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/uai é o sentido, se é que existe

algum, que toma a transformação do


meio ambiente e do próprio homem que
atua sobre este?

Esta questão geralmente leva ao


desencorajamento (quando não ã frus-
tração) de muitos, que acabam envolvi-
dos numa melancolia análoga à de uma
civilização que foi outrora pujante ou
desapareceu.

É este o grande tema que perpassa


esta obra, fruto de aulas ministradas pelo
autor no Instituto Italiano para os Estu-
dos Filosóficos. Seu autor mantém aqui a
forma fluida da fala, privilegiando a
síntese incisiva tão difícil de ser expressa.

As alternâncias históricas entre fases


de inquietação e de serenidade são aqui
trabalhadas buscando-se o fio condutor
que subjaz sobre a realidade móvel na
qual estamos imersos e do qual geral-
mente não estamos conscientes.
Coordenação Geral
- Ir. Elvira Milani

Coordenação' Editorial
Ir. Jacinta Turolo Garcia

Coordenação Executiva
Luzia Bianchi

Comitê Editorial Acadêmici)


Ir. Elvira Milani - Presidente
Glória Maria Palma
It Jacinta Turolo Garcia
José Jobson de Andrade Arruda
Marcos Virmond
Maria Arminda do Nascimento Arruda 5
A história
tem um
sentido?
Remo Boãei

Tradução de
Reginaldo Di Piero

EDÜSC
Edftora da Universidade do Sagrado Coração
EDUSC
Editora da Universidade do Sagrado Coração

B6665h Bodei, Remo.


A história tem um sentido? / Remo Bodei; tradução de
Reginaldo Di Piero.--Bauru, SP: EDUSC, 2001.
128 p . ; 21 c m . - - (Coleção História).

ISBN 85-7460-031-8
Inclui bibliografia.

Tradução de: Se la storia ha un senso.

1. História - Filosofia. I.Título. II. Série.

CDD 901

ISBN 85-7460-031-8

ISBN 88-7186-089-6 (original)

Copyright © Settembre 1997 by Moretti & Vitali Editori


Copyright © de tradução: EDUSC, 2001

Tradução realizada a partir da' edição de 1997


Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa
para o Brasil adquiridoá pela
EDITORA DA UNIVERSIDADE DO SAGRADO CORAÇÃO
Rua Irmã Arminda, 10-50
CEP 17011-160 - Bauru -SP • v
Fone (14) 3235-7111 - Fax (14) 3235-7219
e-rhail:,edusc@edusc.com.br
Aos meus estudantes de Pisa e de Los Angeles.
O presente volume nasce de uma vasta e cuidadosa
reelaboração de aulas ministradas durante o ano de.1994
em Nápoles, no Instituto Italiano para os Estudos Filosóficos,
a quem agradeço. Portanto ele conserva a forma fluida da
linguagem falada, nas suas rápidas, mas incisivas sínteses e
na ausência de referências e notas.
SUMÁRIO

9 PREFÁCIO

CAPÍTULO 1
13 Viagem ao centro da história .

CAPÍTULO 2
17 Modelos

CAPÍTULO 3
55 Crises dasfilosofiasda história

CAPÍTULO 4
61 As tendências atuais

CAPÍTULO 5
71 Existe atualmente uma perda de sentido histórico?

83 BIBLIOGRAFIA

89 APÊNDICE
PREFÁCIO

Cada um de nós, ao nascer, encontra-se no cen-


tro de um mundo já dado, que subsiste mesmo sem a
sua contribuição. Em grande parte ele é o produto de
forças naturais, operando no universo desde tempos
imemoriais; em pequena parte, do homo sapiens, apa-
recido ria Terra há cerca de 170 mil anos. Convencio-
nalmente, entretanto, só a partir de uma-4ezena de
milhares de anos a nossa espécie é vista como capaz
de transformar em profundidade a si mesma e ao am-
biente, quer dizer de fazer história.
É possível entender o sentido de tal fato" no qual
estamos inseridos, mas que nos ultrapassa? Certa-
mente é indispensável termos alguma , idéia, para
orientarmo-nos e agir com maior consciência. Contu-
do, mesmo se voluntariamente limitarmo-nos ao seg-
mento mais curto desta história, como pretender re-
percorrer o entrelaçaVnento das miríades de vidas in-
dividuais ou as inúmeras variedades de façanhas, dos
mitos, dos sentimentos, dos valores e dos conceitos
elaborados pela humanidade no seu percurso? E
como presumir fazê-lo se os nossos critérios de juízo
vacilam, corroídos pelo moderno "niilismo" que os
desvaloriza e os mina no seu absoluto?
Diante de tal tarefa ficamos possuídos por um
desencorajamento análogo à melancolia que vnos do-
mina diante das ruínas de uma civilização que foi flo-
rescente ou do desaparecimento de povos inteiros.
Justamente porque a experiência da perda do passado
e dos pontos de referência de cada u m e a mais co-
m u m entre as experiências universalmente comparti-
lhadas, ela retorna com freqüência em cada literatura.
Para exprimi-la eficientemente, de maneira a entrar
no espírito de determinada historiografia, valem para
todas - graças ao salutar efeito de estranhamento que
deriva da distância geográfica e cronológica - os ver-
sos comoventes do poeta chinês Tsao Chin (192 - 2 3 2
d.C.), filho do imperador Tsao Tsao, quando volta a
visitar a cidade de Lo-Yang, devastada pelos inimigos:

Palácios e casas incinerados.


Muros e cercas arrombados, arruinados:
Silveiras e espinhos sóbem até o céu.
Os antigos anciãos não mais os vejo,
Vejo somente os novos rapazinhos.
[•••]
Penso na casa onde tantos anos vivi;
Tenho o coração apertado e não consigo falar.

Todavia, o desgosto pela caducidade de todas as


coisas não nos deve desencaminhar e nos confundir.
Costuma-se dizer que o tempo passa e morre, esque-
cendo-se de acrescentar que renasce a cada instante,
do mesmo modo é preciso recordar que a história con-
tinua, com fases de inquietação e sofrimento interca-
ladas de fases de serenidade e alegria (na ausência das
quais íiinguém suportaria existir). A estas alternâncias
não devemos opor nem a saudade, nem a indiferença,
nem o desencorajamento, mas a compreensão, mes-
mo que seja fragmentária e falível. !

De resto, não começamos do zero. A nossa força


está ha dedicação mantida e nos resultados obtidos
por filósofos e historiadores em. 8 0 - 1 0 0 gerações (da
Atenas clássica, lugar de nascimento da historiografia
ocidental, até hoje). A isto se acrescenta a considera-
ção que, de um lado, o trabalho de interpretação dos
acontecimentos não é - por sorte - uma tarefa indivi-
dual, e, por outro, que cada interesse ou curiosidade
que nos guia tem por si só um âmbito circunscrito.
Encerrando por isso, na pura esfera do desejo, a aspi-
ração faustiana a dirigir tudo o que os homens prova-
ram ("e, desde quando tive como destino a inteira hu-
manidade / na minha mente acolher os cimos e os
abismos"...), ainda nos resta a tarefa de examinar cri-
ticamente as principais teses enunciadas Sobre o sen-
tido da história e de formular algumas considerações.
As páginas que seguem têm a finalidade, de fa-
zer-nos refletir sobre a realidade móvel na qual esta-
mos imersos e sobre as atitudes que assumimos no seu
confronto. Esta não.é uma tarefa vã, se raciocinarmos
de maneira absurda e se buscarmos imaginar qual se-
ria a nossa atual capacidade de colocarmo-nos no
mundo caso tal trabalho de aprofundamento na histó-
ria não tivesse sido realizado. Mas espero também
uma obra útil, para desencalharmos e distanciarmo-
nos dos preconceitos e das banalidades que rodeiam
muitas vezes os discursos sobre a história, sobre "o fim
da história" ou sobre a "perda do sentido histórico". •
O único esforço requerido ao leitor é a disponi-
bilidade a dar-se conta que o argumento lhe concerne.
capítulo 1

VIAGEM AO CENTRO
DA HISTÓRIA

Hoje são poucos os que crêem, por raciocínio e


não por fé, que a história tenha um sentido. Duvida-
se devido ao declínio das pretensões apresentadas, às
vezes inconscientemente, por aquelas filosofias da his-
tória, que dominavam o nosso panorama mental. A
sua promessa de desvendar o curso dos acontecimen-
tos passados e as metas futuras de fato embateu-se
com o imprevisto e tomou-se vã devido a uma reali-
dade obstinada, indócil aos prognósticos.
As expectativas ide mudança revolucionária, de
progressox)u de catástrofe iminente revelaram-se todas
falazes é a linha que deveria ter ligado os acontecimen-
tos durante uma seqüência orientada foi rompida. Se-
guiu-se uma desilusão amarga, que se transforma em
vontade surda de negar qualquer sentido à história,
apontada enfim ou como um torvelinho caótico de fa-
tos desconexos, uma poeira que ofusca a vista, ou como
um romance, cuja trama poder ser escrita à vontade.
Anteriormente essa vontade aparecera, em vez
disso, como plenamente sensata, pois mostrava confi-
. gurações consolidadas e direções privilegiadas da mar-
cha de acontecimentos pontuais. Estes, mesmo se dis-
tantes no tempo e no espaço, uma vez ligados entre si,
deixavam prever um desígnio ou uma "constelação"
.de sentido, A "história" pressupunha, por conseguin-
te, seqüências objetivas, nexos lógicos internos aos
próprios acontecimentos.
Para compreender melhor a questão definamos
preliminarmente os termos "acontecimento" e "se?
qiiência". Tendo em vista a idéia de acontecimento se-
gundo a fórmula latina clássica do quod cuique evenit
(do "o que acontece com cada um"); deveremos-in-
cluir, junto à noção de que alguma coisa em geral
acontece, também aquela que acontece com alguém.
Em alemão Ereigniss conserva esse traço de pertinên-
cia até mesmo na etimologia: o acontecimento está
em relação não somente com o acontecer, mas tam-
bém com quem faz (eigen) com que aconteça. Na ten-
tativa de atribuir um significado a esta "imensa mixór-
dia que é a história" (Borges), nós distinguimos, por
conseguinte, primeiramente, no interior de um fluxo
contínuo, uma série de acontecimentos extraordinários li-
gados a protagonistas ou co-protagonistas de um epi-
sódio e ordenados segundo critérios determinados de
seleção e de relevância. Ao elaborar estes Significados
que chaijiamos "acontecimentos" ou "personagens"
utilizamos sempre filtros ou redes, que retêm ou omi-
tem alguma coisa. Um primeiro plano se torna de fato
nitidamente perceptível somente sobre um fundo in-
distinto: se alguma coisa tem relevo, é porque uma
outra se achata ou se esbate.
Por conseguinte, nenhum acontecimento é sig-
nificativo em si mesmo, tomado isoladamente, ne-
' nhum tem valor intrínseco: o obtém só' no interior de
um dispositivo, de um contexto de simultaneidade ou,
normalmente, de sucessão. A "seqüência" histórica é,
portanto, a representação de uma cena cujos elemen-
tos encontram' a adequada colocação em relação
àquilo que se julga interessante para um dado propó-
sito. Assim, Max Weber observou como só aparente-
mente os botões da farda trajada pelo rei da Prússia
durante a batalh^ de Sadõwa sejam por eles mesmos
insigriificantes. Entretanto, se à ótica da história mili-
tar substitui-se a da alfaiataria, então os botões do ca-
saco do rei, de fato, parecem até mais importantes do
que se a batalha foi ganha ou perdida. Logo, é o crité-
rio de pertinência escolhido (e a atitude e a hierarquia das
questões relevantes que o guiam) que determina a
significatividade ou não dos fatos e prefigura as suas
"concatenações" recíprocas em forma de configura-
ções ou de séries.

Se for assim, estaremos condenados a oscilar


entre uma falta de sentido do mundo histórico e um
relativismo que subordina tal significado ao arbítrio
dos pontos de vista adòtados cada vez?
O primeiro passo que proponho, para sair deste,
dilema, é colocar entre parênteses, inverter a pergun-
ta mais óbvia. Ao invés de perguntarmo-nos "se a história
tenha ou não um sentido", coloquemos antes de tudo a inter-
rogação: "como chegamos a pensar que a história tenha sen-
tido"? ,
Com esse objetivo comecemos a desagregar a
idéia de história, enquanto narração de acontecimen-
tos, da idéia de um sentido da história, quer dizer dos
modelos empregados para encontrar explicações glo-
bais e coerentes, conscientes de que estes dois planos
freqüentemente se cruzam.
O vocábulo história (estórias, istorie, da raiz in-
doeuropéia *wid-, +weid, "vedere","vér") designa uma
"indagação", em forma de narração, sob fatos que se
presumem ocorridos e que vêm confiados à memória
ou a documentos. Diversamente do que' se poderia
acreditar, estes acontecimentos não pertencem neces-
sariamente ao passado remoto. Pelo contrário, para os
pais fundadores da historiografia ocidental, Heródoto e
Tucídides, os acontecimentos históricos são justamente
aqueles de que somos testemunhas oculares'ou que
são relatados por quem os viu pessoalmente. No mo-
mento em que Tucidides se refere a fatos distantes no
tempo, trata-os no âmbito da "arqueologia". Logo, a
história sé preocupa originalmente em registrar os fa-
tos, para que a sua lembfança não se suprima e não
sejam esquecidas, segundo as palavras de Heródoto, as
grandes "façanhas dos Gregos e dos Bárbaros". Sub-
trair o acontecido no Lethe, ao rio do esquecimento sig-
nifica afirmar a verdade (a - letheia) do acontecido.
A história concerne, j>or hora, seqüências de
acontecimentos relativamente limitados no tempo e
no espaço e interpretados com certeza segundo' crité-
rios específicos, como a inveja dos deuses ou o equilí-
brio das forças entre os Estados. Falta porém a mais
tardia exigência de transformar as histórias no plkral, a
narração de séries de acontecimentos ocorridos para-
lelamente em épocas ou âmbitos geográficos delimita-
dos, errt história no singular, num todo global, para cujo
mar confluem e se decantam as vicissitudes locais ou
as dos indivíduos, famílias e povos. Mas é justamente
o aparecimento de tais Historiografias de grande fôle-
go que assinala a aurora das filosofias da história.
capítulo 2

MODELOS
\

Entretanto, para que surja uma tal historiografia


são necessárias algumas precondições, que se manifes-
tam no século II a C. ao olhar do historiador grego PO-
LÍBIO, que teoriza justamente a convergência das his-
torias particulares numa única "historia universal". Se
bem que a expressão "filosofia da história" tenha sido
inventada muito mais tarde (o termo aparece efetiva-
mente na homônima obra de Voltaire, em 1765), é líci-
ta reconhecer agora pela primeira vez a sua presença.
Segundo Políbio, a história universal tornasse
possível graças ao rápido advento de um único domínio
político do mundo conhecido sob o governo de Roma:
"Anteriormente a estes fatos os acontecimentos das vá-
rias partes do mundo eram, por assim dizer, isolados
uns dos outros, posto que entre eles os fatos eram inde-
pendentes quanto aos planos, as conseqüências, aòs
palcos de atuação". Unicamente por meio desta nova
formação estatal os acontecimentos conspiram agora em di-
reção de um único objetivo: "O caráter peculiar da nossa
obra - acrescenta Políbio - depende daquele que é o
fato mais extraordinário dos nossos tempos: dado que o
destino volveu para uma única direção os aconteci-
mentos de quase toda a terra habitada, e obrigou a to-
dos a se dobrarem para uma única finalidade, é neces-
sário que o historiador recolha para os leitores, numa
visão unitária do conjunto, os vários atos mediante os
quais o acaso levou a cabo as coisas do mundo".
Em Políbio o cânon que ordena os aconteci-
mentos e personagens é, portanto, de natureza políti-
ca-. gira em torno da missão de um império universal ter-
reno que unifica os diversos povos sob uma única civilização.
Mas esta explicação, que dá ao "Acaso" um papel pre-
ponderante não prevalecerá depois na tradição oci-
s dental, que será durante muito tempo hegemonizada

pela perspectiva religiosa cristã, segundo a qual d his-


tória iemseníTdóporque Deus e a Providência dirigem a sua
realização. Tal concepção, delineada por Agostinho e
por Gioachino da Fiore, chega quase ate os nossos
dias. Alcança, todavia os seus últimos momentos de
esplendor entre o final do século XVII e a metade do
'século XVIII, com Bossuet e Lessing. Este último - em
plena idade das Luzes, quando a "mão invisível" da
economia e da história tendem a substituir a interven-
ção divina - ainda dirá que os homens escrevem os
números do seu destino no quadro-negro, mas a
soma, o sentido dos acontecimentos humanos, a efe-
tua sempre Deus.

Foi AGOSTINHO a inaugurar a grande filosofia


da história cristã e fazê-la apoiar-se sobre a idéia que
o seu tema indivisível é a humanidade inteira, o totum
genus humanum, incluindo os povos conhecidos e
aqueles ainda desconhecidos, os antepassados e as fu-
turas gerações, os civilizados e os bárbaros, os livres e
os escravos. Isso também é possível porque, já com
Paulo, o cristianismo suprimiu a contraposição entre
as vicissitudes do "povo eleito" e a história menor das
outras gentes (os pagãos): todos os homens tornaram-
se iguais, pelo menos aos olhos de Deus.
~" Entretanto, Agostinho traça uma linha d e s -
marcação entre os homens, assinalada por "dois amo-
res [que] construíram duas cidades" (amores duo fece-
) '
runt civitates duas). São elas: uma a Cidade do Homem, a
outra a Cidade de Deus: "O amor a si m^smo levado até
o desprezo de Deus constrói a cidade terrena, o amor
a Deus levado até o desprezo de si a.cidade celeste".
Entre as duas, ainda no mundo, situa-se a civi-
tas Dei peregrinam. O que designa esta expressão? O
substantivo civitas, "cidade", é o termo que exprimi-
mos com o mais tardio "Estado" (palavra cunhada em
torno do século XIII) ou comunidade dos cidadãos. O
adjetivo peregrinam, sua qualificação, implica que nós
homens sejamos peregrinos neste mundo. Num duplo
sentido: enquanto "estrangeiros" e enquanto "pere-
grinos", fiéis que se dirigem, por razões de culto, a al-
gum santuário. A definição da civitas Dei peregrinans
apresenta logicamente um paradoxo ou, retoricajnen-
te, um oximoro, dada que reenvia a uma cidade de não
cidadãos, isto é, de todos os que vivem nesse mundo
sem poder enraizar-se. Cidadãos e, e ao mesmo tem-
po, estrangeiros. Pertencem à comunidade dos apátri-
das ou, no máximo, dos "anfíbios", indivíduos que de-
vem ter um pé fora e outro dentro de um- mundo
substancialmente estranho, do qual são hóspedes pro-
visórios.
Na base das nossas mais enraizadas idéias sobíe
a filosofia da história está, justamente, a noção agosü-
niana de peregrinado, de viagem. Forçando de manei-
ra anacrônica os termos, poder-se-ia dizer que 'somos
todos cidadãos e emigrantes da história, habitantes e exi-
lados do tempo. Ou, mais propriamente, que a história
é o nomadismo da humanidade do tempo para o eterno,
onde a Igreja representa a Arca da salvação, dado que
a sua missão consiste no passar a humanidade deste
mundo para outro.
Todavia, não é só a Igreja a guiar os fiéis na ator-
mentada passagem pela vida terrena. Deus mesmo
providenciou diretamente, no transcorrer dos milê-
nios, uma "correta educação do gênero humano" (hu-
manigeneris recta eruditio). Ela ajúda os homens, que se
i movem como autômatos, incapazes de ver as razões do
seu agitar-se e da direção que estão tomando, a entrar
no caminho da salvação. Mas não os força, para não
negar a cada um a disponibilidade ao livre arbítrio.
Tal ensinamento divino se desdobfa na história
em seis etapas, análogas aos seis dias da criação do
mundo. No sétimo dia, aquele em que Deus repousou,
Agostinho imagina o pungente final da história, quan-
do o tempo findará e o eterno ficará só e incontestado *
a sobressair sobre a humanidade redimida ou condena-
da. No momento em que tivermos, como eleitos, a ale-
gria de alcançar o Paraíso, nos tornaremos nós mesmos
esta plenitude, seremos o nosso próprio "domingo da
vida": dies septimus enim nos ipsi erimus. Diversamente,
do que ocorre no percurso da nossa migração terrena -
na qual não conseguimosnos compreender, nos encon-
trar e nos ver de forma transparente - , conseguiremos
então a perfeita cognição da nossa individualidade. O
modelq de Agostinho, no seu abandono da dimensão
política e no prevalecer da visão escatológica, afirma
portanto que cada homem vale enquanto indivíduo particu-
lar,mas inserido no mais vasto processo de aprendiza-
do que acompanha o gênero humano da sua criação ao
sçu desaparecimento.

