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O Enfermeiro - Machado de Assis

Parece-lhe então que o que se deu comigo em anos, fiz-me teólogo, — quero dizer, copiava Achei-o na varanda da casa estirado numa
1860, pode entrar numa página de livro? Vá os estudos de teologia de um padre de Niterói, cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal.
que seja, com a condição única de que não há antigo companheiro de colégio, que assim me Começou por não dizer nada; pôs em mim
de divulgar nada antes da minha morte. Não dava, delicadamente, casa, cama e mesa. dous olhos de gato que observa; depois, uma
esperará muito, pode ser que oito dias, se não Naquele mês de agosto de 1859, recebeu ele espécie de riso maligno alumiou-lhe as feições,
for menos; estou desenganado. uma carta de um vigário de certa vila do que eram duras. Afinal, disse-me que nenhum
interior, perguntando se conhecia pessoa dos enfermeiros que tivera, prestava para
Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida entendida, discreta e paciente, que quisesse ir nada, dormiam muito, eram respondões e
inteira, em que há outras cousas servir de enfermeiro ao coronel Felisberto, andavam ao faro das escravas; dous eram até
interessantes, mas para isso era preciso mediante um bom ordenado. O padre falou- gatunos!
tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o me, aceitei com ambas as mãos, estava já
ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à enfarado de copiar citações latinas e fórmulas — Você é gatuno?
lamparina de madrugada. Não tarda o sol do eclesiásticas. Vim à Corte despedir-me de um
outro dia, um sol dos diabos, impenetrável — Não, senhor.
irmão, e segui para a vila.
como a vida. Adeus, meu caro senhor, leia isto Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-
e queira-me bem; perdoe-me o que lhe Chegando à vila, tive más notícias do coronel. lho e ele fez um gesto de espanto. Colombo?
parecer mau, e não maltrate muito a arruda, Era homem insuportável, estúrdio, exigente, Não, senhor: Procópio José Gomes Valongo.
se lhe não cheira a rosas. Pediu-me um ninguém o aturava, nem os próprios amigos. Valongo? achou que não era nome de gente, e
documento humano, ei-lo aqui. Não me peça Gastava mais enfermeiros que remédios. A propôs chamar-me tão-somente Procópio, ao
também o império do Grão-Mogol, nem a dous deles quebrou a cara. Respondi que não que respondi que estaria pelo que fosse de
fotografia dos Macabeus; peça, porém, os tinha medo de gente sã, menos ainda de seu agrado. Contolhe esta particularidade, não
meus sapatos de defunto e não os dou a doentes; e depois de entenderme com o só porque me parece pintá-lo bem, como
ninguém mais. vigário, que me confirmou as notícias porque a minha resposta deu de mim a
recebidas, e me recomendou mansidão e melhor idéia ao coronel. Ele mesmo o
Já sabe que foi em 1860. No ano anterior, ali caridade, segui para a residência do coronel. declarou ao vigário, acrescentando que eu era
pelo mês de agosto, tendo eu quarenta e dois
o mais simpático dos enfermeiros que tivera. pena zangar por uma rabugice de velho. mais; cinco, dez minutos de visita. Restava eu;
A verdade é que vivemos uma lua-de-mel de Instou tanto que fiquei. era eu sozinho para um dicionário inteiro.
sete dias.
— Estou na dependura, Procópio, dizia-me ele Mais de uma vez resolvi sair; mas, instado pelo
No oitavo dia, entrei na vida dos meus à noite; não posso viver muito tempo. Estou vigário, ia ficando. Não só as relações foram-se
predecessores, uma vida de cão, não dormir, aqui, estou na cova. Você há de ir ao meu tornando melindrosas, mas eu estava ansioso
não pensar em mais nada, recolher injúrias, e, enterro, Procópio; não o dispenso por nada. por tornar à Corte. Aos quarenta e dois anos
às vezes, rir delas, com um ar de resignação e Há de ir, há de rezar ao pé da minha sepultura. não é que havia de acostumar-me à reclusão
conformidade; reparei que era um modo de Se não for, acrescentou rindo, eu voltarei de constante, ao pé de um doente bravio, no
lhe fazer corte. Tudo impertinências de noite para lhe puxar as pernas. Você crê em interior. Para avaliar o meu isolamento, basta
moléstia e do temperamento. A moléstia era almas de outro mundo, Procópio? saber que eu nem lia os jornais; salvo alguma
um rosário delas, padecia de aneurisma, de notícia mais importante que levavam ao
reumatismo e de três ou quatro afecções — Qual o quê! coronel, eu nada sabia do resto do mundo.
menores. Tinha perto de sessenta anos, e — E por que é que não há de crer, seu burro? Entendi, portanto, voltar para a Corte, na
desde os cinco toda a gente lhe fazia a redarguiu vivamente, arregalando os olhos. primeira ocasião, ainda que tivesse de brigar
vontade. Se fosse só rabugento, vá; mas ele com o vigário. Bom é dizer (visto que faço uma
era também mau, deleitava-se com a dor e a Eram assim as pazes; imagine a guerra. Coibiu- confissão geral) que, nada gastando e tendo
humilhação dos outros. No fim de três meses se das bengaladas; mas as injúrias ficaram as guardado integralmente os ordenados, estava
estava farto de o aturar; determinei vir mesmas, se não piores. Eu, com o tempo, fui ansioso por vir dissipá-los aqui.
embora; só esperei ocasião. calejando, e não dava mais por nada; era
burro, camelo, pedaço d’asno, idiota, Era provável que a ocasião aparecesse. O
Não tardou a ocasião. Um dia, como lhe não moleirão, era tudo. Nem, ao menos, havia coronel estava pior, fez testamento,
desse a tempo uma fomentação, pegou da mais gente que recolhesse uma parte desses descompondo o tabelião, quase tanto como a
bengala e atirou-me dous ou três golpes. Não nomes. Não tinha parentes; tinha um sobrinho mim. O trato era mais duro, os breves lapsos
era preciso mais; despedi-me imediatamente, que morreu tísico, em fins de maio ou de sossego e brandura faziam-se raros. Já por
e fui aprontar a mala. Ele foi ter comigo, ao princípios de julho, em Minas. Os amigos iam esse tempo tinha eu perdido a escassa dose de
quarto, pediu-me que ficasse, que não valia a por lá às vezes aprová-lo, aplaudi-lo, e nada piedade que me fazia esquecer os excessos do
doente; trazia dentro de mim um fermento de cansaço, ou do livro, antes de chegar ao fim da ouvia distintamente umas vozes que me
ódio e aversão. segunda página adormeci também. Acordei bradavam: assassino! assassino!
aos gritos do coronel, e levantei-me
No princípio de agosto resolvi definitivamente Tudo o mais estava calado. O mesmo som do
estremunhado. Ele, que parecia delirar,
sair; o vigário e o médico, aceitando as razões, continuou nos mesmos gritos, e acabou por relógio, lento, igual e seco, sublinhava o
pediram-me que ficasse algum tempo mais. lançar mão da moringa e arremessá-la contra silêncio e a solidão. Colava a orelha à porta do
Concedilhes um mês; no fim de um mês viria mim. Não tive tempo de desviar-me; a quarto na esperança de ouvir um gemido, uma
embora, qualquer que fosse o estado do moringa bateu-me na face esquerda, e tal foi a palavra, uma injúria, qualquer coisa que
doente. O vigário tratou de procurar-me dor que não vi mais nada; atirei-me ao doente, significasse a vida, e me restituísse a paz à
substituto. pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e consciência. Estaria pronto a apanhar das
mãos do coronel, dez, vinte, cem vezes. Mas
Vai ver o que aconteceu. esganei-o.
nada, nada; tudo calado. Voltava a andar à toa
Na noite de vinte e quatro de agosto, o Quando percebi que o doente expirava, recuei na sala, sentava-me, punha as mãos na
coronel teve um acesso de raiva, atropelou- aterrado, e dei um grito; mas ninguém me cabeça; arrependia-me de ter vindo. —
me, disse-me muito nome cru, ameaçoume de ouviu. Voltei à cama, agitei-o para chamá-lo à "Maldita a hora em que aceitei semelhante
um tiro, e acabou atirando-me um prato de vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coisa!" exclamava. E descompunha o padre de
mingau, que achou frio, o prato foi cair na coronel morreu. Passei à sala contígua, e Niterói, o médico, o vigário, os que me
parede onde se fez em pedaços. durante duas horas não ousei voltar ao arranjaram um lugar, e os que me pediram
quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que para ficar mais algum tempo. Agarrava-me à
— Hás de pagá-lo, ladrão! bradou ele. passei, durante esse tempo. Era um cumplicidade dos outros homens.
atordoamento, um delírio vago e estúpido.
Resmungou ainda muito tempo. Às onze horas Como o silêncio acabasse por aterrar-me, abri
Parecia-me que as paredes tinham vultos;
passou pelo sono. Enquanto ele dormia, uma das janelas, para escutar o som do vento,
escutava umas vozes surdas. Os gritos da
saquei um livro do bolso, um velho romance se ventasse. Não ventava. A noite ia tranqüila,
vítima, antes da luta e durante a luta,
de d’Arlincourt, traduzido, que lá achei, e pus- as estrelas fulguravam, com a indiferença de
continuavam a repercutir dentro de mim, e o
me a lê-lo, no mesmo quarto, a pequena pessoas que tiram o chapéu a um enterro que
ar, para onde quer que me voltasse, aparecia
distância da cama; tinha de acordá-lo à meia- passa, e continuam a falar de outra coisa.
recortado de convulsões. Não creia que esteja
noite para lhe dar o remédio. Ou fosse de Encostei-me ali por algum tempo, fitando a
fazendo imagens nem estilo; digo-lhe que eu
noite, deixando-me ir a uma recapitulação da A primeira idéia foi retirar-me logo cedo, a estava com a consciência, e as primeiras
vida, a ver se descansava da dor presente. Só pretexto de ter meu irmão doente, e, na noites foram naturalmente de desassossego e
então posso dizer que pensei claramente no verdade, recebera carta dele, alguns dias aflição. Não é preciso dizer que vim logo para
castigo. Achei-me com um crime às costas e vi antes, dizendo-me que se sentia mal. Mas o Rio de Janeiro, nem que vivi aqui aterrado,
a punição certa. Aqui o temor complicou o adverti que a retirada imediata poderia fazer embora longe do crime; não ria, falava pouco,
remorso. Senti que os cabelos me ficavam de despertar suspeitas, e fiquei. Eu mesmo mal comia, tinha alucinações, pesadelos...
pé. Minutos depois, vi três ou quatro vultos de amortalhei o cadáver, com o auxílio de um
pessoas, no terreiro espiando, com um ar de preto velho e míope. Não saí da sala — Deixa lá o outro que morreu, diziam-me.
emboscada; recuei, os vultos esvaíram-se no mortuária; tinha medo de que descobrissem Não é caso para tanta melancolia.
ar; era uma alucinação. alguma cousa. Queria ver no rosto dos outros E eu aproveitava a ilusão, fazendo muitos
se desconfiavam; mas não ousava fitar elogios ao morto, chamando-lhe boa criatura,
Antes do alvorecer curei a contusão da face. ninguém. Tudo me dava impaciências: os impertinente, é verdade, mas um coração de
Só então ousei voltar ao quarto. Recuei duas passos de ladrão com que entravam na sala,
vezes, mas era preciso e entrei; ainda assim, ouro. E elogiando, convencia-me também, ao
os cochichos, as cerimônias e as rezas do menos por alguns instantes. Outro fenômeno
não cheguei logo à cama. Tremiam-me as vigário. Vindo a hora, fechei o caixão, com as interessante, e que talvez lhe possa
pernas, o coração batia-me; cheguei a pensar mãos trêmulas, tão trêmulas que uma pessoa,
na fuga; mas era confessar o crime, e, ao aproveitar, é que, não sendo religioso, mandei
que reparou nelas, disse a outra com piedade: dizer uma missa pelo eterno descanso do
contrário, urgia fazer desaparecer os vestígios
dele. Fui até a cama; vi o cadáver, com os — Coitado do Procópio! Apesar do que coronel, na igreja do Sacramento. Não fiz
olhos arregalados e a boca aberta, como padeceu, está muito sentido. convites, não disse nada a ninguém; fui ouvi-
deixando passar a eterna palavra dos séculos: la, sozinho, e estive de joelhos todo o tempo,
"Caim, que fizeste de teu irmão?" Vi no Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver persignando-me a miúdo. Dobrei a espórtula
pescoço o sinal das minhas unhas; abotoei alto tudo acabado. Saímos à rua. A passagem da do padre, e distribuí esmolas à porta, tudo por
a camisa e cheguei ao queixo a ponta do meia escuridão da casa para a claridade da rua intenção do finado. Não queria embair os
deu-me grande abalo; receei que fosse então homens; a prova é que fui só. Para completar
lençol. Em seguida, chamei um escravo, disse-
lhe que o coronel amanhecera morto; mandei impossível ocultar o crime. Meti os olhos no este ponto, acrescentarei que nunca aludia ao
chão, e fui andando. Quando tudo acabou, coronel, que não dissesse: "Deus lhe fale
recado ao vigário e ao médico.
respirei. Estava em paz com os homens. Não o
n’alma!" E contava dele algumas anedotas em recusar a herança. Parecia-me odioso tornava assim rabugento e até mau... Mas eu
alegres, rompantes engraçados... receber um vintém do tal espólio; era pior do perdoava tudo, tudo... O pior foi a fatalidade
que fazer-me esbirro alugado. Pensei nisso daquela noite... Considerei também que o
Sete dias depois de chegar ao Rio de Janeiro,
três dias, e esbarrava sempre na consideração coronel não podia viver muito mais; estava
recebi a carta do vigário, que lhe mostrei, de que a recusa podia fazer desconfiar alguma por pouco; ele mesmo o sentia e dizia. Viveria
dizendo-me que fora achado o testamento do cousa. No fim dos três dias, assentei num quanto? Duas semanas, ou uma; pode ser até
coronel, e que eu era o herdeiro universal. meio-termo; receberia a herança e dá-la-ia que menos. Já não era vida, era um molambo
Imagine o meu pasmo. Pareceu-me que lia toda, aos bocados e às escondidas. Não era só de vida, se isto mesmo se podia chamar ao
mal, fui a meu irmão, fui aos amigos; todos escrúpulo; era também o modo de resgatar o padecer contínuo do pobre homem... E quem
leram a mesma cousa. Estava escrito; era eu o crime por um ato de virtude; pareceu-me que sabe mesmo se a luta e a morte não foram
herdeiro universal do coronel. Cheguei a supor
ficava assim de contas saldas. apenas coincidentes? Podia ser, era até o mais
que fosse uma cilada; mas adverti logo que provável; não foi outra cousa. Fixeime
havia outros meios de capturar-me, se o crime Preparei-me e segui para a vila. Em caminho, à também nessa idéia... Perto da vila apertou-
estivesse descoberto. Demais, eu conhecia a proporção que me ia aproximando, recordava se-me o coração, e quis recuar; mas dominei-
probidade do vigário, que não se prestaria a o triste sucesso; as cercanias da vila tinham me e fui. Receberam-me com parabéns. O
ser instrumento. Reli a carta, cinco, dez, um aspecto de tragédia, e a sombra do vigário disse-me as disposições do testamento,
muitas vezes; lá estava a notícia. coronel parecia-me surgir de cada lado. A os legados pios, e de caminho ia louvando a
imaginação ia reproduzindo as palavras, os mansidão cristã e o zelo com que eu servira ao
— Quanto tinha ele? perguntava-me meu
gestos, toda a noite horrenda do crime... coronel, que, apesar de áspero e duro, soube
irmão.
Crime ou luta? Realmente, foi uma luta, em ser grato.
— Não sei, mas era rico. que eu, atacado, defendi-me, e na defesa... Foi — Sem dúvida, dizia eu olhando para outra
— Realmente, provou que era teu amigo. uma luta desgraçada, uma fatalidade. Fixei-me
parte.
nessa idéia.
— Era... Era... Estava atordoado. Toda a gente me elogiava a
E balanceava os agravos, punha no ativo as dedicação e a paciência. As primeiras
Assim por uma ironia da sorte, os bens do pancadas, as injúrias... Não era culpa do necessidades do inventário detiveram-me
coronel vinham parar às minhas mãos. Cogitei coronel, bem o sabia, era da moléstia, que o algum tempo na vila.
Constituí advogado; as cousas correram a arrancasse aos pedaços recompunha-se logo tanto tempo. Pode ser que eu,
