Você está na página 1de 9

Universidade Federal de Alagoas

Instituto de Psicologia
Graduação em Psicologia

Anderson Samuel da Silva Melo Comentado [MOU1]: Samuel e Ewerton, gostei da forma
como vocês escreveram o texto e pontuaram alguns desafios
Ewerton Cavalcante Silva para a implementação da Política e os impasses gerados na
articulação saúde-políticas públicas-sociedade, de modo
regionalizado e também por terem trazido referências
complementares. Parabéns! Porém, senti falta de vocês
trazerem articulações com a roda de conversa que
realizamos em sala e também com o texto base que norteou
nossos diálogos.
Também os convido a re-pensar a forma como constroem a
linguagem de vocês, e o viés sexista e reducionista de usar
somente o gênero masculino, como universal e dominante.
O trabalho valia 4,0 pontos e vocês tiraram 3,3. Tirei 0,5
Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da pontos por terem entregue após o prazo, ok!
Floresta: reflexões para um saber “regionalista”
Ewerton, você não avaliou nenhum grupo, logo não ganhou
os 2,0 pontos previstos no programa e pactuado com vocês
na primeira aula.

Maceió
2019

1
Universidade Federal de Alagoas
Instituto de Psicologia
Graduação em Psicologia

Anderson Samuel da Silva Melo


Ewerton Cavalcante Silva

Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da


Floresta: reflexões para um saber “regionalista”
Manuscrito apresentado à disciplina
Temáticas Contemporâneas em Saúde,
da Graduação em Psicologia do
Instituto de Psicologia da Universidade
Federal de Alagoas, sob a supervisão
da professora Dr.ª Telma Low, como
pré-requisito para a obtenção de parte
da pontuação da Avaliação Bimestral 2
(AB2).

Maceió
2019

2
Lista de abreviaturas

LGBTQ+ - Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais/Transgênero, Queer e


outras identificações;

PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil;

PNSIPCF – Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e


da Floresta.

3
Sumário
Introdução ........................................................................................................ 5
Para um saber regionalista ............................................................................. 6
Referências Bibliográficas .............................................................................. 8

4
1. Introdução

A Política Nacional de Saúde Integral das Populações do Campo e da


Floresta (PNSIPCF) foi instituída pela Portaria n° 2.866, de 2 de dezembro de
2011. A mesma política foi “pactuada pela Comissão de Intergestores Tripartite
(CIT), conforme Resolução n° 3, do dia 6 de dezembro de 2011, que orienta o
seu Plano Operativo” (BRASIL, 2013, p. 7). Fruto do diálogo entre
representantes de movimentos sociais e do poder público, a referida política
considera

as especificidades de gênero, de geração, de raça/cor, de etnia


e de orientação sexual, objetivando o acesso aos serviços de
saúde; a redução de riscos à saúde decorrentes dos processos
de trabalho e das inovações tecnológicas agrícolas; e a
melhoria dos indicadores de saúde e da sua qualidade de vida. Comentado [MOU2]: Citações literais em destaque são
apresentadas com espaçamento simples.
(BRASIL, 2013, p. 7).

Uma das ideias principais da Política é possibilitar maneiras de interação


entre o Ministério da Saúde e os governos distrital, dos estados e municípios (e
suas respectivas secretarias de saúde), uma vez que se baseia no
entendimento de que o intercâmbio de informações viabiliza ações mais
eficientes para a promoção da saúde das populações do campo, da floresta e
das águas, ou seja, pessoas que de alguma maneira produzem existência
material e simbólica em harmonia com esses ambientes naturais, sejam elas
pescadoras, agricultoras, seringueiras etc.

Há um caminho a ser trilhado: somente é possível intervir eficazmente


sobre um problema ou evitá-lo quando se tem um conhecimento amplo sobre a
realidade cotidiana de uma população-alvo. Desse modo, entende-se que são
as secretarias municipais de saúde, através de seus agentes diretos, que
Comentado [MOU3]: E as profissionais também, até
podem fornecer dados importantes acerca dessas populações. Assim, os porque a maioria é mulher.... estou fazendo um convite a
vocês para pensarem que quando usamos o masculino como
profissionais de saúde que atuam nessas regiões, além de desempenharem gênero universal e dominante na nossa linguagem (escrita
e/ou falada) estamos re-produzindo essa ideia de que
suas funções de praxe, se convertem em observadores e construtores de
mesmo as mulheres sendo maioria da população elas estão
dados com potencial de subsídio a ações que envolvam as demais esferas do representadas, de modo invisível, no masculino, assim como
ocorre com outros gêneros. Essa linguagem binária e a
serviço público de saúde. Nesse sentido, é importante que o olhar desses linguagem universal parecem excludentes. Por isso, vou
grifar de lilás sempre onde couber a linguagem inclusiva e
não sexista.