Progresso (em sentido teológico) e catástrofe K


coincidem no modelo de filosofia da história e da edu-
cação da humanidade elaborado por GIOACCHINO
DA FIORE, monge cisterciense que se tornou abade
de Curazzp, na Calábria, qué viveu entie l 145 e 1202.
Ele distingue não seis, mas três épocas da hu-
manidade. A primeira é a idade do Pai, corresponden-
r

do àquela dos Patriarcas e do Antigo Testamento, do-


minada por "um Deus terrível que se inípõe pelo timor
Domini. Segue depois a idade do Filho, caracterizada
por uma dependência abrandada pelo amor de Cristo,
na qual, entretanto, a fé em Deus contém sempre al-
gum elemento de "chantagem": Deus te ama, mas ai
de ti se não crês (deve-se, obviamente, "crer" sem
"provas".)., A terceira época é a idade do Espírito Santo
ou "Terceiro Reino" (a expressão, retomada por Moel-
lér van der Bruck nos anos vinte do nosso século, re-
tornará de maneira funesta a qualificar o Drittes Reich
nacional socialista). . ^
Para da Fiore, o Terceiro Reino representa a su-
peração, ainda não ocorrida, do Velho e do Novo Testa-
mento, a idade em que os homens sé regenerarão em
direção à liberdade, ao amor e à alegria. Diz da Fiore:
"Os mistérios da página divina indicam-nos três estados
do mundo: o primeiro é aquele no qual estávamos sob
a lei; o segundo, aquele em estanios, sob a graça; o ter-
ceiro, que esperainos esteja próximo,, no qual nos
encontraremos sob uma grqça ainda maior [...]. O pri-
meiro estado foi o conhecimento, o seguido está na
posse da sabedoria, o terceiro na plenitude do intelecto.
O primeiro na servidão servil, o segundo na servidão fi-
lial, o terceiro na liberdade". E, mais adiante: "O pri-
meiro no temor, ó segundo na fé, o terceiro na carida-
de" (em latim caritas significa justamente "amor").
AssiSte-se, portanto, à passagem de um mundo
semelhante a um "vale de lágrimas", a um outro, que
é ao contrário , um vale florido, onde germina vida
nova. Além disso, enquanto uma única figura da trin-
' dade se encarnou literalmente - o Filho, Jesus, que se
fez "verdadeiro Deus e verdadeiro Homem" - a audá-
cia especulativa de da Fiore deixa entender, ainda que
de forma figurada e alegórica, que são todas as três
{"pessoas divinas que "se encarnam": cada uma delas dá
a sua marca edireção ao curso da história. A ida.de do
Pai, baseada na violência e na lei do talião eqüivale a
lógica conflituosa da "servidão-servil". A idade inau-
gurada no mundo pelo advènto de Cristo corresponde
à lógica da "servidão filial", da fé. Enfim, a idade por
vir será governada por uma outra tendência, aquela
cujo símbolo é oL Espírito Santo: não mais Logos de
João que se faz "carne"; mas PneUma, "espírito", Espí-
rito Santo que.possui o dom de unir os homens, de ser
compreendido por cada um na própria língua (man-
zonianamente: " 0 Árabe, o Parta, o Sírio / no seu ser-
mão o ouviu"). Triunia cm da Fiore uma concepção
pentecostaljjajhistória: Q Espírito Santõ7 força efusiva
dè amor, potência celeste e terrena nãó mais julgando
apenas òs méritos ou só a fé dos homens, institui en-
tre eles uma relação de recíproco entendimento.
Tal conclusão pacificada dçi história humana re-
presenta uma crux para os intérpretes e para a teolo-
gia cristã em geral. Surge a objeção espontânea: se por
acaso o mundo se tornar perfeito em si mesmo, que
necessidade ter-se-ia do Paraíso? Com efeito, da Fiore
mantém, entretanto, á idéia do Paraíso e não configu-
ra o Terceiro Reino como um lugar de acabada perfei-
ção. Sem dúvida, para um crente què tenha familiari-
dade com a Escritura, o sentido cristão da histeria é
tendencialmente subvertido por da Fiore. O Apocalipse
de João profetiza, com efeito, uma conclusão trágica
da história humana, marcada a fogo pelo advento dp
Anticristo e por um cataclisma cósmico que destruirá
tudo, no' momento em que, aberto os fatídicos "sete
sigilos", repentinamente o céu se enrodilhará sobre si
mesmo, comò um rolo de pergaminho, fazendo desa-
parecer de uma só vez todas as estrelas e assinalando
assim o fim de todas as eoisas. Resta o fato que da Fío-
re acredita na idéia de um final feliz; da história, com
a vitória da fraternidade e do amor.
Ele introduz, portanto, a idéia de uma lógica in-
terna à história a partir da inteiyen^o.npjmundo de
todas as figuras da I n n d a d c v q u e se encarnam nos
próprios acontecimentos. Na verdade não elabora uma
simples lógica da história, mas sim, uma lógica una e
írina; enquanto os acontecimentos se sucedem segun-
do uma inteligibilidade que muda de período a perío-
do. Cada épóca dá sobre os acontecimentos um senti-
do e uma direção diferentes dos da época precedente,
segundo os princípios que cada unta das três pessoas
divinas irifundiu. Dado que tais princípios estão pre-
sentes em toda a parte, a Providência não está nunca fora
do munda histórico.
0 ^
Mesmo mantendo a transcendência das tres
Pessoas da Trindade com relação ao mundo, da Fiore
favoreceu indiretamente exageros interpretativos do
seu pensamento que prefiguram uma espécie de pan-
teísmo temporal, no qual Deus se manifesta em qualquer lu-
gar não só no espaço da natureza, mas também no tempo do
homem. Sob esse perfil, com a exclusão do elemento
teológico extrínseco, ele abre involuntariamente e ca-
minho para- todas aquelas filosofias da história nas
quais a explicação dos acontecimentos é buscada nos
' acontecimentos mesmos. A sua palavra não ficará ,
inaudível- também para outros, sobretudo no interior
dos movimentos heréticos, quando se desejará insti-
tuir nessa terra o Terceiro Reino. Thomas Münzer e '
os Anabatistas tentarão assim no século XVI impor a
justiça a favor dos pobres e dos oprimidós mediante
uma «santa violência" que transforma este mundo
numa antecipação do Paraíso.
-. No momento em que se enfraquecem, com o
desenvolvimento do pensamento moderno, todas as
explicações teológicas, quais fatores favorecem o sur-
gimento de novas filosofias da história7
Estas não derivam, sem dúvida, somente de pro-
postas projetuais. Amiúde nascem da obscura percep-
ção de ujna perda ou de uma carência de sentido. Pri-
meiramente apresentam-se como tentativas para preen-
cher um vazio,-para substituir as coordenadas oferecidas à
cristandade pelo "Grande Código", pela Bíblia. Represen-
tam antes de tudo, num primeiro momento, quase
um sucedâneo ou uma transcrição alegórica.
São, além do mais, secundadas pela expansão
do horizonte do mundo além da cristandade. Com a
sucessão de descobertas geográficas, começa-se, com
efeito, a se refletir (a partir do final do século XV) so-
^.bre as conseqüências, ipara o^ nosso modo de ser, do
descobrimento de outras Humanidades. Torna-se evidente
; então que não é mais possível pensar numa história
unitária de uma humanidade que teria recebido uma
educação comum por parte do Deus cristão. Procla-
ma-se finalmente, como fez Montaigne, por exemplo,
que se é cristão "porque perrigordinos", isto é graças
ao a*caso que nos fez nascer na França e na região do
Perrigord, ao invés de na China ou na.s Américas. Ou
então se toma t) partido do cardeal Bellarmino, colo-
cando em dúvida o fato que os selvagens, como as
mulheres, tenham uma alma.
Todavia; se por acaso se retenha que esses tam-
bém são homens diferentes de nós só pelas circuns-
tâncias, colocam-se então as premissas piara filosofias
da história diversas daquelas do passado. Já Leibniz,
no momento em que toma conhecimento - mediante
os inúmeros relatos dos Jesuítas - dos esplendores da
civilização chinesa, estabelece um confronto compro-
riietedor, que coloca em questão a própria identidade
européia. A sua pergunta é: por que a China (embora
tenha tido, por um certo período, uma civilização
comparável ou superior àquelas mais avançadas na-
ções eurtípéias) depois tenha se fechado em si mesma
e não tenha nunca sabido desenvolver-se? Contudo os 1
chineses tinham inventado o papel, a imprensa, a pól-
vora pírica para os fogos de artifício, a porcelana e a
laboração da seda. Seja como for, a interrogação, em-
bora faltem respostas definidas, relativiza a centralida-
de da Europa. Começa assim com Lèibniz o grande
confronto filosófico entre civilizações humanas, conduzido
com espírito aberto, que não nega, a humanidades
outras, uma dignidade igual àquela à qual ele mesmo
pertence.
Um ulterior motivo da crise das filosofias da his-
tória de matriz crista é devido ao afirmar-se, publica1
mente, o paradigma cartesiano, e, privativamente, o pensa-
mento libertino.
~~ Descartes destrói o equilíbrio entre autoridade e
verdade, colocan d o no cogito a descoberta de uma evi-
dência e de uma verdade à qual o eu, individualmen-
te, é levado a dar o seu assenso independentemente de
qualquer certificação externa. Existem disciplinas que
podem conseguir um saber sólido, baseado em evidên-
cias primárias, por exemplo, a matemática, a astrono-
mia ou a física. Ao invés disso, outras (como a história,
a política ou, em menor medida, a moral) que, não es-
tando dotadas de pontos de partida evidentes, estão
desprovidas de qualquer verdade. Nestes casos, é ne-
cessário, por falta de melhor opção, adotar os costumes
e modos de pensar que se sugam com o leite da "nu-
triz". A história e as tradições aparecem, por conse-
guinte, essencialmente irracionais. Para Descartes- di-
ferentemente do que pensava Platão - conhecer não é re-
cordar, mas esquecer: pretendendo-se alcançar a evidên-
cia e a verdade, é necessário cancelar tudo quanto nos
foi ensinado, fazer tabula rasa, viver nunl mundo intei-
ramente sem história. A história? Que dela se ocupem os
potentes, os Reis e os Papas. Que todos os outros se li-
mitem a obedecer aos costumes e às leis, ou então se
refugiem em países onde vige uma maior tolerância.
Os libertinos generalizam, em círculos restritos e
com maior energia, a mais cautelosa atitude de Descar-
tes com relação à história. Basta referir-se ao episódio
de Gabriel Naudé, quando em 1631, assiste em Nápo-
les, coincidentemente com a erupção do Vesúvio, a um
espetáculo inusitado: prostitutas que batem no peito e
se fustigam enquanto desfilam em procissão, prome-
tendo entrar para o convento se forem salvas; assassi-
nos que confessam os seus crimes em plena praça pú-
blica. Tais atitudes, observa Naudé, são ditadas pelo
medo e pela superstição. Passado o perigo, os remorsos
e as promessas serão esquecidos e todos voltarao es-
pontaneamente a seguir as suas condutas precedentes.
O olhar desencantado que Naudé projeta sobre estes
casos mostra como e],e está convencido de que os com-
portamentos humanos e a história em geral consti-
tuem um monte de loucuras, a quinta-essência^ da ab-
surdidade. O libertino não tem nenhuma intçnção de
adaptar-se a semelhantes convenções. Mesmo renden-
do a eles um preito formal, mesmo adequando a sua
conduta exterior aos costumes e às leis do lugar, na sua
interioridade e na esfera privada ele se sente justamen-
te "livre" para fazer o que quer. Figuras extremas de li-
bertinos, como Dom João Tenório ou o Marquês de
Sade, personificam nas suas vicissitudes ou nos seus
I romances uma semelhante "heróica " negação da história,
das tradições, das leis e dos seus vínculos.

Devemos a Giovan Battista (Giambattista)


VICO a descoberta que a lógica interna dos acontecimen-
tos não é ditada Somente pela razão, Está em jogo a força
da imaginação, que também obedece a leis, deveras
mais ferrenhas e envolventes que as da razão. Na in-
gens syfva, na qual ele situa as primitivas relações dos
homens entre eles e com a natureza, reina a promis-
cuidade. Não existem casamentos, porque ainda não
ocorreu a escolha ponderada e solene da mulher com
a qual gerar os próprios filhos; Os acasalamentos en-
tre os "homens brutais", são devidos à força ou ao aca-
so; os mortos apodrecem insepultos; ás disputas se re-
solvem com a violência ou com a astúcia.
O período sucessivo - aquele em que, foscolia-
namente, "casamentos, tribunais e raltares / deram às
humanas feras compaixão de si rhesmas e dos outros"
- assinala o nascimento da família monogâmica e da
religião, ou seja, o descolamento da humanidade do
seu estado ferino. Na ingens sylva das origens, com
efeito, os "gentios maiores" (que se dizem capazes de '
interpretar a ordem invisível nos céus contemplados
através das clareiras nós bosques) sentem a exigência
de impor, do alto, a quem vive na anarquia, leis que
reflitam uma ordem igual.
A ordem da sociedade não vem x por. conseguin-
te, introduzida por via racional: trata-se ao contrário de
uma ordo imaginationis. As invenções imaginativas dos
. "gentios maiores" - defendidas por mitos e figuras so-
brenaturais - são destinadas a atingir a fantasia, apelan-
do para o medo e para a esperança, ao raio aniquilador
brandido por Júpiter e aos ritos que propiciam as po- .
tências celestes. As institúições humanas nasíem, por-
tanto, de uma ordem fictícia que gera imediatamente
crenças (ftngunt simul creduntque), estabelecendo leis
para regulamentar, sobretudo os momentos de emer-
gência da vida associativa, que ficariam de outro modo
incompreensíveis: leis sobre como enterrar os cadáve-
res, contrair matrimonio, honrar as divindades. Se a his-
tória tem um sentido, não é porque ela deriva de uma lógica
racional interna aos acontecimentos, mas porque à eles vem
imposta a ordem da imaginação, depois progressivamente es-
tabilizada e "racionalizada " mediante ulteriores mitos, ri-
tos, fórmulas jurídicas e obrigações morais. Outras or-
dens serão,em seguida impressas à história durante as
várias épocas, segundo as fases específicas de desenvol-
vimento. Todavia, não existe para Vico - como é notó-
rio - nenhum progresso retilíneo. Quando uma civiliza-
ção atinge b período da "mentalidade desenvolvida", se
dissolve, e regride à barbárie. A razão enquanto cálculo
(ratio), na sua busca de utilidadfe,-torna-se, com efeito,
tão potente, que nem mesmo dois homens conséguem
mais se entender entre eles. Todos terminam assim por
transformar as cidades em selvas e as selvas em "covis
de homens", os quais regredirão novamente a "homens
bestiais" (assim como Dante, cantor, na Divina Comédia
os representou, na idade da segunda barbárie).

Depois de Vico, as filosofias da história fazem


tentativas para encontrar outros pontos de sentido, rácio-'
nais ou nao, entre os acontecimentos. Tendem, agora,
seja a colocar em discussão as categorias temporais, ela-
borando estratégias de supressão, eliminação da cadu-
cidade, seja a estabelecer uma relação entre a história dos
povos particulares e a da humanidade no seu conjunto. No
esforço de fazer que o passado não passe completa-
mente, estas filosofias se apresentam em seguida, de
um lado, como um refazer-se nos confrontos de um
tempo que transcorre sem deixar traços, de outro,
como processo de auto-educação do próprio gênero humano.
Para enquadrar estes problemas, instituirei um
confronto entre as três maiores tradições do século XVIII em
filosofia da história. A primeira é a escocesa, de cunho
naturalista, que tem - além de Hume - entre os seus
representantes John Miliar e Adarii FERGUSSON. A
segunda é a que se desenvolve na França com Voltai-
re, Turgot e Condorcet. Finalmente a terceira é cons-
tituída pela filosofia da história alemã. Essa se inicia
com Lessing e Herder enquanto teodicéia secularizada
(ou seja, justificação da Providência diante do mal que
se ^ncontra na história), mesmo se depois dela se,se-
para quase inteiramente. Por intermédio de Kant, Hç-
gel e Marx chega de fato a ver nos acontecimentos do
mundo histórico uma série de fatos na qual, muitas
vetes, os homens são os protagonistas mesmo além
das suas intenções: "Fazemfe não sabem", segundo a
expressão de Marx.
Como se reformulam, portanto, nas filosofias da his-
tória do século XVIII, os esquemas temporais? O modelo de
referência mais simples é a imagem do tempo difundi-
da pelo sentido comum desde a Física de Aristóteles e
confirmada de novo por Newton: a de umã linha reta
sobre a qual flui um ponto indivisível, o presente, que,
avançando, "mordisca" o futuro e deixa para trás um
passado irreversível.
Com Miliar e Fergusson este modelo já se torna
complexo, devido também ao efeito das novas desco-
bertas geográficas, que mostram como a história' da
humanidade não procede linearmente, mas sim atra-
vés de tempos múltiplos, diferenciados, cada um típico d'e
um povõ num determinado grau do seu desenvolvimento.
Lafitteau, um jesuíta francês do século XVIII (com pa-'
lavras que ressoarão mais tarde em Alexander von'
Humboldt), estudando n0 Canadá os Iroqueses e ou-
tros "nativos", tinha sustentado que o grau de cultura
destes índios Corresponde ao dos atenienses na época
da florescência da sua civilização: com efeito, sabem
fazer discursos sustentados por uma retórica e por
uma altivez de caráter não inferiores àqueles pronun-
ciados então por Péricles. Assim, com significativa de-
fasagem temporal, os índios da América são conside-
rados como antigos atenienses que vivem no presente
histórico médio da Europa (poder-se-ia acrescentar,
seguindo o mesmo critério, que os ameríndios da
Amazônia são nossos contemporâneos que esta-
cionaram na idade da pedra).
Tal teoria retorna aos filósofos escoceses, que
colocavam os povos ao longo de uma escala ideal da
história, dividindo-os, respectivamente, em "selva-
gens", "Bárbaros" e "civilizados".
Aliás, esses filósofos experimentavam direta-
mente no seu país o contraste entre o segundo e o ter-
ceiro degrau do desenvolvimento. Com efeito, a Escó-
cia era pontilhada, ao longo do seu litoral, de próspe-
ras cidades portuárias, habitadas por mercadores e ar-
madores, nas quais, a "riqueza das nações" se produzia
e: se trocava. Atrás destas regiões "civilizadas" e evoluí-
das, existiam as Terras Altas, Highlands, onde, entre as
colinas recobertas de torgas, erguiam-se as habitações
de pedras e os.castelos dos audazes e ferozes guerreiros
dos clãs, e onde tinham morada aqueles "bardos", cu-
jas lendas estarão na base do proto-romantismo euro-
peu. Os habitantes de Edimburgo e de Glasgow de al-
guns séculos antes se pareciam aos "bárbaros". Isso sig-
nifica que o tempo histórico pode sofrer bruscas acelerações
locais e que a velocidade da mudança se comensura à
estagnação relativa das populações que, embora
também elas passem po^ínudanças, ficam, todavia,
mormente estacionárias com relação às outras. ^
Com relação à imagem da história que se doba
ao longo de um fio unitário, vem, pois, aqui proposto
um modelo complexo de desenvolvimento "por estádios". Ao
mesmo tempo, em que os povos mais evoluídos estão
no último estádio, existem outros que se encontram
ainda no primeiro ou no segundo. Tal esquema en-
contrará em Marx a sua efetivação, com a variante
pela qual o ritmo evolutivo das sociedades humanas
será medido pelo suceder-se dos "modos dte produção"
dominantes. - "" ,T7r
A co-presença de diversos níveis de civilização
no mesmo presente cronológico não podia não atingir
os filósofos e os escritores escoceses, na pátria, ao mes-
mo tempo, da economia política moderna e dos clãs
bárbaros. Daí a tentativa desses autores - e, 51a Fran-
ça, de Montesquieu - de compreender o crescimento
das sociedades humanas seja em relação à geografia e
ao clima, seja com relação àos entrelaçamentos e às
defasagens temporais.
Assim Millar se pergunta: como é possível que
das sociedades primitivas (onde impera a "posição" e
prospera, como diria hoje Louis Dumont, o protótipo
do homo hierarchicus) derivem as sociedades moder-
nas, articuladas segundo relações mercantis de troca,
nas quàis contam o dinheiro ou o saber, ao invés das'
hierarquias baseadas na pressuposta vontade divina
ou no sangue. Como nasce este animal moderho - o
homo aequalis-, que não reconhece nenhuma superio-
ridade intrínseca, natural, a nenhum dos seus seme-_
lhantes? A resposta de Millar é que, inicialmente, as ! ^ ^
sociedades humanas se constituíam de cadeias verti- i r ^
cais de comando e de obediência, mas que depois o f J c

desenvolvimento econômico, político e civil e, A* Kew


particular, as atividades comerciais, corroeram tais re-:
lações de subordinação.
Sobre um outro plano, sempre comparativo, se
coloca a relação instituída por Adam Fergusson, na
História da sociedade civil, entre a espécie humana e os
outros animais. Ele parte da idéia de que os animais,
baseando-se sobre a repetitiva mecanicidade do ins-
tinto, não tenham história (os castores constroem di-
ques tão admiráveis, mas o fazem repetindo os mes-
mos gestos/idênticos há milênios, dos seus aniepassa-
pdos). Ao invés disso, em principio, os homens deve-
' riam construir a sua história por meio da inteligência
! e melhorar a cada geração, inovando e tirando provei -

j to da experiência do passado. Incidentemente: mesmo


ãdmitin3cTque os homens tenham uma vantagem in-
dubitável, os zoólogos não estariam hoje de acordo
em defender que os animais são dotados unicamente
de instintos imutáveis. Pense-se, por exemplo, nas
gaivotas, que sempre foram pássaros marinhos: desde
que o mar ficou poluído e as presas tornaram-se escas-
sas, elas são vistas, desde há alguns decênios, nos cam-
pos, a bicar o grão apenas semeado, ou-a voltear em
torno de montanhas de lixo urbano.
Fergusson introduz, ao pensar a história, o
conceito de "sociedadejçiyir'. Tal conceito nasce com
a polêmica da idéia de "Estado" e de "despotismo es-
clarecido" no século XVIII. Chama a atenção para
aquelas forças pré-pplíticas que têm constituído o
motor da modernização e considera o Estado como
uma espécie de esqueleto que mantém unido o con-
junto do corpo social, sem porém produzir autono-
^mâmente inovação e bem-estar. A sociedade, civil é,
ao contrário, a sede da dimensão privada è individua-
lista, que é premissa indispensável para o nascimento
da economia política e da liberdade dos modernos.
Esta última tem o seu preço na aceitação de um vín :
culo muito mais coercitivo do que aquele político: o
interesse, que, para fazer-me sobreviver, me impele a
trocar o meu trabalho com o dos outros. Com éfeito,
não posso apelar (diria Adam SMITH) à benevolência
do "açougueiro" ou do "cervejeiro" para que satisfa-
\ ' •
çam as minhas necessidades alimentares. Em vez dis-
so falo dos seus interesses, e sÒ assim a sociedade fun-
ciona. Todavia, caso não consiga fazer coincidir, na
esfera do mercado, o meu interesse ou o meu traba-
lho com o interesse ou o trabalho de outros, eu sou,
com certeza, politicamente livre, mas também econo-
micamente livre para morrer de fome.
No horizonte da filosofia da história escocesa, e
da economia política, alça-se agora um novo sol, um
novo fator de explicação paira os acontecimentos.
Abandonado Deus se afirma, com letras claras, que as
sociedades humanas funcionam graças a uma Provi-
dência completamente intrínseca às necessidades e às ações
dós JtQinens: estes, com efeito, enquanto cuidam do
próprio interesse, conseguem milagrosamente - pela
lembrada "mão Invisível" do mercado - satisfazer
também os interesses dos outros. Os acontecimentos
possuém enfim uma lógica interna, obtida pelo pró-
prio agir de milhões e milhões de homens. Logo, a ló-
gica dá história e a lógica do agir humano baseiam-se sobre
um fundamento compartilhado. Cada ação individual as-
sume agora significado somente se inserida em uma
perspectiva de longa duração, na trama das ações re-
cíprocas produzidas, através das gerações, pela vida
em comum dos indivíduos.
Mas o que quer dizer "Interesse"? Sobre este
tema ocorreu uma grande discussão entre os filósofos
escoceses. Envolveu até Adam Smith, autor, além do
livro A Riqueza das nações, também de uma Teoria dos
sentimentos morais. Dois aspectos essenciais da "nature-
za humana" estavam no centro da discussão. O pri*
meiro caracteriza o homem como selfish, egoísta, e* é
este o lado sobre o qual se baseia a economia política
ao fabricar a imagem do homo oèconomicus. O outro as-
pecto o mostra, contrariamente, como altruísta, bené-
volo, e sobre isso se modela o homem enquanto sujei-
to da teoria moral. Porém, economia política e teoria mo-
ral baseiam-se ambas em pressupostos abstratos enquanto os
homens não são exclusivamente egoístas ou exclusivamente
altruístas. São, alternadamente, um e outro. As duas
premissas unilaterais servem unicamente para funda-
mentar os respectivos saberes. A economia política é
um saber que pode tornar-se ciência partindo do pres-
suposto de que, o homem aja sempre perseguindo um
egoísmo racional, maximizando constantemente 'a
utilidade desejada. A teoria moral nasce, 30 contrário,
da premissa não quantificável (e, por conseguinte,
pouco adaptada a produzir uma ciência) na quál pre-
valeça o sentimento- da benevolência, em que os ho-
mens se comportem por assim dizer de maneira ai-
trüística com relação aos seus semelhantes. Todavia,
primeiro Hume e depois Smith, tinham observado que
a linha de demarcação entre as duas principais formas
de condutà humana não passa efetivamente entre
egoísmo e altruísmo, mas por meio daquela categoria
bifronte que é o amor de si. Observa Hume que quem
se sacrifica - no caso da morte na guerra - na realida-
de age também por amor a si mesmo. Com efeito, dul-
ce et decorum est também ao preferir a imagem ríobre e
grandiosa, que tem de si nò lugar daquela mais mes-
quinha e friamente calculadora.
Por conseguinte, mesmo a atitude egoísta não
conflita, para os escoceses, com a estima de si mesmo.
Ambas as atitudes dependem de qual idéia de si for
privilegiada. Se antepusermos a imagem elevada, su-
blime, de nós- mesmos - coisa que acontece mais fre-
quentemente do que se crê - , então produzimos atós
morais. Se, ao contrário, nos regramos mais pelo inte-
resse racional, pelo cálculo, nos qualificamos neste
caso como indivíduos econômicos.
Em toda a filosofia escocesa não existe, aliás,
traços de desprezo moralístico pelo egoísmo. Ele não é
condenado: é um modo de agir dos homens que se
exerce numa esfera subtraída ao juízo moral. Croce
dirá depois que a categoria do "econômico", da "voli-
ção do particular", não pode ser ignorada, já que cons-
titui a indispensável premissa à moralidade enquanto
"volição do universal". Já Shakespeare tinha represen-
tado no Otelo, a partir da matriz comum do amor pró-
prio; dois personagens que tomam atitudes opostas:
Iago e Cássio.. Não é por acaso que os dois são ílorenti-
nos, nascidos na pátria seja da arte co,mo do saber mo-
dernos, seja na de Maquiavel: um ama, por conseguin-
te, as grandezas do sentimento e do intelecto, Desdê-
mona e a matemática; o outro, as baixezas e a intriga.
A segunda tradiçãb teórica que modifica a ima-
gem do tempo histórico é aquela representada na Fran-
ça por Turgot e, sobretudo, por Jean-Antoine-Nicolas
CONDORCET. Condorcet também delineia um desen-
volvimento por estádios, articulando-o, entretanto em
dez épocas da humanidade, cada uma descritível me-
diante um tableau, ou seja, um quadro sinóptico. Ele
julga estar vivendo em um período de transição da
nona à décima época caracterizado pelo que hoje cha-
maremos sociedade de massa. Acabou o tempo em que,
nas guerras, prevalecia a coragem individual na forma
de particular contenda entre cavaleiros vestidos de ar-
maduras caríssimas. Agora, ao contrário, com as armas
de fogo, a guerra tornou-se manobra de massas arma-
das na qúal conta a organização racional (o que deter-
mina, entre outros, o declínio da fidalguia guerreira).
O modelo de inteligibilidade dos acontecimen-
tos oferecido pelo tableau não é mais constitüído por
uma linha reta temporal, mas por uma escadaria, uma
espécie' de teatro do mundo no qual, sobre dTversos
degraus, se desenrolam cenas diversas. O "progresso"
do espírito humano é propriamente caracterizado pelo'
fato de que o que custou uma enorme fadiga às maiores
mentes da humanidade termina por se tornar algo que se
pode facilmente ensinar às crianças, como as tabelas da
aritmética ou o teorema de Pitágoras, ou então aos jo-
vens, como as leis da física newtoniana ou a classifica-
ção botânica de Lineü. A grande idéia que está na base
da concepção da história de Condorcet é que a história
retoma em cada época todos os progressos das fases preceden-
tes, enquanto ela é o resultado da acumulação de.toda
a riqueza do passado.
Ná sua vontade de submeter as relações sociais
e a história ao "suave despotismo da razão", Cqndor- v
cet serviu-se de conjecturas aplicáveis tanto ao passa-
do (sobretudo aquele remoto, que precede ó nasci-
mento da escrita) , quanto ao futuro, à "décima épo-
ca" do desenvolvimento do "espírito humano", aque-
la apenas recém aberta pela RevoluçãQ francesa.
Como eminente estudioso do cálculo das probabilida-
des, hipotizou não só uma linha evolutiva quê - lo pas-
sado conduz ao presente (sob o signo de um progres-
so, primeiro "lentíssimo", como no caso dò nascimen-
to da agricultura, depois sempre mais acelerado), mas
„ elaborou também conjecturas não quiméricas sobre o
futuro, mediante a pròposição hipotética "se... então". Es-
capou assim, seja às tentações proféticas de afirmar
j um avanço automático da história baseado só na fé rto
j "progresso", seja à idéia de uma contingência absolu-
! ta dos acontecimentos.
Para conseguir tal objetivo procurou mostrar
como a espécie humana conseguiu (e possa ulterior-
mente avançar nesta direção) erigir uma barreira ao
"domínio do acaso". O homme raisonnable de Condorçet
pode calcular "os diversos graus dè certeza que espe-
ramos atingir", cotocando-se na confluência de duas
tradições de cálculo das probabilidades que - em tèrmos
modernos - se definem como "objetiva" e "subjetiva".
O primeiro tipo de probabilidade poderia ser
fofmulado (na linguagem de Laplace) como "uma fra-
ção cujo numerador é o número de casos favoráveis e
cujo denominador é o número de todos os casos pos-
síveis". Isto é, estima-se a freqüência de um aconteci-
mento pelos seus possíveis êxitos conhecidos. Toman-'
do um exemplo muito simples: se jogo Um dado de
seis faces um número suficientemente alto de vezes, a
probabilidade que saia o número 2, digamos, é de 1/6.
Diremos então que esta jogada ocorre em condições
de "risco", enquanto o número de êxitos possíveis
(ou, na linguagem atual, de òutputs) é conhecido. Se,
ao invés, se considera uma ação qualquer cujos efei-
tos são ainda indeterminados e imprevistos (uma rea-
ção química entre substâncias nunca antes experi-
mentadas em combinação ou o sucesso do lançamen-
to de um novo produto no mercado), tal ato ocorre
em còndições de "incerteza", enquanto os outputs não
são exatamente numeráveis ou calculáveis.
É possível reduzir o risco e a incerteza? Nos jo-
gos de azar, quer dizer naqueles em que impera o ris-
co, isso não é com efeito possível a não ser que alguém
trapaceie. Efetivamente, se por acaso - como mostrou
Max Weber - se desloque gradualmente o baridentro
do dado para uma das faces, se terá uma probabilida-
de sempre mais alta que saia um determinado núme-
ro até atingir (se o peso incidir maciça e diretamente
sobre a superfície relativa do dado) "a certeza absoluta.
O leque de gradações entre o acaso e a necessidade se
reduz assim a zero. .
Com o conceito de incerteza - em particular
aquela voltada ao futuro - entra-se, todavia em uma
outra ordem de avaliações. Aqui o peso das alterações
trapaceiras dos êxitos, se é que existe, é piínimo. Para
submeter o acasó à vontade do agente é preciso ela-
borar cálculos baseados em critérios de "probabilida-
de subjetiva", ou seja, na esperança de que os indiví-
duos ou os grüpos alcancem os possíveis resultados
das suas ações (ou acreditar que ele acredite que eu
acredito...). Está claro que só a quantidade ampla de
informações ou a garantia de poder retificar in itinere
o curso das ações constituem fatores capazes dé dimi-
nuir a incerteza. . „ '
Graças a quais indicadores se pode medir o pro-
gresso, transformando a incerteza pura em graus de
probabilidade? Em primeiro lugar, para Condorcet,
mediante a maior abundância dos meios de subsistên-
cia, em particular, aqueles derivados da agricultura.
Em segundo, mediante o desenvolvimento da técnica:
"Os instrumentos, as máquinas, os teares mecânicos
aumentarão cada vez mais a força, a habilidade dos
homens aumentará ao mesmo tempo a perfeição e a
precisão dos produtos". Em terceiro, por meio do me-
lhoramento das condições de vida das classes menos
abastadas, com o comprovàdo aumento do consumo
de carne e da qualidade das moradias (e, implicita-
mente, do aumento da duração média da vida humana).
Em quarto e ultimo lugar, mediante a vitória sobre al-
gumas doenças então mortais ou devastadoras, como
a varíola, graças a Jenner.
Tornou-se vulgarmente proverbial a afirmação
segundo a qual "o "se" e o "mas" são patrimônio dos im-
becis". Todavia, Condorcet medindo o passado a partir
de simulações contrafactuais, se interroga - como fará
em seguida Max Weber - sobre a conseqüência- que al-
guns acontecimentos teriam tidõ' se tivessem aconteci-
do diversamente de como realmente aconteceram. Fa-
lando da batalha de Salamina, exalta por isso a vitória
obtida pelos gregos "sem a qual as trevas do despotismo
oriental ameaçavam envolver toda a terra".
Justamente porque o acaso depende da igno-
rância, controlá-lo (e com isso ter influência sobre o
rumo dos os processos históricos), segundo Condorcet,
significa aguçar e expandir a inteligência promovendo
a instrução generalizada, a educação pública que trans-
forme as "maquetas pequenas da espécie humana, as
crianças". Das intuições de Condorcet derivam precisa-
mente os projetos, executados depois da Revolução
francesa, de instituir a instrução elementar obrigatória
para todos e de fundar a École Polytechnique e a École
Normale Supérieure de Paris.

A -descoberta do sentido dos acontecimentos


passa com Condorcet da hermenêutica religiosa de gê-
nero quase oracülar, que procura advinhar, a partir de
determinados sinais, a vontade escondida de Deus, à
i (
do cientista que interpreta o desenvolvimento do cur-
so histórico a partir da existência e da intensidade de
forças específicas operando no seu ihterior. A decifra-
ção de tais hieróglifos da história fortalece as esperanças
não somente de antecipar melhor as tendências do fu-
turo, mas também de diminuir o peso da opressão po-
lítica e de aumentar, mediante a eliminação da igno-
rância, o da liberdade.

Tal projeto emancipatório, que em Condorcet


apresenta ainda uma natureza conjetural, tende a en-
rijecer-se nas filosofias da história que lhe são con-
temporâneas e nas sucessivas, que se colocam - qua-
se de maneira exorcística - sob a forma tranquilizado-
ra da necessidade. Nós somos herdeiros dessa última,
tradição, justamente aquela que trouxe descrédito
para as filosofias da história. Durante muito tempo,
com efeito, fomos habituados a considerar a história
como guiada por uma intrínseca lógica da necessida-
de, a pensar que a intervenção humana consciente
deveria abreviar o tempo hecessário N para que o ine-
vitável se. produzisse.
Hoje que, por diversos motivos, esta perspecti-
va aparece como impossível de ser proposta, o futuro
parece ter reconquistado a sua natureza de absoluta
contingência ou de lugar efe exercício de forças que es-
capam ao controle dos homens (ele se mostra, por
isso, ou sem sentido ou nas mãos de Deus). A partir
do momento em que os acontecimentos parecem ter
perdido seu objetivo, também o passado tende, em
muita historiografia atual, a ser mais contado, sob a
forma de "romance verdadeiro", do que explicado.
Assim parece realizar-se a afirmação de John May-
nard Keynes (autor, incidentemente, de um Treatise on
Probability/de 1921), segundo o qual "o inevitável não
acontece nunca, o inesperado sempre". É inútil tanto
esconjurar essa atitude, quanto aplaudi-la.
Repropõe-se um antigo dilema: a ordem dos
acontecimentos é necessária ou acidental, governada pelo
Destino ou pelo Acaso? Existem pelo menos três respos-
tas: I) tudo o.que acontece é em si e por si necessário,
e se não nos damos conta disso, é devido, sobretudo,
à nossa ignorância, que não nos permite ver todos os
anéis da cadeia do Destino; 2) tudo aquilo que aconte-
ce é casual, como sustenta, por exemplo, o historiador
da'Antigüidade Eduard Meyer, para o qual a história
é o resultado de decisões imponderáveis e arriscadas,
por parte dos singulares indivíduos (por exemplo,
ninguém obrigou Aníbal a atacar Roma); 3) tudo o
que acontece encontra a sua explicação no hibridismo
variável de acaso e necessidade.
Tratarei dessa última opção, antes de considerar
detalhadamente a escolha a favor do domínio da ne-
cessidade (omito a segunda resposta, visto que as suas
implicações são mormente intuíveis por contraste com
a precedente).
Podemos distinguir, com relação ao entrelaça-
mento entre necessidade e acaso, duas séries de acon-
tècimentos. A primeira, objetiva, baseada no conceito
de causa eficiente aristotélica (o vento levanta a telha
do telhado e ela cai). A segunda, subjetiva,, baseada no
conceito de causa final (tenho sede e saio para beber
alguma coisa em um local público; movo-me por con-
seguinte com um objetivo). A acidehtalidade acontece no
cruzamento entre as duas series de acontecimentos (a telha
cai justamente quando estou caminhando para beber
algo). A acidentalidàde da história está, por conseguin-
te, nos "cruzamentos" (Kreuzungen) entre causas efi-
cientes e causas finais, fatos naturais explicáveis e moti-
vações humanas compreensíveis. A maneira de construir
os acontecimentos pode, neste âmbito, reconduzir-se a
uma ars combinatória na qual necessidade e acaso se ar-
ticulam. Neste aspecto, a história configura-se aqui
como a tentativa de encontrar um esquema de inteli-
gibilidade do acontecer no cruzamento entre aconteci-
mentos necessários e acontecimentos causais.
O modelo de filosofia da história no qual a ne- -
cessidade tende a afirmar-se encontra ao contrário a
sua primeira expressão, quase nos mesmos anoç da
obra de Condorcet, em Johann Gottlieb FICHTE. Gos- .
taria de defini-lo como um modelo de física das revolu-
ções. A expressão hoje comum - "eclodiu a revolu-
ção"- é com efeito muito mais do que uma imagem
retórica, é o análogo na obra de Condorcet de üm fe-
nômeno natural. Ao introduzi-la indiretamente é o
próprio Fichte em 1793, falando da Revolução france-
sa e mutyando quem sabe a idéia da sua inevitável
eclosão da lei de Leibniz-Mariottc (1685).cóm relação
à compressão dos gazes. Segundo essa lei, a energia ex-
pansiva de um gás é proporcional à sua compressão, de
modo que se o seu volume é reduzido à metade, a um
terço ou a um quarto, a pressão do gás contra as pare-
des do recipiente será, respectivamente, dupla, tripla,
quádrupla. A qualquer aumento da compressão, para
evitar a explosão, deve-se reforçar os recipientes, O
espírito humano, o pneuma ou sopro, imaginado como
um gás, todavia se pode comprimir só até um certo
ponto: quanto mais a opressão de um povo se tornar
intolerável, mais aumentam as chances de uma sua e x -
plosão revolucionária. Para evitar que isto aconteça,
quem governa, pode certamente construir sistemas de
segurança sempre mais resistentes, mas mesmo assim
chega enfim o momento em que tudo voa pelos ares,
pois o espírito de rebelião é mais forte.
O eclodir das revoluções é, portanto, conse-
qüência da idéia de incomprimibilidade das aspirações
humanas à justiça e à liberdade, consideradas como uma
força física. As revoluções ocorrem todas as^ vezes que
se ultrapassa um limite de opressão. Também a conhe-
cida expressão de Karl Marx, segundo a qual as revo-
luções aceleram "as dores do parto", tornando mais
rápido e menos doloroso o acontecimento, situa-se no
interior de uma "física das revoluções", no sentido de
que fala de um acontecimento que deve ocofrer e ocorrerá
de qualquer maneira, necessariamente, removendo to-
dos os obstáculos ao se realizar. O pathos da história se
configura, neste caso, como 6 pathos de quem se situa
na crista da onda do movimento histórico e consegue
de certo modo governar os acontecimentos: volentes
fata ducunt, nolentes trahunt. Tal pathos consiste em
assumir os ideais dos revolucionários, em estar sem-
pre pronto - como "virgens sábias" do-Evangelho ao
advento do Esposo, - ao eclodir do acontecimento re-
volucionário.
Os modelos aqui delineados, de Condorçet e de 1
"Fichte - Marx", se diferenciam, sobretudo, pelo cará-
ter, obrigatório ou não, da direção dajnarcha do mo-
vimento histórico. Em Condorçet ela depende do per-"
durar de certas precondições e da nossa intervenção
(posições reafirmadas em seguida, também no âmbito
do marxismo, pelo pensamento de Gramsci, que pro-
cura corrigir, mediante a idéia de "lei tendencial" de
Ricardo ou da dialética^ hegeliána, o "determinismo"
presente em algumas correntes socialistas e comunis-
tas). Ao contrário, em Fichte e, de maneira divçrsa, em
Marx, a direção da marcha da história antes ou depois
se imporá por ela mesma. Assim resulta que todas as
contramedidas e as "contra-tendências" (ou seja, tudo
o que tende a comprimir, impedir/desviar ou retardar
a mudança explosiva da revolução) não será impedi-
mento para o advento do inevitável: as forças da con-
servação não praevalebunt sobre aquelas da mudança.

A terceira tradição teórica assinalada é a que


tem como líder Johann G. HERDER, filósofo alemão
bastante ativo nos últimos três decênios do século
XVIII. Ela é delineada nos volumes: Ainda uma filosofia
da história para a.educação da humanidade, de 1774, e
Idéias para uma filosofia da história da humanidade, de
1784-1791. Herder faz protagonistas diretos da histó-
ria, não a Providência, mas os "Espíritos dos povos",
pelos quais Deus se njajlifesta.. Devido à essa concep-
ção, ele foi erroneamente inserido, juntamente com
Rousseau, entre os precursores dos virulentos nacio-
nalismos do nosso séctilo. Na realidade Herder- tinha
partido de uma observação de caráter filosófico muito
geral:, da demonstração, oferecida por Galileu e New-
ton, que o mundo do espaço, da natureza, tem uma
racionalidade própria. Herder se pergunta então: como
é possível que o mundo do tempo, dos homens/ da história,
não tenha também uma sua própria racionalidade? Ele
não exclui completamente a hipótese quê a história
possa revelar-se desprovida de sentido, mesmo se -
pessoalmente e devido à fé - se coloca entre aqueles
que "se recusam energicamente a acreditar que o gê-
nero humano seja somente uma multidão de formigas
entre as quais o pé do ser mais forte - que por sua vez
é também uma formiga, só que enorme - ora pise
sobre milhares de indivíduos, ora- destrua o trabalho
micro-macroscópico de tantos seres".
A racionalidade que ele busca no tempo, ele a
encontra na cultura do Iluminismo, que, por outro
Piado, combatia. Isto é, partilhava com os iluministas a
; tese que a história tivesse uma racionalidade própria,
I mas não julgava que o sentido da história derivasse de uma
__ordem política imposta de cima. Em outros termos, con-
testava a legitimação prática e teórica do despotismo
esclarecido, que levava Voltaire ou Maupertius a trans-
formarem-se em cortesãos de Frederico II da Prússia
ou Diderot a admirar Catarina II da Rússia. Diversa-
mente do que pensavam os iluministas franceses e, re-
trocedendo, com relação ao que pensava Políbio, o
sentido da história não provém verticalmente do sobe-
rano e do Estado. Indubitavelmente, as "luzes" são im-
portantes, mas com o avançar da civilização sempre se
perde alguma coisa, porque o triunfo da racionalidade
coincide com o enfraquecimento das paixões e dos ins-
tintos. Herder não negá, por conseguinte, a validade
do Iluminismo e não apregoa inteiramente.um retor-
no à barbárie: Quer de outra maneira criticar o seu
tempo, ver os seus aspectos negativos para promover
uma nova "humanidade" como valor (Humanität), no
quadro da humanidade como gênero (Menschheit).
A "história" não é, pois um "homogeneizador"
de todas as histórias locais ou daquelas dos vários po-
vos. Mesmo não sendo intimamente contrário ao cos-
mopolitismo, Herder se posiciona a favor do respeito às
diferenças ngciongis, de tudo o que nasce de baixo: fábulas,
costumes, mitos, cantos populares (aspectos sobre os quais
insistirá a cultura romântica). O sentido da história
não é portanto dado por quem comanda, por quem
tem condição de reconduzir as diferenças à unidade,
mas pela polifonia, pela pluralidade, de significados
que provim. contribuições anônimas que ' '! &
cada povo é capaz de trazer para as vicissitudes do mundo.
Só há racionalidade e senti.do na história se se
permite que cada u m e xprirna a própria natureza. A
nação e a humanidade coexistem, ou melhor, se enriquecem
no seu intercâmbio recíproco. Con Herder passa-se, assim,
da história circular ou axial à história de entrelaça-
mento, mais parecida a uma corda formada por múl-
tiplos fios do que à imagem hegeliana da "fuga" musi-
cal, na qual, na direção do mundo, se sucedem os po-
vos que por sua vez propõem os temas dominantes.
Pela primeira vez na história a educação do gênero
humano, ocorre, segundo Herder, sob a forma de um
rejuvenescimento. Os povos, livres para exprimir a prór
pria natureza, estão como que renascidos. Por outro
lado, a natureza do,homem já não é definida desde ,
sempre: ele é um ser in cammino, que está se modifi-
cando, que ainda não formou todos os seus sentidos e
as suas capacidades intelectuais. A augurada festa das j.
diferenças desenvolverá nos homens as suas potencia- )
lidades, até agora comprometidas por uma concepção I
excessivamente centralista e unitária da história. A j
posição de Herder foi de certa maneira retomada nos

s
nossos dias por teóricos do liberalismo como Isaiah
Berlin, que tentou moderar o nacionalismo violento e
o particularismo extremista r mediante o contrapeso do
apelo à Menschheit e à Hümanitãt.

A imprevisibilidade da história é o preço a ser


pago para a passagem de âmbitos mais estreitos a âmbi-
tos mais vastos, da ação individual à coletiva. Sobre o
âmago desta questão raciocinaram sobretudo Kant e
Hegel, focalizando a idéia da heterogêrtese dos fins, ou seja,
da involuntária metamorfose que os objétivós de cada
homem sofre quando as suas ações, confluindo naque-
las de todos, ultrapassam as intenções individuais.
Do entrelaçamento destas ações - observa Em-
. manuel KANT - surgem resultados Inesperados e não
desejados, mas não necessariamente negativos para a
humanidade no seu.conjunto. Ao contrário, aquilo que
para o indivíduo é mau, pára a história pode resultar
como bom, já que a história "recicla" em utilidade*coletiva
ás ações malignas dos homens. Kant1 insere-se assim, de ma-
neira original, na tradição moderna do pensamento,
inaugurada pela Fábula das abelhas• de Mandéville, para
a qual não só os vícios privados, dão lugar a públicas vir-
tudes, mas são justamente tais vícios que desempenham
as funções de estímulo tia civilização. Efetivamente', é
com a busca do ganho e com a avareza que nasce o co-
mércio e, por jconseguinte, a benéfica troca entre os ho-
mens; é pela vaidade de serem recordados, de deixar o
próprio nome, que as pessoas realizam atos de benefi-
cência e fazem erguer hospitais ou asilos; é pela inquie-
tação e pela violência de homens sempre prontos a com-
baterem-se, que as civilizações entram em contato.
É por isso, uma característica do modelo kantia-
no - e de todas as filosofias da história que se colocam
sobre o seu^rastro - a vontade de recuperar a posteriori
aq[uele sentido que os homens deixaram precedente-
mente sem dar-se completamente conta. Além disso,
tal sentido de conjunto não é mais pesquisado como o
produto de causas finais, quer dizer, delineando, os ob-
jetivos que os homens se prefixaram. Busca-se mais
compreendê-lo interrogando uma lógica anônima da his-
tória, que se tornou autônoma e independente das motivações
individuais das ações. Essas, apoiando-sè sobre si mes-
mas, adquirem uma inércia de movimento não inten-
cional, que uma vez corroborada, condiciona a todos e
os coloca virtualmente em relação. Como, ao ler, se
traduz um texto, que é algo objetivo{ em subjetivida-
de, de maneira análoga, mas às avessas, as ações hu-
manas traduzem a subjetividade em objetividade. Leis,
instituições, estruturas coletivas são o résultado mate-
rializado do operar de bilhões de nossos semelhantes,
que viveram em tempos e lugares diferentes. Habita-
mos num mundo que foi tornado sensato pelos homens e
devemos nos inserir neste mundo, compreendendo-o
e reproduzindo-o incessantemente. A historiografia
torna-se, por conseguinte, uma grande obra de decifra-
ção de qós mesmos, um instrumento para^dar signifi-
cado à nossa vida. A experiência imediata, míope, que
tenho dos acontecimentos históricos, só adquire o ca-)
ráter de uma peregrinado no tempo se consigo traduzir
a imediatez do meu viver no sentido de um movimen-
to, do qual participo1« do qual sou afastado, que con-
cerne a toda a humanidade.
O problema que Kant (e depois Hegel) enfren-
tam é, em outras palavras, o de compreender o senti-
do de uma lógica do preterintencional. Se a história não"
aceita mais modelos teológicos, se aspira à explicação
dos acontecimentos por meio de outros acontecimen-
tos, por linhas internas, é necessário então entender
qual é o motor da história. Para Kânt chama-se concor-
dia discors. Quer dizer: a história avança (os escoceses
a~crescentariam: nos países civilizados) porque existe
uma benéfica competição entre indivíduos que têm
necessidade üm do outro. Diz Kant, comparando o
homem a uma planta: se não tivéssemos ao nosso
redof outros indivíduos que concorrem aos mesmos
bens, se fosse lícito só fazer o que mais nos agrada, se-
ríamos Como uma árvore que se expande sobre o ter-
reno, horizontalmente, enquanto, sendo estreitos e
cutucados pelos "cotovelos" dos putros, a competição
faz que a árvore do nosso ser busque espaço para o alto, se
lance em direção vertical.
A civilização é- o resultado deste ondular de ho-
mens obrigados pela discórdia a serem concordes e
pela concórdia a serem discordes. Justamente para
reivindicar o caráter não só doloroso, mas também
frutuoso do conflito, Kant entra em oposição com o
seu antigo discípulo Herder. Na recensão de 1785 às
primeiras duas partes das Idéias, ele sustenta, com
efeito; que o parâmetro para avaliar ay história não
pode ser oferecido pela felicidade do homem, mas sim
pela dignidade da sua existência: mesmo se os habi-
tantes de certas ilhas do Pacífico tivessem vivido du-
rante séculos bem-aventuradamente, sem estabelecer
nenhuma relação coiri populações mais civilizadas, a
sua existência não.teria sido mais feliz do que a das ca-
bras ou dos bois.
Por outro lado, não está claro para qual direção
o homem se dirige, mesmo que se revelem "sinais
prognósticos" - como aqueles apresentados mais tarde
no,volume O conflito das faculdades, de 1798, à Revolu-
ção francesa - que deixam pressentir que a história vai
na direção do melhor ou, pelo menos, que a recordação
do melhor não se cancela facilmente da memória dos povos.
Para evitar que esta história conjetural se reduza a um
simples "romance", pode-se todavia elaborar só
"idéicis reguladoras", capazes de desempenhar as fun-
ções de "fio condutor" para a compreensão de aconte-
cimentos de outra maneira inenarráveis.
Portanto, os atos moralmente reprováveis cons-
tituem uma espécie de adubo para esta árvore que é o
indivíduo. Tudo o que é bom - dirá mais tarde Nietzs-
che - uma vez era mau: manifesta-sé assim uma "ge-
nealogia" dá história na qual também o ma 1 é justifi-
cado enquanto fator de progresso (no quadro não de.
uma teodicéia, mas de uma antropodicéia, ou mediante
figuras míticas de demônios, como será a de Mefistó-
feles no Fausto de Goethe).

Georg W. Friedrjch HEGEL é categórico ao de-


fender que a história não se explica pelos intenções
conscientes dos homens, más- Sim mediante as suas
paixões (muitas vezes turvas) e os. scius interesses
(muitas vezes equivocados dos-próprios agentes). As
paixões são o verdadeiro motor da,história: assim como o
yento e o vapor, as paixões dos indivíduos constituem
energias naturais desconhecidas, que a "astúcia da ra-
zão" joga a posteriori nmas contra as outras: "Elas reali-
zam-a si mesmas e os seus fins segundo as suas finali-
dades naturais e fazem surgir o edifício da sociedade
humana no qual é conferido ao direito e à ordem o po-
der contra elas mesmas". Como se vê, Hegel não é tão
idealista de erigir a consciência como "coftdutora
incompetente" (mosca cocchiera) da história. No orde-
namento do mundo "um Ingrediente" é constituído
pelas paixões, o outro pêlo "momento racional". Mas o
"elemento ativo" é dado pelas paixões, também e so-
bretudo nos indivíduos que tiveram peso na história
do mundo e nela deixaram as Suas marcas. Eles são
grandes não porque são originais, mas sim por'que são
expressão de forças coletivas: dão voz.au que to.dos r ou- -
muitos,Jnconscientemente sentem: "A sua justificação
não está no estado das coisas existentes; é uma, outra
fonte aquela a que atingem: é o espirito escondido que
bate às portas do presente, que aiiida está subterrâneo,
que ainda não progrediu na existência atilai, mas que
quer irromper: o espírito para o qual o mundo presen- •
te não é uma casca, que contém em si um caroço di-
verso daquele que conviria à casca". Tais "guias de al-
mas" no seu caminho passam em "rrfais do que uma
flor inocente". Mas, diferentemente do que amiúde se
escuta repetir, Hegel não despreza cinicamente os ven-
cidos da história, nem exalta os grandes a lavor dos pe-
quenos: "A religiosidade, a moralidade de um tipo de
vida limitada - a de um pastor ou de um camponês - ,
na sua concentrada interioridade, no seu restringir-se
a poucas e de fato simples relações de vida têm um va-
lor infinito, o mesmo valor daquele próprio da' religio-
sidade e moralidade de uma experiência evoluída, de
uma existência rica de relações e de ações". •
É esta a resposta hegeliana à angustiada per-
gunta de Herder, de que só exista racionalidade no es-
» paço da natureza e não, ato contrário, também no tem-
po humano. O pressuposto da história é, segundo He-
gel, "que a razão governe o mundo, e qu e, por conse-
guinte, também "a história universal deve ser desen-
volvida racionalmente". Mas a expressão raciohaímen-
te não significa ncrri felizmente (pofque, no livro da
história do muhdo, as páginas que deveriam ser dedi-
cadas à felicidade são "páginas brancas"), riem no in- '
teresse de cada um. Deste ponto dle vista, a filosofia
hegeliana mostra, "dialeticamente", também um lado
trágico, de triunfo da morte.
Certamente a história avança segundo um seu tê-
los ou "finalidade", mas isso é totalmente indetermina-
do, no que concerne aos conteúdos. Com efeito, se li-
mita a assinalar somente o incremento da "consciência
da liberdade", sem prestar atenção de fato ao real cres-
cimento das liberdades. O progresso histórico é por isso
fundamentado no esforço de desvincular-se da necessi-
dade, de uma maior indeterminação, oú, o que equi-
vale, a uma maior liberdade. Nessa perspectiva, o ho-
mem se apresenta como o animal que não tem uma natu-
reza determinada, mas que se forma incessantemente.
Por isso as filosofias da história não estão em
condição de oferecer, segundo Hegel, nenhuma pre-
visão do futuro (já que o filósofo não é um profeta),
assim como a história do passado não é capaz d e en-
sinar alguma coisa de útil para o presente: "costuma -
se atribuir a reis, a estadistas e a povos os ensina-
mentos da experiência histórica. Mas o que expe-
riência e história ensinam é justamente que os povos
e os governos nunca aprenderam nada da' história,
nem nunca agiram segundo doutrinas que tivessem
podido deduzir dela". Ao assumir tal posição, Hegel
se distancia não _só da clássica doutrina da história-
niãgislmjniae, mas também de quantos propuseram
ou proporão objetivos concretos ao curso histórico,
como Marx, quando apresenta a sociedade sem clas-
ses, ou Herbert Spencer, para o qual a passagem da
sociedade de tipo militar às sociedades industrializa-
das conduzirá à abolição da violência e da guerra (o
quanto erçim ilusórias, ao menos a médio prazo, es-
tas previsões o mostram as vicissitudes do nosso sé-
culo, que, viram afirmar-se, justamente sobre os
campos de batalha, violentas "tempestades de aço",
sintoma da aliança entre grande 'indústria e grande
guerra, e profundas diferenças sociais justamente
nos países onde o ideal ^e igualdade deveria ter rea-
lizado a sua eliminação).
Se, todavia, a história mostra uma racionalida-
de própria, mas não a tendência na direção de um te-
los específico, é porque Hegel modificou a imagem tra-
dicional da relação entre meios e fins, Nós a concebía-
mos ainda, na maioria das vezes, no âmbito de um
imaginário que era típico das sociedades camponesas
e artesanais. Quer dizer, nos referíamos a uma "finali-
dade" como o camponês se refere à colheita: se se-
mearmos (o meio), se protegermos as sementes dos
parasitas e do mau tempo, colheremos o quanto culti-
vamos. Ou então, se representa o telos como o alvo ao
qual mira a flecha disparada pelo arco. Ou ainda, se-
gundo o modelo aristotélico, como um imã que atrai,
do futuro, a nossa ação.
Hegel é totalmente contrário a essa espécie de fi-
nalismo e à idéia de história que dela deriva. Observa^
com razão, que o arado, o instrumento, é mais nobre
que a , colheita. A colheita, depois de ter sido
armazenada, é consumida, mas o arado serve para pro-
duzir tantas outras colheitas. Por isso ele propõe uma
inversão dos valores tradicionais da metafísica: o meio conta
mais gue.ajuri- Assim ele afirma na Ciência da Lógica qué
õs instrumeptos inventados pelos homens e transmiti-
dos de geração em geração - instrumentos conceituais,
como idéias, ou instrumentos materiais, como as má-
quinas - são elementos indispensáveis e prioritários
com relação aos diversos fins que, de vez em quando,
pretendemos alcança-loá. 1

Desde os seus escritos juvenis Hegel está empe-


nhado na dissolução da idéia de fihalismo. Num deles, '
o Diário de viagem aos Alpes bernenses, de 1796, narra
uma sua excursão entre as imponentes montanhas
suíças, que não suscitam nele nenhum sentido do su-
blime: arrancam-lhe somente a constatação: "é as-
sim". A única coisa que o encanta é, pela sua disposi-
ção mental "heracliteana", a água das cascatas, sem-
pre iguais e sempre diferentes. Mas, sobretudo, fica
impressionado com os modos pelos quais os homens,"
lutando contra as condições adversas da natureza,
conseguem viver naquelas regiões de alta montanha ^
na§ ípiais só crescem alguns fios de erva ou flores de
genciana. Estas reflexões-o ajudam a resolver, de ma-
neira genial, o problema kantiano de como conciliar a
r relação entre mecanicismo efinalismo da natureza, tal qual
é tematizado na Critica do Juízo. A idéia-cerne que une
os dois aspectos é o trabalho humano, o qual consiste
em utilizar, para finalidades estabelecidas pelos ho-
mens, forças mecânicas naturais privadas de qualquer
finalidade nos confrontos do homem. É o homem que
se apropria de tais forças é as submete a sua finalida-
de, colocando-as em contraste umas com as outras.
Utiliza aSsim a energia da água de uma torrente para
fazer girar as pás de um moinho, de modo a acionar o
moedor, que tritura o trigo e o transforma em farinha.
O trigo não cresce pari nós, assim como o vento não
sopra para nos dar prazer, mas se, nos barcos à vela,
sabemos governá-lo, podemos utilizá-lo para ir na di-
reção almejada. Assim, nós atingimos os nossos obje-
tivos unindo forças naturais separadas.
Em geral, os acontecimentos do mundo não
são feitos para o homem, como pensava a "teologia
física", escarnecida por Voltaire, que dizia: muitos^
acreditam que a natureza nos tenha dado o nariz para
nele apoiarmos os óculos, e que Deus tenha criado a
árvore de cortiça para que fabricássemos rolhas de
garrafas. Mas este é um finalismo artificial, extrínse-
co. A grande idéia de Hegel a esse respeito é que o fi-
nalismo ad usum hominis não existe na natureza e,
quando existe na história, não é por virtude da Pro-
vidência, mas porque inserido pelo agir humano. Nós
usamos também as nossas energias, as paixões, para .
dominar, outras energias, na direção dos objetivos por
nós almejados.
capítulo 3

CRISES DAS FILOSOFIAS


DA HISTÓRIA

A atua] çrise do telò$ da história - em que se


prodama a perda de visibilidade de qualquer meta -
está na realidade latente há pelo menos 150 anos, des-
de o tempo dos primeiros discípulos e adversários de
Hegel até Dilthey e Nietzsche. '
Para Johan Gustav DROYSEN, por exempío, a
história não é outra coisa senão violência das forças
elementares, contra a qual é necessário reagir, a fim de
que a vida dos homens não se desperdice. Mas como
impedi-la ? Ele está consciente do fato de que dà his-
tória não se conhece nem a saída e nem o.-fim: "Esta
vida global da humanidade é um fluir ininterrupto -
no múltiplo encrespar-se das òndas e no jogo dos rede-
moinhos, num vaivém". Somente se pode-tentar com-
preender, metodicamente, a especificidade1 dós aconte-
cimentos com o objetivo de dar sentido a fenômenos'
bem delimitados. Uma negação, ainda mais brusca dos
pressupostos "evolucionistas" das filosofias da história
precedentes, vem de Lèopold von RANKE. Ele coloca ,
em questão seja o pressuposto de um único fim perse-
guido pela humanidade inteira (o que, incidentalmen- •
tê, transformaria a liberdade humana em ilusão), seja,
a idéia de um progresso por estágios das civilizaçõeá e
! dos períodos históricos. Cada época é perfeita em si mes- '
ma, tem o mesmo grau de importância das outras. Não-
representa nem uma "superação" (como sustentam os
escoceses e Hegel) nem uma regressão em relação à
precedente (como crêem os louvadores do bons tem-
pos passados): "Eu afirmo que cada época provém
imediatamente de Deus, e o seu valor não reside no
que vem de fora dela, mas na sua existência mesma,
na sua peculiaridade [...]. Cada épòca deve ser vista
como algo válido por si mesmo e mostra-se altamente
digno de consideração".
Com Wilhelm DILTHEY, e sucessivamente com
* Meinecke, o historicismo desenvolve-se na Alemanha
l com a intenção de substituir as filosofias da história com
esquemas prefixados por um justo sentido histórico. O dever
da filosofia da história torna-se assim para Dilthey o de
abandonar esquemas racionais pré-fabricados (ehquan-
to, invertendo o fitado de Hegel, para Dilthey vale o
prihcipio segundo o qual "tudo o que é real é irracio-
nal") e de entender a "vida" no seu caráter enigmático.
A obra de interpretação histórica, nunca concluída,
conseguirá projetar alguns raios de luz sobre este pres-
suposto opaco e terrível da consciência humana. E já é
muitô. Com efeito, a vida não pode ser "levada diante
do tribunal da razão", mas somente compreendida,
quer dizer resgatada pela alteridade e arrebatada ao es-
quecimento. O mundo, em si mesmo, não tem ne-
nhum sentido, são os homens que lho atribuem. Entre-
tanto, é necessário procurar os depósitos de sentido his-
tórico nãò só no fechamento das consciências, mas em
tudo o que eles produziram e que se sedimentou sob a
forma de "espírito objetivo" (isto é, de produtos da civi-
lização estratificados e acumulados 110 tempo). O que
parece mudo, com relação a uma escrita ainda não de- •
cifrada, obtém voz mediante ó sentido histórico, en-
trando no diálogo do presente.
O temor.de Dilthey é que, tanto a consciência
individual, como o "espírito objetivo" estejam se es-
clerosandb, que se vá afrouxando desmesuradamente
o nexo comunicativo entre a subjetividade e o seu ha-
bitat espiritual, o mundo histórico. Isto é, se adverte
claramente do risco que a tradição vá na direção do
empobrecimento, que o eu, como conseqüência, se
exaure e se esvazie e que o "espírito objetivo"- sime-
tricamente - torne-se incompreensível aos sujeitos.
Dilthey lenia assim revitalizar e reatar os íios de um
tecido' conectivo ideal que, transmitindo a riqueza de-
salinhada do passado aos empobrecidos herdeiros do
prèsèritlT, p ér m ita à vida se fortalecer.^
Logo/ em si mesmo, o "espírito objetivo" não
representa urfta jazida de materiais inertes. Mesmo
sendo um fator necessário ao crescimento e ao desen-
volvimento dos indivíduos e das coletividades, age to-
davia sobre os homens na maioria das vezes casual-
t

mente, fragmentariamente ou de forma escassamente


perspicaz: "Desse múndo do espírito objetivo o nosso
eu tira a sua nutrição desde a primeira infância: ele é
também o elemento mediador pelo qual acontece a
compreensão das outras pessoas e das suas manifesta- »
ções de vida. Com efeito, tudo aquilo eip que o espí- *
rito se objetivou, contém um elemento comum ao eu
e ao tu. Cada lugar no qual foram plantadas árvores,
cada cômodo em que foram arrumadas cadeiras, nos é
inteligível desde a infância enquanto posições de valo-
res por parte do homem; a obra ordenadora e a deter-
minação de valor têm no seu conjunto estabelecido a
cada lugar, a cada objeto o seu espaço".
Mas quando os laços entre esses produtos hur
manos objetivados e a consciência individual e social
se afrouxam ou se despedaçam, então a história tem a >
função de reativar .a circulação sangüínea deste mun- <
do ameaçado pela paralisia e pelo m u t i s m o . E r l e b n i s ,
ou seja, a experiência vivida no tempo "como o inces-
sante agir do presente", se transforma em uma ime-
diatez a ser mediada e estruturada. Por sua vez, a his-
tória tem até uma tarefa terapêutica, enquanto forne-
ce um antídoto ou uríi dispositivo para dar espessura,
e profundidade,à experiência individual, para mostrar
o seu tecido conectivo com o universal. Ela resgata a
individualidade de cada um e a mostra cheia de histó-t
ria: longe de ser inefável, o indivíduo é o ser mais rico
em especificações. «
No encontro entre Erlebnis e história a vivência
se contextualiza è o contexto se individualiza, focali-
zando -sfe pessoas e acontecimentos particulares, até
chegar à biografia. Dessa maneira"nõs damos conta de
pertencer a um mundo comum, fruto da atividade de
tqdos e de cada-um. Mediante estas operações "her-
menêuticas", o quanto jazia entorpecido ou atingido
pelo rigor mortis nas instituições ,e na consciência, vol-
ta a respirar, ressurge como um doente ou como um
Lázaro de um passado de esquecimento. Cada com-
preender histórico abre para1 cada um, um mundo
com arquiteturas de sentido e matizes sempre diversos
daqueles com os quais estava habituado. Por seu
intermédio, cada um se reencontra como parte de
uma realidade global e misteriosa na qual está ativa-
mente inserido.
A polêmica contra as filosofias da história tradi-
cionais (que implica também, indiretamente, o histo-
ricismo de Dilthey) torna-se ainda mais áspera e radi-
cal com Friedrich NIETZSCHE. Já na assim chamada
Segunda inatual ou Sobre a utilidade e o dano da história
para a vida, de 1874, ele deplora, com efeito, a "doen-
ça histórica" difusa no seu tempo, a ameaça à saúde fí-
sica e mental dos europeus advinda de um "excesso de
história" e de memória: "Existe um grau de insónia,
de ruminação, de sentido histórico, no qual o ser vi-
vente sofre dano e ao final perece, quer se trate de um
homem, de um poyo ou de uma civilização". O feliz
esquecimento é o pressuposto para o perpetuar-se de
cada vida. É necessário ser grato à "força cicatrizante"
do esquecimento contra quantos se preocupam com a
perda das recordações. É necessário aprender com os
animais, que vivem presos ao instante presente. En-
tretanto, Nietzsche não predica o completo cancela-
mento da memória histórica, mas só uma bpa utiliza-
r ã o do esquecimento. Tudo depende "do fato que se
saiba tão bem esquecer, quanto bem recordar no mo-
mento correto; do fato de discernir imediatamente
com forte instinto quando é necessário sentir de modo
histórico e quando de modo não histórico". O critério
para medir a utilidade e o dano da história para a vida
consiste por isso na "força plástica de um homem, de
um povo, de uma civilização [..,] quero dizer, daque-
la força de crescer de modo próprio em si, mesmo, de
transformar e incorporar coisas passadas e estranhas,
de sarar feridas, de substituir partes perdidas, de re-
plasmar em si formas despedaçadas". Nos fragmentos
póstumos dos anos 80, toda a história da Europa apa-
recerá sob a forma dá décadence e da sua lógica, o "nii-
lismo", que conduz à incapacidade de julgar os acon-
tecimentos, posto que todos os velhos valores se des-
valorizaram e aqueles novos, ligados à "vontade de
poder" dos melhores, arriscam naufragar devido ao
atual prevalecer dos "medíocres" (o que1 desménte o
darwinismo social).
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capítulo 4

AS TENDÊNCIAS ATUAIS

Diante da decretada, "falência" das filosofias da


história, reage-se hoje com três estratégias diversas.
Em primeiro lugar, mediante a decomposição do
texto .histórico nos seus elementos lógicos, rehunciah-
do a qualquer projeto teleológico, mesmo que implíci-
to. Esse empreendimento é iniciado fundamental-
mente por Carl Gustav HEMPEL, em 1942, quando
tenta reportar,, inicialmente, a explicação dos eventos históri-
cos a leis universais do tipo daquelas da física. Tal teoria sus-
citou um longo debate, sobretudo no âmbito anglo-sa--
Í xão: para William DRAY autor de Leis e explicações histó-
ricas, de 1957, não se pôde pretender formular lejs ge-
rais em história, porque elas se reduziriam a banalida-
des: é preciso, em vez disso, contentar-se cóm explica-
ções racionais; para Arthur Coleman DANTO é neces-
sário, em vez de colocar-se o problemâ dos critérios de
seleção do acontecimento - já que seria absurdo con-
ceber a história como cúmulo simplesmente quantita-
tivo de fatos (posição compartilhada também por Paul
VEYNE, em 1971) - buscar a especificidade na nature-
za das suas "frases narrativas", ou seja aquelas que co-
nectam ao menos dois acontecimentos temporalmente
distantes.
Em segundo lugar, se reage à perdd de confian-
ça nas filosofias da história mediante duas estratégias
opostas e complementares. Ou pelo recurso a critérios
neo-kantianos de racionalidade de tipo "universalísti-
co", quer dizer, a princípios bastante gerais, como a
"fundação última" (Letztebegründung) de cada saber e
agir do qual fala Karl-Otto Apel ou o "agir comunica-
tivo" teorizado por Jürgen Habermas, que tende a
considerar a história somente como co-acervo de
acontecimentos, uma espécie de loteria que distribui-
ria casualmente os destinos dos homens se não inter-
viessem regras. Ou então, apelando ao relativismo ex-
tremo de algumas concepções hermenêuticas, que -
diante da perda da consciência histórica - defendem a
tradição e mesmo os preconceitos que nela se incorpo-
ram (é esse o caso de Hans-Georg Gadamer).

A terceira estratégia, a mais significativa e atual-


mente a mais difusa, busca traduzir as filosofias da his-
tória em técnicas e teorias narrativas, comparando, de
^diversas maneiras, a própria história a uma "narração
verdadeira". Referindo-se ao passado, sobretudo ao
Aristóteles da Poética, vários pensadores - de Roland
Barthes a Jean-François LYOTARD - estabelecem uma
ligação estreita entre história e poesia, história e arte e
história e narrativa (ou "meta-narrativa"). Deste
modo, a história perde o seu caráter "filosófico", a sua
conexão com a lógica interna dos acontecimentos, e as-
sume uma natureza sobretudo literária. Uma posição
particular ocupam as profundas e aporéticas pesquisas
de Paul RICOEUR em Tempo e história, de 1983 -1985,
baseadas nos limites do plot ou "trama" e da mise en in-
trigue e das diversas configurações do tempo na narra-
tiva literária e na narração histórica.
Um desafio, no nível "exponencial", ao quadra-
do, còm relação àquele dos narrativistas foi lançado
por Lyotard, para o qual todas as filosofias da história
não seriam somente narrativas, récits, mas sim méta-ré-
cits meta-narrativas, esquemas de organização retóri-
\

có-narrativa de narrativas que, na idade moderna, re-


presentam de forma dramática uma espécie de fábula
para adultos da emancipação do sujeito humano em geral
tau a lenda heróica de um povo ou de uma classe.
Quer dizer, os fatos viriam sub-repticiamente-coloca-
do^ ao longo de seqüências temporais ou argumenta- '
tivas de maneira a obter, no final da narrativa, o seu
tetos escondido.
Tais narrações- poder-se-ia acrescentar -exi-
bem todas uma estrutura, análoga àquela que está
presente também, como mostrou Própp, nas fábulas.
Notoriamente as) fábulas começam com "era uma
vez". Que coisa "era uma vez?" Um protagonista,
sempre prestes a ser obrigado a deixar o lugar da sua
segurança; como é o caso do Pequeno Polegar (*),
abandonado no bosque, longe de casa. A fase sucessi-
va expõe, nas fábulas, as peripécias, as aventuras e as lu-
tas do protagonista contra dragões, ogros e bruxas. O
final representa o nostos do herói, o seu retorno à casa. -
Este é o esquema triádico da fábula (segurança inicial,
, perda da segurança a partir das peripécias, retorno à
casa como vencedor) que se releva em muitas das fi-
losofias modernas da história, nas quais se expõe uma
>érie de lutas que vislubram vitoriosamente, um happy
end.. Parte do descrédito no qual se encontram hoje as
filosofias da história é devido também ao toldar-se dos
happy end, substituídos, amiúde, pela desilusão.

A pergunta se a história assemelha-se verdadei-


ramente à narrativa imaginária, à fiction, encontra
uma resposta original na tarefa atribuída ao historia-
dor por Hayden WHITE: transformar as obras historio-
gráficas em "ícones" do passado, em construções de
sentido articuladas pela imaginação "poética" "meta-
histórica" mediante figuras retóricas unificadoras
(metáfora, metonímia, sinédõque, ironi^), capazes de
representarem e orientarem paradoxalmente a disper-
são inenarrável dos acontecimentos justamente por-
que os pré-figura, consignando-os depois a uma "nar-
ração" que os expõe e explica." -
Como demonstrou Carlo Ginzburg, White
contribui, nas suas teses, para o pequeno livro de Cro-
ce: A história reduzida ao conceito geral de arte (1893).
Vale a pena assinalar esta obra, impor,tante porque re-
gistra a precoce oposição do jovem historiador e futu-
ro filósofo Benedetto Croice à declarada fé positivista,
segundo a qual a história é uma "ciência". Desta posi-
ção, caracterizada por uma forte orientação determi-
nista, também se fez intérprete, naqueles decênios,
Kautsky (antes que se tornasse, aos olhos e na pena
de Lênin, um "renegado"). Ele acreditava, efetiva-
mente, que a reforma protestante tivesse sido causa-
da, principalmente, por uma aguda crise do mercado
da lã, e que nela se encontra a sua explicação. Nesta
perspectiva, o acontecimento "Reforma protestante"
se reduz a um fenômeno derivado e superficial, se-
cundário com relação à estrutura longínqua e invisí-
vel que a produz. A história científica não leva em
conta a especificidade dos fatos concretos enquanto
tais, já que, para ela, os acontecimentos são indícios
das grandes causas históricas geralmente escondidas à
consciência dos agentes. Também em Lévi-Strauss,
mais recentemente, a 'estrutura" corre ò risco de re-
duzir o acontecimento que se apresenta, ao máximo,
como resultado de um "modelo" de caráter geral e
"não consciente". Por certo não determinista, mas indi-
cativo da propensão a não buscar explicações privile-
giadas na consciência dos indivíduos, é também "o
grandioso afresco desenhado por Fernand BRAÜDEL
sobre a época de Felipe II. Para ele, o verdadeiro pro-
tagonista desta história não é o monarca de Habsbur-
go, mas sim o espaço geográfico formado pelo Medi-
terrâneo, um lugar que fez - pela sua geologia e o seu
clima - com que os diversos povos que lá se detiveram
mantivessem determinadas relações em vez de outras.
Quando o jovem Croce - e, em seguida, White
- subtraem a história, respectivamente, à tentativa po-
sitivista e àquela estruturalista de fazer desaparecer os
acontecimentos, e a colocam "sob o conceito geral da
arte", no seu interior os acontecimentos animam-se e
se dispõem então segundo módulos narrativos não
simplesmente lineares, mas complexos. Tal história
narrativa usa técnicas parecidas às da montage cinema-
tográfica: segmenta o discurso histórico em partes,
serve-se do flash back, da câmera lenta, das antecipa-
ções ou das sobreposições temáticas. Cada história
tem um seu específico plot, isto é, constrói um entre-
laçamento, uma vicissitude, pela qual um fato é pro-
priamente tal (isto é, alguma-'coisa de fabricado), não
um dado (alguma coisa que preexiste). Entretanto, o
ápice do historiador na construção de uma trama nar-
rativa se manifesta, também no distinguir entre fabri-
cação e fabricação, entre acontecimentos e "não-acon-
tecimentos" (como aqueles teorizados em gabinetes
durante a guerra do Vietnã com a divulgação da falsa
notícia de ataques navais pelos vietnamitas do norte à
frota americana).
Em conclusão, mediante a arte histórica, a his-
tória assume aquele sentido, aquela plausibilidade,
aquela incisividade construída qüe um bom narrador
é capaz de imprimir-lhe. Com certeza, ninguém pre-
tende inventara batalha de Austerlitz. Mas os aconte-
cimentos subsistem e se reagrupam em constelações
de sentido com base na sua inserção em contextos ní-
tidos, que modificam a precedente distribuição e agre-
gação dos "fatos". Assim o historiador "revisionista"
Noite não considera mais escandíyel a história do sé-
culo XX mediante as cesuras da primeira e segunda
Guerra mundiais; construiu, em vez disso, uma cro-
nologia baseada sobre 'a "guerra civil européia", quer
dizer sobre o período 1917-1989, da Revolução de ou-
tubro ã queda do muro de Berlim. Mas, dessa manei-
ra, o sentido dos mesmos acontecimentos pontuais,
diversamente resituádos e rearticulados, muda radi-
calmente. Daí deduz-se que, fora da narração, os
acoiiteciménlõs^em st^ãüTnüdos; só falam porque fo-
ram inserid(5s^Iiumã certa combinação entrc~éTés.~
Logo não existem "fatos nus": os fatos estão sempre.'
"vestidos, tudo depende de como isso é feito, pela /'al-
faiataria" do historiador.

Estamos seguros que seja possível pensar ou es-


crever uma história livre de linhas de orientação ex-
tratextuais? Certamente, toda hjstória é "colocada
num enredo" de acontecimentos numa narrativa. Mas
ela é carregáda de teoria, de concepções filosóficas im-
plícitas que condicionam a estrutura e o sentido. O
fato de que hoje, as já exorbitantes pretensões de
compreensão e de antecipação dos acontecimentos te-
nham se reduzido bastante, não implica automatica-
mente o seu desaparecimento, com a conseqüente
ruína de qualquer forma de "filosofia da história", mas
o seu ocultar-se pela dificuldade de encontrar critérios
de juízo comuns e homogêneos para ertquadrar os
acontecimentos. Entretanto, a alternativa não consiste
em escolher entre pretensas histórias assépticas, depuradas
de qualquer pressuposto, e filosofias apriorísticas ou inten-
cionais, mas sim, no explicitar as premissas subjacentes
e as conseqüências hipotéticas de toda narração que
pretenda compreender acontecimentos "reais", a fim
de poder submetê-las a razoáveis exames críticos, me-
tódicos e comparativos. Quando falta essa consciência,
as filosofias da história miniaturizadas e dissimuladas
grassam, apesar de fingirem não existir.
Contra as interpretações históricas de tipo nar-
rativista se colocam hoje aqueles que reivindicam o
papel principal para os referentes externos, não dedu-
tíveis da própria narrativa. É esta a estratégia já em-
preendida por Paul Ricoeur e por F. R. Ankersmit, o
qual dá destaque à preexistência dos "fundamentos
narrativos", dos "quadros" ou das "imagens", como
"Renascença" Ou "Napoléão" ao atrair para si, com
força gravitacional, todas as noções que consegue cap-
turar. Entretanto ela foi reformulada, num debate que
nos interessa de perto (enquanto centralizado sobre
fatos da história italiana recente) por Carlo GINZ-
BURG ao polemizar com Hayden White. O que distin-
gue a obra de arte histórica, enquanto romance, daj
história dos acontecimentos reais, é que esta última!
baseia-^e em provas, em controles que não podem ser
substituídos pela habilidade artística do historiador.
Num livro que discute o processo contra Adriano So-
fri a propósito da morte do comissário Calabresi, inti-
tulado Ojuize o historiador, Ginzburg afirma que não é
verdade que só se possa fazer história cóm os aconte-
cimentos do passado^ já decantados das paixões, dos
interesses e da imediação dos protagonistas. É possível
e lícito também uma história do presente na qual se está
envolvido, 4esde que subsistam "provas". A idéia de
Ginzburg, que se distancia neste livro da sua prece-
dente predileção pelo "método de indícios" (que con-
siderava o historiador como um Sherlock Holmes), é
que o juiz e o historiador se assemelham. O dever de
ambos consiste em não confiar em narrativas análogas
àquelas de Leonardo Marino (porquanto plausíveis ou
mesmo abstratamente esperadas), sem buscar e en-
contrar confrontações externas a elas, sem dados ou
testemunhos de outros como sustentação das afirma-
ções do "arrependido". Como Ginzburg escreve num
outro ensaio, para aceitar a validade de uma testemu-
nha é necessário - desde o direito romano - que exis-
tam ao menos duas testemunhas aptas a comprovar
um mesmo acontecimento, sendo o testemunho de
uma única totalmente inaceitável ou irrefutável. A his-
tória apresenta-se assim como um tribunal encarregado de
julgar, que não se limita a expor os fatos sobre a base
de narrativas, porque podem revelár-se fantasias, fa-
buJações ou mentiras bem urdidas.

t O elemento narrativo ou me ta-narrativo não é,

wrtanto suficiente para definir a história. A obra do


íistoriador deve pronunciar um "veredicto". O termo
ndica o "dizer a verdade" e repropõe o problema da ver-
' dade enquanto inseparável daquele de dar significado. Han-
nah ARENDT defendeu, num outro contexto , que só
o ato do julgar torna possível dar significado aos acon-

I
tecimentos. Eric WÈIL, filósofo alemão naturalizado
francês, enriquece esta argumentação acrescentando
que só o juízo referido a determinados fenômenos não
é suficiente. Ê necessário constituir também o sujeito do juí-
zo, o "nós" como referência. A história tem tanto mais
sentido quanto nela mais se encontra um "nós" hos-
pitaleiro, capaz de agregar consenso, de registrar um
acordo confrontando e entrelaçando as histórias par-
ciais segundo critérios de relevância obtidos em co-
mum por aqueles que as examinam.
Os dois elementos, da salvação do esquecimen-
to e o de dar significado aos acontecimentos, fazem
parte integrante da atividade do historiador. Quem
pensa que a sua ocupação seja simplesmente aquela
de'repropor o passado ou de construir um romance
inspirado só pelo prazer de narrar, deverá inevitavel-
mente acertar as contas com o "nós" de que jalou
Weil. Isto é, com o fato que, quando acontece alguma
coisa, as pessoas têm necessidade de compreender e
confrontar as próprias visões e impressões parciais, de
construir uma comunidade, porquanto lábil e provisó-
ria, mas que representa o embrião de cada "nós" inte-
ressado na história. É por isso, como recorda Siegfried
Kracauer, que com a notícia do assassinato de John
Kennedy formaram-se espontaneamente rias ruas e
praças dos Estados Unidos grupos de pessoas desejosas
de discutir o acontecimento. <
, Como alternativa às teorias narrativas, seria ne-
cessário colocar à prova a idéia de um construtivismo his-
tórico, que parta, por assim dizer, do "nós estruturado",
das instituições humanas, para reunir-se de novo à di-
mensão subjetiva. Tais instituições deveriam ser consi-
deradas, ao mesmo tempo, como formas de organiza-
ção, seja do sentido como da vida associada. Com efei-
to, trata-se de mostrar os tecidos conectivos entre his-
tórias pessoais, familiares ou de grupo e entidades de
mais largo àlcance e de mais longa duração - Estado,
Igrejas, códigos jurídicos, éstruturas de articulação do
saber - , entidades que se/ alimentam da atividade de
cada um justamente enquanto permitem-lhe ser o que "
são: indivíduos dotadoá de determinados costumes,
leis, língua e cultura anônimos. Trata-se de partir de exi-
gências sentidas para compreendê-las, alargando gradual-
mente o compasso do nosso horizonte, para aprendermos
assim a nos orientar melhor na "selva" dos aconteci-
mentos (coisa que, seja como for, cada um faz, mas, na
maioria das vezes, da pior maneira, sem consciência).
O "bom Deüs" não se esconde só "nos detalhes", como
dizia Aby Warburg, mas também no todo. De qualquer
ponto que se parta - seja que ajamos na dimensão lo-
cal, seja naquela global ou de qualquer modo maiS ex-
tensa necessita-se por isso mesmo ligar sempre uma
dimensão à outra, porque qualquer entrelaçamento
sensato de acontecimentos privados ou de menor
incidência com os acontecimentos públicos ou de
maior amplitude conduz a uma melhor compreensão
recíproca dos vários fatores e potencialmente dos as-
pectos significativos da nossa vida.
capítulo 5

EXISTE ATUALMENTE
UMA PERDA DE
SENTIDO HISTÓRICO?

Vivemos num período em que a desconfiança


com relação às filosofias da história vem amplamente
difusa. Atravessamos uma fase de presumido "fim da
história" ou de post-histoire, para utilizar um termo in-
troduzido, mesmo se com significado diferente, pelo
físico Cournot no século XIX. As razões são múltiplas,
mas duas podem ser consideradas decisivas. Em pri-
meiro lugar, visivelmente faltam os "espíritos-guia"
dos acontecimentos. Enumerando: não existe mais
nem um império unificador, como em Políbio; nem
uma credível civitas peregrinans, como em Agostinho; a
"procissão do espírito santo" na história, como em da
Fiore; os Volksgeister, como em Herder; a "educação do
gênero humano", como em Lessing; os saltos de épo-
ca, como era Condorcet; o proletariado na qualidade
de protagonista da revolução qúe deveria terminar
com todas as revoluções, como em Marx. Em segun-
do lugar, esvaiu-se a confiança no progresso e no fu-
turo, garantida pelo avançar para uma meta única e
satisfatória, e com ela a crença de que o negativo e o
mal na história possam tornar-se o "fermento" do bem
e"que as fases de extremo sofrimento dos povos sejam
simples parênteses do desenvolvimento.
Os instrumentos, que garantiam as formas basi-
camente mais alentadas de filosofia da história, estão,
portanto, desgastados: a "mão invisível" da economia po-
lítica se contraiu, enquanto que a "heterogênese dos
fins" funciona bem demais, ao ponto.de nãp mais se
compreender nem mesmo o sentido daquele que deveria ser o
resultado global da história. Ressurgem assim com força
as nunca sopitadas duvidas sobre os poderes salvado^
res da história (mas também das políticas e das éticas
que nela se apoiavam).
Como fenômeno paralelo aos precedentes; é
necessário acrescentar, hoje, a percepção difusa da di-
minuição do sentido histórico que estaria desaparecendo
nos jovens, na geração do no future e do now, aquela
cujo horizonte estaria restrito somente ao presente. A
responsabilidade de tal embotamento vem amiúde
atribuída aos meios de comunicação de massa, os
quais, vinculando os indivíduos à imediatez do "tem-
po real"; despejam sobre as suas distraídas consciên-
cias um fluxo já ingestível e indigerível de informa-
ções sobre os acontecimentos que ocorrem quotidia-
namente no mundo e que ninguém está agora em
condição de questionar a sua veracidade. O efeito des-
ta oferta superabundante de informações, ao menos no
momento, não parece destinado a melhorar sensivel-
mente a qualidade da nossa cultura.
Produz-se hábito com o choque e repetitivida-
de: mesmo o novo parece assim surgir e declinar ao reclame
do eterno retorno do igual, Misturadas às notícias, uma
torrente ininterrupta de narraçõés nos submerge des-
de a infância, com desenhos animados, filmes, talk
shows, jogos de pergunta e resposta, telenovelas. As-
sim a taxa de consumo do imaginário cresceu enor-
memente em gerações que.vêem agora de três a cinco
horas por dia programas televisivos. Não vivemos
mais num mundo no qual tudo é ligado à percepção
direta, à rara leitura de romances e de jornais ou a es-
cuta, à noite, diante da lareira, das proezas do "Gue-
rin Meschino" ou das oitavas do Tasso. A imagem que
agora temos do mundo (num horizonte ampliado) é predo-
minantemente indireta, pré-selecionada e formada pela
sobreposição de múltiplos esquemas de-produção e de
reconstrução dos acontecimentos.
Entretanto, tudo isso não nos deve escandalizar
ou fazer que tenhamos saudades do passado. Pelo
contrário, é preciso intuir e desenvolver as potenciali-
dades escondidas de uma situação de qualquer
maneira incontornável. A responsabilidade das mídias
no embotamento do sentido histórico é, aliás, limita-
da." A impressão que o visus histórico das joveijs gera-
ções tenha diminuído advém da supervalorização do
tipo de sentido histórico ao qual estamos habituados.
Ainda desconhecemos muito sobre os aspe.ctos positi-
vos que a civilização de hoje está em condição de ofe-
recer (mediante a gravação dos sons e das imagens ou
a ativação de bancos de dados), possibilidades "objeti-
vas", anteriormente desconhecidas, de acumular uma
enorme dimensão de memória histórica e de a ela ace-
der facilmente. ' -
O que está em crise não é a memória histórica
enquanto tal. Talvez, sejam os critérios "subjetivos" de
seleção que serviam a individuar os elementos signifi-
cativos e importantes das histórias nas quais estamos
implicados e sobre as quais nos interrogamos. Tal de-
saparecimento vem sendo festejado por alguns como
resultado do "desmoronamento das ideologias" e das
utopias. Isto é, teríamos entrado numa época total-
mente desideologizada, como se somente agora, após
séculos e milênios, tivesse caído a venda dos olhos e
pudéssemos finalmente ver a realidade tal com ela é,
com um olhar desanuviado.
Entretanto, trata-se novamente de uma cômo-
da mistificação. Na realidade não declinam nem a
ideologia, nem a esperança, nem a utopia, dado que
para tais mesclas de desejos e de projetualidade não
foram inventados Substitutos. O que se dissolye são
somente determinadas ideologias, esperanças ou uto-
pias, aquelas que orientaram, num passado recente, as
concepções dominantes da história.
Se, retrocedermos às utopias, para ver como de-
las derivou urti significado histórico, descobrimos que
foram concebidas no século III a.C. sempre em termos
geográficos, como lugares geralmente ilhas - onde
teria existido uma sociedade perfeita, que não perten-
ce entretanto, ao mundo conhecido. A ele se aproa
por acaso. Em linguagem clássica, a utopia é, por con-
seguinte,.um adynaton, um "impossível" ou um "irrea-
lizável", mas que serve copio unidade de medida para
jtílgar o presente. É somente no século XVIII, com o
romance de Louis-Sébastien Mercier, 0 ano 2440, que
a utopia geográfica se torna utopia temporal, transfe-
rindo a sociedade perfeita para o futuro. O impossível
torna-se então possível, a utopia entra na história e a
história torna-se um processo de aproximação pro-
gressivo da utopia, do espaço de tempo entre o imperfeito
hoje e o perfeito amanhã.
s Com isso a teoria de Rousseau, aparentemente
ingênua, segundo a qual o homem sai bom das mãos
do Criador e vem corrompido pela sociedade, assume
um caráter subversivo. Por outro lado é curioso que
um cidadão de uma República teocrática calvinista, de-
fensora do dogma do "mal radical" congênito no ho-
mem, tenha defendido tal posição e considerado cada
criança que nasce como portadora de uma "perfeição"
a ser subtraída pelos degradantes mecanismos exter-
nos. Todavia, Rousseau inverte, uma idéia que não era
compartilhada exclusivamente pelos austeros genebre-
ses. Que as crianças nascem e crescem más tinha sido
Solenemente sustentadó também pelos Pais da Igreja e
por filósofos, pelo menos desde Cícero até Hobbes.-»
Recusando tais teses, Rousseau transforma ra-
dicalmente a imagem da política e da história. Com
efeito, a política tinha sido até então, preponderante-
mente entendida como a tentativa de colocar um freio
na maldade dos homens mediante os vínculos de au-
toridade e de força das leis. Defender - com uma as-
serção que será explicitamente ou implicitamente se-
guida pelos jacobinos e por todos os defensores das re-
voluções modernas - que a natureza do homem é boa
significa, porém conceber a história como uma grande
marcha de aproximação a uma finalidade, a um telas, con-
sistindo na recuperação da bondade originária, mas
levando em conta as modificações que a natureza hu-
mana sofreu ao longo da história.
Assim,,a história, que no início da modernida-
de era concebida como narração de upia série de
acontecimentos íeila inteligível pelo recurso à Divina
Providência ou a princípios naturalísticos (como, por
exemplo, o maquiaveliano ciclo de nascimento, matu-
ridade e senilidade dps Estados), junto com a utopia,
liga-se ao esforço de explicar a si mesma mediante
uma dinâmica interna. x

Quais as conseqüências desse conúbio? Se a


perfeição é colocada no futuro, ou seja, num tempo al-
cançável por etapas pelo movimento histórico, a história
torna-se inervada de utopia, adquire uma sua lógica
finalista autônoma, que as velhas formas de narração
teológica não possuíam. A utopia perde o caráter de
impossibilidade que lhe era próprio e se encarna nó
movimento histórico. Ao mesmo tempo - devendo
acertar as contas com "as duras réplicas" da realidade
- , diminui as próprias pretensões, despede-se do im-
possível e volta-se às possibilidades remotas.
Ppdemos, agora compreender de que modo o
enxerto da utopia transformou o sentido histórico: in-
traduziu nele o pathos dos vínculos e das possibilida-
des, das barreiras e dos desfiladeiros da realidade.
Aguçou desmesuradamente a percepção do carrlinho
tortuoso, mas necessário que conduz à meta (e que
pede sacrifícios). A historiografia e as filosofias da his-
tória que viviam em simbiose com ela desempenha-
ram assim - durante quase dois séculos - as funções
de um grande sistema viário de orientação do sentido
de vidas.submetidas ao choque de mudanças contí-
nuas. Um quadro, este, que tomou o lugar da idéia
que se pode andar para onde nos leva a mão invisível
de Deus ou que a história não tenha nenhuma dire-
ção privilegiada ou reconhecível. Uma vez delineado
o eixo do movimento histórico e o modelo de perfei-
ção para o qual é possível encáminhar-se (a abolição
da corrupção social, o desenvolvimento da individua-
lidade, a sociedade sem classes), a história apresentou-
se como uma espécie de mapa do tesouro c'om p quaj
cada uni acreditava ter nas próprias mãos os sinais do
percurso e dos obstáculos a serem superados para al-
cançar as metas cobiçadas.
O que hoje entrou, em crise não são efetiva-
mente a ideologia ou^s filosofias da história, mas sim
a aliança, estabelecida no final do século XVIII e em
vigor até há poucos anos, entre história e utopia. A
idéia de que uma lógica intrínseca aos acontecimentos
- explicável segundo os seus próprios princípios + per-
corra esta "histórica civil" feita pelos homens não en-
contra mais acolhida. Por isso, ela parece atualmente
cindir-se e bifurcár-se de novo em duas partes: na his-
tória sacra, reproposta pelos assim chamados "funda-
mentalismos", que celebram a derrota do projeto mo-
derno de construção de uma história totalmente ima-
nente; no pós-moderrto, que registra o fim das ilusões
ernancipatqrias e do impulso propulsor da modernida-
de, justamente daquele tempo què tinha prometido se"
renovar (Neuzeit, era moderna, significa, exatamente,
"novo tempo" em alemão) e se auto-superar incessan-
temente com relação à imobilidade medieval.
Apresento a hipótese que o que chamamos de
"diminuição do sentido histórico", o esmagamento
sob o presente, seja causado pela não crença no fato de
que o curso da história se dirige espontaneamente para o me-
lhor. O primado do precedente sentido da história du-
rou até quando foi assegurado pela confiança numa
reserva áurea de "progresso" acumulada no curso dos
séculos, (como nos bancos centrais, esta reserva não
deve cobrir a totalidade do dinheiro circulante: basta
30 ou 40 por cento; mas ai se, por uma crise de con-
fiança, todos os cidadãos quisessem simultaneamente
converter todo o papel-moeda em nobre metal).
Quando esmorece a intuição de que a história tenha
um telos unificador e aí nos encontramos imersos ou
em tantas histórias locais, aparentemente conexas por
um fio tênue com a história geral, ou numa história
global da qual não se alcança o significado, retorna-se
então, de cejto modo, a conceber a história em senti-
do pré-móderno.
Todavia, é aparentemente paradoxal o fato que
hoje venha perdendo credibilidade a idéia de uma
conspiração dos acontecimentos para upi fim comum,
justamente no momento em que o mercado mundial
e o sistema de comunicações colocam em contato rá-
pida e facilmente todas as populações da terra, no mo-
mento em que se torna sempre mqis espessa a rede de
interdependências globais.
Pela primeira vez estamos virtualmente em condições
de apreender a história contemporânea como um todo. Ò que
constituía há algum tempo o postulado da obra de Po-
libio (a convicção de que a política de Roma tivesse fei-
to explurtbus unum, de muitas histórias locais uma úni-
ca história) transformou-se em conhecimento do mais
vasto processo de "globalização" que se realiza hoje sob
os nossos olhos e que abarca todos os aspectos da exis-
tência. Contudo, devemos registrar uma espécie de es-
trabismo perceptivo, porque, de um lado, assistimos ao
avanço da "globalização", de outro, ao fechamento em
si mesmó de culturas locais e a sua vontade de sub-
trair-se à homologação planetária (mesmo se, em si
.mesma, a divergência não constitua um valor negativo
e não está dito que uma humanidade fejiz, ou uma hu-
manidade pacificada deva forçosamente ser uma hu-
manidade que convirja para objetivos comuns).
Desta perspectiva, pode-se dizer que a ausência
do sentido histórico depende do fato que se perdeu de vista
qualquer processo unitário da história sob a guia de um
bem individualizado protágonista. Isto é, faltam os cri-
térios de seleção implícitos nos modelos que interpre-
tavam o procésso histórico como processo unitário
guiado por macrosujeitos. Abre-se assim um espaço no
qual tem lugar a difícil passagèm para outros critérios
de seleção, justamente, "estrábicos" ou ainda não es-
tabelecidos. As razões deste estrabismo dependem, de
, um lado, do relevo obtido pelas tendências à "globali-
zação", em cujo quadro unificador interagem entre si
as diversas histórias humanas antes completamente
separadas, e, por outro, delas continuarem a perma-
necer fragmentárias, não coordenadas e, às vezes,
contrapostas a uma história geral que perdeu, em par-
te, o próprio fascínio. Isso Ocorreu de maneira dupla:
porque o seu movimento unificador não segue mais a
lógica da consciência coletiva (como na palavra de or-
dem: "Proletários de todos os países, uni-vos!"); por-
que os efeitos do mercado múndial parecem não favo-
recer a expansão da democracia e a participação de to-
dos os homens; com igual dignidade, na-çonstrução de
um destino comum. Disso resultou, por repercussão,
uma espécie de parcial introflexão do movimento his-
tórico, quer dizer a falta do interesse na ihtegração das his-
tórias locais numa história mundial, e o surgir no seu lu-
gar de uma aguda desconfiança com relação aos processos
de 'globalização e de modernização. Dado que estes se
apresentam como rolos compressores capazes de ani-
quilar cada diferença, crescem, por parte de muitos
povos e grupos, as reivindicações de autonomia com
relação à história mundial. À revogação de confiança
no desenvolvimento sensato da história mundial cor-
respondeu o seu fechamento numa história que/cir-
cunscrita no âmbito da experiência próxima e direta,
adquire uma maior perspicuidade. De resto, um dos
maiores antropólogos vivos, e americano Clifford
Geertz, defendeu - mesrrio se num plano diferente - o
papel do local knowledge, do saber local, circunscrito a
fenômenos precisáveis, contra as generalizações ex-
tremas, todas indevidas. Todavia, o ponto no qual che-
gamos poderia, resumir-se na lamentável constatação
que parecemos não sermos mais capazes nem de dar
sentido à história em geral, nem de retornar para os li-
mites protegidos da história local.
Isso porque, talvez, não sabemos o que pedir à
história e o campo magnético das perguntas não
orienta a agulha das respostas. Daí a percepção dividi-
da da história quando, embora estando de fato mergu-
lhados num fato global, mesmo podendo participar si-
multaneamente de acontecimentos distantes às vezes
de milhares de quilômetros, o nosso sentido histórico
tende novamente, por compensação com relação aos peri-
gçs de desenraizamento, a valorizar a dimensão local ou
aquela privada, julgadas mais gratificantes ou mais se-
guras diante dos infortúnios e das misérias do plane-

f
ta. Querer subtrair-se à história do mundo, fechando
os olhos com relação aos momentos de sentido que a
análise pode çxtrair das conexões mais amplas dos
fenômenos, revela-se, entretanto, um projeto inexe-
qüível, além de inútil. Não conseguiremos nunca tor-
narmo-nos independentes da concatenação com ós
acontecimentos "externos", nem mesmo se nos reti-
rássemos por toda a vida num deserto, posto que,
mesmo naquele lugar solitário não poderíamos sub-
trair-nos ao que aprendemos na nossa sociedade de
proveniência. As estratégias de isolamento que ten-
dém a desvincular-se completamente dos condiciona-
mentos históricos são, portanto também igualmente
infaustas como as que buscam" imergir os homens nos
acontecimentos até o ponto de fazê-los perder as bases
referenciais e a autonomia individual.
O desenvolvimento histórico, mesmo nas suas
teorizações, caminhou sempre com as pernas dos ma-
crosujeitos (Deus, a Providência, o Estado-Nação, o
Povo, a Classe). Agora eles perderam o monopólio da con-
dução sensata dos fatos, e se encontram, no máximo
como coadjuvantes numa trama sem enredo. Não"
existe mais, com efeito, nem um protagonista reco-
nhecido, nem um diretor que dê indicações precisas,
nem um roteiro já escrito que dite o ritmo (e talvez
não tenha nunca existido a não ser na nossa percep-
ção da "realidade" histórica). Mas isto não significa
que os grandes atores do processo histórico tenham
desaparecido, nem que o sentido dós aconteciínentos
deve ser deixado à deriva. Trata-se antes de saber o
que queremos pedir, de focalizar prospectivamente os
nossos problemas e de reconstruir e manter atualiza-
da uma nova cartografia, aprimorando òs necessários
instrumentos conceituais. Conscientes de uma vanta-
gem paradoxal: que a atual situação, justamente por-
que ainda obscura nas suas soluções, oferece, a quem
deseje aproveitar, espaços de oportunidades entre os
quais esculpir algumas das inumeráveis facetas da his-
tória de todos.
BIBLIOGRAFIA

