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O Magic Caster da

9 Destruição
Ilustrações por so-bin
Aviso Legal:
Obra foi traduzida e revisada de fã para fã. Não venda, ou ganhe dinheiro sobre o traba-
lho de outrem.
Se puderem contribuir com a obra do autor, o faça!

Sobre:
Assim como o anime, a obra tem muitos termos em inglês para diversas armas, itens e
etc...
Tentei deixar isso, mas as vezes tem que generalizar, já que é maçante saber o que era
realmente para ser em inglês, ou não ser.
EX:
-O Ainz se refere a ele como “Magic Caster” e não “Mahou...” alguma coisa.
Porém, algumas ressalvas:
-Alguns sistemas de magias e artes marciais são escritos japonês, alguns eu mantive ro-
majizados, outros ficaram em português.
-Armas e armaduras têm nomes misturados, uns são em inglês, outros em japonês. Por
ser bem difícil de verificar um por um, deixei tudo em inglês;
-Algumas equipes de aventureiros têm nomes em inglês, outras em japonês, neste caso
depende. Umas eu deixei em inglês (pois foram escritas com essa intenção) e outras em
português.

Tentei remover o máximo possível de erros de português e concordância. Mas sou ape-
nas um e com certeza falhas podem acontecer. E claro, não sou especialista na língua
portuguesa para tal nível de proficiência linguística.
Se encontrarem algum erro, sintam-se à vontade para entrarem em contato :)

Créditos e Agradecimentos:
Créditos:
ainzooalgown-br.blogspot.com
Base:
Inglês - skythewood.blogspot.com
Referência de nomes:
Wikia - overlordmaruyama.wikia.com

Atenção: Se baixou este arquivo de outro link que não o oficial do blog. Ou se tem muito
tempo que baixou e deixou guardado, que tal dar uma conferida no blog? Talvez esta seja
uma versão desatualizada :)

Revisão: 2.6 | Versão: 4.9


Sumário
Prólogo........................................................................................................................................................... 5
Capítulo 01: Uma Guerra de Palavras ......................................................................................16
Parte 1 .................................................................................................................................................................................... 17
Parte 2 .................................................................................................................................................................................... 30
Parte 3 .................................................................................................................................................................................... 47
Parte 4 .................................................................................................................................................................................... 64
Parte 5 .................................................................................................................................................................................... 71
Parte 6 .................................................................................................................................................................................... 86
Capítulo 02: Preparações Para a Batalha.................................................................................93
Parte 1 .................................................................................................................................................................................... 94
Parte 2 ................................................................................................................................................................................. 117
Parte 3 ................................................................................................................................................................................. 137
Parte 4 ................................................................................................................................................................................. 154
Interlúdio ................................................................................................................................................. 172
Capítulo 03: Outra Batalha .......................................................................................................... 179
Parte 1 ................................................................................................................................................................................. 180
Parte 2 ................................................................................................................................................................................. 187
Parte 3 ................................................................................................................................................................................. 223
Parte 4 ................................................................................................................................................................................. 230
Capítulo 04: Massacre ..................................................................................................................... 237
Parte 1 ................................................................................................................................................................................. 238
Parte 2 ................................................................................................................................................................................. 254
Parte 3 ................................................................................................................................................................................. 273
Parte 4 ................................................................................................................................................................................. 283
Epílogo ...................................................................................................................................................... 303
Um Capítulo Novo em Folha ..................................................................................................... 311
Posfácio .................................................................................................................................................... 321
Ilustrações ................................................................................................................................................ 325
Glossário .................................................................................................................................................. 343
-Volume 09-
O Magic Caster da Destruição

Autor:

Maruyama Kugane
Ilustrador:

so-bin
Prólogo
ircniv Rune Farlord El-Nix — o governante inigualável do Império, e o jo-

J vem que era temido como o Imperador Sangrento — refletia sobre sua per-
formance impecável.

Ele estava confiante de que ele havia vencido seus colegas usando seu ca-
risma, que eles eram massa de manobra em suas mãos. Não deveria ter havido problemas.

A nobreza destacou-se com expressões de personalidade sem palavras. Isso era especi-
almente verdadeiro para o imperador, que havia sido educado dessa maneira desde a
sua juventude até o ponto em que ninguém seria capaz de enxergar através de sua fa-
chada. Para seus convidados, ele deveria ter parecido ser um jovem doce e gentil.

Era muito importante entender os oponentes.

Seria difícil coletar informações de alguém se a suspeita estivesse estampada em seu


rosto. No entanto, pode-se usar a confiança e a boa vontade como cordas para manipulá-
los, lentamente descascando as camadas da cautela que eles usavam, até que fossem ex-
postos diante de si mesmos. É claro que tais enganos estariam escondidos por trás de um
sorriso cavalheiresco que dizia: “Damos calorosas boas-vindas a vocês”.

E os oponentes do cavalheirismo de Jircniv eram um par de Elfos Negros, que haviam


invadido a Cidade Imperial nas costas de um Dragão.

Esta foi a primeira vez que ele conheceu indivíduos cujas aparências desmentiam seu
incrível poder.

O terremoto desencadeado pela garota que empunha um cajado havia exigido 117 vidas.
Destes, 40 tinham sido seus guardas reais, 60 tinham sido cavaleiros, 8 tinham sido magic
casters arcanos, outros 8 tinham sido magic casters divinos, e ainda mais um — uma lista
de mortes verdadeiramente assustadora.

Quanto aos cavaleiros, poder ficar de guarda no Palácio Imperial significava que eles
estavam entre os guerreiros de elite do Império, mas ele podia fechar um olho para suas
perdas. Se eles fossem classificados como aventureiros, alguém poderia classificá-los
como pertencente a prata. Devido aos extensos sistemas implementados para a educação
e formação de novos cavaleiros, estes números poderão ser facilmente reabastecidos no
futuro.

Em seguida estavam os guardas reais, as elites entre as elites. Era lamentável que me-
tade do seu número — cada um equivalente a um aventureiro classificado como ouro —
tivesse sido morto imediatamente. Eles estavam equipados com armas e armaduras for-
jadas e encantadas pelos muitos magic casters do Império, uma fortuna que valia mais
do que seu peso em ouro.

E então, houve a perda mais dolorosa — o último homem — um dos mais fortes cava-
leiros do Império, “O Intangível” Nazami Enec. Embora ele alegasse que estava apenas
imitando um estilo de luta que ele havia visto antes, sua técnica de dois escudos que en-
fatizava a defesa era o suficiente para ganhar o título de “O Cavaleiro Mais Durão”, isso
mesmo entre os Quatro Cavaleiros que eram os cavaleiros mais fortes do Império.

Neste mundo, onde a bravura de um poderoso guerreiro era mais valiosa do que a de
várias centenas de recrutas, a morte de tal guerreiro não poderia ser simplesmente des-
crita como a morte de um homem. No pior dos casos, pode até ser visto como um enfra-
quecimento do poder militar de todo o país.

Com toda a honestidade, Jircniv teria gostado de nada mais do que afugentá-los, mas ele
não poderia fazer isso contra oponentes que poderiam matar sem piscar um olho. Ele
não sabia se isso era apenas uma demonstração de força. Portanto, tudo o que ele podia
fazer era recebê-los com um sorriso.

Ainda assim, ele não os deixaria andar sobre ele. Os olhos de Jircniv estudaram atenta-
mente as duas crianças à sua frente, não permitindo que um único movimento ou gesto
escapasse de seu olhar.

Pode-se aprender muitas coisas até mesmo das mais mundanas das observações.

Os sentidos de Jircniv eram muito aguçados, e ele descobrira uma vez que um nobre
aparentemente leal, na verdade estava planejando secretamente com nobres hostis a ele,
muito parecido com farejar aromas de temperos. Agora, ele esforçou-se ao máximo para
detectar todas as pistas que poderia descobrir.

Ele estudou as roupas deles—

Ele estudou a aparência deles—

De todo modo...

Os emissários de Ainz Ooal Gown que vieram para o Palácio Imperial, dois Elfos Negros
ainda crianças, que eram extremamente atraentes. Ele não pôde deixar de pensar que,
quando crescessem, quebrariam o coração de muitos membros do sexo oposto.

Aqueles corpos pequenos e esguios, com suas expressões sempre mutáveis. Eles parecem
crianças simples e comuns, não importa como eu olhe para elas. Não sabendo de nada, seria
ridículo pensar que eles eram emissários de quem quer que seja.

Os emissários de um país — seus embaixadores — exigiam certas qualidades, uma das


quais era sua aparência pessoal. Fazer uma má impressão devido ao comportamento in-
digno de alguém seria um prejuízo para o próprio país.

Ainz Ooal Gown deveria ter entendido esse princípio. Sabendo disso, qual foi o motivo
por trás do envio de um par de Elfos Negros facilmente subestimados?
Jircniv sacudiu a cabeça enquanto refletia sobre o mistério.

Pelo que pude reunir até agora... deve ser uma demonstração de força. Ele envia embaixa-
dores facilmente subestimados e, em seguida, tenta me intimidar com esmagador poder
destrutivo. O grande contraste entre a primeira e a segunda impressões tem como objetivo
maximizar o impacto psicológico... mas se esse fosse o caso, se aproximar nas costas de um
Dragão diminuiria esse efeito? A presença formidável do Dragão anularia sua aparência
benigna... ou será que esses dois são os únicos adequados como emissários? Ou há outro —
maldito. Não consigo ler suas intenções. Eu não sei o suficiente.

Ele tinha várias teorias, mas elas desapareceram como lágrimas na chuva.

Minha primeira prioridade deveria ser aprender mais sobre a oposição. Sem essa base
para trabalhar, nada pode ser feito. Então, devo verificar os limites além dos quais eles
iriam se irritar. Seria um tolo quem permitisse que as negociações se quebrassem por ofen-
der a outra parte.

Primeiro, Jircniv teve que aprender o porquê eles tinham vindo a este lugar.

Os dois Elfos Negros tinham dito “O imperador desta nação mandou um bando de ca-
pangas rudes para a Grande Tumba de Nazarick”, e então eles instantaneamente mata-
ram mais de 100 pessoas no meio do pátio. Mas eles tinham provas disso, ou era apenas
uma suposição? Jircniv tinha que descobrir pelo menos isso.

Depois de considerar o que disseram, os “capangas rudes” em questão seria certamente


os Trabalhadores. Se fosse esse o caso, aquele que lhes dava ordens seria definitivamente
Jircniv. No entanto, havia vários graus de separação dele; O nome de Jircniv não deveria
sequer ter sido mencionado ao mesmo tempo que essas pessoas.

Como ele — Ainz Ooal Gown — viu seus planos? Ele precisaria ter uma atitude diferente
com eles.

Já que eles vieram como emissários, deve haver uma chance de obter alguma informação
deles. Até mesmo a menor ação poderia lançar alguma luz sobre seus planos.

Atrás dos dois estava um inimigo que permitira que eles invadissem outro país e intimi-
dassem seu líder com força total. Mesmo um pequeno erro aqui poderia significar a
morte para ele.

Ele não queria provocar outro terremoto.

Jircniv voltou sua atenção para a sala vizinha.

Deveria estar preenchida com guardas reais, e deveria haver mais guardas reais ao seu
lado. Mas hoje, ele não se incomodou. Isso porque, mesmo que ele tivesse colocado 50
guardas reais lá, eles não poderiam fazer nada além de morrer se tentassem lutar contra
esses dois. Assim, havia apenas outras cinco pessoas presentes para essa reunião.

Um deles era membro dos Quatro Cavaleiros Imperiais, “Relâmpago” Baziwood Pesh-
mel. Outro era o conselheiro mais confiável de Jircniv, Fluder Paradyne. Havia também
três escribas confiáveis.

Ele também ordenou aos guardas reais que cavassem as rachaduras no pátio.

Ele sabia que exumar os cadáveres era fútil, mas ele disse para eles fazerem assim
mesmo.

O Império não tinha ninguém que pudesse usar magias de ressurreição. Mesmo os aven-
tureiros do Império, classificados com adamantite, não tinham esse poder. O mesmo se
aplicava aos seus sacerdotes. Dos países vizinhos, talvez apenas o Reino Re-Estize e a
Teocracia Slane tinham domínio sobre essa magia.

Mesmo assim, ele ainda queria recuperar os corpos, porque era um desperdício deixar
seus equipamentos e itens mágicos serem perdidos com seus donos. Além disso, recupe-
rar os corpos e colocá-los em repouso preservaria o moral.

“Honorários emissários, vocês viajaram por toda parte para nos agraciar com sua pre-
sença. Porque não umedecem suas gargantas ressequidas? Nós preparamos alguns re-
frescos simples para você. Esperamos que experimentem algumas, se isso lhe agradar.”

Jircniv tocou um som e as empregadas que esperavam do lado de fora entraram silenci-
osamente na sala. Havia quase 20 empregadas, com bandejas de prata polida.

Após o árduo treinamento, essas empregadas deveriam ter se movido com sutileza e
beleza.

No entanto, até os passos dessas empregadas — que eram o orgulho e a alegria de Jirc-
niv — estavam um pouco confusos hoje.

Foi precisamente porque os seus movimentos tinham sido tão imaculados no passado
que as falhas agora se destacavam muito mais.

O que está errado? Elas entretiveram tantos dignitários no passado sem problemas; Por
que elas estão tendo problemas agora? Elas estão sob o efeito de algum tipo de magia?

Jircniv queria alcançar sob suas próprias vestes e pegar seu medalhão, mas resistiu à
vontade de fazê-lo. O medalhão era eficaz precisamente porque as pessoas não sabiam
que ele estava lá; se soubessem que ele possuía tal item, teria o efeito oposto.

Quando as empregadas vacilaram depois de olhar para os dois Elfos Negros, ele final-
mente encontrou o motivo de seus erros.
Aha, é por isso que... é porque elas são fascinadas pela aparência deles. Bem, não é como
se eu não entendesse... não, droga. Eu não devo me fazer de bobo.

Talvez ele devesse estar elogiando as empregadas em vez de apenas vacilar tanto diante
de tanta beleza.

Depois de deixar as bebidas e lanches, as empregadas se curvaram e saíram.

“Então, por favor, sirvam-se.”

“Hmmm~”

O Elfo Negro levantou um copo com uma expressão entediada no rosto.

Era facilmente um tesouro por si só, feito de cristal transparente estampado com dese-
nhos de requintada arte.

Jircniv não gostava particularmente de cristais decoradas como esses. No entanto, isso
não significa que ele não possua tais coisas. Até mesmo um simples utensílio de comer
usado para receber um convidado poderia ser usado para mostrar a glória do Império,
para que eles soubessem exatamente o quão importante eles eram para o Império.

O Elfo Negro tomou um gole da bebida.

Nenhuma hesitação em suas ações... ele não está atento contra veneno, ou ele tem magia
que o protege de tais coisas? Ou ele já sentiu que eu não tinha tais intenções? ...Ou é outra
coisa? Aquela garota também não parece preocupada.

“Isso não é particularmente saboroso. E também não tem efeitos especiais.”

As palavras do menino encheram Jircniv com uma nova emoção de terror.

Ninguém jamais dissera algo assim para ele, mesmo quando ele próprio era criança.

Quando a surpresa desapareceu, foi substituída por uma raiva moderada em seu cora-
ção — que menino rude. Mas é claro que Jircniv não era tolo o suficiente para deixar essa
irritação atingir seu rosto.

“Então, eu sinceramente peço desculpas.”

Jircniv sorriu para o menino e completou:

“Eu rezo para que você seja gentil a ponto de me esclarecer sobre sua bebida favorita,
para que eu possa preparar algumas para você em futuras visitas.”
...”Nenhum efeito especial” significa nenhum veneno? Ele acreditava que eu estaria ten-
tando envenená-lo desde o começo? O que ele quis dizer com isso?

“Não há como você preparar as bebidas que eu quero.”

“O-oneechan, v-você está sendo grosseira...”

“Oh? Eu fui?”

Onee-chan? É irmã dela? Então ele não é um menino, mas uma menina. Eles não são irmão
e irmã, mas apenas irmãs?

Quando a Elfa Negra disse isso, Jircniv começou a ver que realmente era uma menina.

Por que... vestir-se como homem... não, talvez ela quisesse se vestir com roupas que permi-
tissem a liberdade de movimento? As crianças da sua idade são meio andrógenas aparen-
temente. E se... o outro for um homem... não, dada a maneira como ela está vestida, não tem
como ela ser um. Ainda assim... a irmã mais nova é bem-comportada.

Jircniv pensou em trazer a moça com o cajado para o lado dele, ou pelo menos para
construir um bom relacionamento com ela, o que poderia beneficiar o Império. No en-
tanto, ele não tinha informações sobre eles e, portanto, ele não conseguia propor nada
de bom.

Para começar, ele não podia esquecer como essa garota “bem-comportada” havia mas-
sacrado muitos de seus homens. Pisando imprudentemente ao redor dela seria como en-
fiar a mão na boca de um Dragão adormecido.

Como eu pensava, eu não sei o suficiente sobre eles. Eu preciso descobrir mais o mais rá-
pido possível.

“Então, honrosos emissários, permitam-me apresentar-me mais uma vez. Eu sou o Im-
perador do Império Baharuth Jircniv Rune Farlord El-Nix. Estou certamente ciente do
nome nobre de Fiora-dono, mas posso perguntar sobre o seu?”

“Ah, eu-eu sou Mare Bello Fiore.”

“Meus mais profundos agradecimentos, Fiore-dono. Então, com referência ao que Fiora-
dono disse, especificamente “Ainz-sama está muito infeliz. Então, se você não se desculpar,
desintegraremos este país!”... Eu assumo que eu, como o presumível infrator em questão,
farei meu caminho para Nazarick?”

“Isso não é óbvio?”

Era uma resposta concisa, mas era gelada com um punhal de gelo.
A Elfa Negra chamada Aura não tinha calor em seus olhos desde o começo. Ela olhava
para as pessoas como se estivesse olhando insetos.

Então, uma pergunta.

De fato, eles tinham acertado o mandante, mas a questão ainda era quanto ele deveria
admitir, bem como a maneira pela qual eles tinham chegado a saber sobre o seu envolvi-
mento. Em circunstâncias normais, ele iria confundi-los com tagarelice e, em seguida,
enviá-los de volta antes de aprender mais sobre eles, mas ele não sabia se eles acredita-
riam nisso. No final, ele ainda precisava sentir seus limites, caso contrário, a situação se-
ria terrível para ele e para o Império.

“Então... estou certo em dizer que o Ainz Ooal Gown-dono ordenou pessoalmente que
vocês dois viessem aqui?”

“Sim, foi ele... mas e daí?”

“Nada, eu estava apenas me certificando.”

Jircniv afundou-se no pensamento.

Quem ou o que era Ainz Ooal Gown? Um Elfo Negro, uma tumba, um Dragão, nenhuma
das anteriores. Tinha que haver algum fator comum que ligasse tudo.

Seria ele um Elfo Negro que morou na Grande Floresta de Tob e se mudou para uma tumba
nas planícies? Então o Dragão seria o monstro de estimação do chefe tribal dos Elfos Negros,
Ainz Ooal Gown.

Jircniv dispersou suas teorias selvagens.

...Eu deveria deixar as histórias para os bardos. Meu trabalho é coletar informações e
aprender a verdade.

O que ele sabia agora era que o outro lado tinha uma maneira de obter informações
dentro do Império. Então ele tinha uma teia de espiões de longo alcance, ou...

Ainz Ooal Gown é uma pessoa que analisa cuidadosamente as informações. Então devo
confirmar isso.

“Ele ordenou que vocês viessem em um Dragão?”

“S-Sim, Ainz-sama nos disse para fazer isso.”

“Entendo... então foi isso...”


“O que pensa que está fazendo? Você virá pedir desculpas, ou não pretende fazer isso?
Se você não vem, diga de uma vez, assim dizemos ao Ainz-sama. Quando retornarmos
destruiremos seu país. É simples assim.”

Havia um ditado que dizia: “Não se pode ganhar os ovos de um Dragão sem entrar no covil
de um Dragão”. Isso significava que não se poderia obter grandes ganhos sem correr
grandes riscos.

Jircniv ouvira isso antes, e então se preparou para dar o próximo passo.

“Naturalmente, desejo expiar meus erros diante dele. Embora eu não tenha nenhuma
lembrança de mandar alguém para um lugar chamado Nazarick, é inteiramente possível
que um de meus subordinados tenha agido precipitadamente e independentemente de
minhas ordens. Sendo esse o caso, a responsabilidade final recai sobre o superior geral
— ou seja, eu mesmo.”

Do canto do campo de visão, ele viu os três escribas arregalando os olhos, enquanto
Fluder assentia em aprovação.

“Huh~ tudo bem. Então, vamos juntos.”

“Um momento por favor. Embora eu não tenha nenhum problema em sair agora, ainda
sou o governante deste país, e não posso simplesmente deixar a sede do poder de repente.
Talvez, se você pudesse me permitir dois, talvez três dias...”

Jircniv olhou para os rostos dos gêmeos para se certificar de que estava tudo bem antes
de continuar.

“—Para colocar os assuntos do estado em ordem antes de partir. Depois de acrescentar


tempo para resolver outros assuntos prementes e preparar as reparações para o Gown-
dono, acho que dez dias devem...”

“Dez dias? Isso é muito tempo, você não acha?”

“Com dez dias, certamente poderei preparar um presente apropriado. Uma oferta irre-
fletida seria apenas desrespeitosa com ele. Depois, há a questão de encontrar as partes
envolvidas. O Império é grande — a limpeza exigirá um período de tempo adequado.”

“Um presente, huh~”

Murmurou Aura. Ao lado dela, Mare começou a parecer desconfortável.

Entendo... eles estavam distraídos ao ouvir o assunto de um presente apropriado para o


Gown. Isso significa que eles reverenciam profundamente seu mestre. Eu devo ser capaz de
comprar algum tempo com isso.
Mas antes que Jircniv pudesse continuar, Aura falou primeiro.

Ela era toda sorrisos, e seu tom era de provocação.

“Estou brincando~ Ainz-sama apenas me disse para dizer a você para vir agora, mas ele
não disse exatamente quando. Então, “agora” é “o quanto você acha que precisará”.

Embora ele quisesse cuspir em Ainz Ooal Gown, que tinha visto através de seus planos,
ao mesmo tempo, ele também sentiu que seu oponente era um inimigo inteligente e
digno.

Então ele queria ver como eu reagiria à demanda de “agora”, então. Bem, Ainz Ooal Gown,
você é um negociador complicado. Só alguém bastante sábio para prever o caminho que
essa conversa levaria.

“Diga, você não vai dizer nada?”

Foi só depois de ouvir a voz fria de Aura que Jircniv percebeu que ele estava perdido em
seus pensamentos.

“Ah — ah, me perdoe. Eu estava apenas pensando no que preparar se não tivesse tempo
suficiente.”

“Huh~ bem, isso não importa. Então... você pode me dar uma resposta? Quanto tempo
até que possamos esperar que você venha a Nazarick?”

“Apenas isso...”

Jircniv ignorou a provocação de Aura e continuou:

“Todos os preparativos considerados, acho que poderei fazer uma visita em cinco dias.”

“Saquei. Então, informaremos ao Ainz-sama. Ah, isso me lembra de algo, devemos ajudá-
lo a desenterrar os caras enterrados vivos lá fora? Apesar que...”

Aura bateu palmas e seu sorriso era malicioso demais para ser infantil.

“...Eles podem ter acabado como um sanduiche de senbei, um recheado com carne mo-
ída. Isso pode ser um pouco difícil de consertar.”

Jircniv continuou sorrindo, porque o objetivo da oposição agora era transparente até
demais.
As pessoas revelaram sua verdadeira natureza em momentos de grande emoção. Então
eles devem ter tentado provocá-lo para ver qual reação resultaria. Jircniv usara essa téc-
nica durante as negociações, e a melhor maneira de lidar com esse tipo de coisa era não
se permitir ser atraído.

“Então, agradeço sua ajuda. Contarei com vocês.”

Depois de ver a decepção no rosto de Aura, Jircniv se permitiu sorrir honestamente pela
primeira vez.
Capítulo 01: Uma Guerra de Palavras
Parte 1

eis carruagens de luxo corriam pelas planícies.

S O movimento delas era surpreendentemente estável apesar do fato de es-


tarem galopando sobre o chão gramado.

Primeiramente, as rodas de cada carruagem eram itens mágicos chamados Rodas Con-
fortáveis. Além disso, o chassi das carruagens também havia sido tratado com a magia
「Lightweight Cargo」 que diminua o peso dos objetos.

Essas carruagens inacreditavelmente magníficas demandavam um preço surpreen-


dente, mas tão surpreendentes eram as criaturas que as puxavam. As feras mágicas de
oito patas pareciam cavalos e eram conhecidas como Sleipnirs.

Calcular o custo exato de colocar seis desses veículos era um exercício de tolice.

Estes veículos — longe do alcance dos meramente ricos — foram escoltados por um
grupo de cavaleiros montados em cavalos poderosos.

Havia mais de 20 desses cavaleiros, cada um trajando cotas de malhas, armados com
espadas longas na cintura enquanto carregavam balestras e aljavas nas costas.

No entanto, uma mulher cavalgava liderando todos esses homens.

Sozinha entre todos esses guerreiros, ela usava uma armadura pesada de placas. Ela não
carregava uma lança de cavalaria, mas uma lança do tipo que um soldado de infantaria
usaria. O visor de seu elmo estava levantado, mas o lado direito de seu rosto estava co-
berto por algum tipo de pano dourado, o que a fazia parecer bem estranha.

Embora este bando de cavaleiros fosse o próprio retrato de guerreiros mercenários,


seus movimentos disciplinados e suas palavras curtas e precisas não eram nada como o
de um mercenário comum. Seus olhos estavam aguçados e mantinham um alto nível de
alerta.

Alguns poderiam considerar sua cautela em planícies escancaradas para ser uma forma
de paranoia ou covardia, mas em um mundo onde a magia era real e monstros perambu-
lavam por todos os lugares, até estar em guarda contra tudo o que podiam ver não era
suficiente para garantir sua segurança.

Havia aranhas gigantes que podiam sobreviver por meses sem comer ou beber en-
quanto espreitavam suas presas, monstros impuros que se assemelhavam a massas de
neblina que deslizavam pelo ar, lagartos venenosos com olhares petrificantes que se pre-
cisava fugir a todo custo se fossem encontrados em terreno aberto.
Eles estavam todos no limite porque estavam cautelosos com monstros, com forças tão
mortais. No entanto, os mercenários normais não chegavam a esse ponto de alerta.

O que os diferenciava dos meros mercenários eram as pessoas invisíveis no ar. Eles
eram um bando de cavaleiros aéreos que estavam mantendo o ritmo com os cavaleiros
no chão, sob os efeitos da magia da invisibilidade.

Havia criaturas chamadas Hippogriffs neste mundo. Eles nasceram do acasalamento de


um Griffin e de uma égua, e esses animais mágicos tinham a metade dianteira de um Gri-
ffin e os quartos traseiros de um cavalo. Talvez fosse por causa de seu sangue misto, mas
os Hippogriffs eram mais fáceis de serem criados e treinados que os Griffins, e eles eram
muito populares como montarias voadoras.

E então, havia os cavaleiros dessas feras para considerar.

Criaturas voadoras — mesmo se fossem monstros — tinham um preço extremamente


alto se fossem colocadas no mercado. Eles não eram algo que os simples mercenários
pudessem pagar.

De fato, toda essa atuação de ser mercenários era uma fachada destinada a enganar vá-
rias pessoas.

As verdadeiras identidades dos que viajavam no terreno na verdade eram a guarda real
do Imperador, já os que estavam no ar estavam equipados com itens mágicos extrema-
mente caros e se escondiam em véus de invisibilidade enquanto seguiam as forças ter-
restres; as elites da Guarda Real Aérea.

Claro, isso significava que o dono das carruagens não era outro senão o governante do
próprio Império Baharuth, o Imperador Jircniv Rune Farlord El-Nix.

Havia várias razões pelas quais ele havia disfarçado sua unidade assim, mas a maior
delas era porque o Imperador e seus cavaleiros percorrendo abertamente o território do
Reino — violando suas fronteiras — causariam um incidente internacional, e isso não
poderia acontecer. Como tal, o exterior das carruagens era mais claro que o interior —
embora ainda fosse mais luxuoso que carruagens comuns.

Nesse comboio, a segurança em torno da terceira carruagem da traseira — a carruagem


de Jircniv — era mais severa do que a das outras.

Até mesmo o teto de sua carruagem — originalmente uma área de transporte de carga
— havia sido reformado e agora havia dois arqueiros escondidos entre as bagagens.

O interior da carruagem era supremamente devasso. A julgar pela mobília sozinha, era
mais semelhante a uma suíte móvel de alta classe do que uma carruagem simples, desde
o estofamento aveludado nas paredes e no chão até os assentos macios e confortáveis,
que tinham sido projetados para não causar nem o menor desconforto em viagens longas.
Apenas três pessoas tiveram permissão para compartilhar esse transporte luxuoso com
Jircniv, o que significava que um total de quatro pessoas ocuparam o espaço da cabine.
Embora a idéia de quatro pessoas se espremendo em uma única carruagem parecesse
restritiva e desconfortável, essa era apenas a imaginação desinformada daqueles que
nunca haviam andado em uma carruagem de primeira classe antes. Na verdade, todos os
quatro tinham espaço adequado para si.

♦♦♦

“—Vossa Majestade, Vossa Majestade, talvez seja hora de acordar?”

A voz agitou Jircniv de seu cochilo.

Ele beliscou o dorso do nariz com o polegar e o indicador, e bocejou, seguido por um
grunhido quando se esticou. Alívio fluiu através dele quando seu corpo rígido se soltou e
ele bocejou novamente.

“ Vossa Majestade, parece que o senhor teve um bom descanso, mas o senhor ainda está
cansado?”

Jircniv sacudiu a cabeça para o homem que o acordara, o secretário Loune Vermillion,
que fora autorizado a andar na mesma carruagem que o Imperador.

“Ah, não, não é nada disso. Eu ainda preciso de um tempo para limpar minha mente,
estou me sentindo melhor agora. Embora, eu não tenha cochilado assim por muito tempo.
Eu acho que eu era criança da última vez que fiz isso, não? Afinal, há toda uma montanha
de negócios inacabados na capital, e eu nunca tive tempo a perder com esse tipo de coisa...
mas agora que comecei essa jornada, descobri que não tenho mais nada a fazer. É a pri-
meira vez que sinto vontade de agradecer ao Gown.”

“Ah, de fato, o senhor está sempre ocupado, mas por que, Vossa Majestade?”

O homem que falou como se não estivesse se dirigindo ao Imperador era o líder dos
Quatro Cavaleiros Imperiais, Baziwood.

Normalmente, essas palavras teriam sido censuradas, mas ninguém na carruagem disse
nada.

Jircniv sorriu amargamente e respondeu ao seu subordinado excessivamente informal,


mas ainda assim excelente soldado:

“A culpa disso pode ser atribuída aos pés do Imperador Sangrento, porque suas refor-
mas foram feitas com muita rapidez para que todos os alcancem. Ele é verdadeiramente
um homem tolo. Tanto esforço poderia ter sido poupado se ele tivesse esperado e acu-
mulado um corpo de pessoas competentes antes de agir. Você deve ralhar com ele
quando tiver a chance. Ah, mas lembre-se de que, quando fizer isso, você deve sugerir
um curso de ação apropriado para ele também.”

Todos na cabana sorriam como Jircniv.

Originalmente, a administração do Império foi deixada para os nobres — em particular,


os nobres da corte. Somente aqueles nascidos em dinheiro podiam pagar a educação
desde o nascimento, e uma das razões era também um interesse na situação.

No entanto, devido à expulsão dos nobres por Jircniv, a quantidade de funcionários e


burocratas foi reduzida, mas o trabalho que eles tiveram que fazer aumentou em vez
disso graças a suas reformas. Embora isso fosse uma consequência lógica de tais ações,
significava que a carga de trabalho de todos os envolvidos aumentara de forma explosiva,
e o próprio Jircniv não era exceção.

Mantendo seu nome como o Imperador Sangrento, ele havia eliminado muitos nobres
inúteis. No entanto, foi somente após o fato de que ele percebeu que até mesmo esses
indivíduos sem valor tinham seus usos.

Ainda assim, ele não se arrependeu de sua decisão.

Ele teve que carregar seu próprio expurgo quando ele o fez. Se ele tivesse perdido sua
chance, a autoridade para comandar os cavaleiros teria sido despida dele pelos nobres,
e a morte de seu pai teria sido sem sentido.

E assim ele realizou seu expurgo e abriu um caminho para o futuro do Império.

As mulheres tiveram que suportar a dor para dar à luz uma criança. Da mesma forma, a
vasta quantidade de trabalho que ele fazia todos os dias era uma dor necessária que ele
tinha que suportar para dar à luz um Império radiante e renascido. Assim, uma vez que
ele vencesse a dificuldade que estava à sua frente agora, ele obteria o tesouro que ele
procurava.

Essa linha de pensamento trouxe o tópico de seus próprios descendentes para a mente
de Jircniv.

Jircniv não era casado, mas já tinha filhos. Ele ainda não havia contratado sua imperatriz
consorte, embora tivesse algumas mulheres que eram mais cortesãs do que concubinas,
com as quais ele havia criado descendentes.

Infelizmente, ele não amava essas crianças, mas esperava que um de seus filhos se mos-
trasse adequadamente talentoso.

Isso porque, no futuro, se os filhos de sua imperatriz fossem incompetentes, ele mudaria
alegremente seus lugares na sucessão com um descendente capaz de suas cortesãs.
“Mesmo assim, trabalhar por conta própria sobre as tarefas do governo não é o curso
que uma nação deveria seguir. Se ao menos eu pudesse treinar um quadro de funcioná-
rios que pudessem assumir essas tarefas em breve... isso me deixaria voltar a emitir pro-
nunciamentos amplos, como os imperadores da antiguidade. E eu certamente não quero
que meu filho, o próximo Imperador, tenha que sofrer como eu sofri. Afinal, se meus des-
cendentes estão sobrecarregados, eles amaldiçoariam meu nome.”

O atual Império havia sido construído pelo trabalho de uma geração de pessoas exce-
lentes, ou melhor, gerações de homens talentosos haviam estabelecido o alicerce estável
sobre o qual Jircniv havia construído uma magnífica estrutura. No entanto, isso não ga-
rantia que o próximo imperador ou o que viria depois dele fosse igualmente talentoso.

Jircniv não disse isso em voz alta, mas queria encontrar um sistema que pudesse con-
duzir a nação sem problemas, desde que as pessoas tivessem um certo grau de compe-
tência.

“Isso seria muito difícil. Afinal, Vossa Majestade é um governante absoluto, e você não
pode administrar o país da maneira que os antigos imperadores faziam.”

“Vermillion, seu trabalho é encontrar uma maneira de alcançar meus objetivos. Claro
que possuo poder absoluto. Todos os imperadores do passado trabalharam para concen-
trar os poderes da nação em seu ofício. No entanto, mesmo que eu seja um ser supremo,
seria errado microgerenciar os assuntos do estado. Se isso acontecesse, então, que utili-
dade seriam os burocratas? Talvez você tenha perdido a cabeça.”

“No mínimo, ele não teria deixado na Academia Imperial de Magia, Vossa Majestade.”

Essas palavras foram proferidas por Fluder Paradyne, um dos membros mais antigos da
Academia Imperial de Magia e também membro do mais alto escalão do Ministério da
Magia. A implicação era que sua academia não teria criado um tolo.

“Haha, sim, você está certo, Velhote.”

Jircniv tossiu suavemente e, com isso, o clima dentro da carruagem ficou sério.

“Na minha geração, o Império retornou à sua juventude, como uma criança recém-nas-
cida. Vamos expulsar o que é velho e apodrecido e substituí-lo pelo novo. Como Vermil-
lion disse, eu terei que trabalhar arduamente até que o Império amadureça, mas se nunca
crescer, isso seria desastroso. No futuro, vou apenas definir metas gerais para o Império,
e os burocratas e generais abaixo de mim ajudarão a tornar essas metas realidade.”

Um país governado por um único autocrata seria muito fraco. Jircniv sabia muito disso.

Loune abaixou a cabeça — cujo cabelo estava grisalho e fino em contraste com sua idade
— em reconhecimento.
“O Imperador da próxima geração... falando nisso, o senhor teve um filho com aquela,
Vossa Majestade?”

Jircniv instantaneamente sabia quem Baziwood queria dizer com “aquela”. Afinal, Jirc-
niv sabia que Baziwood pensava muito bem em uma de suas cortesãs.

As cortesãs de Jircniv foram selecionadas por sua aparência ou pelo status de seus pais,
mas uma mulher entre elas ignorou esses critérios. Esta mulher foi a única que foi esco-
lhida por seu intelecto, e não por sua aparência ou por sua criação. Assim, ela foi autori-
zada a compartilhar suas opiniões políticas com Jircniv — embora não em público e ape-
nas na cama — e ela era a única mulher que ele permitia tais liberdades.

No começo, ele não pretendia levá-la como uma concubina, mas as coisas acabaram as-
sim por sua própria insistência.

Jircniv, no entanto, teria ficado feliz se ela se tornasse sua imperatriz consorte.

“Não, isso não é o que ela deseja. Ela foi tão longe a ponto de dizer: “A aparência é um
tesouro com o qual você nasceu, e para aqueles que ocupam os altos escalões da sociedade,
isso é uma característica muito importante. Pode-se compensar a falta de intelecto com
árduo trabalho ou excelentes subordinados, mas a aparência não pode ser alterada.” Ou
algo assim.”

“A linhagem de Vossa Majestade não garantirá que qualquer criança de sua união seja
agradável de se ver? Bem, é verdade que qualquer um de seus subordinados ficaria mais
feliz em receber ordens de um imperador de boa aparência.”

“Então esse é realmente o caso?”

Jircniv não tinha superiores e não tinha como se relacionar com essa situação. De sua
parte, ele usaria uma pessoa capaz, independentemente de quão feias elas fossem, e até
mesmo daria a elas uma posição chave, se necessário.

“No mínimo, seria melhor do que ter que olhar para algum sapo. Afinal, Vossa Majestade
não preferiria que uma mulher linda requebrasse os quadris em cima de você, ao invés
de uma feia, correto?”

“...Bem, sim. Eu meio que entendo, mas esses dois exemplos realmente podem ser com-
parados?”

Jircniv inclinou a cabeça. Algo parecia estar fora daqui.

“Então, Vossa Majestade deu alguma idéia de quem ele vai se casar?”

A pergunta de Fluder fez Jircniv franzir as sobrancelhas.


“Bem, se eu tivesse que escolher entre casar com alguém de dentro do país ou fora do
país, eu teria que ir com o segundo. Neste momento, não há benefícios em se casar com
uma nativa, então restaria se casar fora do Império... bem, há aquela mulher ridícula que
me recomendaram.”

Fluder acariciou a barba.

“Princesa Renner?”

Jircniv assentiu com amargura.

Ela era a terceira princesa do Reino Re-Estize — Renner Theiere Chardelon Ryle Vaiself.

Ela era conhecida como a “Dourada”, uma princesa cuja reputação se baseava em sua
aparência, mas por vários anos ela se classificou em primeiro lugar na lista de mulheres
que Jircniv mais desprezava. Em contraste, o tipo de mulher que ele mais preferia seria
alguém como a Prefeita Kabelia, que administrava a cidade de Peibart nas Cidades-Esta-
dos de Karnassus.

“Eu não tenho idéia do que aquela mulher está pensando. Depois de ouvir sobre suas
ações, é quase como se ela falhasse porque queria falhar. Tudo parece errado para mim.”

Essas pessoas não deveriam existir.

Isso foi o que ele pensou, mas ele reconheceu que os seres humanos eram estranhos e
complexos o suficiente para que ele não pudesse descartar a possibilidade de tais casos.
Então, se ela realmente planejava fracassar desde o começo, qual era o seu objetivo?
Quanto mais ele tentava entender o modo de pensar de Renner, mais ele se sentia como
se estivesse sendo enredado em uma teia de aranha. Foi um sentimento completamente
desagradável.

“...Se apenas alguém pudesse me ajudar a matar aquela mulher nauseante.”

“Vamos contratar os Ijaniya imediatamente, se é isso que Vossa Majestade deseja.”

“Ijaniya” foi um grupo de assassinos que assumiu o nome de um dos Treze Heróis para
si. Residiam entre o canto nordeste do Império e a Aliança Cidade-Estado de Karnassus,
e usavam técnicas incomuns. Embora ele tenha tentado colocá-los sob sua asa como um
departamento de operações secretas, eles não haviam respondido às propostas do Impé-
rio.

“Chega disso, é melhor deixar essa mulher transmitir suas intuições revolucionárias
para nós. Deixá-la viver seria melhor do que matá-la... Hm. Aquela mulher levou em conta
esse desenvolvimento também?”

“Alguém poderia ter planejado tantos passos no futuro?”


“Quem sabe...”

Disse Jircniv, mas mesmo quando deu essa resposta, ele teve que admitir que era uma
possibilidade.

As palavras de Renner eram transmitidas para Jircniv através de seus espiões no Reino.
As políticas que ela propôs muitas vezes deixavam Jircniv pasmo de admiração. Quando
ele as adotou dentro do Império, os resultados alcançados foram um sinal de quão admi-
ráveis eram as políticas de Renner.

Seria uma perda ao Império se algo acontecesse com ela.

A precisão das sugestões de Renner para o Reino fez com que ele se perguntasse se ela
havia antecipado os movimentos do Império. Se isso fosse verdade, significava que Ren-
ner poderia prever os planos do Império sem olhos ou ouvidos no local e, em seguida,
manipulá-los habilmente.

Por essa razão, até mesmo Jircniv, que cobiçava a força do Capitão Guerreiro Gazef para
Império, não conseguiu se obrigar a desejá-la.

“O Reino não será indevidamente prejudicado, mesmo que a Princesa morra, mas, pelo
contrário, o Império estará acabado se Vossa Majestade morrer. Nós, os Quatro Cavalei-
ros, poderemos lidar com assassinos, mas outros fatores são completamente diferentes,
então eu espero que Vossa Majestade não mergulhe profundamente em seu trabalho.”

“Claro. Não importa a razão, não posso me permitir morrer antes que um governo forte
tenha sido formado para o Império.”

A perda da liderança de uma organização autocrática levou a possibilidade de a própria


organização entrar em colapso logo em seguida.

O Império pode se tornar uma grande nação no futuro. Qualquer um que tenha perce-
bido isso certamente pagaria qualquer preço para evitar essa ascensão, matando o Im-
perador. Os suspeitos mais prováveis para isso eram os países vizinhos, como o Reino e
a Teocracia.

Parte da razão pela qual ele queria Ijaniya sob sua asa era para que eles pudessem ser
usados como contra-assassinos.

“Isso mesmo, se Vossa Majestade perecesse, as coisas seriam problemáticas. Nós temos
magic casters divinos em prontidão para evitar veneno e ferimentos, mas no final, ainda
não temos pessoal qualificado suficiente para esses deveres. Eu gostaria que meu traba-
lho nesse campo fosse mais extenso, mas minha compreensão da magia divina ainda é
inadequada para a tarefa.”
“Bem, você já é um excelente assistente, então uma pequena fraqueza como essa não é
te todo o mal. Oh, sim. Pedimos a ajuda da Teocracia, mas não recebemos nenhuma res-
posta deles. Por que não deixar os templos dos Quatro Deuses e as religiões menores
competirem uns com os outros? Então deixe o Império apenas observando, veremos qual
será a fé que produz os melhores resultados.”

A competição era a força motriz para o desenvolvimento de novas técnicas. No entanto,


a menção a isso fez Loune sacudir a cabeça violentamente, jogando o cabelo esparso na
testa.

“É muito perigoso. Os templos do Império são apoiados por doações da população e per-
manecem independentes vendendo vários produtos que só eles sabem fabricar. Se o Im-
pério exercer alguma influência indevida sobre eles ou interferir em seus meios de sub-
sistência, eles certamente ficariam descontentes.”

“Isso é verdade... se pudéssemos assumir o controle dos vários templos, o Império se


tornaria mais forte. Nesse aspecto, a Teocracia fez um excelente trabalho. Eles devem ter
feito isso várias centenas de anos atrás. Eu me pergunto, como eles fizeram isso?”

“A prática da magia divina está intimamente ligada à saúde de todos, então eu acho que
seria uma boa idéia se pudéssemos ter mais magic casters divinos como cavaleiros, ou
pelo menos ensinar aos cavaleiros como usar a magia divina. Se infiltrar e atacar mons-
tros com espadas só produz baixas.”

Baziwood era um homem que tivera que caçar monstros no passado e passara a maior
parte do tempo à beira da morte. Ele assentiu e continuou em um tom baixo.

“Pessoalmente, eu me sentiria mais seguro se pudesse contar com a magia da ressurrei-


ção. Com isso, não teríamos que lamentar a perda de jovens talentosos. Embora eu tenha
ouvido que a magia da ressurreição drena a energia vital, e as pessoas comuns serão re-
duzidas a cinzas se alguém tentar ressuscitá-las. Isso é verdade?”

Fluder moveu seu corpo para frente.

Talvez esse velho tivesse sido o tutor do imperador por muito tempo, ou talvez porque
seu assunto favorito de magia tivesse surgido, mas agora, ele estava falando animada-
mente, com os olhos brilhando. Jircniv sabia que o velho iria divagar assim que come-
çasse a falar sobre esse assunto, e ele revelou um olhar cansado no rosto que só Baziwood
e Loune notaram.

“Isso é um fato. Entre as magias divinas do quinto nível, a magia da ressurreição 「Raise
Dead」 consome vastas quantidades de força vital. Talvez as magias de ressurreição de
níveis mais altos possam reduzir a quantidade de força vital que se perde... mas ninguém
pode usá-las, de modo que é meramente acadêmico. Então, novamente, ouvi dizer que os
Dragonlords e sua antiga magia poderiam ressuscitar os mortos sem a perda de qualquer
força vital—”
“—Então a Rainha do Reino Dragonic poderia realizar tais feitos?”

“Uma excelente pergunta, Vermillion. De fato, foi confirmado que a rainha daquele país
herdou a habilidade de usar o que chamamos de magia antiga, ou magia primitiva, ou
talvez a magia da alma. Existem muitos nomes para esse tipo de magia. Isso ocorre por-
[S ob er ano Dr agão B r i l h a n t e ]
que o sangue do o Brightness Dragonlord flui dentro de suas veias — isso é certo. No
entanto, se ela pode ou não usar a magia da ressurreição, ainda é desconhecido. Magia
antiga e nosso estilo atual de magia são completamente diferentes uns dos outros, e nós,
que só podemos usar magia moderna, nunca poderemos entendê-la.”

Fluder fechou a boca e, ao mesmo tempo, Jircniv olhou para ele. Embora irritação e pre-
ocupação fossem evidentes no rosto de Jircniv, as próximas palavras de Fluder o deixa-
ram à vontade.

“Magia antiga... como eu quero pesquisar isso. Se apenas aqueles com o sangue do Bri-
ghtness Dragonlord podem usá-la, então o pedigree é a coisa mais importante. Portanto,
eu sinto que se Vossa Majestade deseja casar, ele faria bem em selecionar aquela Rainha
ou um de seus parentes...”

“Dá um tempo, Velhote... eu não estou interessado em bruxas velhas que fingem ser jo-
vens...”

Ele nem queria pensar em se casar com a mulher que ocupava o segundo lugar em sua
lista das mulheres mais odiadas. Além disso, mesmo que ele não ame sua prole, seria
cruel demais tê-los apenas para transformá-los em espécimes de pesquisa.

Mesmo assim, se ele tivesse que pesar aquele ato de crueldade contra os benefícios que
o Império colheria de cometer, não havia como dizer qual curso de ação ele escolheria.

Nesse momento, uma forte batida veio da porta da carruagem.

Esta carruagem fora projetada para se defender contra a magia do tipo adivinhação, o
que significava que ela estava totalmente fechada em placas de metal e nem possuía ja-
nelas. Baziwood se levantou e abriu a porta para espiar fora — ou melhor, a pessoa que
havia batido na porta.

Embora estivessem cercados por cavaleiros que os protegiam e ele tinha certeza de que
essa pessoa era amistosa, ele não pôde deixar de ficar de guarda por precaução.

“Vossa Majestade, é a Leinas.”

“Abra a porta.”

O ar fresco das planícies fluía quando a porta se abriu completamente, soprando através
do cabelo de todos dentro. Durante esta estação, o ar que vinha do exterior devia estar
frio, mas a brisa que atingia as pessoas lá dentro estava confortavelmente quente. Escu-
sado será dizer que este foi o resultado da magia usada nesta carruagem.

A mulher que acompanhava a carruagem era a mulher que estava à frente da formação
anteriormente.

“Perdoe-me, majestade. Há—”

Era difícil distinguir as palavras por causa do vento entre elas.

“Não tem como conversar. Entre, não faça cerimônias.”

“Entendido. Então me permita essa intrusão.”

Com isso, ela saltou graciosamente do cavalo e pousou elegantemente na porta da car-
ruagem em movimento. Embora ela fizesse parecer simples, dado que ela estava usando
uma armadura completa e que tanto seu cavalo quanto a carruagem estavam se movendo
a todo galope, era prova de que ela tinha uma habilidade atlética considerável.

Ainda assim, isso era de se esperar de um dos Quatro Cavaleiros que eram o orgulho do
Império. Entre eles, ela tinha a maior habilidade ofensiva. Seu nome era Leinas Rock-
bruise, também conhecida como “Explosão Pesada”.

Depois de se transferir para a carruagem, Leinas fechou silenciosamente a porta e sen-


tou-se ao lado de Baziwood. A última coisa que viram como o mundo exterior foi fechado
foram as rédeas do cavalo de Leinas sendo tomadas por um dos cavaleiros que cavalga-
vam ao lado dela.

Como a magia da carruagem só aqueceria o ar que entrava nela, qualquer coisa fria que
entrasse continuaria assim. Considerando que Leinas estava vestindo um traje completo
de armadura de placas que tinham sido resfriadas pelo vento cortante do lado de fora,
ela era como um bloco de gelo quando se sentou ao lado de Baziwood, que não pôde
deixar de tremer.

“As pessoas que enviamos à frente nos contataram usando 「Message」.”

Uma das defesas oferecidas por esta carruagem foi a interferência contra a magia do
tipo adivinhação do lado de fora. Apesar de impedir que o inimigo os encontrasse com
magias, também bloqueava magias como 「Message」, então era seu dever repassar o
conteúdo recebido a Jircniv.

“Os batedores chegaram a Grande Tumba de Nazarick. Parece haver uma cabana na-
quele local, depois informaram que as empregadas aguardam a hora da chegada de Vossa
Majestade. As empregadas responderam que haverá uma saudação de boas-vindas à es-
pera de Vossa Majestade.”
“Empregadas? Eu pensei que era uma tumba... mas empregadas? Empregadas... poderia
ser? Eu ouvi que alguns países enterravam empregadas com seus reis mortos para servi-
los na vida após a morte. Foi isso que aconteceu aqui? Ou isso significa que as Elfas Ne-
gras que deixaram a floresta fizeram dessa tumba sua nova casa?”

“Lamentavelmente, o conteúdo que recebi não continha mais detalhes, Vossa Majestade.”

“...Eu não consigo entender nada. A floresta não é um reino humano, então não há histó-
ria sobre isso também... Bem, eu gostaria de esperar que as empregadas não sejam mons-
tros como os que vieram para a capital. Diga ao nosso pessoal para ter cuidado.”

“É como Vossa Majestade diz. A julgar pela força desses emissários, estamos provavel-
mente indo para uma situação completamente desconhecida. Nós seríamos melhor ser-
vidos por cautela. Além disso, espero que Vossa Majestade venha rapidamente para o
meu lado, caso algo inesperado venha a acontecer.”

“Por isso, você quer dizer que nos teleportaremos em caso de emergência?”

O leve sorriso de Fluder foi uma resposta afirmativa.

“Se isso acontecer, lutaremos para atrasá-los. Não importa quantos inimigos cheguem a
nós, no mínimo poderemos comprar a Vossa Majestade algum tempo para fugir.”

Baziwood disse isso com um sorriso, mas sua camarada Leinas não respondeu nada. Em
vez de concordar sem palavras, uma forma de desaprovação ficou imediatamente visível
em seu rosto. No entanto, os outros ao seu redor não disseram nada.

Afinal, ela nunca jurara lealdade a Jircniv oficialmente, apesar de sua posição nos Quatro
Cavaleiros. A verdade era que servir Jircniv era o curso de ação mais lucrativo para ela.
Se alguém aparecesse que pudesse conceder seus desejos, ela abandonaria imediata-
mente sua posição atual.

Em outras palavras, ela era a menos fiel a Jircniv entre os Quatro Cavaleiros.

Os Quatro Cavaleiros foram selecionados apenas com base em sua capacidade de lutar
e não em sua personalidade ou lealdade. Mesmo assim, não havia mais ninguém cujos
motivos fossem tão mercenários quanto os dela.

A única razão pela qual ela estava aqui era porque um dos Quatro Cavaleiros precisava
ficar na Capital Imperial em todos os momentos. O escolhido para isso seria o “Vendaval
Feroz”, Nimble Ark dale Anock, por ser inescapável. Como o “Intangível” não estava por
perto, Nimble seria o único capaz em seu lugar.

“Perdoe minha grosseria.”


Leinas retirou um lenço do bolso do peito e segurou-o no lado direito do rosto. Quando
se virou, o pano dourado era na verdade o cabelo dela. Ela enfiou o lenço sob o cabelo e
limpou levemente.

Após o breve procedimento, o lenço ficou amarelo com a quantidade de pus que havia
absorvido.

“Por favor, permita-me fazer da minha vida a minha maior prioridade. Peço desculpas
se eu entrar no seu caminho.”

“Ah, está bem, afinal de contas, é com isso que concordamos quando você se tornou uma
dos Quatro Cavaleiros — ou melhor, quando você foi contratada.”

“Entendo, então todo mundo sabe o que eles planejam fazer. Então, da minha parte, farei
o meu melhor para me agachar em um canto e não entrar no seu caminho.”

Loune disse isso com uma cara séria para mudar o humor na carruagem, e foi recebido
com risadas tensas.

“Então, a julgar pela nossa velocidade atual, quanto tempo até chegar a essa Nazarick?”

A pergunta de Jircniv foi dirigida a Loune, que retirou um relógio de bolso do bolso do
peito. Depois que ele confirmou a hora, ele se virou para Leinas, viu quando ela assentiu
e respondeu.

“Se tudo correr conforme o planejado, em cerca de uma hora.”

“Mesmo? Estou ansioso por isso. Vamos ver como esse Ainz Ooal Gown é.”

Parte 2

A carruagem de Jircniv reduziu lentamente sua velocidade até que finalmente parou. No
entanto, ele ainda não conseguiu desembarcar imediatamente. Foi problemático, mas Jir-
cniv teve que cuidar de seus próprios preparativos por uma questão de estilo e segurança.

Normalmente, os preparos do Imperador teriam sido executados por subordinados,


como as empregadas das outras carruagens. No entanto, eles não tiveram o luxo de es-
perar que as carruagens chegassem. Afinal, eles tinham vindo pedir desculpas, e manter
o grupo injustiçado esperando por muito tempo seria uma jogada muito tola.

Depois que Jircniv ajustou suas roupas, ele prendeu sua capa sobre elas. A capa em si
era um item extremamente valioso feito a partir da pele de uma fera mágica e posterior-
mente tratado com magia. Com isso, nem mesmo as temperaturas mais baixas do lado de
fora o incomodariam.
Então, ele deslizou seu cetro dentro de seu cinto, isso completou suas preparações bá-
sicas mínimas.

Jircniv se olhou mais uma vez, para ter certeza de que sua aparência não envergonharia
a si mesmo nem ao Império.

Depois disso, ele estaria lutando uma guerra de palavras com Ainz Ooal Gown. Em ou-
tras palavras, sua roupa era como a vestimenta de batalha de um guerreiro. Mesmo o
menor vinco traria consequências que não se limitariam a simples constrangimentos.
Embora fosse bom que seu oponente não fosse observador o suficiente para eliminar
essas falhas, ele não queria ser subestimado por parecer maltrapilho.

Jircniv assentiu em satisfação e, naquele momento, uma batida saiu da porta.

“Então, eu devo desembarcar primeiro, Vossa Majestade.”

“Por favor, faça.”

Depois dessa curta resposta, Baziwood abriu a porta da carruagem.

Era uma saída imponente e apropriada que correspondia à carruagem que tinha a mais
alta autoridade no Império Baharuth. Apenas por via das dúvidas, Loune interpôs-se en-
tre o Imperador e o exterior quando a porta se abriu, servindo de escudo para Jircniv.

Eles podiam ver o que havia lá fora, além de Baziwood.

A primeira coisa que apareceu foi a grama das planícies. Depois disso, os guardas reais
alinharam-se para encarar uns aos outros. Além deles havia uma colina que se elevava
das planícies, e o que parecia ser uma enorme porta de treliça que parecia ter sido enter-
rada até a metade.

A Grande Tumba de Nazarick está por trás dessa porta? Parece um pouco diferente do que
me foi dito... bem, erros como esse estão dentro dos limites aceitáveis.

Depois de desembarcar da carruagem, Jircniv acompanhou Baziwood — que já estava


em formação com os guardas reais — e partiu.

Jircniv respirou fundo. O encantamento em suas roupas assegurava que o ar que entrava
em seus pulmões fosse fresco e limpo. Claro, ainda estava frio, mas não tão desconforta-
velmente.

Enquanto ele exalava, ele moveu sua mandíbula lateralmente, e rapidamente olhou para
os subordinados ao seu redor.
Fluder usava suas longas túnicas e segurava um cajado, e ele foi seguido por seus discí-
pulos adeptos.

Havia magic casters divinos com símbolos sagrados pendurados em seus peitos. Eles
pertenciam às ordens dos cavaleiros.

Então havia os guardas reais imóveis, embora agora visse os rostos dos batedores de
antes entre eles.

Pessoalmente, Jircniv queria perguntar-lhes o que tinham visto, mas agora não era um
bom momento para falar.

Parecia que as empregadas, que estavam em outra carruagem, ainda não haviam che-
gado.

Bem, eram apenas presentes. É apenas para ser esperado. Então, quando eles disseram
uma casa de madeira, eles quiseram dizer aquela porta de treliça... ou aquilo?

Quando ele olhou para a esquerda, viu uma cabana de madeira de um único andar. Pa-
recia totalmente incongruente com as planícies e o cemitério, e ele sorriu amargamente.
Afinal, de onde veio toda essa madeira? A Cordilheira Azerlisiana se erguia à distância e
ele pensou na Grande Floresta de Tob.

Eles transportaram madeira por toda essa distância? Eu não sei quantos quilômetros a
madeira deve ter viajado, mas eles precisariam de muito trabalho para trazer até aqui.

Embora ele não soubesse muito sobre cabanas, Jircniv não achava que essa estrutura
fosse particularmente atraente. Mesmo assim, quando levou em conta o ambiente, teve
que admitir que o fato de terem conseguido construir isso aqui era impressionante por
si só.

Mas... e essa porta grande... uma porta dupla, né? E construído tão alto... tem três andares
de altura. Este lugar poderia ter sido construído como algum tipo de armazém?

Jircniv olhou para a cabana, com Baziwood e Leinas à sua direita, Fluder à sua esquerda
e Loune atrás dele.

“Vossa Majestade. Devemos ordenar as pessoas das outras carruagens para desembar-
car também?”

Jircniv não se virou para Loune — que estava sussurrando em seu ouvido — enquanto
respondia.

“Não, não há necessidade disso. Em vez disso, devemos—”


As palavras de Jircniv foram cortadas no meio da frase. Não foi só porque a porta da
cabana se abriu, mas porque seus olhos foram atraídos para as duas beldades que agora
saíam devagar.

Elas estavam vestidas com trajes ortodoxos — bem costurados, mas de outro modo não
dignos de nota. No entanto, as empregadas passavam uma aura de uma maneira anormal
e correta. Até mesmo Jircniv, que vira muitas jovens donzelas em seu tempo, estava visi-
velmente surpreso, e ele olhou como se tivessem entendido seu próprio coração.

Elas são... muito bonitas... mas...

Elas eram realmente belas. Se fossem filhas de nobres do Império, ele teria aplaudido
sua aparência sem reservas. Ele poderia até querer adicioná-los ao seu harém. No en-
tanto, esta era uma tumba no meio de uma planície gramada. Elas estavam totalmente
fora de lugar aqui, e como resultado, um sentimento sinistro tomou conta dele.

Jircniv podia ouvir o som de uma língua estalando suavemente ao lado dele, mas ele não
tinha energia para desperdiçar em tais assuntos.

“Velhote, isso pode ser uma ilusão?”

“Sobre isso... bem, eu não posso dizer com certeza, mas eu não penso assim.”

“Elas são humanas? Elas não se parecem com Elfas Negras...”

“E sobre isso... eu não posso dizer com certeza também, mas duvido que elas sejam hu-
manas.”

Essas respostas trouxeram um pouco de aliviou a Jircniv. Já que elas não eram humanas,
não seria estranho se elas aparecessem em um lugar como este.

Era uma resposta que ele podia entender e que ele queria desesperadamente acreditar.

As duas empregadas se curvaram simultaneamente, e a que tinha o cabelo coque falou.

“Saudações, e boas-vindas, Vossa Majestade Imperial, Imperador Jircniv Rune Farlord


El-Nix. Meu nome é Yuri Alpha e tenho a tarefa de recebê-lo. Atrás de mim é minha assis-
tente, Lupusregina Beta. Embora nosso tempo juntos possa ser curto, espero que nos de-
mos bem.”

Embora ele demorasse em responder por ficar espantando com as suas aparências, Jir-
cniv conseguiu responder no fim.

“Então, eu agradeço. Afinal, estamos causando esse transtorno. De fato, devo agradecer
Ainz Ooal Gown-dono também, por nos receber com lindas senhoritas. Com isso em
mente, não há necessidade de incomodar-se dirigindo-se a mim como Imperador ou
usando outros honoríficos. Ficarei feliz se você me tratar como um indivíduo comum e
me chamar de Jir — de fato, espero que você faça isso.”

Jircniv sorriu brilhantemente para Yuri.

No entanto, mesmo depois de receber um sorriso que faria qualquer mulher desmaiar
por ele, a expressão séria de Yuri permaneceu como estava. Jircniv também poderia dizer,
olhando para os olhos dela, que seu coração estava igualmente imóvel.

Ela não gosta do tipo dele, ou ela era do tipo que não misturava negócios com prazer?
Ou ela estava cheia de lealdade para com a pessoa que ela servia?

Eu não posso ler ela. Eu queria deixar uma boa impressão, mas parece que isso será muito
difícil. E eu estava bastante confiante de que eu poderia lidar com qualquer pessoa se elas
fossem mulheres... ah, se o Velhote estiver certo, então deve ser porque elas não são seres
humanos. Bem, é assim que as mulheres não-humanas são... ainda assim, a que espécie elas
pertencem? Eles parecem que deveriam ser humanas, ou pelo menos algo perto dos huma-
nos...

Ele não tinha idéia de suas verdadeiras identidades.

A julgar por aquelas duas Elfas Negras e essas duas empregadas, Ainz Ooal Gown deve ser
um homem que dá grande importância às aparências.

Se esse é o caso... já que a aparência deles não combina com essas duas, elas não valem
nada agora...

Jircniv ponderou sobre as senhoritas, as acompanhantes que ele trouxera nas carrua-
gens. Ele estava orgulhoso de sua aparência, e ele as trouxe como presentes para Ainz
Ooal Gown, dependendo da situação. Cada uma delas eram nobres que tinham sido total-
mente conscientes do que aconteceria com suas famílias se desobedecessem aos coman-
dos de Jircniv, e elas tinham se despedido de olhos lacrimejantes para seus parentes an-
tes de partirem e vir para cá com determinação em seus corações.

Não há sentido. Ainda assim, depois de saber que o outro lado já tem tais beldades, eles se
alegrariam porque não eram mais necessários? Ou elas teriam ciúmes delas como acompa-
nhantes? Eu acho que deveria ter arranjado alguns Elfos como presentes, não?

Jircniv não conseguira trazer Elfos escravos do Império com eles porque não houve
tempo suficiente para prepará-los, e também porque queria mantê-los em reserva como
capital para negócios futuros. Essas relações não seriam com Ainz, mas mantidas secre-
tamente com Mare.

Ele sentiu que poderia investigar cuidadosamente a garota Mare, desnudá-la diante dele
e usá-la para seus propósitos.
Nós vamos seduzi-la com promessas de emancipar seus parentes escravizados. Em troca,
ela fará alguns favores simples por trás das costas de Gown. Depois disso, podemos usar
esses incidentes como material de chantagem para que ela faça mais coisas por nós. Pelo
menos esse era o plano...

Assim que Jircniv estava remoendo seus planos para Mare, Yuri respondeu a ele.

“Vossa Majestade é muito gentil. No entanto, nosso mestre Ainz Ooal Gown nos ordenou
explicitamente que não mostrasse nenhuma grosseria ou desrespeito ao Imperador, e,
como tal, lamento que não possamos concordar com o seu pedido generoso.”

“Mesmo? Bem, isso é uma pena.”

Jircniv deu de ombros de maneira exagerada, como se estivesse fazendo uma atuação
de comédia.

“Ainda assim, por favor, sinta-se à vontade para me dirigir tão intimamente quanto
achar melhor. E quanto ao Gown-dono?”

“Entendido. Nosso mestre ainda está fazendo preparativos, e ele precisará de um pouco
mais de tempo. Eu rezo para que o senhor seja paciente e espere por ele.”

“Entendo. Então, onde vamos esperar? Dentro daquela cabana?”

“Não. Esperamos que o senhor aguarde aqui.”

Jircniv levantou a cabeça para o céu. Embora não parecesse que choveria logo, era difícil
dizer que o tempo estava bom com aquelas nuvens negras no céu. Além disso, os ventos
frios de inverno poderiam se intensificar, embora Jircniv não pudesse senti-lo através de
suas roupas encantadas.

O que ele está pensando, nos dizendo para esperar aqui? Será que ele quer que conheçamos
nosso lugar?

Desde que foi condenado a vir pedir desculpas por suas ofensas, Jircniv já estava em
desvantagem. E então, além disso, Ainz Ooal Gown queria rebaixá-lo ainda mais com isso.
Claramente, Gown tinha uma personalidade ruim.

“Mesmo?”

Jircniv estreitou os olhos.

“Então, retornaremos às nossas carruagens e o aguardaremos.”

Jircniv podia sentir a raiva fervendo de seus numerosos guardas reais quando ele disse
aquelas palavras.
Eles podem estar em um país vizinho — e um que pode acabar sendo um inimigo para
eles —, mas mesmo assim, deixar o Imperador de uma grande nação esperar em um lugar
como este era muito rude.

No entanto, ninguém poderia vocalizar esses sentimentos. Desde que seu senhor suse-
rano tinha aceitado claramente estes termos, não havia espaço para eles como servos
leais dizer qualquer outra coisa. A menos que—

Foi porque eles viram a carnificina que as Elfas Negras poderiam causar? Se é assim...
Gown, você é um homem difícil de lidar. Com apenas um movimento você atingiu o medo
em todos os nossos corações. Mesmo que essa habilidade pudesse ser usada apenas uma vez
na vida, quem seria corajoso o suficiente para colocar isso à prova? E depois há o fato de
que era uma criança fazendo isso. Você está nos dando a impressão de que até uma criança
pode ser tão poderosa.

“Eu rezo para o senhor esperar.”

A voz calma de Yuri cortou o ar antes que Jircniv pudesse dar um passo.

“Já que o atraso se originou do nosso lado, nós seríamos anfitriões desagradáveis e de-
safiaríamos os comandos de Ainz-sama se não estendêssemos cada cortesia ao senhor
em compensação.”

Jircniv ficou um tanto surpreso.

Ainz... ele permite que suas empregadas se dirijam a ele tão diretamente? Talvez elas não
sejam empregadas... não, entendo. No mínimo, elas têm um relacionamento próximo a ele.
Será que ele reivindicou seus corpos? Não, qualquer homem entenderia o porquê. Dada a
aparência delas, a dificuldade seria manter as mãos longe delas.

Um ligeiro sentimento de simpatia cresceu dentro de Jircniv, e então ele respondeu com
polidez exagerada.

“Ohhh! Então, devemos ser gratos ao Gown-dono. Bem, então... que tipo de recepção
podemos esperar, e onde podemos esperar encontrá-lo?”

“Estamos no processo de prepará-lo. Para começar, o clima não parece muito acolhedor.
Vamos mudar isso.”

“O que você quer di...? Uooooh!”

Jircniv não foi o único ofegante de surpresa. Os magic casters, os guardas reais, Bazi-
wood, Leinas, até mesmo Fluder, todos eles não podiam deixar de exclamar maravilha-
dos.
As nuvens escuras acima deles começaram a se mover lentamente.

Em instantes, elas desapareceram sem deixar vestígios, como se algum gigante invisível
as tivesse espalhado com as mãos. Os cavaleiros montados em Hippogriffs no ar foram
ficaram aturdidos em confusão, algo com o qual os que estavam em terra podiam ter em-
patia.

“Por que parece... mais quente...?”

“Percebeu também? Quer dizer que não estou enganado?”

Quando Jircniv ouviu as trocas silenciosas entre seus guardas, ele tirou a capa, que dis-
sipou a magia que mantinha a temperatura de seu corpo. Só então—

“Vo-Vossa Majestade!”

Loune exclamou no sutil despir de Jircniv, mas o Imperador não respondeu ao seu su-
bordinado.

“Fu... fuha... fuhahaha. O que é isso... o que é isso? Velhote! O que está acontecendo?!”

Jircniv abandonou a calma e olhou para Fluder com uma expressão torcida no rosto.

O ar refrescante e claro que o rodeava agora deveria ser encontrado apenas na prima-
vera. O frio do inverno não estava em lugar algum. Jircniv nunca tinha ouvido falar de
magia assim durante as lições de Fluder. Nesse caso, que tipo de magia era essa?

“Este não deveria ser o trabalho da magia arcana... Eu me lembro de uma magia divina
druídica que podia controlar o clima...”

Fluder parecia incapaz de controlar o largo sorriso no rosto enquanto falava.

“O controle de tempo deve ser magia do sexto nível. No entanto, a julgar pela reação de
Vossa Majestade, isso pode não ser uma simples manipulação do tempo. Deve ser uma
magia mais poderosa... que incrível...”

“E essa magia é o trabalho daquela Elfa Negra — um daqueles emissários, então?”

Isso era algo que poderia aceitar, se fosse o trabalho daquela magic caster que poderia
fazer a terra engolir seus homens em suas rachaduras. Não, na verdade, ele esperava que
fosse o caso. Ele não queria acreditar que havia outro magic caster por aí que era mais
forte que ela. Isso seria um pesadelo.

“Na verdade, esse pode ser o caso... mas não posso ter certeza.”
Fluder parecia achar tudo isso terrivelmente divertido, o que fez a frustração crescer no
coração de Jircniv.

Embora seu mentor fosse um excelente professor que era digno de respeito, ele estava
desesperado quando a magia estava envolvida. Foi extremamente irritante quando ele
ficou assim.

“Eu acredito que deva ter te refrescado um pouco. Então, vamos começar a próxima fase.”

A empregada ignorou a crescente irritação de Jircniv e jogou outra bomba nele.

O jovem imperador lutou desesperadamente contra a vontade de dizer a ela para parar.

Não abale mais meu coração.

Ele pensou, mas no final, suas obrigações como o Imperador do Império Baharuth ven-
ceram e ele conseguiu se controlar.

“Então. Venha aqui.”

Em resposta às ordens de Yuri, as portas da cabana se abriram, e algo enorme saiu.

“Gehhhh!”

Um grito solitário soou. Era um som estranho que se poderia esperar de um frango es-
trangulado.

Quando perceberam quem havia gritado, o terror encheu os corações de todos os pre-
sentes, não apenas Jircniv. De fato, parecia que eles estavam sonhando.

Aquele que fez aquele som não característico foi o magic caster da alta corte do Império,
“Tríade”, Fluder Paradyne. Ele era um homem que se dizia capaz de rivalizar com os
Treze Heróis. Um homem assim agora estava com os olhos arregalados de terror, seu
olhar fixo nas coisas que saíam da cabana.

Pouco depois disso, vários gritos encheram o ar, todos vieram dos discípulos de Fluder.

“Impossível! Isso é—!!”

“Inacreditável! Isto é impossível!”

“Fiquem em alerta! Estão preparando um ataque! Magia defensiva! Por favor, permita-
nos usar magia defensiva!”

Fluder encarou seus discípulos, todos os quais estavam em plena prontidão de batalha.
“Silêncio!! Acalmem-se, todos vocês!!”

O ser que emergia da cabana era digno de sua cautela e pavor. Os olhos de todos do
contingente imperial estavam concentrados no único ponto.

Não havia dúvida de que era um monstro. Era um monstro envolto em uma armadura
preta.

Seu corpo era excessivamente grande e sua silhueta era completamente maligna. Era
como se um deus tivesse extraído a essência da violência e da brutalidade de toda a hu-
manidade, concentrado e dado a sua forma física. Seu rosto apodrecido não tinha expres-
são, mas todos podiam sentir um ódio brilhante queimando em suas órbitas vazias.

E havia cinco deles.

O vasto corpo do que estava à frente deles carregava uma grande mesa de pedra. Os
quatro atrás dele seguravam vários utensílios e muitas cadeiras.

Nenhum deles tinha qualquer intenção hostil. Em contraste, a vigilância e o pânico dos
discípulos de Fluder pareciam quase risíveis.

Houve um som de algo caindo no chão.

Um dos acólitos de Fluder caíra de joelhos no chão, o rosto pálido e o corpo desprovido
de força. Ou melhor, quase todos os quatro acólitos que ele trouxera acabaram assim.
Seus rostos pálidos estavam congelados em choque quando começaram a hiperventilar.
[Cavaleiros d a M o r t e ]
“Impossível. Como poderia... não, não, não pode ser. Aqueles são Death Knights? Eles
estão sendo controlados? E nesses números?”

Algo passou pela mente de Jircniv. Ele se esqueceu e gritou com raiva.

Ele não tinha mais o luxo de preservar sua calma.

“Death Knight? O que eles querem dizer com Death Knight?! Velhote! Me responda! Eu
já ouvi esse nome antes, tem alguma coisa a ver com essa criatura undead que suposta-
mente está trancada sob o Ministério da Magia?!”

De fato. Era um Death Knight. Esse era o nome de uma criatura undead que poderia
mergulhar o Império em desgraça apenas por ele mesmo.

Ninguém respondeu à consulta de Jircniv.

Fluder estava olhando com os olhos arregalados, contemplando com louco prazer o De-
ath Knight.
Jircniv viu que ele não estaria recebendo uma resposta e percebeu que falar mais com
ele seria infrutífero. Jircniv rapidamente se adiantou e agarrou um dos discípulos pelas
lapelas.

“O que são esses Death Knight?! Me responda!!”

“Haaaaah! Vossa Majestade! Como disse, é como aquele monstro undead lendário, se-
lado dentro dos limites inferiores do Ministério da Magia, é, de fato, um Death Knight!
São criaturas que nem o Mestre consegue controlar!”

Tudo o que Jircniv podia fazer era rir. A dignidade a que ele se apegara como Imperador
do Império Baharuth não existia mais. Ela desmoronou em cinzas e explodiu com o vento.

“...Fu, fufu. Fufufu. O que você quer dizer, undead lendário?! Há cinco deles bem ali na
nossa frente! Ou você está dizendo que os Death Knight vêm em grupos e cinco deles
contam como uma entidade? Hã?! Que tipo de brincadeira é essa?!”

“N-não! Não é nada assim!”

Ele sentiu alguém parado ao lado dele. Quando ele olhou, viu que era um dos guerreiros
mais fortes do Império, Baziwood. O rosto do homem estava pálido e Jircniv pôde ver que
começava a se contorcer.

“Er, ah, Vossa Majestade. Por favor, ouça isso com um coração calmo. A situação agora é
muito ruim. Mesmo que todos nós saíssemos imediatamente, não conseguiríamos deter
nem um deles. Talvez seja uma boa idéia soar um retiro. Isto é problema. Dos grandes.
Veja como minha mão treme.”

Quando Jircniv olhou para a mão de Baziwood, começou a tremer. Depois de olhar para
o rosto que se contorcia, ficou claro que não eram tremores antes da batalha.

“É isso que eles querem dizer com “insondável”... você acha que poderia ser mais forte
que o Stronoff-san?”

O outro membro dos Quatro Cavaleiros estava bem atrás do que quando ela havia co-
meçado, e ela ainda continuava sua lenta retirada. A única razão pela qual ela não havia
corrido com tudo era porque não queria atrair a atenção do Death Knight e, portanto, sua
hostilidade.

Essa coisa toda parece um pesadelo vindo à vida.

E então, diante deles—

A maneira como os Death Knight estavam calmamente arrumando os móveis e utensí-


lios nas planícies cobertas de grama era a própria imagem de um leal criado. Não havia
nada em suas ações que sugerisse que eles eram undeads lendários que poderiam des-
truir um país.

No entanto, depois de olhar para as reações de todos ao seu redor, ele sabia que era um
fato que eles estavam mortos, que até mesmo o mais poderoso magic caster em conheci-
mento de Jircniv, Fluder Paradyne, não podia comandá-los.

Isso implicava que poderia haver mais de cinco desses monstros, cuja capacidade de
combate era muito maior que a de Fluder.

O objeto de comparação, Fluder Paradyne, era alguém cujo poder de combate rivalizava
com o de todo o Exército Imperial. Claro, ele não tinha mana infinita, e em uma luta direta,
eles poderiam ser capazes de vencer. No entanto, Fluder pode usar teletransporte ou
magia de vôo, então seria todo o Exército Imperial que seria abatido.

Isso significaria que os cinco Death Knight representavam cinco vezes a força de com-
bate de todo o Exército Imperial.

Impossível.

Algo como isso não deveria ter acontecido.

Isso era muito poder para um indivíduo possuir. Não, até um país teria dificuldade em
exercer tal poder. Esse era o tipo de poder que apenas algumas nações famosas ou repú-
blicas de lendas poderiam comandar. E pensar que o mestre de uma pequena tumba de
fato possuía tal poder.

A realidade que ele vinha tentando o seu melhor para fugir desde que os dois Elfos Ne-
gros tinham vindo antes dele agora o encarava diretamente no rosto.

“Ainz Ooal Gown... ele é um monstro que não podemos parar, não, que não podemos
nem tocar...”

Assim como um barco minúsculo flutuando ao redor em uma tempestade furiosa, o co-
ração de Jircniv foi atormentado por esse incrível choque.

No final, no entanto, ele lutou com suas emoções e recuperou a calma com vontade de
ferro.

Ele tinha visto seus guardas reais aniquilados e a sombra do vasto corpo do Dragão.
Essas coisas permitiram que Jircniv preparasse seu coração.

Sem essas experiências anteriores, o impacto sobre ele teria sido maior. Ele poderia ter
mostrado um lado mais desagradável de si mesmo.
Esta tumba é... Quão poderoso é Ainz Ooal Gown? Esses cinco Death Knight e aquelas duas.
Mesmo com aquele Dragão incluído, isso não pode ser tudo, pode? Por que ele está se es-
condendo neste lugar? Quando ele começou a morar aqui? Ou talvez seus preparativos es-
tejam finalmente completos? Eu ouvi que quando muitas criaturas undeads se reúnem em
um lugar, um ser undead ainda mais poderoso nasce. É por isso que esses Death Knights...
não, será que ele é ainda mais poderoso que esses Death Knights...? Não é bom. Não há
tempo, mas ainda tenho que pensar em um jeito...

Quando os pensamentos rápidos de Jircniv o levaram ainda mais a confusão, Yuri inter-
rompeu.

“Por favor, fique à vontade. Todos esses Death Knight foram criados pelo próprio Ainz-
sama. Eles são absolutamente obedientes às suas ordens e, em seu lugar, ganhei o direito
de comandá-los. Não permitirei que a integridade de nenhum de vocês seja prejudicada.”

Jircniv tinha lutado para juntar seus pensamentos, mas as palavras de Yuri as tinham
levado embora.

“Ele os criou...”

Ainz Ooal Gown poderia criar undeads como estes através de um simples ato de vontade.
Essa era a terrível verdade. A criação de tais seres exigiria gastos equivalentes ao seu
vasto poder, e ele poderia arcar com esse custo ou ignorá-lo completamente.

Não, isso deve ser um blefe. Como alguém poderia fazer coisas assim? Ele deve estar men-
tindo para inflar seu próprio poder de combate. Porque se ele não é—

Um sorriso apareceu no rosto de Jircniv.

Por alguma razão, tudo parecia muito incômodo agora.

—Ah. Eu desisto. Eu não sei mais nada. Desta vez, vamos nos contentar em ver o que o
outro lado pode fazer, sim, isso mesmo.

“Fu, fuhahahahaha!”

Assim que Jircniv decidiu abandonar todas as ilusões de controle, uma risada de pura
alegria ecoou ao lado dele.

Veio de Fluder.

Eles eram guardas reais, acólitos ou sacerdotes, os rostos de todos, exceto Jircniv, esta-
vam congelados em choque.

Fluder Paradyne, o magic caster da mais alta ordem e um herói possuidor de educação
e conhecimento incomparáveis. Incontáveis inscrições nos livros de história do Império
contavam como ele havia enfrentado monstros que ameaçavam a segurança da nação e
como ele emergiu triunfante. Seu comportamento de santidade também significava que
ele era honrado e respeitado por muitas pessoas.

Na verdade, muitas das pessoas daqui sentiam o mesmo por ele.

E agora, Fluder estava rindo de uma forma que abalou a imagem mental que todos ti-
nham dele.

Havia poder naquela risada.

Ele tinha a aura de um herói.

Não havia dúvida de que Fluder estava irradiando uma pressão assustadora, e não o
calor que Jircniv às vezes sentia do homem que era tão próximo dele quanto seu pai.

Ele possuía imenso poder mágico, o suficiente para enfrentar todos os Quatro Cavalei-
ros de uma só vez. E sua voz assumiu um tom demente quando ele parecia enlouquecer.

Era natural que os guardas reais próximos se soltassem em arrepios.

Em meio a tudo isso, apenas as pessoas de Nazarick e Jircniv mantiveram a calma.

“...Ele controla Death Knight e em tais números! Maravilhoso! Maravilhoso!! Maravi-


lhoso!!! Fuhahahaha!”

Uma única lágrima escorreu do canto do olho e ele sorriu como um louco.

―Não, não foi isso.

Essa era a verdadeira natureza de um homem que abandonara sua posição na Corte
imperial para vislumbrar os mais profundos mistérios do abismo chamado “magia”.

Até agora, havia sido escondido sob a máscara de um herói, mas havia caído na presença
de um poderoso magic caster.

“Então, Vossa Majestade. O que é que devemos fazer agora? Devemos fugir com magia
de teletransporte? Acho que se nos teletransportarmos agora, deveríamos conseguir,
não? Assumindo que o terreno permita isso...”

Fluder disse isso para Jircniv, um sorriso zombeteiro no rosto.

“Eu gosto desse lado seu, Velhote. Então, deixe-me fazer uma pergunta. Você acha que
eu vou fugir?”
Rachaduras se espalharam rapidamente pelo rosto de Fluder. Esse era o sorriso de um
louco que incutia terror em todos que o viam.

“Eu não esperava nada menos de Vossa Majestade, não, meu querido Jir. Meus pupilos,
abram os olhos e sejam gratos pelo fato de poderem colocar seus olhos no mais elevado,
o mais exaltado de todos os magic casters do continente. Agora que você viu o final da
sua jornada, você deve trabalhar para isso!”

Os rostos dos discípulos de Fluder e os guardas reais ficaram mais e mais pálidos
quando perceberam a verdadeira natureza do ser cujo quintal eles agora ocupavam.

Eles sabiam que seus companheiros tinham sido massacrados. No entanto, o lendário
magic caster de seus livros de história o chamou de “o mais exaltado de todos os magic
casters”. O imenso estresse disso parecia uma enorme pedra que havia sido alojada em
suas barrigas.

“Vossa, Majestade, isso é ruim, não?”

“...Você se importa se eu correr primeiro?”

Baziwood parecia confuso e a pergunta de Leinas estava cheia de desespero.

Jircniv olhou para eles.

Fluder e seus discípulos de lado, a pressão sobre os guardas reais estava aumentando
lentamente, e pareciam que poderiam quebrar a qualquer momento.

Isso porque o comportamento anormal de Fluder, um aclamado herói, e a descrição do


poder dos Death Knight deixaram-nos sem saber o que fazer.

“O que mais podemos fazer? E se você quiser correr, vá em frente. No entanto, se você
fizer isso, você não será uma de nós. O que significa que, para eles, você será uma intrusa.
Espero que você não acabe como aqueles Trabalhadores que vieram aqui antes.”

Leinas rangeu os dentes e seu rosto se torceu.

“O que significa que está bem, é isso?”

“Baziwood, olhe para o Velhote— não, Fluder. Ele é o mais familiar de todos nós com
magia e ele está assim agora. Tudo o que podemos fazer é deixar tudo nas mãos de nossos
anfitriões.”

“Que tal rezar aos deuses por sorte e depois fugir?”

“Você realmente acha que podemos escapar?”


Baziwood olhou para as empregadas. Elas claramente os ouviram falando sobre fugir,
mas calmamente continuaram seus preparativos sem hesitar.

“E se nós fizermos uma de refém?”

“Eu não gosto de ouvir as pessoas falando sobre fazer coisas que são claramente impos-
síveis, “Relâmpago”. Adoraria ver o que aconteceria se você disser isso de novo.”

“...Me perdoe. Na verdade, eu sinto que a empregada é ainda mais misteriosa do que os
Death Knight... Se alguém me dissesse que eles são mais fortes do que elas, eu provavel-
mente acreditaria nisso também... ah, eu estou falando sobre coisas tão rudes na frente
dele, e ela não pisca nem os olhos. Que assustador...”

Essa empregada era monstruosamente forte também.

Enquanto pensava nisso, Jircniv sacudiu a cabeça. Ele queria desesperadamente acredi-
tar que nem todos na tumba eram ridiculamente fortes. Enquanto ele pensava sobre isso,
ele tentou o seu melhor para colocar os sorrisos frios daquelas duas Elfas Negras fora de
sua mente.

“Parece que estamos quase... estamos prontos, então? Nesse caso, espero que vocês re-
laxem aqui.”

Havia muitas mesas e cadeiras organizadas na grama. As mesas estavam cobertas de


toalhas de mesa brancas e grandes sombrinhas para providenciar uma sombra fresca. Os
Death Knights que estavam colocando os móveis no lugar estavam de pé ao lado da ca-
bana para não atrapalhar.

“Também preparamos refrescos para vocês.”

Decanters enfeitados com umidade estavam arrumados nas mesas, cheios de um líquido
laranja. Ao lado deles havia taças bordeaux feitas de cristal transparente. Cada uma delas
foi esculpida com desenhos elaborados.

Mesmo Jircniv, um imperador que gostava das melhores coisas da vida, não pôde deixar
de olhar fixamente os olhos para a exibição à sua frente.

“Por favor, deixe-nos saber se precisar de mais alguma coisa. Então, pessoal—”

A porta da cabana se abriu mais uma vez, e mais empregadas saíram de dentro. Sua
incrível beleza era o suficiente para eliminar todo o medo e desconforto que haviam ex-
perimentado até agora.

Cada uma delas era singularmente bela à sua maneira. Uma delas tinha cabelo preso em
um coque duplo, outra tinha cabelo comprido e liso e uma terceira tinha cabelos ondula-
dos.
“Eles estão tendo uma venda de beldades?”

Embora Jircniv não soubesse qual dos guardas reais disse isso, ele teve que concordar.
Afinal, o que tais beldades estariam fazendo em uma tumba?

Essa tumba gera mulheres bonitas? Eles saem do chão uma após a outra?

Ele ouviu o som de uma língua estalando novamente, mas não prestou atenção.

“Então, por favor, aproveite as bebidas que temos—”

“—Ah, antes disso, poderíamos encontrar Ainz Ooal Gown-sama primeiro? Eu gostaria
de agilizar as coisas... e se estiver tudo bem, posso falar com ele antes que ele se reúna
com o Jir—”

“Fluder, contenha-se!”

Não importa o que fosse, nenhum deles poderia se desgraçar ou o Império, não aqui.

“Você esqueceu alguma coisa, Fluder? Estamos aqui como representantes do Império,
não para satisfazer sua sede de conhecimento mágico.”

A essa altura, uma luz calma retornara aos olhos de Fluder. Ele tinha, na maior parte,
conseguido subjugar seu desejo desenfreado.

“...Perdoe-me, majestade. Eu fui vencido pela excitação. Eu imploro o perdão de todos


os outros presentes também.”

“Isso mesmo, Velhote. Tome uma bebida, acalme-se. Então, vamos?”

“Entendido.”

Yuri lentamente encheu os copos na mesa diante de Jircniv com o mesmo líquido laranja.
Um perfumado aroma cítrico flutuou no ar.

Jircniv tomou um gole do suco de fruta, e o sabor era tal que ele não pôde deixar de
sorrir. Foi um sorriso que parecia dizer: como vivi tanto tempo sem beber algo assim?
Aparências de surpresa apareceram nos rostos dos guardas reais ao redor. Se até mesmo
Jircniv, que viveu uma vida de devassa, poderia se surpreender assim, como seria a rea-
ção dos homens comuns? Como se para ilustrar esse ponto, muitos haviam esquecido
suas maneiras e engolido o suco o mais rápido possível.

Pouco depois, exclamações chocadas soaram dos homens reunidos.

“É delicioso!”
“Que tipo de bebida é essa? É uma mistura perfeita de doce e azedo!”

“Desliza pela sua garganta e não há sabor residual enjoativo!”

Jircniv tomou outro gole quando ouviu o elogio de todos ao seu redor. De repente, ele
sentiu como se estivesse cheio de poder.

Então, o gosto é tão bom que meu corpo está ficando excitado, hein. Isso significa que Na-
zarick tem as melhores bebidas? Parece que eu insultei aquelas duas Elfas Negras naquela
época. Se eles se aproveitarem de tais bebidas maravilhosas todos os dias, então não é de
admirar que eles não tenham ficado impressionados com o que servimos.

Jircniv sorriu amargamente.

Pensar, até mesmo uma bebida simples poderia derrotá-lo tão completamente—

Ahhh... eu me sinto tão calmo agora. Esta é a primeira vez que me sinto relaxado desde que
cheguei aqui. É como... como se eu tivesse voltado para casa...

O tempo passou, os raios de luz faziam o contorno das sombras abaixo das sombrinhas,
o vento passava pela planície gramada como um oceano verde. Quanto tempo passou?
Por fim, Yuri disse as palavras que Jircniv desejava ouvir.

“Desculpe-me pelo atraso. Ainz-sama está pronto para vê-lo agora, então, por favor, me
siga.”

Parte 3

Jircniv chegou a uma sala hemisférica. Ele parou diante de um par de vastas portas du-
plas. Esculturas intrincadas decoravam os dois lados das portas; uma linda deusa à di-
reita e um demônio de aparência cruel à esquerda. Inúmeras estátuas de aparência sinis-
tra estavam dispostas ao redor deles.

Se alguém tivesse que dar um nome, provavelmente seria “As Portas do Julgamento”.

Jircniv ponderou aquelas portas enquanto olhava por elas.

A sala enorme estava quieta, tão quieta que ele imaginou poder ouvir o som metafórico
do silêncio.

Na verdade, ninguém do contingente Imperial pronunciara uma única palavra desde


que foram trazidos para cá. Os únicos sons eram os ruídos metálicos da armadura ras-
pando contra a armadura.
Eles não estavam em silêncio por educação, mas, antes, tinham passado por todos os
tipos de paisagens maravilhosas antes de virem para cá, que haviam roubado suas almas.

Teria sido demais esperar que não ficassem fascinados pelas cenas quase míticas que
haviam visto.

Na verdade, mesmo Jircniv achava difícil controlar o impulso de ficar boquiaberto ao


seu redor enquanto caminhava, dado o esplendor que o rodeava.

Ele olhou por cima do ombro para olhar para seus subordinados que o seguiram até
aqui.

Atrás dele estavam Baziwood e dez guardas reais especialmente selecionados, Fluder e
quatro de seus acólitos, Loune, seu secretário e os sacerdotes da ordem dos cavaleiros.
Leinas e os restantes guardas reais foram deixados para trás com as carruagens de segu-
rança.

Todos que o seguiam — com exceção de Fluder — estavam de ombros murchos.

Este foi o resultado de percorrer esta passagem que até mesmo os melhores artesãos
do Império não poderiam reproduzir, o que os encheu de uma sensação de ser pequeno
e insignificante.

A Grande Tumba de Nazarick era uma tumba apenas no nome. Na verdade, era um
mundo lindo que estava mais perto de uma cidadela dos deuses do que qualquer outra
coisa. Sua imagem do governante deste lugar, o magic caster Ainz Ooal Gown, estava es-
magadoramente indescritível.

O sorriso no rosto de Jircniv estava cheio de auto-zombaria. Os humanos naturalmente


curvam suas cabeças para aqueles que os excedem. Qualquer um que não tenha se im-
pressionado com essas maravilhas arquitetônicas e artísticas deve certamente não ter a
capacidade de sentir.

...Isso é verdadeiramente preocupante.

Ainz Ooal Gown o esperava além daquela porta. Ele era um magic caster cujo poder su-
perava até o de Fluder Paradyne. Na verdade, pode ser que ninguém possa igualá-lo no
passado ou no futuro. Seu magnífico domicílio excedia em muito a capacidade humana
de imaginar, e seus seguidores possuíam um poder incrível. Ele era um ser que possuía
todas as vantagens possíveis.

Por que alguém assim estava escondido em um lugar como esse até agora?

Embora Jircniv não soubesse a resposta, ele provavelmente descobriria em breve.


Pelo menos, ele esperava aprender muito durante as discussões que se seguiriam.

Duvido que ele fique satisfeito com um simples pedido de desculpas depois daquela espe-
tacular demonstração de força que ele fez.

Inicialmente, o plano de Jircniv era adivinhar e depois jogar com os desejos de Ainz Ooal
Gown, tornando a situação a vantagem do Império. Toda essa pretensão de pedir descul-
pas era apenas uma desculpa para alcançar esse objetivo.

Contudo—

Como se eu pudesse começar a tentar alguém tão poderoso quanto isso. Eu não poderia
fazer isso, mesmo se eu usasse toda minha riqueza.

Assim como uma gema de um quilate não chamaria a atenção de Jircniv, Ainz Ooal Gown
não poderia estar interessado em nada que Jircniv pudesse oferecer.

Para começar, a riqueza estaria completamente fora de questão.

Se ele oferecesse apoio militar e mágico — bem, por que ele estaria interessado em coi-
sas que eram muito inferiores às suas?

Quanto aos membros do sexo oposto — Jircniv pensou em Yuri e as empregadas — elas
seriam inúteis.

Ofertas de posição e autoridade não significavam nada para alguém que vivia em um
lugar como esse.

Então, o que ele poderia querer?

Jircniv não fazia idéia. Pode ser que nenhum ser humano pudesse conceber um desejo
que pudesse mover o coração de Ainz Ooal Gown.

“...Seria muito difícil, hein.”

A mente de Jircniv passava por inúmeros estratagemas e manobras para usar contra
Ainz Ooal Gown.

A conclusão foi que ele não podia fazer nada.

Ele chegou à resposta de que a coisa mais sábia que ele poderia fazer era esperar que
Ainz não o considerasse um inimigo.

As condições de vitória para esta empreitada são: o Império permanecer intacto e eu vol-
tar vivo.
Ao dar voz a esses pensamentos, Jircniv descobriu que eles eram mais altos do que ele
imaginava. No entanto, ninguém ao seu redor reagiu. Eles estavam hipnotizados demais
pelo ambiente.

“O Salão do Trono está adiante. Ainz-sama aguarda lá dentro.”

Depois disso, Yuri anunciou que sua parte tinha acabado e se curvou profundamente
para Jircniv.

Como se esperassem por essas palavras, as enormes portas duplas se abriram lenta-
mente, sem serem tocadas.

Várias pessoas respirando profundamente alcançaram os ouvidos de Jircniv. Não foi


apenas um ou dois casos, mas mais de dez deles, provavelmente bem mais da metade das
pessoas que vieram a este lugar. Muitos entre eles não conseguiram reunir totalmente
sua força contra o medo que os dominava e permitiram que seu desejo de fugir estam-
passe seus rostos. Em outras palavras, muitos do contingente imperial esperavam que
aquelas portas duplas não se abrissem sozinhas.

Foi precisamente por essa razão que Jircniv ficou agradecido pelas portas se abrirem
automaticamente. Quem sabia quanto tempo eles teriam que esperar se precisassem
criar coragem para passar por aquelas portas primeiro?

Um vasto salão apareceu, com um teto muito alto e muito largo. As paredes eram pre-
dominantemente brancas, com extensas decorações douradas e destaques.

Luxuosos candelabros multicoloridos — feitos de pedras preciosas de todas as cores do


arco-íris — dependiam do teto, irradiando uma luz fantástica. Enormes bandeiras pen-
duradas em mastros nas paredes.

Esta sala era o epítome do que deveria ser uma “sala do trono”. Não havia melhor pala-
vra para descrever um lugar como este.

Jircniv e os outros empalideceram quando um ar opressivo os varreu de dentro da sala.

Um tapete carmesim corria pelo centro da sala, e ao lado havia uma série de seres imen-
samente poderosos.

Havia Demônios, Dragões, humanoides bizarros, cavaleiros blindados, insetos bípedes


e Elfos. Cada um era diferente do outro em tamanho e aparência, mas a única coisa que
eles tinham em comum era a força esmagadora que cada um deles possuía. Esses seres
estavam dispostos em duas linhas de cada lado do tapete, e parecia muito desanimador
contá-los.
Eles assistiam Jircniv e companhia em silêncio. Embora tenha sido dito que se pode sen-
tir certo tipo de força aos olhos daqueles com poder ou status, esta foi a primeira vez que
Jircniv sentiu uma pressão física.

O som de gemidos baixos e o estremecimento de placas de armadura de metal vieram


de trás de Jircniv.

Era a prova de que seus súditos estavam com medo de sua inteligência.

No entanto, ele poderia ser honesto sobre isso.

Jircniv não pretendia censurar seus subordinados por mostrarem seu medo. Em vez
disso, ele queria elogiá-los, porque cada um deles havia conquistado esse medo e ficou
atrás dele.

O fato de terem permanecido firmes diante desses seres aterrorizantes era para ser lou-
vado.

A avaliação de ameaça de Jircniv em questão a Ainz Ooal Gown subiu em várias dezenas
de níveis ao mesmo tempo. Sua cautela foi revisada a todo instante desde que ele chegou
aqui. Mas mesmo isso tinha sido muito ingênuo.

Ele havia determinado que Ainz Ooal Gown não era simplesmente uma ameaça para o
Império, mas para a sobrevivência continuada de toda a espécie — para os humanos e os
demi-humanos.

Os olhos de Jircniv seguiram o tapete para a frente.

Muito à frente deles havia um lance de degraus, e em volta estavam pessoas reunidas
que Jircniv supôs serem ajudantes de Ainz. Uma linda garota de cabelos prateados. Um
monstro branco-azulado que parecia um inseto ereto. Um homem parecido com um sapo
em um terno. Os gêmeos de antes — aqui Jircniv sentiu algum alívio. Se descobrisse que
os que eliminaram seus guardas reais em poucos segundos eram meros soldados de in-
fantaria, ele não teria sido capaz de manter a calma.

Acima deles, naqueles degraus, havia uma linda mulher alada e logo atrás dela—

“Aquele é...”

Sobre um trono de cristal estava a encarnação física da morte. Ele segurava um cajado
de aparência estranha na mão.

Era um monstro com um crânio nu no lugar da cabeça.

Era como um ser que havia sido formado por concentrar e condensar a escuridão em
um único ponto.
—Era o Ainz Ooal Gown.

Uma magnífica coroa repousava sobre sua cabeça e seu corpo estava envolto em um
luxuoso manto de zibeline. Anéis brilhavam em seus dedos. Mesmo de tal distância, Jirc-
niv podia dizer claramente que os acessórios requintados que Ainz usava estavam além
das habilidades dos artesãos de seu Império.

Pontos de luz vermelho-sangue brilhavam nas órbitas vazias do crânio de Ainz Ooal
Gown. Ao passarem por Jircniv e seu contingente, parecia que estavam sendo degustados.

Ele não pareceu chocado com o fato de que Ainz não era humano. Em vez disso, ele ficou
aliviado por não ser humano.

Era porque Ainz não era humano que Jircniv pudesse honestamente aceitar que Ainz
era um ser superior que estava longe de sua liga.

“Hu...”

Jircniv exalou baixinho.

Era um sinal de sua determinação.

A porta foi aberta, mas não foi aberta por muito tempo. Certamente não foi tempo sufi-
ciente para alguém comentar sobre sua inatividade. Ainda assim, eles não podiam espe-
rar aqui para sempre. E assim — Jircniv se adiantou.

“Vamos.”

As palavras de Jircniv estavam calmas o suficiente para que apenas os que estavam atrás
dele pudessem ouvi-las. Qualquer um que o visse ficaria surpreso em saber como ele po-
deria falar sem abrir a boca. Isso não era magia, mas pura habilidade. Foi uma habilidade
particularmente útil nesse tipo de cenário.

No entanto, Jircniv não conseguia sentir ninguém se movendo em resposta às suas pa-
lavras.

Avançando para ficar diante de Ainz Ooal Gown significava que eles teriam que passar
entre as linhas de monstros que flanqueavam o caminho. Embora soubesse que eles pro-
vavelmente não os atacariam, caminhar na frente dessas criaturas ainda requeria muita
coragem.

Seu julgamento de que eles não seriam atacados não era um simples otimismo.

As razões para usar uma sala do trono como esta eram para fins cerimoniais, bem como
para mostrar o poder de uma nação. Estes eram fatos que qualquer um saberia.
Em outras palavras, as razões para escolher este lugar eram mostrar o poder de Naza-
rick e mostrar que ele não tinha intenção de matar Jircniv e seus seguidores. Afinal, se
Ainz quisesse se livrar deles, ele poderia simplesmente levá-los para um matadouro.

Os subalternos de Jircniv deveriam ter entendido claramente esse fato. No entanto, essa
não foi a razão pela qual eles permaneceram imóveis.

A principal razão para isso era simplesmente porque eles não queriam se aproximar
daqueles monstros.

Além das linhas de monstros estavam os ajudantes de Ainz Ooal Gown. O poder desses
seres estava claramente além da conta dos homens sensatos.

E no trono estava Ainz Ooal Gown em pessoa.

Por muito tempo, Jircniv percebeu algo nas profundezas de sua alma.

Ele percebeu que eles estavam em pé na presença do que os homens chamariam de deus.

Jircniv possuía um item mágico que defendia ataques mentais, mas a pressão que ele
estava enfrentando estava fora do escopo da proteção do item. Se ele perdesse o foco,
mas uma vez, até mesmo o homem conhecido como o Imperador Sangrento seria capaz
de fazer nada além de se ajoelhar diante de Ainz.

Ainda assim, foi precisamente por essa razão que ele teve que ir.

Assim como Jircniv observava Ainz Ooal Gown, Ainz Ooal Gown também observava Jir-
cniv. Se ele desaprovasse o que viu, o que aconteceria com o Império no futuro? No mí-
nimo, ele teve que deixar Ainz reconhecer o valor de Jircniv e, por extensão, a continua-
ção da existência do Império.

Jircniv riu de sua própria ingenuidade.

O que ele estava pensando em supor uma guerra de palavras?

Então é isso que significa se arrepender de alguma coisa. Nada mais importa. Tudo o que
posso esperar é minimizar o dano ao Império.

“Vamos!”

O comando severo de Jircniv era dirigido a seus subordinados, mas mais importante a
si mesmo, para se lembrar que ainda está vivo. Ele podia sentir seus homens seguindo-o.

Era um tapete muito macio, mas para Jircniv agora parecia muito leve e efêmero.
Ele afastou com firmeza os inúmeros olhares dirigidos a ele e avançou, mantendo os
olhos fixos na persona que estava diante dele — Ainz Ooal Gown. Ele tinha um pressen-
timento de que, se desviasse os olhos de seu objetivo, seus pés não seriam mais capazes
de se mover.

Jircniv não era um excelente guerreiro ou qualquer coisa assim, mas a razão pela qual
ele poderia seguir em frente, liderando seus homens onde sua guarda real temia pisar
era por causa da fortaleza mental que havia sido criada nele como um Imperador.

Finalmente, ele chegou à base dos degraus, na frente dos ajudantes de Ainz.

“Ainz-sama, este é o governante do Império Baharuth, o Imperador Jircniv Rune Farlord


El-Nix, que procura uma audiência com o senhor.”

A voz doce veio da mulher alada ao lado do trono. Sua voz doce combina com sua apa-
rência radiante, Jircniv pensou.

Em resposta, o ser que era um verdadeiro deus da morte falou com Jircniv.

“Estou feliz que tenha vindo, Imperador do Império Baharuth. Eu sou o mestre da
Grande Tumba de Nazarick, Ainz Ooal Gown.”

Uma leve pontada de alívio percorreu Jircniv. Sua voz era mais normal do que ele espe-
rava — como a de um ser humano.

Se fosse esse o caso, lê-lo de suas palavras ainda poderia ser possível.

“Eu humildemente agradeço a sua generosa recepção, Ainz Ooal Gown-dono.”

Não se pode ler expressões faciais de um crânio. Que tipo de abertura se ajustaria melhor
à situação atual?

Jircniv ponderou cuidadosamente essa questão.

No entanto, quem falou primeiro não foi Jircniv nem Ainz.

“Ainz-sama. É desrespeitoso que espécies inferiores, como humanos, se dirijam a ti


como iguais.”

Disse uma voz de homem e então:

“『Ajoelhem-se』.”

Jircniv ouviu o som de placas de metal batendo, mas ele não precisou se virar para saber
o que estava acontecendo. Seus súditos devem ter se ajoelhado em resposta à voz do
homem. Ao mesmo tempo, ele podia ouvir o grunhido desesperado que vinha daqueles
que queriam se levantar, mas não conseguiam.

Deve ter sido algum tipo de efeito poderoso de dominação mental.

Se Jircniv não tivesse usado o colar que ele nunca tirou, ele estaria ajoelhado como seus
homens.

Inúmeros olhares se fixaram em Jircniv, o único a permanecer de pé. Eles eram olhares
frios e clínicos, como se Jircniv não fosse nada além de uma cobaia.

“—Isso já é o bastante, Demiurge.”

“Entendido!”

O monstro parecido com um sapo chamado Demiurge curvou-se respeitosamente ao


seu mestre.

“『Estão livres』.”

Ele quase podia ver a pressão em torno deles desaparecer, e ele podia ouvir suspiros de
alívio por trás dele.

“...Jircniv Rune Farlord El-Nix, meu subordinado fez algo rude com um convidado nobre
que veio de longe para visitar meu domínio. Os pecados do vassalo são os do suserano e,
como tal, peço-lhe perdão. Espero que esta seja uma questão que possa ser resolvida com
uma reverência da cabeça.”

Comoção e agitação surgiram das suas filas de monstros atrás deles.

Inúmeros sentimentos dançaram no coração de Jircniv.

Ele foi cauteloso, porque percebeu que Ainz não era do tipo que lidava com assuntos
apenas com força bruta.

Da mesma forma, ele ficou aliviado, porque Ainz não era do tipo que lidava com assuntos
apenas com força bruta.

Mais importante ainda, ele estava com medo. Ele sabia, sem dúvida, que Ainz tinha a
lealdade completa de todos os monstros presentes aqui.

Ao mesmo tempo, Jircniv teve a percepção doentia de que tudo o que havia acontecido
até então ocorrera de acordo com os desejos de Ainz Ooal Gown. Era a sensação sinistra
de que tudo acontecera exatamente como Ainz havia planejado.
“Não há necessidade de se desculpar por isso, Gown-dono. Não é incomum para os su-
bordinados perderem as estribeiras e fazer o que quiserem. Cidadãos do nosso Império
fizeram o mesmo. Na verdade, estou em desgraça quanto a isso.”

Um dos guardas reais que haviam sido libertados da dominação começou a se mover e
colocou uma urna ao lado de Jircniv de maneira nervosa e preocupada. Jircniv deveria
ter imediatamente aceitado, mas ele estava atrasado por seus pensamentos.

As ações do servo de Gown pretendiam me fazer dizer o que acabei de fazer? Se for esse o
caso, devo sair do roteiro? Não, isso não é uma opção. Isto é como uma luta encenada com
lâminas reais. Um único passo em falso resultará em ferimentos graves... isso seria muito
ruim.

“Esta é a cabeça do nobre tolo que se encarregou de enviar intrusos a sua tumba... em-
bora eu não saiba se tumba é a palavra certa a ser usada. Espero que aceite isso.”

A urna continha a cabeça do Conde Femel. Ele era o nobre que fora induzido por Jircniv
a recrutar e despachar os Trabalhadores.

Esses nobres eram apenas massa de manobra e foram criados para serem usados em
tempos como estes.

Homens mortos não contaram histórias. Embora ele não soubesse quanta informação
Ainz Ooal Gown possuía, seria mais sensato encobrir seus pecados o máximo possível.

Era bem provável que Ainz mandasse seus emissários para intimidá-lo porque os Tra-
balhadores haviam invadido seu domínio. Por causa disso, sua melhor opção era negar
todo o conhecimento do incidente.

A linda mulher ao lado de Ainz gentilmente acenou com a cabeça e em reposta, Demi-
urge levou a urna para os degraus.

Então, ele se ajoelhou diante de Ainz e apresentou a cabeça de dentro da urna.

Ainz levantou a cabeça para cima.

“Eu vou aceitar isso. Mas o que devo fazer com isso agora? Seria um desperdício sim-
plesmente jogá-lo fora.”

...Hm? Ah, zombaria, então? Entendo. Ele está certo de que Femel foi manipulado... a ques-
tão agora é onde as informações vazaram...

De repente, a cabeça decepada de Earl Femel se contraiu na mão esquelética de Ainz.

De relance, alguém poderia pensar que Ainz estava tremendo, mas um olhar mais atento
revelaria a verdade. Um líquido preto engoliu a cabeça, e Ainz deixou cair de sua mão.
Jircniv não desviou os olhos da visão horripilante de uma fonte de líquido preto pega-
joso em erupção do chão.

Depois que o fluido preto acabou de fluir, o que restou foi um enorme traje de armadura
preta.

Era um Death Knight.

Como um, todos atrás de Jircniv inalaram nitidamente de surpresa.

“Im... possível...”

Ele os cria. As palavras da empregada eram verdadeiras.

Jircniv queria desesperadamente morder o lábio, mas se forçou a não morder. Ele não
podia fazer uma coisa tão vergonhosa em público.

“Vá. Entre na fila.”

Com um gemido profundo que parecia vir de algum lugar abaixo da terra, o Death Knight
obedientemente desceu as escadas e desapareceu do campo de visão de Jircniv.

Quantos mais desses Death Knight pode Ainz Ooal Gown ainda fazer? Não me diga... um
número ilimitado, contanto que ele tenha cadáveres? Não, isso é simplesmente ridículo —
espera, antes disso, ele pode fazer undeads ainda mais poderosos? Se ele realmente pudesse
fazer essas criaturas...

“Então, Jircniv Rune Farlord El-Nix-dono.”

A voz calma de Ainz trouxe Jircniv de volta aos seus sentidos, e ele sorriu facilmente
para Ainz.

“Ah, Gown-dono, apenas Jircniv já é bom. Afinal, é um nome longo.”

“Mesmo? Bem, então, Jircniv-dono. Para começar, permita-me pedir desculpas por
aquela exibição desagradável de agora. Dado que meu vassalo mal-educado ofendeu-no
e aqueles sob o seu comando, eu considerarei a questão da invasão de Nazarick resolvida.
Então, isso é tudo. Embora eu o tenha feito percorrer um longo caminho, agora está livre
para sair.”

“—Hah?”

Jircniv não entendeu o que acabara de ouvir.


“Ah, me perdoe. Temo que possa ter ouvido mal suas palavras. Eu poderia incomodá-lo
para repetir?”

“Não há necessidade de se desculpar. Tudo bem se você voltar para casa. Afinal, nós
ficaremos muito ocupados aqui em breve.”

Ainz deu de ombros, como se estivesse brincando.

Jircniv não tinha idéia do que estava acontecendo.

Será que o pedido de desculpas foi apenas um pretexto para levá-lo a vir aqui para cum-
prir algum outro objetivo? No entanto, o fato de ter sido perdoado tão facilmente era
muito estranho.

Algo não se encaixava nisso tudo.

—Espere um minuto! O que ele acabou de dizer?

“Perdoe-me, mas o que quis dizer com “ficaremos muito ocupados”?”

“Graças a Vossa Majestade, sabemos agora que seremos arrastados para assuntos pro-
blemáticos, mesmo que tentemos manter nas sombras. Sendo esse o caso, eu estava pen-
sando em ir para a superfície e pessoalmente lidar com todas essas coisas problemáticas.”

“Isso, isso significaria...”

“Primeiro, teremos aqueles que conspiram contra nós para pagar o preço por sua tolice.
Depois disso, vamos esmagar todas as pessoas problemáticas que encontrarmos até que
a paz que tanto prezo seja restaurada.”

Estas palavras eram o discurso de um lunático.

Não — isso seria errado. Ele não estava bravo. Quando se consideravam as habilidades
de Ainz Ooal Gown, sua força militar e econômica, essas palavras não eram nada loucas.
Foi apenas Jircniv — cego por sua experiência limitada — que achou difícil aceitar os
fatos.

Ainz Ooal Gown era um homem que podia fazer tudo isso.

Uma sensação incontrolável de medo surgiu por debaixo dos pés de Jircniv.

A Grande Tumba de Nazarick. Era um monstro que se isolou em silêncio. Agora ele havia
aberto as portas e estava prestes a dar seus primeiros passos na superfície.
Será que ele me chamou aqui para isso? Isto é uma declaração de guerra? O que devo
fazer? Ainz Ooal Gown está essencialmente dizendo que ele declarará guerra ao Império no
futuro! Eu deveria estar ajoelhado diante dele agora, certo?

Na verdade, ele sentiu que era a coisa mais sensata a se fazer.

No entanto — ele não achava que o povo prosperaria aceitando a regra de um monstro.
Se as coisas corressem mal, havia a possibilidade de que Ainz pudesse simplesmente ma-
tar todos no Império e reanimá-los como mais Death Knight. Isso seria um destino pior
que a morte.

Jircniv atormentou seu cérebro como ele nunca havia feito antes em sua vida. Por direito,
ele deveria ter levado esta questão de volta ao Império e consultado com dezenas de
conselheiros sobre qual deveria ser o curso de ação apropriado. Mas então, seria tarde
demais.

Com um sorriso que cortou tudo, Jircniv falou.

“Eu tenho uma proposta. Que tal formar uma aliança?”

“Você está nos confundindo com seus lacaios— uwah!”

Uma voz limpa, semelhante a um sino, soou adiante, seguida pelo som de algo se mo-
vendo rapidamente. A moça de cabelo grisalho franziu a testa ligeiramente, enquanto
Aura, de pé ao lado dela, fingiu agir de maneira idiota.

Embora a visão dinâmica de Jircniv não fosse boa o suficiente para ver o que havia acon-
tecido, parecia que a Elfa Negra tinha acabado de chutar a garota de cabelos prateados
na perna.

“...Ei, sua—”

“—Vocês estão fazendo muito barulho. Silêncio.”

Com um gesto condizente com um rei demônio, Ainz acenou majestosamente com a mão
esquerda para pedir silêncio.

Tais movimentos régios só poderiam ter nascido de longos anos de governo.

O nível de alerta de Jircniv estava nas alturas.

Entendo, ele tem presidido esta terra como seu governante por um longo tempo. Pensar
que ele manteve um porte tão digno...

As duas garotas falaram em uníssono, expressando seu pesar pela insensatez.


Ele não podia sentir um ar da arrogância que Aura tinha dado quando estava na capital.
Logo depois disso, ele olhou para Ainz Ooal Gown, esperando que ele tivesse seus subor-
dinados totalmente sob controle. Então ele agarrou a sua coragem e se preparou para
falar.

Este era o evento principal.

Sua língua umedeceu seus lábios secos.

Jircniv escolheu o melhor plano que conseguia imaginar a partir dos inúmeros planos e
estratagemas que ele havia inventado no curto espaço de tempo até agora.

“Construir uma nação aqui e governar como rei — acho que é uma ótima idéia. É uma
posição que melhor combina com o senhor, Gown-dono. Nosso Império terá prazer em
fornecer toda a ajuda e recursos que precisar para fundar esta nação. Que tal isso?”

O rosto sem carne de Ainz não se moveu. No entanto, Jircniv percebeu que os pontos
brilhantes de luz vermelha nas órbitas dos olhos de Ainz estavam brilhando um pouco
mais.

“...Jircniv-dono, eu não acredito que este plano tenha quaisquer méritos para o senhor.”

Isso era natural, e era por isso que ele podia prever com segurança que Ainz faria essa
pergunta. Reunindo toda a sua experiência em atuação, Jircniv fez sua resposta.

“Desejo forjar boas relações com o país que sua estimada pessoa venha a estabelecer.
Esta é também uma consideração para o futuro.”

“Entendo. Então, seja assim. Vou deixar os detalhes para o senhor.”

Ainz concordou tão rápido que deixou Jircniv perplexo. Foi quase decepcionante. Ele
não esperava que as coisas fossem tão bem.

Para começo de conversa...

Por que ele não me pediu para jurar lealdade a ele? Como um indivíduo esmagadoramente
superior em uma posição infinitamente vantajosa, por que ele aceitaria essa proposta?

Ele havia preparado dezenas de respostas para quando Ainz exigia fidelidade dele. Mas
a resposta de Ainz havia excedido o escopo das previsões de Jircniv.

O que ele está pensando?

Jircniv não conseguia entender o pensamento de Ainz.


Quando batalhando contra um oponente mais forte, um homem mais fraco lutaria pen-
sando em como derrubar seu oponente. Foi assim que se explorava a arrogância dos for-
tes. Mas se o oponente mais forte não fosse um ser arrogante, então essa tática era inuti-
lizável. O único modo de luta do homem mais fraco não teria efeito.

Era assim que Ainz demonstrou ser. Ele nunca agiria de uma maneira que deixasse os
outros sentirem que ele era arrogante.

Não—

Como eu pensava, é possível que tudo esteja indo de acordo com os planos de Ainz. Afinal,
o atraso em sua resposta foi muito curto. Isso significa que ele já previu todas as minhas
escolhas possíveis e preparou as respostas apropriadas?

Jircniv estava bem ciente de que a coisa assustadora sobre o ser chamado Ainz Ooal
Gown não era apenas seu incomparável poder, mas também de seu intelecto insondável.

“Mesmo? Então isso é maravilhoso. Poderia nos dizer se há algo que possamos fazer
pelo o senhor?”

“Eu não consigo pensar em nada agora. No entanto, gostaria de estabelecer um local
onde eu pudesse colocar emissários do nosso lado. Eu gostaria de alguma maneira de se
comunicar rapidamente com o senhor.”

Se tudo estava realmente indo como Ainz planejou, então não havia como ele não ter
pensado em tudo. Nesse caso, essa troca inteira simplesmente foi uma coincidência?

Não, isso pode ser um blefe também. Ele deve ter pensado que ele seria visto se ele decla-
rasse suas exigências imediatamente. Que monstro astuto ele é. Ou melhor, talvez seja por-
que ele é um monstro que seu intelecto supera o da humanidade.

“Ah, sim, de fato. Que tolice minha por não ter pensado nisso. Não esperava nada menos
do senhor, Gown-dono.”

“...Ah.”

Ele não é um fã de gentilezas?

Depois de ouvir essa resposta indiferente, Jircniv fez uma anotação mental desse ponto
de dados.

“Então, voltarei primeiro. Vou deixar meu secretário aqui. Poderia discutir os detalhes
com ele? ...Loune Vermillion!”

“—Entendido! Eu vou oferecer meu corpo e alma pelo bem do Império!”


Embora Jircniv não pudesse ver o rosto de Loune atrás dele, ele podia sentir profunda-
mente a convicção do homem em sua voz. Na verdade, as decisões tomadas aqui decidi-
riam o futuro do Império. Se ele não tivesse que correr de volta para o Império imedia-
tamente para formar os comitês apropriados para lidar com Ainz Ooal Gown, Jircniv teria
preferido ficar no lugar dele.

“Uma excelente resposta. Eu posso sentir sua lealdade ao seu Imperador em cada pala-
vra. Então, nós enviaremos Demiurge. Com certeza, ele foi um pouco rude mais cedo, mas
desde que o senhor o perdoou, deixarei que ele lide com essa tarefa.”

O monstro parecido a um sapo curvou-se silenciosamente do canto do olho de Jircniv, e


ele sentiu que estava prestes a perder um subordinado valioso. Ele lutou para se contro-
lar para não deixar os fogos do ódio se infiltrarem nos olhos enquanto olhava para Ainz.

Ele já está fazendo a sua jogada!

O monstro sapo (Demiurge) poderia dominar as pessoas com suas palavras. Isso estava
claramente declarando sua intenção de transformar Loune em seu fantoche e fazer com
que ele revelasse tudo o que sabia sobre o Império.

Estas não são as ações que um aliado tomaria. O fato de que ele é tão evidente sobre isso
é prova de sua natureza insidiosa. Demiurge... ele deve estar planejando enviar esse mons-
tro de aparência estúpida para fazer um trabalho intensivo de inteligência como coordenar
os dois lados, para que ele possa afirmar que foi seu subordinado a realizar o trabalho de
espionagem sozinho mais tarde. Ainz Ooal Gown, quantas mais surpresas você tem na
manga? Seu filho da puta!

Embora ele estivesse amaldiçoando Ainz em seu coração, Jircniv teve que tirar o chapéu
para ele.

O “erro” de agora foi calculado para que ele (Jircniv) não pudesse afirmar que não tinha
idéia de que tal coisa aconteceria. Se ele tinha alguma objeção, ele tinha que expressá-las
agora, porque uma vez que ele deixasse essa chance escapar, seu silêncio poderia ser
tomado como consentimento.

Assim que Jircniv estava prestes a dizer alguma coisa, Ainz falou diante dele.

“Demiurge é um dos meus seguidores mais confiáveis. Tenho certeza de que não haverá
mais problemas se ele e Loune discutirem esses assuntos.”

“Isso seria maravilhoso.”

Jircniv se obrigou a sorrir.

Esta foi a primeira vez que ele viu uma exploração tão magistral de uma oportunidade.
Como Ainz já havia dito isso, qualquer coisa adicional seria um desperdício de ar.
No entanto, quando Jircniv ouviu as próximas palavras de Ainz, ele percebeu o quão
ingênuo ele tinha sido.

“Agora, a situação atual é diferente de antes. Agora é um aliado de Nazarick, Jircniv-dono.


Mandá-lo para casa com tanta pressa parece rude. Já que veio até aqui, por que não pas-
sar a noite? Vou preparar uma calorosa recepção para todos.”

Então não é só Loune, ele quer que todos estejam aqui também?!

Pior, ele pode estar planejando um esquema ainda mais perverso. Não importa o que
fosse, era difícil acreditar que passar a noite aqui era um inocente ato de caridade sem
segundas intenções. Ele amaldiçoou a forma como o rosto feio de Demiurge se contorceu
em um sorriso, como se dissesse: “Eu entendo”.

“Não, não, não, não poderíamos incomodá-lo. Afinal, devemos retornar para fazer os
preparativos.”

“Mesmo? Isso é uma pena. Então, se for conveniente — não, por favor, permita que um
dos meus servos vos envie para casa.”

A idéia de montar um Dragão veio à mente, e a curiosidade surgiu da sugestão de Ainz.


Ainda assim, Jircniv acenou a perspectiva de lado. Não havia como Ainz simplesmente
transportá-lo para casa, e ele não desejava dever a Ainz um favor.

“Estou profundamente agradecido pela sua oferta mais generosa e agradeço-lhe por isso.
No entanto, sinto que desde que cheguei em uma carruagem, eu deveria retornar da
mesma maneira.”

“Um cavalo undead sem cabeça poderia correr dia e noite sem dormir—”

“—Por favor, me perdoe, mas devo respeitosamente recusar.”

“Deve? Entendo.”

Ele podia sentir que havia alguma decepção nessas palavras. Foi uma atuação ou foi a
verdade? Jircniv não sabia dizer, embora suspeitasse que pudesse ser uma atuação.

De qualquer forma, enquanto eles não entendessem completamente suas atuais circuns-
tâncias, ele queria evitar anunciar as notícias da aliança do Império com o undead cha-
mado Ainz.

Para começar, se ele montasse um cavalo undead que odeia a vida e retornar ao Império,
deixando de lado os sacerdotes que ele trouxe consigo, o que os sacerdotes dos templos
da capital teriam a dizer sobre isso?
“Então, vamos nos despedir.”

“Muito bem. Demiurge... escolte nossos convidados para fora.”

“Não, não, não há necessidade de incomodar... bem, já que esta é uma oportunidade rara,
que tal as empregadas? Eu nunca vi mulheres tão bonitas antes.”

Ainz estalou o pescoço em surpresa.

Foi um movimento incrivelmente falso.

Jircniv lutou para manter sua raiva sob controle enquanto sorria para Ainz.

Ele deve ter percebido que eles estavam cautelosos com o Demiurge, mesmo assim ele
o havia enviado de qualquer maneira, como se fosse para zombar deles.

Ele não tinha intenção de formar uma aliança. Essa era uma maneira indireta de dizer a
Jircniv exatamente quem estava no comando aqui.

Eu nunca vi tal mal antes... ele é uma ameaça à sobrevivência contínua da humanidade...

“Ah, obrigado pelo seu elogio. Então, por favor, fale com as empregadas que estão espe-
rando do lado de fora. Ah, que belo dia para forjar uma aliança. Como eu gostaria de po-
der fazer um festival.”

Quer dizer, para celebrar o dia em que você nos fez escravos?!

Enquanto ele gritava internamente, Jircniv sorriu para Ainz mais uma vez.

“De fato. Sim, de fato.”

Parte 4

Depois que as negociações foram concluídas, Ainz reuniu os Guardiões — Albedo, De-
miurge, Aura, Mare, Cocytus, Shalltear — em seu escritório, junto com Sebas.

Ele fez sinal para seus subordinados ajoelhados se levantarem.

Ele colocou os dois cotovelos sobre a mesa e cruzou as mãos, cobrindo a metade inferior
do rosto.

Sua barriga inexistente doía. Agora, eles provavelmente começariam a denunciá-lo. En-
quanto ele segurava esse sentimento em seu coração, ele espiou Demiurge e Albedo.
Eles não pareciam bravos. Nem pareciam sem palavras.

No entanto, quem poderia dizer se isso era ou não uma cara de pôquer? Depois de pen-
sar nisso, ele olhou de perto para eles novamente, para ver se seus rostos estavam con-
gelados de raiva.

Eu quero sair daqui. Em primeiro lugar, por que eu me sentei aqui... não, é tarde demais.
Não adianta chorar sobre o leite derramado. Aprenda a falar por si mesmo, Ainz Ooal
Gown!

A dor fantasma em seu intestino parecia ter diminuído um pouco, mas ele ainda sentia
vontade de vomitar.

Quando ele soube que o Imperador estava se aproximando de Nazarick como planejado,
Ainz indiretamente perguntou a Demiurge “O que nós faremos a seguir”, mas a resposta
que ele recebeu foi “Como tudo está indo como previsto, vamos nos ater ao plano”.

Mas eu não sei qual é o plano!

Claro, ele não disse isso.

Como o governante absoluto da Grande Tumba de Nazarick, Ainz teve que adotar uma
atitude que correspondesse às expectativas dos NPCs (suas crianças). Portanto, tudo o
que ele podia fazer era fingir que parecia determinado, sorrir como um rei e responder,
“Mesmo?”.

Isso quando se tratou de seguir o plano de Demiurge, no entanto, Ainz estava desespe-
radamente agitado no escuro.

As conversas reais com Jircniv Rune Farlord El-Nix tinham sido jogadas inteiramente de
improviso, confiando que haveria um caminho através de qualquer coisa. Quanto a quão
confiante ele estava sobre ter dito a coisa certa durante as negociações... bem, simples-
mente, não existia.

Como um estudante esperando por seus resultados, ele espiava os dois.

Isto é como uma entrevista de emprego...

Ele sentou-se para várias entrevistas enquanto fazia sua incursão no mundo do trabalho,
e sentia o mesmo agora.

“Então, o Imperador fez o seu movimento, exatamente como previsto.”

Ainz respirou fundo. Quando ele estava prestes a falar, uma voz interrompeu ao lado
dele.
“Ainz-sama, temo ofender, mas tenho uma pergunta. Por que o senhor tem que dar ao
imperador humano uma posição de colaborador ~arinsu? Não poderíamos ter conquis-
tado o Império pela força ~arinsu?”

A não-existência que Ainz era agora balançou em resposta à pergunta de Shalltear.

O primeiro passo de seu objetivo geral de dominação mundial foi pressionar o Império.
Eles permitiriam ao alto comando do Império lançar um ataque a Nazarick, e usaram isso
para ameaçar o Império e forçar o Imperador a uma reunião direta. Então, eles iriam
impressionar o poder militar esmagador de Nazarick sobre eles. Foi assim que esta ope-
ração deveria ter ido.

Ainz não sabia nada além disso A importância exata do porquê eles tiveram que impres-
sionar o Imperador com o poder de Nazarick e outros preciosos detalhes eram um mis-
tério para ele.

Por causa disso, ele não tinha idéia de como responder adequadamente à pergunta de
Shalltear.

Aura continuou atrás dela.

“Shalltear tem um ponto. Nós fomos para a capital deles e não é nada de mais lá.”

Ainz olhou para os outros Guardiões. Todos pareciam ter as mesmas dúvidas.

Embora eles não tivessem a intenção de ir contra a decisão tomada pelo seu mestre Ainz,
enquanto eles pensavam que o caminho que ele escolheu estava correto, as dúvidas ainda
continuariam crescendo.

Além disso, eles queriam saber o porquê Ainz tomou as decisões que ele fez, para en-
tender suas verdadeiras intenções, para que pudessem ser mais úteis para ele.

Se eles não soubessem de seus motivos, eles poderiam trabalhar acidentalmente contra
seus objetivos. Dois dos Guardiões, em particular, sentiram-se desconfortáveis com essa
falta de conhecimento; ou seja, Shalltear e Sebas, que já haviam cometido erros no pas-
sado. Ambos observaram Ainz com olhares sérios, prestando muita atenção em suas pa-
lavras para que não perdessem suas intenções.

Ainz anulou a pressão que sentia por ser o foco da atenção de todos e procurou uma
saída para essa situação.

Primeiro, preciso decidir se afirmo ou não as palavras de Shalltear e Aura. Se eu os afirmo,


isso significa conquistar o Império é parte do plano. Se eu negar, isso significa que não va-
mos conquistar o Império por enquanto... qual escolha devo escolher para sincronizar com
as de Albedo e Demiurge? Ah não, não é bom, demorei demais...
Ainz riu, em um tom que ele esperava que fosse confiante e destemido.

Depois disso, ele exalou profundamente.

As chances eram uma em duas.

Se ele estragasse tudo aqui, tudo o que ele teria que fazer era corrigir seu curso de al-
guma forma. E além disso—

Shalltear está sempre confusa, então eu deveria chamar sua atenção quanto a isso!

“—Eu sinto que seria um curso tolo de ação, Shalltear.”

A luz nos olhos dos Guardiões se iluminou quando ouviram as palavras de Ainz. Isso
provavelmente não foi um truque da luz. Eles queriam ouvir as palavras de seu grande
mestre, para colher as pérolas de sabedoria que caíram daquela mente brilhante que os
contemplava.

Eu não sou o que você pensa que sou!

Ainz olhou para Demiurge. Ele fez o melhor que pôde para não parecer que estava pe-
dindo ajuda e falou devagar e com cuidado.

“...Demiurge.”

Um homem inteligente como ele deve entender apenas chamando o nome dele.

Essa era a esperança de Ainz.

“Sim! Por favor, perdoe a incapacidade desses incompetentes para compreender plena-
mente seus planos!”

“Ah, não, não, incompetente é um pouco demais...”

“Mais uma vez, ofereço minhas desculpas! Eu imploro pelo seu perdão!”

“...Ah, ahhh...”

Não é desse jeito! Por que você não disse outra coisa? Isto é problema. Se eu chamar o
Demiurge de novo... por que ele não deu uma resposta direta?!

“...Albedo.”

“Eu sou levada às lágrimas pela compaixão ilimitada de Ainz-sama. Não esperava nada
menos do nosso governante, do nosso Rei!”
“...Uhun.”

Ele queria respostas mais do que queria elogios.

No entanto, não havia mais ninguém a quem ele pudesse recorrer.

Depois de reunir sua determinação, Ainz começou a explicar sua conclusão.

“Exigimos justa causa.”

“É. Tal. Coisa. É. Verdadeiramente. Necessária?”

“Claro. De fato, poderíamos conquistar o Império apenas com força. No entanto, se fi-
zéssemos isso, levantaríamos muitos inimigos contra nós. É diferente de lidar com opo-
nentes primitivos como os Lizardmen. Se eu tivesse que explicar isso para alguém, eu
diria assim: “Enquanto estávamos vivendo pacificamente em nossa casa isolada, fomos ata-
cados e roubados por trabalhadores do Império. Com raiva, nós os matamos e exigimos um
pedido de desculpas de seu empregador, o Império, e eles, por sua vez, disseram que nos
ajudariam a construir uma nação para fazer as pazes.” Essa era a idéia geral. Assim, fazer
do Imperador um colaborador faz parte do plano.”

“Oh, entendo~ Mas Ainz-sama, eles aceitarão uma explicação como essa?”

“Se eles aceitam ou não é sem importância, Aura. É a verdade.”

Isso foi o que ele quis dizer com “justa causa”. E Ainz não contou uma única mentira para
eles.

“Ah, isso, isso poderia significar, era tudo por isso? Para, uh, para pegar o Imperador
aqui?”

“Hm? Como assim, Mare?”

“S-Sim. Er, conversas, conversas com o Imperador podem deixar vestígios para trás, e
por causa disso, o senhor especialmente o trouxe aqui para minimizar a quantidade de
vazamentos sobre a discussão. Eu, eu acho que é isso.”

“—Hahaha. De fato, foi isso. Muito bem, Mare.”

Mare corou e sorriu timidamente.

Quando ele olhou para o sorriso adorável de Mare, Ainz suspirou de alívio. Era verdade
que negociar no Império poderia deixar muitas evidências para trás. No entanto, ao tra-
zer uma quantidade limitada de funcionários do Império para cá, eles poderiam minimi-
zar o número de vazamentos e garantir que eles não entrassem no registro. Isso seria
muito útil na condução de investigações.
Ainz ficou impressionado com a visão de Demiurge, que havia organizado essa ordem
de eventos, e olhou para os outros Guardiões.

“Além disso, construir uma nação implica que estaremos defendendo mais pessoas.
Transformar os países em cemitérios só prejudicará o nome de Ainz Ooal Gown. Agora,
alguém notou alguma coisa?”

A intenção por trás dessas palavras era perguntar se alguém havia notado algo de espe-
cial, como Mare fez.

Os olhos de todos os Guardiões estavam agora focados em Demiurge. Eles devem ter
sentido que Demiurge, a quem eles acreditavam ser a mente mais brilhante de Nazarick,
certamente teria aprendido alguma coisa. Ainz esperava fortemente que esse fosse o caso.

“—Kukukuku.”

A risada de Demiurge ecoou pela sala.

“...Você realmente achou que essa era a extensão do plano de Ainz-sama?”

“Kuhuhu...”

“U-Uhm...??”

“Ehh?”

“O que você quer dizer ~arinsu?”

“O. Que. Isso. Significa?”

“Oh.”

“...Hm?”

“Vocês precisam pensar mais. Ainz-sama é o nosso mestre, que reuniu todos os Seres
Supremos. Vocês acham que isso foi a extensão do planejamento dele?”

Ainz engoliu em seco, como se tivesse levado um soco no rosto. Enquanto isso, os Guar-
diões estavam balançando a cabeça e murmurando “De fato”.

Por que você está dificultando as coisas para mim?

Felizmente, ninguém podia ouvir os gritos internos de Ainz.


“Precisamente. Você não está sendo muito apressado pensando que conhecia as profun-
dezas das intenções de Ainz-sama só porque ele lhe deu aquela resposta fácil de enten-
der? É por isso que o Ainz-sama não lhe contou o significado mais profundo por trás de
seus planos.”

Um indício vago de arrependimento coloria os rostos de todos os Guardiões, além de


Albedo e Demiurge. Eles provavelmente estavam preocupados que seus cérebros tolos
fossem incapazes de serem úteis para Ainz.

Tudo isso deixou Ainz ainda mais grato por seu corpo atual. Era mais fácil manter uma
cara de poker dessa maneira.

“Realmente... Ainz-sama. Não é melhor nos informar do seu verdadeiro objetivo agora?
Afinal, isso informará qual direção seguiremos no futuro.”

A atenção de todos foi para Ainz. Suas expressões sinceras e suplicantes pareciam dizer:
“Por favor, esclareça para que tolos como nós possamos entender”.

Depois de olhar para todos, Ainz respirou fundo. Não, ele respirou fundo várias vezes.

Então, ele lentamente se levantou da cadeira e virou as costas para os Guardiões. A par-
tir desta posição, ele ofereceu louvor a Demiurge olhando por cima do ombro.

“...Como esperado de Demiurge e da Supervisora Guardiã, Albedo. E pensar que vocês


tinham discernido meus verdadeiros objetivos...”

“...Não. Seus esquemas são elaborados e clarividentes, Ainz-sama. Eu não posso esperar
compreender tudo. E acredito que o que entendo é apenas uma parte de seus planos.”

Demiurge se curvou respeitosamente em resposta ao elogio de Ainz.

“Ouvi dizer que algumas das empregadas o chamam de Rei Sábio. Eu acredito que o
nome é mais adequado para o Ainz-sama. Pensar, assumindo o papel de Momon, o aven-
tureiro era parte do seu plano mestre. Agora ele se tornou uma alternativa eficaz para
nivelar um país.”

Ainz assentiu com satisfação, mas seu coração era um turbilhão de dúvida.

...O que ela está dizendo? Momon? O que meu nome de aventureiro está fazendo aqui?

“O que tudo isso significa ~arinsu?”

A pergunta de Shalltear carregava uma pitada de ciúme, provavelmente porque ela não
podia trilhar o mesmo terreno que os dois compartilhavam com seu amado mestre. Aura
estufou as bochechas em desgosto quando viu o sorriso fraco de Demiurge e o sorriso
radiante de um vencedor no rosto de Albedo.
“Ainz-sama, diga-nos também. Também queremos ser úteis!!”

“En-Então, hum, hm, por favor, me diga também. Por favor!”

“Para. Início. De. Conversa. Isso. Não. Deveria. Ser. Necessário. Dizer. Isso. A. nós. Por.
Favor. Perdoe. Nossa. Tolice.”

“Eu rezo para que o senhor nos ilumine neste assunto, Ainz-sama.”

Todos pareciam muito desesperados.

Ainz ficou de costas para eles e cobriu os olhos com a mão. O estresse fez com que ele
sentisse que ia desmaiar.

—Não há alegria maior na vida para nós do que servi-lo.

Os Guardiões atrás dele estavam dizendo algo similar, todos ao mesmo tempo.

O coração de Ainz doía de culpa quando ele ouviu os sinceros apelos dos Guardiões atrás
dele, e quando percebeu que não poderia respondê-los. Suas emoções fortes deveriam
ter sido suprimidas, mas ainda assim essa dor que ele sentia continuou inabalável.

Ele deveria se abrir e admitir sua própria incompetência?

No entanto, havia muitas razões que não lhe permitiam dizer isso.

Ele deixou de lado suas dúvidas e virou-se, apontando com força o Cajado de Ainz Ooal
Gown para Demiurge.

“Demiurge. Eu permito que você explique o que entende aos outros.”

“Entendido.”

Depois que Demiurge assentiu, ele começou a falar com seus companheiros.

Parte 5

A estrutura da carruagem não havia mudado entre a viagem de ida e volta de Nazarick,
mas, por alguma razão, todos os ligeiros solavancos e brechas ao longo do caminho pa-
reciam ampliados. Talvez tenha sido por causa da atmosfera sombria no interior da car-
ruagem. Ou talvez fosse porque as pessoas que ocupavam o vagão haviam mudado.
As tropas escoltando-as a Nazarick eram compostas por homens da 1ª Legião. Os escol-
tando-os de Nazarick eram da 2ª Legião.

No lugar de Fluder estava um dos seus discípulos. No lugar de Loune estava um de seus
escribas. Os dois ocupantes originais da carruagem que ficaram foram Jircniv e Baziwood.

Fluder não estava aqui porque queria discutir o que viu com seus discípulos. Em seu
lugar, ele enviara um de seus acólitos para ocupar seu lugar na carruagem de Jircniv.
Embora o acólito fosse habilidoso, ainda estava muito longe de seu mestre.

Com toda a probabilidade, a discussão na carruagem de Fluder provavelmente estava


em uma intensidade febril.

O humor em sua carruagem provavelmente seria o oposto disso. Na carruagem de Jirc-


niv, só havia silêncio.

Um clima sombrio enchia a carruagem.

Aquele que fizera assim fora o próprio Jircniv. Seu rosto era duro e sua expressão
amarga, como se ele tivesse mastigado uma raiz de lótus.

O homem que era conhecido e temido como o Imperador Sangrento era um homem que
tipicamente usava um sorriso fino no rosto. Na verdade, essa expressão foi cuidadosa-
mente ensaiada. Isso porque ele teve que cultivar a impressão de um forte imperador
entre seu povo. Uma pessoa que permaneceu acima de todas as outras tem que causar
uma impressão marcante em todos, caso contrário, causaria desconforto entre aqueles
que o seguiam.

No entanto, parecia que Baziwood, que conhecia Jircniv melhor entre essas três pessoas,
nunca tinha visto esse olhar no rosto de Jircniv. Todos os presentes sabiam disso, razão
pela qual ficavam quietos e permaneciam em seus lugares.

Mesmo que ele os sentisse olhando para ele, Jircniv não planejava dizer nada.

A razão para isso era muito clara.

Ou melhor, se alguém pudesse pensar em qualquer outra coisa, Jircniv iria abrir a cabeça
da pessoa para ver o que havia dentro. As possibilidades são, ele encontraria um cérebro
do tamanho de sua unha mindinho.

A Grande Tumba de Nazarick — Na verdade, chamá-la de “Tumba” era totalmente ina-


dequado.

Esse é o castelo de um rei demônio.

Aqueles seres assustadores e além deles—


—O espectro da Morte, que estava em um trono.

E não foi apenas medo que eles sentiram.

Eles tinham visto uma miríade de luxos, arquitetura brilhante e todo tipo de decoração.
Ninguém poderia permanecer desorientado por isso.

Jircniv poderia facilmente prever as dificuldades que seu país teria, em face daquele ser
que possuía poder militar e econômico superlativo, entre outras coisas.

Se o líder de um país fosse forte, ele daria ao seu povo uma sensação de segurança. Por
mais forte que fosse um país, ser conduzido por uma ovelha só o encheria de desconforto.
Felizmente, o Império era um leão por completo. E então, de repente, um Dragão apare-
ceu diante deles. Como os cidadãos do Império se sentiriam sobre isso?

Jircniv ficou olhando para as mãos, que estavam tão apertadas que toda a cor havia de-
saparecido delas.

Não, ainda não acabou. Nossa derrota ainda não foi decidida.

Jircniv sorriu. Era um sorriso que se encaixava no nome do Imperador Sangrento.

Talvez estivessem esperando o retorno daquele sorriso zombeteiro, mas um sentimento


de alívio se apoderou de cada um de seus subordinados. Ao ver a reação deles, seu sorriso
ficou mais e mais genuíno.

“Não me encare tanto. Você não está perdendo seu foco aqui?”

“Vossa Majestade!”

As três vozes se sobrepuseram. Havia indícios de alegria dentro deles, alegria que seu
imperador tinha voltado para eles. Quando Jircniv percebeu o que deveria estar fazendo,
assentiu vigorosamente.

“Para começar, gostaria de confirmar se todos se sentem da mesma maneira sobre esse
lugar. Se alguém tiver uma opinião diferente, sinta-se à vontade para fazê-lo. Quem sabe,
eu posso ser quem entendeu errado. Bem, então... suponho que devemos começar com a
coisa mais importante — O que todos pensam do governante da Grande Tumba de Naza-
rick, Ainz Ooal Gown?”

Jircniv deliberadamente disse o nome daquele monstro incrível um tom mais lento que
o normal.
“Ainz Ooal Gown é um monstro entre os monstros e que pode facilmente criar Death
Knight, se nós o fizermos de inimigo, o Império provavelmente será destruído. No en-
tanto, mesmo que não o antagonizemos, há uma chance de que ele possa nos matar de
qualquer maneira, porque ele é um undead, e esses se alegram com isso. Alguém dis-
corda?”

“Não.”

“É como Vossa Majestade diz.”

“Ahh, nós concordamos, então. Para acrescentar a isso, não acho que podemos vencê-lo
com o poder da humanidade. Francamente falando, eu não acho que nós poderíamos se-
quer nos aproximar dele, mesmo se nós reuníssemos todos os exércitos do Império.”

Depois de receber três respostas semelhantes, Jircniv continuou falando.

“Além disso, posso sentir que, como um governante absoluto, ele possui um encanto que
é próprio de um rei.”

“Ah, sim, a presença dele era realmente formidável. Parecia que ele era mais carismático
do que o nosso Imperador.”

“Baziwood-dono!”

“Está bem. Isso é um fato. O mais assustador é que ele disse apenas uma frase e, a partir
dessa frase, pude sentir a imensa pressão de um tirano.”

““Vocês estão fazendo muito barulho. Silêncio.” Era isso?”

Jircniv acenou levemente para o escriba.

Essa foi sem dúvida a atitude que Ainz Ooal Gown adotou como o rei da Grande Tumba
de Nazarick.

“E também... a coisa mais assustadora sobre esse monstro é a maneira que ele pensa. Ele
é um tipo raro de intrigante cujo movimento é feito com um propósito... vocês aí, não
fiquem surpresos. Pense nisso. Ele provavelmente previu o fluxo de tudo que discutimos
até agora. Caso contrário, por que ele nos libertaria tão facilmente? Um adversário com
tanto poder, que não usa músculos, mas sim o cérebro? Ele não é um mero ignorante
cheio de poder.”

Essa era a parte mais problemática sobre ele.

“Depois disso, vamos falar sobre seus seguidores. O que vocês pensam deles?”

Desta vez, ele empurrou seus subordinados para suas opiniões.


“Os que estão perto dele provavelmente eram seus ajudantes próximos. E a mulher de
asas negras ao lado dele... ela deveria ser a rainha dele, não? Parecia assim, pela atitude
dela.”

A beleza de cair o queixo em um vestido branco.

Mesmo que não houvesse bondade no sorriso fino que ela usava, ainda possuía um en-
canto que movia o coração dos homens. Dada sua beleza, certamente haveria muitos ho-
mens que seriam consumidos pelo desejo de ver aquele sorriso dirigido a eles.

Quanto às asas negras na cintura, podia-se dizer que não eram itens mágicos ou peças
de roupa. A principal razão era porque elas eram muito naturais. Embora houvesse hu-
manos com asas e outras espécies aladas neste mundo, ela provavelmente deveria ser
um demônio, um de fora deste mundo, Jircniv pensou.

“Ela pode muito bem ser. Acho que é possível que ela seja a esposa de Ainz Ooal Gown.
Se ela é sua esposa, então, como devo colocar isso... é apenas o rosto dele feito de ossos?
Ou ele está usando uma máscara? Algo assim?”

Ainda assim, apesar das palavras de Jircniv, nenhum deles sentiu que era uma máscara,
e eles também não acharam que fosse uma ilusão.

“E há também Demiurge, que pode controlar as pessoas com sua voz... ele é um bardo?
Talvez ele seja bom em cantar porque é um sapo.”

Os bardos poderiam usar performances com instrumentos musicais para produzir efei-
tos mágicos. O poder do Demiurge para controlar as pessoas através de palavras era
muito semelhante a isso.

Além disso, ele também tinha ouvido falar que fadas chamadas Lorelei tinham uma ha-
bilidade similar à dele. No entanto, esse homem não era nada igual aos belos seres que
eram fádicos. Ele estava absolutamente certo disso.

“Ah, entendo. Um bardo? Isso soa bastante similar. E também havia um inseto gigan-
tesco, acredito. O que era aquilo?”

“Embora eu ache que possa ser algum tipo de espécie de inseto... eu não sei muito sobre
isso, pode ser um hibrido de homem e formiga, então eu acho que você seria mais bem
servido perguntando ao Mestre sobre isso.”

O mundo era enorme. Havia muitas espécies que não eram amplamente conhecidas, e
algumas delas podiam sofrer mutações espontâneas. Além disso, de acordo com as len-
das, os reis monstros eram conhecidos por serem mais desenvolvidos do que o normal.
Era semelhante a como a formiga rainha era diferente das formigas operárias. Jircniv
achou que era uma possibilidade.
“Nesse caso, os restantes são a garota de cabelos prateados e as irmãs Elfas Negras. Dei-
xando as duas últimas de lado, quem é a primeira? A julgar pelos peitos enormes dela —
ela poderia ser uma concubina?”

O riso encheu a carruagem com o comentário de Baziwood.

“Ah, bem, se ela fosse apenas uma concubina, então ela não estaria lá, não?”

“Ela provavelmente é tão forte quanto as irmãs Elfas Negras.”

“Ei ei ei ei... eu acho que você está entendendo errado.”

As palavras de Baziwood foram infundidas com seriedade.

“É verdade que, provavelmente, os mais próximos daquele monstro Ainz provavel-


mente são seus ajudantes. No entanto, isso não significa que eles sejam todos fortes.
Pense nisso. Se o único critério para ser o seguidor de Vossa Majestade fosse a força, e
ele se cercou de uma centena de pessoas como eu, você não acha que o governo iria des-
moronar em pouco tempo? Simplificando, ela foi escolhida para ser sua seguidora por
outras razões além da força. Talvez ela seja uma concubina muito inteligente? Talvez ela
sozinha consiga lidar com os assuntos daquela fortaleza que chamam de tumba.”

Respostas de “Entendo...” vieram de todos.

Jircniv sentiu que tinha razão.

Como a atenção deles tinha sido roubada pelo poder de Ainz Ooal Gown, eles observa-
ram como ela estava alinhada com as Elfas Negras e automaticamente concluíram que a
garota de cabelos prateados era um ser forte. Claro, seria assustador se outra pessoa ti-
vesse o mesmo poder que as Elfas Negras. No entanto, ser levado a uma conclusão falsa
por preconceito anterior também era uma coisa ruim.
Obs.: Estou usando “Elfas Negras” pois eles ainda não sabem que o Mare é uma trap.

“Provavelmente é isso.”

Disse Jircniv enquanto olhava para seus subordinados. E completou:

“Eu considerei isso sozinho. Pensando nisso, ficaria um pouco aliviado se todos os seus
seguidores fossem undead... mas parece que ele reuniu todos os tipos de monstros sob
seu comando.”

“Bem, ao invés de chamá-lo de galeria de monstros, parece mais uma riqueza de talen-
tos...”

Jircniv não pôde deixar de sorrir pelas palavras contundentes de Baziwood.


“De fato. Nós provavelmente deveríamos tentar aprender mais sobre esses seres. Além
disso... há a questão da grandeza dessa fortaleza. Certamente deve existir algo escrito
sobre um lugar tão grandioso?”

“Lamentavelmente, não sei nada sobre isso. Quando voltarmos à capital, vou começar a
investigá-lo imediatamente, começando com mitos e lendas.”

Jircniv aceitou graciosamente o pedido de desculpas do acólito.

“Ahh, eu vou deixar isso para você. Há mais alguma coisa que esquecemos? Eu sincera-
mente não posso acreditar que um monstro tão perverso possa criar um domínio tão
imponente. Você achou alguma coisa que pudesse ser uma pista? O que quero dizer é, no
passado alguma tumba foi realmente construída naquela região?”

Não houve resposta.

O que significava que todos estavam se perguntando a mesma coisa.

Eles não podiam descartar completamente a possibilidade de que a fortaleza tivesse se


teleportado de algum outro lugar — possivelmente outro mundo conhecido como o
Reino Demoníaco — para um lugar sob aquela tumba. Ou melhor, isso era mais fácil de
engolir.

“Não vamos conseguir uma resposta. Como eu pensava, simplesmente não temos infor-
mações suficientes. Tudo o que podemos fazer é espremer o máximo que pudermos de
Vermillion, que está lá, e do sujeito que está vindo para o Império. Entenderam?”

“Claro. Vamos tentar não tornar a oposição hostil ou suspeita.”

“Não há como tentar aqui. A força do inimigo é esmagadoramente superior à nossa. Você
precisa se mover com cuidado para não romper a falsa aliança que temos.”

Quando o escriba baixou a cabeça, Jircniv de repente sentiu o peso escorregar de seus
ombros.

“...Fizemos uma coisa ruim para as pessoas que trouxemos, não é?”

Talvez fosse por isso que ele trouxesse as meninas que não tinham sido libertadas desde
que haviam sido acomodadas nas carruagens.

Originalmente, as meninas seriam oferecidas a Ainz Ooal Gown para amarrá-lo ao Im-
pério.

O sexo era uma arma universal em qualquer lugar ou época. Talvez as agências de inte-
ligência Imperiais devessem ter preparado um pote de mel profissional, mas como o uso
da investigação mágica poderia potencialmente complicar as coisas, em vez disso elas
haviam escolhido meninas puras e inocentes.

“Embora eu ache que isso é desrespeito à coragem que elas reuniram para se despedir
de suas famílias, não acha que elas deveriam ficar felizes com isso?”

“Você acha? Ser capaz de conquistar o amor daquele monstro é algo impressionante.”

“Qualquer mulher que de bom grado fizesse amor com tal monstro seria muito corajosa.”

Baziwood estava insinuando que tais pessoas não existiam, mas essa era uma maneira
ingênua de pensar. Jircniv poderia atestar com segurança que, estando completamente
familiarizado com as batalhas secretas que as mulheres lutavam, sua mãe envenenando
seu próprio marido era um bom exemplo.

“As mulheres são mais corajosas do que os homens pensam e agem pela paixão e pelo
ganho. Não deve haver escassez de mulheres por aí que estejam dispostas a oferecer seus
corpos a esse rei esqueleto. Nesse sentido, somos os que devem ser felizes agora. Afinal,
uma delas poderia dizer ao Ainz Ooal Gown que ameaçamos matá-las assim como suas
famílias, se elas negassem.”

Embora a única resposta às suas palavras fossem sorrisos amargos, Jircniv acreditava
que isso poderia realmente acontecer.

As reformas de Jircniv, impulsionadas pelo poder autocrático, fizera dele o inimigo dos
nobres que ele havia deslocado. Claro, ele tinha seus aliados, mas na verdade, as pessoas
em quem ele realmente podia confiar eram apenas alguns de seus assessores próximos
e seu mentor, Fluder—

De repente, uma pergunta o atingiu como uma pena caindo levemente no ar.

Foi sobre Fluder.

Não apenas Fluder era seu mentor, mas ele também era um pilar do Império e seu trunfo.
Ele era um homem que até mesmo Jircniv reverenciava como o maior herói do Império.
Jircniv estava bem ciente de que, por baixo de seu rosto de sábio, havia um desejo quase
fanático de explorar as profundezas da magia. Foi por causa desse desejo que ele teve
suas dúvidas.

—Isso fora muito diferente de Fluder.

Ainz Ooal Gown era um grande magic caster que superava Fluder. Ele poderia criar sem
esforço os Death Knights que Fluder nem poderia controlar. Então, por que ele não disse
nada e deixou a tumba junto com Jircniv?
Se fosse o Velhote de sempre, ele provavelmente imploraria àquele monstro perverso por
conhecimento mágico, certo? Ele iria genuflexionar diante dele e oferecer tudo—

Isso soou como o que teria acontecido.

Todos haviam se ajoelhado diante de Demiurge naquela época. No entanto, pode ter sido
apenas uma distração para focar sua atenção nessa situação bizarra, enquanto ele usava
a oportunidade de realizar algum tipo de controle mental em Fluder.

Ele não podia imaginar Ainz Ooal Gown desejando tomar Fluder como um servo. Em-
bora Fluder fosse o trunfo do Império, quando comparado ao poder daquele monstro, ele
era pouco mais que uma partícula de poeira.

No entanto, o conhecimento acumulado de Fluder era valioso por si só. Além disso, se
ele pudesse assumir o controle de Fluder, o poder militar do Império despencaria, e eles
perderiam sua melhor arma contra Ainz Ooal Gown.

Seria como colocar uma coleira em um escravo.

Será o caso? O Velhote não disse nada... foi porque ele já sabia de tudo? Ele sabia sobre o
poder de Ainz Ooal Gown de antemão?

—Naquele momento, o choque passou por ele como um raio.

Ele começou a suar frio.

“Majestade? Vossa Majestade? O senhor não parece bem; está passando mal? Vamos
chamar um sacerdote—”

“...Não há necessidade.”

“Eh?”

“Eu disse, não há necessidade. É isso mesmo... não precisa.”

Jircniv olhou para seus subordinados em pânico e mais uma vez foi consumido em um
turbilhão de contemplação.

Estou com medo? Eu?

Sua mente era uma bagunça caótica, e ele não conseguia separar seus pensamentos. Ou
melhor, era mais como se ele não quisesse pensar naqueles pensamentos e estivesse ten-
tando evitar contemplá-los.

Não! Se eu fugir disso agora, isso só nos causará um desastre! Acalme-se. Eu tenho que me
acalmar. Eu tenho que me acalmar e pensar.
Jircniv continuou a ponderar a questão enquanto se banhava em olhares curiosos.

Para começar, vamos considerar o Velhote. Assumindo que Velhote já sabia sobre o poder
de Ainz Ooal Gown... não, se ele soubesse sobre seu poder, então suas ações estranhas pode-
riam ser facilmente explicadas. Então o Velhote tem algum tipo de acordo secreto aconte-
cendo com esse monstro — impossível! A menos que...

Jircniv não tinha energia para se preocupar com os olhares chocados nos rostos de seus
subordinados.

Não, isso não está certo, Jircniv. Quando o Velhote viu o Death Knight, aquele medo no
rosto dele era genuíno. O que prova que ele não sabia sobre o poder de Ainz Ooal Gown... ou
não. Talvez, o que o Velhot... Fluder não sabia era a capacidade daquele sujeito de controlar
os Death Knights. Ele provavelmente sabia sobre o Ainz Ooal Gown — aquele grande magic
caster — desde o começo.

Era como juntar as peças espalhadas de um quebra-cabeça, revelando uma bela imagem
“horripilante”.

Então, Fluder conhece esse monstro. De quanto tempo atrás eles estavam em conluio? Do
começo? Isso é certo. Fluder estava envolvido em cada passo dessa bagunça, desde a desco-
berta da tumba até o envio dos Trabalhadores.

Ele finalmente fez uma conexão entre todas as peças espalhadas do quebra-cabeça.

Quando se pensava assim, uma luz saía sobre a maioria dos mistérios.

“Traição, é isso? Traição. Ele vendeu o Império.”

Era uma voz de ressentimento amargo nascida dos buracos do inferno... ou talvez de
uma criança chorando?

Seus subordinados não ousaram fazer perguntas a ele; eles simplesmente permanece-
ram em silêncio enquanto estudavam seu rosto. Jircniv se virou para encará-los.

“Fluder Paradyne nos traiu a todos. Sendo esse o caso, que dano isso causará ao Impé-
rio? Podemos colocá-lo em uma sinecura e colocá-lo em prisão domiciliar?”

Todos não puderam deixar de olhar para aquela afirmação inacreditável.

“Como, como isso é possível, Vossa Majestade? Isso seria muito até para uma piada.”

Raiva incontrolável ardia em Jircniv quando o acólito falava. Ele queria gritar: “Eu não
quero ouvir tanta besteira!”, mas ele segurou a língua. A razão pela qual ele fez isso foi
porque em algum lugar em um canto de sua mente, um jovem Jircniv estava dizendo que
ele não podia acreditar nisso.

Jircniv crescera observando os esquemas e a traição do lado sombrio da sociedade no-


bre. Com isso, o adulto Jircniv respirou fundo e expeliu o calor ardente em seu peito e as
emoções ardentes em seu coração.

“Eu vou dizer isso mais uma vez. Fluder Paradyne nos traiu. Sendo esse o caso, que dano
isso causará ao Império?”

Seus subordinados se entreolharam e, depois de alguns segundos, o acólito falou.

“É difícil imaginar. A quantidade de dano não pode ser estimada com um único relance.
Com o mestre ao redor, poderíamos estar confiantes de superar qualquer outro país. Te-
mos sido capazes de permanecer não envolvidos com as políticas mesquinhas de outras
nações até agora por causa disso.”

Ele olhou para o escriba, para ver se ele concordava com as palavras do acólito. O escriba
ficou pálido e assentiu.

“Se os países vizinhos souberem que ele foi comprometido, eles podem começar a fazer
movimentos.”

“Não é para isso que serve a Agência de Inteligência Imperial? Ah, entendo. Graças ao
Fluder, eles não tiveram a chance de ganhar muita experiência.”

“É como diz, Vossa Majestade. O Mestre, ele—”

“—A possibilidade é chocantemente alta.”

Jircniv interrompeu o escriba.

“...Mas se for esse o caso, então teremos uma incrível quantidade de trabalho para fazer.
Primeiro, vamos decidir quem será o sucessor de Fluder. Existem candidatos adequados?”

As chamas do desejo brilhavam intensamente nos olhos do acólito quando ele ouviu
aquelas palavras, e Jircniv não pôde deixar de sorrir internamente.

A posição de ser o sucessor de Fluder como o Mago da Corte Imperial era uma tentação
de dar água na boca. Afinal de contas, era uma posição que dava o direito de administrar
os magic casters arcanos em todo o Império.

Como a posição sempre fora preenchida por aquele grande herói, ninguém mais pôde
reivindicá-lo. Mesmo se alguém tivesse a ambição para isso, seu oponente era forte de-
mais para ser vencido por meios perversos. E agora, esta posição até então selada havia
sido oferecida a ele.
A ganância é ótima. O desejo impulsiona o progresso. Eu aprovo esse tipo de desejo. No
entanto, eu provavelmente deveria perguntar, apenas no caso.

“No entanto, é preciso ter em mente que, como o Mago da Corte Imperial, alguém pode
ser chamado para lutar com aquele monstro.”

As chamas da ambição do acólito saíram naquele instante. Ele não conseguia nem se
animar com isso. A posição que ele desejava se tornou uma que ele queria evitar mais do
que qualquer outra coisa no mundo.

Ele teria uma chance melhor de sobreviver a um pulo de um penhasco de 500 metros
de altura em um banco de pedras do que em uma batalha contra Ainz Ooal Gown.

Não, no melhor dos casos ele morreria no local.

Enquanto o acólito pensava naquela perspectiva, um novo olhar surgiu em seus olhos.
Era o olhar de um rato assustado que havia sido encurralado por um predador.

As esperanças no coração de Jircniv morreram. Ele poderia dizer que este homem não
tinha coragem de enfrentar Ainz Ooal Gown. Ou melhor, ele nunca deveria ter esperado
isso em primeiro lugar.

“Sim! Nesse caso, conheço algumas pessoas que podem usar o quarto nível de magia;
que tal escolher um deles? Claro, eu sei algumas magias desse nível, mas eu não sou muito
versado com elas.”

“Você não é o mais habilidoso dos acólitos?”

“Como, como poderia ser? Há muitos mais excelentes que eu. Quando voltarmos, eu lhes
darei os nomes imediatamente!”

Era óbvio que um homem iria querer se render imediatamente quando solicitado a lutar
contra um monstro incrível como aquele. No entanto, o que ele precisava era de um ho-
mem que não perdesse seu espírito de luta mesmo naquele evento.

...Isso não vai funcionar, huh. Seria ingênuo pensar que ele é uma exceção. Provavelmente
seria melhor considerar que quem conhece Ainz Ooal Gown não terá coragem de lutar con-
tra ele. Isso significa que terei que entregar essa tarefa a pessoas que ainda não conhece-
ram esse ser. Talvez essas pessoas ignorantes sejam movidas pelo desejo e lutem ainda mais
desesperadamente contra ele.

Não era o melhor dos planos, mas ele não tinha mais nada a fazer.

“...Entendo. Em seguida, reúna informações sobre eles e faça entrevistas. Depois disso,
desejo que nosso pessoal de inteligência esteja pronto para lidar com esse sujeito. No
entanto, ainda precisamos ajudar Ainz Ooal Gown, então, por enquanto, teremos que ser
seus cães obedientes, a fim de construir boas relações com ele.”

“Entendido.”

“Seus cães obedientes.” Ninguém se opôs a essa frase. Como alguém que viu a Grande
Tumba de Nazarick faria isso?

“Então, Vossa Majestade. Quanto tempo vamos ter que abanar para aquele monstro?
Teremos que deixar isso para nossos filhos? Nossos netos?”

Jircniv olhou em volta, para se certificar de que nenhum espião entrou na carruagem e
verificou se a porta estava bem fechada. Com tudo isso feito, e sem mais problemas apa-
rentes para ele, Jircniv começou a explicar sua estratégia para lutar com Ainz Ooal Gown.

“Nós, e por “nós” quero dizer o Império, o Reino, a Teocracia, a Conselho Estadual, o
Reino Sacro e outros países — se unirão em uma coalizão. Será uma grande coalizão,
destinada a derrotar Ainz Ooal Gown.”

Seis olhos arregalados se voltaram para Jircniv.

“O que há para se surpreender? Nenhuma nação pode derrotar esse monstro. Então,
tudo o que podemos esperar é trazer todos os países vizinhos para uma coalizão, para
que possamos mudar a situação.”

“Estamos realmente indo lutar com ele?”

“Sim.”

A resposta de Jircniv foi simples e sucinta.

“Em vez disso, se não lutarmos, não temos chance de sobrevivência.”

“Então por que estamos ajudando aquele monstro a fundar um país?”

“Porque esse é o primeiro passo na formação desta grande coalizão.”

Jircniv olhou para todos.

“Você está ouvindo? Ótimo. Estamos atualmente nos arredores de E-Rantel, que é um
local valioso nas fronteiras do Império, do Reino e da Teocracia. Se aquele Gown mons-
truoso quiser fundar uma nação lá, ele estará fazendo inimigos de todas essas três na-
ções.”

Jircniv respirou fundo e continuou.


“E outra coisa. O Gown é um undead. Duvido que ele trate os humanos — os vivos —
com qualquer coisa que se aproxime da decência. O povo também não sofrerá o domínio
de um rei undead. Haverá rebelião, que será prontamente reprimida por aquele monstro.
O Reino não ficará feliz em entregar-lhe terra também, e duvido que a Teocracia, a nação
mais forte da vizinhança, não faça nada.”

“Mas! Mas Vossa Majestade! Se o Império o ajudar em seus esforços, certamente sere-
mos vistos como o lado do monstro, certo? As nações próximas estarão de guarda contra
nós! Essa coalizão de que o senhor fala não contará o Império entre eles! E mesmo se eles
vencerem esse monstro, seremos os próximos, ou pior, eles podem nos atacar primeiro!”

*Hmph.*

Jircniv sorriu.

“Vamos trabalhar nas sombras. Precisamos deixar os outros países saberem que o Im-
pério está espionando a nação do Gown. Vai ser difícil, mas também é o único jeito.”

“Eles realmente acreditarão em nós? Se fosse eu, pensaria que era uma armadilha.”

“Então, teremos que convencê-los mostrando a força de Ainz Ooal Gown. Se ao menos
houvesse uma maneira de mostrar às outras nações o poder dele... bem, nós teremos que
providenciar para tal situação. Por exemplo, deixá-lo mostrar seu poder no campo de
batalha.”

“O Império não poderia apenas não ajudar o Gown a construir sua nação e fingir a igno-
rância em tudo?”

Jircniv olhou para o escriba como se fosse retardado.

“Temos que ir e vir como morcegos apenas para garantir o mínimo de segurança para
nós mesmos. O que você acha que as pessoas no Reino vão fazer se ele ganhar território
por perto para nada?”

Em outras palavras, Jircniv estava escolhendo o pior caso.

“Por essa razão, o Império tem que fingir ser o amigo daquele monstro enquanto ajuda
essa coalizão. Em outras palavras, se estivermos expostos, provavelmente seremos os
primeiros no bloco de destroços desse monstro. Ou melhor, se dependesse de mim, eu
certamente destruiria este país primeiro como um exemplo para os outros.”

“Ah, eu tenho certeza que o senhor passaria por isso se dependesse unicamente do se-
nhor, Vossa Majestade.”
“...Tomarei isso como elogio. Por causa disso, não podemos ser os únicos a propor essa
grande coalizão. Precisamos deixar outros países darem o primeiro passo. O que deve-
mos fazer é reunir tanta informação sobre Nazarick quanto pudermos, assim como en-
contrar alguém que possa derrotar o Gown.”

“Pessoas como essa realmente existem?”

Dado o tom casual com o qual foi dito, ninguém teria acreditado que aquelas palavras
vieram do acólito. O Gown era um adversário inimaginavelmente poderoso, que poderia
ser imbatível até mesmo para os Dragões mais poderosos. Ele era um adversário que fez
as pessoas pensarem dessa maneira.

E a isso, Jircniv deu uma resposta confiante.

“De fato, existem.”

“Pessoas assim realmente existem?!”

“Não percebeu? Não se lembra do que viu na sala do trono?”

Quando ele colocou dessa forma, parecia óbvio o suficiente.

Os monstros se alinharam com Ainz. Aura. Mare. A garota de cabelos prateados. O inseto.
Demiurge. Ele estava se referindo a eles.

“...Você planeja induzir uma revolta?”

“Embora eu não ache que isso seja possível, devemos nos preparar para isso, apenas no
caso. Precisamos preparar riqueza, prestígio, membros do sexo oposto e assim por di-
ante para nos fazer parecer um pouco atraentes para eles.”

“Não vai ser difícil?”

“Ahh, de fato, será. Ainz Ooal Gown se apresenta como um tirano. Assim, eles não o trai-
rão facilmente. No entanto, mesmo que seja esse o caso, temos que agir. Este não é mais
apenas um conflito entre as nações.”

Jircniv olhou para os três com uma expressão resoluta no rosto.

“O que vem depois disso será uma batalha pela sobrevivência da humanidade como es-
pécie. Será uma luta pelo futuro. Dedique seus corações e almas a isso.”
Parte 6

“...E então, eu acho que o Imperador tentará colocar um esquema como esse em prática.
Se ele fosse mais tolo, suas ações poderiam ficar fora do alcance previsto, mas acho que
as chances disso seriam baixas. Ler os movimentos de um intelecto ligeiramente acima
da média que se imagina um gênio é mais fácil do que tentar prever as ações de um idiota
completo.”

Demiurge levantou um dedo quando ele disse isso.

“Em outras palavras, o Imperador tentará formar uma aliança para nos derrotar — para
derrotar o Ainz-sama, certo?”

“Mmm, ele é surpreendentemente estúpido ~arinsu.”

“Em-então, n-não devemos tomar a iniciativa e des-destruí-los primeiro?”

Mare, Shalltear e Aura deram suas opiniões, mas não havia raiva. Era mais como se ele
estivesse decidindo se chutariam ou não uma pedra que encontrara ao longo da estrada.

“Mais importante que este problema é—”

Sebas queria falar, mas outra pessoa já havia antecipado o que ele ia dizer.

“—É o fato de que ele realmente acha que trairíamos o Ainz-sama, é isso?”

“É. O. que. Parece. Sebas. Parece. Que. O. imperador. Não. Conhece. O. Significado. Da.
Palavra. Fidelidade.”

A risada zombeteira encheu a sala.

Ele realmente pensava que eles iriam trair Ainz, um dos 41 Seres Supremos que os cri-
aram?

Embora isso não fosse mais do que a hipótese de Demiurge, foi o suficiente para desa-
gradar completamente os Guardiões. Uma luz fria brilhava em seus olhos.

“Beem, não é como se eu estivesse tentando falar como o Mare, mas eu ainda estou
muito brava. Vamos matar todos eles ~arinsu?”

Shalltear riu ao ver Aura de mau humor pela primeira vez.

“Eu vou transformá-lo em um Vampiro ~arinsu. Afinal, se ele for bom o suficiente, não
há razão para ele não servir em Nazarick ~arinsu.”
Embora Cocytus tivesse permanecido em silêncio, suas grandes mandíbulas emitiram
um som de advertência.

“Senhoras e senhores, vocês se lembram de que estamos na presença de Ainz-sama?”

Quando ouviram a voz fria e clara de Sebas, a raiva de Aura, Shalltear e Cocytus desapa-
receu instantaneamente.

“Kuhu — Mm. Está certo, todos, por favor, acalmem-se. Por favor, lembre-se do que o
Demiurge acabou de dizer. Tudo isso foi organizado. Devemos ou não aproveitar as pa-
lhaçadas deste palhaço? Em vez disso, devemos ser gratos — porque tudo isso nada mais
é do que uma parte do plano mestre de Ainz-sama. Certo, Ainz-sama?”

Hooh... o plano de Ainz-sama, huh. Entendo. Um plano especial inventado por alguém com
o mesmo nome que eu. Fazer com que o Império Baharuth se alie e lute contra Nazarick
era parte desse plano também, hein... Eu não tenho idéia do que é isso tudo. Se eu pudesse
perguntar a esse tal Ainz sobre isso!

No entanto, fugir da realidade como esta não mudaria nada.

Honestamente, Ainz queria perguntar sobre os detalhes do plano, e sobre o Ainz que
Demiurge e Albedo estavam imaginando.

No entanto, ele não podia fazer isso.

Ainz virou sua linha de visão em direção a Albedo.

Ele viu uma mulher que era doce como o mel, com os olhos vidrados de amor e fascínio,
as bochechas rosadas.

Ela reagia assim porque acreditava que tudo estava acontecendo como planejado, por-
que estava toda dominada pela percepção de seu mestre.

Como tal, Ainz não podia mais negá-los. Quem poderia dizer “O quê?” Quando o clima
estava assim?

Com relação à pergunta de Albedo, havia apenas uma resposta que Ainz poderia dar.

“Cer-certamente. É isso mesmo.”

Ele queria elogiar sua voz por não vacilar.

“Ohhh”, os Guardiões responderam como um coral, estavam extasiados de respeito.

“Khuhuhuhu~”
Albedo abriu os braços e, com eles, as asas da cintura se abriram também.

“Ainz-sama deseja assumir uma cidade humana pacificamente e governar a região com
amor e compaixão. No entanto, o Império Baharuth decidiu formar uma conspiração vil
contra este paraíso na terra. No futuro próximo, Ainz-sama mostrará a esses países o
verdadeiro significado de bondade. Não é essa a causa justa que ele procura?”

“Como estou ansioso para esse dia. Tudo fica na palma da mão de Ainz-sama. Quando
esse idiota descobrir, eu me pergunto que tipo de cara ele vai fazer... afinal, Ainz-sama
sempre pensa em vários movimentos à frente.”

Enquanto Demiurge fazia seu discurso reverente, Albedo continuou com uma expressão
adequadamente respeitosa em seu rosto.

“De fato, a sabedoria de Ainz-sama está além da nossa capacidade. Se o Ainz-sama não
tivesse criado o herói Momon, seria impossível governar pacificamente. Nesse caso, E-
Rantel só poderia ser controlado pela violência e pelo terror.”

“...Talvez pudéssemos usar a Princesa Dourada para obter efeitos semelhantes, mas isso
seria um desperdício de um trunfo. Ela é um ser humano que é tão interessante — não,
talvez até mais — do que o que determinei a partir da análise dos relatórios de inteligên-
cia de Sebas. Ela será um excelente peão.”

“Ah, depois de ouvir isso, eu também gostaria de dar uma olhada nela.”

“Então, depois que fundarmos nossa nação, devemos tê-la como enviada ~arinsu? Afinal,
as promessas devem ser cumpridas.”

“...Vocês. Duas. Estão. Divagando. Vocês. Estão. Desperdiçando. O. Precioso. Tempo. De.
Ainz-sama.”

Ainz respondeu com um simples “Está bem” para suas desculpas apressadas.

Na verdade, ele aprendeu muito com a conversa casual e ganhou tempo para pensar em
mais desculpas. Para Ainz, essa tinha sido uma oportunidade valiosa.

“Mas, verdade seja dita, Ainz-sama é realmente incrível ~arin-su!”

“Mhm. Sim, sim, Shalltear. Afinal, Ainz-sama inventou um plano que conseguiu surpre-
ender até mesmo a Albedo e o Demiurge...”

“C-Como esperado de Ainz-sama. O-o senhor é muito legal. E-Eu realmente te admiro
mu-muito.”

“...Me. Sinto. Envergonhado. Na. Minha. Insensatez. E. da. Minha. Falta. De. Inteligência.”
“Tudo o que posso dizer é que nossa incapacidade de acompanhar as considerações de
Ainz-sama é realmente imprópria.”

O louvor dos Guardiões apunhalou Ainz como espadas.

Embora Ainz não pudesse deixar de pensar nisso como escárnio, os olhos dos Guardiões
estavam cheios de respeito e lealdade, e sua adoração a ele era genuína. Portanto, Ainz
não os contradizia, mas usou suas habilidades de atuação para responder, como de cos-
tume.

“É um exagero de vocês. Foi apenas uma coincidência. E no final, Demiurge e Albedo


viram através disso.”

“Não, se não tivesse respondido assim, Ainz-sama, eu não teria conseguido ligar os pon-
tos.”

“Demiurge está correto. Planejar tão à frente sem qualquer conhecimento da situação é
um feito apenas possível pelo maior dos Seres Supremos. Eu me apaixonei ainda mais
por ti.”

“Como esperado de Ainz-sama, cujo intelecto supera até mesmo o de Demiurge, a mente
mais sábia em Nazarick ~arinsu!”

“É verdade! Ainz-sama é realmente incrível!”

Aura exclamou seguida por Mare:

“Mm! R-realmente incrível!”

“Eu. Já. Sabia. A. Tempos. Que. O. Ainz-sama. Possui. Excelentes. Habilidades. Mas. Eu.
Não. Posso. Imaginar. Tanta. Proeza... Como. Esperado. Do. Maior. Dos. Tesouros. De. Na-
zarick.”

Albedo completou:

“Bem colocado. Ele está cheio de compaixão e transborda de sabedoria. Não há melhor
mestre para nós do que o senhor, Ainz-sama!”

“...Ahh.”

“Pensando nisso, há um assunto que precisa ser decidido. Embora eu não tenha nenhum
problema em abordá-lo como Rei, um título tão simples pode resultar em ele ser confun-
dido com os insetos que nos cercam. Eu sinto que devemos considerar uma forma mais
adequada de endereço para o Ainz-sama.”

Os Guardiões aprovaram por unanimidade a sugestão de Demiurge.


“O senhor aprova, Ainz-sama?”

“Está bem. Faça como achar melhor.”

Ser chamado de Rei Ainz Ooal Gown já era ruim o suficiente. Sua excitação emocional já
havia começado a chutar várias vezes quando ele pensou sobre as implicações de no-
mear-se um rei.

“Alguém tem alguma sugestão?”

“Então, permita-me começar ~arinsu.”

Disse Shalltear quando ela levantou a mão:

“O nome que escolhemos deveria obviamente indicar a beleza suprema de Ainz-sama


~arinsu. Eu sinto que o Belo Rei seria adequado ~arinsu.”

“Ohhh!”

Os Guardiões disseram em aprovação.

O Belo Rei Ainz Ooal Gown?

“Oh, eu! Euuuuu~”

Aura se levantou com a mão para cima:

“O nome deve destacar o poder de Ainz-sama! Que tal o Poderoso Rei, ou o Forte Rei, se
preferir mais curto?”

“Entendo...”

Os Guardiões murmuraram.

O Forte Rei Ainz Ooal Gown?

“Então, então. Po-posso tentar? Erm... porque o Ainz-sama é muito gentil, pode ser bom
deixar as pessoas saberem disso. Então, então, t-talvez pudéssemos tentar o Rei Miseri-
cordioso?”

Os Guardiões assentiram.

O Rei Misericordioso Ainz Ooal Gown?

“Quanto a mim...”
Aqui Demiurge fez uma pausa para amplificar o efeito e:

“Para louvar o intelecto exaltado de Ainz-sama, proponho o Sábio Rei.”

O Sábio Rei Ainz Ooal Gown? ...Me desculpe, mas eu realmente tenho que passar isso...?

“O que você acha, Sebas?”

Em resposta à pergunta de Albedo, Sebas respondeu:

“Acho que um simples “Rei” já serve.”

“Então é a minha vez. Porque ele é o Ser Supremo que está no topo de todos os outros
Seres Supremos, acho que o Grande Rei seria apropriado.”

Os Guardiões mais uma vez murmuraram em aprovação.

O Grande Rei Ainz Ooal Gown? Como devo dizer isso... todos esses nomes... soam terrivel-
mente exagerados.

Todos os olhos repousaram no único Guardião que ainda não havia falado.

“E você, Cocytus? Embora possa ser um pouco difícil competir com o Grande Rei, você
tem algum título que você acha que se encaixa no Ainz-sama?”

“Umu. No. Futuro. Ainz-sama. Vai. Governar. Muitas. Raças... Assim. Sendo. Ele. Vai. Ser.
Um. Magic. Caster. Que. Governa. Como. Um. Rei— Eu. Acho. Que. Rei. Feiticeiro. Se. Ade-
qua. Melhor.”

Os Guardiões não responderam imediatamente.

No entanto, todos eles olhavam para Ainz. Pelo olhar deles, todos sentiram que não ha-
via melhor título do que aquele, embora Albedo parecesse um pouco desapontada.

“Muito bem. Então eu vou usar a sugestão de Cocytus.”

Ainz levantou-se lentamente.

“Quando nossa nação for fundada, eu me chamarei de Rei Feiticeiro Ainz Ooal Gown!”

Ainz acenou com as mãos em constrangimento para evitar os estrondosos aplausos que
se seguiram. Na verdade, ele estava se sentindo tão desconfortável que todo o seu corpo
estava começando a coçar.
“Bem então! Vamos demonstrar o poder de Nazarick na batalha entre o Reino e o Impé-
rio!”

“É como diz, Ainz-sama. Eles desejam investigar os limites do poder de Ainz-sama.


Pouco sabem eles sendo manipulados por nossas mãos.”

Demiurge continuou, de excelente humor.

“Antes que as negociações possam ocorrer, o mais importante é dar um poderoso golpe
à outra parte e deixá-los entender a diferença entre o nosso poder e o deles. Criaturas
tolas como os humanos fazem coisas tolas porque não percebem quão poderosos são
seus oponentes. De fato, aquele Imperador é uma criatura tola por não saber que baixar
a cabeça e lamber as botas de Ainz-sama é o curso de ação mais sábio.”

“Eu mesmo pensei nisso, mas deixar os humanos lamberem as botas de Ainz-sama não
seria uma recompensa?”

“Entendo ~arinsu. Como esperado da Albedo. Ah, mas se eu tivesse que lamber o Ainz-
sama, eu escolheria seu corpo ~arinsu.”

Ainz decidiu fingir que não ouvira Shalltear e Albedo cochichando uma com a outra.

“Então, todos vocês. Comecem a tarefa de exaltar o nome de Nazarick!”

“Entendido!”

Os gritos de reconhecimento dos Guardiões se misturaram e encheram a sala.


Capítulo 02: Preparações Para a Batalha
Parte 1

m mês depois.

U A reunião foi convocada no Palácio de Valência do Reino Re-Estize. Gazef


Stronoff estava parado imóvel ao lado do Rei Ranpossa III, que estava sen-
tado em seu trono. Ele examinou as fileiras cerradas de nobres diante dele,
e seus olhos se arregalaram um pouco quando ele identificou as formas dos Seis Grandes
Nobres entre eles.

Os seis reunidos eram uma ocorrência rara, de fato.

Os chefes dessas seis famílias controlavam quase tanto a terra quanto o Rei e, somados
o seu poder militar superava o do próprio Rei. Por causa disso, eles frequentemente en-
contraram razões para se desculparem da convocação do Rei. Isso foi especialmente ver-
dadeiro para o líder da facção anti-realeza — a Facção Nobre — Marquês Boullope, que
nem se preocupava em esconder seu desdém pelo Rei. Já era ruim o suficiente que, por
um tempo, as pessoas achassem que o Reino poderia desmoronar por dentro.

Em seguida, os olhos de Gazef foram para os três filhos do Rei.

A mais atraente de todas foi a terceira filha do Rei, a “Princesa Dourada”, Renner Theiere
Chardelon Ryle Vaiself.

Depois disso foi seu segundo filho, o Segundo Príncipe, Zanac Valleon Igana Ryle Vaiself.
Durante a perturbação demoníaca, ele havia ganhado muitos elogios quando seguiu o Rei
em marchar com as tropas para o bem das pessoas.

O último, o filho mais velho, o Primeiro Príncipe Barbro Andrean Ield Ryle Vaiself. Ele
tinha um corpo forte e um corte de cabelo bem aparado, e ele era o homem que o Marquês
Boullope estava tentando colocar no trono. Presumivelmente, Boullope estava presente
nesta sessão judicial a pedido do próprio Barbro.

Qualquer reunião com a presença do Marquês Boullope da Facção Nobre certamente


seria intensa. Gazef desviou os olhos da atmosfera pesada, que parecia pairar sobre a
cabeça, como se reunisse nuvens de tempestade, e olhou para o resto dos nobres.

Dos três homens presentes, que pertenciam à Facção Real, o primeiro a chamar a aten-
ção de Gazef foi o Marquês Blumrush, a pessoa mais luxuosa da corte.

Esse nobre com traços bonitos aproximava-se dos 40 anos. Seu domínio continha minas
de ouro e mythril, cuja as minas de metais preciosos fez dele o homem mais rico do Reino.
No entanto, circulavam rumores sombrios de que ele era extremamente ganancioso, a
ponto de trair sua própria família por uma moeda de ouro.
Havia também rumores de que ele havia traído o Reino e estava vendendo informações
para o Império. No entanto, devido à falta de evidências concretas, nada poderia ser feito
sobre ele. Afinal de contas, decapitar Marquês Blumrush — um defensor proeminente da
Facção Real — sem qualquer prova faria com que todos os nobres que o seguissem mu-
dassem para a facção anti-realeza. Se ele estivesse ciente desse fato e aproveitasse para
continuar vendendo informações, então ele seria realmente a pessoa mais desprezível
presente.

Em seguida, os olhos de Gazef voltaram-se para o mais jovem e bonito dos Grandes No-
bres, o Marquês Pespea.

Ele era casado com a filha mais velha do Rei e tornou-se o chefe de sua casa ao mesmo
tempo que seu casamento. Embora pouco se soubesse sobre suas habilidades e persona-
lidade, seu pai possuía uma excelente personalidade e era um homem competente, de
modo que Gazef achava que o jovem Pespea poderia tomar conta de Sua Majestade.

Em contraste, o mais velho entre os Seis Nobres era o Margrave Urovana. Seu cabelo era
branco, e pouco restava que não houvesse absolutamente nada. Embora seu corpo e
membros parecessem de madeira retorcida, ele ainda mantinha as gravitas esperadas de
um ancião.

Urovana foi o mais persuasivo dos Grandes Nobres.

Emaranhados contra eles estavam os três membros da Facção Nobre.

O primeiro foi o núcleo da Facção Nobre, Marquês Boullope, que controlava a maior
parte do território entre os Grandes Nobres. Seu rosto estava fortemente marcado, um
lorde que parecia um guerreiro.

Como ele já estava na casa dos 50 anos, seu corpo outrora robusto que havia sido aper-
feiçoado através de um treinamento implacável era pouco mais do que uma lembrança
do passado, mas sua voz e o olhar de predador faziam as pessoas pensarem que devia
haver mais do que uma mera sombra do guerreiro que ele foi no passado.

Embora ele “como guerreiro” tivesse perdido muito de sua força para a velhice, como
comandante, ele era um comandante melhor do que até mesmo Gazef, o que o tornava
tão indispensável para o Reino quanto o Capitão Guerreiro.

Ao lado dele estava o Conde Lytton.

Ele era um homem cuja aparência chamava a atenção para a imagem de uma raposa, e
também um dos membros de menos influência dentre os Seis. Como tal, ele recorreu a
formas e meios para elevar seu status. No entanto, sua personalidade de não se importar
com o sofrimento dos outros, se isso significasse que ele poderia expandir seu poder, não
foi bem recebida por outros nobres. Aliando-se ao Marquês Boullope deve ter sido um
movimento estratégico para escapar de seus inimigos.
O homem final da Facção Nobre tinha cabelo loiro penteado para trás e olhos azuis es-
treitos.

Seu rosto estava pálido e de aspecto nada saudável, com poucos sinais de que vira muita
luz do sol. Ele era alto e magro. Combinado com sua pele amarelada, ele dava a impressão
de uma cobra. Ele ainda não tinha 40 anos, mas parecia mais velho por causa de sua pa-
lidez doentia.

Com emoções misturadas em seu coração, Gazef desviou o olhar para longe — para
longe do Marquês Raeven.

A iminente sucessão do próximo monarca só intensificara as lutas pelo poder.

O Marquês Boullope e o Conde Lytton da Facção Nobre, assim como Margrave Urovana,
da Facção Real, apoiaram o Primeiro Príncipe Barbro, enquanto a maioria dos nobres
não afiliados apoiava Marques Pespea, que se casara com a Primeira Princesa. Raeven
estava do lado do Segundo Príncipe Zanac, enquanto o Marquês Blumrush não parecia
estar preocupado com questões de sucessão.

Por todas essas razões, o Rei sentou-se em seu trono sem fazer barulho. Se ele apontasse
o dedo para alguém, havia o perigo de uma guerra civil irromper.

Até recentemente, Gazef não tinha opinião sobre quem deveria se tornar o próximo rei.
Mas agora seu coração estava inclinado em direção a Zanac. Ou isso, ou a Princesa Renner
como um cavalo azarão, mas o Reino, em toda a sua longa história, nunca fora governado
por uma rainha, de modo que isso provavelmente estava fora de questão.

“Agora, então, vamos começar.”

O tom do Rei parecia um pouco diferente do habitual. Aqueles com orelhas sensíveis
podem ter adivinhado o motivo da reunião de hoje e mostraram com suspeita curiosa.

“Leiam a proclamação entregue pelo emissário Imperial.”

De acordo com as ordens do Rei, os vassalos que flanqueavam os dois lados começaram
a ler o conteúdo do pergaminho.

O conteúdo aproximado fora o seguinte:

♦♦♦

O Império Baharuth reconhece a soberania do Reino independente de Nazarick, gover-


nado pelo grande magic caster conhecido como o Rei Feiticeiro Ainz Ooal Gown, e for-
malmente o reconhece como um aliado do Império.
Originalmente, a região perto de E-Rantel era o domínio do Rei Feiticeiro Ainz Ooal
Gown. O Reino Re-Estize ocupa ilegalmente este território e deve devolvê-lo ao seu legí-
timo proprietário.

Se o Reino não cumprir com essa exigência, o Império ajudará o Rei Feiticeiro Ainz Ooal
Gown em uma invasão para recuperar o território do Rei Feiticeiro.

Esta será uma guerra justa, travada para acabar com a ocupação injusta.

♦♦♦

Depois que o conteúdo foi lido, a sala explodiu em um burburinho de discussão. Esses
termos eram insanos e todos concordavam com eles.

“Apenas no caso, eu também fiz os estudiosos examinarem a história do Reino, e ne-


nhuma menção de qualquer indivíduo chamado Ainz Ooal Gown governando os arredo-
res de E-Rantel foi descoberta. Não há legitimidade para essa afirmação.”

“Em outras palavras, isso não é uma demanda adequada, é um delírio de um louco!”

O grito barulhento ecoou pelo corredor.

A formidável presença do Marquês Boullope — um testemunho de sua antiga glória


como guerreiro — parecia dar coragem aos outros nobres, e eles retornaram seu grito
com sua própria aprovação.

“Embora tenha sido adiada, não é apenas a mesma invasão imperial que eles anunciam
todos os anos? Eles sempre encontram alguma razão estúpida para declarar guerra, en-
tão desta vez, eles devem estar raspando o fundo do barril para jogar o nome deste magic
caster, certo? Eu quero ver a que tipo de palhaço eles deram esse título ridículo de “Rei
Feiticeiro”.”

As palavras do Conde Lytton foram seguidas pelo riso irônico dos nobres em massa.

“Contudo...”

O Conde virou seus olhos de raposa — cheios de desdém — em direção a Gazef.

“Eu acredito que nós já ouvimos falar deste Rei Feiticeiro louco antes, não é, Capitão
Guerreiro Stronoff?”

“...De fato, ele foi o magic caster que me ajudou nos arredores de E-Rantel.”

O Conde Lytton riu zombeteiramente antes de responder:


“Entendo, ele deve ter ajudado porque ele pensou que eles eram seus próprios campo-
neses.”

A risada desdenhosa dos nobres podia ser ouvida por toda parte, mas ninguém a impe-
diu, porque Gazef, que nasceu plebeu, era odiado por muitos membros da Facção Nobre.

Se fosse um membro da Facção Real, o rei teria intervindo, mas como o Conde Lytton
pertencia à oposição, o Rei só podia franzir a testa.

“Parece que foi o Império que incendiou as vilas agrícolas perto de E-Rantel, não acha?
O Capitão Guerreiro-dono parece pensar que foi o trabalho da Teocracia Slane. A pessoa
que os resgatou se chamava Gown, é isso? Não é esse o magic caster envolvido com o
Império? Acredito que alguém tenha dito anteriormente que o magic caster era um es-
pião tentando nos infiltrar. Além disso, não conseguiu encontrar nenhum traço dos cor-
pos das pessoas que quase te mataram, ou conseguiu, Capitão Guerreiro-dono?”

Em sua mente, Gazef recordou a visão dos poderosos membros das Seis Escrituras, bem
como a poderosa forma de Ainz Ooal Gown.

“Embora os corpos tenham desaparecido como o Conde Lytton disse, não sinto que o
Império estivesse envolvido. Quando eu estava no Vilarejo Carne, os cavaleiros que nos
atacaram eram muito mais fortes que os do Império. Eles usaram anjos, e não há dúvida
de que eles eram uma unidade da Teocracia Slane.”

“E por que a Teocracia faria isso?”

Como eu deveria saber?

De fato, se Gazef pudesse dar uma resposta como essa, isso o faria se sentir muito me-
lhor.

Assim que o tribunal estava prestes a entrar em disputa devido ao silêncio de Gazef,
uma voz de ajuda ecoou do lado de Lytton.

“Esse magic caster louco é irrelevante! O que precisamos decidir é como responder ao
falso imperador, não é verdade, Vossa Majestade?”

“É como o Marquês Boullope diz. Precisamos decidir qual será a resposta do Reino.”

“Eu peço sua permissão para falar...”

Marquês Pespea disse enquanto avançava:

“Aceitar os termos do Imperador será muito difícil. Nosso único recurso é a guerra.”

A menção da guerra provocou atividade entre as fileiras cerradas da nobreza.


“Oh! Agora é a hora de esmagá-los de uma vez por todas e depois levar a luta até a porta
do Império.”

“Está absolutamente certo, eu estou cansado das constantes invasões Imperiais.”

“É hora de deixar os idiotas do Império saberem como podemos infundir medo neles!”

“Exatamente, assim como o Marquês diz.”

Essas palavras, espremidas por risadas espalhadas e repetidas por toda a multidão de
nobres, rangiam insuportavelmente nos ouvidos de Gazef.

Nos últimos anos, eles encontraram regularmente o Império no campo de batalha nas
Planícies Katze.

Na maior parte do tempo, eles simplesmente traçavam linhas de batalha e se confronta-


vam, ou escaramuçavam brevemente com pequenas perdas para o Reino. Este ano pro-
vavelmente seria mais do mesmo, e os nobres assumiram um ar de frouxidão enquanto
imaginavam os mesmos velhos eventos acontecendo novamente.

No entanto, Gazef falou, estimulado pelo grito dos instintos de seu guerreiro.

“Não pense que esta batalha terminará em um pequeno conflito como sempre aconte-
ceu!”

Os nobres pareciam ter sido salpicados com uma bacia de água fria e viraram olhares
reprovadores para ele.

“Entendo. Isto é o que nosso Capitão Guerreiro realmente acredita. Você pode nos dar
uma razão para isso?”

“Sim, Vossa Majestade, isso é—”

A imagem de uma certa pessoa tocou os sinos de alarme em seu coração.

“—O motivo para isso é, é por causa do magic caster, Ainz Ooal Gown.”

“Sendo esse o caso, o único de nós que realmente o viu cara a cara seria você, Capitão
Guerreiro. Isso significa que devemos dar algum peso às suas palavras. Você pode nos
dizer o que te faz dizer isso?”

Palavras faltavam para Gazef. Ele não pôde dar uma boa resposta. Ele não sabia como
explicar, mas o seu instinto de guerreiro dizia que tomar uma decisão ruim sobre essa
guerra seria extremamente perigoso.
“Meu Rei, o senhor não poderia entregar os arredores de E-Rantel para o Império, não,
para aquele magic caster?”

Depois de um momento de silêncio, gritos furiosos voaram pelo ar.

“Covarde! Quão vergonhoso você consegue ser, você tem sangue de barata, ou o quê?!”

Esses gritos vieram dos nobres da Facção Real.

“Depois que Sua Majestade lhe mostrou tal gentileza, você se vira e diz a ele para entre-
gar sua propriedade a pessoas de fora? Quando você começou a servir o falso impera-
dor?! Sem mencionar que você nem respondeu à pergunta de Sua Majestade!”

Em face de tal merecido castigo, Gazef não pôde responder. Se ele estivesse em sua po-
sição, ele provavelmente teria feito a mesma coisa.

“Basta.”

Foi o Rei de Gazef que chegou a ajudá-lo em sua hora de necessidade.

“Mas, Vossa Majestade!”

“Estou profundamente grato por meus súditos serem tão movidos em meu nome. É por
essa razão que peço que você se lembrasse de que meu Capitão Guerreiro nunca me tra-
iria. Ele se lançou sem medo em perigo inúmeras vezes para mim. Alguém assim nunca
faria nada que me prejudicasse.”

Os nobres que gritaram com Gazef fizeram uma reverência ao Rei. Enquanto ele reco-
nheceu esse fato, ele continuou falando com Gazef.

“Capitão Guerreiro, em quem confio como minha mão direita. Mesmo se você é aquele
que propõe essa proposta, eu não posso concordar com isso. Desistir de um domínio sem
uma briga não é condizente de um governante. Tal ato não pode ser permitido por causa
daqueles que vivem à mercê do meu comando. Isso arruinaria suas vidas pacíficas.”

Entregar terras enquanto afastava todos os residentes sem prejudicá-los não passava
de um conto de fadas. Mesmo que fosse possível, não haveria como permitir que os resi-
dentes deslocados vivessem como costumavam, e no final suas vidas ficariam em pior
situação.

“Isso é, sem dúvida, Vossa Majestade, e eu espero que o senhor me perdoe por minhas
palavras tolas.”

Gazef abaixou a cabeça enquanto seu Rei, que amava o povo tão profundamente, falou
com ele. Se ele fosse um nobre tolo — um senhorio que simplesmente via o seu povo
como um meio de ganhar dinheiro, o Rei não teria dito essas palavras. Foi por causa da
compaixão do Rei que Gazef estava disposto a entregar sua vida a ele.

Ele lembrou as palavras que ele falou com seu Vice-Capitão há meio ano atrás.

“Quando você procura ajuda, aqueles que atendem são os nobres. Os fortes levarão
ajuda.”

“Esses são os que virão em auxílio dos fracos, independentemente do perigo.”

O Gazef de antes, antes de entrar no grande torneio marcial, nunca teria dito tais coisas.
Muito parecido com seu Vice-Capitão, ele teria pensado que não havia nobres que se ar-
riscariam pelos plebeus.

Depois que ele começou a servir o Rei, no entanto, Gazef percebeu pela primeira vez que
esses nobres bondosos existiam. Lamentavelmente, a esses nobres faltava poder.

Houve muitas vidas que ele não pôde salvar, e tantos incidentes em que o orgulho inútil
dos nobres os levou a lançar obstáculos em seu caminho.

Mesmo assim, o homem a quem ele servia não desistira. Ele continuou trabalhando para
construir um Reino onde seu povo seria capaz de viver vidas melhores a cada dia.

Gazef estava orgulhoso de seu Rei, Ranpossa III. Se não fosse esse o caso, ele teria de-
sertado para o Império quando o próprio Imperador (Jircniv) tentara conquistá-lo no
campo de batalha.

Mas foi precisamente porque ele era um homem que nuvens negras pairavam sobre seu
coração.

O que o Rei falou era a verdade, e ele tinha a visão correta das coisas. O Rei sempre
estivera cheio de compaixão, mas Gazef sabia o motivo pelo qual o Rei tomara um tom
tão severo.

Depois da perturbação demoníaca, o equilíbrio de poder entre as duas facções havia


mudado muito.

Durante muito tempo, o Reino havia sido dividido em duas facções que haviam sido em
grande parte até recentemente, mas agora a Facção Real havia se expandido, enquanto a
Facção Nobre encolhera.

Porque o Rei tinha corajosamente montado e marchado contra Jaldabaoth, ele era visto
pelo povo como um governante forte, e um bom número de nobres tinha dado seu apoio
ao Rei. Assim, o Rei não podia se dar ao luxo de mostrar fraqueza aqui. No entanto, di-
zendo que isso significaria que—
“Ainda assim, o Capitão Guerreiro tem um ponto, não? Podemos evitar uma guerra en-
tregando uma única cidade. Um Rei também tem o dever de evitar sofrimento indevido
ao seu povo. Um verdadeiro Rei não estaria disposto a rasgar o próprio corpo por causa
do povo?”

Aquele que falou era da Facção Nobre. As palavras eram bonitas, mas foram calculadas
para reduzir a quantidade de terra controlada pelo Rei e, como tal, a Facção Real instan-
taneamente refutou-as.

“Aquela terra é propriedade do Rei! Se desistir da terra para o inimigo, por que não se
entregar logo?!”

A resposta veio com a mesma rapidez.

“Que tipo de baboseira é essa?! O Império pediu por E-Rantel e seus arredores! Você
realmente acredita que eles aceitariam minha terra fronteiriça? Por que você não pensa
antes de falar?”

A Facção Real ficou mais forte, enquanto a Facção Nobre enfraquecera. Isso simples-
mente deixou a Facção Nobre ainda mais desesperada para coibir o Rei.

O equilíbrio perturbado entre as duas facções foi a fonte do desconforto de Gazef. Uma
vez que o equilíbrio entre facções desmoronasse, os esforços da Facção Nobre de enfra-
quecer o Rei só se intensificariam. Isso pode levar o Reino a se dividir no meio no futuro
próximo.

Sendo esse o caso, o Rei teria que mostrar sua força para reprimir qualquer tentativa de
revolta contra os rebeldes em potencial. Contudo—

A incapacidade de admitir fraqueza não é uma coisa perigosa em si?

♦♦♦

Perdido em seus pensamentos, Gazef só voltou à realidade depois de vários olhares frios
de membros da Facção Real. Eles devem ter pensado que ele tinha secretamente ido para
a Facção Nobre porque ele havia sugerido a entrega do território do Reino. Ao mesmo
tempo, esses olhares de reprovação para Gazef tinham outro significado, por ser um cam-
ponês ferido que esquecera a generosidade do Rei.

”Hmph! Então, por que você não pede ao Rei que troque suas terras com a região ao
redor de E-Rantel e depois as entregue?!”

”Como se a terra pudesse ser tão facilmente negociada! Seus tolos!”

”Todos vocês são tolos!”


As chamas dessa briga infantil envolveram todo o salão de reuniões. No passado, dispu-
tas como essa terminariam em um impasse devido ao equilíbrio de poder, mas agora as
vozes da Facção Real eram mais altas que as da Facção Nobre.

Normalmente, o Rei teria parado isso. Ele não parecia inclinado a fazê-lo agora, prova-
velmente porque a Facção Real tinha a vantagem agora.

Quase qualquer ser humano acharia difícil pôr fim às circunstâncias que favoreciam a si
mesmas. O Rei também deve ter desejado desabafar suas frustrações com a Facção Nobre.

É como se ele estivesse degustando um veneno doce...

Lentamente, Gazef começou a sentir uma convicção fria e negra aos olhos da Facção No-
bre. Um calafrio correu por sua espinha.

O ataque do arquidemônio (Jaldabaoth) foi a causa de tudo.

Naquela época, a decisão do Rei de levar seus homens para a batalha era indiscutivel-
mente a melhor. Sem sua ajuda, as linhas de batalha poderiam ter quebradas e os aven-
tureiros teriam sido devastados. Se o grupo Rosa Azul tivesse caído com eles, o Reino
estaria em uma grande situação.

No entanto, quando Gazef olhou para a cena que se desenrolava à sua frente, não pôde
deixar de se perguntar se deveriam ter feito outra coisa.

Como seria essa sessão judicial se a força de ambas as facções estivesse em igualdade?

Eu não sei, mas... ah, isso mesmo, e se perdêssemos essa guerra com o Império? Continua-
ríamos resistindo até o fim? O que seria? A Facção Real perderia uma grande parte de sua
força instantaneamente, enquanto a da Facção Nobre subiria. Voltaríamos aos dias em que
ambos os lados estavam equilibrados depois de um grande realinhamento? Ou o equilíbrio
de poder desmoronaria completamente e mergulharia o país na guerra civil? Estaria tudo
bem?

Ele não gostava desse sentimento, a sensação de que apesar de fazer suas próprias es-
colhas, ele ainda estava dançando ao som de outra pessoa.

Será que tudo isso foi planejado desde o momento em que conheci o Gown-dono? Não, não
quero pensar que esse seja o caso. Nós só falamos um com o outro brevemente, mas ele não
deixou essa impressão em mim.

Do modo como Gazef se dirigiu a ele com honrarias, mesmo em seu discurso — e em
seus pensamentos —, ficou claro que ele não apresentava má vontade em relação ao ma-
gic caster Ainz Ooal Gown, embora ele agora fosse um inimigo.
...Talvez ele pudesse pacificamente assumir o controle do... ah, não, se eu continuar pen-
sando assim, será traição.

“Acho que já é hora de pararmos com essas disputas mesquinhas.”

Uma voz masculina profunda cortou a comoção — todos ficaram em silêncio enquanto
tentavam encontrar sua fonte.

Gazef mordeu o lábio quando outra pessoa usurpou o papel que o Rei deveria represen-
tar.

Essa vitória foi doce como mel...

Ele não achava que era grande coisa. No entanto, o Rei se deixara levar por essa doçura?
O Rei que Gazef estava tão orgulhoso se submeteu a isso? Ele não podia apagar tais pen-
samentos de sua mente.

“Vossa Majestade, se a invasão do Império é uma conclusão precipitada, então devemos


nos preparar.”

“Marquês Raeven, isso é algo que apenas Sua Majestade—”

O Marquês Raeven interrompeu essas palavras da Facção Nobre.

“—Um momento por favor. Se as tropas de Vossa Majestade forem derrotadas, quem
sabe onde o Império atacará em seguida? Portanto, vou cooperar plenamente com Vossa
Majestade para proteger meu domínio.”

O silêncio caiu.

As tropas do Reino eram civis recrutados. Não havia como eles serem páreo para as
tropas profissionais dos Cavaleiros Imperiais. A única maneira de derrotar a vantagem
do Império na qualidade das tropas era com números esmagadores. Foi assim que as
coisas aconteceram nos últimos anos. Se eles não conseguissem reunir tropas suficientes
para igualar as do Império, então o resultado da guerra já estaria assegurado.

Depois de ouvir as palavras de Raeven, os membros da facção nobre imaginaram os Ca-


valeiros Imperiais devastando suas terras também.

Os primeiros a anunciar seu apoio ao Rei foram os nobres que detinham terras entre a
capital e E-Rantel, seguidos pelos nobres que mantinham laços estreitos com o primeiro
grupo e, no final, todos os nobres se comprometeram a apoiá-lo.

“Tudo bem. Então, nós atrasaremos nossa resposta ao Império, e reuniremos nossas
tropas no lugar habitual antes de declararmos guerra. Naturalmente, também estarei
presente.”
“Por favor, deixe-me acompanhá-lo no campo de batalha, pai!”

O único que gritava era o Príncipe Barbro, que estivera esperando silenciosamente ao
lado até agora.

“...Não, não. Não há necessidade de incomodar você — como o primeiro na fila de suces-
são ao trono — a entrar em campo. Eu irei desta vez, ani-ue.”

O Primeiro Príncipe Barbro virou-se para a pessoa que falara ao lado dele, o Segundo
Príncipe, Zanac. A resposta de Barbro foi curta e objetiva.

“Não há necessidade?!”

Sua réplica estava cheia de hostilidade.

A proposta do Zanac foi razoável. Como o Rei já estava indo para o campo de batalha,
seria muito perigoso trazer seu filho mais velho junto com ele. Barbro entendeu isso, mas
mesmo assim, sua recusa veio de seu ódio por Zanac.

Isso também se originou da perturbação demoníaca.

Durante o distúrbio demoníaco, Zanac havia patrulhado a capital e recebido elogios de


muitos cidadãos. Barbro, por outro lado, escondeu-se no interior do palácio. Como resul-
tado, o número de nobres apoiando o Zanac também aumentou consideravelmente.

De relance, Zanac não parecia particularmente heroico, e o contraste entre sua aparên-
cia e seus feitos corajosos o fizeram sobressair. Por outro lado, Barbro parecia impressi-
onante, mas sua inação o fez parecer covarde. Para apagar essa vergonha, Barbro queria
ir ao campo de batalha para mostrar seu valor marcial.

O Primeiro Príncipe (Barbro) era um guerreiro razoavelmente talentoso, claro, de


acordo com sua aparência. Dito isso, ele ainda levava um estilo de vida sem chamar aten-
ção, e não era forte o suficiente para bater em alguém como o guarda-costas da Princesa
Renner, Climb, que treinara a si mesmo até vomitar sangue.

Mesmo assim, ele ainda pode ser considerado o mais forte lutador da família real. Al-
guém como ele não poderia suportar perder para Zanac, cujo o sobrepeso significava que
ele mal conseguia manter o equilíbrio depois de balançar uma espada uma vez. Embora
o Marquês Raeven tivesse dito uma vez: “Qual a relevância da esgrima para um rei?”, Bar-
bro sabia que ele era o intelectual inferior de Zanac e, como tal, estava ainda mais deter-
minado a não perder sua especialidade escolhida.

Não importava os meios a serem usados, não se pode ficar atrás do adversário na guerra
dos tronos.
As entranhas de Gazef doeram enquanto ele considerava as crises potenciais escondidas
dentro do Reino.

Embora ele quisesse renunciar sua posição depois que o Rei abdicasse e se dedicasse
apenas a proteger Ranpossa III, falando realisticamente, provavelmente seria muito difí-
cil conseguir isso.

Além disso, ele provavelmente não se qualificaria como um sujeito leal se não traba-
lhasse como o Capitão Guerreiro para salvar vidas que poderiam ser salvas. O Rei pode
nem mesmo permitir que ele faça isso em primeiro lugar.

Se houvesse alguém no seu nível que pudesse substituí-lo como Capitão Guerreiro, en-
tão ele alegremente entregaria sua posição. No entanto, ele não conseguia pensar em tais
pessoas. Havia uma pessoa que era tão forte quanto Gazef, mas essa pessoa nunca con-
cordaria em se tornar o Capitão Guerreiro em seu lugar.

O que o Brain planeja fazer no futuro? Ele tem algo em mente?

Embora Brain tivesse se tornado subordinado direto da Princesa Renner, Gazef tinha a
sensação de que ele partiria em breve. Se ele desaparecesse, provavelmente seria para
aprimorar suas habilidades de espada. Como homem ligado aos tribunais, Gazef não pôde
deixar de admirar esse estilo de vida.

Ele se lembrou da esgrima polida de Brain.

Depois do distúrbio demoníaco, Gazef e Brain haviam trocado golpes em justas amigá-
veis.

Embora Gazef tivesse triunfado naquela partida séria, ele podia sentir as horas que
Brain havia colocado em seu trabalho de espada enquanto o vento da passagem de sua
espada soprava através de seu cabelo.

Por tudo que ele sabia, Brain poderia acabar se tornando mais forte do que ele mesmo
em alguns anos.

Brain... se ele concordasse em tomar o meu lugar como o próximo Capitão Guerreiro, eu
concentraria minha energia em treinar a próxima geração, para que o Reino tivesse sua
parcela de guerreiros habilidosos no futuro.

“Eu certamente concordo!”

A voz do marquês Boullope interrompeu os pensamentos de Gazef. Agora não era hora
de se preocupar com o futuro distante.

“Se você me permitir, eu de bom grado contribuiria com minhas tropas mais fortes para
o esforço e para a proteção da pessoa de Sua Majestade. Que tal isso, Vossa Majestade?”
“Uhun. Capitão Guerreiro, o que você acha?”

Ele não podia fingir que não tinha ouvido. Isso seria uma mentira. Gazef fez uma de-
monstração séria de consideração, ignorando a contração da sobrancelha de Raeven.

A sugestão de Barbro de lutar na frente provavelmente veio de Boullope, que apoiava


Barbro para o próximo rei. No entanto, Gazef não tinha provas disso, então só havia uma
resposta que ele poderia dar.

“Eu acredito que tudo depende da opinião de Vossa Majestade.”

O Rei assentiu profundamente e Gazef de repente sentiu uma pontada de culpa.

“Mesmo... bem, se esse é o caso... então você deve vir também.”

“Sim! Permita-me apresentar a cabeça do falso imperador para o senhor, pai!”

Enquanto ouvia a resposta entusiasmada de Barbro, Gazef só podia esperar que os pre-
parativos iminentes afastassem as nuvens de mal-estar que se formavam em seu coração.

♦♦♦

A habilidade política do Marquês Raeven era a melhor entre os Seis Grandes Nobres,
então seria de se esperar que o escritório onde ele mostrasse suas habilidades fosse im-
pressionante. No entanto, este não foi o caso. Muitos ficariam surpresos se soubessem o
número exato de decisões que afetaram o futuro do Reino que havia sido redigido em um
lugar tão humilde e apertado.

O interior da sala estava cheio de estantes de livros, e os livros e pergaminhos rotulados


estavam arrumados de uma maneira que sugeria a personalidade de seu dono. No en-
tanto, não foi por causa dessas coisas que a sala era tão pequena, embora fossem parte
da razão para isso.

A maior razão não pode ser vista a olho nu.

A casa senhorial de Raeven foi construída com tijolos revestidos em estuque. Isso era
costumeiro quando se tratava da construção de uma casa nobre, e o escritório de Raeven
não era exceção.

No entanto, o interior daquelas paredes estava coberto de folhas de cobre que envol-
viam toda a sala.

Isso foi feito para interferir nas magias usadas para espionar, observar ou detectar sua
localização.
A sala sem janelas parecia um pouco claustrofóbica, mas do ponto de vista de custo-
efetividade era bem prática e poderia ser suportada.

Ao retornar do Palácio de Valencia, Raeven foi direto para este escritório, que foi prote-
gido contra magia. Ele cruzou para o outro lado de sua mesa de trabalho resistente antes
de cair em sua cadeira, de uma forma que sugeria que ele tinha ficado completamente
sem energia.

Então, ele cobriu o rosto com as mãos. Qualquer um que o visse não pensaria em um
grande nobre que comandasse poder e privilégio inigualáveis no Reino, apenas um ho-
mem de meia-idade que havia sido desgastado pelo peso do estresse e da responsabili-
dade.

Ele levantou os fios moles de seu cabelo loiro com os dedos, penteando-os de volta e
recostando-se em seu assento enquanto seu rosto se contorcia.

Talvez fosse porque ele estava relaxado agora, mas o estresse acumulado durante a ses-
são do tribunal se transformou em raiva, que encheu seu coração. Em instantes, ultra-
passou sua capacidade de conter e explodiu no ar com um poderoso grito.

“Idiotas, todos e cada um deles!”

Ninguém entendeu o que estava acontecendo. Não, se alguém tivesse entendido e esti-
vesse se aproveitando da situação, eles seriam, de fato, maestros estrategistas.

Neste momento, o Reino estava em grande perigo.

As bravatas do Império levaram a problemas graves, como a escassez de alimentos, e


depois surgiram outras questões que estavam começando a se precipitar. A única razão
pela qual nenhuma brecha no Reino havia aparecido até agora fôra porque os nobres
acreditavam honestamente que “nós só precisamos aguentar um pouco mais até que a ou-
tra facção colapse primeiro”.

O Império empregava guerreiros profissionais conhecidos como cavaleiros, mas o Reino


não tinha soldados equivalentes entre seus soldados. Para resistir às invasões Imperiais,
precisavam recrutar os camponeses. O resultado disso foram vilarejos em todos os luga-
res com falta de mão de obra por um período de tempo.

O Império tinha uma firme compreensão da prática de recrutamento do Reino e, assim,


eles declararam guerra durante a época de colheita.

Durante a época mais movimentada de um vilarejo agrícola, o impacto da mão de obra


adulta — a fonte mais importante de trabalho — desaparecendo por um mês não era
algo a se desprezar. É claro que a idéia de simplesmente não recrutar tantas pessoas vi-
nha à mente, mas em face das forças armadas do Império, que estavam muito melhor
treinadas e armadas, o Reino não poderia reunir nenhuma resistência sem o peso dos
números ao seu lado.

Houve uma ocasião em que a falta de recrutas resultou em tremendas baixas para o
Reino. Felizmente, o contra-ataque liderado por Gazef teve sucesso, matando dois dos
Quatro Cavaleiros originais e pondo fim à guerra, já que ambos os lados haviam vencido
e perdido. No entanto, a verdade era que o Reino havia sido enfraquecido e, devido à luz
dos muitos cidadãos perdidos, o Reino havia saído como o lado com a maior perda da
equação.

E mesmo durante estas circunstâncias...

“Esses traidores imundos! Esta luta de poder tola! Aqueles idiotas, brigando por um lu-
gar idiota!”

O Marquês Blumrush, um dos Seis Grandes Nobres, havia traído o Reino vendendo suas
informações ao Império. Os nobres se dividiram em duas facções e lutavam pelo domínio.
Ambos os príncipes estavam observando a sucessão como cães brigando por um osso.

Marquês Raeven bateu em sua mesa repetidamente, exalando sua raiva.

“O Rei também não ajuda a causa! Ele não é bobo e ele não está bêbado no poder, mas
ele não está pensando em nada! Se ele não desistir de seu assento em breve, isso só pio-
rará a crise de sucessão! A Princesa Renner deu a ele uma boa oportunidade, tornando
as coisas favoráveis para a Facção Real, então ele deveria se apressar e transferir o poder
para a próxima geração o quanto antes!”

Durante a perturbação demoníaca, a pessoa que encorajou o Rei a entrar em campo pes-
soalmente foi a Princesa Renner.

Por causa disso, a influência da Facção Real aumentou muito, e eles deveriam ter sido
capazes de colocar o Príncipe Zanac no trono, se tivessem defendido isso aqui e ali. Con-
tudo—

“As coisas acabaram assim porque ele teve pena de seu primeiro filho. Não é como se eu
não entendesse seus sentimentos, mas ninguém está pensando sobre o que é importante!
Ninguém entre eles!”

Estritamente falando, isso não era verdade. Infelizmente, a maioria deles estava sob o
manto de Raeven.

Ele não deveria ter concentrado todos eles sob sua asa. Em vez disso, ele deveria tê-los
disseminado cuidadosamente por todas as outras facções e influenciado os líderes por
dentro. No entanto, sua irritação não estava voltada para si mesmo por não fazer isso
antes, mas para os membros das outras facções, cuja ausência de cérebro lhe causava
dores de cabeça.
“Idiotas, todos e cada um deles!”

Raeven gritou em frustração enquanto pensava nos nobres que tinham cérebros de
goblins, nobres que só podiam ver a isca na frente deles.

“—Mesmo assim, o que devo fazer? Pense, Raeven, pense!”

A frustração de Raeven crescia quando sua respiração se acalmava.

Ele tinha que pensar em como manter o Reino, mesmo diante dos perigos à frente.

“Para começar, esta guerra com o Império é perigosa, especialmente se aquele Ainz Ooal
Gown comandar um grande poder. Eu deveria começar assumindo que ele pode causar
mais de 10.000 baixas sozinho antes de começar o planejamento estratégico. Então, ao
mesmo tempo, vou pressionar para que o Príncipe seja o próximo Rei... Isso será muito
difícil?”

Raeven falou as palavras em sua mente em voz alta enquanto ele organizava seus pen-
samentos. Honestamente, ele queria compartilhar esse assunto com alguém e discutir as
consequências. Foi por isso que Raeven apoiava o príncipe Zanac.

O Segundo Príncipe era seu único aliado — embora agora houvesse outra pessoa, a prin-
cesa Renner — entre os membros da realeza. Ambos entenderam o perigo que o Reino
enfrentava e ele a considerava uma companheira de guerra quando se tratava de planejar
o futuro.

Se ao menos ele pudesse subir ao trono, ele poderia tirar um peso do ombro direito.

“...Eu não acho que ele estava brincando quando ele prometeu me tornar o Primeiro-
Ministro. Embora eu não possa aliviar o peso do meu ombro esquerdo, pelo menos isso
melhoraria a condição do Reino.”

O objetivo atual de Raeven era colocar o príncipe Zanac no trono. Se ele falhasse nisso,
o país daria outro passo em direção à ruína.

“Com a ajuda da Princesa Renner, meu trabalho seria mais fácil, pelo menos isso.”

Raeven suspirou pesadamente enquanto dava voz a seus pensamentos e planos futuros.

Mesmo ele tinha dias em que ele queria apenas colocar tudo para baixo e ir embora.

Às vezes, a preocupação excessiva o fazia contemplar a destruição do Reino com suas


próprias mãos, embora esse pensamento específico só tivesse surgido uma ou duas vezes.
Era como se ele estivesse tentando construir um castelo de areia, cercado por pequenos
pirralhos tentando derrubá-lo. Às vezes, ele sentia vontade de destruir o próprio castelo
de areia, apenas para negar-lhes a satisfação. Ainda assim, ele tinha uma razão para ig-
norar esses impulsos destrutivos e continuar firme.

Houve uma batida na porta.

O som parecia vir de uma posição mais baixa do que o habitual. Por um momento, Rae-
ven mostrou uma expressão que era diferente de seu eu normal. Talvez pudesse dizer
que a expressão dele se derreteu; suas sobrancelhas estavam caídas e até o canto da boca
estava estranhamente relaxado.

“Oh isso não é bom. Eu não posso fazer uma cara assim.”

Raeven bateu levemente no rosto, já que sua força de vontade era insuficiente para res-
taurar a dignidade adequada a ele. Depois de arrumar o cabelo selvagem, ele se virou
para a porta de metal e falou para que a pessoa do outro lado pudesse ouvir. Embora sua
voz fosse alta, continha uma gentileza surpreendente que indicava que ele não estava
zangado.

“Entre.”

Do outro lado da porta estava um menino.

O rosto inocente e adorável do menino estava colorido com um leve rubor na pele pálida
de suas bochechas. Ele parecia ter cerca de 5 anos de idade, e ele caminhou pelo chão,
parando no joelho de Raeven.

“Agora, você sabe que não deveria estar correndo dentro de casa, é pouco refinado.”

Uma voz feminina seguiu o garoto até Raeven.

Ela era uma mulher com um rosto bonito que era sombreado pela tristeza. Ela não pa-
recia uma mulher feliz. Suas roupas eram de excelente qualidade, mas sua vivacidade
estava apagada.

A mulher fez uma reverência para Raeven e depois sorriu.

Com uma ponta de vergonha, Raeven retribuiu o sorriso.

Quando sua esposa começou a sorrir?

De repente, as lembranças daqueles dias vieram espontaneamente para o Marquês Ra-


even.
Quando Marquês Raeven era um homem mais jovem, seu coração transbordava com a
ambição e o impulso que era a marca da juventude. E o alvo de sua ambição era o trono.

Aspirar ao trono era um sonho traiçoeiro.

O jovem Marquês Raeven, cheio de confiança em suas habilidades, provavelmente


achava que não tinha outro objetivo digno de ser seu objetivo vitalício. Para esse fim, ele
trabalhou em silêncio, expandiu sua influência, acumulou riqueza, expandiu suas cone-
xões, esmagou seus inimigos políticos—

Tomar uma esposa não era mais do que parte de seu plano. Contanto que ele pudesse
vender a posição de marquesa a um alto preço, ele não se importava com o tipo de mulher
com quem ele acabaria. Acontece que ela era uma mulher bonita e sombria, mas Raeven
não se importava. Afinal, o importante eram as conexões que ele fazia com a família de
sua esposa.

Sua vida em casa era comum.

Não, era assim que Raeven achava que era. Ele cuidava da mulher com quem se casou
como ferramenta, mas não havia amor entre eles.

Do mesmo modo que o destino criara grandes coisas, algo começou de forma pequena,
sim, de fato, isso mudou Raeven.

Ele virou os olhos para o menino na frente dele.

A primeira coisa que ele pensou quando soube que seria pai era que ele tinha outra fer-
ramenta para usar. No entanto, quando o menino recém-nascido apertou o dedo com as
mãos pequenas, algo quebrou dentro do Marquês Raeven.

Este era seu filho macio e mole, que parecia tanto um macaco quanto um ser humano.
Ele certamente não achava que ele era adorável. No entanto, quando sentiu o calor que
irradiava de seu dedo, tudo de repente parecia efêmero.

O trono parecia lixo para ele.

O homem impulsionado pela ambição havia morrido por algum momento.

Então, quando Raeven sorriu em agradecimento à sua esposa que acabara de dar à luz
a seu filho, ele se lembrou vividamente da expressão em seu rosto. Era engraçado, mesmo
que ele nunca dissesse isso em voz alta. Ele lembrou que parecia perguntar: “Quem é essa
pessoa?”.

Claro, sua esposa pensara que esta era apenas uma mudança temporária causada por
saber que ele tinha um herdeiro. No entanto, Raeven continuou mudando depois disso, e
isso fez sua esposa se perguntar se havia algo errado com ele.
No final, quando sua esposa considerou seu marido antes e depois de sua mudança, ela
chegou à conclusão de que ela preferia o novo Raeven, e sua atitude mudou também. Os
dois eram, finalmente, um casal normal.

Raeven estendeu a mão e levantou o filho, que tentava escalar o joelho.

O garoto gorgolejou de prazer quando ele foi colocado na coxa de Raeven. Ele podia
sentir o calor de seu corpo através de suas roupas, e o peso familiar parecia confortável.
Uma satisfação calorosa e constante encheu seu peito.

Agora, Raeven tinha apenas um objetivo.

“Eu quero deixar um lugar seguro para o meu filho.” Era um objetivo que qualquer pai
nobre teria.

Raeven olhou calorosamente para o menino em sua perna e falou com ele.

“Qual é o problema-chu? Rii-tan? Chuchu~”

Apenas duas pessoas no mundo veriam um grande nobre franzindo os lábios e dizendo
“~chu”.

Um deles, o menino, gorgolejou de prazer.

“...Querido, falar dessa forma vai estragar sua gramática.”

“Hmph! Bobagem, isso não é mais que um boato sem base.”

Dito isso, Raeven refletiu que seria ruim se ele criasse seu filho errado.

Já que ele era seu filho, isso significava que ele deveria ter um pouco de talento. Ou me-
lhor, já era bom mesmo que ele não fosse talentoso, mas, como seus pais, eles tinham a
obrigação de descobrir ou cultivar as habilidades de seus filhos. Como tal, seria ruim se
eles o influenciassem negativamente. Mesmo assim, ele se recusou a desistir dos apelidos
amorosos para ele.

O amor era o melhor professor, afinal.

“Não é verdade, Rii-tan? Qual é o problema? Você quer dizer algo ao papai?”

Raeven ignorou a expressão perturbada de sua esposa e perguntou novamente.

“Ehehehe, bem~”
A velocidade com que a pesada porta se abriu indicava o quanto a outra parte estava
ansiosa por isso.

Parecia que ele queria compartilhar algum tipo de segredo, a julgar pela maneira como
ele cobria a boca com as mãozinhas. Ao ver aquele movimento, o coração de Raeven se
derreteu, os cantos dos olhos se arregalaram e ele fez uma expressão que jamais se es-
peraria do homem a quem se referia como uma cobra.

“Bem, o que é isso? Você pode dizer Papa~i? Uwah~ o que é isso?”

“É o jantar de hoje~”

“Mm, mm!”

“É o favorito do papai!”

“Uwah! Papa~i ficará muito feliz! O que é o jantar?”

“É peixe Gabura à la meuniere.”

“Será isso— O que está errado? Rii-tan?”

Raeven viu a expressão infeliz no rosto do filho e seguiu freneticamente uma pergunta.

“Eu queria dizer isso!”

Relâmpago pareceu brilhar atrás das costas de Raeven.

“Então é isso ~chu, quero dizer, isso é verdade? Bem, então é culpa do Papa~i. Por favor
me perdoe. Rii-tan, você quer me dizer alguma coisa?”

Quando Raeven olhou para ela com as sobrancelhas franzidas, sua esposa, sem saber o
que fazer, cobriu o rosto.

“Rii-tan, por que você não diz papa~i?”

Com um suspiro de aborrecimento, o menino empurrou a cabeça para o lado. Raeven


parecia ter experimentado um tremendo choque, tão desanimado que queria morrer.

“Eu sinto muito, Rii-tan, papa~i é um idiota e esqueceu tudo~ Portanto, você poderia
me dizer?”

Seu filho olhou para ele pelo canto do olho. Parecia que tinha quase conseguido ser ba-
julado.

“Não vai dizer ao papa~i? Papa~i vai chorar~”


“Isso — bem, é o peixe favorito do papai~”

“Jura! Papai está tão feliz em ouvir isso!”

Raeven não pôde deixar de beijar as bochechas rosadas do filho várias vezes. Isso fez
cócegas, e então o menino riu inocentemente.

“Tudo bem, então vamos jantar!”

“—Eu não acho que esteja pronto ainda.”

“—Que pena.”

Parecia que uma bacia de água fria tinha sido despejada sobre sua cabeça, e uma expres-
são irritada se espalhou pelo rosto de Raeven. Teria sido fácil ordenar aos chefes que se
apressassem, mas ainda precisavam seguir os passos apropriados para fazer seu traba-
lho, e esses passos tinham que ser executados com um tempo específico. Assim, se ele
egoistamente interrompeu sua rotina, a comida não seria tão boa quanto poderia ser.

Foi por isso que Raeven não deu essas ordens, mesmo que não estivesse feliz com a
espera. Foi também porque ele queria que seu filho tivesse a melhor refeição possível.

“Tudo bem, seu pai está no meio do trabalho. Vamos.”

“Táaa~”

Raeven não conseguiu esconder a solidão que sentiu quando ouviu a resposta animada
do filho.

“Ghrun! Espere, na verdade, estou farto do trabalho.”

“Mesmo?”

“Umu. Eu já terminei o que tinha que fazer.”

“...Mesmo? Você não está apenas planejando adiar até amanhã?”

“...”

Mesmo que a esposa estivesse revirando os olhos para ele, Raeven não deixaria o filho
cair do joelho. Agarrou o garoto com força e suspirou ao sentir o calor do corpo quente
do filho fluir para ele.

“...Bem, eu já estava em um beco sem saída de qualquer maneira.”


Ele murmurou antes de continuar:

“Não é como se eu pudesse terminar em um dia.”

Isso não foi uma desculpa. O fato era que ele não tinha nada urgente para cuidar.

Sua esposa pareceu perceber isso e assentiu várias vezes.

“Eu entendo, mas ainda assim... parece realmente problemático.”

“Foi o que eu disse. Eu não preciso de mais braços ou pernas para fazer o meu trabalho,
apenas boas cabeças.”

“Que tal meu irmão?”

“Ele é talentoso, mas, considerando que ele administra o patrimônio da sua família está
sobrecarregado o suficiente, não acho que poderia dar mais trabalho para ele. Você co-
nhece alguém que possa ser confiável?”

Raeven já havia feito essa pergunta várias vezes e sua esposa lhe dera a mesma resposta:
Não há nobres que possam trabalhar no mesmo nível que você.

A verdade é que, se alguém assim estivesse disponível, sua vida não teria sido tão difícil
como agora. No final, tudo o que ele podia fazer era olhar entre os plebeus. Se este lugar
fosse como o Império, onde havia um sistema nacional de educação que treinava as pes-
soas para o serviço público, tudo estaria bem, mas no Reino, procurar por talentos ocul-
tos era como encontrar uma agulha num palheiro. Tudo o que ele podia fazer era ouvir
rumores de pessoas talentosas e recrutá-las.

Enquanto pensava em quanto tempo e esforço isso precisaria, o coração de Raeven afun-
dou. Neste momento, seu filho teve uma boa idéia e falou.

“Papa~i, eu quero te ajudar a trabalhar também~”

“Uwah~ Rii-tan, muito obrigado! Eu te amo~chu acima de tudo!”

Raeven não parou de beijar seu filho enquanto continuava sua conversa melosa. Este
era sem dúvida o momento mais feliz da sua vida.

Ele poderia esquecer o estresse de sua vida diária e alcançar uma pequena medida de
paz.

Mesmo que eu tenha que me sacrificar, vou proteger tudo isso.

Raeven jurou em seu coração.


Parte 2

Fazia dois meses desde a declaração de guerra do Império, e agora era a estação que
transformava a respiração exalada vapor branco.

Em vilarejos por todo o Reino, a maior parte do trabalho tinha transitado do exterior
para o interior. Poucas pessoas se aventuraram fora agora. Muitas pessoas ainda não es-
tavam trabalhando. Isso era verdade até para os aventureiros, que davam a impressão
de trabalhar o ano todo.

Embora houvesse casos em que monstros famintos de repente aparecessem nos vilare-
jos e houvesse pedidos de emergência para preencher, havia menos para fazer na maior
parte do tempo. Entrar em território desconhecido seria mais perigoso durante este pe-
ríodo, seja para explorar ruínas ou terras desconhecidas durante este período. Por causa
disso, os aventureiros consideravam isso algo como uma temporada de descanso e cana-
lizavam suas energias para treinamento, recreação ou negócios paralelos.

Dito isto, a Cidade Fortaleza de E-Rantel não era assim naquele momento. Estava cheia
de vida e atividade.

Essa comoção, no entanto, era um pouco diferente da das outras cidades do Reino. A
atividade aqui não nasceu da energia usual da vivacidade desta cidade.

A fonte dessa atividade veio do setor mais externo dos três muros.

As inúmeras pessoas reunidas aqui estavam malvestidas. A maioria deles eram plebeus.
Mas o número deles era surpreendente — havia cerca de 250.000 deles. É claro que E-
Rantel nem sempre tinha tantas pessoas assim.

Era verdade que E-Rantel era o nexo de comércio e tráfego entre três reinos, com pes-
soas, dinheiro, bens e outras coisas fluindo livremente através dele. Por causa disso, a
cidade era grande.

No entanto, isso por si só não era razão suficiente para apenas um setor ser atulhado
com 250.000 pessoas.

Nesse caso, por que havia tantas pessoas aqui?

Aqueles que melhor poderiam esclarecer isso eram um grupo de jovens.

Carregar lanças sem lâminas — mais como bastões, na verdade — muitos jovens esfa-
quearam e empurraram bonecos feitos de madeira e palha, vestidos com armaduras en-
ferrujadas e escudos.
Este era o treinamento de combate. Sim — as pessoas reunidas aqui hoje, todas as
250.000 delas, foram reunidas para a batalha contra o Império.

Gritos de batalha altos ecoaram por toda parte. Claro, poucos deles foram realmente
gritados a sério. A maioria deles foi tomada pelo medo da batalha vindoura, e eles trei-
naram para se distrair da preocupação incômoda de que não voltariam para casa depois
disso.

Mesmo assim, nem todos estavam praticando a sério.

As guerras com o Império foram uma ocorrência anual. Como resultado, muitas pessoas
foram derrubadas por eles. Havia aqueles que se deitavam em nichos discretos. Havia
aqueles que desabafaram suas frustrações para aqueles que os cercavam. Havia aqueles
que se sentaram e abraçaram os joelhos.

Quanto mais velhos eles eram, maior a probabilidade de eles fazerem isso.

Eles não tinham espírito de luta e só queriam voltar para casa vivos.

Essa era a verdadeira face do Exército Real. No entanto, não poderiam evitar isso. Para
começar, eles foram cercados pela força. Então eles foram informados de que teriam que
arriscar suas vidas em uma batalha sangrenta com nenhum ganho para si mesmos.
Mesmo que conseguissem retornar vivos, eles voltariam a uma colheita desperdiçada, e
suas vidas seriam muito difíceis, como uma corda estrangulando-os lentamente.

Isso não era diferente de uma execução prolongada.

As carroças passaram pelos soldados. Suas caixas estavam cheias de grandes quantida-
des de alimentos.

Logicamente falando, seria difícil abrigar e alimentar 3% da população do Reino em uma


única cidade. No entanto, E-Rantel foi a linha de frente das guerras com o Império e fora
projetada para acomodar o poderio militar do Reino.

Depois de várias batalhas com o Império, a cidade estava preparada para lidar com
250.000 pessoas com facilidade. Seus armazéns eram enormes e provavelmente eram os
maiores edifícios da cidade.

Os suprimentos continuavam entrando naqueles armazéns.

As pessoas desmotivadas olharam com medo para aquelas carroças. Era como se eles
estivessem olhando para a Morte lentamente rastejando em direção a eles.

Todo mundo sabia o que ia acontecer a seguir.

Esta era uma transferência em grande escala de rações.


Isso significava que a guerra com o Império iria começar.

♦♦♦

Este era o setor mais interno dos muros triplos de E-Rantel.

No centro da cidade estava a mansão do prefeito de E-Rantel, Panasolei Gruze Day Ret-
tenmaier. Embora fosse uma casa luxuosa, digna do líder da cidade, ainda empalidecia
em comparação com o prédio ao lado.

Aquele prédio era o mais impressionante da cidade — a villa VIP. Era tipicamente selado,
e somente a família real ou aqueles próximos a eles teriam permissão para usá-lo.

E agora, em uma sala dentro daquela villa, vários homens estavam reunidos em torno
do Rei Ranpossa III e dos Grandes Nobres.

Gazef ficou em silêncio ao lado do Rei, que estava sentado em um trono rústico.

Uma grande mesa dominava o centro da sala, cercada por nobres, que estudavam o
grande mapa que havia sido colocado sobre ele. Havia vários marcadores de posição de
tropas no mapa, e ao redor havia inúmeros documentos espalhados, registros nominais,
relatórios de reconhecimento, registros de combate, relatórios de aparência de monstros
e coisas do gênero. Embora houvesse aguadeiro atrás deles, restava pouca água.

Foi um testemunho da intensidade dos debates que ocorreram aqui.

A verdade era que o cansaço começava a aparecer nas distintas faces de pedigree dos
Grandes Nobres. À medida que as forças de uma pessoa cresciam, mais e mais coisas pre-
cisavam ser discutidas e mais decisões a serem tomadas. Embora as questões de baixo
nível pudessem ser delegadas aos subordinados, elas tinham que coordenar pessoal-
mente os assuntos dos nobres dentro de suas facções.

Como os nobres estavam com seu orgulho na linha, eles não podiam se dar ao luxo de
se envergonhar diante dos outros, o que só aumentava sua carga de trabalho.

No entanto, isso acabou agora.

Marquês Raeven, que parecia o menos exausto de todos aqui, abriu a boca para falar.

Não, era melhor dizer que ele sempre foi o primeiro a falar. Ele poderia ter sido despre-
zado como um “morcego”, mas ninguém duvidava de sua inteligência. Fazer com que ele
presidisse essas reuniões entre facções era a maneira mais rápida de fazer as coisas.
“Obrigado a todos por trabalhar com tanto afinco. Na maior parte, acredito que termi-
namos nossos preparativos dentro do prazo. De agora em diante, começaremos a discutir
a estratégia para a próxima guerra contra o Império.”

O olhar de Raeven varreu todos os presentes, e ele levantou um pergaminho para todos
verem.

“Esta é uma declaração do Império que chegou há alguns dias. Afirma o local proposto
do campo de batalha.”

O conceito de localizações de campos de batalha propostos resultou do fato de que os


campos de batalha invariavelmente se tornaram locais amaldiçoados que geraram os
undeads. Portanto, quando as batalhas eram travadas entre membros de espécies seme-
lhantes, eles designavam locais específicos onde eles lutariam. Assumindo que ambos os
lados concordaram, eles poderiam lutar lá sem prejudicar os países dos outros.

Claro, nem todas as guerras foram travadas assim. Ou melhor, era raro que tais acordos
fossem feitos. No entanto, o Reino e o Império haviam lutado em campos de batalha de-
signados nos últimos anos.

Mesmo que eles tomassem novas terras, seria mais um problema a se considerar se ge-
rasse undeads, não havia sentido em defender terras de invasores se isso terminasse em
um local amaldiçoado e inabitável. Ambos os lados compartilhavam o mesmo ponto de
vista, daí os acordos.

Por esse motivo, alguém suspirou de alívio quando Raeven anunciou a missiva. Esse no-
bre deve ter pensado que esta guerra seria a mesma que qualquer outra, dada a natureza
familiar da declaração.

“Então, o campo de batalha será—”

“Não é o mesmo lugar antigo, Marquês Raeven? Onde mais poderia ser?”

“De fato. Como o Marquês Boullope diz, o campo de batalha é o mesmo lugar de todos
esses anos. Aquela terra amaldiçoada envolvida pela neblina, as Planícies Katze. Especi-
ficamente, na região noroeste.”

“Como é o mesmo lugar, isso significa que a invasão do Império será a mesma de sem-
pre?”

Embora o Império alegasse estar ajudando o magic caster Ainz Ooal Gown a recuperar
seu legítimo território, a maioria dos nobres achava que isso era apenas um casus belli
para eles declararem a guerra como sempre faziam.
Se isso fosse tudo, Gazef teria concordado, mas Raeven sacudiu a cabeça.
“Infelizmente, Marquês Blumrush, esse não parece ser o caso. Segundo minhas fontes, o
Império mobilizou uma grande quantidade de poder militar para esse engajamento. En-
viei meus subordinados — uma equipe de aventureiros orichalcum — para acompanhar
isso, e embora eles não tenham certeza do número exato, a julgar pelas insígnias e dis-
tintivos das unidades ativadas, o Império enviou seis legiões completas.”

“Seis?!”

A consternação percorreu os nobres reunidos.

O Império tinha oito legiões de cavaleiros, mas até agora, o máximo que eles já haviam
enviado para o campo de batalha foram quatro. Mas desta vez, eles trouxeram uma vez e
meia essa quantia.

“Eles estão... sérios assim?”

A pergunta veio de um nobre com uma expressão desconfortável no rosto.

As seis legiões do Império continham 60.000 homens. O Reino tinha 250.000 homens,
mas embora eles tivessem a vantagem em números, o contrário era verdadeiro em ter-
mos de qualidade das tropas.

“Não tenho muita certeza, mas podemos precisar considerar que isso pode não acabar
em um simples conflito.”

Nas batalhas até o momento, onde os 40.000 homens do Império foram contra os
200.000 do Reino, o Império lançaria um ataque, que o Reino enfrentaria, e isso seria o
fim. O objetivo do Império era exaurir lentamente o Reino e desperdiçar seus estoques
de alimentos, de modo que apenas forçar o Reino a entrar em campo realizaria um de
seus objetivos.

Se eles estivessem planejando fazer a mesma coisa, não haveria necessidade de mobili-
zar 60.000 homens. Isso significava que eles tinham outro motivo para fazer isso, pensou
Raeven.

“Parece que aumentar o imposto foi a decisão certa a tomar.”

No entanto, o aumento dos custos do envio de mais soldados também foi uma dor de
cabeça.

No passado, suas batalhas haviam sido travadas durante a estação de colheita do outono.
Essa guerra seria travada no inverno, exigindo gastos para coisas como lenha, roupas
quentes e coisas do tipo que nunca haviam sido necessárias antes.
Esta guerra foi financiada pelo Rei. Se o poder da Facção Real não tivesse aumentado,
teria sido difícil para o Rei obter fundos, e o próprio poder do Rei teria diminuído dras-
ticamente.

“Ainda assim, Marquês Raeven. Você não acha que eles mobilizaram mais homens do
que o normal para impressionar o magic caster, chamando a si mesmo de rei com o qual
eles se aliaram, ou apenas querem dar um espetáculo? Afinal de contas, não levantar um
grande exército contra nós resultaria em eles perderem a cara diante de seus aliados.”

“Eu acredito que é muito provável. Na verdade, dado que não recebemos nenhuma co-
municação deste Ainz Ooal Gown, eu suspeito que esse incidente possa ter sido planejado
pelo Império e este Ainz Ooal Gown é apenas um espectador que foi atraído para isso. Ele
pode até não estar participando disso por vontade própria.”

Pessoalmente, Gazef achava que seria maravilhoso se esse fosse realmente o caso. Dessa
forma, eles não precisariam realmente fazer daquele poderoso magic caster um inimigo,
e quantas pessoas isso salvaria? No entanto, isso pode ser muito otimista.

Gazef abriu a boca até então bem fechada.

“Posso falar?”

“Concedido.”

Com a permissão do Rei, Gazef começou a desabafar de suas dúvidas.

“Eu não acho que seja esse o caso. Assim como com esse documento da Teocracia Slane,
não creio que essa declaração de guerra seja uma mera farsa.”

O descontentamento era claramente evidente nos rostos dos nobres.

E-Rantel e seus arredores são o ponto de encontro de três nações. Toda vez que o Reino
e o Império tinham suas pequenas guerras, a Teocracia tornava sua opinião conhecida.
“Para começar,” eles diriam, “E-Rantel e seus arredores originalmente pertenciam à Teo-
cracia Slane. O Reino assumiu o controle ilegalmente e eles são obrigados a devolvê-lo aos
seus legítimos proprietários. É profundamente lamentável que tal território indevidamente
apropriado se torne objeto de uma luta pelo poder”, e assim por diante.

Quando ouviram isso, os dois países queriam dizer a eles para pararem de atacar, mas
até agora a Teocracia nunca havia mobilizado suas tropas, então eles acreditavam que o
desacordo deles era puramente verbal.

Desta vez, no entanto, o tom que eles tomaram foi muito diferente.
“A Teocracia não tem registros dele e não pode tomar uma decisão sobre o assunto, mas
se esta terra pertencer a Ainz Ooal Gown, então reconheceremos a legitimidade de sua
reivindicação.”

Foi o que o comunicado deles havia dito.

Os nobres do Reino ficaram furiosos com essa afirmação, que soou como se a Teocracia
estivesse deixando o lixo para eles. No entanto, havia aqueles que entendiam o verda-
deiro significado por trás do documento.

A Teocracia Slane estava dizendo: “Não temos a intenção de antagonizar o Ainz Ooal
Gown” em nível nacional.

Isso implicava que a Teocracia Slane, a nação mais forte da região, não estava disposta
a arriscar um confronto com este magic caster.

Mas isso era compreensível.

Pensou Gazef.

“Ele eliminou facilmente uma das Seis Escrituras... e embora ele tenha dito que não as
matou, a Teocracia Slane acha que seria uma má idéia tornar um inimigo de alguém com
tanto poder. Se Ainz Ooal Gown foi puxado para esta guerra pelo Império, eles não pre-
cisariam se abster desse modo.”

“Hmph. Então, e se eles tiverem mais um magic caster, que diferença faz? Não somos
nós que temos 250.000 pessoas?”

Conde Lytton riu diante da cautela de Gazef, a zombaria evidente em sua voz.

Gazef lutou contra o desejo de franzir as sobrancelhas. Embora ele entendesse o poder
chocante de um grande magic caster, ele também entendia de onde Lytton estava vindo.

Se ele não soubesse mais nada, ele teria pensado da mesma maneira também.

Por exemplo, havia o famoso magic caster do Império, Fluder Paradyne. Seu nome era
conhecido em países distantes. Ele havia rumores de ser capaz de usar magia de 5º ou 6º
nível, mas para ser honesto, ninguém sabia o quão poderoso ele realmente era.

Isso porque ele nunca havia participado das guerras do Império, nem usou sua magia
para derrotar os exércitos do Reino.

O 6º nível de magia era impressionante, exatamente o quão impressionante ainda pre-


cisava ser visto.
Até mesmo Gazef, alguém que sobrevivera a inúmeras batalhas como o Capitão Guer-
reiro do Reino, sentia-se assim.

Os nobres não eram magic caster, mas provavelmente só tinham sido informados sobre
magia como parte de sua educação. Muitos dos nobres do Reino menosprezavam Fluder,
pensando nele como nada mais do que um garoto propaganda do Império. Os nobres que
tinham pouco contato com os usuários de magia, como aventureiros, eram ainda mais
propensos a pensar dessa maneira.

O Conde Lytton era um deles. Para ele, os magic caster eram pouco mais que magos de
palco. É claro que os sacerdotes aos quais ele se dirigia quando estava doente ou ferido
eram assuntos diferentes.

“...Eu não acho que isso esteja certo. Eles podem ser muito difíceis de lidar se eles usa-
rem magia de vôo e atacarem com magias de efeito de área. Ataques de longo alcance
podem ser bastante prejudiciais. Claro, os magic caster profissionais não fazem coisas
que não os beneficiam. Ainda assim, como o Império trata esse Ainz Ooal Gown é muito
estranho. Eles não iriam tão longe se ele fosse um simples magic caster, então é melhor
ficarmos de guarda.”

Aquelas palavras severas foram ditas por Margrave Urovana, cuja cabeça de cabelos
brancos e rosto enrugado transmitia a severa dignidade de um indivíduo idoso. Como o
mais velho dos seis Grandes Nobres, ele era um claro contraste com o jovem Conde Lyt-
ton. Cada palavra e gesto dele fez o Conde assentir em concordância relutante. No en-
tanto, havia alguém que se opunha a ele — Marquês Boullope.

“Hmph! Quem é esse Ainz Ooal Gown? Como Lytton disse, o que um homem pode fazer?
Se ele voar pelo ar, nós o derrubaremos com arcos. O mesmo se ele atacar de longe. O
que pode um magic caster fazer? Aquelas histórias de magic caster que mudam o campo
de batalha por si são apenas isso, histórias!”

“...Eu imploro seu perdão, mas não é possível que algumas das sagas heroicas que os
bardos cantarolam possam ser verdadeiras?”

“Acredito que o Capitão Guerreiro-dono não possui todos os fatos. Histórias são embe-
lezadas para chamar a atenção. Depois que os fatos são exagerados, as histórias são bem
afastadas da realidade. Isso só piora quando bardos espalham histórias ouvidas de ou-
tros bardos.”

“No entanto, se eles pudessem reunir um monte de magic casters que poderiam usar
「Fireball」—”

“E qual a probabilidade que eles possam reunir um grupo inteiro de pessoas que possam
usar 「Fireball」, hm, Capitão Guerreiro-dono?”

“Eu... não acho que seja muito provável”.


「Fireball」, uma magia de 3º nível. Seria impossível reunir um grande número de ma-
gic casters que pudessem usar essa magia, mesmo se tivessem as academias de magia do
Império.

“Então, não é essa a resposta? Magia é uma boa arma, mas não importa o quão poderoso
ele seja, um homem não pode mudar o campo de batalha! Você — perdão, o Capitão Guer-
reiro-dono é um exemplo perfeito. Já que ninguém consegue se igualar em um duelo, mas
nem mesmo você pode matar dezenas de milhares de pessoas de uma só vez!”

Ele estava certo. Gazef não conseguia encontrar nada para refutar o argumento do Mar-
quês Boullope.

Aqueles contos de matar 10.000 homens com uma única magia eram duvidosos na me-
lhor das hipóteses. Mesmo aquela vovó, Rigrit Bers Caurau dos Treze Heróis, não conse-
guiu realizar tal façanha.

No entanto, a inquietação ainda persistia em Gazef.

Será que ele não conheceu um magic caster realmente incrível e simplesmente não tinha
noção disso?

“...Então, e se fosse um Dragão?”

“Marquês Blumrush... aquele magic caster é um humano. Qual o motivo de levar Dragão?”

“Não, eu quis dizer em termos de um homem lutando contra uma brigada...”

“Em primeiro lugar, não faz sentido mencionar em algo relevante para humanos! Eu não
sei o que você está pensando, com tanto medo de um mísero magic caster...”

Ele virou um olhar penetrante para Gazef.

“Como um dos nobres do Reino, vocês deveriam ter vergonha de si mesmos, encolhidos
diante da visão de sua sombra! ...Ainda assim, não é como se eu não entendesse a preo-
cupação do Capitão Guerreiro-dono... então, vamos considerar Ainz Ooal Gown como
uma força capaz de igualar cinco mil homens.”

“C-cinco mil?!”

Os olhos do Conde Lytton se arregalaram.

“Você não acha que é um pouco demais, valorizando um homem como igual a cinco mil?
Mesmo compará-lo à metade ainda seria um exagero.”
“Eu, por exemplo, considero o Capitão Guerreiro-dono como um par de milhares de ho-
mens, e dado que nosso Capitão Guerreiro-dono é tão cauteloso com esse indivíduo, nós
o contaremos como sendo capaz de lutar cinco vezes do que és capaz. Eu tenho fé na
avaliação do Capitão Guerreiro-dono sobre este homem.”

“Me sinto honrado.”

Embora ele ainda duvidasse que o poder de combate de Ainz Ooal Gown fosse apenas
igual a 5.000 homens, isso já era difícil o suficiente para acreditar. Seria melhor agradecê-
lo e tentar melhorar o humor do outro homem. Com isso em mente, Gazef abaixou a ca-
beça.

Nesse momento, Primeiro Príncipe Barbro — o até então em silencio — abriu a boca.

“Se eu puder ter um pouco do seu tempo... eu estive pensando. Por que não recrutamos
aqueles aventureiros no exército? Afinal, eles trabalham no Reino, então não estão sujei-
tos ao recrutamento do Reino? Por que não podemos forçá-los a se juntar ao exército?
Não me lembro de nenhuma lei no Reino que proíba isso.”

Os Grandes Nobres se entreolharam. Como senhorios, eles entenderam claramente o


valor e o poder dos aventureiros. Por causa disso, eles não pensaram como Barbro.

De sua parte, Gazef achava que a razão pela qual Barbro tinha tais pensamentos era por
causa do Rei. Se o Rei tivesse lhe concedido um feudo para administrar, ele não teria
pensado assim.

Marquês Raeven tossiu.

“Meu príncipe. Eu acredito que você entenda que, exceto os classificados como cobre,
todo aventureiro é mais forte que um soldado comum?”

“Uhum. Claro. É por isso que eles produzirão excelentes resultados quando forem re-
crutados. Eles serão capazes de derrotar os cavaleiros imperiais com facilidade!”

“Eu não discuto esse ponto. No entanto, se fizéssemos isso, nossos inimigos — o Império,
por exemplo — também recrutariam aventureiros. O resultado disso não seria uma ba-
talha entre aventureiros, mas um massacre sistemático das bases dos aventureiros. As
perdas seriam muito maiores e muitos dos fracos morreriam. É por isso que ambos os
lados não usam aventureiros para evitar uma corrida armamentista. Além disso, as re-
gras da Guilda dos Aventureiros nunca permitiriam isso.”

Os Trabalhadores também não foram usados por razões semelhantes. Além disso, eles
geralmente eram mais caros que aventureiros e menos confiáveis.
“Entendo... entendo a idéia, mesmo que não aceite. Então, e se uma cidade em que eles
estivessem fosse atacada? Se eles ainda não emprestassem suas forças, isso não seria
imperdoável como cidadãos do Império?”

“Eu entendo o ponto que você está tentando fazer. No entanto, eles sentem que precisam
de prudência sobre o que contar ou não para os cidadãos do Reino. Além disso, eles tam-
bém podem estar viajando no exterior no momento. Em qualquer caso, quanto melhor
eles forem, mais a nação é diminuída quando ele morrerem em batalha. Pode levar a uma
situação em que um monstro apareça, mas não há nenhum aventureiro capaz de pará-lo.
Como tal, precisamos lidar com os aventureiros com cuidado.”

“...Marquês Raeven, não mencionou antes que você recrutou alguns aventureiros apo-
sentados para suas forças? Algo sobre... aventureiros orichalcum aposentados? Por que
isso é permitido?”

“Não tem problema. Eles não estão mais vinculados às regras da Guilda dos Aventurei-
ros quando se aposentam e não são mais membros. É por isso que os contratei.”

“...Como direi isso, eu ouvi, mas ainda não consigo aceitá-lo.”

Risos suaves e sons de aprovação vieram do nobre contingente.

“Ainda assim, isso só se aplica a aventureiros classificados como orichalcum. Os aventu-


reiros classificados com adamantite são completamente diferentes. Das duas equipes de
aventureiros no Reino...”

Não havia ninguém aqui que não soubesse das ousadas façanhas de Rosa Azul durante
a perturbação demoníaca.

“Antes de ocuparem o centro do palco, havia outro grupo de aventureiros em posição


de adamantite. Embora todos tenham se aposentado, eles não foram contratados desde
então... Certo, Capitão Guerreiro-dono?”

“Está correto. Há quatro deles. Um deles abriu uma escola exclusiva de espadas para os
alunos que ele escolheu. Outro dois foram em uma jornada. A última é uma vovó que uma
vez pertenceu a Rosa Azul antes de desaparecer.”

Gazef contou os rostos familiares em seus dedos quando se lembrava dos membros.

Enquanto passeava pela capital, fôra arrastado para uma sala de treinamento por seu
futuro professor, e fôra submetido a dias infernais de treinamento e palestras sobre es-
padas.

Por causa desse encontro, o Gazef, que deveria ter sido apenas um mercenário, acabara
servindo ao Rei, mas mesmo assim era o caso—
Não, pensando nisso, essas também eram boas lembranças.

“Entendo. Eu também ouvi que a equipe de aventureiros chamada Escuridão está dentro
desta cidade. Se ao menos pudéssemos contar com a Bela Princesa Nabe para lutar com
o Ainz Ooal Gown... mas isso será difícil.”

Embora isso fosse fundamentalmente uma boa idéia, a Guilda dos Aventureiros nunca
permitiria isso.

Vários nobres começaram a amaldiçoar a Guilda em voz alta.

Por exemplo, “Eles não são mais que camponeses!”, “Quem eles pensam que pagam as con-
tas?!” ou “Se eles são cidadãos do Reino, devem trabalhar para o Reino!”.

Era natural que os que estavam no poder ficassem descontentes com a Guilda dos Aven-
tureiros, que se recusou a se submeter a esse poder. No entanto, também era um fato que
eles eram os únicos que podiam lidar com monstros.

Se a Guilda dos Aventureiros deixasse o Reino, eles não teriam como espancar podero-
sos monstros. Como resultado, o Reino seria lentamente destruído, e nem mesmo a pre-
sença de Gazef mudaria isso.

Monstros tinham muitas habilidades especiais, e derrotá-los exigiria um repertório


igualmente diversificado de ataques, defesas e métodos de cura. Por causa disso, os aven-
tureiros eram indispensáveis. Seria uma questão diferente se eles pudessem incorporar
os magic casters e rangers em suas forças, assim como o Império fazia.

“Ah, como esperado de Vossa Alteza! Eu sinto que esta é uma idéia maravilhosa!”

Aquele que falou fôra um barão.

Ele era muito fraco para participar dessa reunião, o que significava que ele era o vassalo
de alguém.

“Como uma magic caster, ela pode ter algumas idéias sobre essa situação. Pode ser bom
apenas ouvir o que ela tem a dizer. Talvez devêssemos mandar um emissário para cá,
apenas no caso.”

A idéia encontrou uma pequena quantidade de aprovação. A maioria dos que concorda-
ram eram nobres de baixo escalão e, do modo como elogiavam Barbro, provavelmente
estavam agindo como cachorros da Facção Nobre.

Eles não pareciam ter notado os rostos que as pessoas mais perspicazes estavam fa-
zendo.

“Então vá...”
Ordenou o Rei com uma voz cansada antes de continuar:

“Momon-dono é um aventureiro adamantite. Você não deve ofendê-lo em nenhuma cir-


cunstância!”

“Entendido! Este Cheneko cumprirá o decreto real ao pé da letra!”

“Mesmo. Bem, então tome cuidado para não ofender o Momon-dono.”

O Rei acenou para ele novamente depois de repetir suas ordens. O nobre em questão
saiu da câmara, transbordando de orgulho.

Ele não parecia ter percebido que seria cruelmente posto de lado se algo desse errado.

”Hah... nós saímos muito do tópico original. Agora, onde estávamos... ah. Então, para
igualar o poder de combate de Ainz Ooal Gown, não acho que alguém tenha alguma ob-
jeção a escolha de cinco mil homens?”

O Marquês Raeven olhou para Gazef.

“Eu não tenho objeções.”

Pessoalmente, Gazef achava que o dobro desse número não seria suficiente, mas enten-
dia que aqueles que não tinham visto seu poder em primeira mão poderiam não aceitar
esse fato.

“Entendo. Então, como o Império já concordou com a escolha do campo de batalha, eu


acredito que todos nós possamos começar a mover nossos exércitos para as Planícies
Katze, alguma objeção?”

A linha de visão do Marquês Raeven varreu a sala e, um por um, os nobres responderam
afirmativamente. Quando finalmente chegou ao Marquês Boullope, a resposta do homem
foi alta e clara.

“Não haverá problemas, Marquês Raeven. Minhas tropas estão prontas para sair a qual-
quer momento. Então, Vossa Majestade, posso fazer uma sugestão? Desejo confiar algo
ao Príncipe...”

Havia apenas um príncipe presente. Todos os olhos se voltaram para Barbro.

“Parece que Ainz Ooal Gown apareceu uma vez para salvar um povoado chamado Vila-
rejo Carne. Se fosse puramente por altruísmo, isso seria e bom e justo. No entanto, ele
pode ter tido um motivo estratégico em mente. Eu acho que seria melhor se mobilizás-
semos algumas tropas e tentássemos questionar os aldeões sobre os detalhes. Eu gosta-
ria de confiar o comando dessa unidade ao príncipe.”
”—Marquês!”

Barbro olhou para o Marquês Boullope.

“Fique quieto.”

Disse o Rei antes de completar:

“Isso não é uma má idéia. Meu filho, eu mando você — vá para o Vilarejo Carne e aprenda
o que puder com os aldeões.”

Gazef tentou ao máximo não franzir as sobrancelhas.

Se eles fossem para a Vilarejo Carne agora, eles não estariam propensos a aprender in-
formações úteis sobre o magic caster. Além disso, dividir suas forças dificilmente seria
uma medida inteligente, mesmo que fosse uma quantia comparativamente pequena.

“...O Rei ordena e eu obedeço. No entanto, gostaria de expressar que esta postagem não
é da minha vontade.”

Vendo que o Rei não tinha intenção de retirar suas ordens, Barbro abaixou a cabeça sem
se preocupar em esconder a expressão infeliz em seu rosto.

“Vou lhe emprestar algumas das minhas tropas de elite para acompanhá-lo nesta jor-
nada. Também enviarei nobres para acompanhar o Príncipe. A força total da sua unidade
será de cerca de cinco mil homens.”

“Entendo. Você está de guarda contra uma força de flanco do Império. Não esperava
nada menos de suas idéias, Marquês Boullope.”

Gazef podia ver a lógica nas palavras de Raeven. No entanto, ele ainda tinha dúvidas de
que o Exército Imperial usaria tais métodos dissimulados (tropas de flanqueio) mesmo
depois de concordar com a localização do campo de batalha. Embora essa fosse uma tá-
tica básica de combate, conduzir um ataque furtivo como esse depois do acordo só iria
desgraçar as nações vizinhas. O Império estaria atirando no próprio pé.

“Embora eu não ache que preciso de tantos soldados, uma vez que foi o Marquês propôs
a idéia graciosamente, não tenho outra alternativa senão aceitá-la.”

“Muito obrigado, Vossa Alteza. Então, eu tenho mais uma pergunta.”

O Marquês Boullope parou por um momento. Em vez de recuperar o fôlego, o atraso foi
chamar a atenção para o que ele ia dizer em seguida.
“Quem será o comandante geral desta batalha? Eu acredito que ninguém vai se opor a
mim mesmo?”

A atmosfera mudou.

Esta foi uma declaração indireta. Foi formulada como uma pergunta, mas carregava con-
sigo o peso e o poder não expressos de escolher o homem que exerceria autoridade sobre
todo o exército.

Se perguntado quem era o melhor comandante entre o Rei Ranpossa III e o Marquês
Boullope, muitos nobres apontariam para o último. Isto era especialmente verdadeiro,
dado que as forças do Marquês constituíam um quinto do exército real — 50.000 homens.

Além disso, o Marquês Boullope também comandou tropas de elite. Ele havia sido ins-
pirado pelo bando guerreiro de Gazef e, assim, criou uma unidade de guerreiros profis-
sionais.

Eles eram muito bons lutadores. Embora ainda fossem inferiores ao bando guerreiro de
Gazef, mas ainda assim eram páreo para os Cavaleiros Imperiais — talvez mais que pá-
reos. De particular interesse seriam seus números, mesmo em torno de 5.000 destes. Se
eles entrassem em confronto com o bando de Gazef, as elites mais numerosas de Boul-
lope triunfariam por uma grande margem.

Se o Rei não estivesse pessoalmente presente, a autoridade de comando cairia indubi-


tavelmente ao Marquês Boullope. Mas como o Rei estava aqui, seria natural que o Rei
Ranpossa III fosse o comandante supremo, embora os nobres da Facção Nobre provavel-
mente não o aceitassem.

O rosto de Gazef se tornou severo quando o Marquês Boullope pressionou o Rei com sua
pergunta, mas o Marquês Boullope permaneceu impassível mesmo ao ver a expressão de
Gazef. Para Boullope, Gazef era meramente um plebeu que era bom com uma espada, e
permitir que um não-sangue nobre permanecesse nesta sala era quase intolerável.

“...Marquês Raeven.”

“Sim!”

“Eu vou deixar para você. Conduza o exército em segurança até as Planícies Katze. De lá,
você também estará encarregado do acampamento e do entrincheiramento.”

“Entendido.”

Raeven assentiu em aceitação do decreto real. Embora o local que Boullope queria fosse
arrancado dele, ele não poderia reclamar se fosse Raeven. Ele sabia que o homem era
talentoso e, como resultado, criticá-lo seria muito difícil. Mais importante, Raeven tinha
amplas conexões, e muitos dos homens de Boullope lhe deviam favores. Se ele tentasse
criticar Raeven com demasiada severidade, isso apenas os faria duvidar dele. Como tal,
Boullope não teve escolha senão sorrir e suportar.

“Marquês Raeven, minhas tropas estarão em suas mãos. Por favor, deixe-me saber se
você precisar de alguma coisa.”

“Muito obrigado, Marquês Boullope. Eu contarei com você quando chegar a hora.”

Gazef ficou muito feliz com a decisão do Rei, tão feliz como se fosse ele mesmo que ti-
vesse dito.

“Mais alguma coisa?”

O Rei esperou por um tempo, mas ninguém respondeu.

“...Então vamos começar os preparativos para sair. Nós partiremos amanhã. Levará dois
dias para chegar ao campo de batalha, por isso não fique relaxado nos preparativos. En-
tão vocês estão dispensados. Marquês Raeven, continue.”

“Eu entendo, Vossa Majestade.”

Os nobres saíram da sala para começar a marcha, deixando apenas o Rei e Gazef.

Ranpossa III virou lentamente a cabeça. Um som estridente atingiu o ouvido de Gazef.
Ele provavelmente estava muito tenso. Depois de se alongar, uma expressão de alívio
floresceu no rosto do Rei.

“Obrigado pelo seu árduo trabalho, Vossa Majestade.”

“Ahhh, foi um trabalho difícil, de fato. Estou cansado.”

Gazef sorriu ironicamente ao seu Rei. “Cansado” era um eufemismo de administrar as


facções Real e Nobre. No entanto, ainda havia pessoas mais fatigadas do que Ranpossa
III.

“Já estava na hora—”

Assim como Ranpossa III estava prestes a continuar, várias batidas vieram da porta.
Então a porta abriu-se lentamente e o convidado que aguardava entrou.

Ele era como um buldogue gordo e de aparência simples de um homem que, de outra
forma, não era nada notável. Seu couro cabeludo refletia a luz, seu cabelo era escasso até
o ponto da inexistência, e o pouco que restava era branco como a neve.

Seu corpo era redondo, sua barriga era gorda e seu queixo e bochechas estavam flácidos.
No entanto, apesar de sua aparência simples, a luz da inteligência brilhava em seus olhos.
Ranpossa III sorriu amavelmente para ele.

“Estou feliz que veio, Panasolei.”

“Vossa Majestade.”

Disse o prefeito de E-Rantel quando ele se curvou para seu suserano. Então, ele desviou
o olhar.

“Já faz um tempo, Stronoff-dono.”

Panasolei poderia ser um nobre, mas era extremamente cortês com Gazef, um plebeu.
Foi precisamente porque ele era um homem assim, que resultou nele sendo postado
neste lugar.

“Saudações, prefeito. Você cuidou de mim naquela época. Meus agradecimentos por or-
ganizar para curar meus subordinados. Eu estava com pressa de me reportar à capital,
então corri sem agradecer a você. Por favor aceite minhas desculpas.”

“Ah, não, não, não pense nada disso. Eu entendo como foi importante para você relatar
a emboscada, Capitão Guerreiro. Como eu poderia ser tão inflexível a ponto de guardar
rancor contra você por isso?”

Vendo que ambas as partes estavam se curvando, o Rei riu de alegria.

“Panasolei, não vai fazer aquele seu chiado com o nariz?”

“Vossa Majestade... Não há necessidade de fazê-lo em torno de pessoas que não me pa-
trocinam. Ou talvez Vossa Majestade e o Stronoff-dono sintam que sou um palhaço que
me vendo por aquela atuação?”

“Desculpe, desculpe, foi uma piada. Por favor, me perdoe, Panasolei.”

“Ah, não, seu humilde servo extrapolou seus limites. Sou eu quem deve pedir seu perdão,
Vossa Majestade. Então... devemos começar?”

“Não...”

O Rei hesitou, e depois respondeu:

“Não, ainda há mais uma pessoa que ainda está para chegar. Vamos esperar.”

“Muito bem. Então, podemos primeiro discutir a questão dos custos dos alimentos den-
tro da cidade? Depois disso, relatarei as projeções sobre a força nacional do Reino para
o próximo ano, com base nos dados coletados pelo Marquês.”
“Uhum. Quanto mais cedo resolvermos essa dor de cabeça, melhor.”

Quando Panasolei começou a falar, até mesmo Gazef, que não estava habituado a admi-
nistrar os assuntos internos do Estado, acabou fazendo careta.

Seu relatório dizia respeito ao estado alarmante das despesas atuais e futuras do país.
A coleta de alimentos em todo o Reino estava piorando ainda mais a escassez de alimen-
tos. Destaca-se o fato de que o país continuaria em declínio mesmo depois que os cida-
dãos daqui retornassem de seu recrutamento.

As previsões de Panasolei estavam no lado otimista, e elas ainda pintavam uma imagem
terrível das coisas.

Quanto ao Rei, seu rosto era uma máscara sem expressão.

“Como as coisas chegaram a este estado...”

“Se... se o Império continuar seus ataques anuais, as chances do Reino desmoronar por
dentro serão bastante altas. Manter os impostos como estão fará com que muitas pessoas
morram de fome e, se reduzirmos os impostos, não teremos fundos suficientes para fi-
nanciar nossas políticas.”

Ranpossa III colocou as mãos na testa, cobrindo o rosto.

Este foi o resultado de responder a anos de agitação com o Império. No momento em


que perceberam o objetivo do Império de reduzir a força do Reino, já era tarde demais.

“Vossa Majestade...”

“Que... perturbador. Se soubéssemos antes... se ao menos tivéssemos lidado com isso


antes que os nobres se dividissem completamente em suas facções... que tolice.”

“Certamente não, Vossa Majestade. Sinto que tentar resolver isso só faria com que o
Reino se dividisse em dois e desencadeasse uma guerra civil, e o Império se aproveitaria
de nossa fraqueza para nos invadir e conquistar.”

Gazef tinha certeza disso — o Rei, Ranpossa III, havia feito um bom trabalho.

As condições que levaram a essa situação foram o resultado da inação dos Reis anterio-
res. Era impossível para uma geração apagar os pecados acumulados de todos os seus
ancestrais.

“Eu só quero deixar um Reino decente para o próximo — para meus filhos.”

Embora o rei falasse devagar, cada palavra continha um poderoso propósito.


“Então... não é essa a chance de fazer isso? Eu tenho muitos adeptos agora devido à per-
turbação. Não deveríamos dar um golpe significativo no Império, não importando o custo,
para que possamos ganhar alguns anos de paz para o Reino?”

Gazef podia ver uma luz nos olhos do Rei. Aquela luz o fez se preocupar. Ele sabia que
deveria ter se oposto a isso, mas não conseguiu emitir nenhum som.

Se o Rei tivesse falado para promover seus próprios desejos e ambições, talvez ele pu-
desse ter sido capaz de reprimi-lo. Mas quando percebeu que o Rei falava em garantir a
segurança de seu povo e país, as palavras ficaram presas em sua garganta.

Como testemunha em primeira mão do Rei agonizando sobre seu país, o Capitão Guer-
reiro não podia falar contra ele.

“Embora isso seja certamente possível, acredito que você também esteja ciente de que
esse é um passo muito perigoso. Se você agir para reduzir o poder da nobreza, o país
pode cair no caos.”

O Rei apertou as sobrancelhas e o coração de Gazef doeu.

“Você acertou na mosca como de costume, Panasolei. Embora alguém possa morrer du-
rante a cirurgia, há também uma chance de que alguém viva mais. Se deixarmos as coisas
acontecerem, a doença se espalhará pelo corpo e nos matará lentamente. Nesse caso, não
deveríamos avançar e aproveitar o dia?”

“Meu Rei, as operações cirúrgicas não são confiáveis. Seria melhor encontrar outra so-
lução.”

“Se houvesse alguma solução mágica para os problemas do Reino, eu gostaria de confiar
minhas esperanças a isso. Infelizmente, não há nenhum. O método bárbaro de cortar o
corpo para remover a porção doente é a única cura para nossa situação atual.”

Este procedimento assustador e bruto (cirurgia), defendido por um ser que era um Mi-
notauro, aquele fôra conhecido como Sábio Atrevido, este era o único remédio para o
Reino.

Um silêncio sombrio dominou a sala, um Rei se via forçado a medidas extremas para
salvar seu país.

Então, quando os pesares tornaram a atmosfera opressiva, uma batida da porta soou
como se quisesse quebrar o desânimo no ar.

O homem que entrou sem esperar por uma resposta foi Marquês Raeven.

“Cavalheiros. Peço desculpas pelo atraso.”


Alívio se espalhou pelo quarto.

“Ah, apenas o homem que estávamos procurando. Marquês Raeven, eu coloquei um


grande fardo em seus ombros.”

Raeven pareceu confuso por um momento enquanto tentava descobrir o que exata-
mente o Rei falava, mas ele imediatamente reagiu substituindo-o por uma expressão can-
sada.

“Não, não leve isso ao coração, Vossa Majestade. Na verdade, confiar o comando ao Mar-
quês Boullope teria sido tolo ao extremo. Afinal, ele só sabe pedir cobranças e emprésti-
mos.”

Não ficou claro se Raeven fez sua dura crítica com sinceridade. Talvez ele pudesse ter
dito de propósito para aliviar a tristeza que sentira quando entrou na sala.

“Além disso, se Vossa Majestade assumisse o controle direto do exército, um passo em


falso poderia resultar na retirada da Facção Nobre na véspera da batalha. Como tal, não
há comandante mais adequado ao papel que eu. Dito isso, gostaria de uma pausa em todo
esse trabalho sem descanso. Quero anunciar antecipadamente que, depois de concluída
a guerra, gostaria de descansar em minhas próprias terras por vários meses.”

Com isso, a expressão de Raeven subitamente se tornou severa.

“Peço desculpas pela minha delicadeza, mas não podemos perder tempo aqui, então va-
mos resolver isso rapidamente.”

Embora seu rosto permanecesse tão frio quanto o de uma cobra, Gazef podia sentir emo-
ções humanas dentro dele, assim como qualidades que ele conseguia admirar.

Eu fui um tolo por não ter visto sua verdadeira natureza de antemão. Eu sou realmente
ruim em ler as pessoas?

Com pesar em seu coração, Gazef lembrou a reunião nos aposentos do Rei antes de dei-
xarem a capital. Havia cinco pessoas presentes; O Rei Ranpossa III, o próprio Gazef, a
Terceira Princesa Renner, o Segundo Príncipe Zanac e o Marquês Raeven. As coisas que
os dois últimos disseram encheram Gazef de surpresa e destruíram seus preconceitos
sobre a corte. Em particular, havia aquele homem que Gazef desprezava, o homem que o
lembrava de uma cobra ou um escorpião... Em particular, aprendendo que o homem que
Gazef desprezava como um verme era na verdade o homem que mais trabalhou pelo Rei
o chocou além da capacidade de palavras para descrever.

“Eu pareço estar constantemente causando problemas para a minha filha e para você,
Marquês Raeven.”
Ranpossa III baixou a cabeça para o sentado Raeven, havia uma expressão sincera no
rosto.

“Vossa Majestade, por favor, não faça isso. Eu já agi sozinho sem lhe consultar; Só la-
mento não ter agido antes.”

“Marquês Raeven, permita-me pedir desculpas também...”

Disse Gazef enquanto se curvava profundamente e:

“Eu fui enganado por impressões superficiais e nutri pensamentos desrespeitosos a seu
respeito sem entender suas verdadeiras intenções. Por favor, perdoe a mim e minha to-
lice.”

“Capitão Guerreiro-dono, não há necessidade de se preocupar com isso.”

“Mesmo assim, se eu não for punido por minha insensatez, isso vai ficar como um espi-
nho dentro do meu coração.”

O rosto de Raeven parecia dizer “Sério isso?” E então ele balançou a cabeça várias vezes.
Depois disso, ele ditou a punição de Gazef:

“Eu entendo... então, de agora em diante, não vou me dirigir a você como Capitão Guer-
reiro-dono, mas como Gazef-dono. Considere isso como um sinal do meu respeito.”

Foi um castigo que nem sequer contou como castigo.

Um pensamento — que ele tinha olhos, mas não podia ver — começou a crescer em seu
coração, e Gazef respondeu com sincera gratidão.

“Muito obrigado, Marquês Raeven.”

“Não pense nisso, Gazef-dono. Então, vamos começar a discutir a direção na qual o Reino
irá a partir deste dia.”

Parte 3

Gazef passou pelo portão principal e chegou aos estábulos da companhia no anel ex-
terno da cidade. Ele exalou profundamente, para aliviar a fadiga que nublava sua mente.

Ele estava exausto.

A reunião que ele acabara de assistir deixou-o ciente de que ele era um mero cidadão.
Enquanto permanecia ao lado do Rei e passava por uma sociedade nobre, ele gradual-
mente passara a entender o modo como pensavam.

Mesmo assim, ele frequentemente se deparava com respostas e atitudes que somente
aqueles nascidos e criados para a nobreza entenderiam. Gazef não conseguia entender o
porquê pensariam dessa maneira, especialmente o conceito de valorizar o orgulho da
nobreza em detrimento de benefícios concretos.

Não, ainda mais inescrutável do que isso era a idéia de priorizar o orgulho de um indi-
víduo sobre os cidadãos.

Gazef examinou lentamente seus arredores.

Os soldados, gritando enquanto corriam de um lado para o outro — eles eram o povo.
Eles eram o povo do Reino, que veio de vilarejos por todo o país para combater esta
guerra. Eles não pareciam muito confiáveis como soldados. Suas mãos foram feitas para
segurar enxadas e pás.

Protegê-los deveria ter sido o dever daqueles que governaram sobre eles.

Se eles entregassem E-Rantel, eles estariam ferindo as pessoas que viviam na cidade,
exatamente como o Rei disse.

Contudo—

Gazef recordou a imagem de Ainz Ooal Gown, usando aquela estranha máscara.

Ele havia retornado ao Vilarejo Carne logo após o anoitecer, e não havia sinal de ter
travado uma dura batalha.

Isso estava certo. Apenas duas pessoas haviam derrotado facilmente os inimigos que
tinham dizimado completamente Gazef e suas tropas.

Na verdade, ele era o Rei Feiticeiro — aquelas palavras se adequavam à sua forma ini-
gualável naquela noite.

Enfrentá-lo diretamente era tolice. Em vez disso — mas isso faria as pessoas sofrerem.

“Droga!”

Gazef xingou, incapaz de pensar em uma solução. O que ele deveria fazer? A confusão
no campo de batalha era um sinal de morte iminente. Mesmo o homem saudado como o
mais forte da região ainda poderia morrer se não conseguisse se concentrar.

Isto era especialmente verdade se o seu adversário fosse Ainz Ooal Gown.
Era verdade que ele não testemunhara a batalha que salvara o Vilarejo Carne. E ele
mesmo não disse que ganhou, apenas que os expulsou.

Mas qualquer um poderia dizer que era uma mentira descarada.

“Falando nisso... por que ele teve que mentir que eles fugiram?”

Depois que Ainz e Albedo partiram, ele foi para as planícies onde eles haviam lutado,
mas não encontrou sinais de um massacre. Ele não havia encontrado um único cadáver,
mas enterrar dezenas de corpos consumiria muito tempo. Sem corpos — sem evidência
física — a afirmação de “eles fugiram” ganhou credibilidade.

No entanto, isso estava assumindo que Ainz Ooal Gown não usara magia. Quem sabe,
pode haver magias que poderiam despachar corpos ou desintegrá-los.

Além disso, Gazef tinha um palpite.

Embora se originasse puramente do instinto de seu guerreiro, mas quando ele viu Ainz
retornar ileso para o vilarejo, ele podia sentir o leve aroma da morte se elevando dele.

Não foi tanto que eles fugiram, mas ele os deixou fugir.

Por causa disso, Gazef confiava em seus instintos sobre o que Ainz dissera. Não havia
base ou evidência para isso. Os corpos da Escritura da Luz Solar não estavam em lugar
algum, mas certamente estavam mortos.

“...Eu não entendo...”

Ele era um magic caster que poderia aniquilar os inimigos que derrotaram Gazef, e ele
poderia fazê-lo sem um arranhão.

Quão poderoso ele era? Certamente, ele estava vários níveis acima de Gazef e seu bando
guerreiro.

O que aconteceria se um ser assim aparecesse no campo de batalha e usasse sua magia?

Gazef mais uma vez olhou para as pessoas, cheio de emoção, medo, desespero e frustra-
ção.

Quando dois magic caster usam magia do mesmo nível, o magic caster mais forte natu-
ralmente seria capaz de produzir uma magia mais poderosa.

Então, que horrores resultariam se Ainz Ooal Gown fosse lançar uma 「Fireball」?

Os pais que tinham que alimentar seus filhos pequenos, os filhos que tinham que sus-
tentar seus pais doentes, os jovens prestes a se casar, todas essas pessoas tinham deixado
suas famílias para trás para vir aqui. Qual a probabilidade de eles suportarem um ataque
como esse?

Seria impossível, certo?

Eles expirariam em um golpe com apenas uma única magia daquele grande magic caster.

Se fosse uma magia de fogo, eles se tornariam cadáveres carbonizados. Se fosse uma
magia de gelo, eles se transformariam em cadáveres congelados. Se fosse uma magia de
eletricidade, eles seriam cadáveres eletrocutados. Isso era certo.

Então, e quanto a Gazef? Ele poderia aguentar?

Ele estava bastante certo de que ele poderia levar um golpe sem morrer.

No entanto, esse tipo de pensamento pode ser ingênuo demais.

“Ahhhh... por que tudo acabou assim?”

Lutar contra Ainz Ooal Gown era definitivamente um erro.

Gazef sentiu que Ainz Ooal Gown não era um homem sem coração, dada a maneira como
ele salvara o Vilarejo Carne. No entanto, ao mesmo tempo, ele sentiu que não era um bom
samaritano qualquer. A imagem que ele tinha de Ainz era a de um homem que não mos-
trava piedade daqueles que se opunham a ele.

Eles deveriam ter evitado o conflito com ele e tratado com polidez. Depois disso, ele
poderia ter sido capaz de selecionar um local diferente.

Enquanto Gazef olhava para as pessoas que o rodeavam, uma sensação pesada em seu
coração, ele avistou um jovem de armadura branca do canto de sua visão. Junto com ele
estava um espadachim que parecia flutuar levemente em seus pés. Era Climb e Brain.

Havia uma terceira pessoa por trás deles, e eles estavam ansiosamente discutindo algo.

“Quem é aquele? Eu sinto que já o vi antes... ah! Ele é um dos ex-aventureiros orichalcum
do Marquês Raeven.”

Gazef estava familiarizado com a antiga equipe de aventureiros, aqueles que as pessoas
comuns depositaram suas esperanças, já que todos eles eram de berço comum. De certa
forma, eles eram seus superiores, os que vieram antes dele.

O paladino do Deus do Fogo, cuja profissão Exterminador do Mal se destacou em lutar


contra monstros de alinhamento maligno, Boris Axelson, 41 anos.
O sacerdote do Deus do Vento, um sacerdote guerreiro que poderia se defender em com-
bate com qualquer lutador, Göran Dixgard, de 46 anos.

O guerreiro que incorporou espadas dançantes em seu estilo de quatro espadas, Fran-
zén, de 39 anos.

O magic caster é elogiado como um estudioso, que criou várias magias com seu nome,
Lundqvist, de 45 anos.

E finalmente, o ladino conhecido como “O Não-visto”, Lockmeier, de 40 anos.

Gazef recordou-os enquanto os contava em seus dedos. O único que conversava com
Climb era o ladino Lockmeier. Falando nisso, ele aparentemente trabalhou com o Climb
e o Brain durante o distúrbio demoníaco, ajudando-os a se infiltrar no território inimigo
para resgatar pessoas.

Eles não pareciam ter notado o Gazef, mas parecia errado apenas se intrometer no meio
deles.

Dito isto, ainda seria rude não os cumprimentar, no mínimo. Além disso, todos eles es-
tariam indo para o campo de batalha em breve. Embora as chances de eles entrarem em
combate fossem baixas, dado que estariam protegendo o Rei, nunca se sabia o que pode-
ria acontecer.

—Pode ser a última vez que eles viram uns aos outros.

Se possível, ele queria ter uma conversa privada com os dois. Como se o mundo esti-
vesse concedendo seu desejo, Lockmeier acenou para os dois e partiu.

Climb e Brain permaneceram, sorrindo de algo.

Os laços entre os dois haviam se fortalecido durante a perturbação demoníaca na capital.


Seja como amigos ou discípulos ou companheiros, eles construíram um relacionamento
complexo e mutuamente benéfico.

E foi por causa dessa relação que Brain era agora um camarada de Climb, um colega
soldado da Princesa Renner.

Gazef não pôde deixar de lamentar o fato de ter permitido que um guerreiro que pu-
desse competir com ele fosse arrebatado.

No entanto, ele conseguiu se acalmar enquanto observava os dois. Era assim que deveria
ter sido.

Gazef sorriu ao se aproximar do par.


Ainda assim, isso é uma armadura muito chamativa. Ainda está tudo bem na capital, mas
no campo de batalha ele será fácil de nota-lo. Devo avisar o Climb sobre isso?

Havia muitos soldados no campo de batalha, mas Climb se destacava entre eles porque
quase nenhum deles usava armadura completa. Além disso, sua armadura era de um
branco prateado muito bonito. Os arqueiros mirariam nele, e a cavalaria o usaria como
alvo. Embora as chances de Climb fossem muito boas contra um cavaleiro Imperial médio,
ainda havia guerreiros que eram mais fortes que ele. Os Quatro Cavaleiros Imperiais
eram um desses exemplos.

Se eu não estiver errado, Renner-sama deu a ele essa armadura... ela não deve estar muito
familiarizada com o campo de batalha se for ela que ordenou que ele fosse com essa arma-
dura dessa cor.

Ela pode ser boa com táticas, mas parece que ela estava fora de contato com as realida-
des do campo de batalha.

Se o Climb morrer, a princesa ficará triste...

Com corantes mágicos, eles poderiam mudar temporariamente a cor da armadura e de-
volvê-la ao normal quando retornassem à capital.

Ele se aproximou dos dois por trás enquanto pensava sobre isso. Brain virou o rosto e
sua mão alcançou o cabo de sua katana.

Como esperado de Brain. Ele pode me sentir a essa distância.

Armadura de metal fez barulho quando seu portador caminhou.

Não seria estranho que as pessoas percebessem e reagissem ao som que se aproximasse.

No entanto, havia muitas pessoas aqui, todas ocupadas se preparando para a batalha.
Seria difícil notar o som dele se movendo em meio deste clamor. Claro, era uma questão
diferente para um ladino, especialmente um com treinamento especializado.

Brain estreitou seus olhos. Então, ele olhou para Climb e sorriu, como se tivesse feito
uma pegadinha com ele.

Embora Brain parecesse passar um pensamento errado, isso não era problema.

Ele sorriu de um jeito parecido e teve o cuidado de não fazer barulho enquanto avançava
cuidadosamente sobre Climb ainda inconsciente da situação. Embora ele não tivesse sido
treinado em se mover silenciosamente e estivesse usando armadura de metal, Climb
ainda não o havia notado, e parecia estar discutindo algo com Brain.
Seu desafio era chegar ao local diretamente atrás das costas de Climb, o que ele conse-
guiu fazer.

Gazef baixou a mão em um golpe de caratê, diretamente na cabeça desprotegida de


Climb.

“Uwah!”

Climb tropeçou para trás enquanto chiava de um jeito completamente não-masculino.


Quando seus olhos reconheceram Gazef, eles se abriram.

“Este! Não é este Strono—”

“—Silêncio.”

Depois que Climb engoliu suas palavras meio formadas, Gazef continuou.

“Silêncio. Revelar minha identidade aqui será muito problemático. Apenas me chame de
Gazef.”

Embora ele fosse o Capitão Guerreiro, o homem mais forte do Reino, muitos aldeões das
áreas rurais do Reino não sabiam como ele era. Em suas mentes, o Capitão Guerreiro
tinha provavelmente dois metros de altura, portando uma espada gigantesca e armado
em um traje de ouro brilhante.

Gazef não queria diminuir as expectativas e, além disso, chamar a atenção seria irritante.

“Eu peço desculpas pela minha falta de—”

“Não, você não fez nada de errado”

Disse Gazef ao interromper o pedido de desculpas de Climb com um sorriso irônico. En-
tão, o sorriso assumiu um novo significado:

“Embora eu tenha que dizer, você precisa estar mais alerta. Afinal de contas, você não
sentiu alguém com uma armadura completa se aproximando de você. Claro, não deve
haver inimigos aqui, mas mesmo assim.”

“O que você está dizendo, Gazef? Estar relaxado não é necessariamente ruim. É mais
fácil estancar a ferida.”

“Então, Brain, como você me descobriu de tão longe?”

“Isso não é óbvio? Havia uma presença estranha no ar.”


Gazef notou que Climb estava olhando para Brain e para si mesmo com olhos cheios de
surpresa.

“Climb, como guarda pessoal da Princesa Renner, você precisa ser capaz de sentir pre-
senças como essa. Se você não notar um assassino oculto, sua preciosa carga será ferida.”

“Ah, então é isso. Eu queria saber o que você estava fazendo. Agora entendo. Climb-kun,
se eu não estiver errado, você está usando um estilo próprio, certo? Isso inclui treinar
seus sentidos?”

“Ah, não, não. Eu me concentrei em técnicas de combate. Me desculpe.”

“Eu não estou encontrando defeitos em você. Eu só queria ter certeza. Para ser honesto,
eu costumava ser assim no passado também. É fácil esquecer a prática de habilidades
sensoriais como essa quando você treina sozinho. Esse é um hábito perigoso. Afinal, na
maior parte do tempo você não terá uma luta direta contra um invasor que você conhece.”

O rosto de Gazef estava um pouco vermelho. O olhar em seu rosto quando ele olhou para
o Brain parecia dizer: “Você não tinha que dizer isso a ele aqui”.

Em primeiro lugar, treinar esse jovem guerreiro trabalhador também era um dever do
Capitão Guerreiro. Ele sentiu vergonha por não conseguir isso.

Como Climb nascera como um plebeu como ele, era importante não deixar os nobres vê-
lo vacilar enquanto estava a serviço da família real. Por exemplo, se Gazef esmagasse
Climb em uma peleja, os nobres sussurrariam que Climb não era digno de proteger a
Princesa. Enquanto isso, se Gazef tropeçasse em Climb, eles virariam fofocas maliciosas
sobre ele.

Não havia necessidade de elogiar um homem como ele por fazer uma pequena boa ação
— não quando esse homem declarara orgulhosamente que serviria ao Rei e, por isso,
abandonara um jovem guerreiro.

Não, eu não deveria sentir vergonha. Se eu tiver tempo para fazer isso, eu deveria—

“—Ah, não importa, eu vou deixar por isso mesmo. Desde que você foi gentil a ponto de
apontar as fraquezas de Climb na minha frente, eu farei o meu melhor para treinar os
pontos fracos dele.”

“Obrigado, Gazef-sama.”

“...Não, não há necessidade de se curvar para mim. Você serve a família real como eu —
isso faz de você meu subordinado. Mesmo assim, eu não o guiei e, em vez disso, passei
esse trabalho para outra pessoa. Você não precisa agradecer a alguém assim.”

Quanto mais Climb agradecia, mais culpado ele se sentia.


“Isso não é um saco? Sendo alguém com um pé na sociedade nobre. As pessoas prendem
você por coisas inúteis e você nem consegue fazer as coisas que deseja.”

“Como você é camarada do Climb, protegendo a Princesa Renner ao lado dele, isso não
faz de você uma dessas pessoas também?”

“Eu sou tão livre quanto um pássaro. Não me sinto um lacaio da Princesa-dono ou o que
seja... não. Eu sinto muito. Eu não deveria ter dito isso. Ser subordinado da Princesa é
apenas uma coisa temporária. Uma vez que estou cansado disso ou quando eu me encher
disso, eu seguirei em frente.”

Brain sorriu, sua expressão tão fria e clara quanto o céu de outono. O homem enchar-
cado que Gazef reencontrara na capital meses antes não estava à vista.

Ele estava com inveja de como Brain poderia viver de maneira tão livre.

“Pensando nisso agora, está tudo bem para você conversar ociosamente com a gente,
Gazef-sama?”

“Bem, eu estou realmente meio ocupado agora, mas eu só queria dar um tempo... Diga,
vocês dois têm algum tempo livre?”

Brain e Climb se entreolharam em resposta à pergunta de Gazef.

“Tempo livre... huh.”

“Sim, eu acho. Não tenho muito que fazer, apenas preparando meu equipamento.”

“Então, eu espero que vocês... ah, certo.”

Disse Gazef enquanto olhava para uma das torres de vigia nas muralhas da cidade antes
de completar:

“Querem ir lá?”

Ninguém se recusou e Gazef liderou o caminho.

Por ser o Capitão Guerreiro, nenhum soldado o deteve. Dessa forma, chegaram ao lugar
que Gazef tinha em mente, o lugar com a melhor vista da cidade.

As paredes mais externas de E-Rantel eram o ponto mais alto da cidade. O que era para
dizer que eles tinham a melhor paisagem e que se podia ver mais longe dali.

E como o ar aquecido pelo calor das muitas pessoas abaixo deles não chegava a esse
lugar, o vento frio e fresco do inverno refrescava seus corpos.
“Que bela vista!”

Exclamou o rapaz em sincera alegria ao olhar para o sudeste.

“Aquelas são as Planícies Katze?”

“Correto. É um lugar cheio de undeads, é envolto em neblina durante todo o ano. Vai se
tornar um campo de batalha em poucos dias.”

Depois de responder, Gazef respirou fundo e depois exalou com força. O ar fresco en-
cheu seu corpo, e ele esperava que isso expulsasse os sentimentos desconfortáveis que
ele tinha sobre Ainz Ooal Gown.

“Esta é uma vista magnífica. Valeu a pena tornar-se subordinado da Princesa para isso.
É isso que os magic casters que podem usar a magia 「Fly」 vêem o tempo todo? Não
admira que eles tenham tantos esquisitões entre eles.”

“Eu acho que ver o mundo como este realmente muda sua perspectiva, huh.”

“Até parece. Por que você não traz alguns nobres aqui e vê se funciona? Se eles não mu-
darem de tom, nós os empurramos daqui de cima. Dois pássaros com uma pedra.”

Gazef sorriu ironicamente da piada de Brain. Se as pessoas pudessem ser mudadas


dessa maneira, ele as arrastaria em correntes, se necessário.

Climb parecia que não sabia como responder, o que fez Gazef se sentir melhor.

“Haha. Vir aqui com vocês era a coisa certa a fazer. Sinto-me aliviado agora.”

“Bem, isso é bom de ouvir. Então... por que você nos chamou aqui? Tem certeza de que
ninguém está nos observando? Não me diga que você juntou três homens fortes só para
olhar a paisagem? Ou há alguém que você quer morto?”

A súbita onda de agressão de Brain perturbou Gazef.

“Bem, eu acho que não vou poder proteger a Princesa e vai ser uma pena não poder
treinar o Climb-kun por mais tempo... mas Gazef, eu te devo uma. Farei qualquer ato sujo
que você quiser com um sorriso no meu rosto.”

Brain não estava brincando. O olhar em seus olhos era sério.

“Não é nada disso, Brain. Eu não quero que você faça esse tipo de coisa.”

“...Você sabe que eu não levei exatamente uma vida limpa e imaculada, certo?”
“De fato, Brain. Sua espada foi saciada em sangue. No entanto, o mesmo aconteceu com
a minha.”

“No seu caso, foi o sangue dos inimigos do Reino? O meu é o resultado dos meus próprios
desejos, e o sangue que eu derramei não é nada parecido com o que você derramou.”

“...Você está tentando expiar seus pecados?”

“Não, nada disso. Eu fiz todos os tipos de coisas para derrotar você. Eu dediquei minha
vida a isso. Mas mesmo depois de descobrir que o objetivo com o qual venho trabalhando
não é nada especial, não sinto nenhuma culpa pelo que fiz. Mas você me fez uma boa
reviravolta e quero retribuir o favor. Isso é tudo que existe — não pense muito sobre
isso.”

“Então, meu pedido é que você não pense em fazer essas coisas. Além disso, o que você
quis dizer com essa tal gentileza que eu fiz? Foi quando nos encontramos de novo na
Capital?”

A resposta do Brain foi um sorriso amargo.

“Não se preocupe, eu só senti que você me ajudou.”

“Quanto mais você me diz para não se preocupar com isso, mais eu acabo me preocu-
pando com isso...”

Diante dessa recusa inflexível, Gazef decidiu mudar de assunto.

“Ah, falando nisso, você sabe que eu não tinha nenhum motivo especial para trazer você
aqui, certo?”

“Eh?”

Climb falou, mas Brain apenas levantou uma sobrancelha.

“...Eu estava apenas pensando que seria bom para nós três conversarmos enquanto tí-
nhamos algum tempo livre, e que este era o único lugar onde eu poderia reservar meu
tempo para conversar sem me preocupar com o que os outros pensariam de mim. Se
estivéssemos na Capital, eu conheço um lugar onde poderíamos tomar uma bebida tran-
quila também.”

“O que, então estamos apenas conversando? Eu pensei que você tinha algumas ordens
secretas para mim...”

“Não, não é bem assim. Como devo dizer isso...”


Nós poderíamos morrer a qualquer momento no campo de batalha, e esta poderia ser a
última vez que nos vemos.

No entanto, como ele poderia dizer coisas tão inauspiciosas?

“Esquece. Ah, é certo, Climb, essa armadura é um pouco diferente. Não seria melhor
pintá-la de uma cor diferente? Como é, você pode se tornar um alvo prioritário no campo
de batalha.”

“Sinto muito, Stronoff-sama, infelizmente não posso fazer isso.”

Climb recusou sem hesitação.

“Quando eu usar essa armadura distinta e alcançar a excelência no campo de batalha,


vou trazer crédito para a Princesa Renner. Além disso, muitos dos nobres sabem que eu
uso uma armadura branca. Se eu mudar de cor porque temo o perigo, eles vão zombar
de mim e também incomodará a Renner-sama. Em vez disso, preferiria enfrentar meu
destino bravamente no campo de batalha e obter aprovação para ela.”

Quando ele olhou nos olhos de Climb, Gazef engoliu as palavras que queria dizer.

“A Princesa Renner não quer que você morra.”

“Não confunda bravura e imprudência.”

“Suporte um pouco de dificuldade agora para ter um futuro melhor.”

No entanto, nada do que ele inventasse seria persuasivo o suficiente para convencer
Climb de seu curso.

Foi como Climb disse. Sua armadura era como a bandeira da princesa Renner. Suas
ações heroicas melhorariam sua posição, e o inverso também era verdade.

Climb foi salvo pela Princesa Renner, e em seu coração estava a noção de que “Minha
vida pertence à Princesa”. Gazef não tinha como abalar esse tipo de convicção.

Era o mesmo tipo de coisa que sua lealdade ao Rei e, portanto—

“Eu ficaria feliz em morrer pela Princesa Renner.”

Gazef não tinha idéia de como responder ao jovem que já se decidira.

“Ei, ei, ei. Por que você está falando que vai morrer a qualquer momento? Não se preo-
cupe, Gazef, vou ficar de olho no Climb-kun. Eu não vou deixá-lo fazer nada estúpido. Não
importa em que tipo de problema ele se envolva, eu vou tirá-lo disso.”
“Se fossem apenas os Quatro Cavaleiros Imperiais, não há dúvida de que você ganharia,
Brain. No entanto... contra aquele homem, Ainz Ooal Gown... temo que até você perca a
sua vida.”

“...Ainz Ooal Gown é realmente tão poderoso? Ah, lembro que você o mencionou antes
na sua casa.”

Depois do distúrbio demoníaco, Gazef e Brain beberam e discutiram como suas vidas
tinham passado desde o grande torneio. Foi assim que o nome de Ainz surgiu.

“Posso dizer com segurança que nenhum Cavaleiro Imperial pode vencer você. Os Qua-
tro Cavaleiros, fortes como são, não serão páreo para você. Mesmo se o mais poderoso
magic caster do Império, Fluder Paradyne, entrasse em campo, você provavelmente po-
deria escapar se a sorte estivesse com você. Mas contra Ainz Ooal Gown... Brain, me des-
culpe, mas sua vida acabaria no ato.”

“Isso é o que eu chamo de forte, huh. Quão poderoso ele é realmente?”

“...Tudo o que posso dizer, Brain, é que ele está além da sua imaginação. Você pode pegar
o que imaginar depois disso e multiplicar isso algumas vezes.”

“Bem, se ele é tão forte... eu me pergunto se ele poderia se sair bem contra o Sebas-
sama?”

“Sebas? É o velho que o Climb estava falando? Embora aquele velho cavalheiro pareça
ser surpreendentemente poderoso, ainda sinto que o Gown-dono seria mais forte que
ele.”

“Eu acho isso difícil de acreditar, pessoalmente. Eu honestamente não posso imaginar
que alguém possa ser mais forte que o Sebas-sama... mas o mais importante, por que você
se dirige a um inimigo com tanto respeito?”

“Ele é um inimigo digno. Embora, dizendo isso poderia gerar problemas para o Rei, dado
que posso ser considerado seu porta-voz.”

Brain encolheu os ombros.

“Você fez muito por nós, Capitão Guerreiro-sama. Climb-kun, você fez sua parte justa
para o Reino. Quanto a mim, estou bem com qualquer coisa. Aquela Princesa-sama é re-
almente muito gentil.”

Palavras como essas se adaptam bem à personalidade de Brain. No entanto, sua atitude
desrespeitosa em relação à família real não podia ser descartada dessa maneira.
Embora o Gazef Stronoff, que era um leal vassalo do Rei, pudesse ter entortado as so-
brancelhas para isso, o Gazef Stronoff, que era um guerreiro, apenas sorriu diante da ou-
sadia do homem.

Se alguém estivesse observando, ele teria que repreender Brain, mas agora, apenas os
três estavam aqui. Isso significava que ele só precisava usar seu eu guerreiro.

“Embora seja verdade que Renner-sama é muito despreocupada... bem, chega disso. Eu
vou entender se Climb não quiser repintar sua armadura. Então, por favor, cuidem de si
mesmos.”

“Estou muito grato pela preocupação que todos me mostraram. No entanto, a Princesa
Renner me disse antes que eu precisaria trabalhar arduamente para combinar com essa
armadura. Então, embora eu esteja muito triste por não poder satisfazer seus desejos,
não vou mudar de idéia.”

“Mesmo? Então eu acho que isso deve servir por hora.”

O vento frio passou pelos três. O céu era de um azul brilhante e não havia a sensação de
que uma guerra estava prestes a eclodir. Contra esse pano de fundo, Gazef viu Climb com
um olhar sério no rosto. Enquanto pensava em não deixar muitas pessoas morrerem, seu
coração se encheu de alegria e tristeza.

Como se quisesse eliminar esses sentimentos, Gazef decidiu mudar de assunto.

“Falando nisso, do que vocês dois estavam falando antes?”

Brain e Climb se entreolharam e então Brain falou por eles dois.

“Bem, nós tivemos algum tempo livre antes, diferente de você. Então eu pedi ao Climb
que me acompanhasse em uma missão. Havia mais uma pessoa, Lockmeier; Pedi-lhe que
nos mostrasse e nos levasse ao messias da capital, aquele aventureiro adamantite. Ouvi-
mos dizer que ele estava ficando nessa cidade, então decidimos visitá-lo.”

“Oh, Momon-dono, estou correto?”

“Certo, certo, é ele. Eu o vi passando na capital. Eu os ouvi chamando-o de o mais pode-


roso guerreiro de todos os tempos—”

Aqui a atitude do Brain mudou. Ele estava mais sério agora.

“Então eu queria discutir algumas coisas com ele.”

“Discutir?”
Gazef repetiu a palavra como um papagaio aprendendo a falar. A expressão do Brain
estava difícil de ler.

“Sobre aquela Vampira. Shalltear Bloodfallen.”

Shalltear Bloodfallen.

A Vampira suprema, que havia quebrado o espírito de Brain Unglaus, rival de Gazef.

Ela era um monstro que a humanidade não poderia derrotar, e ela apareceu na Capital.

Brain pensou que ela poderia ter algo a ver com Jaldabaoth, mas—

“...Falando nisso, você sabia que o Momon-dono usou um item mágico muito raro para
derrotar um Vampiro chamado Honyopenyoko? Aparentemente, uma parte da floresta
foi destruída por uma grande explosão, e quando Momon-dono retornou, sua armadura
estava coberta com sinais de uma grande batalha.”

Gazef ouvira isso do prefeito.

“Ah, sim, eu também ouvi falar disso. É por isso que eu queria falar com ele. Para come-
çar, na minha opinião, Shalltear Bloodfallen é um ser que nem mesmo um aventureiro
adamantite poderia vencer. E não que eu suspeite dele ou algo assim, mas eu queria per-
guntar se ele realmente derrotou esse vampiro aí. E eu também estou interessado nesse
Honyopenyoko.”

“Você quer dizer, pode haver outros Vampiros assim por aí?”

“Isso mesmo, Climb-kun. Pelo que aprendi, Momon está perseguindo dois Vampiros. Eu
queria confirmar se eles são Honyopenyoko e Shalltear.”

“E então?”

“Bem, sobre isso...”

Brain encolheu os ombros.

“Infelizmente, ele não estava por perto. Ele estava fora da cidade por causa de um pe-
dido. Não tenho idéia de quando ele vai voltar.”

“Bem, isso é uma pena. Eu também não tive sorte. Eu não tive a chance de falar com o
Momon-dono. Se eu tivesse algum tempo, gostaria de falar com ele. Não é muita coisa,
gostaria de agradecê-lo por salvar a Capital.”

“Mesmo? Então... depois que a guerra acabar, por que não vamos juntos? Se tivermos
sorte, poderemos encontrá-lo. Climb-kun, quer vir com a gente?”
“Eu ficaria feliz em ir com você.”

“Bem! Terei algo para esperar depois disso acabar. Ele é um guerreiro adamantite. Eu
aprenderei muito, aposto isso.”

“De fato. Nós definitivamente vamos aprender algo útil. Com que tipo de inimigos ele
lutou... Estou ansioso para ouvir sobre suas façanhas.”

“Bem, isto é uma surpresa. Gazef, você gosta desse tipo de coisa?”

“Ah sim. Afinal, sou um guerreiro; é natural que eu esteja interessado... Então é melhor
você voltar em segurança, tudo bem?”

Gazef voltou os olhos para a Planície Katze.

“Há uma taberna na capital com excelente comida. Uma vez que esta guerra acabar, nós
vamos lá para comemorar. Eu pago tudo. As economias são destinadas a coisas desse
tipo.”

“Espero que estejamos lá para celebrar a vitória.”

Brain caminhou até o lado de Gazef e olhou na mesma direção que ele.

“Então, er, erm... eu poderia ir também?”

”Climb-kun, você bebe?”

Embora as leis do Reino não estabelecessem tecnicamente uma idade legal para beber,
ninguém venderia álcool para um menino na adolescência.

“Não, nunca bebi antes, então não tenho certeza.”

“Jura? Então você deve beber um pouco e ver como é. Pode chegar um momento em que
você precisa beber com os outros, como agora.”

“De fato. Pode ser bom ficar bêbado e ver se você consegue lidar com isso.”

“Compreendo. Então, espero que você me deixe acompanhá-lo.”

“Boa! Então, os três de nós devem retornar com segurança. Não jogue sua vida fora por
nada!”

Depois que Gazef terminou, Brain e Climb acenaram para ele.


Parte 4

Uma extensão carmesim se espalhava diante dos olhos. Era uma terra árida, desprovida
de quase toda vegetação. Aqueles que incorporaram um lado poético chamaram esta
terra de morte de um campo de sangue.

As Planícies Katze — um lugar onde os undeads e outros monstros vagavam, temido


como um lugar perigoso para os vivos.

A coisa mais assustadora era a névoa fina que envolvia os monstros, independente-
mente da hora do dia. Esse nevoeiro produzia reações fracas de undeads.

Por si só, a névoa não faz nada para criaturas vivas. Não drenava energia vital nem infli-
gia danos. No entanto, como a névoa era registrada como uma criatura undead pelas ma-
gias, ela negava tentativas de detectar seres undeads e, como resultado, muitos aventu-
reiros foram emboscados por undeads enquanto estavam dentro dela.

No entanto, essa névoa estava ausente agora. A visibilidade era excelente e podia-se ver
um longo caminho. Era como se a terra estivesse acolhendo os combatentes da próxima
guerra sobre si mesma como futuros undeads.

Os undeads se dispersaram com o nevoeiro, e nenhum deles pôde ser visto. Um trecho
silencioso e sem vida se espalhava diante deles.

Torres desmoronadas, construídas há centenas de anos, projetavam-se da terra como


lápides espalhadas. Claro, nenhuma delas estava intacta.

As torres tinham originalmente seis andares de altura, mas tudo acima do terceiro andar
desmoronara e os destroços estavam por toda parte. Menos da metade das paredes gros-
sas foram deixadas. A causa não foi tanto a deterioração pelo tempo e o vento quanto as
batalhas entre monstros.

Cenas como estas existiam ao lado de planícies cobertas de grama, nitidamente demar-
cadas por uma linha invisível. Foi por isso que as Planícies Katze foram chamadas de
terra amaldiçoada.

♦♦♦

O sol brilhava na terra que não via sua luz há quase um ano. Como se quisesse desprezar
essa terra improdutiva, uma vasta estrutura se erguia sobre ela do outro lado do hori-
zonte — o mundo dos vivos.
Foi construído com troncos enormes que não estavam em nenhum lugar nas planícies
ao redor, com paredes resistentes que pareciam negar passagem a tudo em sua vizi-
nhança. Era cercada por uma vala rasa que foi, no entanto, cuidadosamente escavada e
cheia de estacas afiadas. Isso era para evitar undeads mais burros.

Do outro lado da vala inúmeras bandeiras ondulavam ao vento. Destas, as mais nume-
rosas eram as bandeiras do Império — portando a insígnia do Império Baharuth.

Isso era apenas esperado. Afinal de contas, este edifício, este castrum, era a base da
guarnição do Exército Imperial, situado nas Planícies Katze.

O Império havia mobilizado 60.000 cavaleiros para essa operação. A guarnição poderia
abrigar todos eles, o que em si dizia muito sobre o tamanho da base. E esse formidável
castrum, tão poderoso quanto uma fortaleza, foi construído sobre um terreno facilmente
defendido.

Foi construído no topo de uma colina. Esta colina não era nativa das Planícies Katze, mas
construída inteiramente através de paisagismo mágico.

Mesmo o Império Baharuth, que adotou uma estratégia nacional de aumentar o número
de seus magic caster, não pôde concluir o trabalho em pouco tempo. Esta estrutura foi
construída ao longo de vários anos.

Originalmente, este local pretendia ser o ponto de partida de invasões visando E-Rantel.
Quer dizer, este castrum maciço tinha sido construído com a intenção de resistir a um
cerco prolongado pelas centenas de milhares de tropas do Reino.

O Reino não tinha resposta à altura para a criação deste castrum, simplesmente porque
eles não tinham mão-de-obra ou recursos para atacar a guarnição.

Embora eles se unissem quando o Império invadisse seu próprio país, quando se tratava
de lançar uma invasão, eles tinham que discutir as coisas com outros membros de sua
facção. Além disso, decidir quem pagaria a conta por declarar guerra apesar de nenhuma
de suas terras estar em jogo também era um problema.

No final, nenhum dos nobres se importaria, a menos que estivessem na linha de fogo.

Três Hippogriffs voavam nos céus acima daquele castrum maciço. Eles começaram com
uma ampla órbita aérea, seguida de uma lenta descida. Qualquer cavaleiro saberia que
esta era a descida cerimonial da Guarda Real Aérea — tropas sob o comando direto do
Imperador — o que significava que um emissário do Império estava para pousar.

Na superfície, havia cerca de 10 cavaleiros montados em uma formação circular, cada


um elevando a bandeira imperial. Esta foi uma saudação de retorno do solo — a cerimô-
nia para receber um emissário Imperial. Os Hippogriffs pousaram no centro do círculo, e
a precisão do pouso foi um teste das habilidades dos pilotos, mas os três passaram como
cores voadoras, o que mostrou a excelência de sua habilidade.

Após o desembarque, os emissários Imperiais montados nos Hippogriffs se revelaram.


Embora esses cavaleiros recebessem a honra de cumprir os deveres cerimoniais, ficaram
tão surpresos que as bandeiras que seguravam vacilavam.

A razão para o breve pânico foi o homem vestido de uma maneira completamente dife-
rente das outras duas pessoas que o acompanhavam.

Uma vez que ele tirou o elmo e revelou seus traços bonitos, todos imediatamente sabiam
quem ele era.

O vento levemente jogou seus cabelos loiros e seus olhos estavam tão azuis quanto o
mar. Sua boca, que sugeria uma vontade de ferro, estava bem fechada. Ele era a imagem
do cavaleiro perfeito.

Não havia cavaleiro que não soubesse quem era esse homem.

Mais importante, não havia ninguém que não soubesse sobre a armadura completa que
usava. Era feito do metal raro adamantite ainda mais encantado com magia poderosa.
Havia apenas algumas armaduras como esta no Império.

O portador dessa armadura era um dos cavaleiros mais graduados do Império.

Ele, um dos Quatro Cavaleiros do Império, “Vendaval Feroz”, Nimble Ark Dale Anock.

Em uma voz estridente que combinava com a imagem que ele projetava, Nimble se diri-
giu a um dos cavaleiros.

“Eu procuro seu comandante supremo, General Carvain da Segunda Legião. Você sabe
onde ele está?”

“Senhor! O General Carvain está em uma reunião agora para planejar a ofensiva contra
o Reino dentro de alguns dias! Escoltarei o senhor ao praetorium do General, Anock-
sama!”

“Entendo. Então... o Rei Feiticeiro Gown-dono chegou aqui também?”

“Senhor! Não senhor! O Rei Feiticeiro-dono não foi avistado aqui.”

“Entendido.”

Nimble suspirou de alívio pelo fato de o general ter sido informado com antecedência e
de que chegara antes dele.
“Então, posso pedir-lhe para liderar o caminho? Eu também tenho outro favor para pe-
dir de você.”

Nimble lentamente fechou as mãos em torno de algo escondido no bolso do peito.

♦♦♦

Os cavaleiros trouxeram Nimble para uma luxuosa tenda, onde esperou por quase uma
hora, até que o dono da tenda retornou na companhia de numerosos guardas.

Ele era um velho cujo cabelo era branco puro, e ele tinha um ar digno sobre ele.

Embora ele fosse blindado como todos os outros cavaleiros, ele emitia uma impressão
completamente diferente deles. Pode-se dizer que ele parecia um nobre, em vez de um
soldado.

“Bem-vindo, Nimble.”

O largo sorriso em seu rosto o fazia parecer ainda mais nobre que um cavaleiro. Sua voz
estava calma, muito fora de lugar em um lugar sombrio como o campo de batalha.

Nimble respondeu assentindo de maneira cerimonial.

Natel Inyem Dale Carvain.

Ele era um nobre que fora ofuscado por outros, mas o imperador anterior o reconhecera
por seus talentos e o colocara no comando da Segunda Legião. Embora ele não possuísse
valor marcial como pessoa, ele era famoso por sua habilidade de comandar, com rumores
dizendo que ele nunca havia perdido uma batalha. Com ele no comando, a Segunda Le-
gião desfrutava de uma moral muito alta.

De fato, os cavaleiros que acompanham Carvain foram incapazes de esconder seu res-
peito por ele em cada movimento que fizeram.

“Eu não sei como começar a agradecer ao General-kakka, que veio até aqui para me ver,
apesar de ser o comandante supremo desta expedição.”

O Exército Imperial foi dividido em oito legiões, e o oficial comandante de cada legião
recebeu o título de “general”. O general da Primeira Legião era conhecido como Marechal
de Campo, e ele era o comandante-chefe de todo o Exército Imperial.

Se a Primeira Legião — se o Marechal de Campo não estivesse presente, o general da


próxima legião assumiria sua posição como comandante geral. Isso quer dizer que o ge-
neral Carvain da Segunda Legião estava no comando de todo o Exército Imperial.
“Não, não, Nimble. Dispense com as formalidades. Você está aqui nas ordens de Sua Ma-
jestade Imperial, correto? Você não está sob o meu comando. Você só precisa falar co-
migo como um igual.”

Mesmo quando ele disse isso, Nimble sorriu amargamente.

O Exército Imperial primeiro era leal ao Imperador e depois aos generais.

Os Quatro Cavaleiros Imperiais, seus combatentes mais fortes, muitas vezes seriam en-
carregados de realizar a vontade do Imperador. Em termos de autoridade, eles seriam
considerados iguais a um general. No entanto, em termos de idade, experiência e prestí-
gio, nenhum deles era igual a Carvain. Era muito difícil para ele tratar Carvain como ape-
nas um igual a menos que um forasteiro estivesse presente.

Carvain sorriu, como se apreciasse a inquietação no rosto de Nimble.

“Isso me incomoda que um dos Quatro Cavaleiros, os guerreiros mais poderosos do Im-
pério, seja tão rígido e formal em torno de um homem velho como eu. Que tal simples-
mente dispensar os honoríficos?”

“Entendido, General Carvain.”

O general Carvain assentiu, como se quisesse indicar sua aprovação.

“Parece que você escolheu um bom momento para vir. A névoa se dispersou, como se
desse boas-vindas a você.”

“General Carvain, acho que as boas-vindas não são para mim, mas para a tragédia que
está prestes a se desenrolar. Eu estremeço ao imaginar o que vai acontecer.”

“Uma tragédia, hm... Bem, então, Nimble. Você pode me dizer o motivo dessa guerra?
Até agora, nosso objetivo estratégico tem sido esgotar o Reino, mas desta vez, é diferente.
Nosso objetivo atual é tomar E-Rantel por meios diplomáticos, e para isso precisaremos
derrotar o Reino em batalha.”

Os olhos de Carvain endureceram quando ele disse isso.

“...Enfrentamos o maior exército que o Reino já reuniu em sua história. Embora nossos
cavaleiros sejam mais do que páreo para qualquer um dos recrutas que o Reino possa
cultivar, a quantidade é uma qualidade própria. Uma batalha de campo aberto resultará
em muitas baixas. E tudo isso é para o propósito de tomar E-Rantel, o qual nós imediata-
mente entregaremos a esse companheiro Rei Feiticeiro. No que Sua Majestade Imperial
pensando?”

“Antes de responder a esta pergunta, espero que você mande embora todos os presen-
tes.”
O velho general abriu a boca como se fosse falar, depois assentiu com a cabeça.

“Todos vocês são dispensados.”

Os conselheiros de Carvain se curvaram enquanto recuavam.

“Muito obrigado.”

“Perder tempo seria tolice. Agora, você pode me dizer por quê?”

“Sim. Eu fui originalmente enviado para informar o Marechal de Campo do objetivo


dessa guerra.”

Nimble se mexeu em sua cadeira.

“O objetivo desta guerra é construir boas relações com o Rei Feiticeiro, Ainz Ooal Gown.
Como tal, devemos obter E-Rantel a qualquer custo, mesmos nossas vidas, e depois re-
nunciar a ela sem nenhum custo para Ainz Ooal Gown, a fim de fortalecer os laços com
ambos os lados.”

“Se os cavaleiros que mantêm a ordem no Império estiverem esgotados, o Império es-
tará em perigo. O Rei Feiticeiro realmente vale tudo isso?”

“Sim.”

Carvain cruzou os braços e fechou os olhos. Isso foi apenas por um breve período.

“Compreendo. Se este é o desejo de Sua Majestade Imperial, então eu vou cumpri-lo.”

“Você tem a minha maior gratidão.”

“Não há necessidade de gratidão... embora tenhamos que nos esforçar para encontrar a
aprovação do Rei Feiticeiro.”

“Sobre isso, eu tenho um pedido...”

Disse Nimble.

Este foi o seu principal objetivo para vir aqui.

“Pedimos ao Rei Feiticeiro para lançar uma magia para começar o ataque. Eu pediria
que você atrasasse a investida dos cavaleiros antes que a magia seja lançada.”

“E o que isso significa? Não devemos comprar a simpatia do Rei Feiticeiro com o nosso
sangue?”
“De fato, essa é a idéia. No entanto, também pretendemos investigar o poder do Rei Fei-
ticeiro. Como tal, pretendemos que o Rei Feiticeiro use a magia mais poderosa de que ele
é capaz. Sua Majestade Imperial pediu isso para ver que tipo de magia poderia ser.”

“...Então, o Rei Feiticeiro... ele é um inimigo?”

“Você parece entender. O Rei Feiticeiro “Ainz Ooal Gown” é um inimigo do Império.”

“Entendo. Então eu farei com que os cavaleiros façam a investida na brecha criada pela
magia do Rei Feiticeiro para ampliá-la. Mas que tipo de magia será? Não será uma 「Fire-
ball」, correto?”

“Nós não sabemos, então devemos descobrir do que ele é capaz. No entanto, provavel-
mente podemos supor que é mais poderoso que a magia de ataque de Paradyne-sama.”

Os olhos de Carvain se arregalaram, mas isso foi apenas por um momento.

“Entendo, entendo. Embora eu ache difícil acreditar que alguém possa ser mais pode-
roso do que aquele poderoso lançador de magia, eu posso ver porque Sua Majestade Im-
perial gostaria de construir boas relações com ele se ele realmente possui esse tipo de
poder.”

Nimble permaneceu em silêncio.

“Matar centenas em um único golpe teria que ser algo muito poderoso. Seria uma boa
chance para uma investida penetrante. Com esse tipo de poder ao nosso lado, teríamos
menos perdas.”

Se ao menos fosse apenas isso...

Pensou Nimble.

Depois de falar com seus companheiros dos Quatro Cavaleiros, “ Explosão Pesada” e
“Relâmpago”, ele percebeu que o poder de Ainz superava a imaginação mortal. Ele pode-
ria usar uma magia que matasse milhares, talvez dezenas de milhares, se estivessem
amontoados. Claro, ele tinha suas dúvidas, mas havia uma grande chance de que fosse
verdade, já que ambos chegaram a essa conclusão.

Assim como Carvain disse, as mortes dos cavaleiros que policiavam o Império seriam
uma enorme perda.

Embora fosse uma ocasião alegre se Ainz, seu inimigo latente, se mostrasse desdentado,
só dessa vez, ele queria acreditar no que seus camaradas tinham dito.
“Ah, general. Há outra coisa que quero te perguntar. O Rei Feiticeiro estará trazendo
suas tropas para a frente. Espero que você permita que eles o acompanhem ao campo de
batalha.”

“Hoh. E quantos milhares de homens ele tem?”

“Sobre isso—”

“Perdoe-me por interromper sua conversa, Carvain-kakka, Nimble-kakka!”

Um grande grito veio do cavaleiro do lado de fora da tenda.

Carvain olhou apologeticamente para Nimble, antes de falar com o homem do lado de
fora.

“Você pode entrar.”

O homem que entrou era um cavaleiro muito bem classificado.

“O que está acontecendo? É uma emergência?”

“Senhor! Uma carruagem que arvora a bandeira do Rei Feiticeiro chegou ao portão prin-
cipal. Eles pedem entrada. Temos permissão para deixá-los entrar?”

Os olhos do cavaleiro se voltaram para Nimble. Carvain também olhou para ele. Por sua
vez, Nimble assentiu.

“...Entendido, deixe-os passar.”

“Senhor! Então... precisamos inspecionar a carruagem?”

Ninguém podia entrar no castrum sem antes ser liberado pelas sentinelas. O procedi-
mento normal era usar magia para checar o pessoal em questão, para garantir que eles
não fossem intrusos disfarçados por ilusões.

Se este fosse o Reino, eles não teriam usado magia para inspeções. A razão pela qual foi
usada aqui foi porque a magia e a tecnologia mágica eram a pedra angular do poder do
Império. Eles estavam cientes do poder aterrorizante da magia e, portanto, estavam vi-
gilantes contra seu uso.

Isso era especialmente verdadeiro para uma enorme base militar como essa, que em-
pregava a mais recente tecnologia mágica. Tais tecnologias foram o pilar que reforçou
seu futuro e, se vazassem, poderiam causar grandes danos ao Império. Se o Imperador
Jircniv aparecesse pessoalmente, ele ainda seria examinado de perto pelos guardas.
Como resultado, mesmo se os visitantes fossem de um país aliado — não, precisamente
porque eles eram de um país aliado, eles estariam sujeitos a inspeção.

No entanto, houve situações em que tais coisas não seriam permitidas.

Carvain olhou para Nimble novamente.

Pesado pela atmosfera opressiva e o poder do item no bolso do peito, Nimble só podia
sorrir amargamente em resposta.

“General Carvain, ofereço minhas mais sinceras desculpas. Eles são convidados extre-
mamente importantes para o Império. Esta é uma acomodação especial e uma exceção
entre as exceções. Por favor, permita que eles entrem imediatamente.”

O rosto de Carvain, que tinha um sorriso caloroso até recentemente, congelou em uma
máscara sem emoção.

Isso porque ele sabia que Nimble havia dado uma ordem ao cavaleiro sobre seu co-
mando.

Por mais gentil que um homem fosse, ele não ficaria feliz se seu próprio povo recebesse
ordens de outra pessoa.

Nimble entendeu o motivo do agravamento de Carvain, mas essa era uma ordem que
ele tinha que dar.

De outra forma—

Enquanto Nimble hesitava em revelar o item que estava escondendo no bolso do paletó,
o general Carvain falou.

“Se é o comando do Imperador, então devemos obedecer. Afinal, o Império e todos den-
tro dele estão sob o comando de Sua Majestade Imperial.”

“Estou muito feliz que entenda, General.”

O objeto que Nimble carregava era um decreto Imperial. Foi escrito em pergaminho, e
disse que o portador foi autorizado a agir com a plena autoridade do Imperador. Sua
missão se estendia a todos os envolvidos nessa guerra. Nessa guerra, Nimble superaria
Carvain e poderia até mesmo libertá-lo do comando, se necessário.

Por um momento, Nimble ficou aliviado porque não precisaria arruinar a relação entre
um oficial mais velho que ele respeitava. Então ele ficou tenso de novo, porque agora não
era a hora de relaxar.
“Então, vamos nos encontrar com esse Rei Feiticeiro? Afinal, ele recebe muitos favores
de Sua Majestade Imperial, então certamente ele deve ser um homem que possa rivalizar
com esse grande herói.”

Pessoalmente, Nimble não queria ir.

Depois de falar com os outros Quatro Cavaleiros — não, havia apenas três agora, inclu-
indo ele mesmo — e lembrando-se do que haviam dito a ele, a expressão de Nimble se
tornou amarga. No entanto, ele não teve escolha senão seguir o general.

“Claro, o general Carvain. Permita-me acompanhá-lo.”

♦♦♦

Uma carruagem magnífica avançava do lado de fora do castrum, seguindo atrás de ba-
tedores montados. O que fez os espectadores suspirarem foi o fato de que a carruagem
não tinha motorista e que o cavalo que o puxava era maior do que um cavalo comum. Não
era um Sleipnir, mas um animal mágico que parecia um cavalo escamoso.

Nimble se dirigiu aos cavaleiros ao redor e Carvain.

“Por favor, apresente armas para o nosso convidado.”

O quê?

Nimble podia imaginar que era o que todos os soldados e Carvain estavam pensando,
dadas as expressões em seus rostos.

O protocolo ditava que se deveria apresentar armas aos chefes de estado das potências
aliadas.

No entanto, esse protocolo não existia em instalações militares. Isso porque os dignitá-
rios estrangeiros normalmente não chegariam a uma base militar.

Mesmo dentro das nações humanas, haveria intrigas e disputas internas. Ninguém teria
essa abertura de espírito.

Apresentar armas a alguém de fora era algo que deveria ser feito em um lugar seguro e
aberto, e não em uma instalação militar. Era isso que os soldados presentes deviam estar
pensando.

Além disso, havia mais uma coisa.

Quase nunca se apresentariam armas no campo de batalha.


Isso ocorre porque os soldados podem pensar que a pessoa a quem seu comandante
estava apresentando suas armas era superior mesmo a ele. Essa foi uma das regras táci-
tas do campo de batalha.

Como um dos Quatro Cavaleiros, Nimble entendia perfeitamente seus sentimentos. Con-
tudo—

“Senhores, por favor, apresentem suas armas.”

Nimble repetiu-se com uma voz sustentada por aço.

Depois disso, ele ouviu Carvain suspirar.

“Vocês o ouviram, não? Apresentem as armas enquanto o Rei Feiticeiro se aproxima.”

As ordens de Carvain acalmaram os soldados inquietos. Se fosse uma ordem, então tudo
o que eles tinham que fazer era seguir. Não havia necessidade de pensar.

Nimble lançou um olhar agradecido a Carvain, mas ao fazê-lo notou um olhar zombe-
teiro no rosto de Carvain. Parecia dizer que “Pode ser difícil para você, mas é ainda mais
difícil para mim”.

A carruagem parou diante deles.

Nimble e os outros ofegaram por mais de um motivo.

Primeiro, foi porque a carruagem em si era incrivelmente bela. Sua cor básica era um
preto que parecia ter sido cortado do próprio céu noturno, e todo o chassi estava coberto
de elaborada ornamentação. Essas decorações tinham o brilho suave do bronze, en-
quanto o couro era de cor de cobre, dando ao todo um ar de sutileza e elegância. Embora
os enfeites pudessem ser um pouco exagerados, não alcançaram o ponto de discrepância.
Em vez disso, não se parecia em nada com uma caixa gigante de tesouro.

Nimble havia viajado na carruagem pessoal do Imperador de vez em quando, e ele tinha
a firme convicção de que esta diante dele era superior.

A outra razão pela qual ele engasgou foi por causa da fera puxando a carruagem. Defini-
tivamente não era um cavalo. A criatura gorgolejou suavemente, um som líquido de *gu-
rururu* e seus dentes afiados podiam ser vistos na abertura de sua boca. Seu corpo in-
teiro estava coberto de escamas que pareciam pertencer a um réptil, e por baixo daquelas
escamas havia proeminentes faixas ondulantes de músculos.

Era como um avatar de brutalidade e violência em forma de cavalo.


Todos ao redor estavam cheios de uma aguda sensação de alarme. O próprio Nimble
estava começando a hiperventilar e o suor irrompeu nas costas e nas palmas das mãos.
A fera era muito aterrorizante.

Em meio à tempestade de respirações em pânico, a porta da carruagem se abriu.

Uma garota Elfa Negra desceu.

O pensamento de todos parou.

Ninguém podia falar. Seus olhos estavam atraídos irresistivelmente para ela.

A garota que segurava o cajado preto e torcido era adorável. Quando ela crescesse, ela
certamente quebraria muitos corações. Sua beleza seria tal que os homens fariam qual-
quer coisa por ela. Até mesmo sua expressão, que era recatada como uma flor desabro-
chando sob o luar.

No entanto, as coisas em suas mãos eram totalmente incongruentes com a imagem que
ela projetava.

Eram manoplas.

A manopla esquerda era uma coisa de aparência maligna que se assemelhava à mão de
alguma forma de vida demoníaca. Parecia ser feito de algum tipo de ominoso metal preto
coberto de espinhos retorcidos. As extremidades dos dedos estavam afiadas em pontas,
e o brilho sujo ao redor parecia vagamente metálico, mas lembrava algum tipo de secre-
ção estranha. Apenas um único olhar encheu todos que o viam com um sentimento desa-
gradável, como se suas próprias almas estivessem rejeitando-no.

Em contraste, a luva direita parecia a mão pura e imaculada de uma donzela. Era de cor
branca e suas proporções esbeltas estavam cobertas de elaborados bordados de ouro,
que enfatizavam ainda mais sua beleza extraordinária. Eles pareciam abelhas anestesi-
ada pelo pólen das flores, ao ver essa beleza Classe Mundial, os espectadores achavam
que poderiam perder suas almas para ela.

“A-Ah, Ainz-sama. Acho que chegamos.”

“Parece que sim. Obrigado, Mare.”

Com isso, outra figura se revelou.

Nesse momento, o ar de repente ficou estagnado.

Os corpos de todos os homens presentes foram repentinamente cobertos de arrepios.


Isso não estava matando a intenção, mas um sentimento que era mais difícil de descrever.
Ainz Ooal Gown estava vestido com os trapilhos que se associaria com um magic caster
arcano. Para começar, ele usava um manto negro e, além disso, outro manto negro, algo
duplamente curioso. Além disso, ele tinha um cajado que era ricamente decorado, mas
não a ponto de ser excessivamente ostensivo. Em volta do pescoço havia um colar de
prata com pedras preciosas. E no rosto dele havia uma máscara estranha.

“Nós damos a você e sua comitiva boas-vindas, Vossa Majestade, Rei Feiticeiro Ainz Ooal
Gown.”

Nimble abaixou a cabeça. No entanto, ele não ouviu mais ninguém seguindo o exemplo.

Apesar de saber que era muito rude, ele teve que se virar para olhar. O general e os
cavaleiros atrás dele estavam congelados no lugar.

Eles tinham sido dominados pela presença do Rei Feiticeiro e não podiam se mover.

Ele podia entender isso. No entanto, se isso acontecesse, poderia gerar problemas di-
plomáticos.

No final, foi o general quem entregou a solução para a situação de Nimble.

“Legião!”

O rugido pertencia a Carvain. Era uma ordem nítida e estimulante que não parecia se
adequar a um nobre como ele, mas que se encaixava perfeitamente em sua posição de
general.

“Uma saudação! Para Sua Majestade, o Rei Feiticeiro!”

“Senhor!”

Os cavaleiros deram a sua resposta em coro e, como um deles, apresentaram as armas


a Ainz.

“Eu agradeço a você por suas boas-vindas, seus cavaleiros são o orgulho do Império.”

Foi uma resposta completamente mundana, o que tornou muito mais assustador. Pare-
cia estranhamente fora de lugar, como algo monstruoso estava tentando o seu melhor
para agir como um ser humano. Tendo ouvido falar o rosto por baixo da máscara, Nimble
experimentou essa sensação ainda mais intensamente do que os outros.

“Por favor, levantem suas cabeças.”

A primeira vez que ele disse isso, ninguém respondeu.

“Vocês não podem levantar a cabeça?”


Depois da segunda vez, eles concordaram. Afinal, esperar até a terceira vez era uma
honra concedida apenas ao próprio governante.

“Vossa Majestade, por favor, perdoe aqueles que não levantaram a cabeça imediata-
mente.”

Um rápido olhar através dos cavaleiros revelou que seus lábios eram brancos e seus
rostos estavam pálidos.

“Eles estavam tão animados em ver Vossa Majestade que eles se esqueceram.”

“Não, eu deveria ser o único a se desculpar. Eu estava animado porque estaríamos indo
para o campo de batalha. Espero que você entenda que não vejo nenhum de vocês como
culpados.”

Ainz desconjurou uma capa preta em seus ombros. O tecido preto agitou as asas de um
corvo quando se abriu. Naquele momento, o ar frio e opressivo que o rodeava desapare-
ceu como nunca.

Tudo o que restou foi um ser humano comum, com a presença de um ser humano co-
mum.

Foi assustador.

Essa foi a emoção que Nimble sentiu mais intensamente agora.

Ele tinha ouvido falar da natureza monstruosa de Ainz de seus companheiros. Mesmo
assim, o homem à sua frente parecia muito comum, o que só aprofundou seu medo. Ele
sentiu como se um grande predador estivesse lentamente se aproximando dele.

Os cavaleiros, que não sabiam de nada, estavam provavelmente começando a sentir a


estranheza da situação. O ar encheu-se de uma crescente inquietação. Carvain pareceu
entender. Ele não usou sua mente, mas seu coração e alma. Através deles, ele sabia que
tipo de atitude ele deveria manter em relação à pessoa à sua frente.

“Por favor, permita-me, Nimble Ark Dale Anock, levá-lo aos seus aposentos.”

“Certo. Então, eu estou aos seus cuidados. Permita-me desculpar-me por qualquer in-
conveniente que eu esteja causando a você.”

“Entendido. Então, este é o Comandante-Chefe desta expedição, General Carvain.”

“Eu sou Carvain, Vossa Majestade, Rei Feiticeiro Ainz Ooal Gown. Se algo o estiver inco-
modado nesta guarnição, por favor, informe-me e iremos corrigi-lo imediatamente. Por
favor, escolha seus cavaleiros para serem seus seguidores...”
“Não há necessidade disso. Eu tenho um subordinado aqui.”

Ele gesticulou para a Elfa Negra.

“Eu mesmo providencio em caso de qualquer insuficiência.”

Carvain congelou.

A verdadeira intenção por trás da oferta de Carvain era atribuir observadores a Ainz, a
fim de impedi-lo de fazer algo estranho na base.

No entanto, a resposta fora uma negação seca, uma resposta que só os poderosos po-
diam dar.

No entanto, dadas as circunstâncias de Carvain, ele não podia permitir que esse tipo de
coisa acontecesse. Nesse ritmo, eles nunca chegariam a um consenso.

Embora Nimble obviamente entendesse os sentimentos de Carvain, ele não podia deixar
este assunto ficar assim.

“É isso mesmo... então, Rei Feiticeiro-kakka, por favor sinta-se livre para nos informar
se precisar de alguma coisa. General Carvain, espero que me permita lidar com as coisas
daqui.”

“—Entendido.”

“Ah... há algo que esqueci de mencionar.”

“O que seria, Rei Feiticeiro-kakka?”

“Acredito que devo abrir essa batalha com uma magia. Quando o momento chegar, gos-
taria que minhas tropas participassem da batalha também. Espero que você permita isso.”

“Nós poderíamos pedir nada mais.”

Como já havia sido discutido, Carvain prontamente concordou.

No entanto, ele franziu a testa em perplexidade.

“...No entanto, a batalha começará em alguns dias, talvez mesmo amanhã. De onde as
suas forças chegarão, Vossa Majestade? Não podemos esperar muito tempo...”

“Isso não será um problema. Eles já estão por perto.”


A resposta levantou dúvidas no coração de Nimble. Olhando para o céu, não parecia ha-
ver nenhuma tropa no ar se aproximando.

Carvain deve ter tido as mesmas suspeitas que ele. Naturalmente, a guarnição estava
cercada por uma extensa rede de segurança. A abordagem de qualquer pessoa, além das
tropas Imperiais, seria imediatamente informada ao pessoal bem mais classificado no
exército. Será que o relatório foi perdido?

Nimble olhou em volta, mas não parecia que alguém presente soubesse disso.

“Me desculpe. Não, dizer que eles estão por perto não seria preciso. Bem, eu só queria
dizer que eles podem chegar imediatamente.”

“Entendo...”

Carvain não parecia capaz de aceitar isso, mas continuou perguntando:

“Quantas tropas virão?”

“Cerca de quinhentos.”

”Quinhentos”

Embora Carvain tenha ocultado sua reação com maestria, Nimble não conseguiu escon-
der sua própria decepção.

Para demonstrar sua lealdade a Ainz, o Império deveria derramar oceanos do sangue de
seus povos. Como tal, a unidade de Ainz provavelmente não seria usada, então colocá-los
na formação do Exército Imperial seria ótimo.

“General, haverá um problema em integrar a unidade do Rei Feiticeiro-kakka com a


nossa formação?”

“Se são apenas quinhentos, então nem precisamos reorganizar nossa formação. Quanto
à guarda de honra do Rei Feiticeiro, talvez devêssemos deixar esse dever para seu subor-
dinado.”

Ele estava insinuando: “Não fique tão ansioso para entrar na briga.” O Exército Imperial
teria que ir primeiro e sofrer perdas para provar sua lealdade a Ainz, então deixar a uni-
dade de Ainz fazer muito seria problemático.

Ainz parecia satisfeito assentiu em aceitação da sugestão de Nimble. Um grande peso


ergueu-se em silêncio do coração de Nimble, mas quando ele pensou com calma, não pa-
recia nada lógico. O que poderiam meras 500 tropas fazer? Com toda a probabilidade,
eles eram meramente uma guarda de honra.
No entanto, o que aconteceu em seguida superou as previsões de Nimble.

Ainz parecia ter lançado algum tipo de magia e estava falando no ar.

“Você pode me ouvir — Shalltear? Abra um 「Gate」 para a minha posição e envie as
tropas.”

Os olhos sob a máscara de Ainz pareciam se mover.

“Então, General, convoquei minha unidade.”

Quando ele terminou de dizer isso, uma comoção ondulou entre os espectadores.

Um objeto hemisférico preto apareceu atrás das costas de Ainz.

Nimble lembrou-se de algo sobre esse 「Gate」 sendo mencionado anteriormente.

Um portal se abriu e o que saiu foi—

O mundo ficou em silêncio.

Uma estranha ausência de som encheu o ambiente. O proverbial som do silêncio veio
adiante.

As 500 tropas revelaram suas formas. Em comparação com o Exército Imperial de


60.000 homens, eles pareciam tão poucos quanto tristes. No entanto, ninguém poderia
desprezar esses 500 soldados.

As forças bizarras diante deles deixaram isso bem claro.

“Estas são minhas tropas.”

Ainz alegremente apresentou seus homens aos espectadores sem palavras.


Interlúdio
ma jovem sentada na única cadeira — um trono — em uma sala pequena e

U
luxuosa. Sua voz era adorável e inocente, combinando perfeitamente com
sua idade.

“Certo! Eu vou deixar você lidar com isso!”

“Sim! Deixe isso para mim, Vossa Majestade!”

O homem que estava ajoelhado para a menina parecia um cavaleiro. Ele se levantou,
depois saiu elegantemente da sala.

A porta se fechou e, depois de alguns segundos, a moça se virou para o ministro ao lado
dela.

“Está tudo bem agora?”

“Sim. Ele foi o último, então não deve ter problema.”

Depois de ouvir a voz fria do homem, a expressão inocente que a garota estava fazendo
desmoronou.

Era como se ela estivesse fazendo uma birra.

Talvez fosse fadiga, mas seus olhos estavam meio fechados de nebulosidade, seus lábios
formavam uma forma de um へ, e seus ombros estavam arredondados.

“Tão cansativo...”

Sua atitude não se parecia com uma criança, mas com uma mulher sitiada na casa dos
40 anos. No entanto, o tom de sua voz ainda soava muito jovem; Era como se ela tivesse
mantido a mesma aparência externa, mas ela havia mudado completamente por dentro.

“Obrigado pelo seu árduo trabalho.”

“Estou seriamente cansada aqui. Já tive o suficiente de conhecer pessoas com esta apa-
rência.”

Ela levantou a bainha de sua saia:

“Quem diabos inventou essas roupas que mostram a perna inteira, afinal?”

“Mais uma vez, devo repetir que não pode fazer isso, Vossa Majestade.”
[Soberana D r a g o a de Escamas Negras]
Essa garota era a Rainha do Reino Dragonic, a Dark Scale Dragonlord, Draudillon=Ori-
culus.
Ela tinha o título de Dragonlord, mas seu poder de combate era apenas o de uma pessoa
normal. Embora a Teocracia a classificasse como uma Dragonlord Verdadeira, isso era
simplesmente devido a seus talentos inatos, e assim algumas pessoas usaram o raro tí-
tulo de a Falsa-Dragonlord-Verdadeira para descrevê-la.

Isso porque a qualidade que determinava sua verdade ou falsidade era se ela poderia
ou não usar Magia Selvagem.

“É precisamente porque a Vossa Majestade evoca o desejo de ser protegida nos outros
de que eles trabalhem tanto por você.”

“Todos neste mundo são lolicons? Eu acho que se eles fossem maiores seria melhor de
várias maneiras possíveis.”

Draudillon levantou as mãos para o peito reto e balançou-as como se estivesse carre-
gando alguma coisa nelas.

“De fato, essa forma é—”

“—Não é uma forma; essa é a minha forma original.”

“Perdoe-me, Vossa Majestade.”

“Ei, isso não parece uma desculpa de verdade.”

“Certamente não.”

Draudillon olhou para o sorriso frio do ministro. Ela não podia ver as emoções que es-
preitavam por baixo e virou-se infeliz.

“Agora que Vossa Majestade entende, vamos retornar ao nosso tópico original. Essa
forma pode ser capaz de conquistar os corações dos homens, mas as mulheres não a fa-
vorecerão. Em contraste, sua forma atual é bem recebida por homens e mulheres, jovens
e idosos. A senhorita deveria entender isso. Agora, se você insiste em tomar essa forma,
então deve resolver os problemas que enfrentam este país. Tem alguma sugestão?”

”...Não chame isso de forma.”

“Dito isto, se a situação atual continuar, a senhorita poderá tomar qualquer forma que
desejar, porque ninguém estará lá para testemunhar isso.”

Um pesado silêncio desceu sobre a sala enquanto ela contemplava o estado em que o
Reino Dragonic estava.

“A invasão Beastman desta vez é diferente, não é?”


“De fato. Dado o tamanho de suas forças, seus objetivos não podem ser tão mesquinhos
quanto antes. Estou certo de que eles pretendem conquistar nossa nação. Eles devem ter
finalmente decidido construir um curral para o gado.”

Havia um País Beastman perto do Reino Dragonic.

Beastman são demi-humanos bípedes que se assemelhavam a animais carnívoros como


leões ou tigres. O fato de que eles comiam carne e não pensavam em comer humanos era
imediatamente evidente olhando para suas cabeças.

Espécies comedoras de homem não eram raras. Das seis grandes nações que lutavam
no centro do continente, três delas viam os humanos como bons. Por exemplo, os Reinos
Trolls, que estavam perto do centro do continente, consideravam bebês de seis meses,
servidos na barriga de suas mães, como uma iguaria que serviam aos convidados.

Para esses seres, essa nação era uma reserva de caça.

No passado, eles pareciam considerar este lugar um campo de alimentação renovável, e


nunca haviam iniciado uma invasão total. No entanto, por alguma razão, eles haviam feito
isso desta vez, e três cidades já haviam caído para eles.

As orgias alimentares ali realizadas faziam até alguém como ela querer vomitar.

Diante de um invasor externo fechado a negociações, o país inteiro se mobilizou para


resistir desesperadamente, mas os Beastmen eram muito mais fortes que os seres huma-
nos.

O País Beastman era uma das nações poderosas do continente, isso por si só já demos-
trava o quão grande eram seus atributos físicos em comparação ao dos seres humanos.

Por exemplo, os parâmetros de desempenho de um Beastman adulto eram dez vezes


maiores do que os de um adulto similarmente adulto.

Os aventureiros usaram valores chamados avaliações de dificuldade para quantificar a


força dos monstros. Se um ser humano adulto fosse um 3, então um Beastman teria 30.
A única graça salvadora era que havia poucos indivíduos excepcionais entre eles, prova-
velmente porque suas estatísticas básicas já estavam altas desde o começo.

“Atualmente, os aventureiros liderados por aventureiros adamantite mal conseguiram


fazer o inimigo bater em retirada, são simplesmente numerosos demais. Eles não podem
parar os invasores se eles se dividirem em vários elementos de tamanho de tribo... Talvez
devamos reunir todas as pessoas à capital e privar o inimigo de comida, mas provavel-
mente morreremos primeiro.”

“Que dor de cabeça. O futuro não passa de escuridão.”


“Alternativamente, poderíamos despachar uma força escolhida a dedo para lançar um
ataque de decapitação contra o inimigo. No entanto, se for mal administrado, poderemos
simplesmente agitá-los por nada, mas, se não conseguirmos impedir a invasão, podere-
mos ser forçados a recorrer a ela.”

“E ele vai ser o líder?”

“De fato, ele.”

O “ele” em questão só poderia ser um homem. Ele, o “Lampejo Feroz” Cerabrate da


Crystal Tear, a única equipe de aventureiros com classificação de adamantite neste país.
Seu apelido derivou de sua proficiência com a técnica da espada conhecida como a Lâ-
mina Brilhante, e ele possuía a vocação da profissão Cavaleiro Sagrado.

“Ele é definitivamente um lolicon. Sempre que ele fala comigo, seus olhos percorrem
todo o meu corpo. Olhar para uma tábua de lavar como esta o deixa feliz? Por que ele
simplesmente não fica olhando para uma parede?”

“É o fetiche dele. Ah, sim, Vossa Majestade está correta. Ele é um lolicon.”

O rosto de Draudillon se contraiu.

“Eu sinceramente não quero ouvir você concordando tão prontamente. As pessoas clas-
sificadas como adamantites no meu país... Se ao menos elas fossem mais decentes.”

“O que está dizendo? Tudo o que precisa fazer é fingir ser fofa e fazer o papel de uma
garota pura e inocente, e as pessoas lutarão até a morte em seu nome. Isso não é muito
útil para nós?”

“Eu vou ter que satisfazer desejos dele um dia... ei! Não olhe para mim como se eu fosse
uma leitoa que será servida como o café da manhã de amanhã!”

“Hahh...”

O homem suspirou com exagero deliberado. Isso fez com que suas veias saltassem.

“Mas isso é tudo o que vai acontecer. Vossa Majestade, por favor, aguente isso. É um
destino melhor do que o seu povo que já foi comido, bem, eles foram de forma literal.”

Ela não teve resposta para dar.

“...Se tivéssemos o dinheiro, poderíamos contratar a Optics. Falando nisso, o que a Teo-
cracia está fazendo?”

“Isso, ninguém sabe.”


“Não doamos grandes somas a eles todos os anos? Normalmente, eles deveriam ter
vindo nos ajudar agora, não? Não é como se eu quisesse que eles enviassem a Escritura
Preta, mas eles nem mesmo enviaram a Escritura da Luz Solar.”

A Teocracia sempre enviou suas tropas para ajudar o Reino Dragonic em segredo. A ra-
zão pela qual era um segredo provavelmente por causa de sua liderança.

“Então essa é a nossa retribuição por confiar nossa defesa nacional a outro país. Que
tragédia.”

“Não é como se eu gostasse de confiar nos outros, não podemos evitar! Não diga que não
sabe que nosso orçamento militar sempre foi muito apertado. Se gastássemos mais, o
país teria falido. Além disso, não é como se as tropas fossem ficar mais fortes se gastás-
semos o dinheiro com as forças armadas.”

O Reino Dragonic havia investido muitos fundos para lidar com os Beastmen ao longo
dos anos, mas o resultado foi lastimável. Ela queria pensar que eles tinham mantido as
baixas tão mínimas por causa do dinheiro que gastaram.

“Se a Teocracia nos abandonou... ah sim, por que não pedir ajuda ao Império? Se nosso
país for eliminado, o Império será o próximo, concorda?”

“Ainda há as Planícies Katze entre nós, então não será a vez do Império. Eles também
podem desviar do lago para atacar a Teocracia.”

“...É verdade, duvido que eles sejam corajosos o suficiente para atacar em um lugar onde
os undeads aparecem como moscas no lixo.”

Aliás, os dois tinham pulado as tribos montadores de Wyvern ao longo do caminho.

“Não é que eles não sejam corajosos, mas que os undeads não são comestíveis, então
não adianta conquistar esse lugar. Apenas undeads ficariam felizes em tomar um lugar
assim. Além disso, o Império deveria estar ocupado também, não? Sua guerra anual está
prestes a acontecer.”

“Parece um pouco atrasado este ano.”

“Sim, por cerca de meio ano. Algum magic caster ridículo fez uma declaração. Deseja ler?”

“Ah, quem se importa com outros países?! Chega disso, salvar o país é o importante!”

“Bem, já que mencionou, Vossa Majestade... que tal a magia de Vossa Majestade?”

O ministro acenou com o dedo. Para ele, provavelmente era tudo o que ele pensava em
magia. Draudillon sorriu amargamente.
“Magia Selvagem, hm? Esse tipo de poder não é o tipo de coisa que um ser humano pode
controlar; nem mesmo alguém com um oitavo de ancestralidade dracônica. Se as coisas
derem errado, pode acelerar o fim do nosso país, então é um último recurso.”

“Um último recurso, hm? Espero que esse dia nunca chegue. Então, tentarei solicitar
ajuda da Teocracia.”

“Ohh! Por favor, faça~”

O ministro virou um olhar frio para Draudillon enquanto ela dava sua resposta infantil.

“Esse é o espírito, Vossa Majestade. Já que tem força para isso, então eu confio que a
senhorita pode escrever trinta cartas de encorajamento para as nossas tropas na linha
de frente — cartas de confiança de uma criança pura. Naturalmente, espero que escreva
como uma criança, claro.”

“Guehhh... eu não posso fazer isso sóbria. Traga-me vinho!”

“Entendido. Embora possa se intoxicar o quanto quiser, espero que conclua essa tarefa
até hoje.”

O ministro curvou-se e saiu do quarto.

Draudillon observou suas costas quando ele partiu e depois olhou para as próprias mãos.

“A magia da alma, hein...”

Magia Selvagem era diferente da magia normal. Uma magia que usava almas. Portanto,
se ela sacrificasse muitas pessoas e depois destruísse as almas que foram produzidas, ela
poderia lançar uma poderosa magia. Seu bisavô, o Dragonlord, contou a ela sobre a
grande explosão que foi o ataque final do Platinum Dragonlord. Com toda a probabilidade,
ela poderia imitá-lo facilmente.

No entanto, já que ela era muito mais fraca do que um Dragonlord, ela teria que sacrifi-
car mais de um milhão de pessoas para lançar uma magia como essa.

Draudillon cobriu o rosto com as mãos.

Ela tremia porque tinha a sensação de que, não importava o que fizesse, o seu destino
seria um inferno—
Capítulo 03: Outra Batalha
Parte 1

Primeiro Príncipe Barbro Andrean Ield Ryle Vaiself ficou furioso quando

O conduziu seus homens para o norte, deixando para trás o clamor de E-Ran-
tel e as tropas se preparando para marchar para as Planícies Katze.

“Droga. Marquês Raeven... Aquele desgraçado.”

Barbro não conseguiu conter suas palavras.

Durante a perturbação demoníaca, seu irmão mais novo tinha emprestado os homens
de Raeven para patrulhar a cidade e manter a ordem, dando aos nobres a impressão de
que ele estava disposto e era capaz de entrar na briga. Como resultado, os nobres que
originalmente apoiaram o Primeiro Príncipe Barbro estavam começando a ter dúvidas.
Agora que o Marquês Raeven tinha dado seu apoio ao Segundo Príncipe, alguns desses
nobres também tinham ido para o seu lado do banco.

Não sair durante o distúrbio demoníaco tinha sido um erro fatal.

Barbro não pisou na linha de frente e permaneceu no Palácio Real porque não possuía
nenhum homem.

Foi a coisa certa a fazer; que bem poderia apenas um homem fazer sozinho na linha de
frente? Ele simplesmente entraria no caminho dos outros. Além disso, os demônios po-
deriam ter atacado o Palácio Real também.

Sem os homens do Marquês Raeven, seu irmão mais novo também não seria capaz de
manter a ordem.

Barbro acreditava que ele fizera a escolha certa. No entanto, esses tolos não entenderam
e foram enganados pelas aparências. No final, todos eles dançam nas mãos do Marquês
Raeven.

“Será que nenhum deles tinha idéia do que ele estava planejando? Além disso, eles esta-
vam apenas patrulhando, eles nem lutavam contra nenhum demônio, não?”

Se seu irmão mais novo tivesse lutado, ele certamente teria feito papel de bobo. Quando
se pensava sobre isso, podia-se dizer quão inteligente era o Marquês Raeven.

Havia também mais uma coisa que desagradava Barbro.

Esse era o fato de que ele estava a caminho do insignificante pequeno povoado do Vila-
rejo Carne.

Ele havia ficado para trás na luta pela sucessão.


Foi por isso que Barbro teve que se destacar como o Primeiro Príncipe durante a batalha
contra o Império. Ele precisava recuperar a fama que seu irmão mais novo havia roubado
para que todos soubessem que ele era a melhor escolha para herdar o Reino.

Assim, esta batalha tinha muita importância para ele; no entanto, ele recebera ordens
que o obrigavam a executar em uma tarefa inútil como um lacaio. Que prestígio havia
para investigar a ligação entre um vilarejo fronteiriço e Ainz Ooal Gown?

Naquele momento, um arrepio percorreu a espinha de Barbro.

Será que isso foi feito para impedir que Barbro consiga alguma coisa?

Seu pai havia decidido há muito tempo entregar o trono a seu irmão mais novo, e ele
não queria deixar que Barbro fizesse qualquer coisa para virar a mesa, então o mandou
para esse pequeno povoado—

A respiração de Barbro ficou caótica. Seu coração ardia de ódio pelo pai, que estava o
desprezando o Primeiro Príncipe e queria dar o trono ao seu irmão mais novo por mos-
trar apenas um pouquinho de coragem.

O fato de ele perceber que um cavalo se aproximava dele como frustração piscava seus
olhos era pura coincidência.

”Meu Príncipe, estás doente? Devo chamar um sacerdote?”

A voz estridente de perto ecoou em voz alta e pareceu agarrar diretamente seu cérebro,
e até mesmo fazê-lo querer vomitar. No entanto, ele superou isso. Foi uma sorte que o ar
frio do inverno o ajudasse a acalmá-lo, e que o crescimento na casa real o tivesse treinado
para manter as aparências.

Só um tolo revelaria seus sentimentos interiores.

“Não, não, não preste atenção a isso. Eu estava simplesmente pensando em como lidar
com a tarefa que o pai me deu. Chega disso; Barão Cheneko, você não visitou o aventu-
reiro adamantite Momon? O que aconteceu?”

“Oh, ouça meu infortúnio, Meu Príncipe! Uma coisa profundamente perturbadora acon-
teceu! Certo, Momon não estava, e eu não o conheci.”

“Bem, isso foi apenas má sorte. Afinal, ele é um aventureiro adamantite. Então, por que
você está tão bravo? Você não marcou hora, então não há motivos a reclamar que ele não
tenha te recebido.”

“Não! Não é por causa disso! Foi a companheira de Momon que me desagradou aquela
mulher, Nabe.”
“Nabe? Ah, a Bela Princesa.”

Barbro recordou a beleza arrebatadora que vira na Capital Real, tão solene que podia
comparar-se com a irmã mais nova. Barbro a desejava, mas ela era a companheira de um
aventureiro que seu pai favorecera, de modo que ele não podia fazer o que quisesse como
se ela fosse uma mera plebeia.

“E o que aquela beldade fez com você?”

“Ela levantou a mão contra mim! Por favor, olhe Meu Príncipe!”

O Barão Cheneko removeu sua luva, revelando uma grande contusão.

“O quê? Mesmo um aventureiro adamantite não pode cometer violência contra um no-
bre.”

“Mas aquela Nabe de repente pegou minha mão e me expulsou!”

Havia pouca informação para trabalhar, e Barbro não queria perguntar mais nada. Isso
porque ele continuava pensando que havia alguma razão oculta por trás disso.

“Meu príncipe! Suplico-lhe que puna severamente aquela mulher tola por me prejudi-
car!”

Se ele usasse isso como alavanca, não poderia ele fazer o que ele queria àquela mulher?

Barbro considerou.

Pensou se havia uma maneira de ajudar o Barão e pegar Nabe para si mesmo, mas não
conseguia pensar em nada. Este Barão era um idiota total, e ele poderia pensar que ele
estava fazendo um favor ao Príncipe.

Que homem inútil. Bem, eu acho que posso fazer amizade com ele por enquanto, mas
quando eu assumir o trono, ele será o primeiro que vou descartar. Antes disso, vou fazer
bom uso dele.

Barbro já estava planejando como as coisas iriam, mas ao mesmo tempo ele estava um
pouco deprimido pelo fato de que alguém como ele tinha seu próprio feudo e vassalos —
a habilidade de fazer guerra sem ter que confiar em ninguém — enquanto ele não tinha
nem soldados jurados.

Quando o Barão olhou para ele com olhos cheios de antecipação, Barbro acenou para
ele.

“Quando me tornar Rei, vou considerar isso.”


“Obrigado, Meu Príncipe!”

Barbro não queria mais falar com aquele palhaço que se curvava, então ele fez uma per-
gunta a um dos cavaleiros sob Marquês Boullope. Ele era um comandante das tropas de
elite do Marquês.

“Ei, eu tenho uma pergunta...”

“O que seria, Vossa Alteza?”

Na verdade, ele realmente não tinha nada a perguntar, mas não podia dizer que não
queria mais falar com o Barão, então estava apenas procurando uma desculpa. Ele fez
uma pausa para pensar por um momento, e fez uma pergunta adequada, ao que a noção
de ódio a partir de agora apareceu em sua mente novamente.

Era idéia do Marquês Boullope mandar Barbro para esse pobre vilarejo, significava
que—

Será que o Conde me traiu? Ele mudou de lado para o meu irmão?

Ele queria negar essa possibilidade.

Barbro estava casado com a filha do Marquês, e ele tinha sido um bom genro durante
todo esse tempo. Assim que Barbro assumisse o trono, ele se tornaria o líder dos Seis
Grandes Nobres. Escolher apoiar seu irmão mais novo agora só levaria a conflitos com o
Marquês Raeven. Mas que outro motivo poderia haver?

Se isso é verdade, então... o fato de eu ter sido enviado para esse vilarejo miserável, é para
dizer a todos os outros nobres que eu não posso contribuir muito para a guerra?

“O que está errado? Precisa de um descanso?”

“—Cale a boca.”

Não importa o quanto ele tentasse, ele não poderia impedir que a malícia lhe escapasse.

Ele viu que o cavaleiro ficou surpreso, mas ainda assim não suportava.

Quando a intenção assassina vazou por entre os dentes, Barbro ordenou:

“Eu ordeno que você conclua rapidamente a questão do Vilarejo Carne e se preparem
para prosseguir para as Planícies Katze. Quando chegarmos ao Vilarejo Carne, concluire-
mos prontamente nosso objetivo e partiremos, e acho que seremos capazes de alcançar
E-Rantel até o anoitecer. Depois disso, vamos descansar pela noite e depois nos apres-
sarmos para as Planícies Katze ao nascer do sol.”
O cavaleiro franziu a testa.

“Com todo o respeito, sinto que é muito difícil. Por favor, dê uma olhada, Vossa Alteza.
Nossa formação compreende três mil e quinhentos homens do Marquês e mil e quintos
homens dos vários nobres que deram o seu apoio. Para completar rapidamente nossa
missão, reduzimos nossa composição de tropas de abastecimento, substituindo-as por
cinquenta carroças de carga.”

“Eu sei disso. Qual é o problema?”

“Nossa formação tem quatro mil e quinhentos de infantaria e quinhentos de cavalaria.


Mesmo que completemos nosso negócio em Vilarejo Carne em uma hora, retornar ao E-
Rantel até o anoitecer será algo bem complicado, precisaríamos correr além da conta.”

“É por isso que eu estava perguntando. Eu vou dizer de novo; há algum problema? Se
não houver nenhum, por que você não pode fazer isso?”

“Meu Príncipe... a infantaria pode acabar esgotada ao ponto de colapsar.”

“Parece que você teve a idéia errada, não é? Em última análise, não vale a pena ir em um
pequeno vilarejo lamentável como aquele. O que precisamos fazer é seguir para as Pla-
nícies Katze e derrotar o Império. Você não é o homem do Marquês? Nesse caso, deixe-
me perguntar-lhe isto; esta batalha é tão fácil que eles podem se dar ao luxo de ter cinco
mil homens vagando pelo campo? O que acha disso?”

A boca do cavaleiro se apertou em uma linha reta.

“Coloque suas prioridades em ordem. Os homens estarão cansados? Então chicoteie-os


para fazê-los correr. Afinal, vocês estavam todos reunidos aqui para lutar nas Planícies
Katze.”

—É para construir minha reputação.

“...É como diz, Vossa Alteza. Compreendo.”

O cavaleiro inclinou a cabeça em reconhecimento.

“Você deveria ter respondido assim desde o começo. Vá planejar quando podemos che-
gar a E-Rantel e quando podemos estabelecer; Vou deixar os detalhes para você.”

“Sim! Vou discutir rapidamente o assunto e retornar com a resposta que procura, Vossa
Alteza!”

No momento em que o cavaleiro esporeou seu cavalo em direção a seus camaradas, Bar-
bro já o havia tirado do sério.
Meu pai me odeia? Ou ele ficou senil e não consegue mais pensar direito? Então é por isso
que ele queria dar o trono ao meu irmão mais novo. É apropriado que o irmão mais velho
herde; caso contrário, isso não ofenderia os nobres?

Ele jurou se recuperar dos terríveis problemas em que estava, e fez com que se arrepen-
dessem de dar a ele 5.000 homens para comandar.

Foi essa determinação que impulsionou Barbro.

“Barão!”

“Sim, Milorde!”

“Não me desaponte!”

O Barão parecia ter respondido com uma voz estridente, mas a resposta entrou em um
ouvido de Barbro e saiu pelo outro.

“Maldito seja, Zanac. Guarde seu narcisismo na Capital Real.”

Mesmo eles sendo relacionados pelo sangue, ele também era um adversário na corrida
pela sucessão e, portanto, teve que ser expulso. Ele não insistiria em matá-lo, mas se ele
ficasse no caminho, não se importaria de dar a ordem para fazê-lo.

Quando subir ao trono... o que posso fazer com ele? Devo matá-lo, então aqueles nobres
idiotas não podem se reunir em sua revolta? Ou isso seria um desperdício? Se ele fosse uma
mulher, ele teria muitos usos... Minha irmã (Renner) pode ser estúpida, mas ela tem um
rosto bonito. Eu vou vendê-la para o maior lance... Vai ser problemático ter uma família
ramo com sangue real, então idealmente eu iria casar com ela para a realeza de algum
reino distante... embora, se ela pudesse ser útil e servir como a base para o meu poder, bem,
eu poderia considerar isso.

Enquanto imaginava o futuro ideal do Reino Re-Estize que ele encontraria, Barbro es-
treitou os olhos distraidamente.

Ele se viu sentado no trono, com os nobres em massa curvando-se respeitosamente a


ele.

Ele viu seus vassalos correndo para cumprir as ordens que ele dava.

“Não seria maravilhoso?”

Ele sorriu fracamente, então rapidamente encobriu.


Depois de prontamente terminar sua missão no Vilarejo Carne, eles poderiam correr
para as Planícies Katze rapidamente? Barbro achava que isso determinaria se seu sonho
se tornaria realidade ou permaneceria uma fantasia.

...Assumindo que os soldados podem ser forçados a marchar, o mais importante seria ou
não chegar a tempo para a batalha, certo? Ou melhor, devemos observar silenciosamente
a batalha e agir como emboscadores?

Ele achava que era um plano inteligente, mas não estava confiante de que poderia usar
habilmente suas tropas para atacar o inimigo no flanco ou na retaguarda enquanto não
o percebiam.

Ele queria muito deixar os cavaleiros lidarem com isso, mas essa batalha era uma chance
de demonstrar sua dignidade do trono, então deixar os outros organizarem as coisas não
era uma boa idéia.

O que ele deveria fazer para obter os resultados mais impressionantes e garantir o trono
para si mesmo? Enquanto Barbro pensava, uma idéia surgiu de repente.

Seria possível usar o povo do Vilarejo Carne para negociar com Ainz Ooal Gown?

Era como se um raio de luz ofuscante tivesse caído dos céus para iluminá-lo.

Verdadeiramente, esse seria um movimento magistral.

Seja qual for a razão que Ainz Ooal Gown teve para salvar o Vilarejo Carne, a existência
do mesmo deveria ser uma garantia de negociação.

Se esse magic caster Ainz Ooal Gown de quem ninguém tinha ouvido falar antes de de-
sistir da guerra, o Império Baharuth perderia sua justificativa e provavelmente retiraria
suas tropas para evitar serem rotuladas como invasoras.

E se descobrisse que foram as ações de Barbro que fizeram o Império se retirar—

Isso não seria uma coisa incrível? O pai não será mais capaz de não me levar a sério e
minha ascensão será garantida.

“Bom. Muito bom.”

Se o Ainz Ooal Gown simplesmente os ajudasse, então ele não poderia retirar suas forças.
Nesse caso, tudo o que ele teria que fazer era forçar o povo do Vilarejo Carne a se render.
Pessoas de todo o país estavam sendo mobilizadas para isso. Os aldeões do Vilarejo Carne
não tinham o direito de recusar.
O pai parecia ter isentado as pessoas do Vilarejo Carne das obrigações do Reino, mas
agora a situação era diferente. Cabia ao comandante — Barbro, nessas circunstâncias —
lidar com as coisas quando surgissem.

Se Ainz Ooal Gown matasse os fazendeiros do Vilarejo Carne, então isso poderia ser
usado também como propaganda. Eles poderiam criticá-lo como um vilão insignificante.
Propaganda como essa deveria ser eficaz contra seus apoiadores, o Império também.

Barbro estremeceu com a pura perfeição deste plano.

Com toda a honestidade, ele achava que ele era mais burro do que seus irmãos mais
novos, mas agora isso era difícil de dizer. O fato de que tal sabedoria dormia em sua
mente emocionou Barbro.

Parte 2

O inverno era um inferno para pequenos vilarejos. Tudo o que podiam fazer era orar
pela vinda das estações mais quentes, enquanto resistissem aos dias frios de suas casas.
Se a primavera chegasse atrasada, ou se a colheita no outono fosse escassa, eles poderiam
ser forçados a comer seu estoque de sementes, e as pessoas ainda morreriam de fome
mesmo que o fizessem.

Embora quase não houvesse trabalho de campo no inverno, a vida no vilarejo ainda es-
tava intimamente associada à palavra “atividade”. Havia muitas tarefas a serem feitas em
ambientes fechados, como cuidar do gado, consertar as ferramentas agrícolas, consertar
suas casas, gerenciar o gado e assim por diante. Simplesmente não havia tempo para des-
cansar.

Isso era especialmente verdadeiro no Vilarejo Carne, onde criavam porcos para alimen-
tar os monstros carnívoros conhecidos como Ogros. Eles compraram esses porcos depois
de venderem suas colheitas de ervas, e os rangers trouxeram os suplementares durante
as caçadas.

Os Goblins levaram esses porcos para a Grande Floresta de Tob para pastar em raízes e
caules. Como o plano ainda estava em fase experimental, havia apenas um pequeno nú-
mero de porcos no momento, mas se eles conseguissem criá-los com sucesso e se conse-
guissem vencer o inverno, eles iriam aumentar seu número de forma constante no futuro.

Normalmente, eles precisariam pagar impostos ao senhorio da terra em que estavam


pastando, mas, felizmente, o Vilarejo Carne não precisava fazer isso. A razão era porque
a Grande Floresta de Tob era a morada dos monstros e não era governada por humanos.

O futuro do Vilarejo Carne parecia muito brilhante.


Tudo isso foi graças a Ainz Ooal Gown, que salvou o vilarejo e ajudou em muitos aspec-
tos. Além disso, o Guerreiro Negro Momon subjugou o Sábio Rei da Floresta. Muitas pes-
soas no vilarejo davam graças aos dois, e alguns até oravam a eles no café da manhã,
reverenciando-os ao mesmo tempo que faziam os deuses.

Foi precisamente esse transbordamento de esperança que deu a nova chefe, Enri Em-
mot, tanto trabalho.

Hoje, Enri, dirigiu-se a uma pequena cabana para fazer seu trabalho, seguida por Nfirea.

Em um vilarejo fronteiriço como Carne, todos no vilarejo trabalhavam juntos como se


fossem da família. Se eles não fizessem isso, não haveria como sobreviver. Eles compar-
tilharam seus implementos agrícolas e sua comida e até se revezaram para usar suas va-
cas para cultivar os campos.

Por causa disso, o cuidado e a alimentação do gado eram responsabilidade de todos. O


feno para as vacas no inverno era armazenado em pequenas cabanas como esta.

Enri abriu a porta de madeira e entrou, seguida de perto por Nfirea. Enri entrou direto
depois de abrir a porta e sentou-se em uma pilha de feno, afundando seu traseiro na
grama seca com um macio *pomf*.

Depois de fechar a porta, Nfirea se sentou ao seu lado, sua luz mágica iluminando os
arredores.

“Chefe, você deve deixar a brincadeira para depois de terminar isso; ainda precisamos
ver se temos feno suficiente e depois tomar várias decisões posteriores.”

“Você está me chamando de chefe de novo...”

Nfirea não pôde deixar de rir da resposta deprimida de Enri.

“Bem, tudo bem, não é? Eu sou a chefe, afinal de contas! Isso mesmo, Agu acha que eu
posso esmagar todos os Goblins até virarem pasta se eu quiser! Comparado a isso, todos
esses problemas não são nada!”

Desde que venceu cada luta de braço-de-ferro com Agu e companhia, parecia haver um
ar de “pode ser verdade” pairando em torno do povo do vilarejo, algo que cutucava seu
coração. Aliás, ela não havia desafiado os Ogros. Se ela perdesse, não provaria nada, e se
ela vencesse, ou pelo menos perdesse por pouco, ficaria ainda pior.

—Isso significa que eu nunca vou conseguir me casar se eu deixar o Enfi se afastar?

O suor lentamente brotou nas mãos de Enri.


“Ah— certo. Você não vai abrir a janela? Está seco agora, então a abertura deve estar
boa.”

“Eh? Não, não precisa, não precisamos, né? E olha, nós temos uma luz mágica aqui.”

“Mesmo? Bem, se você não se importa, eu muito menos, Enfi.”

A iluminação mágica era mais brilhante que a luz do sol. Ela sabia disso, mas a sugestão
de Enri foi baseada puramente na lógica de que “Já que tem sol, não é um desperdício usar
mana para uma luz mágica?”. Além disso, ela queria mudar o clima atual na sala. Não
havia razão específica para isso, e não havia problema se ele se recusasse. No entanto,
Nfirea parecia estar tendo algum tipo de reação estranha ao sentar-se ao lado dela, com
suas orelhas vermelhas e tudo mais.

Ele está realmente usando muito de sua mana? Mas ouvi dizer que fazer luzes mágicas não
era tão cansativo... ele usou alguma outra magia antes de vir aqui? Mas pensando nisso, ele
não tem cheiro de ervas. Na verdade, ele está com um cheiro meio... bom.

“O-o que há de errado, Enri?”

As palavras de Nfirea saíram como um grito de pânico quando Enri pressionou o nariz
perto dele.

“Hm? Hmmm? Ah, não é nada, só achei que seu cheiro está bom...”

“V-você acha? Bem, isso é bom de ouvir. Deve ser a colônia que eu fiz.”

“Mesmo? Por que você não tenta vender na cidade na próxima vez? Tenho certeza que
vai conseguir um bom preço.”

“Não, isso... isso... não está destinado à venda...”

“Hmm... bem, esqueça. De qualquer forma, deve haver feno suficiente nessa cabana. Va-
mos seguir em frente?”

“Mm, sim. Então, antes de prosseguirmos, deixe-me ver algo primeiro. Está frio lá fora,
afinal de contas.”

“...Bem, este lugar não é tão quente... ah, esqueça.”

“Isso... sobre isso. Eu queria discutir várias coisas com você.”

Nfirea, que estava sentado ao lado dela, parecia um pouco tenso.

O que está acontecendo com ele?


Enquanto Enri observava ele com um olhar desconfiado, Nfirea pegou um punhado de
papéis.

Eles estavam cobertos de letras minúsculas. Enri tinha aprendido algumas palavras até
agora, mas seu rápido vislumbre revelou mais palavras que ela não entendia em compa-
ração com aquelas que ela aprendeu.

“A primeira coisa é como alimentar os Goblins sobreviventes da tribo de Agu e os Ogros.”

“Eh? Não estamos bem com isso? Eles ajudaram com a colheita no outono e conseguimos
comprar a comida dos Ogros da cidade.”

“Mmm, e as ervas são vendidas por um bom preço, então podemos dizer que temos am-
plas reservas de comida. Deve ser o suficiente para lidar com esse inverno. Mesmo se
acrescentarmos alguns extras, nossos estoques de alimentos ainda devem aguentar. Mas
se nossos números continuarem aumentando, a vida será bastante dura. Talvez devêsse-
mos adquirir nossa comida por outros meios.”

Agora os membros da tribo de Agu estavam na casa de 14 Goblins. Eles não nasceram,
mas conseguiram escapar do território do Gigante do Leste e da Serpente do Oeste.

“Mmmm. Embora eu não veja um problema, provavelmente devemos comprar mais ali-
mentos em E-Rantel. No entanto, eu estava planejando economizar dinheiro para enco-
mendar algumas ferramentas de cultivo para os Ogros.”

“Se pudéssemos fazer algumas ferramentas agrícolas para os Ogros, a semeadura da


primavera deveria ser muito mais rápida... Mas o problema é que, se encomendarmos
ferramentas para os Ogros, elas serão grandes o suficiente para que nenhum humano
possa usá-las, e isso trará suspeitas.”

“E se a notícia sobre os Ogros trabalhando aqui se espalhar, isso causará muitos proble-
mas, certo?”

Quando os cobradores de impostos chegaram no outono, Jugem e os outros demi-hu-


manos tiveram que se esconder para evitar a detecção. A propósito, foi devido a seus
esforços que a colheita de grãos foi tão abundante.

Como o Vilarejo Carne havia sido atacado por “cavaleiros Imperiais”, eles precisavam
apenas pagar uma quantia nominal, o que era um golpe de sorte para eles. Além disso,
eles foram dispensados de servir o exército por vários anos.

A maior parte era uma forma de desculpas por não proteger adequadamente o vilarejo,
parecia que eles também sentiam culpa genuína por isso. Eles achavam que os altos mu-
ros iriam levantar suspeitas, mas os cobradores de impostos simplesmente comentaram
“Então essa é a gentileza daquele magic caster, hm?”, e deixaram o assunto quieto. Sendo
esse o caso, Enri acreditava que eles deveriam ser capazes de aceitar a presença dos
Ogros também, mas Nfirea negou.

“Não há dúvida sobre isso — sim. Se tudo correr mal, o Reino pode até mandar uma
força punitiva para nós.”

“Isso é terrível!”

“Isso pode te deixar com raiva, mas a verdade é que os Ogros geralmente comem pes-
soas. A única razão pela qual eles podem viver conosco neste vilarejo, é por causa do
Jugem-san, que são mais fortes que os Ogros. Não se esqueça disso.”

“Eu não...”

“Outra coisa é que temos poucas pessoas neste vilarejo. Precisamos pensar em como
conseguir mais moradores. Seria ótimo se os recém-chegados chegassem na estação de
plantio da primavera.”

“Isso pode ser difícil. Além disso, será problemático se os recém-chegados se assusta-
rem com os Goblins e Ogros— o que é?”

Essa pergunta veio de Enri. Nfirea estava agindo estranho há algum tempo. Era como
se... sua mente não estivesse completamente lá ou algo assim.”

“Eh? Ah, não, nada está errado!”

Certamente não parecia assim. Ele estava com pouco sono? Afinal, seu amado tinha o
mau hábito de esquecer tudo em prol de sua obsessão com suas poções.

Quando ele viu as sobrancelhas de Enri franzidas, Nfirea respirou fundo e mudou de
posição.

Hm? Então ele está mesmo cansado, afinal? Ele faz um monte de experimentos todos os
dias... mas ele vai sentir frio se dormir aqui. Embora seja quente no feno...

Enquanto Enri estava pensando sobre isso. Nfirea inclinou-se lentamente mais e mais
de seu peso sobre ela.

O que está errado? Pensando bem, seria melhor se o Enfi fosse um pouco mais forte... Eu
acho que ele precisa comer mais carne. Ele não tem comido e dormido o suficiente.

Um impulso brincalhão veio sobre Enri, e ela empurrou de volta Nfirea. Ela original-
mente pretendia usar apenas um pouco de força, mas como usou muita força, ela acabou
caindo em cima de Nfirea.

”—Ueeeeh?”
Abaixo de Enri, o rosto surpreso e confuso de Nfirea ficou lentamente vermelho.

Aaaah~ Deve ser embaraçoso para um homem perder para uma mulher em força. É por
isso que eu disse que você precisa comer mais...

Assim que Enri saiu de cima dele, Nfirea deitou no feno e fechou os olhos.

Eles ficaram assim por vários segundos, deixando o ar fluir ao redor deles.

“...O que há de errado, Enfi? Você quer dormir?”

Nfirea se sentou de novo, com o rosto estranhamente vermelho.

“Uh... oh... hum. N-não...”

“—Ane-san!”

A porta se abriu sem bater quando o grito atingiu seus ouvidos. Tão forte era a entrada
que a porta bateu ruidosamente contra a parede próxima.

“Hueeee?”

O curioso guincho veio de Nfirea.

“O-o-o-o-o-o que aconteceu?”

“Desculpe por incomodar vocês dois, mas isso é uma emergência!”

“O que aconteceu?”

Esta foi a primeira vez que ela viu Jugem tão preocupado desde que Troll atacou. Uma
estranha e terrível premonição pareceu percorrer seu corpo.

“É um exército! Há um exército liderado chegando!”

“Eh?! O que você disse? De quem são as tropas?”

“Não sabemos sobre heráldica, então não poderíamos dizer. Mas há muitos brasões di-
ferentes, então você deve vir e olhar... De qualquer forma, devemos fechar o portão pri-
meiro. O que deveríamos fazer?”

“Ah! Ah... bem, você pode nos dizer quais brasões são os mais importantes entre eles?
Se você puder descrevê-los ou desenhá-los para mim, posso ajudar.”
Depois de ouvir a explicação de Jugem, uma expressão intrigada se espalhou pelo rosto
de Nfirea.

“Que estranho. Essas são bandeiras do Reino. Se soubéssemos quais eram os brasões
dos nobres, poderíamos identificar quem está vindo para cá.”

Vilarejo Carne, um vilarejo fronteiriço e, antes de ser fundada, só havia floresta aqui. Era
óbvio que o objetivo deles era o Vilarejo Carne, mas o porquê eles estavam vindo para cá
ainda era um mistério.

“O que diabos está acontecendo? Sabe o motivo, Nfirea?”

“Por que o Exército Real viria aqui? Se eles queriam ir para a Grande Floresta de Tob, é
estranho que eles estejam enviando tantas tropas. Eles poderiam ter enviado aventurei-
ros em vez disso. Se for esse o caso... talvez haja uma revolta ou algo assim...”

“Será que tal coisa realmente aconteceu?”

“É apenas boato, mas eu ouvi que o poder do Rei no reino não é realmente muito forte.
Atualmente, parece que os nobres estão em conflito com o Rei. Se esse é o caso, eles estão
vindo para o Vilarejo Carne para atacar o território do Rei?”

Enri ficou pálida.

Será que o vilarejo estaria sujeito a um terrível ataque como da última vez?

—No entanto, as circunstâncias agora eram diferentes de antes.

Enri decidiu encarar de frente.

“Devemos fugir para a floresta antes que as tropas cheguem aqui!”

“...Ane-san, me desculpe. Nós os avistamos tarde demais, então se corrêssemos agora,


teríamos que deixar todas as nossas coisas aqui. Além disso, como é inverno, as chances
de os monstros aparecerem na floresta também são muito altas. Se fugirmos de um pro-
blema, acabamos indo direto para outro.”

A expressão de dor de Jugem fez Enri se sentir tonta.

Eles não seriam capazes de sobreviver se as tropas queimassem o vilarejo no inverno.

“Se esse é o caso... ah! Está certo! Se não podemos fugir com nossas posses, então deve-
mos nos preparar para a batalha e esconder a comida e as outras necessidades ao mesmo
tempo!”
“Sim! Esse é um bom plano, Enri! As celas onde Jugem e os Ogros se esconderam dos
coletores de impostos ainda não devem ter sido enterradas. Nós vamos mover tudo lá!”

Assim que Enri estava prestes a entrar em ação, ela se lembrou de uma pergunta que
ainda não havia feito.

Quais eram seus números? Os aldeões poderiam estimar quantas pessoas mobilizariam
se soubessem quantas fossem.

“Quantos estão lá? Uns cem?”

“Não...”

A resposta hesitante de Jugem fez Enri querer enfiar os dedos em seus ouvidos.

“Isso não é tudo... eles são milhares.”

Os olhos de Enri se arregalaram. Assim como Nfirea ao lado dela.

“Eles têm cerca de quatro mil pessoas no mínimo, eu acho.”

“Mas isso é... por que eles mandariam tantos...”

“Eu não faço idéia. Por que eles mandariam tantas tropas para um vilarejo assim? Enri,
pode ser que o segredo tenha vazado, será que descobriram que tem Goblins aqui?”

“De jeito nenhum. É impossível.”

Enri respondeu imediatamente.

Não importava o que ela pensasse, ela não conseguia pensar em um motivo para um
vazamento. Havia imigrantes no vilarejo, mas todos sentiam que os Goblins eram mais
confiáveis do que os humanos. Desde o ataque dos Trolls, as barreiras entre os residentes
originais e os novos habitantes haviam praticamente desaparecido.

Pode ter sido por causa dos aventureiros que vieram para o vilarejo — eles estavam
todos mortos, com exceção de Momon e Nabe —, mas Nfirea insistiu que não poderia ser
o caso.

“Então... enquanto nos preparamos para fugir, devemos perguntar o porquê eles vieram.
Lutar é um último recurso.”

Desafiar um exército de 4000 homens não era nada menos do que suicídio.

“Como o Ani-san disse, isso é tudo que podemos fazer... Eu acho que contra esses núme-
ros, não há outro jeito.”
“Umu. É por isso que devemos nos preparar para fugir a qualquer momento, enquanto
tentamos ganhar tempo para nossa fuga. Então vamos!”

♦♦♦

Eles escolhem os aldeões e os Ogros pelos portões da vila para esconder a comida. Os
únicos que restaram foram Enri, Jugem e alguns dos Goblins, junto com Britta e vários
membros da força de defesa.

A primeira coisa que Enri fez foi questionar Britta sobre a situação, perguntando sobre
a identidade dos intrusos e de quais bandeiras eles tinham. Mas, infelizmente, Britta não
pôde lhe dar nenhuma resposta.

Segundo ela, outra pessoa sempre lidou com esse tipo de coisa. Naquele momento, Enri
percebeu como era importante estar bem informado. Por causa disso, tudo o que pude-
ram fazer foi esperar que Nfirea fizesse o relatório depois de voltar da torre de vigia.

O som dos cascos veio do outro lado da parede e depois uma voz alta.

“Quem vos fala é o enviado do Primeiro Príncipe do Reino Re-Estize, Barbro Andrean
Ield Ryle Vaiself! Abra o portão e deixe-nos entrar!”

Enri duvidou de seus ouvidos novamente.

Embora ela tivesse ouvido muitas coisas surpreendentes em um curto período de tempo,
esta superou o que esperava.

“O Primeiro Príncipe?!”

O que alguém como ele veio fazer aqui?!

Enri não tinha idéia do que estava acontecendo. Tudo isso estava começando a parecer
um sonho.

Entretanto, a julgar pela maneira como Nfirea estava correndo de volta da torre de vigia,
estava certa de que as palavras do enviado eram verdadeiras.

“A bandeira do Rei está entre eles. Somente a família real ou aqueles relacionados a eles
seriam autorizados a portar essa bandeira.”

“Eh? O que isso significa?”

“Isso significa que a família real trouxe tropas para a nosso vilarejo!”

Enri levantou a voz, incapaz de entender o que estava acontecendo.


“Por que, por que você precisa enviar tantas tropas para um vilarejo fronteiriço como
este?”

“Aldeões como você não precisam saber disso! Esta terra pertence ao Rei, e obedecer ao
Príncipe é a coisa certa a fazer! Ou será que você está desafiando o Rei — se rebelando
contra nós?”

O corpo de Enri estremeceu.

Como súditos do Rei, eles deveriam abrir suas portas. Contudo—

—Jugem trocou um olhar com Enri do lado.

Mesmo que eles fossem abrir o portão imediatamente, eles não poderiam fazê-lo ins-
tantaneamente. Antes disso, eles deveriam que esconder os Goblins e os Ogros.

“Ah, Ane-san. Nós nos esconderemos o mais rápido possível. Até lá, por favor, nos com-
pre algum tempo.”

Enri assentiu.

Por que eu fui mandar eles esconderem comida lá...?

Ela pensou, mas era tarde demais para se arrepender agora.

“Eu repito. Abra o portão!”

“Minhas desculpas! Neste exato momento, agora estamos nos preparando para receber
Sua Majestade o Príncipe! Por favor, aguente um pouco!”

“O que você disse, mulher?! Você está no comando deste vilarejo? Este atraso é inacei-
tável! Não perca nem um segundo sequer e abra o portão!”

“...Por que você está tão desesperado para entrar?”

Enri já estava desconfortável e ela respondeu com um grito de raiva. Embora soubesse
que era muito rude, não podia descartar a possibilidade de que fossem soldados de outro
país disfarçado de tropas do Reino.

As defesas do Vilarejo Carne eram extremamente sólidas. As defesas até chocaram os


coletores de impostos que as viram.

Não seria uma surpresa se outro país quisesse usá-lo como fortaleza. Afinal, os Trolls
atacaram precisamente por esse motivo.
O outro lado ficou em silêncio por uma vez, e ambos os lados hesitaram inquietos.

“Por que você não está respondendo?! Vocês são impostores fingindo ser tropas do
Reino, não são!?”

Depois daquele grito de pânico, ela finalmente obteve uma resposta.

“...O magic caster chamado Ainz Ooal Gown veio para este vilarejo uma vez, não foi?”

A imagem do seu salvador apareceu na cabeça de Enri.

“Aquele magic caster é um inimigo do Reino. Como tal, desejamos perguntar a você, que
são conhecidos de Ainz Ooal Gown, queremos informações sobre ele.”

Surpreendida de surpresa, Enri não conseguiu falar.

No entanto — os sussurros de um dos membros da força de defesa chegaram até o ou-


vido dela.

“Se o Gown-sama é contrário ao Reino... então não é o Reino que está errado?”

Os olhos dos aldeões refletiam seu acordo.

De particular interesse foram os aldeões que se mudaram para o Vilarejo Carne depois
que suas casas originais foram queimadas. Seu ódio ao Reino por não poder defendê-los
rapidamente se transformou em respeito pelo magic caster que salvou este vilarejo.

Seja a trombeta que foi o presente que convocou os Goblins, ou a provisão dos Golems
que construíram os muros resistentes que agora os protegiam, ou a empregada (Lupus-
regina) que salvou o vilarejo quando eles foram atacados pelo Troll, todas estas ações
tinham apenas aprofundado sua confiança em Ainz.

“Deveríamos realmente abrir o portão?”

“...Mas há muitos deles. Se não abrirmos o portão...”

“Se nós o trairmos assim depois de receber sua gentileza...”

“Espera! Eles disseram que só querem nos perguntar algo. Isso não significa que esta-
mos traindo-o...”

“Você acha? Isso soa como ingratidão para mim.”

Todos os olhos estavam em Enri.


Ela entendeu bem os corações de ambos os lados. Por causa disso, Enri foi incapaz de
escolher e hesitou. Nesse exato momento, um grito de raiva veio do lado de fora do por-
tão.

“Você entende? Se sim, abra os portões agora mesmo! Se não, vocês serão tratados como
traidores do Reino!”

Empurrado ao limite, Enri gritou de volta algo para tentar ganhar tempo.

“Há excremento de vaca em todo lugar! Não podemos deixar o Príncipe entrar em um
lugar como esse!”

Após um breve silêncio, uma voz mais calma perfurou o ar.

“Oh, hum. Entendido. Então que tal isso. Nós entraremos em vez de Sua Majestade o
Príncipe. Vamos pensar sobre o que acontece depois.”

Não havia mais desculpas que ela pudesse dar.

A mente de Enri ficou completamente em branco. Não se importando com o que era, ela
gritou a primeira coisa que conseguiu pensar em resposta.

“D-desculpe! O esterco está em minhas mãos! Eu não posso deixar as coisas assim!
Deixe-me lavar minhas mãos e eu voltarei!”

“—E-ei!”

Enri observou as costas recuadas de Jugem e dos outros. Ela estava preocupada com
quanto tempo mais ela poderia comprar para eles.

♦♦♦

A frustração de Barbro atingiu seu limite. Ele olhou para o cavaleiro se reportando di-
ante dele com um olhar geralmente reservado para um inimigo.

“Repita mais uma vez, que absurdo é esse?!”

A raiva de Barbro transbordava com cada palavra que ele falava entre as lacunas de seus
dentes rangentes, e o cavaleiro se repetiu.

“Senhor! O Vilarejo Carne ainda não abriu seus portões.”

Enquanto ouvia a resposta calma do cavaleiro, Barbro se encheu do súbito desejo de


socá-lo.
No entanto, isso teria sido tolice. Barbro lutou para controlar a raiva que brotava em
seu punho.

Incluindo este cavaleiro, ninguém aqui estava jurado a Barbro. Em primeiro lugar, Bar-
bro não comandava tropas. Todo homem aqui estava sob ordens de seu suserano ou na
companhia de seu senhor. Por causa disso, ele não poderia atacar esse cavaleiro en-
quanto seus camaradas estivessem observando.

“—Por que isso? Por que esses camponeses deste vilarejo não abrem o portão? A terra
é governada diretamente pela família real! Eles têm o dever de me obedecer! Eu ordeno
que eles abram o portão agora mesmo!”

Quando sua frustração aumentava, sua agitação também aumentava, e Barbro não mais
selecionava suas palavras cuidadosamente.

“Eu não entendi! Eles pensam que sou um tolo? Que merda eles estão pensando?!”

Os aldeões eram seres muito inferiores ao Primeiro Príncipe.

Esses seres agora estavam insultando sua honra.

Quando esse pensamento me veio à mente, sua irritação nos últimos meses — todas as
pequenas coisas que frustraram Barbro desde a perturbação demoníaca — parecia ter
encontrado uma saída, e explodiu.

A represa explodiu em um instante.

“Traidores! Traidores, todos eles! Eu declaro que todos no Vilarejo Carne são traidores!”

O grito provocou uma comoção surpresa dos homens que tinham ouvido.

“Um momento por favor! Se você fizer isso...”

Barbro cheio de fúria encarou o cavaleiro em pânico que havia respondido.

Se eles designassem o vilarejo como traidores, precisariam exterminar todos e cada um


deles, depois queimariam tudo até o chão, até que nenhum traço de sua existência per-
manecesse.

Mas e daí?

O Príncipe Barbro dera suas ordens e não conseguira entender o porquê seus subordi-
nados não as seguiam. Será que esses homens do Marquês o desprezaram e, assim, recu-
saram-se a obedecer a suas ordens?
“Então, e se eu fizer?! Permitir que eles vivam depois de desobedecer a um comando
real é um pecado!”

A realeza seria desprezada se poupasse os plebeus que se rebelaram contra eles. Não os
matar acabaria por resultar em uma perda de sua autoridade.

Mesmo no território dos nobres, uma vez que qualquer um de seus servos se levantasse
em revolta, sem dúvida seriam destruídos. Esses cavaleiros do Marquês deveriam saber
disso.

“Por favor espere, Meu Príncipe! A guerra com o Império começará em alguns dias. Se
matarmos os cidadãos do domínio do Rei, isso afetará negativamente a moral de todo o
exército! Eu também rezo para que você olhe para as fortificações à nossa volta. Não há
como ser um vilarejo comum. Embora os aldeões não sejam numerosos, tentar derrubar
o portão com força bruta será difícil ao extremo. Se for esse o caso, devemos lidar com a
situação pacificamente e perguntar-lhes suas razões para não abrir o portão depois que
as coisas se acalmem aqui.”

“...Pergunte-lhes gentilmente, então. Mas eu quero alguns deles sejam responsabiliza-


dos.”

“...É inevitável. Afinal, eles mantiveram o portão fechado em desafio às suas ordens, Bar-
bro-sama.”

“Eu quero vê-los enforcados nos portões! Eles serão transformados em exemplos para
os outros!”

“É como diz.”

O Príncipe Barbro olhou para o Vilarejo Carne.

Como o cavaleiro disse, o portão robusto foi colocado em grossos muros. Dado que o
vilarejo ficava ao lado da Grande Floresta de Tob, isso poderia até ter sido intencional.
No entanto, da maneira como as torres de vigia foram alinhadas, parecia mais uma for-
taleza do que um vilarejo fronteiriço.

Derrubá-lo levaria muito tempo.

Mais de mil soldados estavam alinhados em frente ao portão, gritando para que se abris-
sem.

Se alguém escutasse atentamente, poderia ouvir os mesmos sons à distância, do portão


dos fundos.

Esses gritos eram como faíscas de uma pederneira, que reacendiam as chamas escuras
e pegajosas no coração de Barbro. Ele não estava mais agindo racionalmente.
“Ei! Atire as flechas flamejantes!”

“F-Flechas flamejantes?!”

“Isso mesmo. Quem sabe quanto tempo isso vai levar se isso continuar. Você ouça e ouça
bem, não temos mais tempo a perder neste vilarejo! Seria uma coisa se você pudesse
abrir esse portão em alguns minutos, tudo bem, mas você não pode, pode?!”

O cavaleiro mordeu o lábio e assentiu.

“Ameace-os com flechas flamejantes. O tempo para jogar jogos infantis como ficar do
lado de fora do muro gritando, acabou. Agora nós mostraremos a eles como os adultos
fazem as coisas!!”

Enquanto o cavaleiro olhava boquiaberto e estupefato, um homem surgiu do seu lado.

“Pensar que você desobedeceria a Sua Alteza... Eu não posso acreditar que você é um
dos homens do Marquês. Vossa Alteza, você permitirá que meus homens realizem esse
ataque?”

Era o Barão Cheneko. Atrás dele estavam vários dos seus colegas puxas-sacos.

O Príncipe Barbro estava feliz por aqueles homens tolos poderem ser úteis em momen-
tos como estes. Não, ele era um nobre também, e se um vilarejo em seu feudo ousasse se
revoltar, ele provavelmente teria feito a mesma coisa também. Ele pode até entender a
posição do Príncipe Barbro.

“...Justo agora. Então eu ordeno que você faça assim, Barão. Atire flechas flamejantes no
vilarejo... não, já sei algo melhor. Segmente a torre de vigia. Isso deveria evitar baixas,
não?”

“Ohh! Uma decisão tão misericordiosa! Como esperado de Vossa Alteza! Então nos ob-
serve!”

♦♦♦

“Ane-san! Estamos prontos! Todos pegaram cobertura. Somos os únicos res— o que é
isso?”

Jugem pareceu sentir uma esquisitice no ar ao redor deles e engoliu suas palavras.

Os membros da força de defesa que permaneceram aqui eram completamente opostos


um ao outro. Metade deles relutantemente a favor de abrir os portões para o exército do
lado de fora enquanto a outra metade se opunha ferozmente a ele. A raiz da disputa era
se eles trairiam ou não o herói e salvador desse vilarejo, Ainz Ooal Gown. Como resultado,
foi difícil tomar uma decisão.

“Na realidade...”

Enri estava prestes a dizer algo a Jugem quando uma voz alta veio de fora das paredes.

“—Moradores do Vilarejo Carne. Por não abriram imediatamente o portão quando foi
ordenado, o fato de serem súditos leais do Reino foi questionado. Assim, levaremos re-
presentantes de vocês para o campo de batalha, esses representantes convencerão Ainz
Ooal Gown a se render. Vocês devem provar que sua lealdade permanece com o Reino!”

A atmosfera começou a mudar. O ódio em seus corações queimava tão ferozmente que
parecia abalar o próprio ar.

Enri não foi exceção.

Era verdade que os aldeões eram cidadãos leais ao Reino. No entanto, essa lealdade em-
palideceu em comparação com a gratidão que sentiam ao homem que salvara seu vilarejo
sem nenhum encargo ou obrigação. Afinal, quando suas famílias, amigos e amados ha-
viam sido assassinados, o único que havia estendido a mão para ajudá-los fôra aquele
grande magic caster.

“Não tem como eu me deixar arrastar para o campo de batalha para entrar no caminho
de Ainz-sama!”

“Não podemos nos esconder na floresta e ver como as coisas correm antes de tomar
uma decisão!?”

Argumentos exclamados como esses ecoavam de todos os lados.

No entanto, a única coisa que eles tinham em comum era que ninguém queria fazer nada
que pudesse incomodar seu herói.

Foi nesse momento que sons estridentes chegaram aos ouvidos do lado de fora, segui-
dos pelo som de vários objetos assobiando no ar. Quando o som chegou mais perto, faixas
de luz vermelha brilhante apareceram diante de seus olhos, e flechas caíram como chuva
na torre de vigia. O som nítido das flechas perfurando a madeira encheu os ouvidos de
todos.

“...Não é possível...”

Enri respirou fundo quando percebeu que o Reino estava usando força letal sobre eles.

Felizmente, ninguém estava na torre de vigia. Eles devem saber disso antes de atacarem.
Ou talvez—
—Talvez eles tivessem atirado de qualquer maneira, mesmo que houvesse alguém lá
dentro.

“A-Ane-san! Eles não parecem estar nos atacando ainda, mas você não deve ficar no al-
cance deles! Por aqui, depressa!”

Jugem agarrou a mão de Enri enquanto ela olhava para a torre de vigia com um olhar
atordoada. Ele levou a Enri sem resistência para longe. Ela correu com ele, mas seus olhos
permaneceram colados à torre de vigia.

Assim que a força de defesa recuou, a torre de vigia começou a queimar.

O telhado de palha pegou fogo em um instante e se transformou em um fogo que ficou


mais feroz a cada segundo, e o teto desabou.

Todos no vilarejo podiam ver a destruição da torre, não importava onde eles estivessem.
Lamentos de tristeza surgiram ao seu redor. Um em especial era especialmente alto.
Quando a respiração de Enri se tornou caótica devido a esse trauma revisitado, ela viu o
homem que gritara mais alto, cuja voz carregava mais angústia.

Ele era um homem que se mudou para o vilarejo.

Seu rosto era uma mistura de partes iguais de ódio e desespero. Ela olhou em volta, e
muitos dos imigrantes tinham expressões semelhantes em seus rostos.

Enri se lembrou.

Ela lembrou que seus vilarejos haviam sido queimados de maneira semelhante.

Um homem gritou:

“Eles são o inimigo! Eles são o inimigo! Se eles não fossem o inimigo, eles não estariam
fazendo isso! Eu quero lutar contra eles!”

“Que o Reino vá para a puta que o pariu! Eles são gentalha que nem sequer nos ajuda-
ram! E agora eles querem queimar este lugar também?!”

Tal grito veio de uma mulher gorducha.

“Eu não vou perdoá-los por isso! Se eles querem me matar, vão em frente! Posso morrer,
mas vou levar muitos desses desgraçados comigo! Eu vou me vingar por ele!”

Um jovem seguiu com um grito de guerra próprio.

Loucura e ódio saturavam o ar, graças em grande parte às flechas flamejantes.


“...Ane-san. É hora de tomar uma decisão.”

O Jugem foi tão duro quanto o aço, enquanto entregava silenciosamente seu ultimato.

“Eh? ...Mas eles estão tão bravos que não “conseguem pensar direito. Não devemos es-
perar antes de tomar uma decisão?”

“Não há tempo. E ninguém pode garantir que eles não fiquem loucos. É melhor se você
decidir o que o vilarejo vai fazer agora.”

Essa foi uma sugestão razoável. O exército já havia destruído a torre de vigia com flechas
flamejantes. Na próxima vez, eles provavelmente fariam algo pior. Eles não podiam hesi-
tar por um momento.

Quando Enri desesperadamente se agarrou a sua determinação, ela respirou fundo. Ela
olhou brevemente para Nfirea, que segurava a mão de Nemu, e eles acenaram para ela,
como se estivessem encorajados.

Seu peito estava um pouco mais quente.

Essa foi a dose final de coragem que Enri precisava.

“Todos! Eu quero que todos aqui decidam o que nós, como um vilarejo, vamos fazer!
Qualquer que seja a decisão, espero que vocês cumpram isso!”

Um grande coro de aprovação veio como resposta.

“Levante a mão a todos que desejam que o vilarejo faça o que o Reino diz!”

Nenhuma mão foi levantada.

Enquanto seu coração batia fortemente em seu peito, Enri gritou mais uma vez.

“Então! Todos que querem lutar contra o Reino até o último suspiro, mãos para cima!”

Com um rugido estrondoso, inúmeras mãos subiram ao mesmo tempo. Eles não apenas
levantaram as mãos; seus punhos estavam cerrados. Os olhares em seus rostos mostra-
ram sua determinação em resistir até o fim.

Claro, eles estavam com medo. Mas isso era apenas esperado. Todos aqui escolheram
um caminho que terminaria em suas mortes. Mesmo assim, havia algo que motivou todos
os que superaram o medo da morte.

Era o desejo de não retribuir a gentileza e socorro que recebiam com traição.
“Então — vamos à luta! Nós todos vamos lutar! Nós vamos pagar a dívida que devemos!
Jugem-san! Deixarei o plano de batalha para você!”

Jugem rapidamente avançou para ficar ao lado de Enri.

“...Eu vi sua determinação. Todos vocês morrerão aqui. Vocês estão bem com isso?”

As palavras do veterano foram recebidas com aprovação unânime.

“Vocês podem gritar tão alto apesar de seus rostos pálidos. Magnífico... No entanto, la-
mento cortar o seu barato depois de todos vocês proclamarem em voz alta sua disposição
de lutar até o fim. Vocês não deveriam deixar os jovens fugirem primeiro? Afinal, se al-
guém vai morrer, deve ser nós e os veteranos.”

Um homem mais velho falou.

“Ele tem razão — mas isso não é impossível? Eles têm homens fora dos dois portões.
Mesmo se nós escalássemos as paredes, eles nos veriam imediatamente.”

“Bem, isso é verdade... mas só se estivéssemos fugindo normalmente.”

Jugem sorriu maldosamente enquanto continuava.

“Não podemos nos esconder e depois correr. Então, o que faremos é abrir o portão prin-
cipal e atrair o inimigo para dentro. Quando eles ficarem convencidos e entrarem, nós os
acertaremos com força. Se conseguirmos causar danos suficientes, o inimigo reunirá suas
tropas dispersas e se concentrará em nós.”

Jugem olhou em volta.

“Dito isso, o inimigo pode saber que é uma armadilha. Mesmo assim, enquanto tivermos
poder de ataque suficiente, o inimigo não terá escolha a não ser reunir suas tropas. Al-
guma pergunta?”

“Não é sobre isso, mas Jugem-san, para onde eles deveriam fugir?”

“Isso não é óbvio, Ane-san? Na Grande Floresta de Tob. Vou designar o Agu e Britta, que
conhecem a floresta, para o grupo de fuga. Tenho certeza de que podemos administrar
por um tempo sem eles por perto.”

Os aldeões já haviam se preparado para a morte, mas era natural que não quisessem
que seus filhos perecessem com eles. Sabendo que seus filhos tinham a chance de sobre-
viver, isso inflamou ainda mais seu espírito de luta.

Quando Jugem viu, dirigiu-se a eles com uma expressão sombria no rosto.
“Ouçam. O primeiro ataque é uma batalha para fazer o inimigo consolidar suas tropas.
O segundo ataque será uma batalha para esgotar sua força de combate, para que eles não
tenham mais sobrando. Quanto mais feroz for essa batalha, maiores serão as chances
para os que estão fugindo.”

“Hahahaha! Isso é tudo! Ahhhh, bem, isso é um alívio.”

Essas palavras foram acompanhadas por várias risadas. Essas risadas não nasceram do
desespero ou da loucura — foi apenas uma risada simples e relaxada.

“Enquanto minha mulher e meus filhos puderem ser salvos, não terei arrependimentos.
Agora é a hora de retribuir a gentileza que Ainz Ooal Gown-sama nos mostrou!”

“Ah, isso mesmo! Eu não quero ficar velho e lembrar que usei alguma desculpa esfarra-
pada só por ser pai!”

“Então... quem vai estar na equipe de fuga?”

Jugem olhou atentamente para todos quando ele respondeu à pergunta de Nfirea.

“Você e o Ani-san serão responsáveis por proteger as mulheres e crianças. Então, como
eu disse antes, precisaremos da Britta, Agu e dos outros Goblins para ajudar a guiá-los
pela floresta.”

“—Eh?”

Enri exclamou em surpresa.

Como chefe do vilarejo, ela tinha a obrigação de ficar com os outros. Já que ela ordenou
que os aldeões morressem, então ela não podia fazer nada menos do que ficar ao lado
deles enquanto eles lutavam. Mesmo assim, os aldeões falaram antes que Enri pudesse
responder.

Todos concordaram com Jugem. Assim como Enri estava pensando em como recusar,
eles já haviam chegado a uma decisão sem consultá-la.

“Enri-chan, eu conto com você.”

“Por favor, cuide dos meus filhos. Minha esposa morreu naquela época... mas pelo me-
nos as crianças...”

As mãos dos aldeões estavam cheias de seus pensamentos e sentimentos quando eles
apertaram as mãos de Enri. Os olhos de Enri ficaram quentes e úmidos, e então Nfirea se
aproximou dela.
“Enri, vamos embora. Nossa batalha começa depois que sobrevivermos, e essa é uma
batalha que não podemos perder. Além disso, Ainz Ooal Gown-sama pode vir nos salvar
novamente. Quando chegar a hora, será melhor se estivermos por perto, como os que
puseram os pés no domínio dele.”

“Ele está certo, você sabe.”

“Jugem-san...”

“Aquela trombeta que você usou para nos chamar... acho que você deveria usar o último
depois, não acha? Se você o usasse agora, seria como tentar apagar uma casa em chamas
com um copo de água. Seria melhor se você assoprar depois que isso acabar e convocar
mais de nossos camaradas para ajudá-la.”

Enri enxugou os olhos, cheios de lágrimas.

“Entendi! Eu protegerei as esposas e filhos de todos! Vamos! Enfi!

♦♦♦

Um dos lados do portão se abriu devagar.

“Como eu pensava, deveríamos ter usado as flechas flamejantes desde o começo. Bem,
as flechas flamejantes subsequentes foram desperdiçadas...”

O rosto do Príncipe Barbro se contorceu de desgosto. Eles tinham perdido muito tempo.
A fim de compensar o atraso, os homens precisariam ser forçados a marchar. Mas isso
foi inevitável.

Isso foi tudo culpa dos homens do Marquês. Se ele não tivesse dado a ordem de usar
flechas flamejantes, quem sabia quanto tempo mais teria sido desperdiçado?

Barbro olhou para o céu, amaldiçoando sua desgraça por estar sobrecarregado com su-
balternos incompetentes.

Ele considerou o tempo que seria necessário mais tarde — a primeira coisa sendo
quanto tempo levaria para enforcar os aldeões.

Ele os penduraria nos muros do vilarejo, para mostrar a todos o destino final de qual-
quer um tolo o bastante para desafiar a família real.

Em seguida, ele deveria encontrar alguém que tivesse laços estreitos com Ainz Ooal
Gown. Isso pode demorar mais do que enforcar os aldeões.

“Droga. Eu deveria ter trazido um interrogador. Ofereceremos poupar a vida de qual-


quer pessoa que coopere... o problema são as crianças...”
Não havia sentido em deixá-los viver. Para começar, as crianças não poderiam viver sem
os pais, então enforcar os filhos assim como os pais seria uma forma de misericórdia.

“Existe corda suficiente para todos eles? Se pudéssemos arranjar um pouco aqui, seria
bom...”

Os soldados avançaram lentamente até o portão. O orgulho encheu o peito do Príncipe


Barbro quando ele viu a bandeira real avançando na liderança. Quando ascendesse ao
trono, ele se certificaria de ter guardas cerimoniais assim.

O soldado que segurava a bandeira entrou no portão — e foi então arremessado de volta
para fora.

A bandeira real que ele segurava flutuou para o chão.

Pouco depois, as gigantescas criaturas que as enviaram voando apareceram na abertura


do portão.

“O-o-ogros?! O que o Ogros está fazendo aqui?!”

O desenvolvimento completamente inesperado pegou o Príncipe Barbro de surpresa, e


ele havia esquecido a dignidade da família real quando gritou.

Sim. Aqueles eram os demi-humanos conhecidos como Ogros. Os soldados ficaram tão
chocados com a aparição repentina quanto Barbro. Seus poderosos tacapes enviavam
várias pessoas voando a cada balanço.

Em meio a um borrifo de tripas e sangue, os soldados atingidos voaram para longe e


atingiram o solo, o que despertou o estupor em seus companheiros de tropa. Eles entra-
ram em pânico, deram meia-volta e começaram a fugir desesperadamente. Vários outros
Ogros apareceram atrás do portão, como se quisessem persegui-los.

Enquanto os soldados caíam em uma desgraça, foram atingidos pelos tacapes dos Ogros
e foram enviados voando. Os soldados pareciam bonecas sendo jogadas em direção ao
céu.

A razão do vôo deles — porque isso não tinha procedimento conciso de retirada —, era
porque esses soldados eram todas as tropas do Barão. Eles haviam soltado as flechas
flamejantes para fazê-las se abrirem mais rápido, e Barbro lhes dera a honra de ser o
primeiro a entrar no vilarejo. Quem poderia ter pensado que o tiro teria saído pela cula-
tra?

Assim que o príncipe Barbro estava prestes a franzir a testa para o Barão, que havia
abandonado os próprios homens e voltado correndo para ele, o som de um berrante
ecoou pelo ar.
Os cavaleiros do Marquês levantaram suas lanças ao mesmo tempo. Foi uma moção de
livro didático que mostrava que eles sim eram soldados profissionais. No entanto, os ho-
mens estavam fugindo e os Ogros estavam em perseguição, e parecia difícil para eles
mergulharem no caótico campo de batalha antes.

Lanças eram armas que mostravam seu poder durante uma investida. Os soldados não
poderiam tirar proveito disso em um tumulto campal.

“Por que você não está atirando ainda?!”

Barbro gritou.

Permitir que os Ogros se aproximassem apenas aumentaria as perdas que eles teriam.
Seria melhor abandonar esses soldados e matar seus companheiros juntamente com os
aldeões.

Assim que o agravamento de Barbro começou a aumentar, os Ogros começaram a recuar.


Eles usaram os soldados em fuga como escudos de carne, impedindo a cavalaria de per-
seguir, e no final eles passaram pelo portão, voltando para o vilarejo.

Os homens de Barbro receberam os sobreviventes e depois começaram a se reorganizar


em uma formação de batalha adequada. Ele segurou suas rédeas corretamente.

Ele tinha planejado originalmente terminar essa missão chata rapidamente, e depois
correr de volta ao campo de batalha para ganhar glória na batalha contra o Império.

Agora, essa bagunça desenfreada foi tudo o que restara de seu sonho de agora a pouco.

Mesmo eles não esperando que haveria Ogros no vilarejo, se eles simplesmente se reti-
rassem para E-Rantel sem nada para mostrar, sua reputação iria despencar ainda mais.
Não haveria como competir com Zanac, o Segundo Príncipe e o sucessor substituto, na
corrida ao trono.

Ou será que — tudo isso já havia sido planejado de antemão?

Ele não pôde evitar estalar a língua, sabendo que os olhos dos nobres ao redor estavam
sobre ele.

No entanto, ele não teve tempo para fingir que estava calmo. Barbro ficou de olho no
cavaleiro que corria na direção dele. Ele era o comandante das tropas de elite do Marquês.

“...Que porcaria foi essa? Esse vilarejo foi tomado por Ogros? O que está acontecendo?!”

“Eu não sei, senhor. Ninguém esperava que houvesse monstros lá... creio que este vila-
rejo foi visitado por coletores de impostos recentemente. Mas não recebemos nenhuma
notícia de que Ogros haviam tomado controle. Bem, se eles viessem e não retornassem
já teríamos suspeitas... mas que droga está acontecendo nesse vilarejo...”

Ele podia sentir a confusão nas palavras do cavaleiro. Se havia um esquema para fazer
com que Barbro perdesse sua dignidade e caísse em uma armadilha, ele provavelmente
também não estava ciente disso.

Sendo esse o caso, ele estava do lado do Príncipe, em certo sentido...

“De qualquer forma, não sabemos o suficiente sobre o inimigo. Bem, isso é apenas espe-
rado. Apenas cinco Ogros apareceram. Se eles tivessem mais, eles teriam continuado nos
atacando. Então, com toda probabilidade, eles provavelmente não têm mais de dez no
total. Você deveria ser capaz de derrubar cinco Ogros, não?”

“Claro! Cada um de nós é tão forte quanto um membro do bando guerreiros do Reino.
Apenas cinco Ogros não são nada para nós!”

“Eu não estou duvidando de você. Eu só estou dizendo, você precisa estar atento. Ogros
são monstros estúpidos, mas suas ações agora eram inteligentes demais. Eles abriram a
porta para nos atrair, e depois contra-atacaram com um timing perfeito. Parece que o
outro lado tem um comandante. Se um dos aldeões os estivesse liderando...”

“Perdoe minha grosseria. Nenhum mero camponês poderia controlar um Ogro. Eu acre-
dito que deve haver alguma outra força trabalhando aqui. Se pudéssemos aprender mais
sobre o inimigo—”
Barbro não conseguia mais controlar sua impaciência.

“Sobre o que você está falando? Olhe ali!”

Barbro apontou para o portão, para os trapos esfarrapados que costumavam ser uma
bandeira real.

“A bandeira do país está agora naquele triste estado. Você vai destruir esse vilarejo, não
importa o custo. Reúna suas tropas, solte flechas flamejantes e queime até as cinzas esse
lugar. Agora é a chance de colocar sua experiência de cerco em bom uso! Parece que não
podemos terminar isso sem perdas. Então você vai atacar com a intenção de desintegrar
esse vilarejo!”

“Por favor, espere! Pode ser que algum Ogro que conheça magia ou algum outro demi-
humano inteligente possa ser o mentor aqui, e não os aldeões!”

“E se esse fosse o caso, e daí?”

Barbro olhou para o rosto surpreso do cavaleiro e começou a explicar-lhe lentamente,


como um adulto que fala com uma criança.
“Você está ouvindo? Ótimo. Não importa se os aldeões controlam os Ogros, ou se eles
são controlados por algum demi-humano inteligente. Esses aldeões se rebelaram contra
o legítimo governante de sua terra, a família real. Sendo esse o caso, devemos mostrar as
consequências de tal tolice para todos.”

“Mas, pode haver alguns aldeões sendo mantidos como reféns; eles não são inocentes?!”

“Você estava ouvindo o que eu disse antes? Quem se importa se eles são?”

Barbro encolheu os ombros para o cavaleiro, que parecia ter dificuldade em aceitar o
que acabara de ouvir.

“Certo, eu entendi. Eu entendo como você se sente. Então mostrarei a maior quantidade
de leniência possível. Capture os aldeões que não resistirem e depois os colocaremos em
julgamento mais tarde. Isto é melhor?”

“Entendido, senhor!”

O cavaleiro inclinou-se profundamente para Barbro. Depois de ouvir sua resposta vigo-
rosa, Barbro assentiu em aprovação.

“No entanto, tenho uma condição. Eu quero uma vitória esmagadora. Se levarmos per-
das aqui, todo tipo de fofoca se espalhará. O mesmo vale para você. As pessoas vão falar
sobre como o trunfo do Marquês foi enviado para um vilarejo miserável para ser massa-
crado.”

“Mas isso foi por causa dos Ogros—”

“—Não use isso como desculpa. É assim que o mundo funciona.”

“Entendido!”

“Se você entende, então comece a trabalhar. Pegue as tropas do portão traseiro. Ao
mesmo tempo, corte as árvores da floresta e comece a fazer aríetes. Vou deixar os deta-
lhes para você. Minimize as baixas, garantindo a vitória. Mate qualquer um que fugir.”

♦♦♦

Um fluxo constante de potes cheios de óleo impactou nas laterais do muro, seguido por
flechas flamejantes.

Os impactos explosivos foram comparáveis à explosão de uma 「Fireball」, criando


chamas vermelhas brilhantes que emitiam plumas infinitas de fumaça negra.

Jugem podia sentir o desconforto que irradiava dos membros próximos da força de de-
fesa. O líder dos Goblins levantou sua espada mágica e rugiu.
“Esperem! Chamas como essas não podem violar este muro! Quanto à defesa do por-
tão—”

*Doom*

O som de um impacto pesado veio do lado de fora do portão.

Os muros eram muito mais grossos e maiores do que a torre de vigia, que agora estava
em cinzas. Mesmo quando atingidos por flechas flamejantes, eles não pegaram fogo facil-
mente. Como tal, eles concluíram que isso era apenas uma manobra para chamar a aten-
ção de seu objetivo real, que era a violação o portão. Parece que esta foi a decisão certa.
Mais uma vez, um grande baque veio do portão.

Foi um som mais profundo e mais poderoso do que os impactos dos tacapes dos Ogros.
Era o som das armas de cerco — provavelmente o bater de aríetes.

”Disparar!”

Em sincronia com o grito de Jugem, os aldeões dispararam suas flechas com facilidade
vinda da prática.

Gritos de dor emergiram do outro lado do muro. No entanto, os aríetes não pararam.
Eles devem ter usado vários aríetes em um ataque sequencial.

“Disparar!”

Mais uma vez, as flechas voaram no comando de Jugem. No entanto, desta vez, eles fo-
ram respondidos por flechas do inimigo. Várias vezes o número de flechas que soltavam
caía sobre o vilarejo como uma chuva negra.

No entanto, nem uma única atingiu os defensores.

O ataque inimigo tinha sido uma série de tiros, assim todos haviam errado, acertando
inofensivamente nas paredes e edifícios. No entanto, o inimigo tinha mais arqueiros que
eles, e sua precisão estava aumentando lentamente. Se eles não pudessem redefinir a
precisão deles para zero mais uma vez, as consequências seriam graves.

“Recuar! Recuar! Mudar posição!”

Os aldeões obedeceram a Jugem, que ainda podia se fazer ouvir apesar de seu tom mais
baixo. Eles rapidamente mudaram sua localização.

Até o momento, os aldeões só aprenderam a atirar em posições fixas. Seu objetivo era
atingir com precisão a área do lado de fora do portão principal. Assim, quando a situação
permitia, sua precisão ficava bastante alta, mas se fosse ao contrário, quando precisavam
se deslocar para um local desconhecido, suas flechas não mais atingiam bem suas marcas.

Lutar uma batalha à distância agora seria muito difícil.

“Preparar lanças! Estamos nos aproximando do combate!”

Um barulho alto veio do outro lado do muro. Soava como algo metálico batendo na pa-
rede, completamente diferente dos golpes dos aríetes. Com toda probabilidade, era o som
dos machados, e eles vinham de todos os lugares.

A quantidade era uma qualidade própria. Eles poderiam usar os ataques no portão ou
no muro como chamarizes para atacar de uma direção completamente inesperada. Se
Jugem fosse o comandante do outro lado, ele também faria isso.

Assim como planejado... parece que a situação está indo bem e o inimigo está se disper-
sando.

A maioria das estratégias de ataque convencionais seria inútil diante da superioridade


numérica da oposição. Para os aldeões de Carne, sua melhor aposta seria corroer cons-
tantemente a força de luta de seus inimigos.

Quando a formação do inimigo enfraquecesse, eles poderiam atacar do vilarejo a qual-


quer momento. Idealmente, eles cobrariam o comandante inimigo em uma formação de
escama de peixes. Dessa forma, o inimigo em pânico iria imediatamente consolidar suas
tropas.

Trazer os Ogros de volta ao meio do caminho fez parte dos preparativos para aquele
evento. Mesmo que os Ogros pressionassem o ataque sozinhos, seria difícil para eles fa-
zer o inimigo entrar em pânico e atingir seu objetivo de atrair as tropas do portão dos
fundos para a frente.

Uma vez que eles puxam seu pessoal de volta, nós estaremos cercados sem saída... Eu acho
que isso é o que significa entrar na garganta do Dragão...

Em outras palavras, essa era uma tática suicida.

Mesmo assim—

“Bem, já alcançamos metade de nossos objetivos.”

Jugem murmurou alegremente para si mesmo enquanto sua linha de visão se movia
para o portão traseiro obstruído.

Ele já havia preparado uma rota de fuga para sua mestra com a maior probabilidade de
sobrevivência. Não havia mais nada para se preocupar. Pode ser cruel dizer isso, mas
mesmo que todos os moradores daqui morressem, o inimigo não saberia quantos haviam
sobrevivido e Enri permaneceria envolta em uma mortalha de mistério.

Proteger Enri estava em primeira e mais alta prioridade para Jugem. Ele pagaria qual-
quer preço por isso e não se arrependeria nem um pouco. Assim sendo—

“Todos! Esperem o portão cair! Nós faremos uma investida! Nosso alvo é a sede inimiga!
Nossa única chance de sobrevivência é matar o chefe deles!”

”Ohhhh!”

Uma série de uivos determinados lhe respondeu. Houve uma leve oscilação em algumas
das vozes, mas ninguém parecia que ia recuar.

Tudo o que restava era a coragem crua dos homens que estavam lutando para proteger
seus filhos e suas amadas.

♦♦♦

Enri e Nfirea desceram da torre de vigia traseira, levando as mulheres e crianças para a
área em frente ao portão dos fundos. A avó de Nfirea, Lizzie, não estava lá, porque ela
estava escondendo todos os produtos alquímicos que Ainz havia emprestado.

Ela não teria tempo para escapar, mas já aceitara seu destino.

“Não se preocupe! Não tem ninguém por perto! Abrimos o portão agora e vamos para a
floresta!”

As crianças reunidas, rostos pálidos de medo, assentiram desesperadamente.

Enquanto isso, Nfirea e Britta giravam a maçaneta, abrindo devagar um dos lados do
portão.

No momento em que abriram o portão, Enri esticou a cabeça para olhar em volta. Não
havia ninguém por perto. Ela olhou para a torre de vigia, não havia tropas à vista. O plano
de Jugem foi bem-sucedido.

“Então vamos!”

Os primeiros a sair foram Agu e seus membros da tribo dos Goblins. Se eles estivessem
emboscados na floresta, eles esculpiriam um caminho sangrento através de seus inimi-
gos. Em seguida foi Britta. Seu trabalho era identificar soldados que Agu não via.

A equipe pioneira levava as crianças em consideração e desacelerou enquanto corriam


para a floresta. Atrás deles, as crianças os seguiam em pares. As mães acompanhavam as
crianças enquanto corriam. Crianças sem pais seriam levadas por crianças mais velhas.
No final, estavam Enri e Nfirea, que se entreolharam e correram.

Mesmo depois de sair do portão, a floresta ainda estava longe. A distância parecia várias
vezes mais longa do que realmente era.

Eles freneticamente bombeavam as pernas para manter o ritmo da corrida.

Ainda estava longe.

Ainda havia uma distância a percorrer.

Só então, eles ouviram cavalos atrás deles.

Recentemente, a resistência cardiovascular de Enri tinha sido tão bem desenvolvida que
até ela achava estranho. Ainda assim, seu coração estava batendo e sua respiração estava
em desordem. O medo a levou a olhar para trás, e lá ela vislumbrou algo que não podia
acreditar que estivesse ali — desespero.

“Impossível...”

Mais de 100 cavaleiros montados apareceram atrás deles. Deviam estar escondidos nos
pontos cegos da torre de vigia ou perto dos muros. Eles só tinham surgido porque tinham
certeza de que ninguém mais sairia.

Era uma longa distância do vilarejo para a floresta. No entanto, havia uma enorme dife-
rença entre as velocidades de cavalos e humanos.

Talvez Agu e Britta pudessem fugir. Mas era impossível para as crianças. Eles seriam
alcançados.

Os cavaleiros seguravam objetos reluzentes em suas mãos. Não havia dúvida de que eles
estavam planejando feri-los por trás. As lembranças assustadoras do passado a fizeram
estremecer. Embora Nemu estivesse correndo na frente da fila, era duvidoso que ela
fosse capaz de escapar.

“Enri, continue correndo!”

Nfirea havia parado.

“Enfi!”

“Eu vou comprar algum tempo!”

“Está maluco!? Não pense que será como da última vez que a Lupusregina-san salvou
você no último momento!”
“Apenas corra!”

O grito de raiva de Nfirea foi dirigido a Enri, que também havia parado.

“Se você quer ganhar tempo, eu tenho um jeito melhor!”

Enri retirou a trombeta velha e surrada do bolso.

Só poderia invocar 19 Goblins. Embora não fossem numerosos, cada um deles ainda era
bastante forte. Deve ser o suficiente para comprar algum tempo.

“Idiota! Há muitos deles! O que você pode fazer com menos de vinte?!”

Ela não podia argumentar contra o raciocínio de Nfirea. O inimigo certamente circularia
em volta dos Goblins e atacaria. No entanto, não assoprar a trombeta seria ainda mais
estúpido.

“E o mesmo não vale para você?”

Enri não tinha mais tempo a perder ao conversar. Ela colocou a trombeta nos lábios.

—Goblin-sans! Por favor me ajude!

O que soou foi uma nota grave e profunda, que fez a própria terra tremer.

Os olhos de Enri se arregalaram com o que ela fez. No passado, quando ela convocou
Jugem e os outros, tudo o que ela conseguiu foi um som suave. Tudo o que ela deveria ter
conseguido fazer seria um barulho digno de algum brinquedo simplório infantil.

“En-Enri...”

Enri percebeu Nfirea em pânico, mas ele não estava olhando para ela, olhava para além
e atrás dela. Ela seguiu a linha de visão de Nfirea e virou o rosto.

Os cavaleiros estavam atacando diretamente, e Enri e Nfirea não deveriam ter tido o
luxo de se afastar. No entanto, por algum motivo, os cavaleiros estavam puxando as ré-
deas para deter seus cavalos. Devido à parada repentina, alguns até caíram de suas mon-
tarias.

Enri olhou para trás e—

“—Eh?”

“Eh?”
♦♦♦

Muitos itens em YGGDRASIL podem ser nomeados livremente pelos jogadores. No en-
tanto, poucos foram exceções à regra. Entre eles estavam artefatos, produtos acabados
que caíam de monstros.
[Trombeta d o General G o b l i n ]
Um desses artefatos foi o Horn of the Goblin General.

A trombeta era um item pequeno e simples, mas havia uma peculiaridade curiosa sobre
isso.

Só poderia invocar 19 Goblins. No entanto, os Goblins convocados eram tão fracos que
nem sequer se qualificaram como oposição credível para um jogador de YGGDRASIL. En-
tão, por que tal item receberia o nome grandioso de “General”? Não seria incomum
chamá-lo apenas de “Horn of the Goblin”.

A verdade é que muitos jogadores de YGGDRASIL pensavam assim. No entanto, nenhum


deles poderia pensar em uma razão convincente e, no final, eles simplesmente o escre-
veram como apenas um nome.

No entanto, havia um motivo para esse nome.

E esse motivo era—

♦♦♦

Jugem balançou a espada mágica que tirara do Gigante do Leste. O soldado bloqueou o
golpe que ele fizera com toda a força. No entanto, ele não conseguiu neutralizar total-
mente a força do golpe e perdeu o equilíbrio por um momento. Normalmente, Jugem te-
ria imediatamente emendado outro golpe, mas os outros soldados que o atacavam não o
deixavam fazê-lo.

Eles flanqueavam Jugem de ambos os lados, a fim de cobrir o soldado que havia se
aberto.

Estalando a língua, Jugem passou a espada pelo ar como uma extensão de seu próprio
corpo, aparando os dois golpes de espada.

“...Esse Goblin é muito bom. Ele está realmente segurando três de uma vez.”

“Que camarada inacreditável. Eu não sabia que Goblins poderiam ser tão fortes.”

Jugem podia sentir que seus oponentes ainda não estavam no limite, o que o preocupava.
Se ele lutasse contra esses soldados um a um, ele poderia ganhar. Se ele lutasse com dois
ao mesmo tempo, seria uma questão de sorte. Três de uma só vez significava que ele
provavelmente perderia. E agora—

Ainda havia outro soldado circulando atrás dele. Jugem deu um pequeno passo para trás.

—Estava lutando contra 4 soldados, Jugem não tinha esperança de vitória.

Seus primeiros oponentes foram alguns soldados fracos, que ele rompeu facilmente.

Os bravos guerreiros do Vilarejo Carne romperam as linhas de batalha do Reino em uma


formação de escama de peixes.

Mas então, oponentes fortes começaram a aparecer, como se o terreno tivesse mudado.
Seu equipamento era de alto padrão. Provavelmente as tropas de elite do exército ini-
migo.

Embora eles estivessem perto do quartel-general inimigo agora, sua formação não pa-
recia muito densa.

No entanto — ainda era dura.

Ele desviou sua atenção dos quatro e observou sub-repticiamente os arredores. Os


Goblins sob ele haviam sido lentamente dominados por números superiores.

Ele era mais forte e mais parrudo que seus oponentes... mas por outro lado, essas eram
suas duas únicas vantagens — muito parecidos com os Ogros. Tudo o que ele podia fazer
era ver seus oponentes fazendo provocações.

Várias pessoas do Vilarejo Carne já haviam morrido. Mesmo que os Goblins tenham so-
frido o impacto dos ataques nas bordas da formação, os inimigos eram numerosos de-
mais, e era impossível bloquear todos os seus ataques. Invariavelmente, o inimigo en-
trava e, quando isso acontecia, alguém caía.

Era uma estratégia imprudente desde o começo e esse resultado era apenas esperado.

No entanto, Jugem queria acreditar que isso poderia não ser o caso.

E neste momento—

Ele não conseguiu bloquear totalmente a espada, e sofreu um corte.

“Cheh!”

Jugem balançou sua espada, forçando seus oponentes a recuar.


“Vocês, quem são vocês? Não são fazendeiros comuns, eu aposto.”

Jugem estava no nível 12. Com isso em mente, seu oponente atual era aproximadamente
nível 10, ou talvez 11. Os outros três poderiam ser de nível 9.

Um aldeão comum era de nível 1. Talvez alguns dos membros treinados do Vilarejo
Carne estivessem no nível 2. As tropas que acompanhavam os coletores de impostos de
E-Rantel ficavam abaixo do nível 3. Isso significava que os soldados que ele estava com-
batendo agora eram muito fortes.

Como um aparte, era difícil julgar com precisão a força de Enri e Nfirea porque eles não
eram guerreiros, mas eles eram fortes à sua própria maneira.

“Esse Goblin... não, é um Hobgoblin? Ou é natural encontrar adversários fortes como


esse?”

“Mas eles dizem que os Hobgoblins são maiores... é um Rei Goblin? Talvez esses caras
tenham assumido o controle do vilarejo pela força... mas se esse fosse o caso, por que os
aldeões lutariam tanto?”

“Haaaa! Humanos tem a mente vazia. É porque temos reféns! Você não entende?”

“Ele deve estar mentindo. Eles não lutariam por um motivo tão ruim. Em vez disso, eles
te esfaqueariam pelas costas. Eu posso sentir que há algo como uma camaradagem entre
vocês que vai além das barreiras raciais. Por quê? Por que humanos e Goblins lutariam
lado a lado?”

“Como se eu soubesse, idiota!”

“Parece que eu estava certo sobre eles serem companheiros afinal; de outra forma—”

“Ahhhh, cala a boca! Intrometidos como você me irrita!”

Jugem balançou a espada de novo mais uma vez.

Mas o resultado foi o mesmo de antes.

O soldado poderia aguentar o golpe, mas ele não poderia segurar completamente a força
transmitida.

O equilíbrio do soldado fraquejou, mas quando Jugem quis completar com outro golpe,
ele foi interrompido pelos ataques direcionados a seus órgãos vitais vindo de ambos os
lados.

Com isso em mente, Jugem decidiu evitar os golpes.


Os ataques foram destinados às partes não armadas de seu corpo, criando assim mais
cortes.

Em vez de dor, tudo o que Jugem sentia era calor saindo de dois pontos em seu corpo.

Jugem rangeu os dentes e ativou sua habilidade especial. Sua espada mudou de direção,
golpeando o soldado que o golpeou de lado.

”「Goblin Blow」.”

O poderoso golpe se partiu através dos pontos fracos da cota de malha do soldado e
causou uma ferida dolorosa na carne abaixo.

Neste momento, o soldado começou a se contorcer.

Este era o poder mágico da grande espada — veneno. No entanto, parece que seu ad-
versário resistiu parcialmente e não perdeu o espírito de luta.

Jugem não estava distraído, mas ele ainda não conseguiu evitar o golpe de espada que
veio de trás dele.

Embora seu peitoral mostrasse que sua ferida não havia sido grave, seu corpo gemia do
golpe de espada.

“Merda!”

“Essa é a nossa fala! Você entendeu Bike!”

“Bike, recue. Fique atrás dele!”

Durante o tumulto selvagem, havia mais oponentes do que apenas esses quatro. Alguns
tentaram atacar Jugem e foram cortados no momento em que entraram em seu alcance.
A julgar pelo seu equipamento precário, eles provavelmente eram agricultores recruta-
dos.

Mesmo assim, havia muitos deles. Ficar em desvantagem era realmente injusto.

“Recuem! Esse Goblin é forte! Se afastem! Nós vamos cuidar dele. Você vai lidar com os
aldeões por trás dele!”

“E acha mesmo que vou deixar?”

Jugem rosnou para os recrutas e brandiu a espada. Intimidados por ele, eles recuaram.

O calor que ele estava sentindo em seu corpo estava lentamente se transformando em
dor.
Havia uma lição no treinamento de um guerreiro que era mais importante que a esgrima
e, isso seria suportar a dor. Outro segredo era dizer quanto dano ele havia sofrido, que
era como ele saberia quando fugir.

Ele sentiu que ainda podia lutar, mas sabia que estava pressionando seus limites. Era de
se adivinhar quanto tempo ele poderia aguentar.

Outro bravo guerreiro do Vilarejo Carne encontrou seu fim no canto do olho de Jugem,
a terra bebia seu sangue.

Eles nunca tiveram a chance de vitória desde o começo, mas agora a derrota deles era
inevitável.

Mesmo assim, ele ainda precisava ganhar tempo para que Enri e os outros fugissem. Ele
não podia se permitir morrer até então.

—Meu objetivo é o acampamento inimigo.

—Eu vou para lá sozinho.

Talvez seja porque ele tivesse visto a determinação de Jugem, mas o soldado à sua frente
se enrijeceu.

Nesse momento, Jugem agarrou sua espada, preparando-se para uma investida. Um
grande clamor lavou o campo de batalha. Jugem olhou para onde os olhos de seu opo-
nente estavam apontando, e ele não conseguiu não desviar o olhar.

Isso foi porque do lado do Vilarejo Carne—

♦♦♦

—O motivo era simples. Seu verdadeiro poder não era simplesmente uma questão de
invocar 19 Goblins.

Em YGGDRASIL, este item não pôde revelar seu verdadeiro valor e era descartado como
lixo.

No entanto, neste Novo Mundo, este item estava prestes a liberar seu verdadeiro poder.

Vamos repassar o nome do item mais uma vez.

“Horn of the Goblin General”.

Seu verdadeiro poder, só seria revelado quando três condições fossem satisfeitas, e es-
sas três foram—
Parte 3

O som poderoso e rítmico dos tambores veio do lado do vilarejo, enchendo todo o campo
de batalha. Todos os olhos que foram para a fonte do som se alargaram no instante se-
guinte. Isso porque um exército de mais de 5.000 pessoas estava se movendo em forma-
ção de passo a passo, avançando no tempo com a batida dos tambores.

No início, as forças do Príncipe Barbro e os defensores do Vilarejo Carne pensaram que


eles eram reforços do lado de Barbro, a única diferença era se eles esperavam ou não tal
apoio. No entanto, as formas das novas tropas imediatamente disseram-lhes que não era
o caso.

Os membros desse exército eram todos Goblins.

Os demi-humanos conhecidos como Goblins eram menores que os seres humanos, ape-
nas do tamanho de uma criança. No entanto, sua presença, sua determinação de aço fize-
ram com que parecessem duas vezes maiores do que realmente eram.

Além disso, eles estavam embainhados em aço reluzente. Eles tinham armas e armadu-
ras potentes e brilhantemente polidas, o equipamento que um guerreiro deveria ter.

Não eram um exército que poderia ter surgido de camponeses. Este era um exército de
verdadeiros guerreiros.

“Agora! Qualquer um que ainda esteja vivo, corram com tudo! Eles são reforços! Refor-
ços vieram! Corram para eles!”

Jugem gritou no alto de sua voz.

Suas identidades eram um mistério. Ele não sabia se eram amigos, inimigos ou uma ter-
ceira parte completamente diferente. Dizer aos defensores sobreviventes para fugir em
sua direção, porque eles eram da mesma espécie, não era a coisa certa a fazer. Ele deveria
ter dito a eles para correrem de volta para o vilarejo.

No entanto, Jugem sentia algo que poderia ser chamado de simpatia. Ele tinha a sensa-
ção de que compartilhava a mesma mestra que essas pessoas. Ele tinha a sensação de
que eles receberiam ele e seus amigos e protegiam a todos.

Os cidadãos sobreviventes do Vilarejo Carne fugiram em direção ao Exército Goblin sem


hesitação.

O cerco estava começando a desmoronar. O Exército Real sabia que eles deveriam pros-
seguir, mas seus movimentos eram lentos. Isso era apenas esperado. Havia um exército
altamente organizado lá fora. Aproximar-se descuidadamente era perigoso.
Havia duas razões pelas quais eles permitissem a fuga.

A primeira foi porque eles achavam que seria melhor consolidar e recuperar a formação,
em vez de montar uma perseguição. Seus tambores estavam batendo um sinal para re-
cuar.

A segunda foi porque eles estavam com medo de sofrer uma vingança terrível por matar
os membros pertencentes ao mesmo exército.

Os Goblins aceitaram alegremente Jugem e os outros que corriam para eles. Jugem e os
outros entraram em brechas abertas na formação. Depois que todos entraram, eles ime-
diatamente fecharam as fileiras mais uma vez, como uma porta se fechando.

Jugem olhou em volta para seus camaradas exaustos, que estavam caídos no chão. Nin-
guém saíra ileso, e muitas pessoas prontamente desmaiaram ao chegar em segurança.

Ele olhou em volta e foi trágico. O número de Goblins, Ogros e aldeões diminuíram.

“Ainda assim, mais da metade deles sobreviveu... nós tivemos sorte. Cona!”

Ele chamou o nome da única pessoa entre os Goblins que poderiam usar magia de cura,
o sacerdote Cona. No entanto, Cona balançou a cabeça, indicando que ele havia esgotado
sua magia de cura naquela batalha.

“Então vamos fazer o que pudermos em primeiro socorro—”

Assim que Jugem estava prestes a gritar, ele viu um Goblin em um turbante, carregando
um lenço e acariciando seus bigodes.

Dada sua atitude, ele era provavelmente uma figura central no Exército Goblin.

“Ho ho ho ho. Você deve ser o séquito da General Enri. Eu sou o Estrategista Goblin,
responsável por comandar o Exército Goblin. Agora que chegamos, ninguém vai preju-
dicá-lo mais. Por favor, fique à vontade. Nosso corpo médico irá atendê-lo imediata-
mente.”

O Estrategista Goblin acenou, e um pelotão de Goblins musculosos correu com pranchas


nas mãos.

“Venham, venham, todos, por favor, deitem-se nessas pranchas e nós vamos levá-los.
Agora que viemos, seria uma pena se mais de vocês perdessem suas vidas.”

As vítimas foram levadas uma após o outra.

“Você também foi ferido. Venha, vamos levá-lo aos nossos cirurgiões para tratamento—”
“Não, me desculpe. Eu me sinto mal em recusar sua gentileza, mas você pode me dizer
o que está acontecendo? Eu ainda estou bem.”

A atitude de Jugem não parecia estar agindo como um durão. Depois de verificar isso, o
Estrategista Goblins assentiu e começou a falar.

“Eu não esperava nada menos do líder do séquito da General Enri. O que você deseja —
ho ho ho. Não, eu já sei. A General Enri está em uma tenda de comando na parte traseira.
Ela certamente ficará feliz em ver que você está bem.”

“Mesmo? Então isso é ótimo.”

Jugem soltou um suspiro profundo de alívio. Na verdade, ele ficou tão aliviado que a
força fugiu de seu corpo também, e seus joelhos quase se dobraram sob ele. No entanto,
como antecessor, ele não podia deixar seus sucessores verem aquele lado deprimente de
si mesmo.

“Certo. Eu vou vê-la então. Além disso, duvido que haja algo a fazer na próxima batalha.”

“Ho ho ho ho. Obrigado por ceder o campo a nós recém-chegados.”

“Até parece. Não é nada de mais. É o trabalho dos seniores passar a tocha para os seus
juniores... obrigado.”

“Ho ho ho. Então, devemos mostrar nossas proezas aos nossos predecessores. Sendo
assim — tudo o que resta para nós é alcançar a vitória. Ordene a infantaria pesada para
a frente.”

♦♦♦

“Que merda é essa?! Droga, estávamos tão perto!”

Os olhos de Barbro se arregalaram quando ele examinou os intrusos que tinham arrui-
nado tudo.

Nada havia corrido como ele planejara. Por que ele estava rodeado por um Exército
Goblin em um pequeno vilarejo como este? Ele estava tão frustrado que queria arranhar
seu cabelo.

Se este fosse um destacamento do Exército Imperial, ele alegremente ordenaria que


seus homens lutassem. No entanto, estes eram Goblins. Mesmo se ele ganhasse, quem o
elogiaria?

“Meu príncipe! Por favor, permita que os homens recuem!”

Ele olhou com raiva para o cavaleiro se dirigindo a ele.


Racionalmente falando, eles deveriam recuar agora. Ele não sabia o que um batalhão de
Goblins tão grande estavam fazendo aqui, então contanto que ele trouxesse as informa-
ções de volta, tal curso de ação seria benéfico.

No entanto, fugir com o rabo entre as pernas, sem sequer lutar contra eles, certamente
o levaria a ganhar o apelido odioso de “o Príncipe que fugiu dos Goblins”.

E se ele perdesse, então ele seria “o Príncipe que foi chutado pelos Goblins”. Os nobres
com fome de fofoca certamente espalhariam tudo e tornariam isso de conhecimento pú-
blico. As pessoas que não tinham visto a batalha com seus próprios olhos não se impor-
tariam com a força que os Goblins diante deles tinham. Eles só se preocupariam com o
quão divertido soava.

Dentro de seu coração, Barbro amaldiçoou os nobres que zombavam dele na segurança
de seus lares.

“...Negado. Continuem a lutar.”

“Vossa Alteza! Por favor, observe seu equipamento e sua formação regimentada! Eles
devem certamente ser as tropas de elite que são iguais ou superiores aos Goblins de an-
tes! Nosso lado é em grande parte composto de camponeses; nossas chances de vitória
são pequenas. Por favor, ordene uma retirada!”

Barbro também sabia disso, mesmo que a outra parte não dissesse nada. No entanto,
não havia outra maneira de proteger seu nome. Tudo o que ele podia fazer agora era
rezar para que aqueles Goblins fossem apenas aparência e nada mais.

“Seu idiota! Eu tenho que te dizer como é perigoso deixar essas tropas livres?! Agora, o
Exército Real está indo para as Planícies Katze! O que você planeja fazer se o exército
atacar E-Rantel enquanto eles estiverem subalternos?!”

”Com-compreendido.”

Eles cruzariam as lâminas com o inimigo uma vez. Se eles fossem tão durões quanto suas
aparências sugeriam, ele voltaria imediatamente. A batalha com o Império era a coisa
realmente importante, e Barbro não queria ser derrotado aqui. Ele estava, pelo menos,
calmo o suficiente para pensar nisso.

Os soldados formaram fileiras diante de Barbro. Como se combinando seus movimentos,


os Goblins começaram seu avanço.

O inimigo tinha tomado uma longa formação serpentina, que tinha três camadas de pro-
fundidade.
As forças de Barbro haviam adotado uma formação de asa de garça. Eles não usaram a
formação de escama de peixe porque queriam fazer uso efetivo de sua cavalaria poderosa,
e a formação do inimigo era pobre em lidar com ataques de flanco.

O bordo de ataque da formação dos Goblins era composto de sua infantaria pesada, car-
regando grandes escudos que eram altos o suficiente para se cobrirem. A linha de batalha
imaculada deles era como uma parede móvel, e colocava grande pressão em Barbro.

A mão que segurava as rédeas do cavalo estava escorregadia de suor sob as manoplas e
parecia nojenta.

Quando os arremessadores de lanças faziam contato com a infantaria pesada com es-
cudo, suas tropas bloqueariam o avanço inimigo, efetivamente pisando na cabeça da ser-
pente, e então a cavalaria atacaria pelos flancos.

As investidas colidiram com a infantaria pesada.

E então, as vozes altas dos Goblins alcançaram os ouvidos de Barbro.

“Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri — a Infantaria Pesada


dos Goblins! Não nos insulte pensando que seremos interrompidos por tão pouco!”

Em vez de nutrir dúvidas sobre a persona da General Enri, Barbro estava focado em
como a formação de suas forças estava cedendo sob o contato.

As investidas estavam sendo empurradas para trás pelos escudos inimigos. Natural-
mente, quando foram empurrados para trás, eles colidiram com seus companheiros e sua
formação começou a desmoronar.

A cavalaria de ambos os flancos entrou rapidamente em ação. A ala direita foi um pouco
mais rápida para se mover, e eles pretendiam atacar de lado. No entanto, a cavalaria de
prata reluzente emergiu do flanco inimigo — montando lobos brancos no lugar de cava-
los — 17 cavaleiros ao todo, correndo para interceptá-los.

”Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri — o Corpo de Paladino


dos Goblins! Nós juramos nossa lealdade a Sua Excelência!”

Do flanco esquerdo veio uma horda de animais mágicos que se pareciam com lobos, que
corriam pela terra. Havia Goblins montados neles. Liderando o caminho estava um lobo
alado, e o Goblin montado em suas costas gritava alto o suficiente para abafar os gemidos
das investidas, alcançando os ouvidos de Barbro.

“Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri — o Corpo de Monta-


dores de Feras dos Goblins! Aqui vamos nós!”
Enquanto a cavalaria se atolava em tumulto, Barbro ouviu o som de cordas estridentes,
uma após a outra.

Ele viu dezenas de flechas caindo do céu como chuva, apimentando o caótico campo de
batalha. Barbro queria ver quem estava atirando e examinou a formação do inimigo.

Eles estavam no segundo posto do inimigo. Lá ele viu um grupo de Goblin vestido em
vermelho brilhante, empunhando arcos enormes. Havia uma clara diferença entre os ta-
manhos dos lados esquerdo e direito de seus corpos, e seus corpos se inclinavam percep-
tivelmente a cada passo que davam. Um deles era particularmente atraente e carregava
um arco extragrande. Ele abriu a boca:

”Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri — o Corpo de Arquei-


ros dos Goblins! Saibam que não há escapatória para vocês!”

Esse não foi o fim dos ataques de longo alcance do inimigo. O terceiro nível do inimigo
descarregava várias magias, que detonaram dentro da formação do Exército Real, al-
guma distância à frente de Barbro. Grandes lampejos de luz acompanhavam o desabro-
char das flores carmesim e as pétalas de chama abrasadora formavam uma onda de cho-
que diante deles, as repetidas explosões lançando as investidas camponesas para longe.

Os spellcasters eram um grupo cujos rostos estavam velados por seus capuzes abaixa-
dos. Cada um deles carregava um cajado longo, que brilhava com um brilho misterioso.

A pessoa na liderança puxou o capuz para trás, revelando um rosto coberto de rugas.

“Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri, o Corpo de Apoio Má-


gico dos Goblins. Seja fortalecendo, enfraquecendo ou atacando com magia, nós os
manejamos com a mesma proficiência.”

Eles não eram a única unidade lançando magias. Barbro desviou os olhos para o lado do
Corpo de Apoio Mágico e viu uma unidade parecida ali. Embora eles fossem apenas uma
equipe de cinco pessoas, cada um dos rostos deles era preenchido com uma confiança
absoluta. Diante deles estava o que tinha o mais ousado sorriso de todos e gritou com
toda a força:

“Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri — o Esquadrão de Ar-


tilharia Arcana dos Goblins! Nós que nos especializados em magias de ataque de
área, somos os atacantes mais potentes do Exército Goblin!”

“Vossa Alteza!”

O cavaleiro retornou ao lado de Barbro. Ele sabia o que o homem ia dizer com apenas
um olhar para a expressão chocada no rosto. Com os magic caster em suas fileiras, o ini-
migo era ainda mais perigoso agora.
“Já entendi! Nós não podemos segurá-los! É só uma questão de tempo até o inimigo nos
alcançar! Precisamos nos retirar!”

Ele não podia negar o óbvio agora. Mesmo que Barbro ordenasse que todos ficassem e
lutassem, os nobres que vieram com ele escalariam uns sobre os outros para fugir.
Mesmo que ele de alguma forma os obrigasse a lutar, eles se ressentiriam e se tornariam
futuros inimigos.

“Faça. Além disso, ordene que o Barão vá na frente.”

Barbro queria ser o primeiro a fugir, mas se ele fizesse isso, não era difícil imaginar
como ele seria rotulado como um covarde que foi o primeiro a fugir dos Goblins. Sendo
esse o caso, ele deixaria o Barão suportar aquela vergonha.

“Entendido!”

Assim que o cavaleiro começou a latir ordens para seus subordinados ao lado dele—

“—Não há escapatória.”

Uma voz estranha veio do lado dele e, pela primeira vez, Barbro sentiu que sua vida
estava realmente em perigo.

Seu séquito desembainhou as espadas e examinou os arredores, e eles viram um grupo


de pessoas vestidas de preto emergir das sombras. Seus rostos estavam cobertos de pano,
mas seus olhos brilhavam com uma luz penetrante.

“Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri — o Esquadrão Assas-


sino dos Goblins. Nos escondemos nas sombras, e esta é a última vez que você nos
verá.”

Havia mais uma pessoa.

Ele emergiu como se tivesse sido desenhado no ar; ele usava um boné vermelho e botas
de aço. A maneira como ele carregava uma longa foice fazia com que ele se parecesse com
um ceifador.

“Sou um subordinado de Sua Excelência, a General Enri — um dos treze Redcaps


que serve como guarda-costas. Bem, acho que não há mais nada para eu fazer.”
“Protejam Sua Alteza! Soe a retirada!”

“Patético.”

Para os olhos de Barbro, parecia que as sombras estavam se movendo.


Tudo acima do pescoço do cavaleiro desapareceu em um instante, e seu sangue jorrou
como um gêiser rubro.

Barbro percebeu o que estava olhando e imediatamente esporeou o cavalo a galope. Não
houve mais tempo para se preocupar com a ordem de execução. Agora, ele estava an-
dando na beira da vida e da morte.

Atrás dele, ele ouviu:

“Somos os subordinados de Sua Excelência, a General Enri — a Banda Militar dos


Goblins!”

Acompanhado pelo som de tambores martelando e rangendo em seus ouvidos.

♦♦♦

“...Está tudo bem deixá-lo correr?”

“O Estrategista-dono ordenou. Se a cabeça do príncipe for tomada, eles vasculharão a


terra para descobrir onde ela caiu.”

“Hmph, mas é claro. Se a General Enri caísse para o inimigo, eu não pararia de matar até
que todos eles estivessem mortos também. Bem, é assim que o Estrategista-dono é. Ele
vê a passos à frente. É por isso que ele não nos mandou apagar todos?”

“Precisamente. Precisamos deixá-los levar seu príncipe de volta para sua cidade. Eu não
estou feliz com isso também. Eu quero fazê-los pagar por atacar o vilarejo da General
Enri... Eu acho que é assim, Redcap-dono. Então, vamos começar a limpar os cadáveres.”

“De fato. Precisamos recuperar os corpos dos bravos guerreiros que lutaram ao lado dos
nossos superiores também.”

Parte 4

As planícies estavam iluminadas pela lua, e no meio delas havia um acampamento de


campo militar. Não, não havia barracas aqui ou uma paliçada de madeira, por isso era
duvidoso se isso realmente se qualificava como um acampamento. Seria mais correto di-
zer que havia uma unidade militar na grama.

Quase todo mundo estava deitado no chão, imóvel pela fadiga.


O ar do inverno estava frio o suficiente para tingir a respiração exalada de branco, mas
o fato de poderem dormir em condições como essas sem roupas de dormir ou coisa pa-
recida era sinal de como estavam realmente cansados. Em meio a todas essas pessoas,
que haviam desmoronado como marionetes cujas cordas haviam sido cortadas, um ho-
mem estava andando.

Ele era o general do exército derrotado, Barbro.

Ele deveria se sentir sortudo por ter sobrevivido, ou deveria se queixar por ter encon-
trado um inimigo tão poderoso?

O Exército Goblin que aparecera no Vilarejo Carne tinha sido um poderoso inimigo —
não, suas forças não foram páreas para eles. Com apenas um único contato com o inimigo,
as forças de Barbro foram esmagadas em um instante, e ele não teve escolha a não ser
fugir com o peso da derrota. Seus soldados haviam sido mortos tão rápido que era como
se tivessem se dissolvido.

O que exatamente eram aqueles Goblins?

Barbro queria descobrir.

As possibilidades que me vieram à mente eram que eles eram o exército de uma enorme
nação de Goblins dentro da Grande Floresta de Tob. Essa foi a explicação mais fácil de
aceitar quando se considerou que os encontraram ao sul da Floresta. Os outros nobres
que sobreviveram com ele pareciam ter chegado à mesma conclusão também, e haviam
dito isso várias vezes para se consolar durante o caminho para cá.

Alguns disseram que a sorte deles tinha sido ruim.

Alguns disseram que o exército que encontraram era composto de suas tropas de elite.

Alguns disseram que apenas entregar notícias sobre os Goblins já havia sido um grande
esforço.

“Eles são idiotas...”

Barbro cerrou os punhos com força.

Derrota era derrota. Era verdade que os Goblins tinham sido fortes. Qualquer um que
lutasse contra eles entenderia porquê não havia esperança para Barbro.

No entanto, aqueles que não sabiam nada simplesmente pensariam que Barbro era o
príncipe que havia sido espancado por Goblins. Ele certamente se tornaria alvo de muitas
piadas.

“Droga! Droga! Droga!”

Um fogo queimava em sua barriga. Essa foi a razão pela qual Barbro não conseguiu dor-
mir, apesar de estar tão cansado quanto os soldados.
Uma vez que ele fechou os olhos, ele podia ouvir os insultos e risos zombeteiros que
certamente o aguardariam depois que ele retornasse ao Palácio Real.

Para Barbro, a guerra acabou. Em seu estado atual, não havia como ele poder se juntar
nas Planícies Katze e participar da batalha contra o Império.

Só então — ele sentiu uma presença. Não veio dos homens deitados no chão, mas da
direção de onde haviam fugido.

Eles estavam fugindo de soldados que os alcançaram, ou uma força de perseguição dos
Goblins?

Com o coração cheio de terror, Barbro mudou sua linha de visão e, no momento seguinte,
seu rosto se encheu de perplexidade.

Essa pessoa provavelmente notou Barbro. Ela levantou a mão em uma saudação casual.

“Oiêe~”

Ele não fazia idéia de quando apareceram no meio dessas planícies. Não muito longe —
20 metros no máximo — havia uma beleza arrebatadora, com um sorriso no rosto que
só podia ser descrito como inocente. Se esta fosse uma cidade, Barbro certamente a en-
cararia. No entanto, este foi o meio de uma planície. Não havia casas por perto.

A coisa mais estranha era a roupa que ela usava —parecia uma roupa de empregada.

Se ela fosse uma mulher de armadura e armada, ele poderia ter imaginado que ela era
uma aventureira. No entanto, não era o caso.

Ela é um monstro?

Esse pensamento surgiu em sua mente. Certos monstros eram muito bonitos. Fadas, por
exemplo. No entanto, ele não conseguia entender o uniforme de empregada.

“Olá ~su. Eu vim brincar com você ~su. Posso te incomodar um pouco?”

A julgar pela pergunta, ela estava claramente bancando a idiota.

“Quem é você?!”

Ele segurou a espada em sua cintura enquanto a questionava.

Essa pergunta foi totalmente sem sentido. No entanto, ele não tinha mais nada a dizer.
Sua existência era tão ridícula que ele nem sabia por onde começar a perguntar.
“Eu sou Lupusregina ~su. Uma das empregadas que trabalha para o Ainz-sama ~su.”

A mulher peculiar acenou novamente fazendo um cumprimento. O significado do que


ela — Lupusregina — disse gradualmente começou a filtrar em sua mente.

“O que... o que você disse?”

Barbro ficou tão chocado que esqueceu de acordar os soldados próximos.

“Não, não, não se preocupe com isso por enquanto — isso deve ter sido muito difícil
para você ~su. Ainda assim, isso realmente era injusto. Um enorme exército de Goblins
daquele nível é como trapaça ~su. Eu os vi de trás dos humanos e da En-chan e isso me
fez chorar de surpresa. Eu não esperava que tantos Goblins saíssem~ hahahaha!”

Lupusregina riu de uma maneira incrivelmente falsa.

Ela estava claramente tentando comprar uma briga, mas Barbro não conseguia mais
conter seus sentimentos.

“Então porque você está aqui?!”

Ele podia ouvir várias pessoas atrás dele reagindo ao seu grito.

Ainda assim, se essa mulher queria atacá-lo, suas ações eram muito estranhas. Não havia
necessidade de ela aparecer diante deles. Ou isso era parte de um plano para chamar a
atenção deles? Talvez ela pretendesse lançar uma emboscada enquanto todos a escuta-
vam.

Não — como o Primeiro Príncipe, ele sabia que ele era muito valioso.

Se ele tivesse sorte, ele poderia negociar. Se ele tivesse azar, ele seria um refém.

No entanto, negociar com eles pode ser demais para pedir. Ele pode acabar se tornando
um prisioneiro de guerra.

Barbro sentiu o trono se afastar cada vez mais dele.

Dito isto, as pessoas que deveriam ter sido punidas seriam os superiores do Reino que
não sabiam que havia tantos Goblins dentro daquele vilarejo antes de mandá-lo para lá.

Se ele se tornasse prisioneiro de guerra, ele deveria ter a chance de conhecer Ainz Ooal
Gown. Talvez ele pudesse trocá-lo por 1/4 do Reino em troca de sua ajuda para se tornar
Rei.

Talvez isso fosse realmente uma bênção disfarçada.


Barbro ponderou essa possibilidade.

“Bem, só há uma razão pela qual eu vim aqui ~su.”

Lupusregina fez uma pausa para respirar e anunciou:

“Eu vim para matar todos vocês ~su.”

Barbro piscou várias vezes e depois gritou:

“Hahh?! O que merda você está dizendo? Você sabe quem eu sou? Eu sou o Primeiro
Príncipe do Reino Re-Estize, Barbro Andrean Ield Ryle Vaiself!”

“Oh, então você é um humano, então ~su. Qual a diferença? Para nós, vocês humanos
são igualmente inúteis ~su. Ah, mas você é um príncipe ~su.”

“Nesse caso... eu entendo! Você quer dizer que vai matar todo mundo, menos eu, é isso?
Eu não acho que seja uma boa idéia. Você precisa nos deixar prisioneiros e deixar alguém
viver para levar as notícias de volta ao Pai, caso contrário, as coisas serão difíceis nas
próximas negociações.”

Lupusregina inclinou a cabeça, surpresa.

“Não, não, o que você está dizendo ~su? Devo repetir? Eu vim para matar todos vocês
~su. Já que vim matar todos vocês, vou matar todos e cada um de vocês ~su. Você é par-
ticularmente estúpido ~su? Ah, bem, isso faz de você uma raridade, mas não é como se
eu quisesse isso ~su.”

“O que você está tagarelando?! Você não sabe o quanto sou valioso? Eu sou o Primeiro
Príncipe! Por que você está pensando em me matar? Normalmente, você me tomaria
como refém e exigiria um resgate, não?! Usar-me como uma ferramenta de negociação
tem mais mérito do que me matar, não é?!”

“...Ara ara, que pessoa problemática você é.”

Lupusregina sorriu de maneira desconcertante. Então, ela falou de forma carinhosa e


gentil, como se estivesse explicando coisas para uma criança.

“Você não é necessário para os planos do incomparável, Ainz Ooal Gown-sama, e então
eu vou matar você. Entende?”

Barbro ficou sem palavras.

Ele entendeu que Lupusregina não estava brincando ou tentando investigar sua reação
com uma ameaça.
Ele engoliu inconscientemente.

“...Isso é sério? Você está seriamente querendo me matar...”

“Ah, agora sim seu rosto está com uma expressão bonita ~su. Você deu um grande salto
no meu conceito ~su.”

“Então—”

Barbro estava tentando sorrir com um rosto se contorcendo, mas o rosto de Lupusre-
gina ficou vazio no momento seguinte, quando ela disse:

“Ainz-sama ordenou que eu exterminasse todos vocês. Portanto, não permitirei que ne-
nhum de vocês volte vivo.”

Ela imediatamente retomou sua expressão meio brincalhona.

“Então, de qualquer forma, eu estive pensando por um longo tempo, sobre quais adver-
sários divertiriam você. No final, eu encontrei os melhores companheiros de brincadeiras
para um monte de pessoas que tiveram suas bundas chutadas por Goblins ~su!”

Com um “jajajajan~” ela levantou a mão. Uma horda de formas sombrias surgiu atrás
dela, saindo do que parecia ser um ar rarefeito.

“Estes são os Redcaps que eu mesma conjurei ~su!”

Havia 30 deles. Os Goblins que se revelaram pareciam o exército de antes, seus corpos
torcidos e malignos.

Todos usavam capuz vermelhos brilhantes e botas de aço nos pés. Eles carregavam ma-
chados que brilhavam azuis ao luar.

“Ataque inimigo! Que diabos estão fazendo! Acordem! Peguem suas armas! O inimigo
está sobre nós!”

O berro de Barbro acordou os soldados de seu sono. Eles se levantaram e depois enca-
raram o inimigo sob o luar ofuscante.

“—Eles são nível quarenta e três, então, na verdade, eles são um pouco exagerados para
você, mas a biblioteca não tem Goblins mais fracos ~su.”

Gritos encheram o ar.

Os sobreviventes daquela infernal batalha com o Exército Goblin não poderiam reunir
o espírito de luta para enfrentar mais goblinoides.
Eles não sacaram suas espadas, mas se espalharam em todas as direções, correndo para
a vida querida.

“Não corram! Lutem! Lutem! Lutem! Apressem-se e protejam-me!”

Nenhum soldado escutou as ordens de Barbro. Os nobres também correram para os ca-
valos.

“Ahahaha! Isso é maravilhoso! Você realmente acha que pode escapar em uma planície
assim! Ah, isso é divertido! Isso é o melhor! Eu amo is~su!”

O riso zombeteiro de Lupusregina refletia o que Barbro estava pensando.

Só havia um jeito de sobreviver. Ele teve que derrotar seus inimigos.

“Então, há pessoas que pensam que a montaria vai ajudar... Você poderia cortar as per-
nas deles para mim ~su?”

Com um grito estridente de prazer no massacre iminente, os Redcaps entraram em ação.

Eles eram como feras selvagens.

Eles correram entre as massas em fuga.

E então — houve um grito.

Veio de um dos nobres que tentava fugir a cavalo.

Foi seguido por vários outros gritos.

“Há menos pessoas agora, então o tempo de brincadeira também foi encurtado... bem,
essa é a consequência ~su. De minha parte, vou ter todo tipo de diversão ~su. Eu posso
não ter as habilidades que a Solu-chan tem, mas eu posso te mostrar um truque ou dois
~su~”

Lupusregina caminhou em direção a Barbro, que estava com a espada desembainhada.


Era como se ela estivesse caminhando alegremente no campo.

O sorriso que dividia seu lindo rosto era como uma rachadura gelando o coração de
Barbro com medo.

♦♦♦

Foi só depois de 30 minutos que Barbro recebeu a permissão de Lupusregina para mor-
rer.
Capítulo 04: Massacre
Parte 1

s dois exércitos formaram suas linhas de batalha ao longo das encostas su-

O aves das planícies carmesim, encarando um ao outro.

O exército inspirador do Reino tinha 245.000 homens fortes, divididos em


uma ala esquerda de 70.000 homens, uma ala direita de 70.000 homens e
uma coluna central de 105.000 homens, habilmente acampados ao longo de três colinas.
No entanto, este acampamento não foi cercado por cercas de madeira, mas formado por
uma gigantesca massa de tropas.

As cinco filas de infantaria mais avançadas carregavam lanças de duas mãos, cada uma
com mais de 6 metros de comprimento, e formavam uma linha de lanças dentro de linha
de lanças.

O trabalho deles era substituir uma cerca anti-cavalaria para combater a cavalaria pe-
sada que compunha o núcleo da força de combate do Império. Eles não usaram paliçadas
anti-cavalaria por uma simples razão; para proteger essa quantidade pessoas, precisa-
riam de uma quantidade ridícula de madeira. Para um grande exército, era melhor fazer
bom uso de uma linha de lanças.

Embora esta formação fosse bastante sólida e apresentasse muitos problemas para
qualquer atacante, também tinha seus pontos fracos.

Pela formação ser densa e as armas transportadas serem muito pesadas, tudo o que po-
diam fazer para permanecer no lugar e impedir as investidas inimigas. Como tal, eles não
tinham a capacidade de reagir rapidamente às manobras inimigas, e se o Império usasse
arqueiros ou magias, suas perdas seriam pesadas.

Então, novamente, não se esperava muito mais de meros camponeses. Tudo o que era
necessário era que eles desviassem a primeira investida do inimigo.

Do outro lado, o Império tinha 60.000 homens.

Seus números eram muito inferiores aos do Reino.

No entanto, os cavaleiros imperiais estavam relaxados, sem qualquer sinal de medo.


Eles não sentiam que perderiam nada.

Essa confiança veio de saber sua própria força pessoal.

Mesmo assim, era um fato simples que havia uma grande disparidade no poder militar
de ambos os lados. Embora não fosse um problema se eles pudessem lutar para sempre
sem fadiga, eles eram apenas humanos. Uma vez que se cansassem, até a diferença em
suas habilidades individuais acabaria sendo alcançada.
O Reino também tinha mais uma vantagem, e uma grande.

E essa seria o valor de cada indivíduo.

A maioria das tropas do reino eram compostas de camponeses. Em contraste, o Império


reuniu soldados profissionais chamados cavaleiros. Era esperado que um camponês ape-
nas segurasse uma arma, enquanto cada cavaleiro Imperial fôra cuidadosamente trei-
nado. Cada perda do Império era mais sentida do que uma perda similar do Reino. O Im-
pério simplesmente não podia desperdiçar seus cavaleiros em ofensivas tolas ou guerras
de atrito.

Portanto, uma batalha campal em terreno aberto como este traria uma vantagem para
o Reino.

Por causa disso, as batalhas travadas entre o Império e o Reino foram tipicamente pe-
quenas escaramuças.

O objetivo do Império seria realizado simplesmente puxando os servos do Reino para o


campo de batalha. Não havia necessidade de desperdiçar recursos humanos valiosos, e o
Reino também sabia disso.

Essa pompa de roteiro fôra chamada de “guerra” entre o Império e o Reino.

Mesmo que aquele magic caster chamado Ainz Ooal Gown tenha participado, isso ainda
terminaria em uma pequena escaramuça. Isso foi o que a maioria dos nobres do Reino
pensava. Afinal, os cavaleiros do Império não eram apenas uma força militar, mas tam-
bém uma força policial. Eles eram as pessoas que protegiam a segurança do Império. Per-
das desnecessárias para eles ameaçariam a estabilidade do Império.

E assim, os nobres aguardavam o próximo movimento do Império.

Por tradição, as forças imperiais desfilavam diante das tropas do Reino e depois recua-
vam. O Reino então soaria um grito de vitória.

Era assim que sempre tinha sido.

No entanto—

O Exército Imperial não se moveu.

Havia permanecido imóvel desde que eles se desdobraram do castrum e se colocaram


diante das forças do Reino. Era como se estivessem esperando o Reino dar o primeiro
passo ou algo assim.

“Eles não estão se movendo. O que está acontecendo?”


Isso foi na sede onde o Rei estava. Foi localizado atrás de uma série de 105.000 homens.

O Marquês Raeven estava ao lado de Gazef, falando baixinho enquanto examinava os


imóveis cavaleiros Imperiais do lugar mais seguro que conseguira encontrar, um ponto
de observação no alto de uma colina um pouco mais alta que os outros.

Se o Império não se movesse, o Reino faria o mesmo.

Um ataque do Reino agora seria extremamente tolo, dado que eles já haviam formado
sua linha de lanças. Uma vez que os nobres tentaram um ataque preventivo contra o Im-
pério. No entanto, os atacantes haviam sido abatidos em pouco tempo e o Reino sofrera
perdas significativas como resultado.

Desde então, a tática preferida do Reino contra o Império foi formar uma linha de lanças
e se preparar para receber uma investida. Como o inimigo estava disposto a recuar, não
havia necessidade de incursões arriscadas.

“Tudo bem então. Parece que eles estão esperando por nós...”

“As declarações finais foram feitas, então eles devem se juntar à batalha em breve... Ca-
pitão Guerreiro — Gazef-dono, tem uma idéia sobre o porquê o Império pode estar espe-
rando?”

Meia-hora atrás, representantes de ambos os exércitos iniciaram negociações na área


central entre eles. Claro que isso foi simplesmente uma declaração de condições inacei-
táveis de ambos os lados, mais uma peça de teatro do que regras de arbitragem. Seu ver-
dadeiro objetivo era mostrar que cada lado era compassivo e disposto a evitar a guerra
até o último momento.

Claro, as negociações iriam quebrar, e isso seria o sinal para os combates começarem.

Se seguissem o exemplo dos anos anteriores, o Exército Imperial deveria ter começado
a sair imediatamente. No entanto, este não foi o caso. Eles permaneceram estacionários.

“Eu não faço idéia. Você sabe algo sobre isso?”

“Até parece... Eu não estou muito familiarizado com assuntos militares. Eu costumo dei-
xar meus subordinados lidar com isso.”

“De alguma forma, a idéia de que o sábio Marquês não saberia nada sobre seu inimigo
parece uma mentira.”

“Uma mentira... eu não esperava que fosse tão direto, Gazef-dono.”

“Eu te ofendi? Peço desculpas se o fiz.”


“Hahaha, não, não me importo. Você é muito mais amigável agora do que era naquela
época.”

Gazef franziu a testa, sentindo as farpas naquelas palavras.

“Hahaha! Pegue leve. É um fato que eu não sou general e isso não é uma mentira. Acon-
tece que um dos meus subordinados é um bom líder de homens, então deixei as questões
militares para ele.”

“Poderia ser... um dos ex-aventureiros trabalhando para você, aqueles que ficaram fa-
mosos durante a perturbação demoníaca na capital?”

“Ah não. Eles estão ali.”

Raven apontou para um grupo de cinco homens juntos.

Embora todos estivessem bem na meia-idade, e sua força não era mais o que costumava
ser, eles tinham sido os aventureiros orichalcum quando estavam no auge, e havia algo
na maneira como eles se portavam que fazia com que Gazef sentisse que não podia su-
bestimá-los.

“Eles serão meus guarda-costas durante a batalha.”

“Com homens como esses protegendo você, Marquês Raeven, tenho certeza de que você
não terá problemas em retornar com segurança para a Capital Real... bem, desde que eles
não enfrentem aquele grande magic caster. Opa, quase me esqueci; E o seu estrategista?”

“Eu não acho que você vai conhecê-lo, já que ele é um plebeu de meu domínio, Gazef-
dono. Quando uma horda de Goblins atacou o vilarejo dele, ele os espancou com um
grupo de aldeões com metade do seu tamanho, e assim ele chegou ao meu conhecimento.
Desde então, confiei-lhe o comando das tropas da minha casa e várias outras tarefas. A
grande surpresa é que ele nunca perdeu uma batalha. Eu também dei a ele uma posição
de alto escalão como meu ajudante.”

“Eu gostaria de ver este comandante que você elogia tanto, Marquês Raeven. Se ele é
realmente tudo o que você diz que é, podemos fazer bem em dar a ele o comando das
forças armadas do Reino.”

“Se você for capaz de dar isso a ele... dê-lhe o comando completo das forças armadas, e
o Exército Real se reunirá sob seu comando, poderíamos ser capazes de travar uma ba-
talha que fará nossos vizinhos se sentarem e dizerem: “O exército do Reino Re-Estize não
deve ser subestimado”...”

Gazef trocou um olhar com Raeven, suspirou e depois sorriu cansado.


“Os nobres nunca permitiriam que um plebeu se elevasse tão alto. Não é nada mais do
que fantasia ociosa no momento.”

“Certamente não enquanto os nobres são divididos em suas facções.”

O Império organizou suas legiões nomeando um general para cada, sob o qual serviram
os comandantes de divisão, os comandantes de brigada e outros oficiais, todos em estrita
arregimentação.

Em contraste, os exércitos do Reino eram compostos das tropas e camponeses que cada
um dos nobres do Reino poderia reunir. O Rei era o comandante geral, mas cada anfitrião
agia como queriam ou como sua facção julgavam conveniente.

Simplificando, havia um monte de desajustados.

Embora Gazef tivesse o título de Capitão Guerreiro, no final, ele era apenas o coman-
dante do bando guerreiro que era diretamente leal ao Rei, e ele não tinha autoridade para
dar ordens aos nobres. Embora fosse possível ao Rei ordenar aos nobres que escutassem
Gazef, os nobres sempre desdenhavam Gazef e sua origem plebeia, e isso semearia as
sementes de futuros ressentimentos. O Rei estava ciente disso e ordenou que Gazef não
fizesse isso.

Os dois consideraram seus lugares no Reino e suspiraram pesadamente. Então, eles tro-
caram olhares e riram.

Essa conversa deveria ter sido em outro lugar, não na véspera do choque de espadas e
do derramamento de sangue.

“Mesmo se voltarmos para casa vivos, ainda haverá um campo de batalha esperando
por lá...”

“Não é isso que é ser um nobre?”

“Depois que isso acabar, vou pedir ao Rei para te elevar à nobreza. Isso me irrita que
alguém que se chama de a Espada do Rei não se envolva com a sociedade nobre tão avi-
damente quanto deveria.”

Embora Raeven parecesse estar brincando, Gazef percebeu, pela luz em seus olhos, que
sua raiva era sincera.

Quando alguém hábil em esconder seus sentimentos revelava a si mesmo, isso seria um
motivo de celebração. No entanto, era uma questão diferente se não fosse uma emoção
positiva. Gazef rapidamente mudou de assunto.

“...Vamos deixar isso de lado por enquanto. Por que nós não trazemos aquele seu Estra-
tegista-dono, e ouvimos a opinião dele... ah, chamá-lo será difícil.”
“Afinal, confiei a ele o meu acampamento base. Eu não ouso movê-lo desnecessaria-
mente enquanto não sabemos o que o Império está fazendo.”

Embora os nobres se comprometessem a trabalhar juntos para o Reino, no final, as par-


ticipações de Raeven ainda eram sua maior prioridade. Era natural que ele recusasse.

“Haaaah... é a mesma coisa de sempre, mas eu não gosto da tensão no ar. Embora eu não
queira que o Império nos ataque, eles devem se apressar e fazer isso, se quiserem, e nos
pouparão da ansiedade de esperar.”

Gazef podia sentir o desconforto do exército do Reino. Enquanto tentava ver de onde
vinha, ele franziu as sobrancelhas.

“...Entendo. Quando você pensa sobre isso, isso pode ser uma estratégia Imperial para
nos deixar ansiosos antes que eles façam a sua jogada. É difícil coordenar e controlar
tantos soldados, por isso mesmo o menor recuo em qualquer unidade pode ser ampliado
em uma grande perturbação no final. Um grupo grande é difícil de atacar, mas assim que
os indivíduos saírem do bando e fugirem, eles serão facilmente caçados e mortos. É o
mesmo princípio que os animais usam para caçar.”

Um surpreso Raeven seguiu a linha de visão de Gazef para as tropas de aparência preo-
cupada no flanco esquerdo, e então a compreensão apareceu em seu rosto.

“Isso... parece que eles estão girando as tropas no interior para a linha de frente.”

“Nós não teríamos que nos preocupar se eles estiverem apenas reorganizando sua for-
mação...”

“Aquela é a bandeira do Marquês Boullope. Parece que o comandante da ala esquerda


está se movendo para a frente.”

O Reino colocou a Facção Nobre em ambas as alas, enquanto os da Facção Real estavam
concentrados no meio.

O Rei Ranpossa III era o comandante geral da coluna central, enquanto o Marquês Boul-
lope comandava a ala esquerda.

“Mover um comandante para a cabeça da formação é bem estranho. Consegue vê, Gazef-
dono? O Marquês está movendo as tropas de elite que são diretamente leais a ele. Seu
plano é distinguir-se em combate contra os poderosos cavaleiros Imperiais individual-
mente, sob os olhos e ouvidos dos nobres reunidos. Dessa forma, ele fará uma reputação
para si mesmo como o senhor da unidade mais forte do Reino.”

Raeven lançou um olhar desafiador para Gazef. Parecia dizer: Você vai deixar alguém
ganhar mais glória do que o seu amado bando guerreiro?.
Gazef não mordiscou a isca.

“O dever do bando guerreiro é proteger o Rei. Não vamos nos mover sem o comando
direto do Rei, mesmo que o Império faça uma investida. Não há maior dever para nós do
que garantir o retorno seguro do Rei à capital.”

Gazef bateu a espada em sua cintura.

“Ainda assim, é possível que eu possa me infiltrar sozinho para neutralizar o ataque do
inimigo.”

“Esse é um dos Quatro Tesouros do Reino, a Razor Edge... ah, entendo.”

O Marquês Raeven recuou e estudou Gazef de cima a baixo.


[ M a n o p l a s d a Vitalidade] [Amuleto da Imortalidade]
As Gauntlets of Vitality, que negavam a fadiga. O Amulet of Immortality, que permite
[ A r m a d u r a Guardiã]
que ele regenere suas feridas. A Guardian Armor, trabalhada do metal mais duro conhe-
cido pelo homem (adamantite), e encantada com a magia que defletia golpes letais. E fi-
nalmente, a Razor Edge, uma espada mágica trabalhada para ter o fio absoluto, que po-
deria cortar através de armaduras encantadas como a proverbial faca quente através da
manteiga.

“Agora que você está totalmente equipado com todos esses tesouros, você é o maior
tesouro do Reino. Eu ouvi uma vez que o Reino na verdade tinha cinco tesouros, mas
parece que todos foram reunidos desde o começo.”

Gazef corou ao ser comparado a esses tesouros, embora soubesse que era apenas lisonja.

“Ah, pare com isso, Marquês Raeven. O Rei é muito maior do que eu. Sua Majestade sabia
o que significaria confiar essas coisas a um plebeu como eu, mas ele fez isso sem hesitar.”

“Essa é uma opinião razoável. Honestamente falando, uma vez pensei que era tolice
anunciar que ele iria entregá-los a um plebeu. Tudo o que conseguiria era fazer com que
mais pessoas deixassem a Facção Real. No entanto, agora que estou ao seu lado no campo
de batalha, não posso deixar de pensar que foi uma jogada magistral. Você é muito ego-
ísta.”

“Só se eu pudesse viver de acordo com suas expectativas...”

Gazef olhou para as fileiras cerradas dos cavaleiros Imperiais.

Ele não achava que houvesse adversários fortes no Império além do “Tríade” Fluder Pa-
radyne. Agora que ele estava equipado assim, ele ousou carregar a fraca esperança de
que ele pudesse derrotar Fluder.
Por outro lado, ele não se sentia como se tivesse alguma chance de derrotar Ainz Ooal
Gown.

Ele não podia nem imaginar a possibilidade.

Não importa o quanto ele tentasse pensar positivo e considerar como as coisas pode-
riam ir a seu favor, o único pensamento que lhe veio à mente era ser instantaneamente
morto pelo misterioso magic caster.

“O que está errado?”

“Na-nada...”

Ele sabia que ele era o maior guerreiro do Reino. Permitir-se parecer fraco só diminuiria
o moral do exército.

“Ah, não... eu estava sentindo pena do Príncipe Barbro...”

“Sentindo pena?...Poderia ser... Entendo. Então seria isso? Gazef-dono, você também
sente... Entendo.”

“O que você está tentando dizer?”

“Quero dizer, não me diga que você sente que o Rei mandou o Príncipe para o Vilarejo
Carne para que ele não pudesse se destacar...?”

“Não é esse o caso?”

Raeven sorriu timidamente.

“Mhm, longe disso. Sinto que Sua Majestade depositou sua confiança em você, Gazef-
dono.”

Marquês Raeven decidiu explicar quando viu que Gazef não entendia nada.

“Dado que o Capitão Guerreiro, o homem que o Rei mais confia está extremamente cau-
teloso com o oponente chamado Ainz Ooal Gown, era de se esperar que o Rei estivesse
em guarda contra ele também. O Rei não queria arriscar seu amado filho em batalha com
um fator desconhecido como esse, então ele queria mandá-lo para um lugar seguro,
mesmo que ele só pudesse fazer algumas pequenas realizações lá... Embora, para ser ho-
nesto, o velho eu ficaria chateado com a maneira que o Rei só se preocupa com seu filho
quando tantas outras pessoas enviam seus filhos para o campo de batalha.”

Raeven sorriu de maneira paternal.


“Claro, eu entendo porque ele fez uma coisa dessas agora. Eu teria feito o mesmo para
garantir o bem-estar do meu filho.”

“Ah, Marquês. Essa é uma coisa muito paterna a se dizer.”

Raeven sorriu. Gazef achava que era bem diferente do que normalmente era, o que em
si era um pensamento bastante rude, mas seu sorriso era igualmente gentil, alegre e or-
gulhoso.

“Bem, eu sou pai, afinal. Eu prometi ao meu filho que, depois desta batalha, eu vou brin-
car com ele o quanto ele quiser, como um pai normalmente faria. Ah, nós saímos do as-
sunto. Vamos deixar as coisas assim. Embora... parece que o Príncipe Barbro não entende
muito bem o ponto de vista do Rei. Parece um pouco triste como o pai não consegue
transmitir seus sentimentos ao filho.”

Gazef se angustiou sobre como responder a ele. Era difícil para ele, que não tinha filhos,
colocar-se nessa mentalidade.

“Certo, certo. A propósito, é possível que eles possam lançar um ataque furtivo a E-Ran-
tel com uma força separada? Embora seja algo detestável, eles poderiam fazer qualquer
coisa para ganhar.”

Gazef pensou que a mudança de tópico foi incrivelmente forçada, mas para sua surpresa,
Raeven correu com ele.

“Não é fácil atacar E-Rantel, defendida por suas três camadas de muralhas. Mesmo que
as duas legiões restantes do Império se mobilizassem totalmente, seria uma tarefa difícil
para eles. Meu estrategista também diz que o inimigo não faria uma coisa dessas.”

“Sério? E se eles tivessem feras voadoras ou algum tipo de legião secreta?”

“Ainda não é possível. Em última análise, é muito difícil assumir o controle de uma ci-
dade com um pequeno número de homens... Falando nisso, Gazef-dono. Você conhece as
condições necessárias para dominar completamente E-Rantel?”

Gazef sacudiu a cabeça.

“É preciso enfrentar o Reino em uma batalha aberta e obter uma vitória esmagadora. Se
os agressores mal conseguirem triunfar, governar a população conquistada será extre-
mamente difícil. Os cidadãos não respondem bem aos invasores e definitivamente haverá
um movimento de resistência. Então, mesmo que o Império usasse uma força separada
para atacar E-Rantel, enquanto nossos soldados não forem tocados, eles imediatamente
tomarão a cidade de volta. Como tal, o Império precisa de uma vitória total. Com isso, os
cidadãos ficarão assustados ao ponto de não conseguirem pensar em resistir e não con-
seguirão mobilizar tropas.”
O importante era que o Império tinha que vencer aqui. Além disso, eles tiveram que
alcançar uma vitória tão completa e absoluta que nenhuma das nações vizinhas — em
particular o Reino, que poderia imediatamente mobilizar suas tropas para tomar a cidade
de volta — ousaria pensar em fazer um movimento.

De repente, Gazef teve a sensação de que havia juntado todas as peças do quebra-cabeça.
No entanto, a imagem que eles formaram estava além de sua compreensão.

Um sentimento vagamente desagradável atormentou Gazef.

“O que está errado, Gazef-dono?”

“Nada...”

Gazef queria contar a Raeven sobre os pedaços espalhados do quebra-cabeça que ele
conseguira varrer juntos em sua cabeça. Ele acreditava que Raeven, com seu intelecto
superior, poderia ter intuições que ele não podia. No entanto, naquele momento, o olho
do Marquês voltou para a formação Imperial.

“Gazef-dono. Parece que eles estão fazendo o movimento deles.”

O Exército Imperial partiu-se em dois para fazer um caminho. Enquanto Gazef se per-
guntava se estavam planejando atacar as alas esquerda e direita do exército do Reino, ele
viu uma bandeira estranha no ar.

Era uma bandeira que Gazef nunca tinha visto antes, adornada com uma bizarra crista
que não pertencia ao Reino nem ao Império. O grupo se aproximando da bandeira avan-
çou.

Todos os olhos estavam nessa companhia.

E então... o coração de Gazef gelou de terror. Raeven, que estava ao lado dele e viu a
mesma coisa que ele, engoliu em seco. Sabendo que ele não estava sozinho em seus sen-
timentos, a amargura começou a subir no fundo de sua boca e seu coração batia louca-
mente.

Era um exército bizarro.

O que apareceu foi um grupo de cerca de 500 cavaleiros. Parecia inteiramente insignifi-
cante comparado aos dois exércitos de frente um para o outro.

No entanto, essas tropas eram altamente anormais. Eles pareciam irradiar um ar opres-
sivo que ele podia sentir mesmo de tão longe.

Isso despertou as memórias de Gazef de seu tempo no Vilarejo Carne. Havia um monstro
em forma de cavaleiro naquela época, que Ainz disse ter criado. Havia aproximadamente
200 deles agora, guerreiros portando escudos enormes e vestindo armaduras com espi-
nhos.

Os outros eram soldados desumanos, mas usavam armaduras de couro e estavam ar-
mados com machados, lanças, balestras ou armas similares.

Se os primeiros fossem cavaleiros, então os últimos poderiam ser chamados de guerrei-


ros.

Mas o que quer que fossem eles não eram humanos. Eles eram monstros, até a medula
de seus ossos.

E então, esses monstros cavalgavam seus próprios monstros. As ditas criaturas eram
feras feitas de ossos, com névoa bruxuleante no lugar de sua carne e sangue. O nevoeiro
brilhava em todos os lugares, pus amarelo e verde esmeralda.

Arrepios brotaram por todo o corpo dele.

Isso era ruim.

Isso era muito ruim.

Foi uma declaração vaga, mas Gazef simplesmente não tinha palavras para descrever a
situação mais claramente do que isso.

“...Então o Império alistou monstros em suas fileiras, parece. Isso é bastante surpreen-
dente. Isso me faz ficar arrepiado.”

“...Não. Não, Marquês Raeven. Esse não é o caso. O que o Marquês sente agora... o que
enche seu corpo com os arrepios... definitivamente não é surpresa.”

“Então o que seria?”

Vendo que Raeven estava completamente perplexo, Gazef respondeu secamente.

“É o medo da morte. Isso desencadeou seu instinto básico de sobrevivência.”

Virando os olhos para o visivelmente abalado Raeven, Gazef olhou para o Exército Im-
perial.

“Os cavalos estão inquietos. Mesmo esses treinados e endurecidos cavalos de guerra es-
tão tão assustados que não conseguem se acalmar.”

“...O que eles são? Uma divisão secreta do Império?”

“...Impossível. Esses monstros não são coisas que os humanos podem controlar ou usar!”
Gazef não sabia nada sobre a verdadeira identidade desses monstros, mas o seu instinto
de guerreiro fornecia informações suficientes para que ele falasse conclusivamente.

“Não há dúvida sobre isso... eles devem ser os cavaleiros de Ainz Ooal Gown!”

“Isso é! ...É o exército do magic caster que você teme?!”

“Marquês Raeven! Por favor, reúna os ex-aventureiros imediatamente! Pergunte-lhes


qual é a nossa melhor jogada! Eles lutaram contra muitos monstros no passado e sobre-
viveram; por favor, peça-lhes que compartilhem sua sabedoria conosco!”

“Enten—”

Ele provavelmente queria responder que entendia, mas seus guarda-costas eram mais
rápidos que isso e já haviam se movido para protegê-lo. No entanto, isso só era esperado.
Eles sentiram o poder dessa ameaça antes de Gazef.

“Marquês Raeven!”

Os antigos aventureiros orichalcum cavalgavam a cavalo.

“Você viu isso? Você sente isso?”

Na cabeça dos aventureiros estava seu líder, o paladino do Deus do Fogo, Boris Axelson.

Dentro de sua voz havia uma emoção de medo que ele não podia esconder.

Raeven não podia falar. Gazef entendia o porquê.

Havia uma nota de susto na voz de um ex-aventureiro orichalcum, mesmo em um lugar


defendido por um exército tão vasto.

Gazef sentiu que não era hora para etiqueta e perguntou:

“—Conte-me! O que é aquilo? Não precisa me cumprimentar! Por favor, me diga tudo o
que você sabe, todos vocês!!”

Boris apertou o santo símbolo que pendia ao redor do pescoço dele. Foi um gesto de
proteção.

“...Não podemos ter certeza, mas acreditamos que as criaturas que eles montam são
monstros lendários conhecidos como Soul Eaters. Dizem que são criaturas undeads que
têm fome das almas dos vivos. Segundo a lenda, eles apareceram uma vez no meio do
continente, em uma cidade no País Beastman.”
“Então... quantas vítimas houve?”

As palavras que Boris falou soaram anormalmente silenciosas.

“—Cem mil.”

A respiração ficou presa na garganta do Gazef.

“...Dizem que três Soul Eaters apareceram e destruíram a cidade. Noventa e cinco por
cento da população, mais de cem mil pessoas, morreram como resultado. A cidade foi
abandonada e foi chamada de Cidade Silenciosa.”

Um pesado silêncio caiu sobre o grupo.

“...E há quinhentos deles lá fora?”

Ninguém conseguiu reunir forças para responder a Raeven.

Gazef forçou suas palavras para quebrar o silêncio.

“Como eu disse anteriormente, acho difícil acreditar que o Império possa subjugar
monstros desse nível com seu próprio poder. Mesmo aquele poderoso magic caster, Flu-
der Paradyne, não deveria ser capaz de fazer isso. Isso significa—”

Ele não precisou terminar sua sentença. O Marquês Raeven entendeu.

“É... é esse o poder do Ainz Ooal Gown? Então, então... que espécie de criaturas está mon-
tando nas costas daqueles monstros?”

“Aquilo...”

Os aventureiros olhavam nervosamente um para o outro.

“—Não sabemos. A única coisa que temos certeza é que eles devem ser muito perigosos.
Não, eu peço desculpas, eu não deveria estar usando termos tão vagos como perigosos.
No entanto, não consigo pensar em outras palavras para descrever o que estamos en-
frentando agora.”

“Então, então o que devemos fazer? Gazef-dono?”

Em resposta à pergunta em pânico de Raeven, Gazef respondeu de maneira concisa e


clara.

“Retirada.”
Eles já sabiam que o inimigo havia preparado uma força inspiradora. Com isso em mente,
o que mais eles poderiam fazer senão fugir?

“Aconselhar o Rei a pedir uma retir—”

Gazef não conseguiu terminar a frase.

Isso porque um magic caster mascarado ficava à frente do inimigo. À sua direita estava
uma pessoa baixa com um manto de capuz. À sua esquerda estava um dos quatro cava-
leiros Imperiais.

Mesmo a essa distância, Gazef não poderia ter confundido aquele homem com mais nin-
guém.

“...Gown-dono.”

“Aquele é o poderoso magic caster Ainz Ooal Gown?!”


[Devoradores d e A l m a s ]
“Ele é quem conjurou os S o u l Eaters? Ele? Marquês Raeven, nós—”

O guerreiro destemido de incontáveis batalhas engoliu em seco e continuou em voz


baixa.

“——Por que merda estamos lutando aqui?”

Ainz acenou com o braço. Em resposta, um círculo mágico surgiu, com cerca de dez me-
tros de raio e formato de uma cúpula. Estava centrado nele. As pessoas à esquerda e à
direita foram engolidas por ele, mas pareciam bem. Parece que o círculo mágico não pre-
judicava aliados.

Essa visão fantástica atraiu a atenção de todos, mesmo sabendo que era uma situação
de emergência.

O círculo mágico brilhava branco-azulado e os símbolos translúcidos apareciam em toda


sua extensão e largura. Os sigilos mudaram com velocidade caleidoscópica, alternando
entre runas e letras que ninguém jamais havia visto antes.

As tropas do Reino ofegaram em surpresa. Não havia medo ou tensão em suas vozes,
como se estivessem assistindo a um belo espetáculo. No entanto, aqueles com instintos
mais aguçados começaram a olhar em torno de si em óbvio desconforto.

“Estou voltando para minha unidade. Não há mais tempo a perder. O poder do Ainz Ooal
Gown é imensurável. Batalhar com ele foi um erro desde o começo. O que precisamos
fazer agora é minimizar o número de vítimas e, ao mesmo tempo, precisamos voltar ao
E-Rantel o mais rápido que pudermos. Gazef-dono, por favor, proteja Sua Majestade. De-
pois disso, retire-se sem demora!”
A calma que Raeven conseguiu se agarrar até recentemente foi toda embora agora.

“Sim! Embora eu não confie tanto em minhas habilidades, mas definitivamente vou pro-
teger Sua Majestade. Além disso, não pense sobre a retir—”

“Claro. Vamos nos retirar o mais rápido possível... não, fugiremos como coelhos.”

“Então, desejo-lhe boa sorte, Marquês Raeven!”

“O mesmo, Gazef-dono!”

Os dois homens que estavam no auge do poder militar do Reino e do pensamento estra-
tégico apressadamente entraram em ação. Contudo—

—Era tarde demais.

♦♦♦

Ninguém está lá.

Depois que Ainz implantou seu círculo mágico, foi o que ele pensou.

Não há jogadores de YGGDRASIL no Reino.

A magia de Super-Aba de YGGDRASIL era incrivelmente poderosa.

Por causa disso, durante uma batalha em larga escala, derrubar uma pessoa que poderia
conjurar magias de Super-Aba seria a primeira tática básica.

Pode-se dificultar os oponentes de várias maneiras. Ataques de teletransporte, por


exemplo. Bombardeio de cima de um tapete mágico. Tiros precisos de uma longa distân-
cia. Havia inúmeros métodos para atingir esse objetivo.

No entanto, nenhum ataque como esse veio em direção a Ainz. Por sua vez, isso provou
que não havia jogadores de YGGDRASIL presentes.

Sob a máscara, Ainz sorria, fato que não era visto por ninguém. Claro, seu rosto esque-
lético não conseguia formar um sorriso.

O sorriso amargo, atado com leves traços de alegria, destacou os sentimentos no coração
de Ainz.

“Então eu não preciso servir como isca, então?”

Sua alegria veio do fato de que ele não havia encontrado nenhum jogador de YGGDRASIL.
Ainz não poderia ser considerado como o maior entre os jogadores de YGGDRASIL. Ha-
via outros que eram melhores do que ele, e suas chances de sobrevivência contra joga-
dores mais fortes não eram boas. Quando ainda jogava, a força de Ainz se originou de seu
conhecimento. Embora ele ganhasse frequentemente em combate PVP, essas foram vitó-
rias consecutivas vieram depois de perder a primeira rodada de uma partida.

Ainz era surpreendentemente habilidoso em usar as informações que reunira. Por outro
lado, suas chances de derrota também eram muito altas se ele lutasse contra um adver-
sário que nunca havia encontrado antes.

Ainz estava plenamente ciente de suas habilidades e estava profundamente grato por
não ter encontrado um inimigo poderoso sobre o qual não sabia nada.

Mas, ao mesmo tempo, ele também sentiu uma ponta de arrependimento.

Ele lamentou o fato de não poder encontrar quem fez lavagem cerebral em Shalltear
entre seus inimigos, pessoas relacionadas certamente possuíam um item World-Class.

O ódio, espesso e enjoativo, reunia-se no fundo do coração de Ainz. Embora suas emo-
ções fortes fossem suprimidas, as mais fracas persistiam dentro dele.

Ainz abriu a mão e dentro dela havia uma ampulheta em miniatura.

Se ele usasse um item de cash, ele poderia lançar imediatamente a magia Super-Aba. A
razão pela qual ele não fez isso foi porque ele estava servindo como isca para verificar a
existência de quaisquer possíveis jogadores de YGGDRASIL. No entanto, se não houvesse
nenhum, não haveria necessidade de apressar o longo tempo de lançamento da magia.
Ter que permanecer imóvel no meio de um círculo mágico não era nada legal.

Durante a batalha com Shalltear, ele não teve esse luxo.

Contra os Lizardmen, ele não usou uma magia de ataque.

Então—

“Isto vai ser divertido. Ah, vai ser divertido.”

—O que exatamente uma magia de ataque de Super-Aba faria contra os exércitos do


Reino?

Embora não tenha sido um período particularmente forte em YGGDRASIL, que efeitos
teria neste mundo?

De repente, Ainz atou suas sobrancelhas inexistentes.


Muitas pessoas estavam prestes a morrer, mas ele não sentia pena delas, e isso o assus-
tou um pouco. Ele nem mesmo se sentia cruel, era como alguém pisoteando formigas até
a morte. Na verdade, no fundo, ele não sentia absolutamente nada.

Havia apenas o desejo de ver os resultados de suas ações. E, claro, os benefícios que ele
colheria por si mesmo — pela Grande Tumba de Nazarick.

Ainz cerrou o punho.

As partículas de areia que vazavam da ampulheta quebrada moviam-se contra o vento


e fluíam para o círculo mágico que rodeava Ainz.

E então — a magia de Super-Aba foi ativada instantaneamente.

“Sejam tributos para a Mãe Negra 「Iä Shub-Niggurath」!”

Um vórtice sombrio soprou, passando pelo exército do Reino, que acabara de mudar sua
formação.

Não, não houve vento soprando de forma física. Nem as ervas daninhas espalhadas nas
planícies ou nos cabelos das cabeças dos soldados do Reino se mexeram.

Havia 70.000 homens na ala esquerda do exército do Reino.

Cada um deles foi morto em um instante.

Parte 2

Mas que merda acabou de acontecer?

Ninguém poderia responder imediatamente.

Todas as criaturas vivas que compunham a ala esquerda do exército do Reino — não
apenas humanos, mas também seus cavalos — desmoronaram de repente no chão como
marionetes cujas cordas haviam sido cortadas.

Os que perceberam a resposta primeiro foram as tropas Imperiais, armadas a distância.

Demorou um pouco para a mente humana analisar adequadamente os eventos que aca-
baram de acontecer diante de seus olhos. Então, depois de um pequeno atraso, gritos de
pânico se elevaram no ar, tornando-se uma grande onda que engolfou todo o Exército
Imperial.
Certamente, eles sabiam que Ainz Ooal Gown iria lançar uma magia depois que ele ti-
vesse implantado seu círculo mágico.

No entanto — quem poderia ter antecipado isso?

Quem poderia imaginar que ele lançaria uma magia tão horrível?

Quem poderia imaginar que ele havia lançado uma magia que mataria 70.000 pessoas
— um número maior do que todo o Exército Imperial — em um instante?

Os cavaleiros imperiais duvidavam de seus olhos, mesmo quando oravam a quaisquer


deuses em que acreditassem.

Eles oraram para que o povo do Reino não estivesse morto.

Eles rezaram para que tal magia terrível não existisse neste mundo.

É claro que, ao perceberem a verdade diante de seus olhos — que nem uma única pessoa
havia se levantado de onde haviam caído —, estavam plenamente conscientes de que
aquilo não passava de uma ilusão.

Mesmo assim, não havia como aceitar isso. Não havia como aceitar isso como realidade.

O homem aclamado como um dos mais fortes do Império, um dos Quatro Cavaleiros,
Nimble, só podia trincar os dentes em terror e olhar estupidamente para a ala esquerda
do exército do Reino.

Ninguém se levantou de novo. Essa era uma realidade que era horrível demais para ser
aceita.

Não, a terrível verdade não poderia ser descrita apenas com estas simples palavras.

Ainz Ooal Gown — esse magic caster sozinho — era um monstro que podia sobrepujar
as nações forjadas por homens e obliterá-las da mesma maneira que uma criança derru-
baria um castelo de areia.

Essa era uma realidade que estava além da capacidade de qualquer palavra para des-
crever.

O pânico que envolvia o Exército Imperial gradualmente desapareceu como água dre-
nada. No final, todos simplesmente ficaram em silêncio, incapazes de falar.

No entanto, um ruído estranho surgiu no silêncio da formação do Exército Imperial. O


barulho nasceu de muitos sons se misturando em um grande clamor. Era o som de cada
cavaleiro rangendo os dentes.
Este foi o terror nascido de perceber que o Império, onde eles e suas famílias viviam,
agora estava à beira da extinção, assim como o Reino.

Este era um entendimento que se eles se atrevessem a levantar as mãos contra Ainz
Ooal Gown, aquela mesma magia terrível poderia acabar sendo usada em si mesmos—

Sob essas circunstâncias, Nimble de repente pensou em alguma coisa. Que tipo de ex-
pressão faria um magic caster como este — que poderia trabalhar em uma feitiçaria que
poderia abater os vivos em quantidades que incomodavam a compreensão mortal — que
tipo de expressão ele tinha?

Sem mover o rosto, ele espiou o monstro ao lado dele, mas tudo o que viu foi indiferença.

Como isso pode ser? Como isso pode ser possível? Como alguém pode ficar assim... assim...
ser tão calmo? Mesmo depois de tirar setenta mil vidas? Claro, o campo de batalha é um
lugar mortífero. Os fracos perdendo suas vidas são apenas esperados. Mas mesmo assim,
ele não deveria sentir algo em seu coração depois de matar tantas pessoas?!!

Pesar ou culpa seria a resposta natural. Se ele sentisse alegria ou excitação, isso poderia
até ser compreensível, anormal como tal reação poderia ser.

Contudo—

É essa indiferença é algum tipo de reação defensiva para proteger seu coração? Não, isso
deve ser um cenário familiar para um monstro como ele! Não há alegria sádica ou pena em
seu coração, é como quando um ser humano esmaga formigas!! O que... o que é ele?! Por
que isso está acontecendo? Por que alguém assim existe no mundo?!!!!

“—É algo que importa?”

“Aieee!”

As palavras soaram como uma estaca de aço frio dentro dele. A resposta de Nimble à
pergunta foi um grito estúpido.

“Não, nada está errado. Que, essa magia de agora, foi magnífica.”

Nimble agradeceu silenciosamente por ainda poder falar. Mais do que isso — o fato dele
poder elogiar Ainz sob tais circunstâncias era nada menos do que louvável.

“Ha ha ha—”

O elogio desesperado de Nimble foi respondido por um riso fraco.

“Eu, eu te ofendi?”
“Não, de forma alguma. Você disse que a magia de agora foi magnífica, não disse?”

“S-Sim.”

Valia a pena rir disso?

O suor escorria pela testa de Nimble como um rio. Depois de ver as consequências ter-
ríveis de irritar essa pessoa, ele não tinha intenção de incorrer em sua ira.

“Por favor, fique calmo. Embora... devo dizer, essa magia ainda não terminou. Agora é
que o verdadeiro espetáculo começa. Afinal, quando alguém faz uma oferenda à Deusa
Negra da Boa Colheita, ela retribuirá nos presenteando com sua prole. Aquelas crianças
fofas e adoráveis...”

Isso estava certo.

E assim como frutas maduras cairiam na terra na plenitude do tempo—

♦♦♦

Os cavaleiros Imperiais foram os primeiros a ver isso.

Esperava-se que os cavaleiros, observando de longe, de uma distância segura, o vissem


primeiro. Por se sentirem seguros, ousaram espiar para fora das fendas estreitas de seus
elmos.

Depois que a tempestade de morte ceifou as vidas dos soldados do Reino, algo apareceu
no céu; uma esfera negra repulsiva que parecia poluir o mundo com sua própria presença.

Então, quem no lado do Reino viu isso? Era mais provável que as tropas da ala direita,
que não tinham linha direta de visão para o que tinha acontecido do outro lado. Eles sen-
tiram que algo anormal estava acontecendo, mas não sabiam exatamente o que tinha
acontecido, e quando eles olharam ao redor para descobrir o que estava acontecendo,
eles o viram.

Como se seus olhos estivessem sendo guiados ali, os soldados ao lado deles perceberam.
Dessa forma, todos os habitantes das Planícies Katze, que se haviam reunido para fazer
a guerra, acabaram olhando em silêncio a esfera flutuando no céu.

A esfera — que se assemelhava tanto a um buraco no céu — era como uma teia de ara-
nha aberta; uma vez que se visse, não se podia afastar.

A esfera negra cresceu lentamente.


Seja lutando ou fugindo, nenhum humano poderia conseguir desenvolver qualquer pen-
samento ou atividade significativa. Tudo o que eles podiam fazer era olhar estupida-
mente.

E finalmente — a fruta amadurecida caiu.

♦♦♦

De uma forma completamente natural, a esfera em queda se desfez quando tocou a terra.

Ela explodiu como um balão de água batendo no chão, ou talvez como uma fruta madura
fazendo o mesmo.

Estava cheio de algo que se espalhou do ponto de impacto. Era algo como alcatrão de
carvão. Absorvia a luz, como uma onda de aderência negra infinitamente expansiva, e
engoliu os cadáveres dos soldados do Reino.

Informado por um estranho instinto, ninguém achou que terminaria ali.

Eles tiveram uma premonição — isto seria apenas o começo.

De fato — este foi o começo de seu desespero.

♦♦♦

De repente, uma vasta árvore cresceu do alcatrão negro que cobria a terra.

Não, isso não era nada tão agradável quanto uma árvore.

No início, havia apenas um deles, mas depois se multiplicou. Dois, três, cinco, dez... esses
objetos acenaram na ausência do vento. O que cresceu lá... foram tentáculos.

“MÉÉÉÉÉÉÉHH!!”

De repente, eles ouviram o adorável balido de uma cabra. Não foi apenas uma cabra. Era
como se um rebanho de cabras tivesse surgido do nada.

Como se atraído pelo som, o alcatrão se contorceu e pareceu vomitar alguma coisa. Era
algo muito estranho, pouco natural. Tinha 10 metros de altura. Se alguém contasse o
comprimento dos tentáculos, esse número ficaria incerto.

De relance, parecia um tipo de nabo. No lugar das folhas, tinha inúmeros tentáculos ne-
gros, e sua porção espessa de raízes era uma fatia de carne coberta de caroços assusta-
dores. Abaixo, havia cinco pernas, como as de uma cabra, com cascos pretos.
Fissuras apareceram na parte que se parecia com uma raiz — uma espessa camada de
carne coberta de caroços —, as fissuras abriram em vários lugares ao mesmo tempo. E
então—

“MÉÉÉÉÉÉÉHH!!”

O adorável balido das cabras saía das fissuras. De suas bocas escorriam baba pegajosa.

Havia cinco deles.

Eles exibiram seus corpos hediondos para todos nas Planícies Katze.

♦♦♦

A Cabra Negra de Mil Crias.

Esses monstros apareciam em proporção ao número de mortes causadas pela magia de


Super-Aba “Tributos para a Mãe Negra 「Iä Shub-Niggurath」”. Mesmo não possuindo
habilidades especiais poderosas, elas eram extraordinariamente resilientes.

Além disso, eles estavam todos no nível 90.

Em outras palavras, isso se tornaria uma tempestade de carnificina.

♦♦♦

Além do adorável balido das cabras, tão doentiamente doce e fofo que fazia as pessoas
quererem vomitar, não havia outros sons. Isso porque ninguém podia falar, não que-
rendo acreditar ou aceitar que os eventos que se desenrolavam diante de seus olhos es-
tavam realmente acontecendo. Mais de 300.000 — ou se você contasse apenas os vivos,
235.000 — as pessoas estavam reunidas aqui, e nenhuma delas poderia dizer nada.

Em meio a tudo isso, Ainz riu com vontade.

“Maravilhoso. Este é um novo recorde. Em toda a história, eu poderia ser o único que já
conseguiu chamar cinco ao mesmo tempo. Notável. Eu devo agradecer a todos que mor-
reram aqui hoje.”

Em circunstâncias normais, ser capaz de chamar uma das Crias Negras não era ruim. Ser
capaz de trazer duas era uma raridade.

E agora haviam cinco.

Assim como um jogador que estava comemorando batendo seu próprio recorde, Ainz
ficou muito feliz pelo fato de ter estabelecido esse novo recorde. Então, se dezenas de
milhares de pessoas morreram por isso?
“Embora... seria melhor se houvesse mais... cinco é o limite máximo? Não seria incrível
se eu conseguisse maximizar?”

“Parabéns! Como esperado de Ainz-sama!”

Ainz sorriu sob sua máscara enquanto Mare o elogiava.

“Obrigado, Mare.”

Depois disso, Ainz se virou para olhar para Nimble, o que assustou o pobre homem. Seu
rosto estava em algum lugar entre lágrimas e risos enquanto ele elogiava Ainz também.

“Pa-Parabéns.”

“Obrigado.”

Ainz estava de bom humor quando fez sua resposta.

A emoção sincera no rosto de Nimble mudou o coração de Ainz.

Então, ele se lembrou de seus dias como jogador em YGGDRASIL, de como ele tinha fi-
cado igualmente emocionado quando viu pela primeira vez a conjuração do 「Iä Shub-
Niggurath」.

Magias chamativas ou poderosas podem abalar os corações das massas. Bem, isso era de
se esperar de uma das magias mais populares de YGGDRASIL. Quando eu disse que ia lançá-
lo, Albedo e Demiurge não paravam de me elogiar.

♦♦♦

Um som de *gachigachi* veio das fileiras do Exército Imperial.

Foi o som da armadura batendo contra si mesmo.

Os soldados estavam tremendo, mas quem poderia rir deles?

O Rei Feiticeiro tinha rido alegremente depois de lançar uma magia de convocação tão
horrível, ninguém podia ouvi-lo e não irromper em arrepios.

Todo cavaleiro Imperial presente pensava a mesma coisa.

Eles desejaram que a ira de Ainz Ooal Gown não caísse sobre eles.

Parecia mais uma oração aos deuses.


♦♦♦

Quando os soldados imploraram sinceramente atrás dele, Ainz começou a próxima fase.
Ele sentiu que já havia feito o suficiente, mas estava de bom humor, e achou que seria
melhor matar um pouco mais para ter certeza.

Desta vez, seu objetivo era proclamar o poder de Ainz Ooal Gown, um praticante das
magias de Super-Aba, para as nações aqui reunidas.

Esse objetivo foi alcançado. No entanto, deixar esses lacaios desaparecer seria uma ver-
gonha.

De fato, seria muito desperdício.

Ainz bufou.

Se ele tivesse uma língua, ele estaria lambendo os lábios em antecipação.

Foi uma alegria que ele não pôde sentir em YGGDRASIL, a alegria de poder conduzir
cinco Crias Negras em simultâneo.

“—Ah, vamos tentar. Invada-os, meus queridos cordeiros.”

Ao receberem o comando de seu invocador Ainz, as Crias Negras começaram a se mover


lentamente.

Suas cinco pernas de cabra se moviam num passo bizarro enquanto seguiam em um
movimento rápido. Não era tão gracioso quanto enérgico, e talvez alguém pudesse sorrir
ao vê-lo.

Contanto que elas não viessem em sua direção.

Seus vastos corpos moviam-se levemente, e as cinco Crias Negras irromperam correndo
enquanto se dirigiam para o exército do Reino.

“Ah, certo, tem três — não, quatro pessoas que você não pode matar. Eu absolutamente
proíbo-os de prejudicá-los.”

Quando ele recordou as três pessoas que Demiurge desejava que a vida fosse poupada,
Ainz enviou um comando mental para as Crias Negras.

♦♦♦

“Isso é um sonho?”
Um soldado do Exército Real murmurou para si mesmo, longe dos monstros inumanos.
Claro, ele não recebeu resposta. Os olhos de todos estavam fixos na cena que se desenro-
lava diante deles e haviam perdido o poder da fala. Era como se as almas deles tivessem
sido arrancadas.

“Ei, isso é um sonho, certo? Eu devo estar sonhando, né?”

“Ahh. Isso é um pesadelo desgraçado.”

Na segunda vez que a pergunta foi feita, alguém conseguiu responder. Mas suas vozes
soaram como se quisessem fugir da realidade.

Impossível.

Eu não quero acreditar nisso.

Pensamentos como esses se espalharam pela infantaria. Mesmo quando as formas pe-
sadas cresciam cada vez mais — mesmo quando os seres inumanos se aproximavam de-
les, eles ainda não queriam aceitar que isso era realidade.

Se fossem simples monstros, talvez pudessem reunir coragem para erguer suas armas.
No entanto, os monstros que apareceram depois que uma ala inteira do exército — um
total de 70.000 pessoas — foram massacrados em um instante, então não poderiam ser
monstros simples. Era como assistir a um furacão avançando, e ninguém conseguia reu-
nir coragem para enfrentar a tempestade.

Os seres gigantescos e bizarros galopavam agilmente com suas pernas maciças, fazendo
sua investida com velocidades incríveis.

“Peguem suas lanças!”

Uma voz soou.

Aquele grito alto e estridente veio da boca de um nobre. Seus olhos estavam vermelhos
e espuma salpicava os cantos de sua boca.

“Levantar Lanças! Peguem suas lanças!! Peguem suas lanças se quiserem viver!!!”

Embora ele já tivesse enlouquecido de medo e fosse difícil entender o que ele estava
dizendo, os soldados ainda conseguiram entender a ordem “Levantar Lanças”, e eles sa-
biam que era provavelmente o melhor comando que ele poderia ter dado.

Agindo em reflexo, os soldados levantaram e fixaram suas lanças, formando uma linha
de lança apoiada.
Eles plantaram as pontas firmemente no chão, de modo que a velocidade de seus opo-
nentes só se prejudicaria quando eles investissem na proteção de pontos.

Embora essa formação fosse quase inquebrável pelos cavaleiros Imperiais, os soldados
do Reino imaginavam — em algum canto pequeno e isolado de suas mentes, que ainda
mantinha a sanidade — que vantagem poderiam conseguir com as minúsculas lanças que
estavam agarrando. Mesmo assim, eles sabiam que era sua única chance de salvação.

Dada a velocidade com que essas criaturas bizarras se aproximavam, a fuga provavel-
mente seria impossível. Mesmo se eles corressem com toda a sua força, eles ainda seriam
esmagados por trás.

Eles rezaram para que os monstros não viessem por eles, mesmo enquanto se prepara-
vam para o ataque.

Os monstros —que pareciam pequenos a distância — diminuíram a distância com uma


velocidade assustadora.

Ao se aproximar, a terra começou a tremer sob os trovões dos cascos, os corações dos
soldados começaram a bater loucamente. Então, quando seus corações pareciam que es-
tourariam em seus peitos, as silhuetas enormes estavam sobre eles.

Era como rochas imensas esmagando um enxame de ratos.

Os soldados do Exército Real ergueram inúmeras lanças em mãos trêmulas. Mas de que
servem elas contra os corpos maciços e sólidos das Crias Negras? As lanças quebraram
como palitos sem sequer arranhar a Cria Negra.

Os corpos maciços das Crias Negras pisotearam o Exército Real sob os pés.

Lascas de incontáveis lanças quebradas voavam pelo ar.

Apesar de terem esmagado a resistência sem significado que nem sequer contava como
resistência, Crias Negras da Cabra Negra de Mil Crias eram misericordiosos à sua ma-
neira.

Não houve dor.

Não havia tempo para que suas vítimas sentissem dor antes de serem esmagadas sob o
peso titânico da investida das Crias Negras.

Os soldados empunhando as lanças nem sequer tiveram tempo para perceber que as
lanças que estavam segurando tinham sido pulverizadas por aqueles corpos massivos.
Tudo o que viram foram sombras negras caindo sobre eles.

Eles gritaram, desesperaram e clamaram.


Os pedaços de carne voaram pelo ar. Eles não vieram de apenas uma ou duas pessoas,
mas dezenas, centenas de vítimas. Estavam esmagados pelos enormes cascos e jogados
— não, arremessados pelos tentáculos ondulantes.

Sejam patrícios ou plebeus, agora todos faziam parte dos mesmos pedaços de pasta de
carne ensanguentada.

Alguns deles tinham famílias em seus vilarejos. Alguns tinham amigos deixados para
trás. Alguns tinham pessoas esperando por eles. Mas uma vez que eles foram enterrados
na lama rubra, nada disso importava mais.

As Crias Negras tratavam a todos da mesma maneira, concedendo morte a todos eles.

Certamente eles devem ter ficado satisfeitos depois de esmagar incontáveis seres hu-
manos, mas eles não mostraram sinais de parar.

As Crias Negras continuaram a correr.

Eles correram. Eles não pararam enquanto estavam no meio das forças do Reino, sim-
plesmente seguindo em frente.

“Gyaaaaaaaaaaaaaaa!”

“Abbaaaaaaahhhhhh!!”

“Paaaaaaaaaaaaaaare!”

“Meee salveeeeeeeem!”

“Nãããããããooooooooo!”

“Uwaaaaaaaaaaaaahh!”

Os gritos aumentaram toda vez que aqueles gigantescos cascos desciam. Misturava-se
com o som de humanos pululando sob as poderosas pernas de uma das Crias Negras, e o
som enquanto graciosamente eram arremessados pelos tentáculos.

Um som que os homens nunca ouviram antes continuou sem fim.

Pisoteados.

Que palavra melhor havia para descrever essa cena?

Várias pessoas desesperadamente empurraram seus piques para a frente. As Crias Ne-
gras, cujos corpos eram enormes e que não tinham intenção de evitar os ataques, foram
atingidos pelas pontas. No entanto, as lanças não podiam perfurar profundamente o su-
ficiente para causar danos a seus corpos parecidos com couraças. Eram massas de mús-
culo duro como ferro embainhadas por uma pele grossa e emborrachada.

As Crias Negras não zombaram da resistência fútil dos soltados, mas simplesmente
avançaram.

Antes que os soldados percebessem que sua resolução fatal era insignificante, as Crias
Negras já haviam atingido a porção mais central do exército do Reino.

“Fujam! Fujam!”

Eles ouviram os gritos à distância. Em resposta, todos os soldados começaram a fugir.


Era exatamente como um enxame de aranhas se espalhando em todas as direções. Mas
claro, as Crias Negras eram muito mais rápidas que os seres humanos.

Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat.
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Splat. Splat. Splat. Splat. Splat. Splat.
Os sons de seres humanos sendo esmagados até a morte e transformados em pedaços
de carne continuaram sem descanso.

♦♦♦

Como se tivessem chegado a uma terra árida, três dos monstros atravessaram a coluna
central do exército, aproximando-se da ala direita em meio a jatos de sangue e tripas. Em
instantes, eles estariam nas tropas de Raeven.

“Retirada! Retirada!”

A maneira como Raeven gritava essas ordens estava mais para um gemido.

Eles não podiam lutar contra esses monstros.

Eles não devem jogar suas vidas fora sem motivo.

Quando ouviram as palavras de Raeven, os soldados ao redor soltaram as armas e fugi-


ram em pânico.

É claro que, uma vez que havia muitas pessoas, era impossível para elas se movimenta-
rem livremente.

No começo, ele havia sinalizado uma retirada ordenada. Ele o fez assim pois estava des-
confiado de um ataque por trás, mas agora ele percebeu que o tempo que ele tinha des-
perdiçado fazendo isso era um grande erro.

“Ainz Ooal Gown, que tipo de criatura, que tipo de magic caster você é?!”

Ele o subestimou. Não, ele não o fez de propósito.

Depois de considerar as palavras de Gazef Stronoff, ele o via como um inimigo do mais
alto nível imaginável. No entanto, tudo o que ele podia dizer agora era que ele ainda su-
bestimara as habilidades do homem.

Sua imaginação simplesmente não foi suficiente.

Que tipo de mente poderia ter previsto que Ainz Ooal Gown era tão poderoso? Quem
poderia saber que esse poder existia neste mundo?

Vendo as silhuetas sempre em expansão dos monstros, o Marquês Raeven gritou ordens
às tropas que o cercavam.

“Isso não é mais um campo de batalha, é um pisoteamento assassino! Apenas corram!”


“Meu senhor!”

Um cavaleiro disse retirando o elmo:

“O Rei! E o Rei?”

“Seu idiota! Não há tempo para isso! Meu Senhor! Está vindo bem para nós!”

Enquanto olhavam na direção dos gritos, os monstros já haviam começado a pisotear os


homens em fuga e o esmagamento da ala direita havia começado. Embora parecesse que
eles estavam avançando em direção a eles em linha reta, eles não estavam mirando em
Raeven, mas atropelando ao léu. Na verdade, as outras Crias Negras estavam longe de
onde Raeven estava.

“Onde está o Rei?”

“Ele está aí!”

Ele viu a bandeira real na direção em que o soldado apontava, mas uma Cria Negra já
estava caindo sobre ela.

Raeven hesitou. O que ele poderia fazer se ele fosse ajudar? No entanto, se o Rei Ran-
possa III fosse perdido aqui, o país inteiro poderia se desfazer.

Contudo—

“Deixe isso para Gazef-dono!”

Raeven tinha fé em Gazef.

Ele era um guerreiro digno de louvor do Rei. Embora até mesmo ele ainda fosse incapaz
de derrotar aqueles monstros, aquelas cabras negras, no mínimo, ele poderia trazer o Rei
em segurança para fora deste inferno.

“Marquês Raeven! A situação é ruim! Por favor, retire-se com toda a pressa!”

A voz dos ex-aventureiros orichalcum, os subordinados em quem ele mais confiava, var-
reu a hesitação de Raeven.

“—Meu Senhor!”

Foi menos um grito do que um berro. Raeven gritou uma resposta.

“Eu sei, vamos correr!”


Na situação atual, com os monstros tão próximos, não havia sentido em disfarçar pala-
vras extravagantes como “retirada”.

“Por favor, deixe a tarefa de reunir os homens para mim! Meu senhor, saia daqui agora
e vá para E-Rantel!”

O grito veio de um homem de olhos sonolentos. Embora ele parecesse normal, Raeven
não poderia ter confiado seu comando a uma pessoa melhor.

“Eu o incumbirei disso! Use meu nome como achar melhor! Eu suportarei as consequên-
cias!”

O som dos cascos estava muito próximo. O Marquês Raeven estava com tanto medo que
não ousou se virar para ver o quão perto eles estavam, e seu medo levou-o a enfiar as
esporas nos flancos do cavalo com todas as suas forças. No entanto, o cavalo não se me-
xeu. Mesmo quando ele chutou com mais força, ainda não se moveu. Ele achatou as ore-
lhas contra a cabeça e ficou parado.

Naquele momento, em meio ao caos, um grupo de cavalos abriu caminho através de uma
horda de pessoas em fuga. Os homens de costas agarraram-se aos corpos dos cavalos,
aparentemente ignorando as rédeas que balançavam frouxamente.

Ironicamente, os cavalos de guerra treinados estavam congelados em pânico, enquanto


os cavalos destreinados corriam loucos de terror.

“Pensar que o treinamento teria o efeito inverso!”

Em primeiro lugar, os cavalos eram animais tímidos. Foi somente após o treinamento
que eles puderam ser considerados cavalos de guerra destemidos. No entanto, foi justa-
mente por causa desse treinamento que eles não conseguiram se mover. Suas mentes já
estavam sobrecarregadas, mas não haviam esquecido seu treinamento.

“Me perdoe! 「Lion’s Heart」!”

O sacerdote do Deus do Vento, Göran Dixgard, lançou uma magia de resistência ao medo
no cavalo. O cavalo acalmado relinchou alto.

“Marquês Raeven! Nós vamos liderar o caminho!”

“Por favor faça!”

Com as vozes de seus subordinados desejando que ele ecoasse bem em suas costas, Ra-
even incitou seu cavalo a um movimento selvagem, escoltado pelos ex-aventureiros.
Montar um cavalo através de uma turba violenta que perdera a disciplina no caos era
muito difícil. No entanto, isso foi possível porque eles já foram aventureiros orichalcum,
que ficaram perto do auge da humanidade.

O grupo habilmente se enfiou entre o fluxo da humanidade.

“Esse magic caster é um monstro! Como o mundo pode permitir que alguém assim
exista?!”

Raeven amaldiçoou Ainz quando seu cavalo subia e descia em seu galope de alta veloci-
dade.

“Droga! Nós temos que fazer alguma coisa! Preciso pensar em alguma maneira de pro-
teger nosso mundo — nosso futuro!”

O medo foi provavelmente a razão pela qual ele estava inconscientemente murmurando
para si mesmo. Se ele não dissesse nada, se não distraísse sua mente, esse cérebro inte-
ligente provavelmente esboçaria horríveis pesadelos do perigo que se aproximava dele.

Quando ele retornasse, ele precisaria se sentar com o Príncipe (Zanac) e a Princesa
(Renner) e elaborar alguma forma de contramedida contra aquele incomparável magic
caster.

Se isso acontecesse, toda a humanidade seria conquistada — não, isso ainda estava certo.
No pior dos casos, toda a humanidade pode se tornar um brinquedo para Ainz Ooal Gown,
para serem atormentados até o fim de suas vidas.

O som de um estalo de língua passou pelos sons dos cascos do cavalo.

“Nada bom! Meu senhor, por favor, guie seu cavalo para a direita! Aquilo nos alcançou!”

“Como nos encontrou sem olhos?!”

Lockmeier, o ladino, gritou:

“Lund! Tem alguma magia para isso?”

“Claro que não! Você acha que alguma magia funcionaria contra esse monstro, Lock?”

“Mesmo assim, como saberemos se não tentarmos—”

“Pare! Não faça nada até que seja necessário! Pode estar apenas avançando na mesma
direção que nós! Marquês Raeven! Mova-se na nossa frente! Nós vamos formar uma fila
única!”

Suas vozes tremiam.


De acordo com as instruções, Raeven moveu seu cavalo para a liderança. Então, ele virou
o cavalo na direção em que menos pessoas estavam fugindo.

O grito de uma Cria Negra veio de perto, e parecia que iria esmagar seu coração batendo
em seu peito.

“MÉÉÉÉÉÉÉHHHH!”

—Foi por pouco.

O suor escorria da cabeça do Marquês Raeven como uma cachoeira. Ele estava com tanto
medo que não ousou se virar, mas podia sentir o ar atrás dele ficando cada vez mais
quente.

E então, ele ouviu de novo.

“MÉÉÉÉÉÉÉHHHH!!”

“Filho da puta! Isso é problema! Ele está seguindo como antes! ...Todos! Preparem-se!”

Os magic caster responderam aos gritos do líder Boris com suas magias.

“「Reinforce Armor」!”

“「Lesser Strength」!”

“Ótimo! Então, meu senhor! Vamos receber o ataque do inimigo! Não olhe para trás em
nenhuma circunstância e continue andando!”

Havia apenas uma coisa que ele poderia dizer aos aventureiros, que haviam conquistado
o medo.

“...Estou contando com você!”

“Entendido! Vamos!”

“Ohhhhh!”

Ele podia ouvir os cavalos dos ex-aventureiros se afastando dele.

Raeven abaixou a cabeça, fazendo o melhor que pôde para minimizar a resistência do
vento. Embora ele não soubesse quanto tempo eles poderiam comprar, ele sabia que ti-
nha que correr o máximo que podia sem olhar para trás — voltar vivo seria a única ma-
neira de retribuir sua lealdade.
“Eu vou acabar com você! 「Fireball」!!”

“《Fortaleza Impenetrável》!”

Enquanto cavalgava nas costas do cavalo a galope, Raeven achou que podia ouvir o som
dos ex-aventureiros se juntando à batalha, mesmo com o vento passando por seu rosto.

E então — dentro de dois segundos ele não podia mais ouvir os ex-aventureiros.

O que ele ouviu foi o som de um enorme casco pisoteando.

O coração em seu peito balançou.

Ao ver a sombra de seu campo de visão abaixado, Raeven fez o melhor que pôde para
conter um grito.

Ele percebeu que havia uma enorme sombra debaixo dos pés — um corpo juntamente
com cavalo — e que um longo e grosso tentáculo estava estendendo a mão para ele.

“Não...”

O cavalo corria como se tivesse enlouquecido. Era mais rápido do que Raeven já havia
montado. Poderia ter sido o mais rápido que já tinha ido. Mesmo assim, a poderosa som-
bra ainda se estendia pela terra.

“Eu não quero isso!”

Ele gritou. Ele não esperava gritar e tão alto.

Calor se espalhou por sua virilha.

Raeven forçou os olhos a se abrirem e, sem olhar para trás, forçou o cavalo para a frente.

Ele não podia morrer ainda. Não importava o que acontecesse com o país. Se o país ca-
ísse, que assim seja.

Se pegar em armas contra Ainz Ooal Gown significava morte, então ele estava disposto
a abandonar este país e fugir.

Ele tinha sido um idiota.

Ele tinha sido um grande idiota.

Chegar a este campo de batalha foi a maior das tolices.


Já que ele ouvira o quão poderoso Ainz Ooal Gown era, ele deveria ter ficado na Capital
Real, não importando o custo.

Ele não pensava mais no futuro do Reino.

“Eu não quero isso!”

Ele não podia morrer, não agora.

Ele não podia morrer enquanto seu filho ainda era tão jovem. E... ele não podia deixar
sua amada esposa sozinha.

“Eu não—”

Raeven imaginou a forma de seu filho diante dele.

Meu adorável filho.

Uma minúscula vida havia nascido. Ele cresceu lentamente. Ficou doente. Naquela época,
ele tinha feito um enorme barulho por causa disso. A imagem de si mesmo correndo em
torno de ordens meio loucas e berrantes, enquanto sua esposa permanecia sentada em
silêncio era profundamente embaraçosa.

Suas mãos eram macias e suas bochechas estavam rosadas. Quando ele crescesse para
a juventude, ele seria o assunto do Reino. Ele acreditava que as habilidades de seu filho
superariam as suas. Ele já podia ver traços disso de vez em quando.

Sua esposa continuava dizendo que qualquer pai pensaria o melhor de seu filho, mas ele
não achava que fosse o caso.

Raeven ficou profundamente grato a sua esposa, que lhe deu o amado filho. No entanto,
ele raramente disse isso porque se sentia envergonhado.

Talvez seja hora de um segundo filho.

Se ele não tivesse chegado a este campo de batalha, ele poderia ter sido capaz de segurar
suas mãos—

“...Eh?”

O som dos cascos havia parado.

Impulsionado mais pela curiosidade do que pela coragem, Raeven se virou. Tudo o que
viu foi a Cria Negra parada, imóvel, como se congelada no tempo.
Parte 3

Ele não tinha idéia de onde ele estava. Era como se ele tivesse sido arremessado em um
pesadelo.

O título dos Quatro Cavaleiros — o título pertencente aos mais poderosos guerreiros do
Império Baharuth — agora parecia chocantemente superficial.

Quão patética era uma criatura para ter tanto orgulho de uma coisa tão insignificante?
Foi o grande choque que ele recebeu.

Nimble podia ouvir o som de um choro fraco. Foi o soluço de pessoas que foram empur-
radas além de seus limites por medo e desconforto. Era infantil — não, era o choro ago-
nizante de homens que tinham sido reduzidos a crianças. Os que choraram foram os ca-
valeiros Imperiais.

Ele ouviu as pessoas implorarem “apenas fujam”.

Essa foi a prece dos cavaleiros que — com olhos cheios de piedade — observaram
aquela horrenda carnificina engolir seus semelhantes humanos.

Tão infeliz foi essa tragédia que até mesmo os inimigos do Exército Real, os cavaleiros
Imperiais, ofereceram orações por eles.

Eles rezaram para que pelo menos alguns sobrevivessem. Quanto mais melhor.

Eles vieram aqui para matar o inimigo. No entanto, nenhum ser humano poderia per-
manecer indiferente e não sentir pena quando eles testemunharam o massacre ocor-
rendo na frente deles. Qualquer um que pudesse permanecer indiferente seria um demô-
nio com o rosto de um homem, um ser desumano.

Além disso, Nimble e os cavaleiros perceberam que isso não poderia ser descartado
como uma questão de “nós contra eles”.

Certamente, do ponto de vista do Reino contra o Império, esse desastre estava aconte-
cendo com “eles”. Mas quando se observava da perspectiva dos homens contra os mons-
tros, este massacre brutal estava acontecendo com “nós”.

“Bem, então eu acho que é hora.”

Todos os olhos foram para Ainz quando ele falou baixinho.

Havia 60.000 pessoas presentes e sua voz não era alta o suficiente para alcançar todos
eles. No entanto, eles podiam dizer quando as pessoas ao lado deles viravam a cabeça. E
uma vez que eles sabiam que os rostos de seus vizinhos estavam voltados para Ainz Ooal
Gown, eles também seguiram o exemplo.

Afinal de contas, todos os movimentos e gestos feitos pelo homem que orquestrara esse
pesadelo — Ainz Ooal Gown — enchiam todos os presentes de terror incontrolável.

Ainz lentamente removeu sua máscara.

Ele expôs seu crânio branco sem pele, polido e brilhante ao mundo.

Se as circunstâncias tivessem sido diferentes, talvez eles achassem que ele estava
usando uma máscara sob a máscara. No entanto, quando viram isso, os corações de Nim-
ble e todos os cavaleiros do Império afundaram.

Eles entenderam que essa era sua verdadeira face; esse Ainz Ooal Gown era um monstro.

Isso foi porque eles tiveram uma premonição: Qualquer um que pudesse exercer tal poder
não poderia ser humano.

Ainz lentamente abriu os braços. Ele parecia estar abraçando um amigo — ou era um
demônio abrindo suas asas? Aos olhos de todos que estavam assistindo, ele parecia do-
brar de tamanho.

No silêncio — interrompido apenas pelos gritos angustiados dos soldados do Reino à


distância — a voz baixa de Ainz soou com clareza excepcional.

”—Aplausos.”

O que ele está dizendo?

Nimble pensou enquanto olhava para Ainz com a boca aberta.

Todos que podiam ouvi-lo pensavam a mesma coisa, e quando as palavras de Ainz foram
sussurradas por todo o exército, mais e mais pessoas viraram os olhos para ele.

Então, quando a atenção de todos estava sobre ele, ele falou novamente.

“Aplaudam pessoas. Me aplaudam pelo meu poder supremo—.”

O primeiro a aplaudir foi Mare, que estava ao lado de Ainz, que por sua vez, estava ao
lado de Nimble. Como se desencadeado por ele, os sons espalhados de palmas começa-
ram a subir dos soldados, até se tornar uma ovação estrondosa.

Claro, eles não estavam realmente ovacionando de felicidade.


Ninguém queria aplaudir uma pessoa que trouxe esse tipo de carnificina cruel com ele.
Isso não foi guerra. Foi abate. Um massacre.

Mas ninguém presente poderia falar essas palavras. Ninguém se atreveria.

Seus aplausos foram a soma de todos os medos dos cavaleiros.

E então a intensidade dos aplausos desordenados, que nenhum observador pensaria


que ficaria mais alto, subiu mais algumas notas.

Isso porque uma das Crias Negras mudara lentamente de curso. Logo alcançaria o exér-
cito Imperial.

Gritos de louvor soaram, para corresponder ao aplauso.

Os cavaleiros Imperiais gritaram em louvor a Ainz Ooal Gown. Eles gritaram até que
suas gargantas sangraram.

No entanto, a Cria Negra não diminuiu o ritmo.

E assim, os cavaleiros gritaram ainda mais alto. Eles pensaram que a besta estava se
aproximando porque ele não estava satisfeito com o seu volume.

—Mas ainda assim, não parou.

—E assim, seus nervos tensos estalaram.

Ninguém sabia quem começou. Pode ter sido apenas a oscilação de um único cavaleiro.
No entanto, isso foi o suficiente para o terror que os enchia além de seus limites de ir
além.

“Aieeeeeeeeeeee!”

O grito violento ecoou pelas fileiras e abalou o exército imperial.

Um dos monstros que havia pisoteado o Exército Real sob seus pés estava caindo sobre
eles. Esta situação anormal aterrorizou alguns dos cavaleiros Imperiais que abandona-
ram seus cavalos imóveis e fugiram para salvar suas vidas. Depois de ver a visão infernal
de agora, até mesmo aqueles que não tinham imaginação vívida sabiam exatamente o
que aconteceria quando fosse a vez deles sob os cascos da besta.

E claro — o medo era contagioso.

Mesmo pouco mais de 100 pessoas fugindo a princípio, esse número inchou em poucos
instantes, até que alcançaria os 60.000 soldados.
—Sim.

O exército Imperial entrara em pânico, com a arregimentação em frangalhos.

Foi uma derrota desonrosa.

Obviamente, os cavaleiros tinham aprendido a retirar em boa ordem. No entanto, eles


não tinham mais o luxo de aderir a tal disciplina. Se deixasse que eles saíssem deste lugar
um segundo mais rápido, se conseguissem se mover mais um passo em direção a um
lugar seguro, empurrariam seus camaradas diante deles com toda a força e fugiriam.

Quando empurrado por trás, era inevitável que as pessoas perdessem o equilíbrio e ca-
íssem. E uma vez que eles caíssem, a multidão movida pelo pânico por trás deles não lhes
daria a chance de se levantar.

Os que caíram seriam pisoteados pelos que vinham por trás deles.

Mesmo que usassem armaduras de metal, todos os outros usavam armaduras de metal
também. Eles seriam esmagados em uma única massa fundida de metal e carne.

Cenas como essa estavam acontecendo em todos os lugares.

As baixas do exército Imperial não foram causadas pelo inimigo, mas por si mesmas.

Nimble não sabia o que fazer a seguir e hesitou.

Ele queria correr também. No entanto, ele não poderia fazê-lo, e nem todos os cavaleiros
haviam escapado, em qualquer caso.

Quando ele olhou para trás através da formação, ele viu poucas pessoas remanescentes,
apenas tolos ainda permaneciam em cima de seus cavalos.

Eles não haviam permanecido por causa do medo. Em vez disso, era porque estavam
hipnotizados pela visão do poder esmagador e haviam esquecido do resto.

Por exemplo, pessoas normais fugiriam quando viram um enorme tornado varrendo
tudo em direção a eles. No entanto, havia certos seres que admiravam a beleza do tor-
nado e ficaram parados — apesar de perceberem que isso exigiria suas vidas. Aqueles
que permaneceram poderiam ser considerados desviantes.

A Cria Negra chegou diante de Ainz, dobrou os joelhos e baixou os tentáculos. Provavel-
mente estava exibindo sua submissão.

Nimble sorriu, seu rosto se contorcendo, enquanto o monstro agia de uma maneira de-
cididamente não monstruosa.
O corpo da Cria Negra deveria estar respingado em sangue fresco, mas não estava em
lugar nenhum porque já havia sido absorvido pela pele.

Envolveu seus tentáculos ao redor da cintura de Ainz, depois estendeu vários outros
para agarrar firmemente seu corpo antes de levantá-lo. Então, colocou-o em sua cabeça.

“Acredito que o plano original era que eu lançaria uma magia sobre o inimigo, e então o
exército Imperial continuaria com uma investida, mas parece que você não tem intenção
de agir.”

Nimble não tinha nada a dizer.

Ainz estava certo. O Império havia quebrado os termos do acordo que eles mesmos ha-
viam feito com o Rei de um país aliado.

No entanto, não se pode culpar os cavaleiros por perder a coragem. Nimble os defende-
ria mesmo diante de Jircniv, porque ele conhecia o terror esmagador que os dominara.

“Ah, não tenho intenção de te repreender. Eu entendo que você está preocupado que se
você lançar um ataque, há uma chance de você ser pisoteado junto com o inimigo. Since-
ramente falando, se isso acontecesse, eu seria duramente pressionado para explicar es-
sas mortes para o seu Imperador. Bem, nesse caso, acho que vou cuidar da sua parte do
trabalho também.”

Nimble olhou para a sua companhia de undeads, que permaneceu imóvel durante todo
esse tempo.

“Aqueles... aqueles... aqueles soldados undeads farão um ataque, então?”

“Oh, não, eu vou deixar meus cordeiros lidarem com isso, já que é uma chance tão rara
para eles fazerem isso. Eu simplesmente farei algumas limpezas leves. Mare, não abaixe
sua guarda.”

“Sim, sim! Por favor, deixe comigo, Ainz-sama!”

Nimble ficou sem fala.

Ele disse que iria pressionar o ataque; ele, pessoalmente, aquele que lançou uma magia
como aquela.

Seu tom sugeria que ele não pretendia deixar ninguém voltar vivo desse campo de ba-
talha. Ficou claro que sua fome de carnificina era insaciável.

“E pensar... que não foi suficiente. Ele é um demônio?”


Embora ele estivesse murmurando para si mesmo, as palavras de Nimble eram mais
altas do que ele pensava, e Ainz virou seu rosto terrível de onde estava sentado em cima
da Cria Negra.

Ele balançou a cabeça para Nimble, que estava tremendo.

“Não se engane. Eu sou undead.”

O que Ainz deve ter tentado dizer era que ele não era um demônio que exaltava a idéia
do mal, mas um undead que odiava os vivos. Como tal, ele não permitiria que um único
soldado do Reino escapasse. Ele levaria ainda mais vidas.

Essa foi a resposta mais provável e também a mais desastrosa.

Se Ainz queria matar tudo o que vivia apenas por ser um undead, então era possível que
suas visões pudessem um dia ser estabelecidas no Império, que estava cheio de vivos.

Não, isso certamente aconteceria no futuro.

O que devo fazer?

Atingido pela confusão e pelo medo, Nimble não tinha a capacidade de se concentrar, e
ele não ouviu as últimas palavras sussurradas de Ainz.

“...E parece que encontrei o meu alvo.”

♦♦♦

A sede do Rei Ranpossa III estava localizada no centro do exército Real. Foi cercado por
inúmeras bandeiras pertencentes a numerosos nobres do Reino Re-Estize.

Embora houvesse muitos nobres reunidos aqui antes, apenas alguns permaneciam aqui.
A maioria deles já havia fugido e apenas poucos permaneceram nesse campo. É claro que
o Rei não tinha intenção de culpar os nobres da corte por fugir.

“Todos vocês, me deixe para trás e corram!”

“Não é hora de piadas! Vossa Majestade, por favor, fuja rápido. Quando aquilo pôr os
olhos em nós, não teremos chance de sobreviver!”

O palestrante era o subordinado de Gazef, o Vice-Capitão do bando guerreiro.

“Como posso fugir, sendo um Rei?”

“Mesmo que Vossa Majestade fique, não há nada que possa fazer. Não deveria voltar a
E-Rantel e planejar o contra-ataque?”
Ranpossa III sorriu amargamente. Doeu ouvir essas palavras.

“Está certo. Mesmo se eu ficar aqui, não há mais nada para eu fazer.”

Era impossível reunir seu exército derrotado e encaminhá-los nessas circunstâncias.


Não foi apenas Ranpossa III quem não conseguiu; Mesmo os famosos generais de antiga-
mente teriam descoberto que essa tarefa irracional era impossível.

“Vossa Majestade! Não há tempo! Escutem, vocês precisam levar Sua Majestade para
casa mesmo que tenham que amarrá-lo!”

Os subordinados de Gazef entraram em ação.

Desperdiçar mais tempo colocaria em risco não apenas a si mesmo, mas também as pes-
soas ao seu redor. Com isso em mente, Ranpossa III tomou sua decisão e levantou-se.

“Certo. Vamos. Mas o que mudará se fugirmos agora?”

As pisadas sacudiram o chão como um terremoto quando se aproximaram. Mas mesmo


sob essas circunstâncias extremas, Ranpossa III permaneceu calmo. Estava muito longe
dos barulhos caóticos que os nobres fizeram.

“Primeiro de tudo, é impossível. Se tentarmos fugir a cavalo, ele virá atrás de nós. Parece
ter como alvo grandes grupos de soldados em fuga. Portanto, há apenas uma maneira de
sermos salvos.”

Foi só agora que Ranpossa III percebeu por que haviam pedido aos nobres que montas-
sem e fugissem em grupos instantes atrás.

“Então tudo o que podemos fazer é correr a pé.”

Alguns dos guerreiros começaram a remover e a descartar sua armadura.

“Esses homens vão levar Sua Majestade e fugir.”

“E você?”

Nem todo mundo havia removido sua armadura. Por exemplo, o Vice-Capitão ainda
usava.

“Vou agir como uma distração montada e fugir na direção oposta.”

Ranpossa III viu os sorrisos brilhantes nos rostos dos guerreiros e percebeu que eles
tinham feito as pazes com a morte.
“Impossível. Vocês são os tesouros do nosso Reino! Não importa o necessário, você deve
sobreviver! Eu ainda preciso de você para servir meus descendentes!”

“Claro. Embora pretendamos ser iscas, não pretendemos morrer!”

Isso foi uma mentira. Eles estavam planejando morrer. Ou melhor, eles aceitaram que a
morte seria o seu destino.

Ranpossa III tentou pensar em algo para convencê-los, mas ele não conseguia falar. Em
face dos sorrisos dos guerreiros, tudo o que ele inventava soava insincero e superficial.

Os guerreiros ao redor dele ajudaram a remover a armadura de Ranpossa III.

Um guerreiro em armadura branca pura se adiantou. Era Climb, o único subalterno de


sua filha, Renner, que dera tudo o que tinha a seu serviço.

“Permita-me ajudar no desvio. Embora não saibamos se esses monstros têm olhos, mas
se acenarmos nossas bandeiras sem parar, poderemos chamar a atenção deles. E esta
armadura deve ser bastante atraente.”

Climb segurou a bandeira do reino na mão. Estava suja pelas pegadas de soldados em
fuga e parecia resumir sua situação atual.

“Hey. Então eu também irei.”

Ao lado de Climb estava Brain Unglaus. Aparentemente, ele era um guerreiro de pri-
meira classe que era igual ao seu vassalo de confiança, Gazef Stronoff. Brain entrou nessa
guerra como subordinado de Renner. Em outras palavras, ele estava na mesma posição
que o Climb.

“Você tem certeza? Estritamente falando, você não é exatamente subordinado da Prin-
cesa.”

“Ah? Bem, não se preocupe com isso. Durante a perturbação demoníaca, estávamos na
linha de frente e, de alguma forma, ainda conseguimos voltar vivos. Desta vez, esperamos
que a sorte esteja conosco. E esperamos que a sorte esteja com você também.”

“Os deuses não assistirão em silêncio. Durante esse distúrbio, um herói veio nos salvar.
Eu confio que eles vão mudar nosso destino também.”

Diante de Ranpossa III, Brain e o Vice-Capitão tocaram os punhos para se despedir.

“Como foi acabar assim...”

Onde tudo deu errado?


Ranpossa III gemeu baixinho. Com toda probabilidade, nenhum dos homens à sua frente
sobreviveria.

O Vice-Capitão e Climb morreriam como isca.

E ele não sabia o que havia acontecido com Gazef, que desaparecera no caos depois de
dizer que pretendia deter as Crias Negras.

Seus olhos ardiam.

Ele queria dizer: Me perdoe.

Eles iriam atuar como chamarizes para um homem velho, jogando suas vidas e futuros
fora para ele.

Mas ele não podia dizer isso. Eles provavelmente sabiam que iam morrer, mas iriam se
agarrar à vida o mais forte que pudessem.

Nesse caso—

“Retorne com segurança para E-Rantel, e eu lhe concederei qualquer recompensa que
você desejar.”

Climb e Brain pararam no meio do caminho e se viraram.

“Não há necessidade de recompensa, Vossa Majestade. Eu existo para ajudar a Renner-


sama. Como eu poderia ousar pedir uma recompensa...”

“Quanto ao que eu quero, bem, eu gostaria que esse garoto que eu estou interessado
aqui se casasse com a princesa mais bonita do país.”

“...Hahahaha. Bem, isso é uma recompensa generosa.”

“Brain-san! O que você está dizendo?”

“Bem, nós vamos ter que começar dando ao garoto um senhorio. Trabalhe arduamente
para isso!”

“Então você deve retornar vivo, não importa o que tenhamos que fazer, Climb-kun.”

Os olhos assustados e a boca aberta de Climb não tinham mais o espírito de guerreiro
de agora a pouco. O Rei, no entanto, havia esquecido tudo e permitido um sorriso bri-
lhante em seu rosto.

“Então, vamos embora, Vossa Majestade.”


“Eu conto com você.”

Agora sem armadura, Ranpossa III, foi levantado por um soldado.

“Vossa Majestade. Mesmo agora, nossa fuga ainda é uma questão de sorte. Se o pior
acontecer... eu rezo para que nos perdoe.”

“Tudo bem. Foi minha decisão usar sua idéia. Se falhar devido ao infortúnio, então não
terei queixas.”

“Então! Vossa Majestade! Que nos encontremos novamente em E-Rantel!”

O Vice-Capitão galopou em seu cavalo. Como se estivesse esperando por ele, uma das
Crias Negras mudou de direção.

“Bem! Vamos embora enquanto todos estão o distraindo!”

Parte 4

Em meio ao caos causado pelo fato de os homens fugirem desesperadamente por suas
vidas, Gazef fixou os olhos à sua frente, e então lentamente sacou o tesouro nacional do
Reino, Razor Edge. Toda vez que ele tinha sacado essa lâmina fria e reluzente, ele alcan-
çara a vitória. Em outras palavras, essa espada foi a prova do triunfo de Gazef.

No entanto, a espada parecia terrivelmente fraca e frágil hoje.

Ele era pequeno e insignificante em comparação com a Cria Negra, que estava vindo
diretamente para ele.

“Se eu deixar passar por mim, o acampamento principal do Rei será destruído a seguir.
Eu preciso parar isso.”

Quando ele disse, o rosto de Gazef ficou depressivo, como se estivesse zombando de si
mesmo.

Não havia como Gazef vencer o monstro. Apenas atrasá-lo por um segundo era digno de
elogios.

Mesmo um homem saudado como o Capitão Guerreiro do Reino — um guerreiro reno-


mado em todas as nações vizinhas — só poderia fazer isso.

“Peguem Sua Majestade e fuja. Pavimente seu caminho para casa com suas vidas.”
Gazef sussurrou essas ordens — quase como uma oração — para seus subordinados
que não estavam aqui. Os soldados mais fortes do Reino ficaram para trás para proteger
seu Rei. No entanto, mesmo se ficassem para trás, não seriam dignos de proteger o Rei
da selvageria desses monstros. Mesmo se eles colocassem suas vidas em risco, tudo o que
eles poderiam fazer era servir como escudos de carne que se desmoronariam depois de
um ataque.

No entanto, isso seria o suficiente.

Eles iriam morrer se o inimigo os atingisse, mas enquanto eles pudessem se certificar
de que o golpe fosse desperdiçado neles, a chance de o Rei sobreviver poderia ser au-
mentada um pouco mais.

Talvez funcionasse se oitenta homens estivessem lá para serem escudos...

Ele pensou com otimismo.

“Eu sinto Muito.”

Gazef pediu desculpas aos seus subordinados, mesmo quando o monstro se aproximava
com uma velocidade incrível, levantando gotículas de carne e sangue em seu rastro. Ele
sabia que um pedido de desculpas aos companheiros ausentes era nada mais do que con-
fortar a si mesmo. Mesmo assim, ele não queria morrer sem ter falado essas palavras.

Ao sentir a terra tremendo sob os pés, Gazef expirou vigorosamente.

Ele segurou a espada com força e levantou-a.

Comparado com aquele corpo vasto que esmagava os humanos em pasta vermelha, sua
espada parecia totalmente inútil.

Se fosse uma charrete descontrolada, ele poderia facilmente obter o controle dele.
Mesmo que um tigre feroz o atacasse, ele poderia escapar de seu primeiro golpe e atacar
sua cabeça.

No entanto, na frente da Cria Negra, suas chances de sobrevivência pareciam muito bai-
xas.

“Huuuuu—”

Enquanto Gazef respirava, uma mudança dramática apareceu no fluxo de pessoas ao seu
redor. Até agora eles tinham ido em todas as direções, mas agora parecia que eles esta-
vam se movendo para evitar Gazef. Parecia que eles estavam criando um caminho limpo
entre Gazef e as Crias Negras.
As Crias Negras continuaram a espalhar os humanos sob seus pés quando eles se apro-
ximaram.

Quando Gazef ergueu a espada, ele estudou seu corpo. Onde ele poderia atacar para ob-
ter os melhores resultados?

Ele ativou uma arte marcial — 《Sentir Fraquezas》.

Contudo—

“—Não tem fraquezas.”

Gazef não sabia se era porque realmente não tinha fraquezas, ou porque era muito mais
poderoso do que ele, que não conseguia lê-las.

Ainda assim, ele não se desesperou. Afinal, poderia ser consequência do seu pessimismo.

Ele ativou outra arte marcial.

Este foi um movimento secreto que foi verdadeiramente digno de ser chamado de mo-
vimento secreto, uma técnica que fortalece suas percepções extra-sensoriais, 《Sentir
Possibilidade》.

A diferença em suas habilidades físicas era tão grande que não fazia diferença se ele
reduzisse uma lacuna de quilômetros em alguns centímetros, aumentando assim seus
próprios atributos físicos. Nesse caso, ele decidiu confiar em outra coisa — talvez seu
sexto sentido seja mais eficaz.

“Venha, besta.”

A Cria Negra parecia ter ouvido o desafio e fez um curso direto para Gazef. A distância
entre os dois diminuía drasticamente.

Essa era a verdade.

Gazef ficou com medo.

Se fosse possível, ele teria gostado de fugir com os soldados dos arredores.

Mesmo depois de ativar 《Sentir Possibilidade》, ele não sentia nada. Era como se ele
estivesse envolvido por uma parede impenetrável da noite.

Quando as Crias Negras se aproximaram, ele estudou sua forma com mais detalhes.
A julgar pela maneira como seus cascos permaneciam intactos, era provável que espa-
das normais não fossem capazes de causar nenhum dano a eles. Das impressões profun-
das deixadas no chão onde pisava, seu peso instantaneamente mataria qualquer um que
fosse pressionado por eles.

Quanto mais ele aprendeu sobre isso, mais o medo dele cresceu.

Nesse momento, Gazef estava exposto a um terror muito mais intenso que os dos solda-
dos que fugiam à toa em volta dele.

Mas ele não podia voltar atrás.

O guerreiro mais forte do Reino não pôde fugir. Ele cancelou 《Sentir Possibilidade》 e
acalmou sua respiração.

A Cria Negra chegara.

Era perto o suficiente para que os torrões de terra levantados por seus cascos pudessem
alcançar Gazef.

Ignorou os soldados ao redor, como se não fossem nada além de vermes rastejantes, e
foi direto para Gazef.

Não, ele estava errado.

A Cria Negra se virou para o lado, como se tivesse atingido uma parede. Por ter se virado
tão rápido, os passos da Cria Negra estavam bagunçados, e mesmo com tantas pernas,
ele perdeu o equilíbrio.

É claro que Gazef não achou que tivesse fugido dele.

Ele simplesmente considerou onde poderia encontrar mais presas e sentiu que poderia
atropelar mais pessoas se ele se virasse para o lado.

A Cria Negra atacou Gazef, fazendo o terremoto a cada passo.

Como havia apenas um metro ou mais de separação entre eles, o chão sob seus pés tre-
mia como um terremoto. Qualquer um, exceto Gazef, teria caído.

Ele mirou para o casco gigantesco da Cria Negra enquanto passava—

“—Yeeart!”

Gazef balançou a espada. A essa velocidade, a própria velocidade do inimigo se tornaria


uma arma que se despedaçaria ao encontrar o fio de sua espada.
No instante em que o casco tocou a espada, um enorme impacto percorreu a arma e
reverberou nos braços de Gazef. Isso o fez sentir como se seus braços tivessem sido ar-
rancados.

Seus pés, pisados firmemente no chão, deixaram duas trincheiras na terra enquanto ele
era empurrado para trás.

“Gwaaargh!”

De alguma forma, ele manteve o controle de sua espada, mas a dor se espalhou por todo
o seu corpo. Seja seus músculos ou tendões, cada parte dele doía do estresse que tinha
que suportar.

Gazef ofegou pesadamente e olhou para o corpo gigante que passava por ele.

Não muito longe de Gazef, uma das Crias Negras finalmente parou em vez de correr lou-
camente.

Um de seus tentáculos se tornou um borrão.

O medo atravessou seu corpo. Gazef apressadamente levantou a espada.

Naquele instante, um impacto extraordinário o atingiu e seu corpo flutuou para o céu.

Gazef não conseguiu ver nada, mas imaginou que ele deveria ter sido esbofeteado pelo
tentáculo. Seu corpo voou pelo céu.

Depois de ficar no ar por um tempo surpreendentemente longo, o corpo de Gazef final-


mente atingiu a terra. Ele rolou várias vezes. Este rolamento não foi a queda de um cadá-
ver, mas a ação deliberada de um humano que estava tentando gastar a energia de sua
rotação.

Gazef se levantou devagar, estimulando seu corpo desajeitado a se mexer. Ele olhou
para a Cria Negra a distância.

Foi apenas um sucesso.

O braço que levou o golpe havia quebrado. Provavelmente foi pura sorte que sua espada
não tivesse sido quebrada também.

Toda emoção desapareceu do rosto de Gazef.

Por que ele tinha sido poupado? Por que não o perseguiu?

Foi provavelmente porque não tinha necessidade de acabar com ele. Gazef achou que
essa era a resposta mais apropriada.
Isto não era uma derrota. Ele nem sequer chegou perto da arena.

Sangue fresco fluiu de seu lábio mordido.

Depois disso, Gazef reprimiu a dor intensa que o preenchia e corria com todas as suas
forças.

Mesmo que ele não pudesse derrotar seu oponente, mesmo que seu limite fosse aguen-
tar mais um golpe, mesmo assim, ele ainda tinha que proteger seu Rei.

No entanto, seus passos — cheios de convicção e determinação — vacilaram após vários


passos.

Ele olhou para a Cria Negra que havia mudado de direção para ele — não havia engano
aqui — e percebeu por que conseguira sobreviver.

Sobre a Cria Negra, havia um Rei sentado sobre o que parecia ser um trono feito de ten-
táculos. No entanto, ele tinha um rosto bizarro. Era esquelético e não havia dúvida de que
ele era um monstro undead.

Ele não era tão tolo o suficiente para não reconhecer quem era esse Rei.

“Ainz Ooal Gown... dono. Então o senhor não era humano.”

As forças especiais da Teocracia. Gazef não tinha esperança de derrotá-los, mas eles fo-
ram facilmente eliminados. Nenhum humano poderia ter feito isso, o que tornava essa
compreensão simples de aceitar.

Sim. Por que ele achava que alguém tão poderoso poderia ser humano para começar?

“Stronoff-sama!”

Mesmo antes de olhar para trás, ele sabia quem era pela rouquidão da voz. O par familiar
veio correndo em direção a ele.

“Vocês dois estão bem?”

Climb e o Brain não estavam feridos, e a armadura branca pura de Climb não estava tão
manchada. Considerando que os dois não haviam tentado fugir de imediato, foi um golpe
considerável de boa sorte.

“Estou contente por você estar seguro!”

“Eu não achei que você morreria, e acontece que você não morreu. Mas ainda não aca-
bou, né?”
Os dois juntaram suas linhas de visão para onde Gazef estivera olhando agora.

“Esse é...”

“Só pode ser uma pessoa, Climb-kun. O monstro que domina outros monstros. Aquele é
Ainz Ooal Gown.”

“Esse é... esse é... Como vou dizer isso... eu, eu sinto muito.”

De relance, o corpo de Climb estava estremecendo. Sua expressão rígida e congelada


mostrava o fato de que ele não estava tremendo de excitação ou antecipação.

“Não se preocupe, Climb-kun. Isso não é nada para se envergonhar. Ou melhor, não pode
evitar! Uma terceira pessoa cuja força supera todo sentido racional! Isso é o que minha
vida se tornou desde aquele dia!”

Brain irradiava um poderoso espírito de luta, ele assumiu uma postura. Gazef ficou sur-
preso com sua expressão facial, que era casual e leve e não se adequava às circunstâncias.

“Eu-eu não devo fugir também!”

Climb e Brain ficaram ao lado do Gazef.

Em meio a pedaços volumosos de carne, a Cria Negra parou em frente a Gazef.

Gritos distantes ecoaram, e só este lugar ficou em silêncio.

Era como se essa área não fizesse mais parte do mundo.

A linha de visão de Ainz virou-se de Gazef, passou desinteressadamente por Brain e de-
pois parou em Climb. Ele deu de ombros e olhou de volta para Gazef.

“...Seu espírito de luta está muito vívido, Stronoff-dono.”

“Eu poderia dizer o mesmo para o senhor, Gown-dono... huhu. Isso seria um problema,
dizer que está vívido? Afinal, se deixasse de ser humano depois de nos separarmos, seria
terrivelmente rude.”

“Hahaha. Não, não mudei desde então.”

Ainz flutuou da Cria Negra ao chão enquanto ria. Ele deve ter usado algum tipo de efeito
mágico, dado como ele flutuou lentamente desafiando a gravidade.

Embora ele achasse que poderia ser a famosa magia 「Fly」, depois de considerar o fato
de que o Ainz Ooal Gown era um poderoso magic caster, ele concluiu que devia ser uma
versão superior dessa magia — embora quão superior ela fosse, ou que tipo de magia era,
Gazef não sabia.

“Realmente, faz muito tempo, Stronoff-dono. Desde o Vilarejo Carne.”

“De fato, Gown-dono. Então... me permita perguntar, por que me procurou? Será que o
senhor encontrou um rosto familiar no campo de batalha e decidiu vir me ver?”

“Bem, sim. Não gosto de conversas extravagantes, e não é apropriado brincar com esse
lugar. Então... eu vou direto ao ponto.”

Ainz levantou lentamente a mão esquelética.

Não havia inimizade ali, mas sim um gesto de amizade.

“Torne-se meu subordinado.”

Naquele instante, os olhos de Gazef se arregalaram em círculos.

Ao mesmo tempo, ouvia-se o Brain e Climb dos dois lados dele engolindo audivelmente.

Quem poderia imaginar que um poderoso magic caster poderia dizer tal coisa a ele?

“Se você fizer—”

Ainz estalou os dedos. Como exatamente ele fez isso com os dedos esqueléticos perma-
neceu um mistério.

O corpo de Gazef estremeceu, como se algo tivesse sido feito para ele.

No entanto, não houve mudanças em sua mente ou corpo. Ele não sentiu nada.

“Olhe a sua volta.”

Gazef voltou os olhos para os arredores. Tudo estava—

“Entendo. Eles pararam.”

As Crias Negras tinham parado no meio do que eles estavam fazendo. A maneira como
eles ficavam imóveis no ar, no meio do caminho, os fazia parecerem estátuas.

“Isso é apenas temporário. O que acontece depois disso dependerá da sua decisão. Se
recusar, eu darei ordens a meus cordeiros mais uma vez. Eu confio que não preciso te
dizer quais são essas ordens?”

Gazef olhou para Ainz.


Mesmo que ele obrigasse Gazef a jurar lealdade a ele usando reféns, o vínculo careceria
de lealdade, e estaria cortejando a traição por dentro. Certamente Ainz deve ter conside-
rado tudo isso antes de fazer sua oferta.

Então, isso significava que deveria ter havido alguma outra razão por trás de suas pala-
vras.

Mas o que era Gazef não sabia.

Ainda assim, tinha que haver alguma razão pela qual ele — um ser que poderia coman-
dar um exército como esse — estivesse interessado apenas em Gazef.

“Que tal isso? Gazef Stronoff, trabalhe para mim.”

Ainz estendeu a mão ossuda.

Se ele pegasse essa mão, ele salvaria muitas vidas.

O coração de Gazef oscilou poderosamente.

Ele tinha a chance de salvar a vida do povo do Reino.

No entanto — Gazef não conseguiu segurar aquela mão.

Foi uma decisão ruim.

Essa escolha só satisfaria seu ego.

Cem de cem pessoas amaldiçoariam Gazef por ser um tolo.

Mesmo assim, Gazef não pôde fazer nada que pudesse trair o Reino.

Gazef balançou a cabeça com firmeza, se recusando.

“Eu recuso. Eu sou a espada do Rei. Ele me mostrou sua gentileza e não posso me com-
prometer com isso.”

“Mesmo se, no final, sua escolha custar mais vidas? O senhor arriscou sua vida para de-
safiar um poderoso inimigo no Vilarejo Carne. E agora vai jogar fora a vida de outros que
você poderia ter salvo?”

O coração de Gazef parecia estar sendo entalhado por uma faca.

Mas, mesmo assim, o Gazef Stronoff ainda não conseguiu segurar a mão de Ainz Ooal
Gown.
O Capitão Guerreiro do Reino não poderia trair o Rei.

Essa era a extensão da lealdade de Gazef.

Com a irritação aumentando em face do silencioso Gazef, Ainz encolheu os ombros.

“Um homem tão tolo. Então—”

Gazef não permitiu que ele completasse a frase, mas apontou a lâmina para Ainz.

“—Quê?”

Seus ferimentos de enfrentar a Cria Negra agora não haviam se recuperado totalmente,
mesmo com o poder do Talismã.

Mesmo assim, não foram seus ferimentos que fizeram a ponta de sua espada tremer.
Todo o corpo de Gazef irradiava espírito de luta.

“Gown-dono. Como alguém que se beneficiou de sua gentileza, desejo me desculpar por
este ato desrespeito... Desejo solicitar um duelo cara a cara com o senhor.”

O rosto de Ainz era um crânio sem carne. Por causa disso, não se podia dizer que tipo de
expressão ele tinha ou discernir o que ele estava pensando.

No entanto, por algum motivo, Gazef pensou que ele estava sem palavras. Foi o mesmo
para os dois atrás dele. Eles ficaram em silêncio, mas ele podia sentir sua consternação.

“...Está falando sério?”

“Naturalmente.”

“...Você vai morrer.”

“Não há dúvida disso.”

“Se está ciente, por que fazer isso? Para início de conversa, eu não tenho intenção de te
matar... é um suicida?”

“Eu não pensei assim a princípio, não.”

“...O que está pensando? Eu não consigo entender sua lógica. Se acreditasse que poderia
ganhar e por isso me desafiou, eu poderia entender. Se o senhor pensa que há uma chance
de vitória sob as circunstâncias, isso também seria razoável. No entanto, acredita firme-
mente que perderá. O senhor perdeu a capacidade de tomar decisões adequadas?”
“O rei inimigo está diante de mim e está ao alcance de minha espada. Não é natural ver
se consigo cortar a cabeça daquele se que apresenta?”

“É verdade que a distância física entre nós é muito pequena. No entanto, parece-me que
existe um enorme abismo entre nós. Estou errado?”

Com um whoosh, os tentáculos flácidos da Cria Negra atrás de Ainz estalaram, abrindo
uma cratera na terra ao lado de Gazef.

Mesmo a visão aguçada de Gazef não conseguiu rastrear o tentáculo atingindo o chão ao
lado dele.

“Pode ser o caso, Gown-dono.”

“Então está abusando a sua sorte porque eu disse que não queria te matar?”

Gazef riu do fundo do coração.

“Certamente não. Eu simplesmente desejo fazer o que eu, como o Capitão Guerreiro do
Reino, deveria fazer. Isso é tudo que eu estava pensando.”

“...Se eu aceitar o seu desafio, percebe que eu vou matá-lo sem piedade? É apenas para
ser esperado.”

“Realmente é.”

“Então é assim que vai ser... mesmo depois de eu ter dito tudo isso, ainda se recusa a
mudar de idéia. Que pena. Falando como colecionador, é uma lástima ter que destruir um
espécime raro como o senhor.”

Gazef não tinha intenção de recuar.

Este foi um golpe de sorte inacreditável. Para começar, Ainz, que se cercava de incríveis
subordinados, estava agora sozinho na frente dele sem nenhum guarda-costas.

Além disso, seu orgulho como um indivíduo poderoso significava que ele não ordenaria
que as Crias Negras entrassem em ação.

Ele nunca teria uma chance como essa de novo.

Seu inimigo estava em uma altura que ele não conseguia alcançar com as duas mãos. No
entanto, agora, ele teve a chance de preencher a lacuna entre eles.

Na próxima vez que se encontrassem, ele provavelmente se cercaria de uma multidão


de guardas, como convinha a um magic caster que era pobre em combate corpo-a-corpo.
Gazef nunca iria entrar no alcance de espada de Ainz novamente. Tendo considerado isso,
ele desafiou Ainz para um duelo.

E havia outro motivo para o duelo.

Embora fosse uma chance muito pequena, mesmo assim—

Gazef lançou seu desafio formal.

“Rei Feiticeiro Ainz Ooal Gown-dono! Meu nome é Gazef Stronoff, Capitão Guerreiro do
Reino Re-Estize! Eu formalmente peço um duelo com o senhor!”

“Gazef!”

“Capitão Guerreiro...”

Os outros dois não aguentaram mais e Brain gritou enquanto Climb murmurava. No en-
tanto, Gazef não deu ouvidos a eles e continuou falando.

“Se achar isso aceitável, Rei Feiticeiro-dono, eu rezo para que aceite estas duas testemu-
nhas adequadas para o nosso combate.”

Ainz deu os ombros.

Parecia dizer: Vá em frente. Quando Gazef percebeu isso, ele assentiu.

“Espere, espere um minuto! Aguente firme, Gazef! Eu sempre posso morrer ao seu lado!
Não vá sozinho! Meu senhor Rei Feiticeiro! Por favor, eu te imploro! Eu sei que isso é
desrespeitoso além da conta, mas este é um pedido sincero! Por favor, permita-nos, am-
bos aqui, enfrentá-lo! Eu sei que não vai te incomodar nem um pouco!”

Ao ouvir o apelo estrangulado de Brain, Gazef pensou:

Como eu esperava...

A expressão despreocupada que ele viu no rosto de Brain era a de um guerreiro que
abraçara seu destino.

Ele há muito havia se resolvido a morrer ao lado de Gazef nas mãos de Ainz Ooal Gown.

No entanto, ele não aceitou. Ele não podia aceitar.

“Brain Unglaus! Você deseja manchar minha convicção como guerreiro?”

O rosto de Brain se tornou uma imagem de choque.


“—Tudo bem, Stronoff-dono. Não me importo em enfrenta-los também.”

“Por favor não aceite, Rei Feiticeiro-dono. O duelo dele é comigo. Vocês dois, fiquem fora
disso.”

Os pontos de luz vermelha flutuando nos globos oculares de Ainz brilhavam ainda mais.

“...Entendo. Eu já vi esses olhos antes. Eles são os olhos de um homem que abraçou sua
morte e avança sem hesitar. Olhos firmes e inflexíveis. Eu os admiro.”

Ainz estava falando como um ser humano.

“Muito bem. Eu aceito sua proposta. Eu vou duelar PVP com Stronoff-dono.”

♦♦♦

Os joelhos de Brain se dobraram e ele desabou no chão.

Seu rosto baixo não podia ser visto, mas gotas pesadas como as de chuva respingavam
a terra carmim abaixo dele.

Eu sinto muito.

Gazef disse a Brain em seu coração.

“O cadáver será devolvido intacto. Isso facilitará o uso da magia de ressurreição—”

“—Não há necessidade disso.”

As palavras de Gazef deixaram seus amigos e o inimigo sem palavras.

“Eu não quero ser trazido de volta à vida. Você pode dispor do corpo aqui, se quiser.”

Não era que a magia de ressurreição era ruim. No entanto, Gazef não gostava.

Todos só tinham uma vida.

Foi por isso que a decisão de apostar na vida significava muito.

Além disso, ele não poderia voltar dos mortos por causa do Reino.

Se Gazef morresse, o Rei poderia espalhar a notícia de que ele havia perdido uma peça
importante. Dessa forma, o Rei poderia moderar o ódio e o ressentimento que as pessoas
sentiriam em relação à família real por todas as mortes nessa batalha.
Este foi um ato final de lealdade do Capitão Guerreiro do Reino, que escolheu agir de
forma egoísta.

Ignorando os olhares surpresos ao seu redor, Gazef sorriu com calma.

“Então, vamos começar. Vocês dois, espero que vocês testemunhem minha batalha final.”

♦♦♦

Climb não poderia ter imaginado que o homem chamado Brain Unglaus poderia ter mos-
trado um lado tão frágil de si mesmo.

O Brain que ele conhecia era forte, de espírito livre e intocável. No entanto, ele não viu
vestígios disso no homem cuja cabeça estava abaixada. Mesmo assim, ele não achava que
Brain fosse fraco.

“Brain. Você não vai completar este dever?”

Gazef falou estas palavras sem olhar para trás.

Brain se recusou a se mover. A maneira como as mãos dele agarraram o chão transmitiu
seu pesar a Climb. Mesmo assim, Climb tinha que dizer isso.

“...Este é o desejo de Stronoff-sama.”

Ele não achava que o Gazef Stronoff poderia ganhar.

Foi por isso que Climb e Brain tiveram que atender ao pedido de Gazef.

Lentamente, Brain se levantou.

Estava quente.

Climb quase virou e correu.

Parecia haver algum tipo de ar quente impulsionando o Brain para cima.

“...Quantas vezes eu te fiz ver o lado vergonhoso de mim mesmo, Climb-kun? Estou bem
agora. Eu vou gravar a fogo a forma nobre de Gazef dentro de meus olhos.”

“...Obrigado.”

Que tipo de relacionamento o Brain Unglaus e o Gazef Stronoff têm?

Climb não conseguia entender o vínculo entre eles, especialmente do lado de Brain.
Depois de perder para Gazef, ele embarcou em uma jornada para avançar suas habilida-
des com a espada. Este era o Brain que Climb conhecia. No entanto, ele não achou que o
relacionamento deles fosse tão simples assim.

“Então, Stronoff-dono. O senhor poderia me deixar dar uma olhada nessa espada? Eu
gostaria de rapidamente examinar isso.”

Ainz fez esse pedido como se estivesse perguntando sobre uma conversa relaxada sobre
o tempo. Espadas encantadas poderiam ter todos os tipos de habilidades imbuídas nelas.
Examinar uma seria como revelar o funcionamento interno de sua estratégia. Pelo senso
comum, ninguém jamais concordaria com essa proposta.

Climb não era a única pessoa que pensava assim, e foi por isso que os olhos de Brain
também se arregalaram pelo que aconteceu em seguida.

Gazef girou a espada 180 graus e apresentou o punho a Ainz.

“Gazef! Você desistiu completamente de ganhar?”

“Brain! Não diga coisas tão grosseiras! O Rei Feiticeiro não é este tipo de ser.”

Ainz segurou a espada e lançou uma magia. Depois disso, ele riu alegremente.

“Que espada maravilhosa.”

Ainz devolveu a espada a Gazef em primeiro lugar, da mesma forma que lhe fora dada.

“Stronoff-dono. Quanto do poder desta espada é de seu conhecimento?”

“Eu a entendo completamente. Essa espada tem um fio irreal que pode cortar metal
como papel.”

“Incorreto. Isso é apenas uma fração do poder dessa espada.”

“—O quê? O que quer dizer, Rei Feiticeiro-dono?”

“Bem, em suma, esta espada é uma arma que pode me matar. Algo assim é a condição
mínima absoluta para um duelo. Sem uma arma que possa me prejudicar, isso não seria
mais que uma execução.”

“Desculpe por compará-lo aos ratos que entraram na minha fortaleza.”

Ainz murmurou quando ele de repente produziu uma espada curta no ar.

Sem hesitar, ele arrastou a borda da lâmina brilhante em seu rosto em uma fatia forte.
No entanto, não deixou tanto como um arranhão.

“Objetos fracos e encantados como esse não podem prejudicar este meu corpo. Aliás,
esta espada curta é imbuída de muitos dados — ou melhor, muita mana — assim como a
espada que você carrega, Stronoff-dono. No entanto, sua espada pode me prejudicar, em
um desafio justo julgando o que sei ser verdadeiro. Posso pedir essa espada depois de
vencer?”

Gazef sorriu timidamente.

“Perdoe-me por recusar, mas esta espada é um tesouro nacional.”

“Mm. PVP sob o pretexto de devolver itens que perderá, então? Muito bem.”

“Meus mais profundos agradecimentos, Rei Feiticeiro-dono.”

Depois de devolver a espada a Gazef, Ainz acariciou seu queixo em pensamento. Ele re-
cuou, um passo de cada vez, como se estivesse de acordo com alguma distância regulada
entre eles.

“Eu acho que isso deve ser cerca de cinco metros. E... porque não há contagem regressiva,
precisaremos de um sinal. Você aí de armadura branca. Encontre algo para nos avisar.”

Tendo sido nomeado subitamente, Climb estremeceu.

“Climb, por favor.”

“Eu tenho sino mágico aqui. Eu vou tocar e isso vai sinalizar o começo.”

Os dois assentiram silenciosamente para a proposta de Climb.

Gazef levantou a espada, apontando para os olhos do inimigo. A força impregnou cada
fibra do seu ser. Aos olhos de Climb, que estava atrás dele, o corpo de Gazef parecia cres-
cer diante de seus olhos.

Este era um espírito de luta esmagadora. Ele nunca tinha visto a verdadeira pressão que
o Capitão Guerreiro do Reino poderia exercer. No entanto, seu corpo parecia distante e
ilusório, como uma miragem.

“Stronoff-sama...”

Esta seria a última vez que ele veria Gazef vivo.

“Não é garantido.”

“—Eh?”
De repente, Brain negou Climb de onde ele estava ao lado dele.

“Não há garantias de que o Gazef perca. As chances são extremamente baixas, mas ainda
há chances de vitória. Aquele cara tem um movimento matador, sabe? A arte marcial que
ele usa como um trunfo?”

“O 《Corte de Luz Sêxtuplo》?”

Brain sorriu em voz baixa.

“Não. É uma arte marcial suprema que supera isso. Esse sujeito aprendeu isso.”

“É, é mesmo?!”

Enquanto Climb preparava a mão, ele olhou para a espada erguida de Gazef e para o
perfil de seu rosto, que estava cheio de foco máximo.

Era o rosto de aço do homem saudado como o Capitão Guerreiro, famoso nos países
vizinhos.

“Sim. Veio de um ex-aventureiro do reino, um adamantite. Foi uma arte marcial inven-
tada por Vesture Kloff Di Laufen, mas ele não podia usá-lo por causa de sua idade avan-
çada. Se o meu maior segredo, 《Cortador de Unha》 é o resultado do uso de múltiplas
artes marciais de uma só vez, o trunfo de Gazef é a técnica mais forte. Quem sabe, esse
golpe... pode até ser capaz de alcançar Ainz Ooal Gown.”

“Talvez fosse por isso que ele pedira um duelo cara-a-cara...”

Murmurou Brain. Seus olhos não deixaram a cena diante dele por um instante.

Climb engoliu.

A mão que segurava o sino parecia pesada. Depois que ele tocasse, o destino de Gazef
seria selado.

“Quer que eu faça?”

“...Obrigado. Mas... eu vou fazer isso.”

É assim, Brain murmurou, mas ele não disse mais nada.

Climb levantou o sino. Ele só podia rezar para que a vitória fosse para o Gazef.

E então — mais alto do que esperado — o sino tocou.


Sua consciência se concentrou no limite absoluto, Gazef entrou em cena com uma velo-
cidade inacreditável—

Sem perder um único momento, Brain e Climb abriram os olhos e observaram—

♦♦♦

—E diante de todos o mundo ficou quieto.

“Entendo... então contramedidas de tempo são importantes, afinal de contas.”

Porque Ainz tinha instantaneamente lançado o 「Silent Time Stop」, Gazef estava con-
gelado na frente de Ainz, sua espada estava levantada.

Nenhum ataque funcionaria enquanto o tempo estava parado. Mesmo que ele usasse
magia de ataque para bombardear Gazef, isso não lhe causaria nenhum dano. Por causa
disso, Ainz lançou uma magia enquanto controlava o tempo.

“「Delay Magic: True Death」.”

Esta foi uma magia de 9º nível.

Ele não o usava com frequência porque o 「Grasp Heart」 era uma magia mais conve-
niente.

Se nenhuma magia pudesse afetar um inimigo enquanto o tempo parasse, então tudo o
que era necessário fazer era atrasar a ativação da magia até o momento em que a magia
terminasse. Embora tenha sido um ataque de combinação básica, acertar o timing para
isso era extremamente difícil. Como tal, apenas cerca de 5% de todos os usuários de ma-
gia poderiam fazer isso.

Naturalmente, depois de muito treinamento e prática, Ainz também era um deles.

“...Adeus, Gazef Stronoff. Eu nunca te odiei.”

O efeito da magia terminou e o tempo voltou ao seu curso.

Antes que qualquer outra coisa pudesse acontecer, a outra magia entrou em vigor.

♦♦♦

—Gazef caiu lentamente.

“Eh?”

“O-que-que?”
Climb e Brain não tinham idéia do que acabara de acontecer.

No momento em que Gazef se adiantou, ele subitamente caiu.

Ainz pegou o corpo de Gazef.

Sua espada escorregou dos dedos sem forças e caiu no chão.

A batalha acabou.

No entanto, eles não conseguiam entender. Ninguém sabia o que estava acontecendo.

“Que droga acabou de acontecer...?”

“Como eu vou saber!?”

Brain deu voz a um grito de raiva.

“O que está errado? Levante-se! Gazef!”

No entanto, a sincera esperança de Brain foi negada friamente.

“Ele está morto.”

Respeitosamente, talvez até reverentemente, o Rei Feiticeiro Ainz colocou Gazef no chão.
Depois disso, ele fechou lentamente os olhos bem abertos do homem.

Enquanto olhava para o rosto de Gazef, ele falou com as duas pessoas próximas.

“...Vendo como ele fez um desafio sem chance de ganhar me lembrou daquela época.
Como sinal de respeito pelo Capitão Guerreiro, vou impedir o ataque das Crias Negras.
Seu corpo será devolvido depois que estiver devidamente preparado.”

“...Não, não há necessidade disso. Nós vamos levar o Gazef de volta. Não há necessidade
de incomodá-lo.”

Climb exalado pesadamente.

Brain iria desafiar Ainz para uma batalha sem esperança?

Ele se perguntou, no entanto, não havia necessidade disso.

“Mesmo.”

Respondeu Ainz antes de se levantar novamente.


“A magia de morte instantânea que usei, 「True Death」, invalidará a magia de ressur-
reição de nível inferior. Diga isso ao povo do Reino. Diga-lhes que serei misericordioso
com aqueles que se submetem respeitosamente.”

Ainz levemente flutuou no ar.

Mesmo quando viram suas costas indefesas, os dois sabiam que não podiam cometer
um ato vergonhoso como atacar por trás.

Ainz sentou-se nos tentáculos da Cria Negra. Verdadeiramente, era um trono aterrori-
zante.

“Cedam E-Rantel e as áreas circunvizinhas para mim sem demora e meus cordeiros não
vão passear pela Capital Real. Diga ao Rei isso quando você o vir novamente.”

A Cria Negra se virou e saiu, e as outras quatro Crias Negras também começaram a voltar
para o castrum Imperial.

“Climb-kun. Eu tenho um pedido... Eu posso levar o Gazef-dono de volta?”

“...Muito bem. Então levarei a espada de Stronoff-sama para casa.”

“Muitas pessoas morreram.”

“Sim, muitos para contar.”

“...O que acabou de acontecer?”

“Eu não sei. Mas, se alguém tão poderoso se chama rei e reivindica esse território...”

“Tenho certeza de que, no futuro, uma guerra vai definitivamente estourar. E quem sabe,
os mortos podem superar os cadáveres de hoje.”

Andando atrás de Brain, que carregava Gazef em suas costas, os pensamentos de Climb
se voltaram para o futuro do Reino, que estava envolto em nuvens escuras. As palavras
de Brain definitivamente se tornariam realidade. O importante era o que ele poderia fa-
zer e depois o que ele faria.

E o mais importante foi—

—Tenho que proteger a Renner-sama.

Climb cerrou o punho e se decidiu. No mínimo, ele tinha que proteger sua amada, não
importava o que custasse.
Epílogo
vento frio da noite passou por ele.

O Isso fez o cabelo de Brain Unglaus ondular assim como suas roupas.

“...Está congelando aqui...”

O vento espalhou sua respiração branca pálida e seus murmúrios, levando-os à distância.

Até mesmo as partes mais profundas de seu corpo pareciam estar congeladas.

Brain estava sozinho no topo dos muros de E-Rantel, onde os três estavam antes de sa-
írem.

Não havia nada aqui exceto a escuridão.

Muitos do povo do Reino perderam a vida durante a batalha — não, o massacre das
Planícies Katze.

Ele se lembrou do que viu quando se arrastou daquele campo de batalha.

As pessoas derrotadas arrastavam seus pés sem vida, suas roupas estavam esfarrapadas
e pareciam totalmente desgraçadas.

Mesmo que o Brain fosse um guerreiro que trilhou o limite da vida e da morte em uma
base regular, a imagem daquele paisagismo infernal — criado por um único magic caster
— permaneceu gravada em seus olhos.

Mesmo E-Rantel, “protegida pelas muralhas da cidade”, não poderia ser considerado um
lugar seguro por qualquer definição da palavra. No entanto, os soldados que fugiram para
cá estavam totalmente exaustos e desmoronaram como marionetes cujas cordas haviam
sido cortadas.

Sobre esta torre vazia, Brain lentamente exalou.

Então, ele olhou silenciosamente para o céu.

“Eu só continuo pensando... nada realmente importa mais.”

Brain olhou para as mãos.

Mesmo agora, o peso de quando ele carregou o pedaço sem vida de carne que era o
corpo daquele homem, a sensação ainda permanecia nelas. Por mais que tentasse, ele
não podia esquecer.

Ele era um grande homem e um rival que sempre tinha um passo à frente.
A morte daquele homem — Gazef Stronoff — o encheu de uma profunda sensação de
perda.

O que Gazef quis dizer para Brain não podia simplesmente ser resumido pela palavra
“rival”.

Brain havia se tornado o homem que ele era agora porque Gazef havia lutado contra ele
durante o torneio marcial, porque ele havia derrotado Brain e seu orgulho, porque ele
tinha acendido o ardente desejo de Brain de derrotar Gazef.

Brain Unglaus viveu, cresceu e se refinou por causa de Gazef. A força do homem cha-
mado Gazef foi suficiente para Brain investir sua vida em superá-lo. Foi exatamente como
um filho teve que superar uma barreira que ele chamava de pai.

No entanto, a pessoa que ele deveria ter superado já não existia.

Certo até o final, Gazef havia se erguido diante dele até que sua vida fosse clamada.

Brain havia visto o verdadeiro significado do poder na forma de Shalltear Bloodfallen.


Então, durante algum tempo, ele caiu e não conseguiu se levantar.

Ele confiara em sua força como base de sua confiança; assim, quando sua força foi que-
brada, o resto dele se mostrou inesperadamente frágil. Brain que estava aqui, agora po-
dia admitir isso.

No entanto, Gazef foi completamente diferente.

“Ainz Ooal Gown certamente deve ser um monstro do mesmo calibre que a Shalltear
Bloodfallen. E, no entanto, Gazef se adiantou para enfrentá-lo sem hesitar.”

Naquela época, Gazef não pediu o duelo por uma razão inútil como sua própria sobrevi-
vência. Ele deve ter tido uma motivação completamente diferente de Brain, que havia
manuseado sua espada em Shalltear enquanto estava à beira das lágrimas.

O que o motivava?

“Eu não entendo. Por que você não fugiu?”

Forçar suas palavras era como tossir sangue.

“Por que você escolheu morrer? Aquele monstro disse que ele teria deixado você ir, não?
Você não deveria ter conservado sua força para desafiá-lo mais tarde? Por que você fez
isso?! Se você tivesse que morrer, eu queria ir com você!”

Se ele não pudesse ultrapassar Gazef, então Brain queria morrer com ele.
Brain virou sua visão para a arma em sua cintura.

Era a Razor Edge, ele ganhou permissão para portá-la temporariamente.

Brain sacou a Razor Edge, e ativou sua arte marcial.

”《Corte de Luz Quadruplo》.”

Essa foi a técnica que Gazef usou para derrotar Brain no torneio marcial.

Quatro arcos de luz dividiram o corrimão próximo em pedaços. Não houve virtualmente
nenhuma resistência e a lâmina fluiu através do metal como se fosse água.

“Eu aprendi isso por sua causa... eu te admirei... queria morrer com você. Por que você
não me deixou lutar ao seu lado? Por que você não me disse que eu poderia morrer com
você?”

Brain cobriu o rosto.

Seus olhos estavam quentes, mas as lágrimas não fluíram.

Nesse momento, o som de passos chegou aos ouvidos do Brain. Apenas uma pessoa viria
aqui.

“Eu ouço homens chorando mais facilmente quando ficam mais velhos. Eu acho que é
verdade.”

“Eu acho que a dor de perder alguém precioso não tem nada a ver com a idade.”

Era a voz rouca que ele esperava.

“...Perdoe-me, Climb-kun. No fim, joguei muita responsabilidade em cima de você.”

Brain esfregou os olhos e embainhou a espada. Ele se virou e viu Climb, vestindo sua
armadura com uma expressão confusa no rosto.

“No entanto... bem, mesmo se eu estivesse lá, teria sido inútil, não acha? Nestas circuns-
tâncias, ninguém vai tentar matar o Rei. Diga-me, o que aconteceu depois disso?”

“Sim. O Príncipe Barbro ainda não retornou, então eles decidiram enviar uma equipe de
busca ao amanhecer.”

E como não podiam poupar soldados suficientes para esse dever, estavam planejando
usar aventureiros.
“Depois disso, houve a questão de ceder E-Rantel — foi uma decisão unânime. Todos os
nobres aprovaram. Até o Rei concordou.”

Até mesmo os nobres da Facção Real haviam aprovado.

Durante a perturbação demoníaca, o poder da Facção Real havia crescido. Embora esse
aumento no poder significasse que eles poderiam mobilizar o vasto exército que eles en-
viaram para as Planícies Katze, isso também significava que as perdas graves que sofre-
ram lá teriam repercussões maciças. E se eles entregassem E-Rantel, que era adminis-
trado diretamente pela Coroa, então somente a família real perderia. Eles provavelmente
pensavam que, como esse era o caso, eles poderiam fazê-lo, já que era a única maneira
de sobreviverem.

Desta vez, a Facção Real foi severamente enfraquecida, enquanto a Facção Nobre se for-
taleceu novamente.

O que tudo isso significaria para o futuro?

De repente, ele percebeu que o corpo de Climb estava tremendo.

Ele não estava tremendo de raiva, mas de medo. Lembrar as horríveis vistas de antes
deve ter deixado sua alma quebrada em gritos. Esse desespero absoluto provavelmente
se aproximava dele.

“...Mesmo agora, fico com medo quando penso neles.”

Talvez fosse algo como uma força nascida do desespero.

Em suas memórias, ele lembrou como Climb estava com ele em preparação para lutar
contra o Rei Feiticeiro.

Talvez ele saiba a resposta...

Ele pensou.

“Ei, me diga uma coisa. Por que o Gazef pediu o duelo?”

O rosto de Climb era uma imagem de surpresa. Assim que Brain se perguntou se ele não
tinha sido claro o suficiente e preparado para esclarecer sua pergunta, Climb respondeu:

“Esta é apenas minha opinião pessoal, está tudo bem?”

“Tudo bem, está tudo bem, vá em frente.”

“...Será que ele queria mostrar algo para nós?”


“...Mostrar o que para nós?”

“O poder do Rei Feiticeiro, Ainz Ooal Gown. E então... ele deve ter desejado nos dar um
futuro.”

“Um futuro?”

“Sim. Foi assim que teremos algumas táticas e informações para o caso de precisarmos
lutar contra ele no futuro.”

Brain se sentiu atingido por um raio em um céu azul.

Não poderia haver outra resposta. Climb estava certo.

Aquele homem apostou sua vida para espremer a pouca informação que pudesse para
eles. Embora, ele não pensasse que o Rei Feiticeiro, como um magic caster, entraria de
bom grado em combate corpo-a-corpo novamente sem guarda-costas ao seu lado.
Mesmo assim, ele apostou sua vida na chance miraculosa de que isso pudesse acontecer
novamente. Então, quem ele confiaria essa possibilidade?

Brain riu de si mesmo:

Eu nunca pensei que poderia ser o caso.

Nesse caso... como ele viveria, agora que ele sabia quais eram os pensamentos de Gazef?

Enquanto Brain se perdia em pensamentos, Climb fez uma pergunta, como se fosse in-
capaz de suportar o silêncio.

“...Se eu não estiver errado, Stronoff-sama não permitiu ser ressuscitado, não foi?”

“Gazef era esse tipo de homem.”

Mesmo se eles usassem a magia de ressurreição, isso não significa necessariamente que
os mortos voltariam à vida. As lendas disseram que as pessoas felizes com suas vidas
recusariam a ressurreição.

“O Rei não parece ter aceitado isso ainda.”

“Isso é apenas esperado. No entanto, ele não voltará... Ainda assim, é uma surpresa.”

“Sim. Eu não entendo o que o Gazef-sama estava pensando. Ele não deveria voltar à vida
e continuar prometendo sua lealdade? É o que eu faria.”

“Mesmo? Quanto a você, Climb, acho que você faria isso. Quanto a mim... não me traga
de volta depois que eu morrer. Eu não acho que... eu vivi uma vida que me arrependo.”
“De minha parte, eu ainda escolheria retornar. Eu quero dedicar meu corpo para o ser-
viço de Renner-sama... se eu puder pagar.”

Apenas uma pessoa no Reino poderia usar a magia de ressurreição. Não havia dúvida
de que o preço que ela pedia seria impressionante... mas esse era o preço justo de desafiar
o julgamento da morte.

Durante a perturbação demoníaca, todos os aventureiros pertenciam tecnicamente à


mesma equipe, de modo que havia uma exceção, mas sob circunstâncias normais, a res-
surreição custaria uma quantia considerável. Era uma quantia que faria com que os olhos
saíssem, e os civis ou soldados normais pudessem trabalhar a vida toda e nunca conse-
guir arcar com isso. O mesmo valia para Climb.

Sua Princesa-sama pagaria de bom grado.

Brain não disse. Em vez disso, ele respondeu:

“Mesmo?”

O silêncio desceu sobre eles novamente. Desta vez, Brain o quebrou.

“Eu realmente queria derrotar esse cara...”

Climb não respondeu. Brain não esperava uma resposta. Não, se ele pensasse racional-
mente, essas palavras não significavam nada para Climb. No entanto, ele sentiu que tinha
que dizer as coisas empilhadas em seu coração.

“Eu perdi para ele no passado. Então eu pensei que queria vencê-lo. Mas agora, isso é
impossível... Ah, o deixei fugir”

Brain disse isso olhando para o céu noturno, e completou:

“Droga...”

“...Brain-san.”

O que devo fazer?

O que devo fazer sobre o desejo de Gazef?

“Não, deveria ser assim. Sobre o que eu estou confuso? Há apenas duas escolhas. Conti-
nuar, ou não continuar. Eu quero... vencer? Ah, então é isso?...”

No final, não há apenas uma resposta a escolher?


Um sorriso selvagem floresceu no rosto de Brain, e ele levantou a Razor Edge para o céu.

“Hmph! Quem em sã consciência viverá sobre seus desejos?!”

Brain gritou alto, do fundo do seu coração.

“Você escolheu morrer! Como você se atreve a tomar o caminho mais fácil! Vai se arre-
pender depois da morte! Eu — eu vou, vou superar você do meu próprio jeito! Climb!
Vamos beber! Vamos pegar um pouco de vinho e nos divertir!”

Ele não sabia o que fazer.

No entanto, ele sabia que não queria simplesmente herdar o desejo de Gazef. Se ele fi-
zesse isso, não importava o que fizesse, nunca seria capaz de superá-lo.

Além disso, ele provavelmente acabaria pensando em Gazef uma e outra vez no futuro.
Portanto, ele deve esquecê-lo por um tempo.

Brain estendeu a mão para agarrar Climb pelo ombro e empurrou-o para frente. O peso
em suas mãos se diminuiu um pouco.
Um Capítulo Novo em Folha
odos aguardavam a chegada da primavera. Isso era mais por parte dos cam-

T
poneses, que podiam sentir a terra voltando à vida sob seus pés. No entanto,
os moradores da cidade também receberam a primavera. Claro, eles fize-
ram isso porque não precisariam gastar mais em aquecer suas casas.

O primeiro dia da primavera em E-Rantel ficou em silêncio, no entanto.

As ruas principais estavam vazias, como se todos nelas tivessem morrido. Ainda assim,
podia-se sentir pessoas das casas que enfrentavam as ruas através das pequenas abertu-
ras nas persianas e portas. Essas eram pessoas que estavam prendendo a respiração e
espiando o mundo lá fora.

Hoje foi o dia em que E-Rantel seria oficialmente cedida a Ainz Ooal Gown e se tornaria
uma cidade no Reino Feiticeiro de Nazarick.

O primeiro portão da cidade se abriu e os sinos de boas-vindas tocaram.

Depois de muito tempo, o segundo portão se abriu e os sinos ecoaram pela cidade mais
uma vez.

Entre o segundo e o terceiro portão ficava a zona residencial da cidade.

Os moradores de E-Rantel estavam com medo, mas não fugiram porque sabiam que,
mesmo que corressem, tudo o que os aguardava seria uma vida de desespero.

Mesmo se fossem mestres ou comerciantes especializados em E-Rantel, em outras cida-


des, teriam que começar de novo como aprendizes.

Cidades com histórias longas tinham um sistema profundamente enraizado. Pessoas de


fora que eram novas na cidade naturalmente precisariam começar das posições mais bai-
xas e mais juniores. Isso quer dizer que, mesmo se fugissem para outra cidade, a maioria
deles não seria capaz de encontrar um emprego adequado e viveriam e morreriam como
pobres nas favelas.

Sem nenhum lugar para onde fugir, a maioria dos moradores permaneceu em E-Rantel.

No entanto, se a vida deles estivesse em perigo, eles escolheriam fugir. Isso era apenas
esperado. Afinal de contas, as fofocas sobre o novo governante, não, seu novo Rei, era
que ele era um ser temível.

Eles disseram que ele era um magic caster que massacrou o Exército Real.

Eles disseram que ele era um ser de sangue frio que parecia um undead.

Eles disseram que ele era um monstro que gostava de tomar banho no sangue fresco
das crianças.
Os rumores que circulavam eram todos dessa natureza, com quase nenhuma palavra
positiva sobre ele.

E assim, todos se escondiam atrás de suas portas, planejando espionar o Ainz Ooal Gown
entre as aberturas de suas janelas.

Eventualmente, a procissão de Ainz Ooal Gown chegou na rua principal.

Todos que o viram perderam o poder da fala.

Ele era um ser que combinava com os rumores que circulavam sobre ele.

A primeira pessoa que eles viram ainda pode ser considerada até normal. À frente do
contingente havia uma linda mulher que era tão radiante quanto a lua cheia.

Ela usava um vestido branco, com cabelo preto sedoso e sua pele era como alabastro.
Seu corpo, adornado com uma constelação de joias, não podia inspirar luxúria ou inveja.
No entanto, o fato de ela ter chifres de sua cabeça e longas asas negras de sua cintura,
além de sua beleza sobrenatural, eram todos sinais de que ela não era humana.

Por trás dessa linda deusa estavam os guerreiros. Ao olhá-los, os moradores estremece-
ram incontrolavelmente.

Os guerreiros foram divididos em dois grupos, diferenciados pelos estilos de armadura


que usavam.

O primeiro grupo poderia ser chamado de “corporação de Death Knights”.

Em suas mãos esquerdas, eles carregavam escudos de torre que cobriam ¾ de seu corpo
e, à direita, carregavam flamígeras.

Suas capas pretas esfarrapadas cobriam quadros maciços que tinham mais de dois me-
tros de altura. Sua armadura de metal preta estava cheia de padrões carmesins ondula-
dos, lembrando vasos sanguíneos. Também estava coberto de pontas afiadas. Eles pare-
ciam encarnações físicas de brutalidade.

Seus elmos com chifres demoníacos expunham seus rostos apodrecidos. Suas órbitas
vazias brilhavam com um fogo vermelho, cheio de ódio pelos vivos e um anseio pelo mas-
sacre.

O segundo grupo poderia ser melhor descrito como “Um bando de guerreiros mortos”.

Eles carregavam espadas de lâmina longa, várias armas pendiam em suas cinturas; ma-
chados de mão, maças, bestas, chicotes, espigões e muitas outras armas. Todos eles ti-
nham incontáveis dentes e arranhões — prova de que tinham sido muito usadas.
Eles tinham aproximadamente dois metros de altura e a armadura que usavam era re-
lativamente leve. Seus corpos estavam vestidos com armaduras de couro feitas de pele
de algum animal desconhecido. Sua armadura esfarrapada, os dois braços e partes de
seus rostos estavam cobertos de tiras mágicas — tiras de pano cobertas de runas arcanas.

Abaixo dessas faixas havia visuais semelhantes aos do grupo anterior; rostos arruinados
que não poderiam pertencer a seres humanos.

Todos podiam sentir um poder avassalador que irradiava desses grupos, mas à medida
que o palanquim carregado por vários desses seres surgia, o choque que eles já haviam
experimentado foi abalado por um ainda maior.

Um undead estava sentado no palanquim. Uma esmagadora aura de morte flutuava ao


redor dele, uma névoa negra que se agitava como um turbilhão. O brilho da obsidiana
brilhava de suas costas.

Os instintos de todos imediatamente disseram a eles quem era.

Era o Ainz Ooal Gown.

Nós não podemos sobreviver sob o domínio deste monstro; perigoso nem sequer começa a
descrever como nossas vidas serão. Assim que todos começaram a pensar nisso, o som de
uma porta se abrindo soou no ar.

Os cidadãos de E-Rantel apertaram os olhos para as aberturas e fendas para espiar para
fora, a fim de ver o que estava acontecendo. O que eles viram foi a forma de uma criança
correndo. Ele segurava algo na mão e estava correndo em direção ao desfile de seres
inumanos de Ainz Ooal Gown. Atrás da criança, sua mãe pálida de medo estava o perse-
guindo.

“Devolve meu papai!”

A voz jovial do menino ecoou pelas ruas.

“Devolve meu papai! Seu monstro!”

O menino jogou alguma coisa. Era uma pedra.

A pedra voou em direção ao desfile — seu alvo provavelmente era Ainz Ooal Gown.

Talvez tenha sido devido ao nervosismo, mas a pedra ficou aquém da sua marca e rolou
pela estrada de paralelepípedos.

Atrás dele, sua mãe parecia que sua alma havia deixado seu corpo. Ela sabia o que acon-
teceria com eles agora.
A mãe abraçou o filho por trás enquanto seu corpo estremecia. Ela tentou desesperada-
mente proteger e esconder seu corpo em seus braços.

“Ele é apenas um menino! Por favor, eu te imploro! Eu te imploro para perdoá-lo!”

A mulher bonita sorriu em resposta ao pedido frenético da mãe.

Eles foram salvos. Aquele era um sorriso caloroso e maternal que colocaria o coração
de alguém à vontade.

“—Grosserias como essa ao Ainz-sama merece nada menos que a morte.”

A mulher bonita produziu um gigantesco bardiche do nada. O fato de poder exercê-lo


tão facilmente falava de sua força desumana nos braços.

Os residentes podiam facilmente imaginar os usos para aquele machado, e seus palpites
estavam provavelmente certos.

“Devo dizer que é bem decepcionante isso vindo do gado. Você não acha vergonhoso
quando o preço por quilograma de sua carne passa a valer menos?”

Enquanto observava a mulher se aproximando devagar, a mãe percebeu o que ia acon-


tecer com eles e abraçou o filho com força.

“Por favor! Poupe meu filho, mesmo que seja apenas meu filho! Tire a minha vida, faça
o que quiser comigo! Por favor!”

“O que você está dizendo? Não há motivo para te matar, ou tem? Ainz-sama não gosta
de abates sem sentido. A sua inocência é certa. Por favor, descanse e espere isso entre
seus braços se tornar mincemeat... embora, se dependesse de mim, eu preferiria trans-
formá-lo em um croquete.”
O menino nos braços de sua mãe parecia não perceber que ele seria morto em breve. No
entanto, qualquer pessoa que assistisse sabia que a curta vida da criança acabaria em
poucos segundos. No entanto, ninguém estava disposto a dar um passo à frente para
salvá-lo.

Embora eles quisessem se afastar da tragédia iminente, ninguém conseguia desviar os


olhos.

Mãe e filho ficaram paralisados pela aura assassina que a beleza emitia.

“Lamente o seu crime de grosseria contra o mais exaltado quando você morrer.”
No momento em que a mulher balançou sua enorme arma, a terra estremeceu quando
o som de metal batendo contra o metal soou. A fonte desse som era uma grande espada
projetada do chão, separando a mãe e filho da bela mulher.

Essa espada — e seu portador — era conhecida por todas as pessoas nas ruas.

Ele era uma lenda viva.

Ele era um guerreiro invencível.

Ele era um herói gentil.

♦♦♦

Quando viram a entrada do único ser que poderia salvar o par miserável, o povo gritou
o nome do espadachim em seus corações.

—O nome do Guerreiro Negro, Momon.

♦♦♦

Um homem vestido com uma armadura preta azeviche saiu lentamente de uma ponta
do beco e distendeu sua greatsword presa no chão. Com um movimento poderoso de seu
pulso, ele sacudiu a sujeira. Sua outra mão já estava segurando uma espada, e o Momon
pronto para a batalha enfrentou a linda mulher.

“Existe uma necessidade de usar tanta força em um menino jogando uma pedra? Nin-
guém vai querer se casar com você.”

“Mesmo se você me disser, eu não vou ser feliz... ghrun! O pecado da grosseria contra o
Ainz-sama não conhece idade! Todos os que cometem devem perecer!”

“E o que acontece se eu não permitir?”

“Então você será um traidor do senhor desta terra e será exterminado!”

“Jura? Bem, isso não é uma coisa ruim. No entanto, não pense que você pode pegar essa
cabeça tão facilmente, hm? Se você quiser, é melhor estar preparado para arriscar a sua
também.”

Momon habilmente girou as espadas em suas mãos e assumiu uma postura de luta. Essa
postura ousada e dominadora era certamente a coisa que os heróis eram feitos.

“Vocês aí, protejam o Ainz-sama.”


Depois de dar uma ordem aos guerreiros de armadura negra atrás dela, a beleza prepa-
rou sua bardiche por sua vez.

Os espectadores acreditavam originalmente que o vencedor desse confronto seria Mo-


mon. Mas a aura de batalha irradiando dos dois negava essa expectativa. Eles podiam
sentir que a mulher bonita era uma guerreira em pé de igualdade com Momon.

Os dois encurtaram a distância um do outro em termos de milímetros. Aquele que in-


terrompeu o conflito iminente entre os dois fôra Ainz Ooal Gown. Pelo poder da magia,
ele silenciosamente voou do palanquim e aterrissou na terra, antes de colocar uma mão
no ombro da beleza.

“Ainz-sama!”

Ele se inclinou e colocou a boca no ouvido da beleza antes de sussurrar. Seu rosto se
iluminou com um sorriso encantador e gentil.

“Eu entendo, Ainz-sama. Será como o senhor diz.”

Ela inclinou-se para Ainz e depois apontou sua bardiche para Momon. No entanto, sua
intenção assassina de agora estava ausente.

“...Eu ainda não ouvi seu nome. Diga.”

“Eu sou Momon.”

“Entendo. Momon. Então, eu te pergunto. Você acha que pode nos derrotar?”

“...Não, eu não posso. Mesmo que eu lutasse até a morte, eu só poderia derrotar você ou
a pessoa ao seu lado.”

O desespero encheu os corações de todos que ouviram estas palavras. Foi porque eles
sabiam que até o grande herói só poderia matar um desses monstros.

“E além disso... se eu lutasse com todas as minhas forças, muitos inocentes seriam pegos
em nossa batalha. Eu não posso fazer uma coisa dessas.”

“Que idiota. Apesar de suas habilidades impressionantes, você iria tão longe para esses
fracos — eu falei demais. Ainz-sama tem uma proposta para você. Ouça com gratidão.
Entregue-se e jure fidelidade a nós como um guerreiro de Nazarick.”

“—Você está brincando comigo?”

“Que rude. Ainz-sama não deseja governar esta cidade com desespero e derramamento
de sangue. Além disso, matar humanos não tem nenhum mérito para o Ainz-sama. Mas
mesmo se disséssemos isso, as pessoas daqui não acreditariam. Então, vamos fazer você
trabalhar ao lado de Ainz-sama.”

“...Que tipo de trabalho seria?”

“No futuro, pode haver mais tolos que atirariam pedras em Ainz-sama. Nesse ponto,
você terá que remover suas cabeças. Em troca, você pode ver como o Ainz-sama não mal-
trata os inocentes desta cidade.”

“...Entendo. Então, eu serei um vigia que ficará ao seu lado?”

“Não é bem assim. Como eu disse, você será responsável pela eliminação de traidores.
Assim, você será um representante do povo que goza de ter um executor.”

“Eu não tenho intenção de me jurar ao serviço do mal.”

“Nem nós temos planos de perpetrar esse tipo de mal. Então o que você irá fazer? Se
você não prometer sua espada ao Ainz-sama, então você será morto aqui e agora como
um indivíduo perigoso, não importa quantas pessoas nós tenhamos que matar para che-
gar até você.”

Momon olhou em volta.

“Eu pretendo viajar e não tinha intenção de ser subordinado a ninguém...”

“Essa também é uma resposta aceitável. Então, vamos começar o dano colateral para as
pessoas ao redor agora?”

“Espere! Não tire conclusões precipitadas. Eu ainda não tomei minha decisão. Eu tenho
uma parceira. O que irá acontecer com ela?”

“Então ela deve se comprometer com o Ainz-sama também. Não pode haver outra res-
posta.”

“O velho eu poderia ter colocado a viagem como uma prioridade mais alta... mas parece
que eu me apeguei a esta cidade. Vai ficar tudo bem se eu não me ajoelhar?”

Ainz mais uma vez sussurrou no ouvido da beleza.

“Isso é permissível e, portanto, está decidido. Momon, trabalhe arduamente para o Ainz-
sama.”

“...Compreendo. Mas lembre-se de que, se você ferir as pessoas da cidade sem nenhum
motivo, esta espada será apontada para você e seu mestre.”
“...Nesse caso, quando as pessoas desta cidade se levantarem em revolta contra o Ainz-
sama, eu espero que essa espada também seja apontada para aqueles que se rebelam.
Não importa se são crianças ou não. Estou ansiosa para o momento em que esta cidade
se levantará contra nós, e para o seu rosto agonizante enquanto você executa seu povo.
Então, iremos em frente primeiro. Junte-se a nós depois.”

A comitiva de Ainz Ooal Gown continuou em frente. Depois que a monstruosa procissão
finalmente sumiu de vista, as pessoas saíram de suas casas. Era incrível como tantas pes-
soas conseguiram se manter tão bem escondidas.

Todos estavam elogiando Momon.

Assim que Momon começou a acalmar timidamente a maré de adoração, um som nítido
ecoou claramente sobre a multidão. Foi o som da mãe batendo no filho.

“Por que você fez aquilo?!”

De novo e de novo, ela deu um tapa no filho.

Mãe e filho estavam chorando, mas mesmo assim ela não parou de bater nele.

Momon agarrou a mão da mãe.

“Você não acha que é suficiente por enquanto? Há algo que eu gostaria de perguntar a
ele.”

“Esse menino causou tantos problemas para o senhor, Momon-sama! Pedimos sinceras
desculpas pelo fundo dos nossos corações!”

“Não, por favor, não dê atenção a isso. Não há necessidade de se desculpar, Ah, não há
necessidade de chorar também. Eu tenho algumas perguntas para você.”

Enquanto Momon tentava silenciar o choro do menino, ele perguntou ao menino o por-
quê ele havia feito aquilo.

Todos achavam que o menino devia querer vingar o pai, mas o garoto disse que depois
que um homem estranho lhe sussurrou palavras, ele sentiu que jogar a pedra era a coisa
certa a fazer.

“Entendo... não é preciso punir seu filho. Este foi provavelmente o resultado de controle
mágico. Com toda a probabilidade, é uma tramoia da Teocracia, tentando me forçar a um
confronto com Ainz Ooal Gown.”

“...Não, a Teocracia não faria isso. Esse plano não foi idéia de Ainz Ooal Gown para fazer
o senhor se tornar vassalo deles, Momon-sama?”
Momon assentiu profundamente para as palavras de um lojista. Ele abrira sua loja aqui
apenas alguns anos atrás.

“Isso é certamente uma possibilidade. Mas por outro lado, também é uma boa oportu-
nidade. Como tenho uma desculpa para estar ao seu lado, posso monitorar seus movi-
mentos. Se ele planeja prejudicá-los, vou cortar a cabeça dele. Mas em troca, vocês não
devem se revoltar contra Ainz Ooal Gown.”

“Por que não deveríamos?! Enquanto estiver por perto, Momon-sama—”

“—Por favor, não continue essa linha de conversa. Eles estão esperando que alguém fale
essas palavras. Se você se rebelar, ele me mandará matá-los por diversão.”

Momon abriu os braços e continuou falando com todos abertamente.

“Eu não posso ser aquele que quebrará o acordo que acabamos de firmar. Por causa
disso, espero que todos cooperem com eles, desde que não façam exigências irracionais.
No entanto, se você acha que não foi tratado de forma justa, por favor, venham a mim.”

Os rostos das pessoas assumiram olhares de dor quando perceberam que eram reféns
de Momon.

Momon sorriu gentilmente para eles.

“No entanto, espero que vocês não se preocupem muito. Para começar, esse sujeito pode
acabar sendo um governante inesperadamente bom. Vamos esperar e ver. Além disso, se
a Teocracia fazer um movimento, eles podem tentar incitar vocês a se revoltarem. Espero
que todos vocês mantenham os olhos abertos.”

Ninguém poderia aceitar isso.

Mas, ao mesmo tempo, ninguém poderia se opor a isso.

Ainz Ooal Gown, um undead. Ninguém podia confiar em um ser perigoso como aquele
que nutria ódio pelos vivos. No entanto, todos confiavam em Momon. Na verdade, Mo-
mon tinha desistido de seus objetivos pelo bem da cidade. Era natural que eles dessem
sua lealdade ao Momon em agradecimento.

Todos os presentes concordaram com a proposta de Momon, e depois de prometer es-


palhar essas palavras para as pessoas ao seu redor, eles se dispersaram.

Como resultado, o governo de E-Rantel foi pacífico, sem derramamento de sangue, algo
que as nações vizinhas mal podiam acreditar.
Posfácio
Obrigado a todos que compraram o Volume 09.

Por alguma razão, tornou-se outro volume grande e pesado. Quando comecei a escrever
isso, perguntei ao editor “Como não há muito o que escrever para este volume, eu devo
conseguir fazê-lo em cerca de 200 páginas, né?”. Mas quando recebi o volume impresso,
me perguntei “Por que é tão espesso?”.

Isso é muito estranho. De onde vieram as 200 páginas extras? Ainda assim, quero tentar
terminar um volume com cerca de 300 páginas, e não 300 páginas apenas a Parte 1 e a
Parte 2.

De qualquer maneira, eu não sei o que aconteceu, mas os desenvolvimentos nos próxi-
mos Volumes serão completamente diferentes da Web Novel, o que me deixa meio ner-
voso. Ainda assim, espero que todos gostem. Eu estimo que o Volume 10 terá 300 páginas.

Falando nisso, na semana passada, o mangá “Overlord” desenhado por Miyama Fugin-
sensei foi colocado à venda. Esta semana, o Volume 09 da Light Novel saiu, e na próxima
semana será o início da transmissão do anime de Overlord. Essas 3 semanas estarão
cheias de Overlord!

Produzimos algo grandioso graças à ajuda de todos que trabalham nele. (Especialmente
So-bin sama... Ele tem muito trabalho a fazer, me faz chorar toda vez que penso nisso. É
como... bem, às vezes eu sinto que estou me dando muito trabalho). Espero que todos
possam aproveitar o Mangá, a Light Novel e o Anime.

E agora, aos agradecimentos habituais. Muito obrigado a So-bin-sama, por suas ilustra-
ções incríveis e trabalhando na animação e mangá com toda a sua alma. Os designers da
Chord Design Studio, não apenas trabalharam na Light Novel, mas também no logo do
Anime de Overlord.

O logo do Anime é legal e surpreendente.

Murata-sama, que se esforçou muito para desenhar o mapa.

Ohaku-sama e Itou-sama editam e executam verificações detalhadas, então obrigado


também. Eu agradeço a todos que trabalharam arduamente para me ajudar a fazer esse
volume espesso, mas ao F-da-sama que não acha que o Overlord é muito grosso compa-
rado a outros livros que ele é responsável, obrigado também.

E o Honey que, como pai, disse “as crianças são incríveis” na cena do Marquês Raeven,
muito obrigado, como sempre.
Embora eu não possa encaixar todo mundo aqui, agradeço a todos que participaram não
só da Light Novel, mas também do Anime e Mangá de Overlord! E, claro, meus maiores
agradecimentos vão para os leitores que leram todos os Volumes.

Maruyama Kugane
Ilustrações
Glossário
Glossário
-Magias, Habilidades & Passivas- Lolicon:ロリコン, é uma abreviatura de lolita complex,
Tradução livre de seus nomes ou seja, complexo de lolita. Geralmente é usada para defi-
nir quem gosta de meninas menores de idade, ou com apa-
rência de menor de idade.
Fireball: ................................................................ Bola de Fogo. Magia Selvagem:Magia exclusiva do Novo Mundo, é
Fly: ........................................................................................ Voar. energizada com o sacrifício de almas.
Gate: ................................................................................... Portal. Mincemeat:É uma mistura de frutas secas picadas, álco-
Goblin Blow: ....................................................... Golpe Goblin. ois destilados e especiarias, e às vezes sucos, carne bovina
Grasp Heart: ................................................. Agarrar Coração. ou carne de veado. Originalmente, o recheio sempre con-
Lesser Strength: .............................. Menor Fortalecimento. tinha carne.
Lightweight Cargo: .....................................Carga Peso-Leve. Palanquim:Ou liteira, é uma cadeira portátil, aberta ou
Lion’s Heart: ................................................. Coração de Leão. fechada, suportada por duas varas laterais. As liteiras usa-
Message: .................................................................. Mensagem. das no Oriente são geralmente designadas como palan-
Raise Dead: .................................................... Levantar Morto. quins, termo que por vezes também se aplica aos respeti-
Reinforce Armor: .................................. Reforçar Armadura. vos carregadores humanos.
Silent Time Stop: ................... Parada de Tempo Silencioso. Praetorium:Ou pretório, era, originalmente, o nome da
True Death: ................................................ Morte Verdadeira. tenda ou residência do comandante nas fortificações da
Roma Antiga, um castro (castrum) ou castelo (castellum).
Senbei:煎餅 - É um tipo de aperitivo de arroz japonês.
-Metamagia- Eles são feitos em vários formatos, tamanhos e sabores,
normalmente salgados, mas às vezes doces.
Delay Magic: Atrasar Magia – Quanto ativado atrasa o Villa VIP:É um tipo de residência de luxo isolada das de-
momento em que a magia será lançada. mais.
Zibeline:É um tecido grosso e macio. Geralmente é feito
-Itens- de lã, como mohair ou alpaca, mas também pode ser feito
Tradução livre & Curiosidades de pêlos de outros animais, como camelos. Zibeline tam-
bém pode se referir a um tecido de seda pesado com um
tecido de sarja, muito semelhante ao Mikado.
Amulet of Immortality:.............Amuleto da Imortalidade.
Gauntlets of Vitality:..................... Manoplas da Vitalidade.
Guardian Armor: ................................... Armadura Guardiã.
Horn of the Goblin General:Trombeta do General -Nomes-
Goblin.
Razor Edge: ...................................................... Fio de Navalha. Brightness Dragonlord:Soberano Dragão Brilhante. Os
kanjis de seu nome abaixo do furigana são de 七 彩
(Nanasai), significa “sete cores”.
-Termos & Terminologias- Dark Scale Dragonlord:Soberana Dragoa de Escamas
Negras. Os kanjis de seu nome abaixo do furigana são de
Castrum:Ou Castro, era uma fortificação celta que se as- 黒鱗(Kuro uroko), significa “escamas negras” ou mesmo
semelhava a um castelo rodeado de uma muralha circular, “ébano”.
geralmente no topo de uma colina. Os romanos tomaram Mãe Negra:Shub-Niggurath, ou Cabra Negra Com Mil
de empréstimo o termo para designar seus campos mili- Crias, é a entidade cósmica que simboliza o ciclo da vida,
tares, que eram retangulares. sobretudo no que diz respeito a nascimento, reprodução
Casus Belli:Na terminologia bélica, casus belli é uma ex- e fecundidade. Vem dos Cthulhu Mythos de Lovecraft.
pressão latina para designar um fato considerado sufici-
entemente grave pelo Estado ofendido, para declarar
guerra ao Estado supostamente ofensor.
Cortesã:Conforme os usos do século XVI, era termo utili- -Raças & Monstros-
zado para referir-se às amantes que se associavam aos ri-
cos e poderosos nobres que as proviam de luxo e bem-es- Beastman: ....................................................... Homem-Besta.
tar, assim como status junto à corte, em troca de sua com- Cria Negra:Em japonês 黒 い 仔 山 羊 (Kuroi Koyagi) , é
panhia e seus favores. algo como Filho da Cabra Negra. Vem dos Cthulhu Mythos
Eroge: .................................................................. Jogos eróticos. de Lovecraft.
Flamígera:Tem um estilo de lâmina caracteristicamente Death Knight:.......................................... Cavaleiro da Morte.
ondulante. GriffinEm grego: γρύφων, grýphōn ou γρύπων, grýpōn,
À la meuniere:Um peixe à la meuniere consiste de uma forma primitiva γρύψ, grýps; latim: grifo. É uma criatura
receita onde o peixe é empanado em farinha de trigo, frito lendária alada com cabeça e asas de águia e corpo de leão.
no óleo e manteiga e depois regado com um molho de li- Hippogriff:Hipogrifo - variante de Griffin, em grego:
mão e manteiga Ιππόγρυπας.
Redcap:Também conhecidos como “Barrete vermelho”
são uma variação malévola dos Goblins.
Sleipnir:Na mitologia nórdica, é a montaria mágica de
Odin. O lendário Corcel Negro de 8 patas era o cavalo mais
veloz do mundo, cavalgando em terra, no mar e no ar. Seu
nome significa suave ou aquele que plana no ar. Ele tam-
bém é associado com as palavras esguio e escorregadio.
Soul Eater: ............................................... Devorador de Alma.
Undead: ................................................................... Morto-Vivo.
Wyvern:Ou em português “Serpe”, é todo réptil alado se-
melhante a um dragão — conhecida como “dragonetes” —
de dimensões distintas, muito encontrado na heráldica
medieval.

-Honoríficos & Tratamentos-


Ani-ue:兄上 - Um modo mais politizado e arcaico de dizer
irmão.
Chan:ち ゃ ん - O sufixo “chan” é um termo carinhoso
usado geralmente para crianças ou pessoas que temos
muita intimidade. O “chan” é usado após o nome inteiro
ou abreviado.
Dono:殿 | どの - O sufixo “dono” vem da palavra “tono”,
que significa “senhor”. Seria semelhante ao termo “meu
senhor”. Na época dos samurais, costuma-se denotar um
grande respeito ao interlocutor.
Kakka:閣下 - É um adereçamento militar a pessoas envol-
vidas com governo. O caractere kanji 閣 (“kak (u)”) signi-
fica “gabinete / prédio / palácio do governo” e 下 (“ka”)
significa “abaixo/sob”. Colocado em conjunto, 閣 下 é
usado para se referir indiretamente a alguém sob o Gabi-
nete (teto do edifício).
Kun:君 - O sufixo “Kun” é bastante utilizado na relação
“superior falando com um inferior”, mas apenas se houver
um certo grau de intimidade e amizade entre ambos.
Sama:様 | さま- O sufixo “Sama” é uma versão mais res-
peitosa e formal de “san”. A traduções mais próxima do
termo “sama” para o português seria “Vossa Senhoria”.
Não é conhecido como Japão, não é importante referir-se
a pessoas importantes ou a alguém que não admira e é
muito importante, não império antigo era muito usado
para se referir como rainhas.
San:さん - O sufixo “San” é um honorífico que pode ser
usado em praticamente todas as situações, independente
do sexo da pessoa. Normalmente é usado para pessoas
que temos pouca ou nenhuma intimidade. Também usado
quando a pessoa considera o interlocutor como um de
igual hierarquia.
Notas de Tradução:
Modo de Fala da Yuri. As vezes a Yuri começa suas falas usando pronome masculino,
ou seja, ela começa a frase com Boku(eu), mas logo em seguida muda para Watashi(eu).
• Boku | 僕 = É usado por meninos, quando uma menina usa é para parecer mais
com meninos. Ou mesmo mais de criancice.
• Watashi | 私(わたし) = É uma variante mais neutra de gêneros.
Já em português isso é meio complicado adaptar.
Rei Feiticeiro. Vem de 魔導王 Madouou. Esse 魔 (Ma) tem vários significados:
• Magia negra;
• Maligno;
• Trevas;
• Espirito maligno;
• Demônio;
魔 (Ma) é um kanji polissémico (Com vários significados), então a tradução varia de
acordo com o contexto.
• Se o Ainz fosse o Mahouou então ele seria o Rei Mago;
• Se ele fosse o Majutsuou, ele seria o Rei da Bruxaria;
• Se ele fosse o Maou, então seria o Rei Demônio.
Mas ele é o supracitado Madouou, que tem uma nuance maior, se não bastasse as polis-
semias acima, Madou pode ser uma analogia ao Reino dos Mortos levando em conta o
budismo.
Então o Ainz é um Madouou, mas não qualquer rei que sabe magias, ele é o Rei dos Mor-
tos, o Rei da Magia Negra, o Rei da Magia em si. Tudo isso na nuance de uma só palavra.
Então ele ser o Rei Feiticeiro tenta passar essa nuance, e foi isso que Nigel & cia tentaram
passar.
A explicação completa é encontrada aqui em inglês: Reddit
Em um Tweet, o Autor disse que “Darkness”, ou seja, Rei das Trevas/ Rei da Escuridão
seria acurado. Claro, o conceito de “trevas” no Japão é muito mais neutro do que o nosso,
pois temos toda a cultura religiosa vindo do cristianismo que deixou a palavra com uma
conotação muito negativa se comparada a nuance japonesa, e ao considerar as intenções
do próprio protagonista para a criação de seu país. Usar uma conotação negativa assim
não ajudaria em nada.
Trevas no sentido de trevas que usamos aqui seria mais algo como Kuroou 黒王, ou To-
koyamiou 常闇王, Yamiou 闇王, Kurayamiou 暗闇王.
Aliás, Rei Necromante também serviria, já que um necromante domina a magia negra, os
mortos e etc. Mas seria mudar demais as coisas.
Capítulo 2 – final da parte 4. A imagem mostra o Ainz sem máscara, já a tradução do
Nigel diz que ele tem máscara e no anime também. Então provavelmente foi uma deci-
são artística.
Todos os anos, a guerra anual entre o Reino e o Império parece estar che-
gando ao fim.

No entanto, o governante do Império, Jircniv, também conhecido como o


“Imperador Sangrento”, visita a Grande Tumba de Nazarick e seus aliados
com Ainz Ooal Gown, que o arrasta entre o conflito das duas nações, trans-
formando-o em uma guerra total.

ISBN 978-4047304734