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A Gestalt-Terapia e Frederick Perls

Breve Histórico
Frederick S. Perls nasceu em Berlim, Alemanha, no ano de 1893. Era filho de pais
judeus e vivia num ambiente familiar pouco estruturado, no qual sua mãe era agredida por seu
pai. A relação com sua mãe também não era boa, pois a mesma o agredia fisicamente
(VELÁSQUEZ, 2001).

Perls se achava a ovelha negra da família. Perdeu 2 anos de escola em reprovações


pelas quais foi expulso da mesma. Anos depois se formou como médico e logo depois se
especializou em psiquiatria. Serviu como médico no exército e, posteriormente, trabalhou
com Kurt Goldstein no instituto de soldados com lesões cerebrais. Através dessa experiência
pode compreender a importância de considerar o organismo como um todo e não como
aglomerado de partes funcionando independentemente das outras (FADIMAN e FRAGER,
1986).
Para Fadiman e Frager (1986), das principais correntes intelectuais que influenciaram
Perls, a psicanálise foi a mais influente. Após anos de espera, ao encontrar-se com Freud,
decepcionou-se com o encontro, pois o mesmo durou apenas quatro minutos e não ofereceu
oportunidades para discussão de suas ideias.

Perls, após muitos anos, rompeu com o movimento psicanalítico por discordar de
vários aspectos pregados por Freud. Contrapôs-se, por exemplo, no sentido de que, para ele,
Freud desconsiderava a visão holística do homem. Ainda, Perls acreditava que o material
óbvio era o elemento crucial para a compreensão e trabalho do conflito intrapsíquico mais que
o material profundamente reprimido. Dava ênfase também ao exame da pessoa no presente
mais do que a investigações sobre o seu passado. Ou seja, o como a pessoa se comporta no
momento é mais importante que o porquê ela se comporta assim. Os instintos e libido de
Freud foram substituídos por miríades de necessidades que surgem quando o equilíbrio do
organismo é perturbado, sendo então o propósito da Gestalt a análise do todo, da soma das
interações e interdependências das partes, uma vez que a análise das partes nunca pode
proporcionar uma compreensão do todo (FADIMAN e FRAGER, 1986).

Principais Conceitos
Organismo Como um Todo
Para Perls (1977) o homem é um organismo unificado, não podendo ser admitida a
divisão entre mente e corpo, reconhecendo que os pensamentos e ações são feitos da mesma
matéria, sendo as ações físicas inter-relacionadas às ações mentais.
Segundo Fadiman e Frager (1986), o homem é um ser que deve ser visto por
completo, como um todo vivendo em seu campo único de atividades e não como a soma de
suas partes em funcionamento independente. Esse campo, para Perls (1977), é um ambiente
em que se dão as interações e relações entre o indivíduo e o meio. O meio não cria o
indivíduo nem este cria o meio. Ou seja, organismo e meio se mantém numa relação de
reciprocidade. O contato entre o indivíduo e o meio ocorre através da fronteira de contato.
Nela os eventos psicológicos têm lugar. Os pensamentos, ações, comportamentos e emoções
são o modo de experiência e de encontro com os eventos desse meio (PERLS, 1977). Para
Fadiman e Frager (1986), o limite de contato saudável é aquele que permite o contato e
posteriormente, o afastamento, ou seja, que é fluido. O contato constitui então a formação de
uma Gestalt e o afastamento, o fechamento de uma.

Durante esse contato com o meio, o ritmo de contato e afastamento vai sendo ditado
por uma hierarquia de necessidades. Esta se refere ao nível de preferência de necessidades de
um indivíduo (PERLS, 1977). Por sua vez, a hierarquia de necessidades vai sendo guiada por
gestalts dominantes. Entende-se por gestalt dominante algo que é objeto de desejo de um
indivíduo e que se encontra no topo da sua hierarquia de necessidades. Quando esta é
satisfeita, a Gestalt se fecha. Quando não satisfeita, se torna uma Gestalt inacabada (PERLS,
1977). Gestalt inacabada se caracteriza pela não satisfação de uma necessidade dominante,
pelo bloqueio ou interrupção da energia para realização da mesma, o evento fica inacabado.
Fisicamente e psicologicamente a situação inacabada continua a pressionar por fechamento e
a pessoa não consegue apreciar as satisfações potenciais no presente (GINGER, 1995). Dessa
forma, cada vez que as necessidades no topo da hierarquia vão sendo satisfeitas, as que se
encontravam logo abaixo se tornam primeiras. Portanto, está sempre em mudança.

Este é o processo pelo qual o organismo mantém seu equilíbrio, o processo de


homeostase. Para a Gestalt, enquanto as necessidades de um indivíduo são muitas e não
realizadas, elas perturbam o equilíbrio deste e o processo de homeostase perdura. Quando
realizadas as necessidades, a homeostase se estabelece.

Figura e Fundo
Para Yontef (1988), o processo de formação de figura-fundo é dinâmico. A figura
depende do fundo sobre o qual aparece. O fundo, então, serve como uma estrutura ou moldura
em que a figura está enquadrada ou suspensa e, por conseguinte, determina esta figura. A
figura sugere algo que está em evidência na hierarquia de necessidades, ou seja, é a
necessidade dominante do sujeito. Quando satisfeita, se torna fundo, para posteriormente
surgir uma nova figura.

