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FÓRUM • APRESENTAÇÃO

A PROBLEMÁTICA EDUCAÇÃO
DE ADMINISTRADORES
Carlos Osmar Bertero
Chefe do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da FGV-EAESP

O debate sobre a pertinência e a qualidade da educação ministradores a capacidade crítica, a criatividade, isso em
de administradores é quase tão antiga quanto o apareci- função da repetição de modelos, técnicas e idéias importa-
mento das primeiras escolas e Programas de Administra- das. A inspiração de base é a retomada de aspectos do pen-
ção de Negócios. No final da década de 1950, foi publica- samento de Alberto Guerreiro Ramos e Paulo Freire.
do o relatório de um trabalho financiado pela Ford O quarto artigo é de Roberto Ruas e trata de um curso
Foundation, assinado por R. Gordon e J. Howell, Higher ainda novo no nosso cenário educacional: o MPA – Mes-
Education for Business, no qual já se registravam sérias crí- trado Profissional em Administração – , que procura intro-
ticas aos então recém-criados programas de MBA norte- duzir entre nós um programa profissionalizante na linha
americanos. As restrições, dúvidas e até mesmo ceticismo dos MBAs americanos e europeus. No Brasil, a sigla MBA é
não impediram sua expansão. No Brasil, a explosão da edu- utilizada para designar cursos que se faz após a graduação,
cação em Administração foi vigorosa. Atualmente, há mais mas que não têm conteúdo, carga horária, nem requisitos
de 2000 cursos de graduação. Em paralelo, crescem no país acadêmicos definidos. Já o MPA oferece conteúdo cobrin-
os diversos programas de educação continuada, que aqui do as diversas áreas funcionais da Administração, discipli-
recebem as mais variadas designações, sendo a de maior nas instrumentais e ainda demanda um trabalho (disserta-
popularidade o MBA à brasileira. Este, registre-se, pouco ção) de conclusão de curso. Fazendo uso da experiência
tem a ver com os originais americano e europeu. de dois programas de pós-graduação que oferecem MPAs ,
A questão fundamental que os quatro artigos publica- o artigo argumenta que o MPA supre uma lacuna de for-
dos neste fórum procura responder é se cursos de Admi- mação que não vem sendo coberta nem pelos programas
nistração de fato ensinam a administrar, ou, com o devido de especialização (lato sensu) e nem pelos mestrados aca-
respeito a Platão: será que a virtude pode ser ensinada? dêmicos. Ruas sustenta para o MPA é em grande medida
O artigo de Jeffrey Pfeffer e Christina Fong enfatiza o um programa que deve se aproximar do universo do profis-
distanciamento entre o que acontece nas escolas de negó- sional de Administração (gestor ou consultor) procurando
cios e o que se pratica nas empresas. Lembra ainda que as conferir aplicabilidade aos conteúdos teóricos e conceituais.
pesquisas acadêmicas têm pequena repercussão e aplica- A educação em Administração manifesta a fragilidade
ção no mundo do profissional de Administração. Diante da própria Administração como área de conhecimento. O
desta realidade, o futuro das escolas de negócios não pare- ensino de diversas profissões como a Engenharia e a Medi-
ce assegurado, pois estas sofrem concorrência crescente de cina, entre outras, está apoiado num cabedal de conheci-
firmas de treinamento e de consultoria, as quais muitas mentos científicos que pela sua própria natureza acabam
vezes oferecem programas mais interessantes, e que são mais por abrir caminho à aplicação e à geração de técnicas e
próximos da realidade da prática administrativa. tecnologias. São essas aplicações ou desdobramentos do
O artigo seguinte, de Henry Mintzberg e Jonathan Gosling, conhecimento científico que são ensinados nos programas
apresenta a experiência do Masters Program in Practicing que preparam os profissionais.
Management. Segundo Mintzberg, o mundo das escolas de Os iniciadores da Administração Taylor e Fayol acredi-
negócios e de seus cursos pouco tem a ver com o que admi- tavam na possibilidade de uma ciência da Administração
nistradores fazem em empresas. Seu programa fundamenta- que produziria conhecimentos e princípios que poderiam
se na reflexão sobre o trabalho dos administradores. ser ensinados, apreendidos e aplicados. Tivesse isto acon-
O terceiro trabalho, de Alexandre Nicolini, trata da edu- tecido e boa parte da literatura, bem como este fórum, tal-
cação em Administração no Brasil. Sua ênfase é sobre o vez não existisse. Talvez nossos fundadores tenham sido
fenômeno da expansão e possível impacto na formação dos um pouco ingênuos. Cabe perguntar se não herdamos de
administradores. Nicolini argumenta que faltaria aos ad- nossos fundadores parte dessa ingenuidade.

10 • ©RAE • VOL. 43 • Nº 2

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