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HISTÓRIA DA PSICOLOGIA COGNITIVA:

ANTECEDENTES DA PSICOLOGIA COGNITIVA

History of Cognitive Psychology:

Cognitive Psychology Background

Historia de la Psicología Cognitiva:

Antecedentes de la Psicología Cognitiva

Jorge Luís Cruz de Vasconcellos¹

Ricardo Vigolo de Oliveira²

RESUMO

O presente artigo faz uma breve síntese dos antecedentes históricos que fomentaram o

surgimento de uma ciência psicológica a qual desenvolveu sua própria metodologia para

estudar eventos intrapsíquicos que não poderiam ser diretamente observados, mas

inferidos de maneira bastante consistente. Em busca de um rigor científico que

conferisse status de ciência à psicologia, o foco primeiro foi no comportamento, por ser

observável, mensurável e descritível. Com o surgimento tanto de novas tecnologias em

pesquisa, assim como a organização das informações em modelos computacionais, a

psicologia cognitiva ressurge como uma ciência que tem por objeto de estudo o

funcionamento dos processos mentais.

Palavras-chave: Cognitivismo – antecedentes - ciência

________________________

¹Prof. MSc. Jorge Luís Cruz de Vasconcellos - Mestre em Psicologia Social e da Personalidade –
PUCRS- Complexo de Ensino Superior de Cachoeirinha – CESUCA.
E-mail: vasconcellos.jorge@gmail.com

²Prof. Dr. Ricardo Vigolo de Oliveira - Doutor em Bioquímica – UFRJ - Complexo de Ensino Superior de
Cachoeirinha - CESUCA
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ABSTRACT

This paper is a brief summary of the historical background which encouraged the

emergence of a psychological science, which has developed its own methodology to

study intrapsychic events that could not be observed directly, but consistently inferred.

In search of a scientific rigor that would confer the status of science to psychology, the

focus was firstly just on the behavior, which was observable, measurable and

describable. With the emergence of new technologies in both research as well as the

organization of information in computational modeling, cognitive psychology emerges

as a science whose object of study the functioning of mental processes.

Keywords: Cognitivism – history - science

Antes do século XIX, era inconcebível que o funcionamento das cognições

humanas fosse suscetível de análise científica. Um dos critérios de validade para todas

as ciências da época era o da verificabilidade, isto é, para ser considerada verdadeira,

teria que ser passível de verificação. Assim, o estudo das cognições humanas, enquanto

atividade científica, distanciou-se de muitas outras ciências devido às dificuldades de se

estudar o pensamento (Madeira, 1987).

A data usualmente citada como marcando início da Psicologia como ciência é

1879, quando Wilhelm Wundt estabeleceu o primeiro laboratório de Psicologia em

Leipzig, na Alemanha (Schultz & Schultz, 1994). A Psicologia de Wundt poderia ser

considerada como antecedentes da Psicologia Cognitiva, pois se diferenciava das outras

grandes correntes teóricas vigentes na época, como o Behaviorismo e a Gestalt. O

eminente pesquisador alemão estava determinado em pôr em prática um programa de


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pesquisa designado a estabelecer a Psicologia como uma ciência natural. Os primeiros

fundamentos dados à Psicologia, enquanto disciplina científica distinta da Filosofia,

visavam uma “ciência da vida mental”, ao invés de uma “ciência do comportamento”.

Embora Wundt refira-se a sua posição teórica como Voluntarismo, nos Estados Unidos,

sua orientação teórica tornou-se conhecida como Estruturalismo, descrevendo eventos

mentais como tendo implicações estruturais, baseados em uma estrutura implícita,

subentendida.

O método de investigação privilegiado por Wundt foi o Introspeccionismo.

