Você está na página 1de 98

o PASSADO,

MODOS DE USAR
HISTÓRIA, MEMÓRIA E POLÍTICA

ENZO TRAVERSO

edições unipop
Introdução - A emergência da memória 9
o passado, modos de usar. I - História e memória: uma dupla antinómica? 21
História, memória e política. Rememorafão 21
Jeparaf'ÕeJ 29
'1'111 1(' \ dil( :1, \1 J.C passé, modcs J'cmploi:
Empatia 38
histoirc, mi'mmrc, po1itiyUl'
11 - O tempo e a força 55
\1 IIJI~I' 1':m~()'J'ra"cno
Tempo histórico e tempo da memória 55
((Memórias fortes) e «memórias fracaJ) 71
1:1 \1- \IJ LJnipop
111 - O historiador entre juiz e escritor 89
( \1'\ . \nJ.Mary Hdbao Memóna e eJI.Tita da hútória 89
~ érdade ejUJtifu 100
1\'1'liI ',' 111 Spl'cJMcJia IV - Usos políticos do passado 109
(', '1'\ 1(1, ,111 1,:1 fabriyuc 2U05. Unipop A memória da Jhoah como ((religião ávih) 109
O edipxe da memória do (,'l)munúmo 120
para :t prc~cntc cdiçào
1)1 I'{ H 11' I I . , \1, 34U.186/12 V - Os dilemas dos historiadores alemães 129
O deJapareámellto dofasciJ'mo 129
I:\Bê\; 97H-9H9-97519-1-0
Li Shoah, a RDA e o ant[fascúmo 138
VI - Revisão e revisionismo 149
1. J I 1)1' \() JiC\'crciro dc 2012
MetamotjiueJ de um mnceito 149
A palavra e a roisa 155
Nota bibliográfica e agradecimentos 165
Notas 169
A memória de &/and Lew (19~~-2005)

,(A história é sempre contemporânea,


ou seja, polítiCa)}
Antonio Gramsci
Quaderni dei can:ere
Introdução
A emergência da memória

São raras as palavras tão banalizadas como «memó-


ria), A. sua difusào é ainda mais impressionante dada a
sua entrada tão tardia no domínio das ciências sociais.
Durante os anos 1960 e 1970 ela estava praticamente
ausente dos debates intelectuais. Não figura na edição
de 1968 da lntertlational Encydopedia oi lhe Soda! SúenreJ,
publicada em Nova Iorque sob a direcção de David L.
Sills, nem na obra colectiva intitulada Faire de I'lIÍ.rtoire,
publicada em 1974 sob a direcção de Jacques le GofE
e Pierte Nora, nem mesmo em Krywords, de Raymond
Williams, um dos pioneiros da história culturaP. Alguns
anos mais tarde teria já penetrado profundamente no
debate historiográfico.

9
.-\ «memória» é recorrentemente utilizada como si- recordaçõcs, etc), e promovido junto do público atra-
nónimo de história e tcm uma particular tendência para vés de estratégias publicitárias dirigidas.
absorvê-la, tornando-se ela própria numa espécie de
, Os centros de investigação e as sociedades de his-
\categoria meta-histórica. Captura o passado numa rede
tória local são incorporados nos dispositivos deste
de malha mais larga do que a disciplina tradicionalmen-
turismo da memória em que por vezes encontram os
te denominada história, aí depositando uma dose bem
seus meios de subsistência. Por um lado, este proces-
maior de subjectividade, de «vivido», Em suma, a me- so decorre indubitavehnente de uma rqjicarãfL.dsL-RJJ,f.f11-
mória aparece como um história menos árida e mais ~~, ou seja, da sua transformação em objecto de con-
«humana»2. ~-\ memória invade hoje em dia o espaço sumo, estetizado, naturalizado e rentabilizado, pronto
público das sociedades ocidentais. a passado acompa- para ser utilizado pela _indústria do turismo. e do es-
nha o presente e instala-se no seu imaginário colectivo pectáculo, especialmente pelo :§;~a, .o historiador é
como uma ((memória» extremamente amplificada pelos frequentemente chamado a participar nesse processo,
meios de comtmicação e frequentemente regida pelos na qualidade de «profissional» e de «especialista» que,
poderes públicos, ~.\ memória transforl!la..::.s.c em «ob~es­ nos termos de alivier Dumouhn, faz da sua arte um
sã?_.<;<?-,::~~~nl:?~~~V:~}) .e. a v:alorização, por vezes mesmo a «produto comerciab) da mesma forma que o são os
sacraliza~ão, dos «lugares de memória» engendra uma bens de conswno que invadem as nossas sociedades.
verdadeira «topolatriro,.',. Esta memória superabllildan- A Public IIútory americana, com os seus historiado-
te e saturada sinaliza o espaço-t, Tudo doravante con- res a trabalhar para instituições ou mesmo empresas
tribui para «fazer» memória. a passado transforma-se privadas sujeitas à lógica dO J~'c~~~': há muito que nos
em memória colectiva depois de ter sido seleccionado indica o caminhos. Por outro lado, este fenómeno
e reinterpretado segundo as sensibilidades culturais, parece-se igualmente, em vários aspectos, ao que Eric
as interrogações éticas e as conveniências políticas do Hobsbawm chamo~~'<~~ inven~ã~'~ d~ tradi~ç-ã~~~ um
'---.~-, -'~-'-~' "."
presente. Assim toma forma o «turismo da mem~.~~l»!. passado real ou mítico em torno do qual se constro-
com a transformação de locais históricos em museus e em práticas ritualizadas que visam reforçar a coesão de
em lugares de visitas organizadas, dotadas de estruturas um grupo ou de uma comunidade, legitimar algumas
de acolhimento adequadas (hotéis, restaurantes, lojas de instituições e inculcar valores na sociedade. Por outras

10 r 11
palavras, a memória tende a tornar-se o vector de uma climo da experiência transmitida, um declínio marcado
---:-:--- '"------- --"
simbolicamente ~lo início da Primeira Guerra l\Iun-
«religião civil» do mundo ocidental, com o seu sistema
de ~;f~;~~, ~~~~ças, símbolos e !!nugiaS7.
_ _ _ _ •• __ • • _ _ _ " •• ' - - _ 0 . ' . _ ••• , _ o •• _ ~"--'
diaL Durante esse ,momento de grande trauma europeu,
muitos milhões de pessoas, sobretudo jovens campo-
De onde vem esta obsessão memorial? A sua prove-
neses que tinham aprendido com os seus antepassados
niência é múltipla, mas deve-se sobretudo a uma crise
a viver segundo os ritmos da natureza, no interior dos
de IrmumúJào no seio das sociedades contemporâneas.
códigos do mundo rural, foram brutahnente arranca-
Poderia evocar-se a esse propósito a distinção sugeri-
dos ao seu universo social e mentaiS, Foram subitamen-
da por \Valter Benjamin entre a «experiência transmi-
tida» (l-!.ifahruniJ e a «experiência(~yid~»_ (Erlebnú). A
-'-
te submersos «numa paisagem em que quase nada era
reconhecível além das nuvens e, no meio, num campo
primeira perpetua-se quase naturalmente de uma ge-
de forças atravessado de tensões e explosões destruti-
ração para a outra, forjando as identidades dos gru-
vas, o minúsculo e frágil corpo humaoQ))Q, Os milhares
pos e das sociedades num tempo longo; a segunda é
de soldados que voltaram da frente de guerra, mudos e
a vivência individual, frágil, volátil e efémera. No seu
amnésicos, comocionados pelos Shell Shotk/ provoca-
Parsagen-Ü:/erk, Benjamin considera a «experiência vivi-
dos pela artilharia pesada que bombardeava, sem cessar,
da» como um traço marcante de modernidade, com o
as trincheiras inimigas, corporizaram esse corte entre
ritmo e as metamorfoses da vida urbana, os choques
duas épocas; a da tradição forjada pela experiência her-
eléctricos de urna sociedade de massas e o caos calei-
dada e a dos cataclismos que se furtam aos mecanismos
doscópico do universo mercantil. .-\ Etjàhrung é típica
naturais de transmissão da memória, As desventuras do
das sociedades tradicionais e a Erlebnú é própria das so-
Jmemorato di Co!!egno - um ex-combatente amnésico de
ciedades modernas, por vezes como marca antropológi-
dupla identidade, ao mesmo tempo filósofo de Verona
ca do liberalismo, do individualismo possessivo, outras
e operário tipográfico de Turim - que apaixonaram os
vezes como produto das catástrofes do século Àrx, com
italianos no período entre as duas guerras, e inspira-
o seu cortejo de traumas que afectaram gerações intei·
ram obras de Luigi Pirandello, José Carlos l\Iariátegui
ras sem que fosse possível inscreverem-se como urna
herança no curso natural da vida. A modernidade, se- -" Noml: dado na Prirnl:ira GUl:rra Mundial ao ljUl: hojl: SI.:
gundo Benjamin, caracteriza-se precisamente pelo de- dl.:signa, na hríria militar, por combal Jlress readio» (CSR). N.T

12 13
e Leonardo Sciascia, inscrevem-se nessa mutação pro- continuidade histórica e dotando-as de um sentido, ou
funda da paisagem memorial europeia 10. Mas, no fun- seja, çie um conteúdo e de uma direcção. A sociedades
do, a Grande Guerra não fazia mais do que completar, humanas possuíram, sempre e em todo o lado, uma me-
de uma forma convulsiva, um processo cujas origens mória colectiva mantida através de ritos, cerimónias e
foram magistralmente estudadas por Edward Palmer mesmo po/itú't/J'. /\s estruturas elementares da memó~~_

Thompson num ensaio sobre o advento do, ,te_~p(~)" ~e­ <;9.I.~<:!~~_~!:~_~dem na comemoração dos mortos. Tradi-
cânico, produtivo e disciplinar da sociedade industriaP I. cionalmente, no mundo ocidental, os ritos e os monu-
Outros traumas marcaram a «experiência vivida}) do mentos funerários celebravam a transcendência cristã
século X.X, sob a forma de guerras, genocídios, depu- - a morte como passagem para o Além - c, ao mesmo
rações étnicas ou repressões politicas e militares. A re- tempo, reafirmavam as hierarquias sociais «aqui em bai-
cordação que deles resultou não foi efémera nem frágil. xo». N a modernidade, as práticas comemorativas meta-
Para várias gerações incapazes de ter uma percepção da morfoseiam-se. Por um lado, com o fim das sociedades
realidade que não fosse a de um universo fracturado foi do Antigo Regime, democratizam-se ao investirem a
>
mesmo uma recordação fundadora que, porém, não se sociedade no seu conjunto; por outro, secularizam-se
constituiu como uma experiência do quotidiano trans- e tornam-se funcionais, veiculando novas mensagens
missível a uma nova geração 12 . Uma primeira resposta dirigidas os vivos. A partir do século XIX, os monu-
à nossa questão inicial poderia, assim, formular-se da mentos comemorativos consagram os valores laicos (a
segtúnte forma: a obsessão memorial dos nossos dias é Pátria), defendem princípios éticos (o Bem) e politicos
um produto do declinio da experiência transmitida num (a Liberdade) ou celebram acontecimentos fundadores
mundo que perdeu as suas referências, desfigurado pela (guerras, revoluções). Começam a tornar-se símbolos
violência e atomizado por um sistema social que apaga de um sentimento nacional vivido como uma «religião
as tradições e fragmenta as existências. civih>. Segundo Reinhart Koselleck, «O declínio da in-
É necessário que nos interroguemos sobre as formas terpretação cristã da morte deixou o campo livre para
dessa obsessão. A memória - a saber, as representações interpretações puramente políticas e sociais}}':>. Iniciado
colectivas do passado tal como se forjam no presente com a Revolução Francesa, berço das primeiras guerras
- estrutura as identidades sociais, inscrevendo-as numa democráticas do mundo moderno, o fenómeno apro-

14 15
fundou-se depois da Grande Guerra, quando os mo- actores. Por outro lado, o aparecimento da testemunha
numentos aos soldados caídos em combate começaram c, em consequência, a entrada da memória na oficina
a organizar o espaço público em todas as povoações. do historiador vieram pôr em causa alguns práticas ha-
bituais, como por exemplo as de uma história estrutural
Hoje, o trabalho de luto mudou de objecto e de
concebida enquanto um processo de acumulação) no
formas. Nesta viragem de século, Auschwitz tornou-
tempo longo, de vários estratos (território, demografia,
-se a base da memória colectiva do mundo ocidenta1. A
trocas, instituições, mentalidades) que permitem apre-
política da memória - comemorações oficiais, museus,
ender as coordenadas globais de uma época, mas que
filmes, etc. - tende a fa7:er da Shoah a metá~?!~_~~,:.j
deixam muito pouco espaço à .~':!,!Ü~!!~~da~e dos ho-
culo x.~ como idade de guerras, de totalitarismos, de "
mens e das mulheres que fé;em a História 1.\.
genocidios e de crimes contra a humanidade. N o centro
deste sistema de representações instala-se uma figura Entrámos, para usar as palavras de Annette
nova, a y;~;;;~~71ã,\o sobrevivente dos campos nazis. Wieviorka, na ~<~ra da, testemunha», que, colocada sobre
,-_._- _...- - _. ' ' ' " -- ..
~

1\ recordação de que é portador e a atenção que lhe wn pedestal, encarna um passado cuja recordação é pres-
é reservada (após décadas de indiferença) abalaram o crita como wn dt:ver cívicol~JA testemunha identifica-se
historiador, ao criarem desordem na sua oficina c ao cada vez mais com a vítima, outra marca desta era. Igno-
perturbarem o seu modo de trabalho. Por um lado, o rados durante décadas, os sobreviventes dos campos de
historiador teve de se render à evidência das limitações extermínio nazis tornaram-se hoje,5_0~tra ª sua vontade,
dos seus procedimentos tradicionais e das suas fon- ícones~~os., São cristalizados nwna posição que não
tes, bem como ao contributo indispensável das teste- escolheram e que nem sempre corresponde à sua ne-
munhas para a reconstrução de experiências como o cessidade de transmitir a experiência vivida. Outras tes~

universo concentracionário e a máquina exterminadora temunhas, antes apontadas como heróis exemplares, tal
do nazismo. A testemunha pode oferecer-lhe elemen- como a resistência que pegou em armas para combater
tos de conhecimento factual inacessíveis através de o fascismo, perderam a sua aura ou caíram mesmo no
outras fontes, mas sobretudo pode ajudá-lo a restituir esquc,çims:;nto•. engolidas pelo «fim do comunismo» que,
a qualidade de uma experiência histórica cuja textura se eclipsado da história com os seus mitos, na sua queda
modifica depois de enriquecida pelas vivências dos seus arrastou as utopias e as esperanças que havia encarnado.

16 17
A memória destas testemunhas já só a poucos interessa, acto reparador, um sucedâneo fantasmático de um exér-
numa época de humanitarismo onde já não há venádos cito judaico que teria expulso os nazis de Varsóvia em
mas apcna(;7i~~sta dissiroetria da recordação - a sa- 194yH. i\Iais recentemente, em 2002, o Consistório cen-
cralização das vítimas antes ignoradas e o esquecimento tral dos israelitas de 1"rança declarou que o país estava à
de heróis anteriormente idealizados - indica a ancora- beira de uma onda de antissemitismo comparável à que
gem profunda da memória colcctiva no presente, com as se abateu na Alemanha nazi durante a Noite de Cristal
suas mutações e regressões paradoxais. em Novembro de 1938 1'J. Para o escritor português José
Saramago, em contraposição, a ocupação israelita dos
A memória conjuga-se sempre no presente, que de-
territórios palestinos seria comparável ao Holocaus-
termina as suas modalidades: a sucessào de aconteci- 20
t0 • Durante a guerra na ex-]ugoslávia, os nacionalistas
mentos de que se devem guardar recordações Cc de tes-
sérvios viam as depurações étnicas contra os albaneses
temunhas a escutar), a sua interpretação, as suas «lições)),
do Kosovo como uma vingança contra a antiga opres-
etc. Ela transforma-se em questão política e toma a for-
são otomana, enquanto em França os profissionais do
ma de uma injunção ética - 9.<idc.ycr.da mcrnó!ia~-=- que
anticomunismo viam as bombas sobre Belgrado como
frequeftemente se transforma em fonte de abusos]('. Os
tuua defesa da liberdade contra o totalitarismo. ~\ lis-
exemplos não faltam. Todas as guerras destes últimos
ta poderia cont.inuar, .\ dimensão política da memória
anos, da primeira à segunda guerra do Golfo, passan-
colectiva - e os abusos que a acompanham - não pode
do pela guerra do Kosovo e pela do ~\feganistão, foram
deixar de afectar a maneira de escrever a história,
também guerras da _rne~-~~_i~ pois foram justificadas pela
evocação ritual do dever de memória l7 • Saddam Hussein, Este livro propõe-se explorar as relações entre a
Arafat, i\.filosevic e George W Bush foram comparados história e a memória e analisar alguns aspectos do uso
co~_,~_~e.~ nas palavras de ordem das manifestações, público do passado. A matéria que se oferece a essa
nos cartazes, nos meios de comunicação e no discurso reflexão é inesgotável. Baseei-me em alguns temas co-
de alguns líderes políticos. O islamismo político é muitas nhecidos e sobre os quais tenho trabalhado nos últimos
vezes identificado com o fanatismo nazi. O historiador anos. Outros de igual importância ficaram excluídos ou
israelita Tom Segev indica que Menahem Bcgin tinha são pouco evocados neste ensaio, que pretende partici-
vivido a invasão israelita do Lbano, em 1982, como um par num debat~;;'~o-e'aínda'emábe::J

18 19
I
História e memória:
uma dupla antinómica?

Rememorarão
História e memória nascem de uma mesma preocu-
pação c partilham o mesmo objecto: a elaboração do
____pass_ad? No entanto, existe uma «hierarquia)) entre as
duas. De acordo com Paul Ricoeur, a memória possui
um estatuto matriáa/ 1• A história é um relato, uma es-
crita do passado segundo as modalidades e as regras de
um oficio - de uma arte ou, com muitas aspas, de uma
«ciência» - que tenta responder a questões suscitadas
pela memória. A história nasce, portanto, da memória,
libertando-se desta ao colocar o ,passado à distância, ao
considerá-lo, segundo a expressão de Oakeshott, como

21
«um passado em SD)~. A história acaba, enfim, por fa- tos a que assistimos, dos quais fomos testemunhas, ou
zer da memória um dos seus domínios de investigação, mesmo actores, e às impressões que deixaram no nosso
como prova a história contemporânea. Também cha- espírito. A memória é qualitativa, singular, pouco preo-
mada de «história do tempo presente», a história do sé- cupada com comparações, com a contextualização, ou
culo XX analisa o testemunho dos actores do passado e com generaliza~ões. Quem a transporta não necessita
integra o relato oral nas suas fontes, a par dos arquivos e
de apresentar provas. O relato do passado prestado por
de outros doclUTIentos materiais ou escritos. Em suma, tuna testemunha - sempre que não seja um mentiroso
a história nasce da memó~a, de que é uma das dimen-
consciente - será sempre a sua verdade, ou seja, a ima-
sões, e posteriormente, adaptando uma postura auto-
gem do passado em si d~post~. Pelo seu carácter sub-
-reflexiva, transforma a memória num dos seus ol!}"ect?J.
jectivo, a memória nunca é cristalizada; mais se parece
Proust continua a ser uma referência obrigatória com um estaleiro aberto, em contínua operação. Nào
para toda e qualquer meditação sobre a memória. Nos é apenas, segundo a metáfora de Benjamin, «a tela de
seus comentários sobre a obra Em BUJm do Tempo Per- Penélope» que se modifica todos os dias devido ao es-
dido, Walter Benjamin sublinha que Proust «não descre- quecimento que «ameaça» em permanência, para reapa-
veu uma vida tal como ela foi, mas uma vida como a re- recer mais tarde, por vezes muito mais tarde, tecida de
memora alguém que a vivew). E continua comparando lUTIa forma diferente. Não é só o tempo a erodir e a en-
a {{memória involuntária» de Proust - que traduz como fraquecer a recordação. A memória é uma construção,
«trabalho de rememo ração espontânea» (1-!.inl!,edenken), sempre filtrada por conhecimentos adquiridos poste-
onde a recordação é a embalagem e o esquecimento é o riormente, pela reflexão que se segue ao acontecimento,
conteúdo - com um «trabalho de Penélope» onde é «o
por experiências que se sobrepõem à primeira e modifi-
dia que desfaz o que a noite tinha fcito». Cada manhã,
cam a recordação. O exemplo clássico é, uma vez mais,
ao acordar, «não temos em mãos mais do que algumas
o dos sobreviventes dos campos nazis. Muitas vezes, o
franjas, em geral frágeis e lassas, da tapeçaria do vivido
. . ;
relato da permanência em Auschwitz por um ex-depor-
que o esque~lffiento em nos tecew) .
tado judeu e comunista modifica-se consoante a sua re-
Tirando a sua força da experiência vivida, a memó- lação com o Partido Comunista. Durante os anos 1950,
ria é eminentemente sul?jectiva. Fica ancorada aos fac- antes da ruptura com o Partido, coloca a sua identidade

22 23
política em primeiro plano ao apresentar~se como um polariza o acontecimento (das Gwhehen) em história
deportado antifascista. Depois, durante os anos 1980, anterior e história posterioo). A história, continua Ben-
conswnada a ruptura, considera-se em primeiro lugar jamin, «não é apenas uma ciência», já que é «ao mes-
um deportado judeu, perseguido como judeu e teste- mo tempo uma forma de rememoração (c.illgedenken»)ú.
mWlha do aniquilamento dos judeus na Europa. Bem ?-.1ais recentemente, numa linha semelhante, François
entendido, seria absurdo distinguir entre dois testemu- Hartog forjou a noção de «presentismo» a fIm de des-
nhos prestados pela mesma pessoa em dois momentos crever uma situação em que «o presente se tornou o
diferentes da sua vida, elegendo um como falso e outro horizonte», um presente que, «sem futuro e sem pas-
como verdadeiro. Os dois são autênticos, mas cada um sado», permanentemente engendra os dois segundo as
deles ilumina uma parte da verdade filtrada pela sensi- suas necessidades7.
bilidade, pela cultura e também, poderia acrescentar-se, 1\ história, que no fWldo, lembrava Ricoeur, não é
peIas representações identitárias, ou mesmo ideoló- mais do que wna parte da memória, escreve-se sem-
gicas, do presente. Resumindo, a memória, individual pre no presente. Para existir como campo do saher, no
ou colectiva, é uma visão do passado que é sempre fil- entanto, a história deve emancipar-se da memória, não
trada pelo presente. Nesse sentido, Benjamin definiu o rejeitando-a mas colocando-a à distância. Um curto-cir-
procedimento de Proust como uma «presentificação» cuito entre história e memória poderia ter consequên-
(Vet:.~egenwdrligulJi/. Seria ilusório pensar-se no «antes» cias prejudiciais para o tt""J.balho do historiador.
(das GeweJ"ene) como uma espécie de «ponto h.X(M de que Uma boa ilustração deste fenómeno é oferecida
nos poderíamos aproximar através de wna reconstrução pelo debate dos últimos anos em torno da «singula-
mental a pOJ/enon. O «acontecido» é em larga medida ridade) do genocídio judeuil • A irrupção desta contro-
configurado pelo presente, visto ser a memória a «esta- vérsia no domínio do historiador relaciona-se, inevi-
beleceD) os factos: trata-se, segundo Benjamin, de uma tavelmente, com o percurso da memória judaica, com
«revolução coperniciana na visão da histórill»5. Benjamin a sua emergência no seio do espaço público e a sua
reafirma es t:r conceito nas «reflexões teóricas» do seu interferência nos métodos tradicionais de pesquisa que
PaJJagen-Werk, quando considera «o passado em colisão foram subitamente confrontados com autobiografias
com o presente», acrescentando que «é o presente que e com arquivos audiovisuais que apresentam os teste-

24 25
munhas dos sobreviventes dos campos de concentra- conjunto de imagens e de recordações todas elas sin-
ção. Se uma tal «contaminação» da historiografia pela gulares e completamente inacessíveis ao historiador,
memória se revelou extremamente frutuosa, nào deve senào com base num relato a pOJteriori, fonte de uma
no entanto ocultar uma observação metodológica tão empatia incomparável àquela que a testemunha pôde
banal como essencial: a memória JÚIJ"ulariza a histó- reviver. A fotografia de um Hiijt/iI{p'· significa aos olhos
ria, na medida em que é profundamente subjectiva, do historiador uma vítima anónima; para um paren-
selectiva, muitas vezes desrespeitadora da cronologia, te, um amigo ou um camarada de detenção, evoca um
indiferente às reconstruções de conjunto e às raciona- mundo absolutamente único; para o observador exte-
lizações glo bais. .A sua percepção do passado não pode rior, não representa - como diria Siegfried Kracauer
ser senào irrcdutivelmente singular. Onde o historia- - mais do que uma realidade «não redimida)) (1I1!er/rir/f·
dor não vê mais do que uma etapa de um processo, O conjunto daquelas recordações forma uma parte da
do que um aspecto de um quadro complexo em mo- memória judaica, uma memória que o historiador nào
vimento, a testemunha pode captar um acontecimento pode ignorar e que deve respeitar, que deve explorar
crucial, o ponto de viragem numa vida. O historiador e compreender, mas à qual não se deve submeter. O
pode decifrar, analisar e explicar as fotografias conser- historiador nào tem o direito de transformar a sin-
vadas do campo de Auschwitz. Ele sabe que aqueles gularidade dessa memória num prisma normativo da
que descem do comboio são judeus, ele sabe que o SS escrita da história. A sua tarefa consiste muito mais
que os observa fará uma selecçào e que a grande maio- na inscrição dessa singularidade da experiência vivida
ria das figuras daguela fotografia não terá mais dos num contexto histórico global, tentando esclarecer as
que algumas horas de vida à sua frente. A uma teste- causas, as condições, as estruturas, a dinâmica de con-
munha, essa fotografia dirá muito mais. Lembrar-se-á junto. Isto significa aprender com a memória depois
das sensações, das emoções, dos ruidos, das vozes, dos de a passar pelo crivo de uma verificação objectiva,
cheiros, do medo e da desorientação da chegada ao empírica, documental e factual, assinalando, se ne-
campo, da fadi&.a de wna longa viagem efectuada em cessário for, as suas contradições e armadilhas. Este
condições horrf~·eis, sem dúvida da visão do fumo dos
crematórios. Dito de outra forma, lembrar-se-á de um * Prisioneiro. N.T
26 27
procedimento pode ajudar a recordação a tornar-se
5 eparafões
mais nítida, a clarificar os seus contornos, a tornar-se
mais exigente, e também a trazer luz sobre aquilo que É apenas a partir do início do século XX, quando os
na lembrança não é redutível a elementos factuais](). paradigmas do historicismo clássico entraram em
Se pode haver uma singularidade abJolJlta da memó- crise, questionados simultaneamente pela filosofia
ria, a da história será sempre relativa " . Para um judeu (Bergson), pela psicanálise (Freud) e pela sociologia
polaco, Auschwitz significa qualquer coisa de terrivel- (T Ialbwachs), que história e memória passaram a for-
mente único: o desaparecimento do universo humano, mar um par ant1nómico. Até então a memória era con-
social e cultural onde nasceu. Um historiador que não siderada o substrato subjectivo da história. Para I regel,
consiga compreender isso jamais conseguirá escrever a história (GcJ(hú;hte) possuía duas dimensões comple-
um bom livro sobre a Shoah, mas o resultado da sua mentares, uma objectiva e outra subjectiva: de um lado,
pesquisa também não seria melhor se concluísse - tal os acontecimentos (reJ geJtae); do outro, a sua narração
como o fez, por exemplo, o historiador norte-america- (hiJtoria remm geJtarum); isto é, os «factos» e o seu ({re-
no Steven Katz - que o genocídio judaico foi o único lato históricQ)'~. A memória acompanha o desenrolar
da história'~. Segundo Eric Hobsbawm, o historiador da história como uma espécie de sua protectora, já que
não se deve subtrair a um dever de universalismo: constitui o seu «fundamento interion), c as duas encon-
«Uma história que diga respeito apenas aos judeus (ou tram a sua rea/i:;pf-ão no Estado, cuja história mnla (<<a
aos negros americanos, aos gregos, às mulheres, aos prosa da História»)L') rcllccte, como um espelho, a ra-
proletários, aos homossexuais, etc.) não será uma boa cionalidade intrínseca. Hegel apresenta esse domínio
história, mesmo que possa reconfortar quem a prati- estatizado do passado sob a forma alegórica do conflito
ca.»!.}. É normalmente muito difícil, para os historia- entre Cronos, o deus do tempo, c Zeus, o deus políti-
dores que trabalham sobre fontes orais, encontrar o co. Cronos mata os seus próprios filhos. Engole tudo
equilíhtto justo entre empatia c distanciação e entre à sua passagem, não deixando rasto. Mas Zeus conse-
o reconhecimento das singularidades e a perspectiva gue dominar Cronos, porque criou o Estado, capaz de
geral. transformar em história tudo aquilo que Mnemósina, a
deusa da memória, pôde colectar após a passagem de-
vastadora do tempo. Na Fenomenologia do Espírito, a me-

28 29
mária define a historicidade do Espírito (Ceist), que se dinâmica. ~\ transição não foi nem linear nem rápida
manifesta simultaneamente como «recordaçãm) (Erin- e, de runa certa forma, ainda nào foi concluída. Nos
nerunJ'J e movimento de «interiorização» (Er-Innerunj) , últimos trinta anos, os historiadores alargaram as suas
enquanto que o Estado constitui a sua expressão exte- fontes, mas continuam a privilegiar os arquivos, que nào
rior u,. Para Hegel, apenas os povos estatizados, dota- deixaram de ser o depósito dos vestigios de um pas-
dos de uma história escrita, possuem uma memória. Os sado conservado pelo Estado. Só recentemente é que
outros - «os povos sem história» (gexchúhtlose V01ker), ou os «subalternos» foram reconhecidos como sujeitos da
seja, o mundo não europeu desprovido de um passado história e se tornaram objecto de estudo. E foi ainda
estatal e do seu relato codificado pela escrita - não po- mais recentemente que se começou a tentar escutar a
dem superar o estádio de uma memória primitiva, feita sua voz. Em 1963, François Furet ainda pensava que
de «imagens» mas incapaz de se condensar em consci- podia integrar as classes subalternas na história apenas
ência histórica 17 • Daqui resulta uma visão dupla da his- num plano quantitativo, tomando-as em consideração
tória, como prerrogativa ocidental e como dispositivo unicamente sob o signo «do número e do anonimato»,
de dominação. Nào só é pertença exclusiva da Europa, como elementos «perdidos no estudo demográfico ou
como só pode existir enquanto relato apologético do sociológico», ou seja, como entidades condenadas a
poder 1/l, aquilo que Benjamin denunciou como empatia permanecer «silenciosas)f~(). No fundo, para aguele ad-
historicista com os vencedores 1!).
mirador de Tocqueville, as classes trabalhadoras perma-

No entanto, no seguimento da crise do historicis- neciam ainda como «povos sem história». ;\ mutação
mo, da crítica ao paradigma eurocentrista no período da operou-se precisamente no decurso dos anos 1960.
descolonização e, depois, com a emergência das clas- ~\ primeira grande obra de história social das classes
ses subalternas como sujeitos políticos, a história e a subalternas, The Makilzg qf the Englúh Lf70rkineg ClaJJ, de
me~ria dissociaram-se. A história democratizou-se, Edward Palmer Thompson, data de 1963; a Hútoire de la
rompendo as fronteiras do Ocidente e o monopólio das folie à I'âge daJJique, de Foucault, data de 1964; e o pon-
elites dominantes; a memória, por sua vez, emancipou- to de partida da micro-história, 11 formaggio e i vermi, de
-se da dependência exclusiva da escrita. A relação entre Carlo Ginzburg, que reconstrói o universo de um mo-
história e memória reconfigurou-se como uma tensão leiro de Prioul no século XVI, data de 1976::1• De igual

30 31
modo, para a historiografia, as mulheres só passaram a A história supõe wn olhar exterior sobre os aconteci-
ter uma história há trinta anos 22
• Até então, as mulheres mentos do passado, enquanto a memória implica uma
estavam excltúdas da mesma forma que o estavam os relação de interioridade com os factos relatados. A
«povos sem história}} de Hegel. Os Suba/tern StudieJ, por memória perpetua o passado no presente, enquanto a
seu lado, nasceram na Índia no início dos anos 1980. história fixa o passado numa ordem temporal fechada,
O seu objectivo é rescrever a história já não como «a acabada, organizada seguindo procedimentos racionais
obra da Inglaterra na Índia}), nem como a das elites inos antípodas da sensibilidade subjectiva do vivido. i\
I
indianas formadas durante a dominação colorrial, mas I memória atravessa as épocas, enquanto a ~is.t~ria as se- .
como história dos «subalternos», o povo cuja «pequena
voz» (sma/f voice) procura escutar-se e que «a prosa da
I para. No fundo, Halbwachs opõe a multlplicH.lade das
memórias - ligadas aos indivíduos e aos grupos que
contra-insurreição» depositada nos arquivos de Estado delas são portadores e sempre elaboradas em quadros
não nos pode restituir, pois a sua função consiste exac- SOCIaIS definidos 25 - ao carácter unitário da história,
tamente em submergi-Ial -'. É neste contexto de alarga- que se declina em histórias nacionais ou em história
mento das fontes do historiador e de questionamento universal, mas que exclui a coexistência de vários re-
das hierarquias tradicionais que se inscreve a emergên- gimes temporais nwn mesmo rclato::'i,. Em resumo,
cia da memória como uma nova oficina de escrita do Halbwachs opõe uma história positivista - o estudo
passado. científico do passado, sem interferências com ü presen-

O primeiro a codificar a dicotomia entre as flutu- te - a uma memória subjectiva baseada nas vivências
ações emocionais da recordação e as construções ge- dos indivíduos e dos grupos. Radicalizando a pers-
ométricas do rdato histórico foi ;\faurice I-Ialbwachs, pectiva, compara a clivagem que separa a história da
na sua ohra já clássica sohre a memória colectiva. Aí memória à que opõe o tempo matemático ao «tempo
denunciou o carácter contraditório da expressão «me- vivido» de Bergson17 • A história, refere o autor, igno-
mória histórica» por unir dois elementos que, a seu ver, ra as percepções subjectivas do passado ao privilegiar
se opõem. Para Halbwachs, a história começa onde ter- cortes convencionais, impessoais, racionais e objectivos
mina a tradição ~(se decompõe a memória social»l~, (Halbwachs refere o exemplo da Cbronologie univerJelfe, de
estando as duas separadas por uma clivagem insanável. Dreyss, publicada em Paris em 1858fH.

