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FIGUEIREDO DIAS

Erro de tipo intelectual (art. 16.º/1) Erro de tipo moral (art. 17.º)
É a própria perceção dos factos existentes que não é atingida – Apenas está em causa a compreensão da sua
impede agente de tomar conhecimento da matéria proibida valoração – o significado valorativo da matéria
(mesmo que esta seja constituída por elementos de direito não proibida
percecionáveis pelos sentidos) Documenta um desfasamento das valorações
subjetivas do agente relativamente às do legislador
Para que um erro que um erro que incida sobre valorações ou Para que um erro que um erro que incida sobre
proibições seja ainda erro de tipo, excludente do dolo, conjugam-se valorações ou proibições seja já um erro sobre a
dois aspectos: ilicitude, conjugam-se dois aspectos:

• o aspeto que se relaciona com a própria posição do agente • o aspeto que se relaciona com a própria posição
perante o conhecimento – a ignorância de cariz intelectual do agente perante o conhecimento – a
sobre o significado da conduta divergência com o legislador sobre a valoração
da conduta
• o aspeto que assenta no próprio objeto sobre que incide o
erro – o erro incide sobre a existência de elementos • o aspeto que assenta no próprio objeto sobre
constitutivos do ilícito típico, dos quais depende a própria que incide o erro – o erro incide sobre o

matéria ou objeto da proibição significado valorativo da conduta típica


realizada pelo agente

Seria contrária à experiência e à realidade da vida a afirmação


de que já o conhecimento da factualidade típica e do decurso do
acontecimento orientava suficientemente a consciência ética do
agente para o desvalor do ilícito – o desconhecimento da
proibição impede o conhecimento total do substrato da
valoração e determina uma insuficiente orientação da
consciência ética do agente para o problema da ilicitude

Proibições incidentes sobre condutas axiologicamente neutras Proibições incidentes sobre condutas
– exs.: axiologicamente relevantes – exs.:
- a ignorância absoluta sobre as normas regulamentares que - não exclui o dolo o desconhecimento quanto ao
estabeleceriam uma tabela de preços, no crime de especulação1 prazo legal da não proibição do aborto, conduta
(a conduta de vender um produto é, em si mesma neutra) que, por atentar contra a vida intra-uterina, nunca
- condução de veículo automóvel com a taxa de álcool no sangue seria axiologicamente neutra
de 1,2 gr/l
Crítica:
• Relatividade e subjetividade cultural do que se entenda como eticamente neutro – imprecisão do critério em certos
casos – exs.: crimes ambientais, como a poluição; crimes económicos, como a especulação; condução automóvel
• Existência de deveres especiais de conhecimento em certas esferas sócio-profissionais – ex.: empresário quanto a
regras contabilísticas – exprime, também, uma situação de indiferença

1
Artigo 35º do Decreto-Lei nº 28/84, de 20 de Janeiro.
URS KINDHÄUSER
Erro sobre a verdade Erro sobre o sentido de uma asserção relativa a factos
(art. 16.º) (art. 17.º)
A fronteira entre os erros não depende de uma qualidade do sujeito ou de uma motivação ou posição prévia perante
os valores do Direito, mas do modo de ser do erro, na perspetiva de alternativas de comportamento do agente.
É, de facto, a natureza do erro que…
…suscita um impedimento ou uma falta de oportunidade …revela a falta de correto processo de motivação, que,
de motivação pela norma – erro de representação todavia, seria possível – erro de linguagem

exs.: ex.:
- o agente dispara, para se exercitar, sobre um espantalho, - o agente erra sobre se o conteúdo de um texto escrito é
mas esse “espantalho” era, afinal, um camponês – o pornográfico – o agente erra sobre o sentido de
agente não erra sobre o sentido das expressões “ser “pornográfico”; “erra sobre o sentido do predicado (...),
humano” ou “espantalho”, mas sim sobre a circunstância de não conhece o seu conteúdo ou não o conhece com
o seu alvo não apresentar as características de um exatidão, porque não sabe que aos elementos deste
espantalho, mas sim de um ser humano; há um “erro pertencem também as propriedades que o texto em
sobre os pressupostos reais da predicação, ao mesmo questão apresenta”
tempo que se compreende (...) corretamente o seu
conteúdo”
- uma pessoa, por não atribuir o valor de documento aos
sinais escritos numa base de copos de cerveja, que
correspondem a um sinal para pagamento, os altera ou
risca