Neste método, a crença básica radicava-se no fato de que o funcionamento da mente

poderia abrir-se para a auto-observação. Apresentava-se aos sujeitos participantes do

experimento, altamente treinados e sobre cuidadosas condições de controle, problemas a

serem resolvidos mentalmente e lhes pedia em seguida para dizer de que maneira eles

tinham procedido, através do relato do conteúdo de sua consciência. Verificou-se que os

sujeitos podiam achar a resposta correta para os problemas colocados, porém, não eram

capazes de dizer como chegaram a tal resposta. Decorreram deste método alguns

problemas. Em primeiro lugar, a introspecção não tem como atingir os processos que

não aparecem à consciência. Em segundo lugar, havia a dificuldade de explicar os

processos mentais através de uma descrição verbal unívoca, pois estas estavam

submetidas a experiências privadas diferentes, tornando inviável o relato objetivo dos

conteúdos mentais da consciência, que são o próprio objeto de estudo. Tornava-se

evidente que a introspecção não era uma metodologia adequada para prescrever o

funcionamento da mente, pois toda a complexidade da cognição não era acessível à

experiência consciente (Schultz & Schultz, 1994).


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Willian James, em sua obra “Princípios de Psicologia”, de 1890, reflete toda a

tradição funcionalista, e seus trabalhos são relevantes até na atualidade. Mais teórico do

que experimentador, faz notórias contribuições com os estudos sobre memória e

atenção, delimitando diferenças entre a memória primária ou presente psicológico e a

memória secundária ou passado psicológico (Baddeley, 1986). Esta distinção foi

retomada setenta anos mais tarde, quando os cognitivistas começaram a estudar de

forma sistemática as memórias de curto e de longo prazo.

Através de um artigo publicado em 1913 na PsychologicalReviewchamado

Psychology as thebehavioristviews it (A Psicologia como o behaviorista a vê), de

Watson, deu-se o mais cabal e abrupto rompimento com a introspecção na Psicologia.

Seu manifesto foi um ataque arrasador ao sistema vigente de Psicologia, na época dos

estudos da mente. Os behavioristas, de forte cunho positivista, sustentavam que as

teorias só se justificavam por meio de uma relação com os fatos observados, e que as

construções teóricas eram significativas somente se pudessem ser observadas. Esta

visão, adotada por Watson e Skinner e considerada os arautos da “Psicologia científica”,

admitia apenas trabalhar com fenômenos observáveis na pesquisa científica em

Psicologia, rejeitando a utilização de construções mentais hipotéticas (Eysenck& Keane,

1994).

Os princípios básicos do behaviorismo eram simples e diretos. Por Watson

exigir uma Psicologia totalmente objetiva e que se ocupasse unicamente de atos

observáveis de conduta, palavras como “pensamento”, “mente” e “consciência”,

enquanto fatores explicativos do comportamento humano perderam a relevância,

minando assim a metodologia introspeccionista. De uma maneira mais explícita,

Watson dizia que a Psicologia deveria renunciar a mente como objeto de estudo e adotar
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aquilo que fosse observável, ou seja, o comportamento (Schultz & Schultz, 1994). O

Behaviorismo afirmava que todo e qualquer comportamento humano e mesmo animal

pode ser descrito objetivamente, sem se necessitar recorrer aos conceitos e às

terminologias mentalistas, subjetivas. Neste sentido, torna-se possível predizer a

resposta que será dada por um determinado estímulo e, da mesma maneira, predizer que

estímulo antecedente gera determinada resposta (Schultz & Schultz, 1994).

O comportamentalismo apresentava um corpo coerente de ideias científicas e

explicava boa parte dos problemas colocados. Delimitou clara e operatoriamente seu

objeto de estudo, e possuía uma metodologia apropriada ao tipo de problema que

colocava. Seus fundamentos teóricos cumpriam a sua função de edificar princípios,

embora se mostrasse reducionista e indutivista em consequência do rigor metodológico

influenciado pelo Positivismo Lógico. O reducionismo condutivista, encadeado com a

tradição empirista da ciência e com o positivismo lógico, havia enfatizado de maneira

especial a experiência controlada de laboratório: a conduta pode ser explicada

exclusivamente com base nos estímulos físicos e nas respostas motoras. O condutivismo

fez com que se rechaçasse o mentalismo, assim como os processos cognitivos

superiores (memória, pensamento), os quais haviam sido levados a cabo por Donders e