Aqui e Agora
Para Perls (1977), aqui e agora é o momento presente. O presente é a única
possibilidade, a única realidade possível. O comportamento é uma função do campo e não
depende nem do passado, nem do futuro, mas do presente. O futuro são expectativas,
objetivos e metas que dirigem as escolhas de hoje e que poderão ou não se concretizar. O
futuro inspira o presente. Para Fadiman e Frager (1986), o como é mais importante que o
porquê. Segundo os autores, Perls admitia ser o determinante causal irrelevante para qualquer
compreensão da ação, pois existem múltiplas explicações e cada uma nos distancia mais e
mais da compreensão do ato em si.
Intencionalidade do Ato
Para Ribeiro (1985), a consciência não é um depósito, passivo de acúmulos, mas sim
ativa, que dá sentido às coisas e sempre visa algo. Assim, o indivíduo toma consciência de
suas vivências e posteriormente passa à ação, pois todo ato psíquico é intenção. Ou seja, a
intencionalidade da consciência implica em um passar à ação após a conscientização. Dessa
forma, surge a intencionalidade do ato, na qual estão presentes vontade e liberdade.

Ciclo de Contato-Retração
Para Ginger (1995), o homem está inserido em um processo denominado de Ciclo de
contato-retração. É também conhecido por ciclo de satisfação das necessidades, ciclo de
autorregulação organísmica ou ciclo da Gestalt, dentre outros. É nesse ciclo que o homem
satisfaz suas necessidades dominantes e dá lugar às outras, por meio de uma hierarquia de
necessidades. É onde ocorre à formação e posterior dissolução de “Gestalts” e, depois desta, o
organismo recupera a homeostase. Pode ser subdividido em etapas, as quais são necessárias
para localização de possíveis perturbações. São elas o pré-contato, o contato, o contato pleno
e o pós-contato.

 Pré-contato - é a primeira fase do ciclo na qual predominam as sensações e


percepções. O estímulo do meio gera no indivíduo uma excitação que se tornará a
figura que solicita seu interesse.
 Contato - é a segunda etapa do ciclo e constitui a fase ativa dele. É a etapa em que o
organismo enfrenta o meio e que o objeto desejado se tornará figura, tornando-se
fundo a excitação anterior presente no corpo.
 Contato pleno - é a terceira fase do ciclo de contato-retração na qual ocorre a abertura
da fronteira de contato. Existe aí uma troca saudável, na qual organismo e meio são
indiferenciados. A ação é unificada no aqui e agora.
 Pós-contato ou retração - é a fase final do ciclo de contato-retração. Nessa fase
ocorre a assimilação/digestão das experiências que as fazem sair do aqui e agora e
irem para a dimensão histórica pertencente a cada um de nós. Esse movimento
favorece o crescimento do indivíduo. Ocorre assim o fechamento da Gestalt e o sujeito
fica então disponível para outra ação.

Mecanismos ou Obstáculos de Evitação do Contato


Segundo Ginger (1995), resistências ou mecanismos de evitação do contato são
perturbações na fronteira de contato, de origem interna ou externa ao sujeito, que não
permitem o contato saudável com o meio. Podem ser saudáveis ou patológicos, dependendo
de sua intensidade, maleabilidade e o momento em que surgem. As principais resistências são:
confluência, introjeção, projeção, retroflexão, deflexão e proflexão.

 Confluência - É um estado de não contato ou de fusão por ausência da fronteira de


contato. Essa confluência impede romper qualquer equilíbrio conquistado e qualquer
ação responsável, ou seja, ela impede qualquer confronto e qualquer contato
verdadeiro. Sua ruptura acarreta ansiedade e sensação de culpa.
 Introjeção - Consiste em “engolir inteiras” as ideias, hábitos ou princípios a nós
ensinados. Ela é a base da educação das crianças que aprendem o “você deve”, “é
preciso” sem assimilações. Ela se diferencia da assimilação, pela falta de reflexão e
“digestão” das ideias que este mecanismo proporciona.
 Projeção - É a tendência de atribuir ao meio a responsabilidade por aquilo que tem
origem no self. É a atribuição ao outro daquilo que acontece em nosso interior.
 Retroflexão - Consiste em voltar contra si mesmo a energia mobilizada. É fazer a si
aquilo que gostaria de fazer aos outros ou que os outros o fizessem. Isso se aplica
tanto a coisas boas como ruins, ou seja, eu dirijo a mim agressões que gostaria de fazer
a outros ou ainda dirijo a mim elogios que gostaria que outros me fizessem. Quando
saudável, a retroflexão demonstra maturidade e autocontrole diante das convenções
sociais. Torna-se patológica quando a inibição resulta em masoquismo ou narcisismo.
 Deflexão - É o próprio desvio do contato direto ou desvio da energia do objeto de
desejo. A pessoa nunca adere à situação, sempre falando de outras coisas,
independente do meio, para evitar envolvimento com o contato.
 Proflexão - Consiste em fazer ao outro aquilo que gostaríamos que fizessem a nós. É
uma mistura de projeção e retroflexão, pois, tanto nos dirigimos ao meio, quanto a nós
mesmos.

Referências:
FADIMAN, J.; FRAGER R.. Teorias da Personalidade. Ed. Harbra, São Paulo, 1986.

GINGER, S.; GINGER A.. Gestalt, uma terapia do contato, 2 Edição, Ed. Summus, São
Paulo, 1995.
PERLS, F.. A Abordagem Gestáltica e Testemunha Ocular da Terapia, 2 Edição, Ed. LTC,
Rio de Janeiro, 1977.

RIBEIRO, J. P.. Gestalt-Terapia: Refazendo um caminho. 3 edição, Ed: Summus, São Paulo,
1985.

YONTEF G. M.. Processo, Diálogo e Awareness. Ensaios em Gestalt-Terapia. Ed. Summus,


São Paulo, 1988.

VELASQUEZ, L. F.. Terapia Gestáltica de Friedrich Solomon Perls. Fundamentación


Fenomenológica Existencial. Rev. Psicología desde el Caribe, num. 007, Colombia, 2011.
Disponível em: <http://redalyc.uaemex.mx/pdf/213/21300711.pdf> Acesso em 14/05/2012.