5
observadores seja técnico e tome como referências a ética profissional e o
ideal da promoção da saúde, respeitando as alteridades e o próprio conceito de
saúde adotado por tais populações, bem como os meios dos quais estas se
utilizam para obtê-la.

Nessa direção, o presente trabalho constrói a ideia de que as formas de


existência e de promoção/manutenção de saúde observadas nessas
populações podem representar potentes instrumentos de saúde pública se
equalizadas com o discurso e a práxis oficiais. Dessa maneira, caberia
principalmente aos municípios, sempre em colaboração junto aos governos
estaduais e federal, conceber formas de interação produtiva com tais
populações, recebendo apoio financeiro e técnico das gestões mais amplas.
Sem dúvida, esse é um ideal extremamente interessante e, vale pontuar, é
uma leitura nossa da Política, mas não necessariamente condiz com a
realidade. Existem entraves importantes a esse processo: visões
preconceituosas e moralistas de profissionais acerca dos modos de vida de tais
populações, dificuldades orçamentárias, dentre outros.

O texto é um convite a se pensar maneiras de seguir os fluxos


existenciais específicos das populações do campo, da floresta e das águas,
fazendo-os afluir no sistema público de saúde de maneira colaborativa,
solidária e respeitosa. Entendemos que é possível capitalizar tais Comentado [MOU4]: A que vocês estão chamando de
capitalizar?
especificidades sem impor a essas populações paradigmas de saúde de
maneira colonizadora. Entendemos, ainda, que o ambiente e os processos Comentado [MOU5]: Como seriam esses paradigmas?

sociais são esferas inseparáveis e subsidiam, em conjunto, as representações


da saúde por parte dessas populações (AUGUSTO; GÓES, 2007). Se, por um
lado, o direito à saúde impõe ao poder público o dever de conceber políticas
“indutoras” de saúde, a polissemia dessa palavra-chave (saúde) exige que este
as empregue de modo a “conduzir” o público-alvo à construção coletiva da
saúde. Ao longo do texto, ao nos referirmos à Política Nacional de Saúde
Integral das Populações do Campo e da Floresta, usaremos a palavra “Política”
(com “p” maiúsculo).

2. Reflexões para um saber “regionalista” sobre saúde

6
Equalizar o discurso oficial, científico, ao discurso popular, regional, é um
desafio aos profissionais da saúde. Embora seja discutível se isso é
completamente possível, é certo que galgar os preconceitos e as tendências
assistencialistas é um dos pontos mais difíceis da atuação profissional no
âmbito das populações da floresta, do campo e das águas. Métodos e técnicas
engessadas com pouco ou com nada contribuem para a promoção da saúde
nesses e em quaisquer territórios. Um ponto interessante a se observar é que
não é possível promover saúde de maneira compulsória. Não podemos,
enquanto profissionais, obrigar os usuários do serviço a adotarem
comportamentos que consideramos favoráveis à saúde, pois muitas vezes
esses comportamentos têm todo um respaldo simbólico, por vezes religioso, e
desconsiderar esse fato pode custar a não adesão do usuário a um tratamento
ou a um programa de prevenção em saúde. Isso é verdade tanto do ponto de Comentado [MOU6]: Verdade para quem? Será que o uso
dessa palavra não parece contrário ao que vocês estão
vista ético como prático. propondo? Porque pode trazer a noção de que só há uma
prática “verdadeira” a ser considerada.....
Disso resta que a adesão a qualquer tratamento ou a qualquer programa Comentado [MOU7]: Eles não estão articulados?

de promoção de saúde depende, inegavelmente, do usuário. Nesse sentido,


uma observação parece interessante: considerar a realidade do cotidiano das
pessoas, seus modos singulares e específicos de vida, “falar a mesma língua”
das pessoas, aumenta as chances delas serem persuadidas a aderirem a um
ideal político, uma opinião ou a um tratamento (BOTERO, 2008). De fato,
quando, por exemplo, se fala em comportamentos de risco enraizados em Comentado [MOU8]: O que vocês estão chamando de
comportamentos de risco? Com base em que os definem?
práticas de subsistência e intimamente ligados a uma crença específica de toda
uma comunidade, é necessário “caminhar como que por sobre ovos”, a fim de,
por um lado, responder ao entendimento oficial de promoção de saúde e, por Comentado [MOU9]: Como assim entendimento oficial?
Oficial para quem?
outro lado, respeitar as crenças e valores aí imbricados.

É importante observar, no entanto, que, se, por um lado, é necessário


respeitar e conservar certas crenças e práticas como patrimônio simbólico das
populações-alvo das ações governamentais em saúde, por outro lado, o que se
faz necessário é, justamente, coibir práticas que reforcem preconceitos e
formas de violência, como as perpetradas contra a mulher, a população
LGBTQ+ e aquelas que comprometem o desenvolvimento escolar e a saúde de
crianças e adolescentes. Tomando como exemplo esse último tipo de violência,

7
Augusto e Góes (2007) falam sobre a exploração do trabalho infantil na
Chapada do Araripe, região florestal do estado do Ceará:

Trata-se de uma mão-de-obra desorganizada, dócil e barata.


Em 70% dos casos, recebiam em média meio salário mínimo e,
em muitos casos, cumpriam jornadas de até 12 horas diárias
de trabalho, principalmente os que atuavam em ambientes
altamente insalubres, como carvoarias, fábricas de sapato,
canaviais e outras plantações. (AUGUSTO; GÓES, 2007, p.
555).

É interessante a forma como as autoras abordam a questão, mesmo


antes da publicação da Política. Elas dão uma demonstração prática de como
um olhar regionalista no campo da saúde subsidia de forma diferenciada
qualquer intervenção. Mesmo se tratando de uma prática irregular, do ponto de
vista legal, e inaceitável, do ponto de vista ético, as autoras consideram o
acesso precário que essas populações têm à educação e que isso interfere nos
seus modos de produção e subjetivação. Assim, antes de indicar a
responsabilidade dos adultos que detêm a tutela dessas crianças e
adolescentes, elas apontam o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil Comentado [MOU10]: E o que está pautado atualmente
nos governos federal, estaduais e municipais sobre esse
(PETI) como ação necessária do governo naquela região, afinal, tal população tema? Ademais, infelizmente, a questão do trabalho infantil
não é exclusiva da zona rural, do campo, mas também dos
encontra nessas práticas irregulares o seu meio de subsistência material e grandes centros urbanos. Quem é que está trabalhando na
orla de ponta verde, especialmente nos fins de semana?
simbólica.

Construir saúde depende da interação produtiva entre governos, setores


públicos e sociedade. Tais instâncias da organização federal funcionam como
engrenagens, sendo impossível iniciar ou manter marcha sem que todas elas
estejam bem apostas. Uma engrenagem, nesse sentido, não pode abdicar do
funcionamento de outra. Quando a máquina pública busca funcionar com
apenas uma ou duas engrenagens, o movimento não acontece e o que se
pode ver são ineficiências das mais diversas. Principalmente quando o assunto
é saúde, uma visão holística e integral é indispensável, porque somente há
saúde se essa for integral. Uma pessoa que experimenta uma depressão não
pode ignorá-la simplesmente porque não apresenta sintomas ditos fisiológicos.
Tampouco se pode afirmar, definitivamente, que há funcionamento biológico
independente do funcionamento psíquico e vice-versa.

8
Este é, na nossa visão, o desafio imposto aos profissionais da saúde -
evitar um dos maiores e mais truculentos paradoxos: dizer que se constrói
saúde com uma população negando, na prática, a sua existência.

3. Referências bibliográficas Comentado [MOU11]: centralizado

BOTERO, A. M. A. Análisis de retóricas políticas y periodísticas a raíz de las Comentado [MOU12]: as referências são apresentadas com
espaçamento simples e duplo entre uma e outra.
elecciones presidenciales colombianas de 2006. Signo y Pensamiento, v.
XXVII, 2008 Comentado [MOU13]: . Disponível em:
Acesso em:
BRASIL (Ministério da Saúde). Política Nacional de Saúde Integral das
Populações do Campo e da Floresta. 2013. Comentado [MOU14]: Destacar

AUGUSTO, L. G. S.; GÓES, L. Compreensões integradas para a vigilância


da saúde em ambiente de floresta: o caso da Chapada do Araripe, Ceará,
Brasil. Cad. Saúde Pública, 4:S549-S558. 2007. Comentado [MOU15]: Disponível em:
Acesso em: