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EM BUSCA DE ARQUITETURAS RESILIENTES 1: LIÇÕES DE BIOLOGIA

MEHAFFY, Michael & SALINGAROS, Nikos A.


A palavra “resiliência” se espalha nos dias de hoje entre os designers de ambiente. Entre
alguns grupos, está ameaçando substituir a popular palavra “sustentabilidade”. Esta é uma reflexão
parcial sobre eventos interessantes como o furacão Sandy e outros de uma crescente lista de
eventos disruptíveis como tsunamis, secas e ondas de calor. Sabemos que não conseguimos projetar
para tais eventos imprevisíveis, mas podemos ter certeza que nossas edificações e cidades têm
capacidade de contornarem tais disrupções e se recuperarem. Em uma escala maior, precisamos ser
capazes de nos adaptarmos aos choques das mudanças climáticas, destruição de recursos e
escassez, e a começarmos a levar em conta os crescentes desafios do bem-estar humano. Nós
precisamos mais de design resiliente, não como um novo jargão transitório, mas como uma
necessidade para nossa sobrevivência a longo prazo.
Aparte dessa idéia legal, o que é resiliência realmente, estruturalmente falando? Quais lições
podemos, como designers, aplicar para alcança-la? Em particular, o que podemos aprender da
evidente resiliência dos sistemas naturais? Um bom tanto, analisemos.
Sistemas resilientes e não-resilientes
Vamos começar reconhecendo que temos tecnologias incrivelmente complexas e
sofisticadas nos dias de hoje, de estações de energia, sistemas prediais até os aviões a jato. Essas
tecnologias são, geralmente falando, maravilhosamente estáveis dentro dos parâmetros de projeto.
Isto é um tipo de estabilidade que C. H. Holling, o pioneiro na teoria da resiliência em ecologia,
chamou de “engenharia resiliente”. Mas elas frequentemente não são resilientes fora dos sistemas
operacionais para os quais foram projetadas. A confusão aparece com as consequências não
intentadas que ocorrem como “externalidades”, que frequentemente causam resultados
desastrosos.
Figura 1 - Na esquerda, uma superconcentração
de componentes em larga-escala; na direita, uma
rede de nós com distribuição mais resiliente
(Desenho de Nikos A. Salingaros)
Um bom exemplo é o grupo de reatores nucleares de Fukushima no Japão. Por anos
funcionou perfeitamente, produzindo com confiabilidade energia para toda sua região, e brilhava
como exemplo de “engenharia resiliente”. Mas não tinha o que Holling chamou de “resiliência
ecológica”, que é a resiliência para as disrupções frequentemente caóticas que sistemas ecológicos
aguentam. Umas destas disrupções caóticas foi o terremoto e a tsunami que atingiram a planta em
2010, causando um catastrófico acidente de fusão. Os reatores de Fukushima foram projetados com
um design americano da década de 60, dependente de um sistema de resfriamento de emergência
elétrico. Quando a eletricidade falhou, incluindo os geradores, o sistema de controle de emergência
ficou inoperante e os núcleos dos reatores nucleares fusionaram. Foi também um erro (em
retrospecto) centralizar a produção de energia colocando seis grandes reatores próximos uns dos
outros. A confusão com as disrupções caóticas é que elas são hereditariamente imprevisíveis. De
fato podemos prever (mesmo que pobremente) a probabilidade de um terremoto e tsunami
relativamente melhor comparando com outros fenômenos naturais. Pense em quão difícil seria
prever a hora e a localidade de uma colisão de asteroide, ou mais difícil ainda, se preparar para as
consequências. Físicos referem-se a este tipo de caos como “longe da condição de equilíbrio”. Este
é um problema que designers estão começando a levar em conta com mais seriedade, a medida com
que lidamos com eventos mais assustadores como o furacão Sandy – na verdade a combinação
caótica de três sistemas climáticos que devastaram a costa caribenha e do leste dos EUA em 2012.
Como se esses perigosos imprevistos não fossem o suficiente, nós humanos estamos
contribuindo para a instabilidade. Uma complicação adicional é que nós mesmos agora somos
responsáveis por muito do caos, na forma da nossa complexa tecnologia sempre em
desenvolvimento e suas imprevisíveis interações e disrupções. As alterações climáticas são uma
consequência de tais disrupções, junto com as infraestruturas complexas e instáveis das localidades
litorâneas. (Na verdade, a infraestrutura tecnológica do Japão tem sido pesadamente danificada em
uma área muito maior pelo efeito “dominó” caótico do desastre de Fukushima). Nossa intrusão
tecnológica na biosfera tem pressionado sistemas naturais a condições que estão longe do equilíbrio
– e como resultado, disrupções catastróficas estão mais próximas do que nunca.
Lições da biologia
Então o que podemos aprender de sistemas biológicos? Que eles são incrivelmente
complexos. Tome, por exemplo, a rica complexidade de uma floresta chuvosa. Ela também gera
interações complicadas entre muitas bilhões de componentes. Ainda assim muitas destas
permanecem estáveis por milhares de anos, apesar das incontáveis disrupções e “choques no
sistema”. Podemos entender e aplicar as lições de suas características estruturais? Parece que sim.
Aqui estão quatro destas lições extraídas de sistemas biológicos distribuídos (não-centralizados) que
poderemos discutir em mais detalhes:
1. Estes sistemas tem uma rede estrutural interconectada.
2. Eles caracterizam-se pela diversidade e redundância (uma noção totalmente distinta
de “eficiência”).
3. Eles apresentam uma grande distribuição de estruturas entre várias escalas, incluindo
escalas granulares.
4. Eles têm a capacidade de se auto adaptarem e “auto organizarem”. Isto geralmente
(nem sempre) é atingido através do uso de informações genéticas.

Figura 2 - Mapa da Internet: uma rede resiliente paradigmática em parte por causa de sua livre-escalabilidade e redundância
(Imagem: The Opte Project/Wikimedia)
A Internet é um exemplo familiar de estrutura de rede interconectada. Ela foi inventada pelo
exército dos EUA como uma forma resiliente de prover a comunicação de informações em caso de
ataque. Sistemas biológicos também têm estruturas de rede interconectadas, como podemos ver
por exemplo nos sistemas circulatório e hormonal do corpo, ou os padrões de conexão dos
neurônios. Tecidos danificados até certo ponto podem regenerar-se, e cérebros danificados
frequentemente são capazes de reaprender conhecimentos e habilidades perdidas procurando
conexões neurais alternativas. Os padrões de interconexão, sobreposição e adaptabilidade das
relações de ecossistemas e metabolismos parecem ser a chave de seus funcionamentos. Focando
na redundância, diversidade e plasticidade, exemplos biológicos contradizem extremamente a
noção de “eficiência” usada no pensamento mecanicista. Nossos corpos têm dois rins, dois pulmões,
e dois hemisférios cerebrais, sendo que um pode funcionar ainda que o outro esteja danificado ou
destruído. Um ecossistema tipicamente tem muitas espécies diversas, das quais uma pode ser
perdida sem afetar o sistema inteiro. Por contraste, uma monocultura agrícola é altamente
vulnerável a apenas uma peste ou outra ameaça. Monoculturas são terrivelmente frágeis. Elas são
eficientes apenas se as condições são perfeitas, mas suscetíveis a falhas catastróficas a longo prazo.
(Esta pode ser uma descrição muito boa da nossa atualidade!). Por que a distribuição de estruturas
entre escalas é tão importante? Por causa de uma coisa, é uma forma de diversidade. Por contraste,
uma concentração em apenas algumas escalas (especialmente as de larga escala) é mais vulnerável
a choques. Por outro lado, quanto menor as escalas que compõem e suportam escalas maiores, mais
fácil é a regeneração e adaptação. Quando as pequenas células de um órgão são danificadas, é fácil
para o tecido danificado crescer novamente – o mesmo que reparar os pequenos tijolos de uma
parede danificada.

Figura 3 - Distribuição de elementos


interconectados através de várias
escalas. (Desenho por Nikos A.
Salingaros)
Auto-organização e auto-adaptação também são atributos centrais dos sistemas vivos e da
evolução deles. Na verdade, esta espantosa capacidade de auto-estruturação é um dos processos
biológicos mais importantes. Como ele funciona? Sabemos que ele requer redes, diversidade e
distribuição de estruturas entre escalas. Mas também requer a habilidade de reter e de se construir
a partir de padrões existentes, que gradualmente tornam-se padrões complexos. Frequentemente
isto é feito através do uso da memória genética. Estruturas que codificam padrões anteriores são
reusadas e reincorporadas posteriormente. O exemplo mais familiar disto, claro, o ADN (Ácido
desoxirribonucleico). As transformações evolucionárias dos organismos usando o ADN
gradualmente construíram um mundo que transitou de vírus e bactérias para um de vastamente
mais complexos organismos.
Aplicando as lições para designs humanos resilientes
Como podemos aplicar essas lições estruturais para criar cidades resilientes, e, melhorar
pequenas partes vulneráveis de cidade tornando-as resilientes? Desenvolvendo as idéias da lista
anterior, cidades resilientes têm as seguintes características:
1. Elas têm redes interconectadas de vias e relacionadas. Elas não são separadas em
categorias compartimentadas de uso, tipo ou via, as quais tornam-nas vulneráveis a falhas.
2. Elas têm diversidade e redundância de atividades, tipos, objetivos e populações.
Há muitos tipos diferentes de pessoas fazendo muitas coisas diferentes, qualquer das quais
poderia ser a chave para a sobrevivência do sistema em caso de choque (precisamente que
não podem ser conhecidas antecipadamente).
3. Elas têm uma larga distribuição de escalas da estrutura.
Dos maiores padrões de planejamento regional para a maioria dos detalhes de grão-fino.
Combinando com (1) e (2) acima, estas estruturas são diversas, interconectadas e podem ser
mudadas relativamente e localmente (em resposta a mudanças necessárias). Elas são como
os pequenos tijolos de uma edificação, facilmente reparados quando danificados. (O oposto
seria grandes e caros painéis pré-fabricados que precisam ser substituídos completamente).
4. Seguido do (3), elas (e suas partes) podem adaptar-se e organizarem-se em
resposta a mudanças necessárias em diferentes escalas de espaço e temporais, e em
resposta a outras. Que é, elas podem “auto-organizarem-se”. Este processo pode ser
acelerado através de mudanças evolucionárias, transformações do conhecimento tradicional
e conceitos, sobre o que funciona para ir de encontro as necessidades humanas e aos
ambientes naturais nos quais elas dependem.
Cidades resilientes evoluem de maneira muito específica. Elas são construídas a partir de
padrões e informações retidas, e ao mesmo tempo adaptam-se a mudanças adicionando novidades
em resposta ao ambiente. Elas quase nunca criam algo totalmente novo, e quase sempre criam
apenas novidades muito selecionadas quanto necessárias. Algumas mudanças são testadas via
seleção, apenas as mudanças que evoluem o organismo são selecionados para auxiliar em suas
atividades no ambiente. Isto exclui mudanças drásticas e discontínuas. Cidades resilientes são então
“estruturalmente-preservantes” mesmo se ocorrerem profundas mudanças estruturais. Como estes
elementos contribuem com as cidades resilientes na prática, na era da escassez de recursos e
mudanças climáticas? É fácil ver que a cidade com ruas e passeios interconectados será mais
caminhável e menos dependente de carros do que a cidade com tipos de vias rigidamente de cima
para baixo hierarquizadas, que afunila todo o tráfego em um limitado número de “coletoras” e
“artérias”. Similarmente, a cidade projetada para funcionar com usos mistos será mais diversa e
capaz de melhor adaptar-se às mudanças que a cidade rigidamente separada em monoculturas.

Figura 4 - Um complexo sistema resiliente


coordena sua resposta multi-escalar para
distúrbios em qualquer única escala.
(Desenho por Nikos A. Salingaros)

Uma cidade com uma rica e


balanceada diversidade de
escalas, especialmente incluindo
e encorajando a escala de grão-
fino, será mais facilmente
reparável e adaptável a novos usos. Ela pode suportar disrupções melhor por que suas soluções
podem ocorrer em qualquer e todos os diferentes níveis escalares. A cidade usa a disrupção para
definir um “pivô” em uma particular escala, ao redor do qual se estrutura uma complexa estrutura
multi-escalar responsiva. E é mais provável que a cidade seja capaz de se auto-organizar em novas
atividades econômicas e novos recursos, se e quando os antigos recursos começarem a ficar
escassos.
A evolução de cidades não-resilientes