32 33
Essa dicotomia foi retomada, mais recentemente, a memóna. Recuperou para si a tese de Ilalbwachs,
por Yosef IIaym Yerushalmi que, na sua qualidade mas apresentando uma visão bem mais problemática
de historiador, se apresenta como um recém-chegado ao das vicissitudes da escrita da história. i\lemória e histó-
mundo judaico. Numa comunidade unida pela religião, ria, explica Nora, estão longe de ser sinónimos, já que
a imagem do passado foi forjada no decorrer dos sé- «tudo as opõe). A memória é «a vid.,\», o que a expõe «à
culos graças a uma memória ritualizada que fixava as dialéctica da recordação e da amnésia, inconsciente das
modalidades e os ritmos de uma temporalidade judaica suas deformações sucessivas, vulnerável a todas as uti-
separada do mundo exterior. Por consequência, a his- lizações e manipulações, susceptível de longas latências
toriografia judaica nasce de uma ruptura com a memó- e de súbitas revitahzações». Ora, esse «vínculo vivido
ria judaica, a única que anteriormente tinha assegurado no presente eterno» não pode ser assimilado à história,
uma continuidade, em termos de identidade e de auto- representação do passado que, mesmo se problemática
-representação, no seio do mundo judaico. Essa ruptura e sempre incompleta, se quer objectiva e retrospectiva,
foi marcada pela Emancipação judaica, movimento que fundada na distância. A memória é «afectiva e mágica»,
engendrou um processo de assimilação cultural com o com tendência para sacrahzar as recordações, enquanto
meio envolvente e, no interior da comunidade, o des- a história é uma visão secular do passado, sobre o qual
moronamento da antiga organização social centrada na constrói «um discurso critiCO»). A memória tem uma vo-
sinagoga. Inscrevendo-se num mundo secularizado e cação singular, ligada à subjectividade dos indivíduos e
adaptando as divisões temporais da história profana, a dos grupos, a história tem uma vocação universal. «.Ao.
história judaica - cujo início foi marcado pela escola da memória é um absoluto e a história apenas conhece o
l17úienid}~/i dej' .1udet1tumi, nascida em Berlim no início relativo».311 A partir dessa constatação, Nora não pode
do século XIX - não poderia senào operar uma ruptu- conceber senão uma relação entre história e memória,
ra, pelas suas modalidades, fontes e objectivos, com a a de uma análise e reconstrução da memória segundo
memória judaica~').
os métodos das ciências sociais de que a história faz
A antinomia entre história e memória foi reafir- parte. Nessa perspectiva, Nora abriu um novo campo
mada por Pierre Nora, a quem se deve a renovação, a historiográfico extremamente ambicioso: reconstruir a
partir dos anos 1980, do debate historiográfico sobre história nacional em torno dos «lugares da memória»,

34 35
do território às paisagens, dos símbolos aos monumen- «arqueologia - religião nacionab), escavou a terra com
tos, das comemorações aos arquivos, dos emblemas aos o mesmo afinco com que os bulldozeri destruíram os
mitos, da gastronomia às instituições, de Joana d'Arc à traços materiais do passado árabo-palestino~2,

Torre Eiffel.
Por outro lado, deve ter-se em conta a influência da
Todavia, longe de serem o quinhão exclusivo da história sobre a própria memória, já que não existe me-
memória, os riscos de sacralização, mitificação e am- mória literal, original e não contaminada: as recorda-
nésia espreitam permanentemente a escrita da própria ções são constantemente elaboradas por uma memória
história e uma grande parte da historiografia moderna inscrita no espaço público, submetidas aos modos de
e contemporânea caiu nessa armadilha, O projecto de pensar colectivos, mas também influenciadas pelos pa-
Nora não escapa a essa regra, ao reservar um espaço radigmas especializados da representação do passado,
bem modesto para o passado da França colonial en- Esta situação deu lugar a lul)ridos - certas autobio-
tre a multitplicidade de «lugares de memória>" Segundo grafias cntram nessa categoria - que permitem à me-
Perry Anderson, o mais severo dos seus críticos, o pro- mória revisitar a história, destacando os pontos cegos
jecto editorial de Nora reduz as guerras coloniais fran- e as generalizações apressadas, e à história corrigir as
cesas, da conquista da Argélia à derrota na Indochina, armadilhas da memória, obrigando-a a transformar-se
«a uma exposição de bugigangas exóticas que poderiam em análise auto-reflexiva e em discurso crítico, Uma
ter estado presentes na exposição universal de 1931. O obra como Oi que mmmbem e OJ que Je Ja/vam, de Pri-
que valem os lugares de memón'a que se esquecem de in- mo Levi 3\ articula história e memória num relato de
cluir Diên Biên Phú?,)"'l novo tipo, inclassificável, fundado sobre um vai e vem
i\. história, da mesma forma que a memóna, não permanente entre os dois, Pierre Vidal-Naquet, na sua
tem apenas as suas falhas; pode também desenvolver- auto-biografia, relata as suas recordações com o rigor
-se e encontrar a sua razão de ser no desaparecimento de um historiador que verificou as suas fontes e sub-
de outras histórias e na negação de outras memórias, mete a sua memória ao teste de apresentação de provas,
Como referiu Edward Saíd, a arqueologia israelita, que dando-lhe, no entanto, a forma de um balanço retros-
procura trazer à superfície os traços milenares do pas- pectivo e muitas vezes crítico, Não se trata apenas do
sado judaico da Palestina (vista por alguns como uma Jetl relato, como refere no prefácio, porque ele tem em

36 37
conta a correspondência dos seus pais, o diário do seu cluída das fontes do historiador e não interferir com o
pai e o diário que a sua irmã começou a escrever depois seu trabalho. Face ao positivismo radical de tal posição,
da detenção e deportação dos seus pais, mas também perguntamo-nos se ela não encobre a parte de memó-
e sobretudo porque se apoia no seu conhecimento de ria vivida e afectiva presente na historiografia alemã do
todo um período histórico. «É nesse sentido - escreve pós-guerra, nomeadamente a historiografia do nazismo
- que se trata tanto de um livro de história como de mc- elaborada pela «geração da Hillet:j/(gend\> li. Para lá dos
mória, um livro de história de que sou, a uma Só vez, o julgamentos que sobre esses resultados - muitas vezes
autor e o objccto.)r'~ Pcrtencendo ao mesmo tempo ao notáveis - possam ser feitos, wna constatação impõe-
registo da memória e ao da história, estes dois exemplos -se: wna característica partilhada pela maior parte dos
não entram na dicotomia estabelecida por Halbwachs, seus representantes reside precisamente na exclusão das
Yerushalmi e Nora. vítimas do nazismo do seu campo de investigação, para
não dizer do seu horizonte epistemológico. Essa carac-
terística perpetuou-se, aliás, no trabalho de uma nova
Empatia geração, muitas vezes centrada na análise da máquina de

A mesma oposição entre história e memória está for- morte do nazismo, mas que raramente se interessa pelo
testemunho das vítimas, Nessa historiografia, as vítimas
temente presente na historiografia do nacional-socia-
ficam num plano secundário, anónimas e silenciosas·1H •
lismo, como ° demonstrou claramente, em meados
dos anos 1980, a correspondência entre dois grandes Esse problema poderia ser também abordado a par-
historiadores, Martin Broszat c Saul FriedEinderJ·'i. Pro- tir de uma outra perspectiva. O recalcamento dos anos
curando sustentar a sua defesa de uma historicização negros na Alemanha do pós-guerra - recalcamento da
do nazismo capaz de romper a tendência para «insu- S'thuk!lrC{g/* e dos crimes nazis - não terá tido, entre os
larizan> o período de 1933-1945 por ra7:ões morais, seus efeitos, o de transformar numa espécie de tabu os
Bros7,at reivindica um método cientifico capaz de se bombardeamentos que destruíram as cidades alemãs,
emancipar da «recordação mítica» das vítimas.v,. A me-
mória dos sobreviventes do genocídio dos judeus sus- * Juventude hitleriana. N.T
cita evidentemente o seu respeito, mas deveria ficar ex- ** A questão da culpa. N.T.

38 39
tema que tem sido ignorado até a uma época recente, dentro de uma câmara frigoríf1ca, imune às paixões do
tanto pela literatura como pelo cinema e pela historio- mundo. Ele está submetido às condicionantes de um
grafia? Essa é a hipótese sugerida por W. G. Sebald, para contexto social, cultural e nacional. Não escapa às influ-
quem a ausência de qualquer debate público e de obras ências das suas recordações pessoais, nem às de um sa-
literárias sobre esse trauma colectivo se deve ao facto ber herdado, de que pode tentar libertar-se, não através
de «um povo que havia assassinado e explorado até à da sua negação, mas de um esforço de distanciamento
morte milhões de homens ter ficado impossibilitado de crítico. Nessa perspectiva, a sua tarefa não consiste em
exigir às potências vitoriosas que prestassem contas so- tentar pôr de lado a memória - pessoal, individual e
bre a lógica de uma política militar que tinha ditado a colectiva - mas em colocá-la à distância e em inscrevê-
erradicação de cidades alemãs»"w. -la num conjunto histórico mais vasto. Há então no tra-
Opor radicalmente história e memóna é, pOIS, balho do historiador uma dimensào de frall!ferenáa que
uma operaçào perigosa e discutível. Os trabalhos de orienta a escolha, a abordagem e o tratamento do seu
Halbwachs, Yerushalmi e Nora contribuíram para mos- objecto de pesquisa, e da qual ele deve estar consciente.
trar as diferenças profundas que existem entre história Friedlander define assim a escrita da história, recorren-
e memória, mas seria errado deduzir daí a sua incom- do ao léxico da psicanálise, como um acto de «perla-
patibilidade ou considerá-las como irredutíveis. O que boraçãQ) (working Ihrough) . .-\ distância cronológica que
a sua interacção cria é um campo de tensões no interior separa o historiador do objecto da sua investigação
do qual se escreve a história. Sem dúvida que Amos cria uma espécie de ecrã protector, mas a emoção que,
Fukenstein tem razào quando indica, no ponto de en- muitas vezes de forma imprevista e súbita, ressurge no
contro entre história e memória, a emergência de um decurso do seu trabalho inevitavelmente quebra este
terceira instância, a que chamou IXJIlJt:iêmia húlónaio. diafragma temporal 41 . Esta empatia ligada à vivência in-
dividual do historiador não tem necessariamente efeitos
A correspondência com Broszat foi, aliás, o ponto
negativos. Pode também revelar-se frutuosa, se o histo-
de partida de Saul Friedlander para uma reflexão fecun-
riador dela estiver consciente e a souber «dominaD)~2.
da sobre as condições de escrita da história. Se o histo-
riador não trabalha fechado na clássica torre de marfim, A obra de FriedIander constitui um bom exemplo
ao abrigo dos rumores do mundo, também não vive de uma tal capacidade de domínio. Em Nazi Germal!Y

40 41
and lhe Jewj', inscreveu uma constelação de «destinos in- relato apologético. Para Andreas Hillgruber, jovem sol-
dividuais» num relato histórico global da Alemanha no dado da \Xlehrmachf em 1945, ao descrever o último
período anterior à Segunda Guerra :Mundial. Foi assim ano da Segunda Guerra Mundial, o historiador «deve
capaz de ultrapassar a chvagem tradicional dos estudos identificar-se com o destino da população alemã de
do nazismo: de wn lado as pesquisas, feitas essencial- leste e com os esforços desesperados e custosos do
mente nos arquivos, que focalizam a atenção sobre a Oi/hee," ( ... ) que visavam defender essa população
ideologia e as estruturas do regime; do outro lado, uma contra a vingança do exército vermelho, as violações
reconstrução do passado exclusivamente fundada sobre colectivas, os assassinatos arbitrários e as inúmeras de-
a memória das vítimas, por vezes baseada numa vasta portações, e manter abertas rotas terrestres e marítimas
literatura testemunhal, outras preservada nos arquivos que permitissem aos alemães dos territórios orientais
visuais e sonoros. FriedEinder tentou integrar essas duas fugir em direcção ao Oeste ... »I~. Ora, como lhe re-
perspectivas para chegar a uma reconstrução global cordou Jürgen Habermas, a resistência encarniçada da
do processo histórico, introduzindo a voz das vítimas Wehrmacht nesse último ano de guerra foi também o
numa narrativa que de outro modo se reduziria à análise que permitiu a continuação das deportações para os
das decisões políticas e dos decretos administrativos-tl. campos de concentração nazis, onde as câmaras de gás
Apesar da sua postura positivista, os historiadores continuavam a funcionar.
alemàes da geração da Hitletjux,cl1d, ou seja, aqueles que Tradicionalmente, a historiografia não se apresen-
nasceram entre 1925 e o início dos anos 1930 (Martin tou sob a forma de um relato polifónico pela simples
Broszat, Hans Mommsen, Andreas Hillgruber, Ernst razão de que as classes subalternas não eram tomadas
Noite, Hans-Ulrich \Xlehler, etc.), tendem, também em consideração, o que resultou na redução da narra-
eles, a estabelecer uma empatia com os actores de um ção do passado aos relatos dos vencedores. Foi esse
passado que implica recordações pessoais. As investi- historicismo que Benjamin denunciou nas suas TCJeJ
gações sobre a história da vida quotidiana sob o na-
zismo (AI!ta..~igesthü#e) desenham, na maior parte das * Conjunto da:; força:; armada:; da ,\\cmanha durantc o
vezes, um quadro social de que as vítimas simplesmente Tcrcciro Rcich.

desaparecem+!. Outros não escaparam à armadilha do H I':xército de Le:;te. NT.

42 43
Jobre o conceito de hiJtóna, descrevendo o seu método que etapas certos «homens comuns", como os mem-
como uma forma de empatia unilateral com os ven- bros do 101. 0 batalhão de reserva da policia alemã na
cedores~(,. Na verdade, essa «empatia» - a Einjiihlung Polónia em 1941, se puderam transformar numa equi-
do historicismo clássico - não é sempre sinónimo de pa dc massacre prof1ssionaPl.
apologia. Alguns recusam-na, como Ian Kershaw, na
Os percalços que resultam de uma empatia de sentido
sua biografia de Hitler, por ele apresentada como um
único, desprovida de distância critica em relação ao seu
trabalho de um historiador «estruturalist3),~7. A sua
objecto, são mais frequentes quando a polifonia dos ac-
escolha é motivada tanto pela inconsistência da vida
tores se torna inaudível, escutando-se apenas uma voz,
privada do führer, que reduziria toda a empatia a uma
não havendo lugar a uma interacção entre memórias an-
adesão aos seus desígnios políticos, como pelo seu de-
tagonistas no espaço público. Se na Argélia a indepen-
sejo de distinhJUir a sua biografia da, mais antiga, de
dência deu rapidamente lugar a uma história oficial da
Joachim Fest. Fascinado pela (rgrandiosidade demoní-
guerra de libertação, em França o esquecimento não se
aca)) de Hitler, Fest não conseguiu deixar de lhe reser-
podia eternizar. Deveria, mais tarde ou mais cedo, dar
var, mesmo sem intenção, «um bom lugar no panteão
lugar a uma escrita da história alimentada pela multiplici-
dos heróis alemães»~s. Outros adaptaram uma atitude
dade de memórias. A memória da França colonial, a dos
de empatia critica - muito mais um motivo de abalo
pied-noir/, a dos harki/"', a dos emigrantes argelinos e dos
do que de identificação (mais do que empatia, devería-
seus filhos, e ainda a do movimento nacional argelino,
mos falar de aproximação ({heteropática,,)~<) - que ajuda
mantida também pelos seus representantes entretanto
a «compreendem o comportamento dos actores sem
exilados, enleiam-se numa memória da guerra da Ar-
procurar justificá-los. p, o esforço empreendido por
gélia que impede uma escrita da história fundada sobre
Hanna Arendt ao penetrar no universo mental do .r.r uma empatia unilateral, exclusiva. A escrita dessa histó-
_Adolf Eichmann, esforço que não foi compreendido ria só se pode fazer sob o olhar vigilante e critico de vá-
e que não lhe foi perdoado aquando da publicação do rias memória paralelas, que se exprimem no espaço pú-
seu ensaio sobre a «banalização do mah,~(l. É também
o sentido do trabalho micro-histórico de Christopher t Cidadãos franceses LJue viviam na ,\rgdia. N'!'.
Bowning, que tentou compreender por que meio e por H Milicianos nativos ao serviço do exército francês. N:L

44 45
blico. Esta interacção de memórias obrigou mesmo os ver a J\Iussolini para lhe pedir a sua protecção, depois
próprios torcionários a sairem do seu silêncio, a formu- de lhe relembrar o auxílio financeiro que o seu marido,
larem a sua versão do passados2• Concluindo, história e um importante editor alemào durante a República de
memória interagem aqui, para retomar uma expressão Weimar, lhe havia oferecido antes da sua chegada ao po-
muito pertinente de David N. J\lyers, como «categorias der. A curta chamada telefónica que o Dm;e fez à sua mãe
flutuantes no seio de um campo dinâmico»~-'. para a tranquilizar mostra, segundo George L. i\.-fosse,
Do outro lado dos Alpes, a paisagem memorial e his- o «carácter de ;\fussolini, ou pelo menos o seu sentido
toriográfica é bem diferente. Pouco antes da sua morte, de gratidãQ)-'i~. Ao contrário de }.fosse, De Felice não

George L. Mosse, um dos mais fecundos historiadores tinha anedotas pessoais para contar sobre o ditador ita-
do fascismo do pós-guerra, fez o elogio do seu cole- liano, mas tentou compreender a sua personalidade ao
ga italiano Renzo De Felice, bem conhecido pela sua longo dos diferentes volumes da sua biografia, enorme
monumental biografia de Mussolini. O principal méri- traballio escrito com uma Eit~fiihllJllg sempre crescente
to de De Felice, segundo ~fosse, residia precisamente ao longo dos anos. Pouco antes da sua morte, De Felice
na sua empatia com o fundador do fascismo, no facto publicou uma obra muito controversa, RoJ"J"o e J\.Tero, na
de ter «tentado proceder desde o interior, imaginando qual interpreta a última etapa do itinerário de ~lussolini,

como o próprio .i\fussolini concebia os seus actos»''>-I. ou seja, o seu papel na guerra civil italiana de 1943-1945.
Na sua autobiografia, Mosse conta, em jeito de anedo- Segundo De l'elice, «j\.Iussolini, agrade-nos ou não, acei-
ta, wn episódio da sua adolescência em que se cruzou ta o projecto de Hitler por motivação patriótica: foi um
com o ditador italiano. Em 1936, T\Iosse estava em Flo- autêntico "sacrifício" no altar da defesa da pátria»~('. Os

rença com a sua mãe. O Eixo, entre a Itália fascista e historiadores franceses estão familiarizados com esta
a Alemanha nazi, tinha acabado de ser estabelecido, o tese, já defendida por Robert Aron, que apresentou o
que provocou agitação entre os judeus alemães que se regime de Vichy como um ~~escudo» proteetor contra
os tormentos de uma ocupação total do país~7 (evitando
tinham refugiado na península, temendo ser entregues
às autoridades nazis (ameaça que se concretizará pela desta forma um destino semelhante ao da Polônia).

expulsão em massa em 1938, com a promulgação das Os historiadores do colonialismo fascista trouxeram
leis raciais). A mãe do jovem Mosse decidiu então escre- à luz documentos que tinham sido ignorados pelas pes-

46 47
quisas arquivísticas, bastante extensas, de De Felice. O F"a:ella nera, um concentrado de estereótipos do imagi-
ditador italiano demonstra aí um aspecto diferente do nário colonial. Um conjunto de circunstâncias históricas
seu carácter e esses documentos emprestam um outro (as crises, guerras e ditaduras conhecidas pela Etiópia
significado tanto ao seu sentido de gratidão como ao até ao presente, tal como a reduzida imigração etiope
seu espírito de sacrificio. A 8 de Julho de 1936, Mussoli- em Itália, que nunca foi wn lugar de formação de uma
ni telegrafou a Rodolfo Graziani, um dos principais res- elite intelectual e política africana) impediu que a voz
ponsáveis militares durante a guerra da Etiópia, uma di- das vítimas desse genocídio encontrassem um lugar no
rectiva autorizando-o «mais uma vez (... ) a levar a cabo relato italiano dessa guerra. Apesar dos seus esforços,
de forma sistemática a política de tcrror e de extermínio a historiografia não poderá tapar os buracos de uma
contra os rebeldes e populações suas cúmpliCCs>}S8. Com memória mutilada. No melhor dos casos, esta tornar-
uma notável devoção patriótica, Graziani não hesitou -se-á, como na Alemanha, uma história na qual haverá
em utilizar as armas químicas para pôr fim à resistência «crimes sem vítimas}) ou vítimas completamente anó-
criope. E foi com gratidão que Mussolini reconheceu os nimas sem identidade e sem rosto. Nós não conhece-
seus méritos, ao nomeá-lo ministro da Defesa da Repú- mos a·versão da guerra contada pelos companheiros de
blica de Saló no Outono de 1943. I-Iailou Tchebbedé, um dos chefes de resistência etíope;
dele conhecemos apenas as fotos da sua cabeça exibida
Foi através da pesquisa de runa enorme quantidade
como um troféu pelos soldados italianos;'). Esperemos
de documentos destc género que alguns investigadores
que os estudos pós-coloniais venham brevemente que-
italianos puderam reconstituir a história do genocídio
brar esta dialéctica asfixiada entre história e memória.
fascista na Etiópia em 1935-1936. ivIas o rcconheci-
mento desse gcnocídio permanece uma aquisição (no Na sua última obra, Hülo~y. Tbe L.aJt ThingJ" Bq(ore lhe
fim de contas, muito recente) exclusivamente historio- I AS!, Siegfried Kracauer utiliza duas metáforas para de-
gráfica. Nunca penetrou verdadeiramente na memória finir o historiador. A primeira, a do judeu errante, visa a
colectiva dos italianos, para quem, no seu con;lUlto, a historiografia positivista. Como «Punes, cl memorios(»),
recordação da guerra da Etiópia permanece como uma o herói do célebre conto de Borges, Ahasvérus, que atra-
aventura ingénua e inocente, bem resluuida pela letra vessa os continentes e as épocas, nada pode esquecer e
de uma célebre canção da época, que todos conhecem, está condenado a deslocar-se incessantemente, carrega-

48 49
do com o seu fardo de recordações, memória viva do Enquanto «passado!) (Gren:::gánger) extraterritorial,
passado de que é o infeliz guardião. Alvo de compaixão, o historiador é devedor da memória, embora, por seu
ele não encarna qualquer sabedoria, nenhuma memória lado, actuc sobre esta, já que contribui para a formar e
virtuosa ou educativa, apenas wn tempo cronológico, para a orientar. Precisamente porque, em vez de viver
homogéneo e vazid'jo. A seglUlda metáfora, a do exilado encerrado numa torre, participa na vida da sociedade
- poderíamos também dizer a do estrangeiro, seglUldo a civil, o historiador contribui para a formaçào de uma
definição de Georg Simmel -, faz do historiador uma consciência histórica e, portanto, de wna memória mledi-
figura de e_',:traterntonalidade. À semelhança do exilado, va (plural e inevitavelmente conflituosa, atravessando o

dividido entre dois países, a sua pátria e a sua terra de conjunto do corpo social). Dito de outra forma, o seu
adopção, o historiador encontra-se clivado entre o pas- trabalho contribui para aquilo que Habermas chamou
sado que explora e o presente em que vive. É assim «uso público da história>~62. Trata-se de uma constatação

obrigado a adquirir wn estatuto «extraterritoriab~, em que não precisa de ser sublinhada: os debates alemães,

equihbrio entre o passado e o presente(,]. Como o exila- italianos e espanhóis em torno do passado fascista, os

do, que é sempre um outsider no país de acolhimento, o debates franceses em torno do passado vichista e colo-

historiador procede a uma intrusão no passado. No en- nial, os debates argentinos e chilenos em torno do lega-

tanto, da mesma forma que o exilado se pode familiari- do das ditaduras militares, os debates europeus e ameri-

zar com o país de acolhimento, e sobre ele fazer incidir canos em torno da escravatura - a lista seria inesgotável
_, ultrapassam largamente as fronteiras da investigação
um olhar crítico, simultaneamente interior e exterior,
histórica. Invadem a esfera pública e interpelam o nos-
feito de adesào e distanciação, o historiador - não é a
norma, é uma virtualidade - pode conhecer em pro- so presente.

fundidade uma época já passada e, graças ao seu olhar o livro de Ludmila da Silva Catela, f\.To babrá flores en
retrospectivo, reconstituir os seus traços com uma mui- la tumba dei paiado, sobre a memória das vítimas da dita-
to maior dareza do que os contemporâneos. A sua arte dura militar argentina, é um bom exemplo de investiga-
consiste em reduzir ao máximo as desvantagens que a ção histórica que faz da memória o seu objecto, ao mes-
distância provoca e tirar o maior proveito das vantagens mo tempo que se inscreve num contexto sensível, ine-
epistemológicas que dela provêm. vitavelmente participando numa utilização pública da

50 51
história(,". Trata-se, desde logo, de hútória ora!, porque a até a criatividade, de uma rememoração que acompa-
autora fez um inquérito entre os familiares (pais, filhos, nha esse luto simultaneamente inesgotável e impossível
irmãos e irmãs) dos desaparecidos de La PIata, cidade (os desfiles das Madrel, o aparecimento dos panuelos, as
onde a repressão militar foi particularmente virulenta fotografias dos desaparecidos na imprensa, o «assédio»
e extensiva. É o relato do seu medo, da sua esperança, às autoridades, a abertura dos arquivos, os processos,
da sua espera, da sua ira, da sua coragem, da sua ne- a procura dos corpos das vítimas, os eüTadles, ou seja,
cessidade de agir, do seu alívio depois de cada pequena as denúncias públicas em frente às casas dos torcioná-
acção pública. Trata-se, em seguida, de história polítúu: rios, etc.). Uma rememoração profundamente ancorada
como se começaram a organizar, como encontraram a no presente, como o provam as madrej" e os hijoj" que
força para agir publicamente, como inventaram formas apoiam os piquetes dos desempregados, porque a luta
de luta (denúncia, contra-informação) e símbolos (o dos piqueteroi pela «dignidade humana» é a mesma que

paiiue!o", etc.). De que forma estas acções responderam a dos seus filhos e dos seus pais mortos pela ditadura,

a um imperativo moral, a uma necessidade pessoal, e Assim é este livro de história, fundado numa empatia
crítica que volta a dar um rosto e uma voz a quem a
Como deram lugar a um movimento político Com um
ditadura militar tinha querido apagar sem deixar rasto,
forte impacto no conjunto da sociedade civil. Como
explorando a sua memória, através da suas famílias, na
as mães, e por vezes as avós, que eram domésticas, se
Argentina de hoje,
tornaram as dirigentes de um movimento da socieda-
de civil contra a ditadura militar. Trata-se ainda, a par
da história oral e da história política, de antropologia e
púcologia: um estudo sobre o sofrimento e sobre a im-
possibilidade do luto ligados ao desaparecimento. Os
familiares sabem que os desaparecidos morreram mas
não os podem considerar como tal porque os seus cor-
pos nunca foram encontrados. Daí a especificidade, e

* Ll.:oço quI.: as mulhl.:rcs usam na cabl.:ça. N:L

52
53
II
o tempo e a força

Tempo hÍJlórico e tempo da memória


A história e a memória têm as suas próprias temporah-
dadcs, que se cruzam, se chocam e se entretecem cons-
tantemente, sem que, no entanto, cheguem a coincidir
inteiramente entre si. A memória é portadora de uma
temporalidade que tende a pôr em causa o continuum da
história. Walter Benjamin ilustra-o nas suas Teses sobre
o cOflaito de históda. Na tese XV é evocado um episó-
dio curioso da revolução de Julho de 1830: ao cair da
noite, depois dos combates, em vários locais de Paris e
ao mesmo tempo, as pessoas disparavam sobre os reló-
gios como se quisessem parar o dia 1 • A temporalidade
da revolução - a Revolução Francesa tinha introduzido

55
f

um novo calendário - não é a dos relógios, mecânica e tituição e abertura de arquivos privados e públicos. Mas
vazia, mas antes, esclarecia Benjamin, a da «lembran- esta condição é secundária e derivada. A Era dos Extre-
ça», a da revolução como acto redentor da memória mos de Eric Hobsbawm ou a obra colectiva O Sérulo dos
dos vencidos. Nos seus comentários sobre as teses de Comunismos não poderiam ter visto a luz do dia antes da
Benjamin, l'vrichael Lówy mostra uma outra imagem es- queda do Muro de Berlim e do desmoronamento da
pantosamente homóloga à dos insurrectos de 1830. É URSS~. Um trabalho pioneiro como Le Breviaire de la
uma fotografia datada de Abril de 2000, onde figuram IJaine de Uon Pohakov (1951) pressuplUlha nào apenas
indígenas a disparar sobre o relógio das comemorações o fim da guerra e a queda do nazismo, como também a
oficiais do quinto centenário da descoberta do BrasiF. possibilidade de consultar os arquivos que tinham per-
~"\ memória dos oprimidos não se priva de protestar mitido instruir os processos de Nuremberga'. Enfim,
contra o tempo linear da história. Ela exige, segllildo para escrever um livro de história que nào seja somen-
Benjamin, «um presente que não é de forma alguma te um trabalho de erudição é também necessária uma
a passagem do tempo, mas antes a sua paragem e blo- procura social, pública, o que remete para a intersecção
queÍQ)-'. da investigação histórica com os percursos da memória
colectiva. É por isso que La Des/n/dio" deJjlJ~fs d'l;;urope
Para ter lugar, a prática historiográfica exige um dis-
de Raul Hilberg teve um impacto muito reduzido no
tanciamento, uma separação ou mesmo uma ruptura
momento da sua primeira edição em 1960, tornando-se
com o passado, pelo menos na consciência dos con-
uma obra de referência apenas a partir dos anos 1980().
temporâneos. Isto constitui uma premissa essencial
para proceder a uma his/oáâzação, ou seja, uma perspec- A memória, por seu lado, tende a atravessar várias
tivação histórica do passado. Essa distância instala-se etapas que poderíamos, retomando o modelo proposto
muito mais através de fracturas simbólicas (por exem- por Henry Rousso em Le S)ndrome de Vidry, descrever
plo na Europa, 1914, 1917, 1933, 1945, 1968, 1989, da seguinte forma: pritneiro, um acontecimento mar-
etc.) do que em virtude de um simples distanciamento cante, uma viragem, muitas vezes um trauma; depois,
temporal. A essa distância engendrada por uma ruptu- uma fase de recalcamento, mais tarde ou mais cedo
ra corresponde normalmente a acumulação de certas seguida de uma inevitável anamnese (o «regresso do
premissas materiais da investigação; desde logo, a cons- recalcadQ)) que pode, por vezes, converter-se em ob-

56 57
sessão memoriaF. No caso do regime de Vichy, esse perigo potencial do que a sobrevivência de tendências
modelo corresponde ao fim da guerra e à Libertação, fascistas dirigidas !'"ontra a democracia»ll. Jean Améry
ao recalcamento dos anos 1950 e 1960, à anamnese a reivindica o seu «ressentimento» quando «o tempo fez
partir dos anos 1970 e, por fim, à obsessão actual. No o seu trabalho, em paz», e «a geração dos extermina-
caso alemão: a Schulc!frage de ]aspers em 1945, o recal- dores» envelhece placidamente, sob o respeito geral;
camento no período de Adenauer, a anatnnese a partir e neste cenário, conclui, é ele quem «carrega o fardo
de 1968 e, por fim, uma obsessão com o passado que da culpa colectiva», não eles, «o mundo que perdoa
teve o seu ponto culminante com a Hislorikerstreit', o e esquece»'). Pelo contrário, durante a fase da obses-
caso Goldhagen, a polêmica Bubis-Walser e a exposição são, como a que hoje atravessamos, o «dever de mem-
sobre os crimes da Wehrmacht organizada pelo InstituI ória» tende a se tornar uma fórmula retórica e con-
.flk S o~/a!forschung de Hamburgo. formista.

Duran te a fase do recalcamento, a reivindicação do A historiografia seguiu, grosso modo, o percurso


«direito de memória» assume um tom critico, quando da memória. Não seria difícil mostrar que a produção
não a aparência de uma revolta ético-política contra histórica sobre Vichy e sobre o nazismo conheceu um
o silêncio cúmplice. Quando o governo de Adenauer assinalávcl desenvolvimento no momento da anamne-
incluiu entre os seus ministros antigos nazis, como se e alcançou um pico durante a fase da obsessão. Foi
Hans Globke, um dos autores das leis de Nuremberga, alimentada por essas etapas e, por sua vez, moldou-as.
: Adorno considerou a expressão «superar o pa~~-ad-~):' Basta pensar na Alemanha Federal, que domina hoje
(Vergangenheif Bewii/t(f!,ung), então muito em voga, como em dia a investigação sobre o genocídio dos judeus,
uma mistificação que procurava «virar definitivamente mas onde, nos anos 1950, os trabalhos pioneiros de
a página e se possível apagá-la da própria memória». ]oseph Wulf c Léon Poliakov foram rejeitados como
Falar de «reconciliação» significa neste caso reabilitar <<I1ão científicos»w. Esta correlação não é, todavia, li-
os culpados, numa época em que «a sobrevivência near: as temporalidades histórica c memorial podem
do nazismo dentro da democracia representa maior também entrar em colisão, numa espécie de {(llão-con-
temporaneidade» ou de «discordância dos tempos» (a
* A controvérsia dos historiadores. NT U/lgleúh~eitl~f!,keit teorizada por Ernst Bloch ll ).

