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© 2019 Kel Costa

Capa: Kel Costa

Revisão: Kel Costa e Mayara Pongitori

Diagramação: Kel Costa

Esta obra segue as regras do Novo Acordo Ortográfico.

Chefe da Máfia

Soprattuto – Livro 1

1ª edição - 2019

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... 10 anos antes

A sala de visitas estava cheia demais para o jantar íntimo que teríamos. Além de
minha querida mãe e Enzo, meu irmão mais novo, a alta hierarquia da
Soprattutto[1] estava presente para testemunhar o momento tão esperado. Don
Enrico, meu pai, encontrava-se sentado em sua poltrona e cercado por seu
consiglieri e seu subchefe. Alguns primos e tios conversavam num canto, mas
era óbvio que sua atenção estava toda voltada para mim.

Giovanna me encarou com os grandes olhos azuis arregalados. Era uma


pirralha, nada além disso. A única coisa que eu conseguia sentir por uma menina
de sete anos era pena por estar presa àquele contrato. No fundo, sentia enjoo por
ter que seguir aquele circo todo.

A mão da mãe cutucou as costas da menina e a fez saltar num pulo. Ela deu
dois passos tímidos na minha direção e esticou os pequenos dedos para mim.

— Prazer, senhor Greco — disse com desenvoltura, afinal, tinha sido criada
para isso. Enquanto seu sorriso era cálido e educado, os olhos azuis não
conseguiam mentir e demonstravam a insegurança presente em cada célula do
seu corpo.

— O prazer é todo meu, senhorita Mancini. — Tomei a mão delicada e a


beijei, evitando soltar um som de desaprovação.

Ouvi palmas estalarem ao meu redor e sabia que charutos eram acesos,
indicando que todos estavam satisfeitos com o momento. Tudo corria
exatamente como mandava nossa tradição. Enzo me lançou um sorriso sincero e
eu imaginei como ele se sentiria se estivesse em minha pele. Não ser o
primogênito tinha suas vantagens.

Encerrada a abominável apresentação, lancei um olhar ao meu pai. Era o


chefe da Soprattutto, o homem mais respeitado de nossa famiglia[2], a máfia
siciliana. Ele meneou a cabeça, informando que eu estava dispensado e que
podia me retirar.

Saí do salão, respirando fundo. Precisava chegar à privacidade do meu


quarto para extravasar minha irritação. Eu era um excelente filho e tinha sido
educado e treinado desde cedo para ocupar o posto de mio padre[3] quando
chegasse a hora. Mas, de vez em quando, sentia necessidade de ter um momento
de liberdade e, talvez, ser normal como qualquer outro homem da minha idade.
O que, claro, sabia que nunca aconteceria. Não havia escolha.

Meu nome é Pietro Fillipo Greco e sou herdeiro da família número um da


máfia siciliana. Tinha acabado de completar vinte e três anos, mas meu futuro
havia sido traçado quando eu ainda estava no ventre de minha mãe. Assim como
o de Giovanna Mancini, a pobre criança que nada entendia de amor ou
relacionamentos e acabara de ser apresentada a seu futuro marido.
... 5 anos antes

GIOVANNA

Pelos últimos cinco anos da minha vida, uma das palavras que mais escutei
foi o nome dele: Pietro Fillipo Greco, meu futuro marido. O filho mais velho de
Don Enrico Greco, o próximo na linha de sucessão, o jovem que comandaria
todos nós quando o pai morresse.

Eu podia sentir o suor escorrer por minhas costas enquanto tentava lembrar
de todas as regras de etiqueta durante o jantar. Era uma tradição das famílias
manter os noivos sempre conectados, sem deixar que muitos anos se passassem
entre um encontro e outro.

Papà e mamma [4] assinaram o contrato de casamento na semana seguinte ao


meu nascimento. Eu já estava prometida a Pietro quando era apenas um feto,
mas a tradição obrigava a assinatura somente quando ambas as crianças já
tivessem nascido, como uma forma de precaução para que nenhuma família se
prejudicasse em caso de deficiência física ou mental.

Foi assim que selaram meu casamento com o futuro Don[5] da Soprattutto.
Cresci sendo doutrinada a respeitar e obedecer a um Don. Precisaria gerar um
herdeiro para o sobrenome Greco, que manteria o status de chefe para nossa
casa. E que Deus permitisse ser um menino!

Eu estudava num colégio frequentado pela elite siciliana e nem todas as


minhas amigas eram de famílias da máfia. As que não tinham conhecimento
sobre o assunto, achavam absurdo eu ser obrigada a me casar com alguém que
meus pais escolheram. As que faziam parte da Soprattutto entendiam as
tradições e achavam o máximo que meu noivo fosse ninguém menos que Pietro
Greco.

Não que isso importasse para ele. Pela forma como olhou para mim quando
chegamos, estava claro que me considerava uma fedelha. Bem, eu era. Estava no
auge dos meus treze anos e, por mais que minha mãe se esforçasse em domar
minha juba e me vestir adequadamente, tinha certeza de que ele me enxergava
como um patinho feio.

— Pare de encarar, Giovanna — minha mãe, a matriarca da família Mancini,


sussurrou ao pé do meu ouvido com uma ameaça velada.

— Mas ele não é meu noivo? — sussurrei de volta, atazanando o juízo dela.
— Ele é tão bonito...

Stefania Albertini Mancini respirou fundo e colocou um sorriso no rosto,


para ninguém em especial.

— Você vai envergonhar nosso nome.

Certo. Eu precisava mesmo me controlar. Só que era difícil, porque Pietro era
muito atraente e meus olhos não conseguiam desgrudar do rosto dele. Todas as
minhas amigas já tinham beijado na boca, menos eu. Algumas tinham passado
da segunda base com alguns meninos, menos eu. Quando Paola chegou no
colégio mês passado, contando que Luca tinha apalpado seus seios por cima do
sutiã, todas nós quase caímos para trás.
Eu sequer podia cogitar sonhar com algo assim. Se saísse por aí beijando e
tocando garotos, minha mãe seria capaz de cortar minha língua e meus dedos.

Espetei um pedaço de camarão no prato e olhei em volta. Pessoas de


influência da famiglia e alguns parentes estavam à mesa e conversavam
animadamente, comportamento normal quando muitos italianos se juntavam
para uma refeição. Procurei mais uma vez pelo meu noivo. Ocupando a cadeira à
esquerda de Don Enrico — a da direita era da senhora Greco —, ele limpou o
canto da boca com o guardanapo de seda antes de repousá-lo novamente no colo.
Era uma boca de chamar atenção e eu queria muito ser aquele pedaço de pano.
Como seria a sensação dos lábios dele sobre os meus?

— É bom ver que uma noiva aprecia seu par. — Todas as cabeças se
voltaram para Don Enrico. Eu já tinha aprendido que ele era um homem de
poucas palavras, mas quando abria a boca, ninguém piscava.

— Como? — perguntou mamãe, também usando seu guardanapo. Eu sabia


que ela só queria tempo para pensar.

— A senhorita Giovanna parece bastante entusiasmada com Pietro —


explicou o Don.

Quis me enfiar debaixo da mesa naquele exato instante, porque todos os


olhos se voltaram para mim. Sabia que estava vermelha como um pimentão, algo
não tão difícil de acontecer para alguém tão branca como eu.

— Ah! Isso é curiosidade de criança! — mamãe desconversou, abanando a


mão e voltando sua atenção para o prato.

— Não sou mais uma criança!

— Giovanna!

Arrependi-me no instante em que disse a frase, pois o beliscão que tomei fez
brotar lágrimas em meus olhos. Eu as controlei para não fazer uma cena, mas
não consegui impedir meus lábios de tremerem. Não tive coragem de virar o
rosto para olhar minha mãe, por medo de ser queimada com o fogo que devia
estar saindo de suas pupilas.

À nossa volta, todos ficaram calados, observando o desenrolar da história.


— Deixe a menina falar, senhora Mancini — declarou Don Enrico, para meu
pavor.

— Não... — pigarreei. Maldita hora para perder a voz. — Não desejo dizer
nada, Don Enrico.

Ao me direcionar a ele, acabei cruzando meu olhar com o de Pietro. Ele


exibia uma expressão de diversão que me deixou ainda mais encabulada.

O que para mim foi um momento de tortura, para todos os outros — com
exceção de minha mãe — não havia passado de uma situação descontraída.
Terminei o jantar sem abrir mais a boca e com os olhos pregados no prato à
minha frente. Não ousaria olhar novamente para meu noivo. A humilhação já
tinha sido imensa.

Ansiava por ir embora, mas a senhora Greco não parava de tecer elogios à
minha aparência e meus modos, segundo ela, tão contidos para uma menina que
deixava a pré-adolescência. No fundo, acho que ela só tentava me eximir de
culpa e evitar que eu sofresse as consequências em casa.

— Por que Giovanna não sai para tomar um ar com Pietro? — indicou, quase
me fazendo vomitar em cima de suas joias. Como é que é? — Tenho certeza que
os dois vão gostar de conversar.

Ele estava do outro lado da ampla sala de visitas, com um copo de uísque na
mão, ao lado do pai. Ao ouvir a sugestão da mãe, tentou disfarçar, mas
vislumbrei o momento em que alongou o pescoço e esfregou o centro da testa.
Não era só eu que tinha detestado a ideia.

Don Enrico meneou a cabeça e o filho acatou, caminhando na minha direção.


Ah não! Que assunto eu teria com um cara como ele? Pietro era o braço direito
do chefe da máfia e seu nome vivia na boca do povo. E das mulheres.
Principalmente, daquelas com quem já dividiu alguns fluidos.
Enquanto eu estava quase desmaiando de nervoso, ele não parecia nem um
pouco afetado. Parou diante de mim e ofereceu o braço para que eu o tomasse.
Minha reação mais óbvia foi lançar um olhar de desespero para mamãe e ela
somente arqueou uma sobrancelha. Eu a conhecia e sabia que o gesto deixava
claro que, se recusasse, perderia os dentes quando chegasse em casa.

PIETRO

Giovanna me lançou um olhar tão assustado que parecia prestes a ir para o


abate. Eu não conseguia acreditar que tinha partido de minha mãe uma sugestão
tão constrangedora. Era óbvio que eu não tinha nada para conversar com uma
garota de doze anos. Mais óbvio ainda era que a própria estava apavorada com a
situação.

A filha única de Marco Mancini, um caporegime[6] da nossa famiglia, sequer


conseguia caminhar ao meu lado no mesmo ritmo, mantendo o braço preso ao
meu. Portanto, eu a soltei ao passarmos pelas portas do fundo da casa e sairmos
para o jardim.

Seu silêncio indicava o quanto estava desconfortável e sequer levantava o


rosto, com medo de olhar para mim. Suspirei, entediado, tentando me lembrar
das coisas que me ocupavam a mente quando tinha sua idade.

— Ainda está na escola secundária? — perguntei mais para ter o que dizer,
pois sabia que ela só iria para o segundo ciclo aos quatorze anos, como grande
parte dos estudantes italianos.

Parecia que eu tinha perguntado a cor do seu sutiã, pela forma como me
olhou.

— Ah. Sim. Sim, claro.

— Gosta de estudar?

— Sim.
— Que bom — respondi, caminhando por entre as roseiras que eram orgulho
de minha mãe. — A esposa de um Don precisa ser bem instruída.

Arrependi-me da frase estranha no momento em que a falei. Quando


Giovanna virou o rosto para me olhar e bateu de encontro ao poste de iluminação
do jardim, toquei em suas costas para evitar que caísse para trás e pudesse se
equilibrar.

— Você está bem? — perguntei, preocupado. Tinha sido uma pancada e


tanto com o ombro.

— Sim. — Ela rapidamente esfregou o braço e se virou de frente para mim.


— Nossa, não vi o poste.

Ele possuía mais de dois metros de altura e uns trinta centímetros de


circunferência, entretanto, escolhi ficar calado.

— Minhas amigas acham estranho eu ter sido prometida em casamento ao


senhor. — Aquela era a primeira vez que ela dizia uma frase inteira sem
pigarrear ou ofegar.

— Qual o problema comigo? — perguntei, curioso pela primeira vez.

Giovanna levantou os olhos e recuou até perceber que o poste bloqueava seu
caminho. Suas mãos trêmulas foram para trás até que o agarraram. Parecia
arrependida de ter dito o que disse.

— Ah... — Pressionou os lábios e desviou os olhos. — Pode ter a senhorita


que desejar.

As amigas estavam certas quanto a isso. Eu tinha todas as mulheres que


desejava. Nunca tive problema com cama vazia. Guardei a informação para mim
e sorri, evitando pensar em sexo na frente de minha futura esposa que tinha
acabado de largar a fralda. Era bem grotesco e nojento.

Giovanna era uma clássica filha da máfia. Quando não estava morta de
vergonha, seu olhar era firme e dava a impressão de que nunca levaria desaforo
para casa. Os ombros eretos, a postura impecável e o jeito recatado e discreto.
Tinha grandes e redondos olhos azuis, uma pele muito branca, nariz pequeno e
lábios grossos e rosados. O cabelo castanho era muito liso e as pontas tocavam
os cotovelos, com uma franjinha emoldurando o rosto. Usava um vestido floral
com tons de rosa e bege, com saia rodada abaixo dos joelhos e sapatos de salto
baixo, indicado para alguém da idade dela. A típica moça requintada que um
Don teria orgulho em exibir e ter ao seu lado para formar uma família.

— Creio que se tornará uma bela moça — comentei. — Não tenho problema
algum com nosso casamento, desde que ele aconteça quando a senhorita tiver
idade adequada para isso.

Os olhos azuis se iluminaram e ela sorriu de forma tímida.

— O senhor também é um belo... hm... — Engoliu em seco e desviou o


olhar. — Desculpe, estou pensando alto.

A pouca idade ainda era um incômodo, visto que ela costumava falar antes
de pensar e, quase sempre, ficava constrangida pela língua solta. Somente um
cego não entenderia que os hormônios de Giovanna estavam em êxtase naquela
noite, portanto, achei mais sábio quebrar o clima desconfortável e estender
novamente meu braço para ela.

— Gostaria de conhecer a estufa da residência? — perguntei e minha


pequena noiva abriu um sorriso.

— Sim! Claro! — Quando aceitou meu braço e nos afastamos do poste,


declarou: — Apesar de que eu odeio plantas.

Não consegui controlar a gargalhada que escapou pela minha garganta e até
olhei para trás, temendo que alguém corresse ao nosso encontro.

— Não faça declarações como essa perto de sua futura sogra — avisei,
divertido. — A senhorita ganhará uma inimiga.

— Mesmo? — Ela me olhou horrorizada e tapou a boca.

— Não. — Balancei a cabeça, sentindo meu sorriso se abrir mais. — Mas é


certo que ela ficará bastante chateada.

— Eu sei diferenciar uma rosa de uma margarida — disse Giovanna,


enquanto eu dava passagem para que entrasse primeiro na estufa. — Só acho
sem graça, sabe? Tantas coisas boas no mundo e tem gente que fica endeusando
uma simples flor? Eu conheci um garoto que criava uma planta carnívora como
animal de estimação. Prefiro ler e ouvir música.

— Ele possui um gosto muito peculiar — falei, enfiando as mãos nos bolsos
e me recostando a uma pilastra.

Giovanna apenas balançou a cabeça, concordando. Parecia interessada ou


curiosa com a estufa, então se embrenhou pelas passarelas até se perder de vista.
Mesmo de longe, eu era capaz de saber sua posição conforme os spots
automáticos se acendiam com sua presença.

— É bem grande aqui — a voz dela ecoou. — A senhora Greco gosta mesmo
de todas essas plantas?

— Sim. Ela acompanha a manutenção de perto.

Saí em busca dela antes que se perdesse no labirinto de folhas. Arranquei de


um vaso uma orquídea negra, extremamente exótica e, ao me aproximar, girei a
flor entre os dedos.

— Uau! Que linda! — A menina exclamou ao vê-la e arregalou os olhos


quando percebeu que eu continuava me aproximando.

Afastei o cabelo que cobria sua orelha direita e encaixei a orquídea ali.
Recuei um pouco e observei a beleza escura da flor em contraste com a pele
alva.

— Eu nunca beijei! — Minha atenção foi desviada para o rosto cheio de


pavor. Os lábios estavam pálidos. — O senhor vai me beijar?

Recuei dois passos, em choque. Eu tinha dado essa impressão a ela? Refiz
em mente minhas atitudes para tentar compreender. Estava apenas sendo gentil e
tentando deixá-la um pouco mais à vontade em minha presença porque não
queria que nossos próximos encontros fossem marcados por constrangimento.

— Não pretendo fazer isso. Perdoe-me se a assustei. — Quem estava


desconcertado era eu. — Por favor, vamos voltar.

— Não! — Ela agarrou meu braço quando eu me virei e me puxou de volta.


— Eu tenho a péssima mania de falar besteira, desculpe. Minha mãe me matará
se souber que fui tão indiscreta.

Giovanna tinha usado a mão contrária à que me oferecera antes, portanto, era
a primeira vez que eu observava de perto aquele outro braço. Havia uma ferida
recente próxima ao pulso, como a marca de uma unha.

— Todas as minhas amigas já beijaram. Na boca. — Voltei minha atenção a


ela, que por algum motivo, tinha desembestado a falar. — Portanto, achei que o
senhor fosse fazer isso agora e que eu passaria vergonha porque não sei beijar.

Todas as amigas tinham beijado? Não estavam avançadas demais para a


idade que tinham? Perguntei-me mentalmente em que momento as crianças se
tornaram tão precoces, mas não descobriria a resposta para aquele mistério.
Sorri, louco para desfazer o mal-entendido.

— Você terá tempo para aprender — falei, mais para tranquilizá-la do que
para estender o assunto, quando meu foco estava em seu machucado.

— Terei? — Ela tocou a orquídea e se aproximou. — Quando? Quem vai me


ensinar?

— A vida.

A menina franziu a testa e estreitou os olhos azuis.

— O senhor está tentando insinuar que... eu aprenderei com... outra pessoa?

— Desde que seja da sua idade — ponderei. — Não vejo problema nisso.

Ela me encarava como se eu tivesse um chifre no meio da testa e acabasse de


dizer que comia filhotes de pandas no café da manhã. Estava sendo sincero.
Seguir a tradição da união dentro da Soprattutto era algo que eu até podia
encarar, mas não abdicaria de minha vida e minhas experiências para me guardar
até o casamento. Nem era algo que eu podia exigir de minha noiva quando ela
crescesse mais. A única objeção enquadrada por nossas leis era de que a mulher
deveria se casar virgem. Um tanto machista, mas não tinha sido eu a criar os
protocolos.

Gesticulei para que tomássemos o caminho de volta e ela passou minha


frente, mais pensativa do que atenta.
— Minha mãe me proibiu de ter qualquer contato físico com alguém do sexo
masculino porque diz que devo me guardar para o senhor.

Contive um sorriso. Era bem coisa de mãe e, se dependesse da minha e eu


fosse mulher, provavelmente passaria pela mesma coisa.

— Beije quem quiser, aproveite sua juventude — declarei, fazendo-a estacar


e se virar para mim.

— E se eu me apaixonar por quem eu beijar? — sibilou, ainda sem me olhar.

— Então você terá um problema dos grandes. — Toquei em seu queixo e a


fiz levantar o rosto até me encarar. — Porém, conforme for crescendo, creio que
os rapazes da região descobrirão a quem pertence e tentarão manter distância.

Ajeitando a postura, ela se portou de forma elegante, porém recatada, com as


mãos cruzadas à frente do corpo.

— Não é melhor, então, que o senhor me beije, para que eu não precise
aprender com outro? Eu tenho um noivo que é um gato, não quero experimentar
o beijo de um garoto qualquer.

— Neste momento, eu sou muito velho para você — disse eu, procurando
por uma rota de fuga.

Giovanna estreitou os olhos, pensativa.

— Mas quando eu for mais velha, o senhor será igualmente mais velho, não?

— Correto. — Sorri. — Porém, quando se tornar uma mulher, a diferença de


idade não será mais um problema. — Sentia-me satisfeito com minha resposta
coerente, quando ela se mostrou mais sagaz.

— Mas para eu me tornar uma mulher, o senhor não precisaria me...

— Senhorita Mancini — eu a interrompi antes que completasse a frase. —


Quando estiver um pouco mais crescida, não abrirei mão do beijo — respondi,
segurando a mão dela. — Por enquanto, terei que recusar.

Giovanna pressionou um lábio contra o outro, mostrando-se magoada com


meu posicionamento. No entanto, era esperta demais para se vitimizar por muito
tempo. Colocou um sorriso no rosto e segurou em meus braços ao se equilibrar
nas pontas dos pés.

— Tudo bem. Posso ganhar um beijo no rosto? — pediu.

— Evidente que sim, principessa[7] — respondi, recebendo um grande


sorriso de volta.

Depositei um beijo casto em sua bochecha e ofereci meu braço para que
saíssemos dali. Mais um pouco e nossos pais viriam nos procurar, com medo de
que eu deflorasse minha noiva.

GIOVANNA

Acho que estava apaixonada. Simples assim. Pietro Greco era tão cavalheiro,
educado, gentil e, obviamente, lindo de morrer. Não via a hora de contar para as
minhas amigas o tempo que passei ao lado dele e cada detalhe da nossa
conversa. Eu tinha ficado tão envergonhada nos primeiros minutos a sós com
ele, mas meu noivo fez questão de me deixar à vontade. Era um moço especial.
Apesar da diferença de idade, eu o achava um deus grego.

— Aí estão vocês! — Minha mãe nos surpreendeu na porta da estufa quando


já estávamos de saída. Felizmente, ela não flagrou a conversa sobre beijos ou eu
estaria numa grande enrascada.

— Estava levando sua filha de volta — Pietro disse, todo polido. — Devo
parabenizá-la, senhora Mancini, pois é evidente que está criando uma ótima
moça.

— Sei que sim, senhor Greco. Obrigada — Stefania Mancini agradeceu


meneando a cabeça e puxou minha mão. — Vamos, Giovanna. Já ficou muito
tempo aqui fora e não queremos que boatos se formem.

Por acaso eu estava no século quinze e não sabia? Mamma conseguia me


deixar um pouco irritada quando começava com essa mania de controlar até o ar
que respiro.

— Boa noite, mio fidanzato[8]. — Sorri para ele, mas antes que eu saísse do
lugar, o braço forte se estendeu à frente do meu peito e impediu que eu desse um
passo na direção de minha mãe.

— Uma última coisa, senhora Mancini. Exijo que nunca mais toque na futura
matriarca da Soprattutto — ameaçou, deixando-me em choque. O que estava
acontecendo? — Caso eu veja alguma nova marca na pele de minha noiva,
teremos um acerto de contas.

— O quê? — Minha mãe grasnou, mas com classe. Levou uma mão ao
pescoço e olhou para mim. — De qual absurdo está me acusando?

Pietro, com os olhos cravados sobre ela, ergueu meu braço em resposta.
Perto de meu pulso, havia a marca do beliscão que recebi quando estávamos
jantando. Era o formato perfeito da unha do polegar de mamãe, um risco
vermelho superficial, mas que tinha doído muito na hora. Eu já tinha sofrido
coisas piores do que um simples beliscão.

— Vi o momento exato em que fez isso — declarou ele, quase cuspindo


fogo. Totalmente diferente do homem que passou alguns minutos conversando
comigo.

— Ora, rapaz. Giovanna é minha filha e eu toco nela quando bem entender.
Por acaso, esqueceu-se com quem está falando?

Mamma perdeu a compostura pelo simples fato de chamar um Greco de


“rapaz”. Há algum tempo ela vinha tendo problemas com seu autocontrole e isso
me deixava apavorada. Meu papà era um caporegime muito respeitado dentro da
Soprattutto e comandava grupos grandes de soldatos[9]. Porém, desde que o
câncer de estômago se abateu sobre ele e o transformou quase num vegetal sobre
a cama, ela precisou lidar pessoalmente com todas as responsabilidades que a
posição lhe conferia. Parecia ter envelhecido dez anos em apenas dois e se
tornou amarga, ditadora, fria. Às vezes, passava dos limites.

Pietro deu dois passos à frente até ficar a poucos centímetros dela. Eu engoli
em seco, temendo o que poderia acontecer.

— Penso que é a senhora quem está se esquecendo com quem fala — o tom
de voz dele era sombrio e eu vi minha mãe vacilar. — Sou o futuro Don. Ponha-
se no seu lugar e aja como deve uma matriarca. Sua filha merece cuidado e
respeito, não agressividade. Que ela seja tratada como uma princesa, mesmo que
ainda não compartilhe de meu sobrenome.

Eu já disse que estava apaixonada?

Não tive tempo de me despedir adequadamente, pois mamma me conduziu


— com o rabo entre as pernas — até nosso carro sem parar para olhar para trás.
Até nosso próximo encontro, tudo o que me restaria era sonhar com meu
mafioso.
... Dias atuais

PIETRO

Pisei fundo no acelerador da nova Lamborghini que tinha acabado de


receber. Ao longo dos anos, fui colecionando paixões e uma delas, sem dúvida,
era degustar carros esportes. O modelo Aventador tinha me conquistado assim
que a primeira divulgação foi feita e não tardei em encomendar um exemplar,
importado de meu país natal. Seria uma bela adição para minha estimada
coleção.

Com a madrugada avançada, foi fácil apreciar o prazer que era dirigir uma
máquina com tamanha potência, que nunca me decepcionava. Entrei com pressa
na garagem subterrânea do meu edifício na 5ª Avenida e desliguei o motor.
Estava morando em Nova York há cinco meses, mas sem deixar as
responsabilidades na Sicília de lado.
Mio padre [10] falecera há dois anos, mas teve uma vida muito boa. Morreu
aos setenta e dois devido a uma pneumonia que não se curou e deixou a mim,
meu irmão Enzo e minha mãe, a viúva e dona da porra toda. Como primogênito,
eu era o herdeiro de sua cadeira e logo me tornei o Don da Soprattutto. Nomeei
Enzo, que já tinha vinte e sete anos, meu sottocapo[11], pois era a única pessoa
que eu confiava para deixar em meu lugar durante minha ausência e mantive
Alessandro, o braço direito de meu pai e consiglieri[12] dele, no mesmo cargo.

Os problemas de saúde de Don Enrico e o sentimento de que em breve ele se


iria, tornou a transição ainda mais fácil. Eu já era o sottocapo dele há alguns
anos, então, todos da famiglia estavam familiarizados comigo.

Comandei com o mesmo pulso pesado de meu pai e ainda tive a


oportunidade de expandir nossos negócios. Por mais sábio que meu velho fosse,
ele sempre foi muito apegado às raízes e tradições de gerações passadas. Minha
intenção era estender nossos braços por toda a América, portanto, optei em
fincar residência nos Estados Unidos durante um ou dois anos. Gerenciávamos
setores de imóveis, destilados e tabaco naquele continente, mas tinha pretensão
de adentrar também no ramo de segurança.

Com o poder, vieram as grandes responsabilidades. Apesar da ajuda de Enzo,


eu ainda precisava ficar de olho em tudo e manter sempre meus instintos bem
atentos. Sentia-me mais velho do que nunca. Sempre fiz questão de estar a par de
tudo que envolvia a Soprattutto e meu pai me ensinou com afinco, mas estar de
fato comandando uma rede de milhares de pessoas com minhas próprias mãos
era uma sobrecarga que eu não esperava.

Estava em plena forma aos trinta e três anos, mas minha paciência não
condizia com minha idade. Eu mantinha a mão de ferro nos negócios e
aproveitava bastante minha vida pessoal, mas não me sentia com tempo nem
disposição de interagir socialmente. Diziam as más línguas — e as manchetes —
que o “magnata do império Greco” era tão ruim quanto o próprio demônio e só
tinha interesse em passar a noite cercado de beldades.

Eles não estavam totalmente certos sobre as beldades. Eu gostava sim, e


muito, de foder uma mulher gostosa. Se fossem duas, três ou quatro ao mesmo
tempo, melhor ainda. Mas nunca, em hipótese alguma, passaria a noite com
qualquer uma delas. Já tentei, não posso negar. Há algum tempo cogitei engatar
num relacionamento mais duradouro com Rayka, uma loira maravilhosa que
conheci logo que meu pai faleceu e que me deixou bastante caído. Mas depois de
uma semana comendo o mesmo rabo e sentindo o mesmo corpo encostado ao
meu na cama, fiquei de saco cheio. Ela era linda, rica, elegante, inteligente, mas
sua insistência por algo mais sério me deixou frustrado e irritado. Eu prezava
demais a minha liberdade de ir e vir sem ter que dar satisfação para ninguém.

Continuamos amigos e, de vez em quando, fodíamos sem complicações,


nada além disso. Rayka já tinha aprendido a não esperar demonstrações
sentimentais de minha parte.

— Quer beber alguma coisa, Carlo? — perguntei ao meu fiel escudeiro, o


soldado que sabia mais da minha vida do que minha própria mãe.

— Não, Don Pietro. Obrigado, mas estou de serviço — respondeu, com


postura de guarda como sempre ficava ao chegarmos em casa. Antes de me
deixar sozinho, era função de Carlo averiguar todo o ambiente e descobrir se
havia alguma ameaça no local. Já tínhamos passado por situações extremas que
não gostaríamos de repetir.

— Você não está sempre de serviço? — brinquei, abrindo uma garrafa de


uísque antes mesmo de tirar minha gravata. — Va bene[13], faça seu trabalho.

Enchi metade de um copo e me joguei no sofá. Só depois de vasculhar todo o


apartamento de quinhentos metros quadrados, ele voltou e parou na porta.

— Limpo, senhor.

— Obrigado, Carlo — respondi, erguendo meu copo.

Ele sorriu e se retirou. Tinha um apartamento no mesmo prédio, no andar


abaixo do meu. Eu não precisava de segurança enquanto estivesse em casa, pois
todo o edifício era monitorado pelos meus homens. Além disso, havia comprado
o prédio justamente pela liberdade de mudar e comandar toda a rede de
segurança dele. Ninguém, em sã consciência, atentaria contra a vida de um chefe
da máfia dentro de seu território.

Tomei o último gole da bebida e levantei, deixando a gravata cair pelo


caminho e partindo em direção ao meu quarto. Pretendia tomar um banho, mas
meu celular começou a tocar e ao ver o nome de minha mãe, não pude ignorar a
ligação.
— Ciao, mamma! [14]— Sorri.

— Buonasera[15], querido! Como está?

— Cansado, mas muito bem e com todos os membros nos lugares certos. E a
senhora?

Pela ligação, pude ouvi-la bufar. Giulia Greco ainda não tinha se conformado
com a mudança do seu primogênito e achava que eu corria um perigo enorme
longe das mãos de nossa famiglia. Cansei de explicar que não seria assim, que
me dividiria entre Estados Unidos e Itália, mas o discurso não mudava. Como eu
tinha deixado Enzo à frente dos negócios na Sicília e Alessandro também estava
ao lado dele, a preocupação de minha mãe se dava unicamente pela minha
integridade física. E ciúme. Porque de longe ela não conseguia tomar conta de
cada passo que eu dava nem das mulheres com quem me relacionava.

Quando me mudei, senti um alívio indescritível ao fechar a porta de casa


pela primeira vez e curtir um silêncio único. Claro que eu não os deixara para
trás. Desde então, já tinha feito quatro viagens à Itália e todos sabiam que eu
estava atento a tudo que acontecia em minha ausência. Porém, ter minha
privacidade dentro de casa era algo indescritível.

— Tudo bem por aqui, filho. Eu liguei mesmo para comunicar uma situação
chata e tentar pensar em algo que possa ser feito.

Pelo tom de voz, não devia ser coisa boa. Minha mãe parecia consternada,
talvez ainda mais por ter que compartilhar a informação comigo. Sentei-me na
beira do colchão e aguardei, enquanto tirava os sapatos.

— Diga, mamma.

— É Giovanna, querido. — Revirei os olhos, sabendo que vinha problema


para cima de mim. — Por favor, acesse a internet e entre no site do
L'informatore.

Giovanna! Minha noiva que eu não via há anos. Respirei fundo e coloquei a
ligação em modo de espera, enquanto abria o navegador no celular. Aquele era
um jornal de renome em nosso país e tive medo de descobrir o que ele e
Giovanna podiam ter em comum.
A SICILIANA GIOVANNA MANCINI, NOIVA DE PIETRO GRECO,
É CLICADA EM POSES COMPROMETEDORAS EM BOATE NOVA-
IORQUINA.

Como se a chamada em letras maiúsculas não fosse suficiente, uma foto de


Giovanna claramente bêbada, com vestido de paetê dourado e a calcinha
aparecendo, estampava a página principal do jornal online. A mulher que eu
pretendia desposar um dia estava sentada numa poltrona de veludo dentro de
uma casa noturna, com as pernas abertas de forma muito indecorosa e um copo
na mão. Exibia um grande sorriso e o pirralho filho da puta ao seu lado
repousava a mão em sua coxa.

Respirei fundo, fechei o site e cliquei de novo na chamada em espera.

— Já vi — avisei. — Desde quando ela está em Nova York?

— Acabei de descobrir que Giovanna fugiu de casa há duas semanas.

— E por que só estamos sabendo agora, mamma?

— Aparentemente, Lorenzo tentou abafar o escândalo achando que


conseguiria encontrá-la antes de nós. Ou da imprensa.

Farabutto[16]! Lorenzo era o tio de Giovanna. Depois que o pai dela faleceu
devido ao câncer, Stefania, sua mãe, foi assassinada e nunca encontramos pistas
que levassem ao mandante do crime. Giovanna tinha quinze anos na época e se
tornou responsabilidade de seu tio, um boçal que não tinha tanto prestígio entre
nós e, pelo visto, não sabia lidar com uma adolescente. Minha noiva entrou
numa fase de rebeldia e o homem a mandou para um colégio interno em
Nápoles, o que só a inflamou ainda mais, até que minha Giovanna foi expulsa da
instituição e retornou à casa. Aquele período conturbado coincidiu com a época
do falecimento de meu pai e eu nem mesmo tive tempo de cogitar tomar uma
atitude mais drástica. A última vez em que a vi ela ainda era uma menina de
doze anos.

— O que deseja que eu faça, mamma? — perguntei, com sinceridade. —


Posso descobrir onde ela está, mas e aí? Não acho que Giovanna vai
simplesmente acatar uma ordem minha e voltar para casa.
— Não é essa a nossa intenção, figlio[17]. Lorenzo implorou para que
apressemos o casamento e, dessa forma, você possa tomar as rédeas da situação.

Afastei o celular do rosto e suspirei com força. Que merda minha mãe queria
que eu fizesse?

— Pelos meus cálculos, Giovanna está com dezessete anos. Acha que vou
me casar com uma menor de idade?

A programação da minha vida era muito organizada e levei anos para


esquematizar tudo. Eu não pretendia me casar com a menina antes que ela
completasse vinte e um anos. Muito menos tendo apenas dezessete. Para ser
sincero, estava muito feliz com minha vida de solteiro. Sabia que havia uma
tradição para honrar, um compromisso de anos e a obrigatoriedade de que um
Don devia desposar uma filha da máfia. No entanto, eu era a porra do chefe. Não
deixaria que me pressionassem sobre o assunto.

Tinha vaga lembrança de Giovanna e sabia que fora criada para ser a esposa
perfeita, mas minha atual vida sexual não combinava com uma jovem virgem e
inocente. Eu não pretendia ser um marido infiel, portanto, sentia necessidade de
curtir o máximo possível minha liberdade para levar minha esposa a sério
quando chegasse a hora.

— Claro que não quero que se case agora! — Minha mãe se mostrou
exasperada. — Mas sua noiva fará dezoito anos em breve, Pietro. Daqui a alguns
meses, para ser mais específica.

— Entendi. E o que a senhora quer que eu faça, mamma?

— O tio dela deu autorização para que a capture e a mantenha sob seus
cuidados até o dia do casamento. Entenda, Pietro, que essa menina está
clamando por atenção e precisa de ajuda.

— Ou seja, Lorenzo quer que eu a sequestre e faça dela uma prisioneira? —


perguntei com muito sarcasmo na voz. — Será uma relação agradável, posso
imaginar.

— Não seja tão dramático! Basta levá-la para morar com você. Lorenzo e eu
confiamos que não irá manchar a reputação da moça.
Gargalhei tão alto que a senhora Giulia Greco, temida mamma da famiglia,
desligou a ligação na minha cara. Não manchar a reputação da moça! Era
alguma piada? Meu quarto cheirava a sexo e a rotatividade dentro daquele
apartamento era enorme.

Retornei a ligação e fui atendido por uma voz ressentida.

— Desculpe, mamma — pedi, controlado. Era a única pessoa no mundo para


quem eu abaixava a cabeça. — Porém, preciso que me entenda. Sou homem e
tenho necessidades sobre as quais não entrarei em detalhes com a senhora.
Depois da reforma que fiz, o único quarto do apartamento ficou sendo o meu.
Como quer que eu traga Giovanna para cá? Isso sem contar que estamos
deixando o principal de fora: ela não aceitará permanecer em cárcere privado.

— Pietro Fillipo Greco. — Eu me empertiguei. — Você é o Don da


Soprattutto e foi treinado para coisas muito piores. Não me diga que não
consegue domar uma jovem de dezessete anos, que ainda por cima é apaixonada
por você. Quanto ao seu apartamento e estilo de vida, mude. Honre a palavra de
seu pai. Preciso pedir de novo?

Ninguém, absolutamente ninguém, dizia não àquela mulher.

— Sim, senhora — respondi, desanimado.


GIOVANNA

Susan me entregou uma garrafa de cerveja e gritou em comemoração a nada


em especial. Era apenas mais um dia feliz. Eu estava vivendo a minha vida do
jeito que queria, sem ordens, cobranças e porcaria nenhuma de tradição. Pela
primeira vez na vida podia dormir e acordar sem ter que dar satisfação de nada
para ninguém.

— Acho melhor irmos embora depois dessa saideira! — gritou ela para ser
ouvida sobre a música pop ensurdecedora.

Confirmei, sem realmente concordar. Na verdade, era a nossa terceira


saideira e eu não sentia vontade alguma de ir embora. Queria aproveitar a
liberdade ao máximo, cada segundo da minha nova vida.

Digo nova, pois nunca mais retornaria à antiga. Desde as mortes dos meus
pais, só vivia em sofrimento. Ninguém se preocupou em saber o que eu sentia e
o que queria. Sentia-me despedaçada e nunca fui mais infeliz. Na minha cabeça
idiota, cheguei a cogitar que Pietro Greco apareceria de repente, montado em seu
cavalo branco, pronto para me resgatar em algum momento do inferno em que
me afundei.

Nunca aconteceu. Tudo que eu sabia sobre meu noivo era o que ouvia falar
pelos jornais, revistas e até mesmo pela boca do povo. O novo Don da nossa
maldita famiglia. Com o tempo, percebi que eu não significava nada para o
babaca. Era apenas um pedaço de papel que nossos pais tinham assinado. Uma
âncora na vida dele. Porque cá entre nós, não precisava ser tão expert em
notícias para saber que Don Pietro era o maior cachorrão que a Itália já vira.
Talvez que todo o continente europeu já tivesse conhecimento. Desfilava cada
dia com uma mulher diferente enquanto eu tinha sido criada a ferro e fogo para
me preservar.

Possuía profundas marcas internas, mas ainda era virgem, para meu
desgosto. Eu odiava a minha vida. Odiava minha família. Odiava aquelas
tradições estúpidas. Odiava a Itália, a máfia e todas as merdas que vinham junto
com ela.

— Que vá todo mundo pra puta que pariu! — gritei e subi em cima da mesa
redonda, sentindo tudo girar ao meu redor. Sabia que estava bastante alcoolizada,
mas não o suficiente para desmaiar. Então, tudo bem.

Susan gritou em comemoração, apesar de nem imaginar a quem eu me


referia. Negra, de cabelo afro, olhos escuros e um corpo escultural, ela era
empoderadíssima. Uma amiga que eu tinha feito logo que cheguei fugida à Nova
York. Sabia que eu era italiana, mas achava que se tratava apenas de um caso de
uma jovem mochileira.

Aquela garota possuía uma fidelidade genuína, pois mal nos conhecíamos e
eu já sentia que seríamos eternamente amigas. Quando cheguei aos Estados
Unidos, não tinha planejado muita coisa. Tinha fugido de casa com um
passaporte falso, uma passagem só de ida e pouco menos de quinhentos euros
que roubei do cofre de Lorenzo — dinheiro que na verdade, era meu por direito
e ele confiscava tudo. Pretendia procurar um apartamento bem simples para
alugar e arranjaria um emprego o quanto antes, mas no meu segundo dia em
Nova York fui assaltada ao entrar numa lanchonete.
O ladrão estava rendendo os clientes e cheguei no momento errado. Quando
ele saiu, levou também minha bolsa com dinheiro, passaporte e celular. Não me
sobrou grana sequer para comprar um refrigerante. Susan era uma cliente que
viu meu desespero e me abordou, tentando me tranquilizar. Quando contei minha
situação, ela não pensou duas vezes antes de me convidar para dormir em sua
casa. Eu aceitei, pois as outras duas opções eram dormir na rua ou ligar para meu
tio. A garota morava num apartamento pequeno, mas muito charmoso no
Brooklyn e trabalhava numa loja de vestuário feminino na 5ª Avenida.

Ergui os braços, pulando junto com as batidas de uma música da Lady Gaga
e fechei os olhos quando tomei um banho de cerveja. Não ligava. Ao abri-los,
deparei-me com uma cena intrigante. Homens de terno marchavam na minha
direção como se fossem cães de guarda sedentos por um pouco de carne fresca.
Olhei em volta para ver se alguém mais percebia o que estava acontecendo, mas
todos estavam ocupados em suas próprias bolhas de diversão.

E então, eu parei de dançar quando o vi. Talvez estivesse tão bêbada que
começava a sofrer alucinação. Os engravatados apenas tinham aberto caminho
para seu dono. O diabo de terno como todos os outros que o cercavam,
destoando completamente do público que frequentava aquele lugar. Ele
caminhou sem pressa até mim, com olhos azuis ferinos de quem não estava
muito feliz. Eu não o via pessoalmente há muitos anos e achei impressionante
como conseguia ter se tornado ainda mais bonito do que eu me lembrava. Com
certeza devia beber o sangue de seus inimigos para ser tão...

— Olá, senhorita Mancini — disse com uma voz aveludada que não fazia jus
ao olhar que indicava vontade de me esganar. — Por favor, desça daí para que
possamos conversar.

Só quando pisquei me dei conta de que estava parada com uma mão na
cintura e a outra segurando a cerveja. Quem o idiota achava que era para me
abordar como se tivéssemos nos encontrado no mês anterior? Não nos víamos há
cinco anos!

— Marque uma hora em minha agenda lotada — respondi, virando de lado


para não mais o encarar.

Abaixo de mim, Susan olhava boquiaberta para o homem mais lindo que ela
provavelmente já vira. Depois, lembrou-se de minha existência e levantou o
rosto para mim. O gesto labial indicava que necessitava de informações sobre a
belezura de terno.

Dei de ombros e gritei quando meus pés saíram do chão e fui jogada sobre o
ombro do um troglodita. Pietro não se incomodou com meus gritos e chutes
enquanto me carregava para fora da boate, com a mão na minha bunda.

— Eu ordeno que me solte! — gritei. — Solte-me, seu idiota! Você vai pagar
muito caro pelo que está fazendo! Ei!

Do lado de fora, três SUV’s negras nos aguardavam e antes que eu


conseguisse protestar ou gritar para que Susan chamasse a polícia, fui jogada
dentro de um dos carros. O babaca entrou logo em seguida e mal teve tempo de
fechar a porta antes que os pneus chiassem contra o asfalto.

— O que pensa que está fazendo? — gritei, encostando-me na porta oposta e


tomando distância dele. — Exijo que me deixe sair imediatamente.

— Isso não vai acontecer — declarou, mexendo no relógio em seu pulso e


ajeitando os punhos da camisa. Por que eu estava descabelada e ofegante
enquanto o maldito não tinha um fio de cabelo fora do lugar? Eu nem tive
oportunidade de enforcá-lo com a própria gravata.

Olhei em volta, tentando ser racional. Era algo difícil de se fazer depois das
seis cervejas que tomei.

Estávamos num carro com motorista e segurança no banco do carona. O


veículo da frente fazia o mesmo caminho e era similar ao nosso, portanto,
estávamos sendo escoltados. Atrás, a mesma coisa. Mesmo que as portas
estivessem destrancadas — o que eu sabia que não aconteceria — e eu me
jogasse do carro em movimento, não era idiota a ponto de achar que conseguiria
fugir daquele tanto de seguranças. Eram homens treinados pela máfia italiana,
dariam conta facilmente de uma bêbada com salto alto.

— Está mais calma? Podemos conversar? — perguntou Pietro, mas eu não


me dei ao trabalho de responder nem olhar para ele. — Seu tio ligou para minha
mãe e pediu ajuda, disse que fugiu há algumas semanas. Isso é verdade?

Estremeci à menção de Lorenzo, mas acho que consegui disfarçar bem. No


entanto, continuei calada. Precisava saber o que estava acontecendo e o que
Pietro tinha em mente. De forma alguma eu voltaria para aquele inferno da
Sicília. Não pisaria novamente em casa. Só se fosse para retornar dentro de um
caixão.

PIETRO

Custei a acreditar que a garota dançando sobre a mesa da boate era


Giovanna. Enquanto caminhava na direção dela, a menina rebolava e fazia caras
e bocas tão vulgares que poderiam protagonizar um vídeo pornô. Se eu a tivesse
visto de costas em outro momento, não perceberia se tratar da italianinha. A
menina tinha crescido, era um fato. Ganhara um corpo bonito e cheio de curvas e
eu poderia ter arrancado os olhos dos dois babacas que encaravam a bunda dela.

Agora, dentro do carro, Giovanna fedia a cerveja. Usava um vestido verde


tão curto e justo que ele tinha subido até a virilha, expondo as grossas coxas
brancas, dando-me até um vislumbre de sua calcinha branca. O cabelo liso de
criança deu lugar a ondas volumosas e o rosto de menina estava carregado com
tanta maquiagem. Não era, nem de longe, a Giovanna que conheci.

— Será que posso saber para onde está me levando? — Foi a primeira coisa
que disse durante quase quinze minutos em que estivemos dentro do carro.

— Para minha casa. — Enfim, ela me olhou, assustada. — Estou morando


aqui há cinco meses.

— Se soubesse que estava morando aqui, acredite, teria sido meu último
destino — defendeu-se, cruzando os braços e abraçando o próprio corpo.

Antes que eu respondesse, a SUV entrou na garagem subterrânea e


estacionou ao lado da minha Ferrari. Em poucos segundos, Carlo abriu a porta.
Eu saí e estiquei a mão, mas minha noiva rebelde se encolheu, virando a cabeça
para o outro lado.

— Você vai vir com suas próprias pernas ou precisarei carregá-la de novo?

O rosto virou para mim e um lapso de consciência passou pelos olhos azuis
destacados pelo delineador, sombra e rímel. Giovanna lambeu os lábios e
deslizou pelo banco sem discutir. Seu estado alcoolizado não deixava que tivesse
modos, de forma que o vestido já não escondia muita coisa. Tratei de tirar meu
paletó e segurei diante de suas pernas quando ela saiu, tentando evitar que Carlo
visse o útero de minha futura esposa.

Deixei os outros seguranças para trás, dispensando-os, e conduzi Giovanna


para o elevador. Encostada à parede espelhada e de olhos fechados, ela quase
parecia um zumbi. Troquei olhares com Carlo, que estava compadecido com o
estado lastimável da garota.

— Acho que não precisamos de checagem hoje — disse, para ficarmos a sós
e deixá-la mais confortável.

— Don Pietro, eu...

— É uma ordem, Carlo — interrompi o discurso que conhecia bem. — Vá


para casa.

Sendo assim, ele desceu um andar antes do meu. A porta do elevador abriu
em meu hall social e cutuquei a mão de Giovanna para que despertasse do
transe. Com os olhos vermelhos, ela cambaleou para fora e sequer perdeu tempo
conferindo o ambiente, apenas se jogou na primeira poltrona que viu.

— Deixaremos a conversa importante para amanhã. Pode tomar um banho e


se deitar, providenciei algumas roupas para a senhorita.

— Vá à merda com essa droga de senhorita! — esbravejou, sentando-se na


beira do assento e parecendo mais desperta. — Sou apenas Giovanna e não
pense que vou chamá-lo de senhor.

Não sei se eu estava muito apegado à imagem que tinha dela criança e
esperava que as coisas continuassem iguais, mas a verdade é que me choquei
com o palavrão sendo proferido rispidamente. Eu responderia, se ela não tivesse
se curvado para frente e vomitado todo o álcool que ingeriu. Ignorei a sujeira em
meus sapatos e me aproximei para segurar seus ombros, esperando que parasse
de se contorcer. Estava gelada e trêmula, algo normal para o estado em que se
encontrava.

— Giovanna — falei, sem tratamento especial, para não a irritar ainda mais
—, acalme-se e vá tomar um banho, pois vai se sentir melhor. Se não for por
livre e espontânea vontade, eu mesmo a levarei para o chuveiro. Sabemos que
não é isso que deseja.

— Não ouse tocar em mim — ela parecia quase rosnar quando se levantou,
ignorando seu estado trêmulo e limpando a boca com as costas da mão. — Onde
fica o banheiro?

Dei as coordenadas para o único banheiro da casa, dentro do meu quarto. O


apartamento tinha sido todo reformado para atender apenas às minhas
necessidades, portanto, não me preocupei com esse tipo de coisa. Preferi
derrubar tudo e construir do jeito que queria, mantendo apenas uma suíte com
um closet fenomenal e optando por ambientes mais espaçosos. Não tinha
costume de receber visita, apenas as mulheres que nunca passavam a noite toda.

Afundei a cabeça entre as mãos enquanto observava Giovanna cambalear


pela minha sala e tirar a calcinha de dentro da bunda, sem o menor traço de
requinte.
GIOVANNA

O filho da puta me mandou tomar banho onde, claramente, era o banheiro


dele. O diabo em pessoa. Não ousei entrar na hidromassagem que devia ter
fluidos de todas as mulheres da cidade, preferi o chuveiro.

Sendo assim, fiz questão de usar todo o shampoo que estava à disposição e
esvaziei o frasco do sabonete líquido — no corpo e, depois, no ralo. Tudo
parecia ser muito caro, então eu o faria sofrer. Quando terminei o banho e parei
diante do espelho, vi que sobre a bancada de mármore branco, havia oito frascos
de perfumes diversos e fiz questão de perfumar o encanamento com um deles.

Enrolei-me num roupão, rezando para que estivesse bem limpo, e saí do
quarto. Soube que o diabo esteve rondando o recinto porque havia uma muda de
roupas sobre a cômoda ao lado da porta. Puxei-a com pressa e voltei a me
trancar no banheiro. Vesti a camiseta e a calça de moletom, sentindo-me bem
com elas. Eram do meu tamanho, pelo menos.
Quando voltei a abrir a porta, passei com pressa pelo quarto e então, parei.
Para onde iria? Não conhecia nada naquele apartamento e não sabia onde o Don
estava.

— Está com fome? — pulei com o susto ao ouvir a voz bem atrás de mim.
Minhas costas se chocaram contra a parede e o encarei, ofegante. — Sua
aparência está melhor, mas acho que antes de se deitar, deveria comer alguma
coisa.

— De onde você saiu?

— Estava no closet.

Sem querer, meus olhos me traíram e correram pelo corpo escultural à minha
frente. Pietro tinha trocado o terno por uma camisa surrada e uma calça de
moletom. Portanto, tudo levava a crer que ele curtia mesmo aquele tipo de roupa.
Era a primeira vez que eu via seus braços de fora. Estava sempre de terno e,
mesmo no carro quando tirou o paletó, eu não cheguei a prestar atenção. A pele
ostentava um brilho dourado e veias protuberantes tomavam conta de seus
pulsos, estendendo-se até os cotovelos. Estava descalço e parecia quase normal.
Quase, porque a aura de Don filho da puta ainda o cercava.

— Aceito a comida — disse, ajeitando meus ombros. — E prefiro conversar


hoje mesmo, para poder ir embora o quanto antes. Assim que amanhecer, de
preferência.

— São duas da manhã. — Ele simplesmente passou por mim e caminhou na


direção do que eu esperava ser a cozinha. — É uma conversa séria demais para
tratarmos a essa hora e, ainda por cima, com você ainda alcoolizada.

Bufei, sentindo que ele estava me tratando como uma criança que precisava
obedecer a ordens. Paramos no que devia ser a sala de jantar, com uma mesa
parcialmente posta, com suco, pão e algumas frutas. Nem esperei me sentar
antes de agarrar uma maçã e mordê-la com vontade. O homem se juntou a mim,
puxando uma cadeira ao lado e esticando os pés sobre outra. Até os pés do
desgraçado eram bonitos.

— Por esta noite, você dormirá em meu quarto e eu ficarei no escritório.


Amanhã vou providenciar uma cama para colocar lá e, aos poucos,
transformaremos aquilo em algo parecido com o quarto de uma moça.
Engasguei com um pedaço de maçã e lacrimejei, achando que morreria. Por
fim, quando consegui me recuperar, enxuguei os olhos e o encarei. Pietro tinha
um rosto másculo, maxilar marcado e lábios tão delineados que faziam você
sentir vontade de contorná-los com o dedo. O cabelo era da mesma cor que eu
lembrava, um castanho médio que carregava um reflexo dourado igual ao de sua
pele. E a barba. A barba! O homem era mesmo um diabo, com aquela penugem
serrada que devia ser macia ao toque, mas áspera o bastante para arrepiar a pele.

Debrucei-me sobre a mesa e bati a testa no tampo de vidro, querendo morrer.


Eu devia estar traçando uma rota de fuga, não delirando com a beleza de alguém
que eu detestava.

— Acho que surtou por achar que ficarei nesta casa, sob o mesmo teto que
você — comentei, de cabeça baixa.

— Você vai morar aqui, Giovanna — declarou a voz grossa ao meu lado. —
Na nossa casa.

Ergui a cabeça com tanta pressa e força, que senti um choque no pescoço.
Pietro exibia um olhar tranquilo demais para quem tinha acabado de pronunciar
tamanha asneira. Será que tinham colocado alguma substância alucinógena na
minha bebida e eu estava delirando? Será que ainda estava na boate, deitada em
alguma poltrona, enquanto sonhava com Pietro?

— Nossa casa? Não somos casados. Aliás, não quero mais me casar com
você.

A cadeira foi arrastada com rapidez quando ele se levantou, pairando sobre
mim. O homem era alto e grande, obrigando-me a jogar a cabeça para trás e
encará-lo. Espalmou as mãos no vidro da mesa e desceu o rosto para se
aproximar do meu. Com a beleza que possuía, poderia se passar por um modelo
fotográfico, caso não encarasse a pessoa nos olhos. Porque em seu olhar, estava
estampado todo o poder que somente um chefe da máfia italiana poderia
ostentar.

— Acho que não entendeu, então vou repetir — disse, ameaçador. — Sua
casa será esta, sem negociação. E nosso casamento acontecerá tão logo complete
dezoito anos. Não tenho o pulso fraco de seu tio, não tente me enfrentar. Eu
estou sendo gentil e compreensivo por sua condição de órfã, mas não tolerarei
esse comportamento por muito tempo. Posso vir a ser seu amigo, esposo e
protetor. Ou posso me tornar seu pior inimigo, Giovanna. Sangue da Soprattutto
corre em suas veias, portanto, deve respeito à famiglia. E eu sou seu Don.

PIETRO

Odiava confrontá-la daquela forma, mas era necessário. Sentia-me mal em


ter que falar daquele jeito com uma pessoa por quem tinha carinho. A Giovanna
menina que conheci anos atrás ainda estava impregnada em minha memória, era
difícil me desprender daquela imagem e ter que aumentar o tom de voz com sua
versão rebelde. Porém, sabia que precisava domar a fera o quanto antes ou a
situação sairia ainda mais do controle. Tentei poupá-la das duras palavras, mas
quando percebi que ela me enfrentaria, não vi outra saída.

Seus olhos azuis estavam marejados e os lábios trêmulos, prontos para


chorar. Senti que poderia fraquejar diante daquela expressão, mas cerrei os
dentes e me contive. Ela parecia outra pessoa depois do banho. O rosto livre de
maquiagem deixava à mostra os traços de inocência, como eu tinha conhecido.
Mas sua boca era um atentado ao pudor, de tão grossos e rosados eram seus
lábios. Convidativos.

— Gostaria de me retirar — disse ela, de cabeça baixa e olhos grudados nas


mãos pousadas sobre a mesa.

— Fique à vontade. — Dei o espaço para que se levantasse e deixei que se


fosse. Por hoje, tinha sido o bastante.

Mantive a postura e não deixei de encará-la até que sumisse pelo corredor.
Só então, sentei-me e respirei fundo. Precisava colocar a mente em ordem e
projetar meus próximos passos. Quantos problemas eu teria trazido para minha
vida, aceitando que Giovanna viesse morar comigo e antecipando nosso
casamento? Era visível que ela não estava preparada.

Tirei a mesa e fui guardar as coisas, notando que ela praticamente não
comeu. A única fruta que tocou, estava mordida pela metade. Pensei se deveria
bater na porta do quarto e entregar, pelo menos, um copo de suco, mas desisti da
ideia. Se sentisse necessidade, saberia onde encontrar tudo. Era espertinha o
bastante para se embebedar e requebrar a bunda. Não morreria de fome.
GIOVANNA

Acordei com os olhos inchados de tanto que chorei na noite anterior. Sentia
ódio, medo e tristeza. Nada daquilo era para acontecer, eu devia estar
aproveitando minha liberdade e curtindo ao lado de Susan.

Susan, meu Deus! O que a garota estaria pensando? Tudo que ela sabia era
que eu tinha sido agarrada e retirada da boate por um troglodita gostoso. Será
que tinha chamado a polícia? Será que fazia alguma ideia de quem era o homem
que me sequestrou? E minha bolsa, onde estaria?

Rolei na cama, sobre lençóis tão macios que quase faziam eu me sentir nas
nuvens. O cheiro do diabo estava impregnado nos travesseiros, portanto, tinha
jogado tudo para o lado e não me importei em dormir com a cabeça no colchão
puro. Agora, enquanto encarava o teto, puxei um dos travesseiros e abafei meu
rosto com ele. Inspirei profundamente, decorando o que não tinha certeza de ser
um perfume ou apenas o cheiro natural do Don.
Deixei-o de lado e olhei em volta. O quarto era imenso, muito amplo e claro,
decorado em tons que iam do branco ao bege. A parede do lado direito da cama
era toda tomada por cortinas do teto ao chão e à esquerda havia um sofá que
parecia muito confortável, de frente para uma enorme tela com projetor preso ao
teto.

Sentei-me na cama e encarei o que devia ser a entrada do closet, mais à


frente. Uma parede de vidro separava os ambientes, mas não senti vontade
alguma de ir até lá. Dormir na cama dele já tinha sido a cota diária suficiente.

Pisei sobre o tapete felpudo e deixei que meus dedos absorvessem o calor
dos pelos, enquanto usava o tempo para pensar em meu próximo passo. Como eu
faria para fugir? O prédio era de luxo e eu sabia que um Don vivia cercado por
seguranças, mas tinha que encontrar uma brecha. Precisava descobrir a senha do
apartamento e, principalmente, do elevador.

Fui até o banheiro e peguei a escova de dentes sobre a bancada de mármore


branco. Fiz minha higiene pessoal e deixei o quarto. A casa estava em silêncio,
portanto, achei que estivesse dormindo. Não sabia onde ficava o escritório, então
andei por tudo até chegar à cozinha.

— Bom dia, Giovanna. — Para meu espanto, ele estava passando um café.

Congelei no lugar, pelo bem da minha sanidade. Pietro estava sem camisa e
com a mesma calça de moletom da noite passada. Felizmente, ele se manteve de
costas e não viu quando meu queixo caiu. Ali estava a marca da Soprattutto, que
somente a alta hierarquia — e apenas os homens — podiam exibir. Era o
desenho de uma estrela, com um coração em seu interior e uma serpente que
rodeava ambos os símbolos, enroscando-se neles. A tatuagem começava em suas
escápulas e descia até seu cóccix. Conforme o Don se mexia, seus músculos
davam a impressão de que a serpente estava viva.

Meu pai possuía uma idêntica, só que em menor tamanho.

— Continuará me analisando por muito tempo ou prefere aplacar a fome?

Marchei até a grande ilha no centro da cozinha e apoiei as mãos no granito.


Sentei-me numa banqueta de inox no instante em que Pietro se virou para mim e
trouxe o café até a bancada. O banco suportou meu peso quando minhas pernas
formigaram ao encarar o restante daquele corpo. Era O corpo. Um peitoral
definido demais e um abdômen trincado, embelezados pela pele dourada
maldita. O que Don Enrico, que Deus o tenha, fizera com Pietro? Mergulhara o
bebê num pote de ouro?

— Caso goste de café, o meu é bem forte — avisou, empurrando uma xícara
para mim.

Envolvi a cerâmica com minhas mãos molengas que ainda não tinham
voltado a corresponder ao corpo, visto que eu estava catatônica. Eu o odiava,
precisava manter isso em mente.

— Deixarei que se sirva, pois precisa se ambientar ao lugar. A geladeira está


sempre abastecida, assim como a despensa. Caso não saiba cozinhar e precise de
algo feito no fogão, basta pedir.

— Você não tem empregados? — Aquele detalhe estava me tirando a paz. Eu


me lembrava perfeitamente do tamanho da casa e da quantidade de empregados
que Don Enrico possuía na Itália.

— Apenas faxineiras. Não acho necessário ter alguém cozinhando para mim,
pois não passo muito tempo dentro de casa. — Ele puxou uma banqueta do outro
lado do balcão e se sentou, de frente para mim. — Por falar nisso, preciso
informá-la. Duas faxineiras vem todas as segundas e sextas. O acesso delas é
pela entrada dos fundos. Elas não possuem senha, portanto, é necessário que
alguém aqui de dentro autorize o destravamento do elevador. Geralmente, um
segurança fica de prontidão.

— E onde você estará? — perguntei, porque era importante conhecer sua


rotina para programar uma rota de fuga.

— Trabalhando. — Ele arqueou uma sobrancelha e entendi que se referia aos


negócios da famiglia. Eu não era parente para que entrasse em detalhes obscuros.

Colocando meu plano em ação, beberiquei o café e depois me levantei. Abri


e fechei algumas portas e encontrei potes de geleia. Escolhi um de laranja e
procurei por torradas. Em seguida, voltei para a bancada, mas parei ao lado do
Don.

— Abre para mim, por favor? — pedi com a voz manhosa, encostando-me
no braço dele propositalmente.
O diabo sequer me olhou, apenas pegou o pote, abriu a tampa e o colocou
sobre o granito. Minha investida não tinha dado certo, mas em algum momento
surtiria efeito. Ele era homem, afinal de contas, e eu sabia que gostava muito de
mulher. Não tinha como resistir por muito tempo à sedução feminina.

Voltei ao meu lugar e comi a contragosto. A geleia devia ser doce, mas
descia amarga pela minha boca, conforme eu percebia que não conseguiria fugir
tão rápido.

— Seu cabelo natural, então, é esse? — perguntou, analisando-me com seus


olhos azuis.

— Minha mãe alisava porque eu precisava parecer uma boneca perfeita.

— Gosto mais assim — revelou, pegando-me de surpresa, com um pedaço


de torrada a caminho da boca. — Tira um pouco aquele ar forçado de inocência
virginal e valoriza bastante seu rosto.

— Que pena. Estou pensando em cortar. Talvez, raspar tudo.

Pietro gargalhou. Gargalhou. Levei um susto com o som, porque não me


lembrava que ele podia ter reações divertidas como aquela. Há muitos anos eu só
o via sério quando saía alguma foto na mídia.

Ele puxou a geleia e o pacote de torradas, servindo-se um pouco.

— Sinto muito por seus pais — disse tranquilamente, como se estivesse


falando de marcas de creme dental. — O assassinato de sua mãe culminou com
minha coroação e tudo se tornou um caos em minha vida. Ser treinado para isso
é bem diferente de realmente viver na pele de um Don. Quando consegui me
organizar, seu tio já a tinha enviado para Nápoles. Eu a procurei quando soube
de seu retorno, mas Lorenzo pediu que eu me mantivesse distante, pois você
estava passando por um momento difícil demais.

Deixei a faca cair e o barulho contra o granito foi estridente.

— Você esteve em minha casa? — perguntei, atônita e com o coração


acelerado. Meu Deus, do que mais meu tio seria capaz?

— Sim, estive. Não pude ir até você quando mais precisou, depois da morte
de sua mãe. Foi um erro meu e, depois, errei novamente por aceitar o pedido de
seu tio. Acreditei que fosse mesmo o melhor a ser feito, deixar que você vivesse
sua adolescência sem interferência minha. Minha rotina corrida também não me
deixou pensar direito. Admito que foi mais fácil achar que você estava bem. —
Pietro franziu a testa. — Lorenzo não contou que eu a procurei?

Balancei a cabeça em negativa. Eu nunca soube daquela visita. Ele não


queria que eu soubesse, afinal, a presença de Pietro em minha vida poderia ser
catastrófica para a dele. Mordi meu lábio e perdi a fome. Queria vomitar,
portanto, levantei e corri para o banheiro.

— Giovanna!

Ignorei o grito de ordem e sumi pelo corredor. Consegui me ajoelhar diante


do vaso antes de colocar a pouca comida que ingeri para fora. Senti mãos em
meu cabelo quando afundei minha cabeça no vaso e chorei em silêncio para que
o Don não escutasse.

— Vou preparar um suco infalível para ressaca. É ruim, mas será obrigada a
tomar tudo.

Ergui meu polegar, porque seria muito melhor ele acreditar que estava
passando mal por causa da bebedeira. Senti quando se levantou e se afastou, mas
não deixou o banheiro. Devia estar se dando conta de que seus preciosos objetos
estavam todos fora do lugar, mas o único som que eu escutava era o de sua
respiração forte. Queria que ele notasse que até sua escova de dentes tinha sido
usada.

Esperei que saísse e tranquei a porta por dentro, encostando-me nela e


deixando o choro correr livre. Sentia-me um pouco cansada, mas não podia me
deixar vencer. Sofreria o que fosse preciso naquele instante e, em seguida, sairia
do banheiro de cabeça erguida, pronta para a próxima batalha.

Esfreguei meus olhos, tentando secá-los. Então Pietro tinha ido me visitar e
eu nem fiquei sabendo. Óbvio que não, meu tio não permitiria isso. Suspirei,
pensando em como muita coisa poderia ter sido diferente se Pietro, naquela
época já sendo o Don da Soprattutto, tivesse me encontrado e dado continuidade
aos nossos encontros. Eu o odiei todos os dias por ter me ignorado, por ter me
abandonado, por ter esquecido de minha existência. Eu o odeio por tudo que
aconteceu comigo.
Meu estômago estava embrulhado, mas mesmo me curvando novamente
sobre o vaso, não havia mais o que colocar para fora. Com esforço, levantei-me
e abri a torneira da pia. Joguei uma água no rosto para disfarçar a cara de choro e
gargarejei com enxaguante bucal.

Quando saí, um copo enorme com um líquido verde grotesco me esperava


sobre a cômoda. Cheirei o conteúdo antes de colocar na boca, mas decidi beber
tudo num gole só. Eu me afastei quando Pietro apareceu, mas a intenção dele era
apenas entrar no banheiro e então, trancou-se lá dentro.

Permaneci imóvel até ouvir o barulho do chuveiro. Corri pelo quarto e entrei
no closet, encontrando algumas sacolas de compras sobre um recamier. Eram de
lojas femininas, portanto, tudo ali devia ser para mim. Felizmente, o diabo tinha
se preocupado com calçados. Peguei um par de sapatilhas que ficaram um pouco
largas e saí do quarto. Precisava usar a vantagem a meu favor. O Don não sairia
correndo de toalha atrás de mim, então era a oportunidade perfeita para fugir.

Porém, estaquei ao chegar na ampla sala e dar de cara com o homem que
conheci na noite passada. Lembrava-me de Pietro chamá-lo de Carlo.

— Bom dia, senhorita Mancini — cumprimentou-me cheio de pompas,


meneando a cabeça e com os braços atrás das costas. — Eu me chamo Carlo e
sou o segurança pessoal de Don Pietro.

— Bom dia — respondi, com educação. Não precisava criar atritos com um
cão feroz da máfia. Sabia bem que pelo chefe, ele seria capaz de me arrastar
pelos cabelos, nua, em plena 5ª Avenida.

— A senhorita se sente melhor? — perguntou e algo em seu olhar o fazia


parecer sincero em sua preocupação.

Eu me desarmei e sentei no sofá de couro marfim, mais um item que fazia


parte de toda a decoração clean e minimalista daquele apartamento. Jurava que
um chefe da máfia optaria por algo mais sombrio e luxuoso, mas tudo à minha
volta era exatamente o contrário.

Observei Carlo diante de mim, em posição de guarda, com um ponto de


escuta num dos ouvidos. Usava terno, mas eu sabia que em sua cintura escondia
duas pistolas, além da que guardava na perna. Procedimento padrão de toda a
segurança da famiglia.
Ele tinha um olhar marcante, mas sua postura elegante e sua ótima aparência
não o transformavam num homem que metia medo. O cabelo era negro de corte
reto e simples, os olhos escuros e as sobrancelhas grossas. Não era de uma
beleza avassaladora como a de Pietro, mas estava longe de ser considerado um
homem mediano. Era alto, esguio, sem a montanha de músculos que eu
costumava ver protegendo os empresários americanos. Nossos soldados não
precisavam impor sua presença com força física. A famiglia prezava mais pela
aparência e elegância.

— Sinto-me prisioneira — lembrei que ele esperava por uma resposta. —


Seu chefe acha que sou alguma peça de lego que ele adquiriu para o castelo dele.

— Don Pietro está verdadeiramente preocupado com seu bem-estar.

— Jura? — Franzi a testa. — E onde ele se escondeu durante todos esses


anos?

— Administrava os negócios da famiglia. — Senti que Carlo acreditava


muito na resposta que deu. Ele era fiel a Pietro.

— Incrível como ele conseguiu tempo suficiente para dormir com todas as
vagabundas da Itália.

O homem se manteve inexpressivo. Nada que eu dissesse sobre seu chefe o


tiraria do sério.

— Não apenas da Itália, querida. — O diabo em pessoa surgiu na sala,


vestido de forma impecável dentro de um terno risca de giz chumbo. Ele ajeitava
os punhos da camisa e nem me olhava. — Se é para falarmos de minha vida
sexual, sejamos justos. É preciso expandir a lista de nacionalidades que já
passaram pela minha cama. Viajei a mais de trinta países só nos últimos dois
anos.

— Vai pro inferno! — Levantei-me e tentei passar por ele, queria procurar o
tal do escritório onde eu seria mantida prisioneira. Pietro segurou meu pulso e
me puxou.

— Só voltarei à noite, mas não pense que ficará sozinha. Deixarei um


segurança aqui dentro e dois do lado de fora do apartamento. Além disso, tenho
soldados por todo o quarteirão. Nem se dê ao trabalho de tentar alguma coisa. —
Quando ele estreitava os olhos e as sobrancelhas ficavam muito retas, seu olhar
tornava-se sombrio. — Lembre-se que pode ter um aliado ou um grande inimigo.

— Sim, senhor — respondi e bati continência.


PIETRO

Sabia que o certo seria tirar um tempo para passar com Giovanna e tentar
colocar juízo na cabeça dela, mas meu dia seria tão cheio que o cronograma
estava apertado. Sequer consegui parar e pensar na dimensão dos problemas em
que estava me metendo. Desde que minha mãe ligara para contar sobre o
escândalo da calcinha, coloquei todos os meus contatos nova-iorquinos atrás
dela e levou seis dias para que alguém me retornasse. Eu estava em casa,
mandando uma mensagem de texto para Rayka, uma de minhas fodas fixas,
quando Carlo surgiu na sala e me deu a notícia. Tinham visto Giovanna entrar
acompanhada de uma amiga numa boate no Queens. Cancelei a noite de sexo e
fui atrás dela antes que sumisse novamente.

A situação, porém, era pior do que eu imaginava. Em poucas horas de


convivência tinha entendido que a menina parecia machucada, apesar de não
fisicamente. Estava confusa, amarga e arisca.
— Bom dia, Don Pietro — um soldado me cumprimentou ao abrir a porta do
terraço para mim. — O piloto já está à sua espera.

Meneei a cabeça e passei por ele. Precisava dar um pulo em Long Island e
achei melhor usar o helicóptero que ficava à minha disposição no heliporto do
edifício. Para essa ação, levaria apenas Carlo comigo, pois não permaneceria lá
por muito tempo. Faria uma visita à sede da Invictus, a vodca que ganhava cada
vez mais espaço no país.

— Carlo, quando voltarmos, providencie a vinda de Alessandro para cá.


Gostaria de tê-lo por perto nos próximos dias, pois posso precisar de ajuda para
controlar uma certa fera.

— Farei isso.

— O que acha dela? — perguntei, surpreendendo-o, pois não se sentia muito


à vontade para dar palpite em minha vida.

— Uma bela moça, Don Pietro.

Olhei de esguelha para ele. Era tudo o que Carlo tinha para dizer de minha
hóspede? Cá entre nós, para quem não a conhecia antes, ela não passaria uma
boa primeira impressão.

Decidi deixá-lo quieto quando levantamos voo e saquei meu celular do bolso
para conferir alguns e-mails. Precisava também ligar para minha mãe assim que
pousássemos, para avisar que Giovanna já estava sob meus cuidados.

Na metade do dia, eu já estava dentro do meu Bombardier[18] voando para


Washington a fim de resolver um problema para o congressista McCommarck,
um antigo associado[19] da Soprattutto. Ele era o tipo de gente a quem fazíamos
favores e protegíamos, em troca de manterem uma dívida eterna com nossa
famiglia. Ao que parecia, o FBI estava no pé dele e o homem precisava de nossa
ajuda para sumir do mapa por um tempo.
As seis SUV’s pretas da Land Rover aguardavam na pista de pouso quando
chegamos. Motoristas que também eram soldados saíram com os carros assim
que ocupamos os veículos. Alguns dos meus homens mostravam-se apreensivos
por não se tratar de uma viagem apenas de negócios. Estávamos ali para colocar
a mão na massa e sabíamos que o FBI poderia nos interceptar a qualquer
momento.

Para que nada como aquilo acontecesse, assim que deixamos o lugar, três
carros viraram à direita e os outros três, entre os quais eu estava, tomaram a pista
no sentido contrário. Apenas mais um dia como outro qualquer na vida de um
Soprattutto.

Eu não gostava de Washington. Não gostava de suas ruas, seus bairros, seus
moradores. Não aguentava aquele circo todo que se formava diante da Casa
Branca e a idolatria que ali, parecia se multiplicar de forma descontrolada.

— O senhor McCommarck já está aguardando, Don Pietro — Carlo avisou


ao ser informado pela escuta. Ele verificou a Glock em sua mão antes de guardá-
la sob o paletó e se preparou para descer do carro assim que estacionamos diante
da propriedade.

Saltei quando ele segurou a porta para mim e caminhei até a entrada, cercado
pelos soldados que selecionei para aquela tarefa. Seríamos rápidos.
GIOVANNA

Em algumas horas eu já tinha assistido a todos os canais da tv à cabo e agora


estava jogada de barriga para cima no meio da cama. Não sabia o que fazer para
me comunicar com o mundo externo, pois nem mesmo o computador de Pietro
consegui acessar. Para todos os lados que eu me dirigia dentro daquela casa,
encontrava a necessidade de digitar uma senha.

Encarava o teto, sentindo-me sem energia para nada. Nem mais as lágrimas
encontravam força para serem derramadas. Demorou, mas acabei me dando
conta de que se Pietro quisesse, eu viveria trancafiada naquele apartamento e
ninguém me acharia. Era impossível driblar os cães de guarda que ele deixara
tomando conta de cada gesto meu.

No final da tarde, decidi tomar uma atitude. Tomei banho, sequei o cabelo e
usei a roupa mais arrumadinha e discreta que encontrei dentro das sacolas. Um
vestido de crepe preto na altura dos joelhos com decote canoa. Era bem soltinho
e não marcava meu corpo. Ou Pietro não tinha uma noção exata de qual tamanho
eu vestia ou ele quisera me arrumar como uma mulher muito recatada. Calcei
também a única sandália de salto que ele havia comprado, mais propícia para ser
usada por uma tia de quarenta anos.

— Olá. — Sorri para o segurança que estava sentado na poltrona de frente


para a porta da casa. — Como faço para saber que horas Pietro chegará?
Gostaria de preparar um jantar para ele.

— Sinto muito, mas não possuo essa informação, senhorita. — O homem se


desculpou, mas sua expressão e postura não eram sinceras. Eu sabia que aquela
era uma resposta automática.

Respirei fundo, estufei o peito e ergui meu queixo, colocando em prática os


anos de educação rígida que recebi de minha mãe.

— Acho que não tem muita noção de com quem está falando. — Sentei-me
no sofá ao lado dele e cruzei as pernas de forma elegante. — Não sou uma
senhorita qualquer, sou a futura Greco e matriarca da famiglia. Você tem certeza
absoluta de que quer iniciar nossa relação com o pé esquerdo? O que devo dizer
a Pietro quando ele chegar em casa e descobrir que não foi agraciado com um
jantar surpresa da noiva que não vê há anos e que estava louca para mimá-lo?

O infeliz moveu alguns músculos faciais discretamente, mas ele tinha sido
rigorosamente treinado para acompanhar o chefe de perto. Não era um segurança
qualquer.

— A senhorita não está sendo impedida de cozinhar.

— Não posso preparar algo sem saber se ele vai demorar ou não. Quer que
eu entregue uma comida fria para o Don?

Eu não podia perder aquela minha primeira batalha. Se não me mostrasse


confiante perante os seguranças, eles nunca me respeitariam e eu não conseguiria
uma fuga futura. Por isso, levantei e caminhei até o homem, parando diante dele
com as mãos na cintura. Mantive a cabeça ereta e baixei os olhos, mostrando
minha posição superior.

— Ligue — ordenei. — Agora.


Ele respirou fundo, afastou o paletó ao levar a mão até o bolso interno e
pegou o celular. Mantive a posição enquanto o observava falar com a pessoa do
outro lado da linha, que eu não tinha certeza se era mesmo Pietro. Podia ser o
outro fiel escudeiro dele, Carlo.

Segundos depois, o segurança desligou e guardou o aparelho no mesmo


lugar. Ele cruzou os braços e sustentou meu olhar antes de falar:

— Estão voando, devem chegar no máximo em duas horas.

Sorri, mas não agradeci. Saí para a cozinha e fui olhar dentro de cada
armário, enquanto pensava no que fazer. Eu não era muito habilidosa quando o
assunto era culinária. A vida inteira tive empregados que cozinhavam para minha
família e nunca precisei me preocupar em fritar um ovo. No entanto, quando
voltei do colégio interno comecei a aprender algumas coisas, porque preferia
fazer minhas refeições em horários diferentes de meu tio e não confiava nos
funcionários dele. Ao chegar em Nova York, acabei me virando ainda mais para
poder retribuir a hospedagem gratuita que Susan me oferecia.

Resolvi não arriscar muito. Qualquer italiano que se preze deve saber fazer
uma macarronada, portanto, separei o macarrão, molho de tomate e a carne para
fazer à bolonhesa. Que Deus me ajudasse, pois seria a primeira vez que eu
cozinharia para um outro italiano comer.
PIETRO

Carlo me olhava com curiosidade quando desliguei o celular e o coloquei


sobre a mesa. Devia estar daquele jeito por causa da expressão em meu rosto.
Não havia um espelho por perto, mas eu imaginava que pudesse enxergar a
desconfiança que exalava de mim.

— Algum problema, Don Pietro?

Era uma pergunta interessante. Havia algum problema e eu não tinha


captado?

— Albertini acabou de ligar para perguntar que horas chegarei em casa —


respondi, aturdido. — Giovanna queria saber.

— Acha que está tramando uma fuga? — Carlo franziu a testa, surpreso. —
Tenho certeza de que Albertini consegue lidar com ela por mais algumas horas.
Eu não era idiota, sabia que a mente de Giovanna estava trabalhando
incessantemente num plano para fugir de mim, mas não via como a informação
sobre minha chegada poderia influenciar nisso.

— Ela é uma caixa de surpresas, não sei o que pensar. — Sorri, relembrando
sua petulância. — Disse-me ontem que não quer se casar comigo.

— E o que o senhor pretende fazer quanto a isso?

Olhei pela janela do jato, observando as nuvens escurecidas ao nosso redor.


Estávamos passando bem no meio de uma tempestade e pegaríamos alguma
turbulência.

— Preciso aprender a lidar com ela, mas sei que será um processo difícil. Ela
é tão nova...

— Vai conseguir, Don Pietro — disse ele, tentando me confortar.

Eu sorri, sem muita vontade, enquanto a aeronave começava a chacoalhar.


Tudo indicava que aquela situação apenas refletia como seria minha vida pelos
próximos meses. Turbulenta.

Não estava acostumado a chegar em casa e encontrá-la cheia. Ali, em meu


refúgio, o silêncio e a solidão eram coisas que eu tinha passado a prezar muito.
Cresci num ambiente extremamente agitado, barulhento e repleto de constantes
visitas — membros da famiglia, sempre. Quando me mudei, aprendi a gostar da
solidão, da quietude. Era um contraste muito forte com minha casa na Sicília.

A primeira pessoa que vi quando Carlo abriu minha porta, foi Albertini. Ele
se levantou de prontidão e, antes de sair, avisou que Giovanna não tinha dado
trabalho.

Dispensei Carlo mesmo contra a vontade dele e fechei a porta, afrouxando o


nó da gravata e caminhando pela sala de estar. Onde estava minha hóspede?
— Giovanna? — chamei, mas o cheiro de comida me direcionou à cozinha.

Estaquei quando entrei na sala de jantar e vi o serviço de mesa para duas


pessoas. Nada requintado, apenas dois pratos, os talheres e duas taças. Enquanto
digeria o cenário, minha noiva saiu da cozinha carregando uma travessa
fumegante. Ela a largou sobre a mesa com pressa, gemendo como se tivesse se
queimado.

— Boa noite — cumprimentou-me, sorrindo. — O cardápio é macarronada à


bolonhesa.

Olhei em volta, desconcertado. Aquilo era muito inesperado. O que ela


estava tramando? Toda a situação era estranha demais, considerando que estava
endiabrada quando saí de casa de manhã.

— Eu jantei durante o voo — avisei, temendo chateá-la. — Mas já que teve


o trabalho de cozinhar, faço questão de provar um pouco amanhã.

A figura de no máximo um metro e sessenta de altura estreitou os olhos e


levou as mãos à cintura. Então, observei seu corpo e me dei conta de que estava
arrumada, usando as coisas que eu havia comprado para ela. O vestido preto de
corte clássico, as sandálias, o cabelo num penteado bonito e... usava batom
vermelho.

Ela caminhou rápido em minha direção e parou a alguns centímetros de


distância. Estava de salto, mas ainda precisou levantar o rosto para mim.

— Eu fiquei a tarde toda preparando a droga dessa comida, então sugiro que
você sente sua bunda naquela cadeira e coma a merda que preparei — ela
controlava o tom de voz para não começar a gritar. — Dane-se se comeu em
outro lugar!

Parecia difícil para a italianinha sustentar o olhar e percebi que demandava


esforço manter a fachada de mulher mandona. Puxei minha gravata de uma vez e
a soltei sobre o aparador, enquanto seguia à mesa e me sentava na cabeceira.
Deixei que ela terminasse o trabalho e prendi uma risada quando trouxe uma
garrafa de suco. Com que finalidade tinha colocado taças na mesa?

Eu me levantei enquanto ela se sentava e fui até minha adega climatizada,


retirando um Cabernet Sauvignon e levando para a sala de jantar. Abri a garrafa
e servi somente dois dedos à taça de Giovanna, antes de colocar para mim.

— Está oferecendo bebida alcoólica para uma menor de idade? —


perguntou, observando todos os meus movimentos.

— É somente esta quantidade que vai beber — respondi, servindo-me de


massa. — Não será nenhum risco à sua saúde ou integridade física. Se preferir,
posso confiscar a taça.

Como se temesse que eu cumprisse minha ameaça, Giovanna envolveu o


cristal com os dedos. Dei a primeira garfada, sem fome alguma, e a levei até a
boca. O primeiro movimento de mastigação já deixou claro o quanto o macarrão
estava duro.

— Não tenho certeza se está bom — comentou ela, enquanto enrolava o


garfo na macarronada. Podia ter se certificado disso antes de me obrigar a comer.

Limitei-me apenas a engolir com sacrifício, mas quando a própria provou a


desgraça que fez, torceu os lábios e largou os talheres. Era apenas um macarrão,
pelo amor de Deus! Não era um ingrediente de difícil preparo.

— Tive medo de cozinhar demais e virar uma pasta...

— Realmente, não está al dente. — Dei um gole generoso no vinho e


também descansei os talheres. Limpei a boca no guardanapo e a encarei. — O
que você quer, Giovanna? — Apoiei as mãos na mesa, tamborilando meus dedos
enquanto aguardava. — Nós dois sabemos que não fez tudo isso por ter
decidido, de repente, viver em harmonia comigo.

— Não posso querer agradar meu futuro marido? — Ela levantou o queixo e
me olhou, ofendida.

— Não subestime minha inteligência, bambina[20].

Mostrando que era uma pessoa de classe, por mais que se esforçasse em
vestir a máscara de garota rebelde, Giovanna usou o guardanapo e o ajeitou
sobre o colo antes de segurar a taça e degustar lentamente de um pouco de vinho.
Por fim, ela passou a língua pelo lábio inferior, num gesto exageradamente
provocante, tentando me afetar.
— Eu estou disposta a viver aprisionada aqui, mas tenho algumas condições.
— Ignorei a menção ao cárcere privado, porque sabia que era isso que ela queria.
Permaneci calado, mas mantive meu olhar sobre ela, indicando que esperava a
continuação. — Quero minha bolsa e meus pertences, não posso ser privada do
contato com o resto do mundo. E tenho uma amiga aqui em Nova York que deve
estar muito preocupada, pois estou morando com ela.

— Não estou com sua bolsa.

— Deve estar com minha amiga Susan. Não tem nada de valioso lá dentro,
sendo que nem aparelho celular eu tenho, pois o meu foi roubado logo que
cheguei na cidade. Mas é minha bolsa.

Eu estava recebendo uma informação completamente nova. Ajeitei-me na


cadeira, desconfortável por só saber daquilo depois de tanto tempo.

— Foi assaltada? — questionei, segurando minha taça. — Quando foi isso e


onde?

— No meu segundo dia aqui em Nova York. Foi como conheci Susan, pois
ela estava na mesma lanchonete e me acolheu. Perdi todo o dinheiro que trouxe
comigo.

— E como estava vivendo?

— Susan, como eu disse, acolheu-me em sua casa. Ela me emprestou uma


grana enquanto eu não arrumo um emprego.

— Um emprego?

GIOVANNA

A forma como Pietro me olhou parecia que eu tinha dito que queria rebolar a
bunda e me esfregar num pole dance. Um canto de sua boca acabou sofrendo um
espasmo e levantando como se ele tentasse controlar um sorriso.

— Eu fugi de casa e não tenho dinheiro, pois Lorenzo controla minha


herança. Preciso de um emprego.

— Não se faça de inocente, Giovanna. Sabe que isso não vai acontecer,
assim como sabe qual o papel de uma matriarca.

— Casar, parir uma penca de pequenos mafiosos e servir ao marido —


alfinetei, desejando poder tomar um pouco mais de vinho, mas a garrafa estava
muito longe de mim.

— Pode terminar seus estudos, seria bem mais útil do que um emprego.

O diabo era frio como um bloco de gelo, pois nada que eu falasse ou fizesse
o faria perder a compostura. Nem um único músculo de seu maxilar se contraía.
Observei quando esvaziou sua taça e se serviu de mais um pouco da bebida.
Aproveitei o momento e estendi a minha para ele, que negou meu pedido.

— Quanto deve a essa sua amiga? — perguntou, usando alguns dedos para
abrir os primeiros botões da camisa social, o que, com certeza, atraiu a atenção
dos meus olhos traidores. Será que andava pelado pela casa antes de eu vir morar
aqui?

— Um valor irrisório para Don Pietro.

— Quitarei sua dívida com juros bem gordos como forma de agradecimento
por ela ter cuidado de você e providenciarei um novo aparelho celular. — O
homem balançou com delicadeza a taça diante do nariz e aspirou a fragrância
antes de levar o líquido à boca. A forma como encostava os lábios na borda era
bem insinuante. De repente, comecei a sentir calor. — Giovanna?

— Sim? — Pisquei, odiando-me por delirar. O que mais ele tinha dito?

— Precisarei do endereço de sua amiga.

— Tenho outras condições — avisei antes de encerrarmos o assunto. Minha


distração quase havia me prejudicado. — Quero fazer compras. Não vou usar
essas roupas horrorosas. Se queria uma mulher velha como você, devia ter
procurado alguém da sua idade.

— Mais alguma condição? — Algo no olhar dele fazia parecer que estava se
divertindo.
— Quero um banheiro só para mim.

— Não será possível — respondeu.

— Em algum lugar na imensidão desse apartamento, deve dar para construir


um banheiro.

— Deve, mas não quero.

Controlei a vontade que surgiu de jogar o prato cheio de comida na cabeça


dele e respirei fundo. Enchi minha taça com suco e tomei um pouco enquanto
acalmava minha raiva.

— É um absurdo termos que usar o mesmo banheiro. Você diz que fará um
quarto para mim, mas serei obrigada a invadir o seu no meio da noite se quiser
fazer xixi?

Deixando-me sem resposta, Pietro se levantou e retirou o prato dele,


levando-o para a cozinha. Eu olhei para o meu, pensando se deveria encarar a
massa dura ou preparar alguma coisa rápida. Estava com fome, mas tinha
consciência de que a comida tinha ficado terrível. A única coisa boa era o molho.
Eu podia passar molho num pão.

Decidi tirar o restante da mesa e também segui para a cozinha, parando logo
na entrada ao ver Pietro lavando a própria louça. O chefe da máfia, vestido com
seu terno de milhares de dólares, segurando uma esponja de frente para a pia.
Não tinha como ser mais contraditória a cena. Aproveitei-me disso e larguei tudo
ao lado dele, sentindo um certo prazer vingativo em ver o idiota lavar meu prato.

— Você mal se alimentou hoje de manhã e acabou vomitando. Agora


também não comeu nada — ele falava sem se desconcentrar da louça. —
Precisarei começar a me preocupar com sua alimentação ou posso confiar que
você sabe se cuidar?

Meu Deus, ele realmente me enxergava e me tratava como uma criança que
necessitava de cuidados. Senti vontade de chutar aquela bunda que devia ser
dura.

— Sei me cuidar. Quando poderei comprar roupas novas?


— Amanhã — respondeu, fechando a torneira e enxugando a mão num pano
de prato, que dobrou meticulosamente e colocou de volta no lugar.

Amanhã. Nem acreditei que sairia mesmo daquela casa e teria uma chance
real de fuga. Precisaria pensar bastante e encontrar a melhor forma de driblar os
seguranças, mas não poderia ser muito difícil. Bastaria entrar numa loja de
roupas íntimas, pois sabia que eles não poderiam me seguir até o provador. Não
cometeriam essa indiscrição com uma dama, certo?

— Mal posso esperar por amanhã! — falei, sem esconder minha ansiedade e
num ímpeto que me acometeu, estiquei o corpo, apoiei minhas mãos nos braços
fortes e o beijei no rosto. Propositalmente, perto demais da boca. — Boa noite,
Don.
PIETRO

Aquela manhã, que tinha tudo para ser incrível pois eu fugiria de Pietro, saiu
totalmente dos meus planos. Tudo começou assim que acordei. Tinha ido dormir
tarde pois esperei que ele se trancasse no escritório para voltar à cozinha e
preparar um sanduíche para mim. Depois, acabei vendo um filme no quarto antes
de ir para a cama.

Acordei ao ouvir uma voz rouca chamar meu nome e quase enfartei quando
abri os olhos e dei de cara com os azuis do diabo na minha frente, que não estava
com a melhor das expressões.

— Você conhece a palavra privacidade? — perguntei. — Pesquise no


dicionário quando puder.

Conferi meu visual e fiquei aliviada por estar de calça e blusa. Eu gostava
muito de dormir com as pernas de fora, mas como não tinha nenhuma camisola
naquela casa, a única opção era o moletom. Pelo menos, não pagaria calcinha
para ele.

Com o semblante pesado, Pietro se sentou na beira do colchão e senti um


bolo no estômago começar a se formar.

— Minha mãe me acordou às cinco horas da manhã, pedindo que eu entrasse


imediatamente na página do L'informatore.

Cruzei meus braços, desconfortável. Mantive-me calada porque sabia que se


ele estava citando o jornal, era porque tinha saído alguma nova matéria sobre
mim. Então, Pietro mexeu o celular entre os dedos e me entregou. Assim que
bati os olhos na tela, meu corpo inteiro ficou gelado. Não podia ser.

— Para quem você enviou essa foto, Giovanna? — a voz dele estava mais
sombria do que nunca e parecia querer me matar.

— Eu... — Engoli em seco. Era uma foto das muitas que eu gostava de tirar.
Estava visivelmente alcoolizada e com os peitos de fora, fazendo biquinho para a
câmera. Uma selfie, nada mais, só pegava da minha cintura para cima. — Para
ninguém.

Cliquei para sair da foto e procurei pela matéria. Parecia estar estampada na
página principal, dizendo que a noiva de Pietro Greco parecia ter atributos
enriquecedores para uma esposa. Eles estavam falando dos meus peitos, óbvio.
Palavras nojentas.

— São fotos que tiro, mas deixo no celular. Não fico mandando nude para
ninguém.

Queria chorar de raiva e de vergonha, mas não na frente dele. Deslizei meu
corpo pelo colchão e me enfiei debaixo da coberta, torcendo para sumir do
mundo por um tempo. Como pude ser tão burra em deixar fotos
comprometedoras na galeria do aparelho? Eu não era idiota, sabia que imagens
vazavam o tempo todo.

— Giovanna, saia daí. — Senti sua tentativa de puxar a coberta. — Preciso


saber se existem outras fotos. E preciso que descreva minuciosamente o seu
assaltante. Estou tentando acreditar que não enviou essa foto para nenhum
namorado, logo, a outra possibilidade é que a pessoa que está com seu celular
esteja soltando essas imagens.

Joguei o cobertor para longe e voltei a me sentar na cama, mas a vergonha de


encará-lo era grande demais. Portanto, olhei para um ponto acima de sua cabeça.

— Não tenho namorado e vou repetir mais uma vez: nunca enviei fotos
assim para ninguém.

— Não tem no momento, mas não poderia ser um ex? — o Don perguntou,
arqueando uma sobrancelha. — Um ex-namoradinho querendo chamar sua
atenção, talvez.

— Você quer me ouvir dizer que eu nunca tive namorado? — respondi,


começando a me irritar porque me sentia humilhada. E nessas horas, a melhor
forma de me proteger era atacando. — Não gosto de homens, prefiro as
mulheres. Um belo par de coxas se enroscando em mim e...

— Não é a porra do momento para fazer piada! — Pela primeira vez, vi


Pietro aumentar e engrossar a voz. Ele esticou os braços e achei que fosse me
sacudir, mas recuou e se levantou, esfregando a nuca. — Existem outras?

Engoli em seco.

— Sim... — Os dedos que apertavam o celular estavam gelados. — Eu...


hm... gosto de tirar fotos minhas.

Pietro fechou os olhos por alguns míseros segundos, eu sabia que estava
tentando se controlar. Ele parecia ter acabado de sair da cama, com o cabelo
meio amassado, a barba precisando ser feita e a camisa velha amarrotada.
Quando voltou a abrir os olhos, as duas pedras azuis estavam brilhando. Eu sabia
que era de ira.

— Meu celular. — Esticou a mão. — Depois de tomar café, você terá que
descrever o assaltante.

A tela já tinha apagado, mas quando devolvi o aparelho, ele tocou no leitor
de digital e ela se acendeu novamente, exibindo a matéria chamativa. Estremeci,
sabendo que mais uma vez meus peitos apareciam diante dele. Podia imaginar o
que todos os membros da famiglia estavam pensando de mim.
— Pare de ficar olhando a foto — reclamei, ajoelhando-me na cama e
tentando tirar o celular da mão dele. — Já viu o suficiente, não acha?

O diabo se esquivou e minhas unhas rasparam pela pele do seu antebraço.


Então, segurou meu pulso e se aproximou, com o semblante fechado.

— Não estou interessado em reparar nos seus seios. Giovanna, pelo amor de
Deus. — Ele me soltou e usou as duas mãos para segurar meu rosto. — Se fotos
como essa continuarem a vazar, você nunca será respeitada pela famiglia. Quer
que nossos soldados, caporegimes, todos os membros, decorem cada centímetro
do seu corpo? Acha que minha mãe teria o prestígio que tem, se tivesse
estampado as capas dos jornais com os peitos de fora quando era jovem?

— Eu não tenho culpa de ter sido assaltada! — Cuspi as palavras, sentindo-


me mal. Tentei me afastar, mas ele não me soltou. — Por acaso pensa que eu
queria que isso acontecesse?

— Sei que não, mas precisa encarar isso e não ser tão imatura.

Nem tudo eu fazia de propósito e, com certeza, não estava em meus planos
exibir minha nudez para o mundo inteiro.

— Sinto muito — falei, sentindo minha voz embargada.

O diabo me encarou novamente e vislumbrei um ar maligno brilhar em seus


olhos. Ele se curvou e beijou o topo da minha cabeça.

— Não sinta, bambina. Cuidarei da cova do homem.

Nada mais era que uma promessa da máfia. E eu sabia que elas sempre eram
cumpridas ao pé da letra.

PIETRO

Fui tomar banho enquanto Giovanna estava na companhia de Carlo e mais


alguns soldados, tentando criar o retrato falado mais fiel possível do homem que
a assaltou. Não consegui decifrar o misto de sensações que senti quando entrei
no site do jornal e vi a foto da italianinha. Além do choque em me deparar com
os seios redondos de mamilos pequenos e rosados, a fúria me consumiu por
saber que outros homens estavam olhando para a mesma foto que eu. Porra! Por
mais que eu tivesse consciência de sua idade e de que precisava me manter longe
dela, o ciúme ainda aparecia para me corroer as entranhas.

Já não sentia mais raiva, não perdia tempo com coisas que não podiam ser
modificadas. Rezei apenas para que não aparecesse nenhuma foto dela pelada de
corpo inteiro. Enquanto isso, preferia focar minha energia no presente e futuro,
portanto, deixaria para me ocupar do infeliz quando estivéssemos cara a cara.
Antes de matá-lo, eu o faria se arrepender de ter nascido.

Ao encontrá-los na sala, notei que Giovanna ainda estava cabisbaixa. A foto


tinha mesmo afetado sua autoconfiança e ela parecia um filhote de passarinho
cercado por gaviões.

— Acho que está bom, por enquanto — declarei, cruzando meus braços. —
Vejamos o que conseguimos com as informações que já temos. Carlo, prepare o
carro.

Ficamos a sós, com exceção das faxineiras, que já tinham chegado e


rodavam pela casa. Minha noiva levantou os olhos azuis assustados para mim e,
quando se levantou, vi que estava descalça.

— Vamos precisar adiar suas compras, mas prometo que fará isso amanhã —
avisei, tocando o braço dela. — Você está bem?

— Sim.

— Se precisar de alguma coisa, peça para Albertini me ligar. — Lembrei da


conversa que tive com minha mãe quando me ligou de manhã e sorri para ela. —
Seu tio está preocupado, quando eu voltar, vou ligar para que possa falar com ele
e mostrar que está bem.

Ela levantou os olhos e os estreitou para mim, voltando a ser a Giovanna de


antes.

— Ótimo.

Saí para providenciar seu novo celular e rodei um pouco pela área onde foi
assaltada. Já tinha espalhado alguns homens pela cidade, com os detalhes
necessários sobre o filho da puta e imaginava que muito em breve receberia uma
resposta positiva.

Em determinado momento, quando Carlo entrava no carro após terminar de


interrogar um traficante que conhecíamos, meu celular tocou. Antes de atender,
surpreendi-me com o nome de quem chamava. Era o chefe da polícia de Nova
York e na mesma hora imaginei que estivesse ligando para pedir mais uma ajuda
com seus negócios escusos.

— Boden! — falei. — Como está?

— Boa tarde, Don Pietro. Atrapalho?

— Não, pode falar. — Gesticulei para que Carlo mandasse o motorista sair
com o carro e voltei a atenção à ligação. — Algum problema, Boden?

— Liguei para perguntar a mesma coisa. A sorte, Don Pietro, é que o


chamado foi repassado para mim, mas achei melhor avisá-lo. Uma jovem ligou
para o 911 informando que estava sendo mantida prisioneira. E passou seu
endereço. Consegui cancelar o chamado antes que os carros saíssem, os policiais
já estavam preparados.

Fechei os olhos e soquei o encosto do banco da frente. A vontade era de dar


uns tapas bem dados em Giovanna. Justo quando achei que ficaríamos numa
boa, pois pensei que ela tivesse amansado um pouco desde a noite anterior. Puro
engano, o que deixava bem claro que eu não podia confiar nela.

— Don Pietro? — ouvi a voz de Carlo, preocupado com meu rompante, mas
não o olhei, apenas estiquei a mão para que aguardasse.

— Obrigado pelo aviso, Boden. É a minha noiva, trata-se de uma tradição de


nossa organização. Giovanna está dando trabalho.

Ele disse que compreendia e pediu desculpas por ter que me importunar com
a ligação. Quando desligamos, encarei Carlo, que já entendera que minha
querida hóspede aprontara alguma merda.

— A filha da mãe ligou para a polícia — comentei, tentando situá-lo. —


Como ela conseguiu acesso a um telefone, Carlo?
— Vou procurar descobrir imediatamente.

Observei enquanto ele sacava o celular e fazia uma ligação. Sinceramente,


não achei que fosse ter tanta dor de cabeça. O que eu poderia fazer com
Giovanna para que ela amadurecesse? Até entenderia o fato de estar magoada e
com problemas comuns às garotas da idade dela, mas sequer conseguíamos
conversar como duas pessoas civilizadas.

De repente, o carro deu uma guinada para fazer uma curva fechada e vi
quando o automóvel atrás seguiu o mesmo caminho. Eu geralmente andava com
batedores quando estava em alguma missão, como aquela.

Com Carlo ainda no telefone, o motorista virou a cabeça e me encarou ao


falar:

— Localizaram o suspeito, Don Pietro. Já temos o endereço.

Meneei a cabeça e relaxei. Poderia, em breve, riscar um item da lista de


problemas a resolver.

Passamos por mais dois cruzamentos em alta velocidade quando Carlo


guardou o celular e me olhou com uma expressão azeda. Apoiei uma mão na
porta do carro ao entrarmos em mais uma curva sem frear e levantei uma
sobrancelha para ele.

— A senhorita Mancini roubou o celular de uma das faxineiras, trancou-se


no banheiro e o jogou dentro do vaso quando Albertini arrombou a porta.

Esfreguei minha testa, sentindo meu corpo formigar. Estaria próximo de


enfartar? Estaria Giovanna se ocupando de me enterrar?

— Chegamos, Don Pietro — meu motorista avisou ao pararmos diante de


um prédio que parecia quase abandonado. — Ele está em casa, segundo andar,
apartamento 22B.

Puxei a pistola escondida sob o paletó e a destravei antes de sair do carro.


Carlo saltou para meu lado, mas o parei ao esticar meu braço.

— Vou sozinho, quero apenas que fiquem de olho aqui.


— Don Pietro, não posso deixar que entre nesse lugar sem...

— Acha que é melhor com uma arma do que eu, Carlo? — perguntei, com a
voz baixa, deixando que sentisse o tom de ameaça.

Ele recuou, encostando-se no carro e apoiando as mãos nos quadris. Entrei


no prédio sem olhar para trás, esfregando um dedo no gatilho, doido para usá-lo.

GIOVANNA

Estava ansiosa, quase desenvolvendo uma úlcera. Tudo tinha acontecido sem
que eu planejasse, mas soube agarrar a chance quando a vi diante dos meus
olhos. Uma das faxineiras gostava muito de mandar mensagens pelo celular. A
cada cinco minutos ela deixava de lado o aspirador ou a vassoura ou o que
estivesse segurando, para mexer no aparelho. Então, quando se dava por
satisfeita, colocava-o sobre a mesa da sala de jantar e voltava aos afazeres
domésticos.

Portanto, esperei. Em determinado momento, a mulher foi até a cozinha e


deixou o telefone no mesmo lugar. Levei alguns segundos para destravar,
agradecida por não ter nenhum pin ou senha. Mas enquanto abria o discador de
chamadas, ela voltou. E arregalou os olhos quando viu que seu objeto pessoal
estava nas mãos de outra pessoa.

Fiz a primeira coisa que me veio em mente. Corri. Só que quando passei por
Albertini, a cena toda chamou a atenção dele e a mulher me delatou. Entrei no
quarto de Pietro, derrapando pelo piso, mas consegui chegar ao banheiro e
tranquei a porta.

Merda! Merda!

Disquei o 911 o mais rápido que pude e abri o chamado de emergência. Eu


tinha terminado de passar o endereço da forma como lembrava quando a porta
foi derrubada e Albertini entrou muito puto da vida. Não pensei muito. Precisava
me livrar do aparelho ou ele saberia para onde eu liguei.
Pedi desculpas para a faxineira e joguei o celular dentro do vaso. Fui
arrastada para fora do banheiro, com as garras dele machucando meu braço e
continuei sendo arrastada até a sala. Ali, ele me colocou de castigo no sofá e se
sentou de frente para mim.

Somente quando as mulheres foram embora, ele me deixou levantar e voltar


a circular pela casa. Decidi tomar um banho, pois não sabia quando a polícia
chegaria. Na verdade, eles estavam demorando demais. Mais de uma hora se
passou desde que consegui fazer a ligação. Em filmes, o 911 sempre funcionava
com eficiência.

Enrolei-me numa toalha depois de sair do banho quente e passei a mão pelo
espelho embaçado. Peguei a calcinha sobre a bancada e estava pronta para vesti-
la quando o diabo furioso apareceu no quarto e invadiu meu espaço. Seus olhos
encararam a porta caída num canto, sem parecer acreditar no que via.

— Você perdeu a lucidez? — rosnou, vindo para cima de mim, mas parou a
centímetros de distância. — Ligar para a polícia?

— Pelo visto, até a polícia foi comprada, não é? — Enfrentei a fera,


erguendo meu queixo. — Eu devia ter imaginado.

— Está me testando, Giovanna? Eu tenho sido muito compreensível, mas


posso mudar e não vai gostar quando isso acontecer.

— Mudar? — perguntei, segurando forte no nó da toalha porque tudo que


não precisava acontecer era ela cair. — E então fará o quê? Vai começar a me
bater?

— É o que devia fazer mesmo! — gritou e dos seus olhos pareciam sair
fagulhas que me queimariam a qualquer instante.

— Pois faça! — Dei um passo à frente e fiquei a menos de um palmo dele.


— Bata. Mostre que é igual a todos os outros, inclusive, seu segurança.

Vi sua testa se franzir numa expressão confusa e seus olhos passearam pelo
meu corpo, até pararem na região onde as marcas dos dedos de Albertini
enfeitavam meu braço.

— Albertini fez isso? — Ele parecia surpreso e, de repente, eu me dei conta


de que acabava de expulsar alguém da famiglia. Isso no melhor dos cenários.

— Não foi de propósito — tentei consertar, escondendo as marcas com a


mão. — Foi na hora em que me tirou daqui e me levou para a sala. — O diabo
esticou a mão para tocar o machucado, mas eu recuei no exato segundo. — Não
ouse tocar em mim.

Homens como ele não estavam acostumados a ouvir um não, portanto, uma
sobrancelha se arqueou e Pietro me segurou. Ele não me tocou, talvez por medo
de me machucar mais, pois o puxão que deu foi forte e pesado. Mas seus dedos
se enroscaram em minha toalha e fizeram meu corpo se chocar contra o dele.

— O caralho que não! Tente me desafiar e vai descobrir que não aguenta
comigo, Giovanna. Minha vontade é deixar a marca da minha mão na sua bunda.
— Ele estava ameaçando me agredir, certo? Era errado, certo? Por que então eu
me senti quente entre as pernas? Permaneci imóvel, com medo de que puxasse
minha toalha e me deixasse nua. — Mas acho que nem isso você está
merecendo.

Como assim? Claro que eu merecia! Fui uma péssima pessoa esse tempo
todo dentro da casa dele. Não fui? De repente, eu quis que ele me desse um
tapinha na bunda. Fiquei chocada ao perceber que começava a me imaginar
deitada de bruços no colo do diabo e sua mão pesada em contato com minha
pele.

Meu Deus, o que estava acontecendo comigo? Eu odiava Don Pietro!

Certo?

Ele me soltou e se curvou de frente para a pia, apoiando as mãos no


mármore, baixando a cabeça. O movimento fez com que eu visse respingos de
sangue no punho da camisa branca. Toquei no local e estremeci ao perceber que
o sangue não estava totalmente seco. Os nós de seus dedos não estavam sujos,
mas sua pele exibia uma vermelhidão como se tivesse sofrido algum atrito mais
intenso.

— O que você fez, Pietro? — murmurei, sentindo um bolo na boca do


estômago. — Não, não quero saber.

Ele se deu conta de que estava com a camisa suja e tirou o paletó, olhando-se
no espelho. Em seguida, começou a desabotoar a camisa e a arrancou de uma
vez, jogando no chão sobre a peça anterior.

Fiquei quieta, imóvel, com medo de que ele lembrasse da minha presença ao
seu lado e me expulsasse do banheiro. Digo, eu já estava sofrendo tanto nos
últimos dias... Acho que merecia uma visão daquele corpo inteiro. Em quanto
tempo será que eu me acostumaria a encarar todos aqueles músculos definidos?
Sentia vontade de cutucá-lo com o dedo para descobrir se era todo duro como
parecia ser. Pensei que se eu arrancasse minha toalha também, daria para
esfregar pele com pele. E se ele continuasse tirando a roupa, então ficaríamos
empatados.

Pisquei, notando que Pietro me observava pelo espelho e meu corpo ficou
alerta pela forma intensa como me olhava. Agradeci a Deus por ter feito o órgão
sexual feminino muito mais discreto que o masculino, ou eu poderia passar
vergonha naquele instante. Porque quando o Don se inclinou na minha direção e
esticou a mão até meu cabelo, o peitoral incrível ficou bem na altura da minha
boca. Controlei a vontade de lamber a pele dele e foquei em respirar.

Ele ia me beijar. Ele ia me beijar. Ele ia me beijar.

— Madeira — disse.

— Oi? — Pisquei, atônita, levantando o rosto e me sentindo ainda mais


perdida. — Quê?

O filho da mãe se afastou e pude ver que tinha algo entre os dedos. Um
pedaço de madeira.

— Tinha um pedaço da porta no meio do seu cabelo.

Arranquei a porra da árvore morta da mão dele e a joguei no chão,


pisoteando-a com toda a raiva que sentia.

— Você só pode estar de sacanagem com a minha cara — reclamei e, quando


fiquei satisfeita por ter destruído a madeira, olhei para ele. — Cretino!

— Linda. — Ele piscou e levantou minha mão, beijando minha pele. — Vou
me trocar porque tenho outro compromisso.
PIETRO

Passei o sábado e o domingo sem muito contato com Giovanna. Ela estava
endiabrada e só saía do quarto para comer. Ou melhor, pegar o prato e levar para
o quarto. Eu não podia reclamar, pois preferia mil vezes que me ignorasse do que
arranjasse mais problemas. Ainda não podia deixar minha agenda de lado para
me dedicar totalmente a ela.

Na segunda-feira, recebemos a cama que comprei para o escritório. Também


tinha marcado uma reunião com um arquiteto para que ele criasse um ambiente
bacana para a italianinha, de forma que pudesse aproveitar todo o espaço do
cômodo. Era muito espaçoso, possuía uma ótima iluminação natural e eu
acreditava que a atenderia perfeitamente.

No final da tarde, estava sem nada para fazer. A casa caiu num profundo
silêncio quando me sentei no sofá da sala de estar, com um copo de uísque na
mão. Era a primeira vez, desde que Giovanna chegara, que minha casa parecia
ser a mesma de antes.

Estava relaxado, curtindo um som ambiente e pensando em ligar para Rayka,


quando Giovanna apareceu na sala. Colocou as mãos na cintura ao me olhar,
toda pedante.

— Será que dá para fazer uma ligação e encomendar calcinhas para mim?
Nas sacolas que você trouxe só vieram três e tem sido um verdadeiro inferno me
virar só com elas. Ando a maior parte do dia sem calcinha.

Nenhum homem conseguiria ouvir aquelas palavras numa mesma frase sem
correr os olhos na direção certa e imaginar o que tinha sido insinuado. Nem
mesmo eu, por mais forte que fosse. Minha noiva vestia o moletom que
começava a ficar encardido e uma camiseta branca. Percebi que eu estava sendo
negligente, deixando-a à mercê das poucas peças que comprei no primeiro dia.

— Vá se trocar, pois vamos sair para fazer suas compras.

— Você vai junto? — Ela não conseguiu controlar a careta que se formou em
seu rosto e eu sorri, satisfeito em pegá-la desprevenida.

— Não tenho nenhum compromisso para o resto do dia.

Eu não era idiota. Tentava ser educado e meu instinto protetor sempre se
ativaria perante uma mulher indefesa, magoada ou machucada, principalmente
quando se tratava de Giovanna. Era difícil dosar minhas emoções o tempo todo
na presença dela. Não podia tratá-la como trataria uma noiva da minha idade ou
pareceria um pedófilo filho da puta. Não que sentisse atração sexual pela
italianinha, isso ainda não. Até mesmo ver a foto do nude fez eu me sentir sujo.
Foram muitos anos de condicionamento mental, ensinando ao meu cérebro e
meu corpo que Giovanna seria proibida para mim por muito tempo. Sua beleza
era inegável. A boca era um atentado ao pudor, principalmente sem batom, ao
natural, com aquele tom rosado onde eu podia ver uma fissura ou outra das
pequenas rachaduras que imploravam para serem hidratadas com saliva. Não
podia falar muito de seu corpo porque as roupas que comprei não a valorizavam
e eram grandes demais. Porém, o pouco que vi quando a busquei na boate,
indicava que de criança ela só tinha a idade.

Essa percepção estava começando a complicar minha vida. Não podia ter
pensamentos pervertidos com ela. Algumas vezes, gostaria de poder agir de
forma mais carinhosa, fazer com que ela sentisse que o acordo de casamento não
era pura obrigação para mim. No entanto, não podia. Não me sentia à vontade,
pois já tinha percebido que tudo que a garota queria, era uma oportunidade de se
queimar.

Agora, enquanto via um misto de surpresa e decepção em seus olhos, sabia


que ela tinha planejado uma forma de fugir durante as compras. E cheguei
mesmo a cogitar essa possibilidade, por isso decidi acompanhar tudo de perto.
Giovanna podia ser esperta o suficiente para enrolar um segurança, mas não a
mim.

— Sabe que ficarei um tempão olhando vitrines e experimentando roupas,


certo? — perguntou, num fio de voz.

— Sei.

Ela fechou a cara e saiu pisando duro pela casa.

Dentro do carro, ficou emburrada enquanto nos dirigíamos a Macy’s. Optei


por levá-la na loja pois tinha de tudo que pudesse precisar, além dos
departamentos de artigos para casa. A reforma levaria alguns dias, mas pelo
menos eu deixaria que escolhesse algumas coisas para o futuro quarto.

Realmente não escolhi bem as roupas que comprei. Mas, em minha defesa,
não a via há anos. Apenas por foto ficava difícil adivinhar o tamanho de roupa
de uma pessoa. Avaliei o vestido que estava usando, que devia ser quase dois
números maior que o dela. Também tinha reclamado que os calçados estavam
folgados e eu me culpei por não ter sido mais cuidadoso.

— Vou poder comprar as roupas que quiser ou você vai controlar também o
que visto? — perguntou, tirando-me dos meus devaneios.

— Desde que não queira se vestir como uma prostituta, não vejo motivo para
controlá-la.
Ela me lançou um olhar ferino antes de virar o rosto para a janela. O cabelo
escuro estava preso num rabo de cavalo grosso e os fios tentavam se rebelar em
leves cachos. Aquela cortina pesada e volumosa era muito mais sensual do que
qualquer pose ou expressão que ela tenha feito para tentar me seduzir.

Quando chegamos, desci primeiro e estendi a mão para Giovanna, que saltou
do carro sem encostar em mim, lançando-me um olhar contrariado.

A Macy´s tomava conta de quase todo o quarteirão e possuía nove andares,


sendo, provavelmente, a maior ou uma das maiores lojas de departamento do
mundo. Eu sabia que ela gostaria da escolha, pois nenhuma mulher resistia a
encontrar todos seus itens preferidos num mesmo lugar.

Vi Giovanna se transformar realmente numa criança quando subimos até o


andar de calçados e entramos na ala feminina. Dei liberdade para que andasse
por tudo, mantendo-me sempre alguns passos atrás, sabendo que Carlo
permanecia um pouco mais afastado.

Diante do espelho, vi os olhos dela brilharem quando experimentou uma


sandália de salto tão alto, que provavelmente a deixaria da minha altura. Para
minha surpresa, caminhou por alguns metros com desenvoltura, olhando-se de
todos os ângulos. Quando percebeu que estava sendo observada, virou-se e veio
até mim.

— Gostou? — perguntou, parando bem perto e olhando para os próprios pés.


— Custa uma pequena fortuna.

— Combina com você — respondi com sinceridade. — Se gostou, leve.

Então, a diabinha fez algo que me surpreendeu. Sentou-se e tirou as


sandálias, colocando-as de volta sobre o pedestal em que estavam. Ela não as
levaria apenas para ir contra minha opinião.

— Para alguém que quer ser considerada adulta, você tem atitudes bastante
infantis.

Segurando os cinco pares de sapatos que tinha separado e ia levar, a mocinha


enfezada estreitou os olhos para mim.

— Não sou uma boneca para você enfeitar. Não pense que farei coisas ou me
vestirei para agradá-lo, Don Pietro.

GIOVANNA

Eu tinha comprado sapatos, perfumes, algumas roupas que deixariam o diabo


de cabelo em pé — não que eu me importasse — e até escolhi roupa de cama,
mesmo que eu não pretendesse voltar para aquele apartamento. Precisava fingir
que estava tudo bem. Ele e Carlo estavam com as mãos cheias de sacolas
enquanto eu apenas desfilava pelo lugar.

Deixei o departamento de lingerie para o final, de forma que pudesse colocar


meu plano em prática. Quando entramos e nos cercamos de mostruários de
calcinhas e sutiãs, surpreendi-me por notar que Pietro sequer se incomodou com
aquilo. Meu noivo não só parecia muito confortável como teve a cara de pau de
pegar um modelo fio-dental na mão e observá-lo. Só faltava querer levar um
presentinho para alguma de suas piranhas.

— Vou provar uma camisola — avisei, pegando a primeira peça que vi pela
frente e marchando rumo ao provador.

Somente ali eu podia colocar meu plano em ação. Lojas de departamento


eram conhecidas por deixarem seus clientes à vontade, sem aquele bando de
vendedor em cima da pessoa. Num provador de roupa íntima, porém, eu
precisaria de ajuda.

Dessa forma, entrei e fechei a porta. Esperei por alguns segundos antes de
abrir uma pequena brecha e colocar a cabeça para fora. Avistei Pietro de pé a
poucos metros, com os olhos grudados em mim como um falcão.

— Pode chamar uma vendedora, por favor? Preciso de ajuda.

Ele franziu a testa e se aproximou. Eu apertei meus dedos ao redor da


maçaneta, temendo que ele visse que eu estava completamente vestida.

— O que foi?
— O que pensa que está fazendo? Quero uma vendedora, não você —
reclamei, fingindo-me de chocada. — Estou pelada!

Ele parou e me avaliou. Parecia saber que eu estava tramando alguma coisa,
mas não tinha como ter certeza, não é? Então, o diabo olhou em volta à procura
de alguém e fez um sinal. Quando uma moça de uniforme se aproximou, eu o
encarei e arregalei meus olhos de forma bem exagerada.

— Pode se afastar um pouquinho? — pedi.

Ele respirou fundo e recuou. Vi quando parou, soltou as sacolas no chão e


começou a mexer no celular. O momento ideal.

— Pois não, senhorita? — a vendedora falou, solícita e sorrindo. — Em que


posso ser útil?

— Por favor, você precisa me ajudar — sussurrei, com pressa. — Aquele


homem está me mantendo prisioneira e se você conseguir distrai-lo, eu poderei
fugir.

A mocinha pareceu assustada e confusa com toda a informação que recebeu e


olhou para trás, na direção de Pietro. Eu segurei a mão dela e apertei.

— Seja discreta — pedi. — Pode me ajudar?

— Aquele homem a sequestrou? — Ela franziu a testa. — Mesmo?

Tudo bem, olhando para meu noivo, ele não parecia ser alguém que
precisava manter uma pessoa em cativeiro. As mulheres se jogariam de bom
grado em seus braços e algo me dizia que até mesmo a vendedora estava
considerando a hipótese. Então, aumentei minha cartada.

— Ele me obriga a fazer... coisas... — Pressionei meus lábios um contra o


outro. — Favores sexuais. E eu só tenho dezessete anos.

Pronto, foi o suficiente para a mulher arregalar os olhos e levar uma mão à
boca. Ponto para mim. Ela recuou, mas ainda segurava a porta.

— Fique aqui e finja que fui pegar uma outra peça para você. Vou chamar os
seguranças, ok? Você está segura aqui dentro.
— Não! — Agarrei os dedos dela. — Não envolva ninguém nisso. Eu só
preciso fugir.

— E ele irá atrás de você. — A mulher tocou meu rosto, com um olhar
preocupado. — Pobrezinha, não fique assustada. Vai dar tudo certo. Vou ligar
para a polícia e os seguranças o manterão aqui até que seja preso.

Senti um nó subir pela minha garganta quando ela se afastou do provador e


saiu apressada para o interior da loja. Ah, meu Deus. O que eu tinha feito? Sabia
que Pietro tinha contatos na polícia, mas até que tudo fosse explicado, ele
acabaria algemado. No mínimo, né? Poderia se desenrolar uma situação muito
mais grave, pois os homens dele não deixariam que tocassem no Don.

Corri para fora, agradecendo por não ter tirado a roupa para dar mais
veracidade ao meu teatro. Pietro pareceu surpreso quando segurei a mão dele e o
puxei, sem diminuir o passo. Ele tentou me parar, mas eu coloquei toda a minha
força em meu braço. Duas sacolas tinham ficado para trás, mas não liguei.

— Giovanna, o que está acontecendo? — rosnou, mas eu só me preocupei


em tirá-lo dali o quanto antes.

Ao alcançarmos Carlo na escada rolante, avisei para ele que era


imprescindível sairmos do prédio o mais rápido possível, para o bem de Pietro.
Parecia que eu tinha ativado algum sensor de proteção na mente do homem, pois
ele levou um dedo ao ouvido e falou com a boca grudada ao relógio. Fomos
guiados até a saída de emergência que eu nem fazia ideia de como ele sabia onde
ficava e descemos as escadas com pressa.

— Eu exijo saber o que você aprontou! — Pietro gritou quando só estávamos


nós três ali.

— Explico no carro.

Estava esbaforida com a correria e precisava prestar atenção nos degraus se


não quisesse levar um tombo feio. Mas Pietro cravou os pés no chão e, tudo
bem, acho que era a primeira vez que ele realmente tentava me parar. Era muito
forte e quase quebrei o braço quando continuei correndo, agarrada ao dele, mas o
homem não se mexeu. Bati com meu quadril no corrimão de ferro e parei,
ofegante.
— Não daremos mais um passo antes que você fale — avisou, irritado como
eu nunca vi.

— Se você não sair daqui, corre grande risco de ser preso — respondi sem
coragem de encará-lo. — Estou falando sério. Eu disse que você me mantinha
prisioneira e me fazia de escrava sexual. A vendedora está chamando a polícia.

Eu sabia que tinha feito algo horrível quando até Carlo se mostrou chocado
com o que falei. Ele tentou disfarçar, mas vi quando esfregou a testa e ajeitou a
postura, mantendo o olhar concentrado sobre o Don.

Já meu noivo, sequer piscou. Era difícil tirá-lo do eixo. Ele puxou a mão
devagar, soltando-se de mim e olhando para o segurança.

— Vamos — falou com Carlo, não comigo, e os dois passaram por mim e
desceram na frente.

Era um ótimo momento para subir correndo na direção oposta e me livrar de


uma vez por todas daquela prisão. Mas alguma coisa na forma como ele me
olhou e o descaso com o qual se soltou de mim, fez com que meus pés o
seguissem.

Que idiota, Giovanna.

PIETRO

Senti os olhos de Giovanna sobre mim durante todo o trajeto para casa, mas
estava sem saco nenhum para lidar com ela. Quando acatei o pedido de minha
mãe, não imaginei que fosse ter tanto trabalho. E sinceramente, eu não precisava
aturar aquilo. Não precisava me desdobrar para convencer alguém a ficar a meu
lado. A garota não parecia disposta a amadurecer e eu percebi que não tinha
talento para lidar com crianças.

Se ela não estava satisfeita com o acordo, então eu a liberaria. Podia ter a
mulher que quisesse e se alguém da famiglia se mostrasse contrariado com a
quebra do contrato, teria que aceitar minha decisão. Sabia que não podia
simplesmente desmanchar o noivado e levar vida de solteiro por muito tempo.
Meu casamento seria cobrado e, principalmente, todos esperavam que um
herdeiro Greco chegasse logo, afinal, havia passado dos trinta anos. Não estava
alheio a toda essa responsabilidade. A partir do instante em que cogitei liberar
Giovanna, minha mente passou a trabalhar em outras hipóteses. Rayka daria uma
boa esposa, era discreta, conhecia meus gostos e defeitos e nos dávamos muito
bem na cama. Sempre foi tranquila e nunca demonstrou ciúmes, era o tipo de
mulher que não me traria dor de cabeça. O fato de ser linda também ajudava
bastante.

A primeira coisa que fiz ao chegar em casa, foi passar uma mensagem para
ela e marcar um encontro em seu apartamento. Na noite em que briguei com
Giovanna por causa da ligação para a polícia, cheguei a sair de casa para me
encontrar com Rayka. Queria extravasar, relaxar, tirar um pouco os problemas da
mente. A dois quarteirões do prédio dela eu mudei de ideia. Não tive coragem de
ir para a cama com outra, sabendo que minha noiva estava em minha casa.
Nunca fui santo, pelo contrário, minha vida sexual daria um belo filme pornô,
mas quando levei a italianinha para morar comigo, prometi a mim mesmo que
tentaria me manter fiel dali em diante. Só que Giovanna não merecia mais a
minha compreensão. Cansei de tentar ser legal. Precisava foder o quanto antes
pois estava há dias sem sexo.

Decidido, tranquei-me no escritório e telefonei para minha mãe.

— Ciao, meu querido!

— Oi mãe. — Sentei-me na cadeira e girei para olhar pelas janelas.

— Que voz é essa, Pietro? Quem morreu?

— Vou romper o acordo, mamma. Não posso continuar com Giovanna.

Do outro lado, ouvi um gritinho de minha mãe e sabia que, se estivéssemos


cara a cara, ela daria um tapa em mim.

— Que besteira é essa que estou ouvindo, Pietro? Ficou maluco? Não pode
romper um acordo tão importante como esse. Iremos contra todas as nossas
tradições e abriremos um precedente sem tamanho.

— Mãe, Giovanna é rebelde, mal-educada, não quer se casar e me odeia.


Não posso acorrentá-la e arrastá-la até o altar e, sinceramente, não quero isso.
Nunca tive talento para correr atrás de mulher e não será agora que vou me
sujeitar a tal coisa. Deus sabe como tenho sido paciente e tenho dado espaço a
ela, mas o que fez hoje foi a gota d’água. Ela me acusou de algo bem sério. Não
vou manchar minha reputação por causa de uma garota que só quer chamar
atenção.

— É mesmo o meu filho que está falando? Aquele que sempre encarou os
desafios propostos, quem superou todas as expectativas da Soprattutto ao
substituir o Don mais querido de todos os tempos? Você lembra de como teve
medo de não conseguir se igualar ao homem que seu pai foi em vida? Tem
certeza que ainda é o mesmo homem que toda a famiglia admira?

— Sou sim o seu filho. O mesmo que acabou de ser acusado de pedófilo para
uma mulher que estava prestes a chamar a polícia. A senhora sabe o que penso a
respeito disso e eu sequer encosto em Giovanna.

— Ah, meu Deus! E o que aconteceu depois?

— Ela admitiu a idiotice que cometeu e saímos de lá antes que a situação se


complicasse. Mas a minha moral já tinha sido ofendida.

— Então ela se arrependeu? Se vocês conseguiram sair de lá, significa que


ela admitiu o que fez para tentar protegê-lo?

Minha mãe tentaria a todo custo manter o acordo de pé, mesmo que para
isso, fosse preciso distorcer os acontecimentos e passar a mão pela cabeça de
Giovanna.

— Mamma, esse acordo foi errado desde o início. A diferença de idade entre
nós dois é muito grande, nunca daria certo. Sempre irei me sentir um velho
tarado perto dela. Fora que estamos em momentos diferentes de nossas vidas,
queremos coisas distintas. Não estou apenas dizendo que hoje nós não
combinamos. Estou frisando que essa diferença sempre será um abismo entre
nós.

— Eu era dez anos mais nova que seu pai e tivemos um ótimo matrimônio. A
gente se amava tanto, figlio, que sinto um buraco no peito até hoje.

— Você era adolescente quando seu acordo foi firmado, mamma. E gostou
de papai à primeira vista.

— Giovanna também gosta de você, querido. Entenda que ela passou por
momentos conturbados, mas é uma boa menina.

— É uma criança.

— Ela não é mais criança, Pietro. Sim, é menor de idade, mas acho que se
você prestar bastante atenção, verá que não há nenhuma criança ali.

Girei a cadeira de volta para a mesa e me empertiguei, tomando coragem de


falar o que precisava ser dito e encerrar a ligação. Era minha mãe e eu a amava
mais do que tudo na vida. Porém, o Don era eu. A última palavra sempre seria
minha. E tinha tomado minha decisão.

— Desculpe, Giulia. O acordo está desfeito e irei liberar Giovanna de sua


obrigação. Não entrarei mais nesse assunto.

Antes que ela pudesse gritar e me xingar pela audácia de chamá-la pelo
nome, desliguei e soltei o celular sobre a mesa. Suspirei, sentindo um certo
alívio em encerrar aquele circo todo.

Olhei para o sofá-cama onde estava dormindo desde a chegada de Giovanna.


Nem mesmo a minha cama era mais minha e se tinha uma coisa que eu amava,
era dormir bem e com conforto. Tinha um sono muito leve e dormir todo torto
não ajudava em nada.

Decidido, levantei e abri a porta do escritório. Uma Giovanna assustada caiu


em cima de mim e a segurei antes que fosse de cara no chão. Quando a soltei, vi
em seus olhos que tinha sido pega no flagra e estava sem graça.

— Conseguiu ouvir a conversa toda? — perguntei, apoiando a mão na porta.

— Hm... sim. — Ela engoliu em seco e ergueu o queixo. — E então, pelo


que entendi, você vai encerrar nosso noivado. Isso significa que posso ir
embora?

Ela devia mesmo achar que eu era idiota, né?

— Pode começar a arrumar suas coisas, tudo que comprou hoje é seu.
Pedirei a Carlo para que agende nossa viagem para amanhã à noite.

Sua testa se franziu e a boca abriu, mas fechou em seguida. Giovanna cruzou
os braços, bloqueando minha passagem.

— Viagem? Eu continuarei em Nova York, você gostando ou não.

— Sinto muito, mas fui atrás de você por um pedido de minha mãe e de seu
tio. Inclusive, ele está esperando sua ligação até hoje e acabei esquecendo disso.
Não acho que seja mais necessário, pois a levarei de volta para casa. O que você
vai fazer depois que estiver lá, não será mais um problema meu.

No pouco tempo em que esteve em minha casa, eu a vi sentir raiva, tristeza e


vergonha. Medo era a primeira vez. Algo se transformou em seu olhar e quebrou
a expressão altiva dela. Giovanna encolheu os ombros e deu dois passos para
trás, levando as mãos à cabeça.

— Eu não voltarei para a Itália.

— Agradeça por ser apenas isso que vai te acontecer. Sua sorte é que tive
tempo de respirar e pensar com clareza, Giovanna. — Respirei fundo, sentindo a
ira voltar a me consumir. — Você passou de todos os limites, não quero esse tipo
de problema na minha vida. Quer ser irresponsável, então seja. Mas não coloque
minha reputação e a vida de tantas pessoas sob meu comando, em risco. Essa sua
mania doentia de colocar a polícia em tudo me faz repensar se você merece
continuar tendo um sobrenome que pertence à famiglia.

— Desculpe. — Ela abaixou a cabeça, mas eu nem acreditava mais em nada


que dizia.

— Está desculpada, mas isso não muda nada.

Então, aproximou-se de novo, espalmando as mãos em meu peito e me


lançando um olhar de cachorro abandonado.

— Não me leve de volta, Don, por favor.

— Não posso negar isso ao seu tio, ele é seu guardião legal.

Com os punhos cerrados, ela me socou no mesmo lugar, exaltada. Alguns


fios de cabelo escapavam do rabo de cavalo e caíam em seu rosto vermelho.

— Não! — gritou, surpreendendo-me. — Você disse que eu era sua


responsabilidade! Seja homem e honre sua palavra!

Afastei suas mãos e saí do escritório, sem entender de onde vinha aquela
fúria toda. Caralho, era ela que não queria se casar! Giovanna estava perto de me
tirar do sério. Caminhei na direção da cozinha e senti que ela me seguia.

— A partir do momento em que abro mão de desposá-la, seu tio volta a ser
seu tutor. Pelo menos, até que você complete a maioridade.

Abri o armário, retirei um copo e voltei a fechá-lo. Fui até o bar, com
Giovanna em meu encalço e peguei uma garrafa de uísque.

— Então prefiro me casar. — Sem olhá-la, enchi o copo pela metade com
muita calma, devolvi a garrafa ao lugar e me virei, encostando-me na bancada.
— Podemos nos casar amanhã, se preferir. — Ela pressionou os lábios grossos e
se aproximou demais ao unir as mãos em súplica. Por fim, abaixou a cabeça e
encostou a testa no meu peito. — Faço o que você quiser, só me dê um tempo
antes de começarmos... hm... a fazer sexo.

Que porra ela estava dizendo? Segurei seus ombros e a fiz se afastar um
pouco. Eu a encarei por um longo tempo, sem pressa. Os olhos azuis me fitavam
com decisão estampada neles. A garota que até então parecia enxergar chifres na
minha cabeça e queria distância de mim, agora implorava para casar. Eu não era
trouxa. Sabia que estava faltando alguma peça no quebra-cabeças e só Giovanna
poderia completá-lo.

Tomei um gole da bebida e cruzei os braços.

— O que você não está me contando? — perguntei.

— Nada — respondeu ela, soltando o rabo de cavalo e ajeitando o cabelo ao


redor dos ombros. Tentava me seduzir. — Eu só prefiro continuar em Nova
York, não gosto da Itália. E, cá entre nós, você é você. — Lambeu o lábio
inferior enquanto se aproximava. Chegava a ser patético o esforço que fazia. —
Sabemos que não há outro homem que eu deseje.

Se Giovanna já fosse minha esposa e mulher, eu adoraria ouvir tais palavras


serem ditas por aquela boca carnuda e sensual. No entanto, não acreditava numa
vírgula sequer que dizia e, para piorar, quando tentava me seduzir daquele jeito,
mais me fazia recuar. Ela não combinava com o estilo de mulher fatal e acabava
soando muito forçada.

— Giovanna...

— Sim? — Sorriu e tocou meu antebraço, deslizando os dedos por minha


pele, até alcançar meu bíceps.

Eu os descruzei e me inclinei um pouco para aproximar nossos rostos.

— Acha que eu tenho vinte anos e ficarei excitado com um toque no braço?
— perguntei, com os olhos grudados nos dela. — Está me confundindo com
algum amiguinho seu.

Ela retirou a mão de cima de mim como se tivesse levado um choque e


baixou os olhos. Esperei que recuasse e me deixasse em paz, mas não previ seu
próximo gesto.

— Desculpe — pediu. — Prefere que eu o toque aqui?

Rápida demais, Giovanna esticou a mão e tocou meu pau por cima da calça.
Com o susto que levei, deixei o copo cair no chão e passei por ela. A garota
sequer sabia o que estava fazendo, pois não foi uma pegada direta, daquelas que
envolviam o membro e o apertavam com vontade. Ela simplesmente esfregou a
palma da mão aberta em mim, de forma desajeitada. Eu não estava excitado, mas
havia sempre um volume considerável em minha cueca, visto que meu pau era
grande pra caralho. Quis matá-la pelo abuso, mas me contive e a encarei de
novo. Meu coração estava quase saindo pela boca, não me recuperei facilmente
do choque.

— Continua me confundindo com seus amigos, Giovanna. Ser vulgar não vai
levá-la a lugar algum.

Ela segurava a mão que usou para me tocar, como se a mesma tivesse vida
própria e precisasse ser contida.

— Eu te odeio! — gritou, com os olhos marejados, e saiu correndo.


GIOVANNA

Eu toquei o pênis dele. Eu toquei o pênis dele. Passei as últimas cinco horas
trancada no quarto, sem coragem para voltar a encarar Pietro. Eu tinha merda no
lugar da massa encefálica, não era possível. Qual outro motivo para ter feito o
que fiz? Naquele momento pavoroso, tudo em que conseguia pensar era fazê-lo
reconsiderar o casamento, para que eu não fosse obrigada a voltar para Lorenzo.
E sei lá, algo em mim achou que bastaria eu deixá-lo com tesão o suficiente para
voltar atrás e não desistir do contrato.

Quando Pietro abaixou a voz e falou que não era como meus amigos,
deixando bem claro o abismo que havia entre a gente, senti-me ofendida e quis
devolver na mesma moeda. Achei que fosse surpreendê-lo e deixá-lo sem
palavras, mas eu mesma me surpreendi com minha atitude horrorosa.

Passei aquelas horas tentando digerir o que fiz e me recompondo, pois em


algum momento eu teria que olhar dentro dos olhos dele. Nem que fosse para
implorar mais uma vez para que não me levasse de volta.

Tomei um banho e vesti uma roupa nova. Uma calça legging e uma regata,
nada demais. Quando cheguei na sala, encontrei um segurança que não era
Albertini e me senti muito culpada. O homem me cumprimentou com poucas
palavras e eu passei para a cozinha. Se ele estava ali, significava que Pietro não
estava. Claro, ele não ficaria em casa comigo numa sexta à noite.

Preparei dois sanduíches bem grandes com presunto parma e queijo cheddar,
coloquei numa travessa e voltei. No meio do caminho, lembrei do bar de Pietro e
fui até lá. Puxei um vinho tinto e enfiei dentro da blusa para que o segurança não
visse quando eu passasse. Se ficaria sozinha num apartamento onde era
prisioneira, enquanto meu noivo que não me desejava comia alguma mulher por
aí, então eu encheria a cara. Com glamour. Não entendia muito de vinho, mas
sabia que Pietro não bebia nada barato.

Quando nossa mente está muito ocupada, é difícil conseguir se concentrar


em algo específico. Tanto que comecei e abandonei três filmes pela metade.
Depois, escolhi um seriado na Netflix e desisti de acompanhar depois do
segundo episódio, quando os personagens principais já se declaravam um casal e
estavam loucamente apaixonados. Era uma situação tão irreal, que dava raiva.
Ninguém se pegava e passava a se amar em dois dias. Por que as histórias de
romance insistiam nessa tal atração irresistível? Era tão enjoativo...

Cansada de não fazer nada específico, saí do quarto e fui ao escritório de


Pietro. O ambiente era tão surpreendente quanto o resto da casa e da primeira
vez em que entrei ali, acabei dando uma gargalhada.

Além do sofá onde ele estava passando as noites, havia uma mesa de vidro
com um iMac de mais de 25 polegadas, uma das paredes era inteiramente
ocupada por estantes moduladas até o teto, uma grande poltrona de couro branco
de frente para um televisor conectado a um videogame e um minicampo de
golfe. Tinha sido o videogame que me surpreendera, pois eu jamais imaginaria o
engomadinho do Don enlouquecido com um console nas mãos.
Dei a volta pela mesa e me sentei em sua cadeira confortável. Deixei que ela
girasse, sentindo-me num carrossel, agraciada com a vista das janelas. Quando
parei de brincar e virei de frente para o computador, apoiei minhas mãos na mesa
para interromper o movimento da cadeira. O gesto fez com que eu esbarrasse no
mouse e, então, o monitor se iluminou. Não como da primeira vez em que estive
ali, quando tentei entrar com a senha solicitada e nada consegui. Desta vez,
Pietro tinha esquecido de bloquear o aparelho. Eu estava olhando para sua área
de trabalho.

A sensação era a de estar fazendo uma coisa muito errada e, por isso mesmo,
o comichão me deixou empolgada. Eu podia ter feito inúmeras coisas mais úteis.
Podia até ter acessado a internet e mandado uma mensagem no Facebook de
Susan. Mas não. Achei mais interessante fuxicar a vida de Pietro.

Acessei uma pasta, que me levou a outra, que me levou a outra e assim por
diante. Encontrei fotos dele, em diversos momentos de sua vida. Numa delas,
estava exatamente como eu me lembrava ao vê-lo pela primeira vez na vida. O
olhar confiante já era sua marca registrada desde então.

Encontrei uma pasta denominada família e vi fotos da senhora Greco, de


Don Enrico, de Enzo... Várias fotos de todos eles, uma família muito bonita. Era
impressionante como os dois filhos tinham características marcantes do pai e da
mãe. A diferença gritante era o tom de pele, o qual eles tinham puxado mais ao
Don Enrico. A senhora Greco era muito, muito branca, mais até do que eu. Só
que incrivelmente linda.

Estava prestes a partir para outra pasta, quando notei que não tinha descido a
barra de rolagem completamente. E ali, no final da pasta da família, encontrei
fotos minhas. Meu corpo gelou e senti até medo de clicar sobre elas. Olhei na
direção da porta, temendo que alguém me flagrasse fazendo besteira. Por fim,
dei um clique duplo sobre uma das miniaturas.

Era uma fotografia de quando eu fiz cinco anos, vestida de bailarina no meu
aniversário. Na próxima, eu estava sorrindo com os olhos fechados, usando
uniforme. Talvez fosse meu primeiro dia de aula do ano em questão, pois parecia
muito feliz. Minha mãe deve ter mandado aquelas fotos para ele ou para a
senhora Greco.

A foto seguinte era do auge de meus quinze anos, durante um enterro. O tipo
de foto tirada por paparazzis e eu estava ali, toda de preto, triste, sentindo que o
mundo tinha perdido o sentido. Eu olhava na direção da câmera, mas não
exatamente para o fotógrafo. Senti pena de mim mesma ao observar a imagem.
Será que era assim que Pietro me enxergava? Com pena?

Suspirei e passei para a próxima e última. Tinha sido tirada há menos de um


ano e eu estava linda, usando um vestido longo para o aniversário de uma amiga.
Por que Pietro tinha aquelas fotos tão aleatórias? Não havia um padrão nem
eram as melhores fotos da minha vida. Parecia algo que caía na mão dele e
simplesmente arquivava. Na pasta da família.

Saí da pasta, não queria ficar pensando em coisas como aquela. De nada
adiantaria, certo? Afinal, ele tinha me liberado do casamento, exatamente como
eu desejava.

Continuei viajando em outras pastas, sem encontrar nada de fato mais


interessante que as fotos. Até que quase deixei que uma passasse despercebida.
Estava identificada com o nome “vídeos” e ao clicar sobre ela, encontrei
subpastas. Eram oito ao todo e cada uma continha o nome de uma mulher.
Arrepiei-me com a primeira coisa que passou em minha mente. Não podia ser.
Podia?

Eu sabia que aquele era o momento certo para levantar e voltar ao quarto.
Porém, sempre fui uma pessoa muito curiosa. Escolhi o nome Rayka e cliquei
sobre ele. Dois vídeos surgiram em miniatura na tela de LCD e meu coração
disparou. Abri o primeiro e levei uma mão ao pescoço como se, daquela forma,
pudesse segurar meu coração caso ele tentasse sair pela boca.

Diante de mim, rodava um vídeo muito pornográfico. Eu nunca tinha parado


para assistir a um, o máximo que via de cenas de sexo era em filmes ou seriados,
mas nunca explícito.

Pietro estava na cama com uma mulher de longo cabelo loiro. Do ângulo da
câmera era possível vê-la montada sobre ele, de costas para a filmagem. Ela
descia e subia, balançando a bunda e jogando a cabeça para trás vez ou outra.
Em determinado momento, a loira chegou a lançar um olhar safado na direção da
câmera, demonstrando que sabia muito bem o que estava acontecendo. Os
gemidos eram vulgares e tão altos que corri para fechar a porta antes que o
segurança pudesse ouvir o som.
Quando voltei para me sentar, estava tão nervosa que errei a cadeira e caí de
bunda no chão. Recuperei-me depressa e me sentei, passando a mão pelo rosto
afogueado e tirando uns fios de cabelo da cara. Meu coração pulsava tão forte
que tive medo de passar mal.

Tomei o cuidado de abaixar o volume e vi que minhas mãos tremiam. Eu não


devia estar ali. Eu não devia ter acesso àqueles vídeos. Pensei em desligar,
quando Pietro passou um braço pela cintura da mulher e rolou com ela na cama.
Tive um vislumbre rápido de seu pênis antes que ele virasse de costas para mim
e penetrasse a loira novamente. Ah, senhor Jesus, tenha misericórdia de mim.
Prometo me confessar amanhã mesmo, se o senhor impedir que eu morra aqui
estatelada. Teria vergonha de acharem meu corpo diante do computador, com os
vídeos abertos. Seria um defunto pervertido.

Eu não devia assistir aquilo, mas estava hipnotizada. Além de ser uma
invasão de privacidade, não era saudável sentir coisas por aquele homem. Meu
corpo tinha esquentado e a situação entre minhas pernas não era das melhores.
Estava excitada com a merda de uma sextape do meu noivo. Ex-noivo.

Roguei a Deus que me desse forças para desligar aquela depravação, mas o
que fiz foi clicar no próximo vídeo antes que o primeiro chegasse ao fim. Perdi a
noção do tempo depois do quinto vídeo, onde a mulher da vez era uma negra
curvilínea. No fundo, acho que eu tentava encontrar alguma gravação onde eu
pudesse ver bastante do corpo dele e não somente uma migalha ou outra. A
maioria dos vídeos focava mais nas mulheres.

Enquanto eles transavam sentados na beira do colchão, com a mulher no colo


dele, minha calcinha continuava a lidar com um tsunami. Não me toquei em
nenhum momento, mas meus músculos já tinham se contraído tanto que acho
que tive um orgasmo durante o último vídeo. A todo instante, eu tentava
imaginar qual seria a sensação de ter as mãos de Pietro pelo meu corpo. Ele
parecia uma fera que se soltou da jaula e encontrou uma vítima pela frente. Era
tão forte e manejava as mulheres como se elas fossem de papel. Obviamente,
pareciam derretidas em suas mãos. Não podia ser algo minimamente ruim,
considerando todos os gritos e gemidos que saíam de suas bocas.

Empurrei a cadeira para trás e me levantei ao notar que o próximo vídeo era
de uma mulher fazendo sexo oral nele. Não estava preparada para assistir aquilo,
não faria bem para minha saúde. Tomei o cuidado de fechar todas as pastas e saí
do escritório sem deixar nenhum vestígio de minha presença ali.

Tranquei-me no quarto e afundei no sofá, trazendo a garrafa de vinho junto


comigo. Eu tinha tomado só uns goles para ajudar os sanduíches a descerem,
mas agora sentia uma necessidade enorme de encher a cara e esquecer o que vi.
PIETRO

— Você está distante hoje. — Os dedos de Rayka passearam pela minha


tatuagem enquanto eu conferia meu celular.

Tínhamos acabado de transar e eu tentava decidir se ia embora ou a comia


mais um pouco. Senti suas mãos tocarem meus ombros numa massagem gostosa
e então seus peitos roçaram em minhas costas quando se curvou e me abraçou
por trás.

— O que o aflige, meu bem?

— São apenas os problemas com Giovanna — respondi, desligando o celular


e o colocando de lado. — Tem sido complicado.

O desespero dela não saía da minha cabeça. Sempre fui muito bom em ler as
pessoas e me antecipar às suas ações, mas quando se tratava de Giovanna, tudo
ficava nublado diante dos meus olhos. Ela era dissimulada demais, eu já não
sabia se tinha ficado enlouquecida simplesmente por querer viver como uma
desgarrada longe da família ou por haver alguma coisa que eu ainda
desconhecia. Acreditava mais na primeira hipótese, porque era difícil algo
relacionado a Soprattutto não se tornar de meu conhecimento. Na pior das
hipóteses, seu tio devia criá-la com mão de ferro, bem presa, por isso a
necessidade de fugir. Mas eu achava mais provável que fosse algum problema
relacionado a dinheiro. Algo me levava a crer que Lorenzo havia tentado se
aproveitar da sua herança.

— Imagino. Eu também não fui fácil quando tinha a idade dela. Dê tempo ao
tempo que é o melhor a fazer, uma hora ela amadurece.

— Não tenho mais tempo, vou cancelar o acordo.

Rayka me soltou e virei o rosto para vê-la se esfregar pelo lençol enquanto
subia até os travesseiros. Com um sorriso safado, abriu as pernas, lambeu o dedo
e o escorregou para dentro da boceta depilada.

— Não estava sabendo disso, mas acho que é motivo de comemoração, não
acha? — perguntou, com um olhar muito sugestivo.

Eu não me sentia feliz para sair comemorando, mas meu pau não pensava da
mesma forma, tanto que começou a latejar de ansiedade. Ajoelhei de novo na
cama, segurando os pés dela e trazendo os dedos para chupar.

— Sabe que o fato de não me casar com ela não significa que me casarei
com qualquer outra, certo? — Não era uma verdade, em algum momento eu teria
que encontrar uma esposa, mas não deixaria que Rayka se sentisse segura quanto
a isso. — Não se anime tanto.

— Meu bem, você não é o único que preza por uma vida sexual diversificada
— ronronou, aumentando o ritmo de sua masturbação. — Agora, por favor,
deixe o assunto de lado e me chupe.

Balancei a cabeça, estalando a língua, enquanto soltava seus pés e subia


sobre seu corpo esguio.

— Acho que esqueceu com quem está fodendo, sua putinha. — Sentei sobre
os peitos dela, ciente de que meu peso naquela região a deixava quase sem ar e
segurei meu pau. — Quem vai ser chupado, sou eu.
Bati a cabeça que já brilhava contra os lábios dela, que sorriu e colocou a
língua para fora, recebendo meu presente. Inspirei quando Rayka engoliu toda
minha extensão e, então, aconteceu a coisa mais absurda pela qual já passei
durante o sexo. Os lábios finos e pálidos da loira se transforam nos grossos e
rosadinhos de Giovanna. A alucinação me pegou tão desprevenido, que gozei
que nem um adolescente com ejaculação precoce.

— Caralho! — xinguei, saindo de cima de Rayka e me jogando de lado na


cama.

— Porra, Pietro. — Ela se sentou, limpando a boca com a mão. — Que


merda foi essa?

Rayka odiava engolir esperma e já tivemos algumas brigas em relação a isso,


pois eu era um cara que não tinha frescura nenhuma durante o sexo. Toparia
qualquer coisa desde que satisfizesse a mim e minha parceira. E cá entre nós, era
gostoso pra caralho ver a mulher lamber até a última gota da nossa porra.

— Não consegui controlar — respondi, ainda com a mente anuviada.

Ela estreitou os olhos sem acreditar que eu simplesmente tinha gozado em


dez segundos por uma simples falta de controle.

— Vai ter que me chupar a noite inteira para me recompensar. — A mão fina
alisou meu abdômen e ela montou em mim como uma gata manhosa, esfregando
a boceta molhada na minha coxa.

Reunindo toda a educação que meus pais me deram, envolvi sua cintura e a
tirei de cima de mim com delicadeza. Eu gostava de Rayka e sabia que ela não
tinha culpa do que aconteceu.

— Sinto muito, loira, mas estou satisfeito por hoje. — Joguei as pernas para
fora da cama e me levantei pronto para tomar um banho.

— Você? Jura? Só me comeu uma vez e já vai embora?

— Vai começar a me controlar? — perguntei enquanto entrava no banheiro e


ao virar para ela, Rayka levantou as mãos em sinal de rendição e sorriu.

Ela me conhecia bem o suficiente para saber que no instante em que me


sentisse sendo cobrado, cairia fora do nosso caso de uma vez por todas.

Dispensei Rafael, o novo segurança de Giovanna, assim que cheguei em casa


e fui me despindo pelo caminho, ansioso em me jogar na cama. Ou melhor, na
porra do sofá. Estava cansado, porém, satisfeito. Quando encontrei Rayka
naquela noite, estava especialmente com fome de rabo e ela, bondosa como
sempre, deixou que eu metesse em seu cu até me saciar. Claro que eu tinha
muitos outros planos para a noite, mas a alucinação com Giovanna me deixou
muito abalado. Precisava dormir.

Minhas roupas não estavam no escritório, apenas a mesma calça de moletom


que já tinha usado por duas noites seguidas. Tirei a roupa e a vesti, mas antes de
deitar, senti uma vontade incontrolável de mijar. Sentado no sofá, pensei nas
minhas opções, enquanto encarava um elástico de cabelo sobre minha mesa de
trabalho. Era uma das presilhas que Giovanna usava, então ela tinha estado no
escritório. Interessante.

Levantei e dei a volta na mesa, puxando a cadeira e me sentando. Mexi no


mouse e descobri que o monitor não estava bloqueado. Eu tinha esquecido de
fazer isso antes de sair? Realmente não conseguia me lembrar.

Ao perceber que meu computador tinha ficado com o acesso livre, senti um
nó na garganta. Observei a área de trabalho que permanecia inalterada e abri a
pasta principal. Tudo no lugar.

Desliguei e peguei o elástico entre os dedos. Teria sido intencional, para que
eu soubesse que ela esteve ali? O relógio do celular marcava quase quatro horas
da manhã e eu lembrei que ainda precisava mijar. Teria que acordar Giovanna.

Praguejei e me encostei no batente da porta. Podia descer um andar e usar o


banheiro de Carlo. Mas o homem estivera até agora comigo, de plantão, e
precisava descansar. Sendo assim, arrastei-me a contragosto pelo corredor e girei
a maçaneta da porta do meu quarto. Trancada.
Cada vez mais eu sentia vontade de esganar a italianinha. Dei duas batidas de
leve e esperei, mas ela não acordou. Bati de novo com um pouco mais de força.
Nada. Respirei fundo e soquei a porta.

— Abre essa porra, Giovanna! — gritei.

Escutei um barulho dentro do quarto e algo parecido com um xingamento.


Quando a porta foi aberta, segundos depois, a garota parecia ter acordado de um
pesadelo. Descabelada, o rosto todo marcado, olhos semicerrados e a boca aberta
em susto. Aquela garota era incrivelmente linda, até quando acordava no meio
da noite. Impressionante.

— Por que trancou a porta? Esse é o único banheiro da casa.

Ela esfregou os olhos e piscou, como se ainda estivesse sonolenta demais


para raciocinar. Então, passada a minha fúria, parei para entender o que estava
vestindo. Fiquei arrependido de não ter ido até o apartamento de Carlo e me
poupado de ter aquela visão. Giovanna usava uma camiseta, apenas. Uma
camiseta minha, que batia na virilha dela, pois os seios faziam um volume a
mais.

— Que horas são? — perguntou, bocejando e me atacando com o hálito que


indicava ter bebido bastante.

— Quatro horas — respondi, passando por ela e entrando no quarto. Sobre o


criado-mudo estava uma garrafa de vinho vazia. — Você bebeu aquilo tudo
sozinha?

Giovanna me olhou com uma expressão culpada e sorriu, mas não achei
graça. Atirou-se em meu pescoço e se pendurou, tentando pular no meu colo. Fui
obrigado a passar um braço ao redor da cintura dela para que não se estatelasse
no chão.

— A garrafa se esvaziou sozinha. — Com sua enorme cara de pau de bêbada,


soltou uma risada tão leve e despretensiosa que eu acabei rindo junto. — Onde
estava, hein?

— Conversaremos quando amanhecer — respondi, tentando andar com ela


até a cama, completamente ciente de que seus seios estavam pressionados contra
meu peito nu.
— Não, senhor. Quero conversar a-go-ra. — Riu e, logo em seguida, bateu a
mão em meu braço. — Você não vale nada, mas é tããooo bonito... Vamos gravar
um filme juntos, eu e você, com direito a muitos beijos.

Um alerta soou bem no fundo da minha mente. Não podia ser.

— Um filme? — perguntei. — Que tipo de filme?

— Um de romance bem sexy! Sem roupas!

Giovanna tinha assistido meus vídeos. Não havia outra explicação para puxar
aquele tipo de assunto comigo. De onde mais ela podia tirar uma ideia dessa?

Encarei-a por alguns segundos, observando os olhos típicos de uma pessoa


que vaga entre aquele limbo entre o pileque e a chegada da ressaca. Por essa
noite, preferia acreditar que eu estava imaginando coisas, pois não saberia como
lidar com ela caso confessasse o que fez. Eram vídeos bem íntimos — e
obscenos para uma menina da idade dela — de relações minhas com algumas
das mulheres que frequentavam minha cama com mais assiduidade. Era muito
excitante gravá-los e poder assistir com elas, enquanto fodíamos novamente.
Porém, confiavam que nunca sairiam daquela pasta. E se isso acontecesse, minha
reputação e a delas iria para o ralo.

Coloquei-a sentada e me afastei, vendo-a se jogar de bruços no colchão e


abraçar um travesseiro. Obviamente, a camiseta subiu e deixou toda a bunda
exposta, com uma calcinha branca de algodão que não escondia muita coisa.
Redondinha, proporcional ao tamanho do corpo dela, arrebitada e, se eu não
estivesse tão errado, diria que nunca tinha levado umas lambidas.

Eu não era de ferro e aquela imagem era muito mais sexy do que se
Giovanna aparecesse pelada diante de mim. Sabia que meu pau começava a dar
sinal de vida e me culpei por ter parado para apreciar a paisagem. Era um fato,
eu não conseguia mais ser indiferente ao corpo dela.

Tranquei-me no banheiro, feliz porque a porta já tinha voltado ao seu lugar


de origem, disposto a mijar o mais rápido possível e correr para fora dali.
Quando saí, ouvi um ronco. Poderia ter puxado a coberta sobre seu corpo, mas
manter distância era o melhor a ser feito. Fechei a porta do quarto e fui dormir
no escritório.

Acordei com barulho de vidro caindo no chão e um grito estridente.


Giovanna. Antes que meu cérebro começasse a funcionar perfeitamente, saí do
escritório com a arma em punho, que sempre ficava sob meu travesseiro. Não
encontrei nenhum intruso em casa e sim a garota parada no meio da sala e
cercada de cacos de vidro. Nas mãos, uma bandeja com torradas e outras coisas
que não prestei atenção.

Os olhos azuis não estavam tão chocados com a pistola em minha mão tanto
quanto estavam com o volume em minha calça. Num gesto instintivo, tentei
ajeitar a cueca, mas só piorou o fato de que os olhos de Giovanna quase
despencaram do rosto. Teria achado fofa a sua timidez, se não estivesse puto.

— Ereção matinal — expliquei antes que ela dissesse alguma asneira.

Ao avaliar rapidamente que estava viva, deixei-a na sala e caminhei até o


banheiro. Não sabia que horas eram, mas tudo levava a crer que minha vida
voltaria a ser mais tranquila depois que deixasse Giovanna na Itália.

Depois de me refazer do susto e tirar alguns minutos para mim, decidi ir para
a cozinha, pois tinha reparado que minha despensa continuava quase cheia e a
italianinha não usara itens essenciais para fazer comida. Ou seja, ela estivera se
alimentando mal desde que chegou em minha casa.

No caminho, abri a porta para Carlo, que tinha voltado da casa da tal de
Susan e trouxera a bolsa de Giovanna. Ele informou que estava tudo programado
para a viagem mais tarde e foi embora.

Fui trabalhar no almoço e comecei a cortar o frango para fazer um


strogonoff. Estava refogando o molho de tomate quando senti sua presença atrás
de mim. Não ia parar o que estava fazendo, mas virei o rosto para vê-la se sentar
numa das banquetas.

— Vai mesmo me levar embora?

— Sim.
— Eu não tenho mais passaporte.

Desliguei o fogo e deixei o molho reservado enquanto o frango terminava de


cozinhar. Encostei-me contra a bancada da pia e a encarei. Seus olhos estavam
inchados e vermelhos.

— Não quis entrar nesse assunto ontem, mas recuperei seu passaporte, assim
como seu celular. Além disso, Carlo buscou sua bolsa na casa de Susan.

Giovanna abriu a boca, surpresa.

— Ele está... O ladrão...

Tinha subido até o apartamento do infeliz apenas com a intenção de fazê-lo


sofrer um pouco. Eu o enchi de porrada e sabia que ele precisaria ficar internado
por um ou dois dias devido ao estrago que deixaria em seu corpo. Porém, o
homem me reconheceu, pois minha cara andava estampando alguns jornais
desde que abri a Invictus. Ele não devia fazer a mínima ideia de que eu era da
máfia, mas de qualquer forma, sabia meu nome. Como não fazia o perfil de
gente com quem eu mantinha relações de negócios, nem mesmo como
informante, decidi que o melhor a fazer era encerrar de uma vez seu tempo nessa
vida. Não respondi o que Giovanna queria saber, mas ela tinha sangue
Soprattutto, sabia que eu não precisava entrar em detalhes para entender o que
tinha acontecido.

Voltei para o fogão e conferi o cozimento do frango, dando-me por satisfeito.


Escorri a água e senti Giovanna ao meu lado, tentando olhar por cima do meu
ombro.

— Posso ajudar? — perguntou, com a voz um tanto vacilante.

— Pode arrumar a mesa para nós dois.

Pelo canto do olho, vi quando deixou a cozinha, cabisbaixa e calada. Era


chato vê-la daquele jeito, eu realmente me importava com a garota. Respirei
fundo, voltando ao preparo do nosso almoço e tentei levar minha mente para
bem longe daquele problema adolescente.

Vinte minutos depois, eu me sentava à mesa posta por Giovanna, mais


arrumada e requintada do que da vez que cozinhou para mim. Ela tentava a todo
custo me agradar e fazer o papel de boa moça.

— O que foi fazer em meu escritório ontem? — perguntei logo, sem rodeios,
observando cada músculo que reagia em seu rosto. — Nem perca tempo dizendo
que não esteve lá, pois encontrei um prendedor de cabelo seu.

Ficou vermelha em segundos e desviou os olhos para o prato. Ela viu os


vídeos.

— Estava só conhecendo o apartamento e... — Passou a língua pelos lábios,


nervosa. — Bem, eu me dei conta de que não sabia onde você andou dormindo
esse tempo todo.

— Não vou me estender muito nesse assunto, mas quero que saiba que
algumas coisas em meu computador são confidenciais. Se caírem nas mãos de
outra pessoa, será o tipo de coisa que não vou perdoar.

— Não mexi em seu computador! — Giovanna me olhou de forma tão


surpresa e chocada que se eu fosse ingênuo, poderia acreditar. Então, para mudar
rápido de assunto, levou o garfo à boca e gemeu, atraindo minha atenção. —
Nossa! Não acredito que você cozinha assim e eu tive a ousadia de te fazer
comer aquela macarronada estranha. Precisa me ensinar.

Engoli o que estava mastigando e descansei os talheres. Ainda digeria a


possibilidade de ter visto todas aquelas filmagens de sexo hardcore e pensei que
falhei miseravelmente em protegê-la de mim mesmo. Poderia tentar descobrir o
que ela pensava a respeito do que assistiu, mas achei melhor não falarmos sobre
sexo. Ela era inconstante demais.

Apoiei minhas mãos na mesa, pensando na melhor forma de dizer o que


precisava e decidi que era mais fácil puxar o band-aid de uma vez.

— Giovanna, você vai embora hoje. — Os lábios rosados tremeram e ela


descansou as mãos no colo, sem me olhar. — Sinto muito, mas ambos sabemos
que você só está fingindo querer ficar.

— Prefiro mil vezes casar do que voltar para a Itália — disse, num sopro de
voz. Notei que prendia o choro e não queria ir por esse caminho.

Inclinei-me para frente e busquei pela mão dela, tocando em seus dedos. O
gesto fez com que virasse o rosto para me olhar e vi as lágrimas acumuladas.

— Isso não é motivo suficiente para casar. Deveria estar feliz, vai viver sua
vida da forma como quiser e eu assumirei a responsabilidade pela quebra do
contrato. Vamos apenas fingir que eu sou um cretino que não quer se amarrar a
ninguém. Considerando meu currículo, não será difícil fazer todos acreditarem
na história.

Ela apertou meus dedos com tanta força que parecia precisar segurar em
alguma coisa. Uma lágrima solitária escorreu por seu rosto e eu me vi balançado,
sem saber se ela estava também fingindo o choro. Não duvidaria de nada.

— Isso não é justo. Você podia ser mais compreensivo. Não podem esperar
que eu esteja louca para casar, só tenho dezessete anos.

— Coma — ordenei, puxando minha mão de volta. — Não fui para a


cozinha para você deixar a comida toda no prato.

Eu dei o exemplo, enchendo meu garfo com uma porção generosa e levando
à boca. Giovanna fez o mesmo, mas não parecia tão entusiasmada quanto eu.

— Sei que está aflita em relação ao seu retorno. Se o problema é Lorenzo


controlar sua herança, posso conversar com ele para que seja mais liberal. O
dinheiro é seu, de qualquer forma. Se a situação em casa não estiver boa, basta
me ligar que eu apareço para dar uma prensa nele.

— Promete que antes de me levar para casa, vai me levar para visitar sua
mãe? — perguntou ela e, por mais estranho que o pedido soasse, pois Giovanna
nunca foi íntima de mamma, eu acatei.
GIOVANNA

Pietro deixou que eu me despedisse de Susan antes de embarcarmos para a


Itália, portanto, passei o endereço dele e nos encontramos no saguão do prédio.
Foi uma despedida rápida enquanto todos aguardavam em seus carros — e Pietro
na portaria.

— Sua linda, quando chegar em casa, exijo que tire um tempo para me
contar sobre toda essa loucura dos últimos dias. — Susan usou os polegares para
enxugar as lágrimas em meus olhos. — Caramba, você vai voltar para a Itália.
Não pode ser tão ruim assim. É o cartão postal dos sonhos de muita gente.

— Obrigada por tudo — disse eu, tentando sorrir. — Não sei mesmo o que
teria acontecido comigo se não a conhecesse naquele dia. Você é maravilhosa! E
pode apostar que vou voltar.

— Eu nunca deixaria uma mulher desabrigada. Temos que proteger umas às


outras, certo?

— Certíssimo.

Susan lançou olhares na direção de Pietro, que parecia alheio à nossa


conversa. Um sorriso sacana se formou nos lábios dela, que voltou a me olhar.

— Não sei o que está rolando de fato entre você e o gostosão ali, mas espero
que em algum momento decida me contar.

— Ah, ele é um conhecido da família. E bem mais velho... — falei,


desanimada.

— E daí? — Minha amiga riu, estalando os dedos na frente do meu rosto.


Para ela, falar aquilo era fácil, pois já tinha vinte anos. — Meu amor, o que
importa é a potência! E algo me diz que aquele ali sabe muito bem o que faz.

Terminamos a despedida e acompanhei Susan até a saída. Depois que se foi,


passei pelas grandes portas do edifício e senti a brisa tocar meu rosto. Um táxi
parou atrás de uma das SUV’s de Pietro e de dentro dele desceu ninguém menos
que Rayka. Eu tinha decorado a fisionomia dela depois de vê-la gozar quatro
vezes num único vídeo.

O Don passou por mim como se nem me enxergasse e foi recebê-la. A loira
sorriu e falou alguma coisa antes de entregar uma carteira para ele. A carteira do
filho da mãe. Claro que ele tinha passado a noite com ela. O diabo sorriu e
balançou a cabeça enquanto tocava nas costas da mulher. Um toque íntimo, que
ele nunca tinha usado comigo.

Pare, Giovanna!

Não parei. Resolvi me juntar aos pombinhos e me posicionei diante de


Rayka, sentindo-me humilhada. A mulher era linda, estonteante e tinha dois
metros de pernas. Vestia um tailleur branco impecável que moldava seu corpo
esguio de modelo da Victoria’s Secret. Nem se eu fizesse jejum por cinco anos,
ficaria com aquele corpo. Ainda por cima, era alta e o salto a deixava da altura
de Pietro, de forma que não precisava se esticar para passar os dedos pela nuca
dele, como acabara de fazer. Ela já tinha tocado em cada centímetro daquele
corpo e eu senti um ciúme incontrolável. Tive vontade de cortar seu braço.
— Olá — disse eu, com muita cara de pau, esticando a mão. — Sou
Giovanna Mancini, noiva dele.

Rayka desviou os olhos do diabo para mim e me encarou como se eu fosse


alguma mosca zumbindo no ouvido dela. Então, sorriu. E era um sorriso genuíno
que me fazia querer sorrir e dizer a ela o quanto a amava.

Que merda eu estava pensando? Nem tinha mais nada com Pietro. Aliás,
nunca tive né? Nem mesmo o beijei. Deveria me sentir feliz por saber que ele
desistira do casamento ridículo, mas ao ver a forma como ele olhava para Rayka,
como se ela fosse uma deusa, tive vontade de gritar.

— Finalmente a conheci! Sou Rayka Scott. — Ela apertou minha bochecha.


ELA. APERTOU. MINHA. BOCHECHA. Senti-me uma criança de sete anos
novamente. — Pietro fala muito sobre você.

Meu Deus, ela sabia da minha existência e mesmo assim continuava dando
para ele? Forcei um sorriso, sentindo-me horrível por ser nojenta com alguém
tão linda. Mas ele é o meu noivo, vagabunda maldita!

— Jura? Pena que ele nunca me falou de você. — Gargalhei alto, tanto de
exagero quanto de nervoso pela loucura que estava prestes a dizer. — Quando
estamos juntos na cama e Pietro vem por cima de mim, ele só geme e fala
palavras muito...

Meu corpo girou quase num ângulo de noventa graus e um braço forte pesou
em meus ombros, direcionando-me para entrar na SUV.

— O que está fazendo? — perguntou, sussurrando entre os dentes. Ele me


enfiou dentro do carro e colocou metade do corpo para dentro, carrancudo. —
Não quero brigar com você hoje, Giovanna.

— Estou tentando manter a dignidade, já que sua amante sabe de minha


existência e não vê problema nenhum em continuar dormindo com você.

— Não somos mais noivos.

— Pietro Fillipo Greco, se você ousar beijar essa vagabunda na minha frente,
eu arranco seus olhos com os talheres de prata da sua mãe!
Que ódio! Fiquei ainda mais puta quando ele sorriu como se achasse graça
da minha ameaça. O diabo bateu a porta do carro e voltou para falar com Rayka,
fazendo meu sangue ferver de raiva. Só que eu não podia irritá-lo, pois temia que
ele se enchesse de uma vez e me largasse em casa antes de cumprir a promessa
de me levar para visitar a senhora Greco. Ela era minha última esperança.

Perdi a conta de quantas vezes contei até dez e então recomecei a nova
contagem. Aproveitei também para conferir meu celular mais uma vez e me
certificar de que tinha deletado todas as fotos comprometedoras. Quando Pietro
entrou no carro e nós partimos, eu queria muito falar alguma coisa, mas nem
sabia por onde começar. Estava com raiva e muito magoada.

— Quando estamos juntos na cama? — Ele quebrou o silêncio ao reproduzir


minha frase. — Não tinha nada mais absurdo para inventar?

— Desculpe, estou confusa. — Virei-me de lado para ficar de frente para ele.
— Está preocupado que sua amante pense que você dorme com sua noiva?

— Considerando que minha ex-noiva — ele frisou e eu o odiei ainda mais —


possui dezessete anos, então sim, fico preocupado.

— Mas não se preocupa que sua ex-noiva descubra que tem uma amante.

— Você esperava que eu permanecesse trinta e três anos vivendo em


celibato? — perguntou ao me imitar e virar de frente para mim, apoiando um
braço no encosto do banco. — Culpe nossos pais por terem feito um acordo
entre duas pessoas com idades tão discrepantes.

— Eu levei uma vida inteira quase celibatária — falei, controlando meus


tremores que acompanhavam minhas lembranças.

— Lembro de dizer a você para curtir sua vida.

— Disse também que eu devia casar virgem.

Ele sorriu com uma expressão pensativa, sem olhar diretamente em meus
olhos e sim com o olhar grudado em meu cabelo. Esticou a mão e tocou uma
mecha, colocando-a atrás da minha orelha.

— Bambina, bambina... Por acaso já viu alguém ser escorraçada da famiglia


por não se casar virgem? Acha que eu faria alguma reclamação formal e pediria
para trocar de esposa? — Deu de ombros, despretensiosamente. — São apenas
formalidades.

— Que bom que pensa assim, pois já fui bastante tocada. — E não era uma
mentira.

A expressão dele se transformou. Eu vi! O sorriso sumiu de sua face, mas


Pietro o recuperou rapidamente.

— Não fico feliz com essa confissão, admito. Mas é um direito seu. Seu
corpo, suas regras. Sinto muito se a fiz se sentir mal ao declarar que precisava se
guardar para mim, mas eu também mudei muito desde então.

Desviei os olhos. Não suportaria mais continuar o assunto porque o nó já


tinha se formado na garganta e eu só estava fingindo não percebê-lo ali. Afastei
o calafrio que senti e me ajeitei no banco, voltando à posição normal.

— Da última vez em que nos vimos, você era bem mais novinha, mas
parecia entusiasmada com o noivado. — Não o olhei, mas esperei que
continuasse. — O que mudou, Giovanna?

Tanta, mas tanta coisa. O mundo todo havia mudado. Virado do avesso. De
ponta-cabeça. Inúmeras vezes desejei voltar a ser aquela garotinha tão ingênua,
que não conhecia a vida real, não enxergava a maldade nas pessoas. A garotinha
protegida sob as asas dos pais.

Deixei de observar a janela e virei o rosto para encarar o Don. Traços


perfeitos, roupa impecável. O homem dos sonhos para muitas. Para mim,
inclusive. Mas minha bagagem era grande demais e pesava tanto em meus
ombros, que há muito tempo me sufocava. Estar com Pietro significava ser
obrigada a me despir de todas as minhas assombrações.

Nunca achei que fosse levar a coisa tão ao pé da letra e encerrar nosso
noivado. Por mais que eu não me sentisse preparada para casar e,
principalmente, dividir a cama com ele, tinha consciência de que era um homem
honrado e parecia se importar comigo. Meu coração doía com a possibilidade de
perder um futuro ao seu lado, mas talvez todos os meus sentimentos fossem
culpa da minha intenção muito maior em me manter junto a ele. Afinal, se não
houvesse casamento, eu provavelmente não viveria por muito tempo.
Não respondi a pergunta, apenas deslizei pelo banco e apoiei a cabeça,
fechando os olhos.
PIETRO

Faltava menos de uma hora para pousarmos e Giovanna continuava


dormindo. Ela tinha dito que morria de medo de voar e deixei que tomasse um
calmante, capotando meia hora depois no sofá ao lado da minha poltrona.
Bastava esticar o braço para tocar seu rosto, se quisesse. Estava deitada de lado,
coberta com minha manta e abraçada a um travesseiro. Parecia um anjo de boca
aberta, mas era uma verdadeira peste.

Afaguei seu cabelo, pensativo. Passei tantos anos digerindo o fato de que
existia alguém no mundo que era minha dona, mesmo sem ainda ser. Quando
pensava friamente no assunto, sentia-me mal pela diferença de idade, mas no
fundo sabia que em algum momento, quando ela crescesse, não seria mais uma
coisa absurda. Conseguia me enxergar casado com a dona dos olhos azuis, ciente
de que minha vida nunca seria monótona ao lado de alguém tão impulsiva e
enérgica. E agora, eu estava prestes a abrir mão dela.
Cheguei à conclusão de que era mais fácil deixá-la ir. Não queria ser o
responsável por sua infelicidade e foi justamente como me senti durante os
poucos dias de convivência. Acreditava em destino, em karma e sabia que, se
fosse para acontecer, então aconteceria. Eu a soltaria e se ela fosse realmente
minha, retornaria para mim. Quem saberia o que o futuro nos reservava?

Deixei que Giovanna despertasse por conta própria e próximo do aeroporto


ela começou a se mexer. Sonolenta, sentou-se e olhou pela janela. Parecia
distante e saudosa, mas não sabia dizer ao certo. Ouvi o som de sua respiração
pesada e deixei meu tablet de lado para observá-la melhor.

— Dormiu bem? — perguntei ao ser o alvo dos olhos azuis.

Sem falar, ela balançou a cabeça e se espreguiçou. Senti vontade de tocar no


cabelo bagunçado e dizer que ela ficaria bem, mas sabia que seria rechaçado.
Ocupei-me em preparar minhas coisas e colocar o cinto quando o piloto avisou
que estávamos liberados para pousar.

— É exatamente como eu me lembrava — disse Giovanna, ao meu lado,


enquanto olhava para a mansão Greco. — Engraçado que eu achava que a casa
era grande porque eu era pequena. Mas continua sendo grande.

Minha mãe apareceu na porta, usando um vestido floral leve e ostentando


uma rosa branca no cabelo ruivo. Seu jeito de dizer que estava feliz com meu
retorno, pois começou a cultivar rosas brancas depois que nasci.

— Mio caro! — Ela levantou os braços e se aproximou. — Por quanto tempo


pretendia ficar parado aqui fora enquanto eu esperava lá dentro?

Fui agarrado por suas mãos que seguraram firme meu rosto e me puxaram
para um beijo em cada bochecha. Então, ela me olhou mais uma vez e sorriu,
antes de envolver meu pescoço e me abraçar.

— É sempre um prazer revê-la, mamma.


Carlo e outros seguranças passaram por nós três e sumiram dentro do
terreno, enquanto Giulia Greco me soltava e puxava Giovanna para um abraço
tão caloroso quanto o que me dera. A menina ficou inicialmente desconcertada,
mas acabou retribuindo e passou os braços pela cintura de minha mãe.

— Como cresceu — disse mamma, olhando-a por inteiro. — Mio Dio, mas
você virou uma bela mulher, Giovanna! Linda demais!

— Obrigada. — A italianinha sorriu com as bochechas coradas. Ela era


realmente estonteante. — A senhora também continua tão bonita quanto eu me
recordo.

— Eu realmente não acredito que vocês não querem se casar. — Minha mãe
estalou a língua ao se virar e entrar em casa, esperando ser seguida. — Ambos
estão cegos. Ah, Giovanna, você olhava para Pietro como se ele fosse o rapaz
mais lindo do mundo.

Não entendia o que Giovanna pretendia fazer em minha casa, com minha
mãe. Era óbvio que a matriarca da Soprattutto tentaria a todo custo manter o
casamento a salvo. Essa era a função mais importante de uma mulher com o
posto que ela ocupava: cuidar da família, fazer todos nós respeitarmos as
tradições, lembrar-nos que só estávamos no mundo por causa delas e a todo
instante frisar que o lar sempre seria sagrado — isso significava nunca, em
hipótese alguma, levar a desgraça para dentro de casa. Minha ex-noiva não
parecia incomodada com os comentários. Até a vi sorrir.

— Eu ainda o acho o mais bonito — disse ela. — Infelizmente, seu filho


cansou de mim.

Lancei um olhar afiado, indicando que tomasse cuidado com o caminho que
desejava seguir. Giulia Greco olhou feio para mim quando chegamos à sala de
chá, onde o café da manhã costumava ser servido desde que eu era criança. Ela
não comentou nada durante o tempo que levamos para nos ajeitar e começarmos
a nos servir. Conversamos sobre os mais triviais assuntos. Então, quando
acabávamos de comer, disse:

— Giovanna quer casar, então acho que o problema seja você, figlio.

Soltei uma gargalhada, pois era isso ou soltar um palavrão de tão irritado que
me sentia. Devia ter levado a garota direto para casa, devolvendo-a ao tio e
deixando claro que não era mais minha responsabilidade.

— Giovanna é bipolar — expliquei. — Ela tentou transformar minha vida


num inferno e usou de minha confiança para tentar fugir. No instante em que
decidi cancelar o noivado, resolveu mudar de opinião.

— Uma mulher tem direito a mudar de opinião, querido — disse minha mãe,
lançando para mim um sorriso que dizia que nenhum homem jamais
compreenderia as mulheres.

Limpei a boca com o guardanapo e olhei para as duas, enquanto meus dedos
brincavam com o garfo à minha direita.

— Vou falar somente uma vez. Não fiz essa viagem para me aconselhar ou
tentar mudar a situação. Estou decidido e ninguém vai se meter nisso. Giovanna
fez a escolha dela em cada atitude que teve desde que nos reencontramos em
Nova York e nada do que diga ou faça vai me fazer acreditar que mudou de
opinião.

— E eu respeitarei sua decisão, é claro — disse minha mãe, tocando minha


mão. — Só fico preocupada, caro, porque já passou dos trinta anos e precisa de
um herdeiro.

— A senhora será avó em breve, fique tranquila. — Olhamos os dois para


Giovanna, que sorria com seu jeito petulante. — Rayka deve estar ansiosa para
gerar um Greco. Por falar nisso, ela sabe o que você é?

Respirei fundo, controlando a vontade de estrangular aquele lindo pescoço.


Minha mãe virou o rosto para me encarar, com um ponto de interrogação no
meio da testa.

— Quem é Rayka?

— Uma mulher capaz de me satisfazer e que pode vir a ser a esposa perfeita
para um Don — respondi, sorrindo. — Nós dois nos entendemos muito bem.

— Ela entende o peso do nosso sobrenome? — mamma perguntou, receosa.

— Ainda não, mas eu contarei em breve, agora que tenho planos para um
futuro com ela.
A cadeira de Giovanna arranhou o chão com tanta fúria que eu me contorci
pelo som agressivo. Ela ficou de pé, olhando diretamente para minha mãe.

— Podemos conversar? Eu quis vir aqui somente para poder falar com a
senhora.

Giulia Greco olhou para mim, confusa e surpresa. Dei de ombros, pois não
sabia mesmo do que se tratava todo aquele mistério.

Como boa anfitriã que era, mamma se levantou também e sorriu, segurando a
mão da menina.

— Claro que sim. Vamos até meu quarto, o que acha?

Giovanna balançou a cabeça e se deixou ser guiada pela casa, sem olhar para
trás. Eu aproveitaria o momento sozinho para tomar um banho e descansar em
meu antigo quarto.
GIOVANNA

Estranha. Era como me sentia após mais de uma hora trancada no quarto com
a senhora Greco. No entanto, também me sentia leve. Como se dividir o peso do
segredo com mais alguém fosse capaz de amaciá-lo um pouco. Não era verdade,
eu ainda estaria marcada para o resto da vida. Mas tinha aprendido a conviver
com os sentimentos conturbados enterrados em minha mente.

No final da conversa, Giulia me levou até um quarto de hóspedes e pediu que


eu ficasse à vontade. Era uma suíte com um belo banheiro e pude relaxar durante
o banho, antes de me deitar na cama e encarar o teto.

Fiz o que mais temi em toda minha vida; contei tudo a alguém. Contei tudo a
ela. Minha última cartada antes de ser entregue de bandeja a Lorenzo.

Ele era irmão de meu pai, sete anos mais novo que ele. Minha primeira
lembrança mais marcante de sua presença em minha vida era da minha festa de
aniversário de cinco anos. Estava vestida de bailarina e, depois cantar parabéns,
ele me colocou sentada em seu colo e encheu meu rosto de beijos. Não lembro
com precisão de toda a cena, guardava apenas alguns flashes na memória, mas
dizia que eu era muito linda.

Lorenzo morava na Calábria e, por isso, visitava esporadicamente. Sempre,


sempre que estava em nossa casa, fazia questão de me tocar o tempo todo. No
cabelo, nas pernas, nos braços. Estava acostumada a ouvir as pessoas dizerem
que eu era uma criança muito bonita, então achava normal o fato de que meu tio
vivia me abraçando e me apertando quando ficávamos a sós.

A ficha caiu quando eu entrei na pré-adolescência e meu corpo começou a


mudar sutilmente. Passei a achar estranho demais meu tio sentir tanta
necessidade em manter as mãos em mim. Era, principalmente, pegajoso. Ele
nunca foi muito além de beijos exagerados no rosto ou mãos deslizando pelos
meus braços e pernas, mas eu sentia que não era certo. Passei a evitá-lo o quanto
pude.

Quando papà faleceu, ele veio ficar uns dias em nossa casa, com a intenção
de nos ajudar a colocar os negócios nos eixos. Foi ali que minha vida se tornou
um pesadelo da noite para o dia. Durante a primeira madrugada, acordei quando
minha porta abriu e senti uma sensação muito ruim ao vê-lo entrar no meu
quarto. Sentei-me com pressa na cama e antes que pudesse falar, sua mão pesada
tapou minha boca. Ele se sentou ao meu lado e aproximou o rosto. Disse que
minha mãe correria perigo se eu contasse e, ciente de que estava apavorada,
colocou o pênis para fora e começou a se tocar. Aquela imagem nunca sairia da
minha mente. Eu mal conseguia compreender o corpo masculino muito bem e a
forma como ele se tocava embrulhou meu estômago.

Não dormi em nenhuma das noites em que ele estivera em casa. Passava as
madrugadas acordada, encolhida no canto da cama e com o olho grudado na
porta. Mas ele não aparecia todo dia e essa sensação de que podia ser pega de
surpresa me deixava alucinada. Eu nunca saberia quando ele atacaria.

Duas semanas depois, ele voltou para sua casa na Calábria. Eu me senti
protegida pela distância colocada entre nós e acabei contando tudo para minha
mãe na primeira oportunidade. Tive muito medo da reação dela, cheguei a pensar
que poderia me culpar por eu ter me oferecido, mas o que aconteceu não foi nada
como imaginei. Ela me abraçou e chorou comigo antes de declarar que mataria
Lorenzo. Mamma morreu na semana seguinte.

Lorenzo se mudou para minha casa no dia do velório. E naquela primeira


noite, quando dispensou todos os empregados com a desculpa de que estávamos
de luto, obrigou-me a sentar no sofá e ficou de pé diante de mim. Disse que eu
era culpada pela morte da minha mãe e que seria responsável pelo que
acontecesse com qualquer um que se colocasse entre nós. Por alguns meses, fui
obrigada a dividir a cama com ele. A cama que era de meus pais. Tinha medo de
olhar para qualquer pessoa na rua e ela descobrisse o que acontecia. Tinha medo
que meu descuido culminasse no assassinato de um inocente.

Ele não me desvirginou porque dizia que eu precisava me guardar para


Pietro, era uma fachada importante a manter. Eu sempre ia dormir antes dele,
com a esperança de que me deixasse quieta, mas quase todas as noites me
acordava e se masturbava. Então, fazia eu me virar de lado e ejaculava nas
minhas costas. Precisava engolir o vômito toda vez que sentia o líquido morno
em contato com minha pele e chorava em silêncio. Lorenzo sequer permitia que
eu me limpasse e me obrigava a dormir daquele jeito.

De vez em quando, passava a mão pela minha vagina, mas nunca foi muito
invasivo porque, de fato, sua maior preocupação era se masturbar enquanto me
olhava. Tinha algum prazer doentio em se tocar enquanto era observado por
mim. Sempre tentei entender com qual finalidade ele fazia aquelas coisas,
porque por muito tempo achei que estupro estivesse relacionado unicamente à
penetração. Depois, quando ganhei mais consciência do que acontecia, percebi
que não era preciso encontrar uma explicação para as atitudes dele. Era um filho
da puta pedófilo.

Um dia, quando já me sentia um lixo tão enorme que mal tinha vontade de
levantar da cama, acordei disposta a colocar um fim em tudo. Ou o mataria ou
acabaria morta. Esperei que se deitasse, tirasse a roupa e começasse a se tocar.
Então, puxei o revólver que escondi debaixo do travesseiro e apontei para a
cabeça dele. Lorenzo sorriu e fingiu se render, mas quando apertei o gatilho...
nada. Nenhuma bala.

Ele me esbofeteou e disse que estaria sempre um passo à frente. Quando caí
de costas na cama, subiu em cima de mim e fechou as mãos ao redor do meu
pescoço. Pela primeira vez na vida, senti o gosto da morte. Estava me asfixiando
e a dor e queimação eram indescritíveis. Então, afastou as mãos. Mas, em
seguida, estapeou-me. Uma, duas, três, na quarta vez, perdi a consciência e
apaguei.

Acordei sem conseguir abrir os olhos direito, com um médico me


examinando. Parecia bem íntimo de Lorenzo, visto que conversaram de forma
amigável depois. No dia seguinte, fui dopada e colocada dentro de um carro,
rumo ao colégio interno.

A todo instante, eu repetia na minha mente o que minha mãe disse na véspera
de sua morte. Ela andava assustada e desconfiada desde que o confrontou, então
me chamou em seu quarto, entregou-me um cartão e disse que era o contato de
alguém que me ajudaria quando eu sentisse ser a hora de fugir. Mandou que eu
fosse para a América, onde os dedos da máfia calabresa não me alcançariam.
Tudo indicava que Lorenzo era um caporegime da Dita di Ferro, a máfia mais
poderosa da Itália. A maior rival da Soprattutto. Mamma também disse que eu
não procurasse por Pietro nem contasse a ele o que acontecia, pois Lorenzo dera
a entender que tinha infiltrados cercando o Don. Se meu noivo descobrisse a
perversão de meu tio, daria início a uma guerra e isso poderia levá-lo para o
caixão. Ela me instruiu para que apenas aguardasse pelo momento em que
casaríamos e, então, eu estaria livre de Lorenzo. Suas palavras me fizeram achar
que Pietro era minha salvação.

Tentei fazer tudo do jeito dela. Tentei. Fui a melhor aluna daquele colégio
interno, pois ao menos ali eu estava longe de Lorenzo. Mas, ao contrário do que
ele tinha espalhado por todo o país, não fui expulsa de lá. Meu tio simplesmente
acordou um dia e se cansou de me ter longe de sua cama, tirando-me à força da
instituição.

De volta para casa, comecei a dar pequenas escapulidas sempre que tinha
oportunidade. Passava dias fora, escondida com amigos que achavam que eu era
apenas uma garota mimada e rebelde. Quando já não aguentava mais aquela
vida, procurei o contato de minha mãe. Foi ele que me arranjou o passaporte
falso e me possibilitou ir para os Estados Unidos. Até que Pietro me encontrou
e... aqui estava eu.
PIETRO

Alisei o mogno envelhecido, admirando aquela mesa que por tantos anos foi
testemunha de decisões importantes do grande Don Enrico. Era possível até
sentir o cheiro dele impregnado na madeira, caso eu me esforçasse.

Sabia que comigo fora de casa, Enzo estava usando o escritório


constantemente. E como sempre foi bagunceiro, encontrei papeis para tudo que é
lado. Esperaria que chegasse da casa da namorada e teria uma conversa séria
com ele. Um subchefe precisava manter a ordem, a começar por sua própria
mesa.

— Caro, precisamos conversar. — Minha mãe entrou e fechou a porta sem


esperar por uma resposta minha. Estava pálida e a preocupação em seus olhos
me deixou alerta. Não costumava vê-la daquele jeito, tão abalada.

— O que houve? — Eu me levantei e dei a volta na mesa, segurando-a pelos


braços pois parecia prestes a desmaiar.

Mamma espalmou as mãos em meu peito e ajeitou algum amassado invisível


em minha camisa. Quando me encarou, os olhos azuis brilhavam marejados.

— Antes que eu comece a falar, precisa dar sua palavra de honra de que não
fará nada movido pelo impulso. Nada, figlio. Você me escutará, em seguida, vai
respirar fundo, esperar a raiva passar e, aí sim, pensar num plano para resolver a
situação como um Don responsável faria.

— Tem minha palavra, mamma.

Pela primeira vez na vida, eu não sabia o que fazer. Depois que minha mãe
saiu do escritório, permaneci por quase uma hora olhando pelas janelas. Dali
podia ver boa parte do jardim e a estufa, mas não estava de fato prestando
atenção em nada.

Em momento algum esperava receber uma bomba como aquela. Sentia meu
corpo pesado, meu estômago embrulhado e uma enorme sensação de impotência.
Giovanna tinha sido molestada por uma eternidade. Giovanna, aquela menina
adorável que conheci quando tinha sete anos. Naquela idade, ela já tinha se
tornado o alvo do tio. Assim como da segunda vez em que nos vimos.

Senti-me miserável. Falhei com ela. Se tivesse insistido em procurá-la, talvez


acabasse descobrindo o que se passava. Afundei meu rosto entre as mãos, minha
cabeça pesava uma tonelada. Se eu imaginasse um terço do que minha mãe me
contou, jamais teria agido da forma que agi com a menina. Teria tomado o dobro
do cuidado. Teria sido mais compreensível.

Levantei, caminhando pelo escritório, até que parei para encarar o quadro
com a foto de meu pai. O que ele faria com aquela informação? Minha mãe foi
bem enfática em pedir para que eu não agisse por impulso, mas como eu
conseguiria me manter quieto? Meu primeiro pensamento era o mais óbvio de
todos: caçar Lorenzo e enterrá-lo vivo.
Perdi a concentração em meus planos quando avistei Giovanna entrar na
estufa. Quis ir até ela, mas ao mesmo tempo me senti um covarde. E por isso,
permaneci no mesmo lugar durante algum tempo, apenas olhando naquela
direção.

Perto da hora do almoço, ela ainda continuava lá dentro e eu não conseguia


mais controlar a vontade de falar com ela. Resolvi descer e fui até lá, sentindo
uma necessidade absurda de prometer que ficaria tudo bem. Mas ficaria?
Entraríamos ou não em guerra? Lorenzo sendo um membro Soprattutto, como
ele fingia ser até então, era mais fácil dar um tiro no meio de sua testa. As coisas
são resolvidas entre nós e a decisão é minha. Porém, se ficasse confirmado o seu
envolvimento com a Dita di Ferro e eu o matasse, estaria colocando um alvo
sobre a cabeça de todos os membros de minha famiglia. Não que matar fosse o
problema, eu estava decidido quanto a isso. O que precisava, era estipular de que
forma concretizaria o fato.

Caminhei pelo jardim e empurrei a porta entreaberta da estufa. Não foi difícil
encontrá-la. Giovanna estava bem no centro do caminho de rosas brancas,
deitada de costas com o rosto voltado para o teto e olhos fechados. O cabelo
longo e escuro estava espalhado e misturado com algumas pétalas que tinham
caído. Usava um vestido amarelo de algodão, com alças finas e curto, próprio
para o calor infernal da Sicília.

— Sua mãe me convidou para ficar alguns dias aqui — disse ela, sem se
mexer. — Você pode voltar aos Estados Unidos, estarei em boas mãos.

Congelei. Ela ainda achava que eu seria capaz de entregá-la ao tio depois de
tudo que fiquei sabendo? Eu não podia ter passado uma imagem tão terrível a
essa menina.

Respirei fundo, alisando o topo da minha cabeça, procurando uma forma de


quebrar meu silêncio. Notando que eu não respondi, Giovanna se sentou e me
olhou. Sua postura confiante ficou abalada quando os ombros caíram e ela tapou
o rosto com as mãos.

— Sua mãe contou, não foi? — murmurou. — Pedi que não falasse nada
para você, mas acho que subestimei a lealdade existente entre os dois. Não quero
que sinta pena de mim.

Olhei em volta, pensando quando tinha sido a última vez que fiz isso e não
consegui recordar. Puxei as pernas da minha calça social, torcendo para não
rasgá-la, e me sentei no chão, de frente para Giovanna.

Antes que minha língua conseguisse desgrudar do céu da boca e dizer algo
útil, a italianinha ficou de joelhos e tentou se levantar. Segurei sua mão, temendo
tocá-la de um jeito que a ofendesse. Sentia-me pisando em ovos.

— Por que contou para minha mãe e não para mim?

Ela pressionou os lábios e inspirou tão profundamente como nunca vi.

— Não queria que soubesse — respondeu, baixando a cabeça sem conseguir


me encarar. — Por vários motivos.

— Tenho certeza que em outra situação, Giulia nunca trairia sua confiança,
mas no momento, você precisa de proteção. Ela sozinha não poderia dar isso a
você.

Giovanna se sentou sobre os calcanhares e balançou a cabeça. Queria muito


poder abraçá-la, mas ela nem ao menos parecia confortável com minha presença
ali.

— Não quer mesmo conversar comigo sobre isso, né? — perguntei, aflito.

Ela negou, sacudindo a cabeça. Quando levantou os olhos e me encarou,


pude me perder em seu brilho de azul infinito. A cada segundo meu autocontrole
que me impedia de ir atrás de Lorenzo diminuía um pouco mais.

— Não. Você é homem e... — Doeu ver os lábios grossos estremecerem. —


Sinto vergonha que saiba o que a gente fez...

— A gente, não. — Inclinei meu corpo e segurei o rosto dela entre minhas
mãos. — Você não fez nada, bambina.

— Eu deixei. — Ela encolheu os ombros e baixou os olhos. Tão diferente da


Giovanna com a qual me acostumei. — Podia ter fugido há mais tempo, podia
ter lutado mais contra ele.

— Pelo que entendi, quando tentou confrontá-lo, ele a feriu ainda mais.
Poderia matá-la se continuasse a insistir nisso.
Senti a textura macia e pesada dos fios de cabelo e a forma como eles
deslizavam pelos meus dedos. Então mandei todo o desconforto à merda e a
puxei de uma vez, passando meus braços ao redor do corpo frágil. Quando se
encolheu em meu colo, apoiei meu queixo sobre sua cabeça.

— Você não tem que sentir vergonha por algo que não é culpa sua, isso é
exatamente o que Lorenzo quer que acredite. Já seria doentio fazer isso com
qualquer criança, sendo o próprio sangue, torna tudo pior. — Estremeci quando
senti os braços dela rodearem minha cintura. — Não me afaste, bambina. Deixe-
me protegê-la como deveria ter sido. Não espero que se abra comigo, apenas
aceite minha mão estendida.

— O que sua mãe contou? — Precisei fazer um esforço maior para ouvir o
que dizia, pois, seu rosto estava pressionado contra minha camisa, como se fosse
mais fácil se esconder naquele momento.

— Muita coisa. E se um dia quiser conversar sobre isso comigo, serei todo
ouvidos. Por agora, não quero que se preocupe mais com seu tio, pois resolverei
tudo.

— Não! — Eu a soltei quando ela forçou o corpo para trás e se sentou


novamente sobre os calcanhares. Quando me encarou, enxerguei o medo
estampado em seus olhos. — Não pode, Pietro. Há infiltrados e...

— Sei me cuidar.

— Não! — A italianinha se levantou e caminhou até a parede mais próxima,


onde uma bancada tomava toda sua extensão. Ela apoiou os quadris ali e me
olhou, balançando a cabeça e levantando as mãos. — A senhora Greco vai me
matar por colocar você em perigo. Ela não devia ter contado. Eu estou bem, já
me acostumei com tudo há muito tempo. Tanto que você nunca percebeu nada.
Só... é difícil relembrar... e ter que falar disso.

— Vou matar seu tio, principessa. Não importa quando, é uma promessa.

Respirei fundo, contraindo-me internamente com as ideias que dançaram em


minha mente sobre o que fazer com Lorenzo. Levantei do chão, me preparando
para sair dali e deixá-la sozinha de novo, para ter o tempo que quisesse.
Giovanna correu e segurou meu braço antes que eu passasse pela porta.
— Don, por favor. Eu nunca quis que isso acontecesse, minha mãe deixou
bem claro que se você fosse envolvido, seria trágico. — Os olhos azuis
lacrimejaram. — Quem vai ocupar sua cadeira se morrer agora?

Imaginar que Giovanna passou por tudo calada apenas pela ideologia de
manter o Don da Soprattutto em segurança, como qualquer outro membro da
famiglia faria, deixou-me doente. Não era por ser eu, era pelo título. E eu me
odiava por ela ter achado que minha vida valia mais que a sua própria.

Seu semblante estava tenso, pesado. Os ombros caídos e os olhos baixos


indicavam também o desconforto agora que eu sabia seu segredo mais terrível.

— Não se preocupe comigo, Giovanna. — Era fofo, mas ultrajante achar que
Lorenzo tinha alguma chance de me fazer mal. — Descobriremos quem são os
infiltrados e os silenciaremos antes que minhas intenções cheguem ao
conhecimento de seu tio.

Balançou a cabeça mais uma vez. Estava em negação.

— Sinto muito por não ser mais a noiva intocada que você esperava. Pensei
em contar tudo no carro, a caminho do aeroporto, mas perdi a coragem. Quando
disse que era meu corpo e minhas regras... — ela riu e, então, estremeceu com
um choro que eu não previ chegar. — Percebi que ele...

Estalei a língua, surpreso com aquele rompante. Ela estava abalada, mas
tinha se mostrado forte até agora. Passei minhas mãos por dentro do seu cabelo e
me curvei para beijar sua testa. Os dedos delicados seguraram meus braços
quando ela dobrou os joelhos e abaixou a cabeça.

— Meu corpo nunca foi meu.

Que Deus me desse forças! Ergui a cabeça para cima, fechando os olhos ao
sentir serem tomados pela ardência inconfundível. Respirei fundo e levantei o
rosto dela, evitando que desviasse o olhar. Enxuguei as lágrimas que já
escorriam pelos lábios e coloquei seu cabelo para trás ao sentir que até o pescoço
estava molhado.

— Não sei muito bem o que dizer para que se sinta melhor, além do que eu já
disse. Mas estarei aqui para apoiá-la no que precisar, tudo bem?
Ela fungou e passou as mãos pelo rosto, tentando disfarçar os olhos
vermelhos e inchados. Então, deu um sorriso fraco para mim.

— Tudo bem. Só não quero mais tocar nesse assunto por enquanto — falou
enquanto eu via sua expressão se transformar. Aquela era uma garota muito
forte.

— Que assunto? — perguntei, franzindo a testa com exagero. — Estamos


falando sobre a sua macarronada terrível? Graças a Deus temos bons cozinheiros
nesta casa!

Minha bambina riu e não parecia um som forçado, o que fez aliviar o aperto
em meu peito. Ofereci meu braço para voltarmos à casa e ela aceitou, com as
bochechas vermelhas.

— Sorte a sua que não precisará mais comer minha comida.

— Deus teve piedade de mim. Pelo menos, não tinha veneno — brinquei
com ela e antes que saíssemos da estufa, parei e fiz com que me olhasse. —
Quero deixar bem claro que você não tem mais obrigação alguma com o acordo.
Se antes me soava errado por causa da nossa diferença de idade, agora então...
Nem sei o que pensar. Meu maior medo sempre foi parecer um velho tarado
perto de você.

— Eu não te acho velho de verdade — disse ela, pressionando os lábios. —


Sei que falei isso, mas foi só provocação. Desculpe.

— Mas para você, eu sou. Não quero que se sinta coagida perto de mim. —
Beijei-a na mão e a devolvi para dentro de meu braço. — Vamos entrar. O
almoço deve estar pronto e tenho um assunto importante para resolver na rua.

— Pietro Fillipo Greco, você não chegará perto de Lorenzo! — a voz de


minha mãe, diante de mim, soou autoritária. Não notamos a aproximação dela,
só quando já estava na porta. — Eu o proíbo de se vingar enquanto não
soubermos quem são os infiltrados.

Ah, até parecia que não tinha me carregado por nove meses e não me
conhecia. Quando me pediu que me controlasse e eu concordei, ainda não estava
tão tomado pelo ódio como estava agora. Se eu queria matar Lorenzo quando
mamma terminou de me contar tudo, a vontade tinha duplicado depois que
conversei com Giovanna. Minha intenção era deixá-las almoçando, chamar
Carlo e derrubar a porta de Lorenzo.

— Observe! — respondi, soltando Giovanna e passando por minha mãe para


sair da estufa. Ela segurou meu braço com força e eu não o puxei por respeito.

— Pietro. Você deu sua palavra.

— Isso foi antes de saber que o tio filho da puta dela... — as palavras
morreram em minha boca quando olhei Giovanna. Não tive coragem de repetir o
que ele fez.

Minha mãe recuou até bloquear a única porta, esticando os braços para se
apoiar.

— Eu o conheço, figlio. Seu senso de justiça é forte demais, você gosta dela
e não está raciocinando. Per favore, coloque a cabeça no lugar.

— Saia da minha frente, mamma. Não vou a lugar algum agora, fique
tranquila.

Num gesto rápido, ela esticou a mão e puxou a arma que eu tinha sob a
camisa. Giulia Greco conferiu a trava e escondeu a Glock atrás das costas.

— Pensa que nasci ontem, garoto? — ralhou como se eu tivesse quinze anos.
— Liguei para seu irmão e ele está a caminho, para tentar colocar juízo nessa sua
cabeça. Vai envolvê-lo também nessa carnificina?

— Pietro... — Giovanna se colocou entre mim e minha mãe. — Escute sua


mãe.

— Eu não vou sair, mas me deixem passar — pedi, inconformado, mas


tentando me controlar. As duas me lançaram olhares desconfiados.

— Jure pelo seu pai, Pietro — ordenou minha mãe, ainda muito séria. Era
uma mulher e tanto, como eu tinha orgulho de sua força.

Merda, ela sabia pegar pesado.

— Juro pelo meu pai.


Giulia Greco passou por Giovanna e me puxou para um abraço. Segurou
meu rosto e me beijou as bochechas, a testa, depois afundou o rosto no vão do
meu pescoço.

— Não posso perdê-lo, figlio. — Ela afastou o rosto e me encarou, sorrindo


com tristeza. — Sou muito jovem para perder um de vocês. — Então, voltou-se
para Giovanna e alisou o rosto da menina. — Cuidaremos de você como se fosse
uma Greco, independente de casamento. Meu filho mais novo também é muito
bonito, você o conhece?

Giovanna soltou uma risada enquanto enxugava os olhos com as costas da


mão.

— Ah, pelo amor de Deus, mamma! Acabamos de romper o noivado e a


senhora quer jogá-la para cima de Enzo?

— Você já olhou bem para esta moça, Pietro? — Ela parecia quase ralhar,
enquanto passava um braço pela cintura de Giovanna. — Se você bateu com a
cabeça e decidiu que não a quer mais, tudo bem. Mas tenho certeza que seu
irmão ficará animado com minha insinuação. Você gostaria de conhecê-lo
melhor, Giovanna?

A garota arregalou os olhos azuis na minha direção e abriu a boca, para


fechar em seguida.

— Eu... hm... — pigarreou e me encarou de novo. — Ela está falando sério?

— Sim!

— Não — declarei, olhando firme para minha mãe. — Isso não está em
discussão.

— Obrigada, senhora Greco, mas eu gostaria de manter o casamento — disse


Giovanna, deixando-me surpreso.

Eu tinha acabado de dizer que ela não precisava mais se preocupar com isso.
Entendi que quando implorou para que eu voltasse atrás em minha decisão, era
por não querer ficar novamente sob a tutoria do tio. Agora, não conseguia
compreender os planos de Giovanna, pois de uma coisa eu tinha certeza: ela não
podia estar ansiosa para se casar apenas por causa de meus belos olhos.
Minha mãe abriu um sorriso e eu observei minha ex-noiva. Por acaso, tinha
desenvolvido a síndrome de Estocolmo?
GIOVANNA

Eu estava sentada, mas meus joelhos continuavam bambos. Ainda não


acreditava que tinha contado tudo que passei e que, agora, Pietro conhecia meu
passado. Tínhamos acabado de jantar e ele conversava calorosamente com seu
irmão Enzo.

O Don e a senhora Greco me perguntaram se eu me importava de que o rapaz


ficasse sabendo, pois seria de grande valia para que pudessem colocar alguns
planos em ação. Eu autorizei que contassem tudo, afinal, Enzo era um Greco.
Quando ele chegou naquela tarde, foi logo colocado a par de tudo porque era o
braço direito de Pietro. Fomos apresentados e entendi por que a senhora Greco
parecia convicta de que eu aceitaria o filho mais novo, caso não fosse mesmo
ficar com o mais velho. Enzo era muito bonito. Tinha o cabelo um pouco mais
claro que o de Pietro, olhos da mesma cor e o mesmo tom de pele. Porém, o que
o tornava muito diferente do Don, era que este exalava um poder nato, possuía o
olhar sombrio e até seus gestos e sua postura denunciavam a posição que
ocupava. Pietro era um predador.

Enzo exibia um olhar de quem não tinha muita preocupação na vida. Parecia
não ter sobre os ombros o mesmo peso que o irmão precisava carregar. E, cá
entre nós, a beleza dele não chegava aos pés da de Pietro.

Alisei minha clavícula, distraída, pensando no Don. Ele não prestava atenção
em mim enquanto traçava planos com Enzo. Sentado à cabeceira da mesa, no
lugar que antes era ocupado por Don Enrico, tinha uma mão apoiada no braço da
cadeira e a outra segurava o queixo, com o cotovelo na mesa e o rosto virado
para o irmão. Tinha trocado a roupa social por algo mais casual: uma camisa
preta lisa e um jeans surrado. As mangas curtas não conseguiam dar conta dos
bíceps largos e eu lembrei que eles ficavam ainda mais inchados quando
seguravam pernas femininas na hora do sexo.

Por que eu fui lembrar disso, minha nossa senhora? Inspirei, enterrando as
imagens bem fundo na minha mente. Não era tão santa, apesar de nunca ter
chegado às vias de fato com ninguém. Desde que voltei do colégio interno e
passei a dar minhas escapadas para fugir de Lorenzo, comecei a perceber que
meu corpo não ficaria eternamente de luto pelo que me aconteceu. Beijei alguns
garotos e dei muitos amassos, mas nunca deixava que me tocassem abaixo da
cintura e agia igual com eles. Sempre travava e me sentia suja. Até que comecei
a usar Pietro como a desculpa para aquilo acontecer. Funcionava melhor do que
admitir que eu não fazia sexo nem ia mais além unicamente por minha causa,
por meus traumas. Havia apenas um cara com quem eu me sentia à vontade, mas
ele era meu amigo: Nero Salvatore.

Eu devia estar sendo muito indiscreta, pois Pietro sentiu meu olhar avaliador
e voltou sua atenção para mim. Estremeci com a intensidade dos olhos azuis e
encarei meu prato vazio. Contei cinco segundos e olhei novamente apenas para
descobrir que ele ainda estava me encarando. Parecia que tudo ao meu redor
havia sumido e só existíssemos nós dois no mundo.

O Don levantou o cantinho da boca num meio sorriso torto e eu não consegui
deixar de retribuir, sem saber o que aquilo significava.

— Você confia em Carlo? — Enzo perguntou e deixei de ser o foco de


Pietro. — Quero dizer, precisamos desconfiar de todo mundo.

— Confio quase cegamente nele, mas não sei se confio em Alessandro.


Continuei calada, mas fiquei chocada. Aquele era o nome do consiglieri de
Don Enrico, que continuou ocupando o posto depois que Pietro recebeu o título.
O homem era membro da famiglia há mais de quarenta anos. Se meu ex-noivo
não confiava nele, em quem poderia confiar?

— Por enquanto, não quero que o assunto deixe essa mesa, nem mesmo para
chegar aos ouvidos de Carlo — declarou Pietro. — Preciso ouvir e observar com
calma, estudar todo o cenário da Dita di Ferro. Lorenzo não é um Don, portanto,
não é tão inacessível e tampouco pode esconder os rastros por muito tempo.

— Se ele escondeu do próprio irmão, figlio...

— Francesco Mancini não era nada parecido comigo, mamma. — Ele cortou
a mãe e, em seguida, olhou na minha direção. — Com todo o respeito, bambina.

Dei de ombros, sem vontade de me meter na conversa. Tudo que dizia


respeito a Lorenzo me deixava enjoada e eu não queria colocar a refeição para
fora. Sentia que tinha emagrecido um ou dois quilos no último mês por ter me
alimentado tão mal.

— Daremos uma festa amanhã à noite — disse Pietro, pegando a todos nós
de surpresa. — Está em cima da hora, mas não aguento esperar muito tempo.
Quero uma oportunidade de trazer Lorenzo aqui e ficar cara a cara com ele,
despretensiosamente.

Todos os rostos se viraram para mim. Será que aquele tipo de coisa sempre
aconteceria de agora em diante? As pessoas me olhariam como se eu fosse uma
pobre coitada? Usei o guardanapo para ganhar tempo e, em seguida, sorri.

— Adoro festas! Na última em que estive, Don Pietro não me deixou


aproveitar o suficiente.

— Temo por decepcioná-la, mas minha casa não é uma boate — disse ele,
devolvendo o sorriso.

— A presença de Lorenzo aqui em casa pode nos indicar quem são os


infiltrados — Enzo complementou, parecendo usar a mesma linha de raciocínio
do irmão. — Entendi seu objetivo. Estaremos preparados.

— Deixe-me avisar aos dois que ninguém levantará uma arma sequer dentro
desta casa. — Giulia Greco levantou a voz, tornando-se o centro das atenções.
Com muita classe, ela bebeu um gole de água e arrumou alguns fios de cabelo no
lugar. — Não vou me opor à festa, mas nosso lar deve permanecer sagrado.

O Don se levantou e antes de sair da mesa, parou atrás da cadeira da mãe e


beijou o topo da cabeça dela.

— Não acontecerá nenhuma desgraça, mamma. — Ao se afastar, olhou para


mim e meneou a cabeça. — Venha comigo, por favor, Giovanna.

A senhora Greco deu um sorrisinho complacente para mim e Enzo ergueu


uma taça, cumprimentando-me quando levantei e segui Pietro. Sentia mãos e pés
gelados ao caminhar atrás dele pelo corredor comprido, até que me vi sendo
guiada para dentro de um escritório.

Ele esperou que eu entrasse e fechou a porta, indicando-me o sofá num


canto. Quando me sentei, ocupou uma poltrona diante de mim, que era a cara de
Don Enrico. Eu quase podia enxergar o homem simpático ali, de pernas cruzadas
e um charuto na mão.

— Queria ter essa conversa mais cedo, mas antes, precisava me acalmar —
disse ele, passando a mão pelo cabelo de forma sensual demais.

— É sobre Lorenzo? — Estávamos no meio do verão europeu e o calor era


intenso. Porém, encolhi-me com um frio súbito e um grande desconforto. — Não
me oponho a nada que venha acontecer com ele.

Pietro se curvou, apoiando os cotovelos nos joelhos.

— É sobre a sua vida. Agora entendo porque tanta recusa em voltar para cá.
Porém, preciso saber uma coisa, você deseja retornar à Nova York?

Confirmei, balançando a cabeça, afirmativamente.

— Pensei no que fazer. Jurei a minha mãe que não entraria em guerra sem
conhecer bem o outro lado e, por isso, seu tio viverá um pouco mais. Isso
significa que terá que ficar comigo e fingir que continua sendo minha noiva.
Enquanto estivermos aqui, precisaremos manter as aparências ou ele vai requerer
novamente sua guarda. — Concordei para demonstrar que já estava ciente de
tudo aquilo. — Mas uma vez de volta aos Estados Unidos, acredito que você não
precise ficar em minha casa. Deixarei que siga sua vida, desde que entenda que
não poderá chamar tanta atenção para si. Nada de bebedeira ou danças sobre as
mesas.

Eu devia abrir um sorriso e comemorar minha futura liberdade, mas só


conseguia me sentir decepcionada por saber que ele realmente me deixaria livre
para seguir em frente.

— Obrigada — nem sei a que estava agradecendo, só achei que devia dizer
algo.

— Acha que conseguirá encará-lo amanhã? — perguntou, levantando-se e


estendendo uma mão para mim. Quando o toquei, senti que estava com minha
palma suada e ele percebeu. — Não vou obrigá-la a pisar no mesmo ambiente
que o infeliz. Posso inventar uma desculpa para sua ausência.

— Olhar na cara de Lorenzo é o menor dos meus problemas, Don Pietro. Sei
fingir muito bem e ele terá certeza que eu sou a noiva mais feliz do mundo.

O filho da mãe abriu um sorriso indicando que eu tinha dito alguma coisa
muito engraçada para causar aquela reação. Ele arqueou uma de suas
sobrancelhas grossas e os olhos azuis brilharam para mim.

— Você, tentando demonstrar que está feliz ao meu lado? Terá que fingir
muito bem, bambina.

Agi antes que pensasse muito e me arrependesse. Estiquei meus braços e


fiquei o máximo na ponta dos pés que consegui, envolvendo o pescoço dele e
jogando a cabeça para trás.

— Sou muito feliz, mio fidanzato. Mal vejo a hora de subir no altar!

Sorri e deixei que meus dedos deslizassem pela barba dele, adorando a
sensação; era realmente macia caso fosse tocada com delicadeza, mas algo me
levava a crer que poderia se tornar áspera se ele a esfregasse contra minha pele.
Como fez nos vídeos, durante o sexo oral. E ao relembrar aquilo, não quis mais
soltá-lo.

Senti Pietro ficar tenso sob meu toque e tirar o sorriso do rosto. Nossa, que
balde de água gelada! Se fosse Rayka no meu lugar, tenho certeza que ele estaria
todo sorridente.

— Seja sincera comigo — pediu, franzindo a testa. — Em algum momento,


sentiu-se desconfortável em minha casa ou achou que eu... tenha faltado com o
respeito? Ficarei com essa sensação na cabeça, agora que sei pelo que passou
antes de nos reencontrarmos.

— Você é meio chato e ranzinza, mas sempre foi muito legal comigo.

— Chato e ranzinza? — Ele arqueou uma sobrancelha.

— Sim. Coisa de velho, mesmo você só tendo trinta e três anos. — Encolhi
os ombros.

— Coisa de velho. — Pietro riu e balançou a cabeça, parecendo não se


preocupar que eu ainda estivesse pendurada em seu pescoço. — Devo estar
velho mesmo, estou perdendo o jeito com as mulheres.

— Por acaso, está se referindo a mim? Porque sou uma criança, palavras
suas.

Ele sorriu, passando um braço pela minha cintura e com a outra mão, alisou
minha testa, empurrando meu cabelo para trás.

— Estou ciente disso, bambina.

— Muito, muito ciente? — Pronto, àquela altura eu já não sabia mais o que a
gente estava conversando. Tinha me perdido nas brincadeiras e no sorriso dele.
Suspirei, olhando profundamente em seus olhos.

— Extremamente ciente, em cada célula do meu corpo — respondeu e me


matou do coração ao piscar para mim. — Tão ciente que deveria estar a pelo
menos uns dez metros de você. Mas, a senhorita é uma provocadora nata, né?

— Ceeeeerto, acho que vou dormir. Boa noite!

Antes de soltá-lo, fui extremamente rápida e rocei meus lábios nos dele,
como um selinho ligeiro. Foi suficiente para me fazer querer mais, só que achei
melhor me afastar antes que o diabo tivesse tempo de reagir e me dar uns tapas
pelo meu mais recente atrevimento.
— Você não presta, Giovanna — Pietro passou a língua pela boca quando me
afastei, esfregando o polegar numa sobrancelha. — Saia com minha mãe amanhã
e compre um vestido para a festa. Confio no seu bom gosto, vista algo digno de
uma Greco.

— Sim, senhor. — Assenti e, antes que ele reclamasse de ser chamado


daquela forma, eu saí do escritório.

Usaria algo que ninguém nunca mais seria capaz de esquecer.

PIETRO

Caminhei atrás de Giovanna pelo corredor que nos levaria de volta à sala de
jantar, mas fomos interceptados no meio do caminho. Giulia Greco sorriu para
minha ex-noiva e passou por ela, vindo até mim.

— Quero conhecer essa tal de Rayka.

— O quê? — Giovanna se virou para nós, histérica. — Digo, sério? Ela nem
sabe que somos mafiosos.

Enfiei as mãos nos bolsos do jeans e me encostei à parede, observando sua


expressão de cão raivoso. Tinha alguém com ciúmes?

— Bem, se ela pode vir a ser sua futura esposa, então preciso conhecer a
moça. — Mamma alisou minha camisa, sorrindo do seu jeito de corujinha
orgulhosa pela cria. — Você não se casará com uma mulher que eu não aprovar.

— Ih, senhora Greco, então é melhor abrir mão de um herdeiro — disse


Giovanna, mais uma vez se metendo na conversa. — Não aprovaria nenhuma
moça que seu filho conhece.

— Está se incluindo na lista, bambina? — perguntei, provocando.

Minha mãe se virou, tentando intercalar os olhares entre nós, confusa.

— Graças a Deus, eu não entrei na sua vida por mérito seu. Don Enrico era
um homem sábio, portanto, sou o único fruto que presta entre as maçãs podres
da sua fazendinha.

Mamma ergueu os braços para o alto e passou por nós, estalando a língua
num som alto o suficiente para escutarmos.

— Francamente! Se a menina não fosse menor de idade, eu diria para


arranjarem logo um quarto.

— Cara, você está tenso. Há quanto tempo não transa?

Voltei minha atenção para Enzo, sentado num canto do sofá. Tínhamos nos
trancado no escritório depois que todos foram dormir e havíamos acendido
charutos da coleção de nosso pai.

— Por incrível que pareça, desde ontem — respondi, pensando se seria uma
boa ideia sair àquela hora só para encontrar um rabo de saia dentro do qual
pudesse me satisfazer.

— Acho que essas americanas não devem ser muito boas de cama, visto que
você parece com alguém que não trepa há um ano.

Pousei a mão com o charuto sobre o braço do sofá e esfreguei meus olhos
com a outra. Estava cansado e deveria ir me deitar.

— É culpa de Giovanna — falei. — Ela virou minha rotina de cabeça para


baixo.

— Sério que você ainda não a comeu? — Enzo franziu a testa, surpreso. —
Algo me diz que quando a garota provar o raríssimo leite Greco, ficará mais
mansinha.

Levei o charuto à boca e dei mais uma tragada, olhando para meu irmão. Tão
parecido fisicamente comigo, mas de repente, senti como estávamos distantes.
Tivemos uma infância divertida, até o momento em que eu entrei na puberdade e
comecei a acompanhar nosso pai mais de perto nos negócios. Isso criou um
abismo entre nós dois, porque enquanto eu aprendia a lidar com homens
perigosos, Enzo estava na fase do videogame. Quando se tornou homem, achei
que seu caráter se moldaria automaticamente, com toda a criação e educação que
recebeu em casa.

Agora percebia que tinha falhado com ele, por não me fazer tão presente nos
últimos anos.

— Neste exato instante em que você respira, isso só continua acontecendo


porque é meu sangue. — Apaguei o charuto e me levantei, caminhando até onde
estava sentado. — Levante.

Uma sombra dançou pelo azul dos olhos dele, apenas um tom mais escuro
que os meus. O garoto se empertigou e se levantou prontamente, alisando a
camisa no peito. Apoiei minhas mãos em seus ombros, exercendo uma pressão
maior que o necessário.

— Eu vi Giovanna crescer e ela é muito importante para mim. — Com a mão


direita, afastei os lábios dele para observar seus dentes perfeitos. — Se algum
dia você falar dela novamente dessa forma desrespeitosa, arrancarei seus caninos
e farei você os engolir.

— Mio fratello, perdoe-me. Não imaginava que realmente gostava dela. —


Ele engoliu em seco. — Se soubesse, não falaria essas coisas.

— Você a conheceu ainda pequena, Enzo. Casando-se ou não comigo, ela é


alguém que temos a obrigação de respeitar.

Eu o soltei e ainda tomei mais alguns segundos o observando. Enzo era seis
anos mais novo do que eu e talvez eu tenha tomado uma decisão errada ao
colocá-lo no lugar que agora ele ocupava.

— Você não será mais meu sottocapo. — Dei um tapinha no rosto dele antes
de me virar para sair.

— O quê? Pietro, isso é muito radicalismo!

— Não posso ter ao meu lado um subchefe que seja escroto com a pessoa
que até poucas horas seria a futura matriarca dessa famiglia.
Ele abriu a boca, sem conseguir esconder a irritação que sentia e levou as
mãos aos quadris.

— Então é tudo por causa de uma mulher? Tem certeza que não foram pra
cama?

Parti para cima dele, agarrando seu topete ridículo e o derrubando sentado no
sofá. Enzo tentou se soltar, mas enfiei minha mão dentro de sua boca e prendi
sua língua entre meu indicador e o polegar.

— Tente falar de novo de Giovanna — pedi, controlando a respiração e


pedindo a Deus por um pouco de luz para não matar meu irmão. — Depois de
tudo que você ouviu sobre a história dela, considero inadmissível que a
desrespeite, principalmente na minha frente.

Enzo tentou falar, mas obviamente, não conseguiu. Ele socou meu peito, mas
nada que fizesse surtiria efeito porque havia uma cortina de sangue vendando
meus olhos. Só conseguia pensar que a italianinha era a garota mais inocente que
eu já tinha conhecido e ver alguém relacioná-la com putaria me deixava
ensandecido. Talvez estivesse exagerando, talvez tudo fosse ódio encubado por
não poder sair agora e arrancar os dedos de Lorenzo, mas estava com sede de
sangue.

— Juro por Deus, Enzo, só estou levando em consideração o fato de que é


meu irmão e o amo muito. — Puxei a língua com mais força, arrancando
algumas lágrimas dele. — De qualquer forma, está claro que não serve para ser
um sottocapo e nunca será o Don. Se com o tempo demonstrar que é merecedor
e amadurecer, posso nomeá-lo um caporegime, no máximo.

Quando ele balançou a cabeça, parando de se debater, saí de cima e o soltei.


Enzo me lançou um olhar magoado e abalado, mas nada falou, enquanto enfiava
a mão na boca. Devia querer se certificar de que a língua ainda continuava no
mesmo lugar.

— Não preciso avisar que se tocar nela, vai perder uns dedos. Preciso?

— Não.

Sorri.
— Boa noite.

GIOVANNA

Acordei quando senti um movimento no colchão e quase gritei ao encarar o


rosto de Pietro. Ele estava sentado bem na ponta, olhando para minha cara como
se estivesse com raiva.

—Dio mio! — Sentei-me, puxando o lençol até o peito, apesar de não estar
vestindo nada indecente. Como eu não tinha nenhuma roupa de dormir, a
senhora Greco havia me emprestado uma camisola. — Quer me matar do
coração?

— Você concorda que eu não deveria estar dentro do seu quarto no meio da
madrugada?

— Concordo muito! — Estiquei o braço e apontei na direção da porta. — Dê


o fora!

— Sabe por que estou aqui? — perguntou ele, num sussurro.

Ah, senhor. Era a hora. Pietro tinha ido até lá para me agarrar. Justo na noite
que eu resolvo vestir a calcinha mais feia. Porém, se eu me mexesse
discretamente, podia tentar tirá-la por baixo do lençol antes que ele tivesse
chance de ver.

— Acho que faço uma ideia — respondi, sorrindo.

— Sua porta estava destrancada. Possibilitando que qualquer pessoa entrasse


no quarto. Poderia ser um infiltrado, por exemplo. Poderia matá-la ou estuprá-la
ou até mesmo sequestrá-la para Lorenzo, enquanto todos estivessem dormindo.

Calma. Quê? Pisquei, confusa. Não seria agora que eu o beijaria, então?

— Assim que eu sair, tranque a porta, Giovanna — ordenou o diabo ao se


levantar e caminhar para fora do quarto. — Só para ter certeza de que me
obedeceu, voltarei aqui quando menos esperar.
Quando ele saiu, eu cogitei desobedecer somente para que realmente voltasse
ao meu quarto e me desse outro sermão, mas algo fez com que eu recuperasse a
lucidez. Decidi girar a chave e trancar a porta antes de voltar para a cama.
GIOVANNA

Sabia que estava sendo indiscreta, mas havia se tornado impossível


desgrudar meus olhos dele naquela manhã. Quando desci para tomar café, quase
desmaiei ao ver Pietro entrar em casa ensopado. Ele tinha acabado de sair da
piscina e usava uma sunga que só mesmo Deus para ter me mantido de pé
naquele momento. Parecia que a roupa de banho era tipo uns cinco números
menor que o dele ou então sei lá, o pacote devia mesmo ser grande demais para
caber em qualquer lugar. Porque era grande, grande mesmo. Volumoso demais.
Não dava para passar despercebido.

— Bom dia, bambina — o diabo me cumprimentou ao passar por mim,


esfregando a merda de uma toalha no cabelo.

E o que eu fiz? Dei uma resposta inteligente? Xinguei o infeliz? Virei a cara
e saí?
NÃO.

Eu ri. Tipo, apenas comecei a rir. De nervoso, lógico, porque o fogo que
estava sentindo era tão surreal que só podia ser uma piada do universo. Passei
vários anos querendo odiar aquele homem e jurando de pés juntos que nunca
mais me iludiria com seu belo sorriso e seus olhos azuis, mas então, ali estava
eu, querendo me jogar sobre ele e lamber a água da piscina.

Enquanto gargalhava descontrolada, meus olhos estavam grudados numa


gotinha safada que driblou aqueles gomos definidos do abdômen e foi capturada
pela curva de sua entrada absurdamente depravada que levava diretamente ao
volume coberto pela sunga. Estava sem fôlego.

Pietro estalou os dedos diante do meu rosto e quando o encarei, ele exibia
um sorrisinho arrogante.

— Meus olhos estão aqui em cima — avisou, apontando para o próprio


rosto.

— Que se danem eles! — respondi, exasperada.

— Estamos irritadinha hoje? Por acaso, roubou alguma vodca da coleção de


minha mãe?

Ótimo, agora ele achava que eu estava bêbada. Muito bem, Giovanna. Em
resposta, apenas fechei a cara e caminhei o mais rápido possível na direção
oposta. Sabia que era um exagero tratá-lo com mau humor só porque eu não
podia ter o que ele exibia por aí. Era muito injusto.

— Quero convidar um amigo para a festa de hoje — declarei, tomando


coragem e me posicionando ao me virar novamente para ele. — Não nos falamos
desde que fui para Nova York e sinto saudades.

— Amigo? — Os olhos de Pietro se tornaram uma linha fina. — Ele faz


parte da famiglia?

— Sim. É Nero Salvatore. O pai dele é um caporegime.

— Sei quem é Marco Salvatore — respondeu o Don, pendurando a toalha no


pescoço. — Não me lembro do filho dele. Qual a idade?
— Nero fez dezoito mês passado. A pool party que ele deu foi a melhor festa
que já fui na vida.

Pietro deu três passos até me alcançar e fez com que eu fosse obrigada a
recuar um pouco, mas acabei descobrindo que não tinha para onde fugir; havia
uma parede atrás de mim. Observei sua mão se apoiar acima da minha cabeça e
ele se curvar na minha direção.

— Esse Nero, em algum momento da vida, beijou sua boca? — perguntou e


quase virei gelatina quando seu polegar tocou meu lábio inferior. Será que eu
deveria aproveitar a situação e tocar aquele abdômen?

— N-não — gaguejei, arfando. — Somos... amigos.

O Don sorriu, satisfeito.

— Pode convidá-lo. Estenderei o convite à família dele.

— E se por acaso eu tivesse dado uns pegas nele, meu amigo estaria riscado
da sua lista de convidados? — questionei. — Não foi você quem disse que eu
deveria beijar alguém da minha idade?

— Dizer é uma coisa, aceitar é outra. — O maldito piscou e se afastou.

Apressei meus passos até passar de novo por ele e me virei de frente.

— Poderia ter sido você — falei, mordendo exageradamente o meu lábio. —


Uma pena que não tenha sido.

Virei-me de costas e o deixei com seus pensamentos, sem olhar para trás.

Deveria ter acabado por aí, não deveria? Mas não. Porque quando sentei para
tomar o café da manhã na companhia da senhora Greco e de Enzo, o diabo
também se juntou a nós. De sunga. Sério, quem em sã consciência fica andando
pela casa seminu daquele jeito?

Para piorar, uma das empregadas, que não parecia ser muito mais velha do
que eu, estava toda sorridente ao se aproximar de Pietro para servir o leite. Eu
bem notei quando a espertinha deu uma conferida no material e mordeu o lábio.
Como ela conseguia ser tão descarada? Para todos os efeitos, a noiva dele estava
sentada bem na cadeira ao lado.

Revoltadíssima, peguei meu celular e escrevi uma mensagem para Pietro.


Não queria falar em voz alta para não chamar ainda mais atenção ao fato de que
estava mostrando demais.

“Não acha que sua sunga está pequena demais? Tá todo mundo
olhando! Você devia usar um short!”

O telefone dele vibrou ao seu lado e ele o pegou. Primeiro franziu a testa,
depois olhou para os funcionários e, em seguida, riu. Sem me olhar, digitou.

“Acho que só você está preocupada com isso. Mas para tranquilizá-la,
a sunga é do tamanho certo.”

Petulante!

“A mocinha de cabelo ruivo olhou e pareceu bem feliz com o que viu.
Seu depravado!”

Ele gargalhou, jogando a cabeça para trás, mas em nenhum momento me


olhou. Óbvio que as outras duas pessoas sentadas à mesa tomaram conhecimento
de que algo se passava entre nós, porque éramos os únicos segurando os
celulares.

“Estou solteiro. A mocinha ruiva pode olhar o quanto quiser.”


Chega. Eu que não ia ficar entrando na brincadeirinha ridícula dele. Deixei o


celular de lado e cortei a fatia de bolo em meu prato. Todos se contraíram com o
barulho da faca arranhando a porcelana fina, mas não me importei. O celular
tocou com uma nova mensagem e eu, puta da vida, cometi o erro de olhar.

“Você está bem, bambina? Parece um pouco colérica. Talvez deva


tomar um banho de piscina para refrescar a mente.”

Minha resposta foi curta e grossa, porque eu estava prestes a xingá-lo em voz
alta.

“Foda-se.”

Olhei para Pietro, que abriu um sorriso enorme. Ele achava engraçado me
deixar com raiva.

“Que boca suja! Acho que dessa vez você merece um tapa. Aguarde.”

— Giovanna, querida, que horas você gostaria de sair para fazer as compras?
— a senhora Greco falou, desviando minha atenção da jugular do Don. Acho
que ela percebeu que estávamos prestes a nos estapear e temeu pela integridade
física do filho, pois minhas unhas estavam crescidas.

— Posso ir quando a senhora achar melhor. — Sorri, educada. — Acho até


que será bom sair um pouco e ver outras pessoas.

— O que acha de nos trocarmos para sairmos daqui a pouco? Não será fácil
arranjar um vestido de alta-costura em cima da hora. Precisaremos de ajustes.
Depois das compras, podemos almoçar em um dos meus restaurantes favoritos.

— Acho uma ótima ideia — respondi, animada por passar algum tempo com
ela, que era o ícone de beleza e elegância da Soprattutto. Talvez fosse mesmo
uma providência divina meu casamento ser cancelado, porque eu nunca estaria
aos pés daquela mulher maravilhosa.
Giulia sorriu, satisfeita, piscando para mim.

— Não vou estender o convite a nenhum dos dois, meus queridos, porque
acho que precisamos de uma tarde de garotas.

Pietro meneou a cabeça, concordando, mas Enzo sequer levantou os olhos


para qualquer um de nós. Ele estava concentrado na comida em seu prato e
permaneceu calado da hora em que nos sentamos até quando deixamos a mesa.

PIETRO

Tinha ido ao escritório fazer ligações para alguns membros da famiglia,


pessoas que deveriam receber o convite para a festa diretamente de mim, pois se
tratava da alta hierarquia. Saí de lá e estava pronto para voltar à piscina, pois
tinha resolvido tirar a manhã para relaxar, enquanto esperava pela chegada de
Alessandro. Ele tinha muito o que me colocar a par sobre a gerência dos cassinos
enquanto estive fora. Mas, ao sair do corredor que terminava na sala de estar, dei
de cara com Giovanna descendo a escada.

Meu coração se aqueceu com a imagem. Estava jovial com um vestido que a
vi comprar na Macy’s, de cintura bem marcada, mas com a saia soltinha. Era
branco com pequenas flores em vários tons de lilás e possuía um decote tomara-
que-caia. Batia pouco acima do meio das coxas e possuía uma renda delicada na
barra. De cabelo solto caindo por cima dos ombros, ostentava um chapéu bem
clássico, que eu tinha certeza pertencer a minha mãe. Calçava sandálias rasteiras
com tiras presas aos tornozelos e, quando parou diante de mim, precisou levantar
o rosto.

Senti arrepios pelo corpo todo, porque aquela era a verdadeira italianinha que
eu conhecera. Bela. Belíssima.

— Está encantadora, bambina — não pude deixar de comentar, ela merecia o


elogio.

E então, quebrando todo o encanto, Giovanna colocou a ponta da língua para


fora e me mostrou o dedo do meio. Engasguei com minha própria saliva e a
vontade de aplicar um corretivo aliada com a necessidade de encostar nela,
cresceu dentro de mim. Quando me deu as costas, abri a mão e dei com vontade
naquela bunda, fazendo-a gritar e pular.

— O que você fez? — Virou-se de frente para mim, segurando a saia do


vestido como se isso a protegesse de alguma coisa. — Vou te matar, Pietro!

— Eu mandei que você aguardasse. — Sorri. — Recado dado e


concretizado.

— Isso doeu, seu idiota — reclamou, fazendo bico.

Puxei a aba do chapéu e a trouxe mais para perto, sem conseguir controlar
meu sorriso. Giovanna estava puta, mas ficava bonitinha até com aquela
carranca no rosto.

— Coitadinha — falei, estalando a língua. — Quer que eu veja se ficou


vermelho?

Meu Deus, eu tinha enlouquecido. Olha o que estava falando para a garota!
Onde estava meu juízo?

Como tudo em Giovanna me surpreendia, mais uma vez não foi diferente.
Como a boa pirralha chata que era, a menina beliscou meu mamilo e saiu
correndo quando eu a soltei para me proteger.
GIOVANNA

Mal conseguia disfarçar minha empolgação e ansiedade para aquela festa.


Tinha comprado o vestido mais maravilhoso que já vi na vida e sabia que
deixaria Pietro de queixo caído. Se eu estivesse sozinha, talvez não o tivesse
escolhido, mas a senhora Greco me incentivou quando eu disse que tinha amado
cada detalhe. Ela me levara naquela manhã a uma loja muito reservada da alta
sociedade siciliana e experimentei alguns modelos do meu tamanho. Foi preciso
apertar um pouco na cintura e fazer uma bainha, mas ficaram de entregar a peça
na mansão Greco algumas horas antes da festa.

No restaurante, coloquei em prática todas as regras de etiqueta que tinha


aprendido, pois o lugar era chiquérrimo.

— Como se sente, querida? — perguntou de repente, enquanto eu bebericava


meu suco de hortelã.
— Eu? — Ah, droga, tinha chegado a hora de conversarmos coisas sérias?
— Acho que me sinto bem.

— Depois que desabafou, consegue se sentir mais aliviada?

— Bastante. — Sorri, sendo sincera. O peso que havia tirado dos meus
ombros era imenso. — Agradeço muito por ter me escutado, não via a hora de
contar para mais alguém. Nunca me imaginei realmente contando tudo, apenas
esperava pela hora do casamento, com o desejo de não precisar mais ter contato
com Lorenzo.

Senti minha voz começar a ficar embargada e respirei fundo. Tomei mais um
gole do suco, notando minha garganta apertar. A senhora Greco continuou em
silêncio, então, continuei.

— Quando vi que Pietro estava decidido a não se casar mais, pensei que se
contasse para a senhora, poderia me abrigar em sua casa. Só não imaginei que
fosse contar a ele...

— Desculpe, querida, sei que pediu segredo, mas se trata de uma coisa
importante demais para ficar por isso mesmo. Pietro gosta de você e eu sabia que
a defenderia com unhas e dentes.

O garçom responsável por nossa mesa se aproximou para servir mais vinho à
senhora Greco, ao notar que a taça estava quase vazia. Quando ele se afastou, ela
segurou minha mão por cima da mesa.

— Reparei que ainda deseja se casar. — Arqueou uma sobrancelha. — Mas


pelo que entendi quando Pietro me ligou, o problema era justamente você querer
fugir dele. Quero que saiba que sempre a protegeremos, não importa se terá ou
não nosso sobrenome.

— Obrigada. — Apertei a mão dela na minha, sentindo o coração aquecido.


— A senhora é boa demais.

Nós voltamos a comer, ou melhor, eu terminei de raspar meu prato,


desejando ter espaço no estômago para pedir uma sobremesa. Porém, quando
lembrei do vestido que usaria na festa, descartei a ideia. Eu não podia engordar
nem mesmo cinquenta gramas até de noite.
— E meu filho? O que acha de Pietro? — Giulia levantou a pergunta do
nada. Ou melhor, a danadinha devia estar só aguardando pelo momento certo.

— Ele é... — Um demônio de olhos azuis, gostoso como o diabo, mas um


bom filho da puta. Descartei enumerar essas qualidades e sorri. — Bom.

— Bom? — Ela arqueou a sobrancelha e tamborilou as unhas na mesa.

— Ele é bom comigo, de verdade. — Encolhi os ombros, desconcertada em


ter que falar de Pietro para a mãe dele. — Confesso que dou bastante dor de
cabeça e ele ainda não me matou. Só que ele me enxerga como um bebê.

— E você não é isso. — Eu não sabia se era uma pergunta ou afirmação.

— Não sou uma mulher vivida, obviamente, mas não sou criança.

— E por que você não se comporta como a mulher que diz ser? — Ela
levantou as mãos com as palmas viradas para mim. — Calma, não é uma
reclamação. Só estou dizendo que são nossas atitudes que nos moldam. Pietro é
um homem experiente, se ele enxerga uma criança, talvez seja porque você deixa
que veja algumas atitudes que não eram para aparecer. Nosso caráter não é
moldado pelas coisas que falamos e, sim, pelas que fazemos.

Não sabia o que dizer. Tinha um fundo de verdade no que ela dizia, pois eu
aprontava mesmo algumas criancices, como uma forma de defesa. Ou vai ver eu
tinha mesmo alma de criança e nunca mudaria. O que tinha certeza era que,
diante de Pietro, eu não conseguia me sentir confiante, não me sentia a tal
mulher que a senhora Greco queria que eu revelasse.

— Querida, não entenda mal nada do que eu disse. Apenas torço para que
vocês ainda se acertem. Você é uma moça incrível e não posso imaginar outra
pessoa para meu filho. Isso, claro, se você ainda o quiser. Ninguém pode mandar
no coração de ninguém.

— Não me chateio com as coisas que diz, senhora Greco — respondi,


enquanto ela recebia a conta do restaurante. — Acho que é uma mulher muito
sábia. Pietro e Enzo têm sorte por tê-la como mãe.

— Pietro, Enzo e Giovanna — ela complementou, piscando para mim.


Meu coração parecia que sairia pela boca a qualquer momento. Enquanto me
olhava no espelho, com a porta devidamente trancada para não ser surpreendida,
tentava encontrar força e coragem para descer e me juntar aos Grecos na festa.

Na minha opinião, eu estava gostosa pra cacete. Tipo, muito mesmo. A


intenção era justamente fazer todos os queixos caírem e mostrá-los que não era
uma fedelha chorona que olharia para os gaviões com medo. Queria que me
idolatrassem e vissem em mim a porra da matriarca que faria os joelhos deles
tremerem. Eu era o poder. Eu teria o trono para mim.

Ok, estava vendo muito Game of Thrones. Eu só tinha pensado mesmo em


fazer Pietro babar um pouco em público. Ou ele me pediria em casamento de
novo ou me mataria afogada na piscina. Decidi arriscar.

Dei uma última voltinha diante do espelho, agradecendo a senhora Greco por
ter me levado a um spa depois do almoço. Lá pude fazer uma bendita depilação
nas pernas e minhas unhas estavam incríveis.

Respirei fundo, destranquei a porta e saí do quarto. Que Deus olhasse por
mim.

PIETRO

Estive ocupado durante a primeira hora da festa, recepcionando os


convidados mais importantes. Alinhavei com Alessandro quem seriam os nomes
que eu receberia ainda naquela noite em meu escritório e andei pela casa,
tentando conversar um pouco com cada possível infiltrado. O foda de tudo era
que pessoas desse tipo, geralmente, estavam entre as mais discretas.

Quando Lorenzo chegou, eu me contive. Vesti uma máscara de indiferença e


fui cumprimentá-lo. Para todos os efeitos, ele era somente o tio de minha noiva.
Uma pessoa de boa índole que cuidava da sobrinha desde que ficou órfã.
Teoricamente, nem eu nem ninguém da famiglia tinha um podre sequer sobre
ele.

— Don Pietro! — O filho da puta abriu os braços e me recebeu


calorosamente. Sorri, tocando seus ombros e me curvando levemente para
simular um beijo no rosto. Era um cumprimento tradicional entre todos nós. —
Sinto um prazer enorme em vê-lo de volta à casa e, melhor ainda, com minha
sobrinha a tiracolo. Agradeço profundamente sua intervenção no caso Giovanna,
não sabia mais como lidar com ela.

Minha maior vontade era quebrar a taça que eu segurava e enfiar a haste no
cu dele, mas mantive meu sorriso intacto.

— O prazer é todo meu em recebê-lo pela primeira vez em nossa modesta


residência.

— Modesta! — Ele riu, tocando meu braço. Visualizei suas unhas sendo
arrancadas uma por uma. — A mansão Greco nada tem de modesta. É tudo
incrível, meus parabéns.

Meneei a cabeça.

— Fique à vontade, Lorenzo. — Virei-me para cumprimentar um outro


convidado.

— E Giovanna, quando a verei? — a pergunta me fez gelar, mas eu virei a


cabeça e sorri novamente.

— Sabe como são as mulheres. Levam horas para ficarem prontas.

— Sim, eu sei. Giovanna é especial demais.

Maldito. Decidi que a primeira coisa que eu arrancaria seriam seus olhos,
para que nunca mais os colocasse sobre ela. Respirei fundo e me afastei o mais
rápido que pude. Realmente, eu não conseguiria viver em paz enquanto Lorenzo
respirasse.

Esvaziei minha taça e peguei a próxima, andando até as portas de vidro que
davam para a área da piscina, doido para respirar ar puro. Mas então, quando
olhei para o lado, vi Giovanna caminhando na minha direção. Engasguei com a
champagne em minha boca e foi preciso que alguém batesse em minhas costas
para que não morresse sufocado.

Giovanna. Essa garota certamente me enterraria. O cabelo solto, mas todo


colocado de lado, caindo sobre o ombro direito, fez com que eu me imaginasse
passando a mão por seu pescoço. O vestido que usava era... um atentado ao
pudor. Composto por um tecido preto com milhares de cristais, e um decote
muito largo e vertiginoso que terminava quase um palmo abaixo dos seios. Estes,
redondos, estavam ali, para todo mundo ver, metade expostos, metade
escondidos. Aparecendo carne suficiente para notarem como eram firmes e
possuíam um tamanho ideal. Mas só piorava, porque o tecido possuía uma leve
transparência e, dependendo da iluminação, era possível ter um vislumbre de
uma calcinha preta. Meus olhos desciam e encontravam uma fenda extravagante
que ia quase até a virilha, expondo muito mais do que eu já tinha visto esse
tempo todo.

Senti pontadas na testa, que se estenderam ao topo da minha cabeça. Estava


lacrimejando por causa do engasgo e precisei afrouxar um pouco a gravata
borboleta do smoking.

Dei um passo à frente e bati o joelho no aparador que não lembrava que
estava em meu caminho. Praguejei quando Giovanna, enfim, parou diante de
mim. Os saltos pretos altíssimos deixaram os olhos azuis mais próximos dos
meus e vi que estavam de cílios postiços. Na boca, um batom vinho, que me
atiçou quando sorriu.

— Oi — falou.

Levei a mão até minha nuca, sentindo a dor me atingir também naquela
região. Encarando Giovanna, tentava desviar de minha mente todos os
pensamentos pervertidos que eu estava muito perto de cogitar. Baixei os olhos
para os seios dela, pouco me importando com discrição.

— Você sabe que está quase nua, certo? — Consegui dizer depois de um
tempo que se tornou desconfortável.

— Lógico que não estou! — Ela empinou o queixo e colocou uma mão na
cintura, com um ar sexy. — Isso é um Dolce & Gabbana. Tudo bem que não
tenho o corpo da sua amiguinha Rayka, mas... — Pressionou os lábios e vi sua
confiança de segundos antes vacilar.
— Giovanna.

— Sim? — A italianinha me encarou com as pedras azuis, um olhar ainda


mais fulminante com a maquiagem que usava em tons terrosos.

— Você está magnífica — disse, tocando a cintura dela e me aproximando


para falar em seu ouvido. — Mas terei que matar cada um que olhar para seus
seios.

Os lábios vermelhos se abriram num sorriso que iluminou todo seu rosto.
Não pude deixar de sorrir junto, era contagiante.

— Então, no final da noite, você vai se enforcar? — perguntou, soltando sua


alfinetadinha.

Aumentei o sorriso e, quando percebi o que estava fazendo, ela já ajeitava


minha gravata borboleta. Deixei a ponta da minha língua brincar com o canto da
minha boca, observando seus olhos acompanharem cada movimento.

— Prometo me comportar — respondi. — Fui apenas pego de surpresa. Não


é todo dia que vejo belezas como a sua.

— E se eu não quiser que você se comporte?

Giovanna piscou e enlaçou meu pescoço com os braços. Fui gravemente


acometido por arrepios quando suas unhas roçaram em minha nuca e ela mordeu
o lábio pintado. Tinha tirado a noite para atazanar minha vida e, pelo visto, se
esforçaria para tirar nota máxima. Por estar tão perto de mim, toquei em suas
costas nuas, sob suas omoplatas, aproximando meu rosto do seu. Beijei seu
pescoço no lado exposto pelo cabelo e inspirei.

— Está muito cheirosa, bambina.

— Gio? — Virei o rosto ao ouvir uma voz masculina e senti o corpo de


Giovanna escapar de minhas mãos. — Aí está você!

— Nero!

A garota caminhou apressada — porque os saltos que usava não eram do tipo
que a permitiriam correr — e se jogou nos braços de um pirralho que não
penteou o cabelo. Quando digo que se jogou, foi ao pé da letra. Giovanna se
pendurou no pescoço dele e o fedelho cruzou os braços ao redor da cintura dela,
inclinando-se para trás e tirando seus pés do chão enquanto giravam no mesmo
lugar.

MAS. QUE. PORRA. É. ESSA?

Cruzei meus braços e me aproximei, respirando fundo para não cometer um


homicídio dentro de casa. Quando ele a soltou, Giovanna ajeitou o cabelo e
sorriu.

— Ainda bem que veio! Nem acredito que não o vejo há semanas!

— Você me convidou. — Ele revirou os olhos com um sorrisinho escroto no


rosto. — Óbvio que eu viria.

Como se uma vez não fosse suficiente, ela o abraçou de novo, enterrando o
rosto no pescoço do amigo.

— Senti sua falta — disse.

— Cara, você está foda! — O que aquilo significava? Eu o avaliei enquanto


Nero passava os olhos pelo corpo da minha noiva. Digo, ex-noiva. — O que
andou comendo nos Estados Unidos? Tá ainda mais gata!

— Nero Salvatore — falei, chamando atenção para a minha presença ali. Eu


era mais alto e mais forte que o pirralho, ele não tinha como não me ver.

— Don Pietro. — Sorriu e esticou a mão para mim. — Prazer. Meu pai fala
muito no... Devo chamá-lo de senhor? Desculpe, sei que tem a questão da idade
e tal.

Retribuí o cumprimento, sem deixar de empregar bastante rigidez no aperto.

— Don Pietro está ótimo — respondi. — Seja bem-vindo a esta casa.


Gostaria de ter conhecido há mais tempo um amigo de Giovanna, mas somente
hoje ela tocou em seu nome para mim.

— Ah, tudo bem. — Nero sorriu e passou um braço sobre os ombros dela. —
Gio é cabeça de vento mesmo, estou acostumado.
— Nunca falei porque você nunca se mostrou interessado em conhecer mais
sobre minha vida, querido — disse ela, também sorrindo. — Talvez se tivesse
perguntado...

— Teremos muito tempo para isso. Agora, acho que precisamos


cumprimentar seu tio. — Então, apertei o ombro de Nero ao me virar para sair
da sala. — Fique à vontade.

Contei até dez, procurando paciência onde nem sabia que existia. Afastei-me
um pouco e Giovanna falou rapidamente com ele antes de me alcançar. Ela
passou o braço por dentro do meu e deixou aquele decote num ângulo
complicado demais para mim.

— Podemos parar em algum lugar mais vazio? Por favor.

Estranhei o pedido, mas como sua voz não apresentava mais a mesma
segurança de segundos antes, mudei meu curso e caminhei com ela em direção
ao escritório. Assim que entramos pelo corredor escuro, já que a festa não se
estendia até aquele local, Giovanna soltou o meu braço e se encostou à parede.
Estava pálida.

— Não posso.

— O quê? — perguntei.

— Lorenzo. Não... não posso.

— Calma. — Segurei o rosto dela entre minhas mãos. — O que foi?

— Ele vai me olhar. Como você olhou e como sei que todos vão olhar, mas...
— Ela agitou a cabeça e fechou os olhos. — Não vou conseguir suportar o olhar
dele. Vai me tocar, tenho certeza.

Eu não podia dizer que estava surpreso por ela começar a surtar. Até aquele
momento, tinha achado surpreendente que Giovanna estivesse levando tão bem a
proximidade do encontro com o tio.

Desci minhas mãos até seus ombros e massageei os locais com meus
polegares, tentando fazê-la relaxar um pouco.
— Ele não ousará tocar em você dentro desta casa.

— Vai sim, você não entende. — Abriu os olhos, aflita. — É uma festa, não
nos vemos há um tempo, ele pode tocar no meu braço, no meu rosto. É meu tio,
ninguém acharia estranho.

— Bambina. Ele não tocará em você porque não darei espaço para isso.
Confie em mim, estarei ao seu lado. Você não precisa permanecer na festa se não
se sentir bem, mas como algumas pessoas já notaram sua presença, vai levantar
suspeitas se não aparecer para cumprimentar seu tio.

— Caramba, você está muito gato.

Era impressionante a capacidade que ela possuía de mudar de assunto.

GIOVANNA

Eu era forte. Pelo menos, acreditava que era. Tinha passado por muita coisa
nesta vida e consegui sobreviver a tudo. Mas não era fácil ficar muito perto de
Pietro com ele vestindo a porcaria de um smoking. Pelo amor de Deus, era uma
roupa que deixaria bem até o mais feio dos homens. E ali estava aquele ícone da
beleza, o deus grego, nórdico e de todas as nacionalidades juntas, vestido de
forma tão impecável que eu tinha medo de tocar e amassar.

O paletó de um só botão parecia ter sido costurado no corpo de Pietro, de tão


perfeito que era seu caimento. De um azul-marinho muito escuro, apenas as
lapelas acetinadas eram negras. Por mim, ele poderia ficar para sempre vestido
daquele jeito que eu não me incomodaria.

Sabia que o assunto era outro, estávamos falando sobre o asqueroso do


Lorenzo, mas ficar muito perto de Pietro não fazia bem ao raciocínio. Em algum
momento, meu cérebro entrou em transe enquanto eu olhava para sua boca em
movimento.

Lancei um olhar rápido para a porta atrás dele, imaginando o que aconteceria
se a gente se trancasse no escritório.
— Voltamos aos elogios? — perguntou, sorrindo.

— Algum problema? — questionei e antes que Pietro fugisse, enfiei minhas


mãos por dentro do seu paletó e as apoiei na cintura dele, sentindo a seda da
faixa preta sob meus dedos. — Não posso elogiar meu noivo? Ou você se acha
tanto que nem precisa que digam o quanto é gostoso?

— É claro que pode elogiar. — O idiota tocou a ponta do meu nariz. Do


nariz!

Com raiva, eu o empurrei para trás e saí caminhando na direção de onde


viemos. Passei as últimas duas horas me arrumando toda, estava usando o
vestido mais incrível que comprei em toda minha vida e o filho da mãe tinha a
cara de pau de me tratar como uma menina de dez anos.

— Vamos logo falar com Lorenzo para que eu possa aproveitar a festa com o
Nero.

— Por que se irritou, Giovanna? — ouvi a voz atrás de mim, mas não
respondi. — O que foi agora?

— Ah, cala a boca! — Eu me virei tão rápido que senti meu penteado sair do
lugar, odiando-o ainda mais. Dei um tapa em seu peito. — Eu desisto de tentar
ser vista como qualquer coisa além de uma criança. Você é impenetrável! Qual
seu problema?

Óbvio que eu não tinha força para bater de forma que ele sentisse o efeito,
mas tinha sido a segunda vez na noite em que o empurrara. Isso o emputeceu,
porque segurou meu pulso e me puxou de volta para a escuridão do corredor.
Senti minhas costas serem pressionadas contra a parede e uma perna se enfiar no
meio das minhas.

— O problema, caralho, é que tenho trinta e três anos e, você, dezessete! Não
posso ficar agarrando você por aí — murmurou com a raiva impregnada na voz.
— Não é possível que não enxergue a merda que isso é! O que acha que vai
acontecer quando eu desistir de manter o controle?

— São só números.

— Não são — respondeu, tocando minha cintura. — Vai muito além disso.
Quero tocá-la, bambina. Realmente gostaria disso, mas depois do que seu tio fez,
sinto ainda mais que qualquer coisa é errada.

Tocar? Como assim, tocar? Existiam vários tipos de toque. Encontrei


coragem para encarar os olhos dele e quase chorei de emoção quando vi o desejo
estampado nas pedras azuis. O diabo estava passando a ponta da língua pelo
canto do lábio e era a segunda vez que eu flagrava aquele gesto.

— Tocar onde? — Ah, claro. Tanta coisa mais inteligente a dizer e aquilo foi
tudo que saiu. — Se eu tocá-lo, podemos fingir que você é a vítima indefesa e
eu, a predadora.

Ele gargalhou tão alto que usei minha mão para tapar sua boca. Não queria
que ninguém nos encontrasse ali e atrapalhasse a conversa. Mas o diabo fez eu
perder o raciocínio quando beijou minha palma, ainda grudada em seus lábios e,
dando o golpe final, deslizou a ponta da língua por ela. Meu choque foi tão
grande que puxei o braço, com o corpo todo arrepiado.

— Ai cacete! — Ri de nervoso.

Minhas costas descolaram da parede quando Pietro uniu minhas duas mãos
para trás, curvando também meu corpo. Baixou só um pouco o rosto e esfregou o
nariz no meu pescoço, descansando a cabeça ali. Passados alguns segundos de
um silêncio quase constrangedor, ele levantou a cabeça. Seus polegares tocaram
a base do meu pescoço e deslizaram pela minha pele, até pararem em minhas
clavículas. Então, desceu um só dedo pelo vão entre meus seios, lentamente,
deixando um rastro de fogo em mim, até chegar no final do decote.

— Isso a faz se sentir mal? — perguntou ele, soltando minhas mãos e


pousando as dele na minha cintura.

Neguei com a cabeça, porque não conseguiria falar sem gaguejar. Ao me dar
conta de que estava livre, toquei-o no peito.

— Não faça nada impulsivo, pelo amor de Deus — pediu.

— Tipo... o quê?

Pietro arqueou uma sobrancelha.


— Tipo apertar meu pau. De novo.

Abri e fechei a boca, sem encontrar minha voz. Pau. Ele falava como se
fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Dei um tapinha de leve no rosto dele,
sentindo o meu esquentar muito.

— Desbocado! — O diabo sorriu. — Em que momento vai parar de me


enrolar e me beijar?

O Don aproximou o rosto do meu e, que Deus me protegesse, beijou minha


bochecha muito devagar.

— Quando for para acontecer, quero sua boca ao natural, para que possa ver
seus lábios ficarem bem avermelhados de tanto que foram chupados.

E me soltou. Deixou-me tão atônita que meu pé direito não se equilibrou no


salto e virou. Só não caí porque Pietro teve o reflexo mais rápido e me segurou,
estampando um sorriso arrogante no rosto. Filho da puta. De que adiantava não
me tocar com a desculpa esfarrapada de que era errado, mas dizer na minha cara
algo tão pornográfico como aquela frase, que me faria pensar a noite toda.

— Isso não se faz, cretino.

— Jogar a polícia em cima de mim, duas vezes, também não se faz.

O Don dos infernos tocou meus ombros e depositou um beijo em minha


testa. Achei que era a oportunidade perfeita para roubar a porcaria do beijo, por
isso, segurei o rosto dele e tentei encaixá-lo com o meu. Pietro foi mais ágil e se
esquivou, estalando a língua como se eu tivesse saído do castigo.

— Aprenda a ser paciente — falou. — Vamos voltar para a festa.

Trinquei os dentes, morrendo de raiva, mas não demonstraria meu


descontrole para não dar a impressão de ser imatura. Era só um beijo, eu
sobreviveria.

Deixei que ele me guiasse para fora e ao chegarmos no fim do corredor,


estaquei. De onde estava, podia ver Lorenzo de costas, conversando com outros
homens.
— Giovanna? — A mão de Pietro pousou em minhas costas. — Vamos?

Virei-me e passei meus braços ao redor do corpo dele. Senti seu calor, sua
rigidez, fui tomada por uma sensação de poder como se aquele corpo fosse um
porto seguro onde nada mais de ruim me aconteceria. Se não confiasse nele, não
teria mais ninguém no mundo em quem pudesse me apoiar.

— Não esqueça da promessa — pedi. — Não o deixe me tocar.

— Não deixarei.

— Tudo bem — murmurei e, antes de soltá-lo, meus dedos resvalaram pelo


cabo de uma pistola escondida debaixo do paletó. — Por que está armado?

— Sempre estou armado. — Ele piscou. — Vamos?

Ele me estendeu a mão e eu a peguei, deixando que entrelaçasse seus dedos


aos meus. Cumprimentamos algumas pessoas pelo caminho, ciente dos olhares
em mim. Alguns queixos caíram quando me viram. Das mulheres, eu sentia
olhares de deslumbramento e orgulho, como se aprovassem o visual. Alguns
homens me olharam com pura luxúria, como eu sabia que aconteceria, pois foi
exatamente como Pietro me olhou. Mas a maioria se preocupava em consertar a
postura e me encarar com o respeito que a noiva do Don merecia.

Antes de vermos meu tio, a senhora Greco nos interceptou. Os olhos dela
brilharam quando parou na nossa frente e abriu um sorriso para mim. Que
mulher esplêndida! O vestido que tinha o prazer de cobrir seu corpo era num tom
de pérola, de um tecido que fazia lembrar um monte de pelinhos. Uma faixa de
pedrarias contornava o decote tomara-que-caia assim como a curvatura de seus
quadris e a barra na altura nos tornozelos. A roupa acompanhava cada curva de
seu corpo enxuto, naquele modelo de sereia, extravagante, porém clássico como
a dona. Tão longo que não era possível enxergar os bicos dos sapatos. O cabelo
estava preso num coque baixo e vintage e enormes brilhantes enfeitavam suas
orelhas.

Era uma rainha. No rosto, pouquíssima maquiagem, apenas a sombra e rímel,


um pó muito fino que não alterava seu tom de pele tão claro e um batom nude.
Se eu chegasse aos cinquenta e poucos anos com aquela pele, seria muito feliz.

— Sempre gostei de ser a mais bonita e mais admirada das festas, mas fico
feliz em perder o posto para minha belíssima nora.

— Mamma, não comece...

— Eu não nasci ontem, Pietro. — Ela lançou um olhar condescendente a ele.


— Não gaste seu tempo.

— A senhora é a mulher mais bonita que já vi — falei, sabendo que meus


olhos deviam estar brilhando. E me dei conta da minha roupa tão diferente da
dela. — Tem certeza que não estou mostrando demais? — perguntei, ansiosa. Eu
não trocaria de roupa se Pietro pedisse pois sabia que se trataria de ciúmes ou
possessividade, mas Giulia Greco era a referência de todas nós.

— Sim, está. — Ela sorriu e piscou. — Mas você pode mostrar o que quiser,
querida. É jovem, com tudo no lugar e está prestes a tomar o meu posto. Darei
um conselho muito importante. Você não deve nunca temer a ninguém, são os
outros que devem temê-la. Não por agressividade ou autoritarismo, basta fazê-
los compreender que está num nível que nunca alcançarão. Uma matriarca é
intocável, imaculada. Se eu tirar toda minha roupa agora, sei que nenhum dedo
será apontado e ninguém ousará me tocar. A ação será vista como uma
declaração de poder. Então, levante a cabeça, desfile por aí e mostre a todos que
você nasceu para afrontá-los. Aproveite que tem esse rapaz aqui para lhe dar
cobertura. — Ela se virou para o filho e parou para ajeitar seu lenço branco. —
Está na hora de Giovanna receber um anel, não acha? Um anel de verdade. —
Sem esperar por resposta, ela alisou o smoking dele e saiu.

— Acho que estou apaixonada por sua mãe — declarei, sentindo meus
joelhos bambos. — Meu Deus, que mulher!

Ao olhar para o homem ao meu lado, vi que seus olhos brilhavam na direção
que ela tinha ido. Era bonito ver a admiração que os filhos tinham por Giulia.

— Ela sempre foi a liga da nossa família.

— Eu com certeza me casaria com ela, mesmo sendo bem mais velha...

— Infelizmente, sobrou o filho para você, não é? — Ele sorriu.

— Sim. — Estalei minha língua e balancei a cabeça. — Lamentável.


Ele voltou a segurar minha mão e me puxou para continuarmos com as
apresentações. E o momento chegou. Lorenzo estava a quatro passos de nós.
Quando me viu, abriu um sorriso e se aproximou. Mas Pietro não esperou
parado, ele me puxou para frente de seu próprio corpo e grudou minhas costas
nele. Seus braços musculosos passaram pela minha cintura e os antebraços se
flexionaram diante dos meus peitos, tapando-os e apoiando as mãos em meus
ombros. Eu estava completamente presa e segura. Para qualquer um que visse
nós dois, éramos apenas um casalzinho que não conseguia ficar sem se tocar.

— Consegui capturar nossa querida Giovanna — disse ele, beijando meu


pescoço diante do meu tio. — Trouxe-a para dar um oi.

O diabo era sagaz, eu não podia negar. Ele tinha tanto corpo em cima do
meu, que Lorenzo não teria como me tocar, seria um desrespeito ao Don. A
única coisa que pôde fazer foi menear a cabeça e me encarar. O olhar não me
enganava, eu sabia que ele desejava matar a saudade da minha pele.

— Fico aliviado em vê-la tão saudável, minha querida. Sei que chegaram
ontem, mas passe um dia lá em casa, os empregados também sentem sua falta.

— Vou ter que recusar por ela, Lorenzo — Pietro interviu para que eu não
precisasse pensar numa resposta. — Estamos com a agenda apertada, pois
voltaremos aos Estados Unidos em três dias.

Lorenzo tentou, mas não conseguiu esconder a decepção.

— Mas Giovanna o acompanha nos negócios?

— Não vim à Itália para tratar de negócios. Vim curtir alguns lugares
paradisíacos com minha noiva.

— Então devo entender que estão se dando bem, certo? — Ele me avaliou
como uma cobra observa a presa. — Minha sobrinha finalmente criou juízo?

Uma das mãos de Pietro deslizou pelo meu braço, tornando-se alvo do olhar
de Lorenzo. Meu ex-noivo riu contra minha orelha e mordiscou meu lóbulo,
fazendo-me estremecer.

— Estamos muito bem. Não estamos, bambina?


Joguei a cabeça para trás, encontrando os olhos azuis e pensei nas idiotices
que aconteceram entre nós. Lembrei do dia em que empurrei minha mão contra o
pênis dele e caí na gargalhada, chamando a atenção de outras pessoas à nossa
volta.

— Hm, sim. Muito — respondi.

— Com licença, Lorenzo. Preciso apresentar Giovanna para outras pessoas.


— O meu parente do inferno sorriu e recuou, voltando-se para um grupo com
quem conversava antes de nos ver.

Quando Pietro me tirou dali e me levou para a área da piscina, onde poucas
pessoas conversavam, percebi que eu tremia. Ele passou a mão em duas taças de
champagne e me entregou uma.

— Vai me deixar beber? — perguntei, surpresa.

— Apenas uma taça, para fazê-la relaxar. Posso sentir sua tensão a
quilômetros de distância. — Seus dedos deslizaram pela minha testa e fechei os
olhos, curtindo a sensação. — Viu como deu tudo certo?

Dio mio, aquela bebida era muito ruim. Eu tomava cerveja, vinho, uísque,
vodca... mas champagne era bebida de gente fresca que gostava de coisa azeda.
Não era possível. Devolvi a taça a ele, sem esconder minha frustração. Porém,
Pietro não estava olhando para mim e sim para algo atrás de mim. Descobri
quem era quando braços envolveram meu corpo e uma boca grudou no meu
pescoço.

— Será que o senhor pode me emprestar um pouco minha Gio? — Nero


perguntou e tive vontade de fechar os olhos quando compreendi o que era aquela
expressão no rosto do Don. Meu amigo me girou de frente para ele e ajeitou meu
cabelo enquanto me olhava. — Tenho uma coisa para te mostrar, mas não pode
ser em público. As coroas vão desmaiar se eu tirar a camisa aqui.

— Não é adequado tirar a camisa em qualquer canto desta casa, senhor


Salvatore — Conhecia o bastante para saber que aquela voz estava carregada de
raiva. — Não estamos numa festa da piscina.
PIETRO

— Minha confeitaria foi assaltada duas vezes em duas semanas, Don Pietro.
— Mia Matiori estava sentada na poltrona à frente de minha mesa, com uma
expressão abatida. — Enzo disse que resolveria, mas não sei se de fato o fez.

Precisei deixar a festa acontecendo do lado de fora e fui receber algumas


pessoas no escritório, pois tinha muitos problemas pendentes para serem
resolvidos. Era minha obrigação, como Don, ouvir os pedidos de ajuda dos
nossos membros.

Mia era de uma família antiga da Soprattutto, que encolhia com o tempo.
Perdera a filha mais velha num acidente de barco e o marido falecera há dois
anos, vítima de doença renal. Agora, cuidava sozinha de seu filho de seis, Pietro.
Não eram poucos os nomes dados em minha homenagem.

— Alguma pista sobre os assaltantes? — perguntei, abrindo a caixa de prata


onde ficava a coleção de charutos de meu pai.

— Sei apenas que se tratam das mesmas pessoas. Um ruivo muito alto e um
branquelo baixo e forte.

— Levaram somente o dinheiro, senhora Matiori? — Aproximei o charuto


do nariz e inspirei, sentindo seu aroma. Alessandro se adiantou em acendê-lo
para mim, enquanto eu observava Mia.

— Sim. — Ela balançou a cabeça. — Apenas o dinheiro do caixa, mas eles


pareciam saber justamente o dia da semana em que me preparo para fazer o
depósito do volume maior.

— Considere resolvido. Ainda ficarei mais uns dias por aqui e cuidarei de
perto da investigação.

Ela se levantou, ciente de que a rápida reunião chegara ao fim. Alisou o


vestido e sorriu, esticando a mão para mim.

— Obrigada, Don Pietro.

Quando saiu, girei a cadeira de frente para Alessandro.

— Enzo ao menos teve decência de averiguar o caso ou apenas sentou a


bunda nesta cadeira e brincou de subchefe?

— Seu irmão ainda não possui o respeito necessário para dar suas ordens —
meu consiglieri respondeu. — Alguns ainda o enxergam como o filho caçula de
Don Enrico. Posso mandar entrar o próximo?

Gesticulei para a porta, enquanto dava uma olhada no celular. Levantei os


olhos assim que o homem de quase sessenta anos entrou. Era Leonardo Barone,
um grande amigo de meu pai que eu não via há algum tempo.

Ele abriu o paletó e se sentou diante de mim, com um sorriso saudoso no


rosto.

— Don Pietro, boa noite.

— É só Pietro para você, senhor Barone. — Sorri. — Em que posso ajudá-


lo?

Leonardo emitiu um profundo suspiro. Estranhei que estivesse ali, em meu


escritório, para me pedir algum favor. A verdade era que o homem fazia parte de
nossa famiglia por questões de antepassados e, também, pela amizade de
infância com meu pai. Tínhamos profundo respeito por sua casa, mas eles não
participavam dos negócios em si. Quando eu tinha idade para entender melhor as
coisas, perguntei para meu pai porque Leonardo mantinha-se distante de tudo
que envolvia a máfia. Papà disse que ele era contra nossa maneira de resolver as
coisas e não gostava de sujar as mãos. Bem... parece que o mundo gira.

— Pois bem, Pietro... — O homem molhou os lábios e puxou o lenço do


paletó, enxugando a testa. — Meu filho Matteo está com sérios problemas.
Vício. Em jogos, sabe? Ele fez algumas dívidas por aí e como não tem dinheiro
para quitá-las...

— Está sendo cobrado.

— Sim. — Seus olhos brilharam. — Está pagando com sangue. Foi


espancado três vezes no último mês e dessa última vez, foi parar no hospital. Seu
pai, que Deus o tenha... Eu nunca pedi nada a ele, nenhum tipo de ajuda nesse
sentido. Mas estou desesperado, porque Matteo foi jurado de morte. A dívida é
de mais de quinhentos mil e não temos de onde tirar esse dinheiro.

— Disse que o problema se deu com os jogos? Ele frequenta algum dos
meus cassinos?

— Infelizmente, não. — Leonardo baixou os olhos. — Justamente por não


querer dever para a famiglia, Matteo acabou procurando jogar em outro lugar.

— Sabe me dizer a quem ele deve?

— Sim. Domenico Negri.

Debrucei-me na mesa, sem acreditar no que estava ouvindo. Aquele era o


Don da Dita di Ferro e, se fosse mesmo verdade, Matteo estava com os dias
contados.

— Creio que saiba quem é esse homem, senhor Barone. E o que isso implica.
— Somente por isso vim recorrer a você, Pietro. Sei que o coloco numa
situação difícil ao pedir ajuda, mas não tenho mais o que fazer.

Provavelmente, em qualquer outro momento da minha vida, eu teria


recusado. Nossa famiglia estava sempre disposta a proteger seus membros, mas
bater de frente com Domenico por causa de um viciado em jogo que se deu de
bandeja para a Dita di Ferro, não estava em meus planos. Matteo Barone sequer
era alguém que se mostrava disposto a participar ativamente de nossas tradições.

Pensei em negar, pedir desculpas e desejar boa sorte. Porém, eu tinha mesmo
contas a prestar com eles e poderia usar Matteo como uma boa desculpa para
iniciar o confronto. Daria algumas ordens, repassaria a informação para alguns
membros e rastrearia os vazamentos para encontrar os infiltrados ao meu redor.
De quebra, ajudaria um grande amigo de meu pai.

— Traga Matteo para me ver — declarei. — Se corro o risco de entrar em


guerra com a Dita di Ferro por causa de seu filho, ele precisará me provar que
vale a pena. Se não me engano, Matteo já passou dos trinta, certo?

— Ele tem trinta e cinco anos — o pai respondeu, com um olhar aflito,
porém, agradecido. — Se o proteger, prometo que a dívida será eterna, Don
Pietro.

Eu me levantei, fechando o botão do paletó e dando a volta na mesa.


Leonardo também ficou de pé e apoiei minha mão em seu ombro, sorrindo.

— Talvez seja mesmo a hora de sua família abraçar sua origem, senhor
Barone. Meu pai ficaria muito feliz com isso. Cobrarei a dívida quando chegar a
hora.

O homem segurou minha mão entre as suas e a beijou, antes de deixar a sala.
Quando saiu, Alessandro me encarou, com uma sobrancelha arqueada.

— Tem certeza de que quer ir por esse caminho? — perguntou, sentando-se


no sofá e cruzando as pernas. — Meter-se nos negócios de Don Negri é uma
passagem só de ida.

Eu me virei e observei meu consiglieri, que passou tantos anos orientando


meu pai e tomando decisões ao lado dele. Se fosse um dos infiltrados, seria uma
traição sem tamanho, o que abalaria muito nossa famiglia. Rezei para que não
nos decepcionasse.

— Estou ansioso para a viagem — declarei.

GIOVANNA

Nero era aquela companhia perfeita se você nunca quisesse se entristecer. Ele
animava qualquer ambiente e sempre levava a vida com graça e leveza. Não
tinha problemas na cabeça, lógico. Era rico, bonito, possuía bons pais e ia
começar a faculdade de Engenharia Química, seu maior sonho. Para Nero, a vida
era uma empregada que o servia e tinha obrigação de fazê-lo feliz. Eu o adorava
justamente por isso, sua capacidade de me fazer esquecer os problemas quando
estava por perto.

Nós dançamos que nem dois idiotas quando mal dava para ouvir a música.
Depois da terceira, outras pessoas se juntaram a nós e até conseguimos fazer
com que aumentassem o som. Mas depois de um tempo, quando a animação deu
lugar a uma música lenta, ele estremeceu e fez cara de nojo.

— Por que alguém sempre tem que estragar a festa? — reclamou, revirando
os olhos e se afastando. — Isso é música de velho.

— Não culpe os outros por não saber dançar que nem adulto. — Dei um
peteleco no braço dele e o segui para fora da pista de dança. — Vamos pegar
algo para comer?

Nero continuou andando, mas uma mão deslizou pelas minhas costas nuas e
me fez arrepiar dos pés à cabeça. Antes que me virasse para me certificar de
quem se tratava, meu corpo foi delicadamente puxado e lábios roçaram em
minha orelha.

— Dança comigo, bambina?

Meu coração parou uma batida. Eu precisava mesmo responder? A mão em


minhas costas segurou minha cintura e, com a outra, ele fez meu corpo girar
sobre os saltos. Achei que estivesse flutuando ou pisando em nuvens enquanto
era guiada à pista de dança novamente.

— Desculpe — pedi.

— Por que está se desculpando? — perguntou, segurando meus pulsos e


levando minhas mãos até seu pescoço. Ah, meu Deus. Eu não sobreviveria
àquele homem.

— Por pisar no seu pé, o que acontecerá várias vezes.

Pietro sorriu e me puxou mais, colando meu corpo no seu. Suas mãos
descansaram no início dos meus quadris enquanto ele conduzia uma dança lenta.
Suspirei, sentindo um nó na garganta. Eu gostava daquele idiota. Gostava muito.

Seu nariz roçou pela minha bochecha, direcionando-se à minha orelha e


baixando até meu pescoço. Respirei fundo e fechei os olhos, sentindo aquele
toque delicado.

— Deseja mesmo se casar? — sussurrou ele, o que devia ser proibido.

— Sim...

— Não vai tentar fugir de novo?

— Não... — Era difícil racionar com ele tão perto, alisando minha pele com
seu próprio rosto.

— Você suou bastante — disse, levantando o rosto e grudando os olhos nos


meus peitos. — Está se divertindo com seu amigo?

— Sim. Está com ciúmes?

— Do pirralho? — O Don estalou a língua e, num momento de clímax da


canção, afastou meu corpo e me fez girar até voltar para seus braços. — Apenas
inveja por ele poder tocá-la com tanta intimidade. Não sou de ferro, bambina.

Apertei meus braços ao redor do seu pescoço e descansei minha cabeça em


seu peito. Fui acometida por arrepios pelo corpo todo quando suas mãos
deslizaram pelas laterais dos meus seios até minha cintura.
— Acho que foi bom virmos para casa, não? Conseguimos trocar mais de
cinco frases sem nos matar — sussurrou ele em meu cabelo, fazendo-me respirar
fundo. — Além disso, se estivéssemos em Nova York eu não teria a
oportunidade de ver você dentro desse vestido.

Meu corpo estremeceu com uma risada e levantei o rosto para encarar os
olhos azuis.

— Achei que fosse me trancar no quarto quando me visse com essa roupa.
— Encolhi os ombros. — Ou sofreria um derrame por causa da idade avançada.
Estou gostosa, não estou?

— Está linda, é verdade. — Sorriu e eu revirei os olhos.

— Não estou apenas linda. Estou gostosa. Fale.

Pietro balançou a cabeça como se eu fosse um caso perdido e, talvez, ele


tivesse razão. Mordi o lábio enquanto o olhava e vi que seus olhos grudaram em
minha boca.

— Você está gostosa, Giovanna — disse ele, finalmente, ampliando o


sorriso.

— Sabia que você estava pensando isso de mim!

Foi a vez do Don revirar os olhos e era uma situação única. Nunca o vi fazer
aquilo e me diverti com sua expressão. Só que meu sorriso murchou quando ele
apertou minha boca entre os dedos e aproximou o rosto do meu.

— Você está muito alegre e confiante. — Estreitou os olhos e me provocou,


passando a ponta da língua pelo seu lábio inferior. — Tenho certeza que se eu
apertá-la de jeito ali no escurinho, não vai aguentar nem cinco segundos antes de
correr de mim.

A música acabou e deu início a outra, mas eu nem ousei me mexer para que
ele não percebesse e me soltasse. Pensando nisso, apertei ainda mais seu pescoço
e soltei um pouco meu peso sobre os braços dele, deixando que me suportasse.

— Por que não me leva até lá para descobrirmos se isso é verdade? —


perguntei, sentindo-me corajosa.
Vislumbrei um olhar safado direcionado a mim, mas quando ele se preparou
para me responder, a senhora Greco se aproximou e tocou o braço dele. Pela cara
da matriarca, Pietro levaria um puxão de orelha se não fosse um homem crescido
e barbudo.

— Precisamos conversar sobre o motivo que o levou a tirar o título de seu


irmão.

— Depois, mamma.

— Não depois. Agora, Pietro. — Ela me olhou e sorriu em tom de desculpa.


— Prometo que o devolvo daqui a pouco, querida.

O Don me beijou no rosto antes de se afastar com a mãe e eu tentei imaginar


o que tinha acontecido. Enzo não era mais o sottocapo dele? Desde quando?

Tinha passado a última meia hora no quarto, descansando meus pés. Eu


estava acostumada a usar salto alto, mas para ficar mais próxima da altura de
Pietro, tinha escolhido um par absurdamente enorme. Quase no fim da noite, eu
sentia meus dedos formigarem e implorarem por um tapete felpudo.

Como Nero foi embora perto das duas horas, acabei subindo. O Don toda
hora se ocupava com alguma reunião a portas fechadas no escritório e eu
entendia que precisava receber os membros que tinham algo a pedir ou
comunicar.

Sentia-me quase renovada quando me levantei para retornar à festa, mas ao


passar diante do espelho, tive uma ideia. Peguei o lenço umedecido e o
demaquilante e tirei todo meu batom. O beijo sairia ainda naquela noite ou eu
não me chamava Giovanna Mancini!

Eram quase três da manhã quando desci as escadas, ouvindo algumas poucas
vozes espalhadas pela casa e o som da música mais baixo do que antes.
Caminhei pelo corredor escuro e colei meu ouvido na porta do escritório. Estava
tudo silencioso, talvez nem mesmo Pietro estivesse por ali. Então, girei a
maçaneta e entrei.

Era difícil não voltar ao passado dentro do ambiente. Se eu fizesse um


esforço, conseguiria ver Don Enrico sentado naquela poltrona agora ocupada por
Pietro. Não que alguma vez na vida eu tivesse entrado no escritório com o chefe
anterior, mas tudo naquela residência e na decoração de cada ambiente exalava o
estilo do homem que conheci quando era mais nova.

Pietro demonstrava ter gostos diferentes de seu pai. Quem conhecesse seu
apartamento em Nova York se surpreenderia com a modernidade dos móveis e o
estilo clean. Aqui, era tudo antigo e escuro.

— O que quer, Giovanna? — a voz aveludada tinha um toque áspero que


indicava seu cansaço.

O diabo estava largado na cadeira de couro marrom atrás da grande mesa de


mogno que deve ter sido muito usada por seu pai. Ainda estava de smoking, mas
a camisa branca tinha três botões abertos e o nó da gravata borboleta havia sido
desfeito. Na mão, um copo de uísque.

— Cheguei a uma conclusão importante — respondi, aproximando-me com


cautela e ele girou a poltrona de frente para a grande janela que dava para o
jardim, ficando de costas para mim.

Dei a volta pela mesa e parei diante dele, encostando-me ao beiral de


mármore. Pietro apoiou o copo num dos braços da poltrona e a outra mão livre
descansou sobre a perna. Estava com cara de poucos amigos, mas já tinha notado
que minha boca voltara ao tom natural.

— Qual foi a conclusão? — perguntou.

— Você tem medo de mim — respondi e puxei o vestido para cima, sentando
sobre as pernas dele.

O Don foi pego desprevenido e como estava com um copo na mão esquerda,
não conseguiu me impedir. Ajoelhei-me de frente para ele e segurei seu rosto. A
luz que entrava pela janela marcava o olhar sério e duro. Mas, como alguém que
tinha prática em esconder as reações e manter o autocontrole, apenas me
encarou.
— Eu tenho o direito de experimentar o beijo do homem com quem vou me
casar — esclareci, sorrindo. — Como se fosse um test-drive.

— Giovanna, você é uma...

— Não ouse! — Tapei a boca dele com minha mão, quando na verdade eu
sentia vontade de esbofeteá-lo. — Se disser que sou uma criança, eu juro que
ateio fogo em você quando estiver dormindo.

Os olhos azuis me encararam com tanta intensidade que, de repente, eu me


senti despida por ele. Afastei minha mão e a apoiei no ombro do Don.

— Por muito tempo eu tive em mente que esperaria você completar, pelo
menos, vinte e um anos para nos casarmos. No entanto, quando me vi sendo
obrigado a entrar em sua vida e a levar para casa, mudei a meta para dezoito.
Recomendo que espere até lá, bambina, seria...

Chega! Se ele falasse mais alguma asneira, eu não responderia pela minha
agressão. Muito melhor do que discutir, seria beijar o homem dos infernos que
eu odiava. E foi isso que fiz. Puxei o pescoço de Pietro e grudei minha boca na
dele.

O Don com certeza não esperava que eu tomasse uma atitude, porque se
manteve imóvel durante os primeiros segundos. Foi algo estranho, diferente e
excitante. Era a boca que eu sonhei sentir por muitos anos quando era uma
adolescente iludida, porém, também era a boca que, recentemente, eu jurei que
nunca beijaria. Não senti nenhuma eletricidade me corroendo, ou uma explosão
de sensações variadas, nem mesmo que o tempo tinha parado de agir e só
existíamos nós dois no mundo.

Afastei o rosto depressa e o encarei sem a coragem de antes. Pietro


continuava imóvel e seus olhos me escrutinavam.

PIETRO

Quando se tratava de Giovanna, eu nunca sabia o que esperar. Ela conseguiu


me surpreender mais uma vez. Uma hora me odiava, em outra sentia medo de
mim e, agora, estava sentada em meu colo.

Naquela posição, com o vestido amontoado ao redor dos quadris e aquela


fenda absurda, tornou-se impossível não ver a calcinha preta que usava. Os seios
estavam mais próximos de mim do que nunca, quase na minha cara, como uma
provocação.

Enquanto cuspia as asneiras de sempre, observei o corpo esguio. Giovanna


tinha uma estrutura pequena, mas com medidas proporcionais que a deixavam
muito atraente. Os seios de tamanho acima da média eram firmes. Eu raramente
a tocava, mas das vezes em que fiz isso, pude sentir a rigidez da pele que só
alguém muito jovem podia ostentar. Evitei ao máximo enxergá-la daquela forma,
uma menina no corpo de uma mulher. Porém, ficava cada vez mais difícil manter
o controle com a pessoa me provocando a todo instante.

Pude ver a insegurança dançar em seu olhar quando afastou o rosto depois do
beijo malsucedido. Pensei em colocar meu copo sobre a mesa, mas era melhor
não ter as duas mãos livres para o que eu tinha em mente.

— Ainda não aprendeu a beijar? — brinquei, relembrando nossa conversa


anos atrás. — Com quem andou treinando, bambina?

Ela fechou a cara e antes que reclamasse, toquei em seu queixo. Inclinei-me
para frente e beijei a base de seu pescoço, deslizando meus dedos pelo braço
fino, sentindo a pele macia arrepiar sob meu toque. Depositei alguns selinhos
logo acima do caminho entre os seios, em seguida, alcancei seu maxilar
tensionado.

Ao nivelar nossos rostos, encarei os olhos azuis. Tomei-lhe a boca de uma


vez, antes que eu tivesse tempo de pensar e desistir daquela loucura. Os lábios da
italianinha já estavam separados e convidativos, portanto, não encontrei
nenhuma resistência pelo caminho.

Senti sua mão apertar meu ombro quando a invadi com minha língua e
depois fiz o que sentia vontade há algum tempo. Coloquei seu lábio inferior
entre os meus e o degustei, chupando, soltando, para chupá-lo de novo, roçando
meus dentes naquela pele frágil. Giovanna jogou todo o peso do corpo sobre
mim até que eu voltasse a sentir minhas costas tocarem novamente a poltrona.
O ataque fez com que eu derramasse uísque no couro da cadeira e, com o
braço livre, envolvi a cintura dela. Não foi preciso muito para que meu pau se
colocasse em alerta, doido para participar da ação e a respiração ofegante da
italianinha só piorava tudo. Enfiei a mão por dentro do cabelo sedoso e afastei
nossos rostos, segurando-a no lugar.

— Conseguiu o que queria, bambina. Agora volte para a festa — ordenei,


ciente de que logo não controlaria minha ereção crescente.

Giovanna levou três segundos para se recuperar e, quando passou a língua


pelos lábios, pareceu se dar conta de que tinha acabado. As bochechas ficaram
coradas e as sobrancelhas se uniram.

— Hm... Eu vou... Acho que... — Ainda ofegante, ela ajeitou o penteado e


conferiu o decote, atraindo meu olhar para a região.

Deslizei meu polegar pelo contorno volumoso, exposto pelo vestido, sem
conseguir controlar a vontade de grudar minha boca em seu pescoço. Então,
lambi e chupei a pele daquela região, ciente de que deixaria uma bela marca.
Giovanna suspirou pesadamente e seu corpo amoleceu, a cabeça caindo de lado.
O fato de ficar entregue fez meu pau endurecer totalmente debaixo dela.

— Cazzo! — Levei um tapa no rosto e nem tive tempo de perceber que ele
estava chegando.

Assim que me esbofeteou, levou as mãos à boca, horrorizada com seu ato. A
raiva, no entanto, logo retornou e o sangue italiano que corria naquelas veias fez
com que saltasse de meu colo, com uma carranca no rosto e me fulminando com
o olhar.

— Posso saber por que estou apanhando? — perguntei, achando graça


daquela afobação.

— Ainda pergunta? — Os olhos azuis quase saltaram para fora quando ela
apontou para meu colo.

— Por causa da minha ereção? — Sorri. — Não tenho total controle sobre
isso. Só para refrescar sua memória, eu disse que você correria de mim. Não é
exatamente o que está fazendo agora?
— Eu te odeio, Don Pietro! — rosnou, antes de marchar a passos pesados até
a porta. — E você beija muito mal!

Sorri para mim mesmo, dando um último gole no meu uísque e relaxei
quando ela saiu do escritório. Que boca deliciosa da porra! Giovanna tinha
tornado tudo mais difícil para mim, pois seria torturante manter as mãos longe
dela agora que tinha provado seu gosto.

GIOVANNA

Saí daquele escritório sem saber exatamente como meu corpo respondia aos
meus comandos, porque parecia que tudo estava anestesiado.

Era mentira. Pietro beijava bem demais. Que beijo! Ainda podia sentir a
dormência em meus lábios e acho que não conseguiria pronunciar muitas
palavras enquanto estivesse com aquela sensação incrível.

Pior ainda, eu me sentia excitada. O que ele fez em meu pescoço, só Deus
mesmo para me impedir de tirar a roupa e me entregar para o diabo.

Estava me sentindo tão quente que acabei parando diante da piscina. Vi o


Enzo sentado na borda de pedra, com as pernas penduradas para dentro da água
e senti vontade de me juntar a ele. Ignorei o olhar surpreso que me lançou
quando me aproximei e descalcei meus sapatos.

— Você se incomoda que eu fique aqui? — perguntei, sem esperar pela


resposta. Suspirei com a delícia que foi sentir meus pés tocarem a água gelada.

— Eu, não. Pietro, no entanto, pode não gostar. — Ele fez um movimento e
vi que havia um cinzeiro ao seu lado, onde sua mão batia um cigarro.

— Seu irmão costuma achar que é meu dono — respondi, levantando o


cabelo e dando um nó para prendê-lo. — Ele não manda em mim.

— Fique à vontade então. — Enzo me olhou e sorriu. — Meu irmão está


apaixonado. Eu sabia que uma hora vocês se casariam, mas não imaginava que
ele fosse se envolver tanto.

Gargalhei porque era absurdo.

— Estamos falando do mesmo Pietro? — perguntei, baixando o rosto para a


água e balançando a cabeça. — Acho que você não o conhece muito bem.

— Ele me tirou do posto de sottocapo porque falei de você. E está certo que
não me orgulho do que disse, mas foi um tanto exagerado.

Opa. Seria por isso que a senhora Greco chamou Pietro para uma conversa?
Era realmente uma atitude muito drástica, visto que pouquíssimas pessoas se
enquadrariam para ocupar o título. Um subchefe precisava ser alguém da mais
inteira confiança do Don, pois o substituiria quando fosse preciso.

— Não sabia disso — falei, desconcertada, com vontade de saber o que ele
teria dito sobre mim. — Você se arrepende do que disse?

Enzo levou uma mão à cabeça e esfregou o cabelo, com a boca retorcida
numa careta.

— Não foi legal, mas não falei por maldade, por ser você. Era apenas uma
conversa entre irmãos e homens falam sobre sexo. Claro que me arrependo, você
será minha cunhada, afinal de contas.

— Então, de minha parte, está tudo bem. — Encolhi os ombros, batendo os


pés na água. — Vou falar com ele, apesar de ter certeza de que não adiantará
nada.

— Não precisa. — Enzo deu uma tragada no cigarro e soltou a fumaça para o
lado oposto. — Como foi com seu tio?

— Falei com ele no início da festa e já foi embora, então, tudo bem. O Pietro
fez eu me sentir segura, mesmo diante daquele traste.

Enzo balançou a cabeça, como se soubesse exatamente do que eu estava


falando. Pietro seria capaz de fazer qualquer pessoa se sentir segura ao lado dele.
Meu cunhado — assim eu esperava que fosse — virou o rosto e me encarou. Em
seguida, os olhos desceram até meu pescoço e ele sorriu.
— Ah, estou vendo que vocês estão se dando muito bem. — Apontou para a
região onde eu tinha sido chupada. — Sabe que ficou uma bela marca, né?

Marca? Sério? Eu o mataria! Tapei o local com minha mão, sentindo meu
rosto esquentar de vergonha. Estava um calor dos infernos, eu não tinha como
ficar escondendo o chupão com lenços e golas altas.

— Isso não é o que está pensando. — Sorri, fingida. — Foi um...


contratempo. O Don não faria isso.

— Não precisa inventar desculpas para mim, Giovanna. — Ele apagou o


cigarro e alongou os braços. — Não serei eu a julgá-los e, sinceramente, acho até
que meu irmão está sendo bem forte.

O Greco mais novo deu impulso e se levantou, curvando-se na minha direção


e tocando minha cabeça.

— Vou entrar. Você ficará bem?

— Acho que vou dormir — respondi, aceitando a mão que ele esticou para
mim. — Boa noite, cunhado.

Encerrei minha participação na festa depois de me despedir da senhora


Greco e fui para o quarto. Foi uma dificuldade parar de pensar no beijo e dormir,
rolei na cama durante quase duas horas. Cheguei até a cogitar invadir o quarto
do diabo para matar a saudade, mas quando parei diante da porta dele, minha
coragem se esvaiu. Contentei-me em voltar para minha cama e lembro de pegar
no sono com o dia amanhecendo.

19

GIOVANNA

Pulei da cama, chocada quando vi o horário no celular. Já passava das dez


horas e eu não era uma pessoa que gostava de acordar tarde. Por isso, saí do
quarto sem me preocupar em vestir algo mais arrumado, ostentando uma camisa
de Pietro que eu tinha roubado para mim.

Eu o encontrei sentado à mesa do café da manhã, sozinho, falando no celular.


Passei por sua cadeira sem cumprimentar para não atrapalhar a ligação, com o
objetivo de me sentar na cadeira ao lado. Porém, o Don foi mais rápido e
segurou minha mão.

— Faça o pedido e mande a nota fiscal para meu e-mail — falou para
alguém que eu não sabia quem era.

Ele me puxou para me sentar de lado em seu colo, deixando-me surpresa e


de queixo caído. O que tinha tomado no café? Passou o braço sobre minhas
coxas como se não fosse absolutamente nada demais e continuou a conversa no
celular. Tive certeza de que estava sonhando.

— Will, não aceito que essa produção seja menor que cinquenta mil. Peça
que confiram de novo o carregamento e me ligue de volta.

Bem, já que eu estava sentadinha ali, sem fazer nada, sem receber atenção,
resolvi me distrair. Deslizei meus dedos pelo cabelo do Don, adorando a maciez
daquela nuca. Contornei a orelha dele, descendo pelo maxilar, roçando sua barba
e escorregando minha mão até seu pescoço. Ele não conseguiu controlar um
estremecimento e me olhou de soslaio.

— Espero ainda hoje. — E desligou, tornando-me seu foco. — Bom dia,


Giovanna.

Levei uma mão à testa dele e medi sua temperatura.

— Bom dia. Você está se sentindo bem?

— Para ser sincero, eu estava — respondeu, segurando minha mão e


sorrindo. — Até ver você desfilar com a calcinha quase aparecendo numa casa
cheia de homens.

— Entendi. Só você pode desfilar com o pacote exposto daquela maneira.

— Eu estava em traje de banho, bambina. É diferente. — Ele arqueou uma


sobrancelha e me encarou, depois desceu os olhos até minha boca. — Enfim,
esperei que acordasse para ver se quer sair. Pensei em pegar o iate e ancorar em
alguma praia de Favignana. Adoro aquela ilha.

— Sim! — quase gritei. Não seria louca de recusar ficar sozinha com ele
num iate. — Agora?

O diabo pareceu ter se dado conta da marca que deixou na base do meu
pescoço, pois sorriu e tocou o local.

— Pode ser agora. Vá se trocar enquanto espero.

— Podemos ancorar em Bue Marino? — perguntei ao me levantar, animada.


— Sempre quis ir até lá pelo mar, porque morro de preguiça de subir aquelas
pedras.

Nem esperei ele concordar e saí correndo para o andar de cima, esquecendo
até mesmo do café da manhã. Se tinha uma coisa que eu amava na vida, era o
mar.

PIETRO

Não me lembro de ver Giovanna com um sorriso tão feliz como naquele
momento. Estava tão empolgada que até se esqueceu de comer.

Levantei-me, indo à cozinha e pedindo que separassem alguns lanches para


levarmos, pois ir até Favignana e ancorar por lá ocuparia o dia inteiro.

Eu tinha descido pronto, pois acreditava que ela não iria se opor ao convite.
A italianinha estava cada vez mais assanhada para cima de mim e eu não tinha
como negar que era divertido vê-la toda afobada.

No caminho para o escritório, passei pelas portas que davam para a piscina e
avistei Enzo deitado numa espreguiçadeira, curtindo sua vida mansa. Fui até ele
e me sentei na beira da cadeira.

— Quer ganhar alguns pontos e fazer algo útil? — perguntei, observando-o


tirar os óculos escuros e me olhar. — Vou sair de iate com Giovanna, mas
preciso adiantar algumas coisas por aqui.
— O que devo fazer?

— Matteo Barone será nosso cartão de visitas para acessar a Dita di Ferro.
Espalhe por aí que desejo me reunir com Don Negri. Quero que me procurem.

— Matteo não é o filho de Leonardo Barone? — Enzo perguntou ao se sentar


e esfregar o cabelo molhado. — É um imbecil, todo mundo sabe.

— Leonardo era amigo de nosso pai, farei o possível para que o homem não
perca o filho.

— Sabe que Don Negri é uma cobra, né?

Toquei a lateral do rosto dele e sorri. Enzo se parecia muito comigo quando
mais novo.

— Eu sei, mio fratello. Papà me ensinou tudo o que precisava saber.

Ele me olhou dentro dos olhos, temeroso, mas balançou a cabeça para indicar
que tinha entendido. Voltei para dentro de casa, mandando uma mensagem para
Carlo preparar o carro. Encontrei minha mãe descendo a escada e beijei sua mão,
trazendo-a para um abraço assim que pisou no último degrau.

— Ainda está chateada comigo? — perguntei, apertando-a nos braços. —


Por favor, mamma, eu amo vocês. Fiz o que fiz para obrigar Enzo a amadurecer
um pouco, ele precisa sentir que em nossa vida, nada está cem por cento
garantido. Se me der os motivos certos, recuperará o posto de sottocapo.

— Não gosto de ver vocês dois brigando — disse ela, tocando meu rosto. —
São meus dois amores.

— Mas sei que sou o filho favorito, claro. — Pisquei, puxando-a para o alto
e rodando com ela em meus braços. Ignorei os tapas e pedidos para que a
soltasse. — Ah, dona Giulia! A senhora sabe que não vive sem mim.

Depois de satisfeito, coloquei-a de novo no chão e me esquivei bem a tempo


de levar um beliscão. Giovanna desceu saltitante, chamando minha atenção para
ser look praiano. A garota tinha colocado um short rosa de algo que parecia tricô,
tão curto que fiquei aliviado por não irmos para nenhum lugar movimentado.
Vestia uma regata floral e calçava uma sandália rasteira. Na cabeça, o chapéu de
minha mãe completava o visual junto com os óculos escuros.

— Estou prontíssima! — falou, ajeitando uma bolsa no ombro e parando


diante de nós.

— Vocês vão sair? — mamma perguntou, dando um beijo na bochecha de


Giovanna.

— Seu filho me chamou para irmos de iate até Savignana.

— Ah, amo esse lugar!

— Eu também!

Suspirei, ciente de que as duas unidas sempre me dariam muito trabalho.

— Levarei uma de cada vez, porque senão enlouqueço — falei, piscando


para minha mãe. Percebi que ela tinha notado a marca do chupão na pele branca
e sorri.

— Querido, seja mais educado e pare de marcar sua noiva como se fosse
gado.

Giovanna, então, se deu conta do que falávamos e arregalou os olhos. Ela


esfregou os dedos sobre a pele e estalou a língua, virando-se para minha mãe.

— Isso aqui é uma alergia, senhora Greco. Nunca deixaria que Pietro
cometesse tal indiscrição comigo!

— Imagino. — A matriarca Greco riu e apertou a bochecha da italianinha. —


Também sofri inúmeros episódios alérgicos quando casei com Enrico.

Ela nos deixou a sós e eu encarei Giovanna, sem acreditar em tamanha cara
de pau. Agia como a santinha na frente dos outros e infernizava minha vida na
primeira oportunidade.


A ilha de Favignana era o paraíso na terra. Ficava na costa siciliana e possuía
um mar de águas cristalinas com diversas tonalidades de azul. Frequentei muito
as suas praias quando era mais novo e sempre que tinha oportunidade, pegava o
iate para navegar até lá. Nunca gostei muito de pisar na praia em si, apenas
ancorar em áreas boas para mergulho e curtir a tranquilidade ao redor.

Bue Marino, a praia escolhida por Giovanna, era realmente extraordinária e por
não ser de tão fácil acesso por causa de seu caminho de pedras, não era das mais
frequentadas. A paisagem vista lá do alto, no entanto, valia qualquer esforço.

Ancorei um pouco mais afastado de outras embarcações, possivelmente de


turistas que costumavam alugar para ter acesso a todas as praias. Tinha
dispensado Carlo e os outros seguranças ao chegarmos na marina, pois não tinha
necessidade de levar um bando de marmanjo para olhar a bunda da italianinha.

Desliguei o motor e observei Giovanna no sofá ao meu lado, com os braços


sobre o encosto enquanto observava a paisagem. Eu tinha optado pilotar pelo
flybridge[21] para fazer companhia a ela ali no alto. A garota puxou o celular do
bolso e bateu uma selfie, abrindo um sorriso incrível de costas para o mar.

— Deixa que tiro a foto — falei, aproximando-me e esticando a mão.

Ao me entregar o celular, fez uma pose toda sensual, olhando para o


horizonte. Bati fotos de ângulos diferentes para que ela pudesse escolher a
melhor e devolvi o aparelho. Aproveitei para tirar a camisa e a olhei antes de
descer até a cozinha.

— Pode usar um dos quartos para se trocar, estamos num ponto ótimo da
praia.

— Por que eu preciso me trocar? — Ela desceu atrás de mim e se apoiou no


corrimão quando entrei no cockpit.

Qual seria o problema da vez? Abri o frigobar, tirei uma cerveja lá de dentro
e me virei, puxando a tampa.

— Eu achei que você fosse nadar. Para ficarmos apenas no barco,


poderíamos ter parado em qualquer outro lugar.

Giovanna se aproximou e abriu o frigobar ao meu lado, puxando uma outra


cerveja.

— Por favor, me deixe tomar uma... — pediu, fazendo bico. — Estou com
saudade desse gosto.

— Uma.

— Prometo que será só uma. — Observei enquanto encostava o gargalo nos


lábios e bebia alguns goles. Por fim, voltou a me olhar. — Então, caso não
compreenda, eu não tenho biquíni. Não achei que fosse um item essencial para
colocar na mala quando fugi de casa.

No instante em que ela soltou a garrafa sobre a bancada, eu soube o que


estava prestes a fazer. Só tive tempo de respirar fundo e pedir força aos seres
celestiais quando a louca puxou a regata pela cabeça e ficou de sutiã.

— Não sei por que ainda me surpreendo com você — falei, acompanhando
os dedos dela puxarem o elástico do short e abaixarem a peça.

Tinha escolhido um conjunto azul de tecido fino com renda bordada na frente
da calcinha e nos bojos do sutiã. Não parecia ser do tipo que ficaria indecente
molhado, mas mesmo assim era bem diferente de um biquíni.

— Vou mergulhar! — E saiu, deixando-me sozinho, com meus pensamentos


sórdidos a respeito do triângulo carnudo entre suas pernas.

A italianinha deu um corridinha, ostentando a bunda diante dos meus olhos,


abriu a portinhola que dava para a popa e pulou no mar. Louca. Totalmente. E eu
queria cada pedaço dela.

GIOVANNA

Que água maravilhosa! O mar de Favignana era, provavelmente, o mais


lindo de toda a Itália. Suas cores, sua tranquilidade, a paisagem, tudo era
perfeito. E por falar em paisagem, Pietro estava de pé na popa do iate, olhando
na minha direção.
Claro que quando ele fez o convite, lembrei na mesma hora que não tinha
nenhum biquíni comigo. Fazia muito tempo que eu não nadava, mesmo antes de
fugir, portanto, não foi um item primordial na hora de fazer minha mala. Lógico
que eu não queria deixar de fazer o passeio, então simplesmente encarei o fato
de que precisaria desfilar de calcinha na frente do Don. Era isso ou nadar pelada.

O deus grego de sunga mergulhou, tão diferente de mim. Eu pulei que nem
uma pedra e ele deu aqueles saltos de cabeça como um nadador profissional. De
tão cristalina que era a água, pude observar seu corpo submerso, nadando na
direção contrária de onde eu estava. Ele veio à tona, passando as mãos pela
cabeça e olhando em volta. Então, inclinou-se para trás e boiou por alguns
segundos antes de voltar.

— Achei que fosse nadar até a praia e me deixar aqui sozinha — comentei
quando se aproximou.

— Nunca faria isso. — O dedo dele tocou a alça do meu sutiã e por pouco
não raspou no meu peito. — Quer dizer então, que a senhorita está sem biquíni?
Nem pensou em me avisar para comprar um?

Afundei a cabeça e abri os olhos debaixo d’água, enxergando aquela lindeza


toda cristalina. Diante de mim, tinha algo mais lindo ainda: o corpo de Pietro.
Nadei um pouco ao redor dele e vi quando também mergulhou e veio me caçar.
Tentei dar uma fugidinha só para não me fazer tão fácil, mas o Don segurou
meus pés e me puxou. Vi as bolhas de ar que nossos narizes expeliam quando ele
envolveu meu corpo com um braço e me puxou para cima.

— Garota, preciso pensar em um bom corretivo para aplicar em você, para


aprender a não me deixar falando sozinho.

— Tipo o quê? — Passei a língua pelo lábio, pois já tinha aprendido que o
diabo adorava encarar minha boca. — Vai começar a me colocar de castigo?

— Cuidado que meus castigos podem ser diferentes do que você imagina,
bambina — disse ele, segurando meu lábio entre os dedos.

Ri e me soltei de suas garras, nadando um pouco de costas, jogando água em


cima dele propositalmente. Quando vi, estava boiando, encarando o céu azul
sobre nossas cabeças. O dia estava lindo.
— Esse barco aí não tem nenhuma boia não? — perguntei ao diabo,
sentindo-o se mexer perto de mim. — Sei que preciso tonificar meus músculos,
mas não tanto.

Ouvi uma gargalhada e, em seguida, um carinho na cabeça. Levei um susto


quando duas mãos tocaram minha cintura e me puxaram de encontro a ele.
Passei meus braços ao redor do seu pescoço e fiquei animadinha.

— Você não precisa de nenhuma boia. — Meu coração galopou dentro do


peito quando Pietro segurou minhas coxas e as colocou ao redor da cintura dele,
estreitando ainda mais nosso contato. — Acho melhor levá-la para se alimentar.
Não é possível que não esteja com fome até agora.

— Posso pensar em diversas outras formas de me alimentar — respondi,


passando a língua pelos meus lábios.

Ele nadou comigo de volta ao barco. Como já estava no inferno, abracei o


diabo e aproveitei para beijar o pescoço dele. Senhor pai misericordioso, precisei
controlar a vontade de lamber toda sua pele.

— Sei disso. Essa sua mente deve pensar em muita perversão, pena que você
não daria conta nem da metade.

— Você está muito enganado quanto a isso — falei, franzindo meus lábios.

— Estou? — Ele sorriu e me surpreendeu ao morder meu queixo.

Minhas costas tocaram o metal frio da escada que nos levaria de volta à
popa. Pietro usou uma mão para se segurar no corrimão e apoiou um pé no
degrau, enfiando um joelho entre minhas pernas para me manter sentada sobre
sua coxa. Aquele contato me deixou instantaneamente excitada, mas me senti
grata por não precisar de banho frio; o mar era gelado o bastante.

— Então me diga: qual a coisa mais pervertida que você já fez a dois? — ele
questionou, com sua sobrancelha arqueada, como se me desafiasse.

— Não vou ficar contando essas coisas a você — respondi, chateada por não
ter nada interessante para dizer.

O Don estalou a língua e balançou a cabeça. A mão livre tocou meu cabelo,
colocando uma mecha atrás da minha orelha. Os dedos deslizaram pelo meu
pescoço, alcançaram o ombro e desceram pela lateral do meu peito, até
apertarem minha cintura.

— Por que você não conta algo bem pervertido? — perguntei, com esperança
que ele citasse os vídeos de sexo que guardava no computador.

Pietro inspirou e olhou para o céu, pensativo. Vi um novo sorriso, bem


safado, formar-se em seus lábios. Quando voltou a me encarar, correu os olhos
pelo meu corpo e tocou a lateral da minha calcinha, acometendo meu corpo com
alguns calafrios.

— Perversão é o que tenho em mente para você, bambina. — Deixei escapar


um gemido quando a mão dele resvalou para o interior da minha coxa.

Arfei, surpreendida, quando me beijou e me invadiu com a língua. Enfiei


meus dedos pelos fios de cabelo mais crescidos que ele tinha e tentei degustar de
cada pedaço daquela boca que me consumia. Soltei o cabelo e deslizei minhas
mãos por suas costas. Eu tinha que aproveitar um pouco, né? Tateei os músculos
definidos, senti a curvatura de seu cóccix, o início dos quadris e, pronto, não
resisti. Desci as mãos até a bunda dele. DE-LI-CI-O-SA.

Pietro afastou o rosto e me observou com os olhos semicerrados. Segui a


gota d’água que pingou de seu cabelo sobre o nariz e escorreu até a boca. Estava
hipnotizada pelo Don.

— Você acabou de apertar minha bunda, safadinha?

— Não podia? — Ri, ainda alucinada com o beijo.

— Vai, suba a escada — mandou ele, dando espaço para que eu me virasse
de costas.

De repente, fiquei completamente alerta. Teria que colocar minha bunda na


cara de Pietro para poder subir de volta ao iate. E minha calcinha não escondia
muita coisa atrás. Engoli em seco, enquanto ele aguardava com uma sobrancelha
arqueada.

— Você vai bater de novo na minha bunda? — perguntei.


— Claro que não. — O diabo se fez de rogado. — Só faço isso se você
merecer.

— Sei.

Tomei coragem e me virei, subindo os primeiros degraus. Praticamente corri


para cima e me sentei no sofá que ficava bem ali na popa da embarcação. Meu
coração estava mais acelerado do que nunca.

O Don passou por mim e alisou minha cabeça antes de entrar no cockpit e
parar na cozinha. Como ele conseguia agir daquele jeito tão natural? A gente
tinha acabado de dar um beijo cinematográfico!

— Giovanna! — chamou ele, acenando para mim e, quando levantei e me


aproximei, meneou a cabeça na direção do armário. — Ali dentro tem um monte
dessas porcarias que vocês jovens gostam de comer. Veja se encontra alguma
coisa. Vou cortar umas frutas. Giovanna!?

— Oi.

— Tudo bem? — Ele franziu a testa. — O que foi?

— O que foi o quê?

O Don cortava uma maçã quando apoiou a faca no balcão e diminuiu o


espaço entre nós. Seus dedos entraram em meu cabelo e ele me fez levantar o
rosto para encará-lo.

— Está estranha. Foi algo que fiz?

Já que ele perguntou...

— A gente estava dando o maior amasso ali há um minuto e... — Apontei


com as duas mãos na direção da popa, inconformada. — Você está aí todo
tranquilo como se nada tivesse acontecido.

— Foi só um beijo, bambina. — Sorriu. — Intenso, mas nada mais que isso.

— Só um... — Arregalei meus olhos, mas me recompus. Tinha sido mesmo


só um beijo. — Tá.
— Olha, a ideia do passeio foi para virmos e relaxarmos — disse ele,
alisando meus braços sem desfazer o contato visual. — Sem problemas de
família, sem ninguém no nosso pé. Quando pego o iate, gosto de fingir que estou
sozinho no mundo e tiro tudo da mente.

— Quem disse que estou pensando em qualquer coisa além desse barco? —
perguntei e, sem conseguir me controlar, alisei o peitoral dele. Pietro me soltou e
apoiou as mãos na bancada atrás de mim. — É você que me deixa confusa. Nós
somos ou não somos noivos?

— Sim, vou me casar com você, Giovanna. — Ele se inclinou um pouco e


me deu um selinho.

Pendurei-me no pescoço dele, ficando nas pontas dos pés e obrigando Pietro
a se curvar. Mordi seu queixo, sentindo suas mãos grandes tocarem minhas
costas.

— Então me beija de novo?

Imaginei que o diabo fosse reclamar da minha insistência, mas beijou minha
testa, depois a ponta do nariz e, por último, minha boca. Que soltem os fogos de
artifício! Não sabia como era o beijo dele com outras mulheres, mas em mim,
sempre parecia que Pietro queria fazer sexo com minha boca, de tanto que
lambia e chupava meus lábios, às vezes, tão lentamente, outras empregando mais
força no toque.

Enquanto degustava de minha língua, desceu as mãos pelas minhas costas,


roçando os dedos no elástico da minha calcinha. Rezei para que apertasse logo
minha bunda, de uma vez por todas, mas quando senti seu toque diretamente na
pele daquela região, tudo acabou.

Minhas mãos ficaram vazias quando ele se afastou e voltou para o outro
lado, pegando a faca e cortando a pobre maçã com mais vigor que o necessário.

— Você é um sádico — reclamei, ajeitando meu cabelo e me desencostando


da bancada ao sentir que podia me mover.

— Preciso de um tempo, mio amore. Não pretendo ficar batendo punheta que
nem adolescente por aí.

Como ele era romântico! Tirei a maçã de suas mãos, antes que terminasse o
esquartejamento e saí do cockpit, voltando lá para cima e me deitando numa
chaise.

PIETRO

Não estava exagerando quando pedi que Giovanna me desse um tempo. Há


anos eu não sabia o que era precisar controlar a vontade de transar. Se estava
com uma mulher, a gente fodia e pronto. Sem complicação, sem paranoia, sem
estresse no dia seguinte. Gostava de sair com mulheres de idades próximas a
minha, portanto, não havia impedimentos e inexperiência. Eu conhecia alguém,
levava para casa ou algum hotel e tudo ficava bem.

Mesmo quando minha rotina se apertava e não encontrava tempo de sair e


conhecer pessoas novas, ainda podia apelar para minha lista de fodas certas,
como Rayka. Eu sempre tinha sexo à disposição a hora que quisesse.

Sentia-me perdendo a sanidade. Talvez eu conseguisse ficar dias, semanas,


até meses sem transar caso me trancasse num quarto escuro sem contato com o
mundo exterior. Mas ao lado de Giovanna? Ela era pura pólvora, pronta para
causar explosões. De uns dias para cá, meu corpo parecia ter aprendido que se
tratava de área proibida, pois reagia intensamente a cada toque dela.

Precisei me masturbar nas duas noites desde que chegamos à Itália e isso
porque mal tivemos intimidade. Agora, com as coisas começando a esquentar
entre nós, estava em pânico.

Enchi um potinho com castanhas e terminei de preparar a bandeja que levaria


lá para cima. Quando saí do cockpit, percebi que Giovanna tinha se deitado na
chaise da proa. Contornei a lateral e me aproximei, notando que a diabinha
estava deitada de bruços e havia tirado o sutiã.

— Jura mesmo que não vai passar protetor solar? Não tenho a intenção de
voltar correndo para casa porque se queimou demais — falei, agachando-me ao
lado dela e depositando a bandeja na sua frente. — Estou falando sério,
Giovanna. Você é muito branquinha.

Com a cabeça deitada, apoiada nos braços, ela virou o rosto para mim. O
azul dos olhos estava ainda mais brilhante, semicerrados para se proteger do sol.
O nariz ganhara um tom rosado e vários fios de cabelo estavam grudados em sua
pele. Linda.

— Não trouxe nenhum protetor.

— Sorte a sua que eu penso em tudo, gatinha. — Levantei-me para buscar o


frasco, mas antes de me afastar dei mais uma boa olhada naquele corpo. Era
natural, sem o silicone que toda mulher atualmente socava em qualquer buraco,
sem os músculos trabalhados em academia, sem intervenções cirúrgicas. As
costas lisas e curvilíneas terminavam no vale entre elas e as duas bandas da
bunda arrebitada. Observei as duas covinhas tímidas acima das nádegas e a
calcinha se perdendo entre suas carnes, rogando para que algum dedo a puxasse
para fora.

Ajeitei minha postura, esfreguei meu rosto e me dei um tapa para ver se
despertava do transe e voltava a raciocinar com a porra do cérebro. Fui em busca
da pequena mala que tinha levado com itens essenciais e peguei o protetor em
spray. Era o que eu costumava usar, fator 35, mas sabia que não seria o ideal
para Giovanna. No entanto, não possuía nenhuma outra opção.

Ao retornar para a chaise, encontrei-a sentada e com o sutiã de volta ao


lugar. Comia um sanduíche que preparei, de pernas dobradas como buda.
Quando me viu, abriu um sorriso tão encantador que eu soube que a protegeria
para sempre de quem quer que fosse.

— Ainda bem que vou casar com alguém que sabe cozinhar — disse, de
boca cheia, colocando a mão na frente.

— Não acho que seja preciso saber cozinhar para fazer um sanduíche. — Eu
me sentei de frente para ela, com as pernas dobradas da mesma forma. — Basta
cortar o pão e montar as camadas.

A italianinha bem que tentou disfarçar, mas seus olhos grudaram na minha
sunga. Dei uma olhada para conferir se não estava com nada para fora do lugar e
voltei a encará-la.
— Protetor primeiro, comida depois — avisei, tirando o sanduíche da mão
dela e entregando o frasco do produto. — Não vai proteger o necessário, mas é
melhor que nada.

Giovanna deixou uma nuvem perfumada no ar, de tanto que apertou o spray
em sua direção. Melecou bastante os braços, pernas, peito e barriga, espalhando
o produto com as mãos. Então, virou-se de costas para mim e me entregou o
frasco.

— Não economize porque eu transpiro demais no sol — disse, esperando


que eu passasse o protetor em suas costas.

Mas que porra estava acontecendo comigo? Nunca tive medo de mulher,
caralho! Não ia me casar com Giovanna amanhã e, portanto, não poderia pisar
em ovos por tanto tempo. Precisava encarar o fato de que minha noiva era
gostosa e recuperar meu autocontrole se não quisesse passar os próximos meses
completamente surtado.

Afastei o cabelo dela e o joguei por cima do ombro para ter livre acesso à
pele. Borrifei o protetor naquela região e espalhei com cuidado para não
esquecer nenhum pedaço. Repeti a ação em sua cintura, passei meus dedos pelas
depressões das covinhas encantadoras e depositei um beijo no ombro nu antes de
pedir que se levantasse.

Aquela bunda ficou bem ali, quase na minha cara. Puxei o tecido da calcinha
até que ela se tornasse um fio dental e encharquei sua pele com o produto. A
melhor hora do dia chegou, o momento em que espalmei minha mão naquele
rabo macio e o besuntei de protetor. Não consegui deixar meu instinto safado de
lado e acabei provocando um pouco, escorregando a mesma mão pelo interior
das coxas enquanto protegia também suas pernas.

Giovanna deu uma leve estremecida, com a pele toda arrepiada. Ela abaixou
a cabeça e vi quando tencionou os dedos das mãos.

— Falta muito? — perguntou, virando o rosto para mim.

— Acabei, principessa. — Coloquei o frasco de lado e apertei a coxa dela.


— Agora ajoelhe aqui e me dê um beijo como agradecimento.

Peguei-a de surpresa ao ver o sorriso em seu rosto e as bochechas coradas. Já


não dava mais para saber se pelo sol ou por timidez. Ela se ajoelhou, toda cheia
de cuidados para não subir em meu colo e se inclinou para frente, aproximando o
rosto do meu.

Aproveitei a oportunidade e dei o bote, enlaçando sua cintura com meus


braços e me jogando de costas na chaise. O corpo cheiroso caiu em cima do
meu, soltando alguns gritinhos pelo susto.

— Pietro! — Ela inclinou a cabeça para trás, encarando-me chocada.

Prendi minhas pernas sobre as dela para que não fugisse e tomei sua boca
carnuda. Chupei aqueles lábios com vontade, sentindo os dedos tímidos alisarem
meu maxilar. Quando percebi que ela não fugiria mais, desfiz o aperto de meus
braços ao redor do corpo dela e desci minhas duas mãos até aquela bunda
maravilhosa. Apertei com a vontade que me consumia desde que a vi deitada de
bruços na minha cama.

Giovanna interrompeu o beijo, olhando apavorada para mim. Ela espalmou


as mãos em meu peito e tentou se levantar, sem sucesso. Quando desistiu, soltou
de novo o corpo sobre o meu e tapou o rosto com uma mão.

— Tô sentindo todas as suas coisas... — murmurou. — Vou matá-lo.

— Minhas coisas? — Gargalhei, enfiando meus dedos pela franja dela e


segurando sua cabeça. — Você é tão corajosa em alguns momentos e tão
medrosa em outros. Como pode?

— Não é isso. — Beijei o maxilar e trilhei um caminho até seu pescoço,


enquanto ela apertava meus bíceps. — É só que... não é como dirigir pela
primeira vez ou... sei lá, tomar o primeiro porre...

— Mas sei que não é a primeira vez que você fica com alguém, bambina.

— Dessa forma, é sim. — Giovanna pressionou os lábios e desviou os olhos


dos meus. — Nunca quis ter contato com... pênis... por causa do meu tio. É...
estranho. E nunca fiz nada demais com ninguém.

— Quer levantar? — Bastou mencionar Lorenzo para meu peito ficar


apertado e sentir vontade de matar aquele homem.
— Não! — Ela lançou os braços ao redor do meu pescoço e jogou os pés
para o alto. — Não. Quero me acostumar. Tenho que perder a vergonha em
algum momento, né?

— Não é algo para ser forçado — falei, alisando suas costas de forma mais
delicada do que antes. Precisava ter em mente quem ela era e todo seu histórico.
— É natural ter dúvidas e alguns receios e quero que me prometa, se em algum
momento eu for muito além do que você consegue ir, vai chutar minhas bolas.

— Com prazer — respondeu ela, abrindo um sorriso brincalhão e deslizou as


mãos pelo meu abdômen. — Chuto lá embaixo e beijo aqui em cima. Caramba,
você é muito definido, Don.

— Pare de me chamar assim.

— De Don? — Mordeu o lábio, provocando. — Prefere “diabo”?

— Prefiro meu nome — respondi, observando seus peitos pressionados


contra meu corpo.

— Você malha muito? Porque ainda não o vi fazer isso e esse corpo não pode
ter sido conquistado só com a comida da senhora Greco.

— Não tive tempo para me exercitar desde que capturei uma onça bem
arisca. Mas sim, faço muito exercício.

— A barriga do Nero é tão lisa que dá pra ser usada como prancha — disse
ela, muito naturalmente. — Ele é bonito, mas não tem um corpo assim.

— Você está mesmo falando do corpo do seu amigo na minha cara? —


Estreitei meus olhos, querendo dar um tapa bem dado naquela bunda. — Isso é
inocência ou provocação?

— O Nero é gay! — A italianinha gargalhou, jogando a cabeça para trás. —


Sério que você está com ciúmes? Eu é que deveria tomar cuidado.

Calei a boca, chocado com a revelação. O pivete assanhado era gay? Graças
a Deus! Cheguei a pensar que era irresponsável por tratar Giovanna daquela
forma tão íntima diante de mim. Achei que seu jeito displicente fosse por causa
da pouca idade.
— Por muito pouco ele não virou comida de peixe — admiti, esticando um
braço para trás e apoiando minha cabeça nele. Poderia ficar ali, tranquilo, com o
corpo quente de Giovanna sobre o meu, curtindo o dia.

— Não se preocupe com Nero. — Ela se esticou, depositou um selinho nos


meus lábios e espremeu minha boca entre os dedos. — Ele nunca teria chance
comigo, pois sabe que amo você desde que era pirralha. E se disser que eu ainda
sou pirralha, vou enfiar meus dedos nos seus olhos.

Giovanna sendo Giovanna, talvez nem tenha se dado conta do que disse. Ou
talvez fosse assim para alguém da idade dela. Falava o que dava vontade. Eu
sequer tive tempo de digerir a declaração, pois ela se levantou e pulou da chaise,
ajeitando a calcinha de dentro da bunda.

— Quero nadar de novo! Não demore muito porque quero te usar como boia!
GIOVANNA

Eu estava verdadeiramente feliz. Muito feliz. Podia estar me contentando


com pouco, mas depois de tanta coisa que passei, aquelas horas no paraíso com
Pietro pareciam as melhores da minha vida. Ainda precisava dar crédito a ele,
pois estava sendo um fofo. Safado, mas fofo.

Nós nadamos juntos e até nos beijamos debaixo d’água que nem eu via
acontecer em filmes. Pendurei-me nas costas dele, fui carregada para longe, fui
propositalmente afogada e devolvi na mesma moeda e, por fim, ficamos
cansados.

Tinha me deitado no sofá do flybridge, sentindo a barriga dura e inchada de


tanto comer. Pietro havia preparado uma salada verde maravilhosa com croutons
e presunto parma, acompanhada de bruschettas de gorgonzola. Sentia minha
pele levemente ardida, então preferi me proteger do sol. O ventinho gostoso
quase me fazia adormecer, mas eu tentava prestar atenção no homem ao meu
lado, com um livro sobre finanças na mão.

— Com quantos anos você perdeu a virgindade? — perguntei, fazendo seu


rosto se virar para mim.

— Com quinze.

— Quinze? E você está preocupado comigo, sendo que tenho quase dezoito?

— Perdi a virgindade com uma menina de dezesseis anos — falou ele,


arqueando a sobrancelha grossa. — Há uma diferença bem grande.

— Entendi. — Porra nenhuma, odiava ser tratada por ele como a menininha
virgem. — E com quantas mulheres já dormiu?

O filho da mãe deu uma risadinha, colocou o livro sobre a mesa e esticou o
braço para fazer cafuné em mim.

— Não faço ideia. Posso saber por que estou sendo interrogado?

— Por curiosidade mesmo. — Dei de ombros. — Mas você acha normal não
saber com quantas mulheres esteve?

— Digamos que curti bastante minha solteirice. — Piscou e se inclinou para


beijar minha testa.

— Solteirice? — Ele estava de sacanagem com a minha cara? Quando dei


por mim, estava de pé, fuzilando seus olhos com os meus. — Jura? Não tem
vergonha de falar isso na minha frente não?

— Não vamos pegar esse caminho sobre meu passado, bambina. Para que
discutir isso se não é algo que possa ser modificado?

— Tá. — Cruzei os braços, inconformada. — Fácil falar, né? Você vai ser
meu primeiro e eu... sei lá, a centésima. Isso é péssimo para mim.

Ele franziu a testa e segurou o elástico do meu short, puxando meu corpo
para mais perto. Suas pernas estavam afastadas e eu me posicionei entre elas,
começando a sentir os calafrios que me acometiam toda vez que nos
aproximávamos demais.
— Por que é péssimo para você? O que importa não é ser a última?

A última! Tentei não desmaiar de amor e inspirei, focando o mar cristalino


atrás dele.

— Porque você deve ser bem exigente. — Apoiei minhas mãos nos ombros
fortes, pensando nos vídeos pornográficos. Morria de vontade de contar ao Don
que os tinha assistido, mas ao mesmo tempo, sentia-me uma pessoa horrível por
ter invadido a privacidade dele daquela forma.

— Ficar remoendo isso só vai deixá-la ainda mais nervosa e ansiosa.

— É mais forte que eu... — expliquei, dando um tapa na mão que


escorregava pela minha coxa. — Mas por um lado, é ótimo que a gente só vá
fazer sexo depois do casamento. Assim, se eu for muito ruim de cama, você não
poderá mais fugir.

O tapinha que dei não surtiu efeito. Pietro segurou com força nas minhas
coxas e me derrubou sobre ele, levando as mãos direto para minha bunda. Caí
meio torta, ajoelhada e arrepiada ao sentir a invasão dentro do meu short. Meu
Deus, ele tinha colocado as mãos por dentro da minha calcinha.

— Sorte a sua que sou bom o suficiente por nós dois — disse o diabo,
sorrindo. — Gio... Gio... Essa sua bundinha é maravilhosa.

— Ah...

Deixei a cabeça cair quando mordeu meu ombro direito e depois lambeu a
região, apertando a carne da minha bunda com vigor. Não encontrei forças para
bloqueá-lo quando baixou a alça do meu sutiã e beijou a pele logo acima do meu
seio. A pressão entre minhas pernas se tornou mais intensa. Podia mandar que
parasse, mas optei por aproveitar um pouco e sentir seus músculos sob meus
dedos.

Sem afastar os lábios da minha pele, Pietro levantou os olhos e me encarou


de forma tão sensual que fechei a boca para não gemer. Ele deslizou a língua
pela minha clavícula e, então, fez algo que eu não esperava. Seu polegar roçou
meu mamilo por cima do sutiã. Não foi um toque imprevisto, pois ele continuou
ali, massageando aquele pequeno ponto.
— Pietro...

Senti meu corpo mole e entregue, até que me beijou e esqueci de todas as
coisas. Perdi a noção de onde estávamos, que dia era, o que fazíamos. Só
conseguia sentir meu corpo queimar e uma vontade absurda de me esfregar nele.
Foi exatamente o que fiz. Nem sei o que deu em mim, porque era a primeira vez
que agia daquele jeito, mas parecia uma cadela no cio.

Abri mais as minhas pernas e rocei no volume que crescia em sua sunga,
sentindo-me tarada, mas morrendo de vontade de aplacar aquela sensação que
me consumia. Pietro parou de me beijar e esticou os braços sobre o encosto do
sofá.

— Assim você me mata, Giovanna — falou, estalando a língua.

— Acho que tô com muito fogo — murmurei, enroscando meus braços no


pescoço dele.

— Percebi. — Ele sorriu. — Se quiser eu a jogo na água gelada.

— Podia me jogar na cama. — Completamente surtada, gargalhei, jogando a


cabeça para trás e arrancando uma risada de Pietro. Quando voltei a olhá-lo, ele
balançava a cabeça para mim. — Estou brincando. Mas podia não ser
brincadeira.

Enfiei a cabeça no vão do pescoço dele e ri sozinha, ajeitando-me em seu


colo.

— Você roubou alguma cerveja sem que eu tenha visto?

— Estou sóbria.

Ele começou a mexer no meu cabelo e seus dedos roçaram minha pele.
Beijou meu pescoço, meu rosto, até que levantei a cabeça e o encontrei com
minha boca. Desci minhas mãos pelas laterais do corpo dele, senti o abdômen
rígido e fui além, escorregando as mãos até onde meus dedos conseguiam
alcançar. Parei em suas costas e tracei o limite do elástico da sunga, morrendo de
vontade de tocar também na bunda dele, que nem fez comigo.

Sentia-me molhada entre as pernas quando me remexi mais no colo dele,


esfregando meu short naquela sunga extremamente indecente. Não era o volume
de antes, de quando estávamos deitados na chaise. Isso era muito mais intenso e
duro. Percebi, me sentindo patética, de que Pietro nem estava excitado quando
dei aquele vexame anterior.

Meu noivo gemeu entre os dentes e fechou os olhos. Ele jogou a cabeça para
trás e esfregou a nuca.

— Bambina, sugiro que saia de cima de mim antes que eu perca a cabeça.
Pelo amor de Deus.

Não sei de onde tirei forças, mas consegui mexer minhas pernas e levantar
antes que ele cumprisse sua palavra. Apertei uma coxa contra a outra, excitada,
sem conseguir desviar os olhos da sunga de Pietro. Todo o pênis dele estava
milimetricamente delineado pelo tecido, tornando o traje de banho quase inútil,
já que eu conseguia ter uma boa noção do que tinha ali dentro. E minha nossa
senhora, era uma coisa muito grande.

— Pare de olhar para meu pau, safada! — Ele riu, colocando as mãos em
cima para tapar o material.

— Gostoso! — falei antes de me virar e descer a escada para o cockpit.

A tarde se aproximava do fim e eu ainda estava ali, deitada na chaise,


observando o céu. Tinha deixado Pietro quieto lá em cima, porque simplesmente
não achava que conseguiria dar conta dele de novo. Toda vez que a gente se
tocava eu quase entrava em combustão espontânea. A situação parecia fugir do
meu controle.

Minha playlist favorita tocava no celular quando o Don apareceu e se sentou


perto dos meus pés. Estava vestido, com aquele cheiro característico de maresia
que eu adorava.

— Acho que está bom para voltarmos, né? Se sairmos agora, talvez dê para
pegarmos o jantar em casa.

— Agora? — Senti uma tristeza enorme me invadir. Sabia que teríamos que
voltar, mas aceitar que o dia maravilhoso chegava ao final, era bem difícil. —
Queria ver o céu à noite...

Meu noivo levantou o rosto e olhou para o céu, pensativo. Sua mão tocou
meu tornozelo e alisou minha pele. Admirei o contorno do nariz, a boca, o
queixo, o homem era perfeito demais. Misericórdia.

— Quer passar a noite? — perguntou, voltando o rosto para mim. —


Podemos ir embora assim que amanhecer.

— Dormir aqui? — Não sei como não engasguei, porque se eu mal havia
sobrevivido durante o dia, como seria a madrugada toda?

— Temos duas suítes. — Ele sorriu. — Não estou sugerindo dividirmos a


cama.

— Ok. Eu quero!

E que papai do céu me ajudasse.

PIETRO

Giovanna voltou para a chaise dez minutos depois, de banho tomado e com a
roupa que saiu de casa. Estendi minha mão e a apoiei enquanto passava por cima
de mim e sentava ao meu lado. Passei meu braço sobre os ombros dela e beijei
seu cabelo perfumado.

— Sem agarramento por algumas horas, ok? — pedi, rindo com a boca
grudada na orelha dela. — Estou me aproximando da idade de risco para
doenças cardíacas.

Não estava brincando. Lá em cima, no flybridge, com Giovanna roçando no


meu pau, quase perdi a cabeça. Foi por muito pouco que não o puxei para fora da
sunga e pedi que me chupasse, porque aquela boca era de causar taquicardia.
Chegava a me contrair ao imaginar os lábios grossos deslizando pelo meu
cacete.

A italianinha estava se descobrindo e experimentando coisas nova e eu não


tinha dúvidas de que era o único que poderia impedir que transássemos. Se
quisesse mesmo levá-la para cama, ela não resistiria à pressão e acabaria
cedendo.

Foco.

— Você já me detestou alguma vez? — perguntou, deitando a cabeça no meu


ombro.

— Detestar?

— Sim, afinal, você era adulto quando a gente se conheceu. Não ficou com
raiva por não poder escolher a esposa que quisesse?

— Acho que nunca senti raiva por isso. Tenha em mente que assim como
você cresceu sendo doutrinada, eu também passei pelo mesmo. Você ainda era
bebê e eu já sabia que nos casaríamos. Ficava um pouco inconformado mais pela
sua idade, não pela obrigação em si.

— E o que pensou quando me viu pela primeira vez? — A italianinha


levantou o rosto e me encarou com aqueles olhos apaixonados. Por mais que
amaciasse meu ego, deixava-me também um pouco desesperado.

— Que você era a mulher da minha vida — respondi, rindo e apertando a


ponta do nariz dela.

— Sério?

— Óbvio que não, Giovanna. Você tinha sete anos. — Cerrei meus olhos. —
Que tipo de pervertido acha que sou? Você parecia bem assustada.

— Não lembro muito bem dos detalhes... — A menina escorregou pela


chaise e deitou a cabeça nas minhas pernas, virando o rosto para mim. — E na
segunda vez? Eu não era mais tããão criança.

— Você era muito criança. Nem sabia o que era beijo na boca.
— E você não quis me ensinar. — Ela fez um biquinho, contrariada. — Eu
fiquei semanas relembrando aquela noite e sonhando com o beijo que nunca
aconteceu.

— Muito precoce, eu diria.

— Precoce nada! Sabia que naquela época, todas as minhas amigas já tinham
beijado na boca? Todas! Eu era a única boca virgem da sala.

— E se todas as suas amigas raspassem a cabeça, você também ia raspar? —


Ela revirou os olhos. — Então, queria dar o primeiro beijo com o tiozão aqui?

— Algumas sabiam quem você era, assim eu ficava imaginando chegar e


contar que a gente tinha se beijado. Imagina, elas morreriam de inveja.

— Você é muito bonitinha, meu Deus — falei, apertando o rosto dela entre
minhas mãos.

A criaturinha se animou e já foi se levantando, ajoelhando entre minhas


pernas e passando os braços ao redor do meu pescoço. Segurei a cintura dela,
mas virei o rosto quando tentou me beijar.

— O que foi que eu disse, Giovanna? — perguntei, sentindo-me mal por


negar um beijo.

— Credo, eu só quero te beijar...

— Mas eu não quero só beijar, bambina. — Voltei a encará-la e deslizei o


polegar por sua sobrancelha. — Beijinho não é suficiente para mim, entende?
Você não compreende que cada vez que fico com tesão, preciso ter um controle
absurdo para não tirar esse seu cabaço.

— Não precisa falar assim — ela murmurou, jogando-se ao meu lado e


esticando as pernas.

— Não quis ser grosseiro, mas estou passando por uns momentos bem
difíceis com você...

Observei os pés cruzados e a observei quando percebi que tinha ficado


calada. Ela olhava na direção do horizonte e o pôr do sol iluminava os melhores
ângulos do seu rosto. Passei um braço pelos seus ombros e a puxei, beijando sua
cabeça.

— Quando, exatamente, a gente vai casar? — perguntou, num murmúrio


baixo.

— Você faz aniversário dia 28 de outubro, certo?

— Uhum.

— Podemos marcar o casamento para o início de novembro — sugeri. — Ou


a data que você preferir.

— Dia 29 de outubro seria um bom dia.

Ri junto com ela, achando graça daquela afobação.

— Você é uma figura, sabia? E tenho certeza que isso tudo é só fogo de
palha. Vai chegar no dia, vai querer luz apagada, olhos fechados, vestida da
cintura para baixo...

— Algo me diz que a Rayka não tem nada disso, né?

Rayka. Achava que Giovanna tinha esquecido dela, mas pelo visto, eu a
estava subestimando. Podia ser novinha, mas era mulher, no final das contas. E
mulher tinha um excelente potencial para trazer assuntos desconfortáveis à
conversa.

— Não acho que devemos falar de mulheres do meu passado, bambina.

— Um passado bem recente — alfinetou ela, apoiando a mão na minha coxa.


— Porque pela forma como vocês se falaram naquele dia, a mocinha não deve
saber que não existe mais nada entre os dois.

— Ela vai descobrir. — Levantei e me alonguei, enquanto ela aproveitava o


espaço e se esticava toda no lugar que eu estava ocupando. — Vou tomar um
banho e preparar algo para comermos, ok?

— Vai perder toda a beleza desse pôr do sol...


Curvei-me na direção dela, abaixando a cabeça para dar um selinho em seus
lábios e sorri.

— Tenho visto você todos os dias. Nenhum pôr do sol consegue ser melhor
que isso.

— Awwwnnnn. — A italianinha se derreteu, mordendo o lábio. — Que


amor!

— Tenho minhas cantadas. — Pisquei antes de sair.

Tomei o cuidado de trancar a porta da suíte para não ser pego de surpresa por
Giovanna. Tirei minha roupa e fui direto para o banho, mal conseguindo
controlar a ansiedade. Deixei a água escorrer pelos meus ombros até sentir as
primeiras gotas tocarem a cabeça do meu pau. Apoiei uma mão na parede e
fechei os olhos, deslizando a mão fechada na direção dos meus testículos e
deixando a respiração escapar por entre meus dentes.

Comecei a bater a punheta com um pouco mais de pressa e, de vez em


quando, alternava movimentos mais lentos, sentindo a pressão que fazia meu pau
pulsar em meus dedos. Era a segunda vez que eu me masturbava no dia, tudo
culpa de Giovanna. Fiquei ali, sei lá por quanto tempo, lutando para não
imaginar os lábios rosados deslizando pela minha pele, sentindo as veias que
ondulariam quando sua boca se fechasse ao redor delas. Em algum momento,
deixei que os jatos de porra sujassem a parede à minha frente, levando junto
alguns sons abafados que saíam da minha garganta.

Ah, caralho. Estávamos no final de julho. Como eu resistira àquela rotina de


masturbação até novembro? Não fazia ideia, só sabia que desejava manter minha
meta de preservar a italianinha o máximo possível e isso incluía mantê-la a salvo
de minhas próprias vontades.

Há algum tempo eu não transava com uma virgem. Não me lembrava quando
tinha sido a última vez, talvez na época dos meus vinte e poucos anos. Não só as
mulheres atualmente estavam bem mais precoces como eu também preferia as
mais maduras e experientes. Por causa disso, tinha certo receio em não saber
tratar Giovanna como ela merecia durante sua primeira vez. E do jeito que eu
estava, louco para meter em alguém, não tinha certeza de que conseguiria me
controlar e ser delicado.

Saí do banho e vesti apenas a calça. Ao chegar na sala do cockpit, encontrei


Giovanna arrumando a pequena mesa quadrada com guardanapos e duas
cervejas. Espertinha. Ela não me viu, então a abracei por trás e beijei seu
pescoço exposto pelo rabo de cavalo.

— Não era só uma cerveja? — perguntei, mas não implicaria com isso. Ri,
apertando-a em meus braços para depois soltá-la. — Deus me livre de você
bêbada nesse barco. Vai invadir meu quarto e me agarrar de madrugada.

— Ei! — Ela se ajoelhou no sofá e se debruçou na bancada para me observar


na cozinha. — Eu não sou essa tarada que está imaginando.

— Tarada, eu sei que não. Mas é louca. — Deixei sobre o armário alguns
itens para preparar nosso jantar.

Por sorte, tinha pedido em casa para colocarem uma posta de salmão na
bolsa térmica, porque eu amava o peixe e sempre era uma refeição perfeita para
o mar. Faria ele grelhado ao molho de vinho branco e um arroz básico para
acompanhar.

— Sabe preparar um peixe? — perguntei e ela negou com a cabeça. — Vem


aprender, eu ensino.

— Seriam frases normais se não fossem ditas por você, sem camisa — disse
Giovanna, aproximando-se e deslizando as mãos pela minha tatuagem. — Mas
dessa forma, parece até algo pornográfico. “Venha preparar meu peixe,
Giovanna”.

Controlei uma risada nervosa. Havia outra coisa que eu adoraria que ela
preparasse. Bem maior que aquele pedaço de salmão.
GIOVANNA

Pisei no corredor com meus pés descalços, contemplando a paz. Meu celular
indicava meia-noite e Pietro estava dormindo na suíte principal. Eu também
tentei dormir, mas rolei na cama de um lado para o outro. Quando deixei meu
quarto, a primeira coisa que fiz foi testar a maçaneta da porta dele. Estava
trancada. Talvez fosse mesmo melhor assim. O que eu queria, afinal? Jogar-me
sobre ele e pedir que me fizesse mulher? Eu nem sabia se teria coragem de ir
adiante se ele resolvesse me levar para a cama.

Caminhei pelo corredor até o cockpit e abri as portas de vidro que davam
para a popa do iate. O vento me atingiu e abracei meu corpo, pois estava
vestindo a mesma roupa. Se soubesse que passaríamos a noite, teria trazido algo
para dormir.

Fui até meu quarto e peguei a manta sobre a cama. Em seguida, voltei lá para
fora. Estava friozinho, mas ao me enrolar na coberta, senti-me confortável. Fui
para a proa e me deitei naquela chaise maravilhosa, com vista panorâmica de
uma paisagem incrível. Pietro tinha parado a embarcação com o bico voltado
para o oceano e a popa para a praia. Portanto, só havia a imensidão do mar
diante de mim, negro como a noite. Sobre minha cabeça, milhões de pequenos
brilhos intensos das estrelas.

Respirei fundo e enxuguei uma lágrima solitária que fugiu do meu olho. Foi
só por um segundo que me deixei pensar em meus pais e pronto, ali estava eu,
quase virando manteiga derretida. Aninhei-me na manta quentinha e deitei a
cabeça, embalada pelo balanço gostoso do barco.

Prestes a pegar no sono, passei a ouvir um barulho diferente no mar, como se


algo se movesse por ali. Sentei-me e observei com atenção. Bem longe, tive
quase certeza de ver a água se mexer com o nado de algum animal. Ou alguns,
pelo visto. Seriam golfinhos? Fiquei automaticamente empolgada com a
possibilidade de ver um bicho tão incrível. Até mesmo uma baleia seria
formidável. Talvez não desse para enxergar de onde eu estava, mas o flash do
meu celular poderia captar algo mais.

Corri até a grade e me debrucei, tentando ver o que se mexia a quase


trezentos metros de distância. Na escuridão, a lanterna do celular era quase tão
inútil quanto minha própria visão e eu já estava desistindo quando meu cotovelo
bateu na grade da proa e o celular escorregou da minha mão.

Meu coração quase parou, enquanto eu acompanhava a trajetória que fez até
o mar. Foi nesse momento que tomei aquele tipo de decisão de merda que só nos
traz arrependimento. Eu fiquei de pé sobre a grade e mergulhei atrás do telefone.
Quando meu corpo penetrou a água, soltei um grito rouco e minha energia se
esvaiu tamanho o frio que senti. Soube exatamente o que o Jack passou ao deixar
o pedaço de madeira para a Rose. Não era um filme da minha época, mas eu
amava os clássicos, portanto, assisti algumas vezes.

Não apenas não consegui encontrar o celular como também precisei dar a
volta no iate até a popa. Nadei o mais depressa que consegui e quando cheguei
ao meu destino, o pavor tomou conta de mim. A escada.

A escada não estava ali, obviamente. Pietro deve tê-la recolhido em algum
momento, já que não nadaríamos à noite. O lugar que eu precisava alcançar
estava a praticamente um metro acima da minha cabeça.
— Pietro! — gritei, tentando alcançar a beirada, mas o balanço da água
tornava tudo mais difícil.

Então, de repente, tornei-me ciente de mais uma coisa: e se não fossem


golfinhos? Quantos animais marinhos bizarros existiam no oceano e poderiam
estar encarando minhas pernas agitadas naquele momento? Olhei em volta,
tomada pelo pânico. Impossível enxergar alguma coisa.

— Pieeeeetroooo!

Queria chorar. Muito. Mas sabia que minhas forças não durariam para
sempre. Nadei pela lateral do iate e comecei a bater contra o casco, na esperança
de ser ouvida. Porque, além do frio, eu tinha voltado a ouvir barulhos na água. E
não eram os meus.

PIETRO

Meu pai me treinou para ter o sono leve, pois um Don nunca poderia relaxar
totalmente. Dormir era um ato de vulnerabilidade e precisávamos estar
preparados para qualquer coisa que viesse acontecer nessas horas.

Abri os olhos quando meus ouvidos captaram um som diferente. No mar,


você acostuma com vários barulhos, inclusive o das ondas se chocando contra o
casco da embarcação. É um som que me faz relaxar, mas aquele estava diferente.
Tinha ritmo.

Sentei-me na cama e esfreguei o rosto, confuso. Decidi averiguar e abri


minha porta, deixando o quarto para trás. Passei pelo de Giovanna, sem me
atrever a entrar lá e conferir se estava dormindo. Tudo que eu não precisava era
despertar outras sensações no meio da madrugada.

Estranhei a porta que dava para a proa estar aberta e mataria a italianinha se
ela tivesse resolvido dormir ao ar livre. Passei pela área gourmet e notei que o
barulho chato vinha da lateral direita do iate. Caminhei por ali, tentando
enxergar se havia alguma coisa presa ao casco, quando decidi me debruçar sobre
a grade. Quase enfartei.
— Giovanna? — gritei, curvando-me para ver melhor.

Ela levantou o rosto.

— Es-es-es...ca...

Caralho! Corri até a porra da popa, acoplei a escada no encaixe a lancei no


mar. Tive a grande ideia de tirar minha calça porque era a única que tinha levado
e me lancei no mar atrás da garota. Uma pedra de gelo. Não fazia ideia de por
quanto tempo ela estava dentro d’água, mas fiquei surpreso por ainda ter forças
para se manter boiando.

Quando passei meu braço ao redor do corpo dela, seus músculos estavam
todos retesados. Nadei de volta à popa e a ajudei a subir os degraus, vendo-a
tremer demais.

— O que houve? — perguntei, assim que subi e a peguei no colo. Sua boca
estava sem cor.

Ela só balançou a cabeça, sem conseguir falar de tanto que tremia. Entrei
direto para meu quarto e abri o chuveiro na água mais quente possível. O espaço
do box era bem apertado para caber duas pessoas, então a coloquei de pé e apoiei
seu corpo na parede. A menina fechou os olhos enquanto a mantinha no lugar,
deixando a água quente encharcá-la.

— Está tudo bem — falei e esfreguei seu rosto quando ela começou a chorar.
— Calma...

— Achei que... fosse morrer.

Envolvi minha bambina num abraço, deixando que chorasse. Seu corpo
ainda tremia, mas a pele começava a recuperar a temperatura ideal. O que
aconteceria se eu não tivesse acordado?

— Fale comigo, você precisa se agitar. — Esfreguei os braços dela. — Há


quanto tempo estava na água?

— Não... sei. Eu fui pegar... meu... celular. — Ela se soltou de mim e


enxugou os olhos com as costas das mãos. — Deixei-o cair.
— Você pulou na água por vontade própria? Achei que tivesse escorregado.

— Não... — E chorou mais, voltando a me abraçar. — Fui idiota... eu sei.

Muito idiota, mas achei melhor não dizer nada, pois ela estava bem abalada.
Beijei o topo de sua cabeça, sentindo meu coração galopar dentro do peito.
Estava elétrico, não sei como não tive um treco ao vê-la no mar à noite, sozinha.
Obrigado, meu Deus, pelo aviso.

— Tome um banho direito, tire essa roupa que vou procurar algo para você
vestir. Enquanto isso, prepararei algo quente para tomar.

— Obrigada por me salvar — murmurou, cabisbaixa.

Beijei-a na testa e saí do box, consciente de estar vestindo uma cueca


ensopada.

A situação não era das mais favoráveis. Usei o quarto de Giovanna para jogar
uma água rápida no corpo e tirar o sal, então tive que vestir minha calça sem
cueca. Levei um copo de leite quente e quando entrei na minha suíte, ela estava
sentada na cama, com a toalha enrolada no corpo.

Os lábios haviam recuperado a cor, mas os ombros caídos indicavam que


estava mal. Por mais que tenha agido errado e cometido uma idiotice, não
conseguia sentir raiva dela.

— Pode dormir com minha camisa — falei, entregando o copo e pegando a


blusa jogada na cômoda ao lado. — Não parece que vai chover, então colocarei
sua roupa para secar lá fora.

— Obrigada.

Entrei no banheiro, peguei as roupas do chão e saí do quarto para deixar que
se vestisse. Estendi as peças sobre um dos sofás do flybridge e voltei,
encontrando com Giovanna no corredor. O cabelo úmido estava todo para trás e
minha camisa branca terminava na altura de suas coxas.

— Onde vai? — perguntei, tocando sua cintura e bloqueando seu caminho.

— Dormir...

— No meu quarto. — Continuei caminhando e segurando seu corpo,


obrigando-a a andar de costas. — Acha que vou deixar você dormir sozinha?
Tenho medo de acordar com o iate pegando fogo.

A italianinha ainda estava sensível, pois seus lábios estremeceram e ela


baixou os olhos. Curvei-me na sua direção assim que entramos em minha suíte e
beijei o rosto dela.

— Estou brincando, bambina. Mas você me deu um susto e tanto. Depois


quero que me explique essa história louca.

— Meu celular caiu na água e eu pulei para pegar. — Ela suspirou e esfregou
a testa. — Achei que tivesse visto golfinhos e usei a lanterna para tentar enxergar
melhor.

— Nunca ouvi falar de golfinhos nessa região.

Seus olhos azuis me encararam e se arregalaram.

— Prefiro não saber o que mais podia ser.

— Vamos deitar. — Fui até o interruptor e apaguei a luz, observando a


menina ainda no mesmo lugar, parecendo mais apavorada do que estava na água.
Segurei sua mão e senti que estava gelada. — Eu não mordo, amore mio. Está
com medo de mim?

— Não, mas... — Mordeu o lábio e lançou um olhar para a cama. — A única


pessoa com quem dormi foi Lorenzo...

Segurei seu rosto entre minhas mãos e dei um beijo de leve em sua boca.
Uma coisa casta, singela, para deixar bem claro que eu não esperava que nada
demais acontecesse ali.

— Vamos apenas dormir. Não encostarei em você, ok? — Parei, observando


seu olhar temeroso. Que merda eu estava fazendo? Não podia obrigá-la a passar
a noite no mesmo quarto que eu. Então a soltei e abri a porta. — Na verdade,
você pode dormir onde quiser. Sem cobranças. Eu vou me deitar e se decidir se
juntar a mim, será bem-vinda.

Deixei que ela tomasse a decisão sozinha e fui para a cama. Puxei a manta,
deixando espaço para que Giovanna deitasse, caso preferisse ficar comigo. A
menina permaneceu de costas, no mesmo lugar, por mais alguns segundos.
Quando se virou, deu um sorriso tímido e engatinhou pelo colchão.

— Você não é Lorenzo — disse, jogando-se de bruços ao meu lado e


agarrando um travesseiro.

— Não sou. — Joguei o outro pedaço da manta sobre o corpo dela e apoiei
minha cabeça sobre um braço, observando minha italianinha. — Você é uma
força da natureza, Giovanna. Não sei por quanto tempo ficou lá fora, mas estou
surpreso que tenha aguentado aquela temperatura. Só não cometa mais nenhuma
loucura desse tipo.

— Desculpa. Só não queria perder minhas fotos, de novo.

— Celular é o de menos, compre um novo.

Ela se apoiou nos cotovelos e me olhou, com o cabelo ainda úmido caindo
pelos ombros. Tive vontade de beijá-la, mas não me atrevi começar algo que não
conseguiria parar. A todo instante meu cérebro me enviava um aviso de que ela
estava sem calcinha.

— Não sei se você lembra disso, mas meu tio controla meu dinheiro e não
possuo vontade alguma de implorar a ele que me dê alguma esmola.

— Vou resolver as coisas com aquele desgraçado. — Passei meus dedos pelo
cabelo dela, sentindo alguns fios começarem a secar. — De qualquer forma,
vamos nos casar em alguns meses, bambina. Meu dinheiro é seu dinheiro. Vou
solicitar um cartão para você.

— Ok. — Ela sorriu e se deitou, virando-se de costas para mim e se


colocando em posição fetal.

Eu não era de ferro, né? Meu instinto protetor era forte demais. Passei um
braço pela barriga dela e deslizei seu corpo pelo lençol, trazendo-a até encaixá-la
em mim. Era estranho ter alguém dividindo a cama comigo, sem realmente
termos transado. Giovanna não sabia disso, mas eu não gostava de dormir
acompanhado. O incômodo, porém, foi amenizando conforme meu braço se
movia com a respiração dela. Ofegante, nervosa.

GIOVANNA

Fechei os olhos com força e tentei controlar minha respiração. Não queria
que Pietro percebesse meu medo. Não era Lorenzo. Não era Lorenzo. Não era
Lorenzo. Mas o corpo atrás de mim... Era naquela posição que ele me colocava
quando queria gozar.

Não é Lorenzo.

Não consegui ficar deitada de conchinha. Virei de frente para o Don, mas
não consegui encará-lo.

— O que foi? — perguntou ele, deslizando alguns dedos em meu rosto.

— Nada.

— Quer que eu me afaste?

Neguei, balançando a cabeça e passando meu braço pela cintura dele.


Aproximei-me o máximo possível e deixei que meu nariz ficasse esmagado
contra sua pele. Ele era quente e meus dedos adoraram o contato, passeando
pelas costas dele, descendo até o contorno dos seus quadris. Subi minha mão
para seu braço, traçando as veias grossas do pulso e acompanhando o caminho
que faziam até a curva do seu cotovelo.

Quando levantei meu rosto, ele estava ali, encarando-me com os olhos azuis.
Atento a tudo que eu fazia. Sorri e me estiquei para beijar sua boca, ficando
aliviada por Pietro não ter tentado fugir de mim.

Agora, por mais que sentisse meu corpo cansado, pedindo para relaxar, meu
cérebro estava completamente alerta. Tentei fazer o que ele sempre fazia comigo
e coloquei seu lábio inferior entre os meus, degustando daquele pedaço de carne.
Senti sua respiração profunda e me afastei para ver sua expressão.

— Acho que perdi o sono — respondi, sem querer confessar que estava
tendo ideias pervertidas com ele.

— Devem ser quase duas da manhã, Gio. Vamos acordar cedo para
partirmos.

Gio? Ele tinha me chamado de Gio? Quis rir, mas deixei esse detalhe de lado
e foquei o corpo do Don. Deslizei um dedo pelo peito dele e toquei seu mamilo.
Espalmei minha mão inteira contra sua pele, sentindo os morrinhos que seus
músculos faziam.

— Estou aqui, muito concentrado, tentando ser cavalheiro — disse ele, ainda
sem ousar tocar em mim. — Não comece com suas provocações.

— É absurdo eu não poder beijar meu noivo só porque ele não consegue
controlar o próprio pênis. As pessoas se beijam o tempo todo e nem por isso
saem fazendo sexo por aí. Você é ninfomaníaco, por acaso?

— Não transam em público, Giovanna. Mas as pessoas transam o tempo


todo.

— Mas... — Pensei em algo bem afiado para responder, quando Pietro se


agigantou sobre mim e me prendeu debaixo do corpo dele. Ah, senhor!

— O que você quer? — perguntou, enfiando um joelho entre as minhas


pernas e soltando o peso em cima de mim. — Vamos lá. Vou soltar a corda para
ver até onde você vai, bambina.

Eu que não seria louca de não agarrar aquela corda. Puxei o rosto dele e o
beijei, deixando minhas mãos alisarem os ombros largos e incríveis. Ele
estremeceu quando deslizei os dedos por suas costas e parei minhas mãos no cós
da calça.

Meu corpo esquentou quando Pietro também resolveu participar e apertou a


carne da minha cintura com força. Ele afastou o rosto e me escrutinou antes de
sorrir.
— Gosta de brincar com fogo, não é?

— Sou pura chama, querido — brinquei, piscando para ele e arranhando


minhas unhas em sua pele.

Soltei um gritinho quando um dedo do Don esgarçou a gola da camisa e sua


boca encontrou minha clavícula, deixando-me toda babada. Uma de suas mãos
tocou meu joelho e subiu, pressionada com força contra minha coxa, até alcançar
minha virilha. Arfei quando senti seu toque na parte externa da minha vagina e o
chutei e estapeei com força.

Pietro me encarou, chocado, caindo sentado quando o empurrei e corri para


fora da cama e saí do quarto. Sabia que ele não tinha culpa, mas não conseguia
pensar em mais nada além da sensação de pavor que me consumia quando
Lorenzo fazia a mesma coisa.

PIETRO

Puta que pariu! Joguei no chão a porra do copo que havia sobre a bancada e
o restante do leite se espalhou junto com os cacos de vidro. Quis socar a parede,
mas quebrar minha mão não ajudaria em nada. Que porra tinha acontecido?

Parei na porta, mas voltei e me sentei na beira do colchão. Precisava me


acalmar antes de ir confrontar Giovanna. Meu coração estava acelerado como
nunca e meu rosto ardia pelo tapa. Sequer imaginava que a garota tinha tanta
força naqueles dedos. Estava difícil lidar com ela. Sabia que conseguiria manter
meu autocontrole intacto se a filha da mãe não provocasse, mas ela nunca ficava
quieta.

Respirei fundo, fechei os olhos e apoiei os braços nas pernas, pensando no


que fazer. Estava puto, mas também estava preocupado. O que tinha acontecido,
afinal? Repassei todos os meus movimentos novamente na mente. Giovanna não
ofereceu resistência quando subi sobre seu corpo, pelo contrário, ficou
animadinha. O beijo estava bom. Não fiquei de pau duro, logo, não a teria
incomodado com isso. Passei a mão na sua perna. Ah... sim. Acabei me
empolgando e avancei um pouco mais. Cheguei a roçar meus dedos nos pelos
pubianos que ela mantinha.

Esfreguei o rosto, atônito. Foi por isso? Na verdade, não cheguei a fazer nada
demais. Se fosse qualquer outra mulher ali comigo, teria invadido logo sua
boceta com meus dedos, mas com Giovanna eu só toquei sobre o monte de
vênus.

Merda.

Ela nem mesmo queria deitar naquela cama comigo. Fui estúpido em achar
que estava tudo bem. Caminhei até o quarto dela e parei na porta, pensando se
devia ou não entrar. Talvez fosse melhor apenas esperar o dia amanhecer, mas
não ficaria em paz sem saber se ela estava bem.

A porta estava trancada. Grudei minha testa na madeira e bati algumas vezes.

— Abra a porta, Giovanna — pedi. — Vamos conversar.

Não insistiria porque sabia que se estivesse muito abalada, o melhor a fazer
seria dar um pouco de espaço para se recompor. Apenas continuei ali, por mais
alguns segundos, até que ouvi o barulho da fechadura. Desencostei-me
momentos antes de ser aberta e olhei para Giovanna.

— Desculpa — falou ela, com um olhar tão triste que me quebrou em mil
pedaços. — Não quis machucar você.

Mas que absurdo! Não consegui me controlar e a peguei no colo, segurando


seus quadris e sentindo suas pernas me rodearem. Sabia que ela ainda estava sem
calcinha e, agora, completamente grudada em meu abdômen, mas já não ligava
mais para porra nenhuma. Quando afundou o rosto no meu pescoço e chorou,
um sentimento muito intenso me invadiu e não pude controlar a ardência nos
olhos.

— Não chore — pedi, fazendo círculos com minha mão em suas costas e,
que merda, chorando junto. — Pare com isso.

— Odeio me descontrolar assim...

— Tudo bem — falei, beijando seu cabelo. — Acontece e você não tem
culpa. Acho que precisa de terapia, bambina.
— Não...

— Escute, não quero mais que situações como essa aconteçam entre nós.
Seus traumas não vão sumir sozinhos e em breve nos casaremos. Posso ser
paciente o tempo que for preciso, mas você precisa aprender a lidar com seus
sentimentos e saber como agir ao se sentir amedrontada.

Ela levantou a cabeça e me olhou, chorosa. Acho que se surpreendeu quando


me viu com o rosto molhado e, delicada como um elefante, esfregou os dedos
nos meus olhos.

— Não tá com raiva de mim?

— Claro que não — respondi, caminhando com ela para fora do quarto. —
Estou muito preocupado, isso sim. Tenho medo de soar incompreensivo, mas
quando digo que quero que se trate, é para seu bem. Precisa conversar com
alguém que saiba lidar com esse tipo de trauma. Gostaria de ser aquela pessoa
que vai ajudá-la, mas sou homem e nunca passei por nada do tipo, não posso me
colocar no seu lugar.

— Mas não quero ter que conversar com ninguém a respeito disso.

Olhei para o chão do meu quarto, vendo que a sujeira com o copo quebrado
não se limparia sozinha. No entanto, não queria soltar Giovanna. Precisava dela
ali, em meus braços, sentindo seu calor. Sentei-me na beira da cama e a encarei.

— Se não procurar ajuda, não vou mais tocar em você, gatinha. Não quero
passar de novo por isso, ciente de que algo que faço ou virei a fazer possa
magoá-la. Acabei de me sentir o pior dos homens ao entender porque você saiu
correndo.

— Não foi sua culpa — disse ela, pressionando os lábios. — Sei que
provoco, mas é mais forte que eu. Quero experimentar tudo. Parece estranho,
mas sinto vontade de fazer essas coisas com você.

— Então prometa que vai fazer terapia — insisti, passando meu polegar sob
seus olhos. — E vai se abrir mais comigo também. Preciso saber o que se passa
dentro dessa cabeça alucinada.

— Prometo.
— Está mais calma? — perguntei, tirando uma mecha de cabelo que
escondia parcialmente seu rosto. — Foi porque a toquei... entre as pernas, certo?

A italianinha balançou a cabeça, confirmando, e apoiou o queixo no meu


ombro.

— Não posso apagar o que aconteceu, principessa. — Afaguei o cabelo


quase seco. — Mas posso prometer que substituirei todas as suas lembranças
ruins, um dia.

— Quero muito isso — disse ela, beijando meu pescoço para logo depois
afastar o rosto e tapar a boca. — Desculpa, não vou mais te provocar. Não quero
ter que bater de novo em você.

Gargalhei muito alto porque aquela frase era ridícula, mas verdadeira.
Massageei meu maxilar só para exagerar um pouco na cena.

— Ainda estou sentindo aquele tapa. — Cutuquei minha bochecha com o


indicador. — Está doendo bem aqui.

Giovanna segurou meu queixo com os dedos e beijou o local.

— Machucou um pouco no lábio também — emendei, vendo-a sorrir e


descer a boca até a minha. — E na hora do tapa, acabei mordendo a língua.

Fiquei parado, deixando que ela beijasse minha boca do jeito que preferisse,
deixando que me usasse. Quando parou, sorri.

— Sabe a joelhada que me deu no saco? Um dia, no futuro, eu vou lembrar


disso também.

Giovanna riu, jogando a cabeça para trás, com as bochechas coradas. Meu
coração até ficou mais leve ao ver aquela reação. Faria qualquer coisa para que
esquecesse dos momentos ruins em sua vida.

— Vamos dormir, porque você não quer que um cara com sono esteja no
comando do iate. — Levantei ainda com ela no colo e pulei por cima de alguns
cacos. Ao entrar no quarto onde Giovanna estava dormindo, ela apertou mais os
braços em meu pescoço. — Vou limpar a bagunça que fiz e, depois, também vou
para a cama. Venho acordá-la antes de partirmos, ok?
— Fica comigo, Don — pediu quando a coloquei de pé.

De novo, não. Suspirei quando ela segurou minha mão.

— Não daria certo.

— Só para dormir mesmo. Prometo.

Aquela garota seria minha perdição. Mas, ao invés de recuar, eu me vi


deixando ser puxado por ela.

— Seu tio, de que lado ele dormia? — perguntei, vendo-a arregalar os olhos.

— Do lado esquerdo. Por quê?

Dei a volta para o lado direito e me sentei ali.

— De agora em diante, só durmo do lado direito. Combinado?

Giovanna sorriu e entrou debaixo das cobertas, deixando pelo menos, três
palmos de distância entre nossos corpos. De bruços, ela virou o rosto para me
olhar e esticou os pés até tocar os meus. Só fechei meus olhos quando ela
adormeceu, sentindo que dali em diante sempre seria assim. Só ficaria em paz se
ela estivesse em paz.
GIOVANNA

Senti uma pontada no meio da testa assim que abri os olhos. Não me
surpreendia mesmo ser presenteada com uma dor de cabeça depois da noite de
ontem.

Pelo visto, tinha acordado antes de Pietro. Ele estava deitado de costas para
mim, tão longe que quase caía da cama e meus olhos ficaram por uns segundos
observando sua tatuagem. Era tão bonita naquele corpo, delineando aqueles
músculos. Parecia que sempre pertencera ao Don. Pensei em me rastejar até o
lado dele e abraçá-lo por trás, mas fiquei imediatamente consciente do meu bafo.

A percepção de que poderia tê-lo acordado com meu hálito matinal me fez
saltar rápido da cama. Peguei minha nécessaire sobre a cômoda e tentei entrar no
banheiro sem acordá-lo. Fechei a porta com cuidado e tomei alguns minutos ali
dentro, fazendo minha higienização. Quando voltei a abrir a porta, dei de cara
com ele.
— Bom dia, principessa — disse, sorrindo, com um braço flexionado e
apoiado no batente.

Levei a mão ao coração, apavorada. Pietro sempre era muito silencioso.

— Bom dia. Fiz barulho? Não queria acordar você.

Desviei os olhos da tal ereção matinal. Precisava começar a me acostumar


com aquela questão fisiológica do corpo dele. Será que acordava todos os dias
assim?

— Despertei quando você levantou da cama. Vai aprender que meu sono é
muito leve. — Uma mão tocou minhas costas e me puxou para que ele me desse
um beijo no rosto. — Como você está?

— Com dor de cabeça. — E era verdade. Massageei minha nuca, sentindo


que a dor estava aumentado gradativamente e não devia ter nenhum analgésico a
bordo. — Agora que meu corpo está reagindo às minhas aventuras de ontem.

Pietro segurou meu rosto e desceu os dedos até meu maxilar, fazendo uma
massagem deliciosa. Quando tocou minha nuca, eu apoiei minha testa em seu
peito e fui permitindo meu corpo relaxar. Ele sabia os locais perfeitos onde tocar
e quando apertou meus ombros, quase sugeri me deitar para ganhar uma
massagem dos pés à cabeça.

— Há alguma coisa na qual você não seja bom? — murmurei, extasiada.

— Hm... Vejamos. — O filho da mãe estava pensando. Devia mesmo ser


muito difícil encontrar um defeito. — Sou rancoroso e vingativo. Ou seja, não
sou bom em perdoar.

— Anotado.

Minhas mãos caíram ao lado do corpo, enquanto eu era amassada e


pressionada nos pontos ideais. O Don cessou o contato quando deixei escapar
um gemido, muito sem querer. Senti sua boca em meu cabelo e, então, o homem
se afastou.

— Acho melhor você comer algo leve. Tem algumas frutas ainda na
geladeira. Quer que eu corte uma maçã?
Levantei o rosto e revirei os olhos para ele, dando um tapinha de leve em seu
ombro.

— Sei que me acha pirralha, mas não tenho problemas de coordenação


motora — disse. — Sei lidar com uma fruta, obrigada.

— Fique à vontade, preciso usar o banheiro.

Saí de coração leve em direção à cozinha e tentei preparar algo para


comermos.

Tinha dado tudo certo e eu me sentia feliz demais. Voltamos para a marina e
não tocamos no assunto constrangedor da noite passada, eu até preferia assim
porque pensar na vergonha que passei ao correr dele, deixava-me enjoada.

Estava tão contente com o rumo que as coisas vinham tomando, que até
abracei Carlo quando o vi à nossa espera. O segurança ficou um pouco sem ação,
mas pelo menos não me enxotou. Ele deu um sorrisinho para mim quando falei
que era estranho demais olhar para Pietro e não ver a sombra dele.

Meu noivo entrou no carro logo depois de mim e nem esperou que ele
começasse a se movimentar para sacar o celular do bolso e emendar uma ligação
na outra. Ao que tudo indicava, nossas pequenas férias tinham terminado. E nem
telefone eu tinha para me distrair e fingir que não necessitava da atenção dele o
tempo todo.

Em determinado momento, quando estava quase cochilando, notei que Pietro


guardou o aparelho e se empertigou ao meu lado.

— Estamos sendo seguidos, Don Pietro — avisou o motorista.

— Sim, percebi.

Do banco do carona, Carlo se virou para trás e olhou para ele.


— O que quer que façamos?

Pietro deu uma boa olhada pela janela, como se pudesse enxergar algo que
eu não conseguia. Ele puxou a arma que carregava nas costas e a destravou.

— É Domenico. Ele está avisando que a pesquisa que pedi para Enzo fazer,
chegou aos seus ouvidos. — Meneou a cabeça para Carlo. — Mantenha o curso
normal.

— Você está se referindo ao Don da Dita di Ferro? — sussurrei, com medo


de falar aquele nome muito alto e algo de ruim acontecer.

Ele não me respondeu, mas segurou minha mão e a levou aos lábios, sem
tirar os olhos da janela. Em menos de dez segundos, o carro da frente foi fechado
por outro automóvel e o nosso, em seguida, também teve o caminho bloqueado.

Virei a cabeça para trás, procurando pelo terceiro veículo, mas ele tinha
sumido.

— Não saia deste carro, ouviu bem? — Pietro pediu com um olhar duro. —
Vai arranjar um problema muito grande comigo se me desobedecer.

Dito isso, abriu a porta assim que todas as outras, dos nossos carros e dos
que nos interceptaram, também foram abertas. Era tanto homem com armas em
punho que meu coração gelou.

Pietro não ficou para trás; ele passou pelos seus soldados até ficar cara a cara
com um engravatado que eu nunca tinha visto na vida, mas não possuía a menor
dúvida de quem se tratava. Domenico Negri.

Respirei fundo, nervosa com aquele cenário. A Dita estava em maior número
na rua, o que significava que havia mais armas apontadas para Pietro do que na
outra direção. Eu era nova demais para ficar viúva.

— Andou querendo sondar meus negócios, Don Greco? — o outro


perguntou e eu pude ouvir porque desci alguns dedos do vidro da janela. — Sabe
que sou um cara gente boa, se tem curiosidade sobre a forma como conduzo
minha famiglia, bastava me perguntar.

— É claro que não tenho a menor intenção de me meter em seus negócios,


Don Negri.

Quando Dons de famiglias opostas se encontravam, era comum que eles se


tratassem apenas pelos sobrenomes, como se não importasse se era Enrico,
Pietro ou qualquer outro que tivesse o sangue daquele sobrenome.

— O que quer então, rapaz?

— Na verdade, fiz isso para tirá-lo da toca. — Eu não tinha como ver o rosto
de Pietro, ele estava quase de costas para mim, mas pelo tom usado, tive certeza
de que havia dado um sorriso. — Preciso conversar sobre um Soprattuto que está
tendo problemas com vocês.

E então, pegando os Dita di Ferro de surpresa, vários homens se


aproximaram vindo de todas as direções, armados e mirando as cabeças
inimigas. Domenico olhou em volta, dando-se conta de que tinha perdido o
domínio. Óbvio, ele só podia ser muito ingênuo de achar que entraria na Sicília e
não seria encurralado pela Soprattuto.

— É assim que recebe seus visitantes, Don Greco?

Havia muita tensão no ar e eu tinha muito medo que algum idiota apavorado
apertasse um gatilho e desse início a uma guerra no meio da rua. Mas Pietro,
bendito Pietro, levantou a mão direita e nossos homens abaixaram as armas.

— Aproveite sua viagem e marque um horário ainda hoje para


conversarmos. Quero negociar com você — disse meu noivo.

O pessoal da Dita também baixou as armas e Domenico sorriu, enfiando as


mãos nos bolsos e virando-se para voltar ao carro.

— Mandarei uma mensagem. Foi um prazer revê-lo. — E, então, ele deu


mais uma olhada para trás. Não na direção do Don, mas na minha. Senti quando
me encarou, mesmo à distância, e sorriu. — Mande lembranças à sua querida
noiva.

PIETRO
Meus planos começavam a tomar forma. Saber que Domenico recebera
informações sobre onde eu estava, que horas eu chegaria e quais carros eram os
meus, dizia muita coisa a respeito dos infiltrados. Deixei que Enzo espalhasse
por aí o que eu precisava que chegasse aos ouvidos do Don, enquanto as pessoas
que trabalhavam para ele se esforçariam em dar todas as minhas coordenadas.
Poderia começar a caça entre aqueles que respondiam diretamente a Carlo.

A única coisa que não fazia parte de todo o esquema que construí foi a
presença de Giovanna durante o encontro. Não queria que minha noiva fosse
envolvida em meu acerto de contas, principalmente quando se tratava de um
problema com Lorenzo.

— Vai ter uma indigestão se não parar de pensar tanto enquanto come — a
voz de mamma me trouxe de volta à mesa do almoço.

— Perdoem-me — pedi. — Estava longe, pensando nos negócios.

— Pensando em se jogar na frente de um caminhão, né? Ah, não, confundi.


Pensando em se encontrar com o satã. — Giovanna limpou a boca com o
guardanapo e fungou, sem me olhar. — Senhora Greco, coloque juízo na cabeça
de seu filho e não o deixe ir nesse encontro.

A italianinha não estava nada satisfeita em saber que eu jantaria com


Domenico. Dizia que podia ser uma armadilha — o que eu nunca havia
descartado — e que não queria se tornar viúva antes de se casar.

— Por mais que eu considere muito a opinião de minha mãe, não é ela quem
comanda a famiglia — disse eu, tocando a mão de Giovanna. — Por favor,
bambina, não complique tudo.

— Eu adoraria ter total controle sobre meus filhos, querida. — Minha mãe
me lançou um olhar afiado. — Infelizmente, é muito difícil eles me escutarem.

— Vocês são medrosas — Enzo falou, pela primeira vez desde que nos
sentamos para comer. — A Soprattuto não seria nada se meu tataravô tivesse
escutado a esposa. Com todo respeito, cunhada. Pietro está certo em atacar antes.

— Não vou atacar — consertei aquela afirmativa antes que Giovanna e


minha mãe enfartassem. — Vou dialogar.
— Ah, sim, até parece que Domenico vai abaixar a cabeça e concordar com
o que você tem a dizer.

— Enzo, aprenda a ser controlado. Se nosso tataravô, já que você o citou,


saísse atacando todas as famiglias rivais, acha que ainda estaríamos de pé? O
ataque tem que vir quando e de onde menos se espera. E não pense que a Dita
não possui a mesma linha de raciocínio.

— Felizmente, você é o Don. Eu não teria essa paciência para me vingar.

Evidente que eu adoraria invadir a casa de Giovanna, abrir um corte do


pescoço ao umbigo de Lorenzo e arrancar tripa por tripa. Sonhava todas as noites
com algo do tipo. Mas não era um moleque impulsivo. Precisava saber quem ele
era dentro da Dita di Ferro, até onde suas mãos alcançavam e que tipo de
problema eu traria para dentro de casa quando o matasse.

Quando terminamos de almoçar, Giulia avisou que desejava conversar


comigo e nos trancamos no escritório. Ela me abraçou forte assim que fechei a
porta e parecia emocionada.

— Estou muito feliz, muito mesmo, em saber que você e Giovanna se


acertaram. — Sorriu, com os olhos marejados. — Estou de fora, então consigo
ver o quanto combinam, mesmo que pensem que não.

— Como soube que voltei atrás da decisão? — perguntei, confuso, pois


desde que voltamos para casa não tinha anunciado que íamos nos casar.

Ela piscou com sua expressão de quem sempre sabe de tudo. Coisa de mãe.

— Giovanna passou a manhã e o almoço todo com um sorriso tão grande que
poderia causar espasmos musculares. E você aparenta ter tirado um peso dos
ombros. — Suas mãos alisaram a região citada e ela suspirou. — Sempre a quis
de verdade, não é?

— Amo Giovanna, mamma — revelei, sentindo um alívio enorme em


exteriorizar o sentimento. — É maluca, mas é minha.

Suas mãos tocaram meu rosto e eu as segurei, fechando meus olhos.

— Eu sempre soube.
— Por favor, não saia por aí revelando isso. Direi no momento certo, ainda
temos muito o que acertar em nossa relação.

— Figlio, eu imploro para que tome cuidado nesse encontro. Sei que você é
inteligente, sagaz, mas possui uma autoestima muito elevada e isso atrapalha o
julgamento. Não pense que é o melhor em tudo. Sempre há alguém melhor. E
Domenico, ele é ardiloso.

— Tomarei cuidado, prometo. — Beijei-a na testa e a puxei para um abraço.


— Não agirei de forma impulsiva porque tenho que cuidar de duas mulheres
incríveis.

— E do seu irmão.

— Sim, de Enzo também. Fique tranquila, mamma. Sei onde estou pisando.
GIOVANNA

Nero tinha me convidado para uma balada na casa de um amigo dele e eu


recusei o convite, explicando que tinha muita coisa acontecendo em minha
cabeça. Na hora ele soube que não estava bem, porque não era do meu feitio
recusar uma festa. Nunca. Sendo o bom amigo que era, cancelou sua presença e
ficou de aparecer na mansão Greco para passar um tempo comigo. Sabia que
chegaria lá com alguma junk food bem gordurosa e deliciosa, do tipo de entupir
artérias e, por isso, avisei para a senhora Greco que o esperaria para jantar.

Meu amigo não tinha conhecimento sobre meu passado a respeito de


Lorenzo e eu não pretendia contar isso a ele. Porém, entendia que minha relação
com meu tio não era das melhores e, para ele, isso era suficiente.

Enquanto esperava, fui até o quarto de Pietro. Ele sairia em breve para o
encontro e, quando bati na porta, gritou para que eu entrasse.
— Oi — falei, parada com a mão na maçaneta, sem querer invadir seu
espaço particular.

Aquele era seu quarto da infância, adolescência, que se transformou no


quarto do homem que eu conhecia. No entanto, mantinha a decoração de acordo
com o restante da mansão. Nada tinha de parecido com o estilo nova-iorquino do
Don.

— Olá, bambina. — Ele estava de costas para mim e de frente para um


grande espelho, abotoando os punhos da camisa social. — Nero vem?

— Sim! Deve estar para chegar.

Vi seu reflexo me observar, atento, como se esperasse que eu dissesse mais


alguma coisa. Ele desviou os olhos para a camisa que terminava de ajeitar e eu
não resisti; entrei no quarto. Deixei a porta aberta, só para me lembrar de que
não podia agarrá-lo de forma tão indiscreta se não quisesse ser surpreendida por
alguém.

— Não precisa se preocupar comigo, Giovanna — disse ele, sorrindo. —


Vocês estão agindo como se eu tivesse marcado um combate corpo a corpo.

— Você jura que não vai perder a cabeça mesmo se Domenico o provocar?

Parei ao lado dele, morrendo de vontade de esticar a mão e desfazer seu


trabalho só para que eu pudesse vê-lo abotoando toda a camisa novamente.
Desde o fatídico episódio no iate, estava receosa de tocar o Don com mais
intimidade. Tinha medo que ele me evitasse.

— Juro que não farei nenhuma loucura — respondeu, esticando o braço e


tocando o meu. Ele me puxou e me colocou na frente de seu próprio corpo,
encarando-me pelo espelho. — Tenho mais medo de minha mãe do que da Dita
di Ferro inteira.

— Deveria ter de mim também. — Ergui meu queixo, tentando passar uma
imagem de durona. Pietro devia estar cansado de me ver chorando.
Sinceramente, até eu estava cansada.

Ele sorriu e apoiou o queixo no topo da minha cabeça, passando os braços ao


redor dos meus ombros. Ah, eu podia ficar assim. Tipo, para o resto da vida.
— A senhorita me mete medo de várias outras formas — brincou e deu uma
piscadinha. — Mas já que tocou no assunto, você sabe atirar?

— Com armas?

— Não. — Gargalhou. — Com garfos.

Revirei meus olhos sabendo que tinha sido uma pergunta bem idiota e me
virei de frente para ele. O filho da mãe ainda não conseguira controlar as risadas.

— Meu pai dizia que eu aprenderia quando crescesse, mas... bem, você sabe.

— Então creio que esteja na hora disso acontecer. Providenciaremos quando


formos para Nova York. — O Don se curvou e desceu as mãos pelas minhas
costas até tocar minha bunda. Matando-me aos poucos, ele mordeu o lábio
inferior. — Imagina só, bela, gostosa e com uma pontaria excelente. Talvez eu
nem resista. Vou marcar uma consulta com o cardiologista só para conferir meu
estado de saúde.

Aquele era o momento de falar algo bem inteligente e sensual para manter o
clima, mas Pietro sempre conseguia me desestabilizar. Portanto, lá estava eu
rindo como uma abobalhada. Depois eu dizia não entender por que ele me
tratava como uma criança.

— Antes que eu me esqueça, quero que você veja se há algo em sua casa do
qual precise. Não quero mais que tema seu tio. Se tiver algo que queira buscar,
avise e dou a ordem.

— Tenho roupas, calçados, meu notebook... — Nossa, diante da


possibilidade de recuperar minhas coisas, bateu até uma animação. — Fotos de
família, livros...

Pietro sorriu e beijou minha testa, estendendo o toque de seus lábios por
alguns segundos. Quando me soltou, virou-se de lado e pegou o paletó do terno.

— Aproveite a noite e anote tudo isso. Amanhã pedirei que Carlo envie
alguns homens até lá.

Ele terminou de se vestir e eu não aguentei mais controlar a vontade de


agarrá-lo. Fiquei nas pontas dos pés e enlacei seu pescoço, obrigando-o a se
curvar. Suas mãos tocaram minha cintura quando grudei minha boca na dele,
sentindo seus lábios abrirem num sorriso. Arranhei sua nuca e deslizei meus
dedos por sua cabeça.

Meu rosto virou de lado quando o Don começou a beijar meu queixo e saiu
em busca da minha orelha, arranhando minha pele com a barba que não devia ser
feita há uns três dias. Suspirei, ciente de que ele conseguia me deixar com calor
em todos os cantos do corpo, inclusive entre as pernas.

— Podemos dormir juntos de novo? — perguntei só para ter o que fazer


antes que me derretesse totalmente.

— Desde que se sinta à vontade — respondeu, dando um selinho em mim e


se afastando. — Não devo voltar tarde, mas não precisa me esperar.

Tadinho. Ele não fazia mesmo ideia do poder que tinha sobre mim.

Nero chegou um pouco antes de Pietro sair. Eles ainda se encontraram e se


cumprimentaram no jardim, enquanto meu amigo segurava uma caixa gigante de
pizza de pepperoni.

Tínhamos acabado de comer e eu me sentia com uma barriga enorme,


esparramada no sofá da sala de visitas. Nero se divertia com a coleção de vinil
da família Greco, até que veio se sentar ao meu lado e deitou a cabeça em meu
ombro.

— O que estou fazendo aqui se você nem presta atenção no que digo? —
perguntou ele, suspirando. — Acabei de dizer que virei hetero e não ouvi
nenhum comentário engraçadinho.

Acabei rindo e baguncei o cabelo dele, que vivia mesmo todo desleixado de
um jeito proposital. Nero gostava de meninos desde que eu o conheci e sabia que
não havia a menor chance de passar a se interessar por mulheres.
— Desculpe, minha mente estava longe. Estou preocupada com Pietro.

— O amor é lindo, não é? A fase “Pietro eu te odeio” passou bem rápido. —


Ele estalou a língua e abraçou minha cabeça. — Pobre menina incompreendida,
seu noivo é o Don mais gato de todos os tempos. Deve ser mesmo muito difícil
ser você.

Gargalhei, enfiando um dedo em seu ouvido para afastá-lo de mim. Nero


recuou, sorrindo e abrindo os braços sobre o encosto do sofá.

— Estou falando sério, idiota. — Dei um peteleco na perna dele. — Pietro


foi se encontrar com Domenico Negri. Sabe quem é ou seu cérebro de azeitona é
incapaz de assimilar esse nome?

Nero era aquela pessoa alheia a quase tudo que não o interessava dentro de
seu pequeno mundinho. Ele era muito focado nos estudos e em seu sonho de
entrar para uma grande universidade. Não gostava de se meter nos assuntos da
Soprattuto e sempre deixou bem claro que não seguiria os passos do pai.
Portanto, quando fiz o comentário, achava mesmo que ele sequer já tivesse
ouvido falar sobre o Don da Dita di Ferro.

— Engraçadinha. Claro que sei quem é o maluco. — Revirou os olhos


dramaticamente. — Acho, inclusive, que esteve lá em casa hoje.

Prendi a respiração para não me denunciar. Eu estava ficando louca ou tinha


acabado de descobrir um infiltrado? Não podia ser. Nero não merecia ser
envolvido naquela guerra.

— Será que estamos falando da mesma pessoa? — perguntei, assustada. —


O Domenico a quem me refiro nem mora por aqui.

— Sim, eu sei. O senhor Negri. Boa pinta pra cacete. — Meu amigo me
lançou um sorriso safado e suspirou. — Uma pena ser cinquentão. Qual é a desse
jantar, afinal? Dá para ver que está preocupada com alguma coisa, Gio.

Eu confiava muito em Nero, mas de repente, não me senti à vontade de


explicar o que estava acontecendo. Não podia colocar aquela informação em
risco antes de contar tudo a Pietro. Por isso, sorri e dei de ombros, fingindo
descaso.
— É que... exatamente como você falou, o homem é muito bonito. Fico
imaginando os dois juntos num mesmo ambiente e todas as mulheres dando em
cima deles. Acho que estou ficando ciumenta.

Sentia-me mal por mentir descaradamente para alguém que não merecia.
Porém, às vezes, ignorância se tornava uma dádiva.
PIETRO

Domenico não era idiota a ponto de marcar nosso encontro num restaurante
que possuísse qualquer envolvimento com a famiglia. Ele me informou que faria
a reserva em um local que fosse neutro e discreto. Quando estacionamos na porta
do Lo Chef, em num bairro nobre de Palermo, observei tudo à nossa volta.

Ergui dois dedos da mão direita, informando que queria dois homens dando
as voltas ali pelos fundos e a mão esquerda levei para trás das costas, com ela
toda aberta. Indicava que manteria cinco deles ali fora, porém, ocultos na outra
calçada.

O segurança abriu a porta para que eu passasse, seguido de Carlo e mais três
homens de minha confiança. O lugar não estava muito cheio, apenas duas mesas
ocupadas, mas fomos encaminhados para os fundos do salão. Ali, passamos por
uma porta de vidro com cortinas e entramos numa sala menor, mais reservada.
— Achei que fosse jantar sozinho — disse Domenico, erguendo uma taça de
vinho tinto ao me ver chegar.

— Não sou um homem fácil. Gosto de manter o suspense, assim como


espero que você pague a conta. — Sorri, tocando a ponta da gravata ao meu
curvar e sentar à mesa. — Fez uma boa escolha quanto ao restaurante. Gosto da
comida daqui.

Meus homens sumiram do meu campo de visão, mas eu sabia que


permaneciam em algum lugar atrás de mim, porém, fora do caminho. Assim
como os seguranças de Domenico, há pouco mais de cinco metros de distância.

— Quer fazer o pedido antes ou prefere ir direto aos negócios? — perguntou


ele, tocando o menu com os dedos.

— Deixei de jantar com minha família para olhar sua cara feia, Don Negri.
Com certeza, farei primeiro o meu pedido.

Ele riu alto, recostando-se à cadeira, parecendo muito à vontade. Gesticulou


para chamar o garçom e apoiou as mãos sobre a mesa.

— Seu pai não tinha esse mesmo senso de humor que você possui.

— Não mesmo — respondi, sem retribuir o sorriso, estudando sua expressão.

Com muita tranquilidade, fiz o meu pedido, pedi uma garrafa do melhor
vinho branco e esperei o funcionário do Lo Chef sair para encarar Domenico
Negri. O Don mantinha o olhar de jogador de pôquer, mas não conseguia
esconder de ninguém que não valia um centavo sequer. Uma das coisas que mais
me enojava na Dita di Ferro era o seu envolvimento com o tráfico humano. Não
chegava a ser um fato comprovado por quem estava de fora, mas era um dos
assuntos em pauta nas conversas de outras famiglias italianas.

— Don Negri, eu realmente acho que nós dois somos homens muito
ocupados para ficarmos jogando conversa fora. — Abri o guardanapo de seda e
o ajeitei em meu colo, sem olhar para o Don. — Não somos amigos, vim tratar
apenas de negócios. Ou melhor, de um caso bem específico.

— É agora que você me implora pela vida de Matteo Barone? — O homem


sorriu, inclinando-se e apoiando os braços na mesa. — Desde que assumiu a
cadeira de seu pai, espero ansiosamente por isso.

— Jura? Passa tanto tempo assim pensando em mim? Devo avisá-lo que não
costumo retribuir paixonites de homens, acredito que saiba de meu compromisso
de noivado.

A graça sumiu do sorriso dele e o mafioso ajeitou a postura.

— Por acaso sabe o tamanho da dívida do senhor Barone? — perguntou ele.

— Faço uma ideia, mas me dê um número.

— Tem certeza absoluta de que aquele merdinha vale o investimento?

Fomos interrompidos pelo sommelier que voltou trazendo o vinho que pedi.
Sem imaginar que atrapalhava uma conversa importante, ele abriu a garrafa com
muita calma, despejou uma pequena quantidade em minha taça e me entregou
para fazer a prova. Degustei sem pressa e, por fim, acenei em concordância.

— Não sei como funcionam as coisas sob o seu comando — retomei o


assunto assim que voltamos a ficar a sós —, mas na Soprattuto nós temos o
costume de cuidar uns dos outros. Infelizmente, Matteo Barone cometeu um
grande erro de jogar em território errado, mas isso não é motivo para dar as
costas a um membro de nossa famiglia.

— Sendo assim, vamos comer, meu amigo. — Ele levantou os braços. — O


cheiro desse restaurante é incrível e me deixou com o apetite aceso. Em seguida,
trataremos do pagamento. Tenho uma proposta a fazer.

— Acredito que possamos fazer as duas coisas ao mesmo tempo, Don Negri.
Não pretendo permanecer até tarde em sua companhia. Já disse que prefiro
minha noiva.

A forma como ele sorriu após eu incluir Giovanna na conversa quase me fez
perder a fome. Não gostava daquilo. Não gostava do fato de que pudesse haver
algo que o fizesse olhar ou pensar de uma maneira diferente sobre ela.

Nossos pratos chegaram e Domenico passou um bom tempo apreciando sua


refeição, até que pegou os talheres e começou a comer.
— Como está o relacionamento de vocês, afinal? — perguntou ele. —
Conseguiu domar a fera?

— Não acho que minha vida pessoal seja de sua conta. — Sorri, com uma
educação fingida.

— E não é mesmo, só fico curioso a respeito da pobre menina. Perdeu os


pais tão nova...

— Dispenso sua preocupação, Don Negri. Giovanna está muito bem.

Cortei meu filet mignon com um pouco mais de força do que o necessário,
controlando-me para não cravar a ponta da faca no meio da testa do homem.

— Fico feliz. Muito feliz em saber disso. Seria uma pena que esse casamento
não acontecesse.

— Podemos focar em Matteo Barone? — pedi antes de começar a mastigar.

— Sim, claro. — Ele não se preocupou em me olhar, enquanto se ocupava de


sua lagosta. — O senhor Barone me deve mais de seiscentos mil dólares, mas
estou disposto a esquecer essa dívida caso possamos fazer uma... parceria.

— Que tipo de parceria? — Antes mesmo de ouvir a resposta, eu já sabia que


seria algo que iria contra meus princípios. Bem a cara da Dita di Ferro e seu
Don babaca.

Domenico gesticulou e um de seus seguranças se aproximou da mesa. Ele


deixou um tablet com o chefe e este mexeu em algo na tela, como se desse um
zoom. Em seguida, entregou o aparelho para mim. Observei um mapa da Sicília
e vários pontos vermelhos marcados, espalhados pelos bairros.

— Quero acesso a estes locais para venda de coca e ecstasy. Meu produto é
muito bom e considero uma lástima que seus moradores precisem sair da ilha e
atravessarem até a Calábria para fazer uma compra. — Ele só podia estar
brincando com a minha cara, mas nem titubeava. — É claro que sua participação
nos lucros será bem generosa.

— Não negocio com o tráfico, Don Negri.


Ele descansou os talheres e sorriu. Bateu palmas e gesticulou mais uma vez
para os seguranças. Um deles, o mesmo que entregou o tablet, aproximou-se e
deixou uma caixa sobre a mesa, do tamanho ideal de uma joia.

— Eu sentia que você seria difícil de convencer — disse, meneando a cabeça


na direção da caixa. — Considere como um incentivo.

Antes de abrir, sabia do que se tratava. A parte do corpo de alguém. E


acertei, encarando dois dedos decepados: o mindinho e o anelar. Não precisaria
perguntar para saber a quem possuíam. Levantei o indicador e Carlo se
aproximou de mim, com mais discrição que o homem da Dita.

— Faça contato com Leonardo Barone e confirme isso para mim — pedi,
entregando a caixa a ele, que se afastou em seguida. Voltei minha atenção para
Domenico, que comia sua lagosta como se estivéssemos discutindo modelos de
gravatas. — Em que realidade você vive para achar que respondo a esse tipo de
ameaça? A vida na Calábria é assim tão arcaica?

A risada dele soou gutural ao levantar os olhos para mim.

— Longe de mim tentar comprá-lo com ameaças, Don Greco. Apenas


mostrei que cobro o que é meu por direito.

Antes que eu respondesse, Carlo me interceptou e sussurrou em meu ouvido,


com a confirmação de que Matteo tinha sido capturado por algumas horas e foi
entregue ao pai, com dois dedos a menos.

— Obrigado, Carlo. — Olhei para Domenico, que mastigava sorridente.


Poucos metros atrás de sua cadeira, seus homens tentavam permanecer nas
sombras e a iluminação baixa, com um toque intimista, facilitava isso. — Pelo
visto, nossa negociação vai demorar um pouco mais do que eu previ. Se não
quiser me dar um preço, talvez não cheguemos a um acordo.

O sommelier retornou, voltando a me servir e repetindo o mesmo gesto com


Negri, que tomava outro vinho. O garçom permanecia um pouco mais atrás,
conversando com um homem vestido como chef, interessado em saber se nossa
refeição estava sendo apreciada.

— Abra o acesso aos pontos que tenho interesse e, então, teremos um


acordo.
— Deixe-me ver novamente — pedi, no que o segurança retornou e apoiou o
tablet entre nós.

Terminei de cortar mais um pedaço da carne em meu prato e numa fração de


segundo, girei o cabo da faca em minha mão e cravei a ponta no mindinho do
segurança, arrancando a ponta de seu dedo. O grito de dor do capacho de
Domenico pôde ser ouvido por todo o restaurante.

Armas foram destravadas e os homens dos dois lados da moeda, ao mesmo


tempo, cercaram a mesa. Estaríamos empatados, porém, o sommelier apontou
uma pistola para a testa de Domenico e o garçom junto com o chef, desarmaram
os outros homens da Dita.

— Acha mesmo que entraria em meu território e me ameaçaria? — inquiri,


usando de um tom mais letal do que estava mantendo até poucos minutos. —
Sugiro que volte para o buraco de onde saiu o quanto antes ou não me aterei
apenas ao quid pro quo[22]. Dá próxima vez, não será somente um dedo.

Levantei-me, fechando o botão do paletó e tomando o restante de vinho que


sobrara em minha taça. Delicioso.

— Ainda vai pagar a língua, Don Greco — disse o babaca quando comecei a
me afastar, seguido de Carlo. — Talvez não saiba, mas sua noiva tem sangue
Dita di Ferro. Quando você me procurar novamente, farei com que limpe meus
sapatos com sua língua.

A informação me atingiu em cheio, mesmo sem ter certeza de sua


veracidade. Porém, não permitiria demonstrar fraqueza perante Domenico. De
costas estava, de costas continuei e saí do restaurante.
GIOVANNA

Estava sentada na porta do quarto de Pietro há pelo menos vinte minutos,


esperando que ele aparecesse. Não foi tão difícil acordar mais cedo do que ele,
visto que quase não consegui fechar os olhos a noite toda. Se tivesse sentido o
momento em que chegou em casa, teria dito o que precisava naquela mesma
hora e tirado o peso dos ombros.

A porta do quarto se abriu e meu coração quase saiu pela boca. Fiquei de pé
rapidamente e acho que peguei o Don de surpresa pela forma como me olhou e
depois sorriu.

— Bom dia — falei, espalmando minhas mãos no peito dele para tirar uma
casquinha e o empurrando para dentro do quarto. — Preciso contar uma coisa
antes que eu enfarte por guardar esse segredo.

— Bom dia, bambina. — Ele se sentou na beira da cama e me puxou de lado


em seu colo. Ao passar os braços ao meu redor, enterrou o rosto em meu cabelo
e tocou meu pescoço com a boca. — Cheirosa.

Pronto, todo meu foco escorreu pelo ralo quando sussurrou aquela voz
aveludada e alisou minhas coxas nuas. Eu ainda estava de camisola, uma que a
senhora Greco tinha dado para mim porque disse que era muito jovial para ela
usar. Era de seda preta, bem curta, com alças finíssimas e rendada na região dos
bojos. E isso me fez lembrar do dedo de Pietro roçando a renda do meu sutiã no
iate. Ai, senhor.

— Eu... hm... tenho algo — murmurei, mas nem eu entendi o que disse,
então tentei repetir. — Tenho algo para contar e é importante.

— Sim? — O diabo grudou aqueles lábios na minha orelha. Pietro só podia


estar de sacanagem. Era provocação?

Segurei o rosto dele entre minhas mãos e o obriguei a levantar a cabeça. O


sorriso safado estava lá, assim como a expressão de quem ainda estava
sonolento. Ficava tão bonitinho com o rosto amassado...

— É sério, pare de me distrair.

Ele piscou e me encarou por alguns segundos, até que a alma de Don
retornou ao corpo e ficou todo sério e empertigado.

— O que foi, Giovanna?

De repente, senti minha coragem quase correr para bem longe daquele
quarto. Eu estaria complicando e muito a vida do meu amigo. Nero sequer fazia
ideia do que tinha dito e de como o pai dele era um filho da mãe. Respirei fundo
e o encarei antes que me acovardasse.

— Sabe que Nero esteve aqui ontem. — Pietro meneou a cabeça,


aguardando. — Em algum momento quando estávamos conversando sobre
você...

— Sobre mim? — ele me interrompeu, arqueando uma sobrancelha.

— Sim, sobre o quanto é lindo, gostoso, etc e tal. — Revirei meus olhos.
Ah, pronto. Ele abriu um sorriso de cinco quilômetros tão iluminado que
podia cegar uma pessoa distraída. E que droga, aquele sorriso sumiria assim que
eu contasse o que soubesse. Coragem, Giovanna!

— O pai do Nero é infiltrado — despejei, com pressa, quase embolando uma


palavra na outra e sentindo meu coração martelando no peito.

— O quê? — Eu não sabia se ele não tinha entendido por causa da minha
dicção ou se estava em choque. — Está se referindo mesmo a Marco Salvatore?
Por que chegou a essa conclusão?

— Deixei escapar que você estava jantando com Domenico Negri. O Nero é
muito desligado e nem um pouco interessado nos assuntos da famiglia. Por isso,
ele talvez não tenha se dado conta da gravidade disso, pois falou que conhecia o
Don, já que este frequenta sua casa. Pietro, o Domenico esteve ontem na casa
dos Salvatores.

Pela forma como ergueu o queixo e seus olhos brilharam, sabia que aquela
mente estava trabalhando a todo vapor. Talvez pensando em como arrancaria os
olhos do pai do meu melhor amigo. Meu estômago se revirou. Eu conhecia
Marco Salvatore há tanto tempo e ele sempre me tratou tão bem. Sentia-me mal
por toda a situação.

— O que Nero disse quando soube quem é Domenico? — perguntou.

— Acredito que não saiba que ele seja um Don de outra máfia. Por favor,
não o faça mal.

— Você não contou?

— Que o pai dele era um possível traidor? Não... — Pressionei meus lábios,
com medo de ter feito algo errado. — Deveria? Achei melhor falar primeiro com
você.

Mesmo que o peso da informação tenha alterado visivelmente o semblante e,


com certeza, todo o dia dele, meu noivo exibiu um sorriso lindo. Fechei os olhos
quando seus dedos deslizaram pela minha bochecha para colocar uma mecha de
cabelo atrás da orelha.

— Agiu como uma boa matriarca agiria. Confiando apenas naquele com
quem divide a cama. Nossa família sempre vem em primeiro lugar e você deverá
sempre proteger sua casa e seus filhos, quando os tivermos.

— O lance de dividir a cama não é bem verdade, mas...

— Principessa — ele me interrompeu, tocando com a ponta do indicador em


minha boca. — Você entendeu o que eu quis dizer. Isso foi um elogio e estou
feliz por ter confiado esse segredo somente a mim.

Respirei fundo, ainda sentindo o aperto no peito.

— Fiz certo, então? — Apoiei minhas mãos nos ombros dele e me senti
relaxar um pouco quando alisou minhas costas em círculos. — O senhor
Salvatore sempre foi bom para mim. E Nero não merecia ter que passar por um
inferno na vida.

— Dependendo de como as coisas se desenrolarem, posso vir a ter piedade


de Marco Salvatore. Por você. Mas não posso prometer nada concreto, bambina.
A família Salvatore faz parte da Soprattuto há três gerações. Isso é muito grave.

Sim, eu sabia que não podia pedir que Pietro fechasse os olhos para uma
traição daquele nível, visto que o pai de Nero era um caporegime, uma posição
muito prestigiada dentro da máfia. A descoberta abalaria a confiança de todos,
seria difícil impedir que uma notícia como aquela se alastrasse.

— Por que está me olhando como se eu tivesse duas cabeças? — perguntei


ao notar que ele me observava com um olhar carregado de curiosidade. — Não
deu tempo de pentear o cabelo. É isso?

Toquei minha cabeça, percebendo o ninho de passarinho no alto.

— Você acha que seus pais se amavam? — questionou o Don, sem evitar que
seus olhos corressem para meu colo exposto pelo decote. — Como era a relação
deles?

— Uau! Sabemos bem como mudar de assunto, não é? — Dei de ombros. —


Como posso saber se eles se amavam? Acho que sim, né? Afinal, tiveram uma
filha.

— Isso não quer dizer nada.


— Bem, minha mãe nunca pareceu alguém que era obrigada a dormir com
meu pai. O coroa tinha lá seu charme. Por que quer saber sobre meus pais?

— Curiosidade.

— Hm...

Pietro devia estar perdendo o jeito. Curiosidade sobre meus pais? O meu tipo
de curiosidade era outro, como, por exemplo, quantos segundos ele demorava
para ficar todo arrepiado caso minha língua deslizasse por seu pescoço.

Tomando coragem, joguei meus braços em volta dos ombros fortes e o


empurrei para cair de costas no colchão. Sem dar tempo para que começasse a
reclamar, beijei sua boca com fúria. Cada centímetro dela era gostosa demais e
afastei o rosto só para poder observá-la melhor, antes de descer meus lábios até o
pescoço dele e fazer o que eu tinha vontade.

Lambi a pele quente como se estivesse degustando de um sorvete e


aproveitei para brincar com meus dedos em seu corpinho sarado. Ele arrepiou!
Ponto para mim!

— Não aprende mesmo, né? — murmurou, respirando fundo e jogando a


cabeça para o lado. — Não vou me mexer, nem tocar em você.

— Não lembro de ter solicitado a sua participação — falei, chupando o


lóbulo da orelha dele. — Apenas fique quieto e me deixe conferir se vale a pena
casar com você.

Sua risada foi escandalosa e gostosa. Sentei-me sobre a barriga dele e


dedilhei seu abdômen trincado, observando o olhar cheio de desejo para cima de
mim.

— Promete que vai malhar até uns oitenta anos? — perguntei. — Porque
como é bem mais velho do que eu, ainda estarei inteira e gostosona quando você
começar a ficar pelancudo.

O Don espalmou as mãos nas minhas coxas com tanta força que o som delas
contra minha pele pareceu o de um tapa forte. Ele mordeu o lábio e subiu os
dedos até deixá-los ocultos sob a camisola.
— Giovanna, Giovanna... A hora que eu te comer você vai se arrepender de
todas as vezes em que me chamou de velho.

Senti meu rosto esquentar e me inclinei sobre o corpo dele, tapando sua boca
sem conseguir controlar uma risada nervosa.

— Sua mãe não o ensinou a falar direito na frente de uma dama?

— Tento ficar na minha, bambina, mas você provoca. — Estalou a língua. —


Dê-se por satisfeita que, por enquanto, eu apenas falo. Porque a hora que
começar a praticar...

— Nossa, como ele é viril. — Revirei os olhos, divertindo-me com seus


olhos estreitos numa linha fina. — Que medo!

— Vamos ver se continuará brincando com os vinte e um centímetros.

— Como assim?

As mãos de Pietro tocaram minha cintura e envolveram meu corpo quando


ele se levantou da cama me carregando junto.

— Deixa pra lá — disse ao me colocar no chão e segurar minha mão. —


Vamos tomar café porque cansei de ser parque de diversões.

Não, sério. O que ele quis dizer com aquilo? Estava mesmo falando do que
eu achava que estava falando?

PIETRO

Precisava parar, tirar um tempo e pensar. Minha cabeça fervilhava com


tantos problemas sendo jogados de repente. Estava sendo difícil demais digerir a
indireta de Domenico a respeito de Giovanna. Que merda ele quis dizer? Eram
tantas as possibilidades e eu não podia simplesmente levantar a questão com
minha noiva. Se ia virar o mundo dela de cabeça para baixo, antes precisava ter
certeza absoluta do que dizer.
— Preciso avisar a vocês que as coisas vão esquentar nos próximos dias —
comuniquei quando todos estavam à mesa do almoço. — Don Negri quer
entrada livre em nossa cidade para as suas drogas e não posso permitir que isso
aconteça.

Minha mãe estava levando o garfo à boca e parou o movimento pela metade.
Ela descansou o talher no prato e me olhou.

— Isso significa que o jantar ontem não foi proveitoso?

— Se considerar os dois dedos de Matteo Barone dentro de uma caixa, então,


não.

Giovanna, sentada do meu lado esquerdo, engasgou-se com a comida.

— Estava óbvio que Don Negri não seria diplomático como você, meu
irmão.

— O rapaz morreu? — perguntou a italianinha, com os olhos azuis


arregalados. — Meu Deus!

— Não morreu, apenas perdeu uns dedos. — Segurei a mão dela e sorri. —
Não se preocupe com isso.

— Com o quê? Com o fato de que um ser monstruoso arrancou dedos de


outra pessoa?

— E os dedos de quem você arrancou? — Enzo questionou, complicando


minha vida. — Do próprio Don Negri eu sei que não.

Giovanna ficou pálida ao voltar a me encarar e eu suspirei.

— Cortei apenas um — esclareci a confusão. — Não foi de Domenico.

— Ah, meu Deus — a menina murmurou, olhando o prato.

Minha mãe comia em silêncio e eu sabia que ela desaprovava minha atitude.
Não por não achar que os culpados deveriam pagar pelo que fizeram, pelo
contrário, dona Giulia podia ser bem sanguinária quando desejava. O problema
dela era ver os filhos envolvidos numa situação que poderia se tornar letal.
— Sei que pediu que eu tomasse cuidado e fosse mais precavido, mamma,
mas infelizmente, terei que ignorar seu pedido — disse, enchendo meu copo com
suco de uva. — Nós já entramos em guerra. Tentarei salvar Matteo, porém,
agora, Don Negri irá usá-lo como exemplo de fraqueza dentro da Soprattuto.
Avisei ao pai dele que o tire do país o mais depressa possível, enquanto não
acerto as contas com a Dita.

— É uma boa ideia — disse minha mãe, parecendo ter perdido a fome. Sabia
o quanto estava preocupada. — Será que Enzo também não deveria fazer uma
viagem?

— Não irei a lugar algum, mamma. Pare de me tratar como se tivesse dez
anos.

— Não vejo necessidade de meus dois filhos ficarem com uma arma
apontada para a cabeça. — Foi alto o barulho dos talheres batendo no prato
quando ela o colocou de lado. — Sua presença aqui não será tão útil. Pietro, por
favor, afaste seu irmão do país.

Observei Enzo se encher de cólera pela sugestão e conseguia entender o que


sentia. Nunca houve na história de nossa família um Greco que fugisse dos
problemas. Por mais que ele tivesse cometido alguns erros pelo caminho, eu
podia ver que tentava se autoafirmar como homem, sendo muito difícil sair da
sombra de um irmão que era Don. Não podia acatar o desejo de minha mãe. Isso
o quebraria.

— Enzo fica, se assim desejar — declarei e olhei para minha noiva. — No


entanto, quero que Giovanna retorne à Nova York amanhã mesmo.

— Sem você? — Ela fez bico e fechou a cara. — Só pode ter batido com a
cabeça na pia do banheiro.

— Não vamos discutir essa decisão, bambina.

— A não ser que você pretenda me dopar e amarrar, isso não vai acontecer.

Naquele momento, Carlo parou além da entrada para a sala de jantar,


aguardando a autorização para se aproximar. Ao vê-lo, gesticulei para que
entrasse e ele veio até minha cadeira.
— Salvatore recebeu visita — sussurrou em meu ouvido ao se curvar.

— Obrigado.

Ele meneou a cabeça num cumprimento a todos os outros sentados à mesa e


se retirou depressa. Flagrei os três pares de olhos sobre mim.

— Minha querida noiva descobriu sozinha que Marco Salvatore é amigo


pessoal de Don Negri — expliquei para minha mãe e Enzo. — Ela encontrou o
primeiro infiltrado.

— O quê? — Mamma levou uma mão ao peito, chocada. — A família


Salvatore? Foi seu pai quem nomeou aquele homem como caporegime.

— Pois é. Mandei que Carlo fizesse tocaia para confirmar a suspeita e ele
acabou de trazer a notícia de que Domenico entrou naquela casa essa manhã. —
Apoiei meus braços na mesa e me inclinei na direção de Enzo. A surpresa
também estava estampada em seu rosto. — Existe alguém em quem confie sua
vida? Se sim, chame-o para uma reunião urgente. Vamos pegar Salvatore ainda
hoje.

Giovanna tapou o rosto, pálida. Quando empurrou a cadeira para trás e se


levantou, lançou um olhar de desculpa para nós.

— Preciso... — parecia muito desconcertada — eu... com licença.

Limpei a boca com o guardanapo e também me ausentei da mesa. Já tinha


mesmo terminado meu almoço e precisava ver como ela estava. Subi a escada,
sabendo que tinha corrido para o quarto e quando abri a porta, seus dedos
tentavam digitar algo no celular novo que eu arranjei. Alcancei-a por trás e tirei
o aparelho de suas mãos.

— Ah! — Ela se virou e quase senti pena do olhar apavorado. — Deixe-me


avisar Nero para sair de casa.

— Não.

— Pietro, por favor. — Segurou meu braço e tentou se esticar toda para
alcançar o celular. — Eu só vou inventar uma desculpa e chamá-lo para vir aqui.
— Não posso deixar que coloque a operação em risco — avisei, guardando o
aparelho no bolso. — Sinto muito, bambina. Prometo que ele ficará a salvo.

— Não pode prometer isso — disse ela, com os lábios trêmulos. — Se o


senhor Salvatore tentar resistir e...

— Giovanna — eu a interrompi, tocando seu rosto. — Eu cumpro minhas


promessas. Além do mais, preciso do Salvatore vivo. Sei que vai me dar
trabalho, mas pretendo descobrir outros nomes através dele.

Minha noiva tinha crescido e sido educada por uma família tradicional, logo,
conhecia o significado daquelas palavras. Eu nada podia fazer. Compreendia o
medo que ela sentia por causa do amigo, mas não deixaria de acertar as contas
com o pai dele, principalmente num momento em que vários podres estavam
sendo lançados ao ventilador.

Acho que Giovanna controlou uma ânsia de vômito antes de correr para o
banheiro e se trancar lá dentro.

Depois de uma breve reunião, enviei dez homens à casa de Marco, com a
ordem de não tocarem num fio de cabelo da mulher e do filho. Meu foco era
apenas o chefe da família e, mesmo que a esposa estivesse ciente da traição, não
conseguia me ver torturando uma mulher.

Fui com Enzo para o depósito perto da marina de Palermo, que usávamos
como um local neutro quando era preciso tomar atitudes como aquela. Minha
decisão de não ir junto até a casa dos Salvatores foi pensada como uma carta a
mais para descobrir se havia algum infiltrado dentre aqueles que destaquei para a
missão. Se minha suspeita se confirmasse, eles retornariam de mãos vazias.

No entanto, os soldados demonstraram que podiam ter minha confiança


quando chegaram nos quatro carros. De um deles, tiraram o homem com capuz
na cabeça e algumas manchas de sangue pela camisa. Ele tentara resistir.
— Havia mais alguém em casa? — perguntei para Sandro, um dos rapazes
que Enzo indicou.

— O filho, como o senhor deu a entender. Mas o mantivemos longe da ação.

— Não fizeram nada a ele, certo?

— Não, senhor.

Dei passagem para que entrasse no galpão atrás dos outros e os segui para
dentro. Marco Salvatore foi colocado sentado numa cadeira atrás da pequena
mesa, a única existente ali. Ele piscou várias vezes quando Carlo puxou o capuz
e, então, compreendeu onde estava.

— Don Pietro! O que está acontecendo? — perguntou, com um pavor latente


que não podia ser fingido. — Eu escolhia um vinho para o jantar quando
invadiram minha casa.

— E por acaso, Don Negri foi convidado para se juntar a vocês? — Tirei
meu paletó e o pendurei nas costas da cadeira antes de me sentar no lado oposto
da mesa.

O melhor das pessoas da máfia era o fato de serem objetivas. Quando um


traidor era descoberto ou algum segredo revelado, ninguém ficava titubeando e
tentando inventar teorias mirabolantes. Entendia-se que se um Don o
confrontava por algum motivo, era porque ele tinha certeza do que estava
falando. Não nos baseávamos em dúvidas.

Vi o momento exato em que o olhar de Salvatore mudou. Ele soube que sua
máscara havia caído e nada que dissesse mudaria minha opinião. O brilho nos
olhos ficou evidente quando se ajeitou na cadeira e ergueu o queixo.

— A Soprattuto está com os dias contados — disse. — Seu pai agia muito
com o coração e não tinha o pulso firme necessário de um chefe. Perdemos
espaço e vi a Dita di Ferro crescer e prosperar sob o comando de Don Negri.

— Realmente, meu pai foi um homem muito benevolente. — Carlo se


aproximou da mesa, colocando a bandeja com utensílios cirúrgicos ao meu lado.
— Acho que para seu azar, eu não nasci com a mesma índole que ele.
Os olhos escuros do traidor pousaram sobre os objetos aos quais, em breve,
ele seria apresentado.

— Meu filho não tem conhecimento de nada do que fiz — falou, com pressa.
— Não o faça nenhum mal.

Inclinei um pouco meu corpo para o lado, apoiando o cotovelo no braço da


cadeira. Que filho de uma puta que não demonstrava uma única gota de remorso
por jogar o nome da família na lama.

— Não me confunda com Don Negri. Não envolvo crianças em meus


negócios. Seu filho está a salvo, mas não graças a você. — Levantei-me e
segurei um alicate na mão, sentindo seu formato, seu peso, degustando daquele
contato. — Creio que como um caporegime você seja um grande conhecedor de
todos os nossos mandamentos. Pode dizer para mim qual é o que rege a entrada e
saída da Soprattuto?

— Quem entra, não sai. Apenas dentro de um caixão.

— Minha curiosidade é há quanto tempo você saiu de nossa querida


famiglia. — Dois homens o seguraram pelos braços quando tomei sua mão e ele
tentou resistir. — Acalme-se, não precisa falar agora. Nossa conversa será longa,
pois há muito o que desejo saber.

Enfiei uma das pontas do alicate sob sua unha do polegar e puxei com força,
vendo-a soltar da carne com certa dificuldade. Em defesa de Marco Salvatore,
ele parecia ser um homem forte, pois quase não gritou. Ainda.
GIOVANNA

Ócio é uma coisa muito triste de lidar. Combinado com um monte de besteira
enterrada na cabeça, só piora tudo. Minha ansiedade batia níveis estratosféricos
enquanto não recebia nenhuma notícia de Pietro. Só queria que ele voltasse vivo
para casa.

Joguei-me de costas no colchão, fechando os olhos. Eu nem tinha casado


ainda e estava sofrendo por medo de perdê-lo. Agora entendia o que todas as
mulheres da máfia passavam diariamente antes de deitarem a cabecinha no
travesseiro.

Uma nova olhada no celular e vi que nem tinha dado uma da manhã ainda.
Com certeza não conseguiria dormir, portanto, resolvi mandar uma mensagem
para Susan.

“Quando um cara diz que tem vinte e um centímetros, ele está se


referindo ao pênis?”

Eu não faria uma pergunta dessa para nenhuma outra pessoa, mas Susan era
vida louca e antenada, além de ser mais velha e experiente que eu.

“CORRE.”

Foi a resposta dela. Bem objetiva. Antes que eu conseguisse digitar algo,
recebi outra mensagem.

“Desculpa, gata. Sim, homens adoram falar o tamanho dos seus


cacetes. Mas você tem certeza que é TUDO ISSO mesmo? Quem é esse
espetáculo de espécime masculino?”

Ah, meu Deus. Caí na gargalhada, aliviada por estar falando sobre isso com
ela. E um pouco preocupada também, afinal, a primeira resposta ainda estava em
minha mente.

“Por que mandou que eu corresse? O espécime você conheceu naquele


dia. Alto, forte, dono de olhos azuis. A propósito, estamos noivos.”

“Garota, que tipo de notícia é essa: estamos noivos? Desde quando?
Quero saber de tu-do! E corre, corre muito, porque vai ficar arrombada!”

Minha risada seguinte foi de nervoso e rolei de bruços na cama, enterrando a


cabeça no travesseiro. Não sabia se Susan estava só tirando onda com a minha
cara ou se aquilo era mesmo motivo de preocupação.

Comecei a digitar uma resposta, enquanto deixava meu quarto para ir na


cozinha beber qualquer coisa gelada. Sentia-me quase a beira de um ataque de
nervos.

“Nós somos noivos desde que eu era criança. É uma tradição entre
famílias sicilianas muito tradicionais e agora resolvi aceitar meu destino.
Em breve estarei de volta e a colocarei a par de tudo.”

Coloquei o celular sobre a mesa da cozinha e abri a geladeira, encontrando


várias jarras de suco, além de água e cerveja. Dei uma olhadinha em volta, só
para me certificar de que estava mesmo sozinha. Pelo visto, todo mundo já tinha
se recolhido aos quartos. Puxei a garrafa de cerveja e a abri, tomando um gole
delicioso do líquido bem gelado, propício ao calor que fazia.

Ao retornar em direção ao segundo andar, antes de subir a escada precisava


passar pela saleta que dava para a área externa, bem onde ficava a piscina. O
jardim estava todo apagado, mas ouvi barulhos estranhos do lado de fora. Um
calafrio percorreu minha espinha ao imaginar que podia ser um invasor, justo
quando Pietro estava fora de casa.

Aproximei-me das portas de vidro, tentando me manter o máximo possível


oculta nas sombras, e olhei procurando a origem do barulho.

Um movimento na água chamou minha atenção. Cerrei os olhos, tentando


enxergar melhor, até que vi que algo se mover na piscina. Não era um invasor e
sim alguém nadando no meio da noite.

Decidi conferir, podia ser Enzo e eu o faria companhia enquanto o sono não
chegasse. Aproveitaria a chance e esperaria Pietro acordada, com a desculpa de
que não estava de fato aguardando por ele.

Para minha grata surpresa, quem eu vi colocar a cabeça para fora da água
entre uma braçada e outra, foi o próprio Don. Caminhei pela borda de pedra até
me sentar na beira de uma espreguiçadeira e esperei que me notasse ali. Uma
pena que estivesse escuro e todos os seus músculos não pudessem ser
minuciosamente avaliados pelos meus olhos atentos.

Quando ele fez a volta do outro lado e retornou na direção em que eu estava,
seus olhos cruzaram com os meus e, então, parou de nadar. Caminhou pela
piscina, passando ambas as mãos pelo cabelo e me encarando com uma carinha
de quem foi pego no flagra.

— Não pensei que estivesse acordada. Nem ouvi barulho quando passei pelo
seu quarto.

— Ah, então quer dizer que o senhor teve a cara de pau de chegar em casa e
não avisar? — reclamei, cruzando os braços. — Eu estava acordada, morrendo
de preocupação e o bonitinho aqui, nadando ao luar.

Podia estar escuro, mas o sorriso que ele abriu, de diversão, eu conseguiria
enxergar de longe.

— Gosto de ter uns momentos como esse, para refletir e relaxar. — Pietro
apoiou os braços fortes na borda de pedra. — Quase todas as noites vou até a
piscina da cobertura. É privativa.

— Entendi. E não consegue ter seu momentozinho desde que eu apareci na


sua vida. — Revirei meus olhos, conhecendo o discurso. — Sem problemas. Vou
aproveitar que já estraguei seu relaxamento e entrar aí também.

E levantei, ciente de que estava de camisola e não poderia tirá-la, ou ficaria


com os peitos de fora. Antes que me aproximasse mais, o Don se afastou da
borda da piscina e ergueu o dedo indicador.

— Nem pense nisso. Estou pelado.

Não sei se foi o nervosismo por ouvir aquelas palavras ou se eu era apenas
muito estabanada, mas meu pé deslizou por uma pequena poça d’água causada
pelas braçadas de Pietro e pronto, lá estava eu, caindo de bunda no chão.
Comecei a me levantar antes mesmo que ele pudesse sair da piscina para me
ajudar.

— Eu iria até você, se pudesse. — Ele riu, sem tentar esconder toda a graça
pelo meu tombo. — Não quebrou nada, né?

— Vai se ferrar, Pietro! — Meu orgulho estava abalado, mas agora se tratava
de uma questão de honra entrar naquela piscina e mostrar que eu pouco me
importava com a presença dele. O que achava? Que corria o risco de ser
agarrado por mim?

Esfregando o lado que ficou dolorido da bunda, dei a volta, agradecendo por
ser uma daquelas piscinas enormes e cinematográficas. Havia uma escada em
cada extremidade e desci os degraus lentamente. Estava tão escuro que mesmo
se eu quisesse, não conseguiria enxergar a nudez dele.

— Gio... — o homem falou como se fosse um alerta, mas não liguei.

— Ah, cale a boca. Não quero saber de você, nem vou me aproximar.

A camisola boiou em volta do meu corpo, não servindo para praticamente


nada. Virei o rosto e nadei até um canto que mais se aproximava do caminho de
pedras que levava até a estufa onde conversamos pela primeira vez. Eu era uma
completa tapada naquela época e sempre sentia vergonha alheia pela minha
versão do passado, quando me lembrava de ter quase implorado para Pietro me
beijar.

Encostei a cabeça ali na borda e me virei de frente, observando-o a uns dez


metros de mim, ainda parado no mesmo lugar.

— Vai me contar como foi hoje ou pretende me deixar curiosa? — perguntei,


aflita por não ter conseguido falar com Nero. Gostaria de ter visto Pietro chegar
em casa, pois uma olhada em sua roupa me diria muita coisa. — Pegaram
mesmo o senhor Salvatore?

— Seu amigo foi preservado, como eu prometi — respondeu, brincando com


as mãos na água. — Sobre Marco Salvatore, nós o pegamos sim. Mas ele ainda
não me deu todas as informações que quero.

— Então ele está vivo?

Pietro deu um sorriso tenebroso e esfregou a nuca sem olhar diretamente em


meus olhos.

— Sim e não.

— O que isso quer dizer, Pietro? Por favor, não seja enigmático comigo, pois
conseguiu essa dica graças a mim. E eu sei que ele se revelou um filho da mãe
traidor e vai pagar por sua escolha, mas não consegui ainda desligar um
interruptor no meu cérebro que me lembra a todo instante do homem que
comprava sorvete para mim.

— Então é melhor não pedir por detalhes, bambina. — A aproximação partiu


dele, mas só alguns passos na minha direção. — Não quero forçá-la a nada, mas
precisará se acostumar com nosso estilo de vida. Pela idade, você foi poupada do
que acontecia por trás dos panos, mas não pense que seu pai era santo. Nenhum
de nós somos.

— Meu pai nunca matou ninguém — falei, com o peito apertado.

— Seu pai foi um caporegime. Não se engane.

Pietro não era o tipo de pessoa que inventava coisas apenas para
impressionar. Portanto, aquela resposta me acertou em cheio. Meu pai sempre foi
pacato, nunca teve o costume de levar os problemas para dentro de casa e nunca,
nunca comentava qualquer coisa relacionada à máfia diante de mim. O contato
que eu tinha com a Soprattuto era apenas em eventos. A ideia de que lidávamos
com torturas e assassinatos sempre me pareceu algo muito distante, que se
limitava a famiglias como a Dita di Ferro, conhecida por ser tão sanguinária.
Isso me fez perceber como as aparências enganavam.

— Quantos? — perguntei.

— O quê?

— Quantos você já matou, Don? — Pela forma como me olhou, inclinando


um pouco a cabeça para o lado e franzindo os lábios, entendi que não se sentia
disposto a me dar a informação. — Não vou julgá-lo, só quero saber.

— Não posso te dar essa resposta.

— Acha que sou fraca demais para ouvir a quantidade?

— Não, bambina. — Ele diminuiu ainda mais o espaço entre nós e esticou
bastante a mão para tocar meu cabelo. — Apenas não sei o número exato.

Rezei para que minha reação não tenha sido notada por ele, mas fiquei bem
balançada com a resposta que me deu. Estava pronta para receber um número
bem alto, mas ter perdido a conta? Sério? Eu sabia que Don Enrico tinha
iniciado Pietro na vida de Don muito cedo, para que ele liderasse com excelência
quando chegasse a hora, mas poxa, com quantos anos ele teria começado a matar
pessoas?

— Eu não vou para Nova York sem você. — Sim, mudei de assunto
drasticamente, mas achei melhor assim para não deixar o clima tão pesado.
Afinal, eu ainda estava bem consciente a respeito da nudez do meu noivo ali a
apenas meio metro de mim.

— Isso não está em discussão.

— Está, sim. Não sou mais fugitiva, você não está me caçando. Não pode me
obrigar a algo que não quero. — Cruzei meus braços. — A não ser que tenha
reais intenções de começar nosso relacionamento me fazendo ter medo e perder
a confiança em você.

Pietro jogou a cabeça para trás e baixou o corpo até que seu cabelo tocasse a
água. Ele esfregou as mãos no rosto e suspirou.

— Por que você teima em dificultar minha vida? Estou tentando mantê-la a
salvo, Giovanna.

— Acha que só você tem direito a se preocupar? Eu não posso temer pela
sua vida?

— Tem todo o direito de se preocupar, mas deve aceitar minhas decisões,


quando estas dizem respeito à segurança da nossa família. Minha mãe nunca
ousou desobedecer a meu pai quanto a isso, pois sabia que ele nos colocaria em
primeiro lugar, sempre. Antes de sua própria vida.

Dei dois passos à frente, chegando o mais perto possível dele sem que nossos
corpos se tocassem. E eu não conseguia deixar de pensar no tamanho que ele
dizia ter entre as pernas.

— Eu não sou a sua mãe, queridinho. Por mais que a considere uma mulher
incrível, não pretendo imitá-la em tudo. Estamos em outra época, inclusive.
Direitos iguais. Posso muito bem pensar na minha segurança sem abaixar a
cabeça para você. Se espera isso de uma mulher, é melhor procurar por outra. —
Dei de ombros. — A Rayka talvez seja uma boa opção.
Era impressionante como homens detestavam ser desafiados, né? O olhar
letal que Pietro me lançou deixou bem clara a sua intenção. Ele me atacaria e me
faria pagar pela minha petulância. E eu estava ansiosa. Inclusive, levantei os
braços e tirei minha camisola.

PIETRO

Giovanna sendo Giovanna, abusada e impulsiva como sempre. Eu não


imaginava que ela tiraria a roupa e, mais uma vez, pegou-me de surpresa. Como
o nível da água chegava até seus ombros, não dava para ter uma visão do que ela
havia acabado de revelar, mas eu tinha visto a selfie que vazou e me lembrava
perfeitamente dos tamanhos e cores. Acompanhei o movimento que fez com o
braço ao lançar a camisola para fora da piscina e suspirei, procurando por um
equilíbrio que eu não sabia mais onde estava.

Tentei. Juro que tentei me controlar. Mas então, ela jogou água na minha cara
e soltou uma risadinha safada.

— Você tem sérios problemas se ainda não aprendeu que não deve me
provocar — falei, avançando, mas sem tocá-la. Apenas a encurralei contra a
borda da piscina e apoiei minhas mãos ali. — Às vezes, acho que morre de
vontade de receber um castigo.

— Ui! Castigue-me, Don Pietro! — debochou.

Chutei a porra do balde de uma vez por todas e a encoxei de um jeito que
não tinha como não sentir meu pau por inteiro contra suas pernas.

— Direitos iguais, né? — sussurrei bem perto de sua boca entreaberta. —


Vou cobrar em breve.

— Pode cobrar... — Giovanna piscou os cílios molhados e apoiou as mãos


nos meus ombros. Tentei identificar o que estava passando por aquela cabeça no
momento, mas era difícil. — Agora seria um bom momento para você me beijar.

Olhei em volta, sorrindo. Esperava que não aparecesse ninguém por ali, até
porque ela estava seminua. Não me preocupava que me vissem pelado, mas não
gostaria de expô-la para nenhum segurança.

— Como tenho muito mais juízo que você, darei dez segundos para que
recupere sua sanidade e saia dessa piscina.

Ela empinou o queixo com sua petulância de sempre que eu amava.

— E se eu não sair?

— Acabou de perder os dez segundos — avisei, puxando sua nuca e


mordendo seus lábios.

Dei um puxão com meus dentes e coloquei todo seu lábio inferior em minha
boca, chupando-o bem lentamente, enquanto colava meu quadril no dela. Repeti
o movimento mais duas vezes porque era louco por aqueles lábios carnudos, até
que a invadi com minha língua voraz. Desci minhas duas mãos por seu corpo,
decorando as curvas das laterais dos seios e da cintura. Parei no elástico da
calcinha e Giovanna suspirou em minha boca.

— Você deve mesmo me odiar ou não me faria sofrer tanto — falei, trilhando
um caminho com a ponta da minha língua do seu queixo até a clavícula.

— Nãããoooooo... — disse ela, de olhos fechados e cabeça caída para o lado,


totalmente entregue. — Não te odeio...

— Não é o que parece.

Dito isso, segurei os braços finos e os levantei de forma que os enroscasse no


meu pescoço. Com o caminho livre, grudei meu peito no dela, sem deixar mais
nenhum espaço entre nós dois. Inspirei profundamente ao sentir o contato dos
seus mamilos rijos contra minha pele, louco de vontade de abocanhar aqueles
peitos e chupá-los.

Por mais que demonstrasse um pouco de receio no olhar, a italianinha


comprovava estar tão excitada quanto eu porque quase arrancava o lábio inferior
com os próprios dentes. Sua respiração tinha acelerado e eu precisava dar alguns
créditos por ela ainda não ter corrido.

— Você é gostosa, Giovanna — afirmei, obrigando-a a desencostar um


pouco da parede de azulejos para me dar espaço suficiente de descer minhas
mãos por aquela bunda. — Está acabando com a minha sanidade.

Alisei as duas bandas com calma, sentindo a pele tão macia sob meu toque, o
formato de cada nádega, as covinhas que as enfeitavam. Baixei um pouco a
calcinha dela para ter o acesso livro e Giovanna afundou a testa no meu pescoço,
apertando os braços ao redor dele.

— Uma coisa que você aprenderá bem rápido — murmurei, mordiscando a


orelha dela; a filha da mãe me provocava, então eu a mataria de tesão muito
lentamente — é que sou louco por bunda. Em breve, vou beijar, chupar e morder
cada centímetro da sua, antes de foder esse rabinho gostoso.

Percebi que fui longe demais quando ela levantou o rosto com os olhos
arregalados e a boca em formato de “o”. Mas àquela altura do campeonato, eu
estava com o pau tão duro que só conseguia imaginar uma forma de me
satisfazer, mesmo que fosse falando baixaria no ouvido dela. Vê-la constrangida
daquela maneira, sem compreender o que a esperava, também era excitante.

Enquanto a observava digerir a informação, achei que seria interessante


exemplificar o que acabara de dizer. Portanto, meus dedos desceram mais, até
encontrar os fundos da calcinha entrando pela bunda e deixei que o dedo do
meio escorregasse um pouco. Louco de tesão, acabei puxando-a para cima e a
peguei no colo, obrigando seus pés a se cruzarem em minhas costas.

— Ah... — gemeu, com a respiração ainda mais acelerada e os olhos mais


esbugalhados do que antes. — Caramba!

— O que foi? — perguntei e franzi minha testa, bastante ciente do meu pau
extremamente duro roçando na calcinha dela. — Algum problema?

Giovanna pressionou os lábios e negou com a cabeça. Sorri, beijando seu


ombro e caminhando com ela pela piscina. Lambi o pescoço, sentindo sua pele
arrepiar e deslizei a ponta da língua por todo o contorno de sua orelha.

— Pelo amor... Vou morrer. — Depois de terminar a frase, ela deu mais uma
gemidinha e senti o peso de suas mãos em minhas costas. — Você está... hm...
bem animado.

— Dá para perceber? — Lancei um sorriso provocante e voltei a tocar a


lateral do seio esquerdo. — Sabe qual a sua sorte, Giovanna? É que no fundo,
minha moral é elevada demais quando diz respeito a você. Se você fosse outra,
estaria completamente ferrada.

— Ferrada em que sentido? — perguntou, esfregando os pés na minha


bunda. Safada!

— Prefiro não comentar.

Senti que ela estava mais soltinha, parecia se divertir mesmo que meu corpo
deixasse claro a vontade de ignorar aquela calcinha e penetrá-la o quanto antes.
Como não podia perder a cabeça de forma tão insana, resolvi brincar um pouco.
Deslizei a mão para o lado e finalmente toquei o peito dela, segurando o mamilo
entre os dedos e sentindo cada relevo daquele bico.

Ela fechou os olhos, envergonhada, mas entreabriu os lábios quando a


encostei novamente na parede da piscina.

— Seu filho da mãe — xingou, jogando a cabeça para trás e a deitando sobre
a borda. — Isso... é bom...

Giovanna Mancini estava muito enganada se achava que eu a deixaria ficar


relaxadinha daquele jeito. Segurei sob suas axilas e a levantei um pouco mais, o
suficiente para que aqueles peitos redondos e durinhos saíssem da água e
ficassem expostos bem diante da minha cara.

— Pietro! — Ignorei seu gritinho.

— Tire as mãos — pedi para ela, que os tapara tão logo se deu conta do fato.

A italianinha balançou a cabeça, negando meu pedido, então passei um braço


pela cintura dela e apertei, mantendo-a no mesmo lugar. Com a mão livre,
agarrei a sua da esquerda e ali estava ele, todo para mim. Era lindo, puta que
pariu. Um pouco maior que uma pera de tamanho generoso, com o bico curvado
e arrebitado e uma auréola rosadinha e pequena. De imediato, imaginei a cabeça
do meu pau aconchegada entre eles.

Sem conseguir esperar mais, enchi minha boca com aquela carne macia.
Giovanna estremeceu em meus braços e acabou deixando cair a mão que tapa o
outro seio. Observei sua reação confusa, ora esfregando a cabeça, ora segurando
o próprio pescoço, até que apoiou uma mão em meu ombro. Desfiz nosso
contato visual quando tirei o peito da boca e o olhei mais uma vez, dando
batidinhas com a ponta da língua no mamilo duro. E abocanhei de novo,
intercalando a atenção entre os dois seios livres.

Queria poder brincar mais, só que meu pau latejava enlouquecido para
participar da ação que se desenrolava. Portanto, desci Giovanna até soltá-la e
recuei um pouco. Mergulhei com a intenção de esfriar a cabeça e usei alguns
segundos para dar umas braçadas na piscina. Quando dei a volta na direção dela,
a maluca estava sentada num dos largos degraus da escada de mármore, com os
braços cruzados na frente dos peitos.

— Que carinha é essa? — perguntei, aproximando-me sorrateiramente,


tocando os pés dela e puxando-a para o degrau mais baixo.

— Achei que tivesse feito alguma coisa errada — respondeu, descruzando os


braços para segurar nos meus. — Você me largou do nada.

— Para me controlar, só isso. — Inclinei-me sobre ela e beijei seu ombro. —


Foi a primeira vez que chupei esses peitos. Estava emocionado demais.

Ela riu, jogando água na minha cara.

— Idiota — xingou.

Enfiei-me entre as pernas dela, obrigando-a quase a se deitar no degrau,


beijando sua boca.

GIOVANNA

Socorro, Deus, estou morrendo. Desmanchando, derretendo. Não devia estar


sentindo calor, visto que a água da piscina estava bem fresquinha. Mas o fogo
parecia querer me consumir. E minhas pernas... Ah! Aquele ponto entre minhas
pernas esquentava cada vez mais. Já tive minha cota de beijos e amassos, mas
nunca senti nada igual ao que Pietro me proporcionava.
Mais uma vez, ele se esfregou em mim, deixando evidente que os tais vinte e
um centímetros deviam ser mesmo verdadeiros. Não que eu tivesse como medir,
mas alguma coisa não parecia certa. Tipo, tinha muita coisa pressionada contra
mim. O. Tempo. Todo. Sentia-me alucinada.

— Tão linda — disse ele, olhando para mim como eu olho uma lasanha à
bolonhesa. — Estou enlouquecendo de vontade de tocá-la...

Gotas d’água pingavam do seu nariz direto em meus peitos por ele estar
inclinado sobre meu corpo, com as duas mãos espalmadas ao meu redor.

Um desejo enorme me consumiu, querendo sentir o que ele oferecia, mas ao


mesmo tempo, o medo rondava minha mente. E eu sabia muito bem que Pietro
não se referia ao toque em meus peitos, como havia feito minutos antes.

Agarrei o pescoço dele e puxei seu rosto, escondendo o meu. Fechei os olhos
quando os dedos do Don roçaram minha cintura e tomei coragem para fazer o
que realmente queria muito há algum tempo. Estiquei minha mão e a desci pelo
abdômen dele, com pressa para que não tivesse tempo de entender o que estava
acontecendo.

— Não fa... — tentou dizer no instante em que segurei seu pênis.

Ah, santo Deus de todos os céus e religiões! Pronto, agora eu realmente tinha
perdido a vergonha na cara. Estava com todos os dedos em volta do membro
dele e por pouco não conseguia fechar minha mão. Eu não tinha dedos tão
pequenos, tinha?

Meu coração martelava dentro do peito quando levantei os olhos e encarei


meu noivo. Era a primeira vez na vida que eu via uma expressão de pavor em
seu rosto, seguida por outra que parecia... alívio?

— Puta merda, Giovanna! — reclamou, ou pelo menos foi isso que pareceu,
deixando a cabeça cair para frente. Achei que fosse mandar que eu o largasse ou
me afastasse, mas o que fez me surpreendeu. Ele colocou a mão sobre a minha e
me incentivou a movê-la de lugar. — Se começou, termine.

Pietro queria que eu o masturbasse? Minha intenção tinha sido apenas de


tocar nele, porque, obviamente, eu nunca pensava nas consequências. Com o
movimento que ele fez, meus dedos deslizaram pelo comprimento daquele
negócio todo e senti quando roçaram em algo que parecia uma borda com uma
separação arredondada. Ele gemeu quando apertou minha mão ao redor do que
parecia ser a ponta do seu pênis.

Soltou-me para voltar a se apoiar no degrau e baixou a boca até a minha. Por
reflexo, quando chupou minha língua eu o apertei mais, achando que ia cair
estatelada dentro daquela piscina.

— Mexe essa mão, bambina — pediu, numa voz meio entrecortada. — Para
cima e para baixo...

Enterrei meu rosto quente no vão do pescoço dele, mas fiz o que indicou,
ainda sem conseguir achar aquilo uma coisa tão normal. Não era liso como eu
imaginava, dava para sentir veias em alto relevo em alguns pontos e, Deus
queira que eu estivesse apenas alucinando, mas parecia crescer conforme eu o
acariciava.

— Pua que pariu!

— Não está machucando? — perguntei, tirando coragem nem sei de onde.

— Não...

Pietro levantou a cabeça e olhou em volta, em seguida, mais rápido do que


eu conseguia dizer “bom dia”, ele se afastou e subiu a escada, presenteando-me
com a visão de uma bunda incrível. Muito mais incrível que a minha, mesmo
que eu passasse o dia todo fazendo crossfit.

— Já volto — avisou, caminhando pela borda de pedra com a mão no pênis,


até o chuveiro.

Perdi o fôlego quando vi o tamanho da criatura. Não que eu tivesse muito


com o que comparar além do nojento do Lorenzo, mas Pietro era... um
espetáculo. Estava bem enrijecido e parecia grande demais para caber em
qualquer mulher. Não que eu fosse uma profunda conhecedora da minha vagina,
mas pelo amor de Deus, até onde eu sabia era só um buraquinho e ter um dia
colocado a ponta do meu dedo já tinha me deixado bem nervosa. Nem tive
coragem de ir adiante.

Nadei até perto de onde ele estava e me debrucei sobre a borda, sem
conseguir tirar os olhos de Pietro. Ele se virou totalmente de frente quando
percebeu minha aproximação e começou a se masturbar com muito mais
experiência que eu. Precisei fechar a boca porque sentia que corria risco de
deixar a saliva escorrer e respirei fundo. Ele estava me devorando com os olhos,
nem chegava a olhar o próprio pênis.

Só que de repente, algo mudou em seu olhar e ele franziu a testa, virando-se
de costas novamente e apoiando uma mão na parede do chuveiro. Deu um soco
contra o azulejo e girou a torneira, deixando a água cair sobre sua cabeça e seus
ombros. Fiquei chocada com a mudança repentina e estava prestes a sair da
piscina quando ele caminhou até uma espreguiçadeira e pegou uma toalha.

— Venha, Gio — chamou-me, chegando ao pé da escada e abrindo o pano na


minha direção.

Subi os dois degraus sentindo meu corpo tremer um pouco. De frustração,


receio, confusão. O que tinha acontecido?

— Você parou porque eu estava olhando? — questionei quando ele envolveu


meus ombros com a toalha. — Desculpa, não quis ser invasiva. Foi a primeira
vez que toquei...

— Parei porque... — Ele inspirou e desviou o olhar para um ponto além de


mim. — Lembrei que era exatamente o que seu tio fazia. Não era? Masturbava-
se na sua frente?

Quê? Abri e fechei a boca, mas uma emoção muito forte tomou conta de
mim e abracei Pietro com força, encostando meu rosto em seu peito e inspirando
seu cheiro másculo.

— Eu amo você — falei e joguei os braços no pescoço dele, obrigando-o a


me segurar no colo. Quando meus lábios tremeram, foi impossível controlar o
choro. — Amo você. Nem lembrei da existência de Lorenzo, só estava
hipnotizada pelo seu coiso.

— Isso não a incomodou? — Ele franziu a testa e enxugou meus olhos, com
uma carinha muito preocupada. — Porque fiquei mal assim que me dei conta do
que estava fazendo...

— Não — respondi, alisando o cabelo dele. — Você é tão bonito... Eu gosto


de reparar em você.

— Por que o choro então?

— Porque fiquei feliz em ver como se preocupou com isso. — Dei um


selinho nele e o abracei mais, envolvendo sua cintura com minhas pernas.

Nós começamos a nos mover, percebi quando o Don caminhou até onde
minha camisola tinha caído e a levantou com o pé, jogando-a para o alto e
segurando com uma das mãos. Se eu tentasse aquilo, tropeçaria e cairia de cara
no chão.

— Você acha que eu não me preocuparia? — Ele sorriu, entrando comigo em


casa, completamente pelado. Será que fazia parte de sua rotina andar daquele
jeito? — Para sua informação, é com você que me preocupo sempre que acordo,
bambina. Sabe por quê?

Subimos a escada que levava ao andar superior e o movimento foi fazendo


meu corpo roçar mais no dele. O pênis de vinte e um centímetros não se deixava
ser esquecido.

— Porque dou muito trabalho? — perguntei, mordendo o lábio.

— Também. — Ele riu e beijou meu braço. — Mas, principalmente, porque a


amo.

Eu podia morrer naquele exato instante que ficaria feliz. Não me declarei
para ele esperando ouvir o mesmo em resposta, porque nunca passou pela minha
cabeça que ele um dia me diria aquelas palavras. Eu era um casamento de
conveniência, afinal de contas. Amava Pietro porque era obcecada por ele desde
cedo.

— Ama do tipo que a gente ama macarronada? Ou como amamos um dia


bonito, um passeio de barco...

— Amo como homem, principessa. — Beijou a ponta do meu nariz ao me


colocar no chão, diante da porta do meu quarto.

Minhas costas grudaram na madeira da porta quando Pietro me pressionou


ali, tomando minha boca com pressa e apertando meus peitos sem nem pedir
licença. Pronto, ia voltar a derreter... De pé, fora da água, era mais difícil
sustentar o corpo, já que meus joelhos pareciam gelatina.

Ele brincou com meus mamilos no mesmo ritmo que brincava com minha
língua e que bom que minha calcinha já estava ensopada da piscina.

Quando recuou, desci os olhos para o pênis enorme que ficava muito mais
ereto do que qualquer viga de concreto e deixei escapar um suspiro. Queria
esticar a mão e tocá-lo mais uma vez, mas me contive.

— Não posso dormir com você? — perguntei.

— Hoje? De jeito nenhum — negou, esfregando a nuca e me matando ao


tocar a ponta do membro. — Você já me deu material suficiente para as punhetas
do próximo mês.

— Pois eu não tenho material nenhum. — Cruzei os braços, provocando.

— Ah é? — O Don segurou meu rosto e se inclinou, dando um selinho em


mim. — A gatinha gosta de se masturbar?

Engoli em seco e apenas neguei com um gesto de cabeça, quase a ponto de


perder a respiração. Aproveitei e deslizei minhas mãos pelas costas musculosas e
as levei até a bunda. Ah, caralho! Que bunda! Que bunda dura pra cacete!
Apertei com gosto, horrorizada com minha atitude, mas adorando aquilo.

— Deite na cama, feche os olhos... — sussurrou em meu ouvido, enquanto


dava uma reboladinha contra mim. — Acaricie seu corpo, abra as pernas...
Explore essa bocetinha carnuda por mim... Imagine minha língua deslizando por
ela...

— Ai...

Ele deu um tapa na minha bunda que me fez dar um pulo de susto e me
apertou com seus dedos.

— Imagine-se de quatro para mim, proporcionando-me a vista mais linda de


todas: esse rabinho e sua boceta...

— Oooook — disse, recuando e apontando um dedo para ele, que sorria


orgulhoso por me deixar desconcertada. — Chega, vai dormir. Vou lavar sua
boca com água sanitária qualquer dia desses.

O sorriso dele aumentou quando andou de costas na direção do seu quarto,


massageando seu pênis de forma bem pornográfica e mordendo o lábio.

— Quem brinca com fogo, acaba queimado — falou antes de se virar e


entrar, fechando a porta na minha cara.

Entrei no meu quarto meio que me arrastando e esfregando uma perna na


outra e correndo para o banheiro.
PIETRO

Ah, caralho. Eu estava muito apaixonado por essa menina. Cada vez que
tentava digerir essa informação, ficava à beira de um colapso de nervos.
Apaixonado? Não que eu fosse filho da puta e pretendesse tratar Giovanna como
uma mulher qualquer depois de casado. Eu tinha nutrido carinho por ela ao
longo dos anos, mesmo que nosso contato fosse escasso. Mas a proximidade dos
últimos dias intensificou meus sentimentos.

Não consegui dormir, mesmo depois de tomar um banho demorado, gozar


com a sensação de frustração por mais uma vez ter fodido somente a minha mão
e deitar o mais relaxado que aquele sentimento permitia. Para piorar, ouvi um
barulho no corredor e vi quando minha maçaneta foi mexida. Giovanna tentando
invadir meu quarto.

Gargalhei, evitando fazer muito barulho e agradecendo por não esquecer de


trancar a porta. Parecia coisa de covarde, mas eu não tinha estruturas para lidar
com ela na cama, sem poder tocá-la. Acabaria passando dos limites de novo e
entraríamos naquele tipo de situação que a deixava desconfortável.

Peguei meu celular e mandei uma mensagem de texto para a diabinha.

“Tem alguém muito animadinha ainda?”

“Você é um cretino, Don Pietro.”

Sorri, cruzando meus pés ao me esticar mais na cama. Coloquei um braço


sob a cabeça e digitei com uma só mão.

“Para ser justo, eu tenho sido um anjo com você. Mas esses peitinhos...
Ah... Quase me fizeram perder a cabeça por completo hoje.”

“Eles não são tão pequenos para serem chamados de peitinhos.”

“Meu amor, isso é só uma forma de tratá-la com gentileza, mas se preferir,
posso mudar para meu modus operandi [23]tradicional. Suas tetas são
espetaculares.”

Sentia prazer em falar de um jeito mais cru com ela, porque sabia que a
deixava envergonhada. O rosto vermelho ficava uma gracinha quando escutava
uma sacanagem. Uma pena que na piscina a escuridão não me deixou ter essa
visão privilegiada.

O celular tocou e a mensagem seguinte de Giovanna era somente um emoji


revirando os olhos, o que me fez sorrir.
“Tão puritana para umas coisas e tão safada para outras. Pare de tentar
invadir meu quarto e vá dormir. É uma ordem.”

“Tá louco? Não estou tentando entrar aí. Pare de se achar a última
bolacha do pacote.”

Ainda por cima, era dissimulada.

“Acha que não notei você tentando abrir a porta, gatinha?”

“Pietro, tá falando sério? Eu tava dormindo quando me mandou


mensagem.”

Giovanna não teria motivo para negar o que fizera. E, por isso, um alerta
arrepiou meu corpo. Sentei na cama e puxei a arma sob o travesseiro,
destravando-a ao me levantar. Antes de sair do quarto, digitei uma mensagem.

“Abra a porta assim que ouvir três batidas.”

Girei minha maçaneta com cuidado, sendo o mais silencioso possível e saí
por uma pequena fresta da porta. O segundo andar da casa era dividido em duas
alas. Um primeiro corredor que dava acesso à escada, onde ficava meu quarto, os
dois de hóspedes — sendo um deles o de Giovanna — e o quarto de Enzo, à
esquerda do meu. Então o corredor dobrava numa curva e dava acesso a outro,
que nada mais era que uma ligação entre as duas alas. Ele era ladeado por um
guarda-corpo de vidro, sendo possível ver uma boa parte do primeiro andar. No
corredor além dele, ficava o quarto principal, de meus pais.
Podia ter virado para a esquerda e chamado por Enzo, para averiguar se
minha mãe estava bem. Mas meu coração me fez seguir para o quarto de
Giovanna. Dei as três batidas na porta e ela se abriu. Nem dei tempo que
piscasse antes que eu entrasse e trancasse a porta novamente.

— Que foi? — Ela estava de calcinha e sutiã, apenas.

— Prometa que não foi você quem mexeu na minha porta. — Andei pelo
quarto e abri o armário, onde as poucas roupas estavam jogadas de forma
displicente.

— Não fui eu, prometo.

Jogue um vestido na direção dela e comecei a usar o telefone.

— Vista-se — pedi enquanto ouvia o toque da chamada, até que Enzo


atendeu. — Alguém tentou entrar no meu quarto. Você está bem?

— Sim, estava dormindo. Isso é sério?

— Estou com Giovanna, vamos passar aí em dez segundos.

Desliguei e quando a olhei, estava pálida, já com a roupa no corpo. Segurei


sua mão e beijei seus dedos enquanto caminhava de volta até a porta.

— Tentaram mesmo entrar no seu quarto?

Levei meu dedo indicador à boca e pedi por silêncio, abrindo a porta com o
mesmo cuidado e conferindo o caminho. Então, envolvi a cintura dela e a tirei
dali com pressa até o quarto de Enzo. Ele abriu na primeira batida e saímos em
direção ao de minha mãe.

Assim que fizemos a curva para o corredor seguinte, o quarto, como ficava
bem no final, estava a uns quinze metros de distância. E o homem de costas,
vestido de preto com capuz cobrindo o rosto, virou-se no instante em que nós o
vimos.

Três armas atiraram ao mesmo tempo e eu consegui jogar Giovanna para trás
de mim, bloqueando seu corpo com o meu enquanto descarregava quase toda a
minha Glock no infeliz. Enzo fez o mesmo e ele não teve tempo de atirar pela
terceira vez. Nós não errávamos.

Senti meu ombro arder com o tiro que pegou de raspão e me aproximei no
instante em que minha mãe abriu a porta. De início, parecia assustada e não era
para menos, levando em consideração que o tiroteio foi diante do quarto dela.
Mas ao constatar que os filhos estavam vivos, lançou um olhar para o corpo
caído e o empurrou com a ponta do pé para passar por cima.

Enzo se abaixou e retirou o capuz que cobria a cabeça do traidor, fazendo-


nos perder o fôlego; era Alessandro, o homem que foi consiglieri de meu pai por
quase uma vida inteira. Estrebuchando, mas ainda vivo, ele esticou um braço na
minha direção.

— Perdoe-me... — falou, cuspindo muito sangue. — Eles... minha família...

— Não só tentou entrar em meu quarto, como veio até o de minha mãe, seu
filho da puta. Estou cagando para a sua família.

Sabendo ter economizado a munição justamente para aquilo, mirei e atirei


em sua testa.

— Eu realmente estou surpresa — disse mamma, ajeitando o cabelo


desgrenhado, encarando o defunto. — Alessandro, meu Deus. Seu pai o
considerava quase como um irmão. Como isso tudo aconteceu?

Antes que eu pudesse responder, sons de passos correndo pelo corredor fez
com que eu me virasse. Logo vi Carlo e outros seguranças vindo em nossa
direção, parecendo surpresos com a cena. Eles nunca suspeitariam do consiglieri
entrando em nossa casa no meio da noite, visto que assuntos de extrema urgência
não tinham hora para serem discutidos.

— Don Pietro, o que houve? — Carlo exibia uma expressão digna de quem
tinha caído da cama, ainda estava descalço.

Olhei ao nosso redor e me dei conta de que Giovanna não estava em lugar
nenhum. Dei um passo à frente com a intenção de ir atrás dela e pisei em algo
molhado. Algumas gotas do que parecia ser urina tinham pingado no
porcelanato.

— Pietro, você precisa ver esse ferimento! — Ouvi minha mãe reclamar
quando deixei todos para trás. — Pietro!

Deixei que os outros se preocupassem com a retirada do corpo e abri a porta


do quarto onde minha noiva ficava. Ouvi o barulho do chuveiro e fui até o
banheiro, sem realmente entrar.

— Giovanna? Está tudo bem?

— Aham — gritou ela. — Estou tomando um banho rápido.

Fui me sentar na cama, mas antes parei de frente para o espelho que ocupava
a parede ao lado das janelas e encarei meu reflexo. Tinha deixado algumas gotas
de sangue pelo caminho e meu corpo também estava sujo. O tiro de raspão
pegou bem na curva do ombro e abriu um corte de dois ou três centímetros na
pele. Não era profundo, mas fazia sujeira.

Giovanna saiu do banheiro usando outro vestido e quase desmaiou quando


olhou para mim. Vi o sangue fugir do seu rosto quando arregalou os olhos e
correu de volta para o banheiro.

— Merda! — xingou lá dentro e saiu com uma toalha. — Precisamos chamar


uma ambulância!

Prendi a risada quando ela pressionou o pano contra meu ferimento, fazendo-
me sentir a dor que antes não estava sentindo.

— Foi de raspão, vou sobreviver — avisei, segurando a toalha por conta


própria antes que ela arrancasse meu braço. — Não preciso de hospital.

— Ficou louco? Tem uma cratera no seu braço e precisa levar pontos. —
Puxei-a pela mão até me sentar e colocá-la de pé entre minhas pernas. — Vou
ligar e...

— Pare — interrompi, segurando suas coxas. — Temos médicos na famiglia


que cuidam dessas situações e alguém já deve ter sido chamado. Quero que você
se acalme e respire.

— Quer que eu me acalme? Ok, eu me acalmo quando você matar todos


esses infelizes! — Ela colocou as mãos na cintura e suspirou. Em seguida, tapou
o rosto e se curvou na minha direção, apoiando o corpo no meu. — Eu acabei de
fazer xixi nas calças por ter visto você ser baleado. Não entendo droga nenhuma
de tiros, achei que ele estivesse te matando!

Sorri com a revelação, alisando seus braços. Não ia trazer o assunto da urina
à tona porque imaginei que a deixaria desconfortável, mas jamais cogitei que
aquela reação tivesse sido por causa do que sofri. Tinha pensado que Giovanna
ficou tão assustada com o tiroteio a ponto de perder o controle da bexiga. Era
uma situação corriqueira em casos do tipo, principalmente quando a pessoa
ficava à beira da morte. Já vi muito marmanjo barbudo defecar antes de morrer.

— Mas estou bem, bambina — disse, sentindo suas unhas fazerem um


carinho bom em minha nuca. — Agora, preciso descer e resolver isso. Durma
um pouco.

— O cacete que eu vou dormir! — Ela ajeitou a postura e passou os dedos


nos olhos lacrimejados. — A partir de agora, quero ficar por dentro de tudo. E se
tentar me enrolar ou me tratar como criança, vou torcer seus vinte e um
centímetros até implorar para que eu pare. Ah, e quero aprender a atirar para
ontem!

Estremeci com aquela ameaça. Mulher, quando queria, sabia pegar pesado.
Como eu prezava muito a integridade física do meu pau, levantei e dei espaço
para que ela passasse primeiro pela porta.

GIOVANNA

Amanhecia quando consegui deitar e fechar os olhos. Durante toda a


madrugada, a mansão Greco foi palco de discussões acaloradas e um entre e sai
de gente que eu nem conhecia. Tudo porque Pietro ordenou que todos os
caporegime fossem imediatamente para lá, ignorando o horário bem avançado.

Como ninguém desobedeceria a uma ordem de um Don que tinha acabado de


ser baleado num ato de traição dentro de sua própria casa, o restante da noite foi
bem movimentado.

Não participei da reunião a portas fechadas dentro do escritório, mas ele


prometeu que me deixaria a par de tudo. Fiz companhia a senhora Greco, que
estava tão revoltada quanto eu pelo acontecido e concordamos que Pietro estava
muito novo para morrer.

Eu me sentia naquele limbo entre a consciência e o estado sonolento quando


o movimento em meu colchão me fez abrir os olhos.

— Volte a dormir — Pietro pediu, deitando-se ao meu lado e se esticando


todo. Ele estava vestido com roupas informais, uma bermuda cáqui e camiseta
branca, deixando um pedaço de pele à mostra ao dobrar os braços sob a cabeça.
— Também preciso fechar um pouco os olhos.

Eu que não era boba nem nada, aproveitei a oportunidade. Não era todo dia
que o Don se jogava na minha cama todo serelepe. Bem, na verdade, ele estava
mesmo quase caindo no sono e eu imaginei que o analgésico estivesse fazendo
efeito. Arrastei-me pelo colchão até grudar meu corpo no dele e toquei o
curativo.

— Está com dor? — perguntei, vendo-o negar. Deitei a cabeça no peito dele
e apoiei minha mão em sua barriga, sentindo sua respiração tranquila. — Como
foi a reunião?

— Proveitosa. — Seu braço envolveu minhas costas e ele depositou um beijo


casto no topo da minha cabeça. — Dei logo a notícia geral, sobre Salvatore e,
agora, Alessandro. Foi interessante observar algumas reações.

— Acha que há mais traidores? Dois foram descobertos, quantos podem


existir, afinal?

— Não sei, mas não dá para esperar que eles se revelem. Tenho que seguir
meus novos planos.

— Matar Lorenzo e Domenico.

— Hm... — Pensei em algo inteligente para falar, mas eu mal conseguia


manter meus olhos abertos e deixei que minha mente fosse preenchida pela
letargia gostosa que antecedia o sono.

Acordei com o quarto ainda escuro por causa das cortinas grossas e me
espreguicei na cama. Ao esticar a mão, descobri que o espaço que antes era
ocupado pelo corpo grande e maravilhoso de Pietro agora se encontrava vazio.
Em compensação, havia um pedaço de papel sobre o travesseiro.

Precisei sair, mas adoraria ter te acordado com uns beijos nessas pernocas.
Você é tão bonitinha dormindo, pena que babou meu braço todo.

Seu Don.

Ah, meu Deus! Li e reli, só para ter certeza que o bilhete tinha sido escrito
mesmo por Pietro.

SEU DON.

SEU.

DON.

Surtada, rolei na cama, gargalhando. Até que agarrei o travesseiro usado por
ele e o cheirei como um cachorro que farejava o dono. Perdi a noção de quanto
tempo fiquei ali, decorando cada palavra escrita naquela letra difícil.

Quando saí do quarto, quase uma hora depois, dei de cara com algumas
malas colocadas diante da minha porta. Olhei pelo corredor para ver se havia
alguém por perto, os Grecos podiam ter recebido algum hóspede novo. Mas, elas
estavam bem na frente do meu quarto. Sendo assim, puxei o zíper da primeira e
vislumbrei tecidos que eu conhecia muito bem. Minhas roupas!

— Ah, glória! — Trouxe uma mala de cada vez para dentro e me sentei no
meio delas, abrindo uma por uma e quase chorando de emoção ao ver meus
estimados itens pessoais. Tinha muita coisa ali. Muita mesmo!

Apoiei no colo um short jeans branco que eu amava muito e sentia tanta
saudade dele em meu corpo. Puxei um macaquinho de seda preta, que eu
adoraria usar para Pietro babar, porque ele era bem curto e o tecido fino sempre
entrava na bunda. Deixei-o separado sobre a cama para usar de noite e voltei às
malas.

Uma hora e meia depois, levantei e olhei em volta. Ninguém que entrasse no
quarto conseguiria andar por ali. Não havia mais espaço no chão porque eu tinha
espalhado todas as minhas coisas. Peguei meu celular, tirei uma foto do cenário e
mandei para Pietro.

Tô tão feliz! Obrigada!

Estava louca para receber a resposta, porque passava meus últimos dias
assim, aguardando por qualquer tipo de atenção que ele dispensava a mim. Tinha
me tornado uma viciada.
PIETRO

Meus homens esvaziaram o quarto de Giovanna na casa da família dela,


onde o bosta do tio havia se instalado. Usei a desculpa de pegar os pertences da
italianinha como uma forma de ter acesso ao local, sem precisar realmente
entrar.

Fui informado de quantos seguranças perambulavam pelos jardins e interior


da casa, bem como da localização do cômodo que o infeliz usava como
escritório. Eu entrara poucas vezes na residência, foram duas ocasiões, para ser
exato. Uma quando Giovanna nasceu e fui arrastado até lá contra a minha
vontade, para ter que olhar um bebê remelento enquanto meus amigos faziam
qualquer coisa mais interessante. Eu estava no auge da minha adolescência, só
queria saber de beijar na boca e programar a saída para a próxima festa na casa
de alguém, onde eu pegaria alguma menininha assanhada. Elas sempre se
assanhavam para cima de mim.
Voltei pela segunda vez num aniversário dela, acompanhado da minha mãe e
alguns seguranças. A italianinha estava vestida de bailarina, era risonha e agitada
ao lado das amigas. Ainda assim, eu estava ali apenas por obrigação, pensando
em tudo de mais interessante que poderia estar fazendo aquela noite.

Suspirei com as lembranças, tamborilando os dedos no punho da arma.


Esperava que todos se preparassem para invadirmos, pois se tinha uma coisa que
eu estava louco para fazer, era chutar a cabeça de Lorenzo de uma vez por todas.
Não agiria mais cheio de tato, não havia mais nenhuma necessidade disso.
Àquela altura, Don Negri já sabia sobre Salvatore ou Alessandro não teria se
dado ao trabalho de tentar me assassinar.

Durante meu encontro com o pai de Nero, não consegui informações exatas
sobre os infiltrados na Soprattuto. Mas quando deslizei a ponta de uma navalha
pela bochecha dele, fazendo um corte em círculo e puxando a pele lentamente,
enquanto ela desgrudava do músculo, o bastardo não aguentou a dor. Soltou a
informação que eu pedia desde que cheguei ali: qual era papel de Lorenzo dentro
da Dita di Ferro.

— Estão todos posicionados, Don Pietro — Carlo avisou ao abrir a porta do


carro e colocar a cabeça para me olhar. — Posso dar a ordem?

Sem olhá-lo, abanei a mão como resposta e ele se retirou novamente. Alguns
carros cantaram os pneus ao acelerarem para tomar a dianteira e nós também
entramos em movimento assim que Carlo retornou.

Ao meu lado, sentia a ansiedade de Enzo se tornar quase um objeto palpável.


Ele balançava as pernas num tique nervoso, com a arma em punho descansada
sobre uma coxa. Passei meu braço sobre seus ombros e ele virou o rosto para
mim.

— Dá tempo de ficar no carro — falei, um pouco preocupado com o


nervosismo dele. — Não vou achá-lo mais ou menos homem se não quiser
participar disso.

— Não sou covarde. — Ele se desvencilhou do meu abraço.

— Lógico que não, você é um Greco. Mas é meu irmão mais novo, não
consigo não me preocupar com seu bem-estar. Fora que mamãe arrancaria
minhas bolas se eu voltasse para casa com o caçulinha dela arranhado.
Nós dois rimos porque sabíamos que era a mais profunda verdade. Enzo era
o bibelô de dona Giulia, que parecia não enxergar o homem crescido que tinha
como filho. Lembro até hoje do dia em que ela encontrou uma camisinha no
bolso do jeans dele e quase enfartou, querendo saber quem era a sirigaita que
tinha tirado sua inocência. Não estou exagerando quando falo da forma protetora
como ela o trata. Enzo tinha dezenove anos quando o episódio da camisinha
aconteceu. Que tipo de mãe espera que o filho de dezenove anos ainda seja
virgem?

Balancei a cabeça, controlando minha risada. Meu irmão se virou no banco,


apoiando um braço no encosto e me encarando de novo.

— Escuta, desculpa mesmo por aquelas babaquices que falei sobre a


Giovanna. — Franziu os lábios e desviou o olhar. Esperei, querendo saber até
onde ele chegaria. — Eu só... Sei lá. Você me deixou aqui e confiou o comando a
mim, achei que precisasse dizer umas sacanagens para mostrar um pulso firme.
Você sempre gostou de falar de mulheres...

— Giovanna nunca foi uma mulher qualquer — respondi, apertando o ombro


dele. — Mas eu já o desculpei e nem tinha mais pensado nisso.

— Agora eu sei que ela não é. Giovanna é bacana, gosto dela.

A conversa precisou ser interrompida porque paramos na esquina da casa da


minha noiva e saímos com pressa do carro. Antes de entrar de cabeça na missão,
esperei Enzo saltar e o puxei para um abraço. Dei um tapinha em suas costas e o
beijei no rosto, alisando seu cabelo de playboy.

— Te amo, garoto — falei.

— Sabe que está todo mundo olhando essa viadagem, né? — murmurou ele,
suspirando. — Mas ok, também te amo.

— Que todo mundo se foda! — Eu o soltei e levantei meus braços, girando


num círculo para olhar a cara dos filhos das putas dos meus homens. — Vai ficar
todo mundo parado com tanta gente lá dentro esperando para ser morta?

Inclinei o corpo para dentro do carro e puxei minha belezura. Eu não era uma
pessoa neurótica por armas. Normalmente, andava com minha Glock para cima e
para baixo. Básica, eficiente, fácil de carregar e manusear. Era discreta. Porém,
momentos especiais pediam armas especiais. Acariciei o cano da Remington
870, uma espingarda que usei poucas vezes na vida, mas que tinha limpado e
lustrado há uns dias, imaginando usá-la com Lorenzo. Dava um certo prazer
ouvir o barulho, sentir a pressão do coice de um calibre 12.

Tudo aconteceu em segundos desde que saltamos do carro. Dei as ordens e


todos correram pelos cem metros até a residência, dando início ao tiroteio que
parecia um musical para meus ouvidos. Enquanto ocupávamos o pessoal que
trabalhava no portão, outros se dirigiram à entrada de serviços que era menos
vigiada.

Atacando pelos dois lados, conseguimos entrar no terreno da família Mancini


em menos de dois minutos. Ajeitei o colete desconfortável sob a camisa
enquanto mirava algumas cabeças pelo caminho. Como Lorenzo era um filho da
puta que jogava dos dois lados, ele mantinha alguns poucos seguranças que,
aparentemente, desconheciam a situação. Esses se jogavam no chão com as
mãos na cabeça e não tive coragem de ordenar suas mortes.

— Destaque alguns homens para olhar os reféns! — gritei para Ferdinando,


que respondia diretamente a Carlo e já nos acompanhava há alguns anos.

Sem esperar, corri para o interior da casa junto com mais de trinta soldados,
deixando pelo menos uns dez para trás, cuidando das coisas na área externa. E
não tinha contado nenhuma baixa entre os meus.

— LORENZO! — berrei, mexendo na espingarda e a deixando preparada


para o próximo alvo.

Tiros soaram ao meu redor, mas olhei em volta, observando a escadaria


branca à nossa frente. Fui presenteado com uma visão espetacular de Carlo, lá no
alto, com sua pistola grudada na nuca de Lorenzo. Ele obrigava o covarde a
descer, vestindo apenas cueca.

— É assim que o consiglieri da Dita di Ferro se apresenta para uma reunião


com outra famiglia? — perguntei, alisando minha 12.

Pela sombra que cobriu os olhos dele, percebi que eu o surpreendera ao


mostrar que havia descoberto seu segredo. Consiglieri. Mas que bom filho de
uma puta arrombada. Minha vontade era escalpelá-lo, mas precisava ser
paciente.
— A que devo a honra, Don Pietro? — perguntou ao pisar no último degrau,
guiado por Carlo.

— Para ser sincero, você não vale porra nenhuma para mim. Só está vivo
porque vai ligar para seu chefe e avisá-lo que estou aqui, doido para bater um
papo com ele.

Lorenzo mostrou todos os dentes num sorriso cínico que me irritou.


Observei, pelo canto do olho, que meu irmão estava parado bem ao meu lado,
com sua arma em punho.

— Acha que Don Negri virá apenas para saciar sua vontade? — Ele abriu os
braços, sem desviar os olhos dos meus. — Sou um Dita, seu fedelho. É preciso
mais que isso para tentar me assustar.

Sorri. Mas sorri com vontade, com uma felicidade indescritível correndo por
minhas veias. Dei dois passos à frente até estar tão próximo que podia sentir o
hálito dele em meu rosto. Tinha um leve toque de álcool.

— Acho que você não está entendendo. Quando eu começar, vai desejar
morrer pelas mãos de seu próprio chefe — avisei, num tom bem ameaçador. —
Minha noiva me contou histórias extraordinárias sobre o tempo que passou ao
seu lado. Na sua cama.

Ah, ali estava. Que delícia. Ele não fazia ideia de que Giovanna tinha me
contado tudo. Então, sua expressão finalmente se modificou e pude enxergar o
terror em seus olhos. Até respirei fundo, sentindo um desejo incontrolável de ser
capaz de farejar o medo de uma pessoa.

Recuei de volta ao lugar e segurei a mão de Enzo, pressionando o dedo dele


contra o gatilho e atirando num dos pés de Lorenzo. Ele gritou, mas devia ficar
satisfeito por não ter sido com minha espingarda.

— Carlo, chame um médico e enfaixe esse pé — pedi. — Não quero que ele
morra rápido.

Dei as costas ao infeliz, girando minha Remington na mão, feliz como não
ficava há um tempo.

— Alguém sabe como estancar uma hemorragia após decepar o pau de uma
pessoa? Descubram isso e me tragam a bolsa de utensílios! Vou dar uma volta
pela casa.

Estava no meio do quarto de Giovanna há mais de dez minutos, tentando


absorver cada detalhe. Encarei as paredes pintadas de preto pela décima vez, sem
acreditar que alguém como a Giovanna que eu conhecia pudesse ter feito aquilo
de propósito. Parecia uma caverna, apesar do tamanho generoso. Os móveis
ainda indicavam a decoração de adolescente que, provavelmente, a própria mãe
teria idealizado. E, talvez, ela não tivesse autonomia suficiente para trocá-los.
Era tudo confuso e nada combinava com nada.

Aproximei-me de um quadro de fotos acima da bancada de computador e


notei que as poucas fotografias que estavam ali eram de seus pais. Não havia
nenhuma dela ou de amigos. O quarto era desprovido até mesmo de enfeites,
qualquer coisa que denunciasse algum traço de sua personalidade tão marcante.
Além das paredes pretas.

Suspirei e me sentei na cadeira giratória com o assento de couro rasgado. A


bancada possuía duas gavetas e as abri, procurando por algo que pudesse levar
para ela além das fotos. As roupas, sapatos e outros tipos de pertences mais
importantes tinham sido levados, mas vi que muita coisa ficara para trás.

Encontrei alguns papéis dobrados e, curioso, peguei para ler. Meu coração
parou uma batida ao constatar que se tratavam de cartas que ela tinha escrito
para os pais mortos. Olhei na direção da porta e me ajeitei para ler a primeira.

“Oi pai.

Parabéns! Espero que esteja comemorando onde estiver, mesmo que eu não
saiba se a gente continua fazendo aniversário depois que morre. Eu espero que
sim, porque não consigo pensar em nada mais triste do que deixar de ganhar
presente.

Hoje tô sentindo muita saudade, pai. Tô tentando ser forte, mas tem dia que
é mais difícil. Queria ser aquela garotinha que cabia em seu colo e dormia
abraçada quando chovia muito forte. Sei que a mamãe ficava irritada, mas nem
ela conseguia resistir por muito tempo e acabava se enroscando na gente.
Lembra?

Tem dia que a vontade de me juntar a vocês é grande, mas no fundo, sou
covarde. Acho que não teria coragem. Sabe? E também consigo ouvir seus
xingamentos e ameaças só por ter pensado alguma besteira.

Me ajuda, pai. Manda algum sinal pra mim, mesmo que seja em sonho, só
pra avisar que as coisas vão melhorar. Não aguento mais...

Te amo pra sempre.

Gigi.”

Larguei a carta sobre a bancada e me inclinei para frente, sentindo meu nariz
pingar. Porra. Enxuguei meu rosto com as costas da mão e me recostei de novo,
respirando, buscando ar, procurando pela minha sanidade. Funguei a merda da
coriza em meu nariz e juntei todas as cartas, sem coragem de ler mais uma.

Enquanto passava o tempo para poder sair do quarto sem estar com os olhos
vermelhos, guardei tudo numa caixinha que encontrei. Ainda remexi de novo na
gaveta e puxei uma cartela de comprimidos, sentindo-me tenso com o que
poderia ser. Pelo que Giovanna escreveu na carta, ela chegou a cogitar tirar a
própria vida, mas eu esperava que fossem apenas palavras ao vento.

Digitei no celular o nome do medicamento e o resultado da busca me


surpreendeu mais do que se fosse cocaína. Tratava-se de uma pílula do dia
seguinte. E a cartela estava vazia. Tão inocente e sem suporte nenhum, devia
achar que o tio poderia engravidá-la com as coisas que fazia com ela. Restava
saber quantas vezes Giovanna tinha tomado remédios como aquele, sem se
medicar, sem imaginar que fazia tão mal para o organismo.
— Don Pietro — a voz de Carlo me puxou de volta à realidade e guardei o
remédio no bolso da calça. — Achei que estivesse mesmo aqui. Vim só avisar
que Don Negri chegou.

— Traga o saco de lixo — pedi, passando por ele e me dirigindo à escada.

Enquanto descia e passava pela sala de estar, ignorando Lorenzo estirado


numa poltrona com o pé enfaixado, caminhei até a porta da casa, seguido de
alguns homens.

Domenico Negri tinha acabado de pisar no primeiro degrau que o traria à


porta, indicando estar muito puto. Não que isso fosse motivo de preocupação. Eu
tinha passado a madrugada orquestrando aquela merda toda e tomando todas as
devidas precauções.

Toda a cidade estava cercada e com homens de vigília, portanto, o Don


começou a ser escoltado no instante em que colocou a cara na rua, sendo
impedido de vir com seguranças. Se ele achava que teria mesmo qualquer poder
dentro do meu território, tinha se equivocado.

— Boa tarde! — Eu o saudei, com um grande sorriso no rosto e ele estacou


onde estava. — Que bom que se juntou a nós, Don Negri. Infelizmente, não
posso dizer o mesmo desses seus dois amigos.

Dito isso, estendi a mão para o lado e Carlo abriu o saco de lixo que
segurava, sacudindo-o de cabeça para baixo e fazendo duas cabeças rolarem até
os pés de Domenico: eram de Salvatore e Alessandro.

— Seu babaca — o Don cuspiu, sem se dar ao trabalho de olhar o presente


por mais de cinco segundos. — Esse seu sorriso tem dias contados. Começando
por agora, pois enquanto nos falamos, todas as famiglias italianas estão
recebendo a cópia do documento que atesta minha paternidade. Sou pai de sua
noiva e seu contrato de merda está oficialmente cancelado. Encoste um dedo em
mim e Giovanna será caçada nos quatro cantos do planeta.

Se Domenico tivesse apontado uma arma para minha cabeça não teria me
afetado mais do que isso.
GIOVANNA

Dei uma voltinha diante do espelho e achei que estava gata. O macaquinho
era mesmo maravilhoso e o passeio de barco tinha servido para diminuir um
pouco a palidez azeda das minhas coxas. Borrifei meu perfume favorito, La Vie
Est Belle, da Lancôme e saí do quarto.

Passei uma tarde agradável ao lado da senhora Greco, por mais tensa e
ansiosa que nós duas estivéssemos por alguma notícia de Enzo e Pietro. Como a
cabeça dela também estava a mil por hora e não havia nada de muito interessante
para fazermos, acabei recebendo sua ajuda para arrumar minhas coisas. Achei
incrível que ela tenha sentado no chão para dobrar roupas ao meu lado. E fez
questão de experimentar algumas de minhas pulseiras.

Quando desci para me juntar a ela na varanda e tomarmos um coquetel, a


tarde chegava ao fim. Ocupei uma poltrona de vime branco, enquanto minha
futura sogra mantinha as pernas esticadas sobre o sofá de três lugares.
— Pedi para prepararem mimosas para nós duas — brindou quando peguei
minha taça com a bebida chique. — A nós, matriarcas Greco.

Sorri, batendo com cuidado o meu cristal no dela e bebericando o líquido


amarelo e de sabor fabuloso. Ah, meu Deus, aquilo sim era vida. Apoiei a cabeça
na poltrona e olhei o céu naquele tom de azul-marinho repleto de estrelas.

— Eu queria conversar sobre meu casamento. — Puxei minhas pernas para


cima da poltrona. — Pietro perguntou quando quero me casar e nunca parei para
pensar realmente nesse... acontecimento. É errado não querer nenhuma festa
cinematográfica?

— Errado? Você está se referindo ao seu casamento, minha querida. Tem


todo o direito de fazer do jeito que desejar. — Ela arqueou uma sobrancelha. —
Desde que eu possa estar presente.

Mordi meu lábio, receosa. Ficava insegura quando um assunto envolvia as


tradições da famiglia, porque há muito tempo eu me sentia como um peixe fora
d’água naquele quesito.

Notando minha confusão, a senhora Greco baixou as pernas e deu um


tapinha no sofá. Eu me levantei e ocupei o espaço ao lado dela, sentindo-me
estranhamente confortável quando virou de frente para mim, dobrando as pernas
de forma tão jovial como eu adorava fazer.

— Como você imagina seu casamento? — perguntou, segurando minhas


mãos.

— Ah... Gostaria que fosse uma cerimônia mais íntima e próxima da


natureza. — Era quase uma missão impossível visualizar Pietro todo elegante se
casando com os pés na areia, mas não custava sonhar. — Não me vejo entrando
numa igreja cheia de pompas ou desfilando por um salão enorme e luxuoso, com
centenas de pessoas me observando.

— Então comece a pensar nas possibilidades. Por que não?

— Porque Pietro...

— Giovanna — ela me interrompeu. — Pietro fará o que você quiser.


Franzi meus lábios. Estávamos falando da mesma pessoa?

— Não é bem assim — respondi, dando um sorriso.

— É assim, sim. Pietro é homem e vai acatar todas as suas decisões a


respeito da cerimônia, como todos os homens fazem quando o assunto é
casamento. Além disso, você não pode colocar seus desejos de lado por medo do
que ele vai pensar. Ele é um Don, querida. Se não começar a se impor, vai sumir
ao lado dele. — Fechei os olhos quando ela tocou minha testa e jogou meu
cabelo para trás, deslizando os dedos por algumas mechas. — Consigo enxergar
o temperamento forte por trás dessa sua doçura. Não é surpreendente que meu
filho tenha se apaixonado.

E então, ao dizer isso, eu a encarei. Giulia Greco arregalou os olhos e levou


uma mão à boca.

— Ops. Contei.

Eu gargalhei porque sua expressão de culpa era tudo, menos sincera. Seja lá
o que Pietro tivesse dito, a mãe não quis guardar o segredo.

— Ele se declarou ontem — revelei, vendo-a abrir a boca e fechar, antes de


esboçar um sorriso.

— Ah, graças a Deus! Isso lá é coisa que se diga e peça para guardar
segredo? — Mamma Greco piscou. — E você? Acho que corresponde ao
sentimento, não é?

— Uhum. Amo. Tô caidinha. Apaixonada. Deitada morta na estrada.

Nós duas rimos e achei a risada dela uma delícia. Aquela mulher era tipo um
ídolo para mim e eu esperava um dia ser tão foda como ela. Sendo assim, curvei-
me para frente e a abracei por impulso. Felizmente, ela retribuiu, tocando minhas
costas e beijando meu rosto.

— Tenho certeza que vocês serão muito felizes. Posso ver o quanto um
equilibra o outro.

— Obrigada, senhora Greco.


— Vou me vestir de branco no seu casamento se continuar me chamando de
senhora. — Ela se afastou para estreitar os olhos na minha direção. — Apenas,
Giulia, querida.

— Que tal... — Mordi meu lábio e sorri. — Mamma?

— Eu não poderia pensar em nada melhor do que isso. — Minha futura


sogra segurou e apertou minhas mãos. — Estarei aqui sempre para o que você
precisar e fico radiante em ver que se sente confortável em se abrir comigo.

Respirei fundo, criando coragem. Eu realmente me sentia muito bem ao lado


dela e era como se pudéssemos conversar sobre qualquer coisa que ela não me
julgaria.

— Podemos falar sobre sexo?

O sorrisinho sacana que surgiu em seus lábios me fez lembrar do sorriso de


Pietro. Quis enterrar a cabeça entre as pernas para não ser obrigada a olhar a
mulher, que devia estar pensando que sua nora era uma pervertida.

— Podemos, é claro. Se eu puder ajudar...

— É que... — Desviei o olhar e encarei a piscina. Não, péssima ideia. Piscina


teria outro significado para mim de agora em diante. — Pietro acha que eu
preciso de terapia. Aconteceu uma coisa no iate e... eu me assustei. Isso meio
que acabou com nossa noite.

— Entendo. — Mamma Greco apenas meneou a cabeça, muito contida. Ela


não me julgou, não fez troça de mim. — E o que você acha disso? Sente que é
algo que poderá superar sozinha, sem ajuda?

Pensei em nós dois na noite anterior, quando ele admitiu que estava louco
para me tocar. Tive medo de que investisse como fez no iate.

— Talvez... Mas não tenho certeza. Tudo conspira contra mim. Tem os
traumas, a minha inexperiência e, bem... Acho que depois do casamento eu não
terei mais como fugir.

Giulia estalou a língua e lembrou que sua mimosa estava esquentando em


cima da mesa de centro. Ela se esticou, deu um gole na bebida e a colocou de
volta no lugar antes de segurar meu rosto com as mãos.

— Não é porque se casarão que Pietro vai forçá-la a algo que não queira
fazer. E, sim, acho que a terapia pode ajudar. No mínimo, você vai tirar um
tempo para bater papo com uma pessoa que sabe lidar com seus traumas.

Começaria a procurar uma psicóloga assim que voltássemos para Nova York.
Pediria ajuda de Pietro para conseguir indicações, mas a decisão final seria
minha. Teria que ser alguém com quem eu me sentisse à vontade no instante em
que nos cumprimentássemos ou eu não poderia fazer aquilo.

Passei a próxima hora conversando sobre amenidades com a senhora Greco e


bebendo mimosas geladinhas. Podia ser sempre assim, mas eu sabia que, em
algum lugar, meu noivo estava manuseando uma arma e isso deixava meu
coração pesado.
PIETRO

Meu estômago embrulhado era consequência da bomba que Domenico


soltou sobre minha cabeça. Não tinha nada a ver com o que fizera a Lorenzo.
Não, com esse a diversão tinha sido garantida.

Entrei num estado de negação com a revelação do chefe da Dita di Ferro,


então simplesmente o deixei ali, sabendo que não iria a lugar algum cercado de
tantos homens. Sua confissão inflamou a raiva que eu sentia do tio de Giovanna,
que agora eu nem sabia mais se era mesmo tio. Quer dizer, não era. Se
Domenico estivesse falando a verdade, Giovanna não era sangue de Lorenzo.

Foi com aquele pensamento que eu o arrastei pelo pouco cabelo até o
escritório, com Carlo dando um empurrãozinho e cutucando suas costelas com a
arma de vez em quando. Joguei o infeliz numa cadeira e parei diante dele.

— Estou sentindo uma felicidade incomum, sabia? — Arregacei as mangas


da minha camisa e mexi na bandeja cheia de brinquedos que colocaram sobre a
mesa. — Acabei de descobrir que Giovanna é filha de Domenico Negri. Quem
diria! Agora não preciso mais temer matar o último parente vivo que ela tem.

— Giovanna teve sorte por nunca ter sido arrombada por mim. Ao contrário
da mãe dela, que foi a putinha de Domenico por muitos anos.

— Não fale de uma mulher que não está aqui para se defender. Até porque
pouco me importa as relações extraconjugais de outras pessoas.

A risada dele soou sarcástica e eu me virei para encará-lo.

— Extraconjugais? Vou contar uma história. — O infeliz se ajeitou na


cadeira e tentou aprumar o corpo o máximo que conseguia. — A mãe de Stefania
era uma puta traficada que engravidou de um cliente e deu à luz a mãe de sua
noiva. Ela cresceu sendo fodida por Domenico e quando o pai dele decidiu se
infiltrar na Soprattuto, todo o histórico dela foi remodelado para que se tornasse
uma esposa perfeita para o imbecil de meu irmão. Ele era cego pela famiglia, por
Don Enrico e, óbvio, ficou cego de amor por uma mulher bela como Stefania.
Caiu como um pato.

Não tinha a pretensão de ficar conversando com Lorenzo, mas não podia
recusar informações preciosas como as que ele tinha para me oferecer. Por isso,
cruzei meus braços diante dele e perguntei:

— E onde você entra nessa história? Já entendi que seu irmão foi um trouxa
enganado por anos.

— Eu sobrei. — Ele deu de ombros. — O escolhido para o golpe foi meu


irmão, eu fui apenas abordado e convidado a passar para o lado de cá.

— Stefania era da Dita di Ferro?

Ele abriu um sorriso orgulhoso.

— Sim. Sua noivinha é uma infiltrada desde a barriga da mãe. O que posso
fazer se Stefania gostava mais do pau de ferro de um Dita? Sabia o que era bom
e juro que por muito tempo eu quis mostrar para Giovanna também.

Antes de usar qualquer objeto nele, decidi sentir o contato da minha pele
com sua cara. Quis poder extravasar minha raiva no infeliz que tanto fizera
sofrer a mulher que eu amava. E com o punho fechado, soquei seu rosto. Agarrei
seu cabelo e soquei de novo, sem deixar que a cabeça de Lorenzo se mexesse
para não perder muito tempo. Soquei mais uma vez, fazendo seu nariz sangrar.

— Você nunca... — outro soco — mais vai tocar... — outro soco e seus
dentes banharam-se em sangue — numa mulher novamente.

Soltei Lorenzo e sua cabeça pendeu para frente, de forma que filetes de
sangue escorressem em direção ao chão. Ouvi sua risada grotesca enquanto abria
e fechava minha mão, alongando meus dedos.

— Morrerei tranquilo... — Cuspiu um dente. — Nunca quis outra mulher


além de Giovanna. Vê-la estremecer de medo quando eu gozava sobre aquela
bundinha, na coxa macia... Ouvir seu choro baixo ao meu lado na cama, quando
achava que eu estava dormindo... Isso tudo me dava tesão.

Meus dedos se fecharam ao redor de um bisturi e me virei para ele,


observando-o de costas. Segurei a ponta de sua orelha esquerda e a arranquei por
inteira, deixando que berrasse de dor.

— Quer continuar contando o que mais você gostava de fazer? — perguntei,


jogando a orelha no colo dele e dando a volta para arrancar a outra, sem me
importar com o sangue em minhas mãos. — Lógico que suas bolas deixarei por
último. Ah! Já sei! Lembrei de Giovanna dizer que você a tocou algumas vezes
com seus dedos imundos.

Eu não conseguia mais compreender o que ele dizia em meios aos gemidos
de dor e murmúrios que imploravam qualquer coisa que não me interessava.
Girei sua cadeira e a empurrei até a mesa, esticando a mão direita sobre ela.

— Carlo, uma ajudinha aqui, por favor. — Meu segurança agarrou o braço
do filho da puta, que se debatia como um covarde. Marco Salvatore, pelo menos,
demonstrou muito mais coragem. — Como não sei qual dedo você usava, vou
cortar os quatro principais, tudo bem?

Óbvio que não decepei todos ao mesmo tempo porque seria um sofrimento
só de uma vez. Optei por fazer de um em um, degustando daqueles gritos
horripilantes.
Estava prestes a cortar o mindinho quando Domenico apareceu na porta, sem
se importar de ter cinco armas apontadas para a cabeça.

— Mas que merda é essa? — perguntou, parecendo horrorizado. — Você


está tentando bater algum recorde grotesco, Don Greco?

— Não costumo ser assim. — Limpei a lâmina na camisa. — Mas venho


sonhando com cada detalhe dessa reunião há algum tempo. Tive chance de
idealizar muitas coisas.

— Qual seu problema com meu consiglieri, seu filho da puta?

Franzi meus lábios e olhei de um para o outro. Lorenzo tinha entrado em


choque, eu acho, pois os gritos cessaram e ele parecia fora do ar.

— O quê? Por acaso você não sabia que o escroto abusava da sua filha? —
perguntei, curioso. — Não que eu espere algum tipo de moralidade de sua parte,
mas ser conivente é um pouco pesado, não acha?

Meu erro foi ter feito aquela revelação sem pensar nas consequências, porque
tão logo terminei de dizer as palavras, o rosto de Domenico ganhou uma
coloração avermelhada pela ira que o tomou. Ele se aproximou com pressa e
apertou a garganta de Lorenzo em pontos estratégicos, despertando-o do choque.

— Acorde! Diga que não é verdade! — Don Negri gritou com ele e eu não o
parei porque estava curioso.

O bastardo abriu os olhos, sorriu e encolheu os ombros.

— Ela é... gostosa — murmurou.

Domenico me lançou um olhar tomado de pavor e arrancou da minha mão a


faca que eu usei para cortar os dedos do homem. Tão rápido quanto uma piscada,
ele cravou a lâmina no peito de Lorenzo e a deslizou para baixo, abrindo-o em
diagonal.

— Ah, que ótimo. Eu não tinha terminado — murmurei, frustrado.

Como não estava com vontade de me banhar em sangue e não dava para
evitar a morte rápida depois de um corte profundo de trinta centímetros, retirei-
me do escritório, mas antes de sair virei mais uma vez para Don Negri, que
agora cravava a faca no pescoço de Lorenzo.

— Corte o pau dele por mim. Bem. Devagar. — Ainda o observei guiar a
ponta afiada e pressioná-la na base de seu pau. Para os seguranças que tinham
acompanhado Domenico até ali, avisei: — Deixem que termine de brincar e,
depois, escoltem-no para fora da cidade. Sem pressa, pois preciso ganhar tempo.

Por mais que eu desejasse testemunhar a vida se esvair do corpo do


molestador, precisava ser responsável. Chamei Carlo e expliquei que tínhamos
que ir embora o mais rápido possível. Ter a companhia do Don para vingar a
honra de Giovanna não significava que estávamos dando uma trégua. Eu não
tinha dúvidas de que sua ameaça sobre o casamento não tinha sido da boca para
fora. Se o documento de paternidade existisse mesmo e fosse verdadeiro, ele
teria sim, direito de anular o contrato, já que ela não respondia legalmente por si
mesma. E o pior: se Don Negri quisesse me foder a vida, podia estabelecer um
novo contrato com qualquer outro Don, de qualquer outro lugar. E Giovanna
escaparia por entre meus dedos num piscar de olhos, porque uma coisa era
comprar briga com a Dita. Outra bem diferente era enfrentar todas as seis
famiglias da máfia italiana. Domenico não era casado, portanto, minha noiva não
competia com outros filhos. Bastarda ou não, eu tinha certeza que choveria
propostas de casamento para a herdeira da Dita di Ferro.

GIOVANNA

Parei de beber quando senti que mimosas eram pura enganação. Elas tinham
aquele gostinho leve e delicioso de verão, mas quando você menos esperava,
puxavam seu pé e te derrubavam no chão, rindo da sua cara de besta por ter
achado que não se embebedaria. Bem, eu ainda não estava bêbada. Só desinibida
o suficiente para idealizar uma dança sensual para Pietro quando ele chegasse.

A senhora Greco estava lendo um livro e seu cabelo esvoaçava com a brisa
daquele início de noite quente. Eu me levantei e fui me deitar numa
espreguiçadeira para curtir o céu incrível que se desenhava sobre nós. Quando
estava em Nova York senti muita falta de poder levantar os olhos e conferir o
azulão, as estrelas brilhantes, o frescor da minha terra natal.
— Ah, graças a Deus! — Virei o rosto ao ouvir a mamma e meu coração
acelerou com a chegada dos homens.

Levantei e alisei meu macaquinho que ganhara alguns vincos e me aproximei


de Giulia enquanto observávamos os carros pretos estacionarem.

— Bem que a senhora falou que eles não perderiam a hora do jantar —
comentei, vendo-a sorrir e balançar a cabeça. — Que timing!

Sentia-me animada, mas meu sorriso murchou quando vi Pietro descer do


carro. Ele entrou pelo jardim, com uma expressão de derrota que me arrepiou até
o último fio de cabelo. Carregava uma espingarda, estava muito sujo de sangue e
colecionara olheiras sob os olhos. Que merda teria acontecido?

— Meu figlio! — Minha futura sogra foi abraçá-lo, enchendo o rosto dele de
beijos.

Enzo apareceu em seguida, tão abatido quanto o irmão, porém, sorriu para a
mãe, coisa que Pietro nem isso conseguiu fazer. Ele passou por ela e veio na
minha direção, largando a arma sobre uma cadeira, olhando em meus olhos
como se eu fosse uma gota d’água no deserto. Não resisti e pulei no colo dele,
lançando minhas pernas ao seu redor e ele me segurou automaticamente.

Nossos lábios trocaram um selinho, o máximo que eu conseguia fazer diante


de uma carranca como a que ele exibia.

— Está tudo bem? — perguntei, com a boca colada em seu ouvido.

— Não. — Afastei o rosto e o encarei. A senhora Greco se aproximou e


tocou o braço dele, mas não conseguiu desfazer nosso contato visual. — Vamos
partir em uma hora. Junte o que conseguir o mais depressa possível.

— O quê? — a mãe dele grasnou ao meu lado, tão confusa quanto eu. —
Pietro, o que está acontecendo?

— Eu... — Arregalei meus olhos, em choque. De tudo que ele poderia dizer
ao chegar em casa, aquilo era o mais inesperado. — Não estou entendendo.

— Mãe, não se meta — Enzo pediu, tocando as costas da senhora Greco e


tentando tirá-la dali. — Vamos lá dentro.
— Pietro Fillipo Greco. — Ela se esquivou do caçula e colocou as mãos na
cintura. — Fale.

— Deixarei que Enzo explique tudo por mim — disse ele, virando o rosto
para olhá-la. — Enquanto isso, preciso falar a sós com Giovanna.

Sem dar chance para que alguém retrucasse, meu noivo saiu me carregando
para dentro de casa e eu estreitei o abraço em seu pescoço.

— Está me deixando com medo, Pietro.

Ele respirou profundamente, sem nada dizer. Entrou comigo no quarto e me


colocou no chão, fechando a porta em seguida e se encostando nela, sem tirar os
olhos de cima de mim. Meu coração parecia que sairia pela boca num soluço. Eu
não era tão boba como podiam achar. Sabia que desgraças aconteciam o tempo
todo e conseguia ler um pouco da expressão em seu rosto. O que ele tinha para
me dizer era algo muito, muito ruim.

— Não surte.

— Difícil controlar qualquer emoção com todo esse suspense — admiti,


sentindo minhas mãos suarem. — Se você não desembuchar logo, vou ter um
treco aqui.

— Não sei como falar isso sem que a deixe muito confusa, mas diante da
situação e urgência em tirar você da Itália... — Ele respirou fundo e esfregou as
mãos no rosto. Quando voltou a me olhar, a ponta da língua apareceu entre os
lábios. Há um tempo vinha notando que fazia isso quando parecia tenso. —
Domenico Negri talvez seja seu pai biológico e, por isso, nosso acordo
matrimonial perde a validade se ele assim quiser.

As palavras que deixaram sua boca eram tão erradas e estranhas que eu
pisquei e continuei ali, tentando assimilar o que ele dissera. Como é? Meu noivo
franziu a testa e deu alguns passos para diminuir a distância entre nós. Sua testa
grudou na minha e me vi o encarando, piscando, sem ter o que dizer.

— Desculpe jogar a informação desse jeito, bambina.

— Meu... pai? — Seus polegares deslizaram pelas minhas bochechas.


— Vou responder todas as suas perguntas quando estivermos voando. Por
favor, arrume suas malas. — Ele olhou em volta e me soltou, passando uma mão
no cabelo. — Carlo está cuidando das minhas coisas, então acho que posso me
ocupar das suas. O que quer levar?

Eu continuava parada no mesmo lugar, com medo de me mexer e desabar.


Pietro, no entanto, parecia com energia por nós dois. Ele rodou no quarto até
encontrar as malas e puxar duas delas, deitando-as no chão. Começou a guardar
as roupas que eu tinha passado a tarde toda pendurando no armário, e as jogava
dentro das malas de qualquer jeito.

— Lorenzo está morto, Don Negri terminou o serviço que eu comecei. Ficou
claro que seu... Domenico nunca soube das coisas que seu tio, que não é seu tio,
fez a você. — Ele parou, com o corpo curvado para frente, apoiando as mãos nos
joelhos. Parecia ter virado estátua por alguns segundos e quando achei que ele
pudesse ficar para sempre naquela posição, ajeitou a postura e voltou a juntar
minhas roupas. — A história da sua família daria um livro, mas acho melhor
esperar para contar tudo. Nem eu consegui assimilar direito ainda. Você quer
levar seu notebook?

Meu Deus, Pietro tinha enlouquecido ou eu não estava conseguindo


compreender droga nenhuma? Meu peito doía, apertava, pulsava, pausava.
Quando senti que não desmaiaria, caminhei com cuidado até a cama e me sentei
na beira do colchão. Meus olhos focaram meus pés pálidos e com o esmalte
descascado.

Ao piscar, uma lembrança me atingiu em cheio: papai me ensinando a nadar.


As boias da Pequena Sereia cercavam meus bracinhos magrelos e eu gargalhava
enquanto ele me erguia no ar, para me lançar de volta na piscina. O meu
passatempo favorito ao lado dele era tomar banho de piscina, porque suas
brincadeiras eram as melhores. Eu me sentia como se fosse a Ariel e, ele, o Rei
Tritão.

— Meu pai morreu — achei estranha a frase e só então me dei conta de que
tinha sido eu a dizer aquilo.

Continuava olhando para meus dedos com esmalte rosa, mas pés masculinos
entraram no meu campo de visão e meus olhos se desviaram para o rosto acima
do meu.
— Está atônita, eu entendo — disse Pietro, com um vinco no meio da testa.
Tinha sangue seco no pescoço e em vários pontos da camisa. Além dos braços.
As mãos, pelo menos, estavam limpas. Devia carregar álcool em gel dentro do
carro. — Mas por favor, tente me escutar. Preciso que você reaja e venha
comigo.

— Don Pietro. — Alguém estava parado na porta do meu quarto e ao piscar


um pouco, descobri se tratar de Carlo. — Tudo pronto, só falta vocês.

— Leve as malas dela. — Dedos se entrelaçaram aos meus. — Vamos, Gio?

Não sabia para onde iríamos, mas levantei quando ele incentivou. Seu braço
ao redor da minha cintura era acolhedor e eu pensei que iria mesmo para
qualquer lugar que Pietro indicasse.

Descemos a escada e lembrei de quando eu pulava nas costas do meu pai e


ele ia de degrau em degrau meio que dançando, meio que rebolando, até
chegarmos ao primeiro andar de nossa casa. Só me soltava quando parávamos
diante da mesa de café da manhã.

— ... ainda hoje. — Olhei para Pietro, que apertou minha mão e deu um
sorriso fraco. Não entendi o que estava dizendo, mas balancei a cabeça.

— Pietro, pare. — Minha futura sogra apareceu diante de nós com os braços
cruzados e uma expressão de quem colocaria fogo no nosso rabo se déssemos
mais um passo. Enzo surgiu em seguida, mas não parecia perigoso como a mãe.
— O que está fazendo?

— Enzo ainda não contou?

— Sim, ele contou. Estou perguntando o que você está fazendo. Fugir com
Giovanna não vai resolver os problemas.

— Estamos fugindo? — pisquei, sentindo que tinha perdido alguma coisa.

Ele largou minha mão e recuou, esfregando o rosto vermelho e andando em


círculos. Como meus joelhos não estavam muito firmes, andei até uma poltrona
e me sentei, buscando um pouco mais de fôlego porque a cada minuto minha
falta de ar aumentava.
— O que mais posso fazer? — disse ele, olhando para o próprio peito e
começando a se despir da camisa suja. — Deixar que Don Negri leve Giovanna
com ele? Sabe que será leiloada para o lance mais alto.

— Não sabemos isso, figlio.

— Ele parecia bem puto, mamma. — Meu cunhado se meteu. — Tenho que
concordar com meu irmão.

— Vamos casar. Antecipo o casamento para amanhã, que seja. Caso em


qualquer lugar.

— Se a informação que recebeu for verdadeira, a autorização de Francesco e


Stefania pode ser anulada pelo pai biológico.

Meus olhos doíam e pesavam por ter que acompanhar a conversa,


intercalando olhares entre um e outro. Parecia um embate. Pietro se curvou como
fez no quarto, com as mãos nos joelhos. Quando se ergueu, esfregou o peito.

— O que vale é que o contrato está assinado pelos pais dela. Pais na época,
no caso. O nome de Francesco é o que consta na certidão dela.

— Francesco está morto! — A senhora Greco aumentou o tom de voz e


esticou o braço na minha direção. — E agora ela pode ter um pai vivo, que pode
correr atrás da guarda dela e terá esse direito.

Três pares de olhos me encararam e deixei meu corpo afundar um pouco na


poltrona confortável.

— Mãe, entendo que a senhora esteja nervosa. — O filho segurou o rosto da


mãe e essa suspirou. — Eu tenho a autorização dos pais dela e, assim que nos
casarmos, Giovanna se tornará emancipada automaticamente. Domenico pode
até conseguir anular o casamento em algum momento, mas a emancipação não
será revogada.

— E desde quando a Dita di Ferro faz qualquer coisa baseada na lei, Pietro?
Se esse homem quiser separar vocês dois, seja Giovanna emancipada ou não, ele
vai fazer. Temos que tentar entender o que Rinaldo Negri tinha em mente quando
quis infiltrar Stefania e...
— Mamma! — o Don a cortou e os olhos da matriarca caíram sobre mim.

Por que o nome de minha mãe tinha sido citado? E meu pai... Don Negri não
era meu pai. Meu pai era Francesco Mancini. Respirei fundo, levando uma mão
ao coração. Isso tudo que eles estavam falando não podia ser verdade. Mas, se
não era, por que parecia que alguém enfiava a mão em minha cavidade torácica e
esmagava meu órgão com a intenção de fazê-lo parar de bater?

PIETRO

Não precisava ser bom observador para ver que Giovanna não estava nada
bem. O olhar perdido, o rosto pálido, ombros caídos e, então, ela se debruçou
sobre o braço da poltrona que ocupava e vomitou no chão. Aproximei-me para
segurar seu cabelo, puxando um elástico enrolado no pulso dela e o usando para
fazer um rabo de cavalo.

— Sei o que estou fazendo, mamma — disse para tranquilizá-la, enquanto


esfregava as costas de Giovanna e tentava acalmá-la também.

A verdade? Eu não tinha ideia se o que estava prestes a fazer era realmente a
melhor saída. A única certeza que havia impregnado no fundo da minha alma era
que não deixaria ninguém mais tocar naquela garota.

Quando notei que tinha parado de vomitar corri até o banheiro e umedeci
uma toalha na pia. Fiz com que se virasse para o outro lado e agachei de frente
para ela, passando a ponta da toalha em sua boca. Notei as lágrimas acumuladas
nos olhos azuis e sabia que ela estava a ponto de explodir.

— Vamos embora? — perguntei baixinho, alisando sua pele gelada.

— Querido, seja racional, por favor. A partir do instante em que fugir com
uma menor de idade, Don Negri tentará colocar todos contra nós. — Senti as
mãos de minha mãe pesarem em meus ombros. — Sei que está pensando com o
coração e eu tenho Giovanna como uma filha, mas não seria melhor tentar
resolver tudo diretamente com Domenico? Convide-o para uma reunião aqui em
casa, deixe que ele e Giovanna se conheçam. Fugir e se esconder só vai
complicar tudo, para todos nós.

Respirei fundo para não perder a cabeça com minha própria mãe e minha
noiva afastou minhas mãos ao se levantar com dificuldade. Ela caminhou para
longe do vômito e empinou os ombros, com os lábios pressionados.

— Eu... não vou — disse ao me olhar, esfregando uma mão na outra. —


Não... não posso deixar que sua família corra perigo por minha causa.

— O quê? — Que Deus me desse paciência. E tempo.

— A senhora Greco tem razão, Pietro. De que adianta eu ficar a salvo se...
se... ele pode descontar em outras pessoas?

Giovanna lançou um olhar triste na direção de minha mãe e Enzo e entendi


que ela temia pela vida deles. Também olhei para eles, mas o meu estava
carregado de raiva. O discurso de Giulia não me afetara, mas tinha servido para
colocar porcarias na cabeça confusa da menina.

— Não se preocupe conosco — Enzo deu um passo à frente e colocou um


sorriso no rosto. Apertei o ombro dele, grato por conseguir me compreender. —
Saia daqui com Pietro e deixe que a gente resolva o que vier.

— Não! — Ela recuou, erguendo as palmas das mãos. — Não quero ter que
carregar essa culpa depois. Eu... preciso ir no banheiro.

Observei Giovanna dar meia volta e sumir pelo corredor, com a mão na boca.
Como minha nuca latejava muito e a pressão em meu peito estava incomodando,
sentei-me no sofá ao lado das portas da varanda e me recostei. Fechei os olhos
por uns segundos, tentando colocar a cabeça em ordem.

— Meu filho, você está sem cor. — Senti a mão delicada de minha mãe tocar
minha testa e suspirei. — Enzo, pegue minha maleta de medicamentos na
segunda gaveta do armário em meu banheiro.

— Estou bem — murmurei, irritado. — Não tente criar motivos para me


prender aqui, mamma.

Tentei levantar, mas ela me empurrou e manteve a mão em meu peito. Ao


abrir meus olhos, vi que sua expressão indicava o quanto estava magoada e eu
odiava saber que era o culpado pelo seu atual estado de espírito. Toquei a mão
dela e a guiei até meu coração.

— Amo a senhora, amo Enzo, amo Giovanna. E, no momento, ela é quem


mais precisa de mim. Não há mais ninguém para esse papel. Não pode querer
que eu deixe Don Negri levá-la para a Calábria.

Parei de falar quando Enzo retornou com a caixa de tamanho avantajado e


uma grande cruz vermelha desenhada. Mamma tirou uma aparelho de pressão lá
de dentro e começou a aferir a minha, mesmo com minhas reclamações.

Esfreguei a testa, cansado, com a dor de cabeça aumentando gradativamente


e louco para sair dali. Quando Giovanna apareceu de novo na sala, ela arregalou
os olhos na nossa direção e se aproximou com pressa.

— O que houve? Você está passando mal?

— Não.

— Sim! Pietro, sua pressão está 16 por 10! — minha mãe elevou a voz
enquanto começava a guardar o aparelho.

Sorri, afastando-a com o máximo de gentileza que era possível afastar uma
mulher e me levantei.

— Nada que um remédio não resolva.

— Você está louco! Tem lidado com problema atrás de problema, não está
dormindo direito, provavelmente não vê um consultório médico há muito tempo
e se estressou demais hoje. Enzo, chame nosso médico.

— Não vou esperar porra de médico nenhum, mãe. — Olhei Giovanna e a


encarei com firmeza. — Qual sua decisão? Não vou arrastá-la para outro
continente contra sua vontade. Já teve sua cota de pessoas a obrigando a fazer
coisas que não queria.

Quando os olhos dela desviaram para os de minha mãe e, depois, para Enzo,
achei que Giovanna fosse desistir e querer ficar. E eu não estaria preparado para
receber aquela resposta, porque sabia que talvez não a conseguiria manter longe
das garras da Dita. Não desejava entrar em confronto com Don Negri tendo
minha noiva no meio do fogo cruzado.

Meu único pensamento era levá-la para os Estados Unidos, lugar onde sabia
que Domenico não tinha acesso por causa de seu histórico. Se um dia ele pisasse
novamente em território americano, não demoraria muito para que o FBI o
engolisse e o homem sabia disso.

Depois de encarar minha família, ela trouxe os olhos para cima de mim e
pressionou os lábios. Engoli em seco, sentindo-me um adolescente esperando ser
chamado para uma dança no baile de formatura. Quando Giovanna deu um passo
à frente e esticou a mão para mim, respirei aliviado e envolvi meus dedos nos
dela.

— Confio mais no seu julgamento do que no meu — murmurou, lançando


um olhar de desculpa para os outros.

— Sua saúde, Pietro... — Mamma estava quase chorosa quando segurei seu
rosto e a beijei na testa, colando a minha na dela.

— Levarei um médico comigo, fique tranquila. Darei notícias assim que


possível, ok? — Puxei Enzo pela nuca e o beijei no rosto. — Tome conta da
casa. Ainda é meu subchefe.

— Sou?

— Claro que é. E deixo por sua conta escolher seu consiglieri até meu
retorno. Escolha alguém de sua mais inteira confiança, mio fratello. Ocupe
minha cadeira e seja meus olhos durante esse tempo.

Ele afastou o rosto para me olhar e depois me abraçou apertado, dando tapas
nas minhas costas. Esfreguei seu cabelo e o soltei de uma vez.

— Não o decepcionarei novamente — falou, com a voz embargada e eu


sabia que Enzo odiava demonstrar seus sentimentos.

— Não espero menos que isso. Amo vocês dois. — Beijei a mão de
Giovanna e a puxei para fora de casa, passando por Carlo e vendo que nos
seguia.

— Eu vou matar você se morrer por causa de hipertensão. — Giovanna,


andando apressada ao meu lado, apertou minha mão. — Já basta que estou me
cagando de medo dessa porra toda.

— Gatinha, você já está vomitada e mesmo assim ainda quero me casar


contigo. Sou o não sou o cara mais fofo do mundo?

Enfiei-me no carro logo atrás dela e dei a ordem de partida. Na pressa,


alguns automóveis cantaram os pneus pela noite italiana e sons de armas se
destravando foram ouvidas dentro do carro. Que Deus protegesse qualquer um
que entrasse no nosso caminho.
GIOVANNA

Dizer que eu estava surtando era bobagem. Gritava internamente a cada dois
minutos, mas por fora mantinha a aparência de alguém que está plena a caminho
do jatinho. Não queria, por enquanto, ser mais motivo de preocupação para
Pietro porque tinha medo que o homem tivesse um treco de repente. Eu devia ter
obrigado o cabeça dura a engolir um comprimido de sua mãe, mas nem isso
consegui fazer.

Suspirei e estiquei um pouco as pernas, sem desviar minha atenção das ruas.
Em algum momento, sabia que precisaria digerir o novo detalhe da minha vida:
ser filha de Domenico Negri. Seria mesmo verdade? Virei o rosto de lado e
observei o Don de olhos fechados e cabeça deitada no encosto do banco. Ele não
estava bem.

Aliás, nós dois não estávamos bem. Se o demônio em pessoa fosse mesmo
meu pai, minha vida tinha se complicado muito. Eu nem entendia como essa
informação não tinha balançado Pietro. Caso tenha sido afetado de alguma
forma, não estava demonstrando. Em nenhum momento me olhou com raiva ou
nojo, nem decepção.

A Dita di Ferro não era apenas comandada por um homem inescrupuloso.


Ela era extremamente poderosa, pois seu poder socioeconômico era muito vasto.
Estava enraizada na maçonaria e nos diversos ramos políticos, além de contar
com famílias em vários países da América do Sul. Ninguém queria se meter com
a Dita. Ninguém comprava briga com ela. Don Negri era procurado pelos quatro
cantos do mundo e, mesmo assim, mantinha-se intacto como um fantasma. Se
considerasse a soma do seu tamanho com seu poder e riqueza, ela só perdia para
a máfia russa, a maior do mundo.

Busquei meu celular dentro da bolsa e liguei para Nero. Precisava saber
como ele estava, mas minha cabeça andava tão cheia que nem para fazer uma
ligação eu conseguia me concentrar direito. O número dele chamou, chamou e
torci para que me atendesse, mas a ligação caiu. Digitei uma mensagem e
guardei o aparelho.

“Por favor, quero muito saber como você está. Fala comigo, Nero!”

— Para quem ligou? — Levei um susto. O filho da mãe estava de olhos


fechados, como sabia que eu tinha usado o celular?

— Para Nero. Estou preocupada com ele.

— Soube que a mãe o levou para fora do país, com medo de mais alguma
represália — disse meu noivo, virando o rosto e me encarando.

— Isso não é motivo para ele não me atender.

— Seu futuro marido matou o pai dele, bambina. Acho melhor não esperar
que a amizade de vocês continue a mesma de antes.

— Mas era um traidor... — Funguei, chateada demais. A sensação de ter sido


culpada pela morte do senhor Salvatore ainda pesava muito no meu coração e eu
tentava encontrar razões para o que aconteceu.
— Sim. — Pietro balançou a cabeça. — Mas era o pai dele. Pelo que você
me contou, Nero não se envolvia com os negócios da família. Isso torna ainda
mais difícil para que ele compreenda que a morte do pai estava prevista em
nossas leis. — Ele passou um braço pelos meus ombros e puxou meu corpo para
colar no seu. Apoiei meu queixo em seu braço e o olhei. — Como está essa sua
cabecinha?

— Estou mais preocupada em saber se você não vai morrer por causa dessa
pressão alta.

— Não sou hipertenso, isso é só um quadro isolado.

— Don Pietro — quando Carlo atrapalhou nossa conversa, meu noivo ficou
imediatamente alerta e se inclinou para frente, soltando-se de mim. — O carro
dois informou sobre três automóveis bloqueando a próxima rua. Trata-se de Don
Rizzo. Devemos seguir outro caminho?

— Não, mantenha o mesmo. — Pietro ajeitou-se no banco e alisou meu


cabelo. — Don Rizzo é o chefe da Canara.

— Não sou uma completa idiota, sabia? Conheço os nomes das máfias e seus
atuais chefes. A propósito, Carlo, será que você pode emprestar o paletó para
ele? Por mais que eu goste de ver todos esses músculos, acho que Don Rizzo não
vai curtir muito.

O segurança obedeceu prontamente e meu noivo não recusou minha ideia.


Porém, quando ele vestiu o blazer preto que Carlo usava, tive que prender uma
risada. O segurança era mais alto, porém, não era musculoso como Pietro. As
mangas cobriram parcialmente as mãos do meu noivo, mas estavam tão justas
que se ele levantasse os braços, rasgaria o tecido.

— Tenho certeza que agora estou impondo muito respeito.

Revirei meus olhos e ignorei a malcriação. Não demorou para que


virássemos na esquina seguinte e o carro diminuísse a velocidade enquanto nos
aproximávamos do bloqueio. Pietro só usava SUV’s esportivas, mas Don Rizzo
preferia os carros mais clássicos, como o Alfa Romeu que mais parecia de
colecionador.

O homem estava parado à frente dos veículos, cercado por cinco seguranças.
Era um senhor de mais de setenta anos, baixo, muito magro e calvo. Feio, mas o
tipo de pessoa que não metia medo em ninguém. Eu sabia que Pietro estava
tranquilo em relação àquela abordagem porque a Canara era uma antiga aliada
da Soprattuto, de se relacionarem até mesmo em alguns eventos mais fechados.
Era a máfia que comandava tudo em Nápoles, onde estudei por um tempo.

— Fique no carro — pediu o Don ao saltar e se aproximar a passos


apressados do outro.

Permaneci na companhia do motorista, pois Carlo acompanhou Pietro e me


frustrei por estarmos a uma distância que me impediria de ouvir a conversa.

De longe, vi os dois se cumprimentarem com os beijos no rosto que não


chegavam a alcançar a pele e começaram a gesticular. Mal se passaram dois
minutos antes que Pietro retornasse ao carro, tentando inutilmente fechar um
pouco o paletó apertado. Ele abriu a porta e colocou só a cabeça para dentro ao
me olhar.

— Venha aqui fora por um instante. — Esticou a mão e eu a segurei, com um


pouco de medo. O que o velho queria comigo? Como se pudesse ouvir meus
pensamentos, meu noivo apertou meus dedos e roçou a boca em minha orelha.
— Ele está curioso, quer vê-la depois de crescida.

— Pietro, eu tô com bafo de vômito... — sussurrei ao me apoiar na porta


aberta.

Contra todas as possibilidades, ele praticamente enfiou o nariz em meus


lábios e cheirou. Horrorizei-me com a situação e tapei minha boca com medo
que ele a escancarasse.

— Nem dá para notar. — Piscou. — Eu até beijaria se não estivéssemos no


meio de uma fuga.

Realmente, o maluco devia estar muito apaixonado por mim.

— Você confia mesmo nele?

— Sim.

Ao pararmos diante de Don Rizzo, ele arqueou as sobrancelhas e sorriu.


Puxou as mãos que estavam nos bolsos do sobretudo e estendeu uma para mim,
com a palma virada para cima.

— Você é a cara de sua mãe. Prazer, sou Don Rizzo, criança.

— Sei quem o senhor é. — Sorri, um pouco sem graça quando ele beijou
meus dedos e me soltou, voltando as mãos ao lugar de antes.

— Sempre achei muito grande a diferença de idade entre vocês. Nunca


acreditei que fosse mesmo nascer algum sentimento disso. Sente-se bem ao lado
de Don Greco, criança? — perguntou ele, observando-me com os olhos
acinzentados e me incomodando ao me chamar como se eu tivesse cinco anos.
Apenas confirmei com a cabeça e Pietro passou o braço ao redor do meu corpo,
puxando-me e beijando minha cabeça. O velho, então, voltou a atenção para meu
noivo. — Sabe que está comprando uma briga feia, não sabe? Nenhum de nós
quer a Soprattuto comandando a Dita no futuro. Não é do interesse de ninguém
as duas maiores famiglias se unificarem, Don Greco.

— Não tenho o menor interesse na Dita. Sequer concordo com a forma como
vivem.

— Sua alegação se torna inválida a partir do momento que você se case com
esta moça. — Don Rizzo encolheu os ombros e pegou um chapéu da mão de um
de seus seguranças, ajeitando-o na cabeça. — Por consideração à aliança de
nossas famiglias desde a geração dos meus avós, tranquilizo-o com a certeza de
que não entrarei nessa disputa. Mas não posso falar pelos outros. A cabeça da
menina já está a prêmio.

Estremeci e acho que só não desmaiei porque o braço de Pietro me apertava


o corpo. Se a informação também o deixou abalado, o filho da mãe nem
demonstrou. Parecia impenetrável. Ele apenas esticou a mão para tocar o ombro
do velho e sorriu.

— Obrigado pela fidelidade. Não esquecerei, Don Rizzo.

— Desejo sorte aos dois. — Ele meneou a cabeça para mim antes de se
voltar para entrar no carro. Mas quando se sentou, abriu o vidro traseiro e
colocou a cabeça para fora, completando: — Se querem meu conselho, casem-se
o quanto antes e gerem logo um herdeiro. É o único jeito dos sanguessugas
desistirem de desposar sua noiva.
Um... o quê? O velho queria que eu tivesse um filho? Tipo, logo, quando? Se
consegui resistir ao desmaio antes, agora não podia dizer o mesmo.

PIETRO

O par de olhos azuis me fitou e me flagrou enquanto a observava dormir,


esticada no sofá da aeronave. Sorri, torcendo para que se sentisse um pouco
melhor e afastei alguns fios de cabelo de sua testa.

— Ainda falta muito? — perguntou baixinho, espreguiçando-se.

— Umas duas horas. Pretendia acordá-la só quando estivéssemos prontos


para pousar.

Giovanna se sentou e esfregou os olhos sonolentos, conferindo a cabine onde


estávamos. Eu tinha puxado o sofá para que virasse uma cama de casal e fechei a
porta que tornava aquela área mais reservada do restante do jato. Na outra
cabine, os dez seguranças aproveitavam o tempo para relaxarem em poltronas
tão confortáveis quanto.

— Você melhorou? — Seu olhar me escrutinou à espera da resposta. — Já


mediu a pressão de novo?

— Ela baixou e eu estou bem, fique tranquila. Apenas a dor continua. —


Inclinei a cabeça e levei uma mão à nuca com o desconforto. Um dos seguranças
que Carlo trouxe conosco tinha feito um curso de enfermagem e sabia manusear
um aparelho de pressão. A minha havia normalizado há uma hora, mas a
enxaqueca me consumia, assim como as dores musculares. Estava desejando
muito a calmaria do meu apartamento e meu colchão de quatro mil dólares.

Como estava sentado na beira do sofá-cama, Giovanna se ajoelhou e me


obrigou a virar de costas para ela. Suas mãos pousaram em meus ombros e me
fizeram suspirar com o toque.

— Posso cuidar um pouco de você? — Ela passou os braços pelo meu


pescoço e se encostou em mim ao beijar meu rosto. — Idade é um problema. Dá
defeito em uma coisa e o resto começa a pifar junto.

Tive que rir, mesmo sentindo o toque dela ganhar uma pressão diferente da
qual tinha me acostumado.

— Adoraria mostrar que nem tudo nesse corpo está pifando.

— O quê? Sua língua?

— Falar de sexo não vai ajudar a dissipar minha tensão — avisei, sem evitar
sorrir.

— Quem leva as coisas para o lado sexual é você, safado.

Suspirei quando seus dedos tocaram um ponto sensível e dolorido, deixando


o ar escapar lentamente pelo nariz. A italianinha podia não saber cozinhar, mas
entendia alguma coisa de massagem.

— Onde aprendeu a fazer isso? — indaguei, curioso. Não era qualquer


pessoa que conseguia colocar a pressão certa nas mãos e encontrar os pontos
principais a serem aliviados.

— Meu pai... hm... quando adoeceu eu passei a fazer massagens nele.


Primeiro comecei só com o pretexto de passarmos mais tempo juntos, mas
quando vi que realmente o fazia bem, aprendi o máximo possível assistindo a
vídeos na internet.

— Sério? Isso foi incrível de sua parte. — Virei um pouco o rosto para ela e
notei que lágrimas silenciosas escorriam de seus olhos. — Ele deve ter muito
orgulho de você.

Giovanna me soltou e tapou o rosto, caindo no choro e fazendo os ombros


balançarem. Puxei-a para um abraço e inspirei contra seu cabelo com cheirinho
de morango. A sensação de impotência era grande demais, por não saber se um
dia ela conseguiria juntar todos os seus cacos.

— Eu nem sei mais... se ele era meu pai mesmo.

— Ele a criou, amou, educou. O título de pai é muito mais do que um


simples nome na certidão, bambina. O que importa é o que você sente e o que
sentiu por todo o tempo que passaram juntos.

— Eu sei... — Ela levantou o rosto e deu um sorriso tímido, passando as


costas das mãos pelos olhos. Então se levantou para pegar a bolsa sobre o
aparador que tomava a parede oposta e tirou um frasco pequeno de dentro. —
Ok, deite aí e tire a camisa porque vou fazer a melhor massagem da sua vida.

— O que é isso na sua mão?

— Silicone. — Ao notar minha expressão de incredulidade, abriu o vidro e


espirrou um pouco na palma. — Na falta de creme hidratante ou óleo de
massagem, o silicone também desliza bem. E uso no cabelo, prometo que não é
tóxico.

— Vai passar silicone de cabelo em mim?

Giovanna revirou os olhos e me empurrou de bruços no sofá. Senti suas


pernas roçarem as laterais do meu corpo e me controlei para não ficar excitado,
pensando naquele corpinho montado em mim.

— Sinceramente, para quem sai por aí arrancando dedos, você está muito
fresco por causa de um silicone. Talvez eu devesse ocupar a cadeira de Don.

Gargalhei e deitei a cabeça sobre meus braços. Eu amava aquela mulher.

— Acho que você pode fazer o que bem entender. Porra! — Um gemido
insano escapou pela minha boca quando as mãos de Giovanna fizeram pressão
na altura do meu cóccix e subiram até o início das minhas costelas, causando-me
um arrepio sinistro. Sem me dar tempo de respirar, ela repetiu o movimento e me
tremi todo. — Cazzo!

— A senhora Greco o proibiu de dizer palavrões por muitos anos e, por isso,
você os usa tanto agora?

— Falar palavrão é libertador. — Joguei minha mão para trás e acariciei o


joelho dela. — Experimente. Fale um “caralho”.

— Eu não.

— Que tal... filho da puta?


— Eu sei falar palavrão, Pietro. Só não acho necessário usá-los a cada cinco
palavras ditas.

Ri, sentindo-me cada vez mais relaxado. A italianinha era boa mesmo na
massagem e eu estava no paraíso, com o rosto esmagado contra o couro.

— Há palavrões insubstituíveis. Por exemplo, como você diria: caralho, seu


filho da puta arrombado?

O corpo sobre o meu estremeceu e ela não conseguiu prender a risada. Seus
dedos apertaram o osso logo abaixo da minha nuca e ela se inclinou, fazendo
com que as pontas do cabelo roçassem minhas costas.

— Caramba, seu filho da mãe com um orifício muito flácido.

— Você é péssima, Giovanna. — Sorri, fechando um pouco meus olhos. —


Estou ansioso para vê-la gritar todos os palavrões que conheço.

— Isso nunca vai acontecer. — Estalou a língua.

Ah, Giovanna. É mesmo muito inocente. Expirei, com o corpo leve, sentindo
dedos em minha nuca e um alívio maravilhoso que aumentava a cada minuto.
Quando ela deitou e se esticou sobre mim, colando o rosto em minhas costas,
deixei-me desabar num sono profundo para curtir aquele breve momento de paz.
GIOVANNA

A vontade de me levantar da cama era zero. Ainda me sentia afetada pelo


fuso horário e quando saí do quarto de Pietro, ouvi vozes na sala. Ajeitei o ninho
de passarinho que chamava de cabelo e apareci onde a conversa acontecia. Meu
noivo dialogava tranquilamente com um homem vestido em roupa social.

— Bom dia, bambina. — Ele sorriu e se levantou para vir segurar minha
mão. — Conseguiu descansar um pouco?

— Mais ou menos — respondi, observando seu semblante relaxado.

Nós tínhamos chegado em Nova York nas primeiras horas da manhã e fui me
deitar um pouco antes das seis. Ainda não era nem meio-dia e eu não conseguia
imaginar em que momento a criatura diante de mim havia tirado um tempo para
dormir.

— Este é o Erick, veio para assinarmos os papeis do casamento no civil.


— Hum? — Não consegui me expressar em palavras diante do engasgo que
quase me fez engolir minha própria língua.

Acho que Pietro percebeu que a informação não tinha sido digerida muito
bem. Ele pousou uma mão nas minhas costas e aproximou a boca do meu
ouvido.