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APÊNDICE

. FILÓSOFOS E HISTORIADORES COLOCADOS EM


DESTAQUE SOB A COORDENAÇÃO DE MARIA
BRECCIAROLI E DELFINA MAFFEIS

APRESENTAÇÃO
Com o objetivo de tornar mais fácil a leitura desse li-
vro aos leitores que, por vários motivos, deixaram de fre-
qüentar com assiduidade os filósofos colocados em destaque
(assinalados em maiúsculas) por Remo Bodei, imaginamos
que pudesse ser útil anexar esse.fichamento. •
Pensou-se, portanto, de fornecer, para cada-filósofo es-
tudado, informações biográficas essenciais e o trajeto de seu
pensamento, necessário para situar melhor "a filosofia da
história" apresentada pelo autor desse livro.
Devido à natureza sintética dessas fichas e de sua
finalidade de apoio à memória, houve inevitáveis omissões,
às vezes importantes para quem deseja encontrar uma apre-
sentação exaustiva, e nesse sentido correta, década um dos fi-
lósofos.
No tocante à bibliografia, fornecemos apenas o pano-
rama das obras mais importantes de cada pensador, situadas
ao longo de sua existência ou publicadas após sua morte.
A ordem escolhida para apresentar os filósofos é a alfa-
bética porque facilita a consulta das fichas durante a leitura.
Finalmente, queremos esclarecer que dedicamos a al-
guns filósofos contemporâneos um espaço proporcionalmente
maior em comparação a outros do passado, por considerar-
mos que, para o leitor culto mas não especialista, é sem du-
vida mais fácil encontrar informações sucintas sobre autores
clássicos do que sobre filósofos ainda vivos. Entretanto, hou-
ve algumas exceções e foram catalogadas fichas relativamen-
te mais longas a alguns grandes autores cujo pensamento,
por ser particularmente estruturado, não permitia omitir
passagens lógicas relevantes. '•
Aurélio Agostinho - nasceu em Tagasta, no Norte da Áfri-
ca, na época da dominação romana, em 354 e morreu em
430. Seus estudos foram predominantemente retóricos, mas
dedicou-se à filosofia depois do encontro com VHortensius de
Cícero. Em 383 mudou-se para Roma a fim de lecionar re-
tórica e, no ano seguinte, foi nomeado professor em Milão.
Nessa cidade, a pregação de Ambrósio e a influência da mãe,
que era cristã, ajudaram-no a resolver sua crise interior e
sua inquietação espiritual. Antes adepto do maniqueísmo,
tornou-se a seguir um dos mais firmes defensores dos prin-
cípios cristãos contra as heresias maniqueísta, domatista e
pelagiana
Suas reflexões sobre o significado da história encon-
tram-se na obra Decivitate Dei (A cidade de Deus), em 22 vo-
lumes, que foi escrita entre 412 e 426 e é uma das obras-pri-
mas de Santo Agostinho. O protagonista da história é Deus
è 0 fluxo dos acontecimentos segue as etapas da vitória do
amor do homem por Deus, até seu triunfo final. Entretanto,
a história não é desprovida de substância dramática por cau-
sa do conflito que domina a vida do homem: viver segundo
o amor por Deus ou segundo o amor por si mesmo. Na his-
tória essa alternativa é encarnada, ou representada, péla
luta entre a cidade terrena, ou cidade do demônio (domina-
da pelo amor sui), e a cidade celestial, a cidade de Deus, re-
gida pelo amor Dei. Embora seja fácil reconhecer nessa con-
traposição uma outra, entre a Igreja e o Império, não Seria
correto interpretá-la apenas como simples contraposição en-
tre instituições nem entre uma cidade supramundana e uma
cidade terrena. ,Na realidade, a tensão, ou o embate, otorre
entre duas categorias históricas e ideais que se enfrentam no
mupdo terreno. Outras obras, entre as muitas de sua auto-
ria, são: De libero arbítrio (3 livros), De Trinitate (15 livros), Re-
tractatíones,' Cartas, Confessiones.
Hannáh Arendt - filósofa alemã, nasceu em Hannover
em 1906 e morreu em Nova York em 1975. Formou-se nas
universidades de Marburg, Friburg e Heidelberg, tendo
como professores M. Heidégger, R. Bultmann e K Jaspers.
De origem judaica, em 1933 refugiou-se na França, onde
permaneceu até 1940, ano em què Se mudou para os Esta-
dos Unidos.
Sua pesquisa filosófica realizou-se principalmente na
forma de antropologia política, expressa em diversos ensaios
e estudos. Na obra As origens do totalitarismo (1951), o anti-
semitismo, o imperialismo e a transformação plebiscitária
das democracias são vistos como conseqüências naturais do
caráter apolítico da cultura moderna. Em Vita activa (1958)
o contraste entre um tipo ideal de comunidade política
(como, por exemplo a polis grega dos tempos de Péricles) e
a decadência da ação política do pensamento ocidental, é
visto e abordado como objeto de elaboração filosófica. Para
Arendt, o agir define o ser humano como ser-com-os-ou-
tros; assim a identidade humana não se realiza na intimida-
de da consciência como fenômeno subjetivo, nem na socie-
dade, considerada como lugar das necessidades, do trabalho
e da reprodução, mas se constitui na esfera pública.
No ensaio Sobre a revolução (1963), analisam-se os re-
sultados perversos das revoluções americana e francesa, in-
terpretadas como momentos de passagem da liberdade públi-
ca para o domínio da sociedade administrada e estatal. Ou-
tros ensaios, entre os quais Entre passado e futuro (1961), es-
tendem a crítica da modernidade a outros problemas, como
a história, á tradição e a autoridade. No tocante à sua inter-
pretação do judaísmo moderno, Arendt o considera dividido
entre a aspiração à assimilação social e a fuga para a interio-
ridade. Esse fenômeno aparece como o espelho de uma ten-
dência geral do mundo moderno dividido entre dois pólos,
de um lado a consciência subjetiva, de outro a esfera social.
No último período de sua vida, na obra inacabada e
póstuma A vida da mente (1978), Hannah Arendt voltou a va-
lorizar a importância da vida contemplativa: a experiência
espiritual estaria centrada em pensar, querer e julgar; o agir.
embora sendo fundamental para a identidade humana, é vis-
to de maneira problemática no contexto de uma sociedade
de massa, isto é, de uma sociedade em que vai definhando a
possibilidade de uma experiência política autenticamente li-
bertária. Essa posição é levada às extremas conseqüências no
ciclo Lições sobre a filosofia de Kant (1982, obra póstuma). Aqui
a dimensão pública do existir não é mais encontrada na ação
política, mas no juízo, entendido como a capacidade de saber
ler o "espetáculo do mundo".
Fernand Braudel - nasceu na França, na cidade de Lumé-
ville-en Ornois, em 1902 e faleceu em 1985. Professor de
histeria no Collège de France, fundou o "Centre des recher-
ches historiques" da "École pratique des hautes études". Em
1956 foi nomeado diretor da revista "Annales", fundada e
dirigida, anteriormente, por Lucien Febvre. Braudel é consi-
derado o maior teórico de uma perspectiva historiográfica
definida como "história global". Entre suas obras mais im-
- portantes, estão 0 Mediterrâneo e o mundo mediterrânico na
época de Felipe II (1949), O mundo atual (1963), Escritos sobre a
história (1969), O Mediterrâneo (1985).
A história é lida por Braudel de maneira global, fora
do. tempo, com o objetivo de realizar o encontro constante
entre o "passado e o presente que nos permita compreender
plenamente o mundo de ontem e o mundo de hoje. A me-
todologia de Braudel vale-se da contribuição de outras disci-
plinas, da antropologia à psicologia, a'partir da c-onvicção de
que somente pela multiplicidade de pontos de vista se pode
alcançar uma leitura, pelo,menos verossímel, do passado.
Narrada história do Mediterrâneo não significa para Braudel
relacionar uma série de fatos históricos, mas contar a histó-
ria de um lugar geográfico, de um espaço, de um conjunto de
culturas, religiões, estruturas sociais e políticas, narrar, em
suma, a complexidade de um lugar cultural.
Jean-Antoine-Nicolas Condorcet - o marquês de Con-
dorcet nasceu, em 1743, em Ribemont (Aisne-França) e.
morreu em Bourg-La-Reine, Paris, em 1794. Matemático,
filósofo, além de economista e homem político, foi um dos
principais expoentes do grupo da Encyclopédie. Durante a Re-
volução redigiu um projeto de reforma da educação pública
segundo os princípios das Luzes. Adversário dos jacobinos,
suicidou-se na prisão, envenenando-se.
No Êsboço de um quqdro histórico dos progressos do espíri-
to humanorCondoxcet exalta a perfectibilidade humana regi-
da por um princípio progressivo irrefreável. A história apa-
rece-lhe dominada pelo embate entre o obscurantismo e o
progresso dos conhecimentos científicos, embate vencido
pelo segundo. O processo histórico, em sua opinião, termi-
nará, provavelmente, com a destruição da desigualdade,
seja entre as nações, seja entre as pessoas no interior de cada
país, e com o aperfeiçoamento da natureza humana.
Joaquim de Fiore - nasceu.entre 1130 e 1135 em Célico,
na região do Cosentino, e morreu no mosteiro de São Mar-
tino di"Canale, em 1202. Monge e depois abade, dedicou-se
à exegese das Sagradas Escrituras, das quais elaborou uma
interpretação alegórica e simbólica.
Em seus escritos buscou as manifestações da ação tri-
nitária na história, ou seja, as intervenções de Deus no
mundo segundo a perspectiva da salvação. A exegese bíbli-
ca transformou-se em profecia: à idade do Pai (o Velho Tes-
tamento) e à idade"do Filho (o Novo Testamento), seguiria a
idade do Espírito. Suas idéias sobre a Trindade foram conde-
nadas pelo quarto Concílio lateranense em 1215, sem que
fossem declaradas heréticas. A concepção de Joaquim de
Fiore dos três estágios difundiu-se e tornou-se a bandeira de
uma profunda renovação da Igreja, influenciando os fran-
ciscanos e outros movimentos religiosos como os flagelantes.
e os adeptos de Dolcino.
Arthur Coleman Danto - nasceu em Ann Arbor, Michi-
gan, em 1924. Filósofo norte-americano, discípulo do neo-
positivista E. Nagel, leciona na "Columbia. University" de
Nova York desde 1952. Seu livro mais "conhecido é Filosofia
analítica da história (1964, republicado em 1985 com o título
Narração e conhecimento). Nessa obra, Danto propõe uma filo-
sofia da história que deve ser entendida como teoria-da ma-
neira de os seres humanos representarem o mundo em uma
forma narrativa, que. pré-forma a observação empírica, à se-
melhança das teorias científicas.
O trabalho de Danto concentra-se na noção de "re-
presentação", destacando o fato de que é por sermos seres
"capazes de representações que estamos em relação com o
mundo em termos de causalidade e verdade". Assim, seu
sistema articula-se não somente com a filosofia da história,
mas também com a filosofia do conhecimento, da ação, da
arte e da mente.
Outras obras do autor: Nietzsche filósofo (1965); Filoso-
fia analítica do conhecimento (1968); Misticismo e moralidade:
pensamento oriental e filosofia morai (1972); transfiguração do
lugar comum (1981); Conexões com o mundo (1989).
Wilhelm Dilthey - filósofo e historiador alemão, nasceu
em Biebrich, na Renânia, em 1833 e morreu em Siusi, pro-
víncia de Bolzano, em 1911. Principal expoente do histori-
cismo alemão contemporâneo, apresenta uma vastíssima
produção em vários campos: psicologia, historiografia, ética,
estética, pedagogia, filosofia da política, filosofia>da história
e da pesquisa científica, crítica literária. Formou-se na Uni-
versidade de Berlim e posteriormente lecionou em Basiléia,
Kiel, Breslávia e Berlim. Entre seus escritos teóricos os mais
importantes são: Introdução às ciências do espírito (1883); Idéias
para uma psicologia descritiva e analítica (1894); Experiência vi-
vida e poesia (1905); Estudos sobre a fundação das ciências do es-
pírito (1905-10); A construção do mundo histórico nas ciências do
espírito (1910).
O aspecto fundamental de sua investigação é consti-
tuído pela exigência de elaborar uma "crítica da razão histó-
rica", na tentativa de definir as possibilidades, os limites e os
modos do conhecimento do mundo espiritual. Por esse ca-
minho consegue tornar autônomo o saber histórico, seja em
relação à metafísica, seja em relação às.ciências naturais,
conferindo-lhe uma fundamentação psicológica: não se tra-
ta, evidentemente, de uma psicologia moldada pelas ciên-
cias da natureza, porque elas apreenderiam seu objeto só
exteriormente, mas de uma psicologia que leva em conside-
ração^ a capacidade de reviver as experiências' dos homens a
partir da interioridade.
A história diz respeito, então, aos Erlebnisse, às "ex-
periências vividas" pelo homem na forma de sentimento,
embora,movidas, em,profundidade, por um sentido de firta-
lidade ou pelo pensamento implícito de uma idéia (a qual,
por meip daquele sentimento, deixa-se apreender pela cons-
ciêhcia). A tarefa do historiador reside, portanto, em tornar
mais explícitas essas intenções implícitas no sentimento (dos
indivíduos e da época) e colher a "visão de mundo" (Wel-
tanschauung) própria da época e do indivíduo representati-
vo. As várias Weltanschauungen não podem ser comparadas
çntre si, porque cada época pode ser compreendida com um
critétio interno a ela. Nesse sentido, com Dilthey chega-se a
um radical relativismo de valores. No último período de sua
vida, estudou, em sua Essência da filosofia, a nova realidade
da filosofia, modificada pelo fato de ter-se tornado conscien-
te de sua historicidade.
William Dray - nasceu em Montreal, em 1921. Lecionou
na Universidade de Ottawa e foi um dos expoentes da filo-
sofia analítica norte-americana. Suas obras mais relevantes
são leis è explicações em história e Filosofia e conhecimento histó-
rico, respectivamente de 1957 e 1964.
Dray-critica as teses de Hempel segundo o qual toda
explicação histórica faria referência a uma generalização e
considera que a tarefa fundamental* do historiador é deter-
minar os aspectos particulares de um fato para definir as
condições específicas da verificação, em uma dada situação,
de um acontecimento. Objetivo fundamental da explicação
histórica deve ser determinar o como dos acontecimentos e
não o porquê, ou seja, determinar as condições objetivas es-
pecíficas que permitiram a verificação do acontecimento.
Dray frisa a orientação diferente da explicação histó-
rica e da explicação científicá, como também o tipo diferen-
te de causalidade a que elas fazem referência, e afirma a
abertura e a unicidade dos acontecimentos históricos, que
não podem ser comparados aos paradigmas naturalistas so-
bre os qüais se fundamenta a explicação científica.
J o h a n n Gustav Droysen - nasceu em Treptow, na Pome-
rânia, em 1808 e morreu em Berlim em 1884. Historiador,
homem político e filósofo da história, em Berlim foi aluno
de Hegel. Lecionou em Kiel, Jena e Berlim. Em 1848 foi de-
putado em Frankfurt, com uma posição política favorável à
Prússia que o levou a colaborar na constituição do império.
Essa atividade está, de modo relevante, na base de
sua obra História da política prussiana (1855-86), em que ele
expressa também sua peculiar concepção da história,-segun-
do a qual a arte e a cultura podem florescer e desenvolver-
se sobretudo em um grande estado unitário. Escreveu tam-
bém uma História do helenismo (1877-78). No Sumário de his-
tórica, que apareceu p.óstumo em-1937, estão resumidas suas
teorias historiográficas, que procuram dar ao saber histórico
uma fundamentação metodológica rigorosa e autônoma.
Com efeito, o conhecimento histórico é separado e quase con-
traposto ao 'conhecimento científico, por ser dirigido à "com-
preensão" das "individualidades" (objetos da pesquisa do
historiador), ao passo que o conhecimento científico (inte-
ressado ha "generalidade") é dirigido à "explicação". Disso
decorre uma critica ao positivismo historiográfico. Com base
na compreensão do passado, a pesquisa histórica busca uma
interpretação para a realidade presente.
Adam Fergusson - nasceu na Escócia, em Logierait, em
1723 e morreu em Saint Andrew, em 1826. Sociólogo e his-
toriador, Fergusson lecionou na Universidade de Edimburgo
de 1759 a 1785. Foi autor de estudos importantes também
no campo da economia.
Em sua obra fundamental, o Ensaio sobre a história da
sociedade civil (1767), e na obra posterior Princípios de ciência
política e moral (1792), Fergusson expressa uma concepção
dinâmica e dialética do espírito humano e da vida político-
social, especialmente à luz das mudanças profundas trazidas
pelo desenvolvimento da sociedade industrial. Mostra-se
particularmente atento também aos efeitos que a divisão so-
cial do trabalho produz na vida moral e nos costumes dos
indivíduos, e capaz de apontar os aspectos negativos de uma
sociedade fundada sobre a pura eficiência e Sobre a crescen-
te burocratização do aparelho estatal. Revela-se muito per-
tinente sua análise do caráter alienante do moderno traba-
lho assalariado.
J o h a n n Gottlieb Fichte - filósofo, nasceu na Saxônia, em
Rammenau, em 1762, de uma família modesta. Morreu em
Berlim em 1814. Lecionou nas Universidades de Jena
(1794-1799), de Erlangen e de Berlim, onde foi também o
primeiro reitor eleito (1811). Sua atividade interrômpeu-se
repentinamente porque Fichte contraiu o tifo que o levou à
morte, çom apenas cinqüenta e dois anos.
Liberdade política e moral e autonomia do pensa-
mento são os temas de fundo de sua investigação filosófica.
Fichte manifestou sua adesão aos ideais do Iluminismo e da
Revolução Francesa em suas primeiras obras, Reivindicação
da liberdade de pensámento-.e Contribuições à retificação dos juízos
do público sobre a revolução francesa (1793). Mais tarde uma
obra fundamental, Doutrina da ciência, teve várias reedições;
as principais são as de 1801, 1804 e 1810. Outras obras im-
portantes: Discursos sobre a missão do douto (1794; 1806; 1811)
e Discursos à nação alemã (1807-1808), manifesto do naciona-
lismo alemão.
A partir de 1800 o pensamento de Fichte caracteri-
zou-se pela predominância da temática religiosa. No tocan-
te à história, nos Tratados fundamentais da época presente, Fich-
te parte do pressuposto de que a vida terrena segue um "pla-
no do mundo" em função do qual a humanidade como es-
pécie deve organizar todas as suas relações com a liberdade
seguindo a razão. Em resumo, a história é o desenvolvimen-
to do saber, ou seja da imagem de Deus. Esse desenvolvi-
mento passa de uma fase de inocência, de indistinção.entre
razão e instinto, para uma fase em que a razão domina li-
vremente e ascende do kantiano "reino dos fins" ao reino de
Deus.
Carlo Ginzburg - nasceu em Roma, em 1939. Estudou na
"Scuola Normalé Súperiore di Pisa" e ensinou nas universi-
dades de Lecce, Roma, Bolonha e Los Angeles (Ucla). Em
suas obras explorou seu interesse pela magia, bruxaria e
teoria da'mentalidade, centrada especialmente na cultura
renascentista. Mas a pesquisa essencial, que perpassa todas
as suas obras, é dê natureza metodológica e está voltada
para a relação ou a colaboração, talvez impossível, entre a
análise çlas formas e a investigação de tipo histórico-cronoló-
gico, e entre a morfologia e a história, como esclarece o subtí-
tulo que ele deu à segunda edição (1992) de seus ensaios
Mitos, emblemas e sinais (1986).
CVoce, lido através de Gramsci, Spitzer, Auerbach,
Contini, e ainda Adorno, Bloch, Freud e Propp foram seus
autores de referência e sobre eles estruturou sua formação
cultural,^voltada «entre populismo e pesquisa estilística».
Movido pela aspiração de subtrair-se «seja à aridez
d a racionalismo, seja à estagnação do irracionalisráo», Ginz-
burg interessou-se primeiramente pela narrativa literária;
.depois se voltou para a hermenêutica, que privilegia ó par-
ticular revelador, como método de invèstigação à Sherlock
Holmes. Este corte mental de tipo abdutivo, que para Gins-
burg devia pertencer ao historiador profissional, foi conside-
rado insuficiente por ele, quando proclamou (no livro sobre
o processo ao seu amigo Adriano Sofri, O juiz e o historiador,
de 1991) que «as estradas do juiz e do historiador, coindden
tes em parte dó percurso, divergem depois de algum tempo,
inevitavelmente. Quem tenta reduzir o historiador a juiz,
simplifica e empobrece o conhecimento historiográfico; mas
quem tenta reduzir o juiz a historiador prejudica irremedia-
velmente o exercício da justiça». Em todo caso, é dever de
ambos não' confiar em um único testemunho, sem confron-
tá-lo com outros fatores.
Outras obras de Ginzburg são: Bruxaria e piedade po-
pular (1961); 1 benandanti (1966); II nicodemismo (1970); O
queijo e os vermes (1976); Investigações sobre Pedro (1981).
Georg Wilhelm Friedrich Hegel - nascido em Stuttgard,
em 1770, morreu em Berlim, em 1831. Completou seus estu-
dos em Tübingen é sua formação foi profundamente influen-
ciada por Kant, Herder, Rousseau. Em Jena, onde trabalhou
como preceptor,, publicou o seu primeiro livro, Diferença dos
sistemas filosóficos de Fichte e Schelling. Hegel reivindicava para a
filosofia a tarefa fundamental dê compreender o absoluto, su-
perando os limites postos pelas filosofias do subjetivo, com o
intuito de realizar a absoluta conciliaçãd dos opostos.
Em 1807, publicou a Fenomenologia do espírito, obra
na qual a concepção do absoluto não constitui mâis o pon-
to de partida da filosofia, o seu iniciar, mas o seu fim. O ver-
dadeiro-absoluto é só o conceito-idéia em si mesmo. À feno-
menologia do espírito pretende mostrar, em sua concatena-
ção necessária, as manifestações do espírito. O objetivo não
é seguir o desenvolvimento histórico da humaríidade na di-
mensão do tempo, mas colher os momentos ideais do de-
senvolvimento do espírito por meio de suas vicissitudes. O
processo de formação do espírito culmina na autoconsciên-
cia do espírito mediante o superamento de todas as oposi-
ções presentes na consciência natural.
Em 1812, é publicado o primeiro volume da Ciência
da Lógica. Nessa obra, Hegel, não se coloca no terreno da
consciência, mas remonta além dela, até as entidades con-
ceituais originárias. O desenvolvimento da realidade passa
por três momentos fundamentais: a idéia, a natureza, o espíri-
to. A idéia, por sua vez, em seu desenvolvimento, percorre
três fases: ser, essência, conceito. Hegel esboça um desenvolvi-
mento necessário da racionalidade, no interior do qual toda
determinação conceituai representa a solução das antino-
mias nascidas na determinação anterior, mas, ao mesmo
tempo, gera novas antinomias, exigindo assim que elas se-
jam resolvidas numa jiova determinação.
A lógica hegeliana elabora, assim, o princípio da uni-
dade dos opostos. O princípio fundador da nova lógica, por-
tanto, considera a oposição uma relação imanente que fun-
da ela mesma os seus termos, de modo que aquilo que é real
seja caracterizado pela unidade dos opostos.
Em 1816, Hegel torna-se professor de filosofia na
Universidade de Heidelberg e em 1817 publicou a Enciclopé-
dia das ciências filosóficas, para estudantes, uma exposição sis-
temática do seu pensamento. A primeira parte da obra reto-
ma a análise desenvolvida na Ciência da lógica, ao passo que
a segunda é dedicada à filosofia da natureza. Enfim trata da
filosofia do espírito e nela efetua-se um exame do conjunto
das ciências morais e da cultura humana em geral. O espíri-
to (ou seja, «o trabalho universal do gênero humano») é,
segundo Hegel, o absoluto, o complemento de todas as
coisas, o ponto extremo de síntese para o qual tende toda fi-
losofia, ciência, religião, cultura. O espírito não é transcen-
dente em relação ao mundo, mas constitui seu complemen-
to interno e sua essência é a liberdade. O espírito subjetivo
e o espírito objetivo são a via pela qual vai-se elaborando o
espírito absoluto, cujas formas são arte, religião, filosofia. O
absoluto enquanto conteúdo pertence seja à religião seja à
filosofia. A parte do sistema relativa ao espírito objetivo é
desenvolvida e aprofundada por Hegel nos Lineamentos de fi-
losofia do-direito (1821), que apresentam como modelo ideal
de estado a mònarquia nacional da época da restauração.
A história universal é objeto das Lições sobre a filosofia
da história, ministradas por Hegel na Universidade de Ber-
lim, organizadas e editadas por seus alunos. A história deve
ser olhada na perspectiva da razão, uma vez que inverte os
interesses e as paixões dos indivíduos: A história é domina-
da pela "astúcia da razão", tradução laica e, filosófica do con-
ceito cristão de providência.
Carl Gustav Hempel - nasceu em Oranienburg, na Alema-
nha, em 1905. Especialista em epistemologia, transferiu-se,
desde o advento do nazismo, pára os Estados Unidos, onde
ensinou nas Universidades de Princeton e Pittsburg. Antes de
deixar a Eyropa, foi aiuno de Reichenbach e membro do Cír-
culo de Berlim, além de ter mantido contato com o Círculo
de Viena.
Expoente considerável do Neopositivismo e, ao mes-
mo tempo, protagonista da revisão interna desta corrente
(pois não concordava com seu ponto de vista "verificacionis-
ta"), ocupou-se da lógica do discurso científico, dando im-
portante contribuição nesse campo, nos anos quarenta. É sua
a análise dos conceitos de confirmação e de grau de confirmação
empírica, apresentada na obra Estudos sobre a lógica da confir-
mação (1945).. Dessa análise, originou-se, ainda, a descoberta
do paradoxo dos corvos: mesmo a observação de um objeto que
não é preto e é diferente de um corvo, é uma confirmação da
hipótese de que os corvos são pretos.
Elaborou, com P. Oppenheim, o modelo de explica-
ção por meio das leis de cobertura, na obra Estudos sobre a lógi-
ca da explicação (1948) junto com P. Oppenheim, modelo
aplicado sucessivamente à explicação histórica, à estatística
e à probabilística. i
Na obra O significado dos termos teóricos, de 1973, jeto-
mou a crítica interna ao Neopositivismo e colocando em cri-
se a chamada concepção standard das teorias. Outras obras sig-
nificativas são: Aspectos da explicação científica e outros ensaios
(1965) e Filosofia da ciência natural (1966).
J o h a n n Gottfried Herder - nascido em Mohrugen na
Prússia Oriental, em 1744, morreu em Weimar, em 1803. Es-
tudante de teologia em Konigsberg, dedicou os- primeiros
anos de seus estudos à literatura alemã, da qual contesta a
fria inspiração acadêmica e a falta de espontaneidade. Teólo-
go, educador, grande amigo de Goethe, Herder escreveu, em
1772, o Estuda sobre a origem da linguagem e, no ano seguinte,
uma série de escritos Sobre o caráter e a arte dos alemães, pro-
fundamente influenciados por seus colóquios com Goethe e
pelo manifesto do Sturm and Drang. Obras interessantes em
relação ao pensamento histórico de Herder, produzidas res-
pectivamente em 1774 e 1784-91, são: Mais uma filosofia da
história para a educação da humanidade e Idéias sobre uma filoso-
fia da história da humanidade.
A história, escreve Herder, «é um rio que corre»,
cujo curso é guiado pela Providência «que opera na conti-
nuidade, despertando forças novas e deixando que outras
morram». O passado, em sua opinião, é a fonte do futuro e
isto o induz a reconstruir as origens de uma literatura nacio-
nal, que testemunhe a alma do povo, e a reunir uma série
de cantos populares. A exigência prioritária de Herder foi
compreender toda obra'de poesia, como também toda épo-
ca histórica, partindo de seu interior, com o objetivo de
compreender sua individualidade e peculiaridade. Essa posi-
ção è oposta, portanto, à concepção iluminista do progresso
histórico como desenvolvimento linear voltado para a con-
quista da racionalidade, e reivindica o direito dos povos de
exprimir, de modo autônomo, sua individualidade cultural
e nacional. .
Immanuel Kant - nasceu em 1724, em Königsberg, atual
Kalirtingrado, onde viveu, sem nunca ter-se afastado, e
onde morreu, em 1804. Em 1740, matriculou-se na Univer-
sidade de Königsberg. Trabalhou como preceptor até 1755,
quando iniciou sua carreira de professor universitário em
Konigsberg.
A filosofia de Kant, denominada filosofia critica, criticis-
mo, transcendentalismo ou idealismo transcendental, visava esta-
belecer um método cognitivo e uma doutrina da experiência
que abalasse as bases da metafísica racionalista dos séculos
XVII e XVIII. Influenciaram seu pensamento a física de New-
ton, a psicologia de Locke e o pensamento de Leibniz. Depois
do que ele definiu seu «despertar do sono dogmático», gra-
ças ao ceticismo e ao empirismo de Hume, pôs-se à procura'
de um método que fosse capaz de trazer à luz os limites exa-
tos e o uso da razão, na tentativa de responder a um proble-
ma fundamental: «Com que direito e entre quais limites a ra-
zão pode formular juízos sintéticos a priori sobre dados do
sentido?» Sua reposta foi expressa no chamado método crítico
ou transcendental: na Crítica da Razão Pura (1781-87), na qual
expõe sua filosofia teorética, Kant sistematiza um inventário
completo e uma "dedução" de todas as formas transcenden-
tais, sintéticas, a priori, utilizadas no conhecimento da natu-
reza. Ocupou-se, entre outras, das duas formas ou "intui-
ções" da sensibilidade, isto é do espaço e do tempo, que seriam
propriedades "empiricamente reais", mas "transcendental-
mente ideais", enquanto formas que a mente impõe aos da-
dos sensíveis . Na segunda parte da obra, a "Lógica Transcen-
dental", são tratadas as formas sintéticas do intelecto, chama-
das "categorias" ou "princípios puros do intelecto". Na tercei-
ra parte, a "Dialética Transcendental", Kant põe'em evidên-
. cia como as formas da sensibilidade e as do intelecto não podem
ser usadas para definir a natureza de entidades metafísicas
como Deus, a alma imortal e o mundo concebido como tota-
lidade, negando, com isso, a possibilidade da metafísica como
ciência. A razão não se limita ao seu uso teorético, porque,
além dos objetos da cognição e do pensamento, há- os da
vontade e do sentimento, e é exatamente neste campo, o da
"filosofia prática", expressa na Crítica da razão prática (1788),
que Kant manifesta uma surpreendente doutrina da liberda-
de. Por fim, na Crítica do Juízo (1789-93), o intelecto e a von-
tade são confrontados com os sentimentos de prazer estético,
ou "artístico". N ^
Quanto às reflexões de Kant sobre a história huma-
na, prevalece a idéia de um progresso da humanidade no
plano cultural. Considerando que os homens se movem no
mundo segundo planos e objetivos diversos, Kant procura
individuar um "desenho da natureza", com base na noção
das "disposições naturais" do'homem, destinadas a um com-
pleto "desenvolvimento". Já que o homem procede a tenta-
tivas imperfeitas, esse desenvolvimento pode verificar-se so-
mente no caminho mais longo da espécie humana, caminho
que não vai do bem ao mal, mas do pior pata o melhor. A
mola da civilização residiria no antagonismo dos homens
em sociedade, que os levaria à manifestação dos talentos in-
dividuais, que seriam, por sua vez, produtores de cultura; O
fim supremo da natureza, seria um ordenamento cosmopo-
lita, em uma federação de povos na qual cada Estado seria
tutelado. Para alcançar tudo isso é preciso que o iluminismo,
o .esclarecimento, progrida e se estenda até os. soberanos,
realizando o famoso projeto "por uma paz perpétua" que
põe Kant na linha de um ideal tipicamente setecentista.
Sigfried Kracauer - nascido em Frankfurt, em 1889, mor-
reu em Nova York, em 1966. Ensaísta e escritor, aluno de
Simmel, elaborou um método de investigação da cultura bur?
guesa do século XX, a partir dos microfenômenos qué reve-
lam sua essência mais profunda.
Os primeiros escritos de Kracauer visam analisar a
topografia da vida moderna das metrópoles e neles emerge
a preocupação do autor pelo crescimento indiscriminado de
uma civilização material pouco atenta ao indivíduo e ao seu
significado. O escritor retoma a,distinção e a oposição sim-
meliana entre cultura subjetiva e cultura material objetiva, além
da rejeição de conceitos abstratos como ponto de partida na
análise da realidade.
Em um segundo momento, Kracauer abraçou uma
filosofia materialista da história, assumindo posições mais
próximas às de Bloch e Benjamin, que às do marxismo he-
gelianp de Lukács.
. O estudo publicado entre 1922 e 1925, 0 romance po-
licial, constitui sua primeira tentativa dé interpretação dos
fenômenos que se exteriorizam na sociedade burguesa do
século XX e mostra o valor autêntico de uma sociedade
"des-realizada", fundada sobre a aparência. O detetive, figu-
ra-chave do romance policial, constitui a personificação da
"ratio", a encarnação de uma racionalidade formal que se
exaure no próprio método da pesquisa.
O núcleo da sucessiva análise social de. Kracauer
estará condicionado à imagem do detetive, que desvela as
esferas desconhecidas da realidade social e está constante-
mente em busca dos indícios do significado.
Kracauer compartilha com os teóricos da Escola de
Frankfurt a convicção sobre a importância dos fenômenos
aparentemente superficiais da sociedade, que na realidade
podem ser considerados "casos exemplares" do espírito de
uma época. Esta temática é desenvolvida em uma .obra de
1927, A massa como ornamento. Outras obras significativas de
Kracauer são: Cinema alemão. Do "gabinete do doutor Caligarí" a
Hitler (1947), Antes das coisas últimas (1969). Também no ci-
nema, fenômeno superficial, manifesta-se a verdadeira reali-
dade da sociedade; ele se torna «um espelho fiel no qual se
reflete o mecanismo secreto da sociedade».
Jean-François Lyotard - nasceu em Versalhes em 1924.
Estudou na Sorbonne onde foi influenciado pela Fenome-
nologia husserliana. De 1959 a 1966, sempre na Sorbonne,
- freqüentou ainda os seminários de J. Lacan. Foi professor de
filosofia nas universidades, entre outras, de "Paris VIII - Vin-
cennes"'e da "Califórnia University" em Irvine. >
Lyotard tomou posição frente às doutrinas semióticas
estruturalistas e traçou o limite entre o figurai e o discursi-
vo, tendendo a uma valorização do figurai, limite difícil de
ser traduzido em termos lingüísticos e, portanto, não gene-
ralizável. Um Economia libidinal (1974), as visões de mundo
de Marx e Freud são revistas na perspectiva de uma filoso-
fia crítica que põe em primeiro plano o papel do^individual
em relação ao universal. ,
No .volume-manifesto Condição pós-moderna (1979),
Lyotard supera suas posições precedentes; sustenta, na ver-
dade, que o saber não se reduz nem à ciência nem ao conhe-
cimento: nas sociedades tradicionais o "saber" era condensa-
do em uma série de ^narrativas", ao passo que, com o nasci-
mento da ciência moderna, adota-se um único registro lin-
güístico, o denotativo.'Em nome deste registro, a ciência lê as
narrações tradicionais como produtos de uma mentalidade
"primitiva", prisioneira do mundo mítico. A própria ciência,
para não desembocar no dogmatismo, deve achar fora de si
uma forma de justificação e deve, portanto, recorrer a uma
narrativa que legitime o próprio saber do ponto de vista teó-
rico-filosófico e ético-político. As Grandes Narrações da mo-
dernidade podem ser reduzidas a três tipos fundamentais:
iluminismo, idealismo, marxismo. A sociedade pós-industrial
assinala o declínio das grandes narrativas unificadoras da
modernidade, e pós-moderna é definida por Lyotard pela in-
credulidade nos confrontos da metanarrativa. Lyotard inda-
ga, ainda, as causas do crepúsculo das grandes narrativas,
que ele não atribui tanto aò capitalismo moderno, quanto a
uma espécie de "autodeslegitimação por parte dos próprios
textos, que aspiravam a um saber globalizante, capaz de re-
conhecer os vários setores do conhecimento e da linguagem,
setores, na realidade, incomensuráveis. Não existe, de fato,
para Lyotard, uma metalinguagem geral, na qual todas as
outras linguagens possam se manifestar.
A fase mais recente das reflexões de Lyotard volta -
seu interesse para a ética. Se o que conduz o saber não é só
o momento do consenso, mas o do dissenso, do paralogis-
mo, é necessário alcançar uma idéia de justiça que não seja
ligada ao consenso; ou seja, é preciso reconhecer o hetero-
morfismo contra um isomorfismo globalizante que, no pla-
no concreto, pode traduzir-se em violência ou tirania. Che-
gou-se ao saber pós-moderno somente por meio de uma ra-
zão que visa a legitimações fluidas, parciais e, se necessário,
reversíveis, distante de uma razão forte de tipo epistêmico.
Nessa perspectiva, situa-se a releitura kantinana de Lyotard
no Entusiasmo, assim coma a crítica kantiana da história (1989)
e sua valorização do juízo reflexivo entendido como lugar
de passagem entre os diferentes registros lingüísticos.
Karl Marx - filósofo, economista e homem político, nasceu
em Treviri, na Alemanha, em 1818, e morreu em Londres,
em 1883. Recebeu uma educação de tipo liberal iluminista,
em uma abastadâ família hebraica. Mais tarde teve uma for-
mação jurídico-filosófica, nas Universidades de Bonn e Ber-
lim, que o levaram às suas posições em relação à esquerda
hegeliana.
Depois de formar-se com uma tese sobre a filosofia
•da natureza em Demócrito e Epicuro, tratada do ponto de
vista hegeliano, viu-se obrigado a renunciar à carreira aca-
dêmica, pela reviravolta reacionária ligada à ascensão ao
trono de Guilherme IV, em 1840, e tornou-se jornalista po-
lítico da Gazeta Renana. Eni 1844,/orçado a deixar a Alema-
nha, estabeleceu-se em Paris,, onde entrou èm contato com
os círculos socialistas, operários e comunistas franceses, tor-
nando-se amigo e colaborador de Friedrich Engels.
Em 1848, em Bruxelas, foi convidado para redigir,
junto com Engels o Manifesto do partido comunista e tornou-
se, desse modo, o principal teórico deste partido. Marx de-
dicou grande parte de seu tempo à atividade política práti-
ca e ao movimento operário, além de atuar na direção da
Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira In-
ternacional, fundada por ele. Em 1849, estabeleceu-se com
a mulher e os filhos em Londres, onde permaneceu até sua
morte, em Situação de indigência, continuando de lá a
guiar o movimento operário internacional. Fundou, com
Engels, a escola filosófica conhecida como materialismo dia-
lético. Esta filosofià desenvolveu, sobretudo por obra de
Marx, os campos da teoria econômica, da filosofia social e
política e, por obra de Engels e Marx juntos, os aspectos ló-
gico e ontológico da dialética materialista. Marx publicou,
em 1847, A miséria da filosofia (em contraposição à obra A fi-
lósofia da miséria de Proudhon); em 1859, A crítica da econo-
mia política e, em 1867, o primeiro volume de O Capital
(1885-1894; foram publicados após sua morte, respectiva-
mente, o II e Q III volumes). >
O "materialismo dialético" vê, como causa primeira e
fundamental de todos os fenômenos sociais, o sistema eco-
nômico de produção e de troca em um determinado perío-
do; dialético seria este mesmo materialismo, pelo método
adotado, que retoma de Hegel uma visão de conjunto que é
evolucionista. As mudanças ligadas aos vários estágios evo-
lutivos tenderiam para um "desenvolvimento", não tanto
em sentido ético, quanto em Sentido lógico.
Ao sair da esquerda hegeliana, Marx reage à "ideolo-
gia", isto é, àquilo que ele considera a pretensão de fazer
que a realidade seja determinada pelas idéias e não vice-ver+
sa, e proclanfa que a tarefa da filosofia não é interpretar o
mundo, mas mudá-lo. Baseando-se em sua análise sobre o
capitalismo, Marx chega à conclusão ética de que o capita-
lismo é injusto e será suplantado pelo socialismo, ou seja,
por uma sociedade final sem Classes, com economia comu-
nista e autogoverno político.
Dever-se-ia- chegar a esta situação graças a um pro-
cesso histórico dialético, alicerçado sobre a "luta de classes".
Quanto ao seu modo dè entender o trabalho do his-
toriador, ele abriu o caminho, junto com Engels (na obra A
ideologia alemã, de 1845-46, mas com publicação póstuma,
em 1932), para uma historiografia que, como alternativa à
filosofia hegeliana da história eda historiografia atemã, fun*
da-se sobre a reconstrução das condições materiais em que
os homens produzem sua vida cotidiana.
Friedrich Nietzsche - nascido em Rócken, nos arredores
de Leipzig, em 1844, morreu, em 1900, em Weimar. Aos
cinco anos perdeu o pai, um pastor protestante, e aos seis o
único irmão, permanecendo assim com a mãe e a irmã. Es-
tudou filosofia clássica nas Universidades de Bonn e de Leip-
zig e interessou-se pela' compreensão do mundo grego.
A publicação de seu primeiro livro, O nascimento da
tragédia, data de 1872. Nesta obra exalta o espírito dionisía-
co da antiga cultura grega, propensa à criação do mito, da
poesia e da arte, e imersa na natureza, além de estar longe
da contradição entre sujeito e objeto, que, ao contrário, está
presente em toda a filosofia sucessiva. Nietzsche propõe-se
derrubar a imagem tradicional da serenidade clássica, apre-
sentando o mundo cultural do grecismo como um perene
conflito entre ebriedade dionisíaca e sonho apolíneo. O
espírito da tragédia morre quando lhe sucede a autocons-
ciência do homem filosófico, incapaz de conciliar saber
dionisíaco e apolíneo. Â partir deste momento inicia-se a
decadência que Nietzsche vê completamente realizada na
idade a ele contemporânea,'contra a qual se posiciona nas
Considerações intempestivas: na segunda consideração, dedica-
da à história, descreve o risco da decadência como "doença
histórica", reduz a história a "monumental" e "antiquária" e
prevê o advento de um espírito crítico capaz, de liberar-se do
peso da tradição e da história.
Após romper relações com Wagner, Nietzche publi-
cou, no decorrer de poucos anos (1878-1882), três obras: Hu-
mano muito humano, Aurora e A gaia ciência. Neste período
Nietzsche deixa a Universidade e adóta uma escrita aforística.
Entra no espírito do niilismo e exalta o "espírito livre", capaz
de abandonar toda forma de romantismo a fim de alcançar a
autonegação que consente o desmascaramento. O homem,
para curar-se da doença da decadência, deve tornar-se capaz
de aceitar a "morte de deus", a primeira draniática enuncia-
ção do niilismo nietzchiano. Entre 1883 e 1884, é publicado
Assim falou Zarathustta, obra-chave para compreender o .pen-
samento de Nietzsche., Zarathustra, nome de uma antiga di-
vindade iraniana, é o profeta da morte de deus, da vontade de.
poder e do eterno retorno de todas as coisas. Nietzsche apro-
va o comportamento de aceitação e exaltação da vida, com-
batendo a necessidade de renúncia propugnada por Schope-
nhauer: os novos valores compreendem paixões tais como a
alegria, o (amor, a saúde, o orgulho, a inimizade e a vontade
de poder. O "super-homem'' (Übermensch) é aquele que, por
meio da "vontade de poder", é capaz de desvincular-se da
moral comum. O super-homem, ou melhor, o "além-ho-
mem" deixou para trás o peso do passado e os vínculos doen-
tes da moral comum e consegue viver a realidade de modo
afirmativo: o homem novo aprendeu â querer, a dizer sim,
encontrou o caráter terrestre de seu ser homem, aceitou a
realidade do eterno retorno.
O homem que encontra na realidade uma perma-
nência, um "eterno retorno", um ciclo, reconhece que na
raiz de todas as coisas está a vontade, até na raiz da necessi-
dade, e isto lhe permite reconciliar-se com o passado.
À visão do mundo que prevê uma concepção positi-
va da história, no sentido evolutivo, à idéia do avanço da
humanidade em direção a uma salvação final, Nietzsche
contrapõe a idéia de eterno presente, a exaltação da vida e da
vontade. Nesta perspectiva deve ser lida a máxima nietz-
chiana «torna-te aquilo que és», que sintetiza todo o sentido
da história. •' •
Em 1886. é publicado Além do bem e do mal. Nesse
mesmo ano, Nietzsche projeta uma obra em quatro volumes
sobre a vontade de poder. Em 1887 e em 1888, escreve a Ge-
nealogia da moral. Anticristo, Ecce homo, Crepúsculo dos ídolos, 0
caso Wagner, Ditirambos de Dioniso, Nietzche contra Wagner.
Em 1887, as suaS já precárias condições psicofísicas
pioram ainda mais. Internado em Jena, em um hospital psi-
quiátrico, transcorreu os últimos anos de sua vida em um
estado mental alterado.
Políbio - grande expoente da historiografia helenística,
nasceu em Megalópolis, na. Arcádia, entre 205 e 200 a.C., e
morreu aos oitenta e dois ano§,. entre 125 e 120 a.C. Captu-
rado pelos romanos, foi conduzido para a Itália, onde se tor-
nou mestre e amigo de Cipião, o Emiliano. Viajou muito e
assistiu à destruição de Cartago e de Corinto (146).
É autor das Histórias, uma obra em quarenta livros,
dos quais somente cinco chegaram integrais até nós; dos de-
mais temos apenas fragmentos. Fiel aos princípios elaborados
por Tucídides, reivindicou para a historiografia um caráter
pragmático, quer dizer limitado aos aspectos políticos e milita-
res e concentrado na contemporaneidade. Além disso, sus-
tentou a exigência do cientismo dq método histórico, basea-
do na pesquisa das fontes e das causas dos acontecimentos.
O historiador ideal, para Políbio, deve também, de al-
gum modo, participar dos eventos de que trata.
Leopold von Ranke - historiador alemão, nasceu em Wie-
he, na Turíngia, em 1795 e morreu em Berlim, em 1886. Foi
professor na Universidade de Berlim e, a partir de 1834, di-
retor da Historische Zeitschrift. De 1789 em diante, quase cego
e Sem mais lecionar, dedicou-se a ditar sua obra A história:
Universal, da qual foram publicados seis volumes (1880-
1885) antes de sua morte. A produção historiográfica de
Ranke é imponente: História dos povos neolatinos e germânicos
(1824); O papado romano, sua igreja e seu Estado nos séculos XVI
e XVII (1834-36); A História alemã nà época da reforma (1839 j
43); Épocas da história moderna (1888, obra constituída de
conferências proferidas em 1854).
Apesar de não estarem impregnadas de um legítimo
interesse filosófico; éssas obras são, porém, ricas em impor-
tantes temas críticos e metodológicos que assinalam uma re-
viravolta na concepção oitocentista da história. É perceptí-
vel, em Ranke, uma crítica radical à historiografia hegelia-
na, crítica reveladora de uma clara herança romântica na li-
nha de Goethe, Schleiermacher e Humbolt. Para Ranke, de
fato, a história devè ser reconduzida do plano das "idéias" ao
plano dos fatos, tendo como suporte as fontes e a compara-
ção entretelas. •
O processo histórico em si, por sua vez, deve ser vis-
to como a evolução de forças espirituais, originalmente im-
pulsionadas por uma lei racional, direcionada à realização
de uma ordem moral. Toda obra de Ranke é perpassada por
uma forte religiosidade luterana: a história dos homens,
"hieróglifo" da. revelação divina; desenvolve-se como um
conjunto de épocas que têm, cada uma em si mesma (con-
forme as idéias q u e sobre elas se exprimem), o próprio va-
lot «imediato diante de Deus», motivo pelo qual o objeto da
história não se deixa definir.de modo positivista, como elen-
co de simples fatos, nem de modo estritamente especulativo
por meio de conceitos universais. Seu significado coloca-se,
enfim, numa tendência intrínseca para o transcendente.
Paul Ricoeur - filósofo francês, nasceu em Valence, em
1913. Ensinou nà Universidade de Strasburgo, na Sorbonne
e na Universidade de Nanterre.
Depois de uma fase existencialista e fenomenológica,
Ricoeur voltou-se para uma filosofia hermenêutica que vê
na linguagem da religião, do mito e da poesia a condição de
existência e o significado último do pensamento e da vonta-
de. A linguagem pode ser reveladora somente se não estiver
limitada à sua fuçção comunicativa/e, portanto, se não
estiver restrita a um sistema de signos que remetam a signi-
ficados unívocos; na verdade, só os símbolos, na linguagem,
conseguiriam remeter para um significado capaz de coinci-
dir com o sentido ontológico e transcendente da existência.
Ricoeur exprime esta posição na obra O desafio semiológico
(1974). Somente se for considerada sob a ótica da dimensão
simbólica, a linguagem pode tornar-se objeto de interpretação
(O conflito das interpretações, 1969). Pt>r isso a sua é uma filo-
sofia da "epistemologia do símbolo". Na obra A metáfora viva
(1975), Ricoeur afirma 0 caráter autônomo da referência
metafórica, capaz de redesenhar um mundo de maneira ori-
ginal e, portanto, não é apenas uma forma de dizer as mes-
mas coisas de modo refinado. Sucessivamente, na obra Tem-
po e narrativa (1983-85), ele ilustra a seguinte tese: «O tem-
po torna-se tempo humano na medida em que é articulado
de modo narrativo; por outro lado, a narrativa é significati-
1 va na medida em que desenha os traços da experiência tem-

poral». Além dessa idéia, o autor traça um paralelo entre o


récit e a metáfora: «Com a narrativa, a inovação semântica
consiste ha invenção de uma intriga que é [...] trabalho de
síntese [...] é esta síntese do heterogêneo que aproxima a
narrativa da metáfora» porque em ambos os casos «algo de
novo [...] surge na linguagem». Por fim, em O si-mesmo como
um outro (1990), Ricoeur enfrenta o problema do sujeito e,
mais particularmente, o de sua "identidade narrativa".
A d a m Smith - economista e filósofo social, nasceu na Es-
cócia, em Kirkcaldy, em 1723 e morreu em Edimburgo, em
1790. Obteve a cátedra de lógica e depois a de filosofia mo-
ral na Universidadè de Glasgow. Em 1759, foi publicada sua
primeira obra, Teoria dos sentimentos morais, texto de filosofia
social em que é expressa uma espécie de "moral da simpa-
tia". Em 1776, publicou Uma investigação sobre a natureza eas
causas da riqueza das nações, primeiro tratado orgânico de
economia política. A riqueza das nações dependeria: a) da
percentagem dos trabalhadores produtivos sobre o total da
população; b)( dá produtividade de cada trabalhador. Neste
contexto, exprime-se o liberalismo smithiano: o indivíduo
áge sobre o rriercado impelido pelo interesse particular, mas
a influência de demanda e oferta sobre os preços e o peso
destes sobre as decisões dos operadores econômicos agem ;
como uma "mão invisível" que produz uma-adequação con-
tínua entre produção e demanda. A influência da "mão in-
visível", que transforma o egoísmo individual no bem-estar
coletivo, requer, porém, liberdade de deslocamento, de um
setor para outro, para os produtores e a possibilidade de
acesso nas várias atividades econômicas para novos opera-
dores. Nesta lógica, também a intervenção pública na eco-
nomia deve ser muito limitada.
Todo isto apóia-se em uma convicção fundamental:
existe uma ordem natural que atua, espontaneamente, pela
ação da "mão invisível", não graças, mas não obstante as pro-
vidências humanas (leis econômicas opressivas ou parciais).
Em Smith, a Providência dos cristãos traduz-se na "mão in-
visível" que segue um «princípio de conservação, capaz de
prevenir e de corrigir, spb muitos aspectos, os maus efeitos
de uma economia parcial e, até mesmo, opressiva». A des-
coberta dos efeitos concatenados positivos (se alguém enri-
quece, também a sociedade enriquece, aumentam os salá-
rios, aumenta a população) parece documentar a afirmação
de que «o bem é por sua natureza difusivo».
Paul Veyne - nasceu em 1930, em Aix-ert-Provçnce. Em
1951, foi admitido na "Ecole Normale". Aderiu ao partido co-
munista, até a entrada dos carros armados soviéticos em Bu-
dapeste. Eml955, continua os estudos em Roma, retomando
à França depois de dois anos. Aos vinte e sete anos torna-se
assistente de História antiga na Sorbonne e aos quarenta,
como professor de latim em Aix-de-Provenee, publica seu pri-
meiro livro, Como se escreve a história (1970), obra que.chama
a atenção de Raymond Aron que o convida a participar de
seus seminários de sociologia e, depois de alguns cursos mi-
nistrados pelo próprio Veyne, o propõe cpmo candidato ao
"Collège de France". A candidatura é aceita para a cátedra de
História Romana, em 1974. Entre 1970 e 1995 publicou: Pão
e circo; Os gregos acreditavam em seus mitos?; René Charin em seus
poemas-, O quotidiano e o interessante.
> Estudioso de história greco-latina, Veyne é um dos
poucos historiógrafos franceses interessados, além da inves-
tigação histórica pura e simples, no estudo dos mecanismos
do conhecimento histórico, ou seja, na questão da episte-
mologia dà história. Veyne narra uma história que podería-
mos definir global, sociológica, em que os fatos estão situa-
dos na história, no interior de seu contexto sócio-cultural. A
história escrita por Veyne não tolera leis gerais com preten-
são de verdade, não é teleológica, mas é estrutural. Ponto
fundamental da epistemologia é a consciência 'de que a his-
tória não é uma ciência, mas uma narrativa verídica, criado-
ra: o historiador apresenta e articula a sua perspectiva, ana-
lisa a legitimidade de suas hipóteses e confronta-se, critica-
mente, com as outras leituras históricas a fim de articular
seu texto, sua narrativa da história, tendente a conceituar a
própria história. Todo escrito significativo da história é uma
re-construção direcionada e infinita, um percurso de
conceitualização.
O livro mais significativo, na perspectiva da episte-
mologia da história, é Como se escreve a história. Em várias
passagens, Veyne reafirma que a explicação histórica não
pode ser reconduzida a um modelo dedutivo ou teológico,
porque é compreensão das relações que se estabelecem en-
tre os chamados fatos ou eventos históricos. Os modelos
científicos da história não são capazes de captar as mudanças
nem de fornecer uma explicação. Nesta perspectiva, pode
ser lida a concepção veyniana de narrativa como tarefa es-
sencial do historiador e alternativa aos programas de "cien-
tifização" da historiografia ou de subordinação desta a uma
teoria da sociedade.
Giambattista Vico - nasceu em Nápoles, em 1668 e mor-
reu, na mesma cidade, em 1744. De formação jurídica e fi-
losófica, obteve o cargo de professor de retórica na Univer-
sidade de Nápoles, em 1699 e, desde então, dedicou-se à re-
flexão filosófica.
Na obra Sobre o método dos estudos do nosso tempo, ex-
pressa a preocupação de que a ciência confie excessivamen-
te no caráter absoluto e na universalidade dos próprios
meios, menosprezando a existência de outras funções psí-
quicas. Vico defende os direitos da memória e da fantasia,
fonte e origem da poesia, reivindica o valor da eloqüência e
da retórica e combate, contestando-a, a idéia de unicidade
de um método de estudo e pesquisa. A obra mais importan-
te de Vico é Princípios de uma ciência nova (1725-1744): a
nova ciência é a,da história humana, cuja possibilidade é ga-
rantida pelo princípio de identidade do verdadeiro com o
fato. Segundo Vico, os princípios da nova ciência encon-
tram-se a priori em nossa mente de homens; na mente hu-
mana desenvolvem-se primeiro os sentidos, depois a fanta-
sia e, por fim, a razão. Vico projeta este esquema, tirado da
psicologia individual, sobre a história da humanidade, defi-
nindo três estágios históricos pelos quais passam todas as
nações em seu desenvolvimento (idade dos deuses, idade
dos heróis, idade dos homens).
Depois de percorrerem esse "curso", chegando ao es-
tágio do desenvolvimento racional, as nações podem recair
na barbárie e recomeçar novamente o ciclo que as reconduz
à civilidade racional. A idéia viquiana de repetição dos ciclos
históricos tem o intuito de afirmar a precariedade da civili-
zação, nunca conquistada definitivamente.
Eric Weil - filósofo francês de origem alemã, nasceu em Par-
chim, Mecklemburgo, em 1904 e morreu em Nice, em 1977.
Em seus estudos, teve. como mestre E. Cassier. Transferiu-se
para a França, onde ensinou na "École Pratique des Hautes ~
Etudes" e depois na Universidade de Lille e na de Nice. Entre
suas atividades culturais devem ser consideradas, principal-
mente, a colaboração na obra Recherches philosophiques de A.
Koyré e a fundação da revista "Critique" com G. Bataille.
Weií, por meio de uma interpretação original de He-
gel e da integração de algumas teses Kantianas, sustenta
uma fundação ética da razão e da linguagem: por si só a na-
tureza careceria de sentido, seria apenas violência e silêncio
e a história não passaria de um amontoado caótico de con-
flitos. Só a capacidade de decisão do homem racional pode
contrapor uma oposta "vontade de sentido" e reconstruir
um discurso histórico.'Ãs obras que elaboram esta visão fi-
losófica de Weil são: A lógica da filosofia (1950), Filosofia poli-
tica (1956), Filosofia moral (1961), Filosofia e política (1965),
Ensaios e conferências (1971).
No texto a Filosofia moral, em especial, Wéil apresen- .
ta uma moral que se limita a reduzir os impulsos irracionais
e, portanto, move-se em uma área de negação e de formali-
dade; em certo sentido, á moral é o momento abstrato da
história (que para Weil, como para Hegel, é o território do
efetuasse da Idéia, com a diferença de que para Weil a Idéia
é Discurso, isto é expressão da "vontade de sentido"), ao
passo,que apolítica é seu momento corlcreto, é a situação
em que o sentido se torna programa. POR isso, é sobretudo
na política que a moral se torna' "sentido concreto" e o dis-
curso se torna produção objetiva.
Hayden White - filósofo americano da última geração, Wi-
the sustenta a interpretação narrativa e adere a uma con-
cepção da historiografia entendida, essencialmente, como
estrutura verbal de um discurso narrativb, apoiada não so-
bre uma estrutura lógica, mas sobre um nível profundo de
consciência que prevê e utiliza a dimensão poética. A expli-
cação histórica é, segundo White, um ato poético, porque as
estratégias interpretativas do historiador constituem a for-
malização de intuições poéticas, ou seja, não se baseiam em
razões teoréticas, mas estéticas e morais.
A obra mais importante de White, Metahistory (Meta-
históricr. a imaginação histórica do século XIX) de 1973, ex-
plicita a tese do fundamento poético da historiografia. Ana-'
lisa os principais tipos de historiografia oitocentista e os re-
laciona cdm uma diversidade de tropos constituídos pela
metáfora, metonímia, ironia e sinédoque. Cada trefpo cons-
titui um diferente tipo de prefiguração, capaz de condicionar
a escolha das diversas estratégias de exposição, distintas, por
sua vez, em exposições segundo o enredo, segundo o argu-
mento formal ou segundo a implicação ideológica.
White formula quatro tipos de enredo (romântico, trár
gico, cômico e satírico), quatro tipos de argumentação histó-
rica (formalística, mecanicista, organicista e contextual), qua-
tro tipos de implicação ideológica (anárquica, radical, consejr-
Vadora e liberal). No primeiro tipo de exposição o significado
de uma história é determinado pelo seu enredo, isto é, pela
trama narrativa que liga uma série de eventos; na segunda, os
fatos (narrados são ligados a partir de generalizações ou leis
causais; na terceira, a narração dos acontecimentos é relacio-
nada com premissas ideológicas.
Os ensaios sucessivos de White, muitos dos quais fo-
ram recolhidos em Tópicos do discurso (1978), confirmam sua
leitura da história, segundo a interpretação narrativa, que
tem suas raízes profundas no modelo cultural próprio das
artes.
ISBN fls-74b0-031-fi

788574 600314