58 59
São Inumeráveis os exemplos de coexistência de cisamente uma viragem que pós fim ao longo período
temporalidades diferentes. A literatura, o cinema e uma de ocultação e esquecimento do genocídio dos judeus
imensa produção sociológica analisaram o conflito e deu início ao momento da anamnese. Pela primeira
entre tradição e modernidade, que assume, sobretudo vez, o judeucídio' tornou-se um tema de reflexão para
nas grandes cidades, a forma de wn choque geracional a opiniào pública internacional, muito além do mundo
entre pais emigrados e filhos nascidos no país de aco- judaico. Foi também um momento catártico de liber-
lhimento. Os judeus polacos de Nova Iorque descritos tação da palavra, já que um grande número de sobre-
por Isaac Bashevis Singer, os paquistaneses de Londres viventes do extermínio nazi veio ao processo prestar
narrados por Hanif Kureishi, os italo-americanos fil- testemunho. Ora, no momento em que o mundo to-
mados por Martin Scorcese nos seus primeiros traba- mava consciência da amplitude do genocídio judaico,
lhos, justapõem no seio de uma mesma familia visões que aparecia agora como um crime monstruoso e sem
do mundo e modos de vida distintos que remetem para precedentes, Hanna Arendt focalizava o seu olhar em
percepções do tempo e para memórias completamen- Eichmann, um representante típico da burocracia ale-
te diferentes, por vezes incompatíveis. Os zapatistas de mã que encarnava, a seus olhos, a banalidade do mal.
Chiapas fazem coabitar o tempo cíclico das comunida- _Arendt, cujos escritos dos anos 1940 provam ter sido
des indígenas com wn projecto político de libertação dos primeiros, nwn mundo então cego, a perceber a
que se inscreve numa narrativa marxista da modernida- dimensào desse crime, já nào concentrava a sua atenção
de (embora liberta de mitologias progressistas) e tam- nas vítimas mas nol~arrasco. i\doptava aquilo que Raul
bém no «presente perpétuo)) do mundo contemporâ-
Hildberg definiria, bastante mais tarde, como a «pers-
neo, o da dominação globalizada que combatem 12 .
pectiva do executoo)l"', um executor que ela podia enfim
Queria apresentar como exemplo um caso significa- observar olhos nos olhos, em carne e osso. Ao adoptar
tivo e paradoxal de discordância de tempos, de colisão essa perspectiva, Arendt confrontava-se com um crime
entre o olhar histórico e a memória colectiva: a recep- monstruoso perpetrado por executores que nào eram
ção do ensaio de Hannah Arendt sobre o processo de monstros habitados pelo ódio e pelo fanatismo, mas
Eichman em Jerusalem, cujo subtítulo, «a banalidade
> do mah); provocou escândalo 0. Esse processo foi pre- * Na vcrsão orihrinal, «judéocidc). N:J:

60 61
r

gente normal., Os observadores e os comentadores do


pelo encerramento dos arquivos e a multiplicaçào dos
1 processo, pelo contrário, tinham adoptado uma outra
obstáculos à investigação 17 .
perspectiva, a da memória dos sobreviventes que re-
viviam o seu sofrimento no presente. A ferida estava O recalcamento pode perpetuar-se também de ou-
ainda aberta e a sangrar; apenas tinha estado escondida tras formas. A. memória do estalinismo é profundamen-
e aparecia agora à luz do dia. A sua atenção estava con- te heterogéllea, uma vez que é simultaneamente memória
centrada nos testemunhos dramáticos prestados duran- da revolução e do Gulag, da «grande guerra patriótica»
te o processo pelos sobreviventes, em face dos quais e da opressão burocrática. Acompanhou, durante várias
Eichmann não era mais do que um símbolo. Em tais décadas, um regime no poder. Nesse contexto, a sua ex-
circunstâncias, a bailaiidade do mal invocada por .-\rendt pressão pública aparecia como uma forma de combate
nào foi vista como uma noção susceptível de compre- - e assim foram considerados os livros de Gustav I-Icr-
ender as motivações e as categorias mentais dos execu- ling, de Alexandre Soljenitsyne, de Vassili Grossman e
tores mas, muito simplesmente, como uma tentativa de de Varlam Chalamov - contra um regime que não se
banalizar um dos piores crimes da História da huma- podia arquivar como passado, nem colocar à distância.
nidade''>, Essa memória é hoje em dia asfixiada, dez anos depois
da queda da URSS. O processo de integração da me-
O modelo tomado de empréstimo a Henry
mória do estalinismo na consciência colectiva iniciou-se
Rousso pode, contudo, conhecer numerosas variantes.
no decurso dos anos 1980, no período de Gorbatchev,
Na Turquia, por exemplo, a memória e a história do
quando se multiplicaram as associações dos antigos
genocidio dos armênios nunca podem ser elaboradas
deportados e as reivindicações em favor da reabilita-
e escritas no espaço público. Foram desenvolvidas fora
ção das vítimas. Esse movimento foi bruscamente in-
do país, na diáspora e no exílio americano, com todas
terrompido sob a presidência de Ieltsine, que marcou
as consequências que isso implica u,. Por um lado, a me-
uma viragem. O trabalho de luto e de apropriação de
mória erigiu-se não apenas contra o esquecimento, mas
um passado proibido abriu caminho a para uma reabi-
sobretudo contra um regime político que oculta e nega
litação massiva da tradição nacional. A vergonha ligada
o crime no presente. Por outro lado, a escrita da história
à tomada de consciência do estalinismo foi substituída
sofreu diversos entraves, visto que a ocultação passou
pelo orgulho de um passado russo (a que pertencem tan-
62
63
to os czares como Estaline)IH. Um fenômeno análogo libertação nacional, na qual todos os deportados se
caracterizou os países do ex-Império Soviético, onde a tornaram automaticamente mártires da pátria, portan-
in tradução da economia de mercado e a emergência de to deportados políticos) e, por outro lado, na reabili-
novos nacionalismos marginalizaram completamente a tação do fascismo, ou seja, dos seus perseguidores. A
recordação das lutas por wn ((socialismo de rosto hu- crise dos partidos e das instituições que encarnavam a
mano», memória anti fascista criou as condições para a emer-
gência de uma outra memória, até então silenciosa e
Em I tália, onde o antifascismo foi o pilar das ins-
tituições republicanas nascidas no fim da Segunda estigmatizada. O fascismo é agora reivindicado como

Guerra j\.fundial, a interpretação histórica do fascismo uma parte da história nacional, o antifascismo rejeita-

foi, durante uns bons trinta anos, indissociável da sua do como uma posição ideológica «antinacionah> (o 8

condenação ética e política. A partir do fim dos anos de Setembro de 1943, data da assinatura do armistício

1970 desenvolveu-se uma nova leitura do passado, e início da guerra civil, foi apresentado como um sím-

muito mais preocupada em colocar em evidência os bolo da «morte da pátria»I'). O resultado foi, no Outo-

consensos sobre os quais se apoiou o regime de Mus- no de 2001, um discurso do presidente da República,

solini e, ao mesmo tempo, decidida a libertar-se dos Carla Azeglio Ciampi, comemorando indistintamente
constrangimentos da tradição anti fascista. Durante os «todas» as vítimas da guerra, ou seja, judeus, soldados,
anos 1990, essa viragem historiográfica acentuou-se resistentes e milicianos fascistas, agora afectuosamen-
com o fim dos partidos que tinham criado a república te apelidados «(OS rapazes de Salà»2(1. Dito de outro
(o Partido Comunista, a Democracia Cristã e o Partido modo, tratou-se de uma comemoração conjunta dos
Socialista) e a legitimação dos herdeiros do fascismo que morreram nas câmaras de gás e dos que os identi-
como força de governo (a actual Aliança Nacional). ficaram, prenderam e deportaram, como se, ao render
Esta mutação foi acompanhada pelo regresso do re- homenagem, o Estado não tivesse que se pronunciar
calcado (o fascismo) ao espaço público, com efeitos sobre os valores e as motivações dos actos praticados,
inesperados e paradoxais. Por um lado, traduziu-se no ou, pior ainda, como se pudesse colocar no mesmo
fim do esquecimento das vítimas do genocídio judai- plano carrasCOS e vítimas, objectos de memórias «si-
co (anteriormente sacrificados no altar da guerra de métricos e compatíveis»~I.

64 65
r
Nessa perspectiva, a instituição por decreto gover- Em Espanha, a recordação da guerra civil foi con-
namental de um «dia da memória» (27 de Janeiro) para fiscada e instrumentalizada pela propaganda do regime
comemorar as vítimas da Shoah foi logicamente seguida franquista que, durante trinta e cinco anos, organizou o
pela instituição de dois outros dias: o «dia da rccorda- apagamento dos rastos da sua própria violência enquan-
ÇãOi) (10 de Fevereiro) e o «dia da liberdade» (9 de No- to estigmatizava a dos republicanos. Depois da morte ~
vembro). O primeiro visa evocar os italianos expulsos da do ditador, em 1975, a opção por uma transição pacífica \
Ístria em 1947, com base mun tratado internacional, e para a democracia no quadro das instituições monárqui-
aqueles que foram mortos pela resistência jugoslava en- cas foi aceite pelo conjunto das forças políticas, tanto de
tre 1943 e 1945, atirados para fendas nas montanhas que direita como de esquerda, 9:ue partilhavam o receio de
encimam Triestc (Poibe). O segundo dia celebra a recor- uma outra guerra civil (o que prova que a sua memória,
dação das vítimas do comunismo que simbolicamente ainda que subterraneamente, estava bem vivaf'· 1.las,
recuperaram a liberdade no dia da queda do !..1uro de contrariamente à .\frica do Sul dos anos 1990, onde,
Berlim. A simetria antitotalitária torna-se assim perfeita, graças ao trabalho da comissão «Verdade e Justiça)), a
mesmo se a sua consequência, como nos lembra Claudio transição pacífica para a democracia pós-aparthcid pôde
Magris, consiste em transformar a igualdade das vítimas ser acompanhada de um reconhecimento da verdade e
- todas dignas de memória e de pietaJ - em «igualdade de uma elaboração do luto, em Espanha optou-se por
das causas pelas quais elas morreraw)22, ao misturar cri- wna transição amnésica, prolongando o recalcamento
mes de natureza completamente diferente. Essa simetria ofici~l por mais de uma geração. Foi apenas no final
antitotalitária coincide agora, porém, com wna dissime- dos anos 1990 que a questão da memória da guerra ci-
tria da memória nacional que mantém viva a recordação vil voltou ao primeiro plano. Enguanto a historiografia
das vítimas italianas da resistência titista mas esquece, dedicou a sua atenção à violência do regime franguista
tranquilamente, as vítimas jugoslavas da ocupação pro- _ procedendo a uma nova contagem das vítimas, até
tagonizada pelo fascismo italiano, cuja violência asswniu aí bastante deficitária~:; - ou a outros fenômenos an-
2
contornos semelhantes à dos nazis na frente orientaF-'. E teriormente ignorados, caso do exílio republicano <>, a
nem será preciso referir que as vítimas do colonialismo nível da sociedade civil iniciou-se um trabalho de luto
italiano escapam a esta lógica de memória antitotalitária. pelas vítimas da ditadura gue havia sido impossibilitado

66 67
,. --

pela amnistia e pelas formas políticas da transição. Fo-


r anos que estas questões sào apaixonadamente debatidas
ram exumados os restos mortais de várias centenas de em Espanha, país onde a memória está longe de se en-
militantes republicanos, anarquistas ou comunistas que contrar apaziguada.
tinham sido fuzilados de forma sumária, sem processo
Na .\rgentina, ao invés, a memória dos crimes da di-
e sem certidão de óbito, e que, como tal, haviam ficado tadura militar começou a manifestar-se na cena pública
fora dos cemitérios, sem direito a wna sepultura legal. antes do fim da própria ditadura, ajudando ao seu isola-
O luto clandestino das famílias pôde finalmente tornar- mento e deslegitimação (escrevo «memória) porque os
-se público, provocando uma anamnese colectiva e sus- desfiles com as fotos dos desaparecidos eram já formas
citando um vasto debate sobre a relação da Espanha de comemoração). Devido às modalidades específicas
contemporânea com o seu passado n . Nesse contexto que a criminalidade do regime assumiu - o desapareci-
surgiu a tentação ilusória e mistificadora de uma memó- mento de dezenas de milhares de pessoas cujos corpos
ria reconciliada super partes, manifesta na decisão gover- nunca foram encontrados -, a fase do luto e da dor
namental, em Outubro de 2004, de fazer desfilar juntos, perenizou-se, não houve lugar para o esquecimento. ~"o
nwna festa nacional, um velho exilado republicano e um mesmo tempo, por causa das formas que a transição
ex-membro da Divúión A!(!'I que Franco enviou para a para a democracia assumiu, sem ruptura radical, sem
Rússia em 1941 a fim de combater ao lado dos exércitos um verdadeiro saneamento das instituições militares,
alemães. Ocorreu também, inevitavelmente, wn debate com alguns processos a que se seguiram leis de amnistia
sobre o destino dos inwneráveis monumentos erigidos que deixaram os carrascos impW1es, a memória não deu
em honra do Caudillo e que decoram as cidades e vilas lugar à história 2H • L\ ditadura militar não se desmoro-
espanholas: devem ser conservados como lugares de ", nou como o fascismo na Europa em 1945, retirou-se
memória (uma memória que, para uma parte da socie- discretamente de cena. Em suma, não foi possível es-
dade, assume uma feição nostálgica)? Devem ser demo- tabelecer uma distância em relação ao passado: houve
lidos, à semelhança do que foi feito em todos os países um distanciamento cronológico mas nào uma separarão
da Europa Central no momento da queda das ditaduras marcada por rupturas simbólicas fortes. Somos aqui
estalinistas, num gesto emancipador, neste caso muito confrontados com aquilo a que Dan Diner chamou
(se não mesmo demasiado) tardio? Há wna dezena de um «tempo comprimidQ) (!!plaute Zeit) que se recusa a

68 69
dar-se como passado:!'.!. Uma das condições fundamen-
r colidindo quer com o relato sionista (a história como
tais para o nascimento de uma historiografia das ditadu- epopeia nacional judaica), quer com a consciência his-
ras do Cone Sul, tanto a chilena como a argentina, nào tórica do mundo ocidentaL Uma vez que o Estado de
está ainda estabelecida. Israel tinha sido criado como uma forma de reparação
pelo genocídio sofrido pelos judeus na Europa, seria
o que nos leva, de novo, a IsraeL Se o processo
difícil admitir que o seu nascimento tivesse coincidido
Eichmann é um exemplo de colisão entre a memória
com um acto de opressão. Essa convergência entre o
e a escrita da história, o itinerário do sionismo oferece
relato palestino da Nakba e a revisão do relato da «guer-
outros exemplos de encontros (tardios) entre os dois.
ra de libertaçãm~ pela historiografia judaica é a premissa
É o caso da releitura da guerra de 1948 pelos «novos
indispensável para que duas memórias nacionais pos-
historiadores~) israelitas (Benny Ivlorris, Ilan Pappé e
sam um dia coexistir num espaço comum (sob a forma
outros). Tendo por base uma investigação arquivística
de dois Estados, de uma federação ou de um Estado
- embora ignorando a historiografia palestini~na e os
binacional). Existiria assim uma convergência entre o
testemunhos dos refugiados -, esses historiadores pu-
«tempo comprimido» da memória palestina - a I\:akba
seram radicalmente em causa o mito sionista da «fuga~~
como eterno presente - e uma anamnese israelita im-
palestina e apresentaram a guerra de 1948, se não como
pulsionada pelo trabalho historiográfico.
uma expulsão planificada, pelo menos enquanto um
conflito que se tornou, de fado, a ocasião para realizar o
pro;ecto sionista de um Estado judaico J'em árabeJ. His-
((Memórias fortes» e ((memón'as fracas))
toriadores como l1an Pappé detectaram nesta guerra
traços de uma campanha de depuração étnica. Essa his- A única diferença entre uma língua e um dialecto, diz
toriografia confirma os relatos da Nakba (a «catástto- um aforismo diftmdido entre os povos minoritários, é
fe~~), a recordação do êxodo preservada pela memória que uma língua é protegida por uma policia e tUll dialec-
dos refugiados e reconstituída por uma historiografia to não. Poderia estender-se essa constatação à memória.
palestina nascida no exílio sob o impacto desse, trau- Existem memórias oficiais, alimentadas pelas institui-
ma3(). Essa memória e essa escrita da história tinham ções, ou seja, os Estados, e memórias subterrâneas, es-
até agora permanecido acantonadas no mundo árabe, condidas ou interditas. A «visibilidade~~ e o reconheci-

70 71
í

mento de uma memória dependem também da força de ais deportados para os campos de concentração nazis
quem a possui. Dito de outra forma, existem «memó· foram expulsas manu militan' das celebrações oficiais
rias fortes}} e «memórias fracas)}. Na Turquia, a memória como portadoras de uma recordação vergonhosa e ino-
arménia é ainda hoje proibida e reprimida. N a América minável. As leis que tinham permitido a sua deporta-
Latina, a memória indígena exprimiu-se durante o quin- ção - o parágrafo 75 do código penal da República de

to centenário da descoberta do continente como uma Weimar - foram abolidas bem tardiamente no pós-

memória antagonista, directamente oposta à memória -guerra, quando um grande número de ex-deportados

oficial dos Estados nascidos da colonização e do ge- já tinha sido indemnizado.

nocídio. Força e reconhecimento não são dados fixos A memória da Shoah, cujo estatuto é hoje tão uni-
e imutáveis, evoluem, consolidam-se ou fragilizatIl-se, versal que funciona como «religião civiL> do mundo
contribuindo em permanência para a redefinição do es- ocidental, ilustra bem essa passagem de uma «memória
tatuto da memória. Numa época em que a URSS era fraca" a uma «memória forte". O historiador americano
uma grande potência, e o movimento operário dispu- Peter Novick estudou essa mutação no seio da socieda-
nha de uma força social e política considerável, a me- de americana-'H. Abordou quatro etapas fundamentais.
mória comunista era poderosa, sectária e arrogante; Primeiro, os anos de guerra, quando para os Estados
hoje parece novamente atirada para a clandest.inidade. Unidos da América o principal inimigo era o Japão.
Perpetua-se como recordação de uma comunidade de Roosevelt teve nesse período uma preocupação maior:
vencidos, estigmatizada, quando não abertamente cri- evitar que a intervenção americana na Europa apare-
minalizada, pelo discurso dominante. A memória armé- cesse como uma «guerra pelos judeus». Durante este
nia permanece fraca, já que os seus negadores dispõem período, o extermínio dos judeus não é, em nenhum
de um Estado reconhecido no plano internacional, a momento, objecto de uma atenção particular e o país
quem os outros Estados frequentemente preferem não não estava minimamente atormentado pelos remorsos
recordar o passado, por conveniência econÓmica ou de não ter podido, ou de não ter querido, impedir tal
geopolítica. i\ memória homossexual apenas agora crime. Os judeus não deram prova, à época, de uma
começa a exprimir-Se publicamente. Durante déca- maior consciência ou sensibilidade no que respeita aos
das, as associações que representavam os homossexu- acontecimentos trágicos do velho mundo do que os

73
r
outros cidadãos americanos; no fim do conflito, esta- 50 Eichmann, que constitui a primeira aparição pública
vam sobretudo orgulhosos do seu país, que contribuíra da memória do 1101ocausto. Continua, posteriormente,
para a derrota do nazismo. com a guerra dos Seis Dias, em 1967, após a qual o
termo «HolocaustO», até então pouco ou nada utiliza-
Durante um segundo período - os anos 1950 e a pri-
do para definir o genocídio dos judeus, entra no uso
meira metade dos anos 1960 -, o judeucídio está ausen-
corrente. Essa guerra produziu wna clivagcm singular
te do espaço público. ~'\ lembrança do Holocausto não
encontra terreno fértil mas exigências da luta contra que persiste: uma grande parte dos judeus da diáspora

o «totalitarismOi). No momento em que a Guerra Fria vive o conflito como ameaça de um novo aniguilamcn-

faz da URSS o inimigo totalitário contra o qual devem to, enquanto a opinião árabe considera Israel como um
ser mobilizadas todas as energias do «mundo livre», a poder neocolonial. Desde então que a memória de Aus-
evocação dos crimes nazis pode desorientar a opinião chwitz está intimamente ligada à percepção do conflito
pública e criar obstáculos à nova aliança com a Repú- israclo-árabe, com todos os curto-circuitos ideológicos
blica Federal da Alemanha. Os judeus americanos são e os usos políticos a estes associados. Aí reside uma das
suspeitos de simpatia para com o comunismo. Julius e fontes do negacionismo difundido no mundo árabe,
Ethel Rosenberg serão dos poucos a falar de Auschwitz que não tem relação com a história do antissemitismo
na América dos anos 1950, durante o processo que os europeu. Para wna parte da opinião árabe, a Shoah seria
condenará à morte, e as instituições judaicas opõem-se wn «mitO») judaico utilizado, se não mesmo fabricado,
a toda e qualquer edificação de monumentos ou luga- para legitimar uma política de opressão dos palestinos.
res comemorativos referentes ao massacre hitleriano. Israel, pelo contrário, tem tendência a olhar a recusa
É o tempo de valorização dos heróis e de exibição da árabe através do prisma da Shoah, a tal ponto que os
força como uma virtude nacional: os judeus america- responsáveis de Tsahal tinham o hábito de chamar às
nos querem identificar-se (e integrar-se) nessa América fronteiras de 1967 «a fronteira de Auschwitz»"'~. Para
conquístadora c, sobretudo, não querem aparecer como uns, o nascimento de Israel é o símbolo de uma ressur-
uma comunidade de vítimas. reição, para os outros, de uma catástrofe, a Nakba: wna
A transição inicia-se, segundo Novick, no decurso confrontação violenta entre memórias que não conse-
dos anos 1960. E inica-se, desde logo, com o proces- guem encontrar a via de um diálogo.

74 75
Em 1982, indignado com os crimes cometidos du~ os Holot-auJ"t Studtú são uma disciplina consolidada na
rante a ocupaçào israelita do Ltbano, o director do lUliversidade), de comemoração pública (com a criação
Instituto de História das Ciências da Universidade de de monumentos, memoriais, museus, cerimónias ofi-
Tel-Aviv, Yehuda Elkana, sobrevivente de Auschwit7., ciais) e mesmo de reificação mercantil pelos média e
publicou no diário Haaretz um artigo provocador suge- pela indústria cultural (Hollywood). A memória do ge-
rindo aos seus concidadàos a virtude do esquecimento. nocídio conhece então, sublinha N ovick, um processo
«Nós, nós devemos esquecer». É preciso construir o fu- de (a~;;,:>~~i~:'PfiioJou seja, entra na consciência históri-
--------- . -------.....
turo, escreveu ele, e não «ocupar-se, dia e noite, com o ca dos Estados Uniqos, e deL!atra/iS!!.f:~,i até se tornar
simbolismo, as cerimónias e a herança do genocídio. O numa espécie de «religião civID>, com os seus dogmas
jugo da memória deve ser extirpado das nossas vidas»"'·'. (o seu carácter único e incomparável) e os seus «santos
Redescobria assim as virtudes cívicas do esquel:immto, que seculares» (os sobreviventes transformados em ícones
os gregos antigos tinham prescrito como uma política vivos). O surgimento de tal memória oficial inscreve-
de reconciliação, em 403 a.c., depois da oligarquia dos -se num contexto cultural marcado pelo abandono, por
Trinta Tiranos·'~. O sentido da reflexão de Elkana é cla- parte dos judeus americanos, do ethoJ integracionista
ro: se o esquecimento é, tratando-se dos perseguidores dos anos 1950 e 1960, a favor de um ethoJ particularis-
e dos que recolheram a sua herança, repreensível, a me- ta. A fórmula de \Viesel - o Holocausto como acon-
mória nào é sempre virtuosa e pode ser também fonte tecimento que tem tanto de único como de lUlÍversal
de abusos. - resume bem essa americanização do Holocausto e ao
A última fase é aberta pela difusào da série televisiva mesmo tempo a sua transformação em pilar da iden-
H%m/ul (1978), que terá um impacto tremendo, tanto tidade étnico-cultural judaico-americana. Essa identifi-
nos Estados Unidos como na Europa, especialmente cação com as vítimas, explica Novick, é possível não
na Alemanha. O genocídio judaico torna-se um prisma pela fraqueza mas pelo poderio dos judeus no seio da
de leitura do passado e um elemento essencial de de- sociedade americana. Daí o seu cepticismo: ~a sacrali-
finição tanto da consciência histórica ocidental como, EO do Holocausto é uma má política da memória:
sobretudo, da identidade judaica. Tornou-se um objecto Se ;-';~~~~-~~t;-d~-~;ci~";~~-~~:~-d~- iudeucidi~':
de investigação científica e de ensino (desde então que sublinha ainda, desempenhou um papel importante na

76 77
,.

formação da consciência histórica europcia, nos Esta- ainda pujante, no destino excepcional americano.»,17
dos Unidos favorece, pelo contrário, uma «eva.rào da res- Nos Estados Unidos, acrescenta Novick, «a memória

ponsahilidade moral e política~)3~. Chegamos assim ao do Holocausto é tão banal, tão inconscqucnte, que não
paradoxo da criação de um museu federal do Holocaus- é verdadeiramente uma memória, precisamente por ser

to, consagrado a uma tragédia consumada na Europa, tão consensual, desligada das divisões rcais da sociedade

enquanto nada de comparável existe para as duas expe- americana, apolítú·{J)3H. Novick não é o primeiro a fazer

riências ftmdadoras da história americana, que são o ge- esta constatação. I lá dez anos, ;\rno .i\Iayer denunciou

nocídio dos índios c a escravidão dos negros. Enquan- um «culto da recordaçãO) rapidamente transformado

to se inaugurava o museu do Holocausto em 1995, 05


em «sectarismo exacerbado», graças ao qual o massacre
dos judcus sc tinha desligado das circunstâncias histó-
Correios emitiam um selo que 'celebrava o bombardea-
mento atômico de Hiroshima e Nagasalci como o feliz ricas totalmente profanas que o tinham gerado, ficando
isolado numa mcmória sacralizada, «de que não é per-
acontecimento que havia posto fim à Segunda Guerra
mitido desviar-se e que se subtrai ao pcnsamento crítico
l\.1undial'\!'. Na sua última obra, Olhando o Sofrimento do.!"
e contextualww .
Outros, Susan Sontag apontou o dedo a esse uso muito
selectivo da memória. O Holocausto, escrcvc, foi «na- As manifestações exteriores dessa «memória forte»
cionalizadO) e transformado em vector de wna política lembram o namJúmo mmpassÍlJo denunciado por Gilbert
da memória singularmente alheada dos crimes em que a Achcar a propósito do ritual comemorativo das vítimas
América não dcsempenhou o papel de libertadora mas ~ do.-!.1A~.S_çtc_mbro de 2001-m. O Ocidente, incorporan-
antes de perseguidora. «Instituir wn museu que contas- do as vítimas no seu imaginário, na sua consciência, na
se esse grande crime que foi a escravidão dos africanos sua memória, e assim transformando-as em elemento
nos Estados Unidos da América significaria relembrar constitutivo da sua própria identidade, aut:>-celebra-sc.
que o mal estava aqui. Os americanos, pelo contrário, quando as comemora. Semelhante situação não teria
preferem relembrar o mal que estava lá, e de que os sido possível logo após a guerra, quando as vítimas do
~,stados Unidos ( ... ) estão isentos. O facto de este país, Holocausto, longe de surgirem como representantes tí-
v picos do mundo ocidental, eram entendidas como «ju-
como todos os outros, tcr um passado trágico, não se
compagina inteiramente com a confiança fundacional, deus de leste», encarnação de wna alteridade negativa e

78 79
T

mal tolerada no seio das diferentes comunidades nacio- podemos ver o monumento como uma dessas iícons-
nais. O silêncio da cultura ocidental sobre Auschwitz truções desconcertantes) - a cidade de Berlim alberga
em 1945 inscreve-se na mesma lógica que preside à in- várias - que «transmite qualquer coisa do passado na
diferença ou à compaixão distante com que, nos nossos sua ilegibilidade, não na sua ine:;..,p/imbi/idade})o\2. Este mo-
dias, reage às violências que devastam o Sul ou contem- numento é o resultado de um intenso debate intelectual
pla as vítimas das suas próprias guerras «humanitárias)). e potitico que se desenrolou durante mais de dez anos
Um contra-exemplo de iímemória forte)) merece, tanto no seio da sociedade civil como no Bundestag·.
contudo, ser mencionado. O impressionante «~lemo­ Ligado a um centro de documentação, este memorial
riaI aos judeus europeus assassinados)) (Denkmal/ür die único no seu género preenche várias funções: é um mo-
ermordeten Juden Europas) inaugurado em Maio de 2005 numento à memória dos judeus exterminados e também
em Berlim revela um uso público do passado bem di- de advertência à nação alemã. Dito de outra forma, um
ferente daquele denunciado nos Estados Unidos por _actQ de_piedade para com as vítimas e uma relembrança
Peter Novick e Susan Sontag. Erigido no coração da 40 ~ri~e dirigida à nação que engendrou os seus res-
capital alemã, ao lado da porta de Brandeburgo, en- ponsáveis e que recebeu a sua herança. ~\lguns, como
tre o Reichstag e a Potsdamer Platz, este gigantesco o escritor 1\fartin Walser, viram na obra um inaceitável
monwnento sóbrio e frio cobre um espaço de quase «monumento à vergonha» (S,handma~; outros, como o
20 mil m 2 com milhares de estelas em betão de altu- filósofo Jürgen Habermas, a prova de que a Alemanha
ra desigualo\l. O seu arquitecto, o americano Peter integrou Auschwitz na sua consciência histórica. De
Eisenman, não quis conceder à sua obra uma simbolo- uma certa maneira, este memorial cumpriu a sua fllil-
gia explícita, deixando ao público a sua própria inter- ção antes mesmo de ver a luz do dia, se tomarmos em
pretação. As visões são bastante díspares: alguns viram consideração os debates apaixonados que suscitou. Tes-
um cemitério, um labirinto, um campo de trigo, um mar, temunha também as mutações que fizeram da Shoah
outros ainda uma terrível caricatura da arquitectura to- uma «memória forte», no fim de uma controvérsia que,
talitária do Terceiro Reich ou um triunfo do «ornamen- de início, não excluía outras opções. Entre a proposta
to da massa)) (no sentido de Kracauer) numa imensa
construção sem conteúdo. Na senda de Régine Robin, .. Parlamento da Alemanha. NT

80 81
de Helmut Kohl, chanceler no momento em que a dis-
cussão se iniciou, que desejava um monumento «a todas
r
!
mã, em memorial dedicado às vítimas do fascismo. Com
a sua pietá esculpida por Kiithe Kollwitz entre as duas
as vítimas da guerra e da tirania», e a escolha final de um guerras, o local comemora agora todas as «vítimas» da
Holocau.rt Denkmal, foi percorrida uma distância consi- Segunda Guerra Mundial (a palavra alemà Opferdesigna
deráveL A proposta de Kohl visava diluir os crimes na~ tanto as vítimas inocentes como os mártires)~-'. f.~ pa-
zis numa comemoração global das vítimas da guerra, in- tente que o I fofocaus! Denkmal rompe com esta memó-
cluindo os judeus, os civis e os soldados alemães, as ví- ria ambígua que mostra explicitamente o seu caráctcr
timas do genocídio e as vítimas dos bombardeamentos apologético. Contudo, a escolha final de um memorial
aliados, os deportados e os seus perseguidores caídos do Holocausto (e não de todas as vítimas do nazismo)
durante o conflito. Alguns anos antes, o chanceler Kohl expõe-se ao risco que ameaça toda e qualquer «me-
tinha~se distinguido pela sua visita, na companhia do mória forte»: o de esmagar as memórias mais «fracas».
presidente norte-americano Ronald Reagan, ao cemité- Do historiador Reinhart Koselleck ao escritor Günter
rio militar de Bitburg onde estão enterrados numerosos Grass. passando pelo f1lósofo Micha Brumlik, numero-
SS. Logo após a reunificação, em 1993, conseguiu trazer sas personalidades criticaram o carácter judeo-centrado
o SPD para o seu lado, ao inaugurar em Berlim um novo desse monumento. «A.ceitar um monumento exclusiva-
memorial da Alemanha Federal (Zen/rale Gedenkstiit!e der mente para os judeus ,- escreve Koselleck - significa
Bundurepublik Deu!schlandJj. O local escolhido para o legitimar uma hierarquia fundada sobre o número de ví-
memorial foi a Neue LVa"he, edifício erigido no coração timas e sob a influência dos sobreviventes, aceitando no
de Berlim no irúcio do século XIX pelo arquitecto Karl ftmdo as mesmas categorias de extermínio adoptadas
Friedrich Schinkel, que foi durante dois séculos o espe- pelos nazis. Enquanto nação dos executores, nós deve-
lho fiel das políticas memoriais dos diferentes regimes riamos interrogar-nos sobre as consequências de uma
que se sucederam na Alemanha. Nascido como um tallógica.»-t-t Koselleck propunha assim erigir um mo-
local de recordação dos combates patrióticos contra a numento concebido como «monumento de advertência
opressão napoleónica, transformou-se sob a Repúbli- (Mahnma~» dirigido aos alemães e consagrado à recor-
ca de Weimar num monumento aos mortos da Grande dação do conjunto das vítimas do nazismo. Habermas.
Guerra e, mais tarde, sob a República Democrática Ale- que considera legítima a escolha de um memorial do

82 83
)
Holocausto, tendo em conta o papel desempenhado Ioga, é quase banal interpretar a emergência dos estudos
pelos judeus na história da Alemanha, admitiu implici- pós-coloniais e do multiculturalismo como uma con-
tamente a boa ftuldamentação desta crítica, escrevendo sequência, a longo prazo, da descolonização, do acesso
que esse monumento tomava ª__ p~l[~~~ .os judeus, pdo dos antigos povos colonizados ao estatuto de sujeitos
I to~o~-\ L\inda assim, confrontado com as reivindicações históricos e do aparecimento, no seio das instituições
de oulras vítimas, o governo federal decidiu criar dois cientificas, de uma intelligentsia de origem indiana ou afro-
memoriais suplementares, um dedicado aos ciganos e -amencana.
outros aos homossexuais deportados.
Não se trata, evidentemente, de estabelecer uma
Como memória e história não estão separadas por relação mecânica de causa e efeito entre a «força» de
uma barreira inultrapassável, mas sim em interacção per- uma memória de grupo e a amplitude da historiciza-
manente, existe uma relação privilegiada entre memórias ção do seu passado. Não foi a força institucional nem
«fortes» e a escrita da história. Quanto mais forte é a me- a visibilidade mediática dos Bororos que levou Claude
mória - cm termos de reconhecimento público e institu- Lévi-Strauss a escrever Trútes Trópü"OJ. Essa relação não
i cional-~ mais o passado de que é vector se toma suscep- é directa, uma vez que se define no seio de contextos
f tivel de ser explorado e historicizado. O exemplo de Raul diferenciados e está submetida a múltiplas mediações,
Hildberg citado anteriormente ilustra bem esse fenóme- mas seria absurdo negá-la ..A memória das vítimas do
no. No fim da guerra, quando a memória do Holocausto massacre de Nankin, a capital da China nacionalis-
era «fracID>, Franz Neuman aconselhou-o a mudar o tema ta, perpetrado pelo exército imperial japonês durante
do seu doutoramento, dizendo-lhe abertamente que com a ocupação da cidade em Dezembro de 1937-17, ou a
tal pesquisa jamais iniciaria uma carreira universitária memória das «mulheres de confortQ) forçadas a pros-
(e, com efeito, durante um longo penodo Hilberg perma- tituir-se pelas autoridades japonesas durante a Segunda
neceu um marginal no mlUldo académico americano, onde Guerra .~vfundial foram durante muito tempo circuns-
terminou a sua carreira, na Universidade de Vermont)-U.. critas aos seus descendentes, sem presença no espaço
Hoje em dia, a expansão da memória da Shoah no es- público-l H• Foi a emergência da China e da Coreia do Sul
paço público é acompanhada pelo desenvolvimento dos como grandes potências económicas que transformou
HolOtUUJl StudieJ"nos campus universitários. De forma aná- essa memória num elemento das relações diplomáticas

84 85
entre esses dois países e o Japão, obrigando este a reco- to, no qual as lutas da geração beur pela igualdade e pela
nhecer os seus crimes e a apresentar um pedido oficial reapropriação do seu próprio passado se conjugaram
de desculpas. com os esforços de uma historiografia pós-colonial,

Estas considerações são também válidas, em larga susceptivel de integrar a voz dos colonizados no seu

medida, para a memória da guerra da Argélia. Podemos relato do passado; e, ainda, poderíamos acrescentar,
com a resistência de uma pequena minoria de arquivis-
certamente falar, a propósito do reconhecimento recen-
tas que, entrando em guerra com a hierarquia da sua
te dos crimes do exército francês entre 1954 e 1962,
corporação que esteve desde sempre ao serviço da ra-
de um «regresso do recalcadm>, ligado às etapas de ela-
zão de Estado, colocaram a verdade histórica à frente
boração do passado colonial francês. Não há dúvida,
das suas carreiras ~II. A emergência dessa memória pós-
contudo, que esse reconhecimento está também ligado
"colonial abalou a memória da esquerda francesa que ti-
à emergência de uma memória argelina - mais precisa-
nha até então ignorado o massacre de Outubro de 1961,
mente beur' - que se exprime actualmente no interior da
ocultando-o através da comemoração dos seus próprios
sociedade francesa, onde os descendentes dos antigos
mártires: as nove vítimas da manifestação de Charonne
colonizados constituem uma minoria importante. O re-
de 8 de Fevereiro de 1962 . .:\ esquerda foi assim con-
conhecimento do massacre de 17 de Outubro de 1961,
frontada com as suas falhas de memória, que mais não
no coração da capital, Paris, não foi negociado entre o
fazem do que revelar a sua submissão a um imaginário
governo francês e as autoridades argelinas (contraria-
colonial, com as suas hierarquias, que atribuem mais va-
mente ao caso do massacre de Sétif, de Maio de 1945 4'}
lor à vida dos anticolonialistas franceses do que à vida
Permanece essencialmente simbólico, limitando-se a
dos nacionalistas argelinos.
algumas declarações de responsáveis políticos, a uma
decisão judicial, a uma placa comemorativa colocada na
presença do presidente da câmara da capital, mas, ainda
assim, fez o seu caminho na sociedade francesa. Trata-
-se sobretudo da consequência de um vasto movimen-

86 87
III
o historiador entre juiz e escritor

Memória e escrita da história


o !ú{p/liJtú' tum - rótulo sob o qual reagrupamos um
conjunto de correntes intelectuais nascidas nos Estados
Unidos América do encontro, no final dos anos 1960,
entre o estruturalismo francês com a filosofia analíti~

ca c o pragmatismo anglo-saxónico - teve um efeito


frutífero na historiografia contemporânea 1 • Permitiu
quebrar a dicotomia que separava até então a história
das ideias e a história social, assim como ultrapassar
os limites simétricos de uma história do pensamento
auto-referencial e de um historicismo fundado sobre a
ilusão de que a interpretação histórica se redu:ziria ao
simples reflexo de uma prática rigorosa de objectivação

89
e contextualização dos acontecimentos do passado. O fender uma espécie de «pantextualismm) que Dominick
lingui.ffi( furn sublinhou a importância da dimensão tex- LaCapra qualificou de «criacionismo secularizado»./: a
tual do saber histórico, reconhecendo que a escrita da história não seria mais do que lUTIa construção textu-
história é uma prática discursiva que incorpora sempre al, constantemente reinventada segundo os códigos da
um}_ par!~"_g~_iª~_oJogia, de representações e de códi- criação literária. Porém, a história não é assimilável à li-
gos literários herdados que se refractam no itinerário teratura, uma vez que a múe en IJútoire do passado, isto é,
individual de lUTI autor. Fazendo isso, permitiu estabele- o tornar o passado em história, deve sujeitar-se à reali-
cer uma dialéctica nova entre realidade e interpretação, dade e a sua argumentação não pode evitar a obrigação
entre textos e contextos, redefinindo as fronteiras da de, quando necessário, apresentar provas. É por isso
história intelectual e questionando de forma salutar o que a al1rmação de Roland Barthe~, segundo a qual «o
estatuto do historiador, cuja implicação multiforme no facto nunca tem mais do que uma existência lingtÚsti-
seu objecto de estudo não se pode continuar a ignorar. ~~)\ não é aceitáveL Como não o é o relativismo radical
Esta corrente conheceu também desenvolvimentos dis- de Haydcn \X1hite que, considerando os factos históri-
cutíveis, muitas vezes denunciados (e sobre os quais se cos como artefactos retóricos subsutTÚveis a um «pro-
concentrou de forma quase exclusiva a sua recepção na tocolo línguistico», identifica a narrativa histórica com a
Europa continental). A mais generalizada das suas de- invenção literária, uma vez que as duas têm como fun-
rivas metodológicas foi, segundo as palavras de Roger damento, a seu ver, as mesmas modalidades de repre-
Chartier, a tendência para «lUTIa perigosa redução do sentação. Segundo \X1hite, «as narrativas históricas [são]
mWldo social a uma pura construção discursiva, a um ficções verbais em que os conteúdos são tão inventados
puro jogo de linguagetru/-. Os proponentes mais radi- como encontrados, e cujas formas estão mais próximas
cais do Jinl'"ui.ftir turn renunciaram, deste modo, à busca da literatura do que da ciência>/'. Tanto Barthes como
da verdade que preside à escrita da história, esquecendo \X1hite ausentam o problema da objectividade do con-
que «o passado que ela toma como objecto é uma re- teúdo do discurso histórico. Se a escrita da história as-
alidade exterior ao discurso e que o seu conhecimen to sume sempre a forma de um relato, este último é quali-
pode ser controladmr'. Levando ao extremo algumas tativamente diferente de uma ftrçao romanesca 7 • Não se
prem1ssas desse movimento, chegaram mesmo a de- trata de negar a dimensão criadora da escrita histórica,

90 91
uma vez que o acto de escrever implica sempre, como tet:'atura negacionista. uma vez que as câmaras de gás
lembrou Michel de Certeau, a construção de uma frase permanecem um fado antes de se tornarem um objecto
«enquanto se percorre um espaço supostamente bran- de construção discursiva e de uma «passagem a intriga
co, a página»!!. No entanto, De Certeau não deixava de histórica}) (hiJtonáll emplotemenl)'~. Poi precisamente o
acrescentar que a escrita não pode evitar uma relação desenvolvimento do negacionismo que levou François
com o dado: «O discurso histórico pretende dar um con- Bédarida a reconsiderar, no decurso dos anos 1990, a

teúdo ,::erda~~.~!o (que releva do verificável) mas sob a posição de «um certo desdém» que os historiadores ti-
forma de umar narração.»\ \X1hite tem razão em alertar nham tido tendência a manifestar, durante as décadas

para os perigos da ilusão positivista que consiste em precedentes, face à noção de fadO, e a «exortá-los vigo-

fundar a história sobre uma pretensa auto-suficiência rosamente a não rejeitarem o bebé-objectjvidade com

dos factos. Sabemos, por exemplo, que os arquivos _ a água do banho positivistro}L'i. O questionamento do

as principais fontes dos historiadores - nunca são um historicismo positivista e do seu tempo linear, «homo-

reflexo imediato e <<neutro}} do real, uma vez que tam- géneo e vazim), da sua causalidade determinista e da

bém podem mentir. É por isso que exigem sempre um sua teleologia que transformam a razão histórica em

trabalho de dcscodificação c interpretação\(). O erro de ideologia do progresso, não implica necessariamente a

White consiste na confusão entre a narrarão hirtórü'a (o rejeição de qualquer noção de objectividade factual na
reconstrução do passado. Pierre Vidal-Naquet colocou
mire en hirtoire através de um relato) e a fiC(ão histótica (a
o problema em termos muito claros: «se o discurso his-
invenção literária do passado)l1. Eventualmente, po-
tórico não estivesse ligado, mesmo que através de todo
deríamos considerar a história, segundo as palavras de
o tipo de intermediários, ao que nós chamaremos, à fal-
Reinhart Koselleck, como uma «ficção do factuab)12. É
ta de melhor, o real, estaríamos ainda no discurso. mas
certo que o historiador não se pode esquivar ao pro-
esse discurso deixana d~'sér hist6ricQ)}16.
blema da «passagem a textm) da sua reconstrução do
passado'"', mas nunca poderá, se pretender fazer his- o relativismo radical de Hayden \X1hite parece coin-
tória, arrancá-Ia à sua irredutível base factual. Diga-se cidir de forma bastante paradoxal com o fetichismo
de passagem que é ai que reside toda a diferença entre do relato memorial, oposto a qualquer arquivo do real,
os livros de história sobre o genocídio judaico e a li- defendido incansavelmente por Claude Lanzmann, o

92 93
realizador de Shoah. Esse filme extraordinário foi um munhos coligidos em Shoah. Depois, opôs o seu «mo-
momento essencial, em meados dos anos 1980, tanto numento)) ao «arquivo)), qualificando de «insuportável
para a integração do genocídio dos judeus na consciên- pretensiosismo interpretativO) o esforço dispendido
cia histórica do mundo ocidental, como para a integra- pelos historiadores na análise de certos documentos
ção do testemunho entre as fontes do conhecimento herdados do passado. Por fim, JJlbJ/itJliu o seu filme ao
histórico. Os trabalhos sobre a memória tiveram nesse acontecimento real, reivindicando mesmo o direito de
i ,
filme um impulso importante e, sem dúvida, que não ~ des..twir as proyas...dª-.~tência. E este o sentido
será exagerado afirmar que o estatuto do testemunho de uma sua hipérbole provocadora, que causou grande
na investigação histórica não voltou a ser o mesmo ruído aquando da estreia do filme de Steven Spielbcrg,
após esta obra. No entanto, esse resultado não satisfez A Lista de S,fJindler. «E se eu tivesse encontrado um fil-
Lanzmann, que veio a considerar o seu filme como um me - um filme secreto porque era estritamente proibido

+-_~~~~~_'l:~e~:~, ~~_~
foi ~~!?~tit~in~o ~_ P?~~~ __e _ 'p()~~? o - rodado por um SS mostrando como três mil judeus,
aconteClmento real, até ao ponto de recusar o valor dos homens, mulheres e crianças, morreram juntos, asfi-
«arqU1vos», ou seja, das provas factuais desse aconte- xiados numa câmara de gás do crematório II de Aus-
cimento (por exemplo, as fotografias da exterminação ! chwitz, se eu tivesse encontrado isso, não só não o teria
realizadas pelo S onderkommando de Auschwitz em Agos- I mostrado, como o teria destruído. Não sou capaz de
to de 1944)17. Lanzmann defendeu este ponto de vista ~zer porquê. É assim mesmo.)19 Afirmar desta forma
várias vezes, nomeadamente em 2000, quando o filme peremptória que Shoah é a Shoah significa simplesmen-
foi de novo mostrado nas salas de cinema: «Shoah nào te reduzir esta última a uma construção discursiva, a um
é um filme sobre o Holocausto, não é um derivado, não relato moldado pela linguagem no qual o testemunho
é um produto, mas umiã~~·~~~i~e~i?.ó_riginário. Que deixa de remeter para uma realidade factual originária
isso agrade ou não a um certo número de pessoas (... ), e fundadora, mas na qual, pelo contrário, a memória se
o meu filme não faz apenas parte do acontecimento da basta a si própria ao constituir-se como acontecimento.
Sh~ah: ~le contribui para a constituir como aconteci- E uma vez que S hoab se apresenta como wna suces-
mento.»I~ Desta forma, primeiro Lanzmann ertgiu em são de diálogos cujo protagonista é sempre o próprio
«monumento) - é a sua própria expressão - os teste- Lanzmann, o filme revela também a postura narcísica

94 95
do seu autor, que se considera ele próprio, em última Uma outra forma de substituição da memória à re-
análise, como um elemento consubstanciaI do aconte- alidade histórica é sugerida por um filósofo de entre
cimento. os mais originais dos últimos anos, Giorgio Agamben.
No seu Ce qui rufe d'Aughwit!V interroga a ({aporia» no
Acrescente-se que Lanzmann não se limita a subs-
cerne do extermínio dos judeus, <<uma realidade tal que
tituir o acontecimento pela memória, já que ele a opõe
excede necessariamente os seus elementos factuais»,
à história, ou seja, ao relato do passado que visa a sua
criando assim uma clivagem {{entre os factos e a ver-
interpretação. «Não compreenden), escreve, foi a sua
dade, entre a constatação e a comprecnsãO)2~. Para sair
«lei de ferrO» durante os anos de preparação de Shoah:
desse impasse, socorre-se de Primo Levi que, em Os
uma «cegueira» que reivindica não só como condição do
que sUí-umbem e OJ· que se salvam, apresenta o {(muçulma-
«acto de transmitin) implícito à sua criação, mas também
no» - o detido de Auschwitz chegado ao último esta-
como postura epistemológica que opõe «à questão do
porquê, com a sucessão indefinida de frivolidades aca- do de esgotamento físico e de aniquilação psicológica,

démicas ou de patifarias que esta não cessa de induzir:!.(\). reduzido a um esqueleto incapaz de pensamento e de

Essa postura remete para a regra que os nazis haviam palavra - como a «testemunha integral». É ele, escre-

imposto em Auschwitz: Hier úl kein WarntJ/» (<<aqui, não ve Levi, a verdadeira testemunha, aquele que tocou o

há porqub», regra que Primo Levi achava «repulsiva»:!.l, abismo e que não sobreviveu para o contar, de quem

mas que I.anzmann decidiu interiorizar -~~~~ a sua pró- os sobreviventes seriam, no fundo, o porta-voz: «Nós,

pria «lei». É dificil não ver nessa interdição do «porquê» nós falamos por eles, por delegação.»~5 Enquanto Levi,
uma sacralização da memória (alguns chamam-lhe uma ao invocar a figura do «muçulmano», queria sublinhar
forma de «religiosidade seculanr ;») de matiz bastante
2 o carácter precário, subjectivo, incompleto dos relatos
obscurantista. Trata-se de uma interdição normativa da feitos pelas testemunhas realmente existentes, os sobre-
compreensão que atinge o coração do próprio acto da viventes, aqueles que não tinham visto Ha Górgona», ou
escrita da história como tentativa de interpretação, aqui- seja, aqueles que tinham escapado às câmaras de gás,
lo a que Lcvi chamava «a salvação da compreensão» (Ia Agamben, por seu lado, transforma o «muçulmanO) no
salva:;,/one dei capire) e que a seus olhos constihÚa o objec- paradz!!,ma dos campos nazis. A prova irrefutável de Aus-
tivo de todo o esforço de rememoração do passado 21 . chwitz, e logo a refutação derradeira do negacionismo,

96 97
escreve em conclusão da sua obra, reside precisamente tiva pelo hiato que separa o acontecimento da sua com-
nessa impossibilidade de testemunhar. Segundo Agam- preensão - mas na impossibilidade da sua enunciação,
ben, ~-\uschwitz é «o que é impossível de testemunhar» incarnada pelo «muçulmano». Se ~-\uschwitz existiu, não
e os sobreviventes dos campos da morte, ao tomarem a foi tanto porque existiram câmaras de gás, mas porque
palavra no lugar do «muçulmanm), aquele que não pode os sobreviventes puderam restituir uma voz ao «mu-
falar, não são mais do que testemunhas dessa impos- çulmano», a «testemunha integrab>, arrancando-o do
sibilidade do testemunh0 2r,. Aos seus olhos, o núcleo seu silêncio. ~lais wna vez, a história é reduzida a uma
profundo de Auschwitz não se encontra no externúnio, ~_st:~Ç~? linguísti~a de._q~~, a .meITl0ria - dissociada
mas na produção do «muçulmano», essa figura híbri- do real - consti,tul a tra~a. Fundar a crítica do nega-
da entre a vida e a morte (non-uomo)27. É por isso que cionismo numa tal ~~.~~~í_sica da linguagel1~ (de inspi-
ele a transforma num ícone (tomando como pretexto f'Ação tanto existencialista como estruturalista2')) é uma
a modéstia de que faz prova Primo Levi quando indica operação duvidosa que corre o risco de manter intacta
os limites do seu próprio testemunho). Mas essa visào a «aporia» de Auschwitz, ao mesmo tempo que retira
dos campos nazis como lugares de dominação biopoli- à sua verdade a sua base material. Podemos também
tica sobre os detidos reduzidos à «vida nmm (nuda llida) compreender o desconforto com que os sobreviven-
carece singularmente de espessura histórica. Agamben tes de ~\uschwitz, as testemunhas realmente existentes,
parece esquecer que a grande maioria dos judeus ex- acolheram C'e qui rufe de AUJ'chwitZ' Philippe Mesnard c
terminados nos campos nazis não eram «muçulmanos», Claudine Kahan sublinharam justamente esse aspecto
uma vez que não eram enviados para a câmara de gás do problema na conclusão da sua crítica: K.,\ escuta da-
no final das suas forças mas no próprio dia em que quilo que podem dizer os sobreviventes, como podem
chegavam ao camp02H. Se Agamben pôde negligenciar dizê-lo, dá lugar [no livro de AgambenJ a uma glosa so-
um facto tão evidente, é precisamente porque isso não bre o silêncio que lhes é assim imposto. No lugar deste,
constitui, a seu ver, o cerne do problema. Toda a sua ar- Agamben apresenta o muçulmano, a única testemunha
gwnentação parte do postulado segundo o qual a prova que vale a seus olhos, um ser sem referência - a partir
de Auschwitz não reside no fado do extermínio - uma do qual Agamben pode precisamente construir a sua
verdade que se encontra desqualificada na sua perspec- própria referência -, abandonado pela identidade, cuja

98 99
existência se reduz ao espaço que na linguagem ocupa a No fundo, a relação entre justiça e história é uma ve-
sua imagem quase transparente.»)31J lha questão (veja-se a intervenção dos mais eminentes
historiadores durante o processo de Zola, em 1898-' -'),
que hoje volta à ordem do dia por uma série de pro-
Verdade eJustiça cessos no decurso dos quais numerosos historiadores
N a relação complexa que a história estabelece com a foram convocados na qualidade de testemunhas. Seria
memória inscreve-se o vínculo que as duas mantêm difícil compreender os processos Barhic, Touvier c Pa··
com as noções de Vé;dade e de justlça>Este vínculo pon em França, o processo Priebke em Itália ou ainda
torna-se hoje cada vez mais problemático com a ten- as tentativas de instrução de um processo a Pinochet,
dência crescente para uma leitura judiciária da história tanto na Europa como no Chile, sem os relacionar com
e uma «judiciarização da memória) 'I. Doravante no a emergência, no seio da sociedade civil desses países e
centro da nossa consciência histórica, a visão do século ~--- --.------_. __ .-----_.__.,._------------".- ..
na opinião pública mundial, de uma memória colectiva
,,- "--._, 1:
x..X como um século de violência conduziu frequente- do fascismo, das ditaduras e da Shoah. Esses p~õcessos- .' '
mente a historiografia a trabalhar com categorias ana- foram momentos de rememoração pública da história
líticas tomadas do direito penal. Os actores da história onde o passado foi reconstituído e julgado numa sala
são, assim, cada vez mais frequentemente colocados de tribunaL No decorrer das audiências, os historia-
no papel de executores, vítimas e testemunhas 31 • Os dores foram convocados para «testemunham, ou seja,
exemplos mais conhecidos que ilustram essa tendência para clarificar graças às suas competências o contexto
são os de Daniel J. Goldhagen e de Stéphane Courtois. histórico dos factos em julgamento. Diante do tribunal,
O primeiro interpretou a história da Alemanha moder- os historiadores prestaram juramento declarando como
na como um processo de construção de uma comuni- qualquer testemunha: (~uro dizer a verdade, somente a
dade de executores". O segundo, ao trocar as vestes verdade e nada mais que a verdade.w'() Esse «testemu-
do historiador pelas do procurador, reduziu a história nhm) J"tIÚ genen:r colocava evidentemente questões de
do comunismo ao desenvolvimento de uma operação ordem ética, mas também retomava questões mais anti-
cnmtnosa para a qual reclama um novo processo de gas de ordem epistemológica. Punha em causa a relação
-~N·~·;~~b~-;ga.1-1. da justiça com a memória de um país e a do juiz com

100 101
o historiador, com as suas modalidades respectivas de situá-la na temporalidade do mlUldo profano e fazendo
tratamento das provas e do estatuto diferente da verda- do historiador o seu guardião 1H. Podemos interrogar-
de quando ela é produzida pela investigação histórica -nos sobre a pertinência dessa afirmação a propósito
ou é enunciada pelo veredicto de um triblUlal. .-\ten- de processos que, longe de julgarem um passado já
to à distinção entre os domínios respectivos da justiça, ido e então encerrado, susceptível de ser contemplado
da memória e da história, I-Ienry Rousso recusou-se a de à distância, não foram mais do que momentos de
testemunhar no processo Papon, justificando a sua es- elaboração de «um passado que não quer passan). No
colha com argumentos rigorosos e em vários aspectos
entanto, para a parte civil, assumiram os traços de uma
esclarecedores. «.A justiça - afirmou - coloca a ques-
Nêmesis reparadora da História. Contra esse adágio
tão de saber se um indivíduo é culpado ou inocente;
hegehano, era inevitável opor um outro: o historiador
a memória nacional é resultante de uma tensão exis-
não é um juiz, a sua tarefa não consiste em julgar mas
~s recordações me~oráveis e com~~or~veis

I
tente entre
antes en(·~~~p~-~-~~der: Na sua Apologie pour I'histoire,
e os esqueClmentos que perm1tem a sobreV1venc1a da
Marc Bloch deu-lhe uma formulação clássica: «Quan-
, comunidade e a sua projecção no futuro~ a história é
do o especialista observou e explicou, a sua tarefa está
uma operação de conhcci.met}.t.9_"t;_de _elucidação. Estes
~- terminada. Ao juiz resta ainda dar a sentença. Ao silen-
três registos podem sobrepor-se e foi o que se passou
ciar qualquer inclinação pessoal, pronuncia-a segundo
durante os processos~~~;contra a humanidade.
a lei? Achar-se-á imparcial. Ele sê-lo-á, com efeito, no
~las era desde logo colocar-lhes aos ombros um fardo
sentido dos juízes. Não no sentido dos especialistas.
insuportável: não poderiam estar, de forma equivalen-:
Porque não se pode condenar ou absolver sem tomar
te, à altura dos requerimentos respectivos da justiça, da
partido por um quadro de valores que já não releva de
memória e da história.w'7
nenhuma ciência positiva.))19 Mas deve também ser lem-
Essa mistura de géneros parece recuperar o anti- brado que, em Une étran..~e défaite, Bloch não se abstém
go aforismo de Schiller, retomado por IIegel, sobre o de julgar e, se não queremos preconizar uma visão já
tribunal da história: Die W'"e!(p,eJtfJidJte ist daJ If'/e/(p'erúht, gasta (e ilusória) da historiografia como ciência «axiolo-
«A história do mundo é o tribunal do mundo», afo- gicamente neutra»), somos obrigados a reconhecer que
nsmo que secularizou a moral e a ideia de justiça, ao todo o trabalho histórico veicula também, imphcita-

102 103
mente, um julgamento sobre o passado. Seria falso não verdade necessita de prova... Verdade c prova são duas
ver mais do que arrogância detrás do aforismo hegelia- noções que se encontram no cerne do trabalho tan-
no sobre a história como «tribunal do mundQ}). Pierre to do juiz como do historiador. A escrita da história,
Vidal-Naquet relembra, nas suas memónas, a im- acrescenta Ginzhurg, implica além disso um procedi-
pressão que lhe causou a passagem marcante de mento argumentativo - uma selecçao dos factos e uma
Chateaubriand em que este atribui ao historiador, organização do relato - cujo paradigma continua a ser
«quando, no silêncio da abjecção, já só se ouve o resso- a retórica de matriz judicial. A retórica é «uma arte da
ar das correntes do escravo e a voz do delatoD), a nobre persuasão nascida diante dos tribunais»-t~; foi aí que,
tarefa da «vingança dos povos». Antes de ser a fonte de diante de um público, se codificou a reconstrução de
lUlla vocação, relembra, este desejo de redenção e de um facto através das palavras. Isto não é negligenciá-
justiça foi para ele <<uma razão de viveú)-1°.
vcl, mas acaba aqui a afinidade. A verdade da justiça é
A contribuição mais lúcida sobre esta delicada ques- normativa, definitiva e vinculativa. Não procura com-
tão é a de Carlo Ginzburg, por ocasião do processo preender mas estabelecer responsabilidades, absolver
Sofri em ltália-11. O historiador, sublinha Ginzburg, não os inocentes e punir os culpados. Comparada à. verda-
deve erigir-se em juiz, não pode emitir sentenças. A de judiciária, a do historiador não é apenas provisória
sua verdade - resultado da sua pesquisa - não tem um e precária, é também mais problemática. Resultado de /'

~'-." _._-_._-
carácter normativo; permanece parcial e provisória, ja-
- --- uma operação intelectual, a história é analítica c refle-
mais definitiva. Apenas os regimes totalitários, onde os xiva, procurando pôr em evidência as estruturas subja- !
historiadores são reduzidos à categoria de ideólogos centes aos acontecimentos, as relações sociais nas quais I
e de propagandistas, possuem uma verdade oficial. A estão implicados os homens e as motivações dos seus 1
historiografia nunca está cristalizada, uma vez que em actos-1-'. Em suma, é uma outra verdade, indissociável
cada época o nosso olhar sobre o passado - interroga- da interpretação. Não se limita a estabelecer os factos,
do a partir de novos questionamentos, sondado com tenta colocá-los no seu contexto, explicá-los, formu-
a ajuda de categorias de análise diferentes - se modi- lando hipóteses e procurando as causas. Se é verdade
fica. O historiador e ° juiz, no entanto, partilham um que o historiador adapta, para retomar ainda a defini-
mesmo objectivo: a procura da verdade e esta busca da ção de Ginzburg, um «paradigma indiciáriQ»+\ a sua

104 105
interpretação não possui a racionalidade implacável, «J\.foralizar a história»+\ essa eX1gênCla avançada
guantificável e incontestável das deduções de Sherlock por Jean Améry na suas sombrias meditações sobre o
/-lolmes.
passado nazi, está na origem dos processos evocados
Os mesmos factos engendram verdades distintas. Se anteriormente ..\s vítimas e os seus descendentes vive-
a justiça cumpre a sua missão ao designar e condenar ram-nos como actos simbólicos de reparaçào. Noutros
o culpado de um crime, a história começa o seu traba- casos, continuam a bater-se para que esses processos
lho de pesguisa e interpretação ao tentar explicar como venham a ter lugar, como hoje em dia fazem, no Chi-
este se tornou um criminoso, gual a sua ligação com a le, os sobreviventes da ditadura de Pinochet e os seus
vítima, o contexto em que agiu, assim como a atitude descendentes. Não se trata de identificar justiça e me-
das testemunhas que assistiram ao crime, que reagiram, mória, mas muitas vezes fazer justiça significa também
que não souberam como impedi-lo, que o toleraram ou render justiça à memória. A justiça foi, ao longo de
aprovaram. Estas considerações podem servir para re- todo o século x...X - pelo menos desde Nuremberga, se
forçar a posição dos historiadores que decidiram não não mesmo desde o caso Dreyfus - um momento im-
«testemunhar» durante o processo de Papon. As suas portante na formação de uma consciência histórica co-
motivações são tão válidas como as dos que acederam à lectiva. A imbricação da história, da memória e da jus ti-
convocatória dos juí7.es. Estes últimos fizeram-no para '.jça está no centro da vida colectiva. O historiador pode
não se subtraírem, enquanto cidadãos, a wn dever cívi- operar as distinções necessárias, mas não pode negar
co que o seu ofício tornava, a seu ver, ainda mais im- essa imbricação; deve asswni-Ia, com as contradições
perativo. Por um lado, o seu «testemunhO}) contribuiu decorrentes. Charles Péguy teve essa intuição durante
para confundir os géneros e conferir o estatuto de wn o caso Dreyfus, quando escreveu que «o historiador
veredicto histórico oficial a um veredicto judicial, trans- não pronuncia juízos judiciários; não pronuncia juízos
formando o tribunal em «tribunal da História». Por ou- jurídicos; poderíamos quase dizer que não pronuncia
tro lado, pôde clarificar um contexto e relembrar factos sequer juízos históricos; elabora constantemente juízos
gue se arriscavam a ficar ausentes tanto das actas do históricos; está em trabalho perpétuQ») 16. Poderíamos
processo como da reflexão gue a acompanhou no seio ver aí uma confissão de relativismo; na realidade, é o
da opinião pública. reconhecimento do carácter instável e provisório da

106 107
verdade histórica que, para lá do estabelecimento dos
factos, contém a sua parte de juízo indissociável de
uma interpretação do passado como problema aber-
_.!~~ ~mais do que inventário fechado e d~finiti,~~~~~tc
arquivado.

