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POVO BRASILEIRO

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Luiz Carlos Checchia


Reparto de Personajes
Camila Costa Melo: Quem obedece
Iohann Iori: Quem manda

Raul Signorini: Quem toca


CENA 1
Jogo de palhaços e abertura

IOHANN
Bem, e como será nossa peça?
CAMILA
Sim, como será?

IOHANN
Eu é que pergunto: como será?
CAMILA
E eu é que sei?

IOHANN
Ora, CAMILA, é a cena como combinamos: eu serei o REI
DE PORTUGAL...
CAMILA
Por que você?

IOHANN
Ué, porque eu sou o chefe...
CAMILA
Mas sempre você é o chefe.
IOHANN
Quer ser você?
CAMILA
Sim.
IOHANN
Eu?
CAMILA
Não eu!
IOHANN
Eu?
CAMILA
Eu!
IOHANN
Você!
CAMILA
Sim, você, oras!
IOHANN
Está bem, então, aceito.

(A CONTINUACIÓN)
A CONTINUACIÓN: (2) 2.

CAMILA
Perá, eu, você... Ah vai, você sempre faz isso, vai
enganando a gente...

IOHANN
Para de reclamar, olha o público aí!
CAMILA
Ah, sim, oi gente.

IOHANN
Então, vamos eu faço o REI de PORTUGAL e você vai ser
a ÍNDIA...
CAMILA
Eu?

IOHANN
Sim, você! Olha que legal!
CAMILA
Mas eu não ou índia, né?
IOHANN
Não se preocupe, eu também não rei... Não, ainda né?
CAMILA
Mas...
IOHANN
Olha, pergunta pro DIRETOR, ele é índio, e foi ele
quem escreveu a peça também.

DIRETOR
Faz aí, CAMILA, faz a índia, vai ficar legal.
IOHANN
Então, comecemos... Maestro!
3.

CENA 2
Música: Portugueses

(Intro: 26-25-23-21.)
F E D C C D-E-F
Olha que terra bonitinha, que aqui eu avistei
F E D C C D-E-F
Olha que terra bonitinha, que aqui eu avistei

F E D C
Não perco uma olhadinha
C D E F
Deste ouro que encontrei

F E D C
Não perco uma olhadinha
C D E F
Deste ouro que encontrei

F E-D C
Não perco uma chance
C D E F
De me gabar dessa terra que encontrei
F E-D C
Não perco uma chance
C D E F
De me gabar dessa terra que encontrei
F E D C
Tem aqui um bando de pessoas
C D E F
Que não entendem nada que falei
REI
Ora pois, ó pá, que terra é essa cá?
ÍNDIO 1
Rapaz, tá difícil de entender. O que o senhor disse?
REI (PARA O PÚBLICO)
Humm, acho que essa conversa será difícil, o gajo.
Deixa eu tomar nota aqui: "há nessa terra selvagens
com dificildade de entender nossa língua". tentarei
dizer de forma mais simples: que terra é essa aqui, o
moço?
(esse trecho da conversa é feito com
muita mímica, daquela que se faz
quando se conversa com estrangeiros)
4.

ÍNDIO
Aqui?
REI
Sim, que terra é essa aqui?

ÍNDIO
Aqui é Pindorama!
REI
Pindorama... Humm deixe anotar aqui, terra de
Pindorama. bonito nome. E de quem é essa terra de
pindorama?
ÍNDIO
Ah, é de todo mundo, né? É minha, da minha família,
amigos. Dos inimigos também, deles lá (aponta para o
público) deles também.

REI
E minha?
ÍNDIO
É você chegou aqui, agora é sua...

REI
Humm.. bom saber... deixa eu anotar aqui "eu REI DE
PORTUGAL possuo agora mais estas terras, a de
Pindorama"

ÍNDIO
humm
REI
E você meu amigo, índio...

ÍNDIO
Índio?
REI
Sim, de agora em diante vamos chamá-lo de índio...
Então se aqui agora é meu... você vai me ajudar a
tirar as riquezas que for possível daqui.
ÍNDIO
como assim?

REI
Agora você vai trabalhar pra mim.
ÍNDIO
Pra você? quer dizer, vamos trabalhar juntos.

REI
Não não, ô gajo, você vai trabalhar e eu vou me
sentar cá, cuidando para que você trabalhe
direitinho.
5.

ÍNDIO
Mas é muito trabalho.
REI
não se preocupe, vou colocar todos os outros índios
pra trabalhar também.
ÍNDIO
Todos os outros... índios?

REI
Sim, e as índias e indiozinhos também.
ÍNDIO
Não gosto dessa ideia, não.

REI
Mas olha, te dou uns presentes: espelhinhos,
pulseirinhas, fitinhas...
ÍNDIO
Não gosto dessa ideia, não.

REI
Deixe-me anotar aqui... povo muito preguiçoso, pouco
afeito ao trabalho...

ÍNDIO
Ei escreve isso aí, não. Que é que vão dizer quando
lerem isso? Somos preguiçosos não! Sabe o trabalho
que dá manter uma aldeia funcionando direitinho?
Acordamos cedo pra pescar, caçar, fazer as ocas,
instrumentos, ferramentas, tudo isso é a agente que
faz, viu?
REI
Preguiçosos e indolentes.
ÍNDIO
Ô... meu amigo, já pedi pra não falar assim, não.
REI
Mas vocês não quererem trabalhar.
ÍNDIO
Não, não é bem isso, a gente só não quer trbalhar pra
você. A gente trabalha bastante e todo mundo junto.
Mas ninguém trabalha para ninguém, por isso somos
muito felizes.
REI
Pois é, agora vai ser diferente. Vocês vão trabalhar
pra mim.
ÍNDIO
E se a gente não quiser trabalhar pra você?
6.

REI
Aí vou ter que escravizar todos os índios, índias e
indiozinhos...

ÍNDIO
Essa história não vai acabar bem.
REI
Mas claro que vai, um dia tudo isso aqui será uma
grande nação, um país feliz...

ÍNDIO
Mas acho que todos aqui são bem felizes,
(para o público)
não somos, gente?

REI
Pois é, se são tão felizes, não precisam da terra,
não é mesmo? Selvagens tolos...
ÍNDIO
O senhor não entendeu, só somos felizes porque
sabemos ser irmãos da Terra. Selvagem é quem rouba,
quem fere e quem destrói a terra...
REI
Gajo, eu não tenho mais tempo a perder com você.
Tenho que conquistar toda essa terra para a gloria do
rei, quer dizer, a minha. Se não gostou, problema
seu„ não meu!
(Cantarola música do Roubo de Terra
enquanto a música é dedilhada)
Pois bem, essas terras todas me bastam. Tudo o que eu
olho daqui até ali é meu. Perfeito. Deixa eu ver
desse lado aqui agora... Bem, daqui onde olho até
ali, ali não, mais ali, não ainda é muito pouco. Até
ali, sim, até ali tá bom, até ali, lá longe, tudo que
vejo também é meu. E agora... deixa eu ver... Epa, o
que é isso...
(INDIO olhando pela lente da luneta)
Oras, você outra vez? Não tem nada pra fazer?
ÍNDIO
Mas eu já estou fazendo, quer dizer, eu tava fazendo,
né? Até você me interromper.

REI
E o que é que o senhor estava fazendo?
ÍNDIO
Vivendo, ué?!
REI
vivendo?
7.

ÍNDIO
Sim, eu pesco, caço, cuido das crianças, nado no rio,
passeio... Pois é, estou vivendo. E o senhor, que faz
aqui?

REI
Eu? oras (risos) eu estou reinando!
ÍNDIO
E como é isso. É que nem pescar?

REI
Claro que não! onde já se viu um rei pescar? Eu tenho
os meus pescadores reais que pescam tudo o que eu
como...

ÍNDIO
Ah, entendi...Então o senhor caça?
REI
Claro que não! onde já se viu um rei caçar? Eu tenho
os meus caçadores reais que caçam tudo o que quero...

ÍNDIO
Hummm... é né? Então o senhor cuida das crianças!
REI
Claro que não! onde já se viu um rei cuidar de
crianças? Eu tenho os meus cuidadores reais de
crianças que cuidam de todas as crianças do rei!
ÍNDIO
Então o senhor nada no rio... Ih não precisa nem
dizer, que com essa barriga já sei que tem nadador
real que nada no seu lugar...
REI
É, mais ou menos isso...

ÍNDIO
Então não tem nada que um rei faça de verdade.
REI
Seu insolente, eu já disse, o rei reina, o rei
governa o seu reinado!

ÍNDIO
E como é isso de reinar?
REI
Meu rapaz, isso é fácil de explicar, mas asseguro, é
bem difícil de realizar. Apenas monarcas altamente
capacitados têm condiçõs de governar com sabedoria e
inteligência pelo bem do povo. Deixe-me explicar: eu
sento no meu trono e digo para cada pessoa como devem
fazer as coisas. Para uns eu digo, plantem mais
verduras, para outras eu digo, devem lutar mais nas
(Más)
8.

REI (a continuación)
guerras, para outras ainda eu digo: devem pintar suas
casas de azul porque é minha cor preferida...
ÍNDIO
E o senhor só faz isso, se senta e diz para as
pessoas o que devem fazer?
REI
Sim, sim. é isso! bem estimulante, não acha?

ÍNDIO
E o senhor não faz mais nada além disso?
REI
Não, não faço mais nada. Faço apenas isso.

ÍNDIO
E agora o senhor estava reinando também, não é?
olhando por essa coisa aí...
REI
Sim, meu súdito, exatamente isso! Rapaz inteligente.
nesse exato momento eu estava determinando o tamanho
de minhas terras.
ÍNDIO
como assim, suas terras?

REI
Veja, veja aqui no mapa, está vendo? Daqui, deste
ponto desenhado, até aqui, nesse outro ponto, é tudo
meu. Daqui até aqui também.

ÍNDIO
Peraí, isso é dali, até ali, e mais longe ainda.
REI
Exatamente, meu súdito. rapaz verdadeiramente
inteligente. Exatamente, é tudo do rei, tudo meu.

ÍNDIO
Mas acho que estamos com um problema, ô rei.
REI
Problema?
ÍNDIO
Sim, sim, deixe-me explicar: é que a aldeia em que
vivemos...

REI
"Vivemos"? Quer dizer que tem mais de você?
ÍNDIO
Sim, o meu povo, muita gente. Bem, a nossa aldeia ela
fica nesse ponto aqui do mapa, quer dizer... Aqui.
(aponta para o chão)
9.

REI
Não, mas não pode meu súdito, isso é inadequado! não
podemos ter selvagens nas terras de uso do rei.
Diga-me, desde quando vocês invadiram minhas terras?

ÍNDIO
A gente mora aqui desde sempre... E o senhor?
REI
Bem, cheguei aqui faz poucos tempo, mas temos leis
que dizem que as terras são minhas.
ÍNDIO
Mas na lei não falam da gente, não?
REI
Não meu súdito, não falam não...
ÍNDIO
E quem fez essas leis?
REI
Fui eu, o rei! (risos escrachados) Vamos deixar de
papo, não, é? Tenho que reinar e isso toma todo o meu
tempo, então peço que se retire.
ÍNDIO
Mas rei, eu estou cansado e ia tirar um descansinho
aqui na minha esteira...
REI
Não, em hipótese alguma, não o permito fazer nada
aqui na terra do rei

INICIA-SE JOGO DE PALHAÇO.


REI (a continuación)
Bem, vamos acabar com isso de uma vez. Vou fazer uma
lei te dando uma parte da terra, está bem?

ÍNDIO
Bem não está, né?... O certo era tudo voltar para os
índios, mas se é o senhor que faz as leis...
REI
então eu lhe concedo uma porção de terra, que vai
(olhando o mapa)daqui até aqui...
ÍNDIO
Só isso?

REI
Se eu fosse você, nem reclamava, porque as leis
sempre mudam e pode ficar pior no futuro...
10.

ÍNDIO
No futuro, é...??
IOHANN
Sim, quando chegar a época dos generais!
(Passa a ser GENERAL)
11.

CENA 3
GENERAL
Que está fazendo aí, rapazinho?

ÍNDIO
Eu?
GENERAL
Está vendo mais alguém aqui?
(INDIO aponta para o público)
Não mude de assunto, conscrito. É com você mesmo que
estou falando. Que está fazendo aí?
ÍNDIO
Olhe, eu cacei a comida, rocei a plantação, cuidei
das crianças, nadei no rio porque ninguém é de ferro
e agora vou descansar um pouco olhando as nuvens lá
no céu... olha lá, aquela parece um macaquinho. E
aquela outra parece uma onçona graúda...
(GENERAL se posiciona na frente de
PANKARARÉ, impedindo-lhe de ver o céu)
Xi, pelo cara feia dessa nuvem acho que vai vir
tempestade por aí...
GENERAL
E sabe a quem pertence essas terras?

ÍNDIO
claro que sei, pertence aos povos originários, ela
foi roubada pelo rei, depois o rei devolveu um
pedacinho, pequenininho assim, mas fazer o quê, não
é? Aceitamos e ficamos por aqui...

GENERAL
Meu rapaz, meu rapaz, acho que está enganado...
ÍNDIO
Estou é...?

GENERAL
Está sim.
ÍNDIO
Enganado em que?

GENERAL
Essas terras, meu amigo, pertence ao Estado
brasileiro!

ÍNDIO
Ao Estado brasileiro? Aqui já está a gente, a gente
não é um Estado também?
GENERAL
Não, não. Estou falando do Estado brasileiro.
12.

ÍNDIO
A é?
GENERAL
Sim, é.
ÍNDIO
Mas cadê Estado brasileiro?
GENERAL
Está aqui, oras! (apontando para si mesmo)
ÍNDIO
Aí, dentro do senhor? E como foi que Entrou aí? O
Senhor devorou ele todo foi? O senhor devorou o
Estado brasileiro?

GENERAL
Não diga bobagem, seu índio selvagem e indolente. Eu
o represento... represento todo o Estado brasileiro e
sua vontade.

ÍNDIO
E o Estado brasileiro quer minhas terras, é?
GENERAL
Sim, ele quer essa terra aqui. Precisamos dela para
viver.
ÍNDIO
Para viver? Ah, então tá tudo bem, porque o senhor
não disse isso antes? Traga todo o Estado brasileiro
aqui, a gente se espalha, cabe todo mundo aqui.

GENERAL
Não é disso que estou falando! Ninguém vai vir morar
aqui! Eu, digo, Estado brasileiro precisa dessa terra
para... para... oras, para o futuro, para o
progresso, para o desenvolvimento nacional!

ÍNDIO
Desenvolvimento nacional, é? Hummm, que conversa
estranha...
GENERAL
Então, rapaz, junte seus cacarecos e saia daqui,
imediatamente.
ÍNDIO
Sair daqui, é?

GENERAL
Sim, imediatamente!
ÍNDIO inicia protesto contra a ditadura e pelo
poder popular.
13.

ÍNDIO
(Distribuindo panfletos para o público com os
primeiros artigos da Constituição) Acabou o tempo do
generais mandando nos índios e no povo todo! O povo
quer democracia! Não quer gente?
14.

CENA 4
IOHANN
Se é assim, já não tem mais general na cena!
(Camila comemora com o público)
Agora é a época dos presidentes!
(assume a personagem de PRESIDENTE)
Que que é isso aqui, cidadão?
ÍNDIO
Ai, vai começar tudo de novo... eu estou estendendo a
minha esteira aqui, o seu...seu...
PRESIDENTE
Eu sou o presidente, meu concidadão.

ÍNDIO
Ah, sim, eu sei, presidente. Então, senhor
presidente, eu estou estendendo a esteira aqui, no
meu cantinho. Eu já cacei, já pesquei, já cuidei das
crianças e já até nadei no rio, porque ninguém é de
ferro, não é, presidente...? E agora vou descansar.
PRESIDENTE
Ah, aqui você não pode descansar, não. Lamento, meu
concidadão.

ÍNDIO
Mas porque, agora?
PRESIDENTE
Porque... porque... porque... Bem, tenho apoiadores
que me ajudaram a ser eleitos, entende? Fazendeiros,
banqueiros, estrangeiros, é tanta gente, não é? E
eles querem essas terras aqui...
ÍNDIO
Ah, já entendi... então tenho que sair daqui, não é?

PRESIDENTE
É isso mesmo.
jogo de palhaço.
ÍNDIO
Tá certo, tá certo, senhor presidente. eu cansei. Me
entrego, deixo a minha terra terra para o senhor,
para o general, para o rei, para apoiadores e para
quem mais quiser.
15.

CENA 5
Inicia-se a cena A CHEGADA DE JOÃO.

CAMILA
E assim, sendo explusos de suas terras
IOHANN
E arrancados da vida

CAMILA E IOHANN
Que se formou o povo brasileiro.

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