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FORMAÇÃO BÍBLICA

1. O QUE É E O QUE NÃO É A BÍBLIA

1.1. O que a Bíblia é:

* A palavra “bíblia” vem do grego “biblía”, forma plural de “biblíon” (=livro, livrinho), significando, portanto “livros”. A Bíblia é, pois, um conjunto de livros, uma verdadeira “biblioteca”. Essa biblioteca divide-se em duas grandes “salas”: Antigo Testamento (46 livros) e Novo Testamento (27 livros).

* É um conjunto de livros heterogêneos, escritos ao longo de muitos séculos. Os livros do Antigo

Testamento foram quase todos escritos em hebraico (algumas partes pequenas em aramaico), somente alguns foram escritos em grego (Tobias, Judite, Baruc, Sabedoria, Eclesiástico, 1 o e 2 o Macabeus).

* É o conjunto dos livros sagrados de judeus, de cristãos, com influências também no islamismo e

em outras religiões (mórmons, espíritas, baha’i, etc.). Os judeus da Palestina não aceitaram esses livros que os judeus de Alexandria (que falavam grego) mantiveram na sua coleção de livros sagrados. As primeiras comunidades cristãs, que também na sua maioria falavam grego, usaram, porém, a coleção de livros de Alexandria. Em geral, as edições protestantes da Bíblia (a partir do séc. XIV) não apresentam aqueles sete livros porque aceitam somente os que foram escritos em hebraico. Já o Novo Testamento foi todo escrito em grego e é igual tanto para católicos quanto para protestantes.

* A Bíblia foi o primeiro livro impresso. Foi traduzido ao maior número de línguas e que teve até hoje o maior número de edições.

* É livro que mais influenciou a cultura dita “ocidental” e de boa parte da cultura do Oriente

Próximo: pensamento, história, arte, instituições, literatura, direito, formação das línguas

1.2. O que a Bíblia NÃO é:

* A biografia (com o sentido atual do termo) dos personagens históricos mais importantes do povo

de Israel e dos cristãos (oferece-nos, porém, dados dos personagens que são cruciais para a fé cristã

e judaica e que somente podemos encontrar em suas páginas).

* Um livro científico que explica as teorias da origem do mundo, das instituições sociais (oferece- nos, porém, a visão do cosmo e do ser humano que as pessoas que a escreveram tinham)

* Um livro de história tal como nós entendemos história atualmente (dá-nos, porém, a conhecer, em

modos e óticas próprios, acontecimentos da história de Israel, de Jesus e da Igreja que, em muitos

casos, somente podemos conhecer através dela).

* Um livro de profecias sobre o futuro (faz-nos, porém, compreender qual o fim [finalidade, meta] da criação, da história, da humanidade).

2.

QUANDO e POR QUEM foi escrita a Bíblia?

A Bíblia foi escrita por muitas pessoas ao longo de muitos anos. As histórias, experiências, provérbios, canções, “causos”, orações, foram primeiro transmitidas de boca em boca, de geração em geração e somente uns mil anos antes de Cristo começaram a ser escritas. Mas o processo de escrever e reunir os escritos só terminou uns 100 anos depois de Cristo. Um dos primeiros livros a chegar à forma final como o temos hoje foi o do profeta Amós (800 a.C.). O livro mais “novo” do AT é o da Sabedoria (70 a.C.). Já no NT, os primeiros escritos são as cartas de Paulo (1 a carta aos Tessalonicenses, do ano 50 d.C.). O último a ser escrito e reunido à “biblioteca” foi o Apocalipse (95 d.C.). Entre os 4 evangelhos, o mais antigo é o de Marcos, e o último a ser escrito foi o de João.

3. Qual o ASSUNTO da Bíblia?

As pessoas que escreveram os vários livros da Bíblia estavam preocupadas em registrar e conservar as experiências que o povo vinha fazendo ao longo da sua história de encontro com Deus:

como Deus se fazia presente a eles, como Ele ia conduzindo, ensinando, perdoando, educando o povo, e ao fazer isso, ia Se revelando ao povo e dizendo-lhe quem eles na verdade eram e o que Ele queria com eles. Essas experiências de Deus que o povo foi escrevendo e formam o AT foram a base e a orientação para que Jesus compreendesse e vivesse sua vida e missão. O modo como Jesus entendeu e viveu as Escrituras de seu povo tornou-se, por sua vez, numa nova experiência de Deus para os que com ele conviveram, e assim também eles começaram escrever a respeito disso, e desse modo foi surgindo o Novo Testamento.

4. A Bíblia pode ter ERROS ?!?

Como qualquer texto escrito por mãos humanas, também os textos da Bíblia têm que ser interpretados, especialmente porque sendo textos muito antigos, muitas vezes apresentam realidades

e modos de pensar muito diferentes dos nossos. Por isso, uma compreensão dos textos ao pé da

letra, sem a interpretação adequada, pode levar a conclusões totalmente contrárias à verdadeira mensagem do texto (por exemplo: Sl 137, 8-9; Mt 5,29-30; Mc 16,17-18). Também não podemos escquecer que dados históricos e descrições do mundo como encontramos nos textos da Bíblia são baseados nos conhecimentos e na cultura daqueles tempos, quando ainda não se conhecia muita coisa que hoje, através da ciência, se conhece. Nesse sentido, podem existir erros na Bíblia, e de fato existem (por exemplo, dizer que o Sol gira ao redor da Terra, ou que o morcego é uma ave). Contudo, o mais importante nessa questão é ter bem claro que a Bíblia não está interessada

em nos dar aulas de história, geografia, biologia, astronomia ou qualquer outra ciência. A Bíblia é, antes de mais nada, Palavra de um Deus que quer comunicar-se conosco, que nos quer dizer quem Ele é, quem nós somos e qual o Seu projeto para a humanidade. É nesse sentido que devemos procurar a verdade na Bíblia: a verdade bíblica não é científica, mas SALVÍFICA; é uma verdade interessada na nossa salvação, em levar-nos à comunhão entre nós e com nosso Criador. Por exemplo, podemos tomar o início do livro do Gênesis (Gn 1,1-31). Nesse texto encontramos uma espécie de poema que apresenta como Deus foi criando tudo. Esse texto é cheio de imagens que vão sendo apresentadas pouco a pouco, de modo harmonioso, equilibrado, bonito. Contudo, pela ciência nós sabemos que as coisas não aconteceram bem assim como está descrito ali. Quem, então, tem razão? A Bíblia? A ciência?? No sentido científico, a ciência tem razão, mas no sentido da fé, o que a Bíblia quer dizer é que o Autor do mundo, em primeira e última instância,

