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PROJETOS SOCIOCULTURAIS: ALTERNATIVA À INCLUSÃO DE

ADOLESCENTES E JOVENS EM SITUAÇÃO DE RISCO EM COMUNIDADES


VULNERÁVEIS DE SÃO GONÇALO

Maria Pompéia Vital Marotta Dias1

RESUMO: Há muito que o ambiente é deteriorado. A aceleração do desenvolvimento


tecnológico e a ampliação das necessidades das pessoas influenciando o modo de vida e os
valores praticados pela sociedade, ampliaram e maximizaram a exploração dos recursos
naturais, sem a preocupação com uma reposição ou com uma utilização sustentável. Uma
mudança de comportamento com uma conscientização efetiva é urgente e nesse sentido a
Escola representa um instrumento importantíssimo para o atingimento dos objetivos de
manutenção e conservação dos bens naturais. A Escola funcionará como agente promotor e
apresentador do problema com uma abordagem transparente do assunto, envolvendo a
coletividade do seu entorno, promovendo discussões, relacionando os problemas locais, seus
aspectos sociais, biológicos, políticos, econômicos, científicos, técnicos, assim como as ações
efetivas que podem ser tomadas por todos sem precisar esperar por terceiros, realizando um
passo significativo na promoção de uma consciência ambiental. A Escola representa o agente
multiplicador do resgate dos valores ambientais, não mais restritos à proteção de um espécime
de flora ou fauna, mas sobretudo uma consciência de desenvolvimento sustentável, que
concilie desenvolvimento, preservação ambiental, ampliação e efetivação da qualidade de
vida para todos. A preparação dos professores, o envolvimento dos alunos em projetos fáceis
de serem executados, o trabalho de apresentação de resultados para toda a comunidade
auxiliará na mudança local, que somada às mudanças ocorridas em outras localidades, amplia
a mudança geral de comportamento relacionada aos recursos naturais efetivando uma
consciência mundial de recuperação e manutenção dos bens ambientais.

PALAVRAS-CHAVE: Pós-graduação. Artigo. Universidade Cidade de São Paulo.

1 INTRODUÇÃO

1
Especialização em Docência no Ensino Superior, em Educação Ambiental e em Supervisão e
Orientação Educacional pela Universidade Cidade de São Paulo – UNICID, concluídas em 2012 e
2013. Graduada em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Castelo Branco – UCB em
2011. E-mail da autora: pompeiamarottadias@gmail.com Orientadora/Tutora: Giordanna Santos.
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A humanidade para existir, sempre fez uso dos recursos que o meio ambiente
proporciona e disponibiliza, objetivando alimentar-se, abrigar-se, produzir energia, adquirindo
e aplicando uma postura consumista e predadora de tudo o que a natureza nos oferece.
O desenvolvimento da humanidade, a ampliação das necessidades básicas, o
surgimento das cidades, as demandas crescentes por muito mais alimento, abrigo, energia e
todos os demais recursos encontrados no ambiente, assim como a prática de buscar na
natureza o que ela oferece sem a preocupação da reposição, tornou necessária e urgente uma
Educação Ambiental mais profunda e consciente, visando sobretudo a ideia de cidadania,
como sustentáculo de uma educação para todos voltada a preservação e conservação dos bens
que são de todos.
É possível pensar em Educação Ambiental, mas é preciso sistematizá-la de maneira
que seja eficaz e eficiente e que promova de forma sólida a mudança de comportamento na
sociedade. Para tanto, a Escola é sem dúvida o ponto de partida, o agente transformador,
capaz de propiciar o conhecimento e amplificá-lo para que alcance a comunidade, fazendo de
cada aluno um agente multiplicador das ideias de conservação e proteção.

2 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL EFETIVA

Quando falamos em Educação Ambiental normalmente nos aparece a imagem de


“ecologia”, de “natureza”, contudo, ao perguntarmos para uma criança urbana de onde vem o
leite, o arroz, os ovos, as frutas, é provável que ela responda que vem do supermercado,
porque tendo nascido na cidade, crescido na cidade e ido ao supermercado várias vezes com
seus pais e não tendo qualquer contato com o meio rural, ela desconheça os animais, seu
desenvolvimento, os produtos que nos oferecem, gerando uma distância entre o que se deseja
alcançar de consciência ecológica e sua realidade. A criança urbana não valorizará como o
fará uma criança rural, uma árvore, uma horta, o cuidado com a terra, muito pelo contrário,
tendo vivido sem qualquer referência, ou muito pouca, com certeza poderá relacionar terra
com sujeira, tendo sido educada a estar sempre limpa e arrumada.
O desafio portanto, é muito maior do que se possa supor. Afinal, é preciso mudar as
referências, que são ensinadas desde cedo, ainda no lar, quanto aos valores e os lugares que
ocupamos no espaço global.
É preciso portanto, gerar, propiciar, promover a consciência para uma mudança de
comportamento em sociedade, mas esta só acontecerá se aproximarmos as pessoas do
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sentimento de necessidade de cuidar, de conservar, de preservar, daí, a Escola deve


desempenhar o papel de promotor desse sentimento. Leonardo Boff, em Saber Cuidar: Ética
do Humano - Compaixão pela Terra, afirma (BOFF, 1999).

Tudo começa com o sentimento. É o sentimento que nos faz sensíveis


ao que está à nossa volta, que nos faz gostar ou desgostar. É o
sentimento que nos une às coisas e nos envolve com as pessoas. É o
sentimento que produz encantamento face à grandeza dos céus, suscita
veneração diante da complexidade da Mãe-Terra e alimenta
enternecimento face à fragilidade de um recém-nascido. Esse
sentimento profundo se chama cuidado. Somente aquilo que passou
por uma emoção, que evocou um sentimento e provocou cuidado em
nós, deixa marcas indeléveis e permanece definitivamente.

Somente a aproximação da Educação Ambiental da realidade do meio ambiente que


nos cerca e é de todos, é capaz de promover um sentimento assim, de cuidado. É na Escola,
desde os primeiros anos, que se deve realizar um trabalho sistemático para apresentar a todos
a natureza em toda a sua essência, não apenas através de aulas expositivas, mas de
aproximação real de todos os indivíduos dessa realidade, a verdadeira realidade no meio
ambiente que nos cerca.
Apenas o domínio cognitivo, a informação disponibilizada na Escola, por si só não é
capaz de operar uma mudança comportamental e tamanho sentimento de cuidado. O
conhecimento de um problema ambiental não é suficiente para uma mudança de valores que
modifique as ações ou faça surgir atitudes positivas e uma consciência ecológica, pois mesmo
sabendo do efeito estufa, que propiciado pela natureza é benéfico ao planeta, pois colabora
para o equilíbrio térmico, reduzindo as variações excessivas de temperatura ao longo do dia e
da noite, mas que no último século, teve um aumento muito intenso da concentração de gases
que o causam, gerado pela maior atividade industrial, agrícola e de transporte em todo o
planeta, e principalmente por causa do uso dos combustíveis fósseis como o petróleo e o
carvão, que tem causado pouco a pouco um efeito estufa mais alarmante, ou seja, a superfície
do planeta está se aquecendo, trazendo como consequência alterações climáticas diversas, que
podem causar maior número de furacões, tempestades, enchentes ou secas, sem contar o
derretimento do gelo das regiões polares elevando o nível do mar, assim como o surgimento
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de áreas desérticas, não fez com que mudássemos nosso comportamento e abandonássemos os
meios de locomoção que utilizassem a energia dos combustíveis fósseis.
O papel da Escola portanto, não fica restrito apenas ao repasse do conhecimento e
dos dados, pois isso de nada adiantará como forma de promoção de consciência e de mudança
de comportamento, mas antes de tudo, deve objetivar exatamente essa transformação.

2.1 UMA ESCOLA PROMOTORA DE TRANSFORMAÇÃO

Conceber uma Escola como agente de tamanha transformação não é uma ideia
descabida, utópica ou inconsistente, afinal, depois da família é na escola que todos solidificam
os traços da personalidade, do convívio social, dos valores culturais e sociais.
Também não estamos falando de escolas fechadas em si mesmas, onde a Educação é
tratada apenas como repasse de conhecimentos de compêndios e livros.
É preciso sair para visitas e excursões, com alunos de todas as faixas etárias, da
educação infantil ao ensino superior, onde se promovam discussões sobre o tema ambiental
como principal ou como parte de projetos interdisciplinares. Visitas às nascentes de rios, a
museus, à estação de tratamento de água, a lixões, a hortos botânicos. Passeios em matas
conservadas e pela cidade, excursões a parques estaduais, nacionais, fazendas produtoras de
diversos produtos naturais, tanto vegetais como animais. E todas essas atividades, sendo
acompanhadas por um projeto roteiro de coleta de dados, para apresentação e discussão das
informações levantadas de forma a propiciar a todos os envolvidos um conhecimento real e
não mais estático, de livros apenas.
As diversas experiências, as discussões promovidas diante da vivência dessas
atividades, serão bem mais consistentes e capazes de interferir nas mudanças esperadas em
relação à natureza e ao meio ambiente.

2.2 A EDUCAÇÃO AMBIENTAL NA ESCOLA TRANSFORMADORA

Muito já se falou em necessidade de mudança, de construção da consciência


ecológica, de sustentabilidade. A sociedade como um todo e nela os próprios educadores,
precisa estar consciente dos problemas imediatos e futuros que a poluição da água causa e irá
causar, por exemplo. Além disso, precisamos nos preocupar com o desperdício da água, seu
uso indevido, que aumenta a possibilidade de redução de sua disponibilidade, como afirma
Khol (1995, p. 65).
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Considere que o Brasil detém entre 12% e 15% de água doce do


planeta e que cerca de 80% dessa reserva está concentrada na bacia
Amazônica. E um detalhe importante: os 20% restantes estão
distribuídos pelo resto do país, atendendo a 95% da população. E é
justamente nessas regiões que temos os maiores problemas quanto à
poluição e ao uso da água.

Um conhecimento que já dominamos, pois encontramos essas informações em


diversos livros e nós educadores o repassamos constantemente. Isto é fato.
Mas o fato de repassarmos esse conhecimento tem promovido as mudanças que tanto
esperamos em sociedade e em nossos próprios lares? Temos conseguido a mudança de
comportamento que tanto é necessária quanto a utilização da água?
A Escola capaz de transformação, a Escola promotora da Educação Ambiental
necessária será capaz de nos mudar em primeiro lugar, nos fazendo os pioneiros na economia
de água e em sua preservação e defesa.
Quando alcançarmos nossa própria consciência ecológica e responsável, como
educadores, seremos a Escola promotora da mudança e agente eficiente e eficaz da Educação
Ambiental.
Ao nos tornarmos educadores ambientais conscientes, nossos próprios hábitos
estarão mudados, nós já teremos alcançado o sentimento de cuidado, e para nós a natureza já
será algo real, daí com certeza influenciar os demais não será nada difícil e nem tarefa
impossível, pois será um comportamento adquirido, um hábito, automatizado como tantos
outros que já realizamos mecanicamente, representando então agentes multiplicadores e
influenciadores do nosso contexto e em nossa sociedade.
Justamente a nossa mudança de hábitos é que será o agente transformador e fará da
nossa escola o real exemplo capaz de influenciar os demais, alunos, pais, visinhos, enfim,
todos no entorno que reconhecerão os benefícios da mudança de comportamento.

2.3 A MUDANÇA DO MUNDO

Quando falamos de Educação Ambiental partindo da Escola para a mudança do


mundo, não falamos de milagres e de ações mundiais ou globais, mas de efetivas experiências
realizadas no próprio local onde vivemos, onde nossas famílias vivem, onde trabalhamos.
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Onde podemos e devemos atuar todos os dias, de forma sistemática e constante, para assim
alcançarmos a mudança que tanto almejamos.
A formação dos indivíduos e dos futuros cidadãos não pode ser pensada apenas como
uma atividade intelectual. É na realidade um processo que associa o conhecimento à
interferência no meio onde estamos inseridos. Somos animais complexos, somos capazes de
produzir e compreender informações, portanto, quanto maior nosso envolvimento e nossa
participação em experiências reais, melhores resultados alcançaremos.
Ao vivenciarmos experiências, sentimentos, escolhermos atitudes diante desse ou
daquele problema, aprendemos participando dos processos.
A Educação Ambiental para atingir a efetiva mudança de comportamento em
sociedade, precisa adotar e privilegiar projetos vivenciais, saídas a campo e excursões
ecológicas, os passeios pelo bairro onde a escola está inserida, propiciando a oportunidade dos
estudantes registrarem suas impressões, coletarem os dados e depois organizar as diversas
possibilidades de discussão a respeito.
É uma metodologia ambiciosa de projeto educacional, contudo para uma efetiva
educação ambiental e mudança comportamental esperada somente uma experiência de contato
real pode obter verdadeiro sucesso.
Essa experiência leva à percepção da degradação ambiental e ao questionamento
sobre o lugar do homem no centro disso tudo, levando a uma inspiração de uma ação mais
efetiva no cotidiano no sentido de preservação e conservação dos bens ambientais.
O indivíduo consciente, partindo de todos nós educadores inclusive, leva até seu
contexto, seu lar, seu local de trabalho, seu meio social, um comportamento diferente do
anteriormente praticado, gerando a princípio diversas reações, das negativas às positivas, mas
reações, que por outro lado, vão gerar questionamentos e é esse questionamento, esse
interesse despertado e a possibilidade da mudança do sentimento em cada um, que acaba por
gerar uma corrente muito mais real e consistente de mudança, que num primeiro momento é
local, mas acaba por contagiar mais e mais locais, permitindo que afirmemos ser possível
mudar o mundo ou o comportamento das pessoas em relação ao meio ambiente.
Evidentemente, a construção do projeto voltado à Educação Ambiental em cada
escola é muito importante, sendo um momento do planejamento escolar e do método a ser
implementado algo primordial para a realização de tamanha aspiração e ambição, mas
bastante exequível conquanto obtenha a participação de todos os envolvidos, conforme afirma
Leite (1996, p. 32).
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Um projeto é uma atividade instrucional. Num projeto, a


responsabilidade e autonomia dos alunos são essenciais. A
autenticidade é uma característica fundamental de um projeto. Um
projeto envolve complexidade e resolução de problemas.

O afastamento dos indivíduos da natureza contribuiu sobremaneira para a destruição


do meio ambiente, agravada cada vez mais pela urbanização. E justamente por isso é preciso a
promoção do caminho inverso, da aproximação do indivíduo dessa natureza esquecida,
afrontada e degradada.
Somente através de projetos de aproximação do natural será possível a compreensão
do que aconteceu, está acontecendo e ainda pode piorar, dependendo das ações de cada um
em relação as bens naturais.
A Escola pode e deve ser o agente dessa aproximação e da real transformação em
relação ao comportamento individual diante do meio ambiente. O projeto bem elaborado e
objetivando a consciência da real interferência individual de cada um de nós, pode mudar o
mundo sim, no sentido da preservação e conservação da natureza.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não é utópica e nem ambiciosa a nossa afirmação que uma Educação Ambiental bem
planejada pode partir da Escola para mudar o mundo, começando a partir do nosso próprio
comportamento como educadores e como conhecedores do assunto que estudamos e da
realidade que aí está.
Claro que não podemos pensar em algo revolucionário e de difícil realização, mas
sobretudo trabalharmos com a realidade que nos cerca, em nossos lares, estudando,
observando e discutindo as ações que todos utilizam. No segundo momento levando para a
sala de aula essa discussão, convidando os familiares de nossos alunos para a ampliação da
discussão.
A realização de visitas e excursões seriam o passo seguinte onde coletaríamos os
dados para comparações e ampliação ainda maior da discussão inicial e assim promovendo a
consciência de todos os envolvidos em nossa comunidade, que depois de vivenciar todas essas
experiências vão demonstrar alguma reação, que em si mesma, já representa um ponto para
novas discussões e dessa maneira, a Escola servindo de ponto de partida e referencial de
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formação de agentes promotores de mudanças e multiplicadores de comportamentos mais


responsáveis pela preservação e conservação do bem maior de todos nós, a própria natureza.

REFERÊNCIAS

BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes,
1999.

DIEGUES, Antonio Carlos Sant’Ana. O mito moderno da natureza intocada. 2. Ed. São
Paulo: Hucitec, 1996.

KOHL, M. F. GAINER, C. Fazendo arte com as coisas da Terra – arte ambiental para as
crianças. São Paulo: Augustus, 1995.

LEFF, Enrique. Saber ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder.


Petrópolis: Vozes, 2001.

LEITE, L. H. A. Pedagogia de Projetos – Intervenção no Presente. Belo Horizonte:


Presença Pedagógica, 1996.

LIMA, Myriam Del Vecchio de. RONCAGLIO, Cynthia. Degradação socioambiental urbana,
políticas públicas e cidadania. Desenvolvimento e Meio Ambiente: Cidade e Ambiente
Urbano. Curitiba, n. 3, 2001.

ODUM, Eugene P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.

RONCALIO, Cynthia; JANKE, Nadja. Sociedade Contemporânea e Desenvolvimento


Sustentável. Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2009.

SILVA, Nathieli K. Takemori; SILVA, Sandro Menezes. Educação Ambiental e Cidadania.


Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2010.