IV
Usos políticos do passado

/l memória da 5 hoah como ((religião 'Úli/»

Poderemos fazer um uso crítico da memória? A este


respeito as comemorações do sexagésimo aniversário
da libertação do campo de Auschwitz oferecem-nos
matéria abundante para reflexão. A própria dimensão
das comemorações, nas quais participaram dezenas de
chefes de Estado, é em si mesmo um fenômeno notá-
vel. Revela, certamente, o lugar que ocupa o genocídio
dos judeus na paisagem memorial deste início do século
XXI e a sua integração na nossa consciência histórica.
As diferenças entre essas comemorações e as do cin-
quentenário são igualmente reveladoras. Bastante mais
modestas, as comemorações do cinqucntenário ficaram

108 109
marcadas pelo receio do esquecimento. A muito recente considerado como o melhor dos mundos. O I1olo-
reunificação da Alemanha levantava interrogações legí- causto funda assim uma espécie de teodiceia secular
timas quanto ao lugar que a memória dos crimes nazis que consiste em rememorar o mal absoluto para nos
ocuparia num pais que voltara a ser «normaL> e, diziam convencer que o nosso sistclna encarna o bem abso-
algtuls, se libertara dos seus fantasmas. Temia-se que luto. Nos dias seguintes, durante uma emissào de rá-
o fim da divisão - uma espécie de recordação perma- dio, num programa de manhã de domingo, com uma
nente do passado e do nazismo segundo Güoter Grass, grande audiência, um politólogo francês repetiu várias
um dos mais acérrimos críticos da reunificação - fosse vezes que K.:\uschwitz nào é Guantánamo» . ..:\uschwitz
pretexto para um novo recalcamento. Hoje em dia, é não é Guantánamo: a insistência em sublinhar tal facto,
forçoso constatar que esse recalcamento nào teve lugar, evidente e incontestável, levanta uma interrogação. E-
que a memória do nazismo, ainda que sempre conflitu- ca-se com a impressão que para alguns a comemoração
aI, permanece viva tanto na Alemanha como no resto da libertação dos campos de Auschwitz seria uma boa
do mundo ocidental. O receio do esquecimento já nào ocasião para demonstrar que, no fundo, Cuantánamo
existe. Se existe um receio, deve-se mais, como subli- não é assim tão grave. Ora, não se trata de estabelecer
nharam alguns comentadores, aos «excessos da memó- uma homologia entre Auschwitz e Guantánamo, mas
rim>. O risco não é o de esquecer a Shoah, mas o de sim de questionar se depois de Auschwitz podemos
fazer um mau uso da sua memória, de embalsamá-la, de tolerar Guantánamo ou Abou-Ghraib, se não existe
a fechar nos museus e de neutralizar o potencial críti- algo de indecente no facto de serem precisamente os
co, ou, pior, de a submeter a um UJ'O apologético da actual responsáveis por Guantánamo e Abu-Ghraib que nos
ordem mundial.
representam durante uma cerimónia consagrada às ví-
Não creio ter sido o único a sentir um certo incó- timas do nazismo. Para não falar de Putin, o carrasco
modo perante as imagens de Dick Cheney, Tony Blair dos chechenos, que conseguiu a façanha de~ na sua alo-
e Sílvio Berlusconi em Auschwitz. ~\ sua presença pa- cução em Auschwitz, não pronunciar uma única vez a
recia enviar-nos uma mensagem tranquilizadora, mas palavra «judeus». O problema já se tinha colocado, há
no fundo apologética, que consistia em ver o nazismo uma dezena de anos, durante a guerra da ex-Jugoslávia.
como uma legitimação em negativo do Ocidente liberal, A quem escandalizava a comparação entre Milosevic e

110 111
Hitler, certamente excessiva, ~Iarek Edelman, um dos que Auschwitz delimita um horizonte de possibilidade,
últimos sobreviventes do gueto de Varsóvia, retorquiu ainda que essa violência possa assumir outras formas
que Srebrenica era, a seus olhos, uma «vitória póstuma ou outros alvos.
de Hitlev)l. Podemos compreender Habermas quando escre-
ve que é apenas «depois e por ~-\uschwit7. (nadJ und
Seria sem dúvida mais frutuoso aproveitar as co-
memorações do sexagésimo aniversário da libertação durcbAuJ'chwitZP" que a Alemanha integrou o Ocidente-'.
de Auschwitz para iniciar uma reflexão crítica sobre o É com efeito sob o impacto do genocídio dos judeus
presente, tentando responder às interrogações sobre as que a Alemanha iniciou uma ruptura com a sua auto-

nossas sociedades que são levantadas pela memória dos -percepção tradicional enquanto comunidade étnica

campos de concentração nazis. Esse exercício já tinha (exclusivamente fundada sobre o direito de sangue)

sido tentado, logo após a guerra, por Horkhcimer e e começou a redesenhar a sua identidade segundo as
linhas de uma comunidade política, como uma nação
:\dorno, os nomes cimeiros da Escola de Frankfurt. Em
de cidadãos. Trata-se de uma consequência frutuosa da
contra-corrente à visão então dominante, que consistia
memória do Holocausto. Mas o Ocidente não se reduz
em interpretar o nazismo como a expressão de uma re-
ao Estado de direito e à democracia liberal. O nazismo
caída da civilização na barbárie, viam-no como o resul-
não se inscreve na história do Ocidente apenas como
tado de uma dialéctica negativa que tinha transformado
expressão extrema do contra-Iluminismo. 1\ sua ideolo-
a razão de instrumento emancipador em instrumento
gia e a sua violência condensaram várias tendências pre-
de dominação e o progresso técnico e industrial em re-
sentes na Europa desde o século XIX: o colonialismo,
gressão humana e social. Adorno definia o Holocausto
o racismo e o antissemitismo moderno. Foi um filho da
como a expressão de «uma barbárie que se inscreve no
história OcidentaL E a Europa liberal do século XIX foi
próprio princípio da civilizaçãO))2. Contra a tendência
a sua incubadora.
tranquilizadora que vê no nazismo uma legitimação em
ne...f!,ativo do Ocidente liberal, estes filósofos lançaram um O problema que se coloca é então o da ligação da
sério grito de alerta. O totalitarismo nasceu no seio da Shoah com o processo de civilização. O Holocausto
própria civilização, é seu filho. Essa civilização continua implicou o monopólio estatal da violência que Norbert
a ser a nossa e nós continuamos a viver num mundo em Elias e .Max Weber, na senda de Hobbes, tinham inter-

112 113
pretado como um vector de pacificação da sociedade de asilo - que proliferaram na Europa no decurso dos
e, por consequência, como uma conquista do proces- últimos anos - não são evidentemente comparáveis aos
so de civilização. Para se poder realizar, esse genocídio campos de concentração nazis. Possuem, no entanto,
pressupunha as estruturas constitutivas da civilização no seio das sociedades democráticas, alguns traços es-
moderna: a técnica, a indústria, a divisào do trabalho, senciais que definem o paradigma do campo de con-
a administração burocrático-racional. 1ioi a técnica centração, ou seja, segundo Giorgio Agamben, «um es-
industrial que permitiu a produção em série da mor- paço que se abre quando o estado de excepção começa
te. Resumindo, a fórmula convencional - que diz que a tornar-se a regra}}"'. São, com efeito, espaços anómi-
Auschwitz funcionava como uma fábrica produtora de cos em que tudo é possível, não porque sejam conce-
morte - não implica, certamente, que todas as fábricas bidos como espaços de aniquilamento, mas porque se
sejam um campo de externúnio potencial, mas impõe tratam de /1I~~ares de não-direito. As pessoas aí internadas
um questionamento sobre a normalidade das nossas so- correspondem à definição de «pária» dada por Hannah
ciedades modernas e sobre a sua compatibilidade com a Arendt: um fora-da-lei, nào porque tenha transgredido
violência totalitária que, longe de suprimir essa norma- a lei, mas porque não há nenhuma lei que o possa reco-
lidade, a pressupõe e a utiliza. Depois de ter constatado nhecer e proteger. Indivíduos, acrescenta Arendt evo-
que «o Holocausto nào atraiçoou o espírito da moder- cando os apátridas, que são «supérfluos» aos olhos da
nidade», o sociólogo Zygmunt Bauman sublinhou que comunidade das nações. O ~\lto Comissariado das Na-
«as condições propícias à perpetração do genocídio são ções Unidas para os refugiados contabiliza 50 milhões
especiais mas nào de todo excepcionais. Raras, mas não no mundo de hoje. Várias dezenas de milhar são inter-
únicas (... ). No que diz respeito à modernidade, o ge- nados todos os anos em países da União Europeia, in-
nocídio não é nem uma anomalia nem um disfuncio- visíveis, como presenças «metaforicamente imateriais})!>.
namentm}.J. Existe uma passagem de AJ Origens do Totalitatúmo que

Pensar a ligaçào de Auschwitz com a modernidade hoje não pode ser lida sem que sejamos remetidos para
ocidental pode levar a colocar em causa a nossa <<nor- a actualidade: «antes de fazer funcionar as câmaras de
malidade}}. Os centros de retenção onde sào colocados gás, os nazis tinham cuidadosamente estudado a ques-
os estrangeiros em situação irregular e os requerentes tão e tinham descoberto, para sua grande satisfação, que

114 115
--
nenhum país iria reclamar essa gente. O que é impor- sentido mais tradicional do termo), numa época em que
tante registarmos é que tinha sido criada wna condição a distinção entre campos de concentração e campos
de completa privação de direitos bem antes de ter sido de externúnio estava longe de ser clara. r..fas revelam
contestado o direito de viver.)7 também a presença de uma recordação ainda recente,
viva, quente, que funcionava como uma incitação muito
I lá também, no entanto, tuna outra memóna de
forte para lutar contra as injustiças e as opressões do
l\uschwitz. Na época em que o genocídio judaico es-
presente. Foi essa recordação que inspirou a decisão de
tava ausente do discurso oficial, a sua recordação sus-
vários dos signatários do «1\fanifesto dos 121» pela in-
citava uma reflexão e um comprometimento que não
submissão na Argélia, e foi evocada em vários dos pro-
tinham nada de conformista. Em França, a memória de
cessos da época. Para o trotsquista holandês Sal Santen,
Auschwitz e Buchenwald foi tuna alavanca poderosa
sobrevivente dos campos nazis e depois condenado em
para as mobilizações contra a guerra da Argélia.;\ Fran-
1960 por ter participado na criação de uma fábrica de
ça colonial, que torturava e matava, evocava recordações
armas clandestina para a FLN, não havia dúvida que
a todos aqueles que, alguns anos mais cedo, se tinham
o compromisso anticolonialista não fazia mais do que
batido contra a ocupação alemã. Alain Resnais realizou
prolongar o compromisso aotifascista. ~\ comparação
}\'Tuit eI Brouillard em 1955 como wna forma de lembrar
entre crimes nazis e violências coloniais atravessa os
a história. Testemunhando em 1960 no processo de
escritos de Frantz Fanon e mesmo as declarações do
Francis Jeanson, julgado por ter criado em França uma
Tribunal Russell sobre o Vietoame.
rede de apoio à FLN, Pierre Vidal-Naquet comparou os
massacres cometido na Argélia pelo exército francês às A memória de Auschwitz, subterrânea mas activa,
câmaras de gás de Auschwitz, onde os seus pais tinham é uma chave igualmente indispensável para explicar o
sido mortos. J\ comparação era certamente exagerada, antifascismo do movimento estudantil e da esquerda re-
como veio a reconhecer nas suas memórias.'!. Hoje em volucionária depois de 1968. Esse substrato da memó-
dia, tais posições suscitariam a cólera dos «guardiões do ria colectiva, à época ocultada no discurso oficial, podia
templo» da memória do Holocausto. São posições que por momentos reemergir à superfície, como aquando
revelam uma paisagem memorial e política bem dife- da expulsão de Daniel Cohn-Bendit pelo general de
rente da nossa e também os limites da historiografia (no Gaulle, que fez descer à rua dezenas de milhares de jo-

116 117
vens gritando «nós somos todos judeus alemães». Esse dações de órfão, filho de judeus polacos emigrados em
slogan possuía então uma força libertadora cujo alcance França, deportados e exterminados em Auschwitz; por
é hoje difícil de compreender. outro, a crónica de wna sociedade totalitária, IF', situada
na América Latina, organizada como uma sistema to-
Na Alemanha, após o silêncio da era Adenauer, a
talitário fundado sobre o princípio da competição des-
memória de Auschwitz iria reaparecer, logo a partir
portiva e que acaba em massacre. O romance termina
dos anos 1960, como um motor do protesto estudan-
com as seguintes palavras: «Eu esqueci as razoes que,
til. Uma nova geração exigia que a anterior prestasse
com doze anos, me fizeram escolher a Terra do Fogo
contas, recolocando em causa o passado alemào c de-
para aí instalar W: os fascistas de Pinochet encarrega-
nunciando as ligações que uniam a nova Alemanha de
ram-se de dar ao meu fantasma uma última ressonância:
Bona ao Terceiro Reich. Não se trata de idealizar essa
várias ilhotas da Terra do Fogo são hoje em dia campos
revolta ou de esconder os seus limites e ambiguidades.
de deportação.~) 111
V ários analistas sublinharam os resíduos de um nacio-
nalismo de traços antissemitas que poderia estar apenas Podemos, todavia, encontrar exemplos recentes de
adormecido na virulência do antissionismo, do anti-im- wn bom uso da memória do Holocausto. Por exemplo,
perialismo e do antiamericanismo da esquerda extrapar- o do africanista Jean-Pierre Chrétien que publicou em
lamentar'). Mas tal nào deveria impedir de observar que Abril de 1994 um artigo no Libération em que denun-
esta revolta foi o ponto de partida de todas as querelas ciou os crimes de um «nazismo tropicab, no Ruanda 11.
das décadas seguintes em torno do «passado que nào De um ponto de vista analítico, o conceito não parece
quer passan~ e da formação de uma consciência histó- muito pertinente, na medida em que assimila dois geno-
rica nova em que a memória dos crimes nazis constitui cídios, o dos Tutsi e o dos judeus, muito diferentes pe-
um elemento central.
los seus contextos, pela natureza dos regimes políticos
Essa rememoração encontrou uma ilustração literá- que os conceberam e pelos meios com que foram per-
ria notável, em 1975, em W' 011 le J'Ol1lfenir d'ellfallce, de petrados. Contudo, do ponto de vista do uso público
Georges Perce. Esse romance articula-se em torno de da história, esse conceito foi muito bem escolhido. Em
um duplo relato, o da memória e o de uma ficção políti- Abril de 1994, quando a opinião pública aparecia ainda
ca inspirada na actualidade: por um lado, as suas recor- largamente incrédula e indiferente face aos massacres

118 119
que os média caracterizavam frequentemente como nosa 13 • O capitalismo e o liberalismo parecem ter-se
«conflitos tribais», falar de «nazismo tropicab) tinha um tornado novamente o destino inelutável da humanida-
sentido, o de se apoiar na consciência histórica do mun- de, como tinham sido descritos por ~ \dam Smith na
do ocidental, onde a Shoah ocupa hoje em dia um lu- época da Revolução Industrial e por Tocqueville depois
gar central, para chamar a atenção sobre run genocídio da Restauração. Não é identificada uma nova ordem
em curso. Tratava-se de mostrar que o Ruanda estava a construir, de que apenas poderíamos ver os traços
a viver uma tragédia tão grave como a Shoah e que era gerais, mas um sistema social e político apresentado
necessário reagir para a tentar impedir. De um ponto como a única resposta possível para os horrores do
de vista ético-político, a noção de «nazismo tropical» século x...x. O contraste com a paisagem memorial do
era portanto perfeitamente justificada. Infelizmente, é século agora findo é evidente. Durante os momentos
mais fácil comemorar genocídios, sobretudo a décadas mais sombrios da «era dos extremos», quando o velho
de distância, do que impedi-los. mundo estava sacudido por uma guerra destntti\'a que
lembrava um quadro de Hieronymus Bosch, quando
se generalizava o sentimento de que a humanidade
o edipJe da memória do comunismo estava à beira do abismo e a civilização se arriscava a
Em I.1 jpleen contre I'oub/ie, Dolf Oehler mostrou até conhecer um eclipse definitivo, o comunismo aparecia,
que ponto a cultura francesa do Segundo Império foi aos olhos de milhões de homens e de mulheres, como
assombrada pela memória de Junho de 1848, numa runa alternativa pela qual valia a pena lutar. Na idcia de
sociedade que tentava exorcizar por todos os meios a comunismo havia certamente uma parte de ilusão, de
recordação dessa revolta que se tornou quase inomi- mistificação e de cegueira de que apenas uma minoria,
12
náve1 • Hoje acontece qualquer coisa de semelhante. de entre os seus defensores, tinha consciência. Estava
:\ própria ideia de revolução é criminalizaua, automa- contudo fortemente enraizado na sociedade, na cultura
ticamente remetida para a categoria do «comunismo» e nas expectativas das classes populares. Comunismo
e assim arquivada no capítulo «totalitarismo» da histó- era uma palavra portadora de múltiplos significados.
ria do século XX. Foi assimilada ao Terror e o Terror Queria dizer tomar em mãos o seu próprio destino,
reduzido à execução coerente de uma ideologia crimi- emancipar-se, bater-se contra o fascismo, contra a in-

120 121
justiça, contra a opressão, construir uma sociedade de a liberdade e a democracia. Nos países da Europa cen-
iguais. Remetia também para realidades mais sombrias: tral, são numerosos os que, depois de terem lutado por
o avanço «libertadom do Exército Vermelho, a discipli- um socialismo autêntico, se tornaram responsáveis nào
na, a razão do partido, o culto de Estaline. ~-\spirações apenas pelo regresso à democracia mas tamhém pela
libertárias, cálculos maquiavélicos e ameaças totalitárias restauração do capitalismo.
ombreavam-se numa dialéctica histórica que a «era dos
Introduzida na consciência histórica do mundo oci-
extremos» tinha levado ao seu paroxismo. Em França e
dental desde () fim dos anos 1970 como um aconteci-
em vários outros países do Oeste europeu, a memória
mento central do século XX, a recordação dos campos
do comunismo é em primeiro lugar a de uma «contra-
de morte nazis uniu-se, após a queda do :Muro de Berlim
-sociedade»I.J - caserna, igreja e comunidade fraternal
e o desmoronamento do Império Soviético, à memória
à vez - que já não existe. Se as sombras e as contra-
do «socialismo realmente existente». Tornaram-se indis-
dições que essa ideia de comunismo transportava são
sociáveis, como os ícones de uma «era de tiranos», de-
doravante bem visíveis, se as suas ilusões estão destruÍ-
finitivamente acabada]'. A elaboração da memória dos
das, temos de reconhecer que também o seu horizonte
passados fascista e nazi, iniciada alguns anos antes em
de esperança desapareceu. Os movimentos de mas-
vários países europeus, - enleou-se com o fim do co-
sas mais radicais já não ousam reclamar-se dele, nem munismo. A consciência histórica do carácter assassino
reivindicá-lo. Os zapatistas mexicanos não falam de do nazismo serviu de parâmetro para medir a dimensão
comunismo mas de dignidade e justiça. As forças que criminal do comunismo, rejeitado em bloco - regimes,
se mobilizaram no decurso destes últimos anos con- movimentos, ideologias, heresias e utopias incluídas
tra a mundialização neo-liberal, de Seattle a Génova, - como um dos rostos do século da barbárie. A noção
têm ideias muto claras sobre aquilo que não querem de totalitarismo, antes arrumada nas estantes menos
- um mundo rei ficado e transformado em mercadoria CDnsultadas das bibliotecas da Guerra Fria, conheceu
-, mas não ousam propor um modelo alternativo de wn regresso espectacular como a chave de leitura mais
sociedade. Os estudantes chineses reunidos na Praça capaz, se não a única, de decifrar os enigmas de uma era
de Tiananmen em 1989 não reivindicavam, como em de guerras, ditaduras, destruições e massacres 1('. Uma
Praga em 1968, um «socialismo de rosto humano», mas vez decapitado o monstro totalitário com cabeça de

122 123
Jano, o Ocidente conheceu uma nova juventude, qua- É certo que o século XX suscitou uma interrogação
se uma nova virgindade. Se o nazismo e o comunismo fundamental quanto ao diagnóstico de ~farx relativo
são os inimigos irreduúveis do Ocidente, este deixa de ao papel do proletariado como libertador da humani-
constituir o seu berço para se tornar a sua vítitna, cri- dade. A Revolução Russa (e, na sua senda, as que se
gindo-se o liberalismo como o seu redentor. Esta tese lhe seguiram) engendrou um reb>1me totalitário. Tudo
exprime-se sob diferentes variantes, das mais vulgares aquilo contra o qual o comunismo, desde Babeuf e
às mais nobres. A versão vulgar é a do filósofo do De- l..1arx, se havia insurgido - a opressão, a desigualdade,
partamento de Estado americano, Francis Fukuyama, a dominação - converteu-se pouco tempo depois na
para o qual a democracia liberal designa, no sentido hc- sua condição normal de existência. A violência «partei-
geliano do termo, «o fim da I·Estória», implicando que ra» da história foi institucionalizada como o seu modo
é impossível conceber um mundo que seja ao mesmo de funcionamento. O aparelho concebido como meio
tempo distinto e melhor do que o mundo actual 17 . A tornou-se o seu próprio fim, um fetiche que exigia o
versão nobre é a de François Furet. Sublinhando, em O seu quinhão de vítimas sacrificiais. O movimento gue
PaJ.rado de uma I1uJ"éio, que <mem o fascismo, nem o comu- tinha prometido a emancipação do trabalho, finalmente
nismo foram os sinais inversos de um destino providen- liberto da sua forma capitalista, deu lugar a um sistema
cial da humanidade»'~, Furet deixa entender que um tal de alienação e de opressão.
destino providencial na verdade existe c é representado
pelo seu inimigo comum: o liberalismo.
o comunismo, tal como nós o conhecemos nas suas
formas históricas concretas depois de 1917, foi engo-
Depois de ter assimilado o movimento e os apare- lido com o século que o tinha engendrado. Após uma
lhos políticos, a revolução e o regime, as suas utopias e época de guerras e de genocídios, de fascismos e de
a sua ideologia, os sovietes e a Tcheca, os historiadores estalinismo, o socialismo já só subsiste, como nas suas
da nova Restauração empreenderam a condenação em origens, na sua forma utópica. Mas esta utopia é, dora-
bloco do comunismo como uma ideologia c uma prá- vante, fortemente carregada pelo peso da história, que
tica intrinsecamente totalitárias. Desprendida de toda a transforma, segundo as palavras inspiradas de Daniel
a dimensão libertadora, a sua memória foi alojada nos Bensaid, numa «aposta melancólicID)'9. Alimenta-se de
arquivos do século dos tiranos. um sentimento agudo das derrotas sofridas, das catás-

124 125
trofes sempre possíveis, e csse sentimento torna-se no voltar a ser um «horizonte de esperança», uma «utopia
verdadeiro fio condutor que tece a continuidade da his- concreta», como o definia Erost Rloch. O que é certo

tória como história dos vencidos. é que o seu campo de experiência se eclipsou da nossa
paisagem memorial e que espera ainda a sua anamnesc.
Ao contrário de Marx, que definia as revoluções
como as «locomotivas da História», Benjamin inter- Desse ponto de vista, a memória do comunismo co-
pretava-as como o «travão de emergência)), que pode- nheceu uma parábola análoga à de outros movimentos
ria parar o curso do comboio rumo a uma catástrofe emancipadores. Como sublinharam vários historiado-
eternamente renovada e, assim, romper o continuum da res, 1-1aio de 68 já não evoca, no imaginário colectivo,
história 20 • A metáfora de Marx continuava prisioneira a maior greve geral da história francesa, mas o rito de
da mitologia do progresso que ao longo de todo o sécu- passagem para uma sociedade individualista e o mo-
lo XIX tinha tido o seu símbolo no caminho-de-ferro, mento de formação de uma nova elite «liberal-libertá-
expressão da sociedade industrial, imagem da potência ria». A analogia mais impressionante é sem dúvida a do
e da velocidade. Depois dos carris de Birkenau, depois anücolonialismo, cuja memória pública conheceu um
das vias-férreas que os zekl construíram nos gulags da eclipse quase total. Uma gigantesca revolta dos povos
Sibéria, as locomotivas já não evocam a revolução. colonizados contra o imperialismo foi esquecida, re-
coberta por outras representações do «Sub) do mundo,
Nós já não estamos no meio da tempestade, como
acumuladas durante três décadas: primeiro, a das valas
os nossos antepassados do período de entre-guerras.
comuns do Camboja e do Ruanda; depois, as «guer-
Vivemos, pelo menos provisoriamente, numa paisagem
ras humanitárias»~ e por último o terrorismo islâmico,
pós-catastrófica, ao abrigo das calamidades que afligem
cujos porta-vozes substituíram a imagem do guerrillero.
outras regiões do planeta. E com a catástrofe afastou-se
Os ex-colonizados ainda não adquiriram o estatuto de
a revolução, o seu corolário. Uma vez que o seu «cam-
sujeitos históricos, transformaram-se simplesmente
po de experiência» se afasta de nós como um passado
em «vítimas», objecto de salvamento pelos países de-
já ido, o seu «horizonte de esperança» tornou-se invi-
senvolvidos, que continuam a cumprir, como no século
síveFI. Não sabemos se o comunismo poderá um dia
XIX, a sua «missão civilizadora», agora envolta na capa

i' Prisionóros nos campos d~ trabalho forçado. NT ideológica dos «direitos do homem». Assim enterra-

127
126
da, a recordação do comunismo e do anticolonialismo
como movimentos emancipadores, como experiência
de constituição dos oprimidos em sujeito históricos,
subsiste como memória escondida, por vezes como
contra-memória oposta às representações dominantes.

v
Os dilemas dos
historiadores alemães

o deJapareâmento dnfasúsmo
A Alemanha constitui um laboratório interessante para
estudar a interacção entre a memória do nazismo e a
escrita da sua história. Neste país, a emergência de uma
consciência histórica do genocídio dos judeus coinci-
diu com o desaparecimento da noção de «fascismQ) do
campo historiográf1.co. Raros são os historiadores que
se envolveram numa análise comparada dos fascismos',
raríssimos aqueles que hoje aceitam considerar o fascis-
mo como um fenômeno de alcance europeu. Depois
de no mundo académico se ter «acertado o passO) com
a reunif1.cação, sobram apenas alguns sobreviventes da

128 129
historiografia da Alemanha de leste. É a própria noção te «germano-alemãs,>, suscitadas pelo Hútoákertai de
de fascismo que, para lá do Reno, parece constituir uma 1998, e a que se seguiram altercações em torno de uma
espécie de tabu. O fenómeno não é novo. Estava iden- exposição itinerante sobre os crimes da \X'ehrmacht.
tificado desde 1988 por Timothy Mason, um grande Primeiro debate, portanto, o I-lislorikcrJtreit, iniciado
investigador que colocou a história comparada dos fas- em 1986-1987 pelas teses de Ernst Nolte sobre o pas-
cismos no centro da sua obra. Num artigo significativa- sado alemão «que não quer passan>. A sua interpretação
mente intitulado «\Vhatever happcned to «fascism»?», do nazismo como reacção à Revolução Russa c, sobre-
sublinha uma tendência que se acentuou no decorrer da tudo, a sua visão do genocídio dos judeus como «cópia»
década seguinte: o desaparecimento, na historiograt1.a de um «genocídio de classe,> perpetrado pelos bolche-
alemã, do conceito de fascismo 2• viques foram objecto de polémicas bastante divulgadas.
Os últimos vinte anos foram marcados, na Alema- Jürgen Habermas foi o principal antagonista de Noite,
nha, por cinco grandes debates, alguns exclusivamen- a quem acusou de ter encontrado wna maneira cómoda
te no interior da disciplina, outros projectados para o de «liquidar os danos», de «normalizan> o passado e de
exterior, até se tornarem grandes debates da socieda- dissolver a responsabilidade histórica pelos crimes do
de. O primeiro foi a «controvérsia dos historiadores>, nacional-socialismo].
(húton'kcrstrei~, que polarizou em 1986-1987 a atenção o segundo debate teve lugar um ano mais tarde, em
dos média e teve um impacto considerável além das suplementos da imprensa diária e nos ecrãs de televisão:
fronteiras alemãs. Depois, no ano seguinte, a corres- tun debate metodológico destinado a ter um impacto
pondência entre Martin Broszat e Saul FriedIander, que muito forte nos meios de investigação. Publicado qua-
não saiu das revistas e das publicações especializadas, se simultaneamente em alemão e em inglês, a corres-
mas que constitui uma reflexão metodológica de pri- pondência já mencionada entre rvlartin Broszat e Saul
meira importância. Em 1996, foi a controvérsia em tor- Friedlander abordava a delicada questão da possibili-
no do livro de Daniel J. Goldhagen sobre os «carrascos dade e dos limites de uma historicização do nazismo,
voluntários de Hitlen, que fez furor, com fortes reper- revelando em simultâneo a fecundidade do diálogo e as
cussôes na cena internacional. Por fim, as polémicas
exclusivamente internas à historiograt1.a e puramen- '" Jornada historiográfica. N.T.

130 131
diferenças de abordagem geradas a partir de dois pon- por Goldhagen, que colocou a tónica na participação
tos de observação distintos: o de um historiador alemão activa dos alemães nesses crimes ao desviar a atenção
e o de um historiador judeu4• Deve sublinhar-se esta dos campos de extermínio para as execuções em mas-
diferença, que constitui um dos aspectos centrais des- sa levadas a cabo pelas unidades especiais do 55 (as
sa correspondência, não para «etnicizan} o debate, mas Einsatzgruppen), pelos batalhões de polícia e pelo exér-
para relembrar as diferentes perspectivas epistemológi- cito.
cas que sustentam a «posição>} do historiador (aquilo a Quarto debate: em 1998, o tradicional encontro de
que Karl ?\{annheim chamou o seu Standort)\ isto é, a historiadores alemães, que tem lugar de dois em dois
sua inserção num contexto social, político, cultural, na- anos, foi marcado por debates muito intensos a respeito
cional e memorial específicd'. do passado da sua disciplina. O compromisso com o
Terceiro debate: em meados dos anos 1990, a obra regime nazi, ou mesmo a adesão aberta, por parte de
do politólogo americano Daniel Goldhagen suscitou, certas figuras de proa da historiografia do pós-guerra
bem para lá dos meios universitários, um vasto debate - como Werner Conze e Theodor Schieder, os antigos
público sobre a ligação da sociedade alemã com o regi- mestres de vários investigadores que dominam a disci-
me nazi e o grau de implicação dos alemães «normais}) plina hoje em dia - foi objecto de revelações e de criti-
na efectivação dos crimes nazis. Se a tese de Goldhagen, cas muito severas 8• Foi esse congresso que desenhou o
visando apresentar o genocídio judaico como um «pro- perfil de uma nova geração - no sentido histórico, c não
jecto nacional» alemão, foi objecto de sólidas críticas simplesmente cronolóbr"ico do termo, segundo a defini-
por parte da maioria dos historiadores, foi também um ção de Mannheim - que emergiu no decurso da última
momento importante na confrontação da Alemanha década. (por vezes mesmo mais cedo, especialmente no
reunificada com o seu passado nazi e na formação de caso de tun dos porta-vozes da vaga contestatária, Gõtz
uma consciência histórica, especialmente entre os jo- Aly'l.) Foi de certa forma inevitável que, após ter sido
vens, no centro da qual se inscreve a memória de Aus- um dos vectores privilegiados da elaboração de uma
cw1tz 7
• A abordagem funcionalista, que via os crimes consciência histórica e do desenvolvimento de um vas-
do nazismo como o produto de uma máquina de mor- to debate na sociedade sobre o uso público da história,
te, impessoal e quase anónima, foi fortemente abalada a comunidade de historiadores se visse obrigada a cen-

132 133
trar o seu olhar sobre o seu próprio percurso e a proce- cas de uma guerra colonial e de uma cruzada antissemi-
der, muito honestamente e portanto dolorosamente, à ta. Os milhões de jovens soldados que tinham servido
sua autocrítica. Existe aqui uma identificação completa sob o uniforme da Wehrmacht representavam o con-
entre o juiz e o historiador, num processo em que os junto da sociedade alemã, com a qual mantinham con-
historiadores se constituíram como jW7:es dos seus pró- tactos e trocavam informações. r..Iostrar a implicação da
prios antecessores e da sua própria história. \Vehrmacht no genocídio dos judeus significou, por-
tanto, _~~~_ol!~ _o, mi_t~_ .~eE~E.9.<2."o~_'L,-!a) o~ <~lem~es. «nãQ.
Quinto debate: a exposição sobre os crimes da Wehr-
sabiam»,
marcht, organizada pelo Institut fLir Sozialforschung de
Hamburgo e inaugurada em 1995, tem uma longa e tor- As ferozes polémicas suscitadas por esta exposição

mentosa história, cuja conclusão podemos referenciar atingiram o seu ponto alto em 1999, quando os seus de-

ao ano de 2002 lO
• Resultado de um importante trabalho tractores conseguiram provar a presença de alguns docu-

de investigação, essa exposição rompeu com um lugar- mentos falsos (quatro fotografias de crimes do NKVD

-comum instalado na opinião pública alemã, segundo o atribuídos erroneamente à \Xlehrmacht) e impor o seu en-

qual o exército não teria estado implicado nos crimes cerramento, Depois do trabalho de investigação de uma
comissão de inquérito independente que rejeitou todas as
do nazismo, que teriam sido responsabilidade quase ex-
alegações de falsificação e de manipulação, a exposição
clusiva dos SS e da Gestapo. Apoiando-se num vasto
foi enfim reaberta em 2002, expurgada das fotografias
material ilustrado por imagens e documentos da época,
controversas - uma parte núnima no conjunto dos docu-
a exposição de Hamburgo mostrava que, pelo contrá-
mentos reunidos - e acompanhada de um novo catálogo
rio, o exército tinha perpetrado numerosos massacres
enriquecido por um importante aparato crítico ll .
de populações civis na União Soviética - sobretudo na --'~ .. ' ""._~~~'.~.

Ucrânia e na Bielorrússia - e na Sérvia, ao mesmo tempo É verdade que estas controvérsias apresentam ca-
que participava na eliminação dos judeus. Tinha estado racterísticas muito diferentes. Trata-se respectivamente
no centro de uma guerra de conquista e de extermínio del~~is)randes debates de sociedade que ultrapassaram
contra o comunismo, os povos eslavos, os judeus e os largamente as fronteiras de uma disciplina científica (o
ciganos, guerra que foi radicalizada face à resistência so- Historikcntrcit, o caso Goldhagen e a exposição sobre os
viética e que tinha rapidamente assumido as característi- crimes da Wehrmacht), de uma reflexão metodológica
- --- -------- - ._---,-".~-,~-- --- -- -

134 135
....

sobre a interpetação de um passado que se furta aos nha nazi às diferentes teorias do fascismo, categoria que
procedimentos tradicionais da historicizaç_ilo (a corres- para ele só se aplica à ''Itália de Mussolini". ~-\lguns dos
pondência Boszat-Friedliinder) e, por fim, de uma crise seus discípulos, como Hans-Hclmut Knütcr, recusam
de identidaqe J19 interior de uma comtuüdade intelectu- mesmo atribuir ao fascismo o estatuto de um concei-
al (o Hútorikertag de 1998), Mas, no entanto, se virmos to (BegtilJj, reduzindo-o a uma simples «palavra de or-
bem, as três primeiras controvérsias, que constituem dem» (schlagwor~, a uma ideologia e a um instrumento
também a premissa e a base sobre a qual se desenvolve- de propagandal~. Essa atitude não é nova. O que é isso
ram as outras, andam em torno de uma mesma questão: sim novo é que a ela adiram\, historiadores e ?oli~ólogos
a J'illgularidade hútón'ü1 do nazismo e dos seus crimesl~, provenientes da esquerda, c~-;;-\V~ifg~~g Krau~haar
O reconhecimento dessa singularidade é doravante o ou Dan Diner. O primeiro defende hoje em dia a ideia
postulado implícito à maior parte das pesquisas alemãs de totalitarismo, que apresenta como antinómico em
sobre o nazismo, Não se trata aqui de pôr em causa essa relação ao fascismo (sendo a Alemanha nazi totalitária,
singularidade, que podemos muito bem admitir e que já não poderia ser fascista)l~. O segundo publicou re-
constitui, em vários aspectos, uma aquisição importan- centemente uma ambiciosa e interessante tentativa de
te da historiografia, O que merece ser sublinhado, em «compreensão» do século XX (Daj"Jabrhundert venteben),
contrapartida, é o seu corolário, ou seja, as consequên- em que praticamente não recorre à noção de fascismo ll"
cias problemáticas, algumas vezes inquietantes, que O nacional-socialismo aparece aqui como um fenóme-
acompanharam esse reconhecimento, Na primeira linha no exclusivamente alemão, completamente distinto e
dessas consequências negativas deve inscrever-se, preci- independente do fascismo italiano, tanto no seu conte-
samente, __? dcs~pa~ec~ento do conceito d~ fascismó,l údo como na sua forma, insusceptível de ser associado

Sobre essa questão crucial, temos a impressão de a um fenómeno fascista de escala europcia. Na maior

que todos se posicionaram silenciosamente, mas com , parte dos casos os historiadores que continuam a utili-
firmeza, ao lado de Karl Dietrich Bracher, o historiador zar a noção de fascismo são os representantes da escola
liberal-conservador que com mais coerência sempre re- , histórica da antiga RDA, como Kurt Patzold, marxis-
jeitou o conceito de fascismo. Há mais de quarenta anos tas como Reinhard Kühnl 17 , ou discípulos de esquer-
que Bracher opõe a sua visão «totalitarista» da Alema- 'da de NoIte, como Wolfgang Wippermann l8 , Entre os

136 137
grandes historiadores da RFA, a única excepção é Hans o primeiro vem dos limites hoje evidentes das teo-
Mommscn, autor de uma obra imponente e notável rias clássicas do fascismo, nomeadamente as de inspira-
mas que, no entanto, não se distingue pelo seu com- ção ~~a. Dificilmente poderemos ficar satisfeitos
paratismo. Mommscn reconhece a pertinência do uso com uma explicação do nazismo como expressão, se-
do conceito de fascismo, mesmo se a ele não recorre. É gundo a fórmula canónica, dos sectores mais agressivos
significativo que a única obra hoje em dia disponível na do grande capital e do imperialismo alemão, ou mesmo,
Alemanha sobre os fascismos seja traduzida do polaco: em termos mais matizados, como simples resultado de
St'hulen des HaJJeJ, de Jerzy W Borejsza l9
• uma alteração das relações de força entre as classes~l.
Os limites de uma tal leitura são agora reconhecidos,
Outro sinal revelador dessa mutação na paisagem in-
ainda que, diga-se de passagem, as interpretações mar-
telectual é o abandono da noção de fascismo por quem
xistas, nos nossos dias pouco frequentadas, são muitas
',mais tinha contribLÚdo para a sua difusão: Ernst NoIte.
vezes bem mais ricas e complexas do que se pensa (os
Celebrizado no inicio dos anos 1960 graças a um livro
marxistas estão entre os primeiros a ter falado do fas-
ambicioso em que interpretou o fascismo como um fe-
cismo em termos de totalitarismo, de policracia, de ca-
nómeno europeu de que analisa três variantes principais
risma, de psicologia de massas, etc.f2. A indiferença às
- o regime de Mussolini em Itália, o nacional-socialismo
bases de classe do nazismo corre o risco de levar a um
alemão e a Adioufrauraise -, hoje em dia NoIte prefere
impasse tão grave como uma leitura do Estado hitle-
qualificar o nacional-socialismo como totalitarismo, para
nano em termos simplesmente classi~tas., Se ninguém
,o qual tentou dar uma explicação «histórico-genétic3»20.
pode seriamente pretender que as câmaras de gás fo-
ram projectadas pelo capitalismo monopolista alemão,
A Shoah, a RDA e o antifasásmo a implicação deste no sistema concentracionário nazi é
incontestável, tal como o apoio das elites alemãs tradi-
N a origem deste «ostracismOJ) conceptual encontramos,
cionais ao regime nazi até ao fim da Segunda Guerra
bem entendido, vários factores. Podenamos sublinhar
Mundial.
pelo menos quatro, ligados tanto à evolução intnnseca
da investigação histórica como a uma mutação da pai- o segundo factor procede da amplitude das diferen-
sagem memorial da Alemanha. ças entre o fascismo italiano e o nacional-socialismo,

138 139
sobretudo no plano da ideologia. O antissemitismo, que cal, de uma outra noção, a de anti fascismo, que apare-
ocupa run lugar central na mundivisão e nas políticas cia muito mais como wna ideologia de Estado do que
nazis, está ausente no fascismo italiano até 1938, dezas- como a herança de um movimento de resistência. O
seis anos depois da chegada ao poder de l\fussolini De estudo da resistência comunista - cuja amplitude está
uma forma mais geral, as matrizes culturais do fascismo longe de ser negligenciáveF~ - permaneceu apanágio da
italiano (a presença de uma componente «de esquerda)} historiografia leste-alemã, submetida a um forte con-
nas suas origens), a sua exaltação do Estado «totalitá- trolo ideológico. A Oeste, foi privilegiada a oposição
riO)) (em vez da piJikúche Gemeinsthafi) e mesmo a sua no seio do exército, que teve como momento final o
definição do nacionalismo (mais espiritualista do que atentado contra Hitler em Julho de 1944, enquanto a
biológica), revelam diferenças tão profundas em relação história social tendia a colocar entre parêntesis o pró-
ao nacional-socialismo que uma visão monolítica do prio conceito de resistência (U7 iderstand), desviando a
fascismo como fenómeno homogêneo, cujas variantes atenção para as diferentes formas de «dissensão)) ou de
nacionais fossem apenas superficiais, é necessariamente «inadaptaçãO)) (Rtsisten!:j da sociedade civil face ao regi-
contestáveF".
me. Como sugeriu Saul Friedlander, a consequência do
Se é certo que essas lacunas e essas limitações ob- uso desse conceito - que literalmente significa «a imu-
jectivas favoreceram o questionamento do conceito nidade, num sentido biológico»2.i - era legitimar a visão
de fascismo, um terceiro factor que determinou o seu lenitiva e apologética, largamente difundida no seio da
eclipse é de natureza essencialmente política. A noção opinião pública desde 1945, de uma sociedade civil ale-
de fascismo era um dogma para a escola histórica da mã em última análise estranha aos crimes do nazismo.
RD~-\, num contexto em que eram muito débeis as fron- Com o desenvolvimento dos estudos sobre a vida quo-
teiras entre investigação e ideologia, entre interpretação tidiana (AlltagsgesdJichte) na Alemanha nazi, a resistência
do passado e apologia da ordem dominante. Com a perdia o seu interesse2(,. Essa mutação era ainda mais
reunificação, essa noção desapareceu após a demolição, fácil uma vez que apenas a historiografia da RDA podia
no sentido literal do termo, da escola histórica que a legitimamente considerar-se herdeira de uma tradição
defendia. Esse processo foi acompanhado primeiro antifascista; não se considerariam, certamente, os histo-
por um questionamento, seguido pela sua rejeição radi- riadores oeste-alemães pertencentes ao que hoje em dia

140 141
é corrente chamar-se a «geração da Hitletjugencb) e ainda .Auschwitz. O carácter único do extermínio dos judeus
menos os seus mestres que dominavam a disciplina du- da Europa não pode ser explicado por um conceito
rante a era Adenauer e que antes de 1945, em muitos que foi também aplicado à Ttália de j\Iussolini, à Es-
casos, haviam aderido ao partido nazi. panha de Franco, ao Portugal de Salazar, à ~\ustria de

Existe uma diferença fundamental em relação à his- Dollfuss, à Roménia de .Antonescu, etc. A noção de
fasci~mQ, escreve Dan Dincr numa fórmula categóri-
toriografia italiana, cujas discussões actuais procedem
do questionamento de um {<paradigma ~~tif~s~~~:)_~~=
-~a, '«não permite chegar ao núcleo de .Auschwitz»~H. O
bre o qual ela se tinha reconstituído após 1945. Este eclipse do conceito de fascismo aparece assim como o

quadro estaria incompleto, porém, sem um outro ele- epílogo de um longo caminho da historiografia alemã
mento político. O conceito de fascismo, na sociedade que desemboca numa visào do passado no centro da
oeste-alemã dos anos 1960 e 1970, designava mais o qual se inscreve, doravante, a Shoah, o «ponto fix(») do
P~~~~!1te do que o passado e servia para motivar a luta sistema nazi, caracterizado por uma irredutível {<unici-
contra as tendências autoritárias de um sistema político dadc» (EinZ.Zgartigkeil). ~\ forma empenhadíssima como
nascido das cinzas do Terceiro Reich. Segundo a céle- alguns historiadorcs se desembaraçaram do conceito de
bre fórmula de Adorno, o perigo representado pela so- fascismo aparece quase como uma espécie~!~~~_~~.?_
brevivência do fascismo _na democracia era bem maior ',_~_ompe.r:.satório, através do qual tentaram apagar o lon-

do que a ameaça de um retorno ao fascismo~7. A solidez go período durante o qual os seus precursores foram
das instituições democráticas alemãs, de que a reuni fica- incapazes de pensar e de investigar o genocídio dos ju-
ção foi um teste decisivo, mostrou o carácter datado e deus.
agora obsoleto de uma tal concepção.
Surge então um problema grave: a noção de totali-_
Vamos agora ao quarto elemento, sem dúvida o mais ~~arismo, que conheceu um renascimento espectacular
importante. O que mais contribuiu para o abandono da no decurso da última década, na Alemanha como no
noção de fascismo no seio da historiografia alemã foi resto da Europa, será a mais apta para analisar uma tal
a emergência de uma consciência histórica fecundada singularidade? O deslocamento do comparatismo his-
pela memória de Auschwitz. O fascismo aparece como tórico da ligação entre o fascismo italiano e o nazismo
uma categoria demasiado geral para compreender para a ligação entre o nazismo e o comunismo será mais

142 143
clarificador para compreender a natureza do regime hi- do nazismo não exclui a sua pertença, apesar de todas
tleriano e a singularidade dos seus crimes? Colocar em as suas particularidades, a uma família política mais
paralelo o\«duplo passado totalitáriO)}!da Alemanha - o vasta, a dos fascismos europeus.: Ora, é precisamente
do Terceiro Reich e o da mA ou, retomando a fórmu- esta hipótese que, desde o Hútorikerslreit até aos mais
la de Étienne François, o de um regime que acumulou recentes debates em torno do Livro l\Tegro do Comunis-
uma montanha de cadáveres e o de um regime que acu- mo (cujo impacto na Alemanha nào foi negligenciável),
mulou uma montanha de dossiers 2
\1 - permitirá chegar 'praticamente se eclipsou. ~\ssistimos assim, apesar dos
a conclusões de um maior valor heunstico? É duvidoso. avanços incontestáveis da investigaçào, ao regresso de
um «consenso antitotalitárim} que, para pegar nas pala-
Não se trata de contestar o valor da noção de totali-
, vras de Jürgen Habermas a propósito da .\lemanha de
tarismo -i limitada ~as r_e_a.U- nem de recusar uma com-
antes de 1968, supunha um a prion· «anti-anti fascista» \(1.
paração entre os crimes do nazismo e os do estalinismQ,.
O problema surge do uso que disso se faz. Por que se Resumindo, o eclipse do fascismo surge do encontro
deverá pensar o totalitarismo e o fascismo como cate- entre duas tendências: por um lado, o consenso antito-
1?0ri~~.ana~ticas incompatíveis e alternativas? Por que se talitário libera~_~_~~~nti-=!I!~~~_~,~~~a~), por outro, a emer-
deverá atribuir um maior alcance heurístico à compara- gê~~rad;~~a consciência histórica fundada sobre a
_..- - - - -----_..----
ção entre nazismo e comunismo do que à comparação memória da Shoah e o reconhecimento da sua singula-
entre fascismo e nazismo?\Não se trata também de ne- ridade. Em Itália, estas tendências foram impulsionadas
'-.. . -,.- .,_.-
o gar a singularidade histórica dos crimes nazis, uma vez por certas correntes da historiografia que, fortemente
que o extermínio industrial dos judeus da Europa é uma amplificadas pelos média, teori?:aram uma clivagem
caractenstica singular do nacional-socialismo. Mas, se radical entre fascismo e nazismo a fim de reabilitar o
t,· . .- -'."'-'
as câmaras de gás não têm equivalente fora do Terceiro fascismo e criminalizar
- o antifascismo.
-, _._, ,.,,,- O fascismo ita-
"-~.-

Reich, as suas premissas históricas - o antissemitismo, o liano, afirmava Reo?:o De Pelice, durante uma entrevista
racismo, o colonialismo, o contra-iluminismo, a moder- que suscitou enorme alvoroço, fica fora do «cone de
nidade técnica e industrial- estão largamente presentes, sombra do Holocaustm) ,!. Este fenómeno perverso
em graus de intensidade distintos, no conjunto do mun- - o reconhecimento da singularidade do judeucídio que
do ocidental Por outro lado, a singularidade dos crimes actua na Alemanha como vector de formação de uma

144 145
consciência histórica e em Itália como pretexto de uma como «tipo ideal» é geralmente admitida. São inumerá-
reabilitação do fascismo - é uma fonte permanente de veis os historiadores, nos anos mais recentes, que /17.e-
mal-entendidos e ambiguidades. ram e fazem uso dele. Além disso, a rejeição da n(),çãq
de fascismo (e por consequência de antifascismo) não
Os riscos de tais tendências são os que Martin Broszat
faz mais do que recolocar a eterna questão das relações
tinha denunciado no início da sua correspondência com
entre história e_~-ºria. Abre um hiato radical entre
Saul Friedlander, e que este último parece hoje em dia
--;-hi~;~rici~açào actual do nacional-socialismo e a per-
admitir, pelo menos em parte: um «Ísolamentm> do pas-
, cepção que tinham os seus contemporâneos, quando
sado nazi que impede captar os seus vínculos com os-I
\ o fascismo, antes de ser uma categoria analitica, era
outros fascismos europeus e, de uma maneira mais ge-
\ um perigo contra o qual se tinha de lutar c quando o
ral, com o modelo civilizacional do mundo ocidental.
I'i antifascismo, antes de se tornar uma ideologia de Es-
Reconhecer esses vínculos não significa (<normalizar»
\ tado, constituía um ethoJ partilhado pela Europa demo-
ou reabilitar o nazismo, mas antes «desnormalizaD) a ci-
, crática e, nesse contexto, pela cultura alemã no exílio.
vilização que é a nossa e colocar em causa a história da
Europa. Se existe um Sondcnvcg alemão, este nào explica
as origens do nazismo mas apenas o seu resultado 32 . I. (
Dito de outro f}!-..o_do, a singularidade da Alemanha nazi
deve-se à sua\(íntes~~):Jue nào se realizou nos outros pa-
íses, entre vário~-élémentos - antissenútismo, fascismo,
Estado totalitário, modernidade técnica, racismo, euge-
nismo, imperialismo, contra-revolução, anticomunismo
- aparecidos no conjunto da Europa no fim do século
XIX e que com a Primeira Guerra }"Iundial foram for-
temente _disseminados à escala continental.

Este (<isolamento» arrisca-se a afastar a historiografia


alemã das principais correntes da investigação inter-
nacional, onde a legitimidade do conceito de fascismo

146 147
VI
Revisão e revisionismo

Melamorjóses de um conceito
«Revisionisffim) é uma palavra camaleão que assumiu
ao longo do século XX significados diferentes e con-
traditórios, prestando-se a usos múltiplos e suscitando
muitas vezes mal-entendidos. As coisas complicaram-
-se ainda mais por ter sido apropriada pel~ seit~> int~r­
nacional que nega a existência das câmaras de gás e o
genocídio dos judeus da Europa em geraP. Os negacio-
rustas tentaram apresentar-se como os porta-vozes de
uma escola histórica «revisionista): oposta a uma outra
escola, que eles classificam como «cxterminacionistID), c
que inclui, bem entendido, o conjunto dos estudos his-
tóricos dignos desse nome, seja qual for a sua corrente,

148 149
consagrados ao genocídio judaico. A fim de defende- fez por exemplo Pierre Vidal-Na'luet, gue assinala no
ram as suas teses, os negacionistas lançaram em 1987 início das suas~~ ..~22.~.~_~E~':'~!i~E-iJ>,~QJ~(~.?_~La,,_ ~
uma revista intitulada AnnaleJ d'lJi.floire réviJioflflúte que se ) sua escolha deliberada em o utilizar numa acepção res- '.
u
tornou depois Rivue d'hütoire révúioflflúle. É inútil acres-
-~---~
tritiva, limitada à «doutrina segundo a qual o genocídio "
centar que esse movimento - cuja verdadeira intenção praticado pela Alemanha nazi contra os judeus e os ci-
Pierre Vidal-Naquet pôs a nú ao rebaptiza-Ios «os aS-I \ ganos não existiu e apenas releva do mito, da fabulação
sassinos da memória»~ - nunca atingiu o seu objecti- e da fraude». Vidal-Naguet prossegue sublinhando os'
vo, uma veZ que não obteve o menor reconhecimen- diferentes sentidos que a palavra pode veicular segundo
to no seio da historiografia nem foi aceite no debate os contextos, relembrando que também ela conheceu
público. ;-\0 invés - este facto foi muitas vezes sublinha- os seus títulos de nobreza. Em França, escreve, «os pri-
do -, o seu aparecimento teve o efeito de estimular a meiros revisiorustas modernos» foram os partidários da
investigação que no decorrer dos últimos anos alcançou revisão do processo que tinha terminado com a conde~
um conhecimento muito mais preciso c detalhado dos nação do capitão ~~~~:ed Dreyf~
meios e das modalidades do processo de extermínio
Em linhas gerais,_ ~~hist?ria do revisionismo - nega-
dos judeus.
cionismo excluído - poderia reduzir-se a três momen-
Os negaciorustas, contudo, conseguiram contami- tos principais: uma controvérsia marxista, um cisma no
nar a linguagem e criar uma confusão considerável em interior do mundo comunista e também, no sentido
torno do conceito de revisionismo. François Bédarida mais lato, uma série de debates historiográficos poste-
recordava-o há uma dezena de anos, quando escreveu riores à Segllilda Guerra Mundial. Primeiro, o revisio-
que os negadores dos judeucídio, ao se apropriarem rusmo clássico, pelo qual a palavra foi introduzida no
desse termo, tinham praticado (ruma verdadeira usurpa- ~ vocabulário da cultura política moderna: trata-se evi-
çãQ). Tinham tomado uma palavra existente que tradu- dentemente da Bernsteilldebatte, que despoletou no fim
zia «uma atitude mais que honorável, wna atitude à vez do século XIX no seio da social-democracia alemã e
legítima e necessária, para lhe darem uma respeitabilida- se estendeu imediatamente ao conjw1to do movimento
de enganadora e falsa»)3. É agora indispensável, quando socialista internacional. O antigo secretário de Engels,
utilizamos o termo, explicitar o seu significado, como o Eduard Bernstein, teorizava a necessidade de «reVeD)

150 151
certas concepções de Marx, como a polarização cres- l de Estado,} com os seus dogmas c os seus guardiães da
cente entre as classes na sociedade burguesa ou, ainda, a ortodoxia. A palavra «revisiorusta» torna-se então um
tendência para o colapso do capitalismo devido às suas epíteto infamante, sinônimo de «traiçào». Foi ampla-
crises internas. Destas' revisões teóricas.I!Bernstein tira- mente utilizada durante o cisma jugoslavo em 1948 e
va conclusões políticas que visavam harmonizar a teoria sobretudo durante ü conflito sino-soviético, no início
--'-----r
da social-democracia alemã com a sua prática, a de um dos anos 1960. Por vezes, tornou-se um adjectivo asso-
grande partido de massas que tinha abandonado a via ciado a um substantivo mais insidioso, como na fórmu-
revolucionária e se encaminhava para uma política re- la ~Jll_~~_a_~~~~~?~~'sta;;:~ue os ideólogos do Cominform
formista-\ O «revisionismo>; foi vigorosamente critica- gostavam de aplicar ao marechal Tito.
do por Kautsky, Rosa Luxemburgo e Lenine, mas nin-
As controvérsias em torno de Bernstein, Jabotinsky
guém pensou em algum momento expulsar Bernstein
e Tito porém nào diziam respeito - pelo menos direc-
do SPD e a querela, por vezes de um alto nível teórico,
tamente - à escrita da história. O terceiro campo de
permaneceu sempre dentro dos limites do debate de
aplicação da noção de revisionismo, pelo contrário, diz
~deia~JFoi seguida de outras «revisões» - por Rodolfo
respeito à historiografia do pós-guerra. Várias tentati-
Mondolfo em Itália, Georges Sorcl em França c Henri
vas que visavam renovar a interpretação de uma épo-
de Man na Bélgica - que levaram alguns dos seus pro-
ca ou de um acontecimento, colocar em causa a visão
ll).otores do socialismo para O fascismd'. O termo co-
dominante, foram qualificadas de «revisões);. Essa pa-
meçava assim a estender-se para lá dos meios marxistas.
lavra visava sublinhar o seu carácter inovador, e nào
Nos anos 1930, qualificava-se de «revisionista» Vladimir
deslegitimá-las, e os seus representantes foram sempre
Jabotinsky, que rejeitou a via diplomática defendida pe-
reconhecidos como membros de corpo inteiro da co-
los fundadores do sionismo político (Herzl, Nordau) c
munidade dos historiadores. Entre as «revisões» mais
que projectava a criação de um Estado judaico na Pales-
marcantes, poderíamos relembrar a que foi impulsio-
tina através do uso da força 7 •
nada no início dos anos 1960 por fritz Fisher, que re-
A controvérsia socialista assumirá uma conotaçào novava o debate sobre as origens da Primeira Guerra
--~g:má.1ica, quase religiosa, após o nascimento da Uniào l'vlundial (relembrando, contra a tendência dominante
Soviética e a transformação do marxismo em ideologia no seio da historiografia alemã, as visões pan-germa-

152 153
nistas do estado-maior prussiano)!!. Depois, a dos poli- «revisão» da interpretação jacobino-marxista da Revo-
tólogos americanos que, como Gabriel Kolko, puseram lução Francesa - interpretação a que chama «vulgata
em causam a tese então corrente das origens soviéticas populista-leninista» - e orienta-se para uma rcleitura
da Guerra Fria'). Mais recentemente, tivemos a «revisãO) liberal da ruptura de 1789, apoiado em Tocqueville e
de um historiador como Gar Alperowicz a respeito da ..'\ugustin Cochin, suscitando um vasto e polémico de-
bomba atômica: a escolha americana de lançar as bom- bate intemacional 13 • Aquando do bicentenário da Re-
bas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki em Agosto volução, esta tese antes «revisionista» impôs-se como
de 1945 foi, explicou, mais uma tentativa de afirmar a leitura dominante. A última «revisão» importante, já
uma superioridade estratégica dos Estados Unidos da \ mencionada em capítulos anteriores, é a dos (<novos
América sobre a União Soviética - fazendo pesar sobre I ~istoriadores» israelitas. Rompendo com certos mitos
a cena mundial o seu monopólio da arma nuclear - do persistentes, Benny Morris e Illan Pappé apresentaram
que de colocar um fim à guerra poupando mais vidas o conflito de 1948 em toda a sua complexidade, como
hwnanas, como argumentava o presidente Truman lll . wna guerra simultaneamente de auto-defesa e de depu-
Nos Estados Unidos, qualificam-se ainda hoje de «re- ração étnica H ; Uma guerra em que o Estado hebraico
visionistas» os sovietólogos como J\loshe Lewin, Arch que tinha acabado de ser proclamado lutava, por um
Getty e Sheila Fitzpatrick que, desde os anos 1970, se lado, pela sua sobrevivência, e procedia, por outro lado,
distanciaram das abordagens anticomunistas da época à expulsão de várias centenas de milhares de palestinos.
da Guerra Fria e começaram a estudar, para lá da fa- Aqui está um exemplo de «revisãO) nos antípodas de
chada totalitária do regime, a história social do mundo qu.al.quer objectivo .apolo.gét.iCO' e.. que se esforça, PelO~
~_ r':l.s~o_ e ~_~~~ti~ol.~.).Mas numerosas «revisões» apare- contrário,~..!!U'_0rJ!W_ª,"I.lID·~ período çJ.e_amnésia I
ceram também na Europa. Por exemplo em Itália, no .çolectiva e de ocultação o"~<:i.al do passado. : l
início dos anos 1960, num debate historiográfico sobre
o Rúorgimenlo, onde «revisionismo» se refere às teses de
Gramsci e Salvemini acerca dos limites do processo de A palavra e a coisa
i unificação nacional dirigido pela monarquia piemonte- Estas «revisões» historiográficas convidam-nos a preci-
saJ:~. Alguns anos mais tarde, François Furet procede à sar algumas questões de~ primeira diz respei-

154 155
to ao uso das fontes. Se o relato histórico é uma recons- nossa exploração do passado modi6ca-se segundo as
trução dos-~cimentos do passado «tal como ver- épocas, as gerações, as transformações da sociedade
dadeiramente aconteceID~, segundo a fórmula canónica e os percursos da memória colectiva. Se a nossa visão
de Ranke (wie es eigentlicb gewesen) - definição certamente da Revolução Francesa ou da Revolução Russa já não
simplificadora mas nem por jsso fal~.~_-, então algu- é a mesma de há cinquenta anos ou de há um século,
mas «rev:isões)~ inscrever-se-ão de forma natural no seu tal não resulta apenas da descoberta de fontes inéditas,
desenvolvimento. A descoberta de novas fontes, a ex- mas de wna pers~~~~~5~?__hi_s,tó_ric:a nO\~a, própria da
ploração de arquivos e o enriquecimento dos tcsternU·"'. nossa _época, Não é difícil reconhecer que a leitura ro-
_.' I

nhos podem fazer incidir uma nova luz sobre aconteci-o. mântica da Revolução Francesa proposta por I\Iichelet,
I
mentos que se julgava serem perfeitamente conhecidos' a leitura marxista de Albert Soboul e a leitura liberal de
..c:m de que tínhamos um conhecimento erróneo. A revi- Furet pertencem a distintos contextos históricos, cultu-
são em baixa do número de vítimas do gulag na URSS rais e políticos.
- estimado em dez milhões por Robert Conquest, redu-
Nessa acepção, as «reV1SÕeS~) da história são legíti-
zido a um milhão e meio pelas pesquisas mais recentes 1.'i
mas e mesmo necessárias. No entanto, algumas revisões
- foi o resultado de wna análise escrupulosa das fontes
- aguelas que qualificamos habitualmente como ({fevi-
e do acesso a uma documentação essencial até então
sionismo» - implicam umá;irt{~em éti~~P~-I!;i;;)na nossa
inacessível.
forma de olhar o passado. Correspondem ;~'que Jürgen
Outras «revisões» dependem de uma mudança de Habermas chamou, durante o Histon'kerstrút, a emer~

(pa~~1i~~a.. i;l';rpreta!ivo. Por vezes, a introdução de um gência de «tendências apologéticas» na historio yrafial(,.
novo paradigma pode estar ligado a fontes até então Utilizado nesse sentido, o conceito de «rev:isionismm>
ignoradas, como sabem todos aqueles - ou melhor, assume necessariamente uma conotação__negativa, Não
aquelas - que começaram a elaborar uma história das é portanto surpreendente que certos historiadores acu~

mulheres (necessariamente revisionista, uma ve7- que sados de «revi sionismo» tenham tentado justificar que a
implica uma mutação do olhar, dos objectos e das fon- «revisão» faz parte da forma de trabalhar do historiador
tes na forma de fa:ler a história). A história escreve-se e que, por definição, este último seria sempre «revisio-
sempre no presente e o questionamento que orienta a nista>~. Na sua correspondência com François Furet,

156 157
+ Ernst Nolte sublinhou que «as «revisões» são ~_.pão de J. Quanto ~Renzo De I'e~~:; a sua pesquisa monumen-
'cada dia\de que o trabalho científico se alimenta»17. tal sobre a Itilia fascista produziu numerosas«;r~~~Õe-;;;;
\ -._._-- ... _,

que são hoje aquisiçôes historiográficas em regra acei-


É bem evidente que mmca ninguém se queixou dos
tes, como por exemplo o reconhecimento da dimensão
historiadores «revi sionistas» por terem usado arquivos
inexplorados ou por terem baseado os seus trabalhos ; «:~_~o_l~~~onária>, do primeiro fascismo, do seu carácter

sobre uma documentação nova. O que lhes é aponta- modernizador ou ainda do «consensQ» obtido pelo re-
gime de l\Iussolini no seio da sociedade italiana, sobre-
do é o ,'~Le_ctl:r~líri_~~subjaccnte à sua releitura do
passado. Um exemplo clássico de uma tal revisão é jus- \ tudo durante a guerra da Etiópia21 • Bem mais discutível,

tamente a de Ernst Noite. Em DereuroPiiische Bii';"p,erkri~g pelo contrário, é a sua interpretação da guerra civil ita-

apresenta os crimes nazis como a simples. «cóp(a,» . de \ liana, entre 1943 e 1945, como sendo a consequência
uma «barbárie asiática» introduzida pelo bo1chevi~~~'~I: da escolha antinacional de uma minoria de resistentes,
em 1917 . .---\meaçada de aniquilação, a Alemanha reagiu I' a maior parte deles comunistas. Ou ainda, como já vi-

exterminando os judeus,_.~~nstrutOJ:~.s.. cio !~gi~e .!Jol- mos, a sua concepção do fascismo italiano como um
c~~vi.9-~e, cujos crimes constituem para Noite o «pre- regime completamente distinto, pelas suas raízes, a sua
cedente lógico e factuab) dos crimes nazis lll
• A ausência ideologia e as suas metas, do nazismo, com o qual teria
total de distância crítica em relação às suas fontes - a li- estabelecido uma aliança contra-natura em 1940. Ou,
teratura nazi da época - justifica algumas perplexidades, por fim, a forma como De Felice faz de Mussolini um
como bem sublinhou Hans-Ulrich Wehlerl'l, mas o pro- «patriota» que teria escolhido sacrificar-se ao fundar a
blema fundamental não resulta do manuseamento das J República de Saló, a fim de poupar a Itália a um des-
fontes. É evidente que o resultado da historicização do I tino comparável ao da Polónia. Trata-se aqui de uma
I
nazismo proposta por Noite é uma releitura do passado releitura apologética do fascismo fundada sobre a re-
em que a Alemanha já não ocupa a posição de opressor abilitação de Mussolini. Se lhe acrescentarmos que as
mas a de vitima. E as suas vítimas reais, a começar pelos suas teses são desenvolvidas num livro - li rOJSO e i! nenr2
judeus, são considerados, no melhor dos casos, como - cuja publicação coincide com o advento do primeiro
«danos colaterais», e, no pior, como a fonte do mal, já governo de Berlusconi, que incluía pela primeira vez
20
que responsáveis pela Revolução Bolchevique • desde o fim da guerra uma partido «pós- fascista» her-

158 159
deito da República de Saló, esta revisào histórica apa-
Revolução Russa, o fascismo, o nazismo, a guerra israe-
rece como suporte intelectual de un:._P-~~~cto político_.1
lo-árabe de 1948, etc. - e a sua releitura do passado tem
\ restaurador.
-------~- sobretudo a ver, muito para lá da interpretação de uma
Somos quase tentados _~._~P?r~ revisão his~~ri.ca___ . determinada época, com a nossa forma de ver o mun1
francesa à de De Felice e dos seus discípulos. Em Fran- do em que vivemos e a nossa identidade no presente.
ça, no trilho de Zeev Sternhell e de Robert J. Paxton Existem portanto revisões de natureza diferente: algu-
(ums israelita e um americano), os historiadores pro- mas são fecundas, outras discutíveis, outras, enfim, pro-
cederam a uma «revisãO) que permitiu reconhecer as fundamente nefastas. Fecunda é a revisão dos «oovos
raí~es autóctones do regime de Vichy, o seu carácter historiadores» israelitas que reconhece uma injustiça até
autoritário ou mesmo fascista, a parte activa que to- agora negada, que se junta à memória palestina e lança
mou no colaboracionismo e a sua cumplicidade com o as bases para um diálogo israc1o-paIestino. Discutível
genocídio dos judeus 2'. Em Itália, em oposição, sob o I é a revisão de f'uret que acaba, em O PaJ,wdo de If!lla "!
impulso do último De Felice, apareceu uma tendência ,\J!'!!.~~,. por pôr radicalmente em causa toda a. tradição \
historiográfica que fez da .!~abilita~ão do fascismo o se~_. revolucionária ~ fonte, a seus olhos, dos totahtansmos
objectivo declarado. modernos ~ e por fazer uma apologia melancólica do li-
beralismo como hori~onte inultrapassávcl da história 2 \
As revisões que acabo de mencionar - independente-
Nefastas, por fim, são as revisões de Noite e De Felice
mente do seu objectivo e valor - ultrapassam as frontei-
cujo objectivo ~ ou pelo menos a consequência - é o de
ras da historiografia enquanto disciplina científica para
recuperar a imagem do fascismo e do nazismo.
tocarem um campo mais vasto, o da relação que cada
país estabelece com o seu passado, aquilo que Haber- Se algumas revisões da história devem ser comba-
_~,as ~efi_~iu"~_ a_tr.~vés de uma fórmula notável, comd~ uso j tidas, podemos interrogar-nos sobre a utilidade de as
..~ público da f)útóric?~. Dito de outra maneira, essas revisões catalogar numa mesma categoria negativa - o «revisio-
questionam, para lá de uma interpretação dominante, nismo» - que relembra o <anferno» onde antigamente
uma consciência histórica partilhada, uma responsabi- se guardava a literatura pornográfica na Biblioteca Na-
lidade colectiv~ a, respeito do pas§.<lgo. Tocam sempre cional. Transformada em combate «anti-rcvisionista»,
acontecimentos fundacionais - a Revolução Francesa, a a crítica das teses de NoIte e de De Felice arrisca-se

160 161
a conhecer uma deriva semelhante à da controvérsia As tendências apologéticas na historiografia do fas-
marxista ,sobre o revisionismo evocada anteriormente, cismo e do nazismo devem ser combatidas mas não
ou seja, a passagem de um debate de ideias a uma prá- contrapondo-lhes uma visão normativa da história. É
tica(in(i~ís·í~ excomunhão de todos aqueles que por isso que as leis contra o negacionismo podem reve-
-sê-';f;;~~;;;-d~·:ma ortodoxia predefinida, de um câ- lar-se perigosas. Se o negacionismo deve ser combatido
none normativo. Isto é, falar de «revi sionismo» remete e isolado em todas as suas formas - o de Robert Fauris-
sempre para uma história teologlzada:\ O anti fascismo son e o de David lrving, tal como o de Bernard Lewis,
transformado em ideologia de Estado nos países do aparentemente mais respeitáveF' -, vários historiadores
bloco soviético, nomeadamente na RDA, deu a lon- (entre os quais me incluo) expressaram a~_~~~_~dú~-'idas­
go prazo resultados desastrosos, comprometendo fi- sobre a oportunidade de o sancionar pela lei, o que le-
nalmente a sua própria legitimidade. Sem chegar às varia a instituir uma/verdade histórica oficial protegida
I ~ __ __ --- . - .. ~
mesmas proporções, a retórica anti fascista consensual I pelos tribunais,. com o efeito perverso de transformar
que reinou em Itália durante quarenta anos teve con- Il os assassinos da memória em vítimas de uma censu-
sequências lesivas para a investigação histórica. A obra J ra, defensores _.--
da liberdade.. de expressão. Dito de outro
.~ -.~ _-.~

de Claudio Pavone - historiador de esquerda e antigo modo, se aceitarmos a noção de «revisionismm) teremos
resistente - que interpreta a Resistência não apenas de admitir o princípio de uma história oficiaL Ko:ysztof
:- como uma luta de libertação nacional mas também Pomian tem razão ao afirmar que não deveriam eXIstir
como uma guerra de classe, e sobretudo como uma nem historiadores oficiais nem historiadores revisionis-
fg~~~~~!~·~.'~/, ~~~a ape~.~_s__~.~_199Õ2(~- E~-p~~~~~p~lavras: ,,
tas, mas apenas historiadores críticoS2H • «Revi sionismo»
o antifascismo institucionalizado e transformado em é uma palavra herdada de um século onde o engaja-
\
epopcia nacional não foi um antídoto eficaz contra I mento dos intelectuais passava pelo seu compromisso
I
13~~) e partiJan. Acreditou-se, na a1 ·
tura, que vestlr
a reabilitação do fascismo. Deve evitar-se que algo
análogo se produza com a Shoah, doravante tornada, I um uniforme ideológico era o melhor meio para de-
como vimos, numa «religião civil» do Ocidente, com fender valores. O preço dessa escolha foi, demasiadas
as consequências positivas mas também com todos os vezes
-'
a demissão dos intelectuais da sua função
____ L _______ -
crítica.
- __ o,

perigos que daí resultam. Hoje tal situação já não tem cabimento. Incorporada

162 163
T
na linguagem e de uso corrente nas polémicas, a noção
de «revisiorusmo» continua a ser muito problemática e
frequentemente nefasta. Proponho que não seja utiliza-
da, a não ser para cÍ~~i~ar uma controvérsia datada, há
mais de um século levantada por Bernstein.

Nota bibliográfica
e agradecimentos

Um primeiro esboço deste ensaio foi apresentado


na Universidade de La Plata, na Argentina, na Prima-
vera de 2002, durante um colóquio organizado pela
Comisión Provincial por la Memoria, instituição que re-
úne os arquivos da ditadura militar dos anos 1975-1983
e constitui um lugar essencial para o estudo da memória
dos «desaparecidos)) na região de Buenos Aires. Uma
versão italiana surgiu com o título «Storia e memoria. Gli
usi politici del passatm), na revista Novecento. Per una ston"a
dei tnnpo presente, 2004, n.o 10. O parágrafo do capítulo
IV consagrado ao comunismo foi retirado de uma con-
ferência proferida em Berlim na Primavera de 2001, de-
pois publicada em Jour fixe initiative berlin (ed.) (2002),

164 165
T
Geschichte nachAJ(schwi~ Münster: UNRAST. o capítulo
V é uma comunicação realizada numa jornada de estu-
dos sobre o tema «Fascismo, nazismo, comunismo: de-
bates e controvérsia historiográficas na Alemanha e em
Itália), organizada sob a direcção de Bruno Groppo, no
Centro de História Social do Século XX do CNRS, em
2001. Uma primeira versão foi publicada, com as actas
deste encontro, na revista Malénau:\:pour I'Hisloire de l10lre
telJlps, 2002, n.o 68, e depois em espanhol (Argentina) na
revista Políticas de la Memoria, 2003-2004, n.04. O último
capítulo é a versão revista de uma comunicação apre-
sentada num colóquio dirigido por Catherine Coquio
na Universidade de Paris IV-Sorbonne, em 2002, e foi
publicada sob o mesmo título no volume das actas: Co-
guio, Catherinc (ed.) (2003), I ~!Hisloire Irouée. ['o.légatiofls et
lémoignage, Nantes: L'Atalante. Foi em seguida traduzido
para espanhol na revista de Valência Pasqjes, 2004, n.o 14.
Todos estes textos foram completamente revistos neste
ensaio. Gostaria então de agradecer aos amigos gue ini-
cialmente me encorajaram a escrevê-los: Patricia Plier,
Elfi Müller, Bruno Groppo e Catherine Coquio. Por fim, A unipop agradece à Embaixada de França em Portugal o
e sobretudo, gostaria de agradecer a Eric Hazan, amigo e apoio à deslocação de Enzo Traverso a Lisboa no contexto
cúmplice na La Fabrique: tanto a forúlâc~mo o conteú-
do lançamento deste livro. A unipop agradece igualmente a
do deste pequeno livro devem muito à sua leitura crítica.
colaboração, para o mesmo efeito, do Instituto de História
Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa e do Centro

Paris, Junho de 2005 .Mário Dionísio.

167
166
Notas

Introduçào
1. Sills, David L. (ed.) (1968), Internation(/Il~ncydopedia oi IIJe
Sorial SâmceJ, 7 vols., Nova Iorque: Macmillan; Lc Goff, J. c
Nora, P. (cds.) (1974), J:'aire de I'histoire, Paris: Gallimard, 1974;
\Xlil1iams, Raymond (1976), ~)'words. A Vocabu/afJ! ~f Cu/fure
(md Society, Londres: Fontana.
2. Cf. Klein, Kcrwin Lcc (2000), «00 thc Erncrgcncc of
Mcmory in Historieal Discoursc», Representations, o.u 69,
p.129.
3. Rcichcl, Peter (1998), L'/'d/emflp,ne et la mimoire, Paris: Odilc
Jacob, p. 13.
4. Maicr, Charlcs (1993), «A Surfeit of Mcmory? Rcfl.cctions
00 History, Mclancholy ;l.od Dcoia}», Hirto!]' & MetI/oO', 5, pp.
136-151; Robin, Réginc (2003), Tfi Mémoire sall/me, Paris: Stock.
5. Dumoulin, 01ivicr (2003), I.e R;;/e social de I'hiJtorien. De la
chaire au prétoire, Paris: Albin Michel, p. 343.
6. Hobsbawm, Eric (1983), (dntroduction: Inventing Tradi-
tinns», em Hobsbawm, Eric c Ranger, T. (cds.) (2005), The
Im'e1/tion?l Tradition, Cambridge: Cambridge Univcrsity Press,

168
169
p. 9. [Ed. port.: A bll'm{tlo das Tradições, Rio de Janeiro: Pa:t. e 18. Segev, Tom (1993), I..e Septiám Millioll. J..RS IsraélieIJs d 11:
Terra, 1997.1 ,f!,énocide, Paris: Liana Lévi, p. 464.
7. Sobre o conceito de «rdi,l.,rião civil>" cf. sobretudo Gentilc, 19. Cf. l..ibération de 2 de Abril de 2002.
Emilio (2005), Les Re/~J!ions de la polilique. Enlre délllocralies et 20. Cf. Bédarida, Catherine, «(Le faux pas du romancier José
to/aliMn·slIles, Paris: Seuil, uma obra largamente inspirada pelos Saramago», J..e Monde de 29 de Março de 2002.
trabalhos de George L. Mosse.
8. Sobre este tema, cf. sobretudo Gibdli, Antonio (1990),
l/o/Jiritlrl della J!,IIerra. 1A Grande Guerra e le trasjimIJaziotli dei
CaPítulo I
1JJ()fJdo IJlentale, Turim: Bollati Boringhieri. 1. Ricceur, Paul (2000), J A Mé!llojre, /'bistoire, tOI/M, Paris:
SeulI, p. 106. Uma posição análoga tinha já sido defendid'J.
9. Benjamin, Walter (2000), «Le conteur. Réflexions sur com convicção por Hutton, Patrick H. (1993), Histo,:y as an
l'ceuvre de Nicolas Lesko\!)), em Benjamin, Walter (2000), Art oI MelJIO~J', Hanover, N.H.: University Press of New
(l::m'res lII, Paris: Gallimard, p. 116.
England.
10. Cf. a peça de Pirandcllo, CO"le tu "Ie moi e Leonardo 2. Oakeshott, Michad (1962), RatiollaliJIII itl Politics and Olher
Sciascia, 11 It:atm della metJlona. l ..a smtenza II/e,,,orabde, Milão: l;"JS(!}'s, Londres: Meuthen, p. 198.
Addph.i, 2004.
3. Benjamin, Walter, (Zum Bilde ProustS», I1lulJJinationen,
11. Thompson, E. P. (2004), TetJps, discipline du travail et rapita- p. 336 (rrad. fr. <<L'image proustienne», (Ellvres 11, Paris:
lisllle indllstneJ, prefácio de Alain Maillard, Paris: La Fabrique. Galimard, p 136).
12. Cf. Agamben, Giorglo (2003), Etifrmce et hi.rtoire. De.rtruction 4.ld, ibid., p. 345 (t"d. fc., p. 150).
de I'expérience eI o,-{p,ine de I'histoire, Paris: Rivages, p. 25. [Ed. port.:
5. Benjamin, Walter (1983), Das Passa.gen-U7er.k., Frankfurt/M:
Infância c Históri.a: destruição da experiência da história, Belo
Suhrkamp, Bd. 1, p. 490 (trad. fr. Part"J, capital du XIXe siecle,
Horizonte: UFMG, 2005.j
Paris: Éditions du Ccrf, 1989, p. 405).
13. Koselleck, Reinhart (1997), «Les monuments aux morrs,
6. ld., ibid., p. 589 (t",d. fc., p. 489).
lieux de fondation de l'identité des survivants», I .. 'E:xpé-
rimce de I'histoirt!, ((Hautes Études», Paris: Gallimard-Seuil, 7. Hartog, Prançois (2003), R~p'inte.r d'hútoricilé. Présentisme el
pp. 140, 151. e:x:Périenm dlf telJlps, Paris: Seuil, p. 126.

14. Entre os inúmeros contributos para este debate historio- 8. Retomo aqui uma discussão já apresentada no meu ensaio
gráfico, cf. a síntese de Noiriel, Gérard (1996), Sur la «(mSe!) de «La singularité d'Auschwitz. Hypothcses, problcmcs et dé-
I'hi.rtoire, Paris: Belin.
rives de la recherche historique», em Coquio, Cathérine (ed.)
(1999), Parler de.! ca",ps, penser les ,f!,éflocides, Paris: Albin Michel,
1 S. Wieviorka, Annette (1998), ] .. 't:."re dll téllloin, Paris: PI(m. pp.128-140.
16. Todorov, Tzvetan (1995), l..es alms de Itlllléllloirl:, Paris: Arléa. 9. Kracauer, Siegfried (1977), «Die Photographie», Das Orna-
17. Cf. nomeadamente, a propósito da primeira guerra do IJIent der Masse. Essays, Frankfurt/M: Suhrkamp, p. 32, c, do
Golfo, Diner, Dan (1996), Kn"/{p' der En"nne17lng und die Ordnllll,f!, mesmo autor, The01yof Fi/n/, Nova Iorque: Oxford University
der lFell, Berlim: Rothbuch Verlag. Press, 1960, p. 14.

170 171
10. Cf. I-AlCapra, Dominkk (1998), «History and Memory: 1..e/rolJJi!~e et les I ers. J "'uI/ÍI'frs d'lIn /lJflfllier dll XVle .ritele, Paris:
In the Shadow of the HolocausD}, Hútory and Memory A(ter Aubier, p. 15.
Au.rchwiti.; Ithaca: CorneU University Pres;, p. 20. .. 21. Thompson, E. P. (1988), 1LI FOTf!/(/lifJll de la rlas.re
11. Chaumont,Jean-Michel (1994), «Connaissance ou recon- ollvnfre atz~/ai.r{', Paris: Seuil, EHESS [Ed. porr. ForlJlaÇtlo da
nassance? Lcs enjeux du débat sur la singularité de la Shoah}}, Cla.rse Opertíria INglesa, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987[;
1-" lJébat, n" 82, p. 87. Foucauit, Michel (1964), Húloire de Itl jólie ti I'f{~e dtl.rsiql/e,
12. Katz, Steven (1996), «The Uniqucness of thc Holocaust: Paris: Gallimard; Ginzburg (1980), op. cito [Ed. port.: História
The Historical Dimensiom}, em Rosenbaum, Alan S. (ed.) da J .ol/CUm nfl Idade Clás.rica, São Paulo: Perspectiva, 1978[.
(1996), l.r the HolocaJut Unique? Per.rpech'/Je.r on Compm-ative Geno- 22. Perrot, Michelle (2001), J..es rel1l!JIes OH In stimce.r de I'histoire,
cide, Boulder: Westview Press, pp. 19-38. Paris: Flammarion.
13. Hobsbawm, Eric (1997), «Identity Hisrory is nor Enough}), 23. Guha, Ranajit (1983), «The Prose of Counter-
On Hi.rtmy, Londres: Wcidenfeld & Nicolson, p. 277. IEd. -Insurgenq'")}, SI/baltem StHdies, n." 2, Nova Deli: Oxford
port.: Sobre (1 Hútdria, Lisboa:Rclógio d'Água, 2010.[ llniversity Press, pp. 1-42, e também, do mesmo
14. Hegel, G. W F. (1965), 14 Raúon dan.r I'Histoire. IntrodllclÍo1J autor, «The small Voice of llistor}'>}, ibid., 0.° 9, 1996, pp. 1-12.
à I" philo.rophie de l'!Ji.rtoire, Paris, (~diti()ns 10/18, p. 193. [Ed. 24. Halbwachs, Maurice (1997), J 4 AfélJJoire collertin, Paris:
port.: A Razão na HútrJria, J -isboa: Edições 70, 1991.[ Albio Michel, p. 130 [Ed. porr.: A MelJlóritl Coletiva, São Pau-
1 S. ld., i/';d., pp. 193-194. lo: Centauro, 20051. Sobre Halbwachs, cf. Hutton, Patrick
H. (1993), Histo!J' aJ ali Arl 'lI AletJlo~y, IIaoover e Londres:
16. Hegel, G .W F. (1980), «Phanomenologic dcs Gcistes», University Press of New England, cap.IV, pp. 73-90.
Gemmmelle l-f7erke, Bd. 9, Hamburgo: Felix Meiner Verlag,
p. 433 (trad. fr. Phà/Oménologie de I'Esprit, Hyppolite, Jean (ed.) 25. Halbwachs, Mauricc (1994), I..e.r Cadres sodaux de la mémoire
(1941) Paris: Aubier Montaigne, t. 11, pp. 311-312) [Ed. Port.: (1925), Paris: Albin Michel.
Fenomenologia do Espírito, Petrópolis: Vozes, 2008]. Ver 26. Halbwachs (1997), op. cit., p. 136.
a csse respeito os comentários de d'Hondt, Jacques (1987), 27. Id., ibid., p. 157. Ver sobretudo Bergson, Hemi (1959),
Hegel Philosophe de I'hisloire vivante, Paris: Presses Universitaires J 4 PercePlioll dJl dHItI.l"etJlenl, Paris: Presses llnivcrsitaires de
de France, pp. 349-450. France.
17. Hegel (1965), ,p. ál., p. 195. 28. lIalbwachs (1997), op. ai., p. 161.
18. Cf. Guha, Ranajit (2002), Hútory at the I jmit of 29. Yerushalmi, Yosd H. (1982), Zachor. Jewisb Hislory and JeUl-
lf7orld-Húto~y, Nova Iorque: Columbia University Press, par- isb Memory, Seattle: llniversity af Washington Press (rrad. fr.
ticularmente o capítulo TIL Zacbor. Histoirejuive el/JIé/JIoire juive, Paris, La Découvertc, 1984,
19. Benjamin, Waltcr, í<Über den Bcgriff der GeschichteH, pp. 101, 110-111, 118).
Il/umi1JalÍollw, p. 254 (trad. fr. (Eutore.r IlI, op. cil., p. 432). 30. Nora, Pierte (1984), «Entre histoire et mémoire. La pro-
20. Furcr, François (1963), «Pour une définition des classe blématique des lieux}), em Nora, Pierre (ed.) (1984), J..e.r Ijet(x
inféricures à l'époque moderne}), Annales ESC, XVIll, n." 3, de tJléllloire. 1. I A Républiqm, Paris: Gallimard, p. xix. Para uma
p. 459. Esta passagem é criticada por Ginzburg, Carlo (1980), análise interessante dessa abordagem, colocada em paralelo

172 173
T
com a oposição de Lévi-Strauss entre sociedades «quentes» 40. Funkenstein, Amos (1989), «Collectlve Memorv and
e sociedades «frias», cf. J.aCapra, Dominick (1998), «History Historical Consciousness», Hisl0'Y & Memory, I, n." 1,'p. 11.
and Memory: in thc Shadow of the Holocaus!», HisloO' and Cf. também, do mesmo autor, Perception.r ~l1ewisb Hútory,
MefJI0'Y Ajler Au.rcIJwÍ/iJ or.
cil., pp. 18-22. Berkdcy: University of California Press, 1993, pp.l, 6.
31. Anderson, Perry (2005), La Pensée tiMe, Paris: Seuil, p. 53. 41. Priedlandcr, Saul (1992), «Trauma, Transference and
32. Said, Edward (2003), Freud and lhe Non-European, Londres: 'working through' in Writing the History nf the Shoah)),
Verso [Ed. port.: Fret/d e OJ Não EuropeuJ, São Paulo: Boitem- Histol)' & MeN/ory, o." 1, pp. 39-59, e, também do mesmo
po Editorial, 20041. A definição de arqueologia como uma autor, «History, Memory, and the Historian. Dylcmmas ano
«rcli,l,>1ão nacional» é desenvolvida por Silbcrman, Neil Asher Responsabilities)), I\Tew German Cn/iq/le, 2000, n." 80, pp. 3-15.
(20(H), «Strucrurer le passé. Les lsraéliens, les Palcstiniens et 42. Dominick LaCapra analisou de furma muito minucio-
l'autorité symboliquc des monumcnts archéologiques», em sa as vantagens potenciais deste «desassossego empátic<))}
Hartog, François e Revcl,Jacques (eds.) (2001), I.LS UsageJ poli- (emp(/tbic unseltlement) na investigação crítica de um aconteci-
liques du pa.rsé, Paris: Úditions de I'EHESS. mento traumático (U7n"li/(t; History, lF"rili~t; TmulJl{/, John Bal-
33. Levi, Primo (1986), I Jommersi e i salvali, Turim: Einaudi timore: Hopkins University Press, 2001, p. 41). Noutro en-
(trad. fr. 11s iVaufragé.r elle.f ReJcapés, Paris: Gallimard, 1989). saio, LaCapra indica duas regras básicas a que devemos dar
atenção: «a "empatia" com os carrascos implica admitir
34. Vidal-Naquet, Pierre (1995), MéH/oire.r, I, 1.L1 bn".rure eI
que, em certas circunstâncias, quem quer que seja pode le-
I'al/ente 1930-1955, Paris: Scuil-La Découverte, p. 12.
var a cabo actos extremos, enquanto a empatia com a vítima
35. Broszat, Martin e Friedliinder, Saul (1988), «Um dic implica um respeito c uma compaixão que oào significam
'Historisierung dcs National-sm:ialismus'. Eln Bricfwcchscl», nem identificação nem falar no lugar dos outroS)) ({(Tropis-
r 'ierleljahresh~/iefur Zei~e,eJcbichle, n.o 36, (trad. fr. «Sur l'histo- ms of Intcllcctual Histor)'), RetbinkJnJ!, I li.rtory, 2004, vol. 8,
risation du national-socialismc. Échange de lettres», Bulletin n." 4, p. 525).
hime.rln"el de la rOlldalioll /luschwiti; 1990, n.o 24, pp. 43-86).
43. FriedJander, Saul (1997), J "/-l!lemaglle nazie el les JIÚjs. 1. J.LJ
36. Id., ibid., p. 48. année.r de per.réClftion 1933,1939, Paris: Seuil.
37. Cf. Berg, Nicolas (2003), Der H"locaurl und die westdeutschen 44. Sobre os trabalhos da escola historiográfica dirigida por
Hirton"leer. Etfor.rcbllng und ErinnemnJ!" Gõttingen: Wallstein, Martin Broszat no lnstitut für Zeitgeschichte de lvlunique, cf.
pp. 420-424, 613-615. Broszat, Manin (hg.) (1984), /l/Ita,g{t;e.rclJic!Jte. ]\Teue Perspektive
38. Cf. Herbert, Ulrich (2003), «Dcutschc und oder TnúaliJiemlli!'?, Munique: Oldenbourg. Uma obra desta
jüdische Gcschichtsschreibung über den Holocausb), em escola que escapa a esta tendência, escrita por um historiador
Brenncr, Michacl e Myers, David N. (hg.) (2003), Jiidiscbe pertencente a uma geração posterior, é a de Peukert, Detlev
GeJcbic!JIssc!Jreilm1f.p' beute. Tbelllen, Po.riliol1en, Kontrover.ren, Muni- (1987), lflside l\lazi GernJal!y. Conjornlity, Oppo.rition and RaciJtJ/ in
que: C. H. Beck, pr. 247-258. F.t1eT)'dqy I ijé, Londres: Penguin Books.
39. Sobre este assunto, cf. Sebald, W. G. (2001), Lllftkn~f!, und 45. Hillgruber, Andrcas (1986), ZlIwúlei Unlergan;;. Die
Uteratllr, Frankfurt/M: Fischer, p. 21 (trad. fr. De la de.rtructirm Zer.rclJlagtfll..f!, deJ f)mtscIJen Reicbes und da.r Ende des europaiseben Ju-
COH/tJ/e ilémmt de I'bistoire naturel/e, Arles: Actes Sud, 2004, p. 25). detltlJlIIJ, Berlim: Siedlcr, pp. 24-25.

174 175
r

46. Benjamin, Waltcr, «Übcr den Begriff der GeschichtL")), Felice não faz referência aos massacres do exército italiano
IIIU1ninationen, p. 254 (trad. fc. CI::uvres llI, op. cit, p. 432). na Etiópia na sua biografia de .Mussolini (MIIHolini il Duce. Gli
anti; dei consenso 1929-1936, Turim: Einaudi, 1974, capo VI, pp.
47. Kershaw, Ian (1998), Hitler. 1889-1936, Paris: Flamma-
597 -756). Sobre De Felice e a guerra da Etiópia, cf. Laban-
rioo, p. 9. IEd. port.: Hitler, ulna Biografia, Lisboa: Dom Qui-
ca, Nicola (2000), ,di razzismo colonialc italiano», em Burgio,
xote, 2009.1
Alberto (ed.) (2000), 1\,IeI nrNm del/a mzza. 11 razzislllo flel/a .rto-
48. Id., ibid., p. 25. A referência implícita diz respeito a Pest, ria d'llalia 1870-1945, Bolonha: Il ;\{ulino, particularmente
Joachim (1973), Hitler, Paris: Gallimard, 2 vaI. [Ed. port.: pp.158-159.
Hitler V2, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.] 59. Estas fotografias estão reproduzidas em Del Boca (1996),
49. LaCapra (2001), op. cit., p. 41. op. cit, pp. 115-116.
50. Acendt, Hanna (1991), EichlJlann à jénlJalflll, Paris: 60. Kracauer, Siegfried (1969), Húto!J" "I"!Je I..aJI Thitl)!,J H~/(I!'e
Gallimard [Ed. port.: [!,ichn/(Ifln enl ]mlJa/ém. Um Ensaio .wbre lhe l . lIJ/, Nova Iorque: Oxford University Press, p. 157.
a Banalidade do Ma/, São Paulo: Companhia das Letras, 1999]. 61. ld, Ihitl., p. 83. Cf. Simmcl, Gcorg (1983), «bl.kur-
Para uma rclcitura c uma contcxtualização da sua obra, cf. sus übcr den Fremdco>), SoZiologie. Utlter.fllrhl/J~i!,ftI doa die
Aschhcim, Stcvcn E. (2001), Honna Arendt in Jerusale!!l, Forn;en der Ver,i!,e.rellschaftun,l!" Berlim: Dunker & llumblot, pro
Bcrkcley: University af California press. 509-512 (trad. fr. Soâologie, Paris: Presscs Univcsitaircs de
51. Browing, Christopher (1994), Des homHm ordinaires. J1 France).
10 1e Hatai/lon de ré.rerve de la polia al/enJande et /a So/ution ftna/e en 62. Esta fórmula foi forjada por Habermas, Jürgcn (1987),
Polo)!,ne, prefácio de P. Vidal-Naquet, Paris: Les Belles Lettres. "Vom offentlichen Gebrauch der Ilisroric», l-fi.rtorikmlrfit,
52. Cf. Général Aussaresses (2001), Semice.r .rpécialtx. A{l',érie Munique: Piper, pp. 243-255 (trad. fr. "De l'usage public
1955-1957. Paris: Perrin. de l'histoire», ÉcrilJ poliliqlle.r, Paris: Cerf, 1990, recdit. Paris:
Champs-Flammarion, pp. 247-260).
53. Myers, David N. (2003), «Sdbstreflexion im moder-
nen Erinncrungsdiskurs}), em Brenner e Myers (hg.)(2003), 63. Catda, Ludmila da Silva (2001), No habrá flores ell la tumba
op. cit., p. 66. dei p{lJtldo. 1"':1 e::>..perietlcia de recolIJtmcáól1 dei lJIundo de jilllJiliare.r de
desapareâdos, J.a Piam: AI Margen. .
54. Mosse. George L. (1998), «Rem,:o De Fclice e il revisionis-
mo storiCO», l"·lufJt'fl Antologia, n.o 2206, p. 181.
55. Mosse, George L. (2000), Con.fronting llistory. A MenJoir, Capítulo II
Madison: The University of Wisconsin Press, p. 109.
1. Benjamin, Walter, «Über den Begriff der Geschichte»,
56. De Felice, Renzo (1995), ROJJO e lVero, Milão: Baldini e IIllIlJIinatiotletl, p. 259.
Castoldi, p. 114.
2. Lüwy, Michad (2001), 1f:7aller He1!Janlin: At'l!rUs,rement d'incell-
57. Aron, Robert (1954), Hisloire de VicJlY, 1940-1944, Paris: die. Une lertllre des theseJ ((SlIr le conrept d'histoireJ>, Paris: Presses
Fayard. Universitaires de Francc, pp. 105-108. [Ed. port.: Walter Belga-
58. Citado em Del Boca, Angelo (1996), I l!,as di M'JJSo/ini. II min: apiso de incindio. Ullla leitura das teJes «Jobre o conceito de !Jútó-
fa,rcimlo e la J!,/lerra d'Etiopia, Roma: Editori Riuniti, p. 75. De n"a, São Paulo: Boitcmpo Editorial, 2005.]

176 177
I I

3. Bcnjamin, Walter, «Über den Begriff der Geschichtc», 15. Cf. Diner, Dan (2000), <<Hanna Arendt Reconsidered: über
IIIlInlinatúmen, p. 259. das Banale und das Bose in ihrer Holocaust-Erziihlung}), em
4. Hobsbawm, Eric (1 994), A,~e 0/ Extremes. The Short XX'"
Smith, Gary Ced.) (2000), Hantlah AreJldt Revisited. ((EichtJltmn in
jertl.ftlle» I//Id die Fo/gm, FrankfurtjM: Suhrbmp, pp. 120-135.
Centl/1]', Nova Iorque: Pantheon Books [Ed. port.: A Em
dos Extret!/M, Lisboa: Presença, 1996J; Pudal, Bernard, Gro- 16. Cf. Vidal-Naquet, Pierre (1991), «En part le pouvoir d'un
ppo, Bruno c Pcnneticr, Claudc (cus) (2000), Le Siecle dh m()L .. », J..es Ju!P, 1(/ mémoire et le présm/II, Paris, La Découverte,
conmJlmútl/es, Paris: Éditions de l'Atclicr [Ed. port.: O JéCIIlo dos pp.267.275.
COII/UflÚ"/OJ, Lisboa: Editorial Notícias 2004J. 17. Cf. Tern(m, Yves (1983), J LS Armhliell.r: húloire d'l/n J!.hwride,
5. Poliaknov, Unn (1951), Hrét'iaire de la haine, Paris: Calmann- Paris: Seuil, e Oadrian, Vahakan N. (1996), l-fir/oire dl/ J!/noúde
-Lévr armúúm, Paris: Stock.
6. Hilberg, Raul (1985), The Des/mction 01 European ]ews, 3 vols., 18. Cf. Ferreci, Maria (1993), 1 .(/ tJJetJloritl mutilale. f ,tI Rlmia
Nova Iorque: Holmes & Meicr. n'corda, Milão: Corbacio.
7. Rousso, Hcmy (1990), Le .~'yndrotJle de ViciO' de 1944 ti '/(Jus 19. della Log!:,>1a, Ernesto Gani (1999), l.tl mor/e de/la fa/na,
jOflrs, Paris: Seuil; ver também, sobre as diferentes ctapas, Bari-Roma: Laterza, Bati-Roma.
Ricceur (2000), op. cit., p. 582. 20. Cf. o texto da alocução do presidente Ciampi em
H. Adorno, Thcodor \\Z (1963), aWas bedeutet: Aufarbci- Focardi, Filipo (ed.) (2005), lA }!,Herm del/a nlem(jrid. 14
tung dcr Vergangenheit?», Eillgrilj/ Neetm kriti.rche Mode/le, Re.rúfmza nel di/;atti politico i/aliatlo dai 1945 a I'{~i, Bari-Roma:
Frankfurt/i\I: Surkamp. Laterza, pp. 333-335. A expressão «os rapazes de Saló» foi for-
9. Améry, Jean (1977), jenJelú von Sr/Ju!d und SÜII, Estugarda: jada pelo ex-presidente do Senado Luciano Violante, mcmbro
Lett-Cotta, Estugarda, p. 120. da coligação de centro-esquerda Olivo, durante uma alocução
na Primavera de 1996 (incluída numa recolha feita dirigida por
10. Cf. Berg, Nicolas (2003), Der Holocaust und die uJestdefltshen
Focardi, pp. 285-286). Vcr também a critica feita por Antonio
his/oriker. Eifor,rhlln..~ 1/nd Erinnemmg, Gi.itinggen: Wallstcin
Tabuchi ao presidentc Ciampi (pp. 335-338, trad. fr., «Italie:
Verlag, pp. 215-219.
les fantômes du fascisme)}, 11 AlolJ(le, 19 de Outubro de 20(1).
11. Bloch, Rrsnt (1935), l,·rb.rchqft die.rer Zeit, FrankfurtjM:
21. Luzzato, Sergio (2004), IA aisi de/l'antifucisH/o, Turim:
Suhrkamp, pp. 104-125; cf. também os ensaios de Daniel
Rinaui, p. 31. Luzzato sublinha justamente que todas as
Bcnsai'd reunidos em I A di.rcordance des /emp,r, Paris: Éditions
democracias modernas se fundam sobre uma «hierarquia
de la Passion, 1995.
retrospectiva da memória», ou seja, sobre escolhas que rc-
12. Cf. Baschet, Jérôme (2001), «L'histoire face au présent definem a sua identidade (p. 30). As memórias «simétricas e
perpétucL Quelques remarques sur la relation passé-futur}), compatíveis», hoje reivindicadas pelo chefe de Estado c por
em Hartog e Revel (eds.) (20(H), op. (il., p. 67. uma larga parte da elite política, vêm precisamente colocar
13. Arendt (1991), op. rit.. Sobre esse proce~so, ver também o em causa as escolhas feitas no momcnto do nascimento da
filme de Ronny Brauman e Eyal Sivan, Un spécitlhste. república.
14. Hilberg, Raul (1996), Tbe Politic.r of Memory, Chicago: Ivan 22. Magris, Claudio, «La memoria i: liberta dall'ossessione dei
R. Dee. passato», II corriaf del/a Sem, 10 de Fevereiro de 2005.

178 179
..
23. Cf. Rodogno, D. (2003), II nUO/lO ordine mediterrâneo. I -e politi- 31. Novick, Peter (2000), The l-/o!ocrlll.rl il! AllleriCtlI1 I j/e, Nova
r/Je d'ocCIIPazione de/n/alia fascú/as in F.I/ropa (1940-1943), Turim: Iorque: Houghton Miffin.
Bollati Boringhicri, 2003, e Di Sante, C. (ed.) (2005), l/aliani
32. C:f. Diner, Dan (2000), (iC:umulative C:ontingency. Histo-
Jenza onore. I crimin; in Jugos/avia e i proce.r.ri n(l!,ati (1941-1951),
ricizing Lq.,ritimacy in Israel Discourso), 13eyofld tbe COl1ceft'able.
Verona: Ombre Corte.
Studies 01/ GenJ/tlfl], [',,'i/Zis/1I and lhe l-/o!OCtl!IJ!, Berkeley: Univer-
24. Cf. Paloma Aguilar (1996), Memoria)' o/m'do de la gueTm al'i! sity of California Press, p. 215.
e.rpafjola, Madrid: Alianza Editorial. Sobre esc tema, cf. as con-
33. Cf. Sege\', Tom (1993), op. 0'1., pp. 578-580.
tribuições reunidas em Matérie/lx pour I'histoire de notre temps,
2003, n.o 70, consagrada a «Espagne: la memoire retrouvé 34. Loraux, Nicole (1997), 111 ci/e dil'iJà. I "'oublle da/H la mimoire
(1975-2002)>>. d :..-lthencs, Paris: Pa)'ot.
25. Cf. especialmente Casanova,Julián (ed.) (2002), Morir, matar, .15. Novick (2000), op. cit., p.lS.
Jobrnúú: 111 tlÍoleneia en la dictadura de Franco, Barcelona: Crítica. 36. Cf. Todeschini, i\Iaya Morioka (ed.) (1995), lliros!Jillla 50
26. Muito significativo o impacto da exposição «Exilio», or- Paris: Autrernent.
(I/H,

ganizada em Madrid em Setembro/Outubro de 2002 pela 37. Sontag, Susan (2003), Dewnt !a douleur des alllres, Paris:
Fundação FabIo Iglcsias, no Museu Nacional Centro de Arte Bourgois. [Ed. port.; Dial1te da DordoJ Outmr, São Paulo: Com-
Reina Sofia. panhia das Letras, 2003.J
27. Cf. especialmente Aguilar (2006), op. cit., e Campos, Ismael 38. Novick (2000), op. cit., p. 279.
Saz (2004). «EI pasado que aún no puede pasar», Fascúmo.y 39. Mayer, Arno (1988), tr'/,ry did lhe l-/eflvens !lO! Darken? The
Fran1uismo, Valência: PUV, pp. 277-291. Jill,,1 SO/lIlúm in Hútor)', Nova Iorque: Pantheon Books.
28. Groppo, Bruno (2001), «Traumatismos de la memoria 40. Achcar, G. (2002), l-e ChocdeJ barbaries, Bruxelas: Complexe.
c imposibilidad dd olvido en los países deI Cono SUO> em
41. Já existe uma bibliografia abundante sobre esse mo-
Groppo, Bruno c Flier, Patricia (eds.) (2001), 111 impoJibilidad
numento. Cf. particularmente o catálogo publicado pela
dei oh'ido, La Plata: Ediciones AI Margen, pp. 19-42.
fundação que o gere, Stifgung Denkmal fur die ermordeten
29. Diner, Dan (1993), «Gestaute Zeit. Massensenvernich- Juden Europas, Mateáa/en ZIIII' Denk!lla/ for die ermorde!en juden
tung und jüdische Erzãhlung>), Kreis/áuj, Berlim: Berlin Verlag, E/lropeu. Berlim: Nicolai Verlag, 2005.
pp.123-140.
42. Robin, Régine (2001), Berlin challtiers, Paris: Stock, p. 394.
30. Cf. especialmente Pappé, Ilan (2000), 111 Guerre de 1948 en
43. Sobre a Neue Wachc, cf. Reichcl, Peter (1998), I ">1IIcmagne
Pa/e,rtine. Aux ori,gins d" conflit israelo-arabe, Paris: La Fabrique.
el.f(J mémoire, Paris: Odilc Jacob, pp. 212-225.
Cf. também as observações de Warschwski, Michel (2001),
Israel-Pala/im. 1A! déji hillationa/, Paris: Textuel, pp. 39-46. Sobre 44. Koselleck, Reinhart (1998), {(wes darf vergessen werden?
o nascimento da historiografia palestina, cf. Khaliji, Rashid Das Holocaust MahnmaI hierarchisicrt die OpfeD), Die Zeit,
(1997), Pa!eJtinia!l ldenti!y, Nova Iorque: Columbia LTniversity n." 13.
Press, e também Sanbar, Elias (2001), «Hem de !ieu, hors du 45. Hbermas,]ürgen (1999), (iDer Zeigefinger. DieDeutschen
temps. Pratiques palcstiniennes de I'histoire», em Hartog c und ihr Denkmah), Die Zeit, n." 14.
Revel (eds.) (2001), op. ,ti., p. 123. 46. Cf.llilbceg (1996), op. cit., pp. 61-62.

180 181
..
47. Cf. Fogcl, Joshua (ed.) (2000), TIJe NrIf!lJnJ!, Massacre in His- ca das teses de White, cf. Chartier (1998), op. d/., capo IV, pp.
and Histori(Jgrap~fY, Berkcley: Uruversity of California Press.
101)' 108-125, e Kantsteiner, Wulf (1993), «Hayden White's Critique
48. Cf. Buruma, lan (1994), Tbe Wé{,{!es 0/ Guilt. Meti/odes r!f [f/ar of the Writing of History», Húlo~J' (/nd'J"heofJ\ n." 3, pp. 273-295.
in Gertl/rIf?y and fapan, Londres: Phoenix. 7. Entre as numerosas análises críticas da concepção de his-
49. Cf. Beaugé, Florence, (,Paris reconnait que lc massacre túria de \XThite, cf. Momigliano, Arnaldo (1984), «T ,a retorica
de Sétif en 1945 était "inexcusablc tl », 1..e Monde, 9 de Março della storia della retorica: sui trori di Hayden '\X"hitc», Sm"jon-
de 2005. dalflenli dell(l storia all/iuJ)!, Turim: Einaudi, pp. 465-476; Char-
50. Cf. Stora, Benjamin (1991), I...{[ Gaftl!,rilll! ri 1'000b/i. J..tl mé- tier (1998), (,Figures rhétoriques et représentation historigue»,
IIIoire de la ,,{!mrre d>l(f!,érie, Paris: La Découverte. Sobre o mas- op. cit., pp. 320-339; c sobretudo Evans, Richard (1999), III f)e-
sacre de 17 de Outubro de 1961, cf. Einaudi,Jean-Luc (2001), .leme o/ HiJlo,:r, Nova largue: Norton, capo IIl, pp. 65-88 [Ed.
Octolm 1961 Paris: Favard e Grandmaison, Olivier Lecour port.: EN' DefeS(l da Hútór7a, Lisboa: Temas e Debates, 1999[.
(ed.) (2001),'!..e 17 octoím /961. Un rrin/e d'État à Paris, Paris: 8. de Certeau, Michel (1975), L'l-;'critllre de I'bistoire, Paris:
La Dispute. c;.-a1limard, p.12. [Ed. port.: A Esrrila da História, Rio de Janei-
ro: Forense Uni\'ersitária, 2011.[
CaPítulo III 9. Id, ibid., r.13.
1. Para uma boa apresentação sintética do lin}!,uistic 111m, cf. 10. Sobre a ligação dos arquivos à escrita da história, cf.
Dosse, François (2003), / .(/ marche des Mies. Histoire des ifllellertl/els, Combe, Sonia (2011), Archit;eJ interdites. I/histoire COfljiJq/fée, Pa-
histoire ;nlellectllelle, Paris: La Découvcrte, pp. 207-226. Sobre ris: La Découverte.
o impacto na história social, cf. Ele)', Geoff 1992, (,De l'his- 11. LaCapra (2011), op. dt., pp. 1-42. É a partir de considera-
toire social au «tournant linguistique» dans l'historiographie
çôes análogas que Paul Ricoeur tende a qualificar de antino-
anglo-américaine des ànées 1980», Genises, n.o 7, pp. 163-193.
mia o par (rdato histórico/relato ficcionab) (RicU!ur (2000),
2. Chartier, Roger (1998), ."-JIl bord de Id falaise. I ~'histoir(' entre op. rit., p. 339).
cntlfl/des et inqlúitude, Paris: Albin Michel, p. 11.
12. Kosdleck (1997), «Histoire socialc et histoirc des
3. Ih, ibid., p.16. concepts)}, op. dt., p. 110.
4. LaCapra, Dominick (2004), «Tropisms of Intellectual His- 13. Robin (2003), op. 0'1., p. 299.
torp>, Rethinkifl)!, Hi.rÜIf)', vol. 8, n." 4, p.513.
14. Cf. sobre esse debate aS contribuições reunidas em Frie-
5. Barther, Roland (1984), «Le discours de l'histoire», em I.e dlander, Saul (ed.) (1992), Pro/;illJ!, lhe I jlJlitJ of Re-preJenlaliom.
bruis.rement de 1(/ 1(1Il..!.J,lIe. Essais Cri/iqms IV, Paris: Seuil, p. 175. i.\,TaziJIJI alld lhe ((Final Solution», Cambridge: Harvard Univer-
6. \X1hite, Hayden (1985), «The historical text as a literary ar- ist}' Press (especialmente o debate entre H. White, «} listorical
tefaco}, TroPics 0/ Discollrse. Essais in CI/lbmil Critici.flll, Balti- Emplotment and the Problcm of Tr1Jth», pp. 37-52, e Carlo
more: John Hopkins Uruversity Press, p. 82. Essa tese tinha Ginzburg, (<Just ()ne Witness», pp. 82-96). Ginzburg retira das
já sido formulada em Metahistory. The Hirtor7cal IH/t{~;'/ation in teses de \xrhite uma nova versão da filosofia idealista do jovem
[\iinetulllb-Centlll)' EI/rope, Baltimore: John Hopkins "Gniversity Benedeto Croce, expressa numa obra de 1893 intitulada' ..r[
Press, 1973, pp. Xi-xii, 5-7, 427. Para uma apresentação críti- Storia ridoita .roito il roncelto J!.enemle de/farle (pp. 87 -89).

182 183
-

15. Bédarida, François (2003), «Tcmps préscnt ct préscnee de 25. Levi (1997), «1 sommcrsi e i salvarh>, op. rit., p. 1056.
I'histoire)), Hisloire, critiql/e et responmbilité, Bruxelas: Complexe,
26. Agambcn (1998), op. cit., p. 153.
p. 51.
27. Id, ibid, p. 47.
16. Vidal-Naquet, Pierre (1987), l..es assassins de la tIIétlloire,
Paris: La Découverte, pp. 148-149. 28. Robin (2003), op. cit., p. 250.
17. Lanzmann, Claude, «La question n'est pas celle du do- 29. Cf. LaCapra, Dominick (2004), <<i\pproaehing Limit
cument mais celle de la vérité», Le Monde, 19 de Janeiro de Event: Siting AgambeID>, HútolJ' ill Transit. E:vperieIJce, Identity,
2001, p. 29. Trata-se de um comentário à exposição «.Mémoirc CntiraITlJer)IJ', lthaca: Comell University Prcss, p. 172.
des camps» (cf. Chéroux, Clément (ed.) (2001), Mémoire des 30. Mcsnard, Philippe c Kahn, Claudine (2001), GiorJ!/o
((Jmps. Photograpbie des ramps de concentralion et d'exterminalioH AJ!PlllbeJI d l'iPmme d'AflH!J11'it:{; Paris: Kimé, p. 125.
nazis (1933-1999), Paris: Marval). A posição de Lanzmann 31. Cf. a introdução de Henry Rousso à sua recolha r TielD·.
foi desenvolvida por Wajcman, George (2001), (<La croyancc 1:i:f!élleJllenl, la mélJ/oire, I'hi,rloire, Paris: GaUimard, 20D1, p. 43.
photographiquc», l..es Temps Modernes, n." 613, pp. 47-83, e por
32. Cf. HiUberg, Raul (1993), ExéCII!mt:r, I'ICtinJe.r, limo/lIs, Paris:
Pagnoux, Elisabeth, «Reporter photographc à Auschwitz»,
Gallimard. Esta tendência é sublinhada por Evans, Richard L.
ibid., pp. 84-108. Sobre este debate cf. a obra fundamental de
Evans (2002), «History, Mcrnory and thc Law. Thc IIistoricn
Didi-Huberman, Georges (2003), Imuges 1JJalgré tout, Paris: F,di-
as Expert 'W'itnesSl>, Hi.r/01:'Y (Jtld TheofJ', vo!. 41, n." 3, p. 344.
tions Minuit, assim como o excelente ensaio de About, IIsen
c Chcroux, Clément (2001), «L'histoire par la photographie», 33. Goldhagen, Daniel J. (1997), 1..e,r l30lfrrealJx l'OIOlllaim de
ntlldn pIJoloy,rap!Jiqlles, n." 10. Hitler, Paris: Seui!. [Ed. port.: Os CarmJmr r 'Ohm/ários de Hitlel~
Lisboa: Editorial Noticias, 1999.]
18. Lanzmann, Claude, «Pader pour les morts», Le Alonde de
débat, Maio de 2000, p.15. 34. Courtois, Stéphane (ed.) (1997), 1..( Jjvre lIoir du ronJlIIIJ-
nlJm6. Crime,r, terrem, répreHioll, Paris: Laffont. [Ed. port.: O
19. Lanzmann, Claude, «Holocauste, la rcprésentation impos-
Jjr'l'o N~v,ro do Comunismo, Lisboa: Quetzal, 1998.}
siblc», J..e Monde, 3 de Março de 1994, p. Vll.
35. Cr. Jeannency, Jean-Noel (1998), I..e Pa,rsé danJ /e prétoire.
20. Lanzmann, Claudc (1990), «Hier ist kein Warum», .AII Jujel
I/bá/ofim, le jI~v,e el le journaliste, Paris: Scuil, p. 24, e Dumoulin
de S!Jol/h. 1..e film de Claude I..rJH::(fllann, Paris: Belin, p. 279.
(2003), "p. àt., pp. 163-176.
21. Levi, Primo (1997), «Se questo c un uomo», Opere I, Tu-
36. Cf. Baruch, Mare Olivier (1998), «Proccs Paptm: imprcs-
rim: Einaudi, p. 23. [Ed. port.: Se IJ/o É' um Homem, Alfragide:
sinns d'audicncc», l.e Dé/;at, n." 102, pp. 11-16. Cf. sobre esse
Teorema, 2009.]
tema, Durnoulin (2003), op. ri/., e Frei, Norbert, Van Laak,
22. La(apra (1998), «Lanzmann's Shoah: "Here There 1s No Dirk c Stolleis, Michael (hg.) (2000), Ge.rchiclJle vor Cedcht hi.rto·
\'(rhy"», op. ril., p. 100. rih,., Richler /In d/e S/lcbe nach G'erct'htigkeit, MuniqU(:: C H. Bcck.
23. Levi (1997), «La riccrca dclle radiei)>, op. cit., p. 1367. 37. Rousso, Henr)' (1998), I.rJ Ha/ltúe du pa.rsé, Paris: Tex-
24. Agamben, Giorgio (1998), Que! elH mta di AlISchu!itZ' tucl, Paris, p. 97. Cf. também Cnnan, l~rjc e Rousso, Hcn-
I .'arc!Jitt/o e i/ ttfstimofle, Turim: BoUati-Boringhieri, p. 8. [Ed. Port.: ry (1996), r ·ielD', un pa.r,ré qui ne paJSe pa.r, Paris: Gallimard,
O qm Resla dtf AJ(sdJJ1i~ São Paulo: Boirempo Editorial, 2008.] pp. 235-255.

184 185
38. Schiller, Friedrich (1992), «Resignatiom>, Iférke und
Capítulo IV
Brieji:, Berlim: Dcutschcr Klassiker Verlag, Bd. 1, p. 420. Cf.
Koscllcck, Reinhart (1990), «Historia magistra vitac», 11: FII- 1. Entrevista a J\hrek Eddman por Pol Mathil, l..e Soir de
htr ptusé. Conlriblltion a la sémantiqtle des temps historiqlles, Paris: Abril de 2003.
EHESS, p. 50; e também, para uma actualização do problema, 2. Adorno, Thcodor W: (1969), «Erzichung naeh Ausehwie9\
Bensai·d, Daniel (1999), Qlli esl le j/(I!,e? POlir enl fin;r {J1!ec le tribu- Stic/JJl'orte. KiritJcIJe Afoddle 2. Frankfurt/ M: Suhrkamp.
n(fl de !His/oire, Paris: Fayard [Ed. port.: Quem É o JuiZ? Direito 3. Habermas (1987), «ümscience historique et idcntité
e Direitos do HotJIem, Lisboa: Instituto Piaget, 2001]. post-traditiondb>,op. cito (trad. fr.), p.294.
39. Bloch, Marc (1974), «L'analyse historiquc», Apologie pour 4. 13auman, Zygmunt (1989), Moderity a/Jd tlJe //olo({/IIJI, Cam-
(histoire, ParL~: Armand Colin, p. 118. Carr, Edward H. (1961), bridge: Polity Prc~s, p. 114. [Ed. Port.: J\lodemidade I" UOlo(tlflJ/o,
IV/Jat is HistOl)'?, Londres: Macmillan, capo I. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.J
40. Vidal-Naquet (1995), op. dI., pp. 113-114 (esta passagem 5. Agamben, Giorbrio (2002), «Qu'est-ce qu'un camp?», M?ytJJ.f
é retirada de Chateaubriand, AlénHúe d'OIl/re-tombe, Paris: La Jans fim, Paris: Rivages, p.49.
Pléiade-Gallimard, p. 630).
6. Sossi, Frederica (2003), «Témoigner de I'invisiblc», em
41. Ginzburg, Carlo (1991), I1gitfllice e lo .rlorico, Turim: Einaudi, Cnquio, Catherine (ed.) (2003), /;l JiJtoire lrollie. I\Tég,aliolls el
Turim. [Ed. port.: ensaio incluído em A Micro-História e Olltro.r ·/eJllOl;I!,Il(/j!,C, Nantes: L'Atlante, p. 398.
E!1.faios, Ijsboa: Difel, 1991.]
7. Arendt, Hannah (2002), 11S Origines d" tOlalitarisme, Paris:
42. Id., ;/;id. Quarto-Gallimard, p. 598. [Ed. port.: As On;!!,ms do Totah·/an.r-
43. Aquilo que conduziu George Duby, talvez de uma for- N/O, T.isboa: Dom Quixote, 2006.]

ma um pouco prematura, a cscrever que «a noção de verda- 8. Vidal-Naquet, Pierre (1998), MélJloire 11. 11 Tro/lble el la
de histórica modificou-se (... ) porque a história doravante 11f/J/ii:re, Paris: La Découverte-Seuil, p. 107.
interessa-se menos nos factos do que nas rdaçõcs» (1 ~'Hisloire
9. Cf. Diner, Dan (1993), V"e,kehrle lFel/een, FrankfurtjM:
COlltinlle, Paris: Odilc Jacob, 1991, p. 78). [Ed. port.: A Hú/ória
Eichborn, 1993.
COflliflll{(, Rio de Janeiro: Zahar, 1993.]
10. Perec, Georges (1975), W ou lI! SOllvenir d'm/ance, Paris:
44. Ginzburg, Carlo (1986), «Spie, radiei di un paradigma in-
Gallimard, p. 220.
diziario», Miti, e",blfnll~ sPie. Moifol0l:ia e sloria, Turim: Einaudi,
pp. 158-209. 11. Chrétien,Jean-Pierre, «lIn nazisme tropical», Libérat;oll de
26 de Abril de 1994.
45. Améry (1977), op. ri!.
12. Ochlcr, Dolf (1996), J 1: Splem (ontre /'ouhli. Juin 1848.
46. Péguy, Charles (1987), «Le jugcmcnt historique», OI!Ul'!·e.r,
f3alldelaire, f/auberl, Heine, Herzen, Paris: Payot.
voL I, «La Pléiade», Paris: Gallimard, p. 1228. Este texto está
incluído em Hartog e Revel (eds.) (2001), op. rit., p. 184. 13. Cf. Wahnich, Sophic (2003), 1A T.iberlé 011 la '"0rt. I;ssai .wr
la Terretlr el le tUTon·sme, Paris: La Fabrique.
14. Cf. Lavabre, Marie-Claire (1994), LI' fil rOIl/,/. Sociolog,ie de la
AfélJ10ire co"""l1niste, Paris: Presses de la Fondation de Scienccs
Poli tique. O conceito de «contra-sociedade» foi forjado por

186 187
Kriegel, Annie (1974), COlmmmis",cs au mirror jTançais, Paris: 4. Broszat, Martin e FiedHinder, Saul (1988), «Um die "his-
Gallimard, p. 183. torisierung dcs National-sozialismus". Rin Briefwechsc1»,
15. A fórmula pertence a Hildebrand, Klaus (1987), «Das I 'ie!tl1!Jalmsh~/iefi)r Zei{!!,e.rchirvte, n." 36.
Zeitalter der TyraneO», Historiker.rlrúf. Dú dokl/fmntation 5. Mannheim, Karl (1969), Id{'o/~l!,ie IInd LItople, Frankfurt/M:
der KontnJ/!o:re /Im die Einzigartigkút der NationalsoziahjtisdJelJ Verlag Schulte & Bulmke, pp. 130-131.
jlldelllJfrnichttmg, Munique: Piper, pp. 84-92.
6. Cf. Herhert, lJlrich (2003), «Deutsche un jüdische
16. Para uma história desse conceito, cf. Traverso, Enzo (ed.) Geschichsschreibung üher den Holocaust», em Brenner e
(20()}), 11 ToJalitansme. 11 XXe sitele en débat, Paris: Seuil. Meyers (hg.) (2U03), op. ri/., pp. 247-258. Este postulado está
t 7. Fukuyama, Francis (1993), 1.4 Fln de I'hislojre d le dcrnúr no centro da reconstruçào da trajectória da historiografia
hO!JJ1!Ie, Paris: Flammarion. [Ed. port.: O Fim da História e o alemã por Berg (2003), op. ci/.
Últi!JJo Homem, Lisboa: Gradiva, 1999.] 7. Goldhagen (1997), op. cito Cf. a esse respeito Traverso,
t 8. Furet, François (1995), l.e Ptlssé diflJe jllllsúm. Essai sllr I',dée Enzo (1997), «La Shoah, les historiem et \'usage public de
de coIJlImmislJle aI( XXe siée/e, Paris: I "affont-Calmann-Lévy, p. 18. I'histoire», L 'HolJ!me el la .wciété, n." 125, pp. 17-26.
[Ed. port.: O Passado de Iftlla fllI.riio, Lisboa: Presença, 1996.[ 8. Cf. Schulze, \x!infried e Oexle, Otto G. (hg.) (1999), Deu/J(vl!
t 9. Bensai'd, Daniel (1997), T.e Pari ,,,é1ancolique. MélalJ/orphoses Hislorikt:r 1, T\Jational.wzialim11fs, Frankfurt/M: Fischer. Para
de la politiqlle, politique de las tIIela!llorphose.r, Paris: Fayard. uma visào de conjunto, cf. Cattaruzza, Marina (1 999), ~~Or­
20. Benjamin, Walter (1977), (~Einbahnnstrasse», GesalJ1ll1clc dinar.y Alen? Gli storici tedesci durante il nazionalsocialismo»,
Schiften, Frankfurt/M: Suhrbmp, Bd. 1,3, p. 1232. Co///etllpomnea, 11, n." 2, pp. 331-339.
21. Cf. Kosclleck (1990), «"Champ d'cxperience" et "horizon 9. l-lusson, Edouard (2000), Comprendre Hitlerel la Shoab, Paris:
d'attente"; dl:uX categories historiques)}, op. ril., pp. 307-329. Presses Universitaires de Francc, pp. 271-272.
Sobre o advento da idcia de comunismo, cf. sobretudo as re- 10. Cf. Bartov, Omer (2002), ~~The German Exhibition
flexões de Anderson, Perry (1992), «The Ends of History», A Controversy. The politics of cvidence», em Bartov, O.,
zom oI eng{{!!,cment, Londres: Verso [Ed. porr.: Zona de Compro- Grossman, A. e Nolan, M. (eds.) (2002), Crimes if U/(lr. Gllilt
misso, São Paulo: UNESP, 19961. tll1d Denial in TJnnlieth Cef/t/lry, Nova Iorque: The New Press,
pp. 43.60. IEd. Port.: Crimes de Guerra, Rio de Janeiro:
CaPítulo V Bertrand Brasil, 2005.!
1. Schieder, Wolfgang (1983), F{IscIJiJIIII/.r af.r Soziale 13I1JJ!~!!,1/n.!!', 11. Insutut fúr Sozialforschung (hg.) (2002), Verbrechen der
Gôttingen: Vandenhoeck & Ruprecht. Wehr!JJacht. Dimensionen des T crnichlJm,gkrie,geJ 1941-1944,
2. Mason, Tim (1995), «Whatever happened to "Fascism"?», Hamburg(): Hamburger Edition.
I\./{JztSm, fàsáslI/ tlnd lhe fFork/n;; Class, Ersf!)'J I?y Tilll MaJon, 12. Traverso, Enzo (1999), 1~La singularité d'Auschwitz.
Cambridge: Cambridge University Press, pp. 323-331. Próblemes et dérives de la recherchc historique», em Cathe-
3. Noite, Ernst (1987), «Vergangenhcit, die nicht vcrgehen rine Coquio (ed.) (1999), op. ci/., pp. 128-140.
will.», e I Iabcrmas, Jürgcn (1987), «Ein Art Schadensabwick~ 13. Bracher, Karl-Dietrich (1976), Zei{!!,eschich//ich KO/llrOlJersen.
lun~), l-lútorikerslreil, Munique: Piper, pp. 39-47 e 62-76. Um Fa.rchúmu.r, Tolalitarimllf.r, Dell/okra/ie, Munique: Piper.

188 189
14. Knuttcr, Han-Hclmut (1993), Die FaschúIIJus-Keu/e. Da.r /etze W'iderJttllld l!,~J!,e!l die j-liiler-IJiklalllr, 1933-1939, Berlim:
Attjj!,mbol der det/tschen I jnken, Frankfurt/i\.I: Ullstcin, p. 14. Gedenkstatte deutscher Widerstand, 1990, p. 3).
15. Kraushar, Wolfgang (2001), «Die auf dcm Iinkcn Auge 25. FriedEinder (2002), «The Wchrmacht and Mass Exter-
binde Linke. Antifaschismus und Totalitarismus», Linke mination of the Jews», em Bartov, Grossman e Notan (eds.)
Geisteifahrer. DenkanstOsse jür eine antitotalitàre J.inke, (2002), ,p. dt,
Frankfurt/M: Verlag Neue Kiritik, pp. 147-155. 26. Broszat, Martin (1986), «Resistenz un W'iderstanID), jVacIJ
16. Diner, Dan (1999), Das Jahrhundert versteben. Ein universa/bis- Húleri, i'vlunique: CH. Beck, pp. 68-91. Para uma apresentação
lorisdJe Deutun!!" Munique: Luchterhand. desse debate, cf. Kershaw, lan (1997), Qu'e.r/-re qm /1' na:::..i.rmd
17. Kuhnl, R. (1998), Der FaJchúf1Ius, Berlim: DisteI. PrebláJJeJ eI per.rpectilJ/:J d'inlerpretlllion, Paris: Folio-Gallimard,
18. Wippcrman, W (1995), Faschúnlllstheon"en. Die E:'nhvirk/un.l!,
capo 8. Para uma critica do conceito de rl'JiJlen;;v cf. Friedlan-
der Dúklluion l'on den Anjànl!' bis hei/te, Darmstadt: Primus Verlag. der, Saul (1993), Me",o1J', History, Exlerminaliotl ~l lhe jeJl'.f 0./
blrope, Bloominh>1on: Indiana University Press, pp. 92-95.
19. Borejsn, Jerzy w. (1999), Schulen des HaSSfs. Faschistische
.rysthm in Elfropa, Frankfurt/M: Fischer. 27. Adorno, Theodor W. (1984), «Que signifie : repenser le J.~
passé?», MrJdelles m'tiqlleJ, Paris: Payot, pp. 97-98.
20. Noite, Ernst (1970), I..e FasristJIe dalls JOtl épOqllf, Paris:
Julliard. A sua interpretação (histórico-genética» do totalita- 28. Diner, Dan (1995), (v\ntifaschistische Wcltanschauung. Ein
rismo é apresentada na sua correspondência com François Nachruf), KniJlàllje, Berlim: Berlin Verlag p. 91. Para seguir a
Furet, rtucirf1le eI coIJlIJumi.rf1le, Paris: Plon, 1998 [Ed. port.: filS- emergência do I [olocausto no centro do debate historiográfi-
cismo e COHllllrú",o, Lisboa: Gradiva, 1999]. co na Alemanha Federal, cf. Berg (2003), op. li!., pp. 379-383.
21. Para um balanço geral da historiografia da RDA sobre o 29. François, Étienne (1999), «Révolution archivistique et
nazismo, cf. Roth, Karl Heim (2001), (Glam un Elend der réécriture de !'hiswire I'Allema6'11e de l'Rsb), em Rousso,
DDR - Geschichtswissenschaft ueber Faschimus un zwciten Henry (ed.) (1999), [\;'aziJlJ/e eI slalinisme. Hisloire el !IIétl/oire mll/-
Weltkrieg», 13f1lletin Jür FúschirnlllJ ulld Wellktiegiforschllng, n. 17,
U paries. Paris: Complcxe, p. 346.
pp. 66-72. Sobre a questão do genocídio judaico, cf. Kwiet, 30. Habermas (1987), «Conscience historique et identité
Konrad (1976), «Historians of the German Democratic post-traditionalle»),op. cil. (trad. fr.), pp. 315-316.
Republic, Atisemitism and Persecutiofi», l..eo l3aeck Instilllle
31. Cf. entrevista a Renzo De Fclice em Jacobelli, Jader (ed.)
) 'earbook, vol. 21, pp. 173-198.
(1998), IIJtlSc/.rIJlO el!,!i Jloná ({p"f!,i, Bari-Roma: Larerza, p. 6. Para
22. Cf. Beetham, David (ed.) (1983), Maoosts in Jace oJ Hls- um paralelismo entre a abordagem de Noite c a de De Fe-
ds",. lYíüinc~s I!y Marxisls on Fasasm iro", lhe Inler-War Penod, lice, cf. Schiedler, Wolfgang (1991), (Zeitgeschichtliche Ver-
Manchester: Manchester University Press. shrankungen über Ernst Noite und Remo De Felice», Annali
23. Traverso (2001), ü.e totalitarisme. Jalons pour la histoire dell'lflJtllnl!; ifam-,f!,frtl/lWicode Trtf/to, XVII, pp. 359-376.
d'un débab>, op. cit., p. 27. 32. Steinmetz, Geoq,,'C (1997), (<.German exceptionalism and the
24. Ü historiador da Alemanha Federal Herman Weber estima origins of Nazism: the career of a concepb>, em Kershaw, [an e
em 150 mil o número de comunistas aprisionados pelo rc,l;.,>1me I.cwin, Moshe (eds.) (1997), Stalinism tlnd Nailslll. The Dictatorships
nazi e em 20 mil os que foram executados (KOImJllmislisrber in COIJ;parisotl, Cambrid!-,'C: Cambridge University Press, p. 257.

190 191
4

Capítulo VI tlllftlioftJIe, n.O 47-4~, pr. 57-70. Entre os trabalhos de síntese


dessa corrente historiográfica, cf. Fitzpatrick, Shcila (1994),
1. Entre as últimas obras importantes comagradas a este
Tbe Rm.rúm Re/'oltdÍon, Nova Iorque: Oxford University Press.
tema, cf. 19nouct, Valéric (2000), Há/oire dll rélJisionisme en
FranCf, Paris: Seuil; Brayard, Florent (1996), COHlmenl l'idée 12. Cf. Pavone, Claudio (2000), «Negazionismi, rimozioni, re-
I'Íflt fi M. Rassi/Jier, Paris: Fayard; c Prcsco, Nadinc (1999), visionismi: storia o politica?», em Colloti, Enzo (ed.) (2000),
Fabrica/;M d'ull antirémite, Paris: ScuiL r(/J(ÚJIIO e an/~fa.rcistJlo. Rjtllozioni, rel'isiolli, nelPziofli, Bari-Roma:

Laterza, pp. 34-35.


2. Vidal~Naquct (1987), op. rit.
13. Cf. sobretudo Furet, François (197~), J>emer la Ràoll/t;Ofl
3. François, Bédarida (1993), CO!lltJlent fsl-i! possible que Ir (,Rét'Í-
jraJ/(tlise, Paris: Gallimard [Ed. port.: Pen.ft/r a Rel'Oll/(tlo r'rance-
sionniJIIle» exhle?, Rcims: Prcsscs de la Comédic de Rcims, p. 4.
m, Lisboa: Edições 70, 198~[. Para uma reconstrução desse
4. Vidal-Naquct (1987), «Thcscs sur le révisionnisrnc), op. cil., debate, cf. Kaplan, Steven L. (1993), /LJdim 89, Paris: FaY<J.rd.
p.108. Entre os críticos do revisionismo de Furet, cf. Vovellc, Michel
5. Bcrn$tcin, Edouard (1974), 11s Présupposés &, socltlhsme, (2001), «RétlCx10ns sur l'interprétation révisionnistc de la Ré~
Paris: Seui!. !Ed. porto Os Pressupostos do Socialismo c as volution française», Combales pOlIr la Ril'Olutiotl !Ttltl((/úe, Paris:
Tarefas das Social-Democracia, Lisboa: Dom Quixote, 1976.\ La Découverte. Sobre a projecção internacional desse debate,
6. Sobre a projccção curopcia deste debate, cf. Bongiovanni, cf. Bongiovanni, Bruno (1989), «Rivoluzione borghese o rivo-
Bruno (1997), «Revisionismo c totalitarismo. Storic c signifi- luzione dei politico? Note sul revisionismo storiografico», em
cati», Teon"a pohtira, XIII, n." 1, pp. 23-54. Parte das peças deste Bongiovanni, Bruno (1989), J.L repliebe della Jloria. Karl Marx
debate foram reunidas por Weber, Henri (ed.) (1983) Kaul.rry, Ira la rit'olllziolle fmncese e la critim dela pollitica, Turim: BoHati
l../fxfmIJllrJ!" Hmnekoek, SoriaüsHle, la poie occidenlale, Paris: Presses Boringhieri, pp. 33-61, e Comnincl, G. C. (1987), RdIJinking
LTnivcrsitaircs de Prance. lhe forme/J RetJOlulion. MarxÍJm and lhe Revisionisl Ch{/lltl1~l!,e, Lon-
dres: Verso.
7. Laquer, \X'alter (1973), «Par le fer et par le feu: Jabotinsky
et le révisionnisme», Hútoire du úonútJI, Paris: Calmann-Le\'y, 14. Para uma reconstrução do conjunto do debate, cf.
pp.371-420. Grcilsammer, llan (1993), I..l1 NOllve/le HÍJloire d'lsrael, Paris:
Gallimard, e Pappé (2000), op. ril.
8. A esse propósito, cf. sobretudo Husson (2000), op. cit., eap.
111, pp. 69-84. 15. Wenh, Nicolas (1993), «Goulag: les vrais chiffres»,
L'Histoire, n. o 169, p. 42.
9. Kolko, Gabriel (1968), The Politics oI Ifár, Nova Iorque:
Random House. 16. Habermas (1987), «Einc Art Schadensabwicklung. Die
apologetischen Tendenzen in der deutschen Zeitgcstchichtss-
10. Alperovitz, Gar, /JtO!!lir /Jip/ol!lary. Hiro.rbima and Polsdam,
Nova Iorque: H:n!-,'Uin Books, 1985, e The Deeision to Use lhe chreibung», op. cit., pp. 62-76.
Alomi, 130mb, Nova Iorque: Vintage Books, 1996. 17. Furet e Noite (1998), op. ril, pp. 88-89.
11. Para uma apresentação do conjunto de trabalhos dessa 18. Noite (1987), <Nergangenheit, die nicht vergehen will», op.
escola, cf. Werth, Werth (1996), «Totalitarisme ou révision- cil., pp. 39-47, e IA Guerre dále ellropéene 1917-1945, Paris: Edi-
nisme? L'histoire soviétique, une histoirc en chantien), (;(1111- tions dcs Syrtes, 2000.

192 193
19. Wehler, Hans-Ulrich (1988), l-;nlsorgllttJ!, der deul.rcben Ver-
.~at{v,e1tbeit?
Ein polemischer I-:Jsqy zum (His/orik.erslreit)), Munique:
Bcck.
20.1·'riedliinder (1993), «A ConAiet af Mcrnorics ? Thc Ncw
Gcrman Debate about thc "Final Solution"», o/J. ci/., pp. 33-34.
21. Para uma visão de conjunto da obra de Renzo De Fc- Outros títulos das edições unipop:
!ice na historiografia italiana do fascismo, cf. Santomassino,
Gianpasqualc, «li rualo di Rcnzo De Fclicc}), em Colloti (ed.) QllelJ} canta o Estado-ilação?
(2000), ,p.dl., pr. 415-429.
Judith Butler e Gayatri Spivak
22. De Fclicc (1995), op. cito
(Fevereiro de 2012)
Z3. Cf. sobretudo Paxton, Robcrt J. (1997), 111 France de r/id!y,
Paris: Seui!.
_':i..) 24" ~abcrm~s (1987), «De l'usagc publiç de l'histoirc», t.a7tJ
r <. po/dlque, 0f>' ClI. (trad. r.), pr. 247-260. o direito de fuga
25. Furet (1995), op. cito Retomo a critica de Bcosrud (1999), oj>. cito Sandro Mezzadra
26. Pavonc, Claudio (1990), Una guerra cil'lle. Sl'{l!:l;io slIlla nlorah'- Ca publicar)
tà della Resútenza, Turim: Bollaci Boringhieri.
27. A respeito de Irving, cf. Evans, Richard J. (2002), Telh'ng
lies abOli! Hitler. Tbe Holocaust, l-listoIJ' a/ld !be David lrving Táal,
Londres: Verso; a respeito de Bernard J. Lewis, que considera
o genocídio dos arménios <mma visão arménia da história»,
cf. Ternon, Yvcs (1994), «Lettre ouverte à Bernard Lcwis et
à quelques autrcs», em Davis, Leslie 'A. (1994), J A Pr()/'ince de
la morto /lrc/lil!eJ (/tlIéricaine.r ronrernan! !e iÚlOcide des AmJéniem,
Bruxelas: Complexe, pp. 9-26.
28. Pomian, Krzysztof (2002), «Storia uff1cialc, storia rcvisio-
nista, storia critica», Alappe dei Not'emlto, Milão: Bruno Monda-
don, pr. 143-150.

194