é de fato Deus, não sendo assim tão importante como tudo o que vemos e conhecemos na criação

foi chegando aonde chegou. Ainda mais, o relato do Gênesis quer principalmente afirmar que tudo

o que Deus fez é bom (vv. 4.10.12.18.21.25.31), especialmente o ser humano, do qual se diz que foi criado à imagem e semelhança de Deus, no 6 o dia, quando Deus viu que tudo era muito bom !!

5. DEUS E A RELAÇÃO DE AMOR QUE ESTABELECE COM SEU POVO

O protagonista da Bíblia é Deus, um Deus que se revela gratuitamente aos seres humanos na história, que oferece gratuitamente uma palavra de amor para estabelecer com o povo um diálogo de amizade e compromisso. Na Bíblia encontramos essa palavra de Deus, enraizada em uma história concreta e transmitida por pessoas diferentes, de diferentes tempos e culturas, em diferentes línguas, através de gêneros literários distintos. Encontramos na Bíblia, profundamente unidas, a mensagem de Deus e a mensagem humana: a experiência de encarnação na relação. Por isso podemos encontrar-nos com Deus através dessa Palavra. Ao mesmo tempo em que podemos encontrar-nos com homens e mulheres que percorreram essa história de relação, que são os personagens principais dos escritos cuja experiência interpela nossa vida, nossa experiência e nos convida a adentrar no caminho da relação com Deus. Para compreender a mensagem de um texto bíblico, é necessário conhecer algo da história que o texto narra, mas também a história que o povo está vivendo no momento em que o texto foi escrito (pois nem sempre esses dois momentos coincidem: há textos escritos em um momento X que tratam de acontecimentos bem mais antigos).

6. A BÍBLIA É LITERATURA SAGRADA:

6.1. Tradições orais: “a ‘Bíblia’ antes da Bíblia”:

Ao longo de muitos séculos, as tradições de Israel foram passadas de geração em geração, de pais para filhos, de forma oral. Às vezes eram tradições próprias da história do Povo, às vezes eram tradições tomadas das culturas dos povos vizinhos. Mesmo depois que algumas culturas passaram a criar modos de registrar informações por escrito (na Mesopotâmia e no Egito, por volta de 3.000 a.C.), a escrita e a leitura eram reservadas a pouquíssimas pessoas. Também os materiais utilizados para os registros escritos eram de difícil manuseio (lajes de pedra, plaquinhas de barro) ou de produção dispendiosa (folhas de papiro, pergaminhos).

6.2. Tradições são postas por escrito: começa a nascer a Bíblia

Contudo, a partir do período da Monarquia e principalmente na época ao redor do Exílio (período de crise e de risco de perda dos dados culturais) as tradições de Israel, começaram a ser reunidas por escrito. Esses escritos são atribuídos, em muitos casos, a um personagem famoso (esse fenômeno chama-se “pseudepigrafia”), com a intenção de dar-lhes maior crédito e autoridade. Esses textos foram escritos em gêneros literários diferentes. Um gênero literário é uma espécie de “formato” de texto mais ou menos estabelecido que se usa para discorrer sobre determinado assunto.

6.3. Alguns dos gêneros literários na Bíblia:

Histórias dos antepassados: apresentam a identidade do povo (histórias dos patriarcas Abraão, Isaque, Jacó, José) História do Povo: recorda as etapas importantes da caminhada do povo com Deus (Êxodo, Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis. Atos dos Apóstolos). Genealogias: para que o povo se reconheça nos antepassados comuns (Ex 6,14-27; Mt 1,1-17).

Mitológico:

grandes

narrações

que,

usando

linguagem

mitológica,

querem

responder

às

Sapiencial: reúne em fórmulas breves a “sabedoria popular” que se formou a partir da experiência humana acumulada ao longo dos tempos (Pr, Sb, Eclo). Profético: textos nos quais alguém fala em nome de Deus procurando re-orientar a conduta do Povo / Rei, denunciando os devios, injustiças, infidelidades e apontando/recordando a vontade de Deus. A História é interpretada do ponto de vista de Deus, apresentando o que Ele espera como resposta de Seu povo (Os, Am, Mq, Is, Jr, Ml, Jl) Epistolar: cartas escritas a comunidades e/ou indivíduos com a intenção de ensinar, admoestar, animar, corrigir (Cartas de Paulo, de João). Apocalíptico: textos nascidos em período de opressão, com objetivo de animar o Povo à resistência e à perseverança em meio a situações de grande adversidade (Dn, Ap). Poemas: expressam sentimentos, vivências internas, amor e dor, a experiência com Deus (Cântico dos Cânticos, Salmos) Legislativo: apresentam o modo como o Povo de Deus foi organizando sua vida como resposta ao reconhecimento da presença e ação de Deus em seu meio (Dez Mandamentos, Lv, Dt). Histórias edificantes: exemplos de como viver a fé de modo verdadeiro (Tobias, Ester, Judite). Orações: o povo se dirige a Deus nas diversas situações da vida (Salmos, Pai-nosso de Mt e Lc). Evangelhos: tratam da vida de Jesus, suas palavras e gestos, para apresentá-lo como o Salvador (Mateu, Marcos, Lucas e João).

7. A HISTÓRIA NARRADA PELA BÍBLIA: A RELAÇÃO ENTRE DEUS E A HUMANIDADE.

Através de várias etapas, vai-se lendo na Bíblia, como se estabeleceu, evoluiu, regrediu, a história da relação entre Deus e o Povo/humanidade. Descobre-se um Deus pessoal, que busca o ser humano, que o chama pelo nome, que o ama, que se ocupa e preocupa com ele, que se vai revelando ao ser humano e, ao mesmo tempo, revela ao ser humano quem este é.

7.1. Como a Bíblia vê a humanidade:

As primeiras páginas da Bíblia não querem ensinar a história científica das origens humanas,

mas esboçam na figura dos ancestrais, em uma narrativa didática, uma imagem da humanidade: o

primeiro casal humano foi criado por Deus por graça e bondade para viver em um mundo belo e bom. O homem chamava-se Adão (de ’adamá = terra) e a mulher, Eva (de hawá = viver). A

narrativa ensina que o ser humano foi criado bom e capaz de fazer o bem, mas ensina também que desde o início ele é espreitado pelo pecado: a recusa de fazer aquilo para que foi criado por Deus. Isso é simbolizado na história do fruto proibido. Deus deu aos primeiro humanos todos os frutos do jardim, inclusive os da árvore da vida, mas lhes proibiu comer os da “árvore do juízo sobre o que é bom e o que é mau”. O ser humano, seduzido pelo orgulho, quer igualar-se a Deus:

essa é a origem de todo pecado.

A Bíblia não esconde a realidade do pecado. Reconhece-o, mas exorta a procurar

reconciliação. Todos nós estamos no pecado, e o pecado está em todos nós. Os descendentes de Adão pecaram e perceberam um sinal disso nas grandes catástrofes, como o dilúvio. Conforme a antiga narração, apenas Noé com sua família escapou. Deus concluiu uma aliança com Noé (arco- íris) para que a humanidade tivesse um novo começo.

7.2. Patriarcas

Os autores bíblicos descrevem a humanidade como formada pelos descendentes dos filhos

de Noé: Sem, Cam e Jafé. Dos filhos de Sem, os semitas, nascerá Abraão, um nômade que percorreu a região da Babilônia e da Síria para se estabelecer em Canaã (futura Israel). Deus fez aliança com Abraão prometendo-lhe descendência e terra. Isaac, filho de Abraão, herdou a promessa feita a seu pai, e teve, por sua vez, um filho: Jacó (que depois será chamado Israel). Os

doze filhos de Jacó, depois de muitas peripécias (história de José) acabam estabelecendo-se no Egito.

* O Deus dos Patriarcas:

Um Deus pessoal: “Deus de Abraão, o Deus de Isaac, o Deus de Jacó” (Ex 3,15)

Um Deus que abençoa o ser humano (Gn 12,2) e que se preocupa com a sua felicidade.

Um Deus que busca a relação com as pessoas em um compromisso que é uma aliança gratuita (Gn 15), na liberdade: essa aliança pode ser acolhida ou rejeitada pelas pessoas.

Um Deus que é ao mesmo tempo próximo, mas que também está além de nós (Gn 18,16ss).

Um Deus que pede obediência livre para o bem do ser humano e que não quer a morte, mas sim a vida das pessoas (Gn 22,12ss).

7.3. O Êxodo:

Depois de certo tempo, a situação dos descendentes de Jacó no Egito muda: passam a ser esscravizados, e tem sua sobrevivência ameaçada. Deus comove-se e se envolve na história do Povo (Ex 3,7-10): chama Moisés e lhe dá a missão de libertar o povo da escravidão, e lhe revela seu Nome. YHWH não lhes impõe a liberdade:

oferece um pacto gratuito para que os que tinham sido escravos possam constituir um Povo e lhes oferece uma Orientação de Vida (Lei) para que possam continuar vivendo em liberdade. Isso se deu no deserto do Sinai: lá Moisés convida o povo à aliança com YHWH, tendo como termos de compromisso a Lei revelada a ele e posta por escrito nas tábuas de pedra.

7.4. A Terra Prometida:

Depois do encontro com Deus, de saber-se amado e libertado gratuitamente, de ter feito uma aliança com ele, Israel, com a ajuda de YHWH, instala-se na Terra que lhe tinha sido prometida (Js). Organizados inicialmente nas 12 tribos dos 12 filhos de Jacó, vão deixando a vida nômade, se sedentarizam e aos poucos percebendo a necessidade de um novo modo de organização (juízes, cf. Jz 2,16ss). Com o passar do tempo, temendo a ameaça constante dos povos vizinhos, mais fortes e mais organizados, chegam à idéia de que é preciso ter um rei (1Sm 8).

7.5. A Monarquia:

O Povo permanece unido sob o governo de três reis: Saul, Davi e Salomão. Surge a questão do domínio, a luta pelo poder, a injustiça, as taxas e impostos. Nesse período é construído o 1 o Templo em Jerusalém. O culto de certa forma serve para tranqüilizar as consciências. Os profetas vão se insurgir contra a situação contrária ao que Deus revelara. Sua atividade vai desde a instalação da monarquia até o período pós-exílico. As principais critícas dos profetas são contra um culto vazio, que não expressa conversão do coração e contra uma ordem social que, contrariando os interesses de YHWH, não respeita os que sofrem, os mais fracos. Após a morte de Salomão, o Povo se divide em dois reinos: o do Norte (Israel), com capital em Samaria, e o do Sul (Judá), com capital em Jerusalém. Inicia-se um período de instabilidade política e social. Em 722 a.C. o Reino do Norte é destruído pelos assírios. O do sul durará até 586 a.C., quando, por sua vez, será também destruído pelos babilônios.

7.6. O Exílio

A elite cultural, religiosa e política do Reino do Sul é deportada para Babilônia, onde permanece por aproximadamente 50 anos. No exílio, surge uma nova experiência de Deus: não mais aquela do Deus libertador, mas a do Deus criador de tudo e de todos, mesmo dos outros povos.

Nele está a origem de tudo, é Ele quem sustenta e dá vida a tudo. Na situação de exílio, Israel tem que reforçar a sua identidade como povo em meio a outros povos mais evoluídos e poderosos, bem como sua relação com Deus, o qual não está mais vinculado a um lugar, templo ou cidade, mas é o Senhor do Universo. Desse período são os textos do livro do Gênesis que apresentam a imagem de um Deus que cria por amor, e não por necessidade, e que ama suas criaturas e se compromete com elas. As criaturas são obras boas de Deus, que é bom. Tudo tem sua origem em um único Deus. Tendo Ciro, rei da Pérsia, vencido os babilônios, os exilados recebem permissão para voltar

à Terra. Nesse período, os judeus começam a recolher e a pôr por escrito muitas das tradições com as quais se identificavam: é o início das Escrituras.

7.7. Depois do Exílio

Mesmo tendo voltado à Terra e reconstruído Jerusalém e o Templo, o Povo de Israel não terá mais autonomia política. Permaneceram sob tutela persa até que Alexandre Magno conquistou

a Palestina em 330 a.C. Inicia-se o processo de helenização da região. Somente por volta de 165,

com os Macabeus, rebelados contra a imposição da cultura helenista, Israel conheceu novamente um breve período de autonomia política, o qual termina com a chegada dos romanos em 63 a.C. Nesse período é muito rica a literatura sapiencial, a qual recolhe a sabedoria do povo, bem como reflexões sobre a vida humana e seus paradoxos (sofrimento do justo e prosperidade dos maus, vida e morte, a caducidade da criação). Florece também a literatura de tipo apocalíptico, querendo animar o Povo na espera de tempos melhores.

8. JESUS REVELA O VERDADEIRO ROSTO DE DEUS E O VERDADEIRO ROSTO DO SER HUMANO.

Nesse contexto de esperança, Deus, que de muitas formas falara aos seres humanos, envia seu Filho (Hb 1,1). Essa experiência com Jesus será registrada nos Evangelhos. Durante a vida de Jesus, seus discípulos foram cultivando tradições sobre o que ele tinha dito e feito. Depois da Páscoa, essas tradições serão reinterpretadas: descobre-se um sentido ainda mais profundo para elas: interessa agora a fidadelidade a Jesus e a importância de tudo o que tinham vivido com ele. Os evangelhos recolhem essas tradições, selecionam, sintetizam, reformulam e adaptam à realidade das comunidades nascentes. As narrações nos evangelhos são, portanto, narrações teológicas. Estamos acostumados a ler os evangelhos de forma fragmentada, seguindo o ritmo da liturgia. Mas isso não nos ajuda muito a ver que os evangelhos são textos eminentemente narrativos, que têm, cada um, um fio condutor, com coordenadas, personagens, estruturas com as quais seus autores querem apresentar uma imagem de Jesus, de sua vida e de seu ensinamento. Os evangelhos são narrações, mas não são biografias. São antes confissões de fé que querem revelar-nos como na vida de Jesus fez-se presente a ação de Deus e o cumprimento das promessas do Antigo Testamento. Os evangelhos são quatro!! A Boa Nova é uma só, mas apresentada em quatro versões diferentes, cada uma elaborada em um contexto e com um objetivo diferente. Para os primeiros cristãos, a fidelidade a Jesus não consistiu em transmitir com exatidão suas palavras, como se tivesem sido gravadas. A fidelidade tinha sim a ver com a vinculação ao próprio Jesus e com o significado que sua pessoa, sua vida, suas palavras e obras tinha para a comunidade concreta que queria segui-lo em circunstâncias e ambientes culturais diferentes daqueles em que ele viveu.

8.1. Marcos

- Títulos: Filho do Homem e Filho de Deus (cf Mc 1,1).

- Segredo messiânico: Jesus não quer ser confundido com o Messias segundo o modelo que o povo esperava (1,25.34.44.45; 3,12; 5,43; 733.36;8,23.26.30; 9,2.9).

-

Jesus não é compreendido pelos seus próprios discípulos (6,52; 8,17.21).

- Jesus não é um “homem-deus” (helenismo), mas o Filho de Deus que só pode ser

reconhecido a partir da sua morte na cruz e na sua obediência no sofrimento (14,61;15,39). Somente depois da paixão e ressurreição é que se pode anunciar abertamente a dignidade de Cristo.

8.2. Mateus

- Apresenta a imagem eclesial de Cristo na discussão com o judaísmo.

- Jesus é o messias davídico prometido nas Escrituras, é o verdadeiro rei de Israel.

- Jesus ensina com autoridade (“Eu, porém, vos digo inclusive maior do que a da Lei de Moisés.

- Jesus é a “Torá (Lei) encarnada”

”,

cf. o Sermão da Montanha, Mt 5),

8.3. Lucas

- Jesus é o centro da história da salvação: o seu tempo é o tempo da salvação.

- Jesus une o tempo dos profetas (João Batista) com o da Igreja.

- Em Jesus o tempo chega à plenitude, as promessas se cumprem, o verdadeiro Israel (Simeão, Ana) o acolhe.

- Jesus é pobre e se volta aos pobres (infância).

8.4. João

- Jesus existe desde sempre como Verbo do Pai (cf. o Prólogo)

- “Eu sou

- Mesmo na paixão, Jesus controla a situação (Jo 18): Ele é o Senhor

”:

8,12;10,7.11;11,25;14,6;15,1.5): a caráter divino da pessoa de Jesus.

A história da salvação continua e os seguidores de Jesus vão levando a Boa Notícia a outras

regiões (cf. Atos dos Apóstolos). Por volta de 50 d.C. Paulo já escreve à comunidade de Tessalônica. Em 70 d.C. Jerusalém e o Templo são destruídos. Os cristãos de Jerusalém e da Palestina fogem para outras regiões. O modo de vida dos cristãos entra em conflito com outros grupos do judaísmo. Inicia-se a ruptura entre cristianismo e judaísmo. Também o Império Romano põe-se em atitude hostil com relação aos cristãos e iniciam-se as perseguições (já desde 64 d.C.). O último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, é escrito justamente num período de perseguição e opressão das comunidades.

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COMO LER AS PARÁBOLAS

As parábolas, nos Evangelhos, são comparações que nos fazem perceber melhor o que Jesus quer ensinar. É como os quadrinhos ilustrativos nos livros de hoje. Apresentam uma imagem que tem alguma semelhança com o assunto em pauta. Muitas vezes, as imagens nos fazem ver melhor de que se trata do que as explicações intelectuais. Por isso, o evangelista Marcos conclui sua coleção de parábolas de Jesus com estas palavras: “Jesus lhes anunciava a palavra usando muitas parábolas como estas, de acordo com o que podiam compreender” (Mc 4,33). Captar uma parábola é como “matar uma charada”. É preciso conhecer o espírito em que ela é contada. É preciso pertencer ao círculo dos que podem adivinhar de que se trata. Se você conta uma típica piada de português fora do ambiente brasileiro, ninguém vai saber de que rir. Assim também a parábola: quem está por fora, fica boiando. Isso está também em Marcos (Mc 4,10-12), não para excluir os que não entendem, mas para deixar claro que devem entrar na comunidade para compreenderem. Aliás, a semelhança com a piada vai mais longe: assim como as piadas são contadas em cadeia, muitas vezes as parábolas são transmitidas em conjuntos de duas, três ou mais, uma puxando a outra. Um bom exemplo disso é o capítulo 4 de Marcos: conta a parábola do semeador (Mc 4,1-9), que depois é explicada (Mc 4,13-20), e depois de algumas palavras sobre o ouvir e

transmitir, continua falando da semente (Mc 4,26-29) e do grão de mostarda (Mc 4,30-32): uma corrente de parábolas para pregação no meio dos agricultores

A parábola simples tem três elementos: o assunto (“O Reino de Deus é

”),

a imagem (“

quando alguém lança a semente à terra” - Mc 4,26) e a semelhança entre os dois, o “terceiro termo”, o qual é preciso adivinhar, intuir. Aí está a inteligência (“Quem tem ouvidos de ouvir, ouça!” - Mc 4,9). Qual é a semelhança entre o Reino de Deus e o processo agrícola descrito em Mc 4,26-29

(alguém lança a semente, que cresce por si, enquanto ele vive sem se preocupar com o crescimento, até que o fruto amadurece e se mete a foice para a colheita)? Podem-se levantar até diversos significados, desde que pertençam ao espírito do ensinamento e da comunidade de Jesus. O contador de parábolas é um artista, produz uma “obra aberta”, capaz de diversas interpretações. No caso, a semelhança pode estar no processo discreto do crescimento (como se alguém desafiasse Jesus: “Não estou vendo esse Reino de Deus que tu anuncias”, e Jesus respondesse: “Não é preciso ficar olhando para ver a grama crescer”). Ou pode ser também a confiança do agricultor que cumpre seus afazeres enquanto Deus faz o Reino crescer. Ou pode ser também a frase final, que anuncia a

Talvez Jesus tenha pensado: “Cada

um tome o que lhe serve!” Um exemplo de como se pode ler a mesma parábola sucessivamente com sentidos diversos é Mc 12,1-12: a parábola dos agricultores que matam o filho do dono da vinha (ou pomar) tem duas lições: primeiro, que a vinha passará de Israel para as pessoas dignas (independentemente de que nação sejam); segundo, que Jesus é a pedra rejeitada sobre a qual será construída a novo comunidade. Além das parábolas simples existem as alegorias. Nestas, a comparação não tem um único sentido global, mas os diversos elementos da imagem têm cada qual seu sentido próprio. Assim, em Mc 14,1-9, as diversas eventualidades que ocorrem quando da semeadura representam diversas situações na pregação da palavra, como é explicado em 14,13-20. Alegorias famosas são a da videira em Jo 15,1-8 e a do corpo-comunidade em 1Cor 12,12-30.

foice, a colheita, imagem daquele Dia do Senhor e do Juízo

Pe. Johan Konings SJ

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A LEITURA E A INTERPRETAÇÃO DA BÍBLIA

EISEGESE – EXEGESE – HERMENÊUTICA

I. EISEGESE

“Conduzir, levar para dentro” = processo de entrada no texto bíblico.

1. Ir ao texto carregando a nossa própria vida: minhas perguntas, sonhos, medos, ambigüidades,

interesses, história, corpo, cultura.

2. Ir ao texto carregando a vida dos outros: vai-se à Bíblia com a realidade em que se vive, e não

individual e isoladamente. O ser humano é ser de relação!! A qualidade de nossa vida depende da qualidade das nossas relações (cf. Mt 25,31-46).

3. Ir ao texto buscando luzes: não se vai ao texto bíblico apenas por curiosidade, por falta do que

fazer, buscando um passatempo. Vamos à Bíblia porque percebemos os limites e contradições de nossas opções, nossa vida gera em nós perguntas e desafios que sozinhos não conseguimos responder. Somos seres limitados e contraditórios, precisamos buscar, para nós e para os outros, as razões da nossa fé (cf. 1Pd 3,15).

4.

Ir ao texto sabendo escutar: o encontro com o texto bíblico é uma forma de diálogo, o qual exige

momentos de silêncio atento para ouvir o que o interlocutor tem a dizer. É necessária uma atitude básica de confiança no outro e na sua capacidade de dizer-me algo. Não poucas vezes, porém, queremos que o interlocutor diga aquilo que queremos que ele diga!

5. Ir ao texto abertos à conversão: se vamos à Bíblia somente para justificar as nossas opções, então

não é possível que a Bíblia me interpele, me incomode, me convide a uma outra atitude. Mas para isso é necessário estarmos abertos, com humildade, aos nossos próprios limites, em atitude de abertura e docilidade ao que a Palavra possa querer-nos dizer.

6. Ir ao texto em companhia de alguém: a partilha da leitura com outra pessoa enriquece a

compreensão que se faz do texto. Cada um, trazendo sua história e experiências, falando a partir do seu ponto de vista e da sua situação existencial, dará uma contribuição única e insubstituível. Contudo, diferente não significa contrário! O mesmo texto bíblico pode ter interpretações diferentes, mas não totalmente contrárias, opostas. Se houver esse tipo de incoerência, então se deve investigar o que está acontecendo. O principal companheiro na leitura da Bíblia é o próprio Jesus (cf. Lc 24,27).

7. Ir ao texto com profunda atitude de fé: “Fala, Senhor, que teu servo escuta!” (1Sm 3,10).

Reconhecemos na Bíblia a presença de Deus que fala e chama. É preciso adesão aberta e corajosa,

consciente e humilde, em clima de oração, invocando a presença do Espírito Santo.

II. EXEGESE

“Conduzir, levar para fora”: o processo de descobrir e conduzir para fora a mensagem do texto, buscar o que ele quer dizer, deixar o texto falar por si próprio. Trata-se do momento da escuta, é o momento da contemplação: observar o que se passa no texto. Nas linhas e entrelinhas há vida, pessoas, fatos. Veremos como tudo isso se relaciona, formando um sentido em si mesmo. É uma questão de fidelidade ao texto. Qualquer texto precisa de exegese. Quanto mais distante no tempo e na cultura, mais necessária se faz a exegese para que possamos compreender a mensagem original do texto. É importante entender a língua em que foi escrito, as expressões, as imagens, as referências a pessoas, lugares, acontecimentos. A exegese nos ajuda a permanecer no texto da forma mais fiel possível.

Como fazer exegese bíblica?

1. Familiarizar-se com o texto: lê-lo sem pressa, buscando a visão do conjunto. Saborear imagens,

comparações, notar frases e palavras, verbos, personagens, repetições. Se há palavras difíceis, procurar seu significado. Se há personagens desconhecidos ou referências a acontecimentos, tentar descobrir quem são, o que aconteceu. Conferir as informações em notas-de-rodapé, introduções, mapas, tabelas, etc. (cf. os apêndices me boas edições da Bíblia).

2. Diálogo afetivo com o texto: perguntar-se: Como estou sentido o texto? O que me tocou? Que

reações me provocou? Que perguntas suscitou em mim?

3. Diálogo aprofundado com o texto: trata-se da abordagem mais racional ao texto:

- aproximação crítico-literária: tratar o texto como obra literária: onde o texto começa e

termina? Em que livro ou parte de livro está situado? Quais são as palavras-chave, as figuras-chave

que o dinamizam? Como começou e terminou a cena, o poema, o discurso?

- aproximação crítico-sócio-histórica: situar o texto no seu contexto sócio-histórico: Quais são as pessoas que aparecem no texto? Quem são? Quem representam? Como se relacionam? Que

fato, problema, assunto é tratado? Que realidade social, econômica, cultura, política aparece? Como os personagens se posicionam a respeito do assunto? A que épocas e lugares há referências? - aproximação crítico-teológica: ver o texto como transmissor da Palavra de Deus: Onde está Deus no texto? Do lado de quem está? Que imagem de Deus aparece?

Lembretes sobre a exegese:

1. Todo texto pode carregar em si mais de um sentido.

2. A Bíblia é um conjunto de livros escritos em culturas diferentes.

3. Deve-se ter sempre presente o fio condutor da Bíblia: YHWH (6.000 vezes!!): cf. Ex 3,7-14.

4. Não esquecer os dois eixos da Bíblia: Êxodo (AT) e Jesus Cristo (NT): os dois fatos fundantes.

III. HERMENÊUTICA

Mas a exegese sozinha pode acabar reduzindo o texto bíblico a um livro interessante do passado. Para que a Bíblia seja Palavra de Deus, ela deve ser atualizada e vivida. A própria Bíblia faz questão de afirmar isso: “Tais coisas aconteceram a eles como exemplo, e foram escritas para a nossa instrução” (1Cor 10,11; cf. ainda 2Tm 3,16; Hb 4,12; Lc 11,28). A hermenêutica é, portanto, o trabalho de atualização da Palavra de Deus. Hermenêutica também vem do grego e significa “tradução”, ou seja, conduzir de um ponto ao outro, trasladar do passado vivido por quem escreveu o texto para o presente vivido por nós.

1. Levar em conta a realidade que queremos interpelar: ter os pés no chão, tendo presente de

maneira crítica a realidade que queremos interpelar à luz da mensagem de Deus descoberta no texto lido: Tendo presente o texto, que aspectos da realidade sinto mais necessidade de iluminar e

avaliar? Por que esse aspecto em particular? Como vivo/vivemos esse aspecto?

2. Acolher a Palavra de Deus em atitude de comunhão: a Palavra de Deus revela o mundo de Deus,

que se revela na vida (palavras e ações) de Jesus. Acolher a Palavra de Deus é deixar-se envolver pelo agir de Deus, pelos seus sentimentos. Diz Paulo: “Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Cristo!” (Fl 2,5; cf. também Gl 2,20). A comunhão revoluciona, radicaliza, abre novos caminhos, faz ver a realidade com os olhos de Deus. Que sentimentos, apelos, convites, esse texto suscita em minha vida? Que luzes ele oferece para ler a vida? Como me deixo possuir pelo mundo de Deus que o texto me revela?

3. Atitude de conversão existencial: trata-se da mudança de atitudes, de mentalidade, promovida

pelo contato com a Palavra. É um jeito novo de encarar a vida, as situações cotidianas, as relações

pessoais, sociais, políticas. É um novo modo de situar-se no mundo (cf. a mudança de vida de Zaqueu [Lc 19,1-10], da Samaritana [Jo 4], de Paulo [At 9,1-19]). Entrar no mundo da Bíblia significa deixar-se interpelar, entrar em um processo em que a própria mentalidade acomodada, fechada, auto-suficiente, será abalada. Que mudança de vida a comunhão com o mundo de Deus me pede a partir do texto bíblico? Que novo modo de ver o mundo o texto me oferece? Que apelos a Palavra suscita para a minha vida, para a Igreja, para a sociedade?

4. Atitude de conversão ética: é a busca de nova prática, novo tipo de comportamento, concretizando uma atitude de comunhão e conversão existencial. É a conclusão lógica e necessária do passo anterior, ponto de chegada do processo de leitura bíblica. Contudo, se passamos por cima dos passos anteriores, este último passo pode ficar comprometido. É necessária uma fidelidade à Palavra, mas que seja uma fidelidade criativa na sua concretização, e não uma reprodução simples e “fácil” do texto. Qual a nova prática que a Palavra pede? Que decisões concretas devo tomar? Que passos concretos devo dar? Quando? Como? Com relação a quem?

Lembretes:

1. Toda leitura é já uma interpretação do texto. Todos nós fazemos hermenêutica. A questão é

“como” a fazemos de modo a sermos fiéis ao texto sem literalismo e sem manipulação.

2.

A hermenêutica só existe situada. Nossas situações concretas marcam nossa interpretação. Não

interpretações “quimicamente puras”.

3.

A hermenêutica é marcada pelo nível de consciência crítica, ou seja, da capacidade de perceber

as

situações de maneira lúcida, inteligente, indo às causas e analisando as conseqüências. Para uma

fiel hermenêutica bíblica é preciso ter uma boa consciência crítica da realidade de ontem (texto bíblico) e de hoje. O próprio esforço de interpretação do texto bíblico já ajuda muito para que se vá criando essa consciência.

4. Deve-se ter cuidado com as “colagens”, ou seja, juntar um texto bíblico com alguma realidade de

hoje sem distinções, lendo e interpretando o texto ao pé da letra. Quando se quer fazer o “hoje”

concordar inteiramente com o texto bíblico, se faz leitura fundamentalista: busca-se submeter o hoje

à cultura, costumes dos povos da Bíblia sem que esses passem pelo filtro da exegese, da interpretação. A Bíblia assim se torna uma camisa-de-força.

5. Deve-se cuidar para não fazer uma leitura bíblica somente para justificar nossas posturas de hoje.

Há quem somente aceita na Bíblia aquilo que está de acordo com as suas próprias idéias. Vão a ela somente para justificar o que já decidiram. Caso ela não esteja de acordo, acusam-na de atrasada, desatualizada. Aqui é a Bíblia que é posta em uma camisa-de-força.

6. Deve-se cuidar para não fazer uma interpretação legalista, moralista e idealista da Bíblia. Isso

significa reduzir a Bíblia a um conjunto de normas, leis, idéias. A Bíblia tem textos de caráter legal, mas ela não é um Código Civil, Penal, ou de Direito Canônico!

7. Deve-se cuidar para evitar a leitura imediatista, genérica e voluntarista. O imediatismo revela-se

no querer aplicar o que se lê, sem levar em conta a mudança de situações, as mediações históricas,

os tipos de linguagem. A leitura genérica fica no vago, sem descer ao concreto: “Amai-vos uns aos

outros!” É uma leitura sem “mordência” na realidade concreta da vida. A atualização voluntarista, por sua vez, leva a querer pôr em prática de qualquer jeito o que aparece na Bíblia: “Deus quer isso,

portanto temos que cumpri-lo!!” Deus parece um fiscal, que cobra e oprime.

8. A hermenêutica deve ser eclesial e ecumênica. A Bíblia não é propriedade particular de ninguém, e sim o livro da comunidade de fé, a qual a conserva, transmite, interpreta. A leitura individualista, separada da comunidade, não faz sentido, pois a Bíblia é “livro feito [e, portanto, lido] em mutirão”. Leitura eclesial não significa leitura clerical, hierárquica, eclesiástica, mas sim uma leitura animada pelo Espírito que anima e sustenta a Igreja. E é ecumênica porque é aberta a todos, atenta a todos, em diálogo com todos.

9.

Devemos resgatar e atualizar as utopias que estão na Bíblia. Nela há sonhos, projetos, intuições.

O

fio condutor que a atravessa é um projeto de vida e de liberdade para todos, especialmente para

aqueles que têm sua vida de alguma forma ameaçada. O Deus da vida quer vida e liberdade. Como encarnamos esse desejo de Deus hoje? Não adiante querermos reproduzir concretamente as concretizações históricas desses projetos que a Bíblia apresenta. Temos sim é que aprender com elas para inspirar-nos em nossa ação hoje.

10. A leitura da Bíblia se faz em obediência e liberdade, em fidelidade e criativadade. Fidelidade e obediência ao projeto de Deus e ao Deus do projeto, a Jesus e ao que ele nos revela de Deus, do ser humano e da relação entre ambos. A fidelidade e a obediência se dão na linha da orientação, do rumo, das diretrizes. A liberdade e a criatividade se dão na hora de concretizar essa orientação, esse rumo, essas diretrizes, pois a concretização acontece em situações precisas, históricas, particulares.

PORTANTO:

1) A Bíblia não é farmácia onde se compram remédios para determinada doença. A Bíblia é mais com um raio-x. Revela o estado de saúde e aponta sugestões. A escolha do remédio fica por nossa conta.

2) A Bíblia não traz respostas mágicas para todo tipo de problema. Não diz o que devo fazer concretamente. Aponta caminhos, luzes, linhas de orientação. As concretizações devem ser feitas por nós. 3) A Bíblia é como uma luz que ilumina uma sala. A arrumação da sala é tarefa nossa.

4) A Bíblia não deve justificar e sim interpelar, questionar, converter.

5) A Bíblia aponta caminhos e dá força para a caminhada. Quem deve organizar a caminhada somos nós, a partir das situações concretas de hoje.

6) Nem a Bíblia nem a vida devem ficar debaixo dos braços, ambos os “livros” devem estar abertos. A Bíblia ilumina a vida e a vida ajuda a entender melhor a Bíblia. Não há um sentido único e sim um vaivém entre a Bíblia e a vida. Somos chamados a descobrir a Palavra de Deus que está dentro dos dois livros.

7) É preciso saber resgatar as utopias da Bíblia e vivenciar tudo isso em nosso contidiano, com sabor de alma e corpo, de luta, de esperança e de paz. * Resumido e adaptado de MOSCONI, Luis: Para uma leitura fiel da Bíblia. São Paulo: Loyola, 1996.

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SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS PARA APROFUNDAR A FORMAÇÃO

ALONSO SCHÖKEL, Luis: A palavra inspirada. São Paulo: Loyola, 1992.

ARENHOEVEL, Diego: Assim se formou a Bíblia: para você entender o Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1978.

ARTOLA, Antonio M / SÁNCHEZ CARO, José Manuel: Bíblia e Palavra de Deus. São Paulo:

Ave Maria, 1996 (Col. Introdução ao Estudo da Bíblia, 2).

CHARPENTIER, Etienne: Para ler o Antigo Testamento: orientação inicial para entender o Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1986.

CHARPENTIER, Etienne. Para ler o Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1992.

CONCÍLIO VATICANO II: Constituição Dei Verbum. Petrópolis: Vozes, 2000.

GABEL, J .B. / WHEELER, C. B.: A Bíblia como literatura. São Paulo: Loyola, 1993.

GONZÁLEZ ECHEGARAY, J. et alii: A Bíblia e seu contexto. São Paulo: Ave Maria, 1994. (Col. Introdução ao Estudo da Bíblia, 1).

KONINGS, Johan: A Bíblia nas suas origens e hoje. Petrópolis: Vozes, 1998.

LOHFINK, Gerhard: Agora entendo a Bíblia: para você entender a crítica das formas. São Paulo:

Paulinas, 1978.

MESTERS, Carlos: Por trás das palavras. Petrópolis: Vozes, 1980.

MOSCONI, Luis: Para uma leitura fiel da Bíblia. São Paulo: Loyola, 1996.

NADAL, Milagro: Curso de iniciação ao Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1998.

PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA: A interpretação da Bíblia na Igreja. São Paulo: Paulinas,

1994.

RIDDELL, Mike: A home page de Deus. São Paulo: Loyola, 1999.

TREBOLLE BARRERA, Julio: A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1996.

ALONSO SCHÖKEL, Luis. A palavra inspirada: a Bíblia à luz da ciência da linguagem. São Paulo: Loyola, 1992. (Bíblica Loyola, 9). ARENHOEVEL, Diego. Assim se formou a Bíblia: para você entender o Antigo Testamento. São Paulo:

Paulinas, 1978. ARTOLA, Antonio M.; SÁNCHEZ CARO, José Manuel. Bíblia e Palavra de Deus. São Paulo: Ave Maria, 1996. (Introdução ao Estudo da Bíblia, 2). BERGER, Klaus. As formas literárias do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 2004. (Bíblica Loyola, 23). BORNKAMM, Günther. Bíblia Novo Testamento: introdução aos seus escritos no quadro da história do cristianismo primitivo. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003. CHARPENTIER, Etienne. Para ler o Antigo Testamento: orientação inicial para entender o Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1986. CHARPENTIER, Etienne. Para ler o Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1992. COMISSÃO DE FÉ E CONSTITUIÇÃO (CONSELHO MUNDIAL DE IGREJAS). Um tesouro em vasos de argila: instrumento para uma reflexão ecumênica sobre a hermenêutica. São Paulo: Paulus, 2000. DOCUMENTOS SOBRE A BÍBLIA E SUA INTERPRETAÇÃO (1893-1993), Direção editorial e índice analítico de Paulo Bazaglia. São Paulo: Paulus, 2004. EGGER, Wilhelm. Metodologia do Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1994. (Bíblica Loyola, 12). EQUIPE NACIONAL DA DIMENSÃO BÍBLICO-CATEQUÉTICA, Como nossa Igreja lê a Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1995. FEDERAÇÃO BÍBLICA CATÓLICA, A Palava de Deus: fonte de vida e esperança para o novo milênio:

IV Encontro de Pastoral Bíblica da América Latina e do Caribe. São Paulo: Paulinas, 2000. FITZMYER, Joseph. A Bíblia na Igreja. São Paulo: Loyola, 1997. (Bíblica Loyola, 21). GABEL, J .B.; WHEELER, C. B. A Bíblia como literatura. São Paulo: Loyola, 1993. (Bíblica Loyola, 10). GONZÁLEZ ECHEGARAY, J. et alii. A Bíblia e seu contexto. São Paulo: Ave Maria, 1994. (Introdução ao Estudo da Bíblia, 1).

LOHFINK, Gerhard. Agora entendo a Bíblia: para você entender a crítica das formas. São Paulo: Paulinas,

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MAINVILLE, Odette. A Bíblia à luz da história: guia de exegese histórico-crítica. São Paulo: Paulinas, 1999. (Bíblia e História) MAZAR, Amihai. Arqueologia na terra da Bíblia. São Paulo: Paulinas, 2003. MESTERS, Carlos. Bíblia: livro feito em mutirão. São Paulo: Paulinas, 1982. Por trás das palavras. Petrópolis: Vozes, 1980. MILLER, John. As origens da Bíblia: repensando a história canônica. São Paulo: Loyola, 2004. (Bíblica Loyola, 41). MOSCONI, Luis. Para uma leitura fiel da Bíblia. São Paulo: Loyola, 1996. NADAL, Milagro. Curso de iniciação ao Antigo e Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1998. RIDDELL, Mike. A home page de Deus. São Paulo: Loyola, 1999. RODRIGUES, Maria Paula (org.). Palavra de Deus, palavra da gente: as formas literárias na Bíblia. São Paulo: Paulus, 2004. (A Bíblia e o povo). TREBOLLE BARRERA, Julio. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia. Petrópolis:

Vozes, 1996. WOLFF, Hans Walter, Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo. São Paulo: Teológica; Paulus, 2003.

INTERNET

< www.paulus.com.br/BP/_INDEX.HTM > (Bíblia Pastoral on line)

< www.metodista.br/biblica > (bibliografia bíblica latino-americana)

< www.c-b-f.org > (Federação Bíblica Católica)

< www.associazionebiblica.it > (Associação Bíblica Italiana)

< www.pib.urbe.it > (Pontifício Instituto Bíblico - Roma)

< www.bsw.org/project/biblica > (revista Biblica do PIB)

< www.bibliacatolica.com.br >(versões da bíblia em várias línguas, mapas, dicionário bíblico)

< www.clerus.org/bibliaclerus/index_por.html >(textos latinos e português, Magistério)

< www.abiblia.org > (site organizado por ex-aluno do PIB)

< www.airtonjo.com > (professor de Bíblia em Ribeirão Preto)