placidamente. Durante esse tempo, falava e ia ficando. involuntariamente, exagerasse a descrição que
muita vez do coronel. Vinham contar-me então lhes fiz; mas a verdade é que ele devia
As obrigações do inventário distraíram-me; e
cousas dele, mas sem a moderação do padre; morrer, ainda que não fosse aquela
eu defendia-o, apontava algumas virtudes, era por outro lado a opinião da vila era tão fatalidade...
contrária ao coronel, que a vista dos lugares
austero...
foi perdendo para mim a feição tenebrosa que Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses
— Qual austero! Já morreu, acabou; mas era o a princípio achei neles. Entrando na posse da apontamentos valem alguma coisa, pague-me
diabo. herança, converti-a em títulos e dinheiro. também com um túmulo de mármore, ao qual
Eram então passados muitos meses, e a idéia dará por epitáfio esta emenda que faço aqui
E referiam-me casos duros, ações perversas, de distribuí-la toda em esmolas e donativos ao divino sermão da montanha: "Bem
algumas extraordinárias. pios não me dominou como da primeira vez; aventurados os que possuem, porque eles
Quer que lhe diga? Eu, a princípio, ia ouvindo achei mesmo que era afetação. Restringi o serão consolados."
cheio de curiosidade; depois, entrou-me no plano primitivo: distribuí alguma cousa aos
pobres, dei à matriz da vila uns paramentos Análise
coração um singular prazer, que eu
sinceramente buscava expelir. E defendia o novos, fiz uma esmola à Santa Casa da O conto, O enfermeiro é narrado em 1º pessoa
coronel, explicava-o, atribuía alguma coisa às Misericórdia, etc.: ao todo trinta e dous pelo protagonista-narrador Procópio. Ele é
rivalidades locais; confessava, sim, que era um contos. Mandei também levantar um túmulo convidado a cuidar de um velho enfermo, o
ao coronel, todo de mármore, obra de um coronel Felisberto, homem muito rude, o qual
pouco violento... Um pouco?
napolitano, que aqui esteve até 1866, e foi acaba sendo morto "acidentalmente" por
Era uma cobra assanhada, interrompia-me o Procópio. Essa obra literária começa com
morrer, creio eu, no Paraguai.
Procópio, já velho e à beira da morte,
barbeiro; e todos, o coletor, o boticário, o
Os anos foram andando, a memória tornou-se narrando a sua história sobre os meses
escrivão, todos diziam a mesma coisa; e infernais que passara ao lado do coronel,
vinham outras anedotas, vinha toda a vida do cinzenta e desmaiada. Penso às vezes no
como se pode verificar no trecho que segue:
defunto. Os velhos lembravam-se das coronel, mas sem os terrores dos primeiros
crueldades dele, em menino. E o prazer dias. Todos os médicos a quem contei as "Parece-lhe que o que se deu comigo em
moléstias dele, foram acordes em que a morte 1860, pode entrar numa página de livro? Vá
íntimo, calado, insidioso, crescia dentro de
era certa, e só se admiravam de ter resistido que seja, com a condição única de que não há
mim, espécie de tênia moral, que por mais que
de divulgar nada antes da minha morte. Não em julgar o ser humano e a vida de uma me ouviu. Voltei à cama, agitei-o para chamá-
esperará muito, pode ser que oito dias, se não maneira geral. Isto pode ser bem percebido no lo à vida, era tarde; arrebentara o aneurisma,
for menos; estou desenganado. Olhe, eu podia trecho abaixo: e o coronel morreu. Passei à sala contígua, e
mesmo contar-lhes minha vida inteira, em que durante duas horas não ousei voltar ao
há outras cousas interessantes, mas para isso "(...) Era homem insuportável, estúrdio, quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que
era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só exigente, ninguém o aturava, nem os próprios passei, durante esse tempo. Era um
tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo amigos. Gastava mais enfermeiros que atordoamento, um delírio vago e estúpido. (...)
assemelha-se à lamparina de madrugada (...) remédios. A dous deles quebrou a cara. (...) Se digo-lhe que eu ouvia distintamente umas
Não tarde o sol do outro dia, um sol dos fosse só rabugento, vá; mas ele era também vozes que me bradavam: assassino!
diabos, impenetrável como a vida. Pediu-me mau, deleitava-se com a dor e a humilhação Assassino!".
um documento humano, ei-lo aqui". dos outros. (...) Já por esse tempo tinha eu
perdido a escassa dose de piedade que me Durante a leitura, há uma mudança gigantesca
O Enfermeiro é um típico relato machadiano. fazia esquecer os excessos do doente; trazia não apenas nos perfis psicológicos das
Humano, porém irônico e distanciado, dentro de mim um fermento de ódio e personagens como também em nossas
trabalha com a imperfeição ética das aversão". próprias convicções iniciais. O enfermeiro
personagens que são, claro, representantes passa de vítima da rudeza do Coronel à
típicos da espécie. O ceticismo de Machado Outro dado importante a destacar é a responsável pela morte do mesmo. O Coronel,
levava-o a avaliar objetivamente a condição tematização da morte, a qual está vinculada, de vilão e ingrato passa a ser visto como uma
moral de seus semelhantes. Podemos notar ao mesmo tempo, à decomposição moral – se pessoa com um imenso sentimento de
que, após a morte do coronel Felisberto julgarmos que foi o enfermeiro o causador de gratidão, ao deixar para o seu enfermeiro toda
Procópio sentia-se culpado, mas com o passar tal fato – e a decomposição carnal – se a sua fortuna. Logo, há um deslocamento de
do tempo a culpa foi cada vez ficando menor considerarmos a doença como causadora do um esquema maniqueísta, onde se acredita
aos seus olhos. falecimento do coronel. Esse teor dramático que existam pessoas boas e pessoas ruins.
dado ao contemporâneo está relacionado à Machado nos quer mostrar, portanto, que
O homem é mais uma vez retratado por tragédia, a qual Machado acreditava ser o ninguém é tão bom ou tão mau quanto possa
Machado como um ser corrompido, egoísta, tema central da vida. Para ele, os melhores parecer. Os trechos que seguem ilustram bem
ingrato, oportunista e preso às forças momentos da arte concentram-se na visão esse fato, mostrando, na figura do enfermeiro,
malignas. Tais características podem ser trágica da existência humana, como se pode o modo como Machado representava esse
observadas tanto em Procópio quanto no observar nessa passagem: conflito interior do ser humano entre o bem e
Coronel Felisberto. Esse pessimismo o mal:
Machadiano em retratar a humanidade "Quando percebi que o doente expirava,
evidencia uma certa "má vontade" do autor recuei aterrado, e dei um grito; mas ninguém
"Queria ver no rosto dos outros se pela morte de Felisberto, ou esta foi fruto da inocência? Enfim, tais questionamentos são
desconfiavam; mas não ousava fitar ninguém. enfermidade? E quanto ao Coronel, será que frutos de uma técnica Machadiana, a qual se
Tudo me dava impaciências (...) Vindo a hora, ele era tão mau quanto parecia? Será que baseia em instaurar as dúvidas, ou seja, é a
fechei o caixão, com as mãos trêmulas, tão Felisberto não deixou a herança para o arte da sugestão, onde se espera que o leitor
trêmulas que uma pessoa, que reparou nelas, enfermeiro somente porque não tinha para seja co-participante do texto, completando-o.
disse a outra com piedade: quem deixar, ou até mesmo por simples
arrependimento? E Quanto ao relato inicial de Concluímos, com isso, que Procópio –o
- Coitado do Procópio! apesar do que padeceu Procópio, este não tinha um tom de enfermeiro- tinha uma aspecto de submissão
está muito sentido. arrependimento, como se ele dissesse "Perdoe ao coronel. Já o coronel Felisberto utilizava-se
o meu pecado" - no caso, a morte do Coronel? de autoritarismo. Procópio faz um flash-back
Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver dos dias em que trabalhou como enfermeiro,
Observe essa passagem, extraída do relato
tudo acabado. (...) Assim, por uma ironia da fato que acontecera entre os anos de 1859 e
inicial do enfermeiro:
sorte, os bens do coronel vinham parar às 1860.
minhas mãos. Cogitei em recusar a herança. "Adeus, meu caro senhor, leia isto e queira-me
(...) No fim dos três dias, assentei num meio- bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e não E como todo o conto Machadiano, ele coloca
termo; receberia a herança e dá-la-ia toda, aos maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a na mão do leitor a tarefa de julgar, decidir,
bocados e às escondidas. Não era só rosas (...)". como lhe bem entender, fato que se dá no
escrúpulo; era também o modo de resgatar o trecho citado a seguir:
crime por um ato de virtude; pareceu-me que Será isto uma possível confissão de Procópio?
ficava assim de contas saldas (...) na posse da Observe outra passagem, extraída dos "... perdoe-me o que lhe parecer mau.”
herança, converti-a em títulos e dinheiro. momentos finais do texto:
Eram então passados muitos meses, e a idéia
de distribui-la toda em esmolas e donativos "Todos os médicos a quem contei as moléstias
pios não me dominou como da primeira vez; dele, foram acordes em que a morte era certa,
achei mesmo que era afetação (...)". e só se admiravam de ter resistido tanto
tempo".
Ao término desse conto, algumas dúvidas
insistem em nos intrigar: Qual seria a real Nesse trecho residiria a constatação da
intenção de Procópio ao aceitar o serviço de inocência de Procópio, ou seria apenas um
enfermeiro? Será que ele foi o responsável álibi que ele se utilizava para provar sua
O caso da vara, de Machado de Assis: a sutileza na construção das personagens
Em O caso da vara, as sutilezas das relações seja convencido de que ele, Damião, não tem “espantado, medroso, fugitivo” e o leitor
interpessoais permeiam e dão o tom da vocação para ser padre. Dessa forma, para realmente torce para que ele seja ajudado.
estória. Como em todas as outras obras de atingir seu objetivo, se livrar definitivamente Assim, nessa primeira parte do conto, o
Machado, o enredo do conto é simples; os do seminário, Damião envolve três pessoas em protagonista parece ser a vítima de um
pequenos detalhes é que são importantes e sua trama, uma exercendo poder sobre a destino traçado por razões alheias à sua
reveladores. Aliás, em toda sua obra, Machado outra em benefício dele. vontade. No entanto, já nesse começo,
faz emergir a natureza humana, o caráter de Machado apresenta indícios de que Damião
cada personagem, por meio de fatos Ao fugir do seminário, em razão não é a vítima que parece.
cotidianos, aparentemente comezinhos. da impossibilidade de retornar à sua casa,
onde estava o pai que o devolveria Sendo João Carneiro compadre de seu pai,
Machado parece ter elaborado tipos imediatamente ao seminário, Damião começa parece ser ele a pessoa mais adequada para
psicológicos, uma tipologia de caracteres, a “inventariar” mentalmente quem poderia uma aproximação física e amistosa do pai de
dentre os quais parece escolher personas que acolhê-lo até o pai ser persuadido a aceitar Damião. Contudo, como o padrinho, movido
são testadas em situações-limite, numa sua desistência do seminário. Pensa em seu por si só, não agiria em favor de Damião,
espécie de análise combinatória, ou de uma padrinho, João Carneiro, para dissuadir o pai rapidamente, o seminarista escolhe Sinhá Rita,
matriz, em que as bases são compostas pelo da ideia de mantê-lo no seminário, mas como uma “amiga querida” do padrinho; essa
caráter dos personagens e pelos episódios que o padrinho é um “moleirão sem vontade, que escolha se deu porque ele “tinha umas idéias
exigem uma tomada de decisão. O resultado por si só não faria cousa útil”, ele decide vagas dessa situação e tratou de a aproveitar”
dessas combinações sempre revela as razões convencer uma amiga de seu padrinho, a viúva
egocêntricas que movem cada um, como se Sinhá Rita, a interceder em seu favor, Ainda assim, embora não pareça ser uma
uma pessoa somente se constituísse nas persuadindo o padrinho a falar com o seu pai. vítima “tão vitimizada”, o seminarista continua
interações, na relação com a outra pessoa. a ser o desvalido do conto. Até surgir Lucrécia.
À primeira vista, o conto parece tratar da fuga Nesse momento, o seminário passa a ser um
Como em Dom Casmurro, nesse conto há a de Damião do seminário e de suas articulações fator secundário e entra em evidência outro
rejeição do seminário por parte de Damião, o e manipulações para se safar da vida religiosa. episódio do qual o seminarista, embora esteja
protagonista, que tem interesse que seu pai Sua condição é caracterizada pelos adjetivos
na cena principal, não pode ser considerado o Nessa passagem, em que há a inserção da considerar que, para Machado, a distinção
herói da estória. personagem Lucrécia, o conto parece tomar entre as pessoas está na relação de poder
outra direção. Até então, Damião era o estabelecida entre elas. Nesse conto, as
Ao aguardar que o padrinho fosse contatado desvalido da narrativa. No entanto, a questão relações de poder são determinadas por
para em seguida interceder em seu favor, do seminário e o impasse sobre a cadeia de fatores sócio-econômicos, sexuais e
Damião se mantém na casa de Sinhá Rita, influências (Damião que convence Sinhá Rita, situacionais.
onde conta anedotas, causando o riso da viúva que convence João Carneiro, que deve tentar
e das crias dela, que faziam trabalhos de convencer o pai de Damião) se torna Na relação entre Sinhá Rita e Damião, a viúva
bordado. Entre as crias, há Lucrécia, com onze secundária. Os personagens principais passam se destaca pela vaidade, a qual, quando
anos, que por rir das anedotas de Damião, o a apresentar características que antes não “alimentada” pelo seminarista, impulsiona-a a
que acarretaria o atraso da tarefa, é apareciam, e as que já apareciam se tornam ajudá-lo. É notável a rapidez com que Damião
ameaçada, com uma vara, por Sinhá Rita. Ao inexpressivas. Sinhá Rita, que se destacava conclui traços do caráter do padrinho e da
perceber a situação, Damião tem pena da pela vaidade, mostra-se implacável e cruel; viúva, usando um para influenciar o outro:
negrinha e promete para si mesmo que, caso Damião, o desprotegido que implorava a
ela não terminasse a tarefa, ele a interferência de pessoas que tinham “— Meu padrinho? Esse é ainda pior que
apadrinharia. condições de ajudá-lo a se livrar do seminário, papai; não me atende, duvido que atenda a
não consegue interferir em favor de quem ninguém… — Não atende? interrompeu Sinhá
No entanto, na hora de recolher os trabalhos implora sua ajuda e, em vez de ajudar, auxilia Rita ferida em seus brios. Ora, eu lhe mostro
das crias, Sinhá Rita percebe que apenas na punição. Neste último caso, ainda há uma se atende ou não…”.
Lucrécia não havia terminado sua tarefa. agravante: Lucrécia seria punida, em parte,
Furiosa, a viúva agride a negrinha, que foge por culpa de Damião. Dessa forma, a recusa O seminarista logo percebe que apelando à
para dentro, chorando e pedindo perdão. do seminarista em ajudar a negrinha vaidade de Sinhá Rita, de forma sutil e
Sinhá Rita, irredutível, agarra a negrinha pela transforma a vítima inicial do conto, Damião, dissimulada, ele alcançaria seu intento.
orelha e pede a vara a Damião. O seminarista em algoz.
fica indeciso por alguns instantes, escuta as Entre Sinhá Rita e João Carneiro há uma
súplicas que a negrinha lhe faz e lembra-se Por intermédio desses episódios, já é possível relação de dominação sexual, em que a
que tinha jurado a apadrinhá-la, já que foi por perceber que nas relações propostas por autoritária viúva exerce um poder sobre o
causa dele que ela atrasara o trabalho. Machado é tocante a falta de alteridade. É padrinho, como é demonstrada na seguinte
Pressionado, tanto pelo pedido da viúva curioso que o outro, o “não-eu”, pareça pouco passagem: “Joãozinho, ou você salva o môço,
quanto pelas súplicas de Lucrécia, Damião importar numa situação em que o “eu” se ou nunca mais nos vemos.”.
