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UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO

GRANDE DO SUL

JOSIANE ADRIELI MATTER

A INTERDISCIPLINARIDADE NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

Santa Rosa
2012
1

JOSIANE ADRIELI MATTER

A INTERDISCIPLINARIDADE NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

Monografia apresentada para obtenção do


titulo de graduada em Pedagogia na
Universidade Regional Noroeste do Rio
Grande do Sul.

Orientadora: Cláudia Maria Seger Cunegatti

Santa Rosa
2012
2

JOSIANE ADRIELI MATTER

A INTERDISCIPLINARIDADE NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL

Monografia apresentada para obtenção do titulo de graduada em Pedagogia na


Universidade Regional Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul

Banca Examinadora:

................................................................................................
Profa. Ms. Cláudia Seger Cunegatti - UNIJUÍ

................................................................................................
Profa. Dra. Hedi Maria Luft - UNIJUÍ
.

Conceito: ................................................................................

Santa Rosa, ...... de ........................ de ...............


3

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho a todos que


torceram por mim nesta caminhada e que
continuam torcendo. Com carinho a Deus
que me deu força e confiança, aos meus
familiares que me compreenderam e me
apoiaram nos momentos mais difíceis, às
minhas colegas de curso, que
compartilharam ideias, alegrias e
angústias e aos meus professores, pela
paciência e ensinamentos ao longo do
Curso.
4

Por atitude interdisciplinar entendo algo


que não pode ser apenas explicado,
porém vivido, que não pode ser apenas
analisado, porém sentido, que não pode
ser apenas refletido, porém intuído.
Ivani Fazenda
5

RESUMO

Este trabalho apresenta uma pesquisa de levantamento bibliográfico para


embasar as reflexões, e uma pesquisa de campo numa Escola Estadual do
município de Santa Rosa, com o objetivo de investigar a compreensão dos
educadores em relação à interdisciplinaridade, bem como resultados de uma prática
pedagógica interdisciplinar nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Entretanto é
preciso compreender que a interdisciplinaridade é a integração entre os diferentes
componentes curriculares e a sua prática no dia-a-dia da escola contribui para que
os educandos aprendam de forma significativa. Propõem-se desta maneira uma
análise crítica em relação à prática interdisciplinar, suas implicações e mudanças na
área da educação. Finaliza-se ressaltando os resultados obtidos com a pesquisa
realizada, através da qual se verificou a necessidade de se ter uma prática
interdisciplinar para que de fato ocorra o processo de ensino e aprendizagem.

Palavras-chave: Interdisciplinaridade – anos iniciais do ensino fundamental – prática


pedagógica – integração – componentes curriculares
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ABSTRACT

This academic work presents a bibliographical research to base the


reflections, and a field research at a State School in Santa Rosa town, in order to
investigate the comprehension of educators regarding the interdisciplinarity, as well
as the results of an interdisciplinary pedagogical practice in the first grades of
Primary School. However, it is necessary to understand that interdisciplinarity refers
to integrating the different school subjects and this practice in the school routine may
help the students learn in a significant way. Therefore, a review towards the
interdisciplinary practice, its implications and changes in the education is suggested.
Finally, the results achieved during the research are also emphasized, through which
it was possible to realize the necessity of having an interdisciplinary practice, so that
the teaching-learning process will really take place.

Key words: Interdisciplinarity – First grades of Primary School – Pedagogical Practice


– Integrating – School Subjects
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO.............................................................................................................8

1 COMO ENTENDER A INTERDISCIPLINARIDADE...............................................10

2 A PRÁTICA PEDAGÓGICA INTERDISCIPLINAR COMO APRENDIZAGEM


SIGNIFICATIVA.........................................................................................................14

3 AS DIFERENTES ÁREAS DO SABER (COMPONENTES CURRICULARES): A


INTEGRAÇÃO QUE MOVE A INTERDISCIPLINARIDADE.....................................20

CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................27

REFERÊNCIAS..........................................................................................................29
8

INTRODUÇÃO

A interdisciplinaridade comprometida com uma aprendizagem significativa não


tende eliminar os componentes curriculares, mas sim uni-los para que juntos
integrem um significado para a vida dos educandos e educadores. É neste sentido
que a necessidade da interdisciplinaridade na construção e socialização do
conhecimento vem sendo discutida por vários autores, como Ivani Fazenda, Hilton
Japiassu e Vítor Trindade. Estes autores buscam responder a necessidade de
superação da visão fragmentada nos processos de construção do conhecimento,
além de recuperar a integração dos saberes.
Ao considerar a interdisciplinaridade como prática fundamental para um
ensino integrador e de qualidade, é necessário que o educador se mostre
comprometido com a sua prática pedagógica, tendo como base a pesquisa, pois é
através da mesma que o educador inova e cria condições para que seus educandos
se tornem críticos e criativos.
A partir disso, realizou-se este estudo que tem como objetivo entender a
interdisciplinaridade, suas implicações e mudanças no contexto educacional. Para
tanto, foi realizada uma pesquisa bibliográfica e de campo em uma Escola Estadual
do município de Santa Rosa, abrangendo um total de 4 educadoras e 13 educandos.
Os instrumentos utilizados para a pesquisa foram observações e intervenções no 3º
ano do Ensino Fundamental e entrevista com educadoras do 1º ao 5º ano do Ensino
Fundamental.
Este trabalho apresenta-se em três capítulos. No primeiro capítulo, faz-se
uma abordagem sobre o conceito da interdisciplinaridade, compreendendo que a
mesma acontece na prática somente se houver atitude e ousadia por parte do
educador para mudar, inovar. Além disso, são realizadas análises de falas de
educadoras em relação ao seu entendimento sobre a interdisciplinaridade, bem
como sua prática pedagógica.
O segundo capítulo tem por objetivo analisar a prática pedagógica
interdisciplinar como significativa no processo de ensino e aprendizagem. Desta
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forma, destaca pontos fundamentais em relação ao entendimento e significância de


prática pedagógica, bem como se dá a construção do conhecimento por parte do
educando numa perspectiva interdisciplinar. Além disso, compreende-se que antes
de se realizar uma prática pedagógica interdisciplinar, é fundamental que haja um
planejamento coletivo na escola, pois entende-se que um educador amplia e inova
seus pensamentos, escolhas e consequentemente seus planos de trabalho, quando
interage com outros educandos.
Para finalizar, o terceiro capítulo aposta na integração dos componentes
curriculares, como forma de mover a interdisciplinaridade. Através de estudos nos
PCNs dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, compreende-se como a História, a
Geografia, a Matemática, as Ciências, a Língua Portuguesa, a Arte e a Educação
Física enxergam a interdisciplinaridade e como juntos tornam seus saberes
significativos para a aprendizagem do educando. É deste modo, que a integração
dos componentes curriculares visa à mudança educacional, tão necessária para que
de fato ocorra uma relação de ensino e aprendizagem entre educadores e
educandos.
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1 COMO ENTENDER A INTERDISCIPLINARIDADE

A interdisciplinaridade é um tema que está em constante discussão nas


escolas. Muitas dúvidas e inseguranças em relação ao tema se fazem presentes na
prática pedagógica dos educadores. Como proceder um ensino interdisciplinar? E os
componentes curriculares, como ficam? Serão extintos? Será que os educandos irão
aprender? Questionamentos como estes são feitos todos os dias pelos educadores
em sala de aula. Mas afinal, como podemos compreender a interdisciplinaridade e
tê-la como base na prática pedagógica?
A interdisciplinaridade precisa ser vista como atitude de ousadia e busca
frente ao conhecimento. A mesma não trabalha de forma fragmentada, mas sim de
forma integrada e comunicativa com todas as áreas do conhecimento. Para que
ocorra a interdisciplinaridade, não necessitamos eliminar os componentes
curriculares, mas torná-los comunicativos entre si, concebê-los como processos
históricos e culturais, visando o processo de ensino e aprendizagem. Segundo os
PCNs do Ensino Fundamental (1997, p.31)

A interdisciplinaridade questiona a segmentação entre os diferentes campos


de conhecimento produzida por uma abordagem que não leva em conta a
inter-relação e a influência entre eles questiona a visão compartimentada
(disciplinar) da realidade sobre a qual a escola, tal como é conhecida,
historicamente se constituiu. Refere-se, portanto, a uma relação entre
disciplinas.

Quando falamos na integração dos componentes curriculares, precisamos


pensar como e onde essa integração será feita. O trabalho interdisciplinar será
organizado no currículo. O currículo escolar precisa contemplar conteúdos e
estratégias de aprendizagem que capacitem o educando para a vida em sociedade,
ou seja, que suas experiências sejam significativas e produtivas, visando à
integração. A temática da interdisciplinaridade é compreendida como uma forma de
trabalhar em sala de aula, no qual se propõe um tema com abordagens em
diferentes componentes curriculares. É construir algo inovador, que vise a ampliação
11

de sabedorias bem como a incorporação de novas sabedorias, ultrapassando o


pensar fragmentado. Trindade (2008, p. 73) ao escrever sobre interdisciplinaridade
afirma que:

Mais importante do que defini-la, porque o próprio ato de definir estabelece


barreiras, é refletir sobre as atitudes que se constituem como
interdisciplinares: atitude de humildade diante dos limites do saber próprio
saber, sem deixar que ela se torne um limite; a atitude de espera diante do já
estabelecido para que a dúvida apareça e o novo germine; a atitude de
deslumbramento ante a possibilidade de superar outros desafios; a atitude de
respeito ao olhar o velho como novo, ao olhar o outro e reconhecê-lo,
reconhecendo-se; a atitude de cooperação que conduz às parcerias, às
trocas, aos encontros, mais das pessoas que das disciplinas, que propiciam
as transformações, razão de ser da interdisciplinaridade. Mais que um fazer,
é paixão por aprender, compartilhar e ir além.

A prática pedagógica da interdisciplinaridade não visa a eliminação dos


componentes curriculares, pois o conhecimento é um fenômeno com várias
dimensões inacabadas, necessitando ser compreendido de forma ampla. O
imprescindível é que se criem práticas de ensino, visando o estabelecimento de
relações entre os componentes curriculares e que se aliem aos problemas da
sociedade. Isso ocorrerá na escola por intermédio de uma construção lenta e
gradual. Além disso, estabelece o papel de processo contínuo e interminável na
formação do conhecimento, permitindo o diálogo entre conhecimentos dispersos,
entendendo-os de uma forma mais abrangente. O enfoque interdisciplinar constitui a
necessidade de superar a visão mecânica e,

[...] reconstituir a unidade do objeto, que a fragmentação dos métodos


separou. Entretanto, essa unidade não é dada a "priori". Não é suficiente
justapor-se os dados parciais fornecidos pela experiência comum para
recuperar-se a unidade primeira. Essa unidade é conquistada pela "práxis",
através de uma reflexão crítica sobre a experiência inicial. É uma retomada
em termos de síntese. (FAZENDA, 1992, p. 45).

Quando se fala e se faz interdisciplinaridade, é necessário ter consciência de


que o sujeito é plenamente ativo, é protagonista. A interdisciplinaridade é o
movimento (inter) entre os componentes curriculares, sem a qual a disciplinaridade
se torna vazia, é um ato de reciprocidade, troca e integração. A mesma leva o
educando a ser protagonista da própria história, personalizando-o e humanizando-o,
numa relação de interdependência com a sociedade, dando-lhe, a capacidade de
ser crítico e responsável para a sua libertação e transformação da realidade.
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Analisaremos a seguir algumas falas de educadoras que trabalham com os anos


iniciais do ensino fundamental. O objetivo desta análise é compreender qual o
entendimento das mesmas em relação ao conceito do tema interdisciplinaridade.
A educadora do 1º ano do ensino fundamental ao ser questionada sobre o
que é interdisciplinaridade, responde da seguinte forma:

Interdisciplinaridade é desenvolver o conhecimento pedagógico (os


conteúdos) envolvendo, englobando quase todas as áreas do conhecimento,
somente as áreas possíveis, pois a matemática é muito complicada para
integrar com as demais áreas e as outras já são um pouco mais fáceis.

Na fala da educadora, podemos perceber que a mesma não compreende de


forma clara o que significa de fato a interdisciplinaridade, pois afirma que somente
alguns componentes são integrados e outros como a matemática não fazem parte
de um planejamento interdisciplinar. Na verdade, a interdisciplinaridade integra todas
as áreas do conhecimento, inclusive a matemática. É através desta fala que
compreendemos como a educadora possui dificuldades em entender o tema e
consequentemente em realizar uma prática interdisciplinar. Já a educadora do 2º
ano do ensino fundamental afirma que: “A interdisciplinaridade é relacionar os
conteúdos e os envolver para englobar e aprender com maior abrangência, pois num
planejamento precisamos integrar as disciplinas para que os alunos aprendam mais
e melhor.” Compreende-se na fala da educadora um entendimento maior sobre a
interdisciplinaridade, pois a mesma diz que é preciso integrar as disciplinas, ou seja,
uni-las para que os educandos aprendam de forma significativa. Desta forma,
entende-se que o diálogo pedagógico entre as duas educadoras não é frequente e
que a escola não realiza de forma significativa um planejamento entre os docentes,
pois para a primeira educadora, a interdisciplinaridade se torna de certa forma
complicada de ser colocada em prática, mas para a segunda educadora, a
interdisciplinaridade é possível e contribui para um melhor aprendizado.
A análise em relação à interdisciplinaridade toma sequência com a fala da
educadora do 4º ano do ensino fundamental que afirma:

A interdisciplinaridade é uma prática integradora que envolve todas as áreas


do conhecimento, onde os educandos estabelecem relações entre os
conteúdos e os conhecimentos que já possuem, conseguindo aprendizagens
mais significativas. Penso que somente através da interdisciplinaridade é que
meus educandos conseguem aprender mais, pois não fragmento o
conhecimento, mas procuro integrá-lo para que os conteúdos que são
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trabalhados tenham algum sentido e que eles possam usá-los no seu dia-a-
dia. Não adianta ensinar coisas absurdas que não interessam os educandos,
pois não vão utilizar para nada, tento ensiná-los a pensar, a construir o
conhecimento que poderão utilizar em suas vidas.

Nesta fala, a educadora reflete sobre a necessidade do educador entender e


respeitar seus educandos, principalmente em relação aos conhecimentos com os
quais o educando chega na escola. Além disso, compreende-se que a mesma
realiza uma prática interdisciplinar, que acredita na educação, na mudança que a
interdisciplinaridade comporta e que valoriza seu trabalho como educadora,
tornando sua prática pedagógica inovadora e significativa para seus educandos.
Para finalizar a análise das falas das educadoras, refletir-se-á a afirmação da
educadora do 5º ano do ensino fundamental:

Eu penso que a interdisciplinaridade é unir as disciplinas, porém é


algo muito difícil de se fazer, já que no 5º ano os conteúdos das disciplinas se
tornam mais difíceis do que nos anos anteriores. Às vezes realizo atividades
interdisciplinares, mas só quando o conteúdo não é muito complicado, porque
senão irei confundir a cabeça dos meus alunos, e além disso, nosso tempo
para planejar é muito pouco e sei que se fizermos um planejamento
interdisciplinar, precisamos de tempo.

Na fala da educadora do 5º ano, pode-se compreender que a mesma


encontra dificuldades em realizar uma prática interdisciplinar, além de não ter o
tempo suficiente para o planejamento. A questão sobre o tempo disponível para o
planejamento é uma situação complexa, pois não envolve somente a Instituição de
ensino isoladamente, mas a rede toda. Sabe-se que a classe dos educadores
precisa de mais atenção e melhores condições de trabalho e tempo para planejar,
mas não podemos de forma alguma prejudicar o aprendizado dos educandos,
tornando-os sujeitos sem interesse, sem motivação e principalmente sem
conhecimento, devido às condições de trabalho dos educadores, pois se
escolhemos tal profissão, precisamos lutar por melhorias e mudanças começando
pelo tempo disponível para o planejamento coletivo que acabará refletindo de modo
positivo na prática pedagógica da escola. A partir disso, percebe-se que é tarefa do
educador acompanhar as mudanças educacionais, deixando de lado o ensino
mecânico e transmissor de meras informações. A interdisciplinaridade aproxima o
sujeito da realidade em que vive, auxilia na construção do conhecimento,
possibilitando uma formação mais crítica, criativa e responsável.
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2 A PRÁTICA PEDAGÓGICA INTERDISCIPLINAR COMO APRENDIZAGEM


SIGNIFICATIVA

O Ensino Fundamental faz parte da Educação Básica, juntamente com a


Educação Infantil e o Ensino Médio, prevista na Lei de Diretrizes e Bases 9394/96.
Ao frequentar os anos iniciais do ensino fundamental, é necessário que o educando
alcance alguns objetivos essenciais para a formação de seu entendimento como ser
integrante na sociedade em que vive. Alguns objetivos como posicionar-se de
maneira crítica, utilizando o diálogo como forma de mediar conflitos e tomar
decisões, perceber-se integrante e agente transformador do ambiente, conhecer e
cuidar do próprio corpo, valorizando e adotando hábitos saudáveis, utilizar diferentes
linguagens (verbal, matemática, gráfica, plástica e corporal), questionar a realidade e
resolver os possíveis problemas do cotidiano, só acontecem de forma significativa ao
educando se adotada uma prática interdisciplinar por parte do educador.
Soma-se a isto, a necessidade que vemos a cada dia de aprimorar nosso
modelo educativo, para que os objetivos da escola sejam de fato exercidos. Uma
medida que comprova tal afirmação foi a aprovação do ensino fundamental de nove
anos. O ingresso neste contexto escolar requer diálogo entre a educação infantil
(primeira etapa de educação básica) e o ensino fundamental, requer também diálogo
institucional e pedagógico dentro da escola, com objetivos e alternativas claras.
Havendo engajamento por parte dos profissionais da educação para planejar este
atendimento no ensino fundamental, no qual se valoriza as singularidades, o direito
à brincadeira, à produção cultural. Poderemos obter sucesso neste novo modelo
educativo, mas é primordial que entendamos e que venhamos trabalhar com estes
educandos tratando-os como crianças capazes de construir e ampliar seus
conhecimentos.
Certamente a ampliação do ensino fundamental para nove anos significa uma
possibilidade de qualificação da alfabetização e do letramento, pois entende-se que
a criança terá mais tempo para se apropriar desses aspectos, mas de forma alguma
o ensino nesses primeiros anos deverá se resumir a essas aprendizagens, ou seja,
além da alfabetização e do letramento, há que se pensar numa metodologia que
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envolva o brincar, o lúdico, que consequentemente auxiliarão na aprendizagem.


