mucaporus que me
convidou para a sua cabana. Estendi-me na areia, enroscado
na penula e esperei pelo sol. O sonho continuava vivo;
tentei decifrá-lo, enquanto as pálpebras se fechavam
sozinhas. Caí no sono, tendo nos olhos a imagem dos
pescadores que recolhiam, do fundo das barcas, cestos

89

cheios de peixes prateados e os transportavam nos braços


para a praia. Alguns peixes escorregavam e caíam de novo no
mar, outros na areia onde se agitavam tentando voltar ao mar
antes de morrer. Mas estes eram peixes conhecidos; Mucaporus
tinha-me ensinado os nomes.
E pronto. Com esta história termina a minha crónica do ano
passado. Nada de novo aconteceu depois. Cartas que partem
para Roma para implorar o perdão do imperador. Através de
amigos, cujas caras se perdem a pouco e pouco, à medida que
sobe a maré dos anos. Cartas que chegam para me dizer sempre
a mesma coisa, cartas inúteis. "Esse pobre Ovídio, pensam os
que fazem ainda o favor de me escrever, não devemos, apesar
de tudo, deixá-lo morrer assim, de um só golpe. Seria
demasiado cruel. O que o mantém vivo é a esperança do
regresso. Conservemos-lhe a esperança, porque isso não nos
custa nada." Ninguém suspeita da minha modificação, nem das
minhas descobertas, nem da minha verdadeira vida aqui. Que
responder, sem lhes ferir o sentimento de magnanimidade,
senão que me sinto muito mal em Tomos, que me aborreço, que
tenho medo dos bárbaros, que quero voltar, a qualquer preço?
Julgar-me-iam louco se dissesse o contrário. Mas o contrário
representaria a verdade? Tenho dúvidas. Passaram três anos
desde que cheguei aqui. Cavou-se um abismo entre mim e o meu
passado, entre mim e Roma. Mas o que quero, o que anseio, o
que espero de tudo o que me rodeia? Não saberia dizer.
Espero qualquer coisa que me faça ter esperança.
Ártemis e Lídia vêm ver-me de tempos a tempos. Não tenho
coragem de as pôr fora. Além disso é unicamente por
90

elas que posso avaliar a minha idade. E as visitas deixam-me


optimista. Ambas me ajudam a esquecer e ao mesmo tempo a não
esquecer. A não esquecer o passado, pois estão sempre a
pedir-me que lhes conte o que fazia em Roma, como se vestiam
as Romanas, como eram os espectáculos, os munera, as
corridas, como era Corina, quais os segredos da sua arte de
amar. A esquecer, pois a minha infelicidade aumenta dia após
dia, como uma semente que cresce direita a um alvo certo e
fatal. Perdi tudo e ainda não encontrei nada. Procuro, na
realidade e nos sonhos, uma resposta, cada vez mais
angustiante, à medida que os anos passam. Terei diante de
mim tempo suficiente para conseguir torná-la inteligível?
Dokia plantou flores em frente da minha janela, mesmo no
meio do pátio interior que separa a casa da muralha da
cidade. Está bom tempo. No mês de Maio penso em Roma com
maior prazer do que no resto do ano. As flores lembram-me
Gaia, a sua loja cheia de perfumes, a sua boca, e também
Corina, que me acompanhava em longos passeios na Via Ápia,
pelo meio dos campos onde rompiam todas as cores e todos os
perfumes da Primavera italiana. O sol punha-se para lá da
cidade, inundando de luz as colinas do lado de Tíbur e de
Túsculo (15). Uma noite, passeávamos longe da cidade, e
sentáramo-nos à beira da estrada, na erva fresca, Corina
apoiou a cabeça nos meus joelhos e disse docemente, com uma
voz tranquila e desesperada, que nunca lhe tinha ouvido:
"Não te amo. Não amo ninguém". Acariciei-lhe os cabelos,
olhando para o céu, em busca de um apoio qualquer, uma
consolação que pudesse aliviá-la ou trazer-lhe uma
explicação. Não encontrei. A luz que nos envolvia não
permitia a mentira. E a quem amava eu, o autor da Arte de

(15) Tivoli e Frascati.

91

Amar? E quem amei desde então? O amor não era senão uma
palavra, vazia de todo o sentido, ninguém amava ninguém
nesta cidade imensa, prestes a iluminar-se com os fogos da
noite e do prazer. Estávamos sós e tentávamos esquecer,
enfeitiçados pelo vinho e pelas carícias. As orgias são
feitas para isso, tal como a fadiga o é para o pobre e para
o escravo. Voltámos para Roma, de mãos dadas, sem dizer uma
palavra, assustados ambos pelo que Corina acabara de dizer,
tranquilizados ambos por esta verdade que até agora nenhum
de nós tinha tido coragem de exprimir, e ao mesmo tempo
desejosos de perder esta clarividência que nos oprimia.
Corina confessou-me, semanas mais tarde, que era adoradora
de ísis e que, todos os meses, se fechava no templo para
rezar e cumprir rituais sobre os quais nunca me deu
pormenores. Nesses dias, eu ficava só, verdadeiramente só, e
procurava também eu um templo, um culto, não importa qual,
para acreditar em qualquer coisa e preencher a solidão. Mas
não encontrava nada. Escrevia muito. Mas os versos não me
traziam mais do que glória.
Cerca-me um grande silêncio, deve ser muito tarde, mas,
apesar do cansaço, o sono não vem, e escrevo. Estou em
Istria há dois dias, hóspede de Dionisodoro e da mulher.
Sempre gostei de viagens, sinto-me bem, e aborrecia-me em
Tomos. Hérimon apresentou-me um amigo armador, Pausanias,
que vinha de barco da Grécia e ia fazer escala em Istria.
Convidou-me logo para o acompanhar e eu aceitei. Honório não
se opôs a esta viagem, pois bem sabe que não tenciono fugir.
A viagem durou menos de meio dia. A cidade é bonita e muito
rica. Maior que Tomos, construída sobre

92

uma quase-ilha rochosa, situada no fundo de um golfo e


rodeada de colinas, Istria é cercada por altas muralhas de
pedra; o acesso principal é defendido por uma porta
protegida por quatro torres, duas exteriores e duas
interiores. Dionisodoro, que é um rico comerciante, é também
um homem cultivado, possui uma bela biblioteca, onde
encontrei, entre os poetas gregos mais célebres, as obras de
Menandro, que viveu em Atenas há quatro
séculos e era originário do país dos Getas e se gabava da
sua ascendência bárbara. Dizia-se descendente dos Daos ou
Getas, que eram os nomes que hoje se dão aos Getas. Para ser
mais preciso, devo dizer que são os Gregos que chamam Getas
aos bárbaros deste país, enquanto que, em Roma, os designam
por Dácios. Estes termos Daos e Getas, em Atenas, tornaram-
se sinónimos de escravo, pois quase todos os escravos que aí
se encontravam no século de Menandro provinham dessa região.
O comércio de escravos ainda floresce em Istria e constitui
uma das fontes de riqueza do meu hospedeiro. Os Gregos
compram aqui trigo, peles, homens sólidos para o trabalho e
para a cama, e mulheres belas que, segundo Menandro, tinham
costumes muito ligeiros para a época. Também segundo ele, um
Geta nunca se considerava satisfeito com a sua vida
conjugal, antes de ter possuído pelo menos dez esposas
legítimas. Os Getas ou Dácios eram polí-gamos e parece que
um dos seus reis tinha introduzido severíssimas reformas,
assustado, tal como Augusto, com a imoralidade dos seus
súbditos. Uma das medidas mais famosas e mais duras que foi
obrigado a tomar, foi a de obrigar os Dácios a destruírem
todas as vinhas do país, para pôr fim ao vício nacional que
era o excesso de bebida. Os Dácios obedeceram sem protestos
e a vinha, e com ela o vinho, desapareceram das colinas e
das caves. Foi assim que começou a grandeza do reino dos
Dácios. Em Roma, pelo con-

93

trário, ninguém tomou a sério as medidas de Augusto. A


explicação é muito simples: o rei dácio apoiava-se na
religião e os Dácios eram, e são-no ainda, mais religiosos
do que viciosos. Em todo o caso, há uma coisa que me parece
estranha: eram os próprios reis dácios que forneciam os
escravos aos traficantes gregos do Ponto Euxino, e estes
escravos nunca se opunham ao seu destino. Deduzo que, ou os
escravos se deixavam vender, sacrificando a liberdade em
nome do interesse colectivo, ou gostavam mais de viver na
Grécia como escravos, do que na Dácia como homens livres.
Istria, segundo Dionisodoro, foi fundada pelos Milésios há
mais de seis séculos, quer dizer, cem anos após a fundação
de Roma. Simultaneamente fundavam, mais a norte, o porto de
Ólbia. No mesmo litoral, foram criadas outras cidades
gregas, em Kallatys, em Tomos, em Dionisopolis. A história
destas cidades comerciantes, plantadas em pleno país bárbaro
devido ao espírito de aventura dos Aqueus, é apai-xonante.
Basta reproduzir aqui as palavras de Dionisodoro: No século
IV Ab Urbe Condita (16), Istria, Tomos e Kallatys, esta
situada a sul de Tomos, formaram uma pentápole, uma
coligação que mais tarde se tornou numa hexápole com a
adesão da cidade de Messabria. Kallatys constituía o centro
desta aliança, mas, depois de uma guerra infeliz contra
Bizâncio, Istria e Tomos ganharam maior importância. Seguiu-
se uma época de decadência durante a qual as quatro cidades
gregas ficaram submetidas ao reino cita que se formou nesta
região e cujos reis bárbaros (Acrosas, Charaspes, Canites,
Sarias e Tanousa, entre outros) adoravam os deuses gregos e
cunhavam moeda. O reino Cita frag-

(16) A fundação de Roma teve lugar em 753 A.C.. Seguindo a


cronologia romana, o nosso ano de 1960 seria o 2713 AB Urbe
Condita.

94
mentou-se num certo número de pequenos reinos, independentes
uns dos outros - pode dizer-se que isto sempre constituiu a
verdadeira doença política da região, directamente
influenciada pelos costumes gregos -, que desapareceram
pouco a pouco sob pressão de outros Citas vindos do Leste e
do Norte e dos Sármatas, sendo que estes últimos ainda se
encontram misturados com os Getas dos dois lados do Danúbio.
Há um século atrás, foi a vez de Mitrídates rei dos Partos,
ou do Ponto, vir submeter estas cidades obrigando-as a
celebrar uma aliança para as voltar em seguida contra Roma.
Mas, quando Mitrídates foi batido pelas nossas legiões em
681 A.U.C., elas ficaram de novo sob a nossa protecção. A
paz foi mais uma vez perturbada pelos Bastarnes, contra os
quais Roma enviou as suas legiões comandadas pelo general
Gaio António, antigo companheiro de consulado de Cícero.
Este foi vencido pelos bárbaros junto de Istria, e na
confusão da batalha perdeu as insígnias da sua legião. Em
724, Augusto enviou Marco Licínio Crasso que atravessou o
Danúbio, e avançando até ao coração da Cítia, muito mais a
leste da embocadura do grande rio restabeleceu a ordem.
Crasso foi recebido em triunfo em Roma lembro-me
perfeitamente, a 4 de Julho de 726. Todavia, após a partida
de Licínio, a anarquia voltou a reinar.
Ao contar a história da sua cidade, Dionisodoro deixou de
lado um episódio que o perturbava, mas que também não é
lisonjeiro para os Romanos: a batalha de Istria entre Gaio
António e os Bastarnas teve lugar em 692, e os aliados dos
bárbaros foram os gregos das cidades livres do Ponto Euxino
que, exasperados com o excesso de impostos e com os abusos
de C. António Híbrida, procônsul da Macedónia e cuja
autoridade se estendia até Istria, chamaram os Bastarnas em
sua ajuda, e, juntos, esmagaram as forças romanas. Foi
Burebista, rei dos Dácios, ou dos Getas, quem aproveitou

95

com esta derrota romana, submetendo todas as cidades gregas.


Foi o rei reformador de que falei mais acima. Mas foi
assassinado em 713 e o seu reino estilhaçou-se em mil
bocados. Os reisetes getas do sul da embocadura do Danúbio -
ou seja, de toda a região situada entre o Danúbio e o mar, e
a que se chamava a Pequena Cítia, embora há muito que lá não
existam Citas -, foram destronados por Crasso que colonizou
as regiões desertas com os Bessas, trazidos da Trácia, e
confiou o poder do novo estado a Roles, rei geta que se
reconhecera vassalo de Roma. A fórmula usada não foi mais
feliz do que as precedentes. Augusto criou em seguida o
reino odrísio da Trácia, artificialmente instalado nos seus
antigos limites de há cinco séculos atrás, e juntou-lhe, em
747, as cidades e o território da Pequena Cítia. Em
princípio, não houve mudanças posteriores na situação, mas
não controlamos de facto essa região, invadida todos os anos
pelos Getas livres e pelos Sarmatas.
Só as cidades gregas do litoral reconhecem a nossa
soberania, uma vez que a própria Grécia nos está submetida.
Simultaneamente, os Gregos apoiam-se cada vez mais na nossa
frota de guerra e em Roma fala-se já da possibilidade de
criar uma espécie de comando militar para a região,
destinado a proteger a navegação romana no baixo Danúbio. É
evidente que os Gregos, que detêm direitos de pesca nas
águas do delta danubiano, concedidos directamente por
Augusto (os Istrias gozam do mesmo privilégio no braço
meridional do delta, zona chamada Peuce), serão os primeiros
beneficiários deste género de medidas, que lhes vão permitir
continuar a desenvolver o comércio, protegidos pelos nossos
barcos de guerra. De momento, o objectivo é conter a invasão
dos Getas, até ao limite das possibilidades, e Dionisodoro
mostra-se mais inclinado para uma solução de compromisso.
Segundo ele, é ainda possível encontrar uma

96

fórmula de coexistência entre os Romanos e os reis Dácios,


porque precisamos uns dos outros. Penso que serão os Gregos,
para cujo comércio a guerra é o principal inimigo, que irão
tirar proveito, tanto de nós como dos Getas.
Seria preciso meditar sobre todas estas coisas. Não duvido
de que é necessário evitar a guerra, mas quem poderá
convencer os Getas de que as nossas intenções são pacíficas,
e persuadir os Romanos de que os Getas não têm intenções de
atacar Roma? Na realidade, temos medo uns dos outros.
Avançamos em todas as partes do mundo para assegurar uma paz
que nos foge por entre os dedos; enquanto isso, os bárbaros
atacam-nos de todos os lados para nos impedir de avançar. É
um jogo fatal e sem saída.
Nos últimos dias passeei pelas ruas de Istria. Ninguém fala
a nossa língua. As trocas comerciais fazem-se em geta e os
habitantes da cidade entendem-se em grego. Mas é uma língua
semeada de termos bárbaros, e desta mistura sairá
provavelmente uma língua nova, que os Gregos de Atenas terão
dificuldade em compreender. Encontro-me aqui, na fronteira
de um mundo novo, com um futuro que não podemos prever.
Dionisodoro, que me acompanhou em muitos destes passeios,
dizia-me que, segundo Heródoto, que cita constantemente, os
Getas são um povo numeroso, o mais numeroso depois dos
Indianos, e que, unidos sob autoridade de um chefe
inteligente e empreendedor seriam capazes de nos trazer
muitos problemas. O reino de Burebista, no momento do apogeu
do grande rei, estendia-se desde os limites orientais do
país dos Germânicos até para além da embocadura do Danúbio.
Ontem a noite, encontrava-me sozinho na praça principal,
porque Dionisodoro tinha que fazer. Acabava de sair do
templo de Apolo, vasto e bem construído, onde tinha estado a
admirar belas estátuas de mármore trazidas da Grécia.

97

Descendo os degraus, vi dois homens sentados na pedra,


provavelmente ocupados a concluir algum negócio. Um deles
era Grego, o outro um Dácio, reconhecível pelo que trazia
vestido. No momento em que passava junto deles, segurando a
toga para não roçar pelas costas do bárbaro, este puxou de
um grande bocado de tecido, um lenço multicor, desfez o nó
feito numa das pontas deste estranho pano e, concluído o
negócio, deixou cair na pedra moedas romanas com a efígie de
Augusto. Estaquei involuntariamente. O Geta olhou-me
desconfiado, mas aproximei-me e falei-lhe na sua língua. A
conversa fluiu imediatamente. Os meus dois interlocutores
mostraram-se respeitosos em relação a mim, ao saberem que eu
era Romano, e a forma perfeita como falo grego conquistou a
benevolência do outro. Convidaram-me para beber e sentámo-
nos à volta de uma mesa, diante da taberna da praça. Quis
saber de onde provinham as moedas romanas. O Dácio não teve
problemas em responder. Na sua aldeia, situada para além-
Danúbio, a que os Dácios chamam Dunaris, habitam diversos
Romanos casados com mulheres do país. Cultivam extensões
imensas de trigo, criam gado, produzem grandes quantidades
de mel. Um deles tinha comprado dois pares de bois ao meu
interlocutor. Com este dinheiro, tinha vindo a Istria
comprar tecidos preciosos, jóias e objectos de metal: uma
espada, facas, duas taças de prata. Disse-me o nome do seu
vizinho Romano: Flávio Capitão. A cidade geta mais próxima
da sua aldeia era Troesmis. Perguntei ao Geta onde se
alojava em Istria e pedi-lhe para levar uma mensagem ao meu
compatriota. Aceitou e separámo-nos como bons amigos e hoje
visitei-o para lhe confiar uma carta dirigida a Flávio
Capitão. Uma carta breve. Saudava-o, e contando em poucas
palavras a razão da minha presença em Tomos, desejava-lhe
boa sorte na nova vida, acrescentando que não ficaria à
espera
98

de resposta. É natural que ele se encontre na mesma situação


que Mucaporus, desertor do exército, como todos os outros
Romanos que abandonaram o império para poderem dispor em
liberdade dos seus dias e noites e não serem obrigados a
matar.
Este encontro perturbou-me profundamente.
Estamos no final de Maio. O tempo está muito bom. Ontem
saímos da cidade para assistir, no cemitério, aos rituais
dos Rosália, cerimónia de origem romana, muito popular em
Istria nos últimos anos. O cemitério fica no cimo de uma
colina de onde se avistam as águas azul-verde do golfo, as
muralhas e os telhados da cidade e, para Oriente, a planície
verde e ondulante. Dionisodoro e os seus deitaram vinho
sobre os túmulos dos antepassados, conforme os usos. Depois,
perante as autoridades da cidade, foi inaugurada uma coluna
de mármore com uma inscrição em grego, onde os cidadãos de
Istria davam graças aos deuses e a Augusto pela
tranquilidade e o bem-estar que lhes tinham prodigalizado
durante o último ano. Contei uma dúzia de colunas, e ainda
havia mais, pois levantavam uma cada ano. Em sinal de
respeito, Dionisodoro, com o acordo do Conselho da Cidade,
pediu-me para tomar a palavra e fazer o elogio de Augusto.
Não pude esquivar-me. E, aqui, diante deste mar estrangeiro
e desta terra bárbara, inimiga dos Romanos e do Império,
falei dos feitos de Augusto, da sua paternal bondade, dos
benefícios que trouxera aos homens do seu tempo. Fi-lo sem
repugnância, experimentando os mesmos sentimentos que tivera
durante o cerco de Tomos, no ano anterior. Sentia-me como se
fosse o representante de

99

uma grande potência protectora, perante os povos que nos


deviam paz e felicidade. Que teriam pensado de mim Dokia e
Mucaporus se tivessem estado presentes? Deixei-me embriagar
pelas palavras e por esta sensação de orgulho e segurança
que habitualmente não é o meu forte. Sentia-me como uma
incarnação de Roma. Com a perspectiva da distância, tudo era
simbólico, mesmo Augusto, e enquanto falava, tinha-o diante
dos olhos, como uma estátua erguida exactamente a meio do
grande templo do mundo, protector dos fracos e portador de
esperança. Referi-me também aos laços que uniam Roma à
Grécia, exprimindo, em nome de todos os meus compatriotas, a
nossa gratidão por tudo o que os Gregos haviam criado ao
longo da História para o bem da humanidade.
Não costumo fazer discursos em público, mas as minhas
palavras foram acolhidas com muito entusiasmo. Certamente
consideravam-me um enviado especial de Augusto, encarregado
de recolher informações e de relatar a Roma o resultado
dessas investigações secretas. Dionisidoro era o único que
conhecia a minha situação de exilado.
Por fim, toda a gente se sentou em volta das pedras
tumulares, depois de terem deposto junto delas ramos de
flores em honra dos mortos. Os escravos tinham trazido
cestos cheios de iguarias requintadas. No fim da refeição,
serviram-nos uma torta recheada de grãos de trigo cozidos
com mel. O vinho corria em abundância. De início cantavam
canções tristes, que se foram tornando cada vez mais alegres
à medida que o vinho fazia aumentar a distância entre mortos
e vivos. Alguém berrou: "Os mortos com os mortos, os vivos
com os vivos." O banquete de ambiente respeitoso, dedicado à
memória dos entes queridos, desaparecidos nas trevas sem
regresso, transformava-se pouco a pouco num hino à vida. Uma
das escravas de Dionisidoro, uma Geta de

100

Novioduno, olhava para mim com uns grandes olhos azuis e, a


cada vez que me servia de beber fazia uma profunda
inclinação na minha frente, o que me permitia ver, sob a
túnica que se entreabria levemente, uns seios de Diana.
Voltamos para casa cantando, ao cair da tarde. Ruas e praças
estavam apinhadas de cidadãos embriagados, ou muito alegres,
que enchiam as tabernas, as escadas dos templos e dos
edifícios públicos, discutindo, à moda grega, com muitos
gestos e grande eloquência. Homens armados, cuja missão era
acalmar os ânimos exaltados pelo vinho durante esta festa
piedosa, passeavam-se cambaleantes, dois a dois, no meio da
multidão excitada que lhes oferecia de beber a cada passo.
Não vi rixas nem correr sangue, junto das tabernas. Os
Gregos, de uma forma geral, nunca chegam à pancadaria,
apesar dos palavrões que chamam uns aos outros com um ar de
fúria belicosa. No entanto, tornam-se violentos se quem que
os insulta é um estrangeiro, sobretudo um Romano.
De regresso a casa, a família do meu hospedeiro e os
escravos retiraram-se logo em seguida e, pouco depois, o seu
ressonar enchia o ar suave do anoitecer. Refresquei os olhos
e saí do quarto. A escrava geta de olhos azuis encontrava-se
diante da porta da casa, sentada num banco, de costas contra
a parede. Sorriu-me e afastou-se para me dar lugar junto
dela, na pedra ainda quente. O sol já se pusera, mas o ar
tinha uma doçura perfumada de rosas, como a Roma dos fins de
Maio. Um ar dentro do qual o corpo se move com um prazer e
uma facilidade que criam relações de amizade entre o homem e
tudo o que o rodeia. Desde a partida de Roma que não voltara
a sentir esta doçura que dá asas a cada movimento e deixa
traços quase visíveis no crepúsculo, como se percorrêssemos
a superfície de uma água calma e encantada.

101

- Por acaso chamas-te Geta? perguntei à jovem. Pensava nesse


momento no nome que Menandro dava a todas as escravas de
Atenas. Fez que sim com a cabeça, sem abrir a boca. "Que
fazes aqui a esta hora?" Encolheu os ombros nus, num gesto
que queria dizer: "Nada", e continuou a sorrir e a olhar
para mim, enquanto ia balançando os pés ao ritmo de uma
canção que trauteava de lábios semi-cerrados. "Queres vir
comigo? Vamos até à beira-mar, procuramos um sítio calmo e
cantas-me essa canção." Levantou-se de um salto e estendeu-
me a mão.
Atravessámos a cidade, em burburinho com os gritos do povo.
Descemos em direcção ao porto onde Geta me fez subir para um
barco que dirigiu, manobrando os remos, para uma praia já
fora das muralhas. A luz avermelhada do crepúsculo brilhava
sobre as águas calmas. Peixes saltavam sobre o mar, atraídos
pela profundidade desconhecida do ar, erguiam a cabeça para
esses tentadores abismos do alto, para depois voltarem a
mergulhar com um ruído deslizante e musical. O burburinho da
cidade perdia-se na distância e as luzes acesas nas janelas
iam ficando cada vez mais longe. Saltámos do barco, na
praia; Geta estendeu-me de novo a mão e conduziu-me para a
colina, onde a areia sedosa do sopé ainda conservava o calor
tépido do dia. O ar cheirava a algas. Estendemo-nos na
areia. Geta começou a cantar uma canção que eu não conhecia.
Falava de um pastor, amigo de uma ovelhinha, que lhe vinha
anunciar a morte próxima. Outros pastores planeavam matá-lo.
Ele agradecia à sua amiguinha e pedia-lhe para dizer à mãe
que não chorasse sobre a sua campa. Porque a morte era a sua
noiva, e o seu grande amor. De agora em diante, as estrelas,
os abetos e os cães fiéis seriam as testemunhas das suas
núpcias próximas e da sua felicidade futura.
- Onde aprendeste essa canção?

102

- É uma velha canção nossa, a canção da ovelhinha. Em Roma,


têm medo da morte, não é? Nós não. Disseram-me que vocês só
ligam ao amor. Mas o que é o amor sem a morte? Uma coisa que
passa, como uma estrela que se acende e desaparece logo em
seguida.
Respondi-lhe sorrindo: "Queres morrer comigo?" Sorriu -me
também, inclinou-se, tapou o céu com o sorriso e beijou-me.
Fechei os olhos, mas continuava a ver esse sorriso, que
passava para mim e me iluminava como uma chama.
Regressámos muito tarde. As fogueiras extinguiam-se nas
praças e, do barco, distingui as fachadas dos templos
palpitando à luz das chamas agonizantes. Estava tudo calmo.
Os bêbados dormiam. Um soldado da guarda fez-nos parar à
entrada do porto; depois deixou-nos passar. Geta dava-me a
mão para me orientar no meio da obscuridade que cheirava a
fumo e a vinho. Os Rosália tinham acabado. Diante da porta
do meu quarto, Geta beijou-me de novo e despediu-se com a
única palavra latina que conhecia. "Amor", disse e dirigiu-
se para os alojamentos dos escravos. Respondi "Amor",
simplesmente, como se a palavra quisesse dizer "Adeus". E a
imagem do pastor dácio e da ovelhinha fizeram-me companhia
durante o sono.
l
Estou a escrever no barco, de volta a casa. Quer dizer, a
Tomos, porque agora não tenho outra casa. Desta vez,
distingo, à direita, a costa baixa do Ponto Euxino. Como se
voltasse a Roma, após três anos de exílio. Porque esta
margem só aparece pela direita nas viagens de regresso, e
torna-se numa espécie de margem esquerda para os que se
afastam da civilização; por exemplo, para os marinheiros que
avan-

103

çavam para Táuride em busca do Velo de Ouro. Quantos séculos


passaram depois! Roma ainda não existia quando os Gregos
deram nome a estas águas e fundaram prósperas cidades nas
margens. Conto as ondas. A décima é sempre a mais forte. Vem
atrás da nona e precede a décima primeira. "Posterior nono
est undecimo que prior." Lembro-me da segunda elegia dos
Tristia que escrevi, balançado por um outro mar, enquanto um
outro barco, loucamente empurrado pela tempestade, me
conduzia para o exílio. De novo a décima onda. Esta
recordação encheu-me de pavor e de tristeza. Atrás de mim,
tudo o que tinha perdido. Pela frente, a ameaça do mar, com
esta décima vaga que sacudia o barco todo e o fazia gemer de
dor, como um corpo humano flagelado por mão invisível. Tomos
para mim era o nome da morte. E, agora, penso com prazer na
minha cidade, na minha casa, nos meus amigos, nos que deixei
em Istria, no distante Flávio Capitão, fundador de uma nova
raça, em Geta, a dácia de Novioduno, em Dionisodoro e nos
seus. Dentro de poucas horas, irei avistar no fim desta
praia, entre o mar e a laguna, a cabana de Mucaporus no meio
das outras cabanas pobres dos pescadores. Amigos, mulheres
que me amam ou que julgo amar, esperam-me nesta margem que
deixei de considerar hostil. O que é a vida, senão a amizade
e o amor? Esta margem acolhe-me; deve, portanto, amar-me.
Dionisodoro deu-me de presente dois lecythi, pequenos vasos
de argila queimada que eles usam nas homenagens aos mortos e
depõem dentro dos túmulos, junto dos cadáveres. Um deles é
vermelho com desenhos em preto. O outro conserva o fundo
negro, tal como quando saiu da chama e as figuras são
desenhadas a vermelho, da cor natural que a argila tem por
baixo do esmalte. Vou pô-las no parapeito da janela que dá
para o jardim. Passa-se em mim

104

uma coisa estranha quando olho para estes lecythi ou quando,


de olhos fechados, os imagino na borda da janela. Em vez de
me fazerem lembrar Dionisodoro, os vasos sagrados lembram-me
Geta. Uma das mulheres representadas a vermelho sobre o vaso
negro parece-se com ela. E, sobre o fundo vermelho da outra,
uma ovelhinha preta estende o pescoço para um pastor, como
se estivesse a falar-lhe e ele a escutá-la atentamente. E
será Geta e a história da ovelhinha que estes vasos me farão
reviver todas as vezes que olhar para eles, durante os
próximos anos. A canção dizia:
Carvalhos e abetos Hão-de acompanhar-te Mil estrelas serão
Tuas tochas brilhantes.
Parece-me que estou a improvisar um pouco. Mas recordo-me
perfeitamente do ritmo e da ideia do poema. "Hão-de
acompanhar-te" ao casamento, era o que a ovelha dizia ao
pastor. Ao passo que as estrelas, cintilando no firmamento,
serão os archotes erguidos na beira de um caminho para
iluminarem a passagem dos noivos: o pastor e a morte que o
noivo não temia. "O que é o amor sem a morte?"
Que esplendor poético nestes versos que reproduzem
essencialmente a ideia que os Dácios têm da morte! A noiva
do pastor e não o seu terror. E a natureza, com os seus mais
esplendorosos tesouros, acompanha-o na alegria que será
eterna. Não encontrei em parte alguma, nem mesmo nos Gregos,
uma beleza poética mais simples e mais profunda. Este pastor
existe. Errante, conduz os rebanhos para lá do Danúbio, onde
Zalmoxis pregou ao seu povo, no país que Flávio Capitão
escolheu para viver. Não, não. Não serve de nada pensar
nisto. Estou velho de mais para recomeçar.

105

Todavia, se Flávio Capitão responder à minha carta, se me


disser: "Vem, e vê", não resistirei ao apelo e irei ver. No
fundo, já fui ver. Vi Mucaporus no meio da sua miséria
feliz. Flávio é rico e deve ser feliz. Senão, não teria
ficado aqui. Que se passará exactamente no íntimo destes
homens? Qual será, no passado, o momento preciso em que
disseram: "Acabou. Vou recomeçar tudo." E escolhem o país
dos Dácios. Porque não outro? É certo que no país dos
Germanos ou dos Partos seriam imediatamente mortos, ou então
obrigados a adorar outros deuses, semelhantes aos nossos, ou
a servir outros chefes militares mais cruéis do que os
generais de Augusto. Na Dácia são livres. Zalmoxis, seria
uma escolha, não uma imposição. Também escolhem as terras e
a mulher. Esta felicidade é igual à dos deuses. E, na
situação de Flávio e de Mucaporus existem outros. "Centenas,
dizia-me o Dácio da praça de Istria, centenas nas aldeias a
norte do Danúbio e para lá das montanhas, no país que foi
dos Agatirsos e onde pó de oiro rola misturado com os seixos
dos ribeiros. Outros fundam novas aldeias e estabelecem-se
em campos ainda virgens, onde fazem crescer trigo pela
primeira vez desde que a terra existe. Outros, ainda,
penetram nos bosques sem fim, por entre as tribos selvagens
dos dácios do nordeste, onde as florestas de abetos são
negras e os auroques fazem tremer as clareiras sob os seus
cascos." E todos estes homens são, talvez, Romanos que
encontrei no Fórum, no circo ou na rua, homens como eu e que
ninguém obrigou a exilar-se nesta terra que ainda não
entendo, mas que já não detesto.
E se, de regresso a Tomos, encontrasse uma carta anunciando
o fim do meu exílio? "O Imperador, na sua imensa bondade..."
Que escolheria, posto diante destas duas liberdades?
Infelizmente, sou ainda Ovídio. Infelizmente, a carta de
Roma não chegou. A vida é mais simples do que imagi-

106

namos. Os grandes dilemas perante os enigmas do destino só


aparecem nas tragédias.
O barco navega neste momento bastante afastado da costa.
Distingo a laguna cintilando para lá da praia, e manchas
negras que poderiam ser as cabanas dos meus amigos. Todos
devem estar entretidos com os trabalhos da tarde, preparando
a pesca quotidiana. Foi aqui, nestas águas, que tive aquele
estranho sonho.

107

QUARTO ANO

O Inverno desinteressa-me de tudo. O frio faz-me medo. Volto


a ser aquele que sempre fui. Sonho e recomeço a escrever.
Cartas, sempre cartas. Farto dos Tristia, comecei um livro
novo a que chamarei As Epístolas do Ponto, pobre homenagem
ao meu local de exílio. O tema é o mesmo, pois, quatro anos
passados, nada mudou. Augusto não quer perdoar-me. Volto à
carga, com os mesmos argumentos. Os amigos a quem dirijo as
cartas irão movimentar-se para me obter o perdão, serão os
meus embaixadores junto de César. Escrevi a Bruto: "Embora o
título não sugira uma ideia de tristeza, verás pelo texto
que esta obra não é menos triste do que a anterior. O tema é
o mesmo, com um título diferente." Apesar de tudo, há uma
diferença de táctica entre os dois livros. Desta vez, não
faço segredo dos nomes dos destinatários. Passaram vários
anos. Os amigos do desterrado já não correm riscos. A parte
de mim mesmo que a estadia em Tomos ainda não alterou e que,
no Inverno, treme e se lamenta, implora e sonha, continua o
esforço inútil dos Tristia. Perseguido por este terror, que
de resto se dissipa com o primeiro raiar da

109

Primavera, escrevi uma carta a Cótis (17) rei dos Trácios,


filho de Remetalces, cujo Estado, submetido a Roma, se
estende até à embocadura do Danúbio. Pedi-lhe que tivesse
piedade de mim, ele que também é um poeta, e que se exprime
igualmente bem em Grego e em Latim. No fundo, não
reivindicava nada, mas escrevi-lhe num desses momentos de
melancolia que me fazem perder a razão. Não lhe pedia que
fizesse de mim um poeta da sua corte, mas teria sido
possível dar essa interpretação à minha carta. Se me tivesse
concedido a sua confiança, eu teria trocado de lugar e
deixado Tomos. Cótis respondeu à minha carta. Educado e
inteligente, cultivado e astucioso, como todos os vencidos,
embora ainda muito jovem, faz-me mil cumprimentos, cita
vários dos meus versos, mas não me convida. Tem demasiado
medo de Augusto. Eu sou o grande poeta, mas Augusto é o seu
senhor e é às legiões que deve o trono, não aos meus poemas.
Os meus amigos de Roma não são mais corajosos.
O dia está bonito. A neve brilha sob o sol, parecendo
semeada de diamantes. Os ramos inclinam-se com o peso dessas
flores de gelo. Nunca deixo extinguir o fogo na lareira.
Ainda irá brilhar durante alguns meses. Foi também durante o
Inverno que envelheci. Viver de recordações, como faço neste
período do ano, é privar-se de vida e consumir as nossas
próprias reservas, em vez de nos aumentarmos, para um lado e
para o outro, com novos feitos e gestos. Os heróis
envelhecem muito tarde, pois não cessam de se agitar, de
criar acontecimentos. A velhice deles é curta e caem de um
só golpe, sob o peso das lembranças. Escrevi à minha mulher:
"Eis que o declínio chega, com a idade a sal-

(17) Cótis viria a ser morto, cinco anos mais tarde, por
Raiscuporis que pretendia reunir toda a Trácia sob o seu
ceptro, o que provocou a severa reacção de Tibério, sucessor
de Augusto.

110

picar os meus cabelos de branco, e as rugas da velhice


sulcando-me a fronte. Eis que chega a perda da vitalidade e
da força no meu corpo vacilante, e que os jogos que me
agradavam na juventude, perderam o encanto. Se me visses sem
estar prevenida, não me reconhecerias, de tal modo a vida me
tornou numa ruína".
Na realidade, terei mudado assim tanto? As minhas cartas
estão cheias destes exageros. Todas as cores têm de ser
sombrias, para a minha mulher e os meus amigos terem pena de
mim, e fazerem tudo o que puderem para me salvar. Se me
fosse possível escolher a minha sorte, passaria o Inverno em
Roma e as outras estações aqui, porque tenho ainda muito que
aprender sobre esta costa terrível, e Roma, conheço-a de
cor. Só o frio continua a meter-me medo e não tenho armas
eficazes para o combater. A sua queimadura envelhece-me,
deito-me a reviver o passado, e durante quase todo o tempo
que o Inverno dura fico doente à força de pensar na minha
fraqueza. Os sinais do tempo têm poder sobre tudo o que
respeita à sensibilidade e deixo reflectir em cartas
desesperadas a dor física que me rói. Se não fosse Dokia,
gritaria de raiva e de tédio. Nos dias de neve, de
tempestade ou de gelo, fica junto de mim, ao canto do lume,
e conto-lhe a minha vida. Amamo-nos, sem nunca nos tocarmos,
sem nunca o dizermos. Sinto que a minha presença lhe é
indispensável. Diz: "Augusto, vem cá." O cão estremece com
as carícias, mas, sob a espessa pelagem, sei que é a mim que
ela procura. É assim que vive, protegida pelos seus próprios
segredos, bela e invulnerável, feliz quando está ao pé de
quem não deve conhecer-lhe o íntimo dos pensamentos, infeliz
talvez, na companhia de quem a conhece e goza do seu amor.
Com quem passa as noites quando sai da minha casa? Nunca
tentei saber, mas tenho a certeza de que não dorme todas as
noites junto da filha e do pai. Os olhos

111

e a expressão traem-na muitas vezes. Ela também me adivinha.