entrega a vara a Sinhá Rita. E o conto termina. define na relação com o outro. Isso nos faz
Já entre Sinhá Rita e Lucrécia novamente é duas personagens que Damião resolve ficar de humilhada, socialmente desvalorizada e com
preponderante a dominação da viúva. No seu próprio lado. marcas de castigo, Damião não a ajuda, sob o
entanto, dessa vez, a relação de propriedade risco de perder a influência da viúva, mesmo
que os senhores mantêm com seus escravos Em termos de personalidade, os dois diante das súplicas da escrava. Assim, para
determina a predominância de uma cultura personagens-chave do conto são Damião e conseguir sua própria sobrevivência, as ações
escravocrata e patriarcal e estabelece Sinhá Rita: a viúva tem personalidade mais do seminarista são motivadas por razões
contrastes entre etnias e classes sociais. forte, e o seminarista é mais perspicaz e egoístas, fazendo-o agir sempre no sentido de
manipulador. Porém, tanto um quanto o outro salvar a própria pele, custe o que custar a
Entre Damião e Lucrécia é marcante o se define de maneira mais marcante na quem custar.
egoísmo do protagonista. Embora nessa relação com Lucrécia. É a condição da
situação também esteja em jogo uma relação pequena escrava que faz aflorar o traço mais Se fosse o caso de concluir uma moral para a
de poder, não é uma cultura patriarcal ou impactante de cada um. história, nesse conto Machado parece nos
escravocrata que move o seminarista, nem dizer que uma pessoa é muito mais do que
mesmo ele tem intenção de subjugar a A relação de domínio apresentada por Sinhá aquilo que conhecemos dela, na relação que
menina. Ele, em sua condição de homem Rita é determinada por fatores sócio- temos com ela. Outra coisa que ele parece nos
branco e bem colocado socialmente, só quer econômicos. Embora sua característica de mostrar é que no confronto entre a condição
se dar bem. subjugar o outro por meio de um exercício de historicamente marginal do outro – que não é
poder – ou mais precisamente de um abuso de apenas um, mas toda uma coletividade que
A decisão tomada por Damião parece ainda poder – a torne mais implacável, Sinhá Rita é pena um atavismo de exclusão – vão valer as
mais egoísta quando é projetada a imagem da um tipo previsível e manipulável. razões do indivíduo, tipo social moderno, em
cena, pouco descrita por Machado, mas situação de alguma espécie de desconforto.
sutilmente insinuada por ele. De um lado há Já Damião tem uma personalidade Mesmo que seja apenas ocasional.
Sinhá Rita, viúva, branca e bem relacionada. camaleônica que se mostra e se adapta de
De outro lado há Lucrecia, “uma negrinha acordo com as exigências dos fatos. Esse
magricela, um frangalho de nada, com uma caráter situacional do personagem o torna um
cicatriz na testa e uma queimadura na mão sobrevivente em qualquer circunstância.
esquerda”. A cor da pele, a constituição física Quando ele ainda era o desvalido do conto,
e as cicatrizes caracterizam a situação da cria: mesmo que um desvalido situacional, Sinhá
uma escrava subnutrida que frequentemente Rita o ajudou, atendendo a suas súplicas. Mas
é punida. É no confronto das condições dessas quando a desvalida é Lucrécia, escrava
ANÁLISE DO CONTO "PAI CONTRA MÃE”
3.1 Elementos estruturais da narrativa literária velha” e ambientada no Rio de Janeiro, nos tempos das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em
do Brasil imperial, tendo como assunto, a história tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a
A narrativa literária é um texto centrado em um de um caçador de escravos pobre que, para poder necessidade de uma achega, a inaptidão para
acontecimento, possuindo elementos estruturais ficar com seu filho recém-nascido, tem que outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de
básicos como enredo, personagens, espaço e entregar uma escrava negra fugitiva e grávida, servir também, ainda que por outra via, davam o
tempo, relatado por um narrador. recebendo por esta a sua recompensa. O tema impulso ao homem que se sentia bastante rijo para
abrange a escravidão, a discriminação e dominação pôr ordem à desordem.” (Duarte, 2007, p.
Os fatos de uma história não precisam ser
raciais, e a mensagem, o jogo de poder na luta pela 147/148)
necessariamente verdadeiros mas devem ser
sobrevivência.
verossímeis; isto significa que, mesmo sendo 3.2.2 Complicação Na lição de GANCHO (2008, 12),
inventados, o leitor deve acreditar no que está 3.2.1 Exposição Gancho (2008, p. 13) afirma que a a Complicação (ou desenvolvimento) “constitui a
lendo. Gancho (2008, p. 12) preconiza que “a Exposição (ou introdução ou apresentação) “é a maior parte da narrativa, na qual agem forças
verossimilhança é uma peculiaridade da narrativa parte na qual se situa o leitor diante da história”. auxiliares e opositoras ao desejo da personagem e
definida como “lógica interna do enredo, que o que intensificam o conflito”.
torna verdadeiro para o leitor: verossimilhança é Descrição dos instrumentos aplicados na tortura
pois, a essência do texto de ficção.” aos negros, da perda dos escravos fujões e do Apresentação do personagem Cândido Neves, seu
ofício de capturá-los: ofício, seu casamento com Clara e o nascimento do
3.2 Enredo Para se entender a organização dos filho:
fatos no enredo, “não basta perceber que toda “A ESCRAVIDÃO levou consigo ofícios e aparelhos,
história tem começo, meio e fim; é preciso como terá sucedido a outras instituições sociais. “Cândido Neves, -- em família, Candinho --, é a
compreender o elemento estruturador das partes: Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a pessoa a quem se liga a história de uma fuga,
o conflito” (Gancho, 2008, p. 12). Este, geralmente, certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro cedeu à pobreza, quando adquiriu o ofício de pegar
determina as partes do enredo: exposição, o ferro ao pé; havia também a máscara de folha- escravos fugidos. Tinha um defeito grave esse
complicação, clímax e desfecho. de-flandres. [...] Ora, pegar escravos fugidios era homem, não agüentava emprego nem ofício,
um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser carecia de estabilidade; é o que ele chamava
O conto “Pai contra Mãe” é uma narrativa instrumento da força com que se mantêm a lei e a caiporismo. Começou por querer aprender
publicada, em 1906, na obra “Relíquias da casa propriedade, trazia esta outra nobreza implícita tipografia, mas viu cedo que era preciso algum
tempo para compor bem, e ainda assim talvez não A saída para entrega do filho à Roda dos com que pegara a escrava fujona de há pouco, fúria
ganhasse o bastante; foi o que ele disse a si Enjeitados, o encontro com Arminda, a negra diversa, naturalmente, fúria de amor. Agradeceu
mesmo. O comércio chamou-lhe a atenção, era fugida, sua captura e a entrega ao seu senhor: depressa e mal, e saiu às carreiras, não para a Roda
carreira boa. Com algum esforço entrou de caixeiro dos enjeitados, mas para a casa de empréstimo
para um armarinho. A obrigação, porém, de “Cândido Neves foi obrigado a cumprir a promessa; com o filho e os cem milréis de gratificação. Tia
atender e servir a todos feria-o na corda do pediu à mulher que desse ao filho o resto do leite Mônica, ouvida a explicação, perdoou a volta do
orgulho, e ao cabo de cinco ou seis semanas estava que ele beberia da mãe. Assim se fez; o pequeno pequeno, uma vez que trazia os cem mil-réis. Disse,
na rua por sua vontade. Fiel de cartório, contínuo adormeceu, o pai pegou dele, e saiu na direção da é verdade, algumas palavras duras contra a
de uma repartição anexa ao Ministério do Império, Rua dos Barbonos. [...] O fruto de algum tempo escrava, por causa do aborto, além da fuga.
carteiro e outros empregos foram deixados pouco entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da Cândido Neves, beijando o filho, entre lágrimas,
depois de obtidos. [...] Voltou para a triste casa que mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido verdadeiras, abençoava a fuga e não se lhe dava do
lhe haviam emprestado. Tia Mônica arranjara de si Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que aborto. 22 -- Nem todas as crianças vingam, bateu-
mesma a dieta para a 21 recente mãe, e tinha já o horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à lhe o coração.” (Duarte, 2007, p. 158)
menino para ser levado à Roda. O pai, não Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer
obstante o acordo feito, mal pôde esconder a dor conhecer as conseqüências do desastre.” (Duarte, 3.3 Personagens
do espetáculo. Não quis comer o que tia Mônica 2007, p. 156/158)
Quanto ao papel desempenhado no enredo,
lhe guardara; não tinha fome, disse, e era verdade.
3.2.4 Desfecho Cândido Neves e Arminda são os personagens
Cogitou mil modos de ficar com o filho; nenhum
principais em oposição, que através do embate
prestava. Não podia esquecer o próprio albergue Gancho apregoa (2008, p. 12) que o Desfecho (ou travado, sai vencedor o primeiro, o mais “forte”,
em que vivia. Consultou a mulher, que se mostrou desenlace ou conclusão) é a “solução dos conflitos, apesar de sua fraqueza moral e instabilidade
resignada. Tia Mônica pintaralhe a criação do boa ou má, vale dizer configurando-se num final emocional, em razão da legitimidade concedida
menino; seria maior a miséria, podendo suceder feliz ou não”. pelo poder da classe dominante:
que o filho achasse a morte sem recurso. “(Duarte,
2007, p. 148/156) A volta para casa com a recompensa e o filho: Cândido Neves, chamado de Candinho, em família,
tem 30 anos, livre, pobre, cuja ocupação que
3.2.3 Clímax Para Gancho (2008, p. 12) o Clímax é “Quando lá chegou, viu o farmacêutico sozinho,
escolheu é vaga pois “passa semanas sem vintém“.
“o momento culminante da história, o momento sem o filho que lhe entregara. Quis esganá-lo.
Possui o ofício de “pegar escravos fugidos”. Seu
de maior tensão, no qual o conflito chega a seu Felizmente, o farmacêutico explicou tudo a tempo;
defeito grave é o de não aguentar emprego nem
ponto máximo”. o menino estava lá dentro com a família, e ambos
ofício; falta-lhe estabilidade. Acumula dívidas e
entraram. O pai recebeu o filho com a mesma fúria
mora com um primo. Quisera efetivamente fazer
outra coisa, pelo simples gosto de trocar de ofício, meio século, os escravos fugiam com freqüência”, morais e psicológicas em que vivem as
porém não achava à mão nenhum negócio que levando a crer que a ação se passa no final do personagens. Neste sentido, ambiente é um
aprendesse depressa. Brasil-império. conceito que aproxima tempo e espaço, pois é a
confluência deste dois referenciais, acrescida de
Arminda é negra e escrava fugida que está O tempo cronológico vem a ser “o tempo que um clima”.
esperando um filho. transcorre na ordem natural dos fatos no enredo,
isto é, do começo para o final. Está, portanto, As principais funções do ambiente são as de situar
Os personagens secundários, são Clara, esposa de ligado ao enredo linear [...]; chama-se cronológico os personagens no tempo, espaço e nas condições
Cândido Neves, 22 anos de idade, órfã, e mora com porque é mensurável em horas, dias, meses, anos, em que vivem, projetar os conflitos vividos pelos
uma tia e deseja muito se casar; Mônica, tia de séculos. (GANCHO, 2008, p. 25). Ora, o conto em personagens, além de oferecer indícios para o
Clara cuja profissão é a de costurar, bem como o tela compreende o período desde em que, o desenrolar da narrativa.
farmacêutico, senhor de Arminda. protagonista, no início, é solteiro e vai até o
nascimento do filho que teve com Clara, a moça O ambiente deste conto é da época ubana em que
Cumpre ressaltar que determinados personagens o Brasil vive sob à égide da instituição da
com quem se casou. Entretanto, no nono parágrafo
possuem nomes que não correspondem à escravatura. A violência e a hipocrisia da sociedade
do texto em questão há uma única referência
realidade de suas personalidades. O personagem tem o apoio das convenções sociais, legalizada
expressa e delimitada de tempo:
de nome Cândido que nos remete a uma relação para impor a “ordem social e humana” aos
de pureza e inocência, é rude e possui um caráter “O amor traz sobrescritos. Quando a moça viu dominados. A situação socioeconômica dos
duvidoso. Por sua vez, Clara, nome da mulher de Cândido Neves, sentiu que era este o possível personagens é muito precária, vivendo com
Cândido, que evoca uma matiz que pressupõe luz, marido, o marido verdadeiro e único. O encontro dificuldades financeiras enormes, beirando a
apresenta-se como apagada e submissa. deu-se em um baile; tal foi - para lembrar o miséria. O clima é de muita frieza, violência e
primeiro ofício do namorado, - tal foi a página tensão.
3.4 Tempo
inicial daquele livro, que tinha de sair mal
composto e pior brochado. O casamento fez-se 3.6 Narrador
No primeiro parágrafo o narrador informa que “a
escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como onze meses depois, e foi a mais bela festa das
O narrador é o encarregador de contar ou narrar os
terá sucedido a outras instituições sociais”. Como o relações dos noivos.” (grifo meu)
acontecimentos em uma obra literária. Em relação
tempo verbal desta oração é o pretérito perfeito, aos tipos de narrador, Gancho (2008, p. 31) explica:
3.5 Ambiente
“levou”, a trama que irá narrar já terminou, não
mais existe. Mas em seguida, mais precisamente, Ambiente, para Gancho (2008, p. 27) “é o espaço “Dois são os termos mais usados pelos manuais de
no terceiro parágrafo, o narrador afirma que “há carregado de características socioeconômicas, análise literária, para designar a função do
narrador na história: foco narrativo e ponto de honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas durante o período escravagista. O narrador
vista (do narrador ou da narração). Tanto um a ordem social e humana nem sempre se alcança também descreve os instrumentos de tortura
quanto outro se referem à posição ou perspectiva sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros utilizados na época da escravidão, a função de cada
do narrador frente aos fatos narrados. Assim, as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. aparelho, mas, em certo momento, ele interrompe
teríamos dois tipos de narrador, identificados à Mas não cuidemos de máscaras. O ferro ao a descrição para instigar o leitor acerca dos seus
primeira vista pelo pronome pessoal usado na pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai sentidos visuais e imaginar as sensações do
narração: primeira ou terceira pessoa (do uma coleira grossa, com a haste grossa também à sofrimento. Há, ainda, a presença do discurso
singular)”. direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e direto, em que os personagens dialogam
fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, diretamente, mesclado com o discurso indireto, no
No Conto de Machado de Assis, “Pai contra Mãe”, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia qual o narrador intermedia a conversa do
o narrador se posiciona, ora fora dos fatos assim, onde quer que andasse, mostrava um personagem com o leitor.
narrados, tipificando o narrador observador, ora reincidente, e com pouco era pegado. Há meio
dentro, ou seja, falando com o leitor ou julgando século, os escravos fugiam com freqüência. Eram 3.7 Análise Crítica
diretamente o comportamento dos personagens, muitos, e nem todos gostavam da escravidão.
chamado este de narrador “intruso”, conforme, a Machado de Assis questiona e denuncia, com
Sucedia ocasionalmente apanharem pancada, e
título de exemplo, denota-se da narrativa: extrema destreza, o panorama traçado com a
nem todos gostavam de apanhar pancada. Grande
instituição da escravidão e suas nefastas
parte era apenas repreendida; havia alguém de
“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, conseqüências. Não obstante, foi acusado de
casa que servia de padrinho, e o mesmo dono não
como terá sucedido a outras instituições sociais. cidadão omisso perante os problemas de seu
era mau; além disso, o sentimento da propriedade
Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a tempo. Duarte reproduz discurso de um dos
moderava a ação, porque dinheiro também dói. A
certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro intelectuais do movimento negro, Ironides
fuga repetia-se, entretanto. Casos houve, ainda
o ferro ao pé; havia também a máscara de folha- Rodrigues (Duarte apud Rodrigues, 2007, p.9):
que raros, em que o escravo de contrabando,
de-flandres. A máscara fazia perder o vício da
apenas comprado no Valongo, deitava a correr, “[Machado] exprimia-se como um escritor branco
embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca.
sem conhecer as ruas da cidade. Dos que seguiam que não sentisse o mínimo de sangue negro
Tinha só três buracos, dois para ver, um para
para casa, não raro, apenas ladinos, pediam ao correndo em seu coração. É o patrono da
respirar, e era fechada atrás da cabeça por um
senhor que lhes marcasse aluguel, e iam ganhá-lo Academia Brasileira de Letras, numa prova de sua
cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação
fora, quitandando. (grifo meu).” branquitude de inspiração, ficando à margem e
de furtar, porque geralmente era dos vinténs do
senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí pouco se preocupando com movimento sociais do
Destarte, é possível afirmar que o tempo da
ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a seu tempo, como a Abolição e a República.”
narração é após a abolição, enquanto o narrado é
Entretanto, não é isso que se percebe da leitura de Entretanto, mesmo próximos à miséria, o homem e mulatos, na população brasileira. De lá para cá
sua obra. Ao contrário, o posicionamento do pai, livre e branco, que acredita ser superior à muita coisa aconteceu.
escritor frente ao sistema patriarcal e escravista, escrava, negra e mãe, vinga, em detrimento desta,
encontra-se registrado, em várias obras suas e considerada mera mercadoria, em razão da Contudo, o Brasil atual continua sendo um país de
sobretudo neste brilhante texto literário. proteção que o perverso sistema social da época grandes contrastes sociais, especialmente no que
lhe confere. diz respeito ao aspecto racial. Conforme dados
Descreve o autor os instrumentos de tortura noticiados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
utilizados nos escravos e o ofício de capturá-los É sabido que a escravidão teve seu início no Brasil Estatística – IBGE, ao divulgar um estudo especial
para em seguida apresentar o protagonista da durante o período colonial, quando os da Pesquisa Mensal de Emprego, em setembro de
narrativa, Cândido Neves, sujeito pobre, que, por portugueses, para explorar o comércio do pau- 2006, dão conta de que a população
não se adaptar a nenhum ofício da época, torna-se brasil, utilizaram o trabalho dos negros, após a declaradamente preta ou parda tem menos
caçador de escravos. Mais tarde, conhece Clara malsucedida tentativa de explorar os índios que escolaridade e um rendimento médio equivalente
com quem se casa e tem um filho. Desesperado, aqui habitavam, vindos principalmente de à metade do recebido pela população branca, na
por não poder sustentá-lo, a providência se Moçambique, Angola e Guiné para o Brasil e média das seis regiões metropolitanas
encarrega de fazê-lo encontrar uma negra fugida, transportados nos chamados “navios negreiros”, investigadas.
Arminda, cuja polpuda recompensa é oferecida, e em condições extremamente precárias,
que por conta de sua captura, acaba por perder o desembarcavam nos portos, sobretudo, do Rio de O olhar sensível do escritor deixa um relato
filho que também espera. Janeiro, Recife e Salvador. bastante atual, apesar de escrito no final do século
XIX.
Nos entremeios de sua narrativa, marcada por O tráfico de escravos negros perdurou até 1850.
uma linguagem correta, clássica, com frases curtas Foi, então, promulgada a Lei do Ventre Livre, em
e pelo diálogo com o leitor, salpicada com uma fina 1871, que garantia a liberdade aos filhos dos
ironia e disfarçada indiferença, o notável escritor, escravos. Finalmente, em 1888, foi decretada a lei
delata todo o horror da escravidão, assim 26 como que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil,
o egoísmo, humano, a degradação social e moral a intitulada de Lei Áurea, assinada pela Princesa
que os personagens Cândido e Arminda são Isabel. Consequentemente, houve uma intensa
submetidos, e a proximidade na condição de miscigenação de grupos raciais, decorrente,
miserável tanto do branco livre quanto o negro sobretudo, da fusão dos europeus, negros, índios e
escravo.
ESSES LOPES – GUIMARÃES ROSA
RESUMO discurso, suas ações, também violentas. nas últimas décadas, uma maior preocupação com
Empregam-se considerações teóricas de Bosi a questão da violência contra mulheres no Brasil,
O presente artigo objetiva realizar uma análise do (1988), Genette (19--) e Reis; Lopes (1988), para como é possível observar, a partir da criação de
conto “Esses Lopes”, de João Guimarães Rosa. No auxiliar a tarefa analítica. Espera-se, com o dispositivos legais para aumentar o rigor na
texto literário em questão, o leitor se depara com presente artigo, refletir acerca da opção do foco punição de crimes contra a mulher, como, por
uma narradora-personagem, a Flausina, que relata narrativo e sua pertinência para a construção dos exemplo, a Lei 11.340/06, conhecida como Lei
as diversas formas de violência vividas em sua significados no conto. Maria da Penha. De modo semelhante, a
juventude; bem como o detalhamento dos instituição de delegacias da mulher demonstra
artifícios, por ela utilizados, para se livrar de seus O conto escolhido para esta análise é Esses Lopes, maior atenção ao problema. O anseio de mudança
sofrimentos. Para tal análise, primeiramente, será um dos quarenta contos de Tutameia. Nele, Rosa pode ser notado ainda com a criação de diretrizes e
observada a opção narrativa do autor, recorrente deu voz a uma narradora-personagem que conta políticas públicas para as mulheres, incluindo
em sua obra, em uma breve tentativa de sua própria estória a um interlocutor inominado. formas de enfrentamento às formas de violência
localização da obra de Rosa no panorama literário Esse procedimento narrativo faz parte de sete contra as mulheres, que constituem “uma das
brasileiro. Em seguida, será destacada a contos dessa obra rosiana e traz para a narrativa principais formas de violação dos seus direitos
importância, para a construção do enredo, desta uma visão “de dentro” da estória3 . Nesse conto, a humanos”. (BRASIL, 2008, p. 95) No entanto,
modalidade de narrador, que conta uma história da narradora relata a situação traumática pela qual apesar dos esforços de diversos movimentos
qual participou como protagonista. A análise segue passou, tratando de um assunto vigente até nossos sociais e instituições, a violência contra as
com a evidenciação da pertinência, ainda atual, da dias: a violência, por vezes silenciosa, contra a mulheres ainda se faz presente, como atesta,
abordagem da violência contra a mulher – tema mulher. Nesse caso, o universo ficcional literário dá segundo Gonçalves (2013), Eleonora Menicucci, ex-
que é tratado no conto em questão. Nesta análise margem para tratar de um assunto delicado, que ministra da Secretaria de Políticas para as
será destacado, ainda, o modo pelo qual a talvez a própria sociedade da época não atribuísse Mulheres.
narradora tenta superar seus traumas a partir da a devida atenção.
concretização de planos ardilosos e fatais contra Voltando ao universo ficcional dos contos de
seus opressores, tentando justificar, em seu Deixando brevemente o campo literário e Guimarães Rosa, nota-se sua ambientação em um
observando as práticas sociais e políticas, nota-se,
momento anterior a esse descrito acima, em que a lembranças infelizes, utilizando-se de outros meios, reprovo meu nome, de Flausina” (p. 45). A
personagem precisa se valer de seus próprios sempre ardilosos, como será evidenciado a seguir. narradora, com essa colocação, reitera o aspecto
métodos, ainda que violentos, para se livrar da opositivo mencionado, dessa vez expresso pelo
opressão, da angústia e do sofrimento que causam No conto em questão, encontra-se a narração de embate entre o desejo, de se chamar Maria Miss, e
sua opressão. Em Esses Lopes, o ato narrativo tem Flausina, mulher de origem humilde, que, desde a a realidade, de ter Flausina como nome. Inclusive,
por objetivo exteriorizar as mágoas e os abusos mocidade, se viu como “propriedade” dos ao final do conto, quando é retomado o instante da
sofridos, contidos por anos a fio pela, então, jovem poderosos homens da família Lopes. Em sua enunciação, percebe-se a que o orgulho da
protagonista – agora, mulher madura, convertida. exposição, retoma o modo pelo qual exterminou, narradora de ter vencido é acompanhado pela
um a um, os seus parceiros, até tornar-se mulher amargura da perda da pureza: “De que me adianta
em narradora de sua própria estória de vida. Sua de muitas posses. Em seu discurso, marcado pela estar remediada e entendida, se não dou conta de
narração funciona como uma espécie de catarse emoção, pelo rancor e pela indignação, conta como das saudades?” (p. 48) Desse modo, mantém-se a
para o trauma do passado. De acordo com o conseguiu transformar seus sofrimentos em vitória, oposição vista no começo do relato. Os
Dicionário Houaiss Eletrônico, a etimologia da a partir do plano traçado de utilizar a astúcia, a sentimentos de angústia, de tristeza e sofrimento
palavra trauma está ligada ao termo grego traûma, palavra e a paciência contra o poder, a riqueza e a perpassam todo o seu discurso.
significando “ferida, avaria, derrota, desastre”. força bruta dos Lopes.
Flausina, no momento do seu relato, se encontra
A narradora retorna aos seus anos de juventude, Flausina caracteriza sua origem humilde no mesmo lugar em que se passaram todas as suas
percorrendo, com a narração, o período de longos retomando os tempos de infância: “Eu era menina, experiências: “Êsses Lopes, raça, vieram da outra
anos, até remeter seu relato ao momento atual, me via vestida de flôres. Só que o que mais cedo ribeira, tudo adquiriam ou tomavam; não fosse
em que fala já envelhecida. Nesse momento, em reponta é a pobreza. Me valia ter pai e mãe, sendo Deus, e até hoje mandavam aqui, donos” (p. 45). O
busca de mais sentido para sua vida, faz planos órfã de dinheiro?” (Rosa, 1968, p. 45)4 . Sua beleza espaço da diegese não possui determinações
para o futuro e dirige suas palavras diretamente também é destacada: “linda eu era até a remirar explícitas, a não ser por alguns poucos marcadores,
ao(s) interlocutor(es), que permanece(m) minha cara na gamela dos porcos, na lavagem” (p. como por exemplo: “outra ribeira”, “aqui” e “na
indeterminado(s) na estória. Sua narração é, até 45). Nota-se que essa oposição, aqui expressa pela beira do meu terreiro” (p. 47). Desse modo, poder-
certo ponto, marcada pelo estado de inquietação imagem da beleza remirada na lavagem, se se-ia considerar tanto o espaço da diegese quanto
emocional, pelo rancor diante da violência vivida, mantém em todo o seu relato, como, por exemplo, o da enunciação como “interiorizados”.
mas, ao final, passa a ser marcada pelo tom na constante oscilação entre sentimentos de
“otimista”, diante da possibilidade de mudança. A satisfação e insatisfação. A maneira como ela se Carlos Reis e Ana Cristina Lopes caracterizam o
narradora tenta reverter o seu passado de refere, logo a princípio, ao seu nome expressa bem espaço psicológico como constituído “em função
essa ideia: “Eu queria me chamar Maria Miss, da necessidade de evidenciar atmosferas densas e
perturbantes, projetadas sobre o comportamento, homens. Isso demonstra maior equidade na (são) completamente indeterminado(s). Não há
também normalmente conturbado, das questão de gêneros. Mesmo no campo artístico, qualquer menção a possíveis “relatores” de seu
personagens” (1988, p. 205). Esse espaço se como na literatura, por exemplo, percebe-se a discurso, assim como não há intromissões em sua
caracteriza ainda pela sua manifestação em forma progressiva participação das mulheres, o que fala no plano da enunciação. A narração de
de “monólogo interior” (REIS; LOPES, 1988, p. 266), indicia uma mudança de mentalidade. Flausina mostra como passou da época de
muito próximo da atitude narrativa de Flausina. inocência para a maturidade, depois de passar
O discurso da narradora, Flausina, é marcadamente anos “nas mãos” dos Lopes, que a sujeitavam aos
Infere-se que o espaço físico desse lugar seja o do oral, e se faz em forma de monólogo, por estar seus desejos. A narradora relata, ainda, a maneira
sertão, tanto pela ambientação – conforme ausente a figura de um narratário. As várias pela qual se livrou de todos eles, detendo-se em
demostra os trechos a seguir: [1] “outra ribeira”, interrogações presentes no conto, além de cada caso vivenciado, explicando como se iniciaram
“na beira do meu terreiro” (p. 47) e [2] “Meus servirem à própria reflexão da narradora, parecem e acabaram. É necessário observar mais
filhos, Lopes, também, provi de dinheiro, para “testar” o canal comunicativo. Referentemente a detidamente como isso se faz no discurso de
longe daqui viajarem gado” (p. 48) –; quanto pela isso, seguem alguns trechos: [1] “Me valia ter pai e Flausina.
contextualização dos costumes descritos em que a mãe, sendo órfã de dinheiro?” (p. 45); [2] “Tive
menina é tirada da casa dos pais, a contragosto, algum?” (p. 45); [3] “sei as perversidades que Ao começar seu relato, a narradora anuncia sua
para “se casar”, conforme é possível verificar neste roncava?” (p. 46); [4] “os Lopes me davam intenção: “quero falar alto” (p. 45). Assim, ela
trecho: “eu queria enxoval, ao menos, feito as sossêgo?” (p. 47); [5]“E o govêrno da vida?” (p. 47) demonstra, logo de saída, seu ódio, sua ira e seu
outras, ilusão de noivado. Tive algum? Cortesias ; [6]“Ao Sertório dei mesmo dois filhos?” (p. 48); rancor pelos Lopes, incluindo os filhos que com
nem igreja. O homem me pegou, com quentes [7] “sou de me constar em folhinhas e datas?” (p. eles teve. Os dois trechos, transcritos a seguir, um
mãos e curtos braços, me levou para uma casa, 48); e, por fim [8] “De que me adianta estar que inicia e o outro que encerra o conto,
para a cama dêle” (p. 45). Percebe-se, portanto, remediada e entendida, se não dou conta de exemplificam tal dado: “Má gente, de má paz;
que esse lugar pertence a uma sociedade arcaica, questão das saudades?” (p. 48). Em sua fala, dêles quero distantes léguas. Mesmo de meus
classista e machista; representa um Brasil antes das percebese, por certo tom emotivo e amargurado, o filhos, os três” (p.45); “Todo o mundo vive para ter
políticas públicas destinadas às mulheres, como as trauma do passado, principalmente quando ela alguma serventia. Lopes, não! – dêsses me
de enfrentamento às formas de violência, ou, contrasta os anos de infância com o sofrimento arrenego.” (p. 48) A condição econômica
então, da participação das mulheres nos espaços causado pelos anos de convivência com os Lopes. confortável dos Lopes era vinculada a atitudes
de poder e decisão. Nota-se, atualmente, uma desmedidas: “Êsses Lopes, raça, vieram de outra
paulatina expansão nos campos de atividades Observa-se, no conto, a presença de nível narrativo ribeira, tudo adquiriam ou tomavam” (p.45). A
profissionais e mesmo o exercício de cargos no qual a narradora Flausina se encontra, dirigindo então menina Flausina, diante desses poderosos
políticos elevados, antes exclusividade dos suas palavras diretamente ao(s) ouvinte(s), que é Lopes – sendo “órfã de dinheiro” (p. 45) e sem
apoio dos pais “para punir” (p. 45) por ela –, inicia igual – que da vida logo desapareceu, em sistema Aqui é notório o tom comovente, também
sua via crucis com Zé Lopes, “rompente sedutor” de não-se-sabe”. (p. 46) marcado pela indignação. Uma das angústias da
(p. 45) que, a leva, contrariada, para sua casa, narradora está ligada à questão da pureza perdida:
como esposa. Flausina agiu mascarando suas verdadeiras “A maior prenda, que há, é ser virgem.” (p. 45).
intenções contra seus opressores, mas cuidou de Observa-se, além disso, que o problema da
A jovem Flausina, descontente com a situação justificar, a seu(s) interlocutor(es), essas atitudes sujeição também está atrelado à carência
opressora, passa a agir de modo dúplice, fazendo- dissimuladas, sensibilizando-o(s). Para isso, ela econômica: “Me valia ter pai e mãe, sendo órfã de
se de “miúda, mansa, feito botão de flor” (p. 45) e expõe, dentre outras formas de violência, a dinheiro?” (p. 45). Em função disso, Flausina se
contendo seus sentimentos: “Mais aprendi lição de submissão sexual que tanto a oprimia: “Deitada é esforça para reverter, ao longo da vida, seu estado
ter juízo. Calei muitos prantos.” (p. 45). A que eu achava o somenos do mundo, camisolas do de privação econômica: “E dê-cá dinheiro. [...] Sem
personagem relata ter suportado a sujeição demônio” (p. 46). O parágrafo transcrito logo acautelar, êle me enriquecia”. (p. 46). Para cumprir
pacientemente, conforme demostra este trecho: abaixo explicita bem a sua angústia e infelicidade, tal intento, a personagem emprega, além da
“Agüentei aquele caso corporal”(p. 46). Mas, ao bem como seu desejo de mudar de vida e “querer dissimulação, o aprimoramento do trato com as
mesmo tempo, planejava sua libertação por meio outras larguras” (p. 46): palavras, que deseja conhecer melhor: “Tracei as
de atitudes e palavras: “Fiz que quis: saquei letras. Carecia de ter o bem ler e escrever,
malinas lábias” (p. 46). Flausina emprega, então, a Ninguém põe idéia nesses casos: de se estar noite
conforme escondida”. (p. 46)
dissimulação como método para se libertar; usa inteira em canto de catre, com o volume do outro
essa estratégia, inclusive, contra a “preta Si-Ana”, cercando a gente, rombudo, o cheiro, o ressonar, Já decidida a mudar sua situação, a narradora
colocada em casa por Zé Lopes para vigiá-la. A esse qualquer um é alheios abusos. A gente, eu, passa, pouco a pouco, a enfraquecer o seu
respeito, evidencia-se o trecho a seguir: “Entendi: a delicada môça, cativa assim, com o abafo opressor. Assim ela descreve o modo como deu
que eu tinha de engambelar, por arte de contas; e daquele, sempre rente, no escuro. Daninhagem, o cabo de Zé Lopes, “o pior” (p. 45): “Virei cria de
à qual chamei de madrinha e comadre. Regi de homem parindo os ocultos pensamentos, como cobra. Na cachaça, botava sementes da cabaceira-
alisar por fora a vida” (p. 46). O poder de um dia come o outro, sei as perversidades que preta, dosezinhas; no café, cipó timbó e
dissimulação da personagem chega a tal ponto que roncava? Aquilo tange as canduras de nôiva, pega saiabranca. Só para arrefecer aquela desabada
ela consegue se livrar da “preta SiAna”, inventando feito doença, para a gente em espírito se vontade, nem confirmo que seja crime”. (p. 46)
uma mentira a seu respeito, fazendo, assim, com traspassa. Tão certo como eu hoje estou o que
que ela fosse despedida: “Mandou embora a preta nunca fui. Eu ficava espremida mais pequena, na Vê-se, aqui, que a narradora, consciente de seus
Si-Ana, quando levantei o falso alegado: que ela parede minha unha riscava rezas, o querer outras atos maldosos (“Virei cria de cobra”), questiona
alcovitava eu cedesse vêzes carnais a outro, Lopes larguras. (p. 46) sua ação como não sendo criminosa (“nem
confirmo que seja crime”). Coloca-se, então, uma
questão moral, que Flausina levanta ouro e punhal na mão, inda antes do sétimo dia já Por fim, a narradora relata como se deu o seu
implicitamente em seu relato: a menina, arrancada entrava por mim a dentro em casa”. (p. 47) último relacionamento com um Lopes:
de sua inocência para se tornar mulher e que fez “Sorocabano Lopes, velhôco, o das fortes
de sua libertação objetivo maior, agiu certo ao usar Os Lopes se sucedem assim na “posse” de Flausina, propriedades. Me viu e me botou na cabeça.
os meios descritos para se livrar desse “povo ruim”, como uma herança familiar. A narradora Aceitei, de boa graça, êle era o aflitinho dos
que era os Lopes? Do ponto de vista de Flausina, os demonstra novamente seu descontentamento e consolos. Eu impondo: ‘De hoje em diante, só
assassinatos por ela cometidos se justificam como angústia diante da situação imposta: “Padeci com muito casada!’ Êle, por fervor, concordou” (p. 47).
uma forma de autodefesa, pois, vivendo em um jeito. E o govêrno da vida? Anos, que me foram, de Aqui, tendo visto que esse Lopes, já idoso, não era
universo machista e classista, provavelmente não gentil sujeição, custoso que nem guardar chuva em truculento, sua estratégia de sobrevivência e
lhe restariam muitas alternativas diferentes. Seu cabaça, picar fininho a couve” (p. 47). Assim, mais transferência de propriedades muda um pouco; ela
discurso, que desde o princípio menciona a uma vez, ela justifica sua atitude de compensar tal trata de satisfazer os desejos dele: “bem demais e
agressividade e a desmesura das atitudes dos sofrimento com a transferência, para si, das posses melhor tratei, seu desejo efetuado” (p. 47). Mas a
Lopes, parece se antecipar a uma possível pergunta de seu companheiro. Flausina então revela como morte, também a ele destinada pela narradora, se
do leitor: foi correto arquitetar a morte deles? Se, conseguiu conquistar o dinheiro de Sertório Lopes: dá de outra forma: “dava a êle gordas, temperadas
por um lado, o conto pode suscitar esse “Total, o quanto era dêle, cobrei, passando ligeiro comidas, e sem descanso agradadas horas – o
questionamento, por outro, a narradora faz com já para minhas posses; até honra. Experimentei sujeito chupado de amôres, de chuchurro. Tudo o
que, a esse, esteja atrelada a seguinte ponderação: finuras novas” (p. 47). Depois, instigando ciúmes que é bom faz mal e bem. Quem morreu mais foi
mas, foi certo padecer tantos abusos, a no cônjuge, inventa uma mentira que causa um ele” (p. 47 - 48). Mais uma vez, a astuta Flausina
contragosto? embate fatal entre Sertório e Nicão Lopes, não deixa de pensar em sua situação financeira:
parentes que disputavam entre si Flausina: “Vi foi “Daí, tudo quanto herdei, até que com nenhum
Como consequência do plano de Flausina, Zé Lopes êle sair, fulo de fulo, revestido de raiva, com os enjôo” (p. 48). Finalmente, ela acaba com “o povo
morre envenenado depois de algum tempo. Mas a bolsos cheios de calúnia. Ao outro eu tinha enviado ruim” dos Lopes, conseguindo finalmente sua
narradora não tem paz, pois, logo após a morte de os recados, embebidos em doçura [...] Se libertação.
Zé Lopes, relata que outros Lopes ainda enfrentaram, bom contra bom, meus relâmpagos,
desejavam-na como mulher: “Dois deles, tesos, me a tiros e ferros” (p. 47). Após a morte de mais dois Agora, remediada, a narradora decide os rumos de
requerendo, o primo e o irmão do falecido Mexi Lopes, Flausina não deixa de lado a máscara que sua vida e pode, enfim, escolher seu parceiro, mais
em vão por me soltar [...] Nicão, um, mau me adotara, ao dissimular seus sentimentos diante dos jovem que ela: “Deixo de porfias, com o amor que
emprazou: ‘Despois da missa de mês, me espera...’ moradores do lugar: “Inconsolável chorei, achei. Duvido, discordo de quem não goste. Amo,
”(p.47). Sem saída, passa, antes disso, às mãos de conforme os costumes certos, por a piedade de mesmo. Que podia ser mãe dele, menos me falem,
Sertório Lopes: “Mas o Sertório, senhor, o outro, todos”. (p. 48) sou de me constar em folhinhas e datas?” (p. 48).
Percebe-se, ao final, como já observado “linda eu era até a remirar minha cara na gamela mesma diz: “Aos pedacinhos, me alembro.” (p. 45).
anteriormente, que a retomada do momento dos porcos” (p. 45). Assim, a narradora marca as Como se o tempo de seu relato não fosse ditado
presente revela certo orgulho, por parte de lembranças mais remotas, referentes ao tempo da pelas “folhinhas e datas” (p. 48), mas sim pelo
Flausina, por ter vencido, por si só, as situações inocência pueril, que se constituem em uma recorte seletivo de suas lembranças, mostrando a
difíceis, estando agora com posses e memória saudosa do passado. ação e reação dos atos de violência praticados
entendimento, ao mesmo tempo em que desponta contra ela. Assim, a narradora, além de expor sua
a tristeza por ter perdido a inocência dos tempos Com a chegada dos Lopes iniciam-se os seus estória – comovente e brutal –, defende e justifica
de infância: “De que me adianta estar remediada e sofrimentos e a perda da inocência, marcados, suas atitudes do passado, diante do narratário. O
entendida, se não dou conta de questão das terminantemente, pelo tempo verbal do pretérito relato pessoal de Flausina demonstra como ela, em
saudades? Eu, um dia, já fui muito menininha” (p. perfeito: “O homem me pegou com quentes mãos busca de superar sua angustiante condição de
48). Mantém-se, portanto, a oposição citada e curtos braços, me levou para uma casa, para a sofrimento e submissão, conseguiu autonomia e
inicialmente, que pode ser sugerida inclusive pela cama dêle. Mais aprendi lição de ter juízo. Calei liberdade utilizando mecanismos cruéis – o que
contraposição entre o significado do nome da muitos prantos. Agüentei aquêle caso corporal” (p. pode soar como um contrassenso, já que se trata
narradora e o do sobrenome Lopes. Flausina, 45). Seu relato perpassa os anos de sofrimento até do uso de violência contra a violência.
segundo o Dicionário de Nomes Próprios, em grego o momento em que leva a cabo seu plano de
é “alegre, feliz”; já Lopes, de acordo com o mesmo acabar com todos os Lopes que a desejavam. Como foi visto anteriormente, no relato de
dicionário, é originário de “lobo” e, portanto, pode Tratase de uma narração reveladora de seus Flausina, a emotividade do discurso é marcante,
ter, segundo o Dicionário Houaiss Eletrônico, martírios, assim como uma espécie de confissão e visto que ela retoma os eventos do passado
figuradamente o significado de “homem perverso, uma justificativa para seus crimes cometidos no mencionando seus sentimentos. É possível
de maus instintos”. passado. reconhecer aí a chamada função emotiva da
linguagem (JAKOBSON, 2007, 123-124). Já Gérard
Pode-se notar que o primeiro e os dois últimos Ao final, com a retomada do tempo presente, há Genette (19--) classifica tal discurso como função
parágrafos do conto remetem ao momento atual uma projeção para o futuro em que transmite o testemunhal, ou de atestação, considerando que a
da narração, em tempo verbal do presente; desejo de ter uma vida diferente e melhor: “por narradora retoma os sentimentos nela despertados
enquanto os outros constituem a diegese. Flausina bem de mim, me venham filhos, outros, modernos pela estória. Essa atitude de olhar para si mesma,
fala, primeiramente, da sua infância, no pretérito e acomodados. Quero o bom-bocado que não fiz, retornando ao seu passado, se perfaz como uma
imperfeito, conforme é possível verificar nos quero gente sensível” (p. 48). A construção ação em busca de purificação, pela qual transmite
seguintes trechos: [1] “Eu era menina, me via temporal, toda moldada pela memória de Flausina, toda sua ira pelos Lopes, em uma tentativa de
vestida de flôres” (p. 45); [2] “tirava junto cantigas possui aspecto interiorizado, pois é a partir de suas superar seus traumas a partir da atenuação de suas
de roda e modinhas de sentimento” (p. 45); e [3] lembranças que o relato se constrói, como ela
desvantagens – financeira e física – diante de seus Com o relato de Flausina, fica a impressão da tal qual é expressa no quarto e último prefácio de
opressores. experiência de uma pessoa que consegue superar Tutameia, intitulado “Sobre a escôva e a dúvida”.
dificuldades aparentemente intransponíveis e que Essa característica não é, na verdade, nada mais
O autor, ao optar pela narração autodiegética, segue caminhando, apesar da “questão das que a ideia de livro que professava o vaqueiro Zito,
confere ao conto forte apelo verossímil, colocando saudades” (p. 48) e dos métodos irascíveis para se “cozinheiro melhor mais o maior guieiro – e dado
as palavras emitidas por sua própria protagonista. livrar de seus opressores. O seu passado cotejado em poeta” (p. 161). Essa característica está
Genette aponta para o fato de que a escolha com o presente mostra a transformação de moça ancorada na ideia de que “O mal está apenas
narrativa do autor “não é feita entre duas formas “miúda, mansa” (p. 45) em uma mulher que age e guardando lugar para o bem. O mundo supura é só
gramaticais, mas entre duas atitudes narrativas” faz planos para o futuro. Ela agora pode optar a olhos impuros. Deus está fazendo coisas
(19--, p. 243), fazendo, pois, com que esse modo de pelas coisas de seu gosto, como, por exemplo, fabulosas”. (p. 165)
olhar os fatos aconteça a partir de uma perspectiva apreciar seu novo amor: “Amo um homem, êle vive
interna ou externa aos acontecimentos. de admirar meus bons préstimos, bôca cheia Guimarães Rosa parece, com isso, realmente ter
Confirmam-se. Assim, as considerações feitas d’água. Meu gôsto agora é ser feliz, em uso, no adotado para si a “lição” de Zito, pois sua obra
acerca da escolha narrativa, de Guimarães Rosa, sofrer e no regalo” (p. 45). Flausina deseja começar ficcional confirma uma atitude positiva frente ao
pelo narrador autodiegético. uma vida nova, dando rumo diferente à sua vida: mundo, em que a personagem, diante das
“Que em meu corpo ele não mexa fácil. Mas que, adversidades da vida, é ainda alimentada pela
As palavras do tempo presente pronunciadas por esperança de um mundo melhor. Ou em outras
por bem de mim, me venham filhos, outros,
Flausina apresentam também sinais de orgulho, palavras, citando Rosa mencionando o vaqueiro
modernos e acomodados. Quero o bom-bocado
pela vitória conquistada, e de alívio, pelo fim da poeta: “Pelo que [Zito] pensava, um livro, a ser
que não fiz, quero gente sensível.” (p. 48). Ela se
sujeição aviltante, ainda que a narradora traga certo, devia de se confeiçoar da parte de Deus,
sente, enfim, no direito de escolher o seu
consigo o ranço pela perda da inocência. Sua depor paz a todos, virtude de enganar com um
companheiro, agora que está remediada, para ter
narração, que busca ordenar suas vivências de clareado a fantasia da gente, empuxar a coragens.
com ele os filhos “modernos e acomodados”.
forma lúcida, procura livrá-la do fardo traumático Cabia ir descascando o feio mundo morrinhento”.
Deseja também “falar alto”, contando as injustiças
do passado, para poder dar novos rumos à sua (p. 164)
que suportou, em tom de indignação, tentando
vida. Ela pode então, ao menos, tentar responder à
aliviar as lembranças ruins que a acompanham.
questão que antes lhe parecia aflitiva e inviável: “E
o govêrno da vida?” (p. 47). Ao cabo dos Nesse final, moderadamente conciliador, ainda
sofrimentos e das mortes, Flausina ainda tem a nota-se certa mágoa e sofrimento pelo passado
possibilidade de conduzir sua vida da maneira que opressor. Aí [no final da narrativa], é possível
preferir. vislumbrar uma característica da “poética” de Rosa,
“Felicidade Clandestina” – resumo e análise da obra de Clarice Lispector