Ebbinghaus no século passado, sendo então o estudo desses processos afastado da

investigação científica e assim desaparecendo do âmbito da investigação acadêmica

neste período (Marx &Hillix, 1980). Os seguidores do condutivismo sustentavam que as

teorias só se justificavam por meio de uma relação com fatos observados, e que as

construções teóricas eram significativas somente se esses fatos e seus corolários

pudessem ser observados. E esta era a visão dos grandes mestres do behaviorismo

Watson e Skinner, que fundaram uma Psicologia científica ao admitirem apenas

fenômenos observáveis, rejeitando a utilização de construções mentais hipotéticas.


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Skinner foi um dos behavioristas fortemente influenciados pela visão do

positivismo lógico da ciência. Traçou uma analogia entre os primórdios da física e a

Psicologia do século XX para ilustrar seus pontos de vista, chamando a atenção para o

fato de que os gregos primitivos pouco sabiam a respeito da física e da Psicologia.

Ressaltou que Aristóteles falava sobre as forças físicas sendo como estados hipotéticos

e antropomórficos, atribuindo características humanas a fenômenos não humanos. Para

Skinner, a física progrediu e a Psicologia não. Isto ocorreu porque, na física, foi

substituído o antropomorfismo inobservável por relações matemáticas e porque, cada

vez mais, tem-se apoiado na observação e na experimentação. Segundo Skinner, a

Psicologia não progrediu porque não se apoiou na mesma estratégia (Schultz & Schultz,

1994).

A abordagem geral do comportamentalismo de Skinner, em muitos e

importantes aspectos, representa uma renovação do Behaviorismo watsoniano. Skinner

evita a teoria e prefere praticar um positivismo estrito. Seu ponto de vista é por ele

mesmo descrito como de nunca haver abordado um problema construindo uma hipótese,

assim como de nunca deduzir teoremas sem os submeter à verificação experimental.

Declarava não ter um modelo preconcebido de comportamento e tampouco um modelo

conceitual. O programa de Skinner não inclui nenhuma referência a supostas entidades

internas, quer descritas como variáveis intervenientes, quer como processos

fisiológicos. Seja o que fosse que pudesse ocorrer entre o estímulo e a resposta, não

representava dados objetivos para um behaviorista skinneriano (Schultz & Schultz,

1994).

Skinner dava ênfase ao comportamento operante, em oposição ao respondente.

Na situação de condicionamento pavloviano, um estímulo conhecido é pareado com


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uma resposta, sob condições de reforço. A resposta comportamental é suscitada por uma

situação de estímulo específica e observável, a que Skinner deu o nome de

comportamento respondente. Já o comportamento operante ocorre sem quaisquer

estímulos externos observáveis. A resposta do organismo é aparentemente espontânea,

na medida em que não está relacionada com qualquer estímulo observável conhecido.

Isto não quer dizer que não exista um estímulo que evoque a resposta, mas sim que

nenhum estímulo é identificado quando ocorre a resposta. Assim, na perspectiva do

experimentador, não existe estímulo, porque não aplicou e nem pôde ver nenhum

(Schultz & Schultz, 1994).

Apesar de a escola behaviorista ter se estabelecido como o principal enfoque na

ciência da Psicologia da primeira metade deste século, ela falhou na tarefa de ser uma

ciência satisfatória do psiquismo humano e começou a ficar insuficiente, sendo forçado

a buscar outros caminhos. Com a crise do condutivismo, os pesquisadores em

Psicologia se viram obrigados a buscar outras vias para evitar que seu objeto de estudo

lhes escapasse das mãos. Por não tratarem de modo científico os problemas relativos

aos processos psíquicos superiores, havia a necessidade deste enfoque condutivista ser

substituído por outro.