Mas nunca afloramos sequer o tema do nosso amor. Amamo-nos,
de uma forma que me faz pensar em duas flores crescendo em
árvores diferentes, que queriam estar juntas, mas só se
podem tocar através da mudez distante das suas cores e dos
seus perfumes, no meio da estupidez e da indiferença das
coisas.
Os sonhos também me envelhecem. Há dias, dizia a Fábio
Máximo, na segunda epístola das minhas Epístolas do Ponto:
"Como fico aterrorizado com os sonhos que reproduzem os meus
infortúnios reais! Parece que tenho as faculdades condenadas
a zelar pelos meus tormentos. Ora me imagino a evitar as
flechas dos Sármatas, ora abandono as mãos a cadeias cruéis
que vão acorrentá-las. Outras vezes, porém, o sonho
enganador oferece-me imagens mais doces, e julgo rever o
tecto que deixei na pátria."
Vejo-me vítima trespassada pelas flechas dos Sármatas, ou
então preso aos cavalos deles, de punhos amarrados,
cambaleando nos caminhos da planície, cansado e cheio de
sede, escravo dos bárbaros. Outras vezes, o sonho
transporta-me a Roma, e vivo horas calmas à sombra das
minhas árvores, rodeado pelos meus. Estas imagens sucedem-
se, por vezes no decurso da mesma noite. Acordo, com o
coração a bater desordenadamente, gritando de angústia sob a
chicotada de um bárbaro. "Augusto" começa a ladrar, tenho de
o mandar calar aos gritos, e continuo a tremer, ainda
dominado pelo terror do sonho. Volto a adormecer e pouco
tempo depois volto a sonhar, agora feliz, passeando de novo
no meu jardim. O mais pequeno barulho põe fim a esta feli-

112

cidade irreal. O que quero explicar, é que uma noite assim é


mais longa e mais difícil de suportar do que uma dezena de
dias, porque esgota-me de corpo e de espírito, sem quase
trazer repouso. O repouso, encontro-o na companhia dos seres
reais, sobretudo de Dokia, que quase me faz chorar de
alegria quando me olha. Também outras felicidades, mais
pequenas, mas agradáveis e consoladoras, fazem esquecer as
emoções da noite. Hérimon visita-me, às vezes, para contar
as alegrias da sua paixão e os desgostos da sua vida
conjugal. O pobre gordo é digno de pena. Lídia também vem,
de tempos a tempos, passar um bocado comigo, e receber, de
todas as vezes, um presente. É ávida de coisas doces, gosta
de uma taça de vinho de Quios, adora jóias falsas, carícias,
tudo o que se come ou que a faz comover-se. Diz-me: "Olhando
para os raios vermelhos desta pedra preciosa sinto-me a
rainha de uma cidade distante. Esqueço-me de mim mesma. Esta
taça de vinho faz-me sonhar com coisas que nunca possuí,
nunca possuirei, e que me pertencem no momento em que a
minha boca toca a taça. E quando a tua mão desliza no meu
ombro, torno-me a mulher de César." Vem ver-me para sonhar,
e eu gosto da sua presença para não ter sonhos. Somos dois
contrastes que se atraem e se entreajudam.
Honório também aparece; raramente nos últimos tempos. Está
cada vez mais silencioso e mortiço. Aquele, ou não tem a
consciência tranquila, ou está apaixonado e ciumento, ou
então prepara algum golpe baixo. Sempre senti por ele
simpatia e medo, simultâneos, como se, com os seus problemas
ocultos, ele representasse, bruscamente, como que um muro
entre os meus olhos e a realidade, impedindo-me de ver a
face do futuro.
Mas esqueci-me de anotar a grande novidade: Tomos perdeu a
sua filha preferida. Ártemis partiu no Outono. Um

113

jovem deus levou-a, ou seja, um comerciante de trigo,


natural do país dela, um velho matreiro e insinuante, que
conheci uma noite na rua. Estavam juntos, contentes,
radiosamente felizes como dois verdadeiros namorados.
Provavelmente já se casaram. O velho tinha conhecido a
família de Ártemis em Bizâncio, portanto a aventura que ela
me tinha contado em tempos, era verdadeira, pelo menos em
parte. Embarcaram para Samos, onde ele tem uma casa antiga,
centro do seu vasto comércio. Uma vez que ela aceitou este
velho por marido, estará feliz, pois, na imaginação, deve
vê-lo com os traços de Apoio. É difícil dizer qual dos dois
teve mais sorte. Já há pouca luz lá fora. Que horas poderão
ser? Vou chamar Dokia para reavivar o fogo da lareira e para
me trazer uma taça de vinho aquecido com especiarias.
"Augusto" dorme aos meus pés. Deve estar a sonhar, porque
geme como uma criança e começou a tremer. Talvez sonhe com o
seu homónimo, e vou acordá-lo para pôr fim ao pesadelo. O
vento caiu. Mas o céu está sombrio e, mesmo sem os ver, ouço
os flocos de neve caindo devagarinho no jardim. Não fazem o
menor ruído, mas a sua queda aumenta o silêncio, e cria como
que um outro som que aprendi a distinguir.
Vai já longe essa noite, com a neve que caía... Agora estou
em pleno sol, sentado num rochedo diante do mar, e escrevo.
Desde há muito tempo que me recuso a compreender os caminhos
do destino, mas não posso impedir-me de voltar a questionar
certas coisas. Nasci em Sulmona, mas a glória esperava-me em
Roma; foi em Roma que passei grande parte da vida, mas é em
Tomos que passo a velhice e provavelmente é aqui que
morrerei. Mas nada de pro-

114

fecias. A vida ensinou-me a desconfiar de tudo o que possa


imaginar em relação ao destino que me espera. Quem teria
pensado que, depois de ter sido atirado para Tomos, rodeado
de bárbaros, amedrontado e pouco activo como sou, iria
partir um dia para conhecer mais mundo? Justamente este
mundo que me tem prisioneiro e de que disse tanto mal nas
minhas epístolas... Há um ano, encontrava-me em Istria, e
essa estadia fez aumentar o meu desejo de ir um dia ver o
que se passa mais longe ainda. Eis-me agora em Leuce, ou
Aquileida, a ilha rochosa situada longe das margens, na
frente da foz do Danúbio. Tal como no ano passado, sou
hóspede de Pausanias, o amigo de Hérimon, que me irá
transportar até Troesmis, na margem esquerda do Danúbio,
onde o rio descreve uma grande curva, para se lançar, em
seguida, no mar. Daí continuarei a viagem por outros meios.
Pausanias todos os anos faz escala em Leuce, onde abastece
de vinho e azeite os três sacerdotes que cuidam do templo
dedicado a Aquiles Pontarchés, protector da navegação e do
comércio gregos nas águas do Ponto Euxino. O templo, que
substituía um antigo santuário erigido pelos Milésios,
elevava-se a meio da ilha e muitos barcos aportavam aí para
oferecer sacrifícios a Aquiles e levar oferendas aos seus
sacerdotes. Encontrámos o templo em ruínas e não havia sinal
de vida na ilha. Uma forte tempestade, ou mais provavelmente
um tremor de terra partiu as colunas de mármore, o que
provocou o desmoronar das paredes. A estátua do deus jaz por
terra, mas resistiu à queda. Pausanias e os seus homens
ergueram-na de novo, com muito esforço, pois é grande e
pesada, e fizeram depois os sacrifícios rituais. Dos
sacerdotes, nem sinal. A casa que habitavam, perto do
templo, também está em ruínas. É provável que tenham
abandonado a ilha, durante ou logo após a catástrofe.
Grossas serpentes negras, que são as

115
únicas habitantes actuais da casa, impediram-nos de deslocar
as pedras, para verificar se os sacerdotes teriam ficado
sepultados sob os escombros, talvez ainda vivos, uma vez que
a catástrofe se deve ter produzido recentemente, ou seja, há
dois ou três dias. Chamámos de alto, precorremos a ilha em
comprimento e largura, os homens de Pausanias ainda andam
pelas margens, ouço daqui os gritos assustados misturando-se
com os gemidos do mar. Têm medo das sombras dos defuntos,
das serpentes, mesmo as não venenosas, mas repugnantes pela
cor negra e luzidia, da solidão solene que os rodeia. O sol
já vai alto no céu sem nuvens e sopra uma brisa fresca,
assobiando através dos rochedos. O aspecto da ilha, com as
ruínas ao centro, não é hospitaleiro. Poderíamos chamar-lhe
a Ilha dos Mortos ou a Ilha das Serpentes. Eu não tenho
medo. Pelo contrário, uma curiosa paz encheu-me a alma logo
que vi o espectáculo do templo em ruínas. Em presença do
desastre, tive imediatamente a certeza de que o deus também
tinha fugido, ao mesmo tempo que os sacerdotes. Tinha-se
retirado do mundo. E se os sacerdotes estivessem mortos sob
os escombros da casa, o deus, porque não, teria talvez
sofrido o mesmo destino. Será possível que um deus morra?
Porque é que um deus, entre tantos outros, não quereria
retirar-se, fugindo da adoração fatigada dos homens? Os
deuses morrem com os seus últimos fiéis. Provavelmente
nascem novos deuses no meio de nós, sem nos apercebermos
disso. Só esperam por um nome para poderem ser adorados.
Parti de Tomos em busca dos sacerdotes de Zalmoxis. Dokia e
o pai ensinaram-me onde encontrá-los. Dirijo-me para a
montanha sagrada, porque quero conhecer a fundo a doutrina
do deus geta. Será ele o deus sem nome, cuja presença
invisível paira sobre o império, fazendo desertar os
legionários e aliciando as mulheres para outros templos e

116

outros cultos, mais espirituais e mais austeros? Vou sabê-lo


em breve. Mas, para mim, é verdadeiramente impressionante
ter encontrado, na demanda do deus único, este templo
arruinado, as serpentes enroladas em volta da estátua
abatida de Aquiles Pontarchés, este vazio absoluto, - e ter
descoberto em mim um pressentimento de morte que não me
entristece o coração.
No sopé do rochedo, avisto balouçando nas águas, o barco de
Pausanias onde embarcaremos daqui a pouco. Estamos no fim do
mês de Maio. O mês de Corina e das flores. Não existem
flores nos rochedos de Leuce. Como tudo está longe! Outra
vida. E outra vida, a do meu desterro, já fica também para
trás, como a muralha do sonho que me impedia de olhar para o
panorama de Roma.
O barco passa através da floresta de ramos de salgueiros que
tombam mergulhando na água que, à nossa passagem, ondula até
quase ao cimo das árvores, assustando os pássaros que
repousavam. Estranhos pássaros chamados pelicanos, de grande
bico e com um saco oblongo situado debaixo da mandíbula
inferior, onde transportam peixe para os filhotes, como se
viessem do mercado. Têm um voo pesado e, quando pousam num
ramo, ele inclina-se e curva com o peso, sobretudo se o saco
estiver cheio de peixe. Seguimos pelo braço inferior do
Istro, o mais meridional dos três braços do Delta e, por
causa da corrente, avançamos muito devagar à força de fortes
remadas. Paramos três vezes por dia, para os escravos
retomarem fôlego. Durante uma dessas paragens, desci a terra
para olhar para lá da parede de salgueiros. O espectáculo
que se abriu perante os meus

117

olhos era digno do génio de Virgílio. O terreno não é plano,


como se poderia supor, mas acidentado, semeado de colinas e
vales pequenos. Árvores e plantas cobrem as alturas,
enquanto que a superfície das águas - que no fundo dos vales
formam por todo o lado pequenos lagos e ribeiros -, nesta
estação cobre-se de nenúfares em flor. A água está tão calma
que se vêem no fundo arenoso caules elegantes e paralelos,
graciosamente inclinados na mesma direcção, ao sabor da
corrente. A superfície parece branca sob a camada de
pétalas, cuja pureza contrasta com o verde das margens ou o
amarelo-pálido dos istmos e das praias de areia que se
formam por vezes no sopé das colinas. Os pelicanos, e
milhares de outros pássaros sobrevoam este paraíso onde não
se vêem sinais de passagem humana, embora a cidade de Istria
tenha o direito exclusivo da pesca sobre todas as paragens
que se estendem para sul da embocadura do Istro, e de muitos
pescadores percorrerem estes lugares durante toda a estação
quente. Os Gregos chamam Peuce ao braço meridional do Delta.
Passámos a noite em Salsóvia, cidade geta situada na margem
direita do rio. A vida aqui deve ser de uma assustadora
monotonia. Durante quatro ou cinco meses, as águas do Istro
cobrem-se de gelo, ninguém chega de lado nenhum, a cidade
fica cortada do resto do mundo, os habitantes passam o tempo
a beber, a cantar e a fazer furos no gelo para apanhar
peixe. Em comparação, a vida em Tomos parece mundana e
agitada. E se Augusto me tivesse exilado em Salsóvia, no
meio destas águas, ora demasiado remexidas, ora imóveis, das
florestas sem fim, dos homens de cabelos longos a cheirarem
a peixe, vestidos de peles de cordeiro, longe dos Gregos e
longe de Roma!... A cidade é cercada por uma paliçada dupla
calafetada com lama seca. As paredes das casas são feitas da
mesma maneira, mas a superfície

118

é caiada. Também vi casas semi-enterradas, com a borda dos


telhados coberta de palha ou de juncos, tocando em terra
pelos dois lados. Para entrar nelas, descem-se alguns
degraus, como se penetrássemos num túmulo. Os homens usam
barbas, aliás bastante bem cuidadas, cortadas de forma
arredondada, seguindo a curva do rosto. As mulheres são
tristes - grandes olhos sem esperança, que olham para além
das coisas, para além dos pântanos, como se na distância
avistassem algum mundo menos desolado e outros homens,
talvez sem barba. É um olhar que me lembra o que Corina por
vezes tinha, quando começava a pensar, ignorando a minha
presença. Que esperam todas estas mulheres, em Roma e aqui,
e em todos os lugares do mundo? Sonham talvez com os tempos
felizes e castos das amazonas, que matavam os seus homens
após o amor, ou uma outra vida, prometida pelo Deus delas.
Prosseguimos em direcção a Egisso ou Egipso, a jusante do
local onde as águas do Danúbio se dividem para formar o
delta. Antes de aí chegar, mal se sai de Peuce, pode-se
contemplar a vasta extensão do rio. Ao longe, avistam-se as
margens ladeadas de salgueiros e, por detrás deles, estende-
se para norte a planície, e para sul colinas cada vez mais
altas. Pausanias disse-me que o rio tem dois nomes. A parte
superior - nascentes situadas desde as florestas da Germânia
até ao Hemo - chama-se Dunaris ou Danubius, e Istro, na
parte inferior, desde o Hemo até ao mar. É o rio sagrado dos
Getas e dos Dácios, que habitam quase todo o comprimento das
suas margens, pois, antes da chegada dos Romanos, o reino
estendia-se até à Panónia. Quando os Dácios partem para a
guerra, bebem água do rio, que tem o dom de os tornar fortes
e invencíveis.
Fizemos escala em Egipso durante um dia inteiro, para
descarregar parte das mercadorias que vinham a bordo,

119

vinho e objectos de metal, e para carregar peles, barris de


mel e três escravos. Teria sido possível descarregar, e só
no regresso fazer o carregamento negociado em troca, mas
Pausanias é prudente. Nunca se sabe o que pode acontecer.
Nestas paragens o comércio é uma aventura. Egipso encontra-
se neste momento sob domínio de Cótis, rei dos Trácios, mas
no ano anterior os Getas tinham-na atacado e conquistado.
Lembro-me de que em Tomos só se falava nesta guerra. Eu
próprio me referi a ela nas Epístolas do Ponto.
Stat vetus urbs "Junto das margens do Istro, de duplo nome,
eleva-se uma cidade antiga, quase inacessível devido à sua
localização e às muralhas que a rodeiam."
E mais adiante:
Urbs erat in summo nubibus aequajugo.
"Esta cidade tocava as nuvens, no cimo da sua montanha."
Portanto, Egipso tinha estado durante algum tempo em poder
dos Getas, que pensavam utilizá-la como ponto de apoio para
as suas incursões para sul, ou seja, para Tomos, Istria e
outras cidades gregas e trácias, incursões que têm por
hábito empreender, sozinhos ou acompanhados pelos seus
aliados, os Sármatas. Mas Vitélio fez embarcar uma legião
inteira em Ratiária, junto do Istro, onde já se
multiplicavam os barcos de guerra romanos, desceu até
Egipso, juntou-se aí ao exército de terra enviado por Cótis,
aliado de Roma e, juntos atacaram a cidade. Os Getas
resistiram encarniçadamente, o exército de Vitélio teve
muitas baixas, e foi finalmente o ataque dirigido pelo
próprio Vitélio que trouxe

120

a vitória aos nossos soldados. (Dediquei a Vitélio a sétima


epístola do livro quarto das Epístolas do Ponto) A sorte de
todas estas cidades fortificadas situadas na margem direita
do rio, será a mesma. Foram quase todas fundadas pelos
Citas, que se retiraram para oriente sob a pressão cada vez
mais enérgica dos Getas. Estes, conquistaram-nas e
modernizaram-nas, rodearam-nas de sólidas fortificações,
tentando mantê-las todas sob o seu poderio, pois quem
dominar estes locais, domina não só o território que se
estende entre as águas do Istro e o mar, mas também o
território do lado do Norte, do Leste e do Oeste, porquanto
a margem direita é mais alta e constitui por si só uma
imensa fortaleza natural. Assim, é lógico que, uma vez as
nossas legiões estabelecidas na Dácia, essas cidades caiam
em nosso poder, pois quem as possuir será senhor de toda a
região circundante. Alexandre da Macedónia e Lisímaco
aperceberam-se da importância estratégica destes locais e
fizeram todo o possível por submetê-los pelas armas. Sem
sucesso, porém. Duvido que os Getas aceitem por muito tempo
a situação tal como está, e é provável que voltem de novo à
carga, depois de conseguirem reagrupar outra vez as suas
forças, dispersas pela sangrenta derrota do ano passado.
Do alto da cidade, cercada por fortes paliçadas, o olhar
perde-se na distância brumosa, por cima das águas do rio. A
planície da margem esquerda é pantanosa e parece deserta e
infindável, como um mar calmo. A margem direita, onde se
encontra Egipso, é um elevado planalto ondulado, montanhoso,
cujos cumes arborizados se lançam como vagas para os lados
do Sul. Paisagem ao mesmo tempo selvagem e majestosa, à
imagem dos seus habitantes.
Como não tenho intenções de me relacionar com os meus
compatriotas, viajo vestido à grega. A guarnição da cidade é
trácia, mas os verdadeiros senhores são alguns sol-

121

dados romanos e os seus centuriões, directamente dependentes


do comando militar da Mésia. Encontro-os na rua, olham-me
com curiosidade, pois tenho ar de um Grego rico e elegante,
deslocado no meio destas florestas selvagens, mas nunca me
dirigem a palavra. Têm todos o mesmo passo seguro e o olhar
orgulhoso dos vencedores. As crianças fogem quando o
capacete altivo com o penacho impertinente aparece ao fundo
de uma rua. Somos os mais fortes, o que significa que o
resto do mundo nos receia. Inspirar medo, é a única
recompensa visível da força. Se um dia conseguíssemos
misturar o nosso sangue com o deste povo, como fizemos com
os Sabinos e os Etruscos, deixaríamos de ser olhados como
inimigos. Mas esse dia irá chegar alguma vez? Entretanto,
será preciso guerrear, matar, ser morto, derramar sangue nas
águas indiferentes do rio, que o transporta para a
indiferença suprema, o mar.
Distinguem-se por todo o lado sinais da guerra passada.
Casas queimadas, brechas na paliçada, uma torre desmoronada,
pouca gente na rua, muitos soldados estrangeiros com
uniformes, como se tudo fosse recomeçar de um momento para o
outro. Pausanias e eu almoçámos em casa do istrio
Aristágoras, que habita em Egipso há cerca de dez anos e
também se dedica ao comércio. Disse-nos que os Gregos não
têm nada a recear nem dos Getas nem dos Romanos, mas que as
suas actividades só teriam a ganhar com o estabelecimento
definitivo dos Romanos nestas paragens. Falando dos
afluentes mais importantes do Istro na zona, cita o Píreto,
o Tiras e o Museu e conta-me uma coisa estranha: na região
vizinha, para lá do Píreto na direcção das planícies
infindas de Leste, o primeiro grande rio que desagua no
Ponto Euxino chama-se Tiras (18), e na sua margem ergue1

(18) Deniestre - N. T.

122

- se uma enorme pedra, bem conhecida de todos, onde se pode


ver, perfeitamente conservada, a pegada gigantesca deixada
por Hércules. Imediatamente, instala-se uma polémica entre
Pausanias e Aristágoras a propósito da origem desse vestígio
sagrado. Pausanias pretende que Hércules imprimiu o seu pé
na pedra, no fim ou durante o combate que o filho de Júpiter
e de Alcmena travou com Diómedes, rei dos Trácios, a quem
matou - feito que constituiu, se não me engano, o seu sétimo
trabalho; Aristágoras, por sua vez, sustenta que Diómedes e
os Trácios habitavam mais para sul e que Hércules só poderia
ter atravessado o Tiras quando voltava do Cáucaso onde tinha
libertado Prometeu dos seus grilhões. Os dois amigos, como
bons Gregos, batem-se furiosamente com uma argumentação
certeira e eloquente. Finalmente, querem saber a minha
opinião. Por delicadeza, inclino-me para a tese de
Aristágoras, embora cada um deles pareça ter razão.
Aristágoras apoia-se num facto que poderá ser correcto: o
reino dos Trácios nunca se estendeu até às margens do Tiras,
e o combate entre Hércules e Diómedes teve portante lugar,
segundo ele, algures entre o Istro e o Hemo. Pausanias
afirma que é absurdo pensar que Hércules regressaria do
Cáucaso pelo caminho mais longo, que segue ao longo da costa
setentrional do Ponto, em vez de tomar a rota do Sul, que
conduz directamente do Cáucaso à Grécia, através da Ásia
Menor.
No barco, a caminho de Novioduno, Pausanias procura ainda
convencer-me. Serve-me de beber enquanto fala e, sacudida
pelas ondas, a mão treme-lhe e entorna o vinho na mesa. Na
luz vermelha do poente, a galera avança devagar rumo ao
coração destas terras. Avista-se já sobre uma elevação, uma
torre ou a sombra negra de uma muralha ou uma paliçada. As
palavras do meu amigo não me interessam. Finjo ouvi-lo, mas
penso em Geta, a jovem escrava de

123

Dionisodor, que é de Novioduno e no seu patético adeus que


me ressoa ainda na memória. Amor, disse-me enquanto se
perdia nas trevas da casa. A repetição desta palavra tornou-
se subitamente trágica, pois fora o nosso último encontro.
Nem mesmo sei se ela se chamava Geta. Respondia com sinais
afirmativos a todos os meus desejos. Rindo. Envolvendo-me
com o seu riso. Deixando-me acreditar que era ela quem
cedia.
Sabia que eu ia chegar e estava já à minha espera. A casa,
caiada como todas as casas Getas, fica fora da cidade, sobre
uma elevação de onde se domina Troesmis e o rio em toda a
largura, bem como uma planície desconhecida que tenciono
atravessar amanhã. Ainda estou em país trácio-romano, porque
Troesmis o ano passado sofreu a mesma sorte que Egipso. A
cidade foi tomada pelos Getas e reconquistada por Vitélio e
pelos Trácios de Cótis.
- Toda esta terra é geta, disse-me Sédida, apontando com o
braço estendido a paisagem circundante. Vive sozinha há um
ano. O marido e o filho foram mortos defendendo Troesmis da
ofensiva Romana. Sabe quem eu sou, mas recebeu-me debaixo do
seu tecto, ofereceu-me uma taça com água e uma colher de
mel, conforme os usos. Sou um amigo de Dokia, a filha do seu
irmão, e isso chega-lhe. Tem uma expressão triste, uma vida
solitária no meio dos campos e dos estábulos, não esqueceu
ainda os seus, mas esta mulher, que a velhice começa a
marcar, não está desesperada. Segundo a religião dos Dácios,
todos os guerreiros caídos em combate ganham imediatamente o
céu de Zalmoxis, e uma eternidade feliz. E os seus tombaram
em combate.

124

Quando um Geta morre, sobretudo se foi na guerra, festejam a


sua partida com banquetes. Quando um Geta nasce, choram a
sua entrada numa vida onde por certo irá sofrer, até que
Zalmoxis tenha piedade dele. Penso que há nesta crença uma
profunda sabedoria, e digo-o a Sédida, que me olha com uns
olhos castanhos de uma beleza calma e responde: "Todas as
religiões estão cheias de sabedoria. A tua também,
provavelmente." Parece reflectir, olha-me ligeiramente
embaraçada por um pensamento que não ousa ainda formular, e
depois pergunta: "Há qualquer coisa que não compreendo. Se
os vossos deuses são sábios e justos, porque é que o vosso
povo os abandonou?
- O que é que te faz julgar isso?
- Um povo que crê nos deuses e respeita as suas leis não
parte à conquista de outros povos. Defende-se quando o
atacam, ou entra em guerra quando a fome é excessiva, mas
não faz da guerra de conquista uma regra de vida. Espero não
te ter ofendido.
- Não, Sédida, não me ofendeste. Essas palavras são justas e
acabas de dizer uma grande verdade. O meu povo perdeu a fé.
Neste momento procura um novo Deus, e a guerra é talvez uma
maneira de o procurar. Não é a mais justa, reconheço.
- Há trinta anos, mais de trinta anos, era eu ainda uma
menina, os vossos atacaram o nosso rei Ziraxes, depois de
terem conquistado o reino de um outro rei geta, Dapix. O meu
pai lutou contra as legiões. Encontrava-se com Dapix, junto
com as forças enviadas pelo rei Ziraxes e contou-me tudo.
Muitas vezes, no Inverno, falava-nos dessa guerra terrível.
Os nossos foram vencidos na planície e refugiaram-se depois
na cidade de Dapix, que os Romanos imediatamente cercaram. O
chefe dos vossos chamava-se Licínio Crasso, vencedor dos
Bastarnas. A cidade teria resistido até ao

125

Inverno, altura em que o frio e a neve teriam forçado os


Romanos a abandonar o cerco, mas houve um traidor entre nós.
Negociou com Crassus em língua grega, falando do alto das
muralhas diante dos soldados e podendo ser ouvido por todos.
Mas o traidor era o único que compreendia o grego. Durante a
noite, abriu uma porta. Dapix continuou a combater, nas
ruas, à luz das chamas que devoravam as casas. Mas os
romanos eram muito mais numerosos. Quando toda a esperança
se perdeu, Dapix matou-se e todos os chefes o imitaram.
Licínio Crasso, ao penetrar no reduto do rei, encontrou-o
morto no meio dos seus e de todos os grandes do reino, que
tinham preferido a morte ao cativeiro. Durante a última fase
do combate, o povo da cidade conseguiu fugir por outra
porta, levando os bens mais preciosos. Protegidos pelas
trevas, afastaram-se da cidade. No dia seguinte, chegaram à
gruta de Queiris, do lado do mar, não longe de Istria, onde
se esconderam todos, com rebanhos e bens, pois a gruta é
mais vasta do que uma cidade. Crasso não lhes deu tréguas.
Surgiu à entrada da caverna, mas nem sequer tentou entrar lá
dentro. Fez o que só pode fazer um homem que perdeu a fé nos
deuses. Mandou murar a entrada da gruta, e todos os que lá
se encontravam, homens, mulheres, crianças, velhos e animais
morreram após semanas de longa agonia. Não, o meu pai não
estava lá dentro, porque fugira na noite anterior, no
momento em que a cidade caía nas mãos dos Romanos, para
levar a Ziraxes a notícia da derrota de Dapix. O nosso rei,
informado pelo meu pai, refugiou-se por sua vez ao abrigo
das muralhas da cidade de Genucla, situada do lado do mar,
no meio dos mil braços do Istro, entre florestas e pântanos.
Mas uma noite, Crasso atacou a cidade e tomou-a de assalto,
matando muitos dos nossos. Segundo o que o meu pai dizia,
Crasso procurava - e encontrou - qualquer coisa em Genucla,
que

126

explica o seu encarniçamento. Hás-de lembrar-te de que,


trinta anos antes desta história, os Getas tinham esmagado
os Romanos, comandados, se não me engano, por Gaio António,
diante das muralhas de Istria. Nós éramos aliados dos
Bastarnas, mas a vitória foi decidida pelos nossos, que
trouxeram com eles os estandartes romanos, levando-os para o
castelo do rei, em Genucla. Foi aí que Crasso veio buscá-
los. E isto não vai acabar nunca. Acabaria talvez no momento
em que as vossas legiões conseguissem conquistar todo o
nosso país. Ou então, quando os nossos reis nos conduzirem,
vencedores, até Roma.
- Achas que é possível?
- Tudo é possível. O nosso povo é grande. Temos um só Deus,
acreditamos Nele e nas leis que nos ditou. O que ainda nos
falta é um só rei. Os Romanos têm só um rei, mas têm deuses
de mais. A vantagem ainda está do nosso lado. Espero não te
ter ofendido."
Sédida ainda não se habituou à solidão. Gosta de conversar e
aproveita a minha presença. Mas as suas histórias não me
aborrecem. É uma mulher inteligente, sabe muitas coisas, e
tem uma memória extraordinária. Dirige uma dúzia de homens
que se ocupam dos seus bens, ou seja, campos e rebanhos.
Neste local, o rio forma um anel que, de um lado corre à
beira das montanhas da margem direita, onde ficam Troesmis,
a casa de Sédida e as aldeias Getas, submetidas aos Trácios
e aos Romanos. Do outro lado da água estendem-se as terras
dos Dácios livres, uma planície verde salpicada de árvores,
onde também se avistam algumas aldeias e rebanhos
acompanhados pelos pastores. Para a minha viagem, Sédida
emprestou-me uma carroça coberta, de quatro rodas, puxada
por dois cavalos. Não quer nada em troca. Um dos seus homens
vai acompanhar-me. O meu objectivo é Cogainon, a montanha
sagrada dos Dácios, no

127

cimo da qual vive o grande sacerdote, rodeado pelos monges.


É uma viagem de três ou quatro dias, segundo me disse
Sédida, e, no regresso, encontrarei por certo alguma galera
grega ou romana que me levará a Tomos. Neste momento estou
só. O canto agudo das cigarras invade-me o quarto, o ar
parece enfeitiçado por esta música que anuncia a proximidade
do Verão e dos grandes calores. O céu está claro, sem uma
nuvem, consigo distinguir uma parte do rio, com barcos
ancorados, à direita colinas de um verde intenso, e do outro
lado da água a planície com os campos de trigo que em alguns
pontos já está a ficar dourado. A conversa com Sédida faz-me
pensar na fatalidade que devora o nosso povo. Depois de
Júlio César, os deuses foram substituídos por um homem e o
império tornou-se a própria imagem desta terrível
metamorfose. A lei é-nos imposta por um homem e os deuses
estão mortos. Ou então, nós é que morremos para eles. Assim,
a guerra torna-se o símbolo da morte que transportamos
connosco, cheios de violência, desde que perdemos a fé. As
guerras que desencadeamos por todo o lado não são mais do
que a prova desta decomposição. Levamos a morte em nós como
uma epidemia e chamamos "vitórias" às hecatombes, e
"triunfos" aos funerais. E não há nada que possa fazer-se,
nenhuma acção a empreender para deter o mal. E entre nós há
poucos capazes de compreender ou de se deixar convencer.
Para quê deixar-se convencer, dir-me-iam em Roma? Para
destruir os nossos templos e adorar Zalmoxis, um deus
bárbaro? Ou, então, para refazer tudo, desde o início,
acreditar de novo nos nossos deuses com o mesmo ardor de
Eneias e Numa Pompílio e fazer as pazes com toda a gente. É
absurdo. Roma está velha. Eu não gostaria de recomeçar a
minha vida a partir dos primeiros anos de homem consciente,
voltar a ser jovem, viver de outra maneira, sem erros, fiel
a outros

128

ideais? E isso é impossível, como doravante é impossível que


Roma regresse aos tempos dos reis fiéis aos deuses. Sédida
ilude-se. Os reis dácios nunca chegarão a Roma. E Roma irá
levar-lhes a morte, até aos confins dos bosques antes de se
afundar ela própria, esgotada pelos próprios erros. O mundo
acabará nesse momento? Irá passar-se algo de inesperado,
algo que começou já a acontecer, não sei o quê, nem onde,
mas o ar do mundo está saturado, como de um excesso de
humidade, que os homens mais sensíveis sentem sem lhe saber
o nome, e que trará de novo ao género humano a frescura de
um recomeço. Não sei que nome dar ao que espero, que poderá
ser um novo Deus, um novo povo, um novo sol no céu, ou outra
coisa desconhecida dos homens, mas sei que acontecerá. E
estou aqui para tentar saber se os sábios dos Getas, os seus
sacerdotes com vidas exemplares, terão recebido sinais, se a
sua doutrina lhes fala desta renovação tão próxima e se os
seus profetas anunciam já esta vinda pela qual anseio, sem
conseguir imaginar-lhe o nome nem a forma.
Comozous esperava-me com a carroça e os cavalos, do outro
lado das águas que atravessei de barco, depois de me ter
despedido de Sédida que me acompanhara até à beira-rio. A
carroça estava preparada para uma longa viagem, com sacos de
víveres e armas. Viajamos desde ontem de manhã, ao longo de
uma corrente que se lança no Museu, cujo curso abandonámos
para seguir este ribeiro. A água é escassa e salgada e os
cavalos não gostam de a beber. Brota de um rochedo de sal e
forma um lagozinho, lá no alto, nas montanhas, que esta
tarde avistámos ao longe.

129

A região que atravessámos ontem é bastante monótona e as


aldeias, raras. Esta planície é um local de passagem, o
único entre as montanhas e o Danúbio. Passámos a noite em
Zousidava, uma aldeia grande ou uma vila pequena, dácia,
onde se concentram todas as riquezas da região, antes de
serem encaminhadas por Dunaris e pelo mar, para a Grécia e
para o resto do mundo. Os cavalos, o trigo e o mel
constituem a principal riqueza desta zona habitada pelos
Dácios. Segundo o meu novo amigo Comozous, mais a norte há
uma outra cidade, Ramidava. Dava, em língua geta, quer
dizer, ao mesmo tempo, cidade e aldeia. A dava que se
encontraria no nosso caminho, mas do outro lado das
montanhas, chamar-se-ia, sempre de acordo com as informações
de Comozous, Komidava. E mais longe ainda, para oeste,
correriam os ribeiros dos Agatirsos, ricos em ouro, de que
os Dácios se servem para fazer as moedas, a que dão a forma
de anéis de diferentes tamanhos e espessuras, segundo o seu
valor comercial. Tenho uma centena delas na bolsa que trago
debaixo da túnica, escondida de olhares cobiçosos.
A conversa de Comozous é a de um bárbaro que só fala a sua
língua e que não conhece outro país senão o seu. Não
acredita em mim quando lhe digo, por exemplo, que os
camponeses do nosso país falam latim, pois não consegue
imaginar camponeses que não sejam Dácios, nem outra língua
que não a sua própria. Como é possível que um camponês,
mesmo de outro país, fale uma língua diferente? Os animais
não o entenderiam. Tento explicar-lhe que cada povo tem a
sua língua, falada por todos os seres humanos que o compõem;
faz que "sim" com a cabeça, mas nos olhos brilham sempre as
luzinhas da dúvida. Disse-me: "Compreendo bem que as coisas
que pertencem a uma cidade tenham nomes diferentes em
Troesmis e em Roma. Mas que coisas como a terra, uma árvore,
um pássaro, iguais a si pró-
130

prios em todos os lados, tenham nomes diferentes, isso não


posso entender.
- Queres dizer que não terias dificuldades em te fazer
compreender por um camponês dos nossos?
- É isso", e olhou-me reconhecido, como se eu lhe tivesse
oferecido o argumento que procurava. E, em certo sentido,
tem indubitavelmente razão.
Anda de cabeça descoberta, com longos cabelos castanhos
caindo sobre os ombros. Veste-se de branco, uma camisa
segura à volta da cintura por uma espécie de faixa encarnada
de lã tecida, e bracinae ou calças, também brancas, caindo
até aos tornozelos. O sol bate em cheio durante todo o dia
nos pés descalços. A planta dos pés é cinzenta, endurecida
pelo contacto com a terra e parece insensível aos calhaus e
às queimaduras do calor e do frio. Fala com os cavalos como
se fossem da sua espécie, zanga-se com eles, sorri-lhes,
ignora muitas vezes a minha presença, entretido nessa
conversa que parece um monólogo, mas não é, pois os cavalos
respondem-lhe à sua maneira. Comozous pergunta-me
bruscamente se sou casado e se tenho filhos. Digo: "Sim, sou
casado, mas não tenho filhos. A minha mulher é que tem um. -
Então casaste com uma viúva. - Não, respondi, a minha mulher
separou-se do primeiro marido, que ainda vive, e o mesmo
aconteceu, aliás, com as duas primeiras mulheres que tive
antes de casar com Fábia. - E elas casaram com o primeiro
marido da tua mulher?" Digo: "Não, porque no meu país só
podemos estar casados com uma mulher. - E porque é que as
abandonaste? Elas não podiam dar-te filhos? - Não, não foi
por isso. Simplesmente, não nos entendíamos. - Aaah!" E as
perguntas continuam: "E com a terceira, tudo corre bem? -
Sim. - E ela está em Tomos contigo? - Não, ela ficou em
Roma. - Então as coisas não estavam assim tão bem!"

131

Passo o dia inteiro sentado ao lado dele, olha-me de través


quando as minhas respostas parecem completamente desprovidas
de lógica, e sinto a reprovação invadir os seus olhos semi-
cerrados. Conduz os cavalos com os cotovelos apoiados nos
joelhos, as costas curvadas, o olhar fixo algures no caminho
em nossa frente. Seria preciso contar-lhe toda a história de
Roma, para o fazer entender as complicações de um divórcio e
encontrar uma justificação para ele. Outra coisa que não
consegue aceitar, é uma casa com seis andares. Como é
possível viver lá no alto, sem medo de cair em cima dos que
habitam os andares inferiores, e como se pode suportar viver
por baixo dos outros, sem recear a cada instante ser
esmagado pela queda deles? Nunca acontece que uma casa de
seis andares se desmorone? Acontece, reconheço. Vês? E
lança-me um daqueles olhares invisíveis, como quem diz: Se
as casas caem, para quê construir casas de seis andares? E
se constróem, quem é o idiota capaz de ir enfiar-se com toda
a família em semelhante armadilha? Ou então, estás a fazer
troça de mim... Em Roma, tudo é absurdo, na perspectiva de
Comozous. As mulheres, as casas e o resto. Ontem ao fim da
tarde, enquanto esfregava os cavalos com um punhado de
palha, no pátio do albergue de Zousidava, ia cantando a
canção da ovelhinha que eu ouvira a Geta, em Istria, naquela
noite na praia.
Comozous habita com três filhas, um filho e a mulher
Zudecitulp, perto de Troesmis, nas propriedades de Sédida.
Esta noite, antes de se deitar, tirou do saco uma flauta
comprida, lustrosa e amarelada pelo uso, e começou a tocar,
mais para os cavalos do que para mim, árias tristes e um
pouco monótonas, certamente evocadoras de velhas histórias.
As árias tinham a forma da paisagem que temos vindo a
percorrer toda a tarde: onduladas como as colinas e os
bosques, contando qualquer coisa, ao ritmo de um rebanho de
carnei-

132

ros que, na sua marcha, fosse tomando também a forma da


paisagem à medida que subia e descia entre os declives
arborizados, à beira de um regato, avançando pela planície
com os dorsos protegidos pela sombra das montanhas, ou, ao
contrário, com os montes diante dos olhos, recebendo neles o
sol no ocaso. Qualquer outra música seria impensável aqui.
Tanto a madeira sonora da flauta, como a boca que sopra a
ária musical pelo subtil orifício do instrumento e como a
orelha que escuta e interpreta sempre da mesma forma perante
as mesmas imagens, tudo parece modelado pela curva
harmoniosa das colinas. Nunca tinha sentido tanta doçura nas
formas. Neste momento, encontramo-nos no cume plano de uma
das colinas. O sol desapareceu há instantes atrás das
montanhas, aos nossos pés o vale do Riacho Salgado cobre-se
de sombras, lentamente, porque os dias são longos nesta
estação. Altos choupos estremecem na beira da água, e aqui e
ali colunas de fumo sobem para o céu, diante das cabanas dos
homens. Os nossos cavalos pastam na erva espessa e ouve-se o
ruído forte e satisfeito do seu mastigar. Comozous acendeu o
fogo diante da carroça e prepara-se para o longo ritual da
malana quotidiana. Tento desentorpecer as pernas, andando
para trás e para diante, enchendo o espírito da imensidão
das montanhas, das colinas, das planícies, das florestas e
do céu, que tem forma, cor e sons. Esta imensidão tem um
nome: a paz. Uma paz que fala de um passado ou de um futuro
muito distante, quando a alma humana tinha, ou terá, a forma
desta paisagem. Pela primeira vez, desde que existo, sinto-
me a viver sem medo.
"...e uma grande tristeza estender-se-á sobre ele até ao fim
da sua vida." Comozous acaba de me descrever o ritual

133

dos eleitos. De quatro em quatro anos, o melhor dos jovens


do reino empreende a viagem até ao além. Trata-se sempre de
um jovem guerreiro, o mais corajoso e o mais virtuoso. Em
presença do rei e do grande sacerdote, encarregam-no de ser
o intérprete dos Dácios junto de Zalmoxis. O rei diz, por
exemplo: "Comunicarás ao nosso Deus a intenção que temos de
atacar este ano as cidades que os Romanos nos tomaram no ano
passado. Pedimos-Lhe que, como sempre, esteja do nosso lado
durante a batalha e torne fortes os nossos braços." Ou o
grande sacerdote: "Dirás a Zalmoxis que o Seu povo obedece
às leis que Ele lhes legou" (ou que não obedece a essas
leis). O jovem mensageiro sobe ao alto da muralha que
circunda Sarmisegetuza, a capital de todos os Dácios e, com
os olhos postos no céu, para onde não tardará a elevar-se,
atira-se sobre as lanças que estendem para ele os guerreiros
do rei, seus amigos e camaradas. Se morrer imediatamente,
com o coração trespassado, quer dizer que Zalmoxis aceitou o
mensageiro e a mensagem. Se não morrer, um outro, melhor do
que ele, tomará o seu posto na muralha, pois Deus recusou
recebê-lo. "E uma grande tristeza estender-se-á sobre ele
até ao fim da sua vida." Para os Dácios, a vida na Terra não
tem valor nenhum. Aquele que morre trespassado pelas lanças,
ou os que tombam no campo de batalha, perdem a vida do
corpo, para ganhar, junto de Zalmoxis, a vida eterna da
alma. Podem assim ser os mais perigosos dos inimigos, porque
nunca têm medo de perder o que nós consideramos o bem
supremo, e que para eles é o menor dos bens. Se estivessem
unidos, se formassem um único reino e dispusessem das nossas
armas e da nossa ciência militar, seriam, se quisessem, os
senhores da Terra. E eis aqui uma bela contradição: o povo
que poderia ser o senhor de todos os outros povos, não
quererá nunca obter essa honra, pois os Dácios desdenham a
glória terre-
134

na. A sua ambição não é privar de liberdade os outros povos,


mas sim conservar a sua, tendo sempre em vista o ideal
supremo que nenhum Dácio esquece nem por um instante: a
eternidade feliz, para lá dos limites deste corpo mortal,
símbolo da dor e do efémero.
A casa de Escóris, primo de Sédida e amigo de Comozous, é
construída sobre quatro grossos pilares de pedra cinzenta, a
dois pés de distância do solo. É toda de madeira e é preciso
subir cinco degraus de uma escada feita também de pranchas
de madeira, polidas pelo vaivém dos membros da família. As
paredes interiores são igualmente de madeira, mas, enquanto
que no exterior os meios-troncos que se sobrepõem até ao
tecto são horizontais, as pranchas no interior estão na
vertical. Reina na casa uma grande limpeza. As camas são
altas, cobertas por colchas de lã tecida, com pássaros ou
flores amarelas nas orlas, sobre um fundo azul escuro, no
centro. Tomamos as refeições em volta de uma mesa redonda e
baixa, sentados em bancos de três pés, em tudo semelhantes
aos que Dokia tem na sua casa de Tomos. A diferença é que
aqui estou na casa de um Dácio rico, um verdadeiro rei
camponês. Rodeado pela mulher, pela mãe e pelos seis filhos,
Scorys reina sobre os seus com uma dignidade misturada com
uma espécie de bondade selvagem. Falamos da minha viagem,
por boa educação, mas o meu hospedeiro quer logo ter
notícias de Roma e do imperador. Aliás, está perfeitamente
bem informado e revela-me uma coisa que eu ignorava: os
Dácios tinham muitas vezes interferido nas nossas guerras
civis. Desde o tempo de Burebista - o grande rei que
conseguiu levar a efeito a uni-

135

dade de todos os Dácios, sob o seu ceptro, e que foi


assassinado por um traidor -, que estes apoiavam Pompeu
contra César e António contra Octaviano, ou seja, os
regionalistas defensores das autonomias locais, contra os
exageros dos centralizadores. Os sucessores de Burebista
entraram em contacto com Augusto, no tempo em que ele era só
Octaviano, que recusou a aliança. Ofereceram-na então a
António, que foi esmagado pelo seu rival. Cótis, rei da
Dácia ocidental foi mais longe nas suas tentativas. Pensou
numa aliança com Augusto, baseada num duplo casamento. Cótis
deveria desposar Júlia, a filha do imperador e este casaria
com a filha do rei Dácio. Mas Augusto teve medo desta
aliança e o plano de Cótis não chegou a realizar-se. Nas
épocas de crise, os Dácios mostraram-se sempre desejosos de
intervir directamente nos nossos assuntos e o seu
arrebatamento era tal no tempo de Escórilo, um dos
descendentes de Burebista, que esse sábio chefe se viu
obrigado a recorrer a um símbolo para lhes fazer ver a
realidade das coisas e os impedir de se lançarem numa
perigosa aventura. Escórilo convocou os seus generais e
mandou soltar diante de todos, dois cães de caça, que logo
se atiraram à garganta um do outro. Mandou em seguida soltar
um lobo, e quando o viram os dois cães, esquecendo a sua
luta, lançaram-se em perseguição do verdadeiro inimigo. A
lição era clara, e os chefes dácios não insistiram mais. Os
dois cães representavam os dois partidos romanos rivais, o
lobo simbolizava os Dácios.
Ao contar esta história, Escóris não conseguia esconder -
provavelmente nem queria -, os seus sentimentos em relação a
Augusto e António. Destestava o futuro imperador e teria
preferido que António tivesse sido vencedor em Áccio.
- O vosso imperador não gosta de nós, disse-me. E nunca
perdoará aos Dácios a aliança com António. Mesmo

136

que não ouse atacar-nos directamente, tentará manter-nos


desunidos e alimentar a rivalidade entre os nossos cinco
reis. Mas, está velho. Pensas que Tibério será o sucessor?
Esse irá atacar-nos, mas sem ousar atravessar o Danúbio.
Depois de Tibério, quem sabe, virão imperadores menos
empreendedores, e nós, pelo nosso lado, merecemos de novo
ter um só rei, se Zalmoxis achar conveniente. Um só rei.
Poderosos e iguais, provavelmente não voltaríamos a entrar
em guerra. Fracos e desunidos, como estamos neste momento,
conquistar-nos será sempre uma tentação para Roma.
Nenhum dos seus abriu a boca durante a refeição. Escutavam
em silêncio as palavras do pai e olhavam-me com uma
curiosidade admirativa e por vezes embaraçosa, sempre que eu
respondia a Escóris. Um Romano entrara-lhes em casa,
sentara-se à mesa com eles e compreendia a sua língua.
Depois da refeição, Escóris convidou-me para ver o pomar que
se estende por trás da casa. Esta zona situa-se a uma certa
altitude, pois as macieiras ainda estão em flor. A luz do
sol através dos milhares de pétalas torna-se branca e no ar
flutua um perfume puro como a túnica de uma vestal. No fundo
do carreiro, que seguia ao longo de uma cerca de madeira,
tão alta como uma paliçada fortificada, havia dezenas de
cortiços, cavados nos troncos das árvores cortados à altura
de um homem, onde zumbiam abelhas, entontecidas pelo
trabalho e pelo néctar. O ruído das asas soava como um
distante e ininterrupto ribombar de trovão, ou rufar de
tambor. Escóris respirava este ar agitado pelas asas, com
evidente satisfação. Sentia-se o Senhor das Abelhas, estes
milhares de seres que faziam por sua conta as sucessivas
viagens entre as flores e as colmeias. Por entre os ramos,
vi perfilarem-se no céu - ilusoriamente mais próximas devido
à candura das pétalas que nos fazem acreditar que tudo é

137

alcançável, mesmo Zalmoxis ou o perdão de Augusto - os cumes


das montanhas cobertas de abetos, que pareciam negros e
hostis ao lado dessa brancura deslumbrante. Amanhã, estarei
lá.
O meu hospedeiro mandou um dos seus filhos trazer de casa um
tapete e uma almofada e perguntou-me se queria fazer uma
sesta debaixo das árvores. A ideia encantou-me e ele deixou-
me sozinho. Estendi-me com uma certa dificuldade em cima do
tapete que cheirava a lã de carneiro e tentei adormecer. Mas
o sono não veio. A luz, que as flores suspensas sobre as
minhas pálpebras tornavam mais intensa, impedia-me de
dormir. Era tão intensa que fazia arder os olhos. Cobri-os
com o braço, mas a posição era pouco cómoda e pouco propícia
ao sono. De olhos fechados, deixei-me embalar pelos sons da
natureza. Distinguia o voo brusco das aves nos ramos, o
mugido distante de um vitelo e a resposta em tom grave da
mãe, os golpes regulares de um machado (alguém fabricava
cortiços ou cortava madeira para o lume), o ladrar quase
inaudível de um cão, e subitamente, protegido pelos outros
ruídos, como uma dádiva preciosa, o canto de um cuco. Entre
todos estes sons, o barulho contínuo das abelhas fez-me
pensar na música das estrelas pois, por instantes,
desaparecia dentro de si próprio, absorvido pela sua
monótona persistência.
Eu subia, e subia. A voz tinha sido clara. "Os dois rios
rumorejantes confluem diante da Pedra: é aí que é preciso
ir." As águas de um ribeiro que podia ser um rio - todos os
rios começam por ser ribeiros - corriam em direcção aos
vales de onde eu vinha. Andava há várias horas, sempre a

138

Deus nasceu no exílio subir, e procurava a Pedra. É por aí


que se entra. Finalmente outro rio apareceu. Era um ribeiro
que se lançava no primeiro e as águas uniam-se diante de uma
Pedra, e do outro lado dela havia uma porta, a entrada que
procurava. As águas soltavam-se impetuosamente e foi por
causa desse ruído, cujo eco fazia tremer as montanhas em
redor, que reconheci a Pedra indicada pela voz. Tive de
atravessar o ribeiro mais largo e menos profundo, saltando
de pedra em pedra, pedras que deviam estar ali há muitos
séculos e que serviam de passagem, a única possível, a todos
aqueles que tivessem escutado a voz ou aos que eram
forçados, por um destino pessoal, a penetrar na gruta.
Estava muito escuro lá dentro, mas conseguia ver no meio das
trevas. Eram trevas feitas para serem atravessadas pelos
olhares humanos e não por outros olhares. Avancei, um pouco
cansado pela longa caminhada, mas firme no meu objectivo. A
parte mais dura da viagem, ficara para trás. Até aqui, tudo
havia sido suportável, senão agradável, exceptuado o
trajecto sob os salgueiros com os frutos murchos e sob os
altos choupos. Os frutos murchos, agarrados na ponta dos
ramos dobrados com esse peso inútil, e aquele cheiro a
podre, e os vermes que roíam já o interior dos frutos e
deveriam estar a aparecer de um instante para o outro como
flores movediças... E os altos choupos que não davam sombra,
crescidos sem utilidade, com os ramos carregados de
morcegos, que não se viam, mas de que se sentia a presença
viscosa. Salvo este troço de caminho, tudo tinha sido muito
fácil. Mas, uma vez chegado ao fundo da caverna, onde as
trevas, as verdadeiras, não permitiam avançar, tive de
parar. Cavar uma cova quadrada era fácil de dizer, mas não
dispunha de nenhum instrumento nem sequer uma faca. Assim,
tracei o contorno de um quadrado com a ponta do pé. E
depois? Como fazer as três libações, se não tinha comigo nem
leite com mel nem

139

vinho doce? Fiz portanto as libações com água pura que


apanhei com a concha da mão num riacho que corria a meus
pés, e como também não tinha a farinha branca que a voz
indicara - onde é que tinha a cabeça, para me aventurar
nestes lugares, desprovido de tudo o que era necessário? -,
fiz com a ponta dos dedos o gesto ritual do moleiro, que
salpica com farinha fresca o túmulo dos seus pais. E
invoquei longamente os mortos. Foi então que apareceu a
sombra de uma morta, a minha mãe, que não falou, pois isso
teria infringido os ritos. Conforme esperava, foi Tirésias o
primeiro a falar. Tirésias, rei de Tébas, sabem tão bem como
eu, o primeiro que deveria falar, segundo a voz, e que me
disse:
- Porquê, infeliz, abandonar assim a claridade do sol e vir
a este lugar pouco ameno visitar os mortos? Vamos! Afasta-te
da cova! Desvia a ponta do teu gládio, para que eu beba o
sangue e diga a verdade. (Também me tinha esquecido de
trazer o cordeiro e a ovelha negra que deveria sacrificar na
cova, voltando a cabeça das vítimas na direcção do Érebo, e
também não tinha gládio, mas Tirésias não podia duvidar da
minha obediência às leis prescritas: senão, como poderia
encontrar-me diante dele? Eu, aliás, também o ignorava.)
Esta verdade revelou-me de súbito o grande segredo da minha
vida (segredo que eu já conhecia; mas então, o que viera ali
procurar? Para quê toda esta viagem, tão fatigante, se vinha
saber coisas que já sabia antes mas que, repetidas sob a
sonora abóbada da caverna, se tornavam definitivas,
imutáveis)?
"O que queres obter, nobre Ovídio, é um regresso mais doce
do que o mel. Mas um deus ainda quer tornar-to penoso:
porque, receio bem, nunca "O que faz tremer o mundo"
esquecerá o seu rancor: odeia-te por teres cegado a sua
filha..."

140

O sentido desta introdução à profecia era claro: tratava-se


evidentemente de obter o regresso a Roma. O deus que mo
tornaria penoso (penoso mas possível, apesar de tudo), não
podia ser senão Augusto, o "Júpiter" das minhas epístolas;
penoso porque "O que faz tremer o mundo", ou seja, o
Imperador, o que queria conquistar a Terra, ainda não está
disposto a esquecer o rancor, causa do meu exílio: eu tinha
cegado a sua filha, Júlia, que, leitora apaixonada da minha
Arte de Amar, tinha seguido o exemplo dos modelos literários
que eu lhe apresentava. O meu livro, o meu pobre livro,
causa única da minha infelicidade. Tinha vindo até aqui para
ouvir uma acusação velha como a minha dor. Tirésias
continuava a falar, mas, ocupado a interpretar as suas
primeiras palavras, escapou-me todo o resto, o mais
importante. Tinha provavelmente dito se o regresso estava no
meu destino, ou se Tomos seria o local escolhido pelos
deuses como sepultura para a minha parte mortal, como diria
Comozous. O rei calou-se e a sombra desvaneceu-se para lá
das verdadeiras trevas, pois tinha chegado ao final dos seus
oráculos. Foi a vez de a minha mãe se aproximar e vir beber
o sangue fumegante. (Mas qual sangue, se eu não tinha
sacrificado na cova nem cordeiro nem ovelha? Tudo se passava
como se os rituais tivessem sido cumpridos, e isso é que era
importante.) Ela disse:
- Meu filho, estes lugares não se oferecem ao olhar dos
vivos...
- Eu sei, minha mãe, mas fiz tudo o que pude para merecer
esta viagem. (No fundo, esquecera-me do que havia feito.)
Fala-me da minha mulher e das coisas que deixei em Roma.
Estou vivo, mas desconheço a verdade. Tu estás morta, mas
vês e conheces as coisas. Conta-me os pensamentos e os
projectos da minha mulher. Saberá cuidar dos meus bens? Ou
terá já escolhido por esposo algum nobre Romano?

141

Enquanto falava, a minha mãe olhava-me e eu tinha as costas


voltadas para a entrada da caverna. Atrás dela, as
verdadeiras trevas começaram pouco a pouco a abrir-se
perante os meus olhos, como uma bruma que se dissipa com o
soprar de um vento feliz. E vi o que havia no fundo da
gruta. A minha mãe falava, mas as suas palavras deslizavam-
me nos ouvidos, como gotas de água sobre as penas de um
pato. Reconhecia os heróis que eu cantara: Tântalo, presa
dos seus tormentos; estava no meio de uma vasta extensão de
água e não podia beber, a água nunca chegava à sua boca
sedenta, tal como a verdadeira felicidade, essa de que
realmente precisamos, a felicidade que todo o homem procura
e que nunca chega à altura da sua boca. E Sísifo segurando a
pedra gigantesca que, cada vez que chegava ao cimo de um
outeiro, voltava a rolar por ele abaixo, com o assustador
ruído do tempo que regressa, o ruído das épocas desditosas,
que são como armadilhas na vida dos homens e que os obrigam
a recomeçar tudo de novo; e vi Héracles que semeava o terror
entre as sombras, metia a flecha na corda do arco procurando
um alvo, com olhar feroz, enquanto os mortos tentavam fugir,
apavorados com a ideia de morrer uma segunda vez. Assim, o
medo da morte é eterno, como a própria morte. Para que serve
então morrer? Gritei, aterrorizado com este espectáculo:
"Injustiça! Onde está Aquele que os homens esperam?" Devo
ter cometido algum erro grave, porque todas as personagens
desapareceram engolidas pela escuridão que encheu a gruta,
como um fumo espesso e sufocante.
O cuco lançava o seu apelo em qualquer lugar no fundo do
vale, e um apelo semelhante, ou o seu próprio eco,
respondia-lhe muito perto de mim. Pétalas brancas tombaram
como pequenos flocos de algodão - Tinha arrancado rebentos
de plantas com as mãos, durante o sonho que não me tinha
ensinado nada.

142
Estava cansado. Parávamos de tempos a tempos à beira do
caminho, à sombra dos abetos negros. Escóris acompanhava-me.
Com a mesma idade que eu, é muito mais vigoroso e a montanha
é a sua pátria. Subia sem esforço o carreiro abrupto e
pedregoso, enquanto que eu perdia o fôlego a cada passo,
parava, retomava forças. Felizmente é falador e as perguntas
que lhe fazia não ficavam sem resposta. No fim do nosso
caminho elevava-se a morada dos sacerdotes dácios, ou melhor
dizendo, o seu templo, um dos mais importantes, e onde o
segredo de Zalmoxis me iria ser revelado. O povo chama a
estes sacerdotes distes ou polys-tis, que quer dizer
fundadores de cidades, o que é significativo, pois o termo
dá claramente a entender que foram os sacerdotes os
verdadeiros fundadores da sociedade dos Getas e que lhe
deram, pelo menos, as primeiras leis. Habitam geralmente nas
montanhas mais altas do país, nunca comem carne, de acordo
com as regras, tanto de Zalmoxis, como de Pitágoras, e os
seus alimentos são o leite, o queijo e o mel. O povo também
lhes chama "os que viajam nas nuvens", o que é um belo nome.
Os bens são postos em comum, a vida que levam é austera, têm
como um dos deveres socorrer os pobres e os infelizes, e a
sua actividade quotidiana, nas horas em que não estão em
oração, é o trabalho da terra. Lembro-me de ter lido, há
muitos anos, um livro grego sobre uma seita da Palestina
chamada os Essénios - é possível que me engane e que o nome
não seja exactamente este - que praticavam uma forma de vida
e de virtude com uma certa semelhança com o que Escóris me
dizia sobre os sacerdotes dácios. O meu hospedeiro e guia
evitou responder-me a uma pergunta essencial: onde se
encontravam exactamente o Grande Sacerdote e a montanha
sagrada, Cogainon? Era a

143

que estávamos a subir, ou a outra, mais alta ainda, que se


divisava para a esquerda? Dizia-me só: "O rei visita o
Grande Sacerdote e pede-lhe conselho". Não insisti. Pouco
depois, acrescentou: "Cogainon é um local de peregrinação, o
único que temos." Também não quis dizer-me se só o rei
gozava desse privilégio. Fiquei igualmente a saber que os
sacerdotes eram profetas, magos e médicos, conheciam o
futuro, os segredos da alma e os do corpo. E voltando ao que
me tinha dito uns instantes atrás, talvez com a intenção de
despistar as minhas suspeitas: "Cogainon é o nome de uma
montanha, mas também é o de um rio." Seriam esta montanha e
este rio que rumorejava no fundo do vale?
Cerca do meio-dia chegámos a uma clareira "a Clareira da
Macieira", mas não distingui macieira nenhuma em todo o
espaço visível. No meio da espaçosa abertura elevava-se um
templo de pedra cinzenta, de forma circular, com uma porta
fechada. Através de uma abertura também circular feita no
tecto, um penacho de fumo azul subia para o céu.
Atravessámos a clareira e penetrámos de novo por entre as
árvores, seguindo um carreiro quase imperceptível, que nos
conduziu à entrada de uma gruta. Assim que entrámos, uma voz
deu-nos as boas-vindas; porém, com os olhos ainda ofuscados
pela luz do exterior, não consegui ver quem nos saudava. Uns
instantes depois, pude ver uma longa túnica branca caindo
sobre uns pés descalços, e a seguir, a cara do sacerdote
enquadrada por uma barba de um branco brilhante, que
imediatamente me fez lembrar as flores de macieira do meu
sonho da noite anterior. Escóris falou-lhe de mim durante
bastante tempo. O sacerdote olhava-me, sem se mover, os
olhos fitos nos meus, com doçura mas sem sorrir. Pensei: "As
macieiras não crescem a esta altitude. A Clareira da
Macieira, quer com certeza dizer a Clareira do Sacerdote."
Este sacerdote, vestido de branco, com a barba

144

e os cabelos brancos, era a alma, tornada visível, das


maravilhosas árvores à sombra das quais tinha tido o meu
sonho místico. Não me disse o seu nome, inclinou-se
suavemente assim que Escóris terminou as apresentações e
indicou-me um escabelo onde me sentei. Escóris despediu-se e
desapareceu na luz. Ia esperar-nos à entrada da clareira ou
diante do templo. O sacerdote ofereceu-me uma taça de leite
adoçado com mel, que logo me restituiu a clareza de
pensamento e me refrescou o corpo esgotado pela longa
caminhada. Sentou-se na minha frente e falou durante muito
tempo, mas só a primeira frase me permanece intacta na
memória: "Chamais a Zalmoxis nosso Deus, mas o nosso Deus
ainda não tem nome". Tudo o que se sabia em Atenas e em Roma
sobre a religião dos Dácios e tudo o que se contava sobre
Zalmoxis e a sua doutrina, não era mais do que uma
construção do espírito grego, a adaptação de uma ideia de
Deus, incompreensível para o espírito dos Gregos. Dizia-se
que Zalmoxis tinha feito uma longa viagem à Grécia e que
Pitágoras, de quem fora escravo, lhe transmitira a sua
doutrina. Na realidade, Zalmoxis tinha vivido antes de
Pitágoras. Heródoto escreveu mesmo que Zalmoxis regressou a
casa, depois da sua viagem, com uma enorme fortuna. Ora,
como é que um escravo teria podido tornar-se dono de uma
enorme fortuna, é coisa que ninguém explica. Sempre segundo
Heródoto, Zalmoxis organizava festins sumptuosos, para os
quais convidava os amigos, dizendo-lhes que todos os que se
encontravam à volta da sua mesa, iriam encontrar-se, depois
da morte, na vida eterna, rodeados de tudo aquilo que tinham
desejado durante a efémera vida do corpo. Quem conhece a
doutrina de Zalmoxis não poderá acreditar facilmente neste
aspecto da vida do profeta, pois todos os seus conselhos e
ensinamentos se caracterizam pela mais severa austeridade.
Terá um dia mandado construir uma

145

câmara subterrânea, onde se fez enterrar vivo, chorado pelos


seus numerosos amigos. Mas, após três anos de morte, voltou
à vida, enriquecido com a sabedoria adquirida durante a
longa estadia no além.
Segundo o sacerdote, tudo isto não é senão lenda.
Possivelmente Zalmoxis nunca existiu. Seria só um nome
provisório, um atributo de Deus, esse Deus cujo nome ainda
não foi revelado aos mortais, mas que irá sê-lo num dia
próximo. Vivemos um tempo de loucura e de esperança, o tempo
da espera de Deus. Os homens, provavelmente não ficarão
melhores do que hoje, depois da revelação, mas saberão
distinguir com segurança a diferença entre o bem e o mal.
Serão, portanto, livres de escolher o bom ou o mau caminho.
Profetas do povo de Israel tinham anunciado a vinda de Deus
para o meio dos homens e Zalmoxis também o profetizara.
Durante ainda milhares de anos os povos irão matar-se entre
si, mas um dia virá em que seremos todos irmãos, e a guerra
e o crime desaparecerão da Terra.
- Vens de Roma e és, como o teu povo, um inimigo do meu
povo. Mas recebo-te em minha casa, dirijo-me a ti como um
amigo e sinto a tua alma cheia de bondade, de
arrependimento, de amor e de esperança. Sofres por estar
longe dos teus, do céu e da terra que te viu nascer. Mas
deves saber que um só céu se estende sobre as nossas terras
manchadas de sangue, e que o teu exílio é só uma preparação.
Não deves estar triste em Tomos, e prepara-te para uma outra
vida, a eterna, que não está longe, uma vida onde a dor é
desconhecida, pois o tempo só tem sentido entre os limites
da dor. O Estige, e o que as suas águas envolvem, não
existe. Sereis ou não sereis. Os que forem, só conhecerão
alegria, pois irão reencontrar-se na luz de Deus e essa luz
é toda bondade. Tenta não fazer o mal, pois o mal é a causa
da morte eterna. Pensa que a alma de cada homem é

146
sua própria obra, que é por ele esculpida a cada dia, com as
boas acções, e que só a alma é eterna.
Olhou-me de novo, com os olhos cheios de uma doçura severa e
perguntou: "Qual é o pior dos erros que cometeste na vida?"
Reflecti. Diante de Augusto teria respondido, troçando: "A
Arte de Amar", mas diante deste velho que me falava de Deus,
um belo livro não podia constituir uma má acção. Disse: "O
orgulho. Fui um orgulhoso." Mas não tinha a certeza de ter
dito a verdade, uma verdade incerta mesmo para mim próprio,
que não sabia exactamente o que queria de mim este Deus. A
fronteira entre o bem e o mal não era clara na minha
consciência.
- Queres ir a Cogainon!? - disse o sacerdote.
O coração batia-me com força, sentia o seu movimento regular
enchendo-me o peito, sentia-o até à ponta dos dedos. Olhei
para o sacerdote, e compreendi. Os meus olhos encheram-se de
lágrimas e uma felicidade desconhecida invadiu-me. Disse:
- Não.
O sacerdote sorriu, levantou-se, pousou-me a mão na cabeça e
murmurou uma oração de que não consegui distinguir as
palavras. Fez-me sinal para o seguir e saímos da gruta para
a claridade ofuscante. Um caminho sombreado levou-nos até ao
cimo da montanha, onde o olhar alcançava uma vasta extensão.
Via de um lado as colinas na beira do Ribeiro Salgado, do
outro lado, outra cadeia de montanhas para lá da qual
começava, segundo o sacerdote, um planalto rodeado por altas
montanhas, como se fossem uma fortaleza. Era o berço dos
Dácios, o núcleo central da sua pátria, morada dos reis
lendários, e sede da antiga capital de Dromichet e de
Burebista, Sarmisegetuza. A elevação em que nos
encontrávamos era coberta por uma erva curta e

147

espessa. Os pés enterravam-se nela. Para recuperar o fôlego


antes de empreender a descida, sentámo-nos, em pleno sol,
sobre o tapete macio. O perfume da erva subiu-me às narinas;
era como se a terra me enviasse a sua respiração aromática.
Inclinei-me, enlevado, para respirar de mais perto o perfume
visível que me chegava de todos os lados e fazia vibrar o ar
até bem longe, espalhando-se por cima de todas as cristas
dos montes. A erva, aquecida pelo sol, era fina como uma
cabeleira sob os meus dedos e o seu cheiro, tal como um
bálsamo, enchia-me os pulmões e todo o corpo. A fadiga
desapareceu como por encanto. Estendi-me ao comprido no
chão, com a cabeça mergulhada neste aroma que me restituía
as forças e a pureza da juventude, sem me importar com o
sacerdote que poderia ofender-se com esta atitude pouco
respeitosa. Mas nesse momento só pensava em mim, tinha
vontade de chorar, tal era a alegria que me invadia. Sentia
que a minha vida tinha cessado de ser um caleidoscópio, ou
uma sequência de compartimentos sem comunicação, nenhuma
parede me separava da infância ou dos anos de Roma. Formava
agora um todo harmonioso, moldado pelo prazer e pelo
sofrimento, e sentia também que esse todo seria aceite, tal
como era, por aquele a que podemos chamar o juiz supremo.
Levantei-me e olhei para o sacerdote sentado ao pé de mim.
Sem esperar por perguntas, disse: "Amaste muito e os amores
foram a causa dos teus sofrimentos de agora. Não penses
nunca que a tua poesia te traiu, nem que é o amor que expias
em Tomos. O julgamento de Augusto não tem valor no que
respeita à alma. Augusto, também ele, agiu sob a pressão
invisível do Deus que te trouxe até aqui para conhecer a
verdade sobre Ele, pelo menos a parte da verdade que nos é
permitido conhecer. Aprenderás ainda outras coisas antes de
morrer, pois a tua alma está cada vez

148

mais aberta ao sopro único. Pecaste por amor. O amor é


conhecimento. O verdadeiro pecado é aquilo que não podemos
ou não ousamos exprimir".
Ergueu-se, e estendeu-me a mão. O espaço infinito e variado
era ao mesmo tempo tão recolhido e tão íntimo que parecia
estender-me braços, verdes e repousantes, ou convidar-me a
voar dentro dele, como se tudo fosse perfeitamente possível:
o impulso do espaço para mim, o meu impulso para a sua
mansidão perfeita. Descemos por outro carreiro, que nos
levou, por detrás da floresta, até outra colina arborizada
onde saímos do carreiro para começar a descer um longo
declive inteiramente coberto de feno. A erva era tão alta
que nos passava acima das cabeças. A minha cara batia nas
flores amarelas, azuis, brancas e rosa, suavemente
perfumadas, e os ramos abriam-se à nossa passagem com um som
delicado e agradável, como a queda de uma torrente sobre uma
colina coberta de musgo. Quando as flores abanavam com mais
violência, as gotas de orvalho deixavam-me a cara húmida. Ao
sair das ervas altas, no sopé da colina, estava encharcado
dos pés à cabeça como se tivesse mergulhado nas águas de um
rio. O sacerdote largou-me a mão e só nesse momento me
apercebi de um estranho facto que me tinha escapado até
então: desde que me levantara, com ajuda dele, do macio
tapete de erva, as nossas mãos não se tinham largado, como
se a descida tivesse o significado de uma iniciação cujo
sentido não me foi revelado.
O sol aqueceu-me rapidamente e secou-me a túnica e os pés.
Descemos ainda mais, atravessámos um riacho, subimos de novo
por entre as bétulas, que em língua dácia se chamam berzes o
que significa também, manchado de preto e branco, e voltámos
assim à entrada da Clareira da Macieira onde Escóris nos
esperava deitado na erva. O sacerdote beijou-me por duas
vezes e apertou-me nos braços por instan-

149

tes. Em seguida, dirigiu-se para o templo, no meio da


clareira e nós retomámos o caminho para a casa de Escóris.
"É tempo de voltar. É natural que tenhas fome." Eu não tinha
fome.
A noite caíra, estava cansado, e não cessávamos de descer. A
lua ainda não aparecera, mas, de súbito, vi como que uma
mancha branca no meio das trevas. Perguntei a Escóris: "É a
lua?
- São as minhas macieiras."
Passavam incessantemente. Consegui contar mais de trezentos
e havia ainda outros, um pouco mais longe, que escapavam ao
alcance da vista. A erva absorvia o ruído dos cascos; teria
podido imaginar que se tratava de uma alucinação, mas o
relinchar de um cavalo, ou uma palavra gritada numa língua
que não compreendia, recriavam bruscamente a realidade. Eram
só homens e todos armados. Nem carros, nem bois, nem
mulheres nem crianças para dificultar a marcha. O objectivo
desta cavalgada, banhada pelo avermelhado do poente, era bem
claro. Comozous tinha-os avistado primeiro do que eu.
Tínhamos acabado de chegar ao alto de um cabeço, de onde a
vista se espraiava por cima da espessura das florestas de
carvalhos até à planície ainda distante. Os raios do sol
poente acendiam longas cintilações nos escudos. Passavam a
passo, atravessando uma clareira. Vinham do Oriente e
avançavam para o Sul. Quem seriam desta vez: os

150

aliados dos Getas, ou Trácios, ou Romanos? Não teriam outro


objectivo senão a pilhagem, ou estariam a soldo de alguém
para provocar um conflito? Impelidos pela fome ou por outras
tribos da estepe, estariam em busca de novas terras para as
suas famílias, ou seriam os precursores da grande guerra que
se anunciava entre nós e os Dácios? Quem poderia saber?
Comozous apontara-mos com o dedo: "Os Sármatas." Tinha posto
os cavalos a trote e o nosso carro saiu do caminho para só
se deter na espessura de um bosque de aveleiras. Amarrados
os cavalos numa clareira próxima, avançámos por entre as
árvores, na direcção dos bárbaros. O bosque de aveleiras
prolongava-se ao longo de um vale estreito que separava as
duas encostas, o que nos permitiu, do cimo de uma pequena
elevação, continuar escondidos e ver sem sermos vistos. Não
havia lugar para dúvidas, marchavam sobre Troesmis onde, a
este andamento, deveriam chegar na manhã seguinte, ou ao
cair da noite de hoje. Tentar ultrapassá-los, avançando sem
parar, para advertir a guarnição de Troesmis, teria sido
pura loucura, pois, uma vez a descoberto na planície,
teríamos sido vistos e aprisionados. Olhava para as caras
cansadas e poeirentas, e não lhes achava nada de terrível
nem de malvado. Pelo contrário, um sentimento de pena foi-se
instalando pouco a pouco no meu coração. Lembrei-me dos
Getas esfomeados que tinham atacado Tomos, no início do meu
exílio. Estes Sármatas eram empurrados para Sul pela fome e
pelo medo. Procuravam a abundância dos outros para matar a
fome, ou então esperavam encontrar algum lugar debaixo do
sol onde pudessem trabalhar em paz e criar os filhos, ao
abrigo das flechas dos citas. Capazes de matar e de
incendiar, tentavam não sucumbir, por sua vez, ao avanço de
outros bárbaros, empurrados, também eles, para ocidente por
outras hordas mais desesperadas e portanto mais fortes, e
assim sucessivamente. Todo

151

este espaço que se estendia para lá do Tiras em direcção ao


Oriente infinito e desconhecido, formigava de raças, de
povos, de tribos que se atropelavam em direcção às nossas
terras cultivadas, como insectos a quem a luz cega e atrai.
Quem teria sabido encontrar a palavra mágica para os deter?
Porque as armas não eram solução bastante. Essa palavra dar-
lhes-ia um nome e uma alma, tê-los-ia feito passar a
pertencer à raça dos homens, ensinado a fixar-se, a
perdoarem-se uns aos outros, a formar uma consciência, bem
como a sentirem a necessidade de ter um passado e criar um
futuro. Mas, tal palavra ainda não tinha nascido e as armas
tentavam em vão preencher essa falta, em toda a parte, desde
a Gália ao Ponto Euxino e até ao Danúbio. Os Romanos faziam
avançar em todas as direcções os limites do império, à força
de cortar cabeças e de impor leis, sem se aperceberem de que
a Terra não tinha fim, e que os seus empreendimentos
necessitavam de tantos homens quantos os homens existentes
nos espaços a conquistar. Os Sármatas que me passavam em
frente, cada vez mais cansados, à medida que o dia dava
lugar à noite, seriam esmagados pelos Romanos ou pelos
Getas, mas outros homens de olhar humilhado pelo desespero e
pela fome se lhes seguiriam, ao mesmo passo, ao mesmo ritmo
- o da fome.
O sacerdote tinha-me tranquilizado a alma. Mas como
tranquilizar as almas de todos estes homens? Uma chuva de
pães e de leite não seria suficiente para apaziguá-los, pois
teriam avançado mais, para ir procurar mais longe as maçãs
de ouro e a fonte da juventude eterna, e, ao encontrá-las,
prosseguiriam em busca de algo mais. Provavelmente a sua
fome e a sua sede eram semelhantes à minha, à de Corina e de
Dokia, de Honório e de Mucaporus, à das mulheres de Roma e
de Alexandria. Avançávamos uns para os outros, enganando-nos
no que procurávamos.

152

Ao cair da noite voltámos para o pé dos cavalos. Não


acendemos fogo, contentando-nos com um pouco de malana fria
e queijo; tentei dormir logo em seguida, mas o sono não
veio. Comozous também não conseguia repousar. Levantava-se,
falava com os cavalos, eu ouvia o murmúrio da sua conversa,
voltava a deitar-se. O grito de uma coruja anunciou a lua e
depois uma luz prateada atravessou, como uma chuva de
flechas, as folhas grossas das aveleiras. Comozous decidiu-
se a falar. Os seus estavam em perigo, Sédida e a cidade de
Troesmis, também. Tinha o dever de os avisar e de pôr a
família a salvo. Montaria um dos nossos cavalos, galoparia a
toda a brida durante a noite, e iria chegar às margens do
Danúbio na manhã seguinte, pelo caminho mais curto. Deixava-
me o outro cavalo, e eu poderia voltar para as montanhas e
para a casa de Escóris onde estaria em segurança. Também
podia esperar pelo regresso dele naquele mesmo local, uma
vez que o carro estava bem abastecido de provisões; o seu
plano era refugiar-se com todos os seus junto de Escóris,
pois os tempos iam mudar; certamente haveria guerra, uma
guerra longa, e seria preciso abandonar as terras férteis da
grande planície e voltar para as florestas e para as
montanhas onde tinham nascido. De caminho, passaria a
buscar-me. Eu poderia viver com eles, em casa de Escóris,
pelo menos até a guerra terminar. Se preferisse voltar a
Tomos, acompanhava-me até Troesmis, ou, se fosse preciso,
até Novioduno onde seria sempre possível embarcar numa
galera grega ou romana e voltar a casa.
Escolhi esperar ali mesmo, pois não estava em estado de
montar a cavalo nem de refazer a pé a viagem até casa de
Escóris. Aqui, não tinha nada a temer, bastava não acender
lume e não assinalar a minha presença. Comozous voltaria
depois de amanhã, de noite. Despediu-se, tirou o saco do

153

fundo da carroça, desaparelhou um dos cavalos, saltou-lhe


para a garupa e desapareceu imediatamente, engolido pela
folhagem e pelas trevas. Tudo se passara em instantes.
Encontrava-me sozinho, no meio da floresta dácia, com o
caminho de regresso cortado pela invasão dos Sármatas. E se
Comozous não voltasse? Ele nem sequer tinha considerado essa
possibilidade. Se a empresa que se propusera corresse mal -
eu acabaria por sabê-lo, ao fim de três ou quatro dias de
espera vã -, poderia mesmo assim voltar para casa de
Escóris, a pé ou a cavalo, recorrendo a todas as forças que
me restavam. Só tinha de seguir o curso do Ribeiro Salgado.
Não havia engano possível.
Medo, não tinha. Adormeci sob o já familiar tecto
arredondado da carroça, no meio do cheiro dos queijos,
carnes salgadas, trutas fumadas metidas em caixas de casca
de abeto, presentes de Escóris e da mulher. Até tinha um
pote de mel e um saco de farinha para preparar a malana, mas
não podia utilizá-los sem acender o fogo. O cerco da
floresta podia durar semanas.
Ao acordar, verifiquei que o cavalo que me restava tinha
rompido a amarra durante a noite, para seguir o companheiro.
Ia ser apanhado pelos Sármatas, ou, com um pouco de sorte,
conseguir voltar para a estrebaria. Passei a primeira parte
do dia a tentar apagar os rastos deixados pela carroça, da
berma da estrada até à entrada do bosque, e a vigiar o lado
dos bárbaros. Não vi nenhum. De momento, o êxodo ou a
invasão tinham acabado. Comozous tinha chegado a casa. Devia
ter-lhe dito para ir avisar os Romanos, em Troesmis, mas, se
achasse que era útil para os seus, ele iria certamente fazê-
lo. Milhares de pássaros cantavam nos ramos, e vi até um par
de faisões cruzar o ar com o seu voo pesado e sempre a
direito, feito para ser facilmente encontrado pela flecha de
um caçador. Do caminho próximo não

154

me chegou nenhum ruído de carros ou de cavalos. Os Getas das


redondezas já sabiam a notícia da invasão e não sairiam das
suas casas, enquanto que os da planície esperariam o cair da
noite, para viajar em segurança.
Durante toda a tarde, encorajado pelo pacífico silêncio,
atravessei o regato - a corrente era de água doce, pois o
Ribeiro Salgado corria um pouco mais a Ocidente - e comecei
a subir a vertente do lado oposto. A encosta era abrupta, e
depois da fila de aveleiras subia por entre carvalhos
espessos. A floresta não se estendia para o outro lado da
colina. Esta vertente tinha uma descida muito mais suave, e
formava uma espécie de planalto, ligeiramente inclinado para
o lado oriental. A terra estava lavrada e o trigo, ainda
verde, estremecia com a brisa. Não ousando mostrar-me,
continuei as minhas buscas ao longo do campo de trigo,
abrigado pelo bosque. De súbito, encontrei-me diante de uma
casa, ou melhor, uma cabana, feita de madeira e com o tecto
coberto por uma espécie de cota de malha também de madeira,
com as peles de carneiro das janelas levantadas até meio e a
porta aberta. Um cão, preso em frente da casota, começou a
ladrar. Perto, uma vaca mugiu. Na soleira da porta apareceu
um velhote, vestido à moda dos Dácios, de longos cabelos
brancos caídos sobre os ombros. Não me via. Olhando para um
lado e para o outro, tranquilizava o cão. Mas o cão ladrava
cada vez mais, na minha direcção. O velho gritou: "Quem vem
lá?" Não tendo outro recurso, pois o velho podia atiçar-me o
cão, resolvi aparecer e falei-lhe na sua língua. Veio ao meu
encontro, cumprimentou-me com deferência, olhou sem
manifestar surpresa para o meu traje de estrangeiro e
convidou-me a entrar em casa.
O interior era constituído por uma só divisão, com uma
grande lareira à esquerda, um tear à direita, onde
trabalhava a dona da casa, concentrada no complicado jogo de

155

mãos e de pés. Saudou-me com a cabeça, e levantou-se para me


oferecer um copo de leite e uma colher de mel. Sentámo-nos
em volta da mesa baixa e contei-lhes o que me tinha
acontecido. Conheciam Escóris e convidaram-me imediatamente
para tomar com eles a refeição da noite e para passar a
noite na casa.
Disseram-me que o filho se fora embora nessa manhã para
Zousidava, saber o que se estava a passar, e se o rei
necessitava dos seus serviços, e que traria notícias. Se não
voltasse durante a noite, significava que tinha partido para
a guerra. Um outro filho, mais velho, tinha morrido na
guerra, Zalmoxis chamara-o para junto dele, não tinham
razões para se queixar, mas ficariam muito sós se o mais
novo se juntasse ao outro, no céu. A velha não falava. De
tempos a tempos, encorajava-me a comer com um sorriso, e
levantava-se para trazer água ou sal. Os dois velhotes
intrigavam-me. As caras eram-me familiares, mas era absurdo.
Onde poderia tê-los já encontrado? No final da refeição,
lembrei-me. Eram os traços deles que a minha imaginação
emprestara outrora às figuras dos dois velhos felizes,
Filémon e Báucis, que haviam albergado Júpiter e lhe tinham
dado de comer e de beber. Antes os seus olhos maravilhados,
e para os recompensar, Júpiter tinha feito milagres, e,
perguntando-lhes por fim qual era o seu mais caro desejo,
pois o realizaria imediatamente, o rei dos deuses ouviu esta
resposta: "Auferat hora duos eadem (19)...", pois amavam-se
ainda com um terno amor, "annis juncti juvenalibus (20)".
Estes versos, conhecia-os de há muito, mas faziam parte, tal
como os dois velhos, da minha vida passada.

(19) "Fazei que a hora em que devamos partir seja a


mesma..." (As Metamorfoses, livro VIII)

(20) "...unidos desde os anos da juventude...".

156

Recusei o convite, pois tinha de passar a noite na carroça;


Comouzous podia regressar com os seus, e se não me
encontrasse, poderia pensar o pior e prosseguir o caminho. O
velhote acompanhou-me até à beira do riacho e continuei a
andar por entre as aveleiras, no silêncio imóvel do
crepúsculo.
Adormeci depressa, porque estava cansado. Mas a noite não
foi tranquila. Atormentado por pesadelos, acordei banhado em
suor. Carros subiam a estrada. Eram Dácios da planície que
procuravam refúgio nos bosques. Comozous devia encontrar-se
entre eles. Ouvi também o trote apressado de um grupo de
cavaleiros. Adormeci de novo. E de novo acordei. Os carros
seguiam em fila para as montanhas com um ruído monótono e
contínuo, o som do incompreensível sofrimento humano. A
fadiga levou a melhor sobre os pensamentos, e caí num sono
sem fantasmas. Um ataque de tosse e o frio da aurora,
acabaram por me acordar de vez. Um grande silêncio reinava
em volta; como um nevoeiro, os carros tinham passado e
Comozous não chegara. Um cheiro a queimado penetrava na
carroça, junto com a luz ainda tímida. Fora esse cheiro que
me fizera acordar a tossir. Saí do carro. Por entre as
folhas flutuava um fumo espesso, e ouvia claramente o
crepitar longínquo da floresta em chamas. Peguei num gládio
dácio de lâmina encurvada, tentando acalmar o medo que me
tomava, e dirigi-me para o ribeiro onde podia salvar-me
seguindo a corrente para montante, caso as chamas me
rodeassem. Na vertente oposta, a floresta ardia na direcção
exacta da casa dos dois velhos. O incêndio teria partido da
casa, ou seriam os Sármatas que lhe tinham pegado fogo?
Recordava-me agora de ter ouvido o som de gritos durante o
sono, mas como ter a certeza? Filémon e Báucis iriam ao
encontro do primeiro filho, mais cedo do que tinham pensado
e, se a guerra con-

157

tinuasse, o segundo não tardaria a juntar-se-lhes, no céu de


Zalmoxis. O calor do incêndio aquecia-me a cara, mas
continuei ali, porque tinha frio e sentia-me só, abandonado,
brutalmente separado dos dois velhotes que conhecera na
véspera. Um erro terrível pairava sobre o mundo, qualquer
falta desconhecida provocara a ira dos deuses. Era por certo
uma falta tão antiga, que a memória dos homens já a
esquecera e nenhum mensageiro descia dos céus para nos
lembrar qual fora. Faziam-se sacrifícios, queimava-se
incenso diante dos altares de deuses com mil nomes, mas tudo
era inútil e o Deus verdadeiro não queria ainda falar. Isto
não podia durar muito tempo mais - durava já há milénios -,
os sofrimentos por que passávamos tinham de ter um limite e,
se esse Deus existisse, devia ter piedade da nossa
infelicidade e enviar um sinal. Ou então, o silêncio queria
dizer que Deus não existia. Ou ainda, que tudo isto, os
mortos e a dor infinita, o silêncio, tinham um sentido que a
nossa razão não era capaz de entender.
Começou a cair uma chuva fina que tornava o fumo ainda mais
espesso. Tive de recuar, porque os olhos me doíam, e as
chamas continuavam a escapar-se do nevoeiro acre. A chuva
caía, cada vez mais forte. Uma voz ressoou por trás de mim:
"Ovídio! Ovídio!" E reconheci-me a mim mesmo, no meio da
solidão e do desastre, eu próprio com todo o peso do meu
passado e um violento desejo de escapar aos perigos, de
aceitar, a qualquer preço, a promessa de vida, a vida com
todas as perspectivas de dor e de injustiça. Sentia-me capaz
de implorar a um Augusto invisível, tive pena de mim, a pena
transformou-se em desprezo, mas queria viver.
Tinha reconhecido a voz de Comozous.

158

A chuva tinha cessado ao fim da tarde, mas as cinzas húmidas


ainda estavam quentes. Subi a colina com Comozous, por entre
os troncos queimados e enegrecidos. Sédida e a família do
meu amigo tinham prosseguido o caminho para as montanhas, de
onde não voltariam. A planície tornara-se perigosa. A
guerra não acabaria mais. Sim, os Sármatas já se retiravam,
mas agora era a vez da verdadeira guerra "entre os nossos e
os vossos", a guerra inevitável, enquanto de um lado e de
outro os homens esperavam em vão pela vinda de Deus, ou, ao
menos, pelo som revelador da sua voz. Os Sármatas tinham
parado no Danúbio, tinham queimado os campos, as davae que
encontravam no caminho, tinham pilhado, matado, feito
centenas de prisioneiros. Zousidava resistira. Os Getas,
neste momento, perseguiam os Sármatas.
Avistei de longe os restos enegrecidos, mas nem rasto dos
dois velhos, do cão, da vaca que ouvira mugir. Teriam
escapado, ou os seus corpos estariam sob as cinzas ainda
quentes? Ao ouvir barulho, advertido pelo ladrar do cão,
Filémon assomara à porta da casa, perguntando com aquela voz
que parecia desculpar-se pela curiosidade: "Quem vem lá?" E
uma flecha tinha-o pregado ao batente da porta. Báucis
saíra, sem gritar, unicamente para que a promessa de Júpiter
pudesse realizar-se com mais facilidade. "Auferat hora duos
eadem..." A segunda flecha fora para ela. E as chamas tinham
vindo purificar a sua felicidade e tinham-nos feito subir no
ar, como duas leves colunas de fumo, para que chegassem ao
céu mais depressa.
Partimos para Troesmis ao cair da noite. O cavalo que fugira
tinha encontrado Comozous e trotava ao lado do companheiro,
agora indiferente ao mundo exterior. A guer-

159

ra para ele resumira-se a esta separação passageira. Sentia


de novo a garupa arredondada e amiga roçando-se contra a
sua, ao ritmo do trote igual. A guerra acabara para ele. A
injustiça também. Podia acreditar no grande equilíbrio, pois
tinha a seu lado a prova. Para este cavalo, a voz de
Comozous era a voz de Deus, que o havia abandonado, mas que
reencontrara após um pequeno esforço.
- O Danúbio, disse Comozous, tocando-me no cotovelo.
Não era possível avistar a outra margem, perdida no meio da
bruma, e o poderoso volume da água cinzenta corria para o
mar com um sussurro regular. Os cavalos tinham parado.
Ninguém se movia. Um corvo passou sobre as nossas cabeças,
voando muito baixo, ouvi o crepitar das asas e o grito de
surpresa e terror que soltou ao aperceber-se da nossa
presença, e que o fez lançar-se, apavorado, noutra direcção.
As águas do rio tinham a cor deste grito.

160
QUINTO ANO

Temos muitas vezes o hábito de dizer de alguém: "Voltou da


guerra completamente modificado" Ou então: "A morte da
mulher transformou-o completamente". Ou ainda: "Encontrei
Gaio depois da absurda crise religiosa que acaba de passar;
nem o reconheci; ficou outra pessoa".
Tudo isto é falso. O homem não muda nunca, nada no mundo
pode mudá-lo, a experiência mais profunda não pode modificá-
lo, não consegue transformar a sua essência, que é
definitiva. Tornamo-nos mais velhos, é tudo. Julgamos as
coisas com menos facilidade e, depois de uma crise ou de um
acontecimento revelador em relação ao mundo, agimos com mais
sabedoria. As ilusões caem por terra, como uma plumagem
inútil. Tornamo-nos mais sabedores. Ou tornamo-nos loucos.
Eis-me em Tomos. Passaram-se meses depois do fim da viagem
que empreendi ao país dos Dácios, onde aprendi mais coisas
do que durante todo o resto da minha vida, onde vi a morte e
a pureza, o sofrimento e a mais simples e calma alegria de
viver, onde me foi em parte revelado o segredo da minha vida
e o da morte. Seria natural que eu me tivesse modificado
totalmente, me tivesse tornado num ser novo, como se costuma
dizer. No entanto, o que me aconteceu foi

161

recuperar a mesma expectativa que me atormentava antes de


partir, esta mesma espera que, sei-o agora, me impeliu para
a Grécia há vinte anos, com a mesma intensidade, a mesma
esperança no coração e no pensamento. E eu não sou a mesma
pessoa em Sulmona, em Roma e aqui? A diferença, porque há
uma, é que antes não sabia o que é que esperava, e agora,
desde que estou em Tomos e sobretudo depois da viagem para
lá do Danúbio, sei. Esta certeza não me vem serenar. Porque
milhares de homens antes de mim, entre eles Virgílio,
Sófocles e Platão, Pitágoras e Tales, esperaram certamente
pela mesma coisa, pela mesma resposta. E como ela não vinha,
responderam eles próprios à sua angústia, mas isso
correspondeu sempre a um caminho novo para a mesma espera, a
uma maneira nova de se apresentar em face do céu, com a alma
aberta para alguém que não queria responder. Tenho ainda
alguns anos na minha frente e duvido que o tempo em que vivo
seja um tempo privilegiado. Esperamos, mais do que nunca; é
verdade que a expectativa não tortura só as almas e os
corpos de alguns privilegiados do desespero, tornou-se uma
tortura generalizada. Vivemos no século da espera, e já não
há soluções humanas aceitáveis ou possíveis, mas, como ousar
acreditar que foram precisamente os nossos ouvidos que foram
feitos para receber a palavra que a humanidade espera há
milhares de anos? E essa resposta seria capaz de me
modificar?
Este ano o Inverno tem sido mais suave, o mar não está
gelado, os ventos do norte abrandam na planície antes de
entrar nas nossas ruas. O céu está muitas vezes encoberto,
mas a neve não cai. Honório acaba, de me dizer que o Inverno
está virtualmente acabado e que se esperam galeras gregas
para amanhã. Ainda estamos em Fevereiro, mas os armadores e
os marinheiros foram informados pelos oráculos desde
Setembro passado. Não têm tempo a perder.

162

Dokia está sempre a perguntar-me notícias de Sédida, de


Escóris e das suas famílias, como se eu tivesse regressado
ontem de viagem. Repito as notícias que já lhe dei há meses,
enfeitadas com considerações ou comentários inéditos.
Agradece-me com o olhar, como uma criança que nos pede para
lhe contarmos de novo a mesma história, que já conhece de
cor, mas basta uma palavra nova, uma entoação diferente,
para que toda a narração mude de tom. Perguntei-lhe um dia:
"Conhecias os dois velhotes...?" E contei-lhe o nosso
encontro, a tarde passada na pacífica casa, a nossa amizade
e o fim trágico deles, sob as flechas dos Sármatas e as
chamas. Pareceu-me ficar mais impressionada com o início da
minha história do que com o fim. Para os Dácios, a morte é
aquilo a que chamaríamos "o desfecho feliz". Para eles, o
que é duro de suportar, é a vida.
Esta manhã nevou abundantemente, grossos flocos de Abril.
Ouço essas lágrimas de Inverno atraiçoado, que fundem ao
contacto com o ar primaveril. A cidade está cheia de sons,
como se os seus habitantes tivessem acordado mais cedo para
uma festa ou uma comemoração, e se sentissem, todos, ao
mesmo tempo, animados pelo mesmo fervor. Tomos é a imagem
viva da inconsciência humana. Vive à beira do perigo, será
uma das primeiras vítimas de uma futura catástrofe e as
pessoas não se preocupam. No fundo, têm toda a razão em
comportar-se desta maneira. Viver é correr riscos. Vivem
desde há séculos no limiar do risco, e até agora nada de
grave lhes aconteceu.

163

Não quero pensar nisto, mas basta uma alusão para que eu
reviva um trágico quadro. Aconteceu noutras paragens. Tinha
embarcado em Troesmis num barco de velas que iria deixar-me
em Novioduno, de onde uma galera me conduziria a Tomos.
Tinha-me despedido de Comozous e sentia-me mais só do que no
meio da floresta dácia. A barca flutuava para o mar,
empurrada pela corrente, como uma folha morta. Navegávamos
junto da margem esquerda, onde a corrente era mais rápida.
Uma coluna de fumo assinalava na planície a passagem dos
Sármatas. A certa altura o fumo desapareceu, escondido pelos
altos choupos que faziam tilintar a prata da folhagem ao
sabor de um vento ligeiro. Fechei os olhos quando avistei o
primeiro cadáver, que balançava levemente, na ponta de uma
corda. Abri os olhos. Diante de mim, havia outro cadáver,
com a cara ensanguentada. E ao todo eram mais de cinquenta,
com os olhos e as carnes bicados pelos corvos e pelas
gaivotas. Eram os Sármatas vencidos, enforcados pelos Dácios
que assim se vingavam das pilhagens, dos incêndios e dos
massacres. Trazia ainda gravadas em mim as palavras que o
sacerdote me transmitira na montanha quente e lisa como o
dorso de um cavalo. Tinha ainda nas narinas o cheiro da erva
perfumada onde tinha mergulhado a cara, e nos olhos a paz
inumana das colinas que se seguiam umas às outras, até ao
infinito, como as notas de uma canção. No entanto, era
preciso ser forte para acreditar, mesmo assim, na realidade
destas memórias, na promessa do sacerdote. A realidade, a de
todos os dias, estava ali, diante de mim, nesses ramos que
tinham florido ao sol de Maio e de onde agora pendiam
frutos. Verdadeiros frutos de vida. Como esquecer? Como
mudar?
Por vezes, chego a interrogar-me: "Fomos nós que inventámos
os tormentos, a crueldade? Homens que se

164

revoltam contra homens. Os vencedores torturam e des-troem


os vencidos". Mas penso em Prometeu, que não tinha feito mal
nenhum e na tortura que Júpiter lhe infligiu. E penso em
Níobe, filha de Tântalo... As mulheres de Tebas, incitadas
por Manto que conhecia o futuro, foram um dia oferecer
incenso e piedosas orações a Leto, mãe de Apolo e de Diana.
Mas eis que aparece Níobe, filha do rei e mãe de sete filhos
e de sete filhas:
Ecce venit comitum Niobe celebenima turba (21)

Tão bela quanto a cólera lhe permitia, Níobe grita às


mulheres de Tébas: "Que loucura é esta que vos leva a pôr os
deuses abaixo daquilo que é visível? E porquê este culto e
estes altares dedicados a Leto, quando a minha divindade
ainda não recebeu incenso algum?" Pois que, embora mortal,
Atlas era um dos seus antepassados e Júpiter outro. E
continuou fazendo, com palavras imprudentes, o elogio da sua
riqueza e da sua felicidade.
Sumfelix: quis enim neget hoc? Felixque manebo; Hoc quoque
quis dubitet? Tutam ne copia fecit. Major sum, quam qui
possit Fortuna nocere; Multaque ut eripiat, multo mihi plura
relinquef (22).
- Suponham - prosseguiu, gritando para as mulheres de Tébas
- que de entre o grupo dos meus muitos filhos, me pudessem
ser tirados alguns; pois nem mesmo assim des-

(21) "Mas eis que surge Niobé no meio de um cortejo que a


acompanha". " "Sou feliz: quem o negará? E feliz
continuarei; e também disso, quem duvidará? A minha
segurança é feita de abundância de bens. Estou também alto
de mais para que a Fortuna possa prejudicar-me, e, mesmo que
de muito me privasse, muito me restaria ainda". (As
Metamorfoses, livro VI).

165

pojada, ficaria reduzida aos dois únicos que formam o bando


de Leto; há assim tanta diferença entre ela e uma mulher sem
filhos? Afastai-vos depressa desses sacrifícios, e tirai
esses louros dos vossos cabelos.
A deusa ouviu estas palavras e chamou os seus dois filhos, o
seu bando, como lhes chamara Niobé, e pô-los ao par do acto
sacrílego. Apoio e Diana, deslizando rapidamente através dos
ares, abrigados por uma nuvem, vieram pousar, como dois
corvos de mau agoiro, sobre as muralhas da cidadela de
Tébas.
"Junto das fortificações estendia-se uma planície rasa, uma
grande extensão constantemente pisada pelos rudes cascos dos
cavalos e pelas inúmeras rodas dos carros, que tinham já
amolecido o solo com a sua passagem. Aí, alguns dos sete
filhos de Anfíon, montados em robustos corcéis e solidamente
sentados nos seus dorsos cobertos com xairéis tintos no tom
vermelho-púrpura de Tiro, fazem-nos voltear com a ajuda de
rédeas, pesadas de enfeites dourados. Entre eles, Ismeno,
que outrora fora o primeiro a ser gerado por sua mãe, no
momento em que descreve uma curva na pista apertando o freio
do cavalo, grita: "Ah! Que desgraça me atinge!". Tem um
dardo cravado em pleno peito e, deixando escapar as rédeas
da mão moribunda, desliza lentamente e cai sobre o flanco
direito da montada. Muito perto dele, ao ouvir nos ares o
ruído de um carcás, Sípilo solta o bridão, como um piloto
que, pressentindo a tempestade, foge de uma nuvem abrindo
todo o velame noutra direcção para não perder o menor sopro
de vento. Alargava a brida; mas, mesmo na fuga, o implacável
dardo vem ao seu encontro e uma flecha vibrante vem fixar-
se, aço nu atravessando-lhe a garganta. Paralisado nesta
posição, rola para a frente ao longo das patas e da crina do
cavalo em plena corrida, e vem manchar o solo com o sangue
ainda

166

quente. Os infelizes, Fédimo e Tântalo, herdeiro do nome do


seu antepassado, depois de terem acabado o trabalho habitual
entregavam-se, brilhantes de óleo, aos exercícios da luta
greco-romana, caros à juventude. E, já em contenda,
estreitamente enlaçados, peito contra peito, nesta atitude
de corpo a corpo são trespassados juntos pela mesma flecha,
lançada pelo arco retesado. Juntos soltam um gemido, juntos
os seus dois corpos, contorcidos pela dor, caem no solo,
juntos, estendidos por terra, lançam um olhar em volta,
juntos exalam o último suspiro. À vista deste espectáculo,
Agenor, rasgando as roupas e desferindo duros golpes no
peito, acorre para estender e levantar os membros já frios;
tomba, cumprindo o piedoso dever, pois o deus de Délos
atinge-o com o aço mortal que o penetra até ao coração. Ao
tentar retirar o dardo, a ponta em barbela arranca uma parte
do pulmão, e o último suspiro do jovem perde-se no ar,
misturado com golfadas de sangue. Ao contrário, não vai ser
uma simples ferida a atingir Damasícton, cujos cabelos não
haviam ainda conhecido tesoura. Tinha sido atingido no
começo da perna, no sítio onde o tornozelo forma uma
articulação ágil. E, enquanto tenta com a mão arrancar o
funesto dardo, uma segunda flecha vem cravar-se-lhe na
garganta, até à ponta emplumada. O sangue fá-la voltar a
sair e, empurrada por um violento jacto, sobe, fendendo os
ares a direito. O último filho, Ilioneu, tinha levantado
para o céu os braços, que não lhe serviam já de socorro
algum: "deuses, invoco-vos todos juntos" dissera, ignorando
que não era necessário implorar a todos, "poupai-me!". O
divino archeiro comovera-se, mas a flecha já não podia
voltar para trás. O rapaz morreu, porém, de uma ferida
ligeira, pois o coração não foi profundamente atingido pelo
aço."
Depois da morte dos seus filhos, Níobe ousa ainda desafiar a
deusa. "Depois de tantos lutos, ainda estou em vanta-
167

gem." Mas a corda do arco fez de novo estremecer o ar já


saturado de horror. E as sete filhas de Níobe tombaram
todas, uma após a outra, mesmo a mais nova, que a mãe
quisera em vão proteger com o próprio corpo. "Privada agora
de família, sentou-se no meio dos cadáveres dos filhos, das
filhas, do esposo; a desgraça torna-a insensível." E a mãe
que ousara levantar a voz contra os deuses foi transformada
numa rocha, para sempre banhada pelas lágrimas que nunca
mais cessaram de jorrar. A sede dos deuses só pode mitigar-
se com sangue.
As Metamorfoses estão cheias de histórias semelhantes que
não são inventadas por mim. Nada se inventa. Tudo está
escrito em nós desde o começo, pela mão dos deuses. Também
este fumo, elevando-se da aldeia incendiada, e os Sármatas,
pendendo dos ramos dos choupos.
Ao sair do ginásio onde, de há algum tempo para cá, criei o
hábito de passar pelo menos uma tarde por semana, fui
abordado por Lídia. Hérimon assusta-a. O amor dele torna-se,
de dia para dia, mais difícil de suportar. É ciumento,
tortura-a com perguntas, fá-la chorar, bate-lhe
violentamente - mostra-me o belo ombro marcado com nódoas
negras -, para segundos depois cair de joelhos, suplicando-
lhe que o mate. Gosta dele, mas ao fim e ao cabo trata-se de
um homem casado, raramente estão juntos, ele tem os seus
deveres, ela as suas tentações; acha que devo tentar falar-
lhe, para ver se ele cessa de a perseguir desta maneira.
Nos últimos tempos temo-nos tratado como amigos. Acho-a tão
bela como sempre, mas, desde que regressei,

168

pus fim às nossas relações íntimas. Não sei ao certo porquê.


E sinto-me menos só do que antes. Durante o dia basta-me a
companhia de Dokia. Durante a noite, fico sozinho,
mergulhado no mundo das recordações, cada vez mais vasto,
cada vez mais claro e apaixonante. Reconstruo-me no
silêncio. Visto de longe, tudo é ordem e harmonia.
Prometo-lhe o meu apoio e ela vai, sorrindo com um sorriso
novo que, só por si, também me lança num mundo de
lembranças, onde Lídia tem o seu lugar privilegiado,
provavelmente o de a última amante que terei. Ela dar-se-á
conta disso? Talvez explique o estranho encanto desse
sorriso, que não se destinava a seduzir, mas a aperfeiçoar a
sua imagem na minha alma.
À porta de casa, dou com Hérimon. Mudou muito nos últimos
meses. Envelheceu ao emagrecer, os olhos ficaram maiores e
mais parados, como que fixos na chama que o devora por
dentro. Diz-me:
- Decidi acabar com tudo, como se continuasse em voz alta um
monólogo interior.
- Porquê essas palavras definitivas, meu caro amigo?
Andávamos para trás e para a frente diante da porta da minha
casa. Um perfume de macieira, florida bruscamente sob a
carícia da Primavera, nessa mesma noite ou nesse mesmo
instante, faz-me pensar no pomar de Escóris, nas colmeias,
nas pétalas caindo como uma neve, no canto do cuco. Passou
um ano desde então, e o aroma desse tempo maravilhoso
inunda-me com a sua presença eterna.
- Porque já não aguento mais. Ela tornou-se insuportável.
Impede-me de ser feliz. Perco um tempo precioso a acalmá-la.
Não quero morrer entre injúrias e censuras.
Hérimon é um poeta. Apercebo-me de que não é de Lídia que
fala, mas da mulher. "Ela que se vá embora. A irmã mora em
Dionisópolis, que vá para casa dela. Durante anos

169

aguentou-me com a ameaça desta partida. Basta que cumpra a


palavra."
Pára, agarra-me violentamente o braço com a grande mão
quente e pegajosa, e lança-me a sua decisão, nos olhos, na
boca, como uma erupção de lava, saída não do Vesúvio mas de
uma cave: "Vou casar-me com Lídia!
- Estás casado há muitos anos?
- Trinta anos.
- E achas..."
Não me dá tempo de acabar. "Sim, posso fazê-lo. Pensa o que
quiseres, o que quiserem todos os cidadãos de Tomos, e os de
todas as cidades do Ponto Euxino. Não me interessa o que
possam dizer. Não quero morrer no meio de injúrias.
Compreendes?"
Bebeu de mais, está infeliz, torna-se violento. "Sou teu
amigo, Hérimon. Fiz o que pude para te ser útil, para te
agradar. Não te esqueças disso...
- Não me esqueço. É precisamente por isso que vim ver-te.
Mas suplico que não me dês conselhos de homem ajuizado."
Esta súplica surpreende-me e comove-me. Hérimon é um amigo
sincero. Conselhos de homem ajuizado, dispensam-se nas horas
graves da vida. Que foi que fiz dos conselhos que me davam,
chorando, os amigos reunidos em minha casa na noite em que
deixei Roma? Gente honesta, que só tinha um pensamento:
"Oxalá este desesperado não comece a clamar contra Augusto.
Oxalá não nos comprometa na última noite que passa connosco.
Amanhã estará longe. Oxalá não nos encarregue de qualquer
missão absurda e perigosa que possa provocar a cólera de
Augusto". Os gestos e as palavras de consolo destinavam-se
mais a acalmar a minha ira do que o meu desgosto. Temiam
tanto as minhas lágrimas, como uma possível mudança de
atitude da

170

minha parte. Não os decepcionei. Mas neste momento tenho


pena de não ter tido, nessa noite de Roma, a presença de um
amigo como Hérimon, ou qualquer outro que, não como homem
ajuizado, mas simplesmente como homem, me tivesse dito:
"Grita bem alto, meu amigo. Os gritos chegam melhor do que
as lágrimas aos ouvidos do mundo. Augusto detesta os que o
adoram, e tem medo, um medo louco, de todos os que dizem a
verdade e a gritam aos quatro ventos". Não teria assim
escrito os Tristia, mas teria ganho uma eternidade de herói,
ou pelo menos de dignidade. Ninguém esteve presente para
dizer em voz alta as coisas que gemiam dentro de mim sem
encontrar forma de se exprimir, no meio de tantas lágrimas e
bons conselhos.
- Não tenciono fazê-lo, meu amigo. Não sou um homem
ajuizado. Traí, supliquei, humilhei-me, escrevi coisas
sublimes e coisas abomináveis. Quem conhece a vida não é um
homem ajuizado. (Teria querido acrescentar: Deus não gosta
dos homens ajuizados, mas calei-me). Não me insultes, peço-
te, e não me trates com violência.
Largou-me o braço. "Hérimon, pobre amigo, só estás a pensar
em ti. Todavia, a mulher que neste momento detestas e queres
abandonar, foi amada por ti na juventude. Há trinta anos,
compunhas versos em honra dela. Esqueceste-te? E ela
acreditou nesses versos. Não queres morrer entre injúrias e
censuras. Quem quereria? Ela ainda menos, garanto-te. Lídia
é boa rapariga, mas jovem de mais para poder ser uma
verdadeira esposa, uma esposa para a tua idade. Iria
transformar-te os últimos anos num inferno, mesmo sem se
aperceber, porque ela é feita para companheira de alegrias e
não da agonia da decrepitude. Fica com a tua mulher,
protege-a, ela precisa dos teus cuidados e do teu amor.
Nunca te traiu, e és tu que agora és indigno dela. Pensa em
tudo isto, antes de cometer uma loucura e uma injustiça. E
sobr-

e171
tudo não tenhas medo de encarar a verdade das coisas: Lídia
não é mais do que uma ilusão."
Olhou-me por instantes, aturdido, depois afastou-se, com o
seu passo pesado e indeciso, sem me responder. Vi os ombros
largos, curvados com o peso da dor e o desespero,
desaparecer na luz cinzenta do fim de tarde. Um homem que
carregava um fardo de que não conseguia desembaraçar-se.
Tive pena dele. De que serve um conselho, se não consegue
confirmar-nos as esperanças, absolver-nos dos pecados,
perdoar desde logo os futuros erros? Gritei "Hérimon!" Mas
já ia longe de mais. O perfume da macieira impediu-me de o
seguir.
Não pensar em símbolos, não tentar encontrar um significado
para tudo o que vejo acontecer, não transformar em imagens
do que será, os sinais, sem reflexos, do que é, não misturar
os deuses e a sua vida inventada com os acontecimentos reais
do dia a dia. Mas como impedir-me? Toda a nossa educação
converge para esse simbolismo no qual, com a doentia
inclinação que temos para o inevitável e o trágico, nos
esforçamos por encontrar a face do nosso próprio futuro.
Somos todos pequenas Sibilas impotentes, prontos para
traduzir o que é no que poderia ser. Opõem-se em nós duas
linguagens sem correspondência possível, e procuramos
angustiadamente pontos de contacto inexistentes. Conhecer o
futuro significa destruirmo-nos, pois o conhecimento não
evita a morte.
Passeava esta tarde na praia com a pequena Dokia e com
"Augusto". Estes longos dias de Verão são sufocantes, só à
beira-mar se encontra um pouco de frescura. A Dokia mais

172

pequena parece-se com a mãe, é inteligente e gosto muito da


companhia dela. Tem uns olhos que me lembram qualquer coisa,
a expressão de alguém, mas continuo sem saber quem é o pai
dela, e parece-me inútil tentar dar um nome a esta
semelhança. "Augusto" é branco com malhas pretas e, saltando
na areia e por entre as ervas, parece um cabrito solitário.
Afastara-se, perseguindo pardais, que é sempre a sua
brincadeira preferida, quando uma águia caiu do céu, direita
sobre ele. A pequena Dokia começou imediatamente a correr,
parou duas vezes no caminho para apanhar seixos, e eu
apressei o passo apoiando-me num pau. O corpo a corpo foi de
curta duração. "Augusto", com os olhos perfurados e o crânio
despedaçado pelas bicadas da ave de rapina, jazia sem vida
na areia ensanguentada. A águia ficara com uma pata quebrada
pelas presas do cão, ou pelas pedras que Dokia lhe tinha
atirado. Saltitando sobre a outra pata procurava refúgio no
meio das moitas e das ervas, longe da praia. Foi então que a
menina se lançou sobre mim, arrancou-me das mãos o pau,
correu atrás da ave e matou-a com várias pauladas dadas com
uma energia e uma decisão que eu não teria suspeitado
poderem existir numa rapariguinha da sua idade,
aparentemente frágil e tímida; depois dirigiu-se para o mar,
lavou o pau na rebentação, esfregou-o com areia e trouxe-mo,
com os olhos cheios de ódio mas também de orgulho de um
guerreiro vencedor. Não me disse "Pobre Augusto", mas:
"Matei o pássaro malvado". Em seguida fugiu para casa, para
informar o avô do seu feito.
Enterrei o cadáver de "Augusto" debaixo de uma profunda
camada de areia e voltei para casa, perturbado por esta
tragédia que não vai deixar-me dormir e irá povoar velhos
símbolos e encher de visões fáceis os meus pensamentos e os
meus sonhos. Logo à noite vou escrever a alguém. A Grécino,
a Vestal, a Fábia, não importa a quem,

173

só para mergulhar no passado e esquecer esta tarde que me


faria vibrar de alegria se aceitasse traduzi-la em símbolos.
O Verão prolonga-se, inacreditavelmente, para além dos
limites habituais. Estamos em Outubro e está ainda muito
calor. Em Roma, o Verão foi insuportável este ano. Segundo o
que me escrevem, as boas famílias ainda estão em Óstia ou em
Baias, assustadas com o calor que faz de Roma um braseiro.
Num só dia de Agosto, afogaram-se sessenta pessoas no Tibre.
Desesperados por causa da canícula, lançaram-se ao rio logo
a seguir ao almoço, e os que se salvariam nadando, morreram
de congestão. O Tibre é um deus, com-praz-se com sacrifícios
e cadáveres.
Quando estava calor de mais, costumava partir para Planasia
(23), onde apreciava a frescura e o delicioso sabor dos
frutos, uvas e figos, sobretudo. Passava o tempo banhando-me
ou em longos passeios nas colinas de onde se via o mar por
entre os ramos das oliveiras e dos ciprestes, mais azul
ainda através das folhas verdes. Amava o mar. Não imaginava
que iria encontrá-lo no meu lugar de exílio. É assim que a
vida nos conduz para a morte. Se pensássemos nisto, o tempo
que passa teria um sabor a podridão.
Ainda há claridade, e escrevo diante da janela aberta. No
jardim caem folhas, as primeiras deste Outono. Ouço o seu

(23) Ilha do arquipélago toscano, perto da ilha de Elba.


174

longo roçagar na brisa e a sua queda. O vento caiu e um


profundo silêncio invadiu a cidade. O Outono traz consigo
estes momentos de paz, quando o vento pára de repente, como
uma fera à espreita, e os homens parecem escutar, vindos de
muito longe, os passos silenciosos da neve futura. São os
mais belos dias do ano, cheios de cor e de expectativa,
impregnados de tristeza, agradáveis também pela calma doçura
que os anima e que se parece com a pele das uvas, com as
nozes caídas na erva, com a face madura das ameixas, com o
voo dos pássaros em direcção ao Nilo. Sentimos passar o
tempo, mas não sentimos medo.
Um grito perturbou esta paz. Outros lhe respondem vindos do
porto e aumentam à medida que se aproximam. Um incêndio que
deflagrou em qualquer parte, ou a peste, ou outra ameaça, o
que arranca das gargantas este som de animais aterrorizados?
Quis levantar-me, mas a paz do momento anterior ainda está
em mim. Nada do que acontece e faz estremecer os outros me
pode atingir. Este momento pertence-me. Mas o grito sem
rosto, de repente, torna-se claro. O coração bate-me
descompassadamente e escrevo, tremendo, o que os ouvidos
acabam de ouvir, enquanto a razão ainda se recusa a crer:
"AUGUSTO MORREU!"
Trazida pelo barco, cujos marinheiros, antes mesmo de deitar
a âncora, haviam anunciado aos gritos a morte do imperador,
recebi uma longa carta de Fábia. Augusto morreu no dia XIV
das calendas de Setembro, com a idade de setenta e cinco
anos, dez meses e vinte seis dias, depois de um reinado de
quarenta e cinco anos, menos treze dias, a

175

contar desde a vitória de Áccio. Não gostei dele, deste


príncipe de aspecto doentio e inofensivo que resistiu ao
poder mais do que os monarcas orientais, porque foi a causa
da minha infelicidade. No fundo, não foi mais do que um
instrumento do destino, ou de Deus. Graças a ele, conheço-me
a mim próprio. Foi a crueldade dele que me lançou nos
caminhos de Tomos, em busca de um outro Deus. Sem Augusto,
nunca teria conhecido o sacerdote, nem o momento de paz
sublime que me fez entrever o paraíso sob as macieiras de
Escóris. Eis o que Fábia conta na sua carta:
Augusto teve uma entrevista com Tibério que, após ter
conquistado a Ilíria tinha vindo a Itália receber ordens e
ouvir conselhos. O imperador deveria acompanhá-lo até
Benevento, local onde me despedi da pátria há, fará em
breve, seis anos. Dores no ventre, que aumentaram durante a
viagem, não o fizeram mudar de itinerário e regressar a
Roma. Percorreu assim as costas da Campânia, visitou as
ilhas vizinhas, parou durante quatro dias em Cápreas (24),
sempre de bom humor apesar das dores que não lhe deram um
segundo de tréguas. Revigorado pelos marinheiros de um navio
egípcio de Alexandria que o saudaram na enseada de Putéolos,
chamando-lhe "libertador" e cumulando-o de louvores, deu
quarenta aurei a cada um dos membros do seu séquito, e quis
que todos os Romanos que o acompanhavam se vestissem à
grega, e todos os Gregos de Cápreas, à romana, e que
falassem a língua uns dos outros. Assistiu, sorridente, sem
fazer caso das dores, aos jogos organizados pelos jovens, em
sua honra. Mandou ainda organizar um festim para esses
jovens, quase todos descendentes da antiga colónia grega de
Cápreas que mantinham, em parte, as tradições dos seus
antepassados, e, no fim do banquete, exi-

24 Capri - N. T.

176

giu que se entregassem à pilhagem, o que estes fizeram sem


cometer excessos, levando com eles a fruta, os alimentos,
enfim tudo o que podia ser transportado. Passou em Neápolis
o dia seguinte, apesar das dores que o consumiam, e assistiu
aos jogos gímnicos que aqui se celebram todos os cinco anos,
em honra do imperador. Em seguida, acompanhou Tibério até
Benevento, onde se separaram.
Durante a viagem de regresso, a doença agravou-se e foi
obrigado a parar em Nola, na Campânia, onde teve de ficar
deitado. Durante alguns dias ainda, lutou com serenidade
contra a morte. Informou-se junto dos seus se a notícia da
sua agonia estaria a provocar revoltas nos confins do
império, pediu um espelho, quis que lhe penteassem os
cabelos e lhe pusessem cor nas faces, não pronunciou o meu
nome, não me perdoou, mas teve forças para dizer aos amigos
que se encontravam em volta do leito: "Não fui bom actor,
não representei bem a minha vida?" E acrescentou em grego:
"Aplaudi, todos vós, batei alegremente as mãos". Depois do
que, mandou sair toda a gente e disse a Lívia, que se
debruçava sobre ele para recolher num beijo o seu último
suspiro: "Lívia, lembra-te da nossa união. Adeus". E expirou
sem dor.
Dizem que antes de entregar a alma, teve um instante de
delírio e, presa de um terror vindo da consciência
atormentada pelos longos anos do seu reino, gritou por
socorro dizendo que quarenta jovens queriam levá-lo. Morreu
na hora nona do dia, no mesmo quarto onde morrera seu pai,
Octaviano. Curioso acaso.
De um extremo ao outro do império correm já estranhos
rumores sobre o seu fim, e Fábia não passa sem mos contar.
Há quem conte uma história impressionante, difícil de
acreditar, mas digna dos costumes da corte e da família
imperial. Acompanhado pelo meu amigo Fábio Máximo,

177

Augusto teria feito uma visita secreta a Agripa, no seu


exílio de Planasia. Isso ter-se-ia passado alguns meses
antes da sua morte. Durante a conversa, Augusto teria, não
só prometido a Agripa a libertação, como tê-lo-ia posto ao
par das suas últimas vontades: Tibério era excluído da
sucessão, e o futuro imperador deveria ser o próprio Agripa.
De regresso a Roma, Fábio teria confiado a sua mulher,
Márcia, o grande segredo de Planasia; Márcia tinha-o
repetido a Lívia. O plano do imperador deitava por terra os
projectos de Lívia, que apoiava a candidatura de Tibério ao
trono. Pouco tempo depois Fabius morreu assassinado por
agentes de Lívia, e no seu funeral ouviram-se as lamentações
de Márcia, que se acusava, chorando, de ser a causa da morte
do marido. Alarmada com as intenções de Augusto, Lívia teria
apressado o fim do imperador, envenenando os figos de uma
árvore onde este tinha por hábito ir ele próprio colhê-los.
Em todo o caso, Lívia rodeou de segredo a morte de Augusto
em Nola, rodeando a casa de pretorianos, chamando Tibério de
urgência, e só anunciando o falecimento na altura em que
tudo já estava preparado de acordo com as suas previsões. E,
assim, Tibério e não Agripa é neste momento imperador dos
Romanos, contra a vontade de Augusto.
É difícil saber se esta versão é verdadeira. Tal como a
vida, a morte dos príncipes nunca corresponde àquilo que se
imagina. Só os conhecemos através de histórias confabuladas.
Os deuses gozam do mesmo privilégio. O certo é que começa já
a fabricar-se a lenda de Augusto. Muito antes da sua última
viagem, presságios trouxeram aos mortais a notícia do triste
acontecimento. Um raio caiu há pouco tempo sobre uma das
estátuas que o representam e fez desaparecer a primeira
letra do seu nome (César), o que, segundo opinião dos
adivinhos, só poderia ser interpretado assim:

178

Augusto não teria mais de cem dias para viver (25), mas,
após a morte, iria fazer parte do Olimpo, sendo AESAR o
termo etrusco para DEUS.
Também os presságios habituais não deixavam de se manifestar
aos olhos de todos: eclipse de sol, uma parte do céu que se
incendeia, cometas que atravessam o firmamento deixando cair
sobre a terra fragmentos ensanguentados, um mocho debruçado
sobre a Cúria no dia em que os senadores decidiram pedir aos
deuses, em conjunto, pela saúde de Augusto, etc.
Finalmente, pretende-se saber que Lívia teria dado um milhão
de sestércios a Numérico Ático, senador e pretoriano, para
ele fornecer um testemunho da divindade de Augusto: Ático
teria visto o imperador subir ao céu, como outrora Próculo
tinha visto Rómulo.
Um documento curioso é o testamento de Augusto, redigido
dezasseis meses antes do seu passamento: Bem entendido,
nomeava Tibério e Lívia como seus sucessores, Tibério com
dois terços da fortuna, Lívia com o outro terço. Além disso,
concedia a Lívia a pertença à família dos Júlios, por
adopção, uma vez que ninguém lhe pertencia por sangue, e o
título de Augusta. Os bens deste homem que foi senhor do
mundo e cujo nome ressoava até aos confins da Terra, não
ultrapassavam os cento e cinquenta milhões de sestércios.
Deles, deixou quarenta ao povo romano, três milhões cento e
cinquenta mil às tribos, mil a cada guarda pretoriano,
trezentos a cada soldado das legiões ou das formações
urbanas, enquanto os outros legados não ultrapassavam
quatrocentos sestércios. Entre os conselhos a Tibério, que
se encontravam no quarto dos libelos que acompanhavam o
testamento, pôde ler-se o seguinte: não alargar mais os
limi-

(25) Cem em latim, corresponde à letra C.

179

tes do império, já tão difíceis de conservar, e que


correriam maior perigo se fossem ainda acrescentados. Sábio
conselho para um reino ou uma república normais, impossível
e arriscado para um império cujos fundamentos e razão de ser
são a conquista e a guerra ofensiva. Os Dácios e as cidades
gregas do Ponto Euxino, em breve saberão qualquer coisa
sobre isto.
As exéquias do imperador foram espectaculares, perfeitamente
organizadas para impressionar o povo e duraram muito tempo,
como a sua vida. Noto esta estranha coincidência: quarenta
soldados pretorianos vieram buscar o corpo de Augusto à casa
mortuária de Nola; quarenta tinham sido os jovens que ele
tinha visto na agonia, e que queriam levá-lo da vida.
O povo, emocionado como sempre com a morte dos grandes, fala
da clemência de Augusto. Mas recordo neste momento dois
factos importantes que marcam a sua juventude: depois da
tomada de Perúsia, mandou degolar cem senadores e cavaleiros
no altar consagrado a Júlio César. Aos morituri que
imploravam perdão, respondeu: "É preciso morrer". E após a
vitória de Áccio, um dos feridos pertencente ao campo dos
vencidos, pediu que lhe garantissem, ao menos, a sepultura.
Augusto respondeu-lhe "Os corvos vão ocupar-se disso". E as
vítimas do seu próprio terror, imoladas ao medo que sempre
teve de um possível atentado? Lembro-me ainda do pretor
Gálio, preso devido à simples suspeita de esconder uma
espada sob a toga, em presença de Augusto. Quando foi
revistado, em vez de uma espada, só lhe encontraram um par
de tabuinhas para escrever. O infeliz foi mesmo assim
submetido à tortura e, como nada tivesse para confessar,
Octaviano, furioso, furou-lhe os olhos com a sua própria mão
e depois fê-lo massacrar pelos centuriões.

180

Viveu toda a vida no terror dos atentados e das


conspirações. Desgraçados daqueles que, uma vez considerados
suspeitos, não correspondiam às mórbidas ilusões de César.
Necessitava de vítimas, a cada instante e a todo o preço,
para afastar os assassinos que assombravam os seus sonhos.
Se se encontra agora perante Deus, terá uma longa confissão
a fazer, e milhares de vozes, subindo das trevas, acusá-lo-
ão.
Estou pronto para tentar a minha última oportunidade.
Honório leu-me as ordens que acabava de receber de Roma: os
Gregos e os Getas de Tomos e dos arredores deveriam declarar
a submissão a Tibério e, o mais depressa possível, prestar
juramento ao novo imperador. Fazer um discurso a estas
populações longínquas e semi-submetidas a Roma, e, em versos
bárbaros falar-lhes de Augusto e do carácter divino de
César, da sua presença entre as divindades do Olimpo, fazer
o elogio de Tibério, de Lívia, de toda a família, eis o que
poderia mudar o meu destino e assegurar-me as boas graças e
o perdão de Tibério. "Já este ano ou no próximo, disse-me
Honório, entraremos em guerra. É melhor deixar Tomos e os
teus novos amigos, enquanto reina a paz. Faz um novo
esforço. É um conselho para teu bem." Convidava-me assim a
escrever esse elogio múltiplo, e a conseguir, com a arte
mágica da poesia, a adesão dos Getas e o seu juramento. Mas
tudo isto é pura formalidade, pois os Getas, tanto os de
Tomos como os do outro lado do Istro, há muito que tinham a
sua política rigorosamente traçada e preocupavam-se pouco
com Augusto ou com Tibério. Mas Tomos devia seguir o exemplo
das outras cida-

181

des e províncias do império, e grande parte delas tinha já


prestado o juramento, convictamente umas, simulando
entusiasmo e fidelidade outras. Tibério seria informado do
que viesse a acontecer aqui, do meu elogio, das adesões que
conseguisse suscitar, e o imperador iria lembrar-se do poeta
condenado e permitir-lhe que regressasse para junto da sua
esposa.
Esta proposta pareceu-me avisada. Honório comportara-se
durante os últimos anos como um amigo fiel, as suspeitas que
eu tivera antes tinham-se dissipado, e a liberdade de
movimentos que me tinha permitido durante as viagens a
Istria e à Dácia, a sua discrição e a forma como suportou os
meus caprichos e mudanças de humor, tinham feito dele um
confidente e um apoio seguro. Aceitei pois a ideia e lancei
mãos ao trabalho. Falar de Augusto e da sua ascensão aos
céus não era fácil, mas a morte dos nossos inimigos mais
cruéis, vai transformando pouco a pouco o ódio em
indiferença e esta em esquecimento. A nossa vida na Terra é
uma aprendizagem extensa e variada. Só a vida eterna, se ela
existe, será concentrada em torno de um único sentimento e
de uma única paixão, de cujo objecto não duvidaremos. Na
epístola a Caro (26) escrevi há uns dias os versos
seguintes, explicando ao meu amigo o conteúdo do meu
discurso em versos Getas:
"...laudes de Caesare dixi..." Cantei louvores a César; para
este trabalho novo tive com certeza a ajuda do dito deus.
Isto porque ensinei que, se o corpo do nosso pai Augusto era
mortal, a sua natureza divina subira para as etéreas
moradas, e que em virtudes ele igualara o seu próprio pai,
aquele que tomara contra vontade as rédeas de um poder
tantas vezes recusado; que tu, Lívia, és a Vesta das

(26) Epístolas do Ponto, XIII, livro IV

182

nossas castas matronas, tu que não sabemos de quem és mais


digna, se de teu filho, se de teu esposo; disse também que
existem dois jovens, que são os sólidos apoios de seu pai e
que deram já provas certas da sua coragem.
Os dois jovens são Druso e Germânico, filhos de Tibério.
Quantas mentiras em tão poucos versos! A poesia é mais vasta
do que o mundo.
Ainda tenho nos ouvidos o ruído seco e prolongado dos
carcases cheios de flechas envenenadas que os Getas agitavam
na praça de Tomos, para manifestar a sua aprovação, no final
do meu discurso, e fazerem assim entender a Honório o
sentido da sua adesão a Tibério. Estavam todos completamente
armados, da cabeça aos pés, e as flechas que batiam nas
paredes dos carcases falavam uma linguagem bem clara. Mas o
relatório que Honório enviou para Roma não fez sequer menção
desse ruído.
Sinto como uma espécie de dever registar no meu diário essa
manifestação, o curioso aspecto da Agora de Tomos e do uso
que os Getas fazem dela nos dias em que aí se reúnem,
porquanto, muitas vezes a vida de um livro, ainda mais se
diz a verdade, pode ter uma duração mais longa do que a de
uma cidade. Travou-se aqui um combate invisível entre duas
partes, infelizmente com armas desiguais. De um lado, a
cultura grega, que à primeira vista parece prevalecer, pois
os Getas da cidade adoptam pouco a pouco as suas regras e
aproveitam os seus benefícios. Ao mesmo tempo, o número dos
Getas aumenta continuamente e a língua grega, cada vez mais
adulterada, cede perante a língua dos aborígenes. Vista de
fora, a cidade tem um aspecto acentuadamente helénico, pela
sua arquitectura, o ritmo característico da vida comercial,
e pela organização em geral. Mas as ruas pululam de Getas
barbudos, e um ouvido atento capta imediatamente o rumor
distante da maré a subir, ou seja, da língua bár-

183

bara que já se fala por toda a parte. Trácios e Gregos


vindos do Sul, Sármatas e Citas chegados do Norte e do
Oriente selvagem, e os poucos Romanos, de ar simultaneamente
dominador e amedrontado, não são mais do que hóspedes
tolerados, invasores que não ousam sê-lo. Os donos da terra
são os Dácios. A nossa civilização tem evidentes vantagens
que os Getas sabem aproveitar. Toleram a presença dos Gregos
que souberam seduzi-los, fazendo das cidades gregas centros
comerciais florescentes onde os Getas vêm trocar os seus
produtos. Assim o proveito é recíproco. Os Gregos não são
imperialistas. O seu dominium não ultrapassa os muros que
cercam as colónias. E, dentro desses muros, o ginásio, os
estabelecimentos, a Agora, servem tanto para uns como para
outros. Presenciei muitas vezes os litígios entre Getas, que
têm lugar no recinto do Fórum de Tomos. Não há aqui, como em
Roma ou em Atenas, um juiz para decidir o desfecho do
processo: quem decide é o próprio Deus. As duas partes
adversárias apresentam-se na praça, numa data marcada com
antecedência e, empunhando as espadas, combatem até que
justiça seja feita. O vencedor ganha a causa, não pela
simples razão de ter morto ou posto fora de combate o
adversário, mas porque Zalmoxis guiou a sua mão para a
vitória. Aceita-se a decisão de Deus e toda a gente fica
contente. A vida de todos os dias é assim directamente
controlada pelo céu, até aos mais ínfimos detalhes, quer se
trate de uma jeira de terra ou de um bocado de malana.
Foi, pois, no final de Novembro, diante de uma multidão em
armas, que teve lugar a minha recitatio. O frio intenso, o
céu coberto de nuvens cor de chumbo, e os raros flocos de
neve emprestavam à atmosfera uma ressonância inverosímil. O
eco da minha voz fazia estremecer as sombrias abóbadas do
céu, como se estivesse a falar no interior de uma basílica,
em Roma. Olhos castanhos ou verdes fitavam-

184

-me de longe e de perto, barbas ondulavam ao vento,


misturando-se com os cabelos hirsutos, como as serpentes que
ornavam a cabeça de Medusa. Nem um gesto, nem um som. Junto
de mim, algumas centenas de Gregos, embrulhados em roupa,
tiritando e tossindo, sussurravam aprovando de tempos a
tempos, no final das passagens que julgavam mais marcantes
ou mais lisonjeiras para Augusto ou para Tibério. Todavia,
eu falava em geta, dirigindo-me a uma multidão de Getas, em
maioria sobre todos os outros. Uma vez acabada a minha
recitatio, os milhares de carcases entraram em acção. Era
como se estivéssemos no meio de uma enorme inundação, e só
ouvíssemos, vindo do fundo das águas, o barulho dos seixos
entrechocando, ameaçadores e furiosos. Um ruído original,
profundo e irónico. Os aplausos dos Gregos, calorosos, mas
obviamente pouco sinceros, foram cobertos pelo bater do aço
nas madeiras, cujo duplo sentido não escapou a ninguém e fez
sorrir os Gregos. Os Getas não sorriam. De olhos fixos,
expressão imóvel e neutra, agitaram os carcases durante
longos minutos. O ruído cessou como se tivesse havido um
sinal e, sem me dirigirem a palavra, dispersaram-se pelas
diversas ruas, de um lado e do outro da Agora, enquanto os
chefes das tribos prestavam juramento diante de Honório.
Escrevi a Caro na minha epístola: "As suas vozes Getas
fizeram ressoar um longo murmúrio, e um deles gritou: "Visto
que escreves isso de César, é sob o império de César que
deves viver". Espero que o meu amigo Caro mostre a Tibério
esta epístola. Na praça, onde a neve caía cada vez mais
densa, e o vento uivava com a sua voz de Inverno, que de
hoje em diante reconhecerei mesmo no fundo dos Infernos,
ninguém me dirigiu a palavra. O brilho dos olhos extinguiu-
se, as barbas desapareceram. Fiquei mais alguns instantes
junto dos Gregos, cuja adesão ao imperador e a Roma não

185

era sequer posta em causa, mas os seus elogios pareciam-me


ridículos nesta praça habituada aos duelos sob o olhar de
Deus, e afastei-me por fim, apoiado no braço de Dokia,
desejando estar de novo sentado ao canto da lareira.
- Falaste bem, disse-me Honório, que me veio visitar um
pouco mais tarde.
- Sim, disse eu, conquanto que este poema tenha mais sorte
dos que os Tristia! Sobretudo, não te esqueças de comunicar
à Cúria os elogios que os Getas fizeram ao meu discurso.
- O barulho dos carcases poderá ser interpretado em teu
favor.
- Como assim?
- É muito simples. O barulho queria dizer que, se depois
deste discurso o imperador não te perdoar, as flechas sairão
dos carcases. Podes vir a ser o árbitro entre a guerra e a
paz. Infelizmente, acrescentou sorrindo, Tibério não é
poeta.
E no seu relatório, Honório fez-se eco da minha epístola a
Caro e falou do sucesso do meu discurso junto dos Getas. A
próxima Primavera trará a resposta, e saberei então se
Tibério é mais sensível do que o pai à minha adulação.
Desde a morte do meu cão "Augusto", essa morte profética,
sinto-me muitas vezes só durante a noite. Um latido distante
é suficiente para me acordar em sobressalto. A parte final
dos sonhos que tenho nessas ocasiões é sempre igual:
"Augusto" está na rua, regressa de uma longa viagem, e está
a arranhar a porta, ladrando. Precipito-me para lha abrir, e
acordo em plena escuridão. O silêncio do Inverno pesa sobre
mim como a tampa de um túmulo. As

186

trevas começam a mover-se, à minha volta formam-se nuvens


negras, fecho os olhos, revejo praças, ruas, florestas, mas
as nuvens perseguem-me por todo o lado, oprimem-me, sem
contudo me conseguirem esmagar. Em Sulmona, entre os meus
seis e os dez anos, tinha sonhos parecidos, acordava,
chamava pelo meu irmão que dormia na cama ao lado, ou pela
minha mãe que acorria dizendo sempre as mesmas palavras, que
me restituíam à vida: "A tua mãe está aqui, não tenhas
medo". Um gesto, um grito ou uma palavra bastavam para que
qualquer ameaça se desvanecesse, e os dramas se apagassem,
antes mesmo de me atingirem. Entre mim e o universo
levantava-se uma muralha invisível que me protegia da dor.
Os meus versos aumentaram essa muralha, rodearam-me de outra
forma de protecção, mais subtil e enganadora, a que chamava
então fama e glória. Os receios da infância desvaneceram-se
e as nuvens dos meus sonhos desapareceram sem deixar outra
marca que não a lembrança. Reapareceram em Tomos, tantos
anos volvidos. Mas se grito durante o sono, é só a sombra do
meu cão que acorre para trazer ajuda, e essa ajuda faz-me
estremecer. Acendo a caldeirinha de terracota que me serve
de candeeiro, levanto-me, reanimo o fogo quase extinto e
fico a velar o imenso cadáver do meu passado.
Nos dias em que fico doente, apesar das dores e do medo da
morte, a alma está mais tranquila, porque Dokia fica ao pé
de mim. Se grito durante o sono, ao acordar encontro-a à
cabeceira da cama. Nos sonhos, já confundo a imagem dela com
a da minha mãe.

187

Este ano a neve caiu com abundância. Cobre a paliçada que


rodeia a casa de Dokia, os lobos passam por cima e vêm uivar
diante da porta, tentando empurrá-la com os focinhos,
ganindo como cães esfomeados. O rasto das patas fica gravado
na neve como numerosos carreiros entrelaçados, até se perder
na brancura da distância. Seguindo os mesmos caminhos, as
lebres vêm roer a casca das árvores jovens, plantadas no
Outono. Segundo Dokia, causam mais danos do que os lobos,
pois atacam sem barulho e as vítimas não podem gritar nem
defender-se.
Se fosse mais novo, teria pedido a Dokia que casasse comigo.
Teria começado com ela uma vida nova, para lá do Istro, e
teria escrito para Roma uma única carta. Ao lê-la, Augusto
teria morrido alguns anos mais cedo.
Durante a viagem de regresso a Troesmis, Comozous revelou-me
o segredo do urso. Este animal, habitante das florestas nas
montanhas dos Dácios, passa o Inverno mergulhado num sono
absoluto, irmão da morte. Adormece em Novembro com a chegada
das primeiras neves, e acorda em fins de Março, com as
primeiras flores. Tal como Zalmoxis, que tinha passado uma
parte da vida debaixo da terra para retomar forças, e
regressar depois para o meio dos homens, cheio de uma nova
sabedoria. Os ursos, antes de Zalmoxis, faziam como os lobos
e, durante o Inverno, alimentavam-se de cordeiros e de
vacas, atacando em bandos as aldeias e os estábulos dos
Dácios. Não se sabe como, aprenderam a arte de Zalmoxis e,
em parte, também os princípios da sua doutrina, uma vez que
já não atacam animais vivos, senão quando a fome os obriga,
alimentando-se normalmente de fram-

188

boesas e outros frutos silvestres, e passam debaixo da terra


os meses da estação dura, sem dar sinal de vida. É por isso
que estes animais são os preferidos de Zalmoxis, e diz-se
mesmo que, de quando em quando, volta à terra sob a forma de
urso.
Não serei eu também um urso enterrado, isolado da vida pelo
manto de sonho da neve? Não sou nem um urso, nem um deus,
porque penso e choro e, no meio da paz interior que
conquistei com tanta dificuldade, por vezes lamento o tempo
dos tormentos passados.
O médico Teodoro também se parece com um urso: olhos
pequenos, perdidos entre os tufos espessos e caídos das
sobrancelhas, a voz reduzida a dois sons essenciais -para
dizer sim e não -, e que parece vir do fundo da terra, o
corpo robusto e pesado plantado sobre uns pés habituados ao
solo de outro planeta, ou aos tapetes de folhas mortas dos
bosques, apalpa o pulso com dedos feitos mais para
estrangular do que para encorajar a viver. Passa os dias e
uma boa parte das noites, na taberna de Hérimon, a beber
sozinho quantidades incríveis de vinho tinto e olhando para
a janela, como se esperasse a chegada de alguém e isso lhe
metesse medo. Estudou em Atenas, onde passou toda a
juventude, mas curou e matou homens no Egipto, na Palestina
e mesmo na terra dos Partos. Vem de Dionisopolis, e não tem
nenhum objectivo; um dia, sem dizer nada a ninguém, entrará
num barco qualquer, ou para Istria ou para Bizâncio, e
desaparecerá sem deixar rasto. Segundo o que diz, pratica a
medicina para pagar o vinho de que precisa para cada dia. Se
alguém o chama, levanta-se a resmungar

189

e vai ver o doente, mas as suas visitas são curtas; volta


para a taberna para se deixar cair diante do copo sempre
cheio que o espera, e para mergulhar nos habituais devaneios
e na misteriosa espera. Supõe-se que terá sido autor de
qualquer malfeitoria e tem medo da vingança de alguém, o
filho, o pai ou o marido da vítima. Mas quem poderá sabê-lo?
Nunca fez confissão nenhuma desde o dia em que chegou e só
abre a boca para dar conselhos aos doentes, num tom que não
admite nem contestação nem réplica. Desprezando todo o
contacto com a água, deixa atrás de si um rasto de bode
doente, de fauno agonizante. Tenho pena dele, porque é um
bom médico, e tenho a certeza de que esta rudeza e esta
decadência escondem, tanto uma tragédia, como o desejo de a
esquecer, que na sua alma se unem a um desejo de morte.
É também um homem cheio de contrastes. "Sou pitagórico, mas
odeio a abstinência", disse-me aquando da primeira visita a
minha casa, no Inverno passado. Despreza tudo o que existe
debaixo do céu, Gregos e Romanos incluídos. Os primeiros,
pela sua impotência - "maçãs podres" - os segundos pela sua
ambição e pela estúpida agressividade -"carneiros que não
vêm mais do que os próprios cornos".
Passámos a tarde de hoje na praia, a passear ao sol, a
respirar os eflúvios da Primavera, a contar as nossas vidas.
Falei-lhe da minha viagem à Dácia e da conversa com o
sacerdote. Uma luz humana acendeu-se-lhe nos olhos. "Também
encontrei um dia um desses sacerdotes - disse-me. - Foi há
vinte anos, numa aldeia da Palestina chamada Efrata." E
contou-me a história mais assombrosa que alguma vez ouvi, e
que reproduzo aqui com todos os pormenores que me deu.
Em 748, Teodoro exercia a sua profissão em Jerusalém,
capital da Judeia, onde se tinha fixado depois de uma
partida, mais ou menos precipitada, de Alexandria.

190

- Alguns anos antes, eu morava em Alexandria, no Egipto, era


jovem, tinha muitos clientes e as minhas ideias (aludia ao
seu pitagorismo) faziam-me inclinar para os mistérios de
Isis e para a doutrina da palingenesia. Não era porque a
nossa religião não falasse de vida futura, mas encontrava no
culto egípcio respostas mais seguras e mais completas, mais
próximas da minha alma e das minhas inquietações de então. O
número infinito de deuses que povoavam o Olimpo parecia-me
bom para satisfazer os soldados de Menelau de quem Homero
nos cantou os feitos. Mas um homem do tempo de Virgílio não
devia poder suportar esta comédia e não compreendo como é
que um poeta da sua estatura tenha podido repetir patranhas,
válidas para um tempo definitivamente morto. (Referia-se à
Eneida e à sua semelhança com a Odisseia?) Compreendes? Como
poderia eu acreditar ainda em Zeus, o adúltero, o criminoso,
o desfrutador, o invertido, quando em Alexandria me
mostravam que Deus é um só, embora a sua substância seja
tripla? Conheces esta doutrina? É de uma grande beleza. O
mundo é uma arena onde se afrontam o Bem e o Mal. No fim, o
Bem sairá vencedor, mas o combate ainda dura, no céu, na
terra, em nós mesmos. Osíris é o Bem, Set o Mal. Este, corta
em pedaços o corpo de Osíris, mas ísis, que é a segunda
pessoa da Trindade, representando o princípio do Bem, refaz
o corpo de Osíris e devolve-lhe a vida. ísis é a irmã e a
esposa. Mas o que renasce do corpo de Osíris não será mais
do que a terceira pessoa da Trindade: Hórus. Compreendes?
Deus não tem começo nem fim, e perpetua-se pelo seu próprio
poder. Entre o Pai e o Filho não há diferença, e são ambos
idênticos à Mãe, que lhes volta a dar a vida, tanto a um
como ao outro. O sol é a imagem de Osíris: só desaparece
para renascer. ísis é a abóbada celeste que recebe Hórus, o
esposo ressuscitado. Ao mesmo

191

tempo, Deus esconde-se entre nós sob a forma do boi Ápis e


assim vigia-nos de perto, para melhor nos conhecer, para
poder julgar-nos e pedir-nos contas dos nossos actos, depois
da morte. Deus é, pois, para nós, criador, testemunha e
juiz. E o homem, voltando a dar a Deus aquilo que Dele
recebeu, ou seja, a vida, tornar-se-á num Osíris no momento
em que for considerado digno disso. E qual é esse momento?
Se a nossa vida fosse perfeita, seríamos imediatamente
aceites junto de Osíris. Mas, como somos pecadores, expiamos
aqui na Terra crimes que cometemos numa vida anterior, e
esses regressos à Terra terminarão se, seguindo à letra os
preceitos do culto e das iniciações, conseguirmos um dia
purificar-nos. O exílio não voltará a acontecer e seremos
livres e eternos irmãos de Osíris. "Tende confiança",
conheces a fórmula que acompanha a flor de lótus, símbolo da
ressurreição, da pureza perfeita e do fim das incarnações.
"Fiquei entusiasmado. Era jovem. A nossa religião, que não é
mais do que um hino à vida terrena, não me oferecia nada
semelhante. O culto egípcio ensinava-me uma coisa admirável
e nova: a verdadeira vida não era a que tínhamos todos os
dias diante dos olhos, a vida dos corpos corrompidos pela
lepra, degradados pelas paixões, humilhados pelas doenças,
estropiados pelas feridas. Havia uma outra vida, para além
das minúsculas e absurdas fronteiras desta. A esperança
nela, e a ressurreição que implicava deveriam ser os reais
objectivos do homem. Além disso, descobria outra coisa
admirável: cada homem, rico ou pobre, rei ou escravo, poeta
ou soldado, trazia em si a promessa da eternidade. Um dia,
seríamos irmãos em Osíris, ou seja, iguais. A desigualdade
só era possível durante este tempo de exílio na Terra.
Cessaria a partir do momento em que a purificação fosse
atingida, e esse momento existia potencialmente em cada um
de nós, transformando-nos desde já em irmãos,

192

apesar das guerras, dos crimes, dos abusos, das castas e das
falsas hierarquias que nos separam enquanto somos carne.
Consegues compreender? Diz-se que o vosso Augusto tinha
tomado medidas para impedir a difusão desta doutrina em Roma
e no resto do império. É evidente. Esta doutrina, pelo
simples facto de anular as distâncias entre a força dos
ricos e a impotência dos pobres, entre os direitos dos todo-
poderosos e os deveres dos escravos, viria abalar o
império."
Teodoro estava longe da taberna e do copo que Hérimon sempre
se apressava a encher. O seu cérebro ficava assim cada vez
mais lúcido e exprimia os raciocínios num grego normal e
inteligente. Era um prazer ouvi-lo.
"Deixei-me levar por estes princípios que achava justos,
nobres e actuais. Vivíamos num mundo sufocante. Qualquer
coisa tinha de acontecer para preencher a minha expectativa,
qualquer coisa que os homens esperavam desde há séculos,
desde sempre, desde o momento em que conheciam o sofrimento
e a morte. Comecei, portanto, a frequentar os templos, a
cumprir os rituais de purificação, a tomar parte nas
procissões, esperando o milagre, pois os sacerdotes deste
culto operam milagres. Um dia, um dos meus melhores amigos
adoeceu. Era um médico egípcio, casado, pai de seis filhos.
Morreu nos meus braços. A medicina foi incapaz de o salvar.
Chamei então o sacerdote do templo que frequentávamos todos
os dias, um santo homem. Veio, aplicou por três vezes uma
certa erva na boca do defunto, pôs-lhe uma outra sobre o
peito, e em seguida, voltando-se para oriente, dirigiu
baixinho uma oração ao Sol, irmão de ísis. E o morto
ressuscitou, ali, diante dos meus olhos, os mesmos olhos que
tinham visto e confirmado a morte. Consegues entender? O meu
amigo vivia, a fé restituíra-o aos seus. Eu estava
maravilhado. Passados uns dias, voltei a visitá-lo. Estava
ainda de cama, mas comportava-se normalmente,

193

como se convalescesse de uma doença qualquer. Pediu à mulher


que saísse e nos deixasse sós por uns instantes e disse-me:
"Não acredites nesta história. Eu estava adormecido, num
sono semelhante à morte, mas estava vivo, pois tive um sonho
de que me recordo perfeitamente. Um sonho muito curioso,
admito, porque em lugar das figuras reconhecíveis que
entrevemos no sono, desta vez vi a essência das coisas,
presentes e futuras. Soube que o culto de ísis é um culto
ultrapassado, que estes sacerdotes e sacerdotisas não são
seres puros, que é uma religião ainda demasiadamente ligada
à natureza inanimada, às forças sem nomes que nos rodeiam.
Osíris é o sol, ísis a lua, a riqueza e a abundância, a que
favorece os frutos e as colheitas. Este deus único e
tripartido não se distingue da natureza e dos elementos que
a compõem. O Deus verdadeiro, aquele que os homens esperam,
terá uma existência diferente, virá de um mundo exterior,
não será semelhante nem a um astro, nem a um animal, mas ao
homem. E depois sonhei contigo. Tu terás a prova, uma prova,
não sei qual, que revelará, a ti próprio e a mim, que este
sonho não foi um simples sonho e que a verdade ainda não
desceu para o meio de nós."
"Estas palavras perturbaram-me profundamente e deduzi delas
o seguinte: em primeiro lugar, que o sacerdote de ísis não
tinha realizado um milagre, só tinha acordado o meu amigo e,
portanto, mentira. Conhecia certamente segredos que eu
ignorava, mas tinha mentido em nome da religião, o que o
relegava para o nível dos adivinhos de feira. Em segundo
lugar, que a minha esperança, a fé e as certezas tinham
caído por terra. Não precisava de uma prova. No fundo da
alma, já estava convencido. Tinha perdido a fé, e um grande
desespero apoderara-se de mim. Se calhar, a minha narração
está a ser esquemática de mais, mas tenho a certeza de que
compreendes. Para quê uma prova, se tudo

194

se dissolvera subitamente, como um grão de sal numa gota de


água? Mas a prova veio ter comigo sozinha para confirmar as
palavras proféticas do meu amigo, o médico egípcio.
"Estávamos a cinco de Março, a festa da Barca de ísis, muito
importante em Alexandria para os numerosos marinheiros da
cidade e para os fiéis da deusa. Consagrava-se a ísis uma
nova embarcação, que seria depois lançada ao mar. Durante a
cerimónia encontrava-me no porto, junto dos sacerdotes. Uma
multidão rodeava o farol, o altar, a Barca. Rezavam
fervorosamente por aqueles que iam ficar embarcados durante
toda a estação que nesse dia se inaugurava, a Barca foi
lançada à água e, nesse momento, das nuvens baixas que
cobriam o céu irrompeu um raio fulgurante como uma longa
espada. Caiu a direito sobre a Barca sagrada que se
incendiou, e em segundos desapareceu sobre as ondas,
deixando à superfície do mar uma vaga luz fumegante. O ruído
do trovão encheu os ares e sobre a terra abateu-se uma chuva
violenta. A multidão foi tomada de pânico, homens caíram ao
mar, outros morreram esmagados, espezinhados pelo terror dos
outros, os sacerdotes fugiram. Uma sacerdotisa de ísis veio
refugiar-se-me nos braços. Levei-a para minha casa. E aí
ficou. Dois dias depois, acalmada a tempestade, fugimos
juntos, embarcando no primeiro navio que rumava à Palestina.
Durante noites inteiras, perdida de amores, contou-me o que
se passava no templo. Para quê reproduzir-lhe as palavras?
Cada uma delas ia construindo diante dos meus olhos a imagem
da prova.
"Estabelecemo-nos em Jerusalém, onde reinava Herodes. Eu não
era rico. Quando as minhas reservas se esgotaram, ela
abandonou-me e regressou a Alexandria ou viajou para Atenas
ou Roma, onde sempre sonhara ir. Estávamos em Dezembro de
748. Se me perguntasses: "Como é que ela era?" não saberia
responder. Jovem e bela, claro, mas os tra-

195

ços do rosto, a cor dos olhos, a cabeleira, a forma do


nariz, tudo me desapareceu da memória. Não foi mais do que
um instrumento do destino ou de Deus, e desapareceu, uma vez
cumprida a missão. Exercia de novo a medicina, tinha
clientes. Um dia, fui chamado à cabeceira de um doente que
vivia na aldeia de Efrata ou Belém, poucas milhas a sul de
Jerusalém. A aldeia estava inundada de gente, acorriam
pessoas de todos os lados, pois deviam recensear-se, de
acordo com instruções recebidas de Roma."
Teodoro calou-se. Tinha obviamente a boca seca. "Tenho
calor, disse, e foi molhar os pés no mar. Como esta água é
fria! Mas fiquemos um pouco mais. Ainda não tenho vontade de
voltar. Hérimon enoja-me, mas o vinho dele é bom."
Continuámos a passear em silêncio, caminhando sobre a areia
dourada que me aquecia os pés através das solas.
"Ocupava um quarto em casa do meu doente. Quando estava a
arrumar a bagagem para regressar no dia seguinte a
Jerusalém, vieram chamar-me. Uma velha guiou-me na escuridão
até ao outro lado da aldeia, a uma casa quase isolada onde
tive de abrir uma gangrena e ficar durante mais de uma hora.
Saí um pouco antes da meia-noite, renunciando desta feita à
minha guia, porque as luzes da aldeia se distinguiam
perfeitamente e não me poderia perder. Penetrei sozinho nas
trevas. A noite estava clara e sem lua, milhares de estrelas
brilhavam no céu, sentia-as vibrar no ar frio e puro. Seguia
a estrada esbranquiçada, cantarolando. Antes de desaparecer
entre as primeiras casas, o caminho subia ligeiramente e
formava uma curva de onde se dominavam as pequenas colinas
que rodeavam Efrata. Nesse momento não pensava em contemplá-
las porque tinha frio, estava cansado, e, como sempre que
estava só durante os primeiros meses da minha estadia na
Palestina, via diante de mim a

196

mulher que me tinha abandonado e cuja lembrança ainda me


dominava o corpo. Não por tê-la amado e chorar a sua
ausência, mas por me sentir demasiado só, sem companheira,
como qualquer homem traído, quase simultaneamente, pela
amante e pelos deuses. Eu era forte, mas o golpe fora duro.
Foi no momento em que a estrada, começando a subir, me
tapava as poucas luzes da aldeia, que avistei a estrela.
Encontrava-se à minha direita, em pleno céu, mais abaixo do
que os outros astros, e deslocava-se lentamente, deixando
atrás de si um leve sussurro que se dissolvia no espaço,
como fumo. Parei para ver melhor. Nesse momento a estrela
parou também, ou melhor, interrompeu a sua translação
lateral e começou a descer. À medida que descia, eu ia
começando a distinguir o contorno das colinas que a luz
tornava brancas, como se minutos antes tivesse caído neve.
Dois camponeses locais, ou dois pastores, atravessaram a
estrada a alguns passos de distância de mim, e prosseguiram
sem me ver, na direcção da estrela. Segui-os de longe, sem
me tornar notado. A estrela, ou o que eu tomava por tal,
parara de vez, a uns vinte passos, sobre uma colina e no
flanco dela vi brilhar uma outra luz, muito mais pálida. Ao
aproximar-me pude ver que a luz saía de uma dessas grutas
onde os pastores da Palestina guardam os rebanhos durante a
estação fria. Na estrada, estavam ajoelhadas uma dezena de
pessoas, olhando para o interior da gruta, já cheia com
outras pessoas, homens e mulheres, imobilizados na mesma
atitude. Alguém ao ver-me aparecer, e reconhecendo-me -
certamente um parente ou amigo dos doentes que tratara
durante o dia - exclamou: "Eis o médico. Chega tarde de
mais."
- Que se passa?" - perguntei assustado com estas palavras.
"- Nasceu o Messias" - responderam-me.

197

"Abri caminho por entre os corpos ajoelhados e vi-O. Deitado


na manjedoura do estábulo escavado no flanco da colina,
dormia. A mãe, a mãe d'Ele, compreendes, porque o Messias
nasceu de uma mulher como todos os filhos dos homens, estava
deitada na palha, esgotada pelo parto que devia ter tido
lugar uma hora antes da minha chegada, ou talvez menos. Só
se ouvia o som de uma corrente passada através de uma
argola, que um burro agitava de tempos a tempos, ao inclinar
e levantar a cabeça, e o ruído que fazem os animais
ruminando e que parece o ronronar de um gato. Um velho
aproximou-se e perguntou-me com doçura:
"- Quem te chamou para junto de nós?
"- Vim sozinho, acompanhando a estrela. Lamento ter chegado
tarde de mais, mas vejo que a minha presença teria sido
inútil. Mas porquê aqui?"
"- Não conseguimos alojamento na aldeia. Todos os quartos
estão tomados.
"- Posso ceder-vos o meu. Vai ficar livre amanhã de manhã.
Venho buscar-vos.
"Nesse momento, a criança abriu os olhos e fitou-me. Posso
jurar que os olhos d'Ele já viam, e olhou-me cheio de
reconhecimento, juro, como uma pessoa crescida, consciente
do que fazia. E a paz que enchia o lugar penetrou na minha
alma. Ajoelhei-me, chorando de alegria, com a fronte apoiada
na barriga quente e flexível de um dos animais que ruminavam
olhando o Messias."
Teodoro calara-se de novo. Com a mão a tremer agarrou a
minha. Um soluço subiu-lhe do peito, os olhos encheram-se de
lágrimas e começou a chorar como uma criança, sacudido pela
violência da mesma felicidade que o tinha emocionado na
noite do nascimento do Messias. Acalmou -se e recomeçou a
narrativa.

198

"Ao sair, vi na entrada, envolto numa túnica branca, o


sacerdote dácio. Tinha acabado de chegar, pois os seus
olhos, ainda entre o deslumbrado e o incrédulo, procuraram
nos meus uma confirmação. Fiz que sim com a cabeça,
compreendeu o que lhe quis dizer e entrou na gruta, enquanto
eu me distanciava sob a luz da estrela, branca como uma lua
ao alcance da mão.
"Não disse nada ao meu hospedeiro, só lhe pedi que
albergasse por uns dias uma família amiga que não encontrava
alojamento, e paguei-lhe antecipadamente a soma que me
pediu. No dia seguinte fui buscar a criança, a mãe e o velho
que os acompanhava, e conduzi-os à casa do meu antigo
doente.
"Não sei explicar-te o que sentia então, um misto de alegria
e de indizível receio. Porquê uma criança, um ser tão frágil
e delicado? E porquê este estábulo, estes bois, estes
pastores miseráveis? Porque é que Deus havia escolhido
justamente este lugar e esta pobreza para Se mostrar aos
homens? Qualquer coisa dentro de mim se opunha à
simplicidade do milagre. E como explicar e justificar a
minha presença diante da porta dessa casa, atrás da qual,
apurando o ouvido, podia distinguir o choro da criança e a
voz da mãe? Deveria fazer alguma coisa, comportar-me de uma
maneira diferente da do passado, voltar a Alexandria e
gritar a boa nova no limiar do templo de ísis e de todos os
templos erguidos a falsos deuses? Perguntava-me também: como
iria o Messias manifestar aos homens o seu poder e a sua
vontade? Iria realizar imediatamente milagres
impressionantes, ou iria esperar meses ou anos, tornar-Se
homem, parecido com os outros, antes de falar e revelar o
Seu poder? Eu podia morrer entretanto, antes de ouvir a
palavra tão longamente esperada. Em pleno tormento, uma
ideia veio iluminar-me: deveria seguir o Messias desde esse
ins-

199

tante, nunca mais O abandonar, tornar-me, sim, tornar-me o


seu médico, embora esta palavra, em relação a Ele perdesse
todo o significado. Decidi pois voltar a Jerusalém, levar
comigo os poucos bens que adquirira depois da fuga daquela
mulher, voltar a Belém e viver na sombra dessa santa
família, até ao momento em que a verdade fosse revelada aos
homens, ser o primeiro a recolhê-la, ouvida do próprio
Messias.
"Antes de partir vi o sacerdote dácio e falei-lhe: sabia
pouco grego, mas conseguimos entender-nos. Tinha visto a
estrela e reconhecido o sinal, pois a vinda do Messias fazia
parte da tradição do seu culto. O recém-nascido, disse-me,
era o Filho de Deus, e Maria concebera-o sem contacto
carnal. Aquela mulher chamava-se Maria e o velho que a
acompanhava, José, da linhagem do rei David, era seu marido
mas nunca a havia tocado, de acordo com indicações que Deus
lhe transmitira antecipadamente, pela voz de um anjo.
Durante a nossa conversa, três camelos pararam diante da
porta, e três estrangeiros vestidos à moda persa desceram e
saudaram-nos. Perguntaram, em língua arménia, se o Messias
se encontrava naquela casa, pois traziam-lhe oferendas. Eram
magos, ou discípulos de Zaratustra, e tinham vindo, também
eles, guiados por uma estrela. Os livros deles falavam da
vinda do Salvador, o Astvaí-ereta, filho de Zaratustra, que
iria ressuscitar dos mortos, ser o juiz de todos os homens
que vivem sobre a terra e assegurar o triunfo definitivo do
Bem sobre o Mal. Segundo todos os indícios, o Filho de Deus
tinha nascido e a Humanidade ia entrar numa nova era. Também
nos disseram que em Jerusalém ainda nada se sabia sobre este
acontecimento, que se tinham apresentado na corte de Herodes
e falado com o rei; que este se mostrara desejoso de
conhecer o Messias, de O adorar, e que lhe tinham prometido
dar notícias, no cami-

200

nho de regresso à Pérsia. Separámo-nos; eles entraram na


casa para apresentar ao Messias as suas dádivas e eu, por
minha vez, despedi-me do sacerdote dácio e parti para
Jerusalém, tencionando tratar dos meus assuntos de forma a
voltar para Belém o mais depressa possível."
Teodoro sentou-se na areia e olhou para o mar. Ficou imóvel
durante uns instantes, de costas voltadas para o sol,
mastigando umas folhinhas de erva que colhera de passagem.
- Vem, senta-te. A areia ainda está quente, e vai fazer-te
esquecer os rigores do Inverno. Cuspiu para longe qualquer
coisa verde e retomou a história.
- Não, não podes imaginar o que se passou. Fiquei três ou
quatro dias em Jerusalém onde a notícia já se espalhara.
Ouviste falar de Herodes, o que matou o próprio filho e a
mulher, o rei mais ignóbil e cruel da triste história de
todos os reis da Terra. Estava velho, uma ruína mal-
cheirosa, reinava havia decénios fazendo o jogo dos Romanos,
massacrando e pilhando para conservar a coroa. Uma tarde,
soube por um dos meus doentes, chefe da guarda do palácio
real, que Herodes tinha decidido mandar assassinar a criança
que acabara de nascer em Belém. Pouco tempo depois, Herodes
morreria, devorado pelos vermes, no seu palácio de Jericó.
Cinco dias antes de morrer, com medo de ser destronado,
matou o filho mais velho, Antípatro. Semeou a morte e o
terror à sua volta, até ao último suspiro. Como temia pela
coroa, pensou que o Messias viria desapossá-lo e tomar o seu
lugar como rei da Judeia. Precipitei-me para casa, agarrei
no saco que preparara, aluguei um cavalo e lancei-me à
estrada para dar o alarme a José e a Maria e, bem entendido,
para lhes facilitar a fuga e não mais os abandonar. Mas já
não os encontrei. Advertidos por alguém, talvez pelo próprio
Deus, tinham desaparecido na noite anterior. Os solda-

201

dos de Herodes cercavam a aldeia e rebuscavam nas casas. As


mulheres gritavam e arrancavam os cabelos, e vi uma que, na
minha frente, matou com uma pedrada o soldado que tinha
trespassado com a espada o seu filho, de poucos dias; porque
todos os recém-nascidos de Belém foram passados a fio de
espada, por ordem de Herodes. Pereceram assim cerca de vinte
crianças, na louca esperança de que o Messias se encontrasse
entre eles. Mas o Messias já ia longe. Escapara ao massacre,
mas eu perdera-lhe o rasto. E desde então, nunca mais O
encontrei. Procurei-O por toda a parte, na Palestina, no
Egipto, na Grécia, refiz o mesmo itinerário dezenas de
vezes, mas ninguém soube indicar-me o caminho que tomara. As
pessoas olhavam-me incrédulas: o Messias? E abanavam a
cabeça. Provavelmente eu tinha a aparência de um louco,
esgotado como estava pelas cavalgadas, a barba coberta de
pó, os olhos desesperados, perseguido pela imagem daquela
noite. Tinha encontrado Deus e perdera-O. Tinha-O visto,
deitado nas palhas, aquecido pelo bafo dos animais. Olhara-
me por um só instante, mas esse olhar ficou no meu, como uma
mancha de luz... Ainda O procuro. E vou-me consolando como
posso. Basta um copo de vinho, para me achar de novo na
gruta. O tempo passa lentamente, arrasta-se, em vez de
correr ao encontro do momento em que a criança, que se
tornou um homem de vinte anos, irá falar aos homens e
chamar-me para perto d'Ele. Achas que ainda se lembrará de
mim?"
Teodoro calou-se. Olhou para mim. Tremia-me o queixo,
agitado pela febre.
- "Que tens? Sentes-te mal?
- Não quero morrer. Não quero morrer... - Repetia estas
palavras estúpidas, e eram a única resposta que encontrava
de momento para a pergunta do médico. Também eu queria ouvir
a palavra, ver o Messias e encontrar, antes de mor-

202

rer, a resposta para todas as dúvidas. Deus já estava entre


nós e faria ouvir a sua palavra, mais dia menos dia. Tudo
iria organizar-se de acordo com uma ordem nova, tudo teria
um sentido na vida, os homens iam conhecer a verdade e mesmo
a morte seria uma alegria. Os Dácios sabiam-no, mas todas as
doutrinas e todas as sabedorias doravante seriam letra
morta.
A noite caíra. Ao regressar a casa, convidei Teodoro para
jantar. A minha mão ainda treme quando escrevo estas linhas.
Vou ficar acordado a noite inteira. E se o Messias se
encontrar em Tomos? Porque não em Cogainon, ou na Clareira
da Macieira? Se calhar, foi por isso que o sacerdote me quis
afastar da Montanha Sagrada. Não. Depois da morte de
Herodes, voltou certamente para a Palestina, onde teve
início o Seu destino humano. Ou então, fará ouvir a Sua
palavra em Roma, no centro do mundo, onde ninguém O espera,
mas a partir de onde a Sua palavra se espalharia rapidamente
por toda a parte.
Esta manhã Teodoro partiu para Roma. Prometeu escrever-me
assim que chegasse. A minha ideia pareceu-lhe lógica. Porque
aquilo que será destruído logo que o Messias se revelar aos
homens, será o império.