Lançado inicialmente em 1971, "Felicidade Clandestina" Assim como a crônica que dá título ao livro, muitos dos personagem e a deixasse entregue a seus próprios

reúne diversos textos de Clarice Lispector que foram textos apresentam algo de autobiográfico, trazendo pensamentos e divagações.

escritos em diversas fases da vida da autora. Os textos recordações da infância da autora em Recife, alguma
Assim, dentro desse processo de associação de ideias e
reunidos nessa obra podem mais facilmente serem personagem que marcou seu passado, etc. Através da
pensamentos desconexos, em um dado momento a
classificados como “contos”, mas como Clarice não se recordação de fatos do seu passado, Clarice Lispector
personagem passa por um momento de epifania, que é
prendia a convenções de gêneros, todo o conjunto busca nos contos fazer uma investigação psicológica de
uma súbita revelação ou compreensão de algo. Ao
reunido em Felicidade Clandestina migra de gênero em autoanálise.
passar por esse momento de epifania, a personagem
gênero, ora aproximando-se do conto, ora aproximando-
Uma das técnicas mais empregadas nesses contos é a da descobre a essência de algo que muda sua visão de
se da crônica, ou por vezes sendo quase um ensaio. De
narrativa em fluxo de consciência, que é uma tentativa mundo ou sua própria vida. Através desses momentos de
fato, muitos dos textos reunidos neste livro foram
de representação dos processos mentais das epifania, personagens que poderiam ser considerados
publicados como crônicas no Jornal do Brasil, para onde
personagens. Esse tipo de narrativa não possui uma sem relevância alguma aos olhos da sociedade ganham
Clarice escrevia semanalmente de 1967 a 1972.
estrutura sequencial, uma vez que o pensamento não se profundidade psicológica e existencial.

Ao todo, Felicidade Clandestina reúne 25 textos que expressa de uma forma ordenada. Dessa forma, seria
Contos representativos
tratam de temas diversos, tais como a infância, a como se o autor não tivesse controle sobre a
“Felicidade clandestina”
adolescência, a família, o amor e questões da alma.
Nesta crônica a narradora em primeira pessoa conta sua sentimento “clandestino”, já que nem ela mesma pode encontram mais o que “trocar” entre si e disso nasce

primeira experiência com um livro. Porém, este livro é de se conscientizar de sua própria felicidade para que esse uma grande melancolia e desilusão, corroendo a

uma menina má que o oferece emprestado para a sentimento não acabe. Concluísse, portanto, que a amizade entre os dois. Por fim, o que sobra de sincero

narradora, mas sempre inventa uma desculpa para não felicidade deve ser descoberta a todos os momentos e aos dois é saber que eles não mais se falarão porque

entregar o livro a ela. Até que a mãe da menina má nas coisas mais simples. escolheram isso.

descobre isso e entrega o livro para a narradora, que


“Amizade sincera” “O ovo e a galinha”
passa a saborear o livro como se fosse um amante. Esta
Este conto é a história de dois homens que se tornam Este é um dos contos mais emblemáticos de Clarice
crônica tem um cunho autobiográfico, como comprovou
amigos inseparáveis, mas em dado momento começa a Lispector. A partir da visão de um ovo que está sobre a
a própria irmã da escritora dizendo que se lembra da
faltar assunto entre eles. Os dois vão morar junto, mas mesa da cozinha, o narrador inicia uma série de
“menina má”.
não conseguem mais voltar a ser amigos como antes e, pensamentos a cerca das mais diversas coisas. Esses
O ponto central desse texto é o conceito de “felicidade”.
por fim, eles tomam rumos diferentes na vida e sabem pensamentos aparecem de forma aleatória e em fluxo de
Nele, a escritora parece se questionar “afinal, o que é
que não irão mais se ver. consciência, onde uma ideia, sentimento, sensação etc,
felicidade?”. A menina presente na crônica parece
Este conto tematiza os paradoxos das relações humanas desencadeia outro e assim sucessivamente. Dessa forma,
conhecer bem o dito popular “felicidade é bom, mas
e o individualismo das pessoas. Se por um lado ele vai desconstruindo o objeto que está sendo visto e o
dura pouco”, uma vez que ela se utiliza de todas as
queremos manter uma amizade a todo custo, a ponto de ovo passa, então, a ser uma representação de qualquer
formas para prolongar seu sentimento de felicidade.
quase “ceder a alma” ao amigo, quem de fato gostaria coisa, física ou abstrata (liberdade, amor, vida, etc.).
Uma vez que ela ganhou permissão para ficar com o livro
de “ceder a alma”? – pergunta-se o narrador. Assim Assim, através dessa “desconstrução”, o ovo deixa de ser
pelo tempo que desejasse, ela o deixa no quarto e finge
como aparece em outros contos de Clarice, a relação simplesmente um ovo e torna-se a chave para a
esquecer que o possui, só para se redescobrir possuidora
entre as pessoas parece estar fundamentada em uma compreensão do amor, da vida e da própria existência
dele. Dessa forma, sua felicidade aparece como um
“relação de troca”. No conto, os dois amigos já não humana.
“Os desastres de Sofia” Porém, no conto de Clarice, o nome “Sofia” não aparece Comentário do professor

Neste conto a narradora relembra seus tempos de nenhuma vez além do título. Este nome, “Sofia”, é de O Prof. Marcílio Gomes Júnior, da Oficina do Estudante,

escola. Por volta dos nove anos de idade, ela nutre uma origem grega e significa “sabedoria”. Assim como em frisa que Felicidade Clandestina foi publicado no auge da

espécie de amor pelo professor, um homem feio e muitos outros contos da escritora, o núcleo temático de carreira de Clarice Lispector, sendo o seu quarto livro de

aparentemente frustrado. A menina-narradora entra em “Os desastres de Sofia” parece ser o da autodescoberta. contos. Como escritora, pode-se dizer que Clarice já

um jogo sádico com o professor, de forma que ela faz Isso parece ser sugerido também pela ausência do nome havia atingido sua maturidade e conseguia realizar com

tudo para que ele a odeie. Até que em certo momento Sofia no conto, pois a personagem estaria em busca de maestria o que seria o ponto chave de suas obras: o

da narrativa ele pede para que a sala escreva uma sua própria identidade, o que acontece só ao final do estudo e análise do ser humano. Através de um

história a partir de dados que ele fornece. Ansiosa para livro com o momento de epifania. mergulho no universo interior das personagens, Clarice

ser a primeira a terminar, a menina-narradora escreve a trazia à tona temas existencialistas e as contradições,
Por fim, cabe ressaltar que a narradora traça o seu
sua história rapidamente e sai da sala triunfante. Porém, dúvidas, inquietudes do ser humano. Nesse ponto, o
passado de uma forma autobiográfica, mas ela não o faz
após o professor ler o texto que ela escreveu, ele se prof. Marcílio comenta que ela se aproxima bastante de
de uma forma “fiel”. Ao invés de simplesmente contar os
mostra impressionado e até sorri. A menina-narradora escritores como o russo Dostoievsky (autor de Crime e
fatos e acontecimentos de seu passado, ela o reinventa a
percebe que o olhar do professor não tem mais o ódio Castigo), e dos brasileiros Machado de Assis e Graciliano
partir das experiências do “eu” presente. Isso fica bem
de antes, e ela se desespera com sua nova realidade. A Ramos. Em seus contos, Clarice também explora muito o
marcado em passagens em que a narradora confessa ter
partir disso ocorre um momento de epifania em que ela tema da família e seus confrontos, exibindo o cerne da
dúvidas sobre o que aconteceu ao certo em
se depara com a verdade do mundo e sua vida muda. família brasileira.
determinadas ocasiões e se mostra constantemente
O título do conto é provavelmente uma alusão a um livro Quanto à questão existencialista, o prof. Marcílio chama
hesitante. Assim, através da reconstrução não
infantil escrito no século XIX pela francesa Condessa de atenção para o fato de que esse existencialismo sempre
sistemática de seu passado, a narradora constrói a
Ségur e que também se chama “Os desastres de Sofia”. conduz o sujeito (as personagens) para um inevitável
imagem que faz de si mesmo no seu presente.
isolamento. Assim, em toda a obra de Clarice Lispector contos de Clarice. Além disso, a escritora utiliza uma filhos. Durante seus anos de casada, mora em diversos

teremos personagens desconfiadas, inadaptadas ao meio linguagem subjetivada, abusando de adjetivos, países pela Europa e nos Estados Unidos.

em que vivem, com temores e inquietações. Através de metáforas e comparações. Do ponto de vista formal, vale
Em 1944, publica seu primeiro romance, Perto do
um mergulho no interior do ser humano, essas a pensa ressaltar que Clarice utiliza um chamado estilo
coração selvagem, vindo a ganhar o Prêmio Graça
personagens cheias de crises existenciais sempre irão circular, que consiste na repetição sistemática de
Aranha, da Academia Brasileira de Letras, no ano
passar por um momento de epifania, que seria um palavras, expressões ou frases, para conseguir um efeito
seguinte. Separa-se de seu marido em 1959 e volta para
“momento de tomada de consciência” ou um “momento enfático.
o Rio de Janeiro com seus dois filhos. No ano seguinte,
de iluminação”. Esta experiência epifânica irá ampliar o
Sobre Clarice Lispector publica seu primeiro livro de contos, Laços de família.
campo de percepção da personagem e ela será elevada a
Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 em
outro nível de consciência, passando a ver o mundo a
Em 1967, um cigarro provoca um grande incêndio em
Tchetchelnik, Ucrânia. Quando tinha cerca de dois meses
sua volta de outra maneira. Assim, após ver a existência
sua casa e Clarice fica gravemente ferida, correndo risco
de idade, seus pais migraram para o Brasil, terra que
humana de um novo modo, a personagem ou voltará a
inclusive de ter sua mão direita amputada. Porém, após
considerava como sua verdadeira pátria. Em 1924, a
ser o que era, mas agora com uma consciência elevada,
se recuperar, continua com sua carreira literária
família mudou-se para o Recife, onde iniciou seus
ou então irá manter seu novo estado de consciência.
publicando diversos livros.
estudos. Por volta dos oito anos, Clarice perdeu sua mãe.