Deste modo, ainda há muito o que fazer para aprimorar esta área. É necessário que
haja conscientização por parte dos educadores e da escola, pois o sucesso ocorre
nas escolas em que a leitura e a escrita são instrumentos reais. Para que isso
aconteça, algumas mudanças na prática pedagógica se fazem necessárias, ou seja,
é fundamental que o educador deixe de lado as práticas tradicionais, nas quais os
alunos são meros espectadores de informações e não constroem aprendizagens,
visando e incorporando uma prática interdisciplinar.
Partindo da ideia de que os anos iniciais do ensino fundamental são
essenciais na formação integral dos educandos, precisamos nos focar e
compreender melhor o que é e como se dá uma prática pedagógica interdisciplinar.
Mas antes de falarmos sobre uma prática pedagógica interdisciplinar, é fundamental
compreender o que é uma prática pedagógica. A prática pedagógica nada mais é do
que a prática profissional do educador antes (envolvendo a pesquisa, a seleção de
atividades e textos, resultando no planejamento), durante (ação, ou seja, a prática
em sala de aula) e depois da sua ação em sala de aula com os educandos (reflexão
sobre a prática). Do mesmo modo, ela revela as competências, as adaptações e os
desafios enfrentados pelo educador no contexto do ensino e da aprendizagem.
Oliveira (2008, p. 55) afirma que a prática pedagógica é:

 É uma atividade profissional situada, orientada por fins e pelas normas de


um grupo profissional;
 engloba ao mesmo tempo as atividades com os alunos, mas também o
trabalho coletivo e individual fora da classe;
 é multidimensional;
 não se limita às ações perceptíveis, mas comporta também as escolhas,
as tomadas de decisões e os significados dados pelo professor a suas
próprias ações;
 é a atividade profissional do professor antes, durante e depois da sua
ação em classe.

Quando o educador consegue compreender o que é uma prática pedagógica


interdisciplinar, consegue trabalhar de forma dinâmica e competente, livrando-se do
caráter disciplinar que tanto fragmenta o ensino. A propósito, o caráter disciplinar do
ensino formal, dificulta a aprendizagem do educando e acaba por não estimular o
desenvolvimento da inteligência, de resolver problemas e estabelecer conexões
entre os fatos, isto é, de pensar sobre o que está sendo estudado.
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Ao falarmos no caráter disciplinar, nas dificuldades encontradas pelos


educandos na aprendizagem, remetemo-nos na busca de um método que vise o
aprendizado de forma significativa. O método interdisciplinar surge do diálogo, do
questionamento, da pesquisa. Não existe receita pronta para a aplicação da
interdisciplinaridade, é incorporado pelos docentes através de atitudes, busca
permanente por novos caminhos. O educador também precisa estar consciente de
que não é dono do saber, mas que também está em constante ato de aprendizagem
diante disso, Freire (2011, p.25) nos diz: “quem ensina aprende ao ensinar quem
aprende ensina ao aprender”.
Nesta relação de ensinar e aprender, compreende-se que o conhecimento é
construído individual e coletivamente a partir de um processo em que o sujeito
interage com a realidade (outras pessoas, ambiente sociocultural, ambiente físico,
etc.). A partir da construção dos conceitos, essência da tarefa educativa, o sujeito
passa a ser capaz de expressar sua realidade e materializar seu pensamento
através das diversas linguagens (verbal, corporal e estética).
Além disso, o conhecimento gera conhecimento. O conhecimento com o qual
o educando chega à sala de aula é uma base sólida para a produção e o
desenvolvimento do saber. É preciso levá-lo em conta e saber utilizá-lo dentro do
processo pedagógico. No mundo em que vivemos, o volume de conhecimentos
multiplica-se a cada segundo, a escola deixou de ser a detentora e transmissora do
conhecimento produzido e passou a ensinar a aprender a aprender, conferindo
também ao educando um papel dinâmico na busca do conhecimento.
Na pesquisa realizada, observou-se o quão necessário é respeitar e
compreender o conhecimento no qual já faz parte da vida do educando. Suas ideias
são compartilhadas com os demais sujeitos, favorecendo a interação entre os
mesmos e consequentemente a construção de novos conhecimentos. Assim,
percebe-se que na realização de uma prática pedagógica interdisciplinar, os
educandos libertam-se, expõem seus conhecimentos, dúvidas, medos e emoções e
tudo isto de forma individual e coletiva.
Quando o educando dialoga com os demais sujeitos, expondo ideias e
dúvidas, só as consegue realizar através da palavra. A palavra só é possível pela
uso da linguagem. A linguagem não é apenas um instrumento, mas um laço que nos
une ao mundo. “A palavra capta, conhece, interfere e transcende a consciência do
homem em sua busca de mundo.” (FAZENDA, 1994, p.54). A palavra e o diálogo
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possuem uma força criadora quando procuram interpretar, explicar, compreender e


transformar o mundo em sua volta. É nesse sentido que a interdisciplinaridade
trabalha e só é verdadeira quando praticada no dia-a-dia escolar visando a união
dos conhecimentos para a construção de outros novos conhecimentos.
Dentro do processo de busca do conhecimento, o processo de aprendizagem
interdisciplinar se torna socializador, e precisa ser visto como fruto de um trabalho
coletivo no qual o educando irá interagir com o meio ambiente, as pessoas e suas
ferramentas de trabalho. A partir disso, pesquisas, exposições, coletas,
classificações e debates substituem as aulas expositivas. Quando o educando
interage de forma significativa no mundo em que vive, desperta em si a curiosidade,
o prazer na busca de novos saberes, fazendo com que o aprendizado se torne mais
fácil e natural.
Para que consigamos despertar o interesse de nossos educandos em relação
ao aprendizado, temos o compromisso de repensar todos os dias a nossa prática
educativa. É preciso compreender que a educação se dá ao longo de toda a vida,
baseando-se em quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a
viver juntos, aprender a ser. Segundo Delors (2000, p. 101):

 Aprender a conhecer, combinando uma cultura geral, suficientemente


vasta, com a possibilidade de trabalhar em profundidade um pequeno número
de matérias. O que também significa: aprender a aprender, para beneficiar-se
das oportunidades oferecidas pela educação ao longo de toda a vida.
 Aprender a fazer, a fim de adquirir, não somente uma qualificação
profissional mas, de uma maneira mais ampla, competências que tornem a
pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. Mas
também aprender a fazer, no âmbito das diversas experiências sociais ou de
trabalho que se oferecem aos jovens e adolescentes, quer espontaneamente,
fruto do contexto local ou nacional, quer formalmente, graças ao
desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho.
 Aprender a viver juntos desenvolvendo a compreensão do outro e a
percepção das interdependências – realizar projetos comuns e preparar-se
para gerir conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da compreenão
mútua e da paz.
 Aprender a ser, para melhor desenvolver a sua personalidade e estar à
altura de agir com cada vez maior capacidade de autonomia, de
discernimento e de responsabilidade pessoal. Para isso, não negligenciar na
educação nenhuma das potencialidades de cada indivíduo: memória,
raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se.

Quando há compreensão sobre a educação, o ensino, a aprendizagem, a


construção do conhecimento, compreendemos também a necessidade de
trabalharmos com a formação ética dos nossos alunos. Além disso, é preciso que se
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criem condições para que todos os educandos desenvolvam suas capacidades e


aprendam e construam os conhecimentos necessários para a compreensão da
realidade e de participação em relações sociais e culturais, condições estas
fundamentais para o exercício da cidadania na construção de uma sociedade
democrática e não excludente. A prática interdisciplinar que não tem por objetivo
eliminar as disciplinas, mas sim integrá-las, trabalha nessa perspectiva de oferecer
ao educando condições de vivenciar a prática escolar de forma significativa e
consequentemente construindo conhecimentos.
Quando falamos em prática escolar, falamos no lugar onde a mesma acontece:
a escola. A função da escola distingue-se de outras práticas educativas, como as
que acontecem na família, no trabalho e nas demais formas de convívio social, por
constituir em uma ajuda sistemática, planejada e continuada para crianças e jovens
durante um período contínuo e extensivo de tempo. A função da escola em
proporcionar um conjunto de práticas pré-estabelecidas tem o propósito de contribuir
para que os alunos se apropriem de conteúdos sociais e culturais de maneira crítica
e construtiva. Além disso, é fundamental que a escola tenha uma atitude
interdisciplinar, pois como afirma Fazenda (2001, p. 49) “Por atitude interdisciplinar
entendo algo que não pode ser apenas explicado, porém vivido, que não pode ser
apenas analisado, porém sentido, que não pode ser apenas refletido, porém intuído.”
A partir disso, compreende-se que a realização de uma prática interdisciplinar
só é possível quando há um planejamento coletivo na escola. A propósito, aprender
a trabalhar em conjunto com outras pessoas não é nada fácil. É preciso paciência,
bom senso e cooperação entre os sujeitos. O trabalho coletivo é uma condição
necessária para a formação do cidadão em uma sociedade democrática. Na escola,
o trabalho coletivo constitui preocupação mais recente e, nem sempre, encontra
aceitação por parte dos diretores ou mesmo dos educadores que, por força do
hábito de trabalhar isoladamente, veem nisso uma perda de tempo. Tal afirmação
comprova-se na fala da educadora do 1º ano do ensino fundamental: “O
planejamento coletivo acontece quando precisamos trabalhar as datas
comemorativas. Nos demais momentos essa atividade de planejar não acontece
devido a falta de tempo dos professores, séries diferentes, turnos opostos.”
Neste sentido, percebe-se que o educador que planeja de forma isolada,
limita as possibilidades de ter uma avaliação mais ampla em relação ao seu
trabalho. O planejamento docente individual e a fragmentação do ensino em
19

disciplinas só tendem a distanciar a integração entre ambos, ou seja, perde-se


motivação, incentivo e caráter inovador por parte do educador. A
interdisciplinaridade rompe com essa concepção fragmentada do saber, pois além
de integrar as diferentes áreas do saber, integra os educadores para a o
fortalecimento da relação entre os sujeitos. Busca por novas metodologias de
trabalho que valorizem o educando e o estimulem no processo de ensino e
aprendizagem. Além disso, instiga o educador a ser um pesquisador, pois é através
da pesquisa que o educador irá produzir instrumentos de comunicação, de diálogo
com todos os sujeitos a sua volta. Demo (2006, p. 37) define o diálogo da seguinte
forma:

Diálogo é fala contrária, entre atores que se encontram e se defrontam.


Somente pessoas emancipadas podem de verdade dialogar, porque têm com
que contribuir. Somente quem é criativo tem o que propor e contrapor. Um ser
social emancipado nunca entra no diálogo para somente escutar e seguir,
mas para demarcar espaço próprio, a partir do qual compreende o outro e
com ele se compõe ou se defronta.

Desta forma, compreende-se que uma prática pedagógica interdisciplinar só


se torna significativa quando se constrói o senso crítico em sala de aula através da
socialização e interação, fazendo o educando se perceber como ser atuante e capaz
de interagir no seu próprio contexto. Para que isto aconteça, é fundamental que haja
um planejamento coletivo na escola, pois é através do diálogo e interação entre os
educadores que a prática interdisciplinar se torna um meio de aprendizagem. É
neste sentido que pode se dizer que o educador há de ser um instigador de sua
própria prática e isto só é possível quando o mesmo compreende cada área do
saber, numa perspectiva de ampliar seus conhecimentos e se tornar um educador
interdisciplinar, entendendo que a integração entre os componentes curriculares
move a interdisciplinaridade.
20

3 AS DIFERENTES ÁREAS DO SABER (COMPONENTES CURRICULARES): A


INTEGRAÇÃO QUE MOVE A INTERDISCIPLINARIDADE

Apostar na interdisciplinaridade significa defender um novo tipo de


aprendizagem, mais aberta, mais flexível e democrática. O mundo necessita de
pessoas assim, que enfrentem a sociedade lutando por melhorias e mudanças. A
prática interdisciplinar pressupõe uma desconstrução, uma ruptura com o tradicional.
Quando falamos em ruptura com o tradicional, não falamos em eliminar as diferentes
áreas do saber, mas sim uni-las, transformá-las em um saber significativo ao
educando. O educador interdisciplinar vive com o outro, possibilitando a
interdependência, o encontro, o diálogo e as transformações.
Eliminar as barreiras entre os componentes curriculares é um gesto de
ousadia, uma tentativa de romper com um ensino mecânico que apenas transfere
informações, caracterizando o educando como sujeito passivo e mero espectador.
Nesta perspectiva, sabe-se que nos anos iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º
ano) os educandos possuem geralmente um educador que trabalha com a maioria
das áreas do conhecimento. Para que os educandos aprendam de forma
significativa e não fragmentada, cabe ao educador buscar uma metodologia de
trabalho inovadora numa visão interdisciplinar. Nesse sentido, analisaremos cada
um dos componentes curriculares, na tentativa de proporcionar um diálogo entre os
mesmos.
O ensino de História precisa cultivar valores, atitudes e hábitos que libertem o
sujeito do isolamento cultural. É fundamental conhecer e respeitar o modo de vida
de diferentes grupos sociais. Questionar a realidade em que vivemos, identificando
problemas e refletindo sobre possíveis soluções. Além disso, o ensino da história
utiliza métodos de pesquisa para que o educando possa compreender o passado,
identificando as mudanças ocorridas no presente. Ao interagir no cotidiano da sala
de aula, o educando vai aprendendo a participar de forma consciente, tornando-se
cidadão e valorizando seus direitos e deveres. De acordo com os PCNs de História e
Geografia (1997, p. 27):
21