A CRISE DO BEHAVIORISMO

Tanto no introspeccionismo quanto no behaviorismo, vê-se a consciência

humana “esforçando-se para entender a si própria”. Os introspeccionistas tiveram que

deixar de acreditar no poder da auto observação. Os behavioristas, temerosos de

tornarem-se vítimas das falácias subjetivas recusadas em um primeiro momento, já

pensavam sobre os processos mentais. Não era mais possível acreditar que a ciência

psicológica fosse simplesmente colecionar fatos observáveis e entendê-los.


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Havia uma exigência de outros métodos, até mesmo pelo desenvolvimento de

outras disciplinas. Na física, por exemplo, a teoria da estrutura atômica foi

desenvolvida, e essa estrutura não podia ser observada diretamente, mas somente

inferida. Contudo, os behavioristas argumentaram que uma teoria da estrutura interna da

mente não era necessária para entender o comportamento humano, e em certo sentido

tinham razão. Entretanto, a teoria das estruturas internas como se verá a seguir, tornaria

mais fácil o entendimento do psiquismo humano.

A Psicologia Cognitiva surgiu, em parte, por causa do crescente reconhecimento

de que entender a psique era algo sensivelmente mais complexo do que se pensava ser

no comportamentalismo behaviorista. O fato da visão tradicional de ciência ter sido

minada (Eysenck& Keane, 1994) contribuiu para que a Psicologia Cognitiva começasse

a formar sua identidade científica. Com o avanço da engenharia eletrônica e da

informática nos anos 1950 e 1960, surgiram as máquinas capazes de desenvolver

condutas inteligentes. Houve, a partir dos anos 1960, um considerável desenvolvimento

de programas que imitavam condutas inteligentes (processos superiores),

imprescindíveis para o entendimento das condutas humanas. A mente humana e o

computador são sistemas de processamento de informações (Neisser, 1967). A origem

dessa analogia está na máquina universal de Turing, em 1936, matemático que

demonstrou formalmente que a máquina universal pode simular qualquer

comportamento inteligente humano. Propunha essencialmente que, se na mesma tarefa

não pudéssemos distinguir entre o comportamento de um computador e o de um

humano, então a máquina seria inteligente como o ser humano (Eysenck& Keane,

1994).
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Os trabalhos de cientistas de outras áreas ofereceram explicações da conduta

humana com base em conceitos de “abstrato” que exigem a participação dos processos

superiores. A teoria da informação, por exemplo, foi um campo que ganhou um grande

impulso durante a segunda guerra mundial, impulsionado por Schannon que, nos seus

trabalhos sobre a matemática da comunicação, defendia que algo abstrato como a

mensagem pode ser tratado cientificamente até poder ser apresentado de forma

matemática. Schannon mostrou que a conceituação dos estímulos e respostas em termos

exclusivos de suas características físicas é inadequado para explicar as condutas

comunicativas (Schannon, 1948, como citado em Anderson, 1985).

A teoria da informação postula que um evento traz informação se sua chegada

elimina a vinda de outros eventos possíveis. O conjunto desses eventos possíveis são

chamamos de “repertório” (Simon, 1964). Podemos dizer, da mesma maneira, que um

evento traz informações se ele for tirado de um repertório. Todo processo que seleciona

um evento num repertório é dito “processo de tratamento da informação”. Chama-se

assim de “sistema de tratamento de informação” todo sistema que seja a matriz de tais

processos. Deste ponto de vista, o sistema nervoso poderia então ser considerado como

o mais complexo dos sistemas de tratamento de informação (Costermans, 1981). Este

sistema influenciou, significativamente, a nascente Psicologia Cognitiva, fazendo com

que esta o usasse como um verdadeiro novo paradigma.

A ciência dos sistemas e a tecnologia dos computadores conduziram os

neurofisiologistas e os psicólogos a encararem o sistema nervoso de uma nova maneira,

percebido desde então como um sistema geral permitindo garantir a gestão do

comportamento humano (Costermans, 1981).


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Por esta época, outra ciência surgiu: a cibernética. Wiener, em 1948, em sua

obra Cybernetics, orcontroland communication in the animal andthemachine implanta a

ideia do organismo como um sistema finalizado, ou seja, um hipersistema composto da

união de um sistemaregulado com um sistema regulador. Esta noção constituiu um dos

polos da ciência moderna, permitindo compreender como se formam as estruturas cada

vez mais complexas. Na perspectiva da cibernética, convém não mais definir o

comportamento como um conjunto de relações a um conjunto de estímulos, mas como

um processo pelo qual um sistema vivo se aproxima de um critério (Anderson, 1983).

Apoiada no conceito de feed-back, a teoria mostra como certas condutas só serão

explicáveis recorrendo aos processos internos dos sujeitos.

Enquanto que no condutivismo toda conduta devia ser explicável supondo um

sujeito passivo entre estímulo e resposta, na cibernética este marco de referência é

ampliado, introduzindo o conceito de “tomada de decisão” em termos totalmente

científicos, admitindo um sujeito ativo assim como na conceituação dos elementos

explicativos por algo mais que suas características físicas observáveis. Esta teoria

influenciou, enormemente, a nascente Psicologia Cognitiva (Reed, 1982).

Os psicólogos que se afastaram do condutivismo se dedicaram então a realizar

experimentos sob este novo enfoque do processamento de informação, sobre problemas

tais como a percepção, atenção, memória, formação de conceitos e linguagem

(Sternberg, 2008). O desenvolvimento da Psicologia Cognitiva já sentia algumas

influências da nova abordagem dos campos da Engenharia Eletrônica, Teoria da

Comunicação e Cibernética. Donald Broadbent (1958), da Unidade de Psicologia

Aplicada, em Cambridge, provavelmente foi o maior influenciador e integrador de

ideias destes campos, desenvolvendo a abordagem do processamento de informação.


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Assim, no início dos anos 60, foram introduzidos no campo da Psicologia os

estudos da cibernética e da teoria da informação, que considerava que toda a informação

fluía através de um sistema cognitivo (Costermans, 1981). De acordo com essa teoria,

as pessoas são seres autônomos e intencionais que interagem com o mundo externo, e a

mente através da qual eles interagem com o mundo é um sistema de processamento de

símbolos (informações). A meta da pesquisa em Psicologia Cognitiva é especificar os

processos simbólicos e representações subjacentes ao desempenho de todas as tarefas

cognitivas.

Os processos cognitivos levam tempo pra serem executados. Assim, suposições

sobre os tempos das reações podem ser feitas ao se presumir que certos processos

ocorrem em sequencia ou possuem alguma complexidade especificável. A mente é um

processador que tem limitações tanto de estruturas quanto de recursos e, apesar do

sistema simbólico depender de um substrato neurológico, este sistema simbólico não

está inteiramente limitado por este substrato neurológico (Eysenck& Keane, 1994).

Diretamente relacionado com o enfoque do processamento de informação foi o

desenvolvimento das ciências da computação, particularmente o desenvolvimento da

Inteligência Artificial. Allen Newell e Herbert Simon, na Carnegie-MellonUniversity,

trabalharam aproximadamente 30 anos “educando” os psicólogos cognitivos nas

implicações da inteligência artificial. Grande parte dos conceitos da Psicologia

Cognitiva veio da ciência da computação (Anderson, 1983).

Outro campo de influência na Psicologia Cognitiva foi o da Lingüística.

Chomsky (1971), linguista de MassacusettsInstituteof Technology, iniciou o

desenvolvimento de um modo de análise da estrutura da linguagem. Mostrou a

complexidade desta análise, apontando também que as formulações behavioristas não


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conseguiram dar conta. Em sua Gramática Gerativa, ele aborda que a conduta da fala

não pôde ser explicada com base na simples aprendizagem de respostas motoras, mas

que esta conduta exige “processos internos” ao sujeito, os quais têm de ser

conceitualizados em um marco de trabalho que não é redutível ao enfoque condutivista.

No ano de 1956, ocorre A Conferência de Dartmouth, evento onde se reuniram

grande número de cientistas para discutir acerca das máquinas e sua possibilidade de

comportar-se de maneira inteligente. Neste momento já existiam desenvolvimentos

importantes no terreno dos computadores. Allen Newell e Herbert Simon trabalhavam

em computadores que realizavam operações similares às do ser humano em suas

atividades de pensamento. Este programa, denominado LogicTheorist (teórico lógico),

permitia resolver alguns dos teoremas dos Principia Matematica de Witehead e Russell

(Eysenck& Keane, 1994).

Um marco foi a publicação do livro de UlricNeisser, CognitivePsychology, em

1967, que legitimou a Psicologia Cognitiva no campo científico. A partir desta

publicação, já se tinha a possibilidade de se dar uma definição sucinta da Psicologia dita

cognitiva, "o estudo experimental dos processos de tratamento de informação pelos

quais o psiquismo, através da representação psíquica, assegura a gestão do

comportamento, firmando o estudo dos processos mentais ditos 'superiores' pelas vias

de experimentação" (Madeira, 1987).

Nos anos 1970, além do início de um importante jornal intitulado

CognitivePsychology, vários autores falavam da abordagem do Processamento de

Informação como novo marco teórico para se estudar a cognição humana. Nessa época,

muitas linguagens de programação diferentes foram desenvolvidas, o que levou ao

conhecimento de vários aspectos das linguagens e dos softwares de computador que


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estavam em uso e que se aplicavam, em maior ou menor grau, à Psicologia Cognitiva.

Nessa mesma década emerge outro campo mais abrangente de investigação chamado

“Ciência Cognitiva”, que esforçou-se para integrar Psicologia, Filosofia, Linguística,

Inteligência Artificial, Antropologia, assim como as Neurociências. Os cientistas

cognitivos propuseram modelos computadorizados baseados em redes semânticas,

sistemas de produção e redes conexionistas. Em referência a este novo campo de estudo,

a Psicologia Cognitiva se tornou uma “sub-ciência”, irmã da Inteligência Artificial,

surgida na mesma época, e com os mesmos princípios básicos desta.

A partir dos 1980, essas ciências caminharam em paralelo, porém em interação

interdisciplinar, sob o arcabouço geral das Ciências Cognitivas (Eysenck& Keane

1994). Dentro desse contexto, já era total o rechaço ao reducionismo condutivista. Foi

então amplamente aceito, a partir dos anos 1960 e 1970, que os processos cognitivos

constituíam uma posição essencial e central na ciência da Psicologia; houve a

necessidade de contar com um sistema que possuísse a capacidade de elaborar a

informação do meio, em termos que transcendesse o puramente físico, a fim de alcançar

níveis psíquicos superiores. Pesquisadores tais como Broadbent (1958); Simon e

Feigenbaum (1964); Neisser(1967), Normam (1993); Atkinson eShiffrin (1968); Paivio

(1986); Collins e Quillian (1972) e Costerman (1981), entre outros, voltam aos

problemas colocados por Wundt, em relação ao estudo dos processos psíquicos

superiores, que anteriormente não dispunha de ferramentas metodológicas adequadas.

Do ponto de vista metodológico, na nascente Psicologia Cognitiva, a ferramenta mais

utilizada foi o experimento controlado, derivado do método hipotético-dedutivo. E, mais

recentemente, de grande contribuição também foram os avanços nas neurociências.

Graças a avanços principalmente na neuroimagem funcional, tornou-se possível


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correlacionar alguns conteúdos específicos do processamento de informações a regiões

mais ou menos específicas do cérebro (Eysenck& Keane, 1994).

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