PROFESSORA MARIA FERNANDA PALMA


Erro sobre a factualidade típica (art. 16.º) Erro sobre a ilicitude (art. 17.º)
A distinção depende das condições efetivas, factuais, de oportunidade de conhecimento concreto pelo agente do
sentido efetivo da sua conduta
Factores:
- o nível de inserção profissional do agente
- a evidência das regras
- a perigosidade previsível das condutas em causa
ex.: interpretação de um papel como documento – ex.: o agente erra sobre se o conteúdo de um texto
situações em que os conceitos normativos não escrito é pornográfico – a compreensão do significado
suscitam uma natural valoração paralela na esfera do depende de conceitos e critérios culturais adquiridos na
leigo, pois dependem de um conhecimento interação social
específico, quase técnico
http://www.dgsi.pt/jtrp.nsf/56a6e7121657f91e80257cda00381fdf/053016228756485e80257d0e004eb3e8?O
penDocument
Acórdão do Tribunal da Relação do Porto
Processo: 270/12.1PAVFR.P1
Relator: PEDRO VAZ PATO
Data do Acordão: 25-06-2014
Sumário: Não é punível, nos termos do artigo 16º, nº 1 e 3, do Código Penal, a conduta do agente que conduz
um veículo erroneamente convencido de que uma licença de aprendizagem emitida no Reino Unido o
habilitava a tal.
Decisão integral: «O arguido encontra-se acusado da prática de um crime de condução sem habilitação legal,
previsto e punido pelo artigo 3.°. n.º 1 e 2, do Decreto-lei n.º 2/98, de 3 de Janeiro.
(…)
Importa apurar se a factualidade provada e acima descrita permite concluir, como o faz a douta sentença
recorrida, que o arguido atuou em erro censurável sobre a ilicitude, nos termos do artigo 17º, nº 2, do Código
Penal, justificando-se, por isso, a sua condenação pela prática de crime de condução de veículo sem habilitação
legal; ou se permite concluir, como alega o recorrente, que o arguido atuou em erro sobre proibição, nos termos
do artigo 16º, nºs 1 e 3, do mesmo Código, justificando-se a sua absolvição, por não ser punível essa condução
quando praticada com negligência.
Estatui o artigo 17º, nº 1, do Código Penal, que age sem culpa quem actuar sem consciência de ilicitude do
facto, se o erro lhe não for censurável. Nos termos do nº 2, deste artigo, se o erro lhe for censurável, o agente
é punido com a pena aplicável ao crime doloso respetivo, a qual pode ser especialmente atenuada.
Estatui, por seu turno, o artigo 16º, nº 1, do mesmo Código que o erro sobre elementos de facto ou de direito
de um tipo de crime, ou sobre proibições cujo conhecimento for razoavelmente indispensável para que o
agente possa tomar conhecimento da ilicitude do facto, exclui o dolo. Nos termos do nº 3 do mesmo artigo,
fica ressalvada a punibilidade da negligência nos termos gerais.
No caso em apreço, provou-se que o arguido não sabia que a licença de condução de que é titular não
lhe permitia conduzir em Portugal e não se provou, portanto, que conduzia ciente de que não possuía
título legal que o habilitasse a tal e, consequentemente, que a sua conduta era proibida.
Importa, assim, delimitar o campo de aplicação de cada um dos preceitos referidos e saber em qual desses
campos de aplicação se integra a factualidade provada.
A douta sentença recorrida, tal como a motivação do recurso, parte da lição de Figueiredo Dias que
oportunamente reproduzem. O critério de distinção sugerido por este ilustre professor atende ao facto de
determinada conduta não envolver uma imediata valoração moral, social ou cultural independente de uma
proibição, de essa conduta ser, portanto, axiologicamente neutra abstraindo dessa proibição (caso em que
estaremos perante o campo de aplicação do artigo 16º, nº 1 e 3, do Código Penal); ou, pelo contrário, essa
conduta envolver imediatamente essa valoração moral, social ou cultural independentemente dessa proibição
(caso em quês estaremos perante o campo de aplicação do artigo 17º, nº 1 e 2, do mesmo Código). No primeiro
caso, o erro traduz-se numa falta de conhecimento que deve ser imputada a uma falta de informação ou de
esclarecimento, numa falta de cuidado que pode ser censurável do mesmo modo que o são outras violações
de deveres de cuidado qualificáveis como negligência (e por isso o a conduta só será punível se a sua prática
negligente o for). No segundo caso, o erro traduz-se num erro de valoração, numa falta de consonância da
consciência ética com os critérios de valor da ordem jurídica; dai que possa ser censurável do mesmo modo
em que o será uma conduta dolosa (e por isso o erro censurável não exclui o dolo). Há que distinguir, pois, o
erro psicológico, intelectual ou de conhecimento do erro de valoração ética.
Na mesma linha, Manuel Cavaleiro Ferreira (in Lições de Direito Penal; I, A Teoria do Crime no Código
Penal de 1982, Verbo, 1985, pgs. 217 e 218) distingue as situações em que a consciência de ilicitude está
implícita no conhecimento do próprio facto das situações em que para tomar consciência da ilicitude o
agente deve conhecer a norma proibitiva. Estas situações são as dos crimes predominantemente de “criação
política”, nos quais sobreleva a importância de deveres de disciplina social. Trata-se da clássica distinção
entre mala in se e mala proibita.
Ora, parece não haver dúvidas de que a consciência da ilicitude da conduta do arguido em apreço não
está implícita nessa mesma conduta. Esta é axiologicamente neutra se abstrairmos do específico regime
legal aplicável à condução de veículos em Portugal e das condições em que à luz desse regime é possível a
condução de veículos por parte do titular de uma licença de aprendizagem de condução. Esse regime é,
claramente, de «criação política» (varia no tempo e no espaço em função de opções políticas). Está em,
causa um erro por desconhecimento desse regime legal, não um erro de valoração ética, um erro que
traduza alguma dissonância entre os critérios de valoração ética do agente e os da ordem jurídica. O
desconhecimento desse regime (que pode representar uma falta de cuidado ou negligência - é certo) em
nada significa uma menor adesão à pauta de valores éticos em que assenta a ordem jurídica.
A sentença recorrida considera que estamos perante um erro de valoração, porque o arguido estava convencido
de que agia licitamente. Mas essa sua convicção era devida a um desconhecimento do regime aplicável às
condições de utilização de uma licença de aprendizagem de condução, não a qualquer erro de valoração ética.
Estamos, pois, no campo de aplicação do artigo 16º, nº 1 e 3, do Código Penal.
Como o crime de condução sem habilitação legal é um crime doloso (ver artigo 13º do Código Penal), a
conduta em apreço não é punível, mesmo que se considerasse (como considera a douta sentença
recorrida) que o desconhecimento da proibição em causa traduz um comportamento negligente.
Impõe-se, pois, conceder provimento ao recurso.
V – Pelo exposto, acordam os juízes do Tribunal da Relação do Porto em conceder provimento ao recurso
interposto pelo Ministério Público, absolvendo o arguido B… do crime de condução de veículo sem
habilitação legal, p. e p. pelo artigo 3º, nº 1 e 2, do Decreto - Lei nº 2/98, de 3 de janeiro, por que foi
condenado.»