Considera-se, então, que o ensino de História envolve relações e


compromissos com o conhecimento histórico, de caráter científico, com
reflexões que se processam no nível pedagógico e com a construção de uma
identidade social pelo estudante, relacionada às complexidades inerentes à
realidade com que convive.
A interdisciplinaridade também vê a Geografia como essencial na sala de
aula. O ensino da Geografia possibilita ao educando as habilidades de descrever,
observar e localizar, bem como interagir de forma significativa com o mundo ao seu
redor. A Geografia tem como eixo estabelecer relações de amizade, solidariedade,
respeito e diálogo, buscando sua autonomia e integração com o grupo, localizar-se
no tempo e espaço em que vive. Os PCNs de História e Geografia (1997, p. 76)
afirmam que:

O estudo de Geografia possibilita, aos alunos, a compreensão de sua posição


no conjunto das relações da sociedade com a natureza; como e por que suas
ações, individuais ou coletivas, em relação aos valores humanos ou à
natureza, têm conseqüências — tanto para si como para a sociedade.
Permite também que adquiram conhecimentos para compreender as
diferentes relações que são estabelecidas na construção do espaço
geográfico no qual se encontram inseridos, tanto em nível local como
mundial, e perceber a importância de uma atitude de solidariedade e de
comprometimento com o destino das futuras gerações. Além disso, seus
objetos de estudo e métodos possibilitam que compreendam os avanços na
tecnologia, nas ciências e nas artes como resultantes de trabalho e
experiência coletivos da humanidade, de erros e acertos nos âmbitos da
política e da ciência, por vezes permeados de uma visão utilitarista e
imediatista do uso da natureza e dos bens econômicos.

Na pesquisa realizada, observou-se que trabalhar com temáticas atuais em


História e Geografia permite o desenvolvimento de comparações entre realidades
diferentes. Possibilita ao educando questionar e elaborar explicações. É nesse
exercício de pergunta e pesquisa que o educando constrói a capacidade de
argumentar e refletir sobre a realidade. Os sujeitos pesquisados mostraram-se
interessados em realizar pesquisas, levantando hipóteses e compreendendo melhor
a sua história de vida e de seus colegas, bem como da cidade em que vivem.
Outro componente curricular (considerado clássico por décadas) e que visava
somente a memorização, é a Matemática. Para a interdisciplinaridade, ensinar
Matemática é, antes de mais nada, ensinar a “pensar matematicamente.” Antes de
ser aplicada, a Matemática precisa ser compreendida. A forma como ela é
experenciada nos anos iniciais do ensino fundamental, reflete em desânimo e falta
de entendimento por parte de alguns educandos, sujeitos desta pesquisa. Percebe-
se o ensino da matemática de uma forma muito mecânica, baseada na memorização
22

e com pouco significado. Mas como podemos dar significado ao ensino da


matemática? Precisamos relacionar a matemática com experiências anteriores,
vivências pessoais, permitir a formulação de problemas de algum modo desafiadores
e que incentivem o aprender mais.
É necessário eliminar o método tradicional do ensino da matemática e integrá-
la com as outras áreas do saber, envolvendo projetos, jogos e construções coletivas,
ou seja, materializá-la de forma concreta de aprender, mais dotada de sentido,
considerando os educandos como produtores de conhecimento e não apenas
executores de instruções. Os PCNs de Matemática (1997, p.25) nos mostram que:

Para tanto, é importante que a Matemática desempenhe, equilibrada e


indissociavelmente, seu papel na formação de capacidades intelectuais, na
estruturação do pensamento, na agilização do raciocínio dedutivo do aluno,
na sua aplicação a problemas, situações da vida cotidiana e atividades do
mundo do trabalho e no apoio à construção de conhecimentos em outras
áreas curriculares.

Observou-se que os sujeitos pesquisados questionavam porque não recebiam


mais contas “soltas” para resolver em seus cadernos. Aos poucos, foram
compreendendo que as contas “soltas” não visavam uma aprendizagem significativa,
pois não tinham um objetivo específico. Esta compreensão só se deu devido à
integração que a matemática estabeleceu com as outras áreas do saber. Esta
integração possibilitou um melhor entendimento em relação ao fazer matemática
englobando a exposição de ideias próprias, escutando as dos outros, formulando e
comunicando procedimentos de resolução de problemas, pois envolveu-se num
contexto de significados.
Outra linguagem essencial na construção do conhecimento do educando é a
científica. O desejo de descoberta, de curiosidade por parte dos educandos é quase
insaciável. Para que os educandos se apropriem do conhecimento científico e
desenvolvam uma autonomia no pensar e agir, é fundamental conceber a relação de
ensino e aprendizagem como uma relação entre sujeitos que estão envolvidos na
construção de uma compreensão dos fenômenos naturais e na formação de atitudes
e valores humanos. Segundo José (2008, p.90):

Permitir que cada aluno se transforme em um “cientista” significa considera-lo


também como protagonista do processo de ensino e aprendizagem. O
professor já não possui mais o papel de detentor de todas as possibilidades e
nuances do saber. O conhecimento não é julgado estático, mas em constante
23

transformação. As aulas consideram o avanço científico provocado pela


diversidade de pesquisas que diariamente alcançam novos resultados,
sobretudo pelo vasto aparato tecnológico destinado para este fim, disponíveis
em grande parte do planeta.
Essa maneira de enxergar o trabalho com a área de ciências permite a
compreensão e o estabelecimento de uma nova forma de olhar o
conhecimento, o ensino e a aprendizagem.

É neste sentido que o ensino das Ciências promove alguns procedimentos


que permitem a aprendizagem: a investigação, a comunicação e o debate de fatos e
ideias, a observação, a experimentação e o registro das aprendizagens por meio de
desenhos, tabelas, gráficos e histórias. Além disso, considera-se relevante muitos
aspectos da vida social, como a cultura e as relações entre homem e natureza. Por
intermédio de discussões e investigações, o educando sente-se incentivado na
busca por novos conhecimentos. Desenvolve atitudes de curiosidade, de
preservação do ambiente e respeito à individualidade e à coletividade.
Tal afirmação comprova-se na pesquisa realizada, na qual observou-se a
curiosidade presente nos sujeitos pesquisados. Os mesmos trabalharam de forma
investigativa, levantando hipóteses e criando soluções para possíveis problemas que
foram encontrados na sociedade em que vivem. Além disso, precisamos considerar
que a organização do espaço da sala de aula é fundamental. Um trabalho em sala
de aula que estimule a curiosidade só é possível se a mesma oferecer de forma
visível os materiais necessários e os sujeitos expostos de maneira a observar e
interagir com os demais sujeitos.
Analisaremos, a seguir, o componente curricular: Língua Portuguesa. O
domínio da língua, oral e escrita, é fundamental para a participação social do sujeito,
pois é através dela que o mesmo se comunica, expressa, defende seus pontos de
vista e produz conhecimento. Cabe à escola ensinar o educando a utilizar a
linguagem em situações de planejamento, realização de entrevistas, debates,
seminários, dramatizações, produções textuais. Não se formam bons leitores
oferecendo materiais empobrecidos, que não o estimularão à uma boa escrita. De
acordo com os PCNs da Língua Portuguesa (1997, p.35):

A linguagem verbal, atividade discursiva que é, tem como resultado textos


orais ou escritos. Textos que são produzidos para serem compreendidos. Os
processos de produção e compreensão, por sua vez, se desdobram
respectivamente em atividades de fala e escrita, leitura e escuta. Quando se
afirma, portanto, que a finalidade do ensino de Língua Portuguesa é a
expansão das possibilidades do uso da linguagem, assume-se que as
24

capacidades a serem desenvolvidas estão relacionadas às quatro habilidades


lingüísticas básicas: falar, escutar, ler e escrever.

Do mesmo modo em que os PCNs de Língua Portuguesa relacionam como


habilidades linguísticas básicas, o falar, o escutar, o ler e o escrever, da mesma
forma, observou-se nesta pesquisa como as quatro habilidades são desenvolvidas
de forma mais abrangente e significativa numa prática interdisciplinar dentro da sala
de aula. Os sujeitos pesquisados partiram do diálogo, da comunicação com os
demais sujeitos para a compreensão e significação de suas exposições e produções.
Além disso, mostraram atitude de autoconfiança, capacidade para interagir e
respeito ao outro. Deste modo, o ensino das mais diferentes linguagens, precisa
estar inserida em ações reais do cotidiano dos educandos, para que que de fato
compreendam o porquê do assunto que estão estudando, relacionando com a sua
vivência. Percebe-se isso acontecer na fala da educanda do 3º ano do ensino
fundamental: “gostei das atividades, pois não achei elas chatas e até gostei de ler o
texto porque ele era um texto diferente, era de notícia de jornal.”
Além dos componentes curriculares já analisados, destacamos também a Arte
e a Educação Física, que precisam ser mais valorizados e melhor trabalhados pelos
educadores. Quando falamos em valorizar, falamos em estudá-los de forma mais
abrangente, considerando estes componentes curriculares como essenciais na
formação integral do educando, assim como os demais.
O ensino da Arte visa a expressão e o saber comunicar-se em arte, interagir
com materiais e instrumentos de arte, bem como criar uma autoconfiança em
relação a produção artística pessoal. Além disso, é fundamental que o educando
observe as relações entre o homem e a realidade, compreenda e identifique a
função e o resultado do trabalho do artista. É fundamental que haja a integração da
arte com os demais componentes curriculares para que se desenvolva uma
educação lúdica, na qual o educando terá espaço para expor, criar e expressar suas
ideias e, além disso, que possa ampliar sua visão de mundo, para que olhe uma
obra de arte, uma fotografia de uma forma diferente, observando-a, entendendo-a e
sentindo-a, não ficando preso somente naquilo que a obra aparenta.
Deste modo, a Arte proporciona espaços e tempos onde se constroem vários
tipos de expressões e linguagens, formas de ver o mundo, desenvolvendo a
intuição, o raciocínio e a imaginação. Além disso, promove a aprendizagem da
empatia com outros modos de pensar, trabalhar e expressar, podendo ser
25

considerada como um espaço de exercício da cidadania. Barbosa (1995, p.61)


afirma que:
A arte não é apenas o básico, mas fundamental na educação de um país que
se desenvolve. Arte não é enfeite. Arte é cognição, é profissão, é uma forma
diferente da palavra para interpretar o mundo, a realidade, o imaginário e é
conteúdo. Como conteúdo, a arte representa o melhor do trabalho do ser
humano.

Em relação ao ensino da Arte, observou-se nesta pesquisa que os educandos


têm interesse em aprender algo novo que desperte a imaginação e o senso crítico,
ou seja, algo que não seja somente reproduzir as obras de arte, mas sim a criação, a
produção de algo próprio realizado por eles mesmos. É neste sentido de apropriação
do senso crítico no ensino da arte é que se desenvolvem a autoconfiança, o
pensamento artístico que caracterizou o modo particular que deu sentido às
experiências de cada sujeito e a ampliação das possibilidades de cada linguagem
artística com as diversas atividades criativas e inovadoras, pois compreendemos que
o ensino da Arte precisa visar principalmente o estímulo à criatividade, criatividade
esta que dá experiência de perceber, sentir e pensar.
Do mesmo modo que precisamos criar um pensamento artístico, criativo nos
educandos através do ensino da Arte, precisamos estimulá-los à prática da
Educação Física. O trabalho de Educação Física nos anos iniciais do Ensino
Fundamental é essencial, pois possibilita a eles a oportunidade de desenvolver
habilidades corporais e participar de atividades culturais, como jogos, esportes e
dança. É fundamental que o educador incentive o educando para uma participação
ativa no próprio aprendizado, estimulando o questionamento e o raciocínio,
contribuindo no resgate de uma Educação Física inserida no contexto escolar, como
uma prática social e que consequentemente promova autonomia, criatividade e
socialização. Segundo os PCNs de Educação Física (1997, p. 25):

