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A centralidade da Cultura em um projeto estratégico para o Brasil

Por Daniel Samam*

Diante de um dos momentos políticos e sociais mais graves de nossa história, cabe promover
uma reflexão acerca da centralidade da Cultura em um projeto estratégico voltado para a
construção de um Brasil soberano, justo e democrático para todas e todos.

A Cultura é um domínio tão importante da atividade humana que na maioria das vezes passa
despercebido. Afinal, tudo remete à Cultura. Não só o modo da vida, a produção das artes, ou
a chamada “economia criativa”. Para nós, empenhados na sustentação de um projeto
democrático, popular, de esquerda, a cultura se revela, sobretudo, na disputa pelos valores
capazes de orientar a sociedade. Serão valores comprometidos com a transformação das
atuais estruturas de poder ou com a sua continuidade? Um projeto incapaz de enfrentar essa
questão conseguirá até vencer uma eleição - poderá, no limite, manter-se governando - mas
não será capaz de encarnar a mudança.

Logo, a disputa cultural deve ser compreendida como um elemento indissociável da luta pela
hegemonia das classes trabalhadoras e seus aliados no processo de transformações profundas
e estruturantes que o Brasil necessita. Pois, mesmo com todos os avanços materiais e sociais
proporcionados pelos governos progressistas, o conjunto de valores que circulam na
sociedade pouco mudou em comparação com o período da hegemonia neoliberal, na década
de 1990. Seja no plano das artes ou das ideias, os monopólios da comunicação prosseguiram
impondo, sem nenhum contraponto, o seu repertório de temas e fixações, entre os quais a
ilusão da igualdade social pela via do consumo.

A Cultura é um campo importante de organização da juventude, de novas formas de


organizações e ativistas da sociedade civil. É fundamental estarmos conectados a esses
setores. Daí a importância da criação de formas de acesso dos grupos oprimidos, entre os
quais as mulheres, os negros, as populações indígenas e quilombolas e os coletivos LGBT aos
meios de produção, difusão e consumo culturais hoje monopolizados pelos agentes sociais
das classes dominantes. É esse o papel e a contribuição pela Cultura que a Frente Brasil
Popular deve cumprir no próximo ciclo. De forma aberta, arejada e sem formatos
tradicionais. ​Sem isso não será possível deflagrar o ciclo de rompimento com as
representações de sujeição presentes nos aparelhos de reprodução ideológica das forças do
capital.

Uma cultura crítica e pluralista, de forte sentido contra-hegemônico, nós sabemos, precisará
do apoio do Estado para se tornar viável, demandando o planejamento e a aplicação de
políticas públicas para o setor, como ocorre em qualquer sociedade democrática. Porém,
deverá preservar a mais ampla liberdade de criação para os produtores, na medida em que
nem mercado e nem o Estado devem determinar o conteúdo de seus processos, ritos e hábitos
criativos.

No Brasil democrático, justo e soberano que queremos, as políticas culturais devem partir de
um único princípio: o lugar da produção cultural é e deve continuar sendo a sociedade civil.
Uma política cultural de viés emancipador deve partir desse ponto, mobilizando a
participação efetiva, independente e criadora do povo brasileiro.

*Daniel Samam ​é Músico e Educador. Compõe a Secretaria Operativa da Frente Brasil


Popular-RJ​, e​stá Coordenador do Núcleo Celso Furtado (PT-RJ), membro do Instituto Casa
Grande (ICG) e membro do Coletivo Nacional de Cultura do Partido dos Trabalhadores
(PT)​.