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TRABALHO DE HISTÓRIA DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA III

FLF0443
PROFESSOR: Pedro Paulo Pimenta

ALUNO: Vitor Ramirez Lopes Cardoso


Nº USP: 8543380
INSTITUIÇÃO DE ORIGEM: ECA/CMU
CURSO: Música com habilitação em Composição
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No primeiro capítulo de A partilha do sensível de Jacques Rancière o autor demonstra que o modo
como os indivíduos acessam o sensível comum (espaços, tempos e tipos de atividades empregados
pela comunidade) implica na organização do regime político. Se, segundo o autor, o sistema de
formas que determina a priori o que se dá a sentir é a estética, a arte tem um papel crucial nessa
relação entre a partilha do sensível comum e a subjetivação do político; nesse sentido, por exemplo,
pode-se entender a relação entre o fim da lógica representativa nas artes na passagem do século XIX
para o XX e o respectivo surgimento das vanguardas políticas.
Rancière aponta que o sentido de um recorte estético do sensível determinado pela identidade do
sujeito é algo presente desde Platão; afinal, segundo o filósofo grego, aquilo que se sente se sente
por causa da atividade exercida na comunidade. Platão afirma que é pela ocupação na comunidade,
pelo tempo e espaço em que essa atividade se exerce, que os indivíduos determinam sua
competência ou incompetência para o comum. Veja-se por exemplo o caso do escravo que devido
ao seu envolvimento com seu trabalho, o que lhe custa todo o tempo do dia, não pode participar das
coisas comuns e por isso não é cidadão. Se pensamos esse acesso ao comum do ponto de vista da
linguagem, isso implica que não basta apenas saber falá-la: também é necessário ter propriedade
para dizê-la.
Se, portanto, a identidade é uma distribuição de lugares já determinados pelas ocupações, a arte tem
aí um potencial metabólico significativo; afinal é a dupla atividade do artista (pois ele representa
papéis sociais externos ao mesmo tempo em que age dentro de uma forma de arte) que o torna a
figura capaz de embaralhar essa situação ao interferir na distribuição das maneiras de fazer e na
identidade dos habitantes da pólis. Rancière nos dá como exemplo desse embaralhamento das
identidades (embaralhamento que interfere na maneira como o indivíduo acessa esteticamente o
comum) o entendimento de Platão sobre o teatro e a escrita, duas grandes formas de existência e de
efetividade sensível da palavra que virão a estruturar o regime das artes em geral. Conforme Platão,
o teatro interfere nessa partilha do sensível por ser uma atividade pública e também um lugar de
exibição dos “fantasmas”, ou seja, de embaralhamento das identidades, atividades e espaços da
pólis grega. Já a escrita interfere – e de maneira ainda mais nociva para qualquer fundamento
legítimo de ordem – através de sua livre circulação, sendo por isso descompromissada para com os
efeitos da palavra e as posições ocupadas pelos corpos no espaço comum. A essas duas formas de
arte centradas na palavra, Platão opõe uma terceira centrada no corpo, a forma coreográfica, na qual
a comunidade dança e canta sua unidade. Constitui-se assim uma tríade que define figuras de
comunidade nas quais as identidades são indeterminadas (teatro), as posições de palavra
desligitimadas e a partilha do espaço e do tempo desregulada (escrita). Distinguido quais são as
implicações estéticas que essas formas de arte tem no modo como os indivíduos acessam o sensível
comum, Rancière aponta para uma correspondência, na Grécia Antiga, entre o teatro, dança e escrita
e o regime político da democracia; correspondência que, na organização do regime, é atestada pelas
suas leis intangíveis (letra sem corpo), pela sua instituição teatral e pelas suas assembleias.
É nesse pensamento de Platão sobre a política e a estética grega que se funda o argumento central
de Rancière: demonstrando a correspondência entre a apreensão estética das formas de arte e o
regime de organização política da comunidade grega, Ranciére elucida que os papéis sociais, as
identidades e suas formas de relação são consequência de como o comum é partilhado por aqueles
que nele tomam parte. A política é, em primeiro lugar, uma consequência do olhar estético para o
sensível comum.
Assim, claro é a influência das formas de arte sobre na apreensão estética do comum, afinal, será a
maneira como as relações internas da obra se constituem e depois se concretizam em uma forma, e
não necessariamente o conteúdo daquilo que ela representa, que repercute nesta partilha do
sensível. Rancière exemplifica isso com o romance Madame Bovary, o qual, apesar da postura
aristocrática de seu autor, é uma literatura democrata porque opta “por pintar em vez de instruir”,
conferindo uma relação de igualdade a todos os seus temas (há aqui um curioso jogo de palavras de
Rancière que reforça essa relação entre o estético e o político, partindo-se da frase original
[l’egalité de tous les sujets] no lugar de “temas” se pode ler “sujeitos”, o que aponta não só para a
forma da obra, mas também para os modos de subjetivação que essa literatura proporciona).
Se, tal como o autor afirma, “uma politicidade sensível é assim, de saída, atribuída às grandes
formas de partilha estética” então há que se ressaltar a maneira pela qual a arte circula nos espaços
comuns, ou seja, como a lógica da forma da arte é influenciada pelo seu suporte. Segundo Rancière,
há, por exemplo, uma relação entre a planaridade da folha e a escrita e entre a tapeçaria e a pintura
que não é só de suporte para a circulação de uma forma na comunidade, mas de maneiras de fazer
que implicam em um recorte daquilo que a sensibilidade pode acessar. Logo, se está inscrito no
meio técnico de reprodução da obra de arte uma partilha do sensível, é porque essa se dá em vários
níveis para além da forma da obra de arte. Rancière denomina esses níveis de partilha do sensível de
“superfície”, níveis cuja articulação estabelecem interfaces capazes de alterar radicalmente seu
conteúdo interno. É nesse sentido que Rancière chama a atenção para o movimento das Arts and
Crafts (Bauhaus, Arte Construtivista, Art Déco) e para a tipografia pois ao criarem uma interrelação
entre arte pura e arte aplicada embaralham as regras de correspondência entre o dizível e o visível
próprias à lógica representativa. Tal argumentação demonstra que a revolução estética no paradigma
artístico na virada do século XIX para o XX não ocorre apenas por acumulações de mudanças na
forma da arte, mas também pela interface criada entre seu suporte e sua forma1.
Uma outra consequência dessa mudança de paradigma (mas que está intimamente ligada ao modo
de acesso da obra de arte) na passagem do final século XIX para o início do XX é que o novo
registro da experiência estética possibilita um recorte diverso da política. Rancière mostra essa
implicação do estético no político quando escreve que a revogação da lógica representativa teve
uma dupla consequência política: primeiro porque a lógica representativa “separava o mundo das
imitações da arte do mundo dos interesses vitais” e segundo porque “era análoga à ordem político-
social” anterior.
Enfim, cabe ressaltar uma simetria virtual na argumentação de Rancière pois, ao se valer de uma
partilha do sensível defendida por Platão sob um viés teocrático, o autor francês demonstra a
existência de uma outra partilha radicalmente igualitária, a qual parte da recriação as formas de arte
depois do fim da lógica representativa para abrir um outro acesso ao sensível comum; notavelmente
este acesso possibilita, dependendo de sua recepção estética, uma politicidade libertadora.

P.S.: Não coloquei essa questão (quase uma suspeita) no corpo do trabalho porque este se tratava
especificamente de uma resenha crítica do texto, todavia suspeito que a dúvida dialoga com o
conteúdo ministrado em classe e gostaria de colocá-la aqui no trabalho, ao que ficaria grato caso
houvesse uma resposta. Considerando-se que no livro 3 do Histoire de la Sexualité de Michel
Foucault os dogmas cristãos impostos sobre a sexualidade abrem um novo registro da experiência,
não será o caso de que a lógica representativa à qual alude Rancière no texto que resenhamos neste
trabalho também abriu um regime da experiência que não necessariamente precisa ser quebrado
para fim de que a liberdade se efetue política, mas sim compreendido?

1 Curiosamente será na escrita, forma de arte detratada por Platão, que a reconfiguração “formal” da arte se dará e se
principia a re-partição política da experiência comum.