No âmbito da Educação Física, os conhecimentos construídos devem


possibilitar a análise crítica dos valores sociais, tais como os padrões de
beleza e saúde, que se tornaram dominantes na sociedade, seu papel como
instrumento de exclusão e discriminação social e a atuação dos meios de
comunicação em produzi-los, transmiti-los e impô-los; uma discussão sobre a
ética do esporte profissional, sobre a discriminação sexual e racial que existe
nele, entre outras coisas, pode favorecer a consideração da estética do ponto
de vista do bem-estar, as posturas não-consumistas, não preconceituosas,
não-discriminatórias e a consciência dos valores coerentes com a ética
democrática.
26

Nesta pesquisa, observou-se que o ensino da Educação Física, além de


desenvolver habilidades corporais, contribuiu para uma socialização mais
significativa entre os sujeitos, através da formação de grupos e resolução de
problemas numa perspectiva dialógica, comunicativa. Além disso, os sujeitos
pesquisados puderam compreender que a prática da Educação Física não é
somente correr atrás de uma bola, mas sim, praticar outros exercícios que
consequentemente proporcionam o bem estar, a socialização e a reflexão do que
está sendo feito na prática. A afirmação da necessidade da Educação Física é
reconhecida na fala do educando do 3º ano do ensino fundamental: “eu pensei que
nós só iríamos jogar bola, mas a ginástica e as brincadeiras foram muito legais, eu
gostei muito.”
Nesta perspectiva de analisar os componentes curriculares, para que os
mesmos se integrem numa visão interdisciplinar, pode-se afirmar que um projeto
interdisciplinar de trabalho ou de ensino que envolve as diferentes áreas do saber,
consegue captar a profundidade das relações conscientes entre os sujeitos. Nesse
sentido, precisa ser um projeto que não se oriente apenas para produzir, mas que
surja espontaneamente, no suceder diário da vida como uma vivência significativa.
Tendo como princípio a vivência para fazer acontecer a interdisciplinaridade,
observou-se na pesquisa realizada a transformação do sujeito em si mesmo, pela
linguagem, questionamento e socialização, tornando-se produtor de sua história e
não como mero reprodutor de histórias alheias e sem significado. Tal afirmação
comprova-se na fala do educando do 3º ano do ensino fundamental: “a professora
sabe que com essas atividades que foram bem legais, eu consegui aprender e
entender o conteúdo.”
Isso somente acontece quando o educador é um eterno pesquisador e
conhecedor de todas as áreas do conhecimento, criando através de seu
entendimento uma prática pedagógica interdisciplinar. Além do conhecimento que o
educador constrói através de pesquisas e estudos para a preparação de uma prática
interdisciplinar, necessita-se construir uma proposta pedagógica para os anos
iniciais do Ensino Fundamental que considere a interdisciplinaridade um dos seus
fundamentos pedagógicos. Sendo assim é fundamental encarar uma mudança na
educação, adotando uma postura de pensar, refletir, criticar para que possamos
melhorar a nossa prática interdisciplinar e consequentemente atender de forma
adequada nossos educandos no processo de ensino e aprendizagem.
27

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo como base o levantamento bibliográfico e a pesquisa de campo que


norteou este estudo sobre a interdisciplinaridade, considero como essencial a
realização de uma prática pedagógica interdisciplinar, pois a interdisciplinaridade
não visa à eliminação dos componentes curriculares, mas propõem uma integração
entre os mesmos. Além disso, tenta romper as barreiras entre os componentes,
eliminando desta forma com o conhecimento fragmentado.
Verifica-se o quão necessário se faz a interdisciplinaridade nos anos iniciais
do Ensino Fundamental, como meio de uma melhor aprendizagem e construção do
conhecimento, além de, mostrar como as diferentes áreas do saber se unem para
mover a interdisciplinaridade. Nesta união das diferentes áreas do saber, a
interdisciplinaridade é entendida como atitude e tem a potencialidade de auxiliar os
educadores e as escolas na ressignificação do trabalho pedagógico em termos de
currículo, de métodos, de conteúdos, de avaliação e inclusive nas formas de
organização dos ambientes para a aprendizagem.
Percebe-se através da entrevista como o entendimento das educadoras em
relação à interdisciplinaridade é diminuído, pois de certa forma não acreditam que
uma prática interdisciplinar tenha sucesso e melhore a aprendizagem, bem como, à
falta de entendimento sobre o planejamento coletivo, tão essencial para a realização
de uma prática interdisciplinar no espaço escolar. Em relação ao planejamento
coletivo, acreditamos, através de nosso estudo, que o mesmo nem sempre encontra
aceitação por parte dos educadores que, por força do hábito de trabalhar
isoladamente, veem nisso uma perda de tempo ou uma tarefa suplementar. Sendo
assim, O trabalho docente como atividade isolada e a fragmentação do ensino em
componentes curriculares, permitem o enfraquecimento das relações de integração
que consequentemente movem ações que permitam o desenvolvimento de uma
proposta educacional com objetivos comuns.
É desta forma que pode-se dizer que a interdisciplinaridade é movida pela
integração, pela atitude de ousadia e mudança. A mesma contribui para que
educandos e educadores criem uma relação de confiança e laços de afetividade
entre si, além de ampliar e construir novos conhecimentos através da pesquisa e do
28

respeito dos educadores em relação ao conhecimento que o educando chega à sala


de aula. Assim, é preciso tirar a interdisciplinaridade do papel e praticá-la, ou seja,
vivenciá-la, pois o que não pode acontecer é perder a esperança e se deixar levar
pelo cansaço e pensar que tudo já foi feito. Precisa-se sempre estar retomando e
propondo novas formas de se estar discutindo e colocando em prática a atividade
docente interdisciplinar.
29

REFERÊNCIAS

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Cultrix, 1995.

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Nacionais: apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/SEF, 1997.

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Nacionais: Língua Portuguesa, Brasília: MEC/SEF, 1997.

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Nacionais: Matemática, Brasília: MEC/SEF, 1997.

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interdisciplinaridade brasileira. In: FAZENDA, Ivani. O que é interdisciplinaridade?
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Cortez, 2008.

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