Então onde estamos hoje? Muitas das nossas cidades foram (e ainda são) moldadas por um
modelo de planejamento urbano que evoluiu de uma era de energia barata de combustíveis fósseis
e um zelo por segregação mecanicista de suas partes. O resultado é que por muitas semelhanças
temos um tipo de cidade rígida não-resiliente; em que, no máximo, tem alguma “engenharia
resiliente” direcionada a um único objetivo, mas certamente não nada “ecologicamente resiliente”.
A resposta é tanto limitada quanto cara. Considere o modelo que adentrou o século 20 de
planejamento urbano definido por estes critérios não-resilientes:
1. Cidade são estruturas de ramificações “racionais” (de cima para baixo, “dendríticas”),
não apenas em vias e passagens, mas também na distribuição das funções.
2. “Eficiência” demanda a eliminação de redundância. Diversidade é conceitualmente
confusa. O Modernismo queria almejava limpeza visual, divisões ordeiras e
agrupamentos unitários, que privilegiassem a larga escala.
3. A idade da máquina dita nossas limitações construtivas e estruturais. De acordo com
a maioria dos teoristas da cidade modernista, a mecanização comanda (Giedion);
ornamentação é crime (Loos); e as mais importantes edificações são expressões
esculturais de arte em larga escala (Le Corbusier, Gropius, et al.).
4. Qualquer uso do “material genético” do passado é uma violação ao espírito da idade
da máquina, e logo pode apenas ser uma expressão de políticas reacionárias; não pode
ser tolerada. Novidade e neofilia devem ser elevadas e privilegiadas acima de todas as
considerações do design. “Evolução” estrutural pode apenas ser permitida de ocorrer
dentro do discurso abstrato da cultura visual, como também nas avaliações e
julgamentos das necessidades humanas por seus(as) próprios(as) (especialidades,
ideologias, estéticas) padrões.
Desta perspectiva da teoria da resiliência, isto pode ser visto como uma fórmula efetiva para
gerar cidades não-resilientes. Não é um acidente que os pioneiros de tais cidades foram, de
fato, evangelistas por uma forma de industrialização dependente de muitos recursos, em um
tempo onde o entendimento de tais materiais era mais primitivo comparado com hoje. Aqui,
por exemplo, é o arquiteto Le Corbusier, um dos mais influentes pensadores do
planejamento moderno, escrevendo em 1935, e dando pistas da expansão moderna: “As
cidades será parte do país; eu devo viver 48 quilômetros do meu escritório em uma direção,
embaixo de um pinheiro; minha secretária irá viver 48 quilômetros longe de mim também,
em outra direção, embaixo de outro pinheiro. Nós dois teremos carros. Nós usaremos pneus,
vestiremos estradas e engrenagens, consumiremos gasolina e óleo. Tudo isso irá necessitar
um grande trabalho... suficiente para todos.”. Tristemente, não há suficiente para todos! Isto
relativamente na breve idade da abundância de combustíveis fósseis – e a não-resiliente
arquitetura urbana que tem expandido ao redor do globo – está rapidamente caminhando
para um fim. Nós devemos nos preparar para o que virá. Da perspectiva da teoria da
resiliência, a soluções não virão de simples ajustes tecnológicos, como alguns cândidos
acreditam. O que será requerido é uma mais profunda análise e reestruturação do sistema
estrutural: admitivelmente não é algo fácil de ser alcançado desde que não gera dinheiro a
curto prazo.
Postscript: uma lição da nossa própria evolução
As pessoas tendem a ser carregadas pelo presente, e pôr ambos o passado e futuro
fora de suas mentes. Mesmo na nossa era de muita informação, o passado é remoto e
abstrato – apenas um conjunto de imagens como qualquer filme. E então nós ignoramos de
onde viemos, o caminho que nos trouxe aqui na nossa maravilhosa cultura tecnológica. Nós
estamos doentemente preparados para ver onde nós devemos na próxima etapa. Para nossa
cultura tecnológica de consumo, amanhã não haverá surpresas. Mas novas pesquisas em
antropologia, antropogenia e genética sugerem que nós humanos, literalmente, criamos a
mudança climática. Graças aos nossos geniais detetives, nós sabemos agora que 195.000
anos atrás, nossas espécies ficaram muito próximas de ser extintas – dificilmente um pouco
mais de 1000 sobreviventes lidaram na costa sul africana para sobreviver, já que uma grande
seca varria o continente. Nossa evidente resposta foi diversificar, e desenvolver muitas novas
fontes de alimentação e tecnologias para obtê-los: anzol, lanças, cestas, urnas e outras
inovações. Uma linguagem mais complexa provavelmente se seguiu, permitindo-nos
coordenar estratégias mais sofisticadas de caça e reuniões. 10.000 anos atrás, ao que parece,
nós nos adaptamos mais uma vez a uma mini-idade-do-gelo, incitando-nos a inovar com
novas tecnologias agrícolas e novas formas de assentamento ao redor delas. Estas inovações
cresceram mais ou menos simultaneamente em muitas partes, então desconexas, do
mundo, sugerindo que o que as causou foi o clima. Nós hoje estamos fascinados com a
terceira grande adaptação na nossa história da mudança climática. Mas desta vez nós, nós
mesmos, causamos isso com nossa própria tecnologia. Se nós vamos nos adaptar
satisfatoriamente, precisaremos entender as oportunidades para inovar novamente, na
forma que projetamos e operamos nossas tecnologias. Nosso estilo de vida confortável (no
rico ocidente, e entre as classes socioeconômicas que podem nos copiar) é
significativamente menos resiliente do que a maioria das pessoas gostaria de admitir, ou
mesmo refletir. Se nós vamos como sucesso de civilização tecnológica de longo termo, nós
teremos que melhorar as lições da teoria da resiliência no coração.
NOTA DOS AUTORES: com esse post nós começamos uma série de 5 partes sobre o conceito
de resiliência, e como designers podem aplicar seus fundamentos.