203

SEXTO ANO

Escrever torna-se cada vez mais penoso. Na juventude,


escrever era um acto de alegria. Tudo aquilo em que tocava,
homens, coisas e deuses, tornava-se poesia e felicidade. O
mundo parecia ignorar a tragédia, a morte não passava de um
simples conceito, inconcebível enquanto realidade pessoal.
Na velhice, tudo o que toco torna-se tragédia, mesmo as
coisas que não me dizem respeito, a história dos outros. A
morte faz-me sinais, serve-se dos que me rodeiam para se
fazer lembrar a cada instante, para que à minha volta só
exista um mundo feito à sua imagem. Por este motivo,
escrever torna-se cada vez mais triste. Cada letra
representa mais um passo, menos um minuto.
Como contar tudo o que se passou nos últimos meses? Como não
pedir, como o pobre Hérimon, um consolo qualquer, um meio de
esquecer, o amor por exemplo, ou, se existisse, um golo da
água negra do Lete. Teodoro chamava ao vinho tinto "o meu
Lete". Esse tinha encontrado a fórmula. Queria contar o que
se passou com Hérimon, mas não tenho forças. Já tentei fazê-
lo, mas desisti, porque, de novo, sou responsável...
Passemos pois a outro tema, menos terrível. Acabo de receber
uma carta de Teodoro, o homem que tinha encontrado Deus,
para logo O perder.

205

"Mal aqui cheguei fui visitar a tua mulher, que me recebeu


muito bem. Reteve-me durante longas horas, e pude assim dar-
lhe todas as notícias de que estava ávida. Não tem cessado
de intervir em teu favor junto de Tibério e dos grandes do
império e, diz-me, as tuas possibilidades de regresso
aumentaram nestes últimos meses, embora nada em Roma tenha
mudado após a morte de Augusto. Tibério fez-se rogado
durante muito tempo, antes de aceitar a sucessão e
representou toda uma comédia que lhe ia custando caro, pois
os senadores, encorajados pela hesitação dele estavam
prestes a inclinar-se para a solução da república. Parece,
no entanto, que os Romanos perderam todo o orgulho sob o
domínio de Augusto, e que o império já entrou nas suas
tradições, porque ninguém ousou opor-se a Tibério no momento
em que este, pondo termo à comédia, aceitou o pesado encargo
que priva os Romanos das liberdades que Augusto lhes ensinou
a esquecer. Apesar de tudo, diz-me a tua esposa, Tibério
estaria disposto a perdoar-te e, logo que apareça uma
ocasião favorável, irá pedir o teu indulto. Assim, em breve
terei a alegria de voltar a ver-te.
"Interroguei-a sobre o Messias, mas não tinha ouvido falar
de nada, e parece que nos meios que frequenta a notícia do
Seu nascimento ainda não chegou. Pôs-me imediatamente em
contacto com o seu médico, António Musa, que visitei há
alguns dias. Lembras-te com certeza dele. Continua a ser o
médico mais famoso de Roma, e a sua estátua de bronze lá
está, ao pé da de Esculápio."
Claro que me lembro. Musa celebrizara-se no tempo de
Augusto, quando recomendou banhos frios ao imperador,
doente. Augusto curou-se imediatamente e o povo reconhecido
fez erguer uma estátua ao médico, essa de que fala Teodoro.
Algum tempo depois deste acontecimento, Musa prescreveu a
mesma cura a Marcelo, sobrinho de Augusto,

206

que morreu logo em seguida. Mas a sua glória era já


indiscutível e ele sobreviveu a este pequeno contratempo.
Teodoro continua:
"Perguntou-me logo: "Trata-se de um curandeiro?
"- De um curandeiro de almas, respondi. O Messias é o Filho
de Deus.
"- Bah! Vê-se logo que vens do Oriente. Lá os deuses nascem
como cogumelos. O que conta são os corpos. Se os homens
chegassem a preocupar-se mais com as almas do que com os
corpos, os médicos podiam fechar a loja e mudar de ofício.
"- O Messias curará também os corpos. Ressuscitará dos
mortos.
"- Pior ainda, caro colega. Nem quero ouvir falar nele. No
dia em que ousar mostrar-se em Roma, hei-de mandá-lo
expulsar ou prender."
"Excitado com o que eu lhe tinha dito, tal como Herodes
diante dos magos, Musa mandou um escravo acompanhar-me a
casa de Herófilo, o famoso inimigo da morte - e este,
conheceste-o? -, o médico que dissecou até hoje seiscentos
corpos humanos. [Não, não tinha conhecido Herófilo. Sem
dúvida outro médico grego, entre os milhares de charlatães
que, protegidos pela lei, praticavam em Roma uma ciência que
ignoravam, ou que só chegavam a conhecer depois de terem
morto cem doentes a fim de salvar em seguida um ou dois].
Encontrei-o em casa, em plena actividade. Para agradar ao
seu amigo Musa e para me deslumbrar com a sua arte, levou-me
ao laboratório, uma vasta divisão situada no alto da casa,
sem tecto, para a luz poder cair em cheio sobre o objecto
das suas profundas e sábias investigações.
"- O Messias, o Messias? Que estás para aí a contar? Para
que serviria ele, caro colega? É preciso olhar para as
coisas como médico, não como profeta. Não há mistérios no

207

mundo. Está tudo aqui, debaixo dos nossos olhos e espero


poder revelar em breve o segredo da vida e da morte. Vem
ver!"
"Em cima de uma mesa de pedra estava estendido um corpo
vivo. Com os pés e as mãos solidamente amarrados, a boca
amordaçada com um tecido grosso que o impedia de gritar, o
ventre aberto, este homem sofria em nome da futura revelação
prometida pelo médico. Uma baba ensanguentada escorria-lhe
dos dois lados da cara e depositava-se sobre as lajes de
pedra em longas gotas esfiapadas. Herófilo retomou o
trabalho na minha frente. Com instrumentos imaginados por
ele próprio, o meu colega procurava o segredo da vida e da
morte nas entranhas deste homem, um dos dez criminosos que
um rei bárbaro tinha enviado a Herófilo para este usar nas
suas experiências. Era a homenagem da barbárie à ciência.
Usando meios cuja técnica não me revelou, o médico
prolongava pelo período mais longo possível, a agonia da sua
vítima, a fim de que as investigações não fossem
interrompidas por uma morte intempestiva. Se o miserável
perdia consciência, fazia-o voltar a si prodigalizando-lhe
os cuidados mais meticulosos. E, se o segredo não se
deixasse surpreender no meio das entranhas, Herófilo abria o
peito, os órgãos genitais, a cabeça e até os músculos das
pernas e dos braços. Nunca se sabe... Depois de duas horas
de pesquisas alternadas com cuidados, o criminoso expirou,
apesar de tudo, cessando bruscamente de se debater. Herófilo
deu-lhe um golpe de bisturi na barriga e, à guisa de adeus,
lançou um palavrão em grego.
"- O porco morreu. Mas tenho outros seis à espera de vez. Se
um dia o vosso Messias me cai nas mãos... Deitou-me um olhar
eloquente. O Messias tornara-se para ele o corpo onde iria
sem dúvida encontrar o segredo tão longamente perseguido.
Este homem, este pretenso sábio que

208

não acredita em nada, salvo na ambição que o incomoda como


um eczema, é a prova viva do fim que se aproxima. O mundo
caiu baixo de mais. O ser humano que vi morrer à minha
frente, sob a faca de um carrasco louco, não tinha ninguém
para o defender. Herófilo tinha matado seiscentos como este,
e outros esperavam vez na prisão dos escravos. Ninguém para
os defender, porque nenhum Romano teria levantado um dedo
para se opor ao massacre. No tempo da minha juventude, a
medicina era bem diferente. Asclepíades servia-se da música
para tratar os frenéticos e escolhia as formas mais suaves
para curar os seus doentes. [Teodoro tem razão. Antes da
chegada do primeiro médico grego, em 535, existia em Roma,
no alto do Vicus Longus, um Templo da Febre, onde as pessoas
que se curavam de qualquer doença vinham comunicar os meios
que tinham usado para se livrar dela, ensinar os nomes das
plantas ou dos unguentos, informar, com todos os pormenores,
sobre as técnicas de cura que tinham seguido, para que os
outros, por sua vez, as pudessem utilizar. Pensava-se ainda
na saúde dos outros, tornar-se útil era uma felicidade. Nos
nossos dias, torturam-se homens para arrancar aos corpos um
segredo que nunca se revelará com estes meios. Imagino uma
época, no futuro, em que os homens, pervertidos pela
ciência, tentarão arrancar o segredo da vida não aos corpos,
mas às almas. Novos Herófilos disporão de milhares de
escravos cuja agonia, graças ao progresso, será muito mais
longa e com sofrimentos que apagarão das consciências a
noção de homem. Mas Deus, se existe, não permitirá este
crime.] E quando penso que o filho de Deus está no meio de
nós, talvez em Roma, fico louco de raiva. Contar-lhe a
loucura de Herófilo talvez o decidisse a fazer-Se ver e
ouvir. Por que espera Ele? Pergunto-me a cada dia que passa.
Que espera Ele ainda?"

209

As buscas de Teodoro tinham sido vãs até ao momento em que


me escrevera. Ninguém em Roma conhecia o Salvador. Falava-se
Nele nos meios judeus da cidade, mas do acontecimento de
Belém ninguém ouvira falar.
O círculo aperta-se à minha volta.
Hérimon matou a mulher e sou a única pessoa que sabe.
Pronto, fui enfim capaz de o dizer. Aconteceu há mais de um
mês, ao cair de uma noite de Março, quando o primeiro vento
da Primavera cantando nos telhados despertava no coração dos
homens paixões adormecidas, e acordava os ursos que
hibernavam durante o frio do Inverno. Dokia tinha voltado
para casa dela havia uns momentos e preparava-me para me
deitar, quando na porta ressoaram as pancadas do meu amigo,
reconhecíveis pela violência e pela força. Entrou sem me
saudar, evitando olhar-me.
- A minha mulher morreu. Caiu da escada abaixo. Não tive um
segundo de dúvida. "Foste tu que a empurraste?"
Não me respondeu, mas o silêncio era quanto bastava.
- Que pensas fazer, meu amigo?
- Casar com Lídia, transformar a casa, comprar móveis novos,
começar uma vida nova. Não me arrependo de nada. O
sofrimento inútil dela fazia-me pena. A morte libertou-nos
aos dois. Ainda não estou feliz, mas vou ser, garanto-te.
Sei que não me vais denunciar, porque és meu cúmplice.
- Teu cúmplice?
- Escreveste o poema para mim, lembras-te? Foi assim que
tudo começou. Desculpa falar-te com tanta franqueza. Não era
para a tua cumplicidade que queria apelar, mas para

210

a tua amizade. Não podes ser causa de infelicidade para mim.


Um poeta não é capaz de fazer mal. Contradizia-se.
- Se me consideras cúmplice, sou uma das causas desse mal.
- Uma causa indirecta, longínqua. Deste-me um impulso para a
felicidade, conquistei Lídia graças ao teu apoio. A desgraça
que se seguiu provém dessa felicidade. Tinha de escolher
entre dois males: matar o meu amor e separar-me de Lídia, ou
matar a minha mulher e salvar o amor. Escolhi o crime mais
fácil e mais humano. Terias escolhido o outro?
- Sempre evitei esses dilemas.
- É muito cómodo. És um ser civilizado; lavaste a alma de
todas as paixões que podiam manchá-la e tiveste uma vida
fácil e limpa. Contentaste-te com olhar para os tormentos
dos outros e comentá-los nos poemas. Mas eu, eu que nasci no
meio dos bárbaros, nos confins da razão, fui buscar consolo
onde ele poderia estar, ao alcance da mão, sem pensar duas
vezes. Por causa disso serei indigno de viver? Não terei,
como toda a gente, direito a ser feliz, seja qual for o
preço? Com o meu crime perdia a tua amizade?
- Não, Hérimon. Estarei aqui para te apoiar, porque esse
crime não vai aumentar a tua felicidade, mas o teu
sofrimento.
Lançou-me um olhar suspeitoso. Não conseguia compreender.
- Não vais denunciar-me? - Foi tudo o que se lembrou de
dizer, pois era a única coisa que lhe importava de momento.
Achava que a liberdade dele dependia do meu silêncio. Abanei
a cabeça. Saiu a correr, convencido de que tinha obtido a
minha cumplicidade.
Carmen et error tinham sido as duas causas do meu exílio. A
minha poesia provocara a cólera de Augusto. Corrom-

211

pia a juventude romana e, segundo ele, ameaçava a própria


existência do império. Eis-me de novo acusado, desta vez de
cumplicidade num crime. O meu primeiro poema em língua geta
tinha propiciado o amor entre Hérimon e Lídia, e, ao mesmo
tempo, lançado o meu amigo na vertente da paixão cega e sem
saída. Tinha obtido os favores da jovem e conhecido uma nova
época de felicidade, tanto mais viva e torturante quanto é
certo que sabia ser a última na vida. Como prolongá-la sem
correr riscos? Eliminando o único obstáculo do caminho: a
mulher, velha e doente. Empurrando-a do alto da escada -
provavelmente, sem que ela se tivesse sequer apercebido -
tinha realizado, segundo a sua teoria, uma boa acção dupla:
tinha, de um só golpe, posto fim aos sofrimentos da mulher,
para quem a morte se tornara um único alívio possível
(Teodoro tinha tentado, em vão, curá-la), e libertado o seu
próprio caminho de uma presença embaraçante. Tinha dinheiro,
estava viúvo, julgava-se no limiar da felicidade perfeita.
Se pudesse ter-me-ia, tal como Augusto, afastado do seu
caminho, desterrado para o fim do mundo, pois a minha
presença irá lembrar-lhe sempre esse crime, ou esse erro,
que poderá fazer ruir a frágil ilusão. O que é triste nesta
história toda, é o papel que me é atribuído. A minha
inconsciência ter-me-á de novo levado a cometer um delito,
sem que eu tivesse sabido prever, nem os limites nem o
desfecho? Foi a Arte de Amar que estragou tudo na minha
vida? Serei verdadeiramente responsável? Hérimon não se
enganava ao acusar-me de ter levado uma vida de civilizado,
enquanto contemplava os tormentos dos outros. Teria podido
acrescentar: enquanto provocava, com a minha poesia, os
tormentos dos outros. Mas pode alguém ser responsabilizado
pelas armas que lhe foram concedidas, postas nas mãos desde
a nascença, sem que lhe dêem a conhecer o poder e a força
delas? Quem de nós três foi o

212
verdadeiro responsável desta morte? Lídia, que com a sua
beleza e juventude ateou no coração do amante uma paixão
cega e culposa? Eu, com os versos que permitiram aos dois
amantes revelarem-se e possuírem-se? Hérimon, com o gesto de
empurrar a mulher para o vazio da escada? Neste momento
assalta-me outra dúvida: quantas outras pessoas serão ainda,
ou terão já sido, pervertidas pelos meus versos? Quantos
homens a beleza de Lídia acabará ainda por destruir? Nesta
perspectiva, o gesto de Hérimon perde toda a gravidade
criminosa e ele torna-se o mais inocente dos três cúmplices.
E quem pode julgar a nossa falta e repartir o justo peso do
castigo, aqui e na eternidade?
Nova carta de Teodoro. Cheia de esperança, desta vez. "Estou
de novo no rasto d'Ele, escreve. As minhas buscas
conduziram-me até um velho judeu que não se espantou com a
minha notícia. De há muito que esperam a vinda do Messias.
Leu-me algumas passagens, que vou transcrever de memória, de
um dos seus livros sagrados a que chamam o Génesis e o Livro
dos Profetas: O Messias nascerá da tribo de Judá, da família
de Jesse e a mãe será uma virgem. A Sua pátria será Belém de
Efrata (lembras-te com certeza do nome desta aldeia, onde O
vi, mal acabara de nascer). Será o Filho de Deus, do Deus
Todo Poderoso, e será o Príncipe da Paz e o espírito do
Senhor acompanhá-lo-á sempre. Será taumaturgo, doutor e
profeta, legislador e rei do novo reino. Será
simultaneamente o sacerdote e a vítima. Segundo o profeta
Zacarias, será vendido por trinta dinheiros de prata. Será
flagelado e torturado, vão cuspir-Lhe na cara, as mãos e os
pés serão trespassados, e quando pedir de beber vão

213

oferecer-Lhe vinagre e fel. Será enterrado no túmulo de um


rico. Mas o Seu corpo escapará às leis da carne e o Seu
reino será universal.
"Eis o que dizem os profetas de Israel e o que esse homem me
leu nos livros. No fim da conversa disse-me: "Sei que Ele
nasceu e que vive na Galileia, de onde falará aos homens."
"Quando esta carta te chegar, estarei na Galileia. Parto
amanhã para o Sul de Itália de onde embarcarei para a
Palestina. Desculpa não poder cumprir a promessa de te
esperar em Roma, como escrevi, mas em breve vais ter
notícias minhas. Teu irmão em Deus, Teodoro."
Meu irmão em Deus. Esta fórmula inesperada abria-me diante
dos olhos as portas de uma nova visão do mundo. Nenhum laço
de sangue me unia a este Grego que encontrara algumas vezes
em Tomos e que reconhecia em mim traços comuns consigo, a
mesma sede de libertação que o consumia, que me contara a
sua vida e me tinha revelado o maior segredo de todos os
tempos. Tínhamo-nos tornado irmãos. De agora em diante, os
mesmos laços me uniam a Mucaporus, ao sacerdote dácio, a
Corina, a todos os que no mundo tinham esperança. Um escravo
e um bárbaro teriam podido tornar-se meus irmãos, pois
subitamente todas as fronteiras entre os homens tornavam-se
ridículas. Excepção feita para os Césares e para os que
matam. Hérimon, com o seu crime, ter-se-ia excluído desta
fraternidade? Ou o sofrimento, esse dom que os Césares
ignoram, teria resgatado a sua falta? E eu, conhecera o
sofrimento? O exílio e este diário constituem, a meus olhos,
as únicas provas da minha participação na salvação.

214

Meditei muito sobre a última carta de Teodoro. Segundo o que


compreendi, o sofrimento do Messias será a pedra base desse
reino de que falavam os profetas. Será flagelado, os pés e
as mãos trespassados - por armas, por lanças, por flechas ou
por pregos - cuspir-Lhe-ão na face... Portanto, os homens
não vão reconhecê-Lo como Filho de Deus, será condenado à
morte por um Herodes qualquer ou pelo enviado de César, e
morrerá, mas o Seu corpo escapará às leis da carne, não será
corrompido e o Seu reino após a morte, que não será uma
morte como as outras, irá estender-se por toda a Terra.
Imagino mal esta história, feita de fragmentos díspares, que
não é semelhante a qualquer outra história. A história do
Filho de Deus. Da Sua passagem por entre os homens. A Sua
servidão humana. O Seu perpétuo tormento entre o humano e o
divino. As palavras que Lhe trarão seguidores, mas que não
convencerão os representantes da ordem estabelecida, do
império e seus protectorados. O homem-Messias, vítima de
César e dos seus representantes que o considerarão como um
rival perigoso. A repetição do gesto de Herodes e dos seus
receios. Que dirá Ele aos homens? Em que língua lhes falará?
Em que locais? Quando?
Tudo o mais torna-se de repente de uma pequenez assustadora.
Sinto que uma só das minhas horas de hoje tem algo de
infinito perante todos os anos da minha vida passada. E toda
a minha obra, tudo o que escrevi e pensei, desfaz-se-me nos
dedos como uma estátua de cinza. Como seria capaz de
escrever de novo a Arte de Amar, depois de tê-Lo ouvido
falar? O amor que cantei não é o amor. Gostaria de ter
forças para cantar o meu amor por Dokia, pois não é o corpo
dela que desejo, mas outra coisa; qual-
215

quer coisa que sempre amei nela e que era como a previsão
deste momento. E as Metamorfoses, onde acumulei todos os
erros de um mundo a caminhar para a morte? Pensava que os
deuses tinham o poder de nos transformar em animais, em
plantas e em rochedos. Nada disso é possível agora. Porque o
verdadeiro Deus tomou a nossa forma, metamorfoseou-se em
homem, não para desfrutar os prazeres dos mortais, mas para
sofrer, para nos fazer compreender que somos semelhantes a
Ele, na dor. A matéria e os animais eram de certa forma
semelhantes aos outros deuses, aos falsos deuses do passado,
com todos os defeitos que, se forem ainda possíveis no
futuro, servirão para nos envergonhar e para definir melhor
faltas e crimes, face à perfeição que nos será pedida. E os
Fastos, onde cantei as glórias de Roma, a sua eternidade, em
breve só terão o valor de pobres prodígios, assinalando no
decorrer de um ano, a marca quase invisível de uma sombra
esgotada e solitária. Quanto aos Tristia e às Epístolas do
Ponto, que dor irrisória, que humilhação inútil diante de um
deus, cuja carne apodrecida não vale mais do que a de todos
os tiranos, mais ou menos iluminados! A história da
derrocada desta podridão engendrando nova podridão. As
minhas obras só sobreviverão na medida em que os homens do
futuro conservem, no meio do verdadeiro conhecimento que
lhes será concedido, o vício agradável e inútil da
curiosidade. No entanto, se alguém descobrir este diário,
poderá tomar parte nos tormentos e nas esperanças do tempo
único que vivemos: o tempo da espera e da certeza. Sei que
não é senão um momento, mas um dos mais belos da história
dos homens, porque Deus está entre nós e ainda não revelou a
Sua presença. O momento passará e ficar-nos-á a certeza.

216

Conversa com Dokia. Ela chama-Lhe "o filho de Zalmoxis".


Compreende tudo rapidamente, melhor do que eu. Conto-lhe o
que Teodoro tinha aprendido em Roma, nos livros proféticos e
falo-lhe do milagre do corpo imortal do Messias.
- "Com certeza - diz-me - porque Ele voltará para junto do
Pai."
É a maneira dela de interpretar a profecia dos livros
judeus, e que eu não conseguia exprimir em palavras. O
Messias, o homem, viverá entre nós o tempo de uma vida
humana, retomando em seguida a Sua eternidade junto do Pai.
É trágico e simples. Mas um espírito lógico é incapaz de
formular coisas tão claras. Ela tem dúvidas sobre a
inocência de Hérimon. "É um infeliz, deve sofrer muitíssimo,
porque o que fez não pode ser reparado e Lídia não
conseguirá fazer-lhe esquecer o crime. Pelo contrário, a
presença dela vai fazer-lhe lembrar, a cada instante, aquela
queda na escada. Ele que queria esquecer tudo no amor, vai
viver no tormento da recordação. E que recordação! É um
infeliz. Já tem nos olhos a marca da morte."
Eu também tinha visto. Hérimon tem uma única possibilidade
de apagar tudo no esquecimento, e é essa possibilidade que
traz reflectida no olhar. Faz-me pena. Fechou a loja e
retirou-se dos negócios, alegando querer chorar em paz a
morte da mulher. Aqui, além de Dokia, ninguém suspeita dele.
Na realidade, parece incapaz de se dedicar a qualquer coisa
que não seja o desespero, que confunde ainda com a esperança
de uma vida feliz junto de Lídia. Tenho a impressão de que
ela também o evita, pois a sua intuição de mulher não deve
deixá-la ter dúvidas, e passou a ter-lhe horror. As mãos de
Hérimon metem-lhe medo, sem

217

dúvida mais do que os olhos, pois as mãos ganharam o hábito


de dar a morte.
Honório já me tinha dado a má notícia, mas foi Metrodoro, o
meu amigo de Istria, que forneceu todos os pormenores.
Metrodoro está em Tomos há dois dias, em viagem para Atenas.
A guerra, essa guerra "entre os vossos e os nossos", entre
os Romanos e os Dácios, foi declarada há já algumas semanas
e os últimos combates não deixam dúvidas quanto ao
presumível vencedor. Os Getas atacaram Troesmis de surpresa,
a cidade caiu em poder deles, os Romanos e os Trácios
fugiram ou foram massacrados. Será que os meus amigos se
encontravam entre os atacantes? É bem possível. Mas a
vitória foi de curta duração. Pompónio Flaco, governador da
Mésia, cercou a cidade onde os Dácios se tinham fortificado
e reconquistou-a após dura e longa resistência. Os meus
amigos, Comozous, Escóris e os seus, se estavam ainda vivos,
devem ter tido de fugir atravessando o Danúbio e tomando de
novo a estrada que eu conhecia, rumo à protecção das
montanhas. O espírito de vingança não tardará a inflamá-los
de novo, e outros Dácios perecerão na batalha.
Na sequência da vitória, Roma acaba de criar um comando
militar para defesa de toda a região, compreendendo Tomos,
Istria, Troesmis, Novioduno e todas as cidades situadas
entre o Danúbio e o mar, que ficarão colocadas sob
jurisdição desta nova unidade. O comandante, respondendo
perante o governador da Mésia, terá o título de praefectus
orae maritimae ou de praeses laevi Ponti e será investido
como governador das margens do Ponto Euxino e da foz do

218

Danúbio. As regiões incluídas nesta jurisdição ficarão, como


anteriormente, sob controlo do rei dos Trácios. A armada
romana já está fundeada nas águas do Danúbio inferior. Agora
ninguém será capaz de nos impedir de prosseguir a conquista.
Basta que um novo Augusto ou um novo Júlio César se apodere
dos destinos de Roma, para as legiões franquearem o Danúbio
e transformarem a terra dos Dácios numa província romana,
atravessada por óptimas estradas, ligada à civilização, mas
privada de liberdade.
Metrodoro disse-me que milhares de Dácios pereceram nesta
guerra local, que não é mais do que um começo, que as
mulheres combateram ao lado dos maridos sobre os muros de
Troesmis, que os combates prosseguiram nas ruas e nas casas.
Mulheres deitaram-se às águas do Danúbio com os filhos ao
colo, para escapar à escravidão. Para esquecer a derrota,
segundo a fórmula de Hérimon.
Mucaporus deverá assim procurar um outro refúgio, pois as
legiões romanas vão estabelecer-se em Tomos e em Istria.
Terá de abandonar a sua cabana e a praia situada entre o mar
e a laguna, terá de construir um novo lar, para lá do
império, cujos limites os soldados alargaram de novo. Deverá
dirigir-se para norte, atravessar o Danúbio, caminhar em
direcção a outros horizontes, longe do mar dos romanos,
sempre mais longe. E esta fuga não terá tréguas, porque os
impérios não têm limites no espaço e, de agora em diante,
nenhuma clareira, nenhum pedaço de terra lavrada, nenhuma
cabana, poderão considerar-se seguros. E a liberdade não
será possível, até ao dia em que Ele decidir falar, para
ensinar aos homens o segredo de serem livres de uma outra
maneira, mesmo ameaçados pelos impérios, e sem terem de
experimentar de novo a terrível necessidade da fuga.
O império criou duas novas categorias de escravos. Uma, é a
dos estrangeiros vencidos, sem pátria nem inde-

219

pendência. Privados de uma situação, e muitas vezes de todos


os bens, estes homens erram no interior do império, fixam-se
em Roma em busca de nova fortuna, de novos horizontes,
desejosos de esquecer o que lhes foi arrancado, à força, das
almas e dos corpos: um passado digno e livre, e os seus bens
terrenos. Estes homens, que aparentemente aceitaram a nova
ordem estabelecida, e parecem querer habituar-se a ela, são
inimigos de Roma. Mais fortes e mais inteligentes do que os
escravos, aumentarão em número e em poder, com as
conquistas. A segunda categoria, é a dos estrangeiros que
não aceitam as consequências da derrota e partem para se
fixarem com os seus deuses do lar para lá dos limites do
perigo. Estes, os mais audaciosos entre os vencidos, tornam-
se amigos dos nossos inimigos. Virão um dia bater à porta de
Roma.
Metrodoro traz-me notícias de Istria. Gostaria de perguntar:
"E essa jovem escrava de Novioduno..." Mas não ouso. Falamos
disto e daquilo, como velhos amigos. É culto e tem maneiras
impecáveis, veste-se com muito cuidado e elegância, e tenho
verdadeiro prazer em voltar a vê-lo. Mas como me parecem
distantes os dias passados em Istria! E, claro, todos os
acontecimentos que com eles se relacionam. Metrodoro fala,
sorrio-lhe, mas penso noutra coisa e esforço-me por não me
trair. Por instantes, assaltam-me dúvidas: Quem é este, ao
certo? Que quer de mim? Que casa é esta? Que faço aqui?
Deveria encontrar-me noutro lado, mas onde?
Despedimo-nos efusivamente. Fecho a porta atrás dele e tenho
vontade de me deixar cair por terra, de que tudo acabe de
uma vez por todas. Para quê continuar esta comédia? Os
espectadores também estão fartos. Estou cada vez mais só em
cena, e acho que o papel que desempenho há tanto tempo não
me convém, não foi criado para mim. Sair

220

de cena para escapar a este papel, será a única oportunidade


que o destino ainda me oferece. Mas mesmo este momento não
depende de mim. Ser-me-á indicado, talvez num dia em que eu
nem tenha vontade disso, em que o papel talvez me estivesse
a agradar.
Dokia chama-me para a mesa. Olhá-la será suficiente para
recobrar a alegria.
Pensei muitas vezes no sacerdote dácio de que Teodoro
falava. A sua silhueta e o rosto confundem-se-me na memória
com os do sacerdote que vi e com quem falei na Clareira da
Macieira. Seria o mesmo? Com certeza que não, pois o Messias
nasceu há vinte anos e Teodoro falou-me de um velho. O que
eu conheci também era velho. Portanto, não é possível. Mas,
para mim, os dois são a mesma pessoa. Tinha ido a Belém,
guiado pela estrela, para prestar homenagem Àquele que viria
salvar os homens. Vinte anos depois, recebera-me em sua
casa, tinha-me restituído a paz à alma, sem muitas palavras,
mas que eram as da certeza adquirida ao olhar para a criança
que Teodoro viu no presépio. Não tinha, como os Magos,
visitado Herodes, porque a estrela lhe fora fiel até ao fim
e tinha chegado à gruta antes dos três Magos. Teria levado
alguma oferenda? Teodoro não o mencionara. O sacerdote vinha
de um país bárbaro e pobre, o país do meu exílio, que não
aceita os tiranos, e que atrai Romanos e Gregos sedentos de
liberdade. É um país que se encontra, posso dizer assim, no
centro do mundo. Os Romanos cobiçam as suas fronteiras há já
muito tempo, e preparam-se para a conquista. Do outro lado,
os bárbaros também o atacam desde há séculos, conseguem, por
vezes,

221

fixar-se, mas não resistem a este clima humano. Os mais


fortes perdem-se aqui, como um grande rio engolido pelas
areias; os mais fracos trocam-no por outros horizontes,
menos pacíficos, quero dizer, menos religiosos. Estou
convencido de que o mistério que este país esconde nos seus
homens e na harmonia das paisagens só pode ser explicado
através da religião, uma religião que tudo modelou, almas e
lugares, como a mão de um escultor. Zalmoxis foi um símbolo
passageiro, um precursor deste Deus cujo império será
universal e o seu combate com os homens durará milénios.
Quem poderá renunciar tão depressa a hábitos, preconceitos,
a deuses sanguinários e cómodos, parecidos connosco nos
defeitos que nos são mais caros, e em troca aceitar as dores
de um novo nascimento, ideia tão terrível quanto a da morte?
Ora, os fiéis de Zalmoxis são os únicos, entre todos os
povos, a não recear a morte. Estão pois preparados para o
novo nascimento, e serão talvez os primeiros a deixar-se
guiar pelas leis do Messias e a aceitar a Sua doutrina, sem
necessitarem de transformações essenciais. Outros aceitarão
também a lei, mas a transformação será difícil e demorará
séculos. No aspecto exterior, esses povos mudarão depressa,
mas no fundo dos corações permanecerá durante muito tempo a
lembrança da velha lei.
Assim sendo, porque é que Ele não nasceu aqui? A resposta é
simples: para que se cumpra o Seu destino. Os profetas falam
de sofrimento e de humilhação. Aqui ninguém O faria sofrer.
O povo inteiro, dos reis aos pastores, tê-Lo-ia seguido
imediatamente. Ninguém imaginaria cuspir-Lhe na cara, nem
trespassar-Lhe as mãos e os pés, e se tivesse pedido de
beber não Lhe teriam oferecido vinagre, mas leite e mel, e,
como não O matariam, não teria ressuscitado. Para poder
sofrer e manter-se fiel ao que estava escrito, foi nascer
noutro lado, onde O rejeitarão.
222

Não digo que os Dácios se ponham a caminho logo que saibam


da Sua vinda, para que a nova lei triunfe, porque isso
significaria uma outra guerra, desta vez travada em Seu
nome, e é evidente que a doutrina Dele negará a guerra e que
as guerras que os homens declararem em Seu nome não serão
mais do que pretextos para esconder a velha sede de poder,
de domínio e de sangue. Durante longos séculos, os Dácios
continuarão a vida tal como hoje é. Civilizados e bárbaros
passarão por estas terras e todos os vencedores serão
vencidos, pois a doçura antiga destes lugares germinará nas
suas almas, e, quando esta terra chegar aos limites da
humilhação, espezinhada por todos os guerreiros do mundo,
terá cumprido, enfim, a sua missão e todos os povos
partilharão a mensagem. O espaço onde vivem os Getas é
vasto. É um espaço onde cabem a esperança da morte e da vida
futura, e a força do Deus único. O passado e o futuro dos
Dácios formam um todo. Como não me aperceber disto, depois
de os ter conhecido de perto?
Nesta altura, recordo as palavras do sacerdote: "Ainda
saberás outras coisas, antes de morrer." Não as conhecerei
já? Faço parte dos vencedores vencidos. Augusto exilou-me
para me fazer sofrer, e eu sofri. Mas agora sei que Roma,
essa Roma que, quando começou o meu sofrimento, era o
objecto de todos os meus pensamentos, não se encontra no
local onde se cruzam todos os caminhos da Terra, mas noutro
sítio, no fim de outro caminho. E sei que Deus, também Ele,
nasceu no exílio.
Pensei muito em Roma, nos últimos dias. Mas sem nostalgia.
Está bom tempo. Está quente e a velhice gosta do

223

calor. Cheguei mesmo a dirigir os jogos da juventude de


Tomos, na qualidade de agonóteta, tal como Augusto em
Neápolis, pouco tempo antes da sua morte. Os gregos
respeitaram as sãs tradições da sua raça, por toda a parte
onde o destino os dispersou. Se cometeram erros no passado,
e se no presente não são mais do que um pálido reflexo do
que foram outrora, é preciso reconhecer que nunca caíram tão
baixo quanto nós. Muitas vezes imitaram-nos no mal, mas
nunca aceitaram as nossas crueldades, e os jogos de circo
nunca entraram na Grécia. Os deuses deles são quase tão
cruéis como os nossos, mas nunca fizeram do sangue e da
morte um espectáculo para multidões. Na minha juventude vi-
os, no meio das arenas, lançar o disco e o dardo, medindo
forças e habilidade, e desde então nada mudou. Enquanto
presidia aos jogos de Tomos, rodeado de homenagens e
admiração, recuperei o meu antigo entusiasmo, a minha
confiança de rapaz, a esperança na vida e no significado da
beleza humana. Coroei as jovens cabeças, redescobri a
alegria de viver nesses olhos virados para mim, purificados
por uma vitória sem mácula e comecei a imaginar Roma tal
como teria sido se nunca tivesse conhecido a vergonha dos
munem, do sangue derramado perante os olhos de César, dos
berros da multidão pedindo a morte do mais fraco; sonhei com
uma Roma ideal, feita à imagem de Eneias e não à dos deuses.
Na vida dos homens, como na dos povos, tudo tem um sentido,
todo o mal a sua justificação, e o seu castigo forma aquilo
a que chamamos história, mas não podemos impedir-nos de
pensar no outro sentido, impossível ou proibido, que nos
atribuiria destinos perfeitos e faria de Roma uma
eternidade. Roma, sem os jogos de circo e sem os
imperadores, teria conquistado o mundo de uma forma
completamente diferente e a pena de exílio nunca teria
existido.

224

Lembrei-me das profecias que ouvimos ao longo de toda a


nossa história, sobre a eternidade de Roma, procurando
descobrir nos sinais exteriores a alma desta cidade,
tentando exprimir o inexprimível. Já no tempo de Augusto se
tinha começado a duvidar das promessas iniciais. Sobre a
cidade que Rómulo acabara de fundar, tinham levantado voo
doze abutres, planando em doze círculos tranquilos e
majestosos. Cada um destes círculos anunciava um século de
vida, assim, no total, mil e duzentos anos de história
futura. Quando Octaviano recebeu o seu título e se tornou
Augusto, tinham passado mais de sete séculos, escoara-se já
mais de metade do tempo profetizado, o que queria dizer que
Roma não era eterna e que iria morrer um dia, como tudo o
que vive sobre a Terra. Alguns esforçaram-se então por
corrigir a profecia. A ideia foi de Munácio Planco, o mesmo
que sugeriu a Cleópatra, durante um banquete, a ideia de
beber numa taça, dissolvida em vinagre, uma pérola de um
preço fabuloso. Foi assim que ela ganhou a aposta feita com
António sobre a maneira de gastar num só banquete, a maior
quantia possível em dinheiro. Marco António confessou-se
vencido. Este Munácio Planco, era uma dessas personagens
secundárias, não desprovidas de imaginação, que se contentam
em inspirar aos grandes da História os seus gestos
definitivos, esses gestos que os escultores e os escritores
eternizarão em mármore e em versos. Sugeriu ao Senado a
ideia de conferir a Octaviano, o vencedor de Áccio, não o
nome de Rómulo, como se pensava fazer, mas um cognomen ainda
não usado, o de Augusto (27). Octaviano foi assim o novo
fundador. Roma concedia a si própria um prazo renovado. Após
a morte do imperador, começou a

(27) Augustus significa fundador de um novo laço sagrado.


Aplicado a Roma, queria dizer que a cidade fora fundada de
novo.

225

murmurar-se que doze abutres tinham sobrevoado a cidade no


dia do enterro de Augusto. O que confirmava a tradição,
criada por Planco, segundo a qual Octaviano, tornado
Augusto, seria um novo Rómulo. Um Rómulo muito mais
importante do que o primeiro. Eu próprio o afirmei nos
Fastos:
Tu conquistaste um qualquer cantinho na Terra: César possui
todo o espaço do céu.
Roma tornava-se, nos meus versos, não só eterna, mas
universal:
Gentibus est aliis tellus data limite certo: Romanae spatium
est urbis et orbis idem (28)

Com que alegria e orgulho foram repetidos em Roma estes


versos que, também eles, fundavam um império. Urbis et orbis
foram o presente que eu dei à cidade. Depois da sua segunda
fundação, Roma tornara-se o universo. Horácio, Tíbulo e
Propércio tinham escrito coisas semelhantes, podem também
ser considerados fundadores, enquanto Virgílio profetizava o
regresso à Idade do Ouro: "Redeunt Saturnia regna." O que
faltou fazermos para dar a Augusto e aos seus súbditos a
ilusão de eternidade? E eu, mais do que todos os outros.
Augusto e os seus poetas morreram. A Idade do Ouro teve uma
duração bem curta. E se os limites do império se alargam no
sentido que eu tinha indicado, urbis et orbis, os seus
limites no tempo tornam-se cada vez mais estreitos.

(28) Para as outras nações as fronteiras limitadas: O espaço


romano será a cidade e o mundo inteiro. (Fastos, II, 683),

226

Uma palavra será suficiente para fazer cair do céu, um após


outro, os doze abutres das duas lendas, tão pouco eternos
quanto os séculos podem sê-lo.
Não tenho a consciência tranquila. Que motivo me impele a
denegrir neste diário a minha própria pátria, eu que na
juventude cantei a sua glória? O sacerdote dácio deu-me de
presente uma paz provisória e parcial, e tenho bem
consciência disso depois da história que Teodoro contou,
porquanto, embora convencido da falsidade dos deuses antigos
e de tudo o que lhes diz respeito - a ideia de pátria
terrestre, de moral, de vida íntima, de vida futura -, não
sei que comportamento assumir perante o novo Deus. A
religião de Zalmoxis revela-se, também ela, como uma simples
etapa, uma espera, consciente e activa comparada com as
esperas extáticas das outras religiões, mas tão inquieta
como está hoje a minha alma.
Quis transcrever logo ontem à noite a cena inesperada, mas a
mão tremia-me e o coração batia descompassado. Ele veio
tarde. Eu estava sozinho em casa, ocupado a ler cartas
chegadas de Roma. Emagreceu muito nestes últimos tempos, os
olhos ficaram maiores, os traços do rosto descaíram, como os
de uma máscara trágica, exprimindo desespero, receio e
impotência perante o fogo do destino. Os olhos viam algo
para lá das coisas, obcecados por uma imagem que lhes
aparece por toda a parte, parecendo guiá-los na vida. Fez de
conta que não percebeu o meu gesto que o convidava a sentar-
se, e disse de chofre:
- És o único a conhecer o meu crime. Esse conhecimento
representa o que chamamos uma causa, de que a

227

minha infelicidade é o efeito. Suprimindo a causa, o efeito


desaparecerá. Lamento profundamente, mas sou obrigado a
matar-te.
Falava como um Grego. Outro, ter-me-ia morto, sem preâmbulo
nem justificação.
- Sabes que nunca falarei. Prometi-te.
- Isso não chega. A tua presença faz-me mal. Tenho medo de
ti, das tuas censuras, de pensar que és capaz de me
denunciar para ficares bem com a tua consciência. Essa
promessa não é mais do que uma palavra. Já não acredito em
palavras.
- Se se trata da tua felicidade ou da tua tranquilidade,
mata-me. Estou velho e sou teu amigo. Tens todos os
direitos. Muitas vezes servi-te de consolo. Porque não sê-lo
de novo, de uma vez por todas?
Continuava a olhar o vazio, mas a minha calma tinha-o
obviamente perturbado, pois não se mexeu.
"Que esperas?"
Uma onda de angústia passou-lhe no olhar. Enxugou o suor que
lhe banhava a fronte e pronunciou estas palavras que me
transtornaram profundamente, pois saíam de uma alma humana
atormentada, incerta, definitivamente votada à desgraça:
- Nem sei como fazer. Não sou um assassino. Ouves-me? Não
sou um assassino. O que queria matar em ti não é o homem que
és e a quem estimo como um irmão, mas sim os deuses que me
fazem sofrer. Tenho vontade de matar todos os que amo,
porque foram todos instrumentos do meu destino. Esse é que
se serviu de todos para me torturar, para me empurrar para
aquilo em que me tornei, para me obrigar a dizer-te o que
acabo de dizer. Suprimindo-vos, a ti e a Lídia, ficarei de
novo livre, pelo menos por um instante.

228

- Livre? Achas que a decisão de matar-me te pertence? Se


acreditas num destino todo-poderoso, deves ir até às últimas
consequências desse raciocínio. Matando-me, matando Lídia,
serás mais escravo ainda, porque nenhum desses gestos é
ditado pela tua consciência. Não sou eu o instrumento do teu
destino, és tu próprio. Só sentirás remorsos, e nunca mais
terás um instante de liberdade. O destino não dá tréguas.
Olhou-me inquieto.
- Os deuses são maus, não é?
- Não são bons nem maus. Não existem. Hérimon sorriu.
- Isso não me consola. Gostas de jogos de palavras, mas
agora é um jogo que já não me diverte. Diz-me outra coisa,
não importa o quê, mas não tentes brincar comigo. Preferia
uma verdade, mesmo que me fizesse tremer de medo e de raiva.
- Ouve bem o que te vou dizer. O verdadeiro Deus nasceu, há
alguns anos, numa aldeia da Judeia. Veio para o meio de nós,
falar da morte, dos deuses e dos homens.
- Dos homens? Ha, ha, ha, e os homens são tão mortais como
os deuses? Que história estúpida me estás a contar?
- Não mais existirão homens, ou seja, instrumentos do
destino, tão subjugados e tão ferozes como os animais
selvagens. De ora em diante, só existirão almas e cada uma
poderá decidir o seu próprio destino. E Deus julgará cada
alma, e irá talvez perdoar àqueles que praticaram o mal sem
o quererem e que se arrependeram depois. Tu também,
provavelmente serás perdoado. Não te consideres um
instrumento do destino. O mal vem do fundo de ti próprio.
- Não. Seria horrível de mais. Prefiro os meus deuses, as
suas cadeias e essa semelhança com as feras. O vosso Deus
229

é excessivamente complexo e incómodo. Ninguém quererá


aceitá-lo porque vem complicar terrivelmente as coisas.
Torna-nos responsáveis. Não aceito responsabilidade. Prefiro
ser o joguete dos meus deuses, porque a liberdade faz de mim
culpado.
Tentou rir, sem conseguir. Os seus traços recusavam qualquer
alívio. Apercebi-me então da difícil tarefa que aguarda o
Salvador, pois os homens, se não me engano, são todos da
têmpera de Hérimon. A fé antiga é muito mais cómoda. A nova
vai amedrontá-los e transformar cada um deles num Prometeu,
livre na escolha dos seus actos, e directamente responsável
perante Deus. Serão necessários milhares de anos para nos
habituarmos a esta forma de liberdade. E muito sangue
correrá, a começar pelo meu. Esperava o gesto de Hérimon, a
morte que me prometera. Fizera-se dentro de mim um grande
silêncio e estava a gostar deste medo, como se fosse
adormecer num sono calmo junto de uma fera selvagem que se
tornara inofensiva. Olhou-me com uns olhos que já não eram
os do meu amigo. Tenho a certeza de que nem me via.
Aproximou-se. Nem me mexi. A sentinela, do alto da muralha,
gritou as horas.
- Vou matar-te. Vou matar-te, repetiu. Tirou um punhal,
escondido nas pregas da toga, olhou para ele, como se o
objecto não tivesse nada a ver com o que acabara de dizer,
virou-me lentamente as costas, dirigiu-se para a porta e
perdeu-se na noite. Só então compreendi o sentido deste
diálogo, ou melhor, deste monólogo. Hérimon nem me tinha
visto durante todo o tempo, e não era comigo que tinha
falado e respondido. Falara e respondera a si mesmo. E não
era a mim que tinha vindo matar.

230

Passaram-se alguns dias. Fui procurá-lo por duas vezes, mas


a taberna e a casa estavam fechadas, silenciosas, como se
tivessem sido abandonadas há muito tempo. Esta tarde, Lídia
veio ter comigo. Hérimon tinha desaparecido havia já alguns
dias. Saí com ela. Mas as nossas buscas foram vãs. Ninguém o
tinha visto. Por fim, no regresso, já ao cair da noite,
encontrámos Honório que vinha do porto. Uns pescadores
tinham encontrado o cadáver do nosso pobre amigo, inchado
pela água. Dizia-se que tinha caído ao mar do alto do molhe,
perto do farol, e que a embriaguez tinha sido a causa do
acidente. Dedução lógica, digna da vida de um simples
taberneiro. Eu sabia, e Lídia sabia também, que esta morte
não fora provocada por embriaguez nenhuma e que Hérimon não
tinha sido um simples taberneiro. Morrera de falta de
esperança, era tudo, vítima de uma ilusão que não tinha
querido tomar forma. Acreditara no amor, mas tivera de
escolher a morte para poder esquecer, como tão ardentemente
desejara durante os últimos anos. Este fim não será
simbólico? Fala, possivelmente, em nome de toda a Humanidade
com um coração que bate e cujos desejos vão além da
possibilidade de serem satisfeitos. Torturada por apetites
sem nome e sem rosto, procura desesperadamente o calmante
miraculoso e inédito, e, não o encontrando, recorre à velha
consolação, a morte. Que tristeza! O ar vibra de
expectativa.
As autoridades da cidade arrombaram a porta do
estabelecimento de Hérimon. Eu estava presente nessa cena

231

violenta. Bem à vista, em cima de uma mesa da taberna,


encontraram o testamento do taberneiro. Legava a Lídia todos
os seus bens, exceptuadas dez ânforas de vinho de Quios,
destinadas, dizia ele, a consolar-me do exílio em Tomos.
Implorava também o meu silêncio e, talvez, o perdão.
Desde esta manhã a taberna está de novo aberta aos
bebedores. Lídia tomou o lugar de Hérimon, a cara dela
assumiu uma expressão autoritária e severa e os olhos
perderam aquela falsa inocência tão atraente, dada pela
forma simples como participava na vida. Sabe desembaraçar-se
no novo papel, como se Hérimon a tivesse iniciado em todos
os segredos do ofício. É possível que tenha herdado o
carácter de Hérimon, mais do que o dinheiro e a taberna.
Como o destino das mulheres é simples e luminoso! Habitam
regiões situadas para além do destino atormentado dos
homens, como deuses que nos fazem viver ou morrer segundo os
caprichos do momento. Penso em Fábia, que de longe mal
imagina o meu exílio, que se habituou há muito à sua
respeitável condição de mulher do condenado, e que viveu
esta tragédia pelas minhas cartas. Durante anos acreditei
que tudo dependia dela, da sua habilidade, das suas
relações, acostumado como estou a conceber a vida através da
boa ou má vontade de uma mulher. A velhice faz-me esquecer
cada vez mais os princípios da Arte de Amar. E ensina-me o
uso de certas liberdades. Também penso em Lívia, que
sobreviveu a Augusto e que foi verdadeiramente a senhora do
império, a sua verdadeira fundadora. Augusto empunhava um
ceptro, mas quem se servia e serve ainda dele era Augusta.
232

Hoje chegou-me uma carta inesperada. Uma carta de Ártemis, a


cortesã que amava os deuses. "Estas linhas irão certamente
surpreender-te, meu velho e caro amigo. Chegam-te da parte
de uma mulher que se julgava feliz, rodeada de amor e de
calma, de riquezas e de consideração, e que no fundo não é
mais feliz do que era em Tomos. Parece-te possível? Ou
razoável? És o único homem que compreendi e, na minha longa
vida sem amor, o único que amei. Como explicar-te? Não tenho
o hábito de escrever e não queria ofender-te. Penso muitas
vezes em ti. És também o único homem que nunca me magoou,
nem com uma palavra, nem com um gesto. Gostava de ouvir-te e
- lembras-te? - enquanto te aquecia os pés gelados durante o
teu primeiro Inverno em Tomos, encostava o ouvido ao teu
peito e gostava de acreditar que as palavras vinham do
coração, como se fossem os sons de um sino que só eu tivesse
o dom de entender. Sabias também ouvir-me, e as coisas
estúpidas que contava nunca te aborreciam. Em todo o caso,
fingias interessar-te pelos meus discursos e eu ficava-te
grata, pois precisava de uma alma para me escutar e nunca
ninguém quis fazê-lo, ou então riam-se de mim e das minhas
fantasias. Alguém me chamou um dia uma Safo às avessas, ou
seja, uma Safo capaz de fazer amor com homens, mas incapaz
de escrever poemas. Alguma vez sentiste o amor que tinha por
ti, e que tinha vergonha de confessar? Eras um exilado no
meio dos homens, como eu o era no meio das mulheres. Sonhava
com os deuses e os seus amores, mas esperava outra coisa.
Também sonhaste com os deuses, consagraste-lhes a vida e o
talento, mas o exílio tinha-te feito o dom de uma luz nova,
e descobriste-te no fundo da solidão e do sofrimento. Quando
ficava só, depois de saíres de

233

minha casa ou eu da tua, continuava a ouvir-te. A tua voz


falava-me em sonhos, e acordava de noite, ainda a sentir a
tua presença. Dei-te em troca tudo o que podia dar para te
tornar a solidão mais suportável, o exílio menos triste e a
cama menos fria. Dei-te muito pouco, sei-o, porque ocupavas
a minha vida e eu só ocupava um lugarzinho na tua existência
povoada de imperadores, de deuses, de mulheres e de poesia.
No entanto, sentia que se tinham criado entre nós laços de
intimidade, para lá das aparências, e que os sentimentos que
tinha por ti não caíam no vazio. Amaste-me, sem dares por
isso, com um amor que procurava em mim a imagem de uma
impossível perfeição. Da mesma forma, via em ti a imagem de
um deus, quero dizer, a própria imagem da perfeição que
procuravas em mim. Parecíamo-nos, e daí vinham o nosso amor
e o nosso entendimento. Terei o direito de pronunciar estas
palavras? Em Tomos não teria tido esta coragem. Mas agora
sei que o mundo irá mudar, que está a mudar, que tudo o que
considerávamos verdade será mentira, e que muitas das
mentiras, que hoje metem medo aos homens, serão outros
tantos motivos de alegria. Porque Deus, o verdadeiro e
único, de que falavam os Getas, nasceu entre nós. Ouviste
falar disso? Os sacerdotes tremem e os feiticeiros escondem-
se. Ninguém ousa mostrar contentamento, porque se esperam
milagres e Ele ainda não se manifestou. Dizem que estará na
Judeia. De momento, os únicos que rejubilam são os que
sofrem e os que sonham. Os outros ignoram-No, hão-de ignorá-
Lo sempre, mesmo após a Sua vinda. Dou-te esta notícia
porque sei que te dará prazer. Não sei dizer mais nada.
Dizem que se chamará Messias ou o Salvador, que julgará os
homens e que o Seu reino não terá fim. Os que falam nisto, e
que são pouco numerosos, porque os outros não se interessam
por estas coisas, ocupados como estão

234

com dinheiro e ambições, dizem que Deus, segundo os antigos


livros dos hebreus, deixar-Se-á matar pelos homens, e
sofrerá como um condenado. Acreditas que é possível? Não
consigo compreender certas coisas. Achas que seremos sempre
os mais fortes, com os nossos defeitos, as nossas
crueldades, os nossos prazeres e o nosso ódio por tudo o que
nos ultrapassa? Então pergunto-te, para quem veio Ele?
Espero uma longa carta tua."
Assim, a nova difundira-se um pouco por toda a parte e
Ártemis contava-se entre os que se alegravam com a Sua
vinda.
Não tenho notícias de Teodoro.
Ártemis tem razão. Parecemo-nos. E amei-a, essa Safo às
avessas. Ensinou-me a aceitar coisas que detestava sem
saber. Foi a minha primeira raiz neste solo que me parecia
inabordável e hostil. Escrevi-lhe uma longa carta, contando
o que Teodoro me dissera.
O tempo passa tão depressa que já nem consigo apreender o
sentido e o aspecto das estações. Tudo o que não acontece
dentro de mim, mas no meio dos homens, na natureza ou na
cidade parece-me uma sombra distante, sem relação com a
minha vida.
235

SÉTIMO ANO

Viver ou morrer entre os Getas. Há anos atrás esta ideia


enchia-me de horror. Antevia a minha alma errando nestas
paragens, fazendo companhia à de Medeia. Hoje sei que as
nossas almas têm uma sorte diferente, não reproduzem o
itinerário dos nossos corpos. Como tudo isto é vago e pouco
seguro! Teodoro deixou de me escrever. Provavelmente, morreu
antes de atingir o seu objectivo, destruído pela bebida,
algures numa taberna de um porto oriental, em Alexandria ou
noutro lado qualquer. Foi o homem mais feliz e mais
decepcionado de todos os tempos. É possível pensar-se que
Deus não o tenha querido a Seu lado? Então, porque é que o
guiou até ao seu presépio? Que sentido teve esta tragédia? O
tempo de Deus ainda não chegou. É tudo o que posso dizer.
O que devia acontecer aconteceu por fim. Esta separação foi
tão triste como a minha partida de Roma, há sete anos.
Porquê escondê-lo? Não há consolo possível, nenhum
pensamento e nenhuma recordação conseguem impedir as

237

minhas lágrimas e o meu desgosto. Julgava que o sacerdote


dácio tinha encontrado a forma de me desembaraçar de todas
as futilidades e que a revelação de Teodoro, que completava
a viagem ao país dos Dácios e confirmava todas as minhas
esperanças, tinha cortado em mim todas as raízes
sentimentais e me separara para sempre das fraquezas.
Encontrara o equilíbrio interior, e convencera-me de que a
paz, doravante dependia unicamente da minha própria vontade,
tornando-me assim senhor absoluto da minha alegria. Mas a
alegria vinha do exterior, eis o que a partida de Dokia
acaba de me revelar.
Aqui torna-se necessária uma explicação.
Honório é o marido de Dokia, e a pequena Dokia é o fruto
legítimo dos seus amores. Um sacerdote dácio uniu este par,
segundo a lei de Zalmoxis. Trata-se, portanto, de mais uma
"traição". Honório é um Dácio, tornou-se um deles no momento
em que, abjurando a fé romana, casou com uma mulher geta,
contrariando os regulamentos militares. Eis a chave do
segredo que nunca consegui penetrar. Honório deixava crescer
a barba e ao mesmo tempo evitava ver-me. Simpatizava comigo,
mas não se aproximava, com medo de se deixar deslizar para o
caminho das confissões. Eu escrevia demasiadas cartas para
Roma e poderia denunciá-lo, por pura negligência, quando
dava aos meus amigos notícias de Tomos. Protegia-me de longe
e não se opunha às minhas viagens. Tinha posto Dokia ao meu
serviço para melhor me vigiar, para conhecer os meus
pensamentos mais íntimos; rapidamente ficara ao par da minha
atitude em relação a Augusto e ao império, mas nunca abusou
disso para informar Roma, pois depressa viu em mim um
aliado, quase um correligionário. Quis, contudo, permanecer
fiel à sua missão e ao uniforme que usava, e nunca me
revelou o grande

238

segredo da sua vida. Fê-lo no momento em que, chamado a


Roma, decidiu juntar-se à família da mulher, Sédida e os
seus, do outro lado do Danúbio. O seu substituto virá para
Tomos acompanhado de uma centúria de legionários e de
especialistas da marinha de guerra, que vêm estabelecer
nestas águas uma das bases de reabastecimento das nossas
frotas.
Honório e Dokia evitaram por isso a viagem de barco. Pegaram
na criança, no velho Dizzace e em todos os bens que tinham,
carregaram uma carroça puxada por dois cavalos parecida com
a de Comozous, e atravessaram a Cítia menor em direcção ao
Danúbio que tencionam atravessar em frente de Carsium, onde
Comozous já o espera.
Partiram durante a noite. Eu já conhecia as intenções deles
havia dois dias e nada fiz para impedir a sua fuga. Dokia
devia seguir o marido, que a partir de agora tem a vida em
perigo onde quer que se encontrem Romanos. Chorámos todos na
hora da separação, mesmo Honório que deu livre curso aos
sentimentos que sempre tivera por mim. Vi-o pela primeira
vez com a filha ao colo, como se acabassem de se reencontrar
após uma longa separação. O espaço que os separara durante
estes anos, era eu. Dokia abandonara o ar reservado e
aparecia-me agora sob o aspecto de esposa, que escondera
durante tanto tempo. Parecia uma matrona romana, e Honório,
por sua vez, livre de tudo o que o reprimia, parecia um
verdadeiro Dácio. Tinham transmitido um ao outro o melhor
deles próprios, bem como os seus gestos mais belos. A
pequena Dokia parece-se com eles, mas, ao mesmo tempo,
representa um ser novo, uma nova forma humana, a imagem
perfeita de uma nova raça que reunirá talvez o que há de
melhor nos Dácios e nos Romanos. Uma raça do futuro, amada
por Deus.

239
Honório tinha renunciado à farda militar e, na noite da
partida, vestira-se de Dácio. Tomámos a última refeição
juntos, na casa de Dokia, de onde partiram para não serem
obrigados a atravessar a cidade que fica fechada de noite, e
também para evitar serem vistos. Passei a noite sozinho na
casa de Dokia, vazia e fria, cheia ainda do som das suas
vozes, o ar ainda agitado pelas suas presenças invisíveis.
Cerca da meia-noite, torturado pelos fantasmas destes vivos
que acabara de apertar nos braços, saí e fui passear ao
longo da praia, à luz da lua. As ondas quebravam na areia
com um ruído quase imperceptível, tal era a calma do mar.
Quantos factos importantes da minha vida tiveram lugar neste
sítio: aqui, Dokia velara um dia pelo meu sono, deixando-me
adivinhar assim a sua simpatia; aqui tinha visto partir a
galera que deveria ter-me levado para as terras dos Partos,
no dia em que quis escapar a Augusto; fora ali que o meu
"Augusto" encontrara a morte, com os olhos furados pela
águia e que a pequena Dokia tinha manifestado a sua força e
coragem, e foi nesta praia que Teodoro me contou a sua
estranha aventura, trazendo-me a boa nova. Já não pensava em
Medeia. Estas paragens tinham perdido todo o aspecto
selvagem e pouco hospitaleiro. Os anos tinham-nas amansado.
Faziam agora parte da minha vida e a realidade separara-as
do mito e de todas as sombras nefastas.
Estrelas cadentes tombavam sobre o mar, porque estamos em
Agosto, o mês em que o Céu fala à Terra através destes
longos sinais indecifráveis. Este céu imenso é-me hoje mais
familiar do que o de Roma. A Ursa Maior, sobre a casa de
Dokia, já não é um símbolo de exílio, mas o de uma nova
pátria, a pátria da minha velhice. A minha última pátria
provisória.

240

O centurião Valério mandou-me comparecer hoje no Palácio do


Governo de Tomos, local que ocupa desde a sua chegada aqui e
que fica mesmo em frente do Ginásio. Levantou-se para me
receber, mas o olhar frio que lançou fez-me compreender
imediatamente qual será a atitude que vai ter de agora em
diante, em relação a mim. Também surpreendi nos seus olhos
uma espécie de indiferença que é a marca dos mortais
vocacionados para a política, e que faz deles inimigos dos
homens. Dignou-se perguntar pela minha saúde, saber se
estaria em seu poder tornar-me a vida mais agradável. Entre
nós instalou-se desde o início uma onda de antipatia.
Falávamos a mesma língua, vínhamos de Roma, corria-nos nas
veias o mesmo sangue, mas, apesar do esforço que ambos
fizemos para dissimulá-la, a primeira impressão de
hostilidade recíproca não se apagou nem por um instante das
nossas caras.
- Tinhas boas relações com o meu predecessor - disse-me por
fim, excluindo desde logo as delicadezas.
- Estás bem informado.
- Teria sido tua obrigação prevenir Roma das suas intenções
de fuga.
- Não sabia que um exilado tinha o dever de se transformar
em informador do exército.
- Esse silêncio poderia ser interpretado como cumplicidade.
Para mais, a mulher que o acompanha estava ao teu serviço.
Mantinhas relações com ambos. Nunca te revelaram as suas
intenções?
- Não. De resto, ignorava a relação que havia entre eles.
Esta fuga conjunta surpreendeu-me tanto quanto a ti.
- Qual é a tua opinião sobre o assunto?
- Não percebo o sentido dessa pergunta.

241

- Aprovas a fuga dos teus amigos?


- É uma história que não me diz respeito. Eu próprio, como
podes verificar, ainda aqui estou. Não posso permitir-me
julgar os outros, sobretudo quando são meus amigos. Se me
chamaste para acrescentar o meu testemunho ao processo que
estás a reunir contra Honório, calculaste mal, centurião.
Não estou disposto a contar-te mentiras. Que queres, ao fim
e ao cabo? Provas contra Honório? A fuga não é suficiente?
Trata-se de uma traição. Sublinha a palavra e toma as
medidas que as leis militares indicam para casos
semelhantes.
Olhou-me surpreendido. Tinham passado sete anos sobre a
minha partida. Entretanto, os soldados tinham-se tornado
polícias. Este centurião, enviado pelo imperador para Tomos,
não conseguia compreender a minha atitude. Tinha contado com
o meu testemunho para fazer do relatório sobre Honório uma
obra-prima, abrilhantada com um toque literário. A minha
resistência magoava-o. Enervou-se.
- Temos de ser compreensivos quando queremos recuperar a
liberdade. A tua colaboração neste assunto poderia vir a
ser-te útil.
- Que queres saber?
- Onde é que Honório se encontra neste momento.
- Repito: Honório não me pôs ao corrente da sua fuga. Mas,
se quiseres, posso colaborar contigo no sentido que acabas
de me indicar. Honório, provavelmente, está muito longe
daqui. Por certo atravessou o Danúbio e mesmo as montanhas.
É lógico pensar que tentou pôr a maior distância possível
entre ti e ele.
- Então obstinas-te em guardar segredo.
- Acabo de te provar o contrário. Não tenho outros segredos
a contar-te.

242

- Tenho poderes para te impedir de sair de casa.


- Assim poupas-me um segundo passeio até aqui. Estou velho e
cansado. És muito mais novo do que eu. Se me quiseres ver,
digna-te a visitar-me. Que novidades há de Roma?
- Más, muito más para ti. A tua pergunta poupa-me a
condolências inúteis. O motivo porque foste exilado
subsiste. Fizeste-nos muito mal, e continuas a ser
considerado um corruptor da juventude.
- Então continuam a ler-me? Ignorava.
- Não há de que te orgulhares. O império precisa de
soldados, não de poetas.
- Se fosses tu a julgar-me, terias sido mais severo do que
Augusto?
- Sem dúvida. E ainda posso sê-lo. (Fez uma pausa e olhou
para a janela, evitando os meus olhos.) Na medida, bem
entendido, em que mantiveres as antigas posições.
- Na minha idade, não posso tornar-me um soldado. (Levantei-
me.) Daqui em diante deverei considerar-me limitado à área
da minha casa?
- Em breve receberás instruções minhas. Mas não podes
abandonar Tomos sem uma licença especial.
Também se levantou. "Tudo depende de ti, não esqueças."
- Não tenho nada a acrescentar, centurião. Se gostas de
poesia terei o maior prazer em receber-te em minha casa.
Podemos passar excelentes serões a ler os meus versos.
- Só leio a prosa dos meus superiores. Odeio este homem.
Começa um novo exílio.

243

Excepto Lídia, todos os meus antigos amigos abandonaram


Tomos. Desta vez, é o fim. Estou sozinho no meio de um mundo
novo, rodeado de desconhecidos, desde a velha que cuida da
casa em substituição de Dokia e que só me dirige a palavra
para perguntar "O quê?", até Valério e os seus legionários
que se agitam nas ruas e no porto. Encontro-me no mesmo
ponto em que me encontrava há sete anos, no momento em que
desembarquei aqui, salvo que, entretanto, as forças
abandonaram-me e não tenho vontade de recomeçar. Já nem
sequer trabalho. Também não escrevo cartas, pois toda a
correspondência passa pelas mãos de Valério, e ele teria o
maior prazer em devolver-ma ou em chamar a atenção dos
superiores para o conteúdo subversivo e imoral das cartas.
Poderia dizer-me: "Os impérios constroem-se com homens de
guerra e não com desertores como Honório." E teria toda a
razão. E eu teria respondido: "É certo, mas eu não gosto de
impérios." Surpreendo-me a dialogar com ele, zango-me, mudo
de assunto, mas ele volta a surgir no meio de outros
pensamentos e o nosso combate continua, encarniçadamente.
Esmago-o com argumentos e injúrias, mas não desaparece da
minha imaginação. Tornou-se o inimigo e sonho com ele. Por
vezes, invoco a ajuda de "Augusto", o meu cão fiel.
No fundo, o que me disse devia servir-me de consolo: em Roma
continuam a ler-me e continuo a ser a causa máxima da
decadência, da corrupção, a causa das batalhas perdidas. O
império está em tão mau estado como na altura em que Augusto
descobria nos meus livros o lixo que minava a sua criação.
Júpiter necessitava de uma medida humana para compreender a
sua obra. Ele morreu. E eu ainda aqui estou. Que satisfação!

244

Uma tarde desci até ao mar. O crepúsculo extinguia-se, como


um archote vermelho que uma mão situada por baixo dos homens
fosse mergulhando lentamente nas águas. A pequena praia
estava deserta. Escondidos nos ramos ainda havia alguns
figos, que fui colhendo enquanto descia. A areia húmida e
fria não convidava ao repouso. Aproximei-me do mar. O vento
misturado com chuviscos batia-me na cara. As ondas da maré a
subir molhavam-me as sandálias e, ao retirar-se, enterravam-
me na areia húmida. Gritei ao vento: "Corina! Corina!" O
desejo e a nostalgia juntos lançavam-me numa espécie de
excesso de felicidade e as lágrimas escorriam-me pela cara.
O Outono fizera quase todos os Romanos abandonar a Planasia;
eu era o último estrangeiro na ilha e gostava de prolongar a
alegria do regresso. Nesse tempo escrevia muito. A distância
ainda não se tinha transformado em dor.
Esta tarde, no molhe de Tomos, revivi essa cena da minha
juventude. As vagas quebravam-se furiosamente a meus pés. O
mesmo chuvisco salgado molhava-me a cara, mas as lágrimas
não vieram. Já não tenho lágrimas. Desaparecem no fundo de
nós, tal como a alegria, submersas pela velhice. Apetecia-me
gritar um nome, lançá-lo ao vento como outrora, mas sabia
que, doravante, qualquer apelo era inútil e que ninguém me
responderia do outro lado do mar. O mesmo Outono avermelhava
o céu, amadurecia os frutos, trazia tempestades e frio; no
mundo só mudara esta silhueta humana que vivera sabe-se lá
porquê. A única esperança escondia-se para além da solidão,
no reino do imutável. Chamei a morte.
No regresso, parei em casa de Lídia. Estava já escuro. Antes
de entrar na taberna olhei pela porta para o interior

245

iluminado. Lídia estava sentada a uma mesa, bela e ricamente


vestida, os dedos reluzindo com falsas pedrarias, azuis,
verdes, encarnadas, os cabelos entrançados com fitas de seda
multicor, os ombros nus. Em frente dela estava Valério.
Pareciam entretidos numa conversa muito íntima, olhos nos
olhos. Ela ria. O centurião pegou-lhe nas mãos por cima da
mesa, ela fez de conta que não dava por isso. Segui o meu
caminho.
Veio ter comigo no dia seguinte. Devo confessar desde já,
que estava à espera desta visita. Pediu-me notícias de
Dokia. Eu infelizmente não tinha.
- Perdeste todo o contacto com ela?
- Completamente.
- Mas vocês eram bons amigos. Mais do que bons amigos.
Desconfiei dos dois durante muito tempo. Muitas vezes ela
passava aqui a noite e eu tinha ciúmes. Impedia-me de estar
mais vezes contigo.
- Hérimon não te teria deixado. Esqueceste-o depressa, ao
pobre Hérimon. E ele portou-se bem contigo. Pensas voltar a
casar em breve?
- Oh, não, estou melhor assim.
- As ocasiões não te faltam.
- Tenho tudo o que quero. Para quê um marido?
- Vais aborrecer-te com essa felicidade toda à tua volta, e
tenho a certeza de que em breve irás procurar novas
sensações seja onde for.
- Por exemplo.
- Suponhamos que a política tem os seus atractivos.
- A Lívia de Tomos?

246

- É uma comparação justa. Darias uma boa colaboradora para


um Augusto em busca de império. E podias começar por Tomos.
Adivinhei?
Ainda sabe corar, mas fê-lo sem emoção. Passou-lhe nos belos
olhos um lampejo de maldade. Senti que, nesse momento,
deixara de me pertencer, tinha dado a alma a outro.
Continuei:
"A política é uma arte difícil. Tem o dom de desfear as
mulheres, obrigando-as a cometer más acções, a trair velhos
amigos, a servir senhores impiedosos. E isso deixa marcas na
cara."
Assim, ela era a primeira arma que Valério decidira usar
contra mim. Felizmente estava prevenido, senão teria sido
tarefa fácil. Lídia fez o possível para dar ao nosso
encontro o tom de outros tempos, mas o encanto rompera-se
para sempre, pois ela percebera a minha alusão. A sua
partida deixou um grande vazio na casa.
Eis a pergunta que me fiz outro dia: No tempo em que
escrevia a obra principal da minha vida, nunca pressenti que
as horas de hoje estavam para vir? Quero dizer, tanto as
minhas próprias horas como as de toda a Humanidade? Tive
alguma revelação? Deus fala aos profetas, mas os poetas
também são profetas, são o traço de união entre a beleza e
os homens, e se a beleza é Deus, os poetas deviam ser os
arautos da existência de um Deus verdadeiro. E acabei por
encontrar, no livro XV das Metamorfoses estes espantosos
versos (quem fala nos versos é Pitágoras):
"Uma vez que um deus me mandou falar, obedecerei
religiosamente ao deus que dita as minhas palavras; gritarei

247

à luz do dia os segredos desse Delfos que está em mim, os


próprios segredos do céu, e desvendarei os oráculos da
augusta sabedoria. Proclamarei os grandes mistérios que,
antes de nós, o génio de homem nenhum foi capaz de penetrar,
e que ficaram escondidos por longo tempo. Quero lançar-me no
céu, no meio dos astros; quero, abandonando a morada que é
esta Terra entorpecida, ir pousar, transportado por uma
nuvem, nos ombros robustos de Atlas e daí olhar para os
homens, bem longe, a meus pés, errando à aventura sem que a
razão os guie e os fortifique contra o terror e o medo da
morte, e desenrolar antes os olhos deles os destinos que
seguirão.
"Ó raça paralisada pelo terror que inspira o receio da fria
morte! Porquê temer o Estige, as trevas, as palavras vazias
de sentido, simples matéria para uso de poetas, e os perigos
de um mundo inexistente? Dizeis, e bem, que os corpos, quer
tenham sido destruídos pelas chamas das fogueiras, quer pela
longa decomposição, não poderão sofrer mais nenhum dano. As
almas, essas, são subtraídas à morte, e sempre que tiverem
deixado uma morada, outra morada nova as acolherá, onde
habitarão e viverão."
Assim, a alma é poupada à morte. E eu sabia. Como terei
sabido? Quem mo teria dito, pois nesses versos Pitágoras sou
eu? Um eu que se escondia atrás da minha existência
quotidiana e que aparecia de tempos a tempos para escrever
sobre o deus que me faz falar e sobre a imortalidade. A
minha obra toda não foi senão o reflexo dos tempos antigos,
da velhice do mundo, desde a Medeia até às Metamorfoses,
desde a Arte de Amar até aos Fastos. Cantei o corpo, o
prazer, o terror, os deuses, todas essas pequenas realidades
que hoje se desfazem em pó perante o peso do Deus único, que
os Dácios e os Hebreus tinham conhecido e adorado. A minha
ideia de imortalidade era a seguinte:

248

"E nada morre, acreditem-me, neste vasto universo, tudo toma


formas novas e variadas. O que chamamos nascimento é o
começo de alguma coisa diferente do estado anterior, e a
morte, o fim desse mesmo estado. Uma parte pode ser
transportada para certo local, outra parte para outro local,
e a soma das partes continua a ser uma constante."
A metamorfose era assim o segredo através do qual eu
explicava a eternidade da alma, segundo o ensinamento de
Pitágoras. Não podia conceber a imortalidade pura, imutável,
para lá da vida dos corpos. Em vez de planar "entre os
astros", andava muito mais abaixo, por entre as opiniões dos
meus contemporâneos e predecessores. Profetizava em sentido
contrário.
Esta conclusão decepcionou-me. Decidi, portanto, continuar
as minhas investigações e a persistência foi recompensada,
porque encontrei, no livro XIV, a história da ave Fénix, a
que, de cinco em cinco anos renasce das próprias cinzas. Não
se trata de uma verdadeira e própria metamorfose, nem uma
metempsicose, pois a ave permanece sempre ela própria na
eternidade, sem nunca morrer, sem se tornar noutra coisa
diferente. Não será o símbolo da alma humana e,
simultaneamente, do homem novo que se prepara para renascer
das cinzas do nosso século? Só espera pela palavra de Deus
para levantar voo. Se Hérimon aqui estivesse, ou Honório, ou
ao menos Dokia, para eu poder falar de todas estas coisas!
Partiram todos, cada um cumpriu o seu destino, na vida ou na
morte. A própria Ártemis cumpriu o seu. Compreendo o sentido
trágico do exílio, este lugar suspenso entre uma origem
perdida e um fim que ainda não se deixa ver. Gostaria de
estar em Roma, ou então de morrer, mas nada me é permitido.
Vivo entre duas nostalgias, mas só uma pode curar-se, a da
morte, uma morte que sinto mais próxima de mim do que o
regresso a Roma, mas de que

249

também não posso fixar a data. Oscilo, entontecido no meio


de incertezas e de orações, entre Tibério e Deus.
Esta manhã, ao sair de casa, torci um tornozelo. Alguém que
ia a passar, misericordioso, ajudou-me a ir até à cama.
Fiquei pálido de dor e suava como um cavalo. Pouco a pouco,
a dor aliviou, à medida que o tornozelo inchava e que o meu
corpo se refugiava num sono pesado, reparador, que me fazia
cair nos pesadelos habituais. Desta vez, encontrava-me em
Roma, ou talvez noutra cidade, sentado numa cadeira debaixo
de um pórtico. Por trás havia uma praça pública, e em frente
uma rua onde as pessoas passavam sem me ver, ocupadas com os
seus problemas. Uma mulher desconhecida apanhava na concha
das mãos a água suja que corria na berma da rua e molhava-me
o tornozelo dorido. Esta água constituía o único remédio que
podiam oferecer-me na cidade que eu conhecia, mas onde não
era conhecido. Tinha vergonha de me encontrar ali, com a
perna branca e nua à vista de todos; supliquei a essa boa
mulher que fosse chamar a minha mãe e ia repetindo o nome
dela, gritando cada vez mais alto.
- A tua mãe nunca morou na nossa cidade. Estás enganado, com
certeza.
Então pedi-lhe para chamar Corina, o meu amor; quem no mundo
não conhecia Corina? Ela ter-me-ia salvo, nos seus braços
curava-me instantaneamente. Imaginava a chegada dela ao pé
de mim, a exclamação terna e assustada que soltaria, o seu
beijo após uma separação tão longa. Sabia que ela já não
tinha casa e que teria sido um problema complicado encontrar
um quarto onde reatar o nosso

250

amor, ao abrigo de olhares indiscretos. Corina estava tão


jovem como noutros tempos, via-a atravessar uma rua, falar
com pessoas que eu conhecia, mas a mulher que continuava a
ocupar-se da minha perna, deixando correr sobre o tornozelo
água suja que corria para um esgoto perto da cadeira onde
estava sentado, dizia-me que Corina não estava ali, que
morava em Roma, uma cidade distante onde eu não poderia ir,
por causa da perna inchada ou de outro mal muito mais grave.
Então chamei o meu irmão, depois Dokia e Honório, e Escóris,
mas em vão, habitavam todos muito longe, nesta cidade
ninguém sabia nada sobre mim, estava completamente só
debaixo deste pórtico, imobilizado pela entorse, entregue
aos cuidados de uma mulher ignorante e à sujidade fria e
inútil que me escorria sobre a perna. Amizade e amor estavam
proibidos, todas as pessoas que tinha amado ao longo de um
passado feliz estavam longe, muito longe, via-as
perfeitamente tratando dos seus afazeres, olhando para outro
lado, como se para eles eu tivesse deixado de existir.
Acordei aflito com uma dor que não vinha do tornozelo mas do
coração, magoado por me terem esquecido e adormeci de novo.
Desta vez, encontrava-me em Roma, não havia margem para
dúvidas. Só que ignorava como é que lá tinha chegado.
Reconhecia as ruas, as praças, as casas, mas as pessoas que
encontrava no caminho eram figuras novas, homens e mulheres
vestidos de maneira curiosa. A moda modificou-se entretanto,
pensei, enquanto ia ficando cada vez mais angustiado. Estava
em Roma, mas César não me tinha permitido a entrada, ainda
não me tinha concedido o perdão. A polícia imperial já tinha
sido informada da minha fuga de Tomos e cada pessoa que
passava a meu lado na rua podia mandar-me prender e lançar
para o meio de animais ferozes, sob a luz ofuscante do
circo. Porque teria eu

251

abandonado o local tranquilo e feliz do meu exílio? Que


faria ali, na minha cidade que não me queria? Passaram ao pé
de mim amigos meus, que fingiram não me reconhecer, pois
tinham medo da polícia e das represálias de Tibério. Os anos
entretanto passados não tinham alterado em nada a minha
sorte, nem sequer tinham abrandado o regime de terror sob o
qual o império estava condenado a viver, vítima da sua
própria grandeza. Era preciso encontrar uma solução, ir ao
encontro de Corina, mas não conseguia encontrar a casa dela.
Perdi-me por entre ruas de que não me lembrava, decidi por
fim ir para minha casa, tinha fome, Fábia teria por certo
alguma coisa para comer, ter-me-ia escondido e protegido.
Mas a minha casa já não existia, ninguém se lembrava dela,
as pessoas olhavam-me com olhos de agentes da polícia, a
minha prisão estava iminente. Como é que eu podia ter
deixado Tomos e vir para aqui, se o regime não tinha mudado
e ninguém pensara em indultar-me? Via Tomos como o lugar
mais seguro do mundo, a cidade onde era livre e feliz.
Porquê tê-la abandonado? Alguém começou a gritar, apontando
para mim: "É Ovídio, o exilado, prendam-no!" Desatei a
fugir, mas o tornozelo doía-me, caí com as mãos no esgoto e
água suja salpicava-me a cara, cegava-me, cheirava a urina
de cavalo, estava perdido.
Acordei ofegante, esgotado pela corrida e pelo medo.
Sufocava. Todo o corpo me doía. Chamei Dokia, ainda
entorpecido pelo sono. Ninguém respondeu. Estava só.
O pé magoou-me quando tentei andar. Deitado, não me dói
nada. Fico portanto na cama e sonho com os olhos abertos. A
minha infância destaca-se cada vez mais claramente na
memória, como se os anos se acumulassem sobre todas as
outras épocas da minha vida, só poupando o início. Tudo fica
nítido, na distância. Costumava ter a iniciati-

252

va de evasões nas tardes de Verão, quando toda a gente na


casa descansava, persianas corridas, encerrados nas
profundezas dos quartos. Obrigavam-nos a deitar-nos, ou,
pelo menos, a passar duas horas estendidos, nos dias de
canícu-la. Fingíamos dormir e, quando todos os ruídos
cessavam, eu saía pela janela convidando o meu irmão a
seguir-me. De pés descalços, para não nos ouvirem,
atravessávamos o pátio, saltitando com a dor que causavam as
pedras a ferver sob o sol, a que nos meses de Julho e Agosto
as gentes do povo chamam sol-leão. Efectivamente, mordia
tudo, como uma bocarra de leão. Entrávamos no pomar por uma
porta de madeira, que abríamos com mil precauções porque
rangia ensurdecedoramente, e penetrávamos no reino proibido.
O pomar ressoava com insectos e eflúvios, quase que se viam
os frutos amadurecer e expandir-se ao sol, como um pão ao
calor do forno. A primeira tentação era a figueira, no fundo
do pomar, e fazíamos fugir os lagartos, trepando pelos ramos
lisos. Escolhíamos sempre os figos já picados pelos
lagartos, aqueles em que o sumo, ao escorrer, formava uma
lágrima clara na parte inferior do fruto. A doçura quente
enchia-me a boca, e a vida concentrava-se toda nessa
sensação de felicidade, de paz, de suprema satisfação, que
mais tarde iria reencontrar no amor. Largávamos a figueira
quase logo, porque as raras folhas deixavam passar o sol,
que nos mordia a nuca. Com as mãos cheias de figos,
passávamos para baixo das abóbadas frescas da vinha,
apanhávamos os cachos maduros, arrancando-os com um golpe
seco e preciso, no local onde o pé formava um alto, como um
nó frágil. Sentávamo-nos na erva para mastigar à vontade os
bagos saborosos. Dois bagos de uva e um figo. Era a regra.
Depois dois figos e quatro bagos, e assim por diante. Era um
festim em proporção geométrica. Por fim, já não podíamos
mais. A barriga pesava-me no

253
corpo como um peso que não me pertencesse. As cigarras,
entontecidas de calor, faziam vibrar o ar elástico.
Falávamos de mulheres, de política, de poesia, eu
deslumbrava o meu irmão com os meus conhecimentos. Ele
fazia-me chorar de riso, imitando as pessoas crescidas, a
voz do meu pai, o andar cocho da governante grega, a tosse
do nosso tio. Eu encontrava rimas para tudo e inventava
histórias.
Aquelas duas horas, escoando-se lentamente, pareciam
infindáveis, como é sempre o tempo da infância. Saltávamos a
paliçada do fundo do pomar e íamos dar a uma praça, pouco
frequentada, deserta àquela hora, onde a erva crescia entre
as pedras do chão. No meio, erguiam-se as colunas do templo
de Diana, brancas e brilhantes, na claridade ofuscante.
Sulmona dormia num grande silêncio, embalada pelo canto das
cigarras. No quadrante solar, a sombra da agulha nem se
movia. Éramos os únicos seres vivos numa cidade que nos
pertencia. Era a nossa hora. Dirigíamo-nos para o ribeiro
que corria à entrada da cidade, onde nos esperava o nosso
espectáculo quotidiano. Na hora do calor, algumas mulheres
do bairro pobre aventuravam-se, por vezes, a ir tomar banho
no ribeiro. Escondidos atrás de uma fila de choupos,
deitados na erva, contemplávamos os corpos nus, que
revelavam, sem pudor, os seus mistérios. Elas gritavam e
riam atirando água umas às outras, com uma mão a tentar
esconder os seios ou o sexo, brancas e invulneráveis, como
deusas. Se nos deixávamos ver, gritavam injúrias obscenas, e
nós respondíamos da mesma maneira, mas ninguém abandonava o
seu sítio. A água não chegava a cobrir-lhes os joelhos.
Regressávamos excitados, as faces vermelhas, o coração
desordenado, como faunos tímidos e desencorajados. A
infância pesava-nos como uma coisa vergonhosa. O tempo que
ainda nos separava da idade de sermos homens parecia

254

imenso e insuportável. Tinha vontade de chorar, de raiva e


de desejo.
Lúcio Sisena ficou toda a tarde comigo. É centurião,
pertence à nova perfeitura marítima do baixo Danúbio, e
dirige-se para a sua unidade, na guarnição de Troesmis.
Tinha vontade de me ver, pois admira a minha poesia e sabia
que eu estava ainda em Tomos. Será um dos que, mais cedo ou
mais tarde, escolherão o caminho da liberdade e se juntarão
aos outros na floresta dácia. Não mo disse, mas não foi
difícil ler-lhe no coração. Tem a face direita marcada por
uma longa cicatriz, e o olhar desencantado. Fazia parte da
Vigésima Legião e acaba de deixar a Germânia onde se
distinguiu nas batalhas contra os exércitos de Armínio e na
repressão das revoltas dos legionários contra Germânico. As
primeiras legiões a sublevar-se foram a Sétima, a Décima
Quinta e a Nona, destacadas em Panónia. Isso passou-se pouco
tempo depois da morte de Augusto. Tibério enviou o seu filho
Druso, que foi mal recebido, chegou mesmo a ser maltratado
pelos revoltosos, e só escapou graças a um eclipse da lua.
Os sublevados acreditaram que a sua atitude tinha indisposto
os deuses - Tibério não era filho de um deus, Augusto, que
subira ao Olimpo? - e submeteram-se rapidamente, como
crianças assustadas. Os dois principais instigadores,
Percénio e Vibuleno, foram mortos na tenda de Druso,
enquanto, do lado de fora, os pretorianos massacravam todos
os suspeitos - com razão ou sem ela -, de terem tomado parte
activa na rebelião.
Alguns dias depois, e sem ter conhecimento do que se passava
na Panónia, as legiões de Germânico, a Primeira, a

255

Quinta, a Vigésima e a Vigésima Primeira, sublevavam-se na


Germânia nos quartéis da margem do Reno. Germânico
encontrava-se na Gália, ocupado em recolher os impostos.
Informado do que se passava no Reno, acorreu rapidamente
para junto do exército que encontrou na maior desordem. O
espectáculo que se oferecia aos seus olhos não era dos mais
agradáveis para um general. Os legionários mais velhos
obrigaram-no a meter-lhes os dedos nas bocas para que
verificasse como estavam desdentados, outros despiram-se na
frente dele para mostrar impressionantes cicatrizes e
feridas incuráveis. Tinham todos mais de vinte anos de
serviço, queixavam-se dos centuriões, dos alojamentos;
queriam voltar para casa, receber soldada a dobrar, ter boas
terras para trabalhar. Germânico, depois de uma cena
dramática, durante a qual chegou a querer suicidar-se
(gritava: "Uma espada, dêem-me uma espada!" até ao momento
em que um centurião lhe propôs deslocar-se a Roma e, com o
apoio das legiões, tomar o lugar de Tibério), acedeu aos
pedidos, pagou aos soldados com o seu próprio dinheiro e as
legiões começaram a retirar para os quartéis de Inverno. Mas
na noite seguinte, os revoltosos arrombaram a porta da casa
de Germânico a fim de matar os embaixadores que o Senado
lhes tinha enviado. Pretendiam saber se, de acordo com os
rumores que corriam no campo, o Senado estava contra eles e
os embaixadores tinham ordens para anular os benefícios
concedidos pelo seu general. No meio deste tumulto, que não
cessava, Germânico tomou a decisão de enviar a mulher
Agripina, sobrinha de Augusto, e o filho Calígula, nascido
no acampamento, para território gaulês, onde estariam em
segurança. Iam partir, acompanhados por outras mulheres,
quando, ao verem Agripina e o pequeno Calígula no meio desse
triste cortejo que abandonava o campo, os amotinados caíram
de joelhos diante deles, implorando-lhes que

256

ficassem, enquanto outros iam prometer a Germânico completa


submissão. Constituiu-se imediatamente um tribunal que
julgou os culpados e administrou justiça sumária e imediata.
O acusado subia a uma tribuna, rodeada pelos soldados
empunhando as espadas nuas. Se era considerado responsável
pela revolta, era atirado do alto da tribuna para os pés dos
legionários que o massacravam sem piedade.
A quinze léguas dali, em Vétera, a Quinta e a Vigésima
Primeira, as primeiras a revoltar-se, recusavam ainda
submeter-se. Germânico marchou à cabeça das legiões fiéis,
decidido a vencê-las pela força, mas antes de entrar em
acção fez anunciar a sua chegada, e prometeu aos revoltosos
as mais severas penas. Então, no campo formaram-se pequenos
grupos que penetraram nas tendas e mataram todos os que eram
considerados mais culpados. Pereceram assim centenas de
inocentes, vítimas de vinganças pessoais e a matança
prolongou-se toda a noite, à luz de archotes. Alguns
feridos, loucos de terror, fugiam a gritar, para tombar mais
adiante sob outras espadas que acorriam de todos os lados
para fazer justiça, uma justiça cega e aterradora. A vista
do sangue excitava os mais calmos.
"Penetrei no campo da Quinta legião de manhã cedo. As tochas
ainda brilhavam, os caminhos enlameados estavam vermelhos de
sangue. Legionários saíam das tendas, olhar desvairado,
espadas desembainhadas nas mãos, pareciam loucos ou
enraivecidos. Havia alguns que, feridos de morte arrastavam-
se patinhando na lama, implorando o perdão ou a ajuda do
comandante. Outros imploravam que os matassem. Viam-se
cadáveres por todo o lado, mesmo no meio da estrada. O
cavalo de Germânico escorregava na lama ensanguentada.
"Não sabes o que é a vida num acampamento de legionários.
Vive-se lá desde a juventude até à morte; perdem-se

257

os melhores anos a matar inimigos, ou a matarmo-nos entre


nós. O escravo nas galeras não é mais infeliz, garanto-te.
Somos escravos pagos, eis a diferença.
"Para apagar das memórias a recordação daquela noite e
também para nos afastar dos campos, onde um novo motim seria
sempre previsível, Germânico conduziu-nos para a guerra e
embrenhámo-nos nas florestas de além-Reno, à procura de
Armínio. No primeiro reencontro, os legionários comandados
por Lúcio Estertínio encontraram, no meio dos cadáveres
inimigos, as águias da Décima Nona legião, perdidas por Varo
na batalha de triste memória que tivera lugar nestas
paragens, seis anos atrás. Germânico teve a ideia de
realizar, no local onde Varo tinha morrido no meio das suas
legiões, funerais para os oficiais e soldados tombados na
luta com os bárbaros. Podiam ver-se ainda as trincheiras,
meio cobertas de terra e ervas, rodeando o acampamento
improvisado à pressa onde as três legiões se tinham
refugiado, com o objectivo de tentar uma última resistência.
O número de mortos fora de tal modo considerável, que as
ossadas formavam, aqui e ali, manchas brancas na planície.
Também se viam armas enferrujadas, esqueletos de cavalos,
crânios espetados nos ramos das árvores, e restos dos
altares onde os bárbaros tinham imolado os tribunos e os
chefes. Junto de mim estava um legionário que tinha escapado
ao desastre e que me indicava, a cada passo, os sítios onde
amigos dele tinham tombado. Demos sepultura aos ossos, sem
saber se eram dos nossos ou do inimigo, e erigimos um túmulo
que foi, semanas mais tarde, profanado pelos soldados de
Armínio.
"A guerra foi travada com violência de parte a parte,
durante longos meses. As vitórias sucediam-se aos desastres.
Dava a impressão de que nunca mais haveria um fim. Naquela
região não há senão florestas e pântanos, semea-

258

dos de cadáveres em putrefacção e de inimigos à espreita.


Para pôr fim à guerra na Germânia e dominar este povo seriam
precisas dezenas de legiões que os exterminassem até ao
último dos seus filhos. Nós estávamos extenuados,
aterrorizados, desencorajados. Retirámos por fim em direcção
à foz do Reno, onde uma parte das legiões embarcou. Os
outros seguiram a pé para a Gália, ao longo do litoral.
Germânico partiu com a frota e deixou os restantes sob o
comando de Públio Vitélio. De início, tudo se passou
conforme as previsões, o litoral estava seco, propício à
marcha, mas uma noite levantou-se um vento furioso e,
empurradas pela estrela do equinócio, as águas cresceram e
invadiram a terra. Marchámos durante uma noite inteira, com
a água pelos ombros, pelo pescoço, patinhando às cegas.
Afogaram-se centenas de homens, as bagagens foram arrastadas
pelas ondas e os cavalos também. Alguns houve que, enganados
pela escuridão, mergulharam nas profundezas do oceano. O meu
cavalo salvou-se, mas eu enlouqueci, de medo ou de cansaço,
ou de errar no caos que me absorvia. Não me lembrava de nada
e durante dois meses só gritava, dando ordens, ou rebolando-
me por terra. Diante de mim só via o mar e a floresta,
unidos para me destruir. Lutava contra as vagas, passando
debaixo de árvores gigantescas com os ramos cheios de
soldados de Armínio que lançavam flechas. Para lhes escapar,
mergulhava nas águas, sufocava, voltava à superfície, para
ficar de novo sob as árvores carregadas de inimigos, alvo
único dos seus arcos. Voltava a mergulhar... Disseram-me que
por fim caí num sono calmo que durou três dias seguidos. Ao
acordar, recordei-me de tudo, voltara a ser eu. Como
recompensa, pagaram-me a soldada a dobrar e enviaram-me para
Troesmis, onde parece que a vida é mais tranquila e as
pessoas menos cruéis.

259

"Passei por Roma. Não irias reconhecê-la. Lêem-se às


escondidas libelos contra Tibério, fala-se na sua crueldade,
do seu orgulho, dos insultos que troca com a velha Lívia, do
fim de Júlia que Tibério fez morrer de fome no seu exílio
miserável. A lei de lesa-majestade, criada por Augusto,
ameaça os Romanos como uma espada de Dâmocles suspensa sobre
as suas cabeças. Uma denúncia é suficiente para te atirar
para a prisão ou para o exílio. A amizade e o amor
morreram."
Calou-se, cansado e ligeiramente decepcionado consigo
próprio, porque viera a minha casa, não para me contar a
campanha da Germânia, mas para me fazer perguntas. Desde o
início da entrevista tive a certeza de que este soldado que
lera os meus versos queria alguma coisa de mim. Talvez um
conselho. Entretanto, eu estava mais emocionado do que ele.
"Dizia-te que a vida em campanha é muito dura. Quase não há
tempos de lazer. Não vemos senão os camaradas, que podem
tornar-se inimigos ou carrascos. E, depois, atingido o posto
de centurião, deixamos de ter amigos. Nunca soube o que era
o amor. Só o imaginei através dos teus livros. É diferente
quando o vivemos?
- É, é muito diferente. O amor, neste momento da nossa
história, está proibido aos Romanos. Só é possível numa
sociedade livre, em que não paire sobre os homens e as
mulheres nenhuma ameaça, numa sociedade protegida da
mentira, do medo e do conformismo. Uma tarde, em Roma,
Corina disse-me que não me amava. A mim, que tinha escrito
livros sobre o que julgava ser o amor, e o amor de Corina. E
nessa tarde, apercebi-me de que eu também não a amava, e
nunca a tinha amado. Tinha sido capaz de cantar o papagaio
dela e as roupas, as dores de cabeça e os caprichos, mas
sobre a sua alma, não tinha dito uma palavra. Com-

260

preendes? Augusto deu-nos um império, mas privou-nos da


alma. Sem alma, não há amor possível. Não queria desgostar-
te. Mas fizeste-me uma pergunta e não quero enganar-te.
Aproxima-se o tempo em que as almas nos vão ser devolvidas.
Aprendi isso na fronteira desta terra livre. Vais, talvez,
aprendê-lo em Troesmis e então terás amigos e conhecerás o
amor. Olha, sofri muito na vida, e bastava o pensamento de
que era obrigado a viver aqui, entre os bárbaros, depois de
ter vivido em Roma, para me deixar louco de raiva. Sonhava
com Corina e com tudo o que Roma me dera. Mas eram uma falsa
raiva e um falso sofrimento, tão falsos como o amor e a
felicidade que tinha cantado na juventude. Em poucos anos,
uma mulher dácia deu-me a conhecer mais verdades do que
todas as mulheres de Roma. Nunca me pertenceu, nunca lhe
falei do meu amor, mas junto dela pude avaliar-me com toda a
sinceridade. Pareço-me um bocado contigo, meu amigo, só
conheci o amor através dos meus livros, e não era amor. Esta
mulher partiu, está longe de Tomos, nunca mais voltará, mas
a sua presença ao pé de mim, nesta casa, encheu-me de
sabedoria. Fez-me antever um tempo, no futuro dos homens, em
que o amor será possível, mesmo para nós, os Romanos
privados de amor. És jovem e irás viver esse tempo. Eu sou
velho, mas não perdi a esperança.
- Tudo isso é difícil de mais para mim. Compreendo, se ouso
dizer assim, o que o amor não é. A tua união com Corina não
era amor. Mas como aceitar esta opinião sem renegar os teus
livros? Sou capaz disso, se tu dizes que é assim. Mas nesse
caso, não me disseste o que é o amor. É um segredo?
- Não, não é um segredo. A verdade é que não sou capaz de te
dizer. Nem mesmo seria capaz de escrever. Uma Arte de Amar,
de acordo com o que sinto neste momento,

261

não seria possível. Precisamos de palavras novas, de uma


nova visão da vida e de uma nova religião, até sermos
capazes de criar uma linguagem nova para exprimir o que
sentem no fundo dos corações os homens de hoje, e que a
nossa actual ignorância nos impede de formular com
julgamentos e palavras. Escrevi sobre o amor tal como ele
era num mundo que estava a morrer. Os poetas esperam pelo
nascimento de Deus, para escreverem os livros de um tempo
que será o do amor."
Olhou-me assombrado. Não estava à espera de profecias. E
provavelmente nem devia querê-las, pois, apesar dos
sofrimentos passados, conseguia viver com as suas desgraças
familiares. Mas eu era o seu poeta e tinha vindo aqui para
me ouvir.
- Acreditas que vai aparecer um novo deus no Olimpo? Já
nasceu? Sabes alguma coisa sobre isso?
- Sim, já nasceu.
- Onde?
- No exílio.
E contei o que sabia sobre Ele. É necessário refazer tudo no
mundo.
O sonho que tive recentemente no barco de Mucaporus, aquele
sonho do peixe que me conduzia em direcção à sombra
luminosa, visita-me muitas vezes, de noite, antes de
adormecer. Nunca consegui decifrá-lo. A silhueta é
possivelmente a de Deus, que é luz e toma a forma de uma
sombra, ou seja, de um corpo humano, para poder ser visto
pelos homens. Mas aquele peixe... Porquê um peixe? Qual é o
sentido do símbolo?

262

Penso que os sonhos que temos só nos pertencem em parte, que


eram claros e inteligíveis para seres que nos precederam, e
que outros seres que virão depois de nós não terão
dificuldade em compreender esses mesmos sonhos. Assim será
com este peixe.

Carta de Fábia:
"De momento, não há esperança. Tibério recusa receber-me. De
há meses para cá proibiram-me o acesso ao palácio. Não quero
desencorajar-te..." Recome-cerá as suas diligências logo que
a situação actual se altere. Para quê ter ilusões? Ainda
preciso delas? Fábia está mais longe nos meus pensamentos do
que a minha mãe nos meus sonhos.

263

OITAVO ANO
As mãos tornaram-se maiores, cabelos grisalhos começam a
aparecer aqui e ali. Como antes, cheira a cavalo e a queijo
fresco. Comozous está diante de mim e ainda não consigo
acreditar. Percorreu de carroça a distância entre Troesmis e
Istria, passando ao longo do Danúbio, por Arrubium e
Carsium, e a pé, entre Istria e Tomos. E não está cansado.
Entrou na cidade com um grupo de compatriotas, camponeses
dos arredores que iam para a feira e apresentou-se em minha
casa ao cair da noite, para não despertar suspeitas.Traz
mensagens de Flávio Capitão, o Romano de Istria para quem eu
tinha escrito há quatro anos. Sédida mandou construir uma
bela casa, ao lado da de Escóris; uma das filhas deste, a
mais nova, foi viver com ela para lhe fazer companhia.
Envia-me saudações. Sim, envelheceu muito, a vida dela já
não faz muito sentido, pede a Zalmoxis que a chame para
junto dos seus. Diz-me que os dois velhos - os que me tinham
feito evocar a história de Filémon e Baucis - tinham sido
efectivamente mortos pelos Sármatas e que o filho,
regressando da guerra, encontrara os cadáveres sepultados
sob as cinzas e os tinha enterrado na floresta. Tinha
reconstruído a casa, casado com uma rapariga de Zousidava e
já tinha dois filhos. Ah, claro, deves ter passado uma noite

265

terrível, sozinho nos bosques, com os Sármatas a rondarem.


Tiveste sorte com o cavalo, lembras-te, o que tinha rompido
a amarra e partido atrás de mim. Senão, o relinchar dele
teria traído a tua presença e terias tido a mesma sorte que
os dois velhos.
Era verdade, e nunca tinha pensado nessa possibilidade. A
minha vida estivera dependente de um cavalo. Se ele não
tivesse conseguido romper o laço, os meus ossos repousariam
agora ao lado dos de Filémon e Baucis, no coração da
floresta dácia.
Honório e a família tinham ficado pouco tempo em casa de
Escóris. Tinham partido para o Oriente, onde as terras são
mais ricas, no meio das florestas, não, bem entendido, não
do lado das montanhas, mas na planície onde muitos outros
Romanos escolheram viver. É preciso reconhecer que os vossos
sabem cultivar a terra e depois, tinhas razão, os vossos
camponeses falam latim entre si, ouvi-os com os meus
próprios ouvidos, enquanto estive lá, na terra de Flávio
Capitão onde Honório e Dokia se estabeleceram. Sim, com o
velho Dizzace e com a menina. Fui eu que os conduzi até lá.
Mais de um dia de viagem de carroça, sim, mais de um dia.
Fomos até Zousidava, onde Honório comprou coisas, e em
seguida tomámos a estrada para levante, seguindo a orla
meridional da floresta. Havias de ver a aldeia de Flávio
Capitão, as casas que construiu, os estábulos, a forma como
trabalha a terra. Os Dácios que lá vivem compreenderam
rapidamente e cultivam um trigo mais alto do que o vosso,
com espigas gordas como pardais, que balançam pesadamente
com a brisa, como se estivessem a pedir ao homem que as
livre do seu próprio peso. É bonito de se ver. Os nossos
sabem criar cavalos melhor do que os Romanos, mas, quanto à
terra, temos de reconhecer que os vossos são melhores.
Chamam a uma dava, um vicus, sim,

266

aprendi palavras latinas. Vale a pena ver as crianças que


nasceram no vicus de Flávio Capitão. De início, tinha
dificuldade em compreendê-las, de tal modo misturam palavras
dácias e latinas, até formar uma nova linguagem secreta que
usam entre eles quando se querem esconder dos pais. São
diabinhos que sabem mais do mundo do que eu e tu. Sim, tomei
parte no cerco e na defesa de Troesmis, mas prefiro não
falar nisso. Um dos filhos de Escóris ficou lá. Defendia-se
no interior de uma casa que foi incendiada pelos
assaltantes. Batíamo-nos nas ruas. Era o fim. Consegui
salvar-me, mas o filho de Escóris morreu nas chamas.
Comozous acabou de se deitar, na cama onde antigamente Dokia
passava as noites quando eu precisava dos seus serviços. Já
dorme e voltará a partir amanhã. Leio as cartas que me
trouxe.
Flávio Capitão escreve: "Recebi a tua carta de há quatro
anos e respondi alguns meses depois, quando acabei os
trabalhos de Outono. Mas Dokia disse-me que esta carta nunca
te chegou às mãos, o que me faz pena, pois certamente
pensaste mal de mim. Nasci em Perusa [a cidade de Corina],
mas passei a juventude em Roma onde estudei e onde, um dia,
assisti à representação da tua Medeia. Cheguei a ver-te de
longe, eras muito jovem e a tua peça agradou-me muito. Se
não me engano, eras cinco ou seis anos mais velho do que eu,
vou fazer em breve cinquenta anos, mas conservei a juventude
do corpo e trabalho duramente. Devo dizer-te que a
agricultura não era o meu forte. O meu pai tinha terras na
Úmbria, e o que sei, aprendi nos Verões, deambulando nos
campos e falando com os camponeses. Tinha este talento no
sangue, pois o meu pai era de origem camponesa e, uma vez
aqui instalado, cultivar a terra foi a primeira coisa que me
tentou. Em Itália, via a natureza através de Virgílio e de
Horácio, e o amor através da tua Arte de Amar.
267

Sonhava casar com Corina e levá-la para o campo. Fiz o


serviço militar na Panónia, na Nona legião, onde tomei parte
em bastantes acções de represália contra as tribos indígenas
e fui ferido numa dessas escaramuças. Durante anos,
absorvido pelo rigor do serviço, tinha-me esquecido de
pensar. Uma longa convalescença obrigou-me a olhar um pouco
para mim mesmo e a encarar o problema do meu futuro. As
leituras de juventude, tal como os dias passados na Úmbria,
não me saíam da memória. A vida militar não constituía um
ideal para mim. A verdadeira vida passava-se fora do
acampamento, em sítios onde cada um era livre de decidir o
seu destino, de se consagrar ao trabalho, não importa qual,
desde que estivesse de acordo com o pequeno talento com que
a natureza dotou cada um de nós. Eu não era dotado para as
armas. A ideia de que, pelo menos durante ainda outros vinte
anos, teria de executar ordens, matar, fazer exercícios,
marchar, segurar estandartes, viver no meio de homens de
armas, começava a inquietar-me. Os melhores anos da minha
vida iriam decorrer no meio desta monotonia. Decidi fugir,
não sabia para onde, mas, uma vez a decisão tomada, comecei
a pensar na melhor solução. Não tive dificuldade em
descobrir a única possibilidade que se me oferecia. Tinha
ouvido muitas vezes falar da terra dos Dácios, das suas
riquezas, da beleza das mulheres, do culto de Zalmoxis. Como
a maior parte dos meus camaradas, eu não era crente, e não
foi a ideia do Deus único que determinou a minha escolha;
foi mais a de uma arte de amar dirigida para um novo ideal
feminino. Na solidão da convalescença, acicatado pelo
desejo, imaginava-me conquistando as mulheres dos Dácios
usando as tácticas do teu livro. Quem lhes resistiria nesta
terra longínqua onde as mulheres deveriam ser bastante
simples de espírito? Fugi. Durante noites inteiras, errei
pela planície da Panónia, sempre para Oriente,

268

evitando a luz do dia e as estradas. Chegado à montanhas,


tomei o caminho para Sarmisegetuza, a antiga capital de
Burebista, onde tive de comparecer perante o rei. Fizeram-me
perguntas, e foi tudo. Havia lá mais Romanos, a servir no
exército, e propuseram-me logo um posto importante, que não
aceitei. Não era isso que procurava. Deixaram-me livre para
escolher. Durante um ano inteiro trabalhei numa quinta, não
longe da capital e foi durante esse período que descobri o
meu talento. Gostava de cultivar a terra, mas queria uma
terra que fosse minha. Deixei a quinta e dirigi-me para a
parte oriental do país, onde, atravessando outras montanhas
teria a possibilidade - de acordo com o que me tinham dito
-, de encontrar terras ricas que não pertencessem a ninguém.
Numa noite, encontrei uma pequena aldeia no meio de uma
floresta, situada junto de um rio chamado Tirantos, e aí
fiquei para sempre. Em poucos anos, transformei a aldeia
perdida numa parcela do mundo civilizado. Casei com uma
rapariga dácia, fundei uma família, desbastei a floresta,
semeei trigo. Ao fim de alguns anos descobri uma coisa em
que ainda não tinha tido tempo de pensar. Era feliz, e a
felicidade vinha-me da terra, a terra a que as minhas mãos
tinham dado vida e fruto. Outros desertores vieram juntar-se
a mim. Havia-os por toda a Dácia. Alguns com casos mais
complicados do que o meu. Não sou a pessoa mais qualificada
para falar da crise religiosa que os perturbava. Sou
adorador de Zalmoxis, mas não foi ele que vim procurar aqui.
A Terra absorve-me de mais para poder dedicar-me ao Céu.
Além disso, pertenço a uma geração que ignorava os problemas
religiosos e que falava de deus numa época em que podíamos
citar nas conversas alguns versos das tuas Metamorfoses. Em
compensação, os mais jovens, os desertores recentes, que são
muito mais numerosos, vêm para a Dácia em busca de um outro
céu, como eles costu-

269

mam dizer. Constróem templos romanos onde adoram Zalmoxis.


Alguns há que não mudam de religião e, continuando fiéis aos
deuses romanos, acrescentam Zalmoxis ao Olimpo capitolino.
Pretendem assim renovar e purificar o nosso antigo culto, e
afirmam que Roma é uma cidade apodrecida que em breve será
punida pelos deuses, e que vieram para a Dácia fugindo da
cólera de Júpiter. Chegam a dizer que um novo deus nascerá
na Terra, entre os Dácios, ou então que esse deus já nasceu
em algum lado. Não consigo imaginar isso. Que poderá esse
deus dizer aos homens, que seja novo? Não temos já deuses
suficientes, que nos ensinaram a adorar? Farás o favor de me
dizer se esses rumores têm algum fundamento"...
E termina com estas palavras: "Os teus amigos pensam em ti
muitas vezes. Estão a construir uma casa que esperam habitar
em breve. Como chefe desta comunidade, considero-te, desde
já, bem-vindo."
A carta de Escóris: "O sacerdote dácio que conheceste aqui,
morreu no início do ano, com oitenta e três anos. Visitei-o
muito, falava-me de ti, e rezava a Zalmoxis para que a dor e
a nostalgia te fossem poupadas. Dizem-me que Tibério não é
mais compreensivo em relação a ti do que Augusto e que o teu
exílio continua, sem esperança de regresso. Se o desejo de
viver em liberdade suplantar no teu coração a esperança de
voltar a Roma, não hesites em retomar o caminho para o
Ribeiro Salgado. Ficaríamos felizes se viesses ter connosco.
Se a pobreza do nosso país bárbaro não te parecer mais
difícil de suportar do que a prisão de Tomos, vem. Na casa
que mandei construir para Sédida há um grande quarto para
ti, bem quente no Inverno e fresco no Verão. Soube que as
legiões se sublevaram na Panónia e na Germânia, e que o
império de Tibério é menos sólido do que o de Augusto. De
certo em Roma não terão tempo para

270

consagrar àqueles que, como tu, esperam por clemência. Se os


teus te esquecem, nós não te esquecemos."
Honório dá-me notícias da família. Dokia espera um segundo
filho para as calendas de Dezembro. Têm uma casa nova,
grande e bonita. Honório matou um urso, e a sua pele será
para cobrir a minha cama na casa que estão a construir para
mim. "Com uma grande lareira para te defender dos rigores do
Inverno. A pequena Dokia irá levar-te a refeição da noite,
sempre que o frio ou a chuva te impedirem de cear connosco.
Comozous preparou tudo para te trazer, são e salvo, até à
nossa aldeia onde irás encontrar, tal como eu, uma nova
pátria e a amizade de todos. Desconfia de Valério."
Só tenho de escolher entre a hospitalidade de Escóris e a de
Honório. A minha vida corre perigo em Tomos, pois Valério
far-me-á desaparecer ao primeiro sinal de desobediência ou
de revolta. O crime político entrou nos hábitos do império.
Agripa Póstumo foi assassinado, tal como Júlia e todos os
que Lívia ou Tibério consideram inimigos do poder. Não tenho
escolha possível, uma vez que o regresso a Roma é de
excluir, pelo menos numa perspectiva imediata. Irei com
Comozous. Nunca é tarde de mais, e até já tenho o hábito das
viagens. Restam-me poucos anos de vida, e será bom passá-los
rodeado de sorrisos amigos, no meio de uma floresta onde os
centuriões ainda não chegaram.
Abandono este diário por uns dias, não sei quantos. Vou
retomá-lo quando lá estiver.
Não mudou nada. A vida eterna não deixa marcas nos rostos,
passa-se para lá do tempo que nos faz morrer. O

271
meu irmão está na minha frente, tal como era em Roma há
trinta anos. Fala comigo, compreendo-o sem dificuldade, mas
não me é possível transcrever as suas palavras. É como se
fossem dirigidas a uma parte profunda e secreta de mim
mesmo, onde as palavras, uma vez chegadas, não voltam a
sair. Não, não é uma alucinação e esta não é a sua primeira
visita. Desaparece quando alguém entra no quarto, e
reaparece quando estou só. Sorri-me. Evoco em voz alta cenas
da nossa infância, de que me recordo nos mais
insignificantes pormenores, com uma nitidez surpreendente.
Ele também não esqueceu nada e deixa-me falar sem nunca me
interromper, como se todas estas memórias, reavivadas pelas
minhas palavras, lhe dessem um imenso prazer. As tardes no
pomar de Sulmona, as uvas e os figos, as mulheres que se
banhavam no ribeiro, a crise de lágrimas e a fuga
desesperada no dia em que lhe revelei a morte dos deuses, o
seu primeiro amor, em Roma, na época em que era estudante,
os nossos encontros nocturnos nas tabernas do Transtévere, a
primeira viagem juntos à ilha da Planasia, a sua doença e
morte inesperada, em plena juventude, tudo isto, sinto-o
nitidamente, diverte-o imenso. Tem saudades do tempo passado
entre os vivos, ou sorri para me dar prazer? Tem o mesmo
aspecto, mas uma linguagem diferente. Faz parte de um outro
mundo onde nada, nada do que para nós, aqui, é compreensível
e familiar, tem valor ou faz sentido. Apercebo-me bem disso.
Faço-o falar. Responde-me. O que me diz, faz-me sorrir de
alegria e de esperança, mas como reproduzi-lo com palavras
escritas? O contacto entre nós é possível graças ao seu
aspecto exterior, de outra forma não se me poderia revelar,
mas esse aspecto pertence ao passado, à morte, e aquilo que
ele hoje verdadeiramente é, não consegue impressionar os
meus sentidos de mortal. O contacto entre nós

272

dá-se através do que é eterno e indivisível em ambos, e do


que o meu corpo esconde no seu íntimo desconhecido, como um
grão que espera para se libertar no meio da polpa perecível
de um fruto maduro.
Sei, por exemplo, que Teodoro morreu - foi o que o impediu
de me escrever - mas não o soube por palavras. Tenho vontade
de lhe dizer: "Leva-me depressa contigo". Mas o meu corpo
tem medo de morrer e fecho os olhos para viver, para fazer
desaparecer a imagem do meu irmão, e para voltar a estar só,
com as dores físicas e as morais, desesperado, mas amarrado
pelo desejo de sobreviver no meio da desdita, de sobreviver
a qualquer preço. A luta entre o corpo e a alma, entre o
tempo e a eternidade, é o que há de mais penoso neste último
período da velhice. O combate trava-se até às portas da
morte, entre o medo e a esperança. Sei que o meu irmão
estará a meu lado no último momento, e que será o meu guia.
Mas, enquanto espero, tenho medo.
Longos meses se passaram depois dessa noite a velar o sono
de Comozous, a reler as cartas dos meus amigos. Uma vez
tomada a decisão, estabeleci os planos de fuga, que não era
fácil de pôr em prática, porque estava proibido de deixar
Tomos e não queria pedir nada a Valério. Mandei chamar
Lídia, falei-lhe da minha intenção de ir pôr flores na campa
de Hérimon, no cemitério que fica fora da cidade, portanto
em território interdito para mim. Pedi-lhe para solicitar a
autorização do centurião, que ela obteve no próprio dia,
oferecendo-se para me acompanhar. Disse-lhe que preferia
ficar lá sozinho, e ela não insistiu.

273

Esta entrevista teve lugar ao meio-dia. Comozous trouxera-me


um pequeno cofre, onde meti este diário e as coisas que me
pareceram estritamente necessárias. Descobri com alegria que
doravante nada me era indispensável, e que junto dos meus
amigos encontraria tudo o que pudesse necessitar. Peguei no
focale de Corina, que queria dar de presente a Dokia e
abandonei a casa onde tinha passado sete anos de exílio,
como se saísse para um passeio na cidade. O tempo estava
bom. Um Outubro doce e ensolarado, no ar pairava um perfume
de mosto ou de uvas a ser esmagadas em qualquer lado por
mãos de criança, o que me fez pensar no pomar de Sulmona e
nas minhas visões. Até então nunca tinha tido alucinações
destas e o meu irmão só me aparecia nos sonhos, ou, então,
invocado por qualquer dos sinais exteriores que o faziam
surgir do fundo da memória. Não queria pensar na morte,
muito menos no dia em que deixava Tomos para começar outra
etapa da vida, longe das cadeias que o império me lançara à
volta do pescoço.
Comozous esperava-me no cemitério, com um burro que tinha
comprado para mim e dirigimo-nos imediatamente para o lado
do mar, tomando o caminho que tinha seguido com Dokia até à
cabana de Mucaporus. Icei-me com grande dificuldade para o
dorso do animal, mas em breve tive de descer pois o meu
corpo, enfraquecido pela velhice e pela vida sedentária, não
suportava as sacudidelas. A marcha foi-se tornando cada vez
mais penosa. Desencorajado, estendi-me à sombra das acácias,
encostado à pedra tumular onde reli as palavras conhecidas:
"Tende confiança!". Segundo o plano estabelecido, deveríamos
passar a noite em casa de Mucaporus, e de lá um barco iria
levar-nos a Istria, onde, com a ajuda de Metrodoro, teríamos
prosseguido a viagem de barco até Troesmis. Aí comprávamos
um carro e dois bons cavalos. Mas eu estava no limite das
for-

274

ças. A noite aproximava-se. Era necessário tomar uma decisão


rápida. Como da outra vez, decidimo-nos pela separação.
Comozous deixou-me só, no meio das árvores, prometendo
voltar com Mucaporus depois do cair da noite, para me
levarem. Estendi-me entre as árvores, na erva ainda quente e
já queimada pelos fogos de Outono. A uma centena de passos,
sobre a falésia, avistei a muralha azul do mar e o voo das
gaivotas, entregues à pesca do fim da tarde. A brisa trazia-
me o marulhar das ondas, o cheiro das algas, o piar dos
pássaros. Pensava no futuro, tencionava combinar com
Metrodoro a viagem de Fábia, sim, deveria vir ter comigo, a
vida dela em Roma já não fazia sentido. Entretanto a filha
casara, e Fábia não tinha mais obrigações em Roma. Teríamos
passado juntos os últimos anos, na paz dessa floresta
distante, que de momento me atraía mais do que qualquer
ideia de regresso. As pernas doíam-me, sentia-as pesadas e
inchadas, e uma espécie de entorpecimento subia ao longo das
costas, até aos ombros e à nuca. Tinha febre. Mas em casa de
Mucaporus tudo se iria resolver. Tremia. Tinha frio e
sentia-me muito mal. Uma tosse profunda sacudiu-me o peito.
Os raios de sol passavam por entre as árvores e batiam em
cheio nos troncos. O ramo de acácias tornara-se amarelo, um
amarelo avermelhado de crepúsculo de Outono com cores
esmaecidas, as folhas caíam na imobilidade do silêncio. O
mar também já não se agitava, ou então eu deixara de o
ouvir, ensurdecido pela febre. Mudava de posição a cada
instante, não conseguia arranjar uma boa, sobre a terra dura
- como a terra pode tornar-se dura e pouco hospitaleira! - e
todo o corpo me doía horrivelmente. Os troncos, iluminados
pelo crepúsculo, lembravam-me um pôr-de-sol semelhante, na
Via Ápia, com os raios emprestando aos pinheiros um tom rosa
que manchava a paisagem com uma névoa irreal. Parecia que a
luz saía dos

275

troncos e que era o próprio sol que recebia os reflexos. Os


pinheiros eram a fonte da luz. Estava com Corina. Chamei-a
docemente; era a primeira vez que a chamava assim desde que
nos tínhamos separado. "Corina, Corina!" o nome ia bem com
esta tristeza amarelada. "Tende confiança!". Um morto estava
enterrado a meu lado, sob a terra dura. Não ousava respirar
nem tossir. Porque é que tinha pronunciado o nome de Corina?
Um medo louco invadiu-me, fechei os olhos. Um som de passos
roçando na erva seca. Sobressaltado, abri os olhos. O meu
irmão estava ali, apoiado num tronco, a face e o corpo
atravessados pelos raios do crepúsculo. Através da toga dele
vi as poucas árvores que nos separavam da estrada e ao
longe, o mar, agora de um severo azul escuro. As gaivotas
gritavam "Medeiaaa, Medeiaaa!". Ela ia responder-lhes de um
momento para o outro. Ia aparecer no alto da falésia para
matar o seu irmão, o meu irmão. Todo o meu corpo tremia. Os
dentes batiam como se fossem partir-se. Tinha frio, a cabeça
doía-me, e não conseguia dominar o tremor furioso que me
sacudia, como se viesse de fora de mim, como se eu fosse um
ramo na tempestade. O mais urgente agora era desembaraçar-me
da companhia dos mortos e deitar-me na minha cama, em Tomos.
Levantei-me, dei dois passos para sair do meio das árvores e
fazer com que me vissem, caí e gritei: "Socorro!" com todas
as forças que restavam. Vi Valério na estrada, acompanhado
por três legionários, todos a cavalo; lançaram-se sobre mim,
procuravam-me havia horas. Vi o olhar do centurião, irónico
e maldoso, e perdi os sentidos.
O Inverno voltou. Estou de novo na cama, a minha velha cama
de Tomos, esgotado pela doença e pelo desespero. Que se terá
passado com Comozous? Ignoro-o, mas jamais arriscaria uma
pergunta sobre isso. Conforme decidíramos, devia ter chegado
ao cair da noite, e não tinha con-

276

seguido entender o meu desaparecimento. Teria voltado a


Tomos no dia seguinte? Ter-me-ia visto, presa da febre e do
delírio? Por certo voltara para casa, impotente face aos
desígnios do destino.
Nevou muito, nenhum ruído chega até mim. O fogo extinguiu-se
na lareira. Estou cansado, e os dedos perderam o hábito de
escrever. Se ao menos tivesse um cão com quem falar, uma
vida fiel ao meu lado! Alguém veio hoje tratar) de mim,
acender o lume, arranjar a cama. Terá sido Lídia? Alguém que
conhece os meus hábitos e que quer que eu continue a
escrever...

277

Nota final
Os versos de Ovídio citados no meu romance foram
reproduzidos seguindo as traduções de Emile Ripert (Les
Tristes, Les Pontiques, Les Amours) e de Jacques Chamonard
(Les Métamorphoses).
As passagens citadas nas págs. 157-161 pertencem à Odyssée,
canto XI, intitulado "Au pays des morts", traduzidos por
Victor Bérard.
Não quero deixar de prestar aqui a minha calorosa homenagem
à memória do escritor e arqueólogo romeno V. Parvan (morto
em 1927), cuja Gética de há muito me familiarizara com a
história, a religião e a vida quotidiana dos Dácios.
V.H.

Interesses relacionados