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Padrões rítmicos de acompanhamento no choro

Vamos tratar aqui da base rítmico harmônica (a "base") característica do choro que compreende primordialmente:
cavaquinho, violão e pandeiro para então falar dos padrões rítmicos de acompanhamento (as "levadas") caracterís-
ticos de cada um dos diversos gêneros musicais do universo do choro.

Antes de mais nada, em se falando de música brasileira, em especial a música popular em compassos binários e
quaternários, é interessante que tenhamos a partir do estabelecimento de um pulso regular, uma noção clara deste,
já subdividindo-o em grupos de quatro semicolcheias.
Exemplificando melhor: quando um diretor musical, arranjador ou professor quer passar aos integrantes de um grupo
a pulsação do que será tocado, ele o faz através de uma simples contagem desses pulsos.
O que pensamos ser importante é que aos que percebem essa informação, é preferível e recomendável que automatica-
mente já ouçam internamente a pulsação com a subdivisão em grupos de quatro semicolcheias. Muito melhor ainda se
somarem à essa percepção uma alegoria como por exemplo a sonoridade do toque básico do pandeiro no choro (que
executa as 4 semicolcheias de cada pulso do compasso 2/4) e no caso desse instrumento cada tipo de toque (dedo pole-
gar, demais dedos e base da mão entre outros) produz um som particular. Através desse exercício de "cantar" os ritmos
imitando a percussão, entramos em contato mais direto com o "sotaque" característico dessa música.

Não à toa o pandeiro serve aqui de exemplo para os demais instrumentos de acompanhamento uma vez que na realidade
em se tratando do choro (e também outros diversos gêneros como o samba, a marchinha carnavalesca, o frevo entre
diversos outros tantos), o cavaquinho e o violão, ao desempenhar o papel de acompanhante, sempre têem como inspi-
ração o instrumental de percussão. Melhor exemplificando, é como se o cavaquinho e o violão imitassem a percussão o
tempo todo, trazendo para seus idiomatismos particulares o colorido rítmico da "batucada".
Como disse certa vez o Maestro Guerra Peixe:
Mário de Andrade escreveu, não me lembro em que livro - mas é uma frase
muito citada - que uma grande parte, talvez a maior parte do que nós recebemos foi européia.
Mas o negro coloriu tudo. Saravá!
Aqui apresentaremos primeiramente a célula rítmica "bruta" de cada gênero, seguindo-se a elas os padrões de acom-
panhamento peculiares de cada instrumento da base e algumas variações.

Abordaremos então: lundu, polca, tango brasileiro, schottisch (ou "xótis"), maxixe, choro e choro sambado
Pulsação Pulsação subdividida
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A exemplo da idéia de se sentir a pulsação sempre subdividida, as células rítmicas particulares de cada gênero devem
também levar em conta essa realidade de modo que as tenhamos preenchidas com o que podemos chamar de "notas
fantasmas" (representadas nos exemplos que se seguem com "x"). Vejamos primeiramente o lundu:

- Lundu
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Dessa maneira, as figuras que caracterizam a célula de cada gênero permanecem presentes, sendo de certa forma
acentuadas, com "som aberto" enquanto em contrapartida as "notas fantasmas" corresponderão a um "som fechado",
sons complementares que na prática são fundamentais principalmente para que se tenha salvaguardado o "balanço"
característico.
© Trio Turuna - Rio de Janeiro - Brasil
Padrões rítmicos de acompanhamento no choro / Casa do Choro / EPM- 2

O que é importantíssimo destacar é que esse procedimento de tentar grafar devidamente a rítmica de todo e qual-
quer gênero musical - uma tarefa por vezes trabalhosa mas extremamente valiosa - constitui apenas uma parte do
estudo. Vale lembrar que antes da escrita há o som a ser transcrito, portanto uma abordagem do material contemplado
neste documento sem a merecida apreciação de material sonoro correspondente sob a forma de gravações ou mesmo
ao vivo e na prática em sala de aula, torna a atividade incompleta e mesmo até prejudicial.

Prosseguindo então com outros gêneros musicais...

- Polca brasileira (polca-choro)

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- Tango brasileiro - ex. 1

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- Tango brasileiro - ex. 2


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Se observarmos o padrões referentes ao lundu e ao tango brasileiro (exemplo 1), veremos que os dois são quase idênticos
no que diz respeito à escrita. Entretanto, na prática será possível constatar que de fato são muito familiares mas soam
diferentemente o que vem reforçar a tese de que um material sonoro de apoio à presente apostila é indispensável.
Veremos adiante, quando formos tratar da adaptação das células rítmicas brutas aos instrumentos da base do choro,
alguns aspectos que então serão determinantes da identidade de um gênero e outro.

Cabe ainda comentar que os gêneros conformadores do universo do choro se visitam uns aos outros e se misturam
a todo momento. Não é oportuno o atrevimento de querer estabelecer e atribuir "pureza" a este ou aquele gênero pois
isso seria uma estupidez. O interesse aqui é investigar as características fundamentais de cada um, entendê-las e absor-
vê-las musicalmente.

Seguindo...

- Schottisch (ou Xótis)

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Aqui não é apresentada uma escrita com os preenchimentos ("notas fantasma") em função do xótis não ser um gênero
marcado pela presença do balanço inerente à batucada. Ainda assim, o acompanhamento desse gênero quando executa-
do pelos chorões conhecedores versados e formados no estilo, certamente trará interessantes elementos rítmicos que não
aparecem na célula rítmica peculiar.
Padrões rítmicos de acompanhamento no choro / Casa do Choro / EPM- 3

- Maxixe - ex. 1
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- Maxixe - ex. 2 (similar à habanera)

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- Choro - ex. 1
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- Choro - ex. 2
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- Choro sambado
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