Por fim, o prof. Marcílio ressalta que como a Três anos depois, a família muda-se para o Rio de
Publica em 1977 seu último livro, A hora da estrela,
preocupação de Clarice é com a personagem em si e sua Janeiro.
vindo a ser internada pouco tempo depois com câncer. A
viagem ao interior do ser humano, o cenário físico ao Ingressa em 1939 na Faculdade de Direito, e publica no
escritora vem a falecer no dia 9 de dezembro do mesmo
redor é muitas vezes deixado de lado. A não ser que o ano seguinte seu primeiro conto, Triunfo, em uma
ano, véspera de seu aniversário de 57 anos.
cenário interfira diretamente ou ativamente na história, revista. Forma-se em 1943 e casa-se no mesmo ano com

não encontraremos nenhuma passagem descritiva nos o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois
“Urupês” – resumo e análise da obra de Monteiro Lobato

Urupês e o nascimento de Jeca Tatu personagem: o caboclo Jeca Tatu. Se o índio surgira Tatu não é assim, ele está assim”, percebe-se através do

"Urupês", obra publicada originalmente em 1918, reúne como modelo ideal do brasileiro para os escritores do texto que Jeca é uma vítima do descaso do governo.

ao todo 14 contos de Monteiro Lobato. Segundo o Romantismo da fase indianista, a figura do caboclo
Além do surgimento de uma das personagens mais
prefácio da 2a. Edição do livro, esta obra surgiu do artigo aparecia como seu substituto moderno – ao que Monteiro
icônicas da literatura brasileira (Jeca Tatu), Urupês trouxe
“Velha praga”, publicado originalmente no jornal O Lobato chamou de “caboclismo”. Porém, o caboclo de
uma série de inovações e sua importância se estende até
Estado de São Paulo no ano de 1914. Na época, Monteiro Monteiro Lobato não era em nada idealizado, mas ao
os dias atuais. Uma delas diz respeito à linguagem
Lobato dedicava-se ao trabalho na fazenda que recebeu contrário, trazia suas características negativas enfatizadas
empregada no livro. Monteiro Lobato estava preocupado
como herança de seu avô e amargava um ano terrível por e o seu símbolo máximo é a personagem Jeca Tatu.
em reproduzir nos seus textos a riqueza da fala brasileira
conta da seca. Além do problema causado pela seca do
A personagem de Jeca representa toda a miséria e atraso da zona rural, com seus coloquialismos e neologismos
inverno, Monteiro Lobato estava exausto das constantes
económico do país de então, e o descaso do governo em tipicamente orais. De acordo com a crítica literária, o
queimadas praticadas pelos caboclos. Por conta disso, ele
relação ao Brasil rural. Jeca Tatu foi caracterizado por recurso da oralidade foi a maior ousadia do escritor em
resolveu escrever uma carta de indignação ao jornal, que
Monteiro Lobato como um homem desleixado com sua Urupês, pois nessa época o uso do português coloquial
viu naquele texto algo muito valioso e o publicou fora da
aparência e higiene pessoal, sempre de pés descalços e em obras era visto como algo “inferior” e sem valor
seção de cartas dos leitores. “Velha praga” causou grande
que mantinha uma pequena plantação apenas para literário. Dessa forma, pode-se dizer que Urupês é uma
impacto e polêmica, fazendo com que Monteiro Lobato
subsistência. Sem nenhum tipo de educação e cultura, obra que de certa forma antecede as convenções
publicasse outros textos que dariam origem ao livro
Jeca Tatu era um homem ingênuo e repleto de crendices. estilísticas propostas pelos modernistas da Semana de 22.
"Urupês".
Por fim, era visto pelas pessoas como um alcoólatra e
Um destes textos, cujo título dá nome ao livro
Ainda com relação à linguagem empregada por Monteiro
preguiçoso. Porém, como afirma Monteiro Lobato, “Jeca
(“Urupês”), dá vida ao que seria sua mais famosa
Lobato, é interessante notar a grande influência que
Urupês teve sobre a língua portuguesa falada no Brasil. A diversos outros escritores. Posteriormente, a Editora da Monteiro Lobato considerava “Velha praga” a origem

partir do livro surgiram diversas palavras e expressões Revista do Brasil passaria a se chamar Cia. Gráfico- desse livro. Nesse texto, o autor denuncia as queimadas

que hoje são dicionarizadas, como por exemplo o termo Editora Monteiro Lobato e, após o colapso dessa, praticadas pelos caboclos nômades na Serra da

“jeca”, que vem da personagem Jeca Tatu e passou a ser ressurgiria como Companhia Editora Nacional, que é a Mantiqueira e os problemas por elas causados. Ao mesmo

sinônimo de “caipira”, “morador da zona rural” ou ainda maior do Brasil e uma das maiores da América Latina. tempo, mostra o descaso em que essas pessoas vivem.

“pessoa de hábitos rudimentares”. Assim, pode-se dizer que Monteiro Lobato lançou a “Urupês”

indústria nacional do livro através da publicação de Principal conto presente no livro, em “Urupês” Monteiro
Por fim, é importante ressaltar que a importância de
Urupês. Lobato apresenta uma de suas maiores personagens: o
Urupês não ficou restrita ao campo literário através de
Jeca Tatu. O título vem do apelido que essa personagem
suas inovações estilísticas e linguísticas, mas teve Principais contos
tem, “urupê” – que é uma espécie de fungo parasita. O
também grande influência na indústria e no mercado “A colcha de retalhos”
Jeca Tatu é o representante máximo do caboclo que vive
cultural do Brasil. Isso porque até a Primeira Guerra Neste conto fica muito evidente o cuidado de Monteiro
na lei do menor esforço, alimentando-se e curando-se
Mundial, grande parte dos livros brasileiros eram lobato em preservar o registro linguístico utilizado pelos
daquilo que a natureza lhe oferece. Sem nenhum tipo de
impressos na Europa através de editoras estrangeiras, homens do campo e a riqueza do vocabulário deles.
educação e alheio a tudo o que acontece pelo mundo, o
principalmente as francesas. Monteiro Lobato modificou Através da decadência da moça Pingo (ou Maria das
Jeca Tatu representa a ignorância do homem do campo.
essa forma editorial ao imprimir por conta própria o livro Dores), o autor expõe a decadência da zona rural e seus
Por fim, pode-se dizer que ele é a denúncia do descaso do
Urupês nas oficinas do jornal O Estado de São Paulo. habitantes.
governo com relação às pessoas da zona rural uma vez
“Velha praga”
que, segundo Monteiro Lobato, “Jeca Tatu não é assim,
Com o dinheiro arrecadado com a venda de sua fazenda,
Originalmente um artigo publicado pelo jornal O Estado
ele está assim”.
Monteiro Lobato comprou a Revista do Brasil em 1918 e
de São Paulo, passou a ser publicado como parte do livro
passou a publicar, além de suas próprias obras, livros de
Urupês a partir de sua segunda edição – uma vez que
Comentário do professor ficar atento também ao estilo empregado por Monteiro Praga, que seria um dos contos publicados posteriormente

O prof. Gilberto Alves da Rocha (Giba), do Curso Lobato em seus contos, sendo que vários deles possuem no seu primeiro livro, Urupês (1918). A publicação deste

Apogeu de Curitiba (PR), comenta que existem dois tendência expressionista (exagero, grotesco) e naturalista artigo dá início à longa e prolífera carreira literária do

pontos em “Urupês” que merecem a atenção do (aspectos sórdidos do ser humano) como "Bocatorta" e escritor.

candidato. O primeiro é que os contos presentes na obra "Mata-Pau", concluiu o prof. Giba.
Em 1918, Monteiro Lobato compra a Revista do Brasil e
têm temática regionalista e abordam os problemas das
Sobre Monteiro Lobato logo depois funda a editora Monteiro Lobato & Cia,
cidades da região do Vale do Paraíba, à época de
José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu na cidade de primeira editora do país. Em julho deste ano, o escritor
Monteiro Lobato. Conforme explica o prof. Giba, esta é a
Taubaté, São Paulo, em 18 de abril de 1882. Foi publica o livro Urupês e o sucesso com que foi recebido
primeira vez que um autor se propõe, na Literatura
alfabetizado inicialmente por sua mãe, mas depois chegou fez com que Monteiro Lobato publicasse ainda em 1918
Brasileira, a fazer uma análise crítica da realidade do
a frequentar a escola e formar-se em Direito pela mais duas obras, Cidades Mortas e Ideias de Jeca Tatu.
interior do Brasil. Um outro ponto a ser notado é que o
Faculdade do Largo de São Francisco. Durante seu tempo Em 1920, publica sua primeira obra infanto-juvenil, A
conto "Os Faroleiros", que abre a obra, destoa do estilo
de faculdade, Monteiro Lobato já escrevia artigos para menina do narizinho arrebitado, e mais outro grande
geral de Monteiro Lobato, já que não é regionalista: ele é
jornais sobre assuntos diversos, já sendo muito elogiado sucesso, Negrinha. Em 1925, Monteiro Lobato declara a
ambientado no litoral.
por seus comentários irônicos e originais. Após se formar, falência de sua editora, mas ele não deixa de se dedicar ao
Além disso, o prof. Giba acredita ser provável que a
iniciou carreira como promotor público em sua cidade projeto editorial e à carreira literária.
banca examinadora do vestibular peça questões relativas à
natal e casou-se com Maria Pureza da Natividade de
personagem Jeca Tatu. Este é um dos personagens mais
Assim, envia uma carta defendendo a indústria editorial
Souza e Castro, com quem teria quatro filhos.
famosos da Literatura Brasileira e surge em "Urupês",
ao presidente Washington Luís, sendo muito bem
Quando tinha 29 anos, seu avô falece e Monteiro Lobato
mas aparece em apenas um dos textos da obra, que é o
reconhecido pelo presidente. Então, em 1927,
herda a Fazenda Buquira. Em 1914, o jornal O Estado de
conto que dá título ao livro. Por fim, o candidato deve
Washington Luís nomeia Monteiro Lobato adido
São Paulo publica um artigo de Lobato chamado Velha
comercial nos Estados Unidos e o escritor muda-se para com o governo de Eurico Gaspar Dutra, Monteiro Lobato

Nova Iorque. Lá ere irá ficar admirado com o poder escreve seu último livro, Zé Brasil (1947).

económico e industrial do país. Ao regressar ao Brasil em


Em 1948, Monteiro Lobato sofre um primeiro espasmo
1931, Monteiro Lobato acreditava piamente na
vascular afetando sua motricidade. Cerca de três meses
capacidade do país em produzir petróleo e iniciou uma
depois, em 4 de julho de 1948, sofre um segundo
luta que o deixaria pobre.
espasmo cerebral e falece aos 66 anos de idade na cidade

Tomando como inimigos o então presidente Getúlio de São Paulo.

Vargas e diversos empresários nacionais e internacionais,


Monteiro Lobato foi um dos maiores escritores brasileiros
Monteiro Lobato publicou diversos livros e artigos em
do século XX e sua obra é composta por dezenas de
que tratava da questão do petróleo no Brasil. Por conta
contos, artigos, críticas, traduções e romances. Além
disso, chegou a ser preso duas vezes. Mesmo depois de
disso, é considerado o inventor e maior escritor de
conseguir a liberdade, Monteiro Lobato ainda enfrentou
literatura infanto-juvenil do Brasil, publicando 23 abras
diversas lutas contra a ditadura e sua censura, vindo a
na coleção Sítio do Picapau Amarelo e mais diversas
aproximar-se dos comunistas.
outras avulsas. Suas principais obras para adultos são:

Em 1943, Caio Prada Júnior funda a Editora Brasiliense e "Urupês" (1918), "Cidades mortas" (1919) e "Negrinha"

publica a obra completa de Monteiro Lobato. Pouco (1920).

tempo depois, é indicado para a Academia Brasileira de

Letras – onde já havia sido derrotado duas vezes antes em

eleições para ocupar uma vaga –, mas recusa. Indignado