— Lembra-se que precisamos nos casar o quanto antes?

— Sim...

— Achei melhor mexer os pauzinhos e trazer o cartório até nós. Só cobrei


alguns favores e Erick conseguiu um tempo na agenda para celebrarmos a união
hoje mesmo.

— Vamos casar, tipo, agora? — perguntei, aflita. Tinha olheiras enormes no


rosto e, para piorar, minha menstruação desceu no instante em que fiz o primeiro
xixi da manhã. — Eu nem tive oportunidade de tomar um banho decente...

Pietro olhou para Erick e foi até ele, apoiando uma mão no ombro do rapaz.

— Dê alguns minutos para ela se preparar melhor, tudo bem?

E então, segurou minha mão e me rebocou de volta pelo corredor até o


quarto dele. Fechou a porta assim que entramos e alisou minha bochecha com
um polegar. Ao contrário de mim que vestia uma camisa dele e estava
descabelada, o filho da mãe teve tempo de fazer a barba, ficar cheiroso e vestir
uma roupa mais adequada do que a minha.

— Sei que não é o casamento dos sonhos de nenhuma mulher, mas tudo que
quero é torná-la logo emancipada, entende? Não podemos dar bobeira com isso.
Daqui a um tempo, quando a vida se ajeitar, a gente renova os votos e faz tudo
como você desejar.

— Eu... — engoli em seco. — Eu sei. Entendo, claro. É que não achei que o
lance da urgência fosse ser tipo, com essa urgência mesmo. Posso tomar um
banho e me vestir melhor?

— Só não demore duas horas.


— Serei rápida. E também preciso de absorventes. — Cerrei os olhos, sem
acreditar que estava mesmo pedindo para ele. — Fui pega de surpresa.

— Eu tenho um pacote fechado em algum lugar. — Pietro olhou para os pés,


pensativo, e então entrou no closet.

— Como assim você tem absorvente em casa? — Marchei atrás dele, sem
conseguir me controlar.

— Sou cavalheiro e prevenido. — O filho da mãe se virou para mim e


piscou, voltando-se aos armários e abrindo gavetas.

Abri a boca, mas fechei.

— Quem usa absorvente sem abas? Essa porcaria descola da calcinha toda
hora!

Ele deixou o quarto, literalmente correndo, talvez com medo que eu jogasse
o pacote na cabeça dele.

Ah, caramba! Joguei-me no colchão, com a mente fervilhando. Eu ia casar.


Casar, de verdade. Havia me iludido com o discurso de Pietro quando este dizia
que preferia me ver completar dezoito anos e bla bla bla. Eu achava que era um
bom tempo para conseguir me acostumar com a ideia, afinal, teria alguns meses
pela frente. Mas agora? Não tinha para onde correr e nem podia culpá-lo, pois
sabia que fazia isso por precaução.

Sinceramente, minha vida parecia uma grande piada. Tudo, absolutamente


tudo, dava errado e saía do meu controle. E eu sentia que não era só isso. Sempre
havia mais alguma coisa para complicar.

Abri minhas malas e me sentei no chão, tentando encontrar alguma roupa um


pouquinho mais digna para assinar um papel que me faria Giovanna Greco. A
única que eu tinha toda branca que poderia lembrar uma noiva era um vestido
tomara-que-caia de algodão com bordados. Bem simples, usei apenas uma vez
para fazer um passeio numa vinícola em Nápoles com Nero e a família dele.

Espantei a lembrança para bem longe porque de nada adiantaria pensar no


senhor Salvatore naquele momento, e fui para o banho lavar o cabelo imundo.
Quando terminei e me vesti, peguei um cinto branco que era um coringa em
minhas roupas e amarrei na cintura para dar um charme a mais.

Ouvi batidas na porta e ela se entreabriu enquanto calçava uma sapatilha. Na


hora de fazer as malas, Pietro não lembrou de pegar nenhum sapato de salto alto
para mim.

— Posso entrar?

— Pode — respondi, puxando a toalha enrolada no cabelo. Não daria tempo


de secá-lo. — Acho... que estou pronta. Só vou passar uma maquiagem e...

— Não — ele me interrompeu, aproximando-se e segurando meu rosto com


um sorriso bobo. — Não quero que esconda essa boca atrás de um batom. Você é
linda assim mesmo, sem produto nenhum.

— Quero ver se esse discurso vai continuar o mesmo daqui a trinta anos.

Ele abriu mais o sorriso e me puxou pela cintura, esmagando-me contra seu
peito. Precisei levantar meu rosto para encará-lo e seus lábios tocaram meu
nariz.

— Daqui a trinta anos estarei com sessenta e três. Acredito que minha visão
não será mais a mesma, então...

— Nossa! — Estalei a língua e cruzei minhas mãos atrás das costas dele. —
Ainda dá tempo de eu desistir do casamento? Você é mesmo muito velho.

Antes que eu percebesse o ataque, o idoso se inclinou sobre mim e


abocanhou meu ombro nu. Ele mordeu mesmo, com força, ganhando um puxão
de cabelo que pareceu mais divertir do que assustá-lo.

— Seu filho da mãe! — xinguei e corri até o espelho quando me soltou,


observando a marca dos dentes. — Pietro, sério que você me mordeu?

Suas mãos enlaçaram minha cintura e se cruzaram em minha barriga ao


mesmo tempo em que ele me abraçou por trás e beijou o local da mordida. Ao
apoiar o queixo no meu ombro, deu um sorriso safado.

— A partir de hoje, sempre que me chamar de velho, vai ganhar uma


mordida. A surpresa ficará por conta da região a ser escolhida.
— Não acredito que vou me casar com um troglodita.

— Para isso acontecer, gatinha, você precisa sair desse quarto. — Ele se
afastou e eu me virei quando puxou uma caixinha preta do bolso traseiro da
calça. Ai, senhor. — Encomendei isso quando ainda estávamos na Itália e
consegui que me entregassem hoje. É sua aliança e não deixa de ser um objeto
novo.

Meu coração parou e me forcei a respirar fundo quando ele abriu a tampa e
ali dentro, diante de mim, estava a aliança mais linda que já tinha visto. Ela era
fina, de ouro branco e toda cravejada em diamantes. Pietro usou dois dedos para
pinçar a joia e a deslizou pelo meu anelar.

— Quis algo exclusivo, que tivesse um formato clássico e ao mesmo tempo a


deixasse com essa cara. — Seus lábios tocaram minha testa. — É linda, não é?

— Uhum... — pigarreei, roçando meu polegar na aliança. — É maravilhosa.


Nunca mais poderei sair na rua a pé, mas é deslumbrante.

Levantei meus olhos ao ouvir sua gargalhada e, então, peguei a aliança que
ainda restava dentro da caixa. Completamente diferente da minha e com ar
masculino, mas, ao mesmo tempo, elas combinavam entre si. Pietro escolhera
para ele um anel também em ouro branco, porém mais arrojado. O aro parecia
arranhado ou escovado e a borda era formada por pequenos diamantes.

— Você é um filho da mãe com muito bom gosto, Don Pietro — falei,
provocando e mordendo meu lábio. Coloquei a aliança no dedo dele e suspirei,
sem acreditar que estava mesmo acontecendo.

— Agora, algo azul, velho e emprestado... — Ele puxou um lenço azul


desbotado do outro bolso e amarrou ao redor do meu pulso, completando com
um beijo em minha mão. — Vamos?

Alisei meu vestido, sem conseguir tirar os olhos daquelas pedras que
ofuscavam minha visão. Segurei o braço que Pietro me ofereceu e caminhei ao
lado dele para fora do quarto.

— Talvez nos casarmos nessas circunstâncias seja uma providência divina.


Você está tão linda com essa roupa, imagina vestida de noiva? Acho que meu
coração não é forte o bastante.
— Nossa, você é muito bom de lábia. — Ri, revirando meus olhos.

— Sou bom em tudo, bambina — disse ele, dando um singelo apertozinho


na minha bunda. — Só não descobriu isso ainda.

Por um lado, foi ótimo eu ter ficado menstruada justo hoje. Meu ciclo
costumava durar de quatro a cinco dias e eu rezaria para que a semana passasse
muito devagar. Sozinha com ele naquele apartamento, não sabia por quanto
tempo conseguiria manter minha sanidade intacta.

PIETRO

A mão que Giovanna usava para assinar o último documento tremia tanto
que precisei controlar a vontade de segurar seu pulso para estabilizá-lo. Ela, por
fim, endireitou-se ao terminar e soltou a caneta sobre a mesa, cruzando as mãos
à frente do corpo. Procurei por seus dedos e os entrelacei aos meus, trazendo-os
até minha boca e depositando um beijo neles.

— Oficialmente, vocês dois agora são marido e mulher. — Erick sorriu


enquanto juntava os papéis. — Pode beijar a noiva, Don Pietro.

— Deixarei para fazer isso assim que ficarmos a sós — respondi,


esclarecendo que sua presença ali não se estenderia por mais um minuto. Trouxe
o braço de Giovanna para trás das minhas costas junto com minha mão e a fiz
colar o corpo no meu. Quando seus olhos azuis foram erguidos para mim, vi
como estavam arregalados. — Como se sente, senhora Greco?

— Caso precise de mais alguma coisa... — Erick falou, ajeitando sua maleta
na mão e caminhando até a porta.

— Não hesitarei em procurá-lo. — Sorri e o cumprimentei. — Obrigado pelo


seu tempo.

Meu olhar encontrou com o de Carlo assim que a porta de casa se abriu e
apenas com um gesto de cabeça eu o informei que poderia liberar o homem.
Giovanna quando o viu estendeu a mão quase na cara dele e balançou os dedos,
fazendo-me rir.

— Já viu isso, Carlo? — perguntou ela. — Vamos comer ovo frito por duas
semanas para Pietro se recuperar financeiramente depois dessa extravagância
toda.

— É muito bonita, senhora Greco. Parabéns ao casal!

E à menção do novo sobrenome, ela se aprumou e suspirou, puxando a mão.


Fechei a porta e me encostei nela, segurando na cintura fina de minha... esposa.
Eu podia me acostumar com a palavra. Era Giovanna, afinal. Qualquer seriedade
seria substituída por alguma frase muito absurda. Como o ovo frito. Acabei rindo
ao pensar nisso e a puxei.

— Ovo frito. Sério?

— É uma comida que eu sei fazer. — Deu de ombros, apoiando as mãos no


meu peito, mas desviando os olhos dos meus.

— Farei uma promessa de que a ensinarei a cozinhar pelo menos o básico


porque não mereço passar novamente por um desastre culinário como aquele. —
Alisei seu cabelo que ainda se encontrava úmido e segurei uma mecha entre os
dedos, trazendo-a para perto do nariz. Giovanna acabou me olhando e dava para
ver como estava tensa. — Qual o problema, principessa? Sabe que ainda somos
os mesmos, né? Um pedaço de papel não vai alterar as coisas.

Tomei sua boca sem pressa, cruzando minhas mãos atrás de suas costas ao
enlaçá-la e deixar que seu corpo pesasse contra o meu. Beijei seus lábios de
vários ângulos, pressionando-os entre os meus com delicadeza. Até que a
procurei com minha língua e senti sua retribuição ao mesmo tempo em que
apertava os dedos em meu peito.

Quando deixei que minhas mãos se soltassem e deslizassem pela lateral do


vestido, Giovanna afastou o rosto corado e mordeu o lábio. Ela segurou meus
braços e deixou um espaço grande entre nossos troncos ao se curvar para trás.

— Estou menstruada. Muito.

— Estou ciente disso. — Sorri, entendendo aquele seu nervosismo. — Beijar


minha esposa não significa que vou arrastá-la para a cama.
Achei melhor não entrar em detalhes e dizer que sangue não me assustava.
Nada que uma troca de lençóis não resolvesse no final de tudo, mas eu tinha
coisas para fazer na rua e, sinceramente, não tinha a pretensão de consumar o
casamento nos próximos dias. Ela não estava nem perto de se sentir preparada e,
no fundo, nem eu. Há uns dias vinha pensando nisso e me borrava de medo de
ser grosso demais na hora do sexo. Eu era. Sempre fui. Gostava daquela coisa
hardcore de tapa na cara, foda selvagem e gritaria. Como agir com uma virgem
cheia de traumas? O que me lembrava uma coisa muito importante...

— Vamos começar a procurar um psicólogo? — questionei para mudar logo


de assunto.

— Uma. Mulher. Não quero falar desse assunto com um homem.

— Será o que você quiser — declarei, beijando sua boca e a abraçando. —


Vou fazer umas ligações, cobrar uns favores e selecionar algumas pessoas.
Depois, fica por sua conta.

— Ok. — Ela se virou quando a soltei, mas puxou minha mão e me arrastou
até a cozinha. — Você já comeu ou posso fazer um café da manhã para agradar
meu marido? Nossa, agora até eu me sinto velha.

— Comer sua comida? — Gargalhei, mas era de nervoso. Que merda. —


Hm... Estou morto de fome. O que teremos? Pão mofado, ovo cru ou fruta
podre?

A diabinha parou no meio da cozinha com a testa franzida e um bico nos


lábios. Quando soltou minha mão, apontou o dedo na minha cara.

— Pensei em morango com chantilly para esfregar no seu corpo e lamber


tudo, mas você não merece.

— Pensa que me engana se fingindo de sexy, Giovanna? — Ri, estalando a


língua e a provocando. — Você não aguenta nem terminar a insinuação.

Ela me mostrou o dedo do meio e me controlei para não estalar a mão pesada
naquela bunda. Quando se virou e começou a mexer na geladeira, acabou
empinando o rabo gostoso para procurar algo mais abaixo.

— Olha, se você realmente tivesse chantilly aqui, eu o faria pagar por essa
língua afiada.

Comecei a discar no celular enquanto ela ainda estava de costas. Quando


voltou com suco e cream cheese na mão, colocou os itens na mesa e foi até os
armários.

— Carlo, peça que comprem dois frascos de chantilly e me tragam


imediatamente — avisei pelo telefone.

Giovanna se virou com os olhos arregalados enquanto eu guardava o


aparelho de volta ao bolso da calça.

— Você não fez isso!

— Estou ansioso para vê-la cumprir sua promessa, gatinha. — Tirei minha
blusa e caminhei para fora da cozinha. — Tenha em mente que um Greco
sempre, sempre cumpre o que fala. Vou esperar por você no quarto.

Sorri, certo de que a italianinha estava se odiando por ter cogitado a ideia.
GIOVANNA

Sentada na cozinha estava, sentada continuei até que a campainha tocou e


meu corpo arrepiou todo. Ah, cacete. Levantei-me para abrir e quando fiz isso,
dei de cara com Carlo e sua expressão de quem fingia não saber para que Pietro
tinha pedido chantilly.

— Sério, Carlo? Podia ter me aliviado um pouco e dito que não tinha para
vender em lugar nenhum — bufei, pegando a sacola e fechando a porta na cara
dele.

Deixei a embalagem em cima do aparador da sala de jantar e me sentei no


sofá. Eu sabia que meu noivo... Meu marido! Sabia que meu marido não me
obrigaria a cumprir o que disse, porém, tinha aquela questão de me provocar
com o lance da promessa. Ele jogaria minha covardia na minha cara por muito
tempo se eu amarelasse.
Para tomar coragem, fui até o bar e roubei uma garrafa de vinho tinto. Pouco
me importava se era especial e muito cara, ele merecia por me fazer passar um
nervoso desse. Peguei uma taça e enchi até a metade, tomando quase que num
gole só. Coloquei mais um pouquinho e bebi de novo, deixando a garrafa sobre a
bancada.

Respirei fundo, peguei um frasco de chantilly e marchei rumo ao quarto.


Encontrei Pietro na cama, deitado com o peito nu e olhos fechados, mas eu sabia
que estava muito bem acordado.

— Carlo é muito eficiente, não é mesmo? — murmurou ele e só então abriu


os olhos, inclinando o rosto para me olhar. — Devia ter trazido logo os dois
frascos para o quarto.

Fiz uma careta e parei ao pé da cama, pensando se ele não ia rir e dizer que
estava só me testando. Mas ao contrário, o diabo levantou, abriu o botão da calça
e deixou que ela caísse aos seus pés, exibindo aquele corpo esculpido em muitas
horas de academia coberto apenas por uma cueca boxer. BRANCA.

Ele caminhou até mim e pegou o chantilly da minha mão, tirando o lacre da
tampa, abrindo a boca e espirrando o produto lá dentro. Muito produto, por sinal.

— Hmmm — gemeu, engolindo o creme e sorrindo. — Nossa, tenho que


comprar esse entupidor de artérias mais vezes.

Antes que eu pensasse em algo irreverente para dizer, espirrou o chantilly no


meu ombro, formando uma bola do tamanho de uma ameixa. Passou a ponta da
língua pelo doce e terminou de me limpar usando a boca toda, deixando beijos
em minha pele. Então sacudiu o frasco e repetiu o mesmo processo no outro
ombro ao afastar alguns fios de cabelo.

— Isso sim é um café da manha reforçado — disse ele, usando um braço


para envolver minha cintura e se aproximar mais. — Italianinha à chantilly.

Pietro jogou a lata sobre o colchão e usou as duas mãos para segurar meu
rosto e me beijar. Puxou meus lábios como gostava de fazer, venerando-os,
lambendo-os, chupando-os até me fazer salivar mais do que o normal e, por fim,
me invadir com sua língua. Meus pés se movimentaram conforme ele andava de
costas comigo, até me girar e me fazer sentir a cama bater em minhas canelas.
— Deite — pediu e puta que pariu, eu estava prestes a morrer. Já tinha dito
que tinha ficado menstruada, o que mais o homem queria de mim?

Obedeci nem sei como, visto que o coração martelava tão rápido dentro do
peito que poderia explodir a qualquer minuto. Arrastei minha bunda para cima
até deitar a cabeça no travesseiro, observando o corpo dele se agigantar sobre o
meu.

Segurando meus tornozelos, fechou minhas pernas e subiu sobre mim,


sentando-se sobre meus quadris e sorrindo. Esticou-se para pegar novamente o
chantilly e espremeu um pouco sobre meu colo. Então, curvou-se e me lambeu.
Depois de me limpar, continuou deslizando aquela língua quente pela minha
pele, baixando lentamente o elástico do meu tomara-que-caia. Por muito pouco
meus peitos não ficaram expostos, mas Pietro se dedicou aos volumes que eles
formaram com a pressão do elástico.

Precisei me remexer sob o corpo dele, sentindo coisas que não queria
começar a sentir tão rápido. Como se soubesse o que acontecia entre minhas
pernas, o safado segurou meus pulsos e abriu meus braços. Ele deixou o peso de
seu corpo ceder um pouco sobre o meu quando deitou e começou a deslizar os
lábios pelo meu pulso direito. Dali subiu para meu cotovelo e o chupou,
fazendo-me estremecer com o contato.

Entendi tudo. Pietro não ia tirar minha virgindade, mas tentaria me matar aos
poucos. Quando sua língua deslizou lentamente pela parte interna do meu
antebraço, fui obrigada a segurar a cabeça dele e fazê-lo me olhar.

— O que está tentando fazer comigo? — perguntei, com medo de me


desmanchar.

— São apenas beijos. — Sorriu de forma maliciosa. — Tenho o direito de


beijar minha mulher. Você tem outros planos? Quer usar o chantilly?

Ele beijou o centro da minha testa e esfregou um polegar na região ao afastar


o rosto.

— Estamos apenas brincando, não precisa formar essa ruga aqui. Quer
parar?

Franzi os lábios, sentindo que era uma idiota. Não custava nada tentar relaxar
um pouco, Pietro já tinha dado sinais suficientes de que nunca faria nada que eu
não quisesse. E, cá entre nós, ele era tão lindo... Quando me olhava com aquela
expressão carregada de preocupação chegava a dar uma quentura a mais em
mim.

— Não. — Sacudi a cabeça e molhei os lábios. — Hm... Vou tentar o


chantilly.

Sua sobrancelha se arqueou e o filho da mãe se jogou para o lado com um


sorriso de vencedor. Ele nunca dava um ponto sem nó.

Suspirei e me ajoelhei na cama, imitando-o e subindo em cima do corpo


dele. Pietro passou a língua pelos cantos dos lábios e não deixei de notar que ele
parecia tentar enxergar minha calcinha. Apoiou as mãos em meus joelhos
quando me sentei e peguei o frasco do chantilly, agitando-o para cima e para
baixo.

— Isso na sua mão poderia ser outra coisa...

— Cale a boca — falei, beliscando seu peito e arrancando uma risada dele.
— Se me irritar eu nem começo.

— Mas é viciante ver você irritadinha.

Então, para calar de uma vez por todas o homem, espirrei o chantilly bem no
meio do rosto dele. Pietro abriu a boca, em choque, mas eu me senti muito feliz.
Seus dedos apertaram meu joelho e ele lambeu o chantilly da boca enquanto eu
me curvei e lambi o restante, sem conseguir parar de rir.

— Juro que vou me vingar disso — ameaçou ao abrir os olhos depois que os
babei bastante com minha língua.

— Mandei que se calasse e não obedeceu. — Dei um tapa em seu peito,


deixando a marca dos meus dedos, para em seguida, cobrir a região com
chantilly. — Quer continuar me desafiando?

— Não sabia que você curtia uns tapas e puxões de cabelo, gatinha. —
Sorriu. — Mas eu aguento, pode bater.

Levei minhas mãos até aquela boca impura e a tapei por alguns segundos
enquanto deslizava minha língua pelo doce até encontrar a pele dele. Senti sua
respiração pesada quando deixei um beijo em seu mamilo e levantei meus olhos
para ver sua reação. Seu olhar dizia muita coisa, principalmente o fato de que
parecia se controlar para não avançar em mim.

Endireitei a postura e me remexi em seu colo, ouvindo-o estalar a língua e


estreitar os olhos. Acabei escorregando um pouco para baixo de forma que
pudesse ter acesso ao abdômen dele, depositando mais um pouco do creme ao
redor de cada gomo que ele tinha naquela barriga.

Não conseguia acreditar que estava mesmo passando a língua pelo corpo de
Pietro. Era bom, muito bom, e ao mesmo tempo, apavorante. Como se eu tivesse
alcançado um outro nível de intimidade com ele, pois podia sentir o gosto de sua
pele. Salgada e picante, se é que eu podia comparar alguém com pimenta.

Quando beijei ao redor do umbigo, senti as mãos pesadas tocarem meu


cabelo e o segurarem como num rabo de cavalo. Sabia que estava muito excitado
porque sentia, a cada segundo, o volume endurecer e cutucar meus peitos pela
posição em que me encontrava. Queria muito olhar, mas morria de medo de
encarar aquilo de novo. Ele esperava que eu chegasse lá?

— Ah, bambina... — disse entre dentes, soltando meu cabelo. Eu levantei o


rosto e o vi esfregar o dele. — Você tem me deixado louco.

— Desculpa?

Nem sei por que fiz aquilo, de verdade. A vontade simplesmente surgiu,
aliada à imagem um pouco desesperada de Pietro, com a boca retorcida e a
respiração pesada. Eu simplesmente desci um pouco mais e me sentei sobre as
coxas dele, enfiando meus dedos pelo elástico da boxer e a puxando para baixo.
O pênis gigante saltou, endurecido, deixando meu marido um pouco perplexo.

Ele levantou o rosto com as duas sobrancelhas arqueadas e devolvi um


sorriso sem graça.

— Giovanna...

— Pietro... — imitei, quase hiperventilando de nervoso.

Envolvi o membro com minhas duas mãos e ele parecia vivo, pulsante. Era
diferente fazer aquilo fora da piscina, onde eu não podia ver exatamente o que
acontecia nem onde tocava. Agora, de frente para ele, consegui enxergar um
monte de veias grossas e um líquido transparente que saía pelo orifício da cabeça
volumosa conforme eu mexia a mão. O negócio dele era quase rosa, pelo amor
de Deus. Dava para entender por que era tão mulherengo. Era bonito.

— Não sei... se estou fazendo certo... — falei, com medo de machucá-lo. A


ponta parecia tão sensível. — Aliás, nem sei se você queria isso...

— Eu sempre vou querer que você me toque — disse ele, segurando minha
mão e piscando. — Pode segurar firme, mas sem estrangular. Comece
incentivando a glande para me lubrificar, assim...

Pietro sorriu ao afastar a mão e me observar fazer como mandou. Meus


dedos brincaram pela tal da glande e ele parecia aprovar, porque produzia sons
guturais. Então, voltou a segurar minha mão.

— Agora, comece a descer, mantendo a firmeza. — Sua mão movimentava a


minha para cima e para baixo, bem devagar. Eu estava apavorada e maravilhada,
não sabia precisar quanto de cada sentimento. — Cospe.

— Quê? — Olhei para ele, chocada.

— Cospe no meu pau — insistiu, sorrindo. — A lubrificação é essencial,


gatinha.

— E você quer que eu cuspa em você?

— Quero. — Piscou, apertando minha mão ao redor do pênis. — Cospe, vai.


Deixe-me ver isso.

Ainda me parecia a coisa mais absurda que alguém me pedia, mas como já
estava ali em cima dele, sentada em suas pernas, excitada, com os vinte e um
centímetros pulsando em minha mão... Por que não?

Respirei fundo, rezei rapidamente e me curvei, mirando a glande e deixando


uma bolinha de cuspe pingar bem em cima. Ouvi sua gargalhada e levantei meus
olhos.

— Giovanna Greco, cuspa com vontade nessa merda. Quero sua saliva no
meu pau.

Era isso que ele queria? Sendo assim, dei a louca e levei minha boca até lá,
beijando a ponta do pênis.

— Puta que pariu, Giovanna! — Ele deixou a cabeça cair e até chegou a me
assustar com o rompante.

Como Pietro não me deu um safanão e mandou parar, deixei um pouco mais
de cuspe cair ali em cima e passei a ponta da língua ao redor da glande. Pronto,
gostei dessa palavra. Glande.

— Sei que vou me arrepender do que vou dizer, mas você não precisa fazer
isso. — Seus dedos tocaram meu cabelo, mas tive vergonha de levantar o rosto
para olhar para ele. — Sabe disso, não sab... Ah, caralho!

Levantei o polegar só para avisar que tinha ouvido, mas para ser bem
sincera, não queria parar porque estava gostando de deixá-lo enlouquecido. E...
bem, a tal da glande era interessante, porque sempre que a tocava, o pênis inteiro
ganhava vida.

— O que faço? — murmurei, sem levantar o rosto. — O mesmo que com a


mão?

— Qualquer coisa. Faz qualquer coisa, mas continue.

Ri, tendo meu cabelo erguido e me descobrindo. Pietro estava me


observando e só me deixava mais nervosa. Dei graças a Deus por estar usando
absorvente e ele ser suficiente para aplacar o tsunami entre minhas pernas
porque olha... eu estava em chamas quando coloquei a boca ao redor da cabeça
do pênis e o engoli até onde deu. Tipo, até a metade.

— Dentes!

Retraí meus dentes com o pedido dele e o chupei imaginando ser um picolé.
Aquilo era mais constrangedor do que eu esperava, mas não tive coragem de
parar porque ele ficaria surtado.

— Não vou resistir por muito tempo... — E quando eu vi, Pietro estava
apoiado nos cotovelos, com os olhos fixos em mim, gemendo entre dentes. Ele
jogou a cabeça para trás quando chupei a pontinha, sentindo o gosto ficar mais
salgado. — Quando disser para parar, pare. Ou gozarei na sua boca.

Posso nunca ter feito um boquete na vida, mas minhas amigas tinham se
especializado nisso quando ainda não transavam. Elas contavam como
enlouqueciam os homens com suas bocas e eu sempre ouvia os relatos sobre o
momento do orgasmo deles. O que a maioria dizia era que odiava engolir o
sêmen, que o gosto era ruim e que fazia sujeira. Mas senti vontade de
experimentar para tirar minha própria conclusão.

Acelerei o movimento com a boca, sentindo meu maxilar doer um pouco.


Conseguia perceber o pulsar do pênis de Pietro em meus lábios e ele enterrava
cada vez mais os dedos em meu cabelo. Em determinado momento, colocou a
mão sob meu queixo e tentou me puxar.

— Sai, Gio — pediu após um estremecimento. — Agora.

Levantei e balancei um dedo, ouvindo-o proferir um xingamento engraçado.

— Ah... Giovanna! — gemeu e soltou meu rosto. — Vou acabar gozando


com você aí...

Quando ergui um polegar, acho que ele finalmente entendeu. Senti suas
pernas tremerem e um som rouco fugiu pela sua garganta enquanto jatos quentes
invadiam minha boca e escorriam pela minha língua. Meu reflexo inicial foi
parar a sucção e quase me afastei, mas me forcei a continuar e envolvi a glande
com os lábios, sentindo o gosto amargo que me fez estremecer. Não era mesmo a
coisa mais gostosa do mundo, mas também não senti nojo.

— Porra... sua diaba... — A mão dele envolveu meu cabelo e me alisou. —


Que maravilhosa... Não acredito que você fodeu meu pau com essa boca.

E... acabou o romantismo!

Levantei a cabeça quando percebi que não tinha mais nada para sair e ele me
segurou pelas axilas e me puxou para cima.

— Preciso de cinco segundos para me refazer desse acontecimento. — Ao


passar um braço pela minha cintura, esfregou os olhos e virou a cabeça para o
lado, rindo sozinho. — Meu Deus. Que visão foi essa?
Pietro manteve os olhos fechados e a expressão sorridente no rosto, enquanto
seus músculos pareciam relaxar ao meu redor. Apoiei a cabeça em seu peito e
esperei que meu marido retornasse ao mundo dos vivos. Caramba, ele tinha
mesmo gostado e eu quase pulei de pé na cama para fazer a dança da vitória.

PIETRO

Meu Deus. Nossa. Caralho.

Eu não estava bem. De verdade. Se meu coração não pifou naquele instante,
então eu realmente não tinha nenhum problema cardíaco. Porque o bicho estava
descontrolado, taquicardíaco, frenético. Sentia meus dedos dos pés ainda
trêmulos.

Giovanna... Giovanna me mataria. Foi a essa conclusão óbvia que cheguei


enquanto ela continuava quieta sobre mim, com o cabelo esparramado em meu
peito. Quando eu imaginaria que a diaba cairia de boca no meu pau? Estava ali,
toda tímida, com a mão nele, mal conseguindo olhar na minha cara. Quando pedi
que cuspisse me encarou como se eu tivesse chifres e eu só não debochei na hora
porque o tesão era maior. Agora, em que porra de momento ela tomou coragem e
me chupou, acho que eu nunca saberia.

Ela me chupou, CARALHO. No instante em que aquela boca que me tirava


o sono tocou a cabeça do meu pau, fiquei me sentindo um adolescente se
segurando para não ter ejaculação precoce. Giovanna nem precisava fazer nada,
bastava manter aqueles lábios grossos caídos ao redor do meu cacete e esperar
que minha própria mente trabalhasse forte nas imagens.

Eu teria dado as dicas como fiz com a punheta, mas não tinha condições de
me manter são. Claro que foi desengonçado, devagar demais, cheio de dentes
que me estremeceram até a alma no primeiro momento, mas porra! Aquela
imagem nunca sairia da minha mente. E então, ELA ENGOLIU.

Se já estava descontrolado antes de ter ciência desse fato, quando percebi


que Giovanna não sairia dali, quase enfartei. Gozei bonito, jogando muita porra
naquela boca e a italianinha engoliu tudo. Seria com aquela lembrança que eu
facilmente bateria as próximas punhetas enquanto ela fosse virgem.

Virei o rosto e a encarei, quieta, com o rosto virado para baixo e os dedos
abertos em meu antebraço.

— Sabe há quanto tempo eu venho imaginando esse lábios ao redor do meu


pau? — perguntei, alisando o cabelo dela. — Ah, Giovanna... O que eu faço
contigo?

Ela escorregou para o colchão e eu me inclinei para alcançar sua boca. Meu
gosto e meu cheiro estavam ali, deixando-me mais alucinado. Suguei sua língua
até deixá-la sem fôlego e quando deitei a cabeça de novo no travesseiro, ela
tapou o rosto com as mãos.

— Não acredito que fiz isso — murmurou, vermelha como um pimentão.

— Você é tão bonitinha. — Puxei e segurei suas mãos longe do rosto. — Não
tem que ficar com vergonha do que fez. Foi muito gostoso, sabia? Fique aqui
que já volto.

Levantei correndo, subi a cueca e fui até o bar pegar algo alcoólico para ela
tomar. O sabor do vinho era o ideal para contrastar e apagar um pouco o gosto
do gozo. Nem precisei ter trabalho, pois descobri que a safada tinha aberto uma
de minhas garrafas. Respirei fundo quando meu coração perdeu uma batida.
Giovanna escolhia bem. Tratava-se de um Pingus 2014 de dez mil dólares. Era
cedo para matar minha esposa?

Aceitando minha derrota e a morte precoce do Pingus, caminhei de volta ao


quarto com a garrafa e uma taça na mão. A italianinha estava deitada de bruços
com a cara enfiada no meu travesseiro.

— Você escolheu por escolher ou sabia quanto custava esse vinho, gatinha?
— perguntei, sem conseguir me controlar.

— Por quê? — Ela se sentou e arregalou os olhos, completamente culpada.


— Foi muito caro?

Ri.

— Bom, se começamos por esse nível num simples boquete, vou ter que
abrir um cinco vezes mais valioso, quando tirar sua virgindade. — Brinquei,
enchendo meia taça, tomando um gole e entregando-a para ela. — Para tirar o
gosto ruim.

— Não é ruim — murmurou, arrancando a taça da minha mão e bebendo


tudo de uma vez.

Sacudi a cabeça ao sorrir, vendo como disfarçava mal. Subi na cama e beijei
seu cabelo antes de me arrastar e encostar na cabeceira. Ah, caralho... Que
delícia de momento. Eu ali, pós-gozo, relaxado, apreciando minha mulher que
apreciava o vinho. Queria rasgar aquele vestido fofinho e fazê-la sentar em mim,
mas isso teria que esperar um pouco.

Ela se esticou para deixar a taça sobre a cômoda ao lado da cama e aproveitei
para segurar seu braço. Deslizei meu polegar pela pele que se arrepiou e a puxei
para cima.

— Quero saber o que achou — falei, sorrindo conforme um bico se formava


em seus lábios. — Vamos, conte para mim.

— Ah, não.

— Ah, sim. Vem cá, amor da minha vida. — Dei dois tapas nas minhas
pernas esticadas. — Senta aqui no meu colo e me deixa chupar seus peitos
deliciosos. Tinha uns pepinos para resolver na rua, mas nem tenho coragem de
sair dessa casa e deixar minha esposa excitada sozinha.

— Quem disse que estou excitada?

Tomei a iniciativa para que ela não ficasse enrolando muito e me inclinei,
puxando-a pela cintura. Foi obrigada a montar em mim se não quisesse ficar toda
torta e antes que conseguisse raciocinar, baixei o decote do vestido e expus
aqueles seios lindos. Excitadinhos para mim.

— Jesus! — ela gemeu quando envolvi meus braços ao redor do corpo dela e
o ergui alguns centímetros para encaixar bem o bico direito em minha boca.

Chupei a bolinha intumescida, mordisquei, para em seguida, abocanhar toda


a carne macia e sugar numa boa mamada. Meu pau voltou a dar sinais de vida
quando afastei o rosto e enxerguei o mamilo avermelhado pelo atrito. Bati a
ponta da língua nele, levantando os olhos e observando Giovanna com a boca
aberta e olhos fechados. Escorria um filete bem fino de baba pelo cantinho da
boca e enlouqueci.

— Olhe para mim. Agora.

Ela obedeceu, piscando muito e percebendo que estava babando. Com a


plateia atenta, enfiei meu rosto entre os peitos e me esfreguei neles, sentindo as
pontinhas duras tocarem minha pele.

— Segure seu seio direito para mim — pedi, pegando a mão dela e
colocando no peito. A bichinha estava tremendo. — Assim... Linda.

Depositei alguns beijos mais castos antes de voltar a encher minha boca. E
assim fiquei por alguns minutos, mordendo, chupando, lambendo, sentindo o
corpo de Giovanna amolecer em meus braços.

— Como foi me chupar? Ainda não me contou.

— Hm... — pigarreou, com o rosto vermelhinho e o cabelo bem


despenteado. — Foi... duro. É duro. E meio grosso...

— Eu já conheço meu pau, bambina, quero saber o que você sentiu. —


Deixei que seu corpo escorregasse e voltasse a se sentar em mim, deixando bem
claro que minha ereção tinha retornado em potência total.

— Poderosa — foi a única coisa que disse antes de passar os braços ao redor
do meu pescoço e esconder o rosto. — Você ficou surtado.

— Eu me surpreendi e muito — falei, beijando seu ombro e alisando o


pedaço exposto de suas costas. — Não esperava que fizesse isso. Principalmente,
que engolisse. Ali você me deixou bem ensandecido. Quase enfartei.

— A Rayka não...

— Não! — eu a interrompi e puxei seu rosto entre minhas mãos, encarando


os olhos azuis. — Não estrague o momento falando de outra mulher. É com você
que estou casado, não é?

Giovanna fechou os olhos e concordou, meneando a cabeça.


— É difícil não pensar...

— Pois tentar imaginar meu passado só a deixará mais insegura — disse,


beijando o nariz dela. — Não faça isso. Nossa relação é completamente diferente
das que eu já tive com qualquer outra pessoa. E você acabou de me fazer gozar
como um adolescente.

Ela abriu um sorriso tímido e mordeu o lábio, pensativa. Desviou o olhar e


suspirou.

— Vi seus vídeos. — Tapou o rosto, deixando a voz abafada. — Pronto,


falei.

— Sei disso.

— Sabe? — Quando abaixou as mãos, os olhos estavam arregalados em


surpresa. — Como assim?

— Sou um pouquinho mais experiente e sei reconhecer alguns sinais,


gatinha. Descobri no mesmo dia. Fora que você esqueceu um elástico desses que
usa no cabelo sobre minha mesa. — Ela abriu e fechou a boca algumas vezes,
horrorizada. Não pretendia me estender no assunto porque imaginava que a faria
se sentir desconfortável. — Prometo que deletarei todos eles.

— Quando eu estiver bem mais acostumada, podemos fazer um?

Opa. Como é? Ouvi mesmo o que ouvi?

— Faremos o que você quiser.

— Sério?

— Sério. — Puxei o decote dela para cima e ajeitei o vestido, ciente de que
minha parte da brincadeira teria que se limitar àquela região, mas a safada tinha
outras intenções.

Ela se inclinou, deslizando os dedos pela minha barriga e alcançando


novamente minha cueca. Só precisou mexer um pouquinho do tecido para que a
cabeça do meu pau aparecesse, brilhando. Não era possível que eu gozaria
novamente em tão pouco tempo e sem penetração. Giovanna ia me enlouquecer.
— Acho que estou viciada em segurar isso — falou, rindo e envolvendo meu
pau com a mão.

— Isso, não. Pau. Meu pau. Vamos, diga. — Toquei seu rosto quente. — Só
uma vez, prometo que não peço de novo. Por uns dois dias.

A italianinha me lançou um olhar endiabrado e sorriu. Mas foi aquele sorriso


do capeta mesmo, que me fez estremecer.

— Estou viciada no seu pau gostoso. — E fechou os olhos, rindo que nem
louca.

— Puta que pariu, mulher! — Derrubei-a de costas na cama e subi pelo seu
corpo, encaixando-me entre suas pernas só para meu sofrimento ser maior. — Te
amo.

— Eu queria ver você se tocar... — disse ela, num sussurro, enquanto eu me


esfregava na sua calcinha.

Que ótimo. Então daria algo para ela substituir pelas lembranças que o filho
da puta deixou em sua memória. Ajoelhei-me no colchão, com o corpo dela
entre minhas pernas. Segurei meu pau e comecei a bater uma punheta rápida,
presenteando-me com os dentes de Giovanna prendendo seu lábio inferior e os
olhos azuis grudados nos movimentos da minha mão. Não economizei nos
gemidos, para deixar tudo bem intenso para ela.

— Nossa... Que rapidez — falou, mexendo as pernas, pressionando uma


contra a outra.

Cuspi na mão e melei meu pau, sem desfazer o contato com ela, por mais
que meus olhos não fossem seu foco. Mexi nos meus sacos no ponto certo,
deixei meu pescoço inclinar um pouco para trás, rocei meu dedo sobre a
extensão do freio do prepúcio, sentindo o latejar em cada nervo do meu corpo.

— Mostra esses peitos para mim — pedi e me surpreendi mais uma vez
quando ela obedeceu sem pestanejar.

Bati a punheta mais forte, concentrando-me agora mais para cima, dando
mais atenção à glande e subi um pouco mais para perto do rosto dela.
— Vou gozar nos seus peitos, só feche... os olhos porque pode espirrar e
arder.

Contra todas as possibilidades, ela fez o que pedi, mas colocou a língua para
fora e meus joelhos falharam.

— Não pode estar falando sério... — murmurei, sem força, sentindo o


orgasmo se aproximar ainda mais rápido.

Minha garganta estava seca quando aproximei o pau daqueles lábios e deixei
o gozo sair, tentando mirar o máximo possível dentro da boca e esfregando a
cabeça naquela carne macia e vermelha que ela logo franziu para formar um bico
delicioso. Era minha perdição.

Usei minha mão para limpar o excesso e deitei sobre ela, beijando a boca
maravilhosa. Suas pernas enlaçaram minha cintura e precisei me controlar muito
para não levar minha mão até aquela calcinha.

— Tem certeza que não vai me deixar tocar você? — sussurrei, rebolando
para entretê-la um pouco. — É só o meu dedo e serei carinhoso...

— Não — falou baixinho, apertando-me mais com as pernas.

— Se é a menstruação, eu não me importo com isso, Gio.

— Não é.

Apoiei-me nos cotovelos e afastei o rosto para encará-la. Com os lábios


tensos numa linha fina, ela demonstrava que não queria mesmo e a leveza
anterior tinha sumido. Passei um dedo pelo vinco na testa e a beijei ali.

— Sinto como se estivesse te usando dessa forma... Não gosto de não poder
dar prazer a minha mulher.

— Dizem que a gente não sente falta do que nunca teve — falou, encolhendo
os ombros. — Acho que é meio verdade.

— Mas você sente tesão, gatinha. Não minta para mim.

— Sinto, mas não é como se “oh, vou me jogar da ponte se não transar
agora!”. Sobrevivi até hoje.

Sorri, observando os cílios espessos que se moviam muito, pois ela piscava
em excesso quando ficava nervosa.

— Não estou falando de penetração. Só um dedinho, ali no ponto certo,


sabe? Ninguém nunca fez isso?

Aquela era minha forma de querer perguntar se Lorenzo alguma vez tinha
chegado a masturbá-la, sem realmente tocar no nome dele. Ela mordeu o lábio e
ficou vermelhinha.

— Não.

— Nem você?

— Já... — Ela balançou a cabeça e deu um sorriso tímido. — Uma vez.

— E gostou? — Beijei sua palma da mão, deslizando minha língua por


dentro do seu pulso.

— Uhum. Podemos parar de falar sobre mim?

— Se não estiver à vontade, sim. Mas temos que conversar sobre essas
coisas para que eu consiga conhecê-la melhor no âmbito sexual. — Afastei os
fios de cabelo em seu rosto e observei seus olhos atentos a tudo que eu fazia. —
O que deseja? Peça qualquer coisa porque você merece até a porra da lua.

— Quero que você faça uma comida muito gostosa porque estou morta de
fome.

Gargalhei e joguei meu peso todo em cima dela, tirando-lhe seu fôlego. Que
filha da mãe. Eu crente que ia pedir alguma coisa de cunho sexual e a diaba me
obriga a ir para a cozinha. Respirei fundo, beijei sua boca e me levantei,
ajeitando a cueca antes de entrar no banheiro.

— Vou tomar um banho e depois preparar a melhor refeição da sua vida —


anunciei.
GIOVANNA

Meus olhos pesavam e não conseguia mais manter a concentração no filme


que passava na televisão diante de mim. Espreguicei-me no sofá que ficava no
quarto de Pietro e abracei uma almofada enorme. Eram quase onze da noite e a
vontade de dormir era grande, só que não sabia como faríamos.

O Don se trancou no escritório para trabalhar logo depois que almoçamos e


não tinha saído mais de lá até a hora que decidi vasculhar a Netflix. Tinha
tomado um banho demorado, passei um dos perfumes dele e vesti o único baby
doll que trouxera na mala. Estava curtindo dormir com as camisas masculinas,
mas gostava de usar short à noite durante os dias de menstruação. Sentia-me
mais confortável e segura.

Comecei a bocejar quando ele apareceu no quarto com um buquê de rosas


numa mão e uma caixa na outra. Coitado de Carlo, deve ter sido obrigado a sair
mais uma vez.
— Por que estou ganhando presentes? — perguntei assim que ele se sentou
na ponta do sofá e me entregou a caixa. — Chocolate suíço!

— Vou mimar tanto você, que vai ficar enjoada. — Beijou minha testa e
colocou o buquê no meu colo.

Sorri, rasgando o plástico que lacrava a caixa e abrindo imediatamente.


Agarrei um bombom e o enfiei inteiro na boca, sem conseguir controlar o
gemido. Nossa. Eram trufas!

— Hm... — Comi mais um e, então, lembrei de Pietro ali do lado. — Você


não quer um, quer?

— Não. — Ele riu. — A caixa inteira é só sua.

Coloquei a embalagem sobre o braço do sofá e lambi os dedos antes de pegar


o buquê. Dei uma cheiradinha só para não fazer desfeita, mas Pietro ao meu lado
soltou uma risada.

— Você disfarça muito mal, minha nossa senhora.

— Eu? — Arregalei meus olhos, mas desisti de fingir e sorri. — Ah, da


próxima vez pode comprar só o chocolate. São muito lindas, mas não ligo para
flores.

Curvei o corpo na direção dele e beijei sua boca. Meu marido passou a
língua pelos meus lábios como se estivesse provando o gosto deles e me soltou.

— Putz, acabei de lembrar que você falou sobre as flores há muitos anos. —
Bateu na testa e eu roubei mais um beijo antes de voltar para o lugar.

— Não é que não goste delas. Nada contra. É só que... elas morrem. —
Encolhi os ombros. — Que graça tem?

Ele puxou meus pés e os colocou sobre seu colo, apertando meus dedos e
deslizando as mãos pelas minhas canelas finas.

— Não sei. Apesar de sua sogra ser uma profunda conhecedora delas, nunca
me liguei muito nisso.
Balancei a cabeça, tentando mostrar interesse no que ele dizia, quando minha
atenção estava mais voltada para a caixa cheia de bombom. Acho que não era a
única mulher do mundo que enfiava o pé na jaca quando estava menstruada, né?

— Estão realmente muito gostosos — falei ao comer a quarta trufa e


entreguei a caixa para ele. — Pelo amor de Deus, tira isso da minha frente.

— Devo deixar perto da cama? — perguntou, sorrindo.

— Claro!

Pietro levantou para colocar o presente onde indicou e depois voltou para
pegar o buquê. Colocou-o sobre uma cômoda e quando ia sair do quarto,
levantei-me e dei uma corridinha até ele, agarrando seu braço.

— Eu amei mesmo, obrigada. E desculpa pelas flores...

— Não precisa se desculpar, bambina. — Sua mão pesada tocou minha testa
e jogou meu cabelo para trás. — É desse seu jeito espontâneo que gosto.

— Não está mesmo chateado? — perguntei, com medo de ter estragado o


clima bom entre a gente. Durante os dias no iate, pensei que nunca tinha me
sentido mais feliz na vida, mas me enganei. Agora sim eu estava mais feliz como
nunca.

— Não estou, só vou apagar as luzes e vir te fazer companhia. — Ele beijou
minha testa e deu uma apalpada na minha bunda. Hm, ok. Estávamos numa boa.

Quando me soltou, estalei a mão na bunda dele, exatamente da forma como


fez comigo uma vez. Minha mão quase caiu e eu sabia que ficaria ardida por
alguns minutos, mas a cara que o Don fez foi impagável.

— Pare de me tratar como um pedaço de carne, sua safada!

Queria soltar um gritinho de emoção por estar dividindo a cama com ele à
noite? Queria. Olha, queria mesmo. Mas tentei fingir costume e ficar bem plena
porque meu marido comportava-se de forma muito madura.

Pietro estava recostado à cabeceira, mexendo no tablet, alheio ao que


passava pela minha cabeça. Em minha defesa, ele não me ajudava em nada
vestido só de cueca. Essas malditas cuecas acabariam com a minha sanidade.

— Você só usa isso para dormir? — perguntei, sentada exatamente igual a


ele, rolando a tela do meu celular sem nada para fazer.

— Durmo pelado, mas acho melhor manter essa tradição de lado por um
tempo.

— Ah tá. — E eu reclamando da cueca. Larguei o celular sobre a mesa de


cabeceira ao meu lado e cruzei as mãos no colo.

O que uma esposa normal faria nessas horas? Devia dar boa noite a ele e
virar para o lado? Espiei por cima do seu ombro para ver a tela do tablet e perdi
o interesse quando notei que Pietro mexia com números. Puxei a manta que nos
cobriria e a trouxe até minhas coxas.

— Posso não estar olhando para você, mas consigo ver como está inquieta —
disse ele, com o foco no tablet. — Algum problema?

— Não.

Ele deixou bem claro que não acreditava no que eu dizia quando largou o
aparelho eletrônico do outro lado do travesseiro e virou o rosto para me olhar.
Suspirei, chateada por atrapalhar o trabalho dele.

— Aproveitando que está aparentemente sem sono, acho um bom momento


para trazer um assunto importante à tona. Vamos considerar todas as
possibilidades mais terríveis e imaginar que Domenico Negri seja mesmo seu pai
biológico. — O Don cruzou os braços e descobriu as pernas, chutando a manta
para longe. — Entende o que isso significa em relação ao que você herdaria
dele?

— Acho que sim, mas não ia querer nada — respondi, sentindo a pressão
tomar conta do meu peito. — Não quero ter nada a ver com a Dita di Ferro.
— Não seria simples, você sabe disso. Veja bem, se Domenico a declarar
como herdeira mesmo contra sua vontade e, acabar morrendo, querendo ou não a
cadeira será sua. Aí entra a possibilidade de abdicar sim, do título, mas um
conselho entre a alta hierarquia seria formado para a escolha do novo Don.

— Então basta eu abdicar. Não é?

— Enquanto você estiver viva, será sempre uma ameaça ao novo Don. —
Ele tocou meu rosto e segurou meu queixo. — Esse é meu medo.

— E qual a melhor opção? — perguntei, odiando aquela conversa. Eu não


queria saber de Dita di Ferro, por mim, todos os membros podiam explodir.

— Rezar para Domenico ter blefado — Pietro respondeu, passando a mão


pela cabeça com uma expressão preocupada. — Há uma chance de tudo não
passar de jogo dele para tentar me encurralar. Quer que eu autorize a entrada do
tráfico na Sicília.

Minha memória me traiu com lembranças de meu pai. Ele e minha mãe não
costumavam conversar sobre assuntos da máfia na minha frente, mas fui
doutrinada com os mandamentos básicos sobre a famiglia, sobre seus valores, o
formato dos negócios e, principalmente, a constituição da hierarquia. E havia
uma informação que não se encaixava em tudo aquilo. Eu podia ser herdeira das
posses gerais de Domenico, mas não da cadeira em si. Virei-me de lado para
Pietro, que talvez pela primeira vez desde que deitei na cama, notou minha
roupa.

— Mulheres não podem ocupar a cadeira de Don na Soprattuto. Na Dita di


Ferro isso é permitido?

— Não — respondeu, deslizando um dedo pela minha coxa e me arrepiando.

— Qual o problema então? Eu não tenho como ser uma ameaça a ninguém.

— Você casou com um Don, bambina — disse, arqueando a sobrancelha. —


A cadeira seria minha, automaticamente. Isso não acontece mais hoje em dia
porque as máfias se alastraram pelo mundo, mas décadas atrás não era algo
incomum.

— Puta que pariu. — Tapei a boca, chocada por não ter assimilado antes a
informação que estava na minha cara. Era disso que Don Rizzo estava falando
quando se referiu ao medo das outras famiglias. Ninguém ia querer o mesmo
homem — que cá entre nós não tinha fama de santo — no comando das duas
maiores máfias.

A constatação de que Pietro poderia se tornar mais poderoso e perigoso fez


um calor subir pelas minhas pernas e mordi meu lábio para evitar sorrir. Porém,
não consegui me controlar e montei em cima dele, deslizando minhas mãos
pelos seus ombros.

— É muito errado de minha parte achar isso... hm... interessante? —


perguntei.

— Não tão errado quanto a minha vontade de matar o seu possível pai
biológico. Estamos empatados.

— Se você comandasse a Dita di Ferro, haveria uma possibilidade de mudar


as coisas por lá.

Alisei seu rosto e deixei meus dedos roçarem na barba que ele tinha deixado
bem aparadinha. Eu gostava de como ficava daquele jeito. O cretino era lindo
das duas formas, mas a barba o conferia uma expressão mais séria e ranzinza, o
que era muito sexy.

— Não quero o peso da Dita nos meus ombros, Gio. É o mesmo que viver
com um alvo na testa. Não dá para apagar o passado, Rinaldo e Domenico
deixaram um rastro de destruição pelo caminho.

Baixei a cabeça, sentindo vontade de chorar. Por que minha vida tinha que
ser tão problemática? Não bastava tudo que passei com Lorenzo? Eu só queria
poder ter casado como uma pessoa normal e pronto. Sem complicações. Sem
herança suja de sangue.

— Ou seja, além dos meus problemas, eu trouxe um monte para a sua vida
também — murmurei, encostando a cabeça no peito dele. — O mais inteligente
seria ter me deixado afogar no mar à noite.

Ouvi sua risada e senti a boca tocar meu ombro. Ele apertou os braços ao
meu redor e só fiquei ali um pouco, quieta, encolhida no casulo do Don.
— Não diga isso. Eu a amaria mesmo se fosse filha de um agente da CIA. —
Quando levantei o rosto, sem acreditar naquela comparação, acabei gargalhando
diante da expressão patética de Pietro. Ele tinha arregalado os olhos e aberto um
sorriso meio retardado. — Nada poderia ser pior do que isso.

Estalei a língua em alto e bom som.

— Nossa! Eu me casei com uma criança! Quantos anos você tem mesmo? —
perguntei, rindo quando ele beliscou minha cintura para me fazer cócegas.

— Trinta e três, mas em breve farei trinta e quatro. Não é de velho que você
vive me chamando? — Franziu a testa, pensativo.

— Sim. — Pisquei. — E, pelo visto, vai ficar ainda mais velho. Que
desgraça!

Pietro mordeu o lábio, estreitou os olhos e abriu um sorriso meio demoníaco.


Gritei quando ele me derrubou de costas na cama e segurou meus pulsos acima
da minha cabeça.

— Obrigado por isso.

— Pelo quê? — perguntei, rindo.

— Lembra da minha ameaça quando me chamasse novamente de velho?

Ah, cacete. Ele era um diabo mesmo e armou a armadilha, na qual caí como
um pato. Tentei me mexer sob o corpo dele, mas suas pernas me prendiam.

— Você não ouse me morder em lugar nenhum abaixo da cintura —


ameacei, colocando uma expressão bem séria no rosto, quando na verdade estava
ansiosa para descobrir o local que escolheria.

— Nunca mais esqueça que eu sempre cumpro minhas promessas, Giovanna


— declarou, segurando meus pulsos com uma única mão e usando a outra para
girar meu tronco um pouco de lado.

Ele ia morder minha bunda. Certeza. E a certeza era tanta que eu parei de me
debater. Não acredito que estava admitindo para mim mesma, mas ansiei pela
mordida. Fiquei calada, esperando o momento, observando os olhos azuis do
Don percorrerem o meu corpo. Ainda bem que não estava usando nenhuma
calcinha bege.

E então, enquanto eu quase me desfazia numa poça à espera da boca de


Pietro, ele desceu um pouco mais e se inclinou, mordendo minha coxa. Coxa!
Que lugar mais sem graça. Quase dei um coice nele.

— Por que não mordeu minha bunda? — perguntei, perdendo a compostura.


— Você ia morder minha bunda.

— Sim. — Sorriu, safado. — E percebi que era por isso que você estava
esperando.

Canalha! Eu odiava Don Pietro!

Ele me beijou na boca e me ajudou a levantar. Voltou para o lugar, ajeitou o


travesseiro e bateu no espaço ao seu lado.

— Vem dormir, gatinha. Tenho que acordar muito cedo amanhã.

Precisava arrumar uma forma de fazê-lo pagar por não ter me dado o que eu
queria. Murmurei um boa noite rápido e me deitei ao lado dele, frustrada.
PIETRO

O segurança no banco da frente tinha virado a cabeça e falava comigo sem


que eu me concentrasse no que dizia, pois minha mente estava em casa. Odiei ter
que me afastar de Giovanna por algumas horas porque tinha me viciado nela, em
sua companhia, seu riso fácil, seu sorriso bobo.

Estávamos casados há quatro dias e ainda não me acostumara àquela


sensação diferente em meu peito. Eu a conhecia há tanto tempo, esperara tantos
anos por ela, mas a verdade era que de convivência nós tínhamos muito pouco.
As semanas se passaram rápido demais desde que eu entrei naquela boate e a
tirei de lá no colo, recebendo seus socos e pontapés. Não imaginei que fosse cair
de amores com tanta facilidade.

Era bom, era ótimo. Sentia-me feliz por mais que estivesse sofrendo por não
poder transar. Até isso se tornou um mero detalhe, sendo bem sincero. Queria
que se cuidasse e tratasse os traumas para que nossa relação, em algum
momento, se tornasse completa. Porém, cada toque, cada descoberta, estava
sendo uma delícia. Eu amava saber que ela vinha se transformando aos poucos
em mulher, comigo. Só para mim.

Ontem tinha sido a primeira consulta a domicílio com uma psicóloga que ela
escolhera dentre algumas que citei. E Giovanna pareceu ter gostado da mulher,
pois quando a profissional foi embora, minha esposa passou a hora seguinte
contando tudo sobre o que conversaram. Era quase uma segunda terapia.

Apesar da felicidade plena, estar de quatro pela italianinha também trazia


complicações. Com meus negócios. Eu andava displicente e com a cabeça no
mundo da lua, como neste exato momento. Estava indo me encontrar com um
cliente que faria uma encomenda generosa de lotes da Invictus e só conseguia
pensar na hora em que chegaria em casa e receberia o beijo dela. Ah, cacete, em
que idiota eu havia me transformado?

— O senhor está bem? — o novato perguntou, franzindo a testa.

Carlo não estava mais me acompanhando desde que decidi colocá-lo com
Giovanna, no dia seguinte ao casamento. Ainda era o único em quem eu
confiava totalmente e, portanto, preferia que ficasse ao lado dela. Sabia que meu
segurança de anos gostava da menina e a protegeria com a própria vida como
faria comigo. Ajudava muito também que Giovanna gostasse dele e se sentisse à
vontade em sua companhia.

— Estou bem — respondi. — O que você falou agora pouco?

— Só que o trânsito está bom e chegaremos em no máximo dez minutos.

— Ótimo.

Não era uma informação que me interessava e percebi que ele ainda teria
muito o que aprender para lidar comigo. Tamborilei os dedos na perna, olhando
pela janela e observando o anúncio sobre câncer de mama num ônibus parado
mais à frente. Puxei o celular, curioso, digitando uma mensagem para minha
esposa.

“Pode parecer uma pergunta muito idiota, mas você já foi a um


ginecologista?”

Assim que enviei, pude imaginar Giovanna lendo e pensando em atirar
alguma coisa na minha cabeça. Ela detestava que eu entrasse em detalhes
íntimos como esse.

Ontem à noite, quando avisei que a calcinha dela tinha manchado de sangue,
correu para o banheiro ao me chamar de cretino e se trancou lá dentro por quase
uma hora. Cheguei a desistir de esperar por ela e fui deitar, até que voltou para a
cama cabisbaixa, cobriu-se até o pescoço e virou de costas para mim.

“Minha mãe me levou quando fiz quatorze anos.”


Respirei fundo, com raiva. Odiava que ela tivesse ficado largada por tanto
tempo, sem ninguém que conseguisse enxergar o quanto precisava de cuidados.

“Marque um, por favor. Não por causa de sexo, mas por sua saúde,
ok?”

“Tá bom. Te amo. Desculpe por ontem, fiquei com vergonha ☹”


O carro parou na porta do edifício, mas antes de saltar, respondi de volta com
um coração e guardei o celular no bolso do paletó. O comprador me esperava ali
mesmo na entrada, cercado por seus seguranças e logo estendeu a mão para
mim.

— Bom dia, senhor Greco. É um prazer.

— Bom dia, tudo bem? — Apertei a mão de Michael Tunner e estendi a


minha à frente. — Desculpe por fazê-lo esperar. Podemos subir?

Naquele momento, consegui deixar minha bambina um pouco de lado e me


concentrar no contrato milionário que fecharia na próxima hora.

Puxei o celular do bolso e atendi antes de olhar o visor, porque tinha quase
certeza de que era Giovanna me ligando. Ela tinha me enviado várias mensagens
durante minha reunião, querendo saber o que eu gostaria de ganhar de
aniversário, que seria dali a alguns dias, dia 02 de agosto.

— Eu já falei que presente não se escolhe assim — disse, rindo. — Se quer


me dar alguma coisa, compre o que sentir vontade.

— Posso pensar em várias coisas interessantes para dar.

Não era Giovanna, era a voz de Rayka. Só para me certificar de que não
estava alucinando, afastei o aparelho e olhei a tela. Isso mesmo.

— Olá.

— Sério que você está há dias em Nova York e não pensou em me avisar,
Pietro?

— Não pensei. — Girei na cadeira em minha sala e observei a vista do


vigésimo quinto andar. — Rayka, serei objetivo. Estou casado e, a partir de
agora, não teremos mais nenhum tipo de contato.

— Você casou? — ela chiou em meu ouvido. — Precisa ser mais explicativo,
porque da última vez em que nos vimos estava levando sua ex-noiva de volta
para casa.

— Sim, mas reatei o noivado e me casei com ela. Você sempre soube do meu
compromisso.

— Uau. Sim... Eu sabia. — O silêncio se tornou quase constrangedor,


quando ela voltou a dizer. — Parabéns, Pietro. Você pode passar aqui em casa?

— Não vejo motivo para isso. Você sabia que deixaríamos de nos ver no
momento em que eu me casasse, não é nenhuma novidade.

— Não sou sua inimiga, ok? — Rayka riu do outro lado e eu suspirei, doido
para desligar, mas não querendo ser grosseiro com ela. — Só... Deixe-me brindar
à sua felicidade. Uma taça. E você precisa devolver minha chave.

Eu nem lembrava dessa porra de chave. Precisaria procurar pois não fazia
ideia de onde estava.

— Vou pedir que algum segurança coloque na sua caixa de correio ainda
hoje. Mas, realmente, não irei aí. Não tem necessidade, entende?

— Sério, Pietro? Está com medo de mim? O que aconteceu com o discurso
de promessa de que nunca me chutaria do jeito que chutava as outras mulheres?
Acho que tenho direito, pelo menos, a um abraço.

— Lembro do meu discurso, Rayka, assim como lembro do seu sobre mulher
solteira e empoderada que não ligava para relacionamentos sérios. O que
aconteceu e por que está pirando?

— Foda-se. Estou grávida. Você pode ou não pode vir aqui em casa?

Antes que eu respondesse que não acreditava em uma palavra sequer, ela
desligou na minha cara.

GIOVANNA

Pietro faria trinta e quatro em alguns dias e eu estava desesperada porque


queria dar algum presente original a ele. O que comprar para um homem que
pode ter tudo, visto que além de dinheiro ele também tem o poder de estalar um
dedo e fazer acontecer? Tentei sondar um pouco por mensagens, descobrir se ele
possuía algum desejo oculto, mas o diabo era duro na queda. Disse que eu devia
dar o que sentisse vontade. E eu esperava que ele não estivesse se referindo ao
meu corpo.

Depois de muito pensar, decidi que poderia surpreendê-lo com um jantar


romântico. E tudo bem que eu não era nenhuma expert na cozinha, mas sabia
que a prática levava sempre à perfeição. Bastaria eu reproduzir um mesmo prato
umas dez vezes até que saísse gostoso. Carlo não estava fazendo nada mesmo,
ele podia muito bem servir de cobaia.

— Oi. — Sorri para ele quando abri a porta do apartamento e o encontrei no


hall social como um cão de guarda. — Já almoçou, Carlo?

— Não, senhora. São apenas dez e quinze.

— Eu sei, cancele seu almoço pois vai almoçar comigo — avisei,


escancarando a porta para ele entrar. — Por favor, fique à vontade.

— Não posso sair daqui, senhora Greco.

Senhora Greco. Caramba, era estranho ouvir as palavras sendo ditas assim.
Eu era uma senhora. Graças a Deus não tinha cabelo branco.

— Peça para alguém o substituir, ora. Além do mais, ficarei bem protegida
com você aqui dentro.

O homem me lançou um olhar de quem não seria facilmente comprado com


um sorriso. O que Pietro fazia com essas pessoas? Lançava raios de gelo sobre
os corações deles?

— Carlo, preciso de ajuda. — Fiz meu melhor biquinho. — Quero cozinhar


para Pietro, só que tenho que praticar muito antes. Então, vou cozinhar para
você.

Ele arqueou as sobrancelhas e vi quando abafou um sorriso.

— Acho que Don Pietro não vai gostar de saber que sua esposa está
cozinhando para os seguranças.

Homens!

— Não para os, para você, apenas. Vamos lá. — Puxei a mão dele com força,
mal conseguindo fazer com que saísse do lugar. — Olha, quantos anos você
tem?

— Quarenta e dois, senhora.

Nossa! Sei que fui indiscreta, mas dei uma boa encarada nele, sem conseguir
acreditar que estava tão inteiro. Carlo não tinha praticamente nenhuma ruga. Eu
sabia que era mais velho que Pietro, mas daria no máximo quarenta anos a ele,
mesmo assim, jogando bem para o alto. Fiz uns cálculos rápidos e pisquei.

— Você tem idade para ser meu pai. É só fingir que vamos brincar de tomar
chá. — Ele riu. Ah! Consegui arrancar uma risada daquela pessoa séria e joguei
os braços para o alto, comemorando. — Não quero causar uma dor de barriga em
Pietro no dia do aniversário dele. Se isso acontecer — apontei o dedo para Carlo
— a culpa será toda sua.

O homem amoleceu o corpo e me deixou puxá-lo para dentro de casa,


fechando a porta e aproximando o outro pulso da boca. Enquanto ele solicitava
um substituto para o andar, eu o soltei e comecei a mexer nos armários.
Primeiro, precisava decidir qual seria o prato a treinar.

— Don Pietro é louco por lagostas — disse atrás de mim, de braços cruzados
e um pouco tímido.

— Ah, tá. Claro. Vamos para outra opção porque não sei lidar nem com
baratas, quem dirá com uma lagosta.

— Que tal escargot? — perguntou.

Eu parei, virei de frente para ele e coloquei minhas mãos na cintura.

— Carlo, você não está ajudando. Escargot? Dê ideias de comidas que uma
pessoa como eu possa cozinhar sem destruir a cozinha.

— Ele adora paella...

Suspirei, frustrada. Por que mesmo eu tinha pedido a ajuda de Carlo? Sentei-
me na banqueta alta e deixei meus ombros caírem.

— Tinha pensado em algo mais simples do que uma comida que precisa ser
feita por chefs.

— Mas paella não é tão difícil, senhora. Só precisa ter os ingredientes certos.
Sei fazer e posso ensiná-la.

— Você sabe cozinhar?


— Sou solteiro. — Ele deu de ombros, sorrindo. — Tive que aprender a me
virar sozinho e como passo muito tempo com Don Pietro, sempre me dá vontade
de fazer essas comidas diferentes que ele vive provando por aí.

Chocada, levantei e estiquei a mão para ele, que a segurou e selamos um


acordo.

— Se eu conseguir aprender a fazer paella, prometo que não ficará solteiro


por muito tempo. Começarei hoje mesmo a criar uma lista de possíveis
pretendentes. — Dei um tapinha no braço dele, que riu e balançou a cabeça,
talvez achando que eu não estivesse falando sério. — Vou trocar de roupa para
irmos ao mercado.

Podia imaginar a cara de Pietro quando provasse a paella e descobrisse que


estava maravilhosa. Queria montar uma mesa pequena e quadrada que nem nos
filmes, com toalha preta e tudo de mais requintado possível. E no final da noite,
pegaria novamente na anaconda para vê-lo surtar daquele jeito. Desde o dia em
que chutei o balde e deixei que ele gozasse na minha boca nós não tínhamos
feito mais nada. Andei um pouco enjoada por causa do remédio para cólica e
com um humor do cão. Confesso que estava com saudade dos vinte e um
centímetros.

O elevador tinha acabado de nos deixar no andar de casa e Carlo abria a


porta para mim, com sua outra mão ocupada pelas sacolas. Assim que pisei
dentro do apartamento, o rádio dele tocou e notei que ouvia alguma coisa pelo
comunicador no ouvido.

— A senhora Scott está no saguão — comentou, lançando-me um olhar


receoso.

— Quem?

— Rayka Scott. — Mordi minha língua ao ouvir aquele nome. O que Rayka
estava fazendo aqui? — Devo mandar avisar que não tem ninguém para recebê-
la?

Era o melhor que eu podia fazer. Simplesmente ignorar e deixar que algum
segurança a mandasse embora. Mas uma parte minha estava se sentindo
afrontada por ela ter ido até lá mesmo Pietro estando casado.

— Vou falar com ela — disse, recebendo uma expressão de surpresa de


Carlo. — Como estou?

O homem correu os olhos pelo meu rosto e esticou as mãos, alisando meu
cabelo. Não acreditava que ele estava mesmo me arrumando.

— Um pouco descabelada.

Marchei de volta ao elevador e comecei a apertar o botão com muita pressa.


Notei que Carlo largou as compras ali mesmo no hall e se juntou a mim,
ajeitando o paletó.

— Como será que Rayka está? — perguntei.

— Ela sempre é muito elegante — disse ele, baixinho, e depois pigarreou. —


Mas a senhora, se me permite dizer, é muito mais encantadora e jovial.

O elevador chegou e nós entramos, sendo que virei de frente para Carlo e
estalei minha língua, ao conferir o visual dele. O cabelo precisava de um corte
mais moderno e acho que ele podia usar uns ternos com melhores caimentos.

— Carlo, meu amigo, você precisa atualizar esse vocabulário ou terei que
arranjar uma namorada de setenta anos para você. Quem usa “jovial” hoje em
dia?

Ele sorriu, mas não tive tempo de alongar nossa conversa porque chegamos
ao saguão do prédio. Respirei fundo, aprumei os ombros, ergui o queixo e
caminhei como Giulia Greco caminharia em direção ao inimigo. Confiante.

— Meu marido não está em casa — cheguei dizendo, querendo dar uma
voadora naquele nariz esculpido por horas de cirurgia plástica. — Posso ajudar
em alguma coisa?

Ela estava de costas para mim e se virou, fazendo aquela cabeleira loira e
brilhante sacudir ao redor dos ombros. Era difícil odiar uma mulher tão linda
quanto Rayka. Que desgraça!

— Oi, Giovanna! — Sorriu, mas me mantive firme e não mostrei meus


dentes. Minha mente começava a me trair, soterrando-me com imagens daqueles
quadris encaixados no pênis de Pietro. — Eu sei que ele ainda não chegou, tinha
me avisado que ainda teria mais duas reuniões hoje.

Tinha me avisado?

Mantive minha cara de paisagem, evitando mostrar que aquelas duas


palavras me deixaram um pouco confusas. Em que momento do dia ele tinha
avisado alguma coisa para a madame?

— Eu só vim entregar o relógio que esqueceu lá em casa. — Ela desviou os


olhos para dentro de sua bolsa enorme da Gucci e puxou o rolex que Pietro
raramente tirava do pulso. O ar me faltou. — Pode devolver, por favor? Ele
preferiu tirar para não molhar e acabou esquecendo.

— Ele esteve na sua casa hoje? — Não aguentei, não aguenteeeeei. Cadê o
Carlo para me segurar antes que eu arrancasse aquele aplique?

A sonsa deu de ombros como se fosse uma coisa muito corriqueira e jogou
uma mecha de cabelo para trás.

— Sim... — Ela pressionou os lábios, ainda com a mão esticada segurando o


rolex. — Ele... Não sei como contar isso. Ele precisou ir lá para falarmos sobre a
gravidez e uma coisa leva a outra.

A mão livre tocou a barriga. Minha reação inicial foi sentir que podia
desmaiar, mas outra logo a substituiu: a raiva. Raiva por tudo na minha vida
precisar ser difícil, dar errado, vir junto com sofrimento. Será possível que a
porra do universo não pretendia me dar uma folga?

Quando vi, já avançava sobre a magrela alta, puxando-a pelo cabelo porque
eu estava de tênis e não alcançava seu rosto. Mas quando agarrei sua cabeça, aos
berros, envolvi minhas mãos naquele pescoço fino que fedia a Victoria’s Secret.

— Sua vaca! — gritei, fazendo vários seguranças correrem até nós. — Sabe
onde vou enfiar esse relógio?
— Solte-me, sua louca! — Ela se desvencilhou de mim e se desequilibrou
para trás, mas não caiu porque um segurança segurou seu braço e a puxou. —
Não ouse fazer mal ao nosso bebê!

— O seu próprio organismo é letal a ele, vagabunda! — Carlo me segurou e


meus pés saíram do chão, mas tive tempo de chutar aquelas mãos cadavéricas e
o rolex voou longe, espatifando-se perto dos elevadores. — Assim que essa
criança nascer eu vou caçar sua cabeça! Tenha certeza disso!

— Acalme-se, senhora Greco — Carlo pediu depois que a loira foi retirada
do prédio, mas meu sangue fervia. — Por favor, vamos subir.

Ele me colocou dentro do elevador, ainda sem me soltar e quando as portas


se fecharam, deixou que eu me afastasse. Engoli o choro, mas meus olhos
ardiam tanto que foi preciso fechá-los. Não ia chorar na frente de ninguém.

— Se minha opinião serve de alguma coisa, conheço Don Pietro o suficiente


para saber que ele não faria isso — murmurou, olhando para a porta.

— O quê? Sexo? — Ri, em escárnio. — Está falando de Pietro Greco.

— Trair. Ele é um homem de palavra.

— Bom, que pena, não é? Pois não trocamos nenhum voto de fidelidade, ele
apenas enfiou a aliança no meu dedo.

Foi bem desconfortável o silêncio que se seguiu e quando chegamos ao


andar, pulei as sacolas de compras e abri a porta.

— Coloque tudo na cozinha e depois me deixe sozinha, Carlo — pedi,


arrastando meu corpo até o quarto, fechando a porta e trancando com a chave.

Se Pietro pretendesse usar o banheiro ainda hoje, que desse um pulo de novo
na casa da Rayka.

PIETRO
Soube que algo tinha acontecido quando saí do elevador e vi a cara de
enterro de Carlo. Um arrepio subiu pela minha espinha, mas descartei algum
problema sério com Giovanna porque qualquer coisa relacionada ao bem-estar
dela, eu seria avisado imediatamente.

Ele abriu a porta para mim, com os olhos baixos e murmurou um


cumprimento quando entrei. Mas antes de fechá-la, pigarreou e finalmente me
encarou.

— Don Pietro, não quero me meter, mas talvez eu deva avisá-lo que a
senhora Scott esteve aqui há pouco mais de uma hora.

— Quê? — Olhei para dentro do apartamento, imaginando onde estava


Giovanna. — Rayka esteve aqui?

— Sim e não foi nada bom. — Ele esticou o corpo para tentar olhar para a
sala e se endireitou. — Ela falou umas coisas, a senhora Greco avançou nela e
foi preciso separar as duas.

Meu coração se apertou no peito e eu sentia que o sangue fugia do meu rosto,
do meu pescoço, do meu corpo inteiro. Então, como se ainda não tivesse
terminado de anunciar a desgraça, Carlo puxou meu rolex, que foi de meu pai,
de dentro do bolso. Espatifado.

— Ah, caralho! — Peguei o relógio, já visualizando a cena toda. — Não


acredito que ela fez isso.

— Foi a senhora Greco quem fez. A senhora Scott contou sobre a gravidez
e... — Ele parecia se sentir mal por ser o portador de más notícias. — Bem, sua
esposa ficou enfurecida.

— Obrigado, Carlo. — Enfiei o rