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I

N esta pequena obra, t~mos a perspec:tiYa


d~ Heldegger !Ob~ a serad
Esta é apresentada atroá do CIJICuno
pronunciado aquando da celebração
do 175.0 aniversário do nuclmeoto
INSTITUTO
PlAGET
Heidegger
do compositor Conradln Kreutzer,

s
~m l'lessklrcb. a 30 de Outubro de 19.
A discussão sob~ a serenJdade é rdbada
de uma conversa entre um IDw:stlpclor,
um erudito e um professor.
reglstada por acrlto em 1944/1945.

BN 972 ~ 771 - 142 1

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89727 711420 Pi«$qti!J.-ys;trj! . .... ' ]'> f
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I. Im'RODUÇÃO ÀFILOSOFIA DO ESPÍRITO 2J. DESCOBRINDOAEXISTÊNCIA
PntuiEngd COM HUSSERL E HEIDEGGER
2. RELER DESCARTES Emmanuel úvinat
Alt.Yir Philmenko 24. AVOCAÇÃO MODERNA
I. AFILOSOFIA NATURAL DE DESCARTES Judi!h Schlanger .
Mithi~Kohayashi . 25. POETICADOPOSSIVEL
4. DESCARTES- AFARULA DO MUNDO Rirbard Ke11rnq
]e11n·Picm Ca1111illi . 26. O FUNDAMEl\'TO EM HEIDEGGER
5. FUNDM!El\'TOS NATURAIS DA ETICA
Direqão lieJean·p;trre Changtux
6. ATEORIA DO SISTEMA GERAL
Mafold4 FariA Blant
27. HEIDEGGER EO PROBLEMA DO ESPAÇO
Diditr Frnnrk
SERENIDADE
]ttm-Loujt Lt Moignt •
7. OSSISTEMASAUTONOMOS 28. DA METAFÍSICA ÀMORAL
Jacqtlu Lorigny Paul Ricouer
8. SOBREAONTOLOGIACDIZE)ITA 29. ASOMBRA DESTE PENSAME"'TO
DE DESCARTES Dominique Janirattd
Jerm-Luc Mnrion JO. O REALISMO DE ROSTO HUMA.'IO
9. O LUGAR DO HOMEM NA NATUREZA Hifary Putnam
P. Ttilbard de Cbardin J I. ADMDA IMPENSADA
10. OJUSTO Marline Ülradtr
Paul Ricoeur
11. PAULRICOEUR-APROMESSAEAREGRA J2. LARIR!l\'TOS
0/iviuAbd . Ritbard Wolin
12. HEIDEGGER EA ESSENCIA DO HOMEM JJ .. MARTIN HEIDEGGER
MichtlHaar EA POLITICA PÓS·MODERNA
ll. O CONCEITO DE AMOR EM SANTO Lu/ie Pau/Thitlt
AGOSTINHO J4. HEIDEGGER EA ÊTICA
Htmnilb Armdt A
]1111nna Hodgt
14. AFILOSOF!ADACIENCIA Jl. INTRODUÇÃO AHEIDEGGER
DE PAUL FEYERABEND Gi1nni Vattimo
Porfirio Silva 36. DESMITIF!Cru'\DO HEIDEGGER
15. HÉIDEGGEREAQUESTÃODOTEMPO
Frnn{Oilt D11Itfl[ ,
Jobn D. Caputo
16. NfRODUÇAOAOl\'TOLOGIA J7. PAUL RICOEUR- AS FRONTEIRAS
Mafolda de FarJ.a B{rmc • DA FILOSOFIA
17. Il\'TRODUÇAOAMETAFIS!CA 0/ivicr Mongin
Mortin Heidtggtr . J8. POLJTICA DO SER- OPENSAME)ITO
18. HEIDEGGER EO SEU SECULO POLITICO DEAIARTIN HEIDEGGER
Jeffrty Andrtw B.mub RifbarJ IVo/in
19. HEIDEGGER EAS PALAVRAS DA ORIGEM J9. RENOVARAFILOSOFIA
Marltne Zarrufer 1/ilary Pumam
20. HAI\~AH ARENDT, 40. POLIEDRO HEIDEGGER
POLITICA E ACOI\'TECIMEl\'TO Dirtqio de Cbar/u GuigtJon
AnntAmitl
21. ll\'TROii>UÇÃOÀLEITURA 41. TRATADODAEFICACIA
DE SERE TEMPO DEMARTIN HEIDEGGER FranfOis]ulliep
Hervi Pa1fua 42. CONSEQUENCIAS DO PRAGMATISMO
22. Sfu'\SO COMUM EMODERl\~DADE RicbarJRmy
EM HM~AH ARENDT 4J. SEREl\~DADE
Anne-Morie Rovidfo Mnrtin lftideggu
SERENIDADE

Título original:
Gelassenheit
Autor:
Martin Heidegger
Colecção:
Pensamento e Filosofia
Direcção de Antônio Oliveira Cruz
Tradução:
Maria Madalena Andrade e Olga Santos
Revisão científica:
João Carlos Sousa Paz
Capa: _
Dorindo Carvallw
© Verlag Günther Neske Pfullingen, 1959
Direitos reservados para a língua portuguesa:
INSTITUTO PIAGET
Av. João Paulo IT, lote 544, 2.0 -1900-726 Lisboa
Telef. 2183717 25
E-mail:
piaget.editora@mail.telepac.pt
Paginação, montagem, impressão e acabamento:
Gráfica Manuel Barbosa & Fillws, Lda.
Depósito legal n.o 146 024/00
ISBN- 972-771-142-1

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida


ou transmitida por qualquer processo electrónico,
mecânico ou fotogt"áfico, incluindo fotocópia, xerocópia
ou gravaçil.o, sem autorização prévia e escrita do editor.
A primeira palavra que me permito dizer publi-
camente, na minha terra natal, só pode ser uma
palavra de agradecimento.
Agradeço a esta terra tudo aquilo que me deu e
que me acompanhou durante um longo caminho.
Tentei exprimir no que consiste esta dádiva ao
longo das breves páginas que apareceram pela
primeira vez na publicação comemorativa do cen-
tenário da morte de Conradin Kreutzer, no ano
de 1949, intitulada «Der Feldweg (O caminho de
campo)>>. Agradeço ao Sr. Schühle, presidente da
câmara municipal, a sua cordial saudação. Agradeço
ainda, em especial, a gratificante missão que me foi
confiada de proferir um discurso comemorativo
nesta homenagem que hoje se realiza.

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PREZADA ASSISTÊNCIA! É pouco provável. Por isso, os organizadores intro-
CAROS CONTERRÂNEOS! duziram no programa um «discurso comemora-
tivo>> cuja função é ajudar-nos expressamente a
Encontramo-nos reunidos numa cerimoma pensar no compositor homenageado e na sua obra.
comemorativa do compositor Conradin Kreutzer, Tal evocação (!lndenken) torna-se viva quando vol-
nosso conterrâneo. Se queremos homenagear um tamos a relatar a biografia de Conradin Kreutzer,
desses homens predestinados à criação artística a enumerar e a descrever as suas obras. Por meio de
impõe-se, em primeiro lugar, honrar condigna- uma tal narração tomamos conhecimento de alegrias
mente a sua obra. No caso de um músico, tal acon- e de tristezas, de aspectos edificantes e de acções
tece dando a ouvir as suas obras. exemplares. Mas, no fundo, limitamo-nos a ser
Neste preciso momento soam canções e coros, entretidos por um discurso. Não é de modo
música de ópera e música de câmara extraídos da nenhum necessário pensar enquanto ouvimos a
obra de Conradin Kreutzer. Nestes sons está o pró- narração, isto é, meditar (besinnen) sobre algo que,
prio artista, pois a presença do mestre na obra é a na sua essência, diz respeito a cada um de nós,
única que é autêntica. Quanto maior é um mestre directa e continuamente. É por isso que nem um
mais completamente a sua pessoa desaparece por discurso comemorativo garante que pensemos
detrás da obra. durante a comemoração.
Os músicos e os cantores que participam nas Não nos iludamos. Todos nós, mesmo aqueles
celebrações deste dia concedem-nos a audição da que pensam por "dever profissional, somos muitas
obra de Conradin Kreutzer neste preciso momento. vezes pobres-em-pensamentos; ficamos sem-pensa-
Será, no entanto, por isso a festa uma comemo- mentos com demasiada facilidade. A ausência-de-
ração? Para que haja comemoração (Gedenkfeier) é -pensamentos é um hóspede sinistro que, no
necessário que pensemos (denken). Mas o que pensar mundo actual, entra e sai em toda a parte. Pois,
e dizer por ocasião de uma comemoração em honra hoje toma-se conhecimento de tudo pelo caminho
de um compositor? Não se distingue a música pelo mais rápido e mais económico e, no mesmo ins- ,
facto de «falar» através do mero ressoar das suas tante e com a mesma rapidez, tudo se esquece. Do
notas e de não necessitar da linguagem corrente, da mesmo modo, os actos festivos sucedem-se uns aos
linguagem das palavras? Diz-se que sim. E, no outros. As comemorações tornam-se cada vez
entanto, subsiste a questão: Será a celebração atra- mais pobres-em-pensamentos. Comemorações e
vés da interpretação musical e do canto já uma ausência-de-pensamentos andam intimamente
comemoração, que envolve o acto de pensar? associadas.

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Contudo, mesmo quando estamos sem-pensa- zaram tantas pesquisas, se praticaram investigações
mentos não renunciamos à nossa capacidade de de forma tão apaixonada, como actualmente. Com
pensar. Temos até uma necessidade absoluta dela, toda a certeza. Esse dispêndio de sagacidade e refle-
de um modo especial, sem dúvida, de tal forma que, xão foi de extrema utilidade. Um tal pensamento
na ausência-de-pensamentos, deixamos improdu- será sempre indispensável. Mas convém precisar
tiva a nossa capacidade de pensar. Não obstante, que será sempre um pensamento de um tipo especial.
só pode ficar improdutivo aquilo que contém em si A sua particularidade consiste no facto de que,
um solo (Grund) onde algo possa crescer, como por quando concebemos um plano, investigamos ou
exemplo um c~mpo agrícola. Uma auto-estrada, na organizamos uma empresa, contamos sempre com
qual nada cresce, nunca se pode transformar num condições prévias que consideramos em função do
baldio. Do mesmo modo que só podemos ficar sur- objectivo que pretendemos atingir. Contamos,
dos pelo facto de ouvirmos e envelhecer pelo facto antecipadamente, com determinados resultados.
de termos sido jovensf só podemos tornarmo-nos Este cálculo caracteriza todo o pensamento planifi-,
pobres-em-pensamentos ou mesmo sem-pensa- cador e investigador. Este pensamento continua a
. mentos em virtude de o homem possuir, no fundo ser um cálculo, mesmo que não opere com núme-
(Grund) da sua essência, a capacidade de pensar, ros, nem recorra à máquina de calcular, nem a um
\«O espírito e a razão», e em virtude de estar destinado dispositivo para grandes cálculos. O pensamento
a pensar. Só podemos perder ou, melhor, deixar de que calcula (das rechnende Denken) faz cálculos. Faz
ter aquilo que, consciente ou inconscientemente, cálculos com possibilidades continuamente novas,
,possuímos. sempre com maiores perspectivas e simultanea-
A crescente ausência-de-pensamentos assenta, por mente mais económicas. O pensamento que calcula
isso, num processo que corrói o âmago mais profundo corre de oportunidade em oportunidade. O pensa-
do Homem actualJ O Homem actual «está em fugai; mento que calcula nunca pára, nunca chega a medi-
:do pensamento». Esta fuga-aos-pensamentos é a tar.. O pensamento que calcula não é um pensamento
· razão da ausência-de-pensamentos. Contudo, tal que medita (ein besinnliches Denken), não é um
fuga ao pensamento deriva do facto de o Homem pensamento que reflecte (nachdenkt) sobre o sen~
não querer ver nem reconhecer essa mesma tido que reina em tudo o que existe.
fuga. O Homem actual negará mesmo, redonda- Existem, portanto, dois tipos de pensamento,
mente, esta fuga ao pensamento. Afirmará o con- sendo ambos à sua maneira, respectivamente,
trário. Dirá - e com pleno direito - que em época legítimos e necessários: o pensamento que cakula e
alguma se realizaram planos tão avançados, se reali- a reflexão (Nachdenken) que medita.

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É a esta reflexão que nos referimos quando dize- O que nos sugere esta celebração, se estivermos
mos que o Homem actual foge do pensamento. dispostos a meditar? Neste caso, atentamos que, do
Objectar-se-á, no entanto, que a pura reflexão não solo da terra natal, medrou (gediehen) uma obra
se apercebe que paira sobre a realidade, que ela de arte. Se reflectirmos sobre este simples facto,
perde o contacto com o solo, não serve para dar teremos imediatamente que nos lembrar que o solo
conta dos assuntos correntes, não contribui em da Suábia produziu grandes poetas e pensadores
nada para levar a cabo a praxis. no século passado e naquele que o precedeu. Se
E, por fim, diz-se que a pura reflexão, a medita- continuarmos nesta linha de pensamento verifi-
ção persistente, é demasiado «elevada» para o camos que a Alemanha Central possui um solo
entendimento comum. Nesta desculpa a única coisa igualmente fértil, bem como a Prússia Oriental, a
Silésia e a Boémia.
correcta é que é verdade que um pensamento que
Somos levados a reflectir e perguntamos: não
medita surge tão pouco espontaneamente quanto
faz parte do êxito (Gedeihen) de uma obra de sucesso
o pensamento que calcula. O pensamento que
o enraizamento no solo de uma terra natal? Johann
medita exige, por vezes, um grande esforço. Requer
Peter Hebel escreveu um dia: «Nós somos plantas
um treino demorado. Carece de cuidados ainda que - quer nos agrade confessar quer não -,
mais delicados do que qualquer outro verdadeiro apoiadas nas raízes, têm de romper o solo a fim
ofício. Contudo, tal como o lavrador, também de poder florescer no Éter e dar frutos» (Obras, ed.
tem de saber aguardar que a semente desponte e Altwegg III, 314).
amadureça. O poeta quer dizer: onde deve medrar uma obra
Por outro lado, qualquer pessoa pode seguir os humana verdadeiramente alegre e salutar, o
caminhos da reflexão à sua maneira e dentro dos Homem tem de poder brotar das profundezas do
seus limites. Porquê? Porque o Homem é o ser solo natal, elevando-se em direcção ao Éter. Éter
(Wesen) que pensa, ou seja, que medita (sinnende). Não significa aqui: o ar livre das alturas do céu, a esfera
precisamos portanto, de modo algum, de nos ele- aberta do espírito.
varmos às «regiões superiores» quando reflectimos. Somos levados a reflectir e perguntamos: aquilo
Basta demorarmo-nos (verweilen) junto do que está que J ohann Peter Hebel diz ainda se aplica nos dias
perto e meditarmos sobre o que está mais próximo: de hoje? Existe ainda esse habitar tranquilo do
aquilo que diz respeito a cada um de nós, aqui e Homem entre a terra e o céu? O espírito que me-
agora; aqui, neste pedaço de terra natal; agora, na dita (sinnende) reina ainda no país? Existe ainda uma
presente hora universal. terra natal, de raízes fortes no solo (Boden), na qual

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o Homem se encontra permanentemente (stiindig Somos levados a reflectir e perguntamos: o que
steht), quer dizer, onde o Homem está enraízado se passa aqui com os expulsos da terra natal, bem
(boden-stiindig ist)? como com aqueles que nela ficaram? Resposta:
Muitos alemães perderam a sua terra natal, tive- O enraizamento (die Bodenstiindigkeit) do Homem
ram de abandonar as suas aldeias e cidades, foram actual está ameaçado na sua mais íntima essência.
expulsos do solo natal. Inúmeros outros, aos quais Mais: a perda do enraizamento não é provocada
foi poupada a sua terra natal e que, mesmo assim, a . somente por circunstâncias externas e fatalidades
deixaram, são apanhados no turbilhão das grandes do destino, nem é o efeito da negligência e do
cidades,itêm de se estabelecer no deserto das .modo de vida superficial dos Homens.,A perda,
: zonas industriais,yTornam-se estranhos à velha terra Ido enraizamento provém do espírito da época;,
natal. E os que nela ficaram? Muitas vezes estão i 110 qual todos nós nascemos. ,
ainda mais desenraizados (heimatloser) do que aque- Continuamos a ser levados a reflectir e pergun-
les que foram expulsos;!A cada hora e a cada dia tamos: sendo assim podem ainda, no futuro, o
. estão presos à rádio e à televisão. O cinema trans-, Homem ou a obra humana medrar do solo da terra
iporta-os semanalmente para os domínios invulga-, :natal e crescer em direcção ao Éter, ou seja, em,:
. res, frequentemente apenas vulgares, da representa- i[direcç~o, à extensão (Weite) do céu e do espírito?'(
ção que simula um mundo que não o é .. Por toda ::Ou cmra tudo nas tenazes do planeamento e do·;
· a parte têm acesso ao «Illustrierte Zeitung»*. Tudo :i cálculo, da organização e da automatização?
aquilo com que, de hora a hora, os meios de infor- Se durante a celebração de hoje reflectirmos
mação actuais excitam, surpreendem, estimulam a sobre o que ela nos sugere, verificamos que a nossa
imaginação do Homem 7 ,;tudo isso está hoje mais época é ameaçada pela perda do enraizamento .
. próximo do Homem do que o próprio campo à E perguntamos: o que está realmente a acontecer
'volta da quinta, do que o céu sobre a terra, do que no nosso tempo? O que caracteriza o nosso tempo?
i o passar das horas do dia e da noite, do que os usos ' Chamou-se recentemente à época que agora
\: e costumes da aldeia, do que a herança do mundo se inicia a era atómica. A sua característica
I da terra natal. mais atormentadora é a bomba atómica. Mas
' esse traço é meramente superficial, pois logo se
reconheceu que a energia atómica tainbém pode ser
* Revista de carácter mais lúdico do que informativo, com publi- utilizada para fins pacíficos. Por isso, a Física
cação geralmente semanal, que contém artigos de interesse geral, Atómica e os seus técnicos estão hoje empenhados,
ilustrados com imagens. (N. T.) em toda a parte, em concretizar a utilização pacífica

16 17
da energia atómica em projectos de longo alcance. aparece agora como um objecto sobre o qual o pen- .
Os grandes consórcios industriais dos países mais sarnento que calcula investe, nada mais devendo '
desenvolvidos, com a Inglaterra à cabeça, já calcula- poder resistir aos seus ataques .. A Natureza trans-
ram que a energia atómica pode tornar-se um forma-se num único posto de abastecimento gigan-
negócio gigantesco. Vislumbra-se no negócio ató- tesco, numa fonte de energia para a técnica e indús-
mico a nova felicidade. A ciência atómica não se tria modernas. Esta relação fundamentalmente
mantém afastada. Ela anuncia publicamente, esta técnica do Homem com o todo do mundo surgiu
felicidade. Por isso, em Julho deste ano, 18 nobeli- pela primeira vez no século XVII, na Europa e uni-
zados declararam textualmente num manifesto, camente na Europa. Permaneceu desconhecida das
na ilha de Mainau* «A Ciência - ou seja, neste restantes partes da Terra durante longo tempo. Era
caso, a moderna Ciência da Natureza- é um cami- totalmente estranha às épocas precedentes e aos
nho para uma vida mais feliz do Homem». destinos dos povos de então.
O que significa esta afirmação? Resulta de uma O poder oculto na técnica contemporânea
meditação? Reflecte sobre o sentido da era ató- determina a relação do Homem com aquilo que
mica? Se ficarmos satisfeitos com a referida afirma- existe. Domina a Terra inteira. O Homem começa
ção da ciência, permaneceremos o mais longe pos- já a sair da Terra em direcção ao espaço cósmico.
sível de uma meditação sobre a era actual. Porquê? Porém, só há duas décadas se tomaram conhecidas,
Porque nos esquecemos de reflectir. Porque nos com a energia atómica, fontes de energia tão enor-
esquecemos de perguntar: em que assenta o facto mes que as necessidades mundiais de energia de
de a técnica científica ter podido descobrir e liber- todo o tipo estarão, em breve, cobertas para sem-
tar novas energias na natureza? pre. Dentro em breve, a produção imediata das
Assenta no facto de estar em curso há alguns novas energias deixará de estar restrita a determina-
séculos uma reviravolta de todas as representações dos países e continentes, como a produção de ener-
dominantes. O Homem é, assim, transposto para gia a partir de carvão, do petróleo e das madeiras
uma outra realidade. Esta revolução radical da -vlsão das florestas. Proximamente poderão ser construí-
do mundo é consumada na filosofia modema.;'Daí das centrais nucleares em qualquer local da terra.
· resulta uma posição totalmente nova do Homem A questão fundamental da ciência e da técnica
, no mundo e em relação ao mundo. O mundo contemporâneas já não é: de onde obteremos as
quantidades suficiente de combustível? A questão
* Ilha situada no Lago de Überlingen (parte noroeste do decisiva é agora a seguinte: de que modo podemos
lago de Constança). (N T.) domar e controlar as inimaginavelmente grandes

18 19
. energias atômicas e, assim, assegurar à humanidade· o mundo técnico. Contudo, uma coisa é ter-
·. que tais energias colossais, subitamente, em qual- , mos ouvido ou lido algo, isto é, termos tomado
' quer parte - mesmo sem acções bélicas -, não; conhecimento disso, outra é co11}:tec!!r!llos, isto
.· fogem ao nosso controlo, não «tomam o freie-nos.: é~reflectirmos (bedenkenfsobr~ o que ouvimos
f'i dentes>> e aniquilam tudo? '· elemos. '•
Quando se tiver conseguido o domínio da ener- Neste Verão de 1955, em Lindau*, teve nova-
gia atômica, e isso será conseguido, começará mente lugar o encontro internacional dos nobeliza-
um desenvolvimento totalmente novo do mundo dos. Disse o químico americano Stanley, por essa
técnico. As técnicas que hoje conhecemos como do ocasião, o seguinte: «~stá_próxima a hora em que a
cinema e da televisão, dos transportes, particular- vida será posta na mão dos químicos, que irão 1

mente do transporte aéreo, da informação, da decom~or, reconstituir e modificar a substância'


medicina e da alimentação representam provavel- _-Viva como lhes aprouver.>> Tomamos conhecimento
. mente apenas um grosseiro estádio inicial. de uma tal declaração. Até admiramos a ousadia da
!Ninguém poderá prever as revoluções que se apro- investigação científica e não pensamos mais nada.
--Ximam. Eni:rétanto a evolução da técni.ca decorrerá Não reflectimos que se prepare aqui, com os meios
cada vez mais rapidamente e não será possível detê- tecnológicos, uma agressão à vida e à natureza
-la em parte alguma. Em todos os domínios da exis- humana, comparada com a qual a bomba de hidro-
tência as forças dos equipamentos técnicos e dos gênio pouco significa. Pois mesmo se as bombas de
autômatos apertarão cada vez mais o cerco. Os hidrogênio não explodirem e a vida humana perma-
poderes que, sob a forma de quaisquer equipamen- necer sobre a terra, com a era atômica aproxima-se
tos e construções técnicos, solicitam, prendem, uma modificação inquietante do mundo.
arrastam e afligem o Homem, em toda a parte e a No entanto, aquilo que é verdadeiramente
toda a hora, já há muito tempo que superaram inquietante _nãQ é_ o facto de o filumlo se tornar ...-
a vont:).de e a capacidade de decisão do Homem cada vez mais técnico. Muito mais inquietante é o
porque não são feitos por ele. fªcto de_o_Homem não estar preparado para esta
Porém, também faz parte da novidade do transformação do mundo, é o facto de nós ainda
mundo técnico o facto de as suas realizações . não çons!!gl!irmo_s,_ através do pensamento que
serem o mais rapidamente possível conhecidas e medita, lidar adequadamente com aquilo que, nesta
admiradas publicamente. Assim, todos podemos ler e::~! ~s1:á realmente a emergir.
hoje em qualquer revista, habilmente dirigida,
ou ouvir na rádio, o que este discurso refere sobre *ilha situada na parte este do lago de Constança. (N. T.)

20 21
Nenhum indivíduo, nenhum grupo de homens, facilmente o não vemos. Porque o caminho para o
nenhuma comissão, mesmo de estadistas, investiga- que está próximo é para nós, homens, sempre
dores e técnicos, por mais importantes que sejam, o mais longo e, por isso, o mais difícil. Este caminho
nenhuma conferência de figuras de proa da econo- é um caminho de reflexão. o pensamento que
mia e da indústria podem travar ou dirigir o decurso medita exige de nós que não fiquemos unilateral-
histórico da era atómica. Nenhuma organização mente presos a uma representação, que não conti-
meramente humana está em condições de alcançar nuemos a correr em sentido único na direcção de
o domínio da era. uma representação. O pensamento que medita
O Homerri da era atómica estaria assim entre- exige que nos ocupemos daquilo que, à primeira
gue, de forma indefesa e desamparada, à prepotên- vista, parece inconciliável.
cia (Übermacbt) imparável da técnica. Seria efectiva- Façamos a experiência. Para todos nós os equi- ·
mente assim se o Homem de hoje renunciasse a pamentos, aparelhos e máquinas do mundo técnico
contrapor ao mero pensamento que calcula o pen- são hoje imprescindíveis, para uns em maior e para
samento que medita para o campo do jogo decisivo. outros em menor grau. Seria insensato investir às
Mas se o pensamento que medita despertar, a refle- cegas contra o mundo técnico. Seria ter vistas cur-
xão tem de estar a trabalhar ininterruptamente e na tas querer condenar o mundo técnico como uma
mínima oportunidade; portanto também aqui e obra do diabo. Estamos dependentes dos objectos
agora e justamente durante esta cerimónia come- técnicos que até nos desafiam a um sempre cres-
morativa, pois ela oferece-nos motivo para reflectir cente aperfeiçoamento. Contudo, sem nos darmos
(bedenken) sobre algo que na era atórnica está parti- conta, estamos de tal modo apegados aos objectos
cularmente ameaçado: o enraizamento das obras técnicos que nos tomamos seus escravos.
humanas. Porém, também podemos proceder de outro
Por isso, perguntamos agora: já que o anterior modo. Podemos utilizar os objectos técnicos e, no
enraizamento (Bodenstlindigkeit) se perde, não pode- entanto, ao utilizá-los normalmente, permanecer
ria ser restituído ao Homem um novo solo (Grund ao mesmo tempo livres deles, de tal modo que os
und Boden), no qual a natureza humana e toda a sua possamos a qualquer momento largar. Podemos
obra pudessem medrar de uma maneira nova, utilizar os objectos técnicos tal como eles têm de
mesmo na era atómica? ser utilizados. Mas podemos, simultaneaiilente,
Qual seria o solo de um futuro enraizamento? deiJ(ar esses ohfe~tos repousar em si mesmos
Talvez aquilo que procuramos com esta pergunta se como algo que não interessa àquilo que tema;s de
encontre muito próximo; tão próximo que muito mais íntimo é de mais próprio. Podemos dizer

22 23
r' /
«sim>> à utilização inevitável dos objectos técnicos e ...)Deste modo reina em todos os processos técni-.
podemos.;o mesmcttempo dizer «não>>, impedindo_ ; cos um sentido que reclama o fazer e o deixar estar I'
que nos absorvam e, desse modo, vergli~J;ii, l;_Õn:- .f (Tun und Lassen) do Homem, um sentido que. i
fundam e, por fim, esgotel1l·a nossa natureza I. o Homem não inventou e produziu primeiro; NãÕ
(Wesen). · · · ·· . .. •·• , sabemOs o que reside no sentido do domínio
Se, no entanto, dissermos desta maneira, simul- crescente da técnica atómica, cada vez mais inquie-
taneamente <<sim>> e <<não>> aos objectos técnicos, tante. O sentido do mundo técnico oculta-se. Porém, se
não se tornará a nossa relação com o mundo técnico agora,
atentarmos particular e constantemente, que
ambígua e incerta? Muito pelo contrário. em todo o mundo técnico deparamos com um sen-
A nossa relação com o mundo técnico torna-se ·tido oculto, então encontramo-nos imediatamente
maravilhosamente simples e tranquila. Deixamos os na esfera do que se oculta de nós e se oculta precisa-
objectos técnicos entrar no nosso mundo quotidiano 'mente ao vir ao nosso encontro. O que, deste modo,
e ao mesmo tempo deixamo-los fora, isto é, dei- se mostra e simultaneamente se retira é o traço fun-
xamo-los repousar em si mesmos como coisas que damental daquilo a que chamamos o mistério.
não são algo de absoluto, mas que dependem elas Denomino a atitude em virtude da qual nos mante-
próprias de algo superior. Gostaria de designar esta imos abertos ao sentido oculto no mundo técnico a
atitude do sim e do não simultâneos em relação ao . abertura ao mistério (die Offenheit for das Geheimnis).
mundo técnico com uma palavra antiga: aJJ!.renida4e A serenidade em relação às coisas e a abertura ao
_para com (lS coj~as (die Gelassenbeit zu Jên_]J.Jngen). segredo são inseparáveis. Concedem-nos a possibili-
Nesta atitude já não vemos as coisas apenas do dade de estarmos no mundo de um modo completa-
ponto de vista da técnica. Tomamo-nos clarividen- mente diferente. Prometem-nos um novo solo sobre
tes e verificamos que o fabrico e a utilização de o qual nos possamos manter e subsistir (stehen und
máquinas exigem de nós, na realidade, uma outra bestehen), e sem perigo, no seio do mundo técnico.
relação com as coisas que, não obstante, não é sem- A serenidade em relação às coisas e a abertura ao
-sentido (sinn-los). Assim, por exemplo, a lavoura e a mistério dão-nos a perspectiva de um novo enraíza-
agricultura transformam-se em indústria alimentar menta. Que um dia poderá mesmo conseguir
motorizada. Não restam dúvidas que aqui - bem recordar, de uma nova forma, o velho enraizamento,
como noutros domínios - se está a operar uma 'que agora se desvanece rapidamente.
'transformação profunda na relação do Homem com Porém, entretanto - não sabemos por quanto
a Natureza e com o mundo. O sentido que rege esta tempo -, o Homem encontra-se sobre esta terra
transformação permanece, todavia, obscuro. numa situação perigosa. Porquê? Apenas porque,

24 25
,::
ii'
inesperadamente, poderá rebentar uma terceira Talvez a cerimónia comemorativa de hoje
guerra mundial que teria como consequência constitua um impulso nesse sentido. Ao cedermos a
o total aniquilamento da humanidade e a destrui- este impulso pensamos em Conradin Kreutzer, ao
ção da terra? Não. Um outro perigo muito maior pensarmos na origem da sua obra, nas forças das
ameaça a era atómica que se inicia - precisamente raízes (Wurzelkrâfte) na terra natal de Heuberg.
quando o perigo de uma terceira guerra mun- E somos nós quem assim pensamos, nós quando nos
dial está afastado. Uma estranha afirmação. sabemos aqui e agora como homens, que temos
Estranha, sim, mas apenas enquanto não reflec- de encontrar e preparar o caminho para, e através de,
timos. a era atómica.
Em que medida é válida a frase que se acabou de Quando a serenidade para com as coisas e a
proferir? É válida na medida em que a revolução da abertura ao mistério despertarem em nós, devería-
técnica que se está a processar na era atómica pode- mos alcançar um caminho que conduza a um novo
ria· prender, enfeitiçar, ofuscar e deslumbrar o solo. Neste solo a criação de obras imortais poderia
Homem de tal modo que, um dia, o pensaiilento lançar novas raízes.
· que calcula viesse a ser o único pensamento admi- Assim, de uma outra forma e numa outra era,
tido e exercido. - seria novamente verdadeira a afirmação de Johann
Então, que grande perigo se aproxima? Então a Peter Hebel:
máxima e mais eficaz sagacidade do planeamento e «Nós somos plantas que - quer nos agrade
da invenção que calculam andaria a par da indife- confessar quer não -, apoiadas nas raízes,
rença para com a reflexão, para com a ausência têm de romper o solo, a fim de poder
total de pensamentos. E então? Então oHo:me.m florescer no Eter e dar frutos.>>
teria renegado e rejeitado aquilo que tem de mais
prÓprio, Oll seja, O facto de ser um ser que reflecte.
Por isso o importante é salvar essa essência do
homem. Por isso o importante é manter desperta a
reflexão.
Porém - a serenidade para com as coisas e a
abertura ao mistério nunca nos caem do céu. Não
são frutos do acaso (nichts Zu-fiilliges). Ambas
medram apenas de um pensamento determinado e
ininterrupto.

26 27
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(E) I - Por fim, afirmava você que a questão da essên-
cia do homem não era uma questão sobre o
PROFESSOR homem.
(P)
P - Eu perguntava apenas, algo que é incontorná-
vel considerar, se isso não se levanta com a
questão da essência .
I - Seja como for, não consigo compreender cOIJ;IQ__ ,
p-~~erá algtlllla vez ser encontrada a essência do I
homem desviando o olhar do homem.
P- Para mim isso também é ÜH:Qmp_re(!Il.SÍ.Yt:l,
por isso procuro ver mais claramente em que
medida tal é possível ou, talvez, até necessário.
I - Aperceber a essência do homem sem olhar na
direcção do homem?!
P - Sim. Se o pensamento é o traço distintivo da
essência do homem, então o essencial desta
essência, ou seja, a essência do pensamento, só
pod('!ser apercebida desviândooolhar. do pen- '

sarnento.

31
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E- O pensamento é, no entanto, concebido na P - Eu não vejo apenas essa relação. Se me permi-
t:
·" forma tradicional como representação, como tem confessá-lo, sou chamado (angesprochen),
um querer; também Kant concebe assim o pen- se não mesmo interpelado (angerufen), por ela,
samento quando o caracteriza como esponta- desde que procuro reflectir sobre o que move a
neidade. P~nsªr é qu,~r~Le.. quen:.r. é P!!n.sar.. nossa conversa.
I - A afirmação de que a essência do pensamento é I - Será a minha presunção correcta ao determinar
algo diferente do pensamento significa então a relação entre um não-querer e o outro da ,
que o pensamento é algo diferente do querer. seguinte forma? Quer um não-querer no sentido i
P - Também por isso, à questão sobre o que eu na da recusa do querer a fim de que, através deste, '
realidade pretendia com a nossa meditação r possamos avançar em direcção à procurada l
sobre a essência do pensamento, lhe respondo essência do pensamento, que não é um querer i
o seguinte: quero o não-querer. ou, pelo menos, prepararmo-nos para tal.
I -Esta expressão revelou-se-nos, entretanto, P - Não só a sua presunção é correcta como, pelos
como sendo ambígua. Deuses, diria eu se eles não nos tivessem aban-
E- Não-querer significa, em primeiro lugar, donado, descobriu algo essencial.
um querer, um querer dominado por um não, E - Se competisse a algum de nós tecer elogios e se
mesmo no sentido de um não que incide sobre tal não estivesse fora do estilo das nossas conver-
o próprio querer e o recusa. Não-querer sig- sas, estaria tentado a dizer que você nos superou
nifica, portanto, recusar voluntariamente e se superou a si próprio com a interpretação
o querer. A expressão não-querer significa (Auslegung) da expressão ambígua <<não-querer».
também, em segundo lugar, o que é pura e sim- I -Tê-lo conseguido não é mérito pessoal mas sim
plesmente estranho a todo o tipo de von- da noite que caiu entretanto e nos obriga,
tade. voluntariamente, a recolher.
I - Por isso, também nunca pode ser realizado e E- Dá-nos tempo para meditar (Nachsinnen) já que
alcançado por meio de um querer. nos afrouxa o passo.
P - Mas talvez nos aproximemos dele através de P - Razão pela qual também ainda estamos longe
um querer do tipo do não-querer designado em das habitações dos homens.
primeiro lugar. I - Cada vez mais liberto, confio na direcção
E- Vê, portanto, um e outro não-querer como (Geleit) invisível que, durante esta conversa, nos
estando relacionados um com o outro de um leva pela mão ou, melhor dizendo, nos leva
determinado modo. pela palavra.

32 33
E- Precisamos dessa direcção, porque a conversa E- Talvez se oculte na serenidade (Gelassenheit)
se toma cada vez mais diffcil. uma acção mais elevada do que todas as acções
P - Se por diffcil entende o não-habitual, que con- do mundo e do que todos os feitos da huma-
siste no facto de nos desabituarmos da vontade. nidade...
E - Da vontade, diz você, e não apenas do querer... P - ... acção mais elevada que não é, no entanto,
I -e exprime você com tanta serenidade uma uma actividade.
pretensão tão polémica. I - Logo, a serenidad-e está, caso se possa aqui falar
P - Se já tivesse a devida serenidade, em breve esta- de um estar (Liegen), fora da distinção de activi-
ria dispensado da referida desabituação. dade e de passividade ...
E- Na medida em que pelo menos nos podemos E- ... porque a serenidade não pertence ao domfuio f
desabituar do querer, ajudamos a despertar a da vontade.
serenidade. I - A transição do querer para a serenidade parece-
P - Ou antes, ajudamos a mantermo-nos despertos -me ser o ponto diffcil.
para a serenidade. P - Especialmente quando a essência da serenidade
E- Por que não ajudar a despertar? ainda nos permanece oculta.
P - Porque o despertar da serenidade em nós não E- E isso sobretudo pelo facto de a serenidade
parte de nós próprios. também poder ser concebida no domínio da
I - A serenidade é, portanto, provocada por outros vontade, tal como o foi por antigos mestres do
metos. pensamento como, por exemplo, Meister
P - Não é provocada, mas sim permitida. Eckhart.
E- Com efeito, ainda não sei o que significa a P - Com o qual, não obstante, há muito de bom a
palavra serenidade; mas suponho vagamente aprender.
que ela desperta quando ao nosso ser (Wesen) E- Com certeza; mas é evidente que a serenidade
lhe é permitido aceder (zugelassen ist, sich auf por nós mencionada não significa a rejeição
das einzulassen) a algo que não é um querer. do egoísmo pecaminoso, nem o abandono da
I -Fala sempre de um deixar (Lassen), de tal modo vontade própria em prol da vontade divina.
que dá a impressão de se referir a uma espécie P- Pois não.
de passividade. Não obstante, julgo saber que I - Aquilo que, para nós, a palavra serenidade não
não se trata de modo algum de um deixar desli- deve designar é para mim claro, em muitos
zar e deixar à deriva (kraftloses Gleiten- und aspectos. Mas, ao mesmo tempo, sei cada vez
Treibenlassen) as coisas. menos sobre aquilo de que estamos a falar.

34 35


r:'

li
f. até agora não experienciada, essência do pensa-
Procuramos, pois, determinar a essência do mento?
pensamento. O que tem a serenidade a ver com P- Devemos pensar no único ponto de partida
o pensamento? l.-, possível para esta passagem.
P- Nada, se concebermos o pensamento como E- Não quer, então, abandonar a interpretação da
representação, tal como o fizemos até aqui. essência do pensamento admitida até agora?
t
Mas talvez a essência do pensamento, que pro- ;_;L P - Esqueceu-se do que eu disse na nossa conversa
curamos, entre (eingelassen) na serenidade. anterior sobre o que é revolucionário?
I -Não consigo representar (varstellen) essa essên- r I - Parece-me que o esquecimento é particular-
cia do pensamento, nem com a maior boa von- l-:
mente perigoso neste tipo de conversas.
tade. E- Se bem entendo, devemos agora ver aquilo
P - Precisamente porque essa maior boa vontade e a que chamamos serenidade, mas que mal
o seu tipo de pensamento como representação conhecemos e, sobretudo, não conseguimos
o impedem de o fazer. inserir correctamente em parte alguma no
I - Céus, que deverei então fazer? contexto da essência do pensamento em dis-
E- O mesmo me pergunto eu. cussão.
P - ~ão devemos fazer nada a não ser aguardar. P - É precisamente isso que eu quero dizer.
E - E uma fraca consolação. I - Apresentámos (vergegenwiirtigen), em último
P - Fraca ou forte, também não devemos aguardar lugar, o pensamento sob a for111a dw:fepresen"-
qualquer consolação, que é afinal o que faze- . ta~; tran~ícéidental-horizorii:al.
mos quando mergulhamos no desconsolo. E- Êssé ~epresentàr apresenta, por exemplo, o
I - Devemos aguardar porquê? E onde devemos carácter arbóreo da árvore, o carácter de jarro
aguardar? Quase que já nem sei onde estou, do jarro, o carácter de taça da taça, o carácter . 1 ·
nem quem sou. de pedra da pedra, o carácter de planta das ·
;I P - Todos o deixaremos de saber assim que deixar- plantas, a animalidade do animal como o pano-
., mos de nos enganar a nós próprios. rama (Aussicht) para que olhamos quando está
E- Mas não temos ainda o nosso caminho? diante de nós uma coisa no aspecto (imAussehen)
P- Sem dúvida. No entanto, ao esquecê-lo com da árvore, uma coisa no aspecto do jarro, outra
demasiada rapidez, renunciamos ao pensa- no aspecto da taça, várias no aspecto da pedra,
mento. muitas no aspecto das plantas e muitas no
I - Em que devemos então pensar, se temos de aspecto do animal.
passar para e penetrar na (über- und eingeben)

37
36
I - O horizonte que você, mais uma vez, descreve P- A horizontalidade é, assim, apenas o lado
é o campo de visão que circunscreve o pano- virado para nós de um aberto que nos rodeia,
rama. que está preenchido com panoramas do aspecto
P - Ele excede o aspecto dos objectos. daquilo que aparece como objecto à nossa
E- Tal como a transcendência ultrapassa a percep- representação.
ção dos objectos. I - O horizonte é, portanto, também algo dife-
P - Definimos, assim, os ternios horizonte e trans- rente (etwas Anderes) de um horizonte. Mas
cendência por meio do exceder (Übertreffen) e este outro é, de acordo com o discutido, o
do ultrapassar (Überholen) ... outro de si mesmo e, por isso, o mesmo que ele
E- ... que se referem aos objectos e à representa- é. Você diz que o horizonte é o aberto que nos
ção dos objectos. rodeia. O que é ele mesmo, este aberto, se
P - O horizonte e a transcendência são assim expe- abstrairmos do facto de que ele também pode
rienciados (erfahren) a partir dos objectos e da aparecer como horizonte da nossa repre-
nossa actividade de representação e são defini- sentação?
dos apenas em relação aos objectos e à nossa P- Vejo-o como uma região (Gegend) por cuja
actividade de representação. magia tudo aquilo que lhe pertence retoma ao
E- Por que acentua isso? sítio onde repousa.
P - Para indicar que, deste modo, o que deixa o E - Não tenho a certeza se compreendo alguma
horizonte ser o que é (sein liisst) ainda não foi, coisa daquilo que acaba de dizer.
de modo algum, experienciado. P - Eu também não compreendo, se por «com-
I - Em que está a pensar quando faz essa afirma- preender>> entende a capacidade de representar
ção? o que se oferece, de tal forma que fica como
P - Dizemos que olhamos para dentro do horizonte. que subordinado (untergestellt) ao e, com isso,
O campo de visão é, portanto, um aberto cuja assegurado pelo, conhecido; pois também não
abertura não lhe advém do facto de olharmos possuo o conhecido no qual possa enquadrar
para dentro dele. (unterbringen) o que tentei dizer sobre o aberto
E- Do mesmo modo, também não metemos o como região.
aspecto dos objectos, que o panorama do campo I - Isso é impossível justamente porque, provavel-
de visão nos fornece, dentro desse aberto. mente, aquilo que você designa como região é
I - O aspecto é que vem ao nosso encontro a partir isso mesmo que em primeiro lugar garante
do aberto. todo o abrigo (Unterkunft).

38 39
P - É mais ou menos isso que quero dizer, mas não E - A sua forma mais antiga é «Região» (Gegnet) e -
apenas 1sso. significa a extensão livre (die freie Weite).
E- Você falava de «uma» região na qual tudo Podemos extrair daí alguma coisa sobre a
retorna a si. Uma região para tudo não é, essência daquilo que gostaríamos de designar
em rigor, uma região entre outras, mas sim a região?
região de todas as regiões. P - A região reúne, tal como se nada acontecesse,
P - Tem razão; trata-se de a região. cada coisa com cada coisa e todas entre si no
I - E a magia dessa região é, com efeito, o reinar demorar-se (das Verweilen) no repouso em si
da sua essência (das Jillálten ihres Wesens), o que próprio. Fazer região de encontro é o reabrigar
faz região de encontro (das Gegnende), se me é reunificante no extenso repousar na duração
permitido designá-lo assim. (das versammelnde Zurückbergen zum weiten
E- Com base no significado literal da palavra, Beruhen in der Weile)
<<região>> seria aquilo que vem ao nosso encontro E - Assim, a própria região é simultaneamente a
(was uns entgegenkommt); dizíamos também, pois, extensão e a duração. Demora-se na extensão
que a partir do panorama delimitado pelo hori-
do repousar. Estende-se na duração do que se
zonte o aspecto dos objectos vem ao nosso
fechou-em-si-próprio livremente. Podemos,
encontro. Se concebermos agora o horizonte a
partir da região, apreendemos a própria região por isso, atendendo ao uso sublinhado desta
como o que vem ao nosso encontro (das uns palavra, dizer em vez do nome corrente
Entgegenkommende). «região>> (Gegend), também «Região>> (Gegnet).
P - Deste modo, caracterizaríamos a região tal P - A Região é a extensão que faz demorar-se que,
como anteriormente o horizonte, a partir da tudo reunindo, se abre de modo a que nela o
relação connosco, enquanto continuamos a aberto seja mantido e solicitado (gehalten und
procurar aquilo que é em si o aberto que nos angehalten) a deixar cada coisa abrir-se no seu
rodeia. Se dissermos que é a região, e se o dis- repouso.
sermos sem abandonarmos o objectivo antes I -Parece-me aperceber que a Região mais
referido, então a palavra «região>> tem de depressa se retira do que vem ao nosso encon-
designar outra coisa. tro ...
I - Além disso, o vir ao encontro não é, de modo E- de modo que também as coisas que apare-
algum, uma, e ainda menos a, característica cem na Região já não têm o carácter de objectos.
fundamental da região. O que significa então a P - Não só já não estão diante de nós como deixam
palavra região? mesmo de estar (stehen ).

40 41
I -Jazem (liegen) então ou o que se passa com elas? E- na medida em que aguardamos (warten) pela
P- Jazem; se, com isso, designarmos o Repousar sua essência.
(Ruben) que é denominado ao falar-se do repou- P - Aguardar, pois bem; mas nunca estar em expec-
sar/assentar (Beruhen). tativa (erwarten); pois o estar em~ expectativa
I - Mas onde Repousam as coisas e em que consiste prende-se já com uma representação e com o
o Repousar (das Ruben)? seu objecto representado.
P-Elas Repousam no retomo à duração da exten- E- O aguardar, no entanto, prescinde disso; terei
são da sua pertença a si próprias. de dizer antes: O aguardar nem sequer se deixa
E- Pode então existir um Repouso no retomo que aceder (liisst sicb ... nilcbt ein) pela re-presenta-
é movimento? ção (Vor-stellen). Com efeito, o aguardar não
P - Com certeza, caso o Repouso seja o foco e o tem qualquer objecto.
reino (T-Valten) de todo o movimento. I - Mas, quando aguardamos, aguardamos sempre
I -Tenho de confessar que não consigo represen- por alguma coisa.
tar correctamente tudo o que acabou de dizer E- Decerto; mas assim que representamos e con-
sobre a região, a extensão e a duração, sobre o solidamos (zum Steben bringen) aquilo por
retomo e o repousar. que aguardamos deixamos de aguardar.
E- Não se pode mesmo representar, na medida em P- No aguardar deixamos aberto aquilo porque
aguardamos.
que, através da representação, o que está diante
E- Porquê?
de nós/nos enfrenta (entgegemteben) num hori-
P - Porque o aguardar aventura-se (sicb einlasst) no
zonte já se tomou um objecto (Gegendstand).
próprio aberto ...
I -Então também não podemos propriamente E- na extensão do longínquo ...
descrever aquilo de que falamos? P- em cuja proximidade encontra a duração, na
P - Não. Qualquer descrição teria de o apresentar qual permanece.
(vorfobren) como objecto. I - Mas permanecer é um retomar.
E - Não obstante, pode ser designado e, através da E - O próprio aberto seria aquilo por que apenas
designação, pensado ... poderiamosaguardar.
.JP- cas? o pensamento deixe de ser uma represen- I - Mas o próprio aberto é a Região ...
. taçao. P - na qual, aguardando, somos admitidos quando
I - Mas o que será, então, o pensamento? pensamos.
P - Talvez estejamos agora próximos de ser admiti- I - O pensamento seria, então, o chegar-à-proxi-
. dos (eingelassen) na essência do pensamento ... midade do longínquo.

42 43
E- Isso é uma definição ousada da sua essência que representação, permanecer puramente entre-
nos aparece caída do céu. gue/abandonado (überlassen) à Região. .
I - Apenas resumi o que designámos antes, sem p- s~ bem e;'ltendo,.você proc~av? aceder à sere- ~
representar o que quer que seja. rudade (stch aufdte Gelassenhett emzulassen). 'i
P - E, no entanto, você pensou em algo. I - Para falar francamente, não estava propria-
I - Na verdade, aguardei por algo, sem saber o quê. mente a pensar nisso, embora, há pouco, se
E- Mas como pode você de repente aguardar? discutisse a serenidade. Fui mais levado pelo
I - Há muito que aguardava, na nossa conversa, andamento da conversa do que pela represen-
como só agora vejo com mais clareza, pela tação dos vários objectos, de que falámos, a
chegada da essência do pensamento. Mas agora aceder ao aguardar do modo referido.
o próprio aguardar tomou-se-me mais evidente E - Dificilmente podemos alcançar a serenidade de
e, simultaneamente, o facto de todos nós forma mais adequada do que por meio de uma
termos provavelmente ficado mais esperançosos ocasião para nos envolvermos (eine Veranlassung
durante o caminho. zum Sicheinlassen).
P - Pode-nos dizer em que medida isso é assim? P - Sobretudo quando a ocasião é ainda tão pouco
I -Tentarei com muito prazer, se não tiver de aparente como o andamento silencioso de uma
correr o perigo de você me reduzir imedia- conversa que nos move/encaminha (bewegt).
tamente a algumas palavras. E- O que quer, pois, dizer que nos põe no cami-
P - Mas isso não é costume nas nossas conversas. nho. Caminho esse que parece não ser outra
Ji: - Preferimos mover-nos livremente nas palavras. coisa senão a própria serenidade...
ffp ~ Porque a palavra não, e nunca, representa algo, P - que é algo como o Repouso.
L mas significa (be-deutet) algo, isto é, mos- E- A partir daqui toma-se, de súbito, mais claro
trando-o, fá-lo demorar-se na extensão do seu para mim em que medida o movimento vem
i dizível. do Repouso e no Repouso permanece envolvido.
I ;T Permitam-~e que diga como alcanc~i o aguar~ P - A serenidade seria, então, não apenas o cami-
/ j e qual a drrecção em que consegm uma clan- nho·(Weg) mas também o caminhar/movi-
ficação da essência do pensamento. Visto que mento (Bewegung).
o aguardar sem representar algo conduz ao E- Para onde vai este estranho caminho e onde
. aberto, procurei libertar-me de toda a repre- Repousa o caminhar que lhe é próprio?
\1 sentação. Visto que o que abre o aberto é P- Para onde/onde poderia ser senão para/em a
·I a Região, tentei, liberto (losgelassen) de toda a Região, em relação à qual a serenidade é o que é?

44 45
I - Tenho de perguntar finalmente agora - em que I - Por outro lado, entendo melhor a observação
medida é de facto a serenidade aquilo em que fez sobre a denominação e sobre a não
que eu me procurava envolver? existência do sem-nome.
E- Com esta pergunta põe-nos num terrível E- Porque o podemos verificar no caso do nome
embaraço. «serenidade».
P - É o embaraço em que nos encontramos cons- P - Ou já verificámos.
tantemente no nosso caminho. I - Em que medida?
I - De que modo? P- O que é isso que você denominou com o
P-Uma vez que aquilo que antes denominamos nome serenidade?
com uma palavra nunca tem a respectiva pala- I - Se me permite, não fui eu quem usou o nome,
vra, como nome, pendurada como um letreiro. mas sim você.
I - Aquilo que denominamos é, à partida, sem- P - Tal como você também não fui eu quem proce-
-nome (namenlos); portanto, o mesmo acontece deu à denominação.
ao que denominamos serenidade. Então por E- Quem foi então? Nenhum de nós?
que nos orientamos para avaliar que o nome é P- Provavelmente; pois, na região, onde nos
adequado e até que ponto é adequado? encontramos, só se não tiver sido nenhum de
E- Ou não passa qualquer denominação de um
nós é que tudo estará na melhor ordem.
acto arbitrário relativamente ao sem-nome?
I - Uma região enigmática onde não há nada que
P - Mas está então, assim, decidido que existe o
sem-nome? Muitas coisas são muitas vezes para possa responder (verantworten).
nós indizíveis, mas apenas pelo simples facto de P - Porque é a região da palavra que apenas res-
não nos ocorrer o seu nome. ponde perante si própria.
E- Com base em que denominação? E- Só nos resta escutar a resposta conforme à
P - Talvez estes nomes não resultem de uma deno- palavra.
minação (Benennung). Devem-se a uma nomea- P - Isso é suficiente; mesmo quando o nosso dizer
ção (Nennung) na qual surgem sobretudo o não passa de um repetir (Nachsagen) da resposta
nomeável, o nome e o nomeado. ouvida...
I - O que acabou de dizer sobre a nomeação é para I - quando não faz diferença que um seja o primeiro
mim obscuro. e quem é o primeiro a repetir, tanto mais que
E - O que deve certamente estar relacionado com a ele, frequentemente, não sabe quem repete
essência da palavra. quando o diz.

46 47
E~ Por-isso não queremos discutir sobre quem (Vor-stellen). A Região rodeia-nos e mostra-se-
, introduziu primeiramente na conversa o nome -nos como horizonte.
,'• «serenidade»: queremos apenas reflectir sobre E- Acho antes que ela se oculta (verhüllt) como
) ~ que é isso que denominamos deste modo. horizonte.
1
i' I - E, falando a partir da minha experiência men- P - Certamente; mas, não obstante, estamos na
cionada, o aguardar. região ao representar transcendentalmente,
P - Portanto, não algo sem-nome mas sim algo já saindo para o horizonte. E, por outro lado, não
denominado. O que é este aguardar? estamos dentro dela uma vez que ainda não
:!· I - Na medida em que se relaciona com o aberto, tínhamos acedido a ela própria como Região.
j e este é a Região, podemos dizer que o aguar- I - O que acontece, porém, no aguardar.
1 dar é uma relação com a Região. P - Ao aguardar, como você já disse, estamos liber-
P - Talvez mesmo a relação com a Região, na tos (losgelassen) da relação transcendental ao
medida em que o aguardar se envolve na horizonte.
Região e, ao admitir-se (Sicheinlassen) nela, I -Este estar-liberto (Gelassensein) é o primeiro
deixa a Região reinar meramente como Região. momento da serenidade. No entanto, não atinge,
E- Uma relação com algo seria então a verda- e muito menos esgota, a sua essência.
deira relação, se esta for mantida na sua pró- E- Como assim?
pria essência por aquilo com que se rela- P- A autêntica (eigentliche) serenidade pode acon-
ciOna. tecer sem que o estar-liberto da transcendência
P - A relação com a Região é o aguardar. E aguar- horizontal a preceda necessariamente.
dar significa: envolver-se no aberto da Região. E- Se a autêntica serenidade deve ser a relação
E- Portanto, entrar na Região. adequada com a Região e uma tal relação se
I - Isso soa como se tivéssemos estado anterior- determina meramente a partir daquilo com que
mente fora da Região. se relaciona, a autêntica serenidade tem de
P - Estivemos e não estivemos. Não estamos nem repousar na Região e ter recebido desta o movi-
nunca estamos fora da Região, uma vez que, mento para a Região.
como seres pensantes, ou seja, ao mesmo P - A serenidade vem da Região, porque consiste
tempo, ao representar transcendentalmente, no facto de o Homem permanecer confiado/
permanecemos no horizonte da transcendên- /sereno (gelassen) à/na região, precisamente
cia. O horizonte é, porém, o lado da Região através dela. Está-lhe confiado na sua essência
virado para o nosso poder de re-presentação na medida em que pertence originalmente à

48 49
Região. Pertence-lhe na medida em que está P- No entanto, com isso diz que a essência do
inicialmente a-propriado (ge-eignet) à Região pensamento não pode ser determinada a partir
(Gegnet), precisamente através da própria do pensamento, i. e., a partir do aguardar
Região. enquanto tal, mas sim a partir do outro de si
E- Com efeito, o aguardar, supondo que é um mesmo (Anderer seiner selbst), ou seja, a partir
aguardar essencial, isto é, um aguardar decisivo da Região, que é (west) na medida em que
a respeito de tudo, fundamenta-se no facto de regionaliza.
nós pertencermos àquilo porque aguardamos. I - Pude seguir, de certo modo, tudo aquilo que
P - A partir da experiência do aguardar, isto é, do dissemos agora sobre a serenidade, Região e
aguardar pelo abrir-se da Região e na relação regionalização; não obstante, nada consigo
com tal aguardar, esta foi re-ferida (an-gespro- representar sobre isso.
chene) como a serenidade. E- Também não deve fazê-lo, se quiser pensar no
E- A denominação do aguardar pela Região é, por
que foi dito de acordo com a sua essência.
isso, correspondente (entsprechende).
I - Quer dizer que, de acordo com a nova essência
I -Mas se a representação transcendental-hori-
do pensamento, aguardamos por algo.
zontal, da qual a serenidade se liberta pelo
E- Aguardamos pela regionalização da Região de
facto de pertencer à Região, é, pois, a essência
do pensamento até agora dominante, então, na modo que esta regionalização permita que a
serenidade, o pensamento a partir de uma tal nossa essência aceda à Região, ou seja, à per-
representação transforma-se no aguardar pela tença à Região.
Região. P - Mas, e se já estivermos apropriados à Região?
P - A essência deste aguardar é, porém, a serenidade I - De que nos serve isso, no entanto, se ainda o
em relação à Região. Mas como é a Região que não estamos verdadeiramente?
cada vez mais deixa que a serenidade lhe per- E- Estamo-lo, portanto, e não o estamos.
tença, porque a deixa repousar em si, a essência I - De novo o inquieto vaivém entre sim e não.
do pensamento repousa no facto de que E- Estamos como que suspensos entre ambos.
a Região, se assim o posso dizer, regionaliza P - No entanto, a permanência (Aufenthalt) neste
(vergegnet) em si a serenidade. entre é o aguardar.
E- O pensamento é a serenidade em relação à E- E isso é a essência da serenidade, para a qual o
Região porque a sua essência repousa na regio- fazer região de encontro (Gegnen) da Região
nalização (Vergegnis) da serenidade. (Gegnet) regionaliza (vergegnet) o Homem.

50 51
Nós pressentimos a essência do pensamento E - Aquilo que diz agora parece-me ser tão decisivo
como serenidade. que gostaria de tentar fixar o que foi dito na ter-
P - Para a voltarmos rapidamente a esquecer. minologia erudita. Com efeito, sei muito bem
I - Serenidade essa que eu próprio experienciei que a terminologia não só cristaliza (erstarren
como o aguardar. liisst) os pensamentos como simultaneamente
P- Nós consideramos que o pensamento não é, de os torna de novo ambíguos, correspondendo à
,, modo algum, a serenidade subsistente por si só. ambiguidade (Vieldeutlichkeit) inevitavelmente
A serenidade em relação à Região é o pensa- inerente às terminologias usuais.
'" mento apenas como a regionalização da sereni- P - Depois dessa reserva erudita, pode falar à von-
'i dade. Regionalização que deixou a serenidade tade de forma erudita.
li aceder à Região. E- De acordo com a sua exposição, a relação da
E - A Região faz demorar-se agora também a coisa Região com a serenidade não é nem uma rela- ..
na duração da extensão. Como havemos de ção de efeito causal nem a relação horizontal- }
denominar o fazer região de encontro da Região -transcendental. Abreviando e generalizando: f
em relação à coisa?
a relação entre a Região e a serenidade, se é ·'.·.
I - Não pode pois ser a regionalização, uma vez
que esta é a relação da Região com a sereni-
que ainda é uma relação, não pode ser pensada I
nem como ôntica nem como ontológica...
dade, devendo a serenidade, no entanto, abrigar
P - apenas como a regionalização.
dentro de si a essência do pensamento, mas as
I - Do mesmo modo, também agora a relação
próprias coisas não pensam.
P - As coisas são manifestamente coisas por meio do entre Região e coisa não é uma relação de efeito
fazer região de encontro da Região, como se causal, nem a relação transcendental-hori-
mostrou na nossa conversa anterior com o demo- zontal, portanto, também não é nem ôntica
rar-se do jarro na extensão da Região. O mero nem ontológica.
fazer região de encontro da Região não causa E- Mas é evidente que a relação da Região com a
nem produz as coisas, nem tão pouco a Região coisa também não é a regionalização, que diz
causa a serenidade. A Região também não é, na respeito à essência do homem.
regionalização, o horizonte para a serenidade; P - Como devemos então denominar a relação da
também não é o horiwnte para as coisas, quer as Região com a coisa se a Região deixa demorar-se
tenhamos apenas experienciado como objectos, (weilen liisst) a coisa em si própria como a coisa?
. . .
quer as VIsemos como as «cmsas em si», repre- I - A Região condiciona a coisa a ser coisa (bedingt
sentadas a partir dos objectos. das Ding zum Ding).

52 53
E- Por isso se deve antes chamar a essa relação o P - em que se tomaram mesmo antes de atingirem
Condicionamento (das Bedinf!7Zis). a sua natureza coisal (Dingwesen).
I - Mas o Condicionar não é um fazer e causar; E- O mesmo é válido em relação à respectiva
nem um possibilitar no sentido do transcen- mutação histórica da natureza humana (Menschn-
dental... wesens) em egoidade (Ichheit) ...
P - mas apenas o Condicionamento. P - que teve lugar igualmente antes que a essência
I - Temos portanto, antes de mais, que aprender a pudesse regressar a si própria...
pensar o que é o condicionar... I - caso não consideremos como definitiva a carac-
P - ao aprendermos a experienciar a essência do terização da essência do homem como animal
pensamento ... raciona/e ...
E- e aguardar portanto pelo Condicionamento e E- o que dificilmente será possível depois da con-
pela regionalização. versa de hoje.
,I -Contudo, agora as denominações já são uma I - Hesito em decidir-me tão rapidamente nesse
•J ajuda para trazer uma certa transparêl}cia à sentido. Entretanto, outra coisa ficou clara para
/ multiplicidade de relações mencionadas. E ver- mim: na relação entre o eu e o objecto oculta-
i] dade que ainda ~ermanec~ indete~ad~ jus- -se algo de histórico que pertence à história da
:! tamente a relaçao em CUJa caractenzaçao eu essência do homem.
•;I estou mais interessado. Refiro-me à relação do P - É apenas porque a essência do homem não recebe
I Hornem com a cmsa.. as suas características do Homem, mas sim
i -
E- Por que está tão teimosamente preso a essa daquilo que designamos por Região e a sua
relação? regionalização, que a história que você pressente
I - Não partimos anteriormente do princípio de acontece (ereignet) como a história da Região.
esclarecer a relação entre o eu e o objecto I - Não consigo segui-lo até tão longe nos meus
a partir da relação de facto do pensamento pensamentos. Fico satisfeito se a perspectiva
físico com a Natureza? A relação entre o eu e (Einsicht) sobre o carácter histórico da relação
o objecto, muitas vezes designada relação entre o eu e o objecto esclarecer uma obscuri-
sujeito-objecto (Subjekt/Objekt), que eu consi- dade que me ficou. Com efeito, quando me decidi
derava a mais geral, é, manifestamente, ape- pelo lado metodológico da análise das Ciências
nas uma variação histórica da relação do da Natureza matemáticas, você disse que esta era
Homem com a coisa, desde que as coisas se uma consideração Histórica (historische).
possam tomar objectos (Gegenstiinden) ... E- Afirmação que você contestou vivamente.

54 55
I - Agora estou a ver o que queria dizer. O projecto P - Quando acedemos à serenidade em relação à
matemático e a experiência baseiam-se na Região queremos o não-querer.
'l.
\i relação do Homem como Ego com a coisa I - A serenidade é, de facto, o libertar-se do repre-
como objecto. sentar transcendental e, assim, um prescin-
P - Você até contribui para o esclarecimento desta dir do querer do horizonte. Este prescindir
relação e para trazer à luz (entfolten) a sua natu- já não procede de um querer, a não ser que
reza histórica. o motivo para a admissão (Sicheinlassen) na
I - Se designarmos Histórica qualquer considera- pertença à região careça de um vestígio do que-
ção que versa sobre o histórico (Geschichtliches), rer, vestígio esse que, porém, desaparece na
então a análise metodológica da Física é, de admissão e se extingue por completo na sereni-
facto, Histórica. , dade.
E - Em que o termo «Histórico» significa um modo E- Mas em que medida é que a serenidade se refere
de conhecer e é entendido em sentido lato. ao que não é um querer?
P - Provavelmente na direcção do histórico que P - Depois de tudo o que dissemos sobre o demo-
não consiste nos eventos nem nos feitos do rar-se da extensão que dura, o deixar repousar
no retorno, o fazer região da Região, dificil-
mundo.
mente se pode falar da Região como vontade.
E- Nem nas realizações culturais do Homem.
E- Já o facto de a regionalização da Região, bem
I -Em que consiste então?
como o Condicionamento, serem essencial-
P- O histórico repousa na Região e no que acon- mente exteriores a qualquer actividade ou cau-
tece como Região que, remetendo-se/conce- sação, mostra quão decisivamente toda a essên-
dendo-se (sich zurückschickend) ao Homem, o cia da vontade é estranha a tudo isso.
regionaliza na sua essência. P - Pois toda a vontade quer ter efectividade (wir-
E- Essência que, no entanto, mal experienciámos, ken) e quer a realidade efectiva (Wirklichkeit)
uma vez que ainda não se cumpriu na racionali- como seu elemento.
dade do animal. I - Com que facilidade não poderia uma pessoa
I -Numa tal situação só podemos aguardar pela que nos ouvisse dizer isto ser levada a afirmar
essência do homem. que a serenidade paira no irreal (Unwirklichkeit)
P - Na sereuidade, por meio da qual pertencemos à e, desse modo, na nulidade (im Nichtigen), e é
Região, que oculta ainda a sua própria essência. mesmo destituída de qualquer energia activa,,
E- Pressentimos a serenidade em relação à Região um permitir avolitivo de tudo e, no fundo, a,,
como a essência do pensamento procurada. negação da vontade de viver!

56 57
E - Considera então necessário prevenir essa even- que permaneceri,a sempre como a contenção
tual interpretação errónea da serenidade, mos- da serenidade. ·
trando em que medida existe também nela algo P- Portanto, a serenidade persistente e con-
como energia activa (Tatkraft) e resolução? tida seria o acolhimento da regionalização da
I - Penso isso mesmo, embora não negue que Região.
todos estes nomes induzem imediatamente a I - A persistência contida, através da qual a sereni-
interpretações erróneas da serenidade como dade repousa na sua essência, seria o que pode-
tendo um teor de vontade. ria corresponder ao mais alto querer, mas que,
E- Teríamos então de pensar por exemplo a pala- no entanto, não o poderia. Para este repousar-
/ vra «resolução>> (Entschlossenheit) tal como é -em-si da serenidade que permite justamente a
l pensada em «Ser e Tempo>>: como o propria- sua pertença à da regionalização da Região ...
1 mente assumido abrir-se do ser-aí ao aberto ... P - e de certo modo também ao Condicionamento...
P - e é assim que pensamos a Região. I - para esta persistência do pertencer, repousando
E - Se, em conformidade com o dizer e o pensar em si, à Região, falta-nos ainda a palavra.
grego, experienciarmos a essência da verdade· E- Talvez a palavra «insistência» (Instiindigkeit) o
como a não-Qcultação e o descobrimento pudesse designar. Li uma vez uns versos, em
(Unverborgenheit und Entbergung), lembramo- casa de um amigo, que ele tinha copiado de
-nos de que a Região é, provavelmente, o ser qualquer sítio, que contêm um esclarecimento
(Wesende) oculto da verdade. desta palavra. Tomei nota dos versos, que são
I - Então a essência do pensamento, a saber, os seguintes:
a serenidade em relação à Região, seria a reso-
lução para a verdade que está a ser (wesenden INSISTÊNCIA (lNSTÃ.NDIGKEIT)
Wahrheit).
P- Na serenidade poderia ocultar-se uma persis- Receber a salvo
tência (Ausdauer) que consiste simplesmente no Para longa constância
facto de a serenidade interiorizar (inne wird) A verdade que está a ser
cada vez mais claramente a sua própria essência Nunca só algo verdadeiro
e nela se instalar persistentemente. Que o coração pensante peça
E- Isso seria um comportamento (Verhalten) que À singela paciência
não se tornaria uma atitude (Haltung), mas A generosidade única
que se recolheria na contenção (Verhaltenheit) Do nobre recordar

58 59
P - A insistência na ·serenidade em relação à Região E- Razão pela qual nós tambéni acrescentámos
seria, segundo tal, a autêntica essência da imediatamente: precisamente através da pró-
espontaneidade do pensamento. pria Região.
E- E, segundo os versos mencionados, o pensa- P- Apropria (vereignet) a essência do homem à sua
mento seria a evocação (Andenken), parente da própria Região.
nobreza. I - Assim esclarecemos a serenidade. No entanto,
P - A insistência da serenidade em relação à Região como reparei, não chegámos a reflectir sobre a
I seria a própria nobreza de espírito. razão pela qual a essência do homem é apro-
n I - Parece-me que esta noite excepcional vos leva a priada à Região.
\ ambos a devanear. E- Pelos vistos, a essência do homem é confiada à
P - Certamente, se se refere ao devanear no aguar- Região porque esta essência pertence tão essen-
dar, por meio do qual aguardamos cada vez cialmente à região que esta, sem a essência do
mais e ficamos cada vez mais sóbrios. homem, não pode ser como é (nicht wesen kann,
E- Cada vez mais pobres na aparência e, no entanto, wie sie west).
mais ricos em a-caso (Zu-foll). I - Isso é quase impensável.
'I - Então diga você, se faz favor, também na sua P - É impensável enquanto quisermos representá-
estranha sobriedade, em que medida a sereni- -la, ou seja, colocá-la à força diante de nós como
. dade pode ser parente da nobreza. uma relação objectiva no modo da presença
(E- Nobre é aquilo que tem proveniência (Herkunft). (vorhandene) entre o objecto denominado
: P - Não só a tem como se demora na proveniência «Homem» e o objecto denominado «Região>> .
(Herkunft) da sua essência. I - Pode ser. Mas será que, mesmo no caso de o
I - Então a verdadeira serenidade consiste, pois, tomarmos em conta, não permanece uma difi-
no facto de o Homem, na sua essência, perten- culdade insuperável na afirmação da relação
cer à Região, isto é, ser-lhe confiado (gelassen ist). essencial entre a essência do homem e a
E- Não ocasionalmente, mas - como dizê-lo - de Região? Caracterizávamos há pouco a Região
antemão. como a essência oculta da verdade. Mas se, para
I - À partida, para fora da qual, na verdade, não simplificar, dissermos, em vez de Região, ver-
podemos pensar... dade, então a afirmação (Satz) da relação entre
E- P.orque a essência do pensamento começa aí. a região e a essência do homem passa a ser a
I - É, portanto, no não previamente pensável que seguinte: a essência do homem é transpropriada
a essência do homem é confiada à Região. (übereignet) para a verdade, porque a verdade

60 61
precisa do Homem. Mas não é então o carácter homem, relação essa que Repousa na regionali-
distintivo da verdade, e justamente no que con- I zação da essência do homem na Região.
cerne à sua relação com o Homem, o facto de E- Se assim fosse, o Homem moraria (weilt) como
ela ser aquilo que é independentemente do o insistente na serenidade em relação à Região
Homem? na origem da sua essência que nós, por isso,
E- Com o que disse aflora uma dificuldade que poderíamos delimitar do seguinte modo: O
certamente só podemos discutir quando tiver- Homem é o que é utilizado na essência da
mos expressamente esclarecido a essência da verdade. Morando de tal modo na sua origem,
verdade e determinado com mais clareza a o Homem seria encorajado (angemutet) pela
essência do homem. parte nobre da sua essência. Ele pressentiria
P - Estamos apenas a caminho de ambas; não obs- (vermutete) a nobreza de carácter (Edelmütige).
tante, gostaria de tentar delimitar a asserção I - Este pressentir não poderia, pois, ser outra
sobre a relação da verdade com o Homem de coisa senão o aguardar, que é como pensamos a
modo a ficar ainda mais claro aquilo sobre o insistência da serenidade.
qual teremos de meditar caso venhamos a E- Se a Região fosse, assim, a extensão que se
reflectir expressamente sobre esta relação. demora, a paciência (Lang;mut) poderia ainda
I -Aquilo que você quer dizer sobre isso perma- pressentir (vermuten) mais longe, poderia pres-
nece assim, por enquanto, uma simples asserção sentir a própria extensão da duração, porque ·é
(Behauptung). ela quem pode aguardar mais tempo.
P - Decerto; e quero dizer o seguinte: A essência P - A nobreza de carácter longânime seria o puro
do homem é unicamente confiada (gelassen) à repousar-em-si do querer que, renunciando ao
Região e utilizada por esta em conformidade querer, se tinha entregado (eingelassen) ao que
porque o Homem, por si, nada pode sobre a não é uma vontade.
verdade e esta permanece independente dele. E- A nobreza de carácter seria a essência do pensa-
A verdade só pode, portanto, ser independente mento (Denkens) e, com isso, do agradecimento
do Homem, porque a essência do homem é uti- (Dankens).
lizada como a serenidade em relação à Região, P - Desse agradecimento que não apenas agradece
pela região, na regionalização, para defesa do por algo, mas que apenas agradece poder agra-
Condicionamento. A independência da verdade decer.
em relação ao (vom) Homem é, pois, notoria- E- Com esta essência do pensamento teríamos
mente uma relação com (zum) a essência do encontrado o que procuramos.

62 63
I - Supondo que tivéssemos encontrado aquilo em E- Estas proximidade e distância não podem ser
que parece repousar tudo o que foi dito na nada fora da Região .
nossa conversa. Isto é, a essência da Região. P - Porque a Região, ao fazer região de encontro
P - Como se trata apenas de uma suposição, tam- de tudo (alies gegnená), reúne tudo e deixa/faz
bém há muito tempo que, como você talvez tudo regressar a si mesmo, no autêntico repou-
tenha observado, dizemos tudo apenas de sar no Mesmo (Selbe).
forma hipotética. I - Então a própria Região seria o que aproxima e
I - Do mesmo modo, também não posso reter por o que afasta.
mais tempo a confissão de que ficámos mais I - A Região seria ela própria a proximidade da
perto da essência da Região, enquanto ela distância e a distância da proximidade...
própria me parece estar mais longe do que E- caracterização que não devemos pensar de
nunca. forma dialéctica...
E- Quer dizer com isso que está na proximidade P- mas sim?
da essência da Região e, no entanto, longe dela I - Apenas segundo a essência do pensamento
própria? determinado a partir da Região.
I - Mas a própria Região e a sua essência não E- Portanto que aguarda, insistente na sereni-
podem ser duas coisas diferentes, caso se possa, dade.
porventura, falar aqui de coisas. P - O que seria então a essência do pensamento se
E- O mesmo (Selbst) da Região é provavelmente a a Região fosse a proximidade da distância?
sua essência e o Mesmo que ela mesma (das E - Isso já não se pode dizer com uma única pala-
Selbe ihrer selbst). vra. Aliás, conheço uma palavra que até há
P - Então talvez possamos exprimir a nossa expe- pouco tempo ainda pareceu apropriada para
riência, durante a conversa, dizendo que nos denominar adequadamente a essência do
aproximámos da Região e, ao mesmo tempo, pensamento e, com isso, também do conheci-
permanecemos longe dela, na medida em que o mento.
permanecer (Bleiben) é, na verdade, regressar. I - Gostaria de ouvir essa palavra.
E- Com aquilo que diz, ficaria, pois, apenas deno- E- É uma palavra que me ocorreu já aquando da
minada a essência do aguardar e da serenidade. nossa primeira conversa. Era a esta expressão
I - Mas, o que dizer então da proximidade e da que me referia também quando observava, no
distância no seio das quais a Região se ilumina início da conversa de hoje, que devia um pre-
e se encobre, se aproxima e se afasta? cioso estímulo à nossa primeira conversa numa

64 65
vereda. Já várias vezes quis avançar também clareza que entretanto chegámos perante algo
esta palavra no decurso da conversa de hoje. indizível.
Mas pareceu-me sempre ser pouco adequada E - A palavra é uma palavra de Heraclito.
àquilo que se aproximava de nós como a essên- I - De que fragmento retirou a palavra?
cia do pensamento. E- A palavra veio-me à ideia porque aparece sozi-
I -Fala com tanto mistério da sua ideia, como se nha. É a palavra única que constitui o frag-
não quisesse revelar cedo demais algo que des- mento 122.
cobriu. I - Não conheço esse fragmento, o mais curto, de
E- Não fui eu quem descobriu a palavra em que Heraclito.
estou a pensar; é apenas uma ideia erudita. E- Também mal se lhe dá importância porque a
I - É então, se me é permitido dizer, uma recor- pouco pode levar uma palavra isolada.
dação Histórica? I - Em que consiste esse fragmento?
E- Se quiser. Ter-se-ia até adaptado bem ao estilo E - 'A'YXLf3auí:rJ
da nossa conversa de hoje, durante a qual, várias I -Que quer dizer? ,f
vezes, introduzimos palavras e frases que
provêm do pensamento helénico. Mas agora a E -(Ifit::;:h~~i~~~!~:~~~~- palavra alemã ~
palavra em questão já não se adequa àquilo que I - Considero esta palavra um nome excelente para
tentamos denominar com uma única palavra. denominar a essência do conhecimento; pois o
P - Refere-se à essência do pensamento que, como a carácter do avançar (Vorgehens) e do aproxi-
serenidade insistente em relação à Região, é a mar-se (Zugehens) dos objectos é expresso aí de l
1
relação humana essencial com a Região, que forma convincente.
pressentimos como a proximidade em relação à E- Também me pareceu isso quando falámos na
distância. nossa primeira conversa sobre a acção, a reali-
I - Mesmo que a palavra já não se adeque agora, zação, o trabalho no conhecimento moderno e
poderia revelá-la no fim da conversa, pois já sobretudo na investigação.
nos aproximámos de novo das habitações I -Poder-se-ia utilizar a palavra grega precisa-
humanas e, de qualquer modo, temos de termi- mente para tomar claro que a investigação no
nar a conversa. domínio das Ciências da Nàtureza é uma espé-
P - A palavra que já não se aplica agora, a qual fun- cie de ataque à natureza que, não obstante,
cionou anteriormente para você como estímulo deixa/faz a natureza falar. «Herangehen»
precioso, também poderia mostrar-nos com ~ (aproximar-se): Poderia imaginar esta palavra

66 67
de Heraclito como epígrafe para uma dis- :i P - porque aproxima entre si as suas distâncias no
sertação sobre a essência da ciência mo- céu ...
derna. I - pelo menos para o observador ingénuo, não
E- Por essa razão também hesito em proferir a para o investigador exacto.
palavra; pois não atinge de modo algum P - Para a criança no Homem, a noite permanece a
a essência do pensamento que presumíamos a aproximadoralcostureira (Naherin) das estrelas.
caminho. E- Ela junta sem costura, bainha, nem linha.
I - Pois o aguardar é, aliás, quase o movimento I - Ela é a costureiralaproximadora porque só tra-
contrário do aproximar-se. balha com a proximidade.
E- Para não dizer o contra-repouso (Gegenruhe). E- Caso ela alguma vez trabalhe e não repouse
i P- Ou simplesmente o repouso. Então está deci- antes ...
~ dido que 'A'YXtf3auíir] significa o aproximar-se? P - ao admirar as profundidades da altura.
i E- Literalmente traduzido significa: «ir próximo» E- Assim, poderia a admiração abrir o que está
I (Nahegehen). fechado?
P- Poderíamos talvez também pensar: «ir-à-proxi- I - Conforme o tipo de aguardar...
midade>> (In-die-Nahe-gehen). P - se for um aguardar sereno (gelassenes) ...
I - Entende isso literalmente no sentido de «ser- E- e a essência do homem aí permanecer a-pro-
-admitido-no-seio-da-proximidade>> (In-die- priada...
Nahe-hinein-sich-einlassen)? P- àquilo de onde somos chamados (gerufen).
P- Mais ou menos.
E - Então esta palavra seria, pois, o nome, e talvez
o mais belo nome, para aquilo que encontrá-
mos.
P - O qual, não obstante, procuramos ainda na sua
essência.
E- «ir-à-proximidade>> (in-die-Nahe-gehen). Parece-
-me agora que a palavra poderia ser antes o
nome para o nosso passeio de hoje na vereda.
P - Que nos guiou pela noite dentro ... !
I - cujo brilho é cada vez mais deslumbrante ... .I '
E- e supera em maravilha as estrelas ...

68 69
O discurso foi pronunciado aquando da celebração do
0
175. aniversário do nascimento do compositor Conradin
Kreutzer, em Messkirch, a 30 de Outubro de 1955.

A discussão é retirada de uma conversa entre um investiga-


dor (I), um erudito (E) e um professor (P), registada por
escrito em 1944/45.

Relativamente à duplicidade (Zwiefalt) referida na con-


versa, confrontar com as conferências O que significa pensar?,
Niemeyer Editora, Tübingen, 1954.

73
SERENIDADE............................................................... 7

PARA DISCUSSÃO DA SERENIDADE..................... 29


De uma conversa sobre o pensamento, que teve lugar
num caminho de campo........................................... 29

REFERÊNCIAS............................................................. 71

77

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