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UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS

ESCOLA DE MÚSICA
Leitura, Escrita, Pesquisa e Tecnologia no Contexto Cietífico-Acadêmico
Professora: Edite Rocha
Aluno: Renato Frossard Cardoso

Milton Nascimento e Lô Borges: Clube da Esquina

Resenha crítica do livro Milton Nascimento e Lô Borges: Clube da Esquina, de Paulo


Thiago de Mello, 2018.

O livro Milton Nascimento e Lô Borges: Clube da Esquina, de autoria do


jornalista e antropólogo PAULO THIAGO DE MELLO (2018), traz a história do disco
Clube da Esquina, lançado em 1972. Trata-se na verdade de um volume da coleção
intitulada O Livro do Disco, que traz textos sobre álbuns brasileiros de relevância para
a nossa música popular. Neste volume que trata especificamente do álbum Clube da
Esquina (1972) o autor Paulo Thiago de Mello dá a sua contribuição para a coleção
trazendo textos que narram e refletem sobre a história de um dos álbuns mais
importantes na discografia brasileira.

O disco de que trata o livro, foi produzido e gravado por um grupo de músicos,
O Clube da Esquina, unidos em torno da pessoa de Milton Nascimento, principal
sujeito agregador e maquinador do projeto, considerado ousado para a época,
principalmente por se tratar de um álbum duplo. O disco também lançou, como
compositor e intérprete, a pessoa de Lô Borges no cenário da música popular nacional.
O livro traz uma contribuição significativa para o conhecimento deste grupo, de sua
música, bem como do contexto histórico e cultural no qual o disco foi produzido e
gravado.

Neste livro, o autor procura fazer uma reconstituição e análise dos


acontecimentos que antecederam a gravação do álbum Clube da Esquina (1972) além
de dissertar sobre aspectos estilísticos e culturais que se relacionam com a história do
grupo, sobre músicas e artistas que o influenciaram e sobre sua importância para o
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cenário musical nacional. De acordo com o autor, os discos escolhidos para compor
esta coleção são imprescindíveis para aqueles que pretendem conhecer de uma
maneira mais profunda a história da música popular brasileira e, por isso, não
poderiam ter sido deixados de fora da lista de álbuns escolhidos para compô-la.

O autor começa sua digressão partindo de um momento muito importante na


vida do cantor Milton Nascimento, principal personagem do álbum Clube da Esquina,
que é o momento que marca o início oficial de seus trabalhos como compositor. Trata-
se do momento em que Bituca, como o cantor é chamado por seus amigos mais
próximos, assiste na companhia do amigo Márcio Borges ao filme Jules et Jim e fica
encantado com a história de amor e amizade mostrada pelo mesmo, assistindo a
diversas seções em seguida do filme, em uma certa tarde de 1964. De acordo com os
dois amigos, o filme causou em Bituca uma transformação tão grande que fez com que
ele se convertesse de relutante em determinado a compor e criar suas próprias
músicas. Naquele mesmo dia, Milton compôs, em parceria com Márcio Borges, as
canções Novena, Gira-Girou e Crença. Segundo Márcio, o filme serviu como um
elemento catalisador que “destravou o nó psicológico que impedia Milton Nascimento
de reconhecer e dar vazão ao seu extraordinário potencial criador” (MELLO, 2018, p.
16).

De acordo com MELLO (2018, p. 16), o filme Jules et Jim representou um rito de
passagem que fez deixar para trás o velho Milton, relutante entre seguir uma carreira
burocrática ou a carreira de cantor, e fez surgir o Milton Nascimento que viria a se
tornar um dos maiores artistas da Música Popular Brasileira de todos os tempos, com
reconhecimento não só nacional, mas também internacional. “Quem saiu do cinema
naquele dia mágico foi o grande artista que ele viria a ser” (MELLO, 2016, p. 17). O
autor também menciona que este foi um momento crucial para a existência do Clube
da Esquina, já que foi Milton Nascimento quem teve o papel principal na promoção da
ligação entre a “constelação” de músicos que tiveram parte na concretização dos
projetos de gravação do primeiro disco, bem como dos trabalhos de divulgação do
mesmo após a sua concretização. Para o autor, a conversão de Milton em compositor
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deu a ele uma autoridade que era reconhecida por todos os envolvidos no projeto do
Clube da Esquina, fazendo dele o líder ideal para aquela egrégia de artistas. Também
deu a ele a sensibilidade para perceber qual de seus amigos poetas, Márcio Borges,
Fernando Brant e Ronaldo Bastos, deveria receber a incumbência de produzir a letra
para determinada canção (MELLO, 2018, p. 17-18).

Da mesma forma em que identifica este momento no tempo (Jules et Jim)


como sendo o princípio de tudo, o elemento catalisador da existência do Clube da
Esquina, Mello identifica o reencontro entre Bituca e Márcio Borges em 1994 como
sendo uma espécie de fechamento de um ciclo da vida dos dois artistas. Para o Bituca
já consagrado e reconhecido internacionalmente por sua carreira como cantor e
compositor foi um momento de rever toda sua história e para Márcio Borges
significava, de certa forma, um retorno ao sentido daquilo que havia dado início a esta
história: o amor e a amizade que ligou as vidas de tantas pessoas e que resistiu até
mesmo à força do tempo e da distância para se reencontrar num momento distante
(MELLO, 2018, p. 19).

Após contextualizar no tempo o início da história do Clube da Esquina (Jules et


Jim, 1964) e delimitar também o que chamou de fechamento de um ciclo (Reencontro,
1994), o autor coloca-se no contexto da própria história que vem narrar ao dizer que o
Clube da Esquina já fazia parte de sua identidade antes mesmo de ouvi-lo pela
primeira vez. O autor então contextualiza que no ano de 1972 quando o disco foi
lançado o país passava por uma situação intensa de ditadura militar. Segundo ele,
neste momento, coisas extraordinárias aconteciam nas brechas e distrações da
censura, como a consolidação de movimentos culturais surgidos nos anos 50 e 60 bem
como o surgimento de novos, emergindo como reação espontânea ao sistema de
poder vigente que não só oprimia, como também tentava calar a voz da população e
de seus artistas. Em decorrência desta repressão, surgiu uma contracultura, com diz o
autor, que buscava através de atitudes como o deslumbramento e o escracho, se opor
como podia ao sistema de controle vigente. O autor não deixa também de lembrar que
no mesmo ano em que foi lançado o Clube da Esquina (1972), vieram outros discos
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considerados antológicos como Transa (Caetano Veloso), Águas de Março (Tom Jobim),
Expresso 222 (Gilberto Gil), A Dança da Solidão (Paulinho da Viola), dentre outros
(MELLO, 2018, p. 21-23).

Ponto importante de ser observado é a fala do autor em relação à paradoxal


riqueza cultural produzida nos tempos da repressão instaurada pela ditadura. O autor
lembra que havia uma criatividade espantosa que não se restringia à música mas
também alcançava a literatura, o teatro, o cinema e as artes plásticas. Ele comenta que
mesmo com o desenvolvimento tecnológico que vivemos na atualidade a produção
artístico-cultural de hoje não se iguala ao que foi possível assistir nas décadas de 1960
e 1970, quando apesar de toda a censura existente havia uma verdadeira explosão de
criação e produção de obras dignas de nota, tanto que perduram até os dias de hoje,
ao contrário de muitas produções instantâneas, feitas para um mercado imediatista,
cuja profundidade estética e poética não alcança nem de longe a grandeza musical e
semântica das canções daquelas décadas. Aqui o autor apresenta uma crítica ao
mercado fonográfico atual que parece ter reduzido a música a nichos muito específicos
como o da Axé Music e do Sertanejo Universitário que acabam por dominar este
mercado a despeito de exibirem ou não uma boa qualidade estética e musical (MELLO,
2018, p. 25-26) .

Voltando ao disco Clube da Esquina, o autor afirma que seu diferencial poético
e estético, naquele momento, trouxeram uma bem sucedida mistura que conseguia
englobar, a seu modo, diversos estilos musicais como o rock, a MPB e o Pop. Também
o fato de Milton Nascimento ter trazido Lô Borges para atuar consigo neste projeto
fizeram com que o disco Clube da Esquina se tornasse único até mesmo em relação á
diferenciação do estilo geral deste trabalho em comparação com outros trabalhos de
Milton Nascimento. A reunião destes amigos em torno de um projeto único fez com
que Clube da Esquina (1972) se tornasse um dos álbuns mais originais e relevantes da
Música Popular Brasileira até os dias de hoje (MELLO, 2018, p. 27-28).

O autor diz que embora o Clube da Esquina não se enquadrasse em nenhum


movimento específico como o da Tropicália ou da MPB, e não requeresse para si a
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denominação de movimento cultural, tinha no cerne de sua própria criação muito do
que estes movimentos pretendiam propagar como a luta contra a repressão e a busca
por objetivos nobres e a militância política. De fato, isto pode ser verificado no Clube
da Esquina, ainda que de forma implícita, através das letras de suas canções como
Tudo Que Você Podia Ser e Os Povos. De acordo com MELLO (2018), o Clube da
esquina “nasce num ambiente já semeado pela ideologia voraz do tropicalismo e se
beneficia de seu estímulo às possibilidades infinitas de miscigenação e influências”.

Comparando o Clube da Esquina e a Tropicália, MELLO (2018, p. 35-36) destaca


a diferença essencial existente entre os dois “movimentos”, utilizando para isto a
afirmação de Caetano Veloso extraída de Verdade Tropical (2008) em que Caetano
afirma ser o trabalho de Milton tão notável e tão diferente do dos tropicalistas,
chegando a ser o oposto deste em certos aspectos. O autor aproveita para pontuar
que o disco Araçá Azul (Caetano Veloso) foi lançado em 1973, um ano depois do Clube
da Esquina e no mesmo ano em que Milton lançou Milagre dos Peixes, disco no qual,
devido à censura, Milton teve que gravar diversas canções sem a letra original, tendo
que recorrer ao uso de vocalizações, falsetes, gritos, dentre outros recursos vocais
para que as canções pudessem ser produzidas. Além disso, Milagre dos Peixes contou
com a participação de diversos artistas notáveis que fizeram com que sua qualidade
não deixasse a desejar em termos de estética e sonoridade. Por outro lado, Araçá Azul
representou uma ruptura na carreira de Caetano Veloso, segundo o artista, necessária
para que ele pudesse reencontrar seu caminho após passar pela experiência da prisão
e do exílio.

O autor também pontua o fato de Milton Nascimento ter se decepcionado um


pouco com a falta de reconhecimento por parte de seus pares, já que ele havia sido
um dos poucos a permanecer no país na época da ditadura militar e enfrentar os
problemas que isto representava. Caetano, mais tarde, reconheceria que talvez tenha
faltado de sua parte um pouco de sensibilidade para saudar o amigo de uma forma
mais intensa, mas afirma que talvez não o tenha feito com a intenção de evitar a
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demagogia (MELLO, 2018, p. 38). MELLO conclui esta comparação entre os dois
universos dizendo que:

a Tropicália foi um movimento cujas referências e influências estão


coerentemente costuradas: da antropofagia de Oswald de Andrade,
passando pela poesia verbivocovisual dos patriarcas do concretismo
e seus descendentes, aos parangolés de Hélio Oiticica e ao teatro
orgiástico de Zé Celso, para me deter nas manifestações artísticas
nacionais. Ao passo que o Clube da Esquina era tangido
intuitivamente por seus membros tendo Milton Nascimento e Lô
Borges como figuras complementares, cujo encontro produziu uma
sonoridade inédita (MELLO, 2018. p. 40).

É interessante notar também a leitura que o autor faz da distinção entre a Tropicália e o Clube
da Esquina por meio das falas de seus agentes os quais, do lado da Tropicália, ao falarem de
seus projetos são minuciosos em suas análises, referindo-se de forma clara às influências, aos
elementos de formação e às propostas estéticas enquanto, do lado do Clube da esquina, os
sujeitos são mais genéricos e contidos, resumindo sua iniciativa como uma convergência feliz
de gerações, só possível naquele momento, naquele lugar e naquelas condições (MELLO, 2018,
p. 40). Por fim, o autor pontua que, talvez, o que Caetano afirmou ser o oposto da Tropicália
no Clube da Esquina seja o sincretismo cultural proposto pelo primeiro movimento.
Finalmente ele afirma que, talvez por isso mesmo, possa ser dito que tudo que apareceu
depois dele, inclusive o Clube da Esquina, tenham relação com o tropicalismo, ainda que seja
pelo contraste (MELLO, 2018, p. 41).

Em relação à sonoridade do Clube da Esquina, Mello afirma que esta tem sua
base:

Na miscigenação seletiva, a qual Milton Nascimento já insinuara em


seus discos anteriores, unindo elementos da bossa nova com a
vertente do jazz fusion expressa principalmente por Miles Davis,
Weather Report, Wayne Shorter e Herbie Hancock. A música de
Bituca, nesse momento pré-Clube, costura sua singularidade por
meio de uma sonoridade ao mesmo tempo estranha e familiar, feita
da união de acordes dissonatntes e uma linha melódica
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aparentemente simples em sua evolução. Acrescentem-se a parte
rítmica, que traz uma marcação mais seca, sem a malemolência do
samba urbano que deu sustentação à bossa nova/ e a voz única de
Milton Nascimento, com o timbre tenor nasalado e surpreendentes
agudos em falsetes (MELLO, 2018, p. 57).

No quinto capítulo do livro MELLO dá especial destaque ao lírico do Clube da Esquina ao


afirmar que em Para Lennon e McCartney há um verso que resume o espírito do Clube da
Esquina: “Sou do Mundo, sou Minas Gerais”, onde fica demarcado o território subjetivo e
conceitual do álbum e do movimento que surgiria anos depois. Não só este território ficaria
localizado no espaço físico do encontro das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro de Santa
Tereza, em Belo Horizonte, mas também num ponto imaginário do universo; “uma esquina
localizada na periferia do ocidente, onde um grupo de músicos e compositores se encontrara,
ao acaso das encruzilhadas, para lançar ao mundo a sua arte” (MELLO, 2018, p. 79).

MELLO também não deixa de destacar a importância de Márcio Borges, Fernando Brant e
Ronaldo bastos para a construção do conteúdo lírico das canções que, como letristas, coube a
eles o papel de gerar. De acordo com o autor a poesia do Clube da Esquina:

era impregnada de imagens poderosas, metáforas inesperadas e um


sentimento que não fugia à angústia daqueles dias. Era com
frequência uma poesia dura, com sabor de vidro e corte, e também
existencialista, vibrando num nível bem próximo ao lirismo dos
poetas marginais. Letras que falavam diretamente á minha geração.
Como afirma Márcio Borges, o Clube da Esquina foi um movimento
não porque seus sócios quisessem lançar um manifesto com
intenções estéticas precisas, mas porque, movidos pelo ímpeto da
juventude, pretendiam transformar o planeta em todos os aspectos
(MELLO, 2018, p. 93-94).

Considero o livro em questão uma boa leitura para quem deseja compreender um
pouco mais a respeito da história do Clube da Esquina, apesar de pensar que trata-se
mais de uma leitura complementar do que de uma definitiva, já que o texto se
aprofunda a respeito de algumas questões mas, pela própria brevidade do volume,
não dá conta de narrar uma série de eventos importantes para a formação e para a
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perpetuação da memória do Clube através dos anos. Por isso, aconselho os
interessados a lerem também o livro Os Sonhos Não Envelhecem, de Márcio Borges, A
Música de Milton Nascimento de Chico Amaral e Travessia: a vida de Milton
Nascimento, de Maria Dolores.

REFERÊNCIAS

Mello, Paulo Thiago. Milton Nascimento e Lô Borges: Clube da Esquina. Rio de Janeiro.
Cobogó, 2018, p.16.

Idem, p. 17.

Idem, p. 17-18

Idem, p. 19

Idem, p. 21-23

Idem, p. 25-26

Idem, p. 27-28

Idem, p. 35-36

Idem, p. 38

Idem, p. 40

Idem, p. 41

Idem, p. 57

Idem, p. 79

Idem, p. 93-94

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