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OS CAPUCHINHOS DE SÃO PAULO E

A CATEQUSE DOS ÍNDIOS XAVANTE E KAINGANG

OBS. O Instituto Socioambiental orienta que não se use “S” para


indicar o plural de palavras de línguas indígenas, uma vez que é
representativo do plural na língua portuguesa. Assim também não uso a
grafia “Kayngang” como é frequente encontrar, e sim “Kaingang”, uma vez
assim está registrada no Dicionário Huaiss.

A Igreja, no final do século XIX, não entendia mais o Brasil como


terra de missão. Nessa sua autocompreensão de maturidade a catequese
indígena não tinha maior relevo na pastoral. Quando ela se fazia presente, o
fazia como defensora da “ordem legal”, da civilização branca, sem levar em
conta as peculiaridades culturais de cada nação indígena. Predominava a
compreensão de que as áreas, imensas muitas vezes, habitadas por tribos
indígenas compunham um “vazio demográfico (1).”
Quando os Capuchinhos de Trento vieram para São Paulo os Kaingang
(Coroados), habitavam a imensa zona para além da Serra dos Agudos e da
cidade de Bauru. A Missão dos frades trentinos incluía desde os seus inícios
o trabalho da catequese indígena e eles fizeram várias tentativas de realizá-
la.
Antes dos trentinos chegarem, Frei Mariano de Bagnaia, por Campos
Novos, e Frei Sabino de Rimini, pelo Rio Batalha, na região de Bauru,
tinham tentado iniciar a catequese dos Kaingang, porém, sem resultados.
Depois deles, um ardoroso sacerdote secular, Mons. Claro Monteiro,
descendente dos antigos bandeirantes taubateanos, entrou pelas matas pouco
adiante de Bauru, com a intenção de levar aos indígenas a Boa Nova do
Evangelho e os benefícios da civilização.
Ele escreveu em 1896 que mesmo olhando de relance o mapa do Brasil,
podia-se ler em grandes letras “terreno desconhecido”, ocupando mais da
metade do território brasileiro. É o que se convencionara chamar de “vazio
demográfico”, porque não levava em conta o considerável número de índios
de muitas etnias ainda existentes em território nacional. Mons. Claro
Monteiro dizia que: “Isto significava para ele, que milhares de cidadãos
brasileiros que tinham o direito à proteção das leis do país e ao apoio da
autoridade pública, estavam privados delas”. E concluía: “só a Igreja
Católica pode civilizá-los”.
Mons. Claro Monteiro entrou pelos sertões paulistas, mas nada poude
fazer. Foi vitimado pela flecha de um índio. O seu gesto corajoso provocou
uma reflexão que os estudiosos resumiram em três grandes problemas: o
geográfico, o etnográfico e o da catequese. Sua morte acabou por reafirmar
os preconceitos existentes sobre os índios: o índio era “caboclo brabo” no
norte do Brasil; no sul ele era “bugre”; em outras regiões ele era “bicho”,
“bandido nu”, etc.. (2).
A região geograficamente compreendida entre os rios Paranapanema,
Tietê e Paraná, tem a extensão de aproximadamente 79.000 quilômetros
quadrados, o que significa uma região maior que Holanda, Bélgica e Portugal
reunidos. No entanto, era essa área que os mapas registravam como “região
desconhecida”.
Sobre o problema da catequese, escreveu João Coelho Gomes Ribeiro,
na Revista da Sociedade de Etnografia e Civilização dos Índios, logo após a
morte do Mons. Claro: “Estabelecida uma escola de intérpretes ao lado de
uma colônia militar, no local mais apropriado do sertão garantindo os
missionários, com força moral e apoio material necessário, não faltarão
novos Claros Monteiros que levem aos rudes filhos das selvas a luz do
Evangelho e da civilização” (3).
O Instituto Histórico e Geográfico querendo dar bom encaminhamento
à aproximação com os índios realizou de maio a junho de 1901 quatro
reuniões para tratar da catequese dos mesmos. Fundou-se a Sociedade de
Etnografia e Civilização dos Índios. Entre as pessoas convidadas paras as
reuniões estava o Comissário Provincial dos Capuchinhos, Frei Bernardino
de Lavalle, que comunicou estarem os Capuchinhos da sua Província prontos
a se dedicar à catequese dos índios, incumbindo-se assim da execução do
programa que a Sociedade acabava de projetar. Percebe-se que até esse
momento as propostas da Igreja e da Sociedade sobre a catequese e
“civilização” do índio caminhavam juntas, sem os questionamentos
posteriores.
Os Capuchinhos fizeram duas tentativas de catequese indígena: de 1902
a 1907 com os Kaingang, no pé da Serra dos Agudos, próxima a Campos
Novos do Paranapanema e de 1912 a 1917 com os Xavante do Rio Verde,
afluente da margem direita do Rio Paraná, no atual Estado do Mato Grosso
do Sul. Mais tarde transferiram esta missão para a margem paulista do Rio
Paraná, na foz do Ribeirão das Marrecas, nas proximidades das atuais
cidades de Panorama e Paulicéia.

Primeira expedição

Tendo tomado as necessárias informações sobre os trabalhos de Frei


Sabino de Rimini no Rio Batalha, de Frei Mariano de Bagnaia em Campos
Novos e de Frei Timóteo de Castelnuovo na Missão São Jerônimo, no Rio
Tibagi, que desemboca no Rio Paranapanema em sua margem paranaense.
Frei Bernardino preferiu viajar em exploração até Campos Novos do
Paranapanema, onde ainda vivia o vigário que assistira à morte de Frei
Mariano, quase vinte anos antes. Queria verificar se havia a possibilidade de
restaurar a catequese de Frei Mariano ou se era necessário iniciar outra.
Aos 23 de julho de 1901, Frei Bernardino partiu de São Paulo, com
destino a Campos Novos em viagem de exploração. Lá chegando, o vigário
Pe. Paulo Majo contou-lhe tudo o que Frei Mariano fizera pelos índios e
apontou os meios dos quais seus frades poderiam usar se fossem para lá. Dali
Frei Bernardino partiu para São Pedro do Turvo, Espírito Santo do Turvo,
São Domingos, indo sair na Serra dos Agudos, pelos lados de Piratininga,
regressando por Lençóis, onde poude colher do Pe. José Magnani
informações sobre os trabalhos de Frei Sabino nas margens do Rio Batalha
(4).
De tudo o que lhe disseram, concluiu que o mais acertado seria enviar
os primeiros missionários para Campos Novos, e começar a catequese nas
matas vizinhas. Voltando para São Paulo, organizou a caravana dos que
haviam de partir.
Chefiados por ele próprio Frei Bernardino, iriam Frei Daniel de Santa
Maria, Frei Boaventura de Aldeno, Frei Policarpo de Lévico, Frei Paulo de
Sorocaba e o ex-carmelita italiano Pe. Francisco Savelli. Partiram no dia 4
de maio de 1903. De Campos Novos seguiram para os lados de Platina onde
o Coronel Sanches de Figueiredo possuía muitas terras. Estabeleceram-se à
raiz da serra do Mirante, para ficarem próximos das matas habitadas pelos
Kaingang. Ali construíram uma casa de madeira e estabeleceram a sede do
trabalho missionário, denominando-a Catequese São Fidelis (5).
Permaneceram no local até o início de 1907, sem terem alcançado qualquer
aproximação com os Kaingang. O governo estadual aprovou em favor dos
Capuchinhos uma verba anual de $10:000.00.
Os índios Kaingang estão dispersos em vários subgrupos na região
oeste do Estado de São Paulo, entre os Rios Tietê e Paranapanema; ao
noroeste do Estado do Paraná, nos vales dos Rios Tibagi, ao norte, e Ivaí,
indo para o oeste, abrangendo quase toda a margem esquerda do Rio Paraná;
no oeste de Santa Catariana até a margem direita do Rio Uruguai e ao
noroeste do Rio Grande do Sul. O modo como cortam o cabelo, que, aliás, é
comum a tantas tribos brasileiras, fez os brancos os denominarem de
Coroados. Eles procediam das regiões ocidentais do Rio Paraná e invadiram
o território paranaense após a destruição das missões jesuíticas com os índios
Guarani em Guairá no Território das Missões. (6)
Numa das reuniões realizadas em 1901 no Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo se disse que, entre as providências a serem tomadas,
uma seria a de manter próxima dos missionários uma colônia militar para
dar-lhes segurança contra possíveis agressões. Seguindo esse raciocínio, os
Capuchinhos se estabeleceram nas imediações da fazenda do Coronel
Sanches de Figueiredo, por quem os índios tinham grande medo e grande
ódio, devido às freqüentes batidas que ele fazia nas florestas, com dezenas
de homens armados. Frei Modesto e Frei Fidelis trazem em seu livro “Os
Missionários Capuchinhos no Brasil” o seguinte questionamento: “Seria isso
uma garantia para os missionários? Não creio. O índio devia ser domesticado
pela Cruz do Redentor e não a balas. Entretanto, já era praxe estabelecida na
região fazerem-se periodicamente incursões pela mata ‘à caça de índios’,
como dizia o coronel. Armavam-se uns oitenta ou cem homens, e à maneira
dos que partiam para a guerra do Paraguai, iam abrindo picadas e furando os
bosques emaranhados de cipós, à procura de índios para seus escravos. Ai!
daquele que, avistado, tentasse fugir! Recebia uma bala pelas costas!..
Compreende-se a revolta e indignação dos índios da floresta, o ódio e rancor
que os selvagens haviam de ter contra os ‘civilizados’!” (7)
Numa destas incursões, o Coronel Sanches de Figueiredo, que fazia
questão de proteger os missionários, levou Frei Boaventura para entrar em
contato com os índios. Esta primeira tentativa se deu em agosto de 1904.
Algumas semanas antes, os índios que ainda não eram dominados pelos
brancos tinham assaltado a fazenda e os moradores da vizinhança, levando
utensílios agrários e matando algumas pessoas. Como iriam reagir esses
índios da mata percebendo que um grupo de homens armados os procurava?
Sumiram!
Aos 11 de dezembro do mesmo ano se fez outra tentativa. Mais de
sessenta homens armados penetraram com o missionário, floresta adentro. O
resultado foi o mesmo. Consta que só viram dois índios e não os atacaram.
Supõe-se que estes tenham ido à aldeia e avisado a todos para que fugissem.
A expedição voltou e durante a volta, por cinco dias foi perseguida pelos
índios que feriram dois homens do grupo invasor. No dia 27 de dezembro
estavam em casa.
Próxima à região desses acontecimentos situava-se a sede da mais
remota paróquia de todo aquele interior, que nunca tivera vigário, a não ser
um velho padre português que abandonara o sacerdócio. Era o povoado de
Conceição de Monte Alegre. De acordo com a autoridade diocesana os
Capuchinhos se transferiram para lá, em 1908, atendendo pastoralmente
aquela imensa região. Permaneceram lá até 1915. A mesma dinâmica
missionária levou os Capuchinhos de Trento a abrir nova casa em 1908 no
sertão noroeste do Estado, em Penápolis, para onde foi Frei Boaventura.
Em Conceição de Monte Alegre permaneceu Frei Mansueto de
Valfloriana. Durante todo o tempo em que ali foi vigário, fez o que poude
para se aproximar dos índios Kaingang (Coroados). Cada vez mais esquivos
frente a ameaça “civilizatória”, eles fugiam sempre para mais longe.
A catequese pretendida nas matas de Campos Novos do Paranapanema
deu em nada, sem que isso tire os méritos dos missionários. A primeira parte
do programa da Sociedade de Etnografia e Civilização dos índios, que era a
exploração do sertão, foi conseguida com o levantamento feito dos rios do
Peixe, Feio (Aguapei), e Paraná.

Contribuição dos Capuchinhos para a etnografia


A Sociedade de Proteção aos Índios se propunha três objetivos: o
geográfico, de conhecer e explorar o sertão, o que conseguiu fazendo
levantamento dos três rios. O da catequese do qual se incumbiram os
Capuchinhos, sem conseguir realizá-lo como acabamos de verificar. O
etnográfico conseguido em parte pelos esforços da Sociedade em parte pelo
trabalho de Frei Mansueto de Valfloriana. Frustradas as tentativas de
estabelecer catequese permanente, Frei Mansueto de Valfloriana, ao
terminar o seu triênio como vigário de Conceição de Monte Alegre propôs
ao Comissário Provincial que lhe permitisse ir, em companhia de Frei Vito
de Martignano e Frei Francisco de Terragnolo, passar uma temporada em
Jataí, a fim de estudar a língua dos Kaingang (Coroados) que eram da mesma
tribo dos Kaingang do Estado de São Paulo.
Em Jataí, no Estado do Paraná, como já foi exposto, viveu e trabalhou
por muitos anos Frei Timóteo de Castelnuovo, organizador da catequese de
São Pedro de Alcântara com os Kaingang ali situados. Ele já falecera há
muito tempo e ninguém o substituira. Mesmo assim Frei Mansueto esperava
conseguir alguma coisa. Assim foi.
De 11 de outubro de 1911 a junho de 1912, Frei Mansueto de Valfloriana
se habilitou a escrever um trabalho importante que foi publicado pela Revista
do Museu Paulista em 1920: uma gramática e um volumoso dicionário da
língua dos Kaingang. Foram trabalhos que prestaram relevantes serviços à
etnografia e à filologia brasileiras, que os americanistas muito apreciaram.
Espalhados em aldeias às margens do Rio do Peixe, os Coroados eram
ferozes inimigos de seus companheiros capturados, pois os consideravam
traidores. Assim, em 1898, cerca de 10 famílias de índios fugiram da fazenda
do citado coronel Figueiredo - Fazenda Matão – e se refugiaram na fazenda
São Mateus. Foram trucidados pelos Kaingang não submetidos pelos
brancos que incendiaram seus ranchos e destruíram as poucas plantações
que haviam feito. Infelizmente era esse coronel, também chefe político, que
acompanhava os missionários Capuchinhos na delicada empresa. Ele
organizava expedições ou “dadas”, quando se armavam uns oitenta ou cem
homens que iam à captura dos índios. Aliás, o mesmo seria assassinado, anos
depois, envolvido em discórdias políticas.
No relatório de Frei Daniel: “Seis meses de sertão”, lemos:
“Aqui chegando, fomos visitar uma saliência da Serra, que há 12 ou 14
anos era cultivada, mas que por ora está abandonada devido à morte de
alguns proprietários e pela distância de outros, que se retiraram... Terras
abandonadas porque nelas tiveram início lutas sangrentas entre selvagens e
civilizados e que teve origem no seguinte fato”:
“O senhor Figueiredo havia se dirigido para Jataí, no Paraná, e de lá
trouxera algumas famílias de índios “amansados”, como colonos para a
agricultura. Muitos deles recolhidos nas terras do sr. Figueiredo, adoeceram
de sarampo, ou pelo clima ou por outra causa. O patrão cuidava deles do
melhor modo possível, mas estes não queriam saber de cuidados e de
resguardo, sempre avessos a atender os “farmacêuticos”; por isso boa parte
dos doentes morreu. Um inimigo do sr. Figueiredo soube disso e espalhou
entre os índios que os remédios fornecidos por ele eram veneno. Foi como o
fogo na pólvora: todos os restantes fugiram, jurando vingança. Dali a pouco
começaram os primeiros ataques dos índios e os primeiros assassinatos,
dando origem a uma luta surda e sem piedade, que muitas vezes
ensangüentou aquelas terras”.
“Percorremos explorando parte daquelas terras que cobrem 480.000
metros quadrados de solo próprio para pastagens. Antes, tudo era cultivado
para tal fim e agora estão transformados em completa selva. Que triste
impressão nos causaram aquelas terras! Mais tristes ainda são as histórias de
tantas mortes trágicas: Fulano morto aqui, Beltrano esquartejado ali, Sicrano
trucidado acolá... Esse foi o terreno para a primitiva fundação da Catequese”.
“A parte baixa da Serra, que se estende para as três nascentes do
córrego do Veado, é quase toda uma imensa pradaria. Entre dois ou três
cursos de água, havia uma casa velha de palafitas e coberta de “taquarão”
meio destruída, abandonada há muito tempo. Foi escolhida como casa
provisória. Em sua frente plantei uma cruz rude e de madeira... em sinal de
posse e lancei a bênção aos quatro pontos cardeais. Terminada a primeira
excursão, voltamos, todos molhados de chuva, à residência mais próxima,
para enxugar-nos, recitar o breviário e passar a noite. Mas como descansar?!
Deram-nos um quarto devassado, exposto ao vento frio de maio, uma cama
muito pequena, com ralas cobertas de algodão e que de fato não aparavam o
frio. Durante a noite fomos atormentados por uma infinidade de minúsculos
carrapatinhos que muito nos aborreceram”.
“Nos três ou quatro dias seguintes investigamos as vizinhanças,
procurando um local para construirmos uma casa mais habitável que à já
citada, com capela anexa, etc... Por fim, escolhemos um pequeno aterro a
uns 200 metros da casa e de onde se divisa um vasto horizonte, cerca de 500
metros do nível do mar”. Obs. Este local onde se instalaram os Capuchinhos
está hoje situado mais ou menos a uns 8 quilômetros da cidade de Echaporã,
relativamente próximo ao asfalto, na serra entre Marília e Assis. Nos
primeiros anos de 1970 ainda se podia ver a saliência do terreno que fora o
piso da casa dos frades. Estiveram lá visitando o lugar, Frei Frederico
Lorenzi, Frei Saul Perón, Frei Nélson Berto, Frei Odair Verussa e Frei José
Sales Ramos.
Continua o relatório de Frei Daniel: “A construção será de madeira,
com travessas e tábuas pregadas; as pranchas vieram de 25 klms. de
distância. Terminados os preparativos, voltamos à cidade mais próxima para
recrutarmos o pessoal indispensável ao serviço da Catequese. Pouco depois
chegamos com o Sanches e Frei Paulo, enquanto Frei Boaventura e Frei
Chico iam a São Pedro do Turvo para encerrar o mês de maio. Depois demos
início à construção da casa, consertando do melhor modo possível com
velhas vidraças a já existente, com um abrigo para animais. Nivelamos o solo
para o curral, cortamos o mato”.
“Três dias depois chegaram os trabalhadores e foi construído um quarto
uma pouco mais confortável e instalamos a capela com um altar simples.
Quanto trabalho nos custou essa instalação simples e sem defesa!! Mas
agimos com toda a rapidez, pois havíamos decidido inaugurar a Catequese
no dia 4 de junho, com a bênção do cruzeiro. O dia da inauguração foi de
grande trabalho, mas muito alegre; tivemos visitas de muitas pessoas. No
mesmo dia firmamos contrato para a construção da morada definitiva que
havia de medir 10 mts. por 7 e meio. A obra teve início a 20 de junho e exigiu
4 meses de trabalho. Em meados de outubro tomamos posse da nova casa
onde reservamos largo espaço para a capela; construímos um altar mais
decente e no dia 17 foi celebrada a primeira missa. À tarde houve pregação
e doutrina. Daquele dia em diante, todos os domingos e festas de preceito
são com missas regulares participadas pelos fiéis. Fizemos também uma
pequena procissão que foi satisfatória. Os quartos serão fechados com
lençóis, roupas velhas; as portas serão feitas com tábuas de mesas
desmontadas. O teto, porém, deve ser bem firme, pois por duas vezes o forte
vento carregou muitas telhas. Frei Chico e Frei Boaventura pensaram na
ornamentação. As hortaliças estão um pouco cortadas por certas formigas
pequeníssimas, denominadas “kenkén”. Em toda a redondeza mandei
arrancar a capoeira, muito propícia para os índios se esconderem e assim nos
fazerem uma visita imprevista e pouco agradável... As aves de rapina
assaltaram muitas vezes o curral, matando bois, porcos e ferindo outros
animais. Para falar de coisas mais elevadas e úteis, o estudo ao qual nos
dedicamos e que é o mais necessário e útil, é a língua dos índios Coroados.
Mas é muito difícil, não pela língua em si, mas por faltar quem a saiba de
fato e nos possa ensiná-la. Os primeiros rudimentos foram-nos ensinados por
uma senhora chamada Mariana que morou por 8 ou 10 anos próxima a locais
onde havia muitos índios”...

Auxílio do governo

Além do ofício do Cônego Ezequias ao governo, o diretor da Liga de


São Pedro também solicitou ajuda ao Congresso Legislativo do Estado,
tendo em vista o “completo desamparo em que tem vivido a população
indígena que ainda povoa considerável extensão do território do Estado”. O
ofício salienta que “com insignificante dispêndio, fácil seria trazer ao
convívio da vida civilizada aquelas míseras tribos errantes, o que valeria ao
mesmo tempo cooperar para o aumento da população válida e útil do Estado
e para a dilatação do seu território susceptível de exploração econômica”.
“Os signatários acenam para o atraso e pouco progresso da grande
região inexplorada além de Bauru, entre os rios Tietê, Paranapanema,
Paraná. Condenam a política de se gastar rios de dinheiro com os imigrantes,
esquecendo-se dos “descendentes dos primeiros habitantes” e tratando-os
com indiferença, pois se chegou ao extremo de entregá-los “ao ódio e à
cobiça de aventureiros que têm vivido a espoliar os pobres índios de suas
terras, correndo-os a ferro e fogo para o fim do sertão”. Além do aspecto
moral, temos o aspecto econômico, pois essas regiões banhadas pelo Rio
Feio (Aguapei) e pelo Rio do Peixe têm “excelentes terras de cultura e para
os lados do Avanhandava, magníficos campos de criar”, com “estupendo
manancial de força hidráulica” no salto. Assim, essa zona pode constituir-se
num centro pastoril, agrícola e industrial de primeira ordem... destinada a
servir de entreposto às relações comerciais entre o Estado de São Paulo, sul
do Mato Grosso e o Paraguai. Para tal, é necessário explorar a região,
providenciar a “civilização dos índios bravios que ainda infestam aquelas
paragens, e o meio, por certo, não é outro senão a catequese cristã”.
O ofício lembra que os Capuchinhos estão a 5 léguas além de Campos
Novos, em residência provisória, aprendendo a língua e os costumes dos
índios Coroados (Kaingang) que habitam ainda mais para a frente, em pleno
sertão, mas que costumam aparecer naquele ponto. Mais tarde, a Catequese
será transportada para a margem esquerda do Rio do Peixe, que se supõe seja
o principal centro de habitação dos Coroados (Kaingang), a tribo mais
numerosa e bravia de índios que freqüentam essas regiões. Os frades
pretendem preparar morada, escola, mantimentos, etc... para acolher os
índios.
Considerando a urgência e a importância de tal obra a ser empreendida,
os signatários pedem a votação de uma ajuda de 12 contos de réis por ano,
para a catequese. O documento traz a data de 1º de setembro de 1903. A
“Liga” tem como presidente o sr. Adolfo Augusto Pinto (Revista “Santa
Cruz”- Ano IV- outubro 1903, pp. 9-10)”.

Tentativas de missões com os índios Kaingang na região de


Campos Novos do Paranapanema

Primeira incursão

Sabendo da precária presença da Igreja no Oeste Paulista os


Capuchinhos tinham sim a disposição de se envolver com a catequese
indígena, sem deixar de atender os sertanejos espalhados pelo sertão.
Fizeram diversas tentativas de aproximação dos aldeamentos indígenas, mas,
ou por uma equivocada avaliação ou por falta de recursos, se valeram das
orientações do Coronel Sanches, que como se sabe era matador de índios, e
de uma índia civilizada chamada Mariana, irmã do capitão-cacique. Ao que
consta foram três aproximações maiores, planejadas e organizadas.
Frei Daniel de Santa Maria de Gardena, em carta escrita aos 13 de
setembro de 1903, fala da primeira:
“O Sanches chegou no dia 30 de agosto, com um engenheiro e um
médico, ambos russos; com eles foi à Serra do Mirante, descendo o Vale do
Rio do Peixe. Enquanto isso, um grupo de 25 pessoas adentrou a mata
denominada “Figueiras”, a fim de constatar se os índios tinham respondido
a uns sinais ali postos pela índia Mariana. Nada havia. Prosseguindo, depois
de caminhada de cerca de duas léguas, foi encontrada uma “carta” para
Mariana, chamando-a de volta à aldeia e ensinando-lhe o caminho. Nenhum
resultado para a incursão”.
Frei Daniel anota: “Não somos felizes em nossos trabalhos, até agora e
talvez ainda por muito tempo, pois corre um boato que, se fosse verdade, nos
causaria grande atraso. O Sr. João Gonçalves, morador do Saltinho, possui
terras na vertente do rio Capivari, a 3 léguas de São Mateus. Há um mês mais
ou menos, mandou um trabalhador para derrubar matas. No dizer de todos,
aquela vertente é freqüentada a miúdo pelos selvagens. Como ouvimos dizer,
houve lá um encontro entre índios e trabalhadores. Dizem que foi morto um
índio e, oh, horror!, enforcado à noite, numa árvore; no dia seguinte havia
desaparecido. Fosse isso verdade, o que custa a acreditar, nossos trabalhos
apostólicos sofreriam não pouco. Isso é o que consta atualmente”...
Entre a primeira e a segunda incursão, houve um ataque dos índios
contra lavradores, a 7 quilômetros da Catequese, aos 3 de agosto de 1904.
Numa carta ao “Diário Popular” de São Paulo, Frei Boaventura assim relata:
“O dia 3 deste mês foi verdadeiramente um dia medonho aqui neste
sertão, pelos acontecimentos que se desenvolveram bem perto da nossa
residência de São Fidelis. Estavam uns roceiros trabalhando no lugar
chamado Figueira, no meio dum roçado de 6 alqueires, quando à hora do
café, foram atacados pelos índios selvagens. O primeiro a avistar os índios
foi um rapaz de 17 anos. Mas, foi um instante!... Uns foram flechados, outros
fugiram, e outros, cercados por uns 60 ou 70 índios que, além de descarregar
numerosas flechas com pontas de ferro, faziam uma gritaria horrorosa,
fazendo ouvir as palavras: “mata caboclo... cerca... diabo...
upá..upá..palavras que querem dizer “adiante..adiante,..e “Fogué! Fogué! =
Invasores”.
“O ataque durou mais ou menos meia hora e todos teriam sido
sacrificados, se não houvesse aparecido a família Costa, talvez de 18 pessoas,
que se achando perto do lugar, a uns 1500 metros mais ou menos, pôde evitar
maior desastre. Os Coroados, assim repelidos, fugiram subindo a serra.
Parece que tinham perecido alguns deles, entre os quais o capitão, que foi
visto cair lançando sangue. Mas, com certeza, nada se sabe, pois esses índios,
na fuga, carregam consigo os mortos e feridos, armas, facas e machados.
Entre os nossos, morreram quatro, e três ficaram feridos, sendo que um
gravemente. Os mortos chamam-se José Elias, atingido por seis flechas; o
filho deste, João, ferido com flechas e golpes de machado, tendo a cabeça
quase separada do corpo; Casemiro Feliciano dos Santos, com três feridas de
flecha e uma de machado na parte posterior da cabeça, e Antônio Tavares.
Este último foi degolado, e a sua cabeça encontrada longe do corpo, e com
três golpes de machado”.
“Vimos esses corpos reduzidos a um estado horripilante, deixados na
mata pelos índios, completamente despidos. Acompanhamo-los até a morada
do mais velho, José Elias. Ali foram vestidos, e, à noite, rezamos o terço
pelas almas deles. Como disse acima, nós missionários, fizemos, no dia 3, os
primeiros curativos, voltando à nossa morada às 9 e meia da noite. Mas no
dia seguinte, antes dos amanhecer, o Sr. João Batista Gervasoni, muito hábil
naturalista, estava já montado em seu esbelto cavalo e fazendo, em duas
horas e meia, 5 léguas, achava-se á cabeceira dos pobres feridos, que não só
curou, repetidas vezes, de graça, velando à noite inteira, mas deu-lhes até os
remédios, gratuitamente. Que Deus abençoe tão nobre coração e recompense
tanta dedicação e generosidade! Que o nome de tão grande benfeitor fique
gravado na memória e no coração dessa pobre gente, que bem o merece!”
“Eis os fatos brevemente narrados; porém, esse desastre poder-se-ia
evitar com toda facilidade, porque, sabendo cada um de nós, aqui neste
sertão, quanto é terrível o índio Coroado, deve-se inferir que toda a gente
deve trabalhar com cuidado e nunca sem boas armas. Já fazia tempo que os
índios estavam descendo a serra do nosso lado, e observando, assim, os
nossos trabalhos e os nossos passos. Encontramos os rastros deles a cada
passo. Nós, religiosos, achando-nos na vertente do Rio do Peixe, ouvimos a
buzina deles bem perto de nós. No dia antecedente ao do desastre, o velho
José Elias, achando-se como espia no Figueira, encontrou sinais certos,
evidentes, da presença dos selvagens, e, apesar disso, os mesmos
trabalhadores quiseram voltar aí, com duas espias, é verdade. Mas, tendo
fugido uma, deu lugar aos índios de se aproximarem, acontecendo, desse
modo, o que aconteceu. Mais ainda: achando-se ali 16 pessoas, se, em lugar
de fugirem, algumas delas tivessem reagido todos de acordo, os índios teriam
sido repelidos. Brevemente voltarei ao assunto, conforme o resultado da
expedição que, com o sr. Coronel Francisco Sanches de Figueiredo,
pretendemos realizar ao rancho dos índios, no dia 9 de maio do corrente
mês”.

Segunda incursão

A segunda incursão se deu nos dias 9 e 10 de agosto de 1904, conforme


carta de Frei Boaventura, do dia 11 de agosto e publicada no mesmo Diário
Popular aos 12 de setembro. Assim escreve o padre (no jornal cita-se Frei
Daniel, mas foi Frei Boaventura que escreveu):
“Conforme a promessa feita na minha última carta, eis-me a dizer
alguma coisa sobre a nossa excursão realizada no dia 9 do corrente”:
“No sétimo dia da morte das vítimas da sanha dos selvagens, rezada a
missa em sufrágio deles, estávamos prontos em número de 20 pessoas, e
tirando a fotografia do grupo, começamos a subir a Serra de Campos Novos,
na parte chamada Serra dos Figueiredos. Tínhamos dado alguns passos,
quando fomos obrigados a observar certos sinais recentes da passagem dos
índios. - “Boa coisa”- dissemos entre nós, e prosseguimos subindo o monte,
internando-nos cada vez mais nas matas. Continuamos o caminho
alacremente, até que, às 4 horas e meia da tarde encontramos o trilho por
onde tinham passado os índios, de volta às suas aldeias. A vereda está bem
feita. A embira aí encontrada, as manchas de sangue de alguns feridos, e
outras coisas deram-nos a conhecer, com certeza, serem rastros de índios que
passaram por ali. Louvado seja Deus!”
“Mas, quantos poderiam ser? Muitos ou poucos? Ouvindo o Sr.
Coronel Francisco Sanches de Figueiredo as nossas palavras, respondeu-nos
com toda calma: Vamos ver! Em breve ficaremos cientes de tudo; aí há o
caminho deles; mas, descansemos um pouco, que isso para nós é muito bom
e todos guardem silêncio rigoroso, estando cada um atento aos meus sinais,
por que hoje poderia ocorrer o encontro com os selvagens”.
“Depois de uma hora, fomos andando com grande cautela, observando
tudo em toda parte, e às 5 horas e meia subimos em um estrepe encoberto de
uma fogueira apagada; e 5 minutos depois encontramos 11 pregos, panelas,
umas inteiras e outras quebradas, farinha de milho e um jacá, pedras para
afiar flechas, um pequeno rancho para guardar cadáveres, num vaso, pó de
mate excelente e no chão uma pequena cova para guardar o mel, seja para
comer, seja para curar ferimentos, depois dos conflitos. Reunidos todos estes
objetos, aproveitamos do dia para adiantarmos ainda um pouco. Porém às 6
e ¼ fomos obrigados a parar. Era noite e fizemos do melhor modo possível
nosso pouso, acendendo fogos, como é costume fazer quando toca passar as
noites nas matas. Até aqui, nada de anormal; antes, tudo foi com grande
satisfação nossa, pelo êxito final que tínhamos alcançado, isto é, por nos
vermos no caminho certo e seguro que conduz às aldeias dos índios. Apenas
nos veio uma sede terrível e para não aumentá-la cada vez mais, vimo-nos
forçados a deixar de comer a pobre refeição, passando deste modo a noite
debaixo de uma grande mandioqueira”.
“Durante as 11 horas noturnas, ouvimos a onça que estava uivando,
não muito longe de nós, e as aves que andavam esvoaçando de noite nessas
matas virgens. Aquela noite foi bem longa para nós e ao amanhecer, de todo
coração demos as boas vindas ao grande astro que iluminava o nosso planeta
e com a esperança de encontrar a água tão desejada. Às 6 horas da manhã
continuamos a viagem, caminhando em direção do poente. Mas, nada de
água e em lugar desta, encontramos outros 13 fogos, panelas todas feitas em
pedaços, um arco partido em duas partes, restos de passarinhos assados e
uma metade de um... macaco dentro das cinzas, farinha de milho aí
derramada, feijões esplêndidos e semelhantes aos da Europa meridional,
favas e sinais certos de índios do mato. Do número de fogos e de outros
indícios, pudemos inferir que os índios que visitaram o Tigüero, fazendo
tantas proezas, eram mais ou menos em número de 60 ou 70, fora as mulheres
e as crianças, tendo falecido dois e desaparecido um. O lugar onde estávamos
parecia próprio para ter água aí perto; por isso, todos, com a esperança de
mitigar a sede, fomos adiante a procura do precioso líquido; mas, grande
ilusão. Vimo-nos na dura necessidade de cortar uma espécie de cipó e
receber na boca, pingo por pingo, a água que dele saía. Mas, o que valiam
esses poucos pingos para 20 pessoas? Decidimos bater em retirada, mas,
sendo a sede demais, alguns quiseram andar de novo em busca de água e oh!
maravilha! À 1 hora da tarde acharam-na, mas em um brejo, pouca e suja!
Foi, porém assim mesmo, uma água providencial, pois trouxe algum
refrigério e alento.
“Ah! Que depois de umas 20 horas de sêde, depois de tanto tempo com
as faces ressequidas, qualquer água serve, qualquer água é boa, qualquer
água é um verdadeiro maná! Sim, para nós, nessa ocasião, ela foi um gostoso
licor, porque não só pudemos beber, mas também comer, o que dantes era
impossível. Assim fortificados, continuamos nossa saída do mato, que se
realizou sem incidente algum, às 5 e meia da tarde, do dia 10, de modo que
às 6 e meia chegamos felizes e contentes porque tendo, finalmente,
encontrado o caminho que conduz às aldeias dos índios, nos foi possível
marcar definitivamente o tempo da expedição até às aldeias, para ir trazendo,
com o favor de Deus, àqueles pobres selvagens à fé e á civilização cristã”.

Terceira incursão

Foi a mais longa. Deu-se de 11 a 27 de dezembro de 1904. Passaram o


Natal em plena mata. Frei Boaventura registra:
Dia 11: - “Entramos na floresta no dia 11 de dezembro de 1904. A
expedição era composta de 102 pessoas, guiadas pelo coronel Francisco
Sanches de Figueiredo. Estavam presentes, além de muitos outros o
Promotor Público e o delegado da Segurança Pública. Providenciou-se o
acampamento, esperando-se os dois que faltavam e chegaram à tarde. O calor
estava em torno de 32 graus. Às 4,30 observamos bem as redondezas com os
binóculos de longo alcance e vimos sobre a Serra uma figura que parecia de
um índio em sentinela, mas esse alarme desaparece logo, e almoçamos
tranquilamente, tendo por refeição ‘cuscuz’ ou o ‘melfu’ indígena: uma
espécie de polenta de farinha de milho como a nossa polenta, mas com
palmito ou broto de palmeira, muito tenro e com um gosto que se aproxima
dos nossos fungos (cogumelos) mais tenros”.
Dia 12: - “Às 4,00 da manhã deixamos o silencioso e infausto
‘Figueira’ e subimos a serra. Na expedição temos alemães, trentinos,
brasileiros, italianos, portugueses, índios Xavantes e Kaingang (Coroados)
catequizados; mas nessa mistura de diversas raças reinou sempre a maior
harmonia. Caminhamos até pelas 3,30 da tarde, embora a chuva nos
dificultasse muito. Finalmente fomos obrigados a parar, porque a chuva
tornou-se torrencial. Ao atingirmos o ponto de parada, os que chegaram à
frente mataram uma terrível e monstruosa cascavel. A índia Isabel feriu-se
gravemente num dos pés. As abelhas nos incomodaram muito. As sentinelas
se postaram, em número de 9, a meio quilômetro do posto, na direção
noroeste”.
Dia 13: - “Por dificuldade em se encontrar as marcas quase
desaparecidas dos índios, um grupo saiu à frente, e os demais os seguiram
muito vagarosamente, encontrando-se todos por cerca de nove horas. Pelas
4 da tarde tivemos que parar devido a um grande temporal. Dois doentes
faleceram. À meia noite, um galho muito grosso cai na frente do
acampamento e pouco faltou para esmagar alguns. Por sorte, o barulho serviu
de alarme e todos puderam safar-se incólumes. A chuva continuou a noite
toda”.
Dia 14: - “Reiniciamos a caminhada às 9 horas. Depois de cerca de
uma hora perdemos o caminho, tempo depois reencontrado por um dos guias.
Pela 2,30 chegamos às margens de um rio denominado ‘Vermelho’, devido
à cor de suas águas, o que fazia supor jazida de cobre em seu leito. O local é
encantador. Tiramos uma foto. 720 metros de altitude”.
Dia 15: - “Levantamos acampamento às 7 h. e passando por um bosque não
muito fácil, encontramos uma panela ou pote, suspensa numa árvore; pela
8,30 encontramos inúmeras fogueiras recém apagadas. Às 10 hs. perdemos
novamente o rumo e o encontramos depois. Às 12 hs. o coronel feriu-se
levemente à altura da omoplata esquerda. Altitude máxima dos locais
percorridos: 729 metros. Prosseguindo, chegamos a um curso de água
chamado Panela, em cujas margens havia muitas plantas frutíferas
(gabirobas)”.
Dia 16: - “Saímos as 6,30 e, quase de repente encontramos, a 732 metros de
altitude, um acampamento indígena abandonado e com uns trens que
costumam abandonar. Passamos dois pequenos cursos de água, afluentes do
Panela. Às 8 horas encontramos uma lata abandonada e, pouco depois,
alguns acampamentos bastante amplos. Paramos, das 3 às 3,15 da tarde sobre
um pequeno monte, à altura de 737 metros. O solo é pobre e arenoso. – Pelas
3,45 estávamos à margens do Rio do Peixe, cuja corrente, pela cheia, é turva
e bem rápida. Pensamos logo na maneira de atravessá-lo e iniciamos uma
passarela que não pudemos concluir naquele dia.”.
Dia 17: - “Concluída a passarela enviamos alguns exploradores à frente para
abrirem caminho. Às 9hs. começamos a passar a ponte. Por termos tirado
fotografia, a passagem levou cerca de uma hora. A caminhada superou três
léguas (18 quilômetros). Encontramos várias pegadas de índios, e na margem
direita da torrente “das Antas”, numerosas cabeças de macacos, suspensas
em paus, além de várias bilhas. Descansamos um tanto e prosseguimos a
marcha até 5,30 da tarde, acampando numa clareira à margens da torrente
Jacutinga, denominada Pouso da Roçada. Havia três grandes sepulturas de
índios. Altitude máxima dos locais percorridos: 736 metros. A noite estava
esplêndida”.
Dia 18: - “Pelas 4 da manhã, o céu torna-se de improviso nublado e
começa a chover a cântaros até às 8 h. Retomando o rumo dos índios,
prosseguimos, e, às 10 hs., após atravessarmos dois pequenos cursos de água
encontramos sinais de acampamento e uma velha aldeia abandonada. A
chuva recomeça e causa fastio, mas não impede a caminhada. Após uma
breve parada, pelas 2 da tarde continuamos viagem até às 3,30. O local em
que acampamos foi denominado “Planície da confusão”, pois perdemos o
rumo e não pudemos encontrá-lo. Matamos uma grossa serpente dourada.
Altitude máxima dos locais percorridos: 736 metros”.
Dia 19: - “Antes de levantarmos acampamento tiramos fotografias e, às 7 h.
pusemo-nos a caminho da serra que divide a bacia do Rio do Peixe da bacia
do Rio Feio (Aguapei) em seu curso inferior. Às 11,30 hs. encontramos o
primeiro afluente do Rio Feio, que corre para o norte. Às 5,30 da tarde
acampamos, estando todos cansadíssimos. Denominamos Can-Can o lugar
ocupado, porque pela primeira vez ouvimos esse animal (ave). Hoje
encontramos vestígios recentíssimos de índios. Começa a faltar provisões,
de modo que muitos já querem bater em retirada. Altitude máxima dos
locais: 732 metros”.
Dia 20: - “Falta água; hoje, como nos dias 21 e 22 bebemos a água mais suja
que se possa imaginar. O dia está esplêndido, e às 6 h. Prosseguimos a
caminhada sem incidentes, até às 11 h. Pela 1 hora da tarde pressentido
próxima a presença dos índios, observamos toda a redondeza com o binóculo
de longo alcance, mas nada descobrimos. Por falta de água e de provisões,
fomos obrigados, pela primeira vez, a alimentar-nos com raízes de jaracatiá.
Por terem comido muitas, alguns ficaram indispostos. Acampamos à 6,15 da
tarde, próximo a um brejo, e, para mitigar a sede, tivemos que beber água
suja de brejo. Pelo anoitecer chega, trazido pelo vento, o som de buzinas...
Estamos bem próximo dos índios. Todos estão satisfeitos”.
Dia 21: - “Às 6 h. reiniciamos a caminhada; à 8,45 encontramos 7 índios que
fugiram rápidos”.
(Aqui a narração de Frei Boaventura é interrompida. Prossegue a narração
de Frei Daniel) “Pela noite acampamos a uma légua (6 quilômetros) da
aldeia dos índios”.
Dia 22: - “Pelas 6 h. deixamos o local, convictos de que os índios não nos
teriam seguido e, pela tarde chegamos ao Can-Can, mais do que cansados.
Acampados, comemos um pouco do que pudemos pôr em comum. A noite é
clara, magnífico o luar, mas por quanto fosse a noite mais bela de quantas
passamos na floresta, foi a mais horrível pelos acontecimentos. Pela meia
noite começamos a ouvir bem próximo o grito de macacos, de macuco e de
outros animais selvagens. Por mais que esses urros fossem bem imitados, o
Cel. Figueiredo nos pôs logo de alarme, conhecendo o costume dos índios.
E de fato, poucos instantes depois teve início o ataque e começaram a voar
flechas, enquanto, de nossa parte houve resposta com intenso fogo de fuzil.
O assalto foi repelido, mas absolutamente em vão, pois tivemos um morto e
um gravemente ferido e que teria certamente morrido, não fosse o pronto
socorro do turinense Batista Gervasone, muito prático em ferimento de
flechas e prático em qualquer doença da região, sendo melhor que qualquer
médico provecto. – Os pequenos assaltos e fuzilarias duraram até pela
manhã”.
Dia 23: - “Sepultado o morto, tomamos novamente, tristes, a
caminhada, carregando o ferido envolto numa coberta. A partida foi muito
difícil, pois os índios nos haviam cercado. Os catequizandos que estavam
conosco, tendo feito uma inspeção retornaram dizendo que os índios estavam
à frente e construíram trincheiras. Nós os ouvimos, à direita e à esquerda,
trocarem sinais, imitando o canto dos pássaros de maneira perfeita. Porém,
ora caminhando de gatinhas, ora em passos curtos, ora se arrastando bem
lentamente, conseguimos passar despercebidamente. Durante o dia, porém,
descobrimos um índio de atalaia, e para fazê-lo compreender que não
queríamos fazer-lhe mal algum, pois teria sido fácil matá-lo, estando bem
perto, contentamo-nos em fazer-lhe ver que o havíamos poupado, e o
deixamos ir. Pelas 2 da tarde fomos obrigados a parar devido a uma chuva
torrencial. Estávamos em cima da serra entre o Rio Feio e o Rio do Peixe.
Os índios procuram ainda atacar-nos durante a noite toda obrigando-nos a
disparar o tempo todo, mas nada conseguem. A marcha continua sempre
assim, seguindo-nos os índios, passo a passo, sem ousarem enfrentar-nos de
dia, mas perturbando-nos a noite, sem resultados e sem danos também para
eles”.
Dia 24: - “O ferido, bem melhor, pôde caminhar por si. A caminhada
prossegue sem incidentes. À tarde acampamos às margens do Jacutinga, mas
de repente nós percebemos que o rumor da água corrente poderia dar ocasião
a ataques pela retaguarda sem que percebêssemos. Vigiamos a noite toda e,
de fato, por várias vezes eles tentaram surpreender-nos”.
Dia 25: - “Estamos alegres, pois esperamos atravessar o Rio do Peixe
esta manhã. Pelas 9 h. chegamos ao seu curso e o encontramos reduzido em
4 ou 5 metros. Hoje fizemos festa porque pescaram uns belíssimos dourados.
Pela noite um índio salta nossa trincheiras e tentaram três ataques”.
Dia 26: - “Chegamos ao Rio Panela e depois prosseguimos até o Rio
Vermelho. Aqui, por falta de mantimentos, alguns caçam macacos. À noite,
os normais ataques, sem resultados”.
Dia 27:- “Finalmente estamos no fim e todos alegres e impacientes por
encontrarem seus entes queridos em casa... Um incidente cômico...
Repentinamente, por entre as folhagens, vimos um índio. Estando à nossa
frente, temíamos que ele interrompesse nossa caminhada e fôssemos
obrigados a lutar até o fim. Mas, prosseguimos certos de que não mais
ousariam atacar-nos; um índio catequizado nos precedia. Pelas 12 horas
avistamos o posto da Catequese; houve salva de fogos pela alegria,
chamando a atenção de nossos conhecidos. Assim termina a excursão”.

Obs. Os trechos entre aspas narrando as três incursões constam do


trabalho “Nella foresta vergine”- L’opera de RR. Padri Cappuccini del
Trentino nello Stato de San Paolo (Brasile)” páginas 164-176. Trata-se de
um trabalho mimeografado, anônimo e sem data.

Apoio e oposição

Os missionários manifestam em suas correspondências como estavam


cônscios dos obstáculos a serem vencidos. Às vezes revelam pessimismo.
Quem revela sempre apoio incondicional é o Comissário Provincial, Frei
Bernardino de Lavalle. Numa relação enviada em 1904 ao Ministro
Provincial, Frei Agostinho de Canazei, ele elogia a disponibilidade dos
frades para a missão indígena.
Aos 19 de abril desse mesmo ano Frei Bernardino toma o trem da
Estrada de Ferro Sorocabana em São Paulo chegando à noite em Cerqueira
César. No dia 23 está em Campos Novos, onde encontra os missionários com
saúde, “contentes, felizes, alegres”, residindo numa casa de madeira. Em seu
relato diz:
“Fiquei bastante edificado e cheio de admiração vendo o
comportamento destes bons religiosos... que convivem em perfeita
harmonia, generosos e pacientes, suportam muitas e graves privações, como
também infindas dificuldades de uma vida na solidão da selva; trabalham
incansáveis nos preparativos... para tornar a Catequese um fato real o mais
breve possível... Observam pontualmente a vida regular; e especialmente
quanto a esse aspecto, jamais esperava encontrar tanto zelo e tanto fervor.
Esse amor pela observância regular enche-me a alma da mais viva
consolação e da mais firme esperança de que Deus e São Francisco
abençoarão suas fadigas apostólicas”... Frei Bernardino passa a fazer uma
descrição da vida e dos costumes dos Coroados (Kayngang), como também
da programação que os missionários pretendem executar em seus trabalhos
catequéticos.
A atividade missionária dos frades tem também oposição e ataques da
imprensa. Um artigo anônimo enviado de Campos Novos e publicado no
jornal “O Estado de São Paulo” de 22 de agosto de 1904, assim se referia à
catequese:
“No dia 3 do corrente, foi assaltada pelos índios bravos uma turma de
trabalhadores no lugar chamado Tigüera (roça depois de feita a colheita), na
serra, morrendo quatro no conflito e ficando três gravemente feridos. Como
sempre os índios saíram vitoriosos e ilesos. Atacando de surpresa, com
premeditado plano, eles encontram os trabalhadores quase descuidados e até
que voltem do susto, o estrago já está feito!..”
“Parece que este ano eles querem dar o ataque final, visto que de outras vezes
atacam e fogem não se ouvindo falar deles senão no ano seguinte e desta aí
estão tocando buzina e formigando por toda parte, máxime nas fazendas Três
Barras e São Mateus. – O lamentável acontecimento deu-se a poucos
quilômetros da sede da catequese, onde dormitam bem-aventuradamente os
gorduchos frades, que dizem vieram para cá para amansar índios, mas, há
mais de um ano que estão aqui e não me constam que tenham cogitado disso.
Não sei como o governo e particulares, cotizando-se para um fim
humanitário, não fiscalizam o serviço, deixando ir o cobre assim sem mais
nem mais!... Não calunio, mas sei que os frades ocupam-se em coisas alheias
ao fim que se propuseram, deixando perecer aqueles infelizes pelo bacamarte
do sertanejo, único e infalível meio de afugentá-los de suas moradas. -
Foram-se os bons tempos dos corajosos Nóbregas, Anchieta, Vieira e muitos
outros, que revestidos de santa energia, embrenhavam-se nas matas, não
temendo o bravio selvagem, a fome, a sede e mil dificuldades. – A História
Pátria nos transmite e nós estamos vendo muitas cidades e vilas fundadas por
aqueles abnegados religiosos, que em tempos idos era o mesmo povo, como
para nós hoje é o Rio do Peixe”...
A esse artigo respondia Frei Bernardino no mesmo jornal O Estado, de
27 de agosto de 1904, dizendo entre outras coisas:
(..) “Saiba-se, pois, que mal tinham chegado a Campos Novos do
Paranapanema os Capuchinhos,... esse correspondente, não sei por que
motivo e com que desígnio, começou logo a ridicularizá-los, hostilizá-los,
fazê-los suspeitos perante o público, quer nas palestras, quer na imprensa,
patenteando, desta formam um singular e inexplicável contraste com o
cavalheirismo e generosidade com que nos receberam e trataram
indistintamente todos os bons e hospitaleiros habitantes do sertão”.
“Não estava ainda inaugurada a catequese, quando ele já ia ensinando aos
sertanejos que os frades não prestavam, iriam à serra só para passar a uma
vida regalada com dinheiro do governo, acabado o qual retornariam. Observo
aqui por incidente que naquele tempo nem sequer o requerimento para uma
subvenção eu tinha ainda apresentado ao governo, e que só pudemos chegar
a Campos Novos, contraindo uma avultada dívida. Continuou ele a expedir,
de vez em quando, aos jornais do sertão e de Botucatu, artigos difamantes
contra os missionários, até que chegaram à vila três forasteiros, que,
conforme a oportunidade, aqui se diziam naturais da Áustria, acolá, da
Rússia, mas que na realidade eram cavalheiros da indústria que, com o
pretexto de viajarem à própria conta, com fins científicos e humanitários,
viviam deveras uma vida regalada, divertindo-se e viajando o mundo com
todos os cômodos desejáveis, à custa quase exclusiva da gente incauta e
inesperta por eles explorada”.
“Não custou muito ao nosso bom amigo dar a entender a estes senhores
que os frades da serra são uns embusteiros, hipócritas e mentirosos, que sob
o auspicioso pretexto da catequese ambicionam explorar o Governo,
enriquecendo-se a si mesmos, e dominar os caboclos do sertão, e alcançou
que eles assim representassem os religiosos numa correspondência ao
“Jornal do Comércio” e ao “O Germânia”.
Frei Bernardino em seguida refuta as acusações elencando os argumentos:
- Os frades não ganham rios de dinheiro como insinua o articulista, mas
somente 6 contos dos 10 prometidos pelo Congresso Paulista.
- Não deixariam por isso os seus conventos da Itália e do Brasil para se
enfurnarem nas florestas.
- Quanto a não terem ainda tido contato com os índios, é claro que precisam
antes preparar os ambiente, a casa, etc... com os parcos recursos de que
dispõem.
- Se ainda há dúvidas sobre a eficácia ou feliz resultado da obra, todavia,
não se duvida, sem injustiça, da seriedade e boa vontade que os anima nesse
trabalho.
- Embora os missionários não se ocupem ainda diretamente dos trabalhos
ligados à Catequese, “empreendem, a cavalo, viagens de 6 e até 7 léguas em
caminhos péssimos, para ensinar às crianças os rudimentos de nossa religião,
sacramentar os doentes e confortar os moribundos”, além da “catequese aos
pobres sertanejos analfabetos e abandonados”.
- Quanto ao comparar-se aos Nóbregas e Anchietas, os capuchinhos não
pretendem tanto; o articulista, porém, deve convir que “se foram os tempos
felizes em que o missionário podia, sem grave perigo, embrenhar-se sozinho
nas florestas do mundo novo, em que o índio ingênuo acolhia com festas os
europeus, hospedava-os e os tratava como se fossem irmãos”.
- Os índios tornaram-se agressivos, diz o Frei, e sequiosos de vingança
contra os brancos; os capuchinhos estão dispostos a “sacrificar suas vidas à
causa altamente apostólica da civilização dos selvagens, se tal for necessário;
nunca, porém, ser-lhes-á permitido sacrificá-las imprudente e
temerariamente”...
- O próprio autor, continua o Frei, afirma categoricamente “ser o bacamarte
do sertanejo o único e infalível meio para afugentar os índios”.
- Quanto à fiscalização, “longe de receá-la, até a desejamos, mesmo como
uma garantia para nós, contra injustas e malévolas insinuações. Desejamos
trabalhar às claras e de pleno acordo com as autoridades eclesiástica e civil”.
- Concluindo, Frei Bernardino afirma que mesmo com malogro da
empresa, ficará registrada a boa vontade, o espírito de sacrifício do
missionário, e o aplauso ao governo que tentou, por meios brandos, amansar
e civilizar o selvagem, “antes de empregar os severos e rigorosos; nem o
gesto improfícuo de poucos contos... será o que possa acarretar a falência do
opulento Estado de São Paulo”.

O fim da catequese

Após a última incursão percebe-se de fato que os ânimos arrefecem,


mesmo que os missionários continuem a postos. O coronel aparece por lá
poucas vezes, pois suas preocupações tornaram-se outras. Frei Fernando faz
referências a isso em carta de 16 de agosto de 1905, dizendo que Sanches
teria perdido por lá duas fazendas.
Com data de 22 de maio do mesmo ano, o coronel dirige ainda uma carta a
Frei Bernardino dizendo estar sentindo “desacato desenfreado de inimigos
baratos”, mas que continua a “sacrificar... interesses particulares em prol dos
que precisam e dos índios que, talvez pelo passo dado pelo governo, serão
obrigados a sujeitar-se à nossa civilização”. Certamente foi esse “desacato
desenfreado do inimigo que levou o coronel a não mais aparecer na
Catequese”.
Uma carta de Frei Fernando traduz as incertezas finais dos
missionários: “Tornei-me muito incrédulo no tocante a um feliz resultado...
Deus, lá do céu, está se vendo mais ofendido pelos daqui, bem piores que os
inconscientes ‘bugres’. Nunca imaginara gente tão velhaca e tão finória pelos
interesses seus! A estreiteza do bilhete veda-me relatar-lhe casos frescos. O
embargo que põem estes, mais bichos que os d’além serra (assim alcunham
os pobres índios), é indizível. Por um palmo de terra, foram capazes de pôr
em execução (sendo possível), o desejo de Nero. O nosso vizinho é o rei de
todos. Outra noite, ele e o outro, prepararam-se de emboscada, esperando os
bichos. Eu fui à sua casa e falei... Desgostoso é viver no meio desta gente
velhaca e sem religião, cujo procedimento é o maior obstáculo para um feliz
resultado”...(26 de agosto de 1905). É evidente que cercados de tais
indivíduos, pouco ou nenhum sucesso poderia ser esperado de tal
empreendimento” (7).
O trabalho oficial da exploração e reconhecimento do extremo oeste paulista
foi iniciado com 4 turmas, denominadas: Tietê, Paraná, Feio e Peixe. A do
Peixe partiu de São Paulo aos 21 de maio de 1905, acompanhada de
engenheiro-chefe, um ajudante, dois auxiliares e um médico. Aos 19 de
junho, faz o levantamento da planta de Campos Novos. Atingiu o Rio do
Peixe a 28 de agosto. Margearam esse rio até encontrar a confluência do
Ribeirão Panela. Aos 3 de novembro de 1905, Frei Boaventura visita o
acampamento (em Anhumas) à beira do Panela e ali celebra a primeira missa
no vale do Rio do Peixe. Uma fotografia registrou o evento.
A Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo publicou,
em 1905, o fascículo “Exploração do Rio Feio (Aguapei)” no extremo sertão
do Estado.
Posteriormente, os Kaingang foram pacificados pelo Serviço Federal
da Inspetoria dos Índios. Pequenos grupos de Kaingang estão hoje
confinados no Posto de Icatu, no município de Braúna, na região noroeste do
Estado, e na região próxima a Tupã, na Alta Paulista, onde há o “Museu Índia
Vanuira”.
Os missionários ficaram em Campos Novos até maio de 1907, quando
assumiram a paróquia de Conceição do Monte Alegre. Trabalharam na
Catequese: Frei Policarpo de Lévico em 1903; Freis Boaventura de Aldeno,
Daniel de Santa Maria, Paulo de Sorocaba e Pe. Paulo Savelli em 1903 e
1904; Frei Fernando de Seregnano substituiu Frei Daniel em julho de 1905;
Freis Fernando, Paulo e Camilo de Valda em 1906; Freis Camilo e Fernando
em 1907, tendo chegado Frei Francisco de Terragnuolo no mês de março.
No arquivo da Província há muitas fotos documentando a Catequese,
como também um longo relatório traduzido em italiano e publicado na
revista missionária “Il Massaia”, Ano I, nº1 (1914), às páginas: 42, 70, 107,
173, 202, 234 e 165. Nestas publicações se descreve a vida e os costumes
dos Kayngang. O autor é Frei Benjamin Santin de Prada. Também a revista
“Anthropos”, I, trás um relatório à página 35.

Em Conceição do Monte Alegre

Saindo de Campos Novos, os Capuchinhos aceitaram a imensa


paróquia de Conceição do Monte Alegre que era boca de sertão bravio. A
intenção dos frades era a de manter aberta a possibilidade de renovar as
iniciativas catequéticas com os índios, caso eles se aproximassem. Por isso,
em março de 1907, com provisão do sr. Arcebispo de São Paulo, tomaram
posse da paróquia Frei Camilo de Valda, Frei Fernando de Seregnano e Frei
Francisco de Terragnuolo. Ali trabalharam sucessivamente freis Mansueto
de Valfloriana, Vito de Martignano, Manoel de Seregnano, Daniel de Santa
Maria e Felicíssimo de Prada. Trabalharam também ali, temporariamente,
Frei Leonardo de Campinas e Frei Gregório de Rumo. Os frutos colhidos
foram consoladores.
O trabalho missionário comprovou a palavra de Jesus, quando disse que às
vezes no meio do trigo bom está também a cizânia. Anticlericais residentes
na cidadezinha, em várias ocasiões promoveram distúrbios contra os
missionários. Durante a Primeira Grande Guerra de 1914 a 1918, começaram
a pintar os missionários como alemães, inimigos do Brasil, espiões etc.. A
situação se agravou quando em 1918 o Brasil entrou na guerra do lado das
potências ocidentais. Foram ameaçados de expulsão da paróquia e antes que
acontecessem males maiores, “de acordo com os Superiores, sacudiram o pó
das sandálias e deixaram para sempre esse campo que tinham cultivado com
tanto amor”.
Com a saída dos missionários, o comércio, já florescente, arrefeceu; o
movimento diminuiu, os negociantes se revoltaram contra os que
promoveram a saída dos frades. Vendo-se em apuros com a população
revoltada, os anticlericais foram ter com o Bispo de Botucatu solicitando-lhe
um vigário brasileiro. Ciente já do que havia ocorrido, Dom Lúcio “passou-
lhes uma severa repreensão, mostrando-lhes a indignidade do ato
inconsiderado de tocar seus sacerdotes como se fossem facínoras”. Ficariam
bom tempo sem vigário, disse o bispo, para que aprendessem a respeitar seus
sacerdotes.
A mesma comissão que fora ter com o bispo dirigiu-se aos superiores
dos Capuchinhos em São Paulo, apresentando mil desculpas pelo ato
inconsiderado e solicitando que enviassem um padre para a cidade. Eles
negaram terminantemente.
Tempos depois, o bispo enviou-lhe um padre, mas com a proibição de
atender na matriz; deveria atender numa capela da cidade. Outros vigários
passaram por Conceição, “mas nenhum ali parou”, pois a paróquia tornou-
se “pouco rendosa”, sem movimento. Estabeleceu-se também uma
desavença com a direção da Estrada de Ferro Sorocabana que acabou por
deslocar seus trilhos para a vizinha Paraguaçu, deixando o traçado primitivo
que deveria passar por Conceição. A própria sede paroquial passou para
outra cidade, o que foi num forte golpe para o progresso da localidade.
Os missionários, tendo residência em Conceição do Monte Alegre,
atenderam nesse período uma vasta região com muitas cidades e vilas
nascentes: Platina, Assis, Bastos, Café (Marília), São Pedro do Turvo, São
Mateus, Roseta, Dourados, Lagoa, Três Barras, São Bartolomeu, Antas,
Barreiro, Fartura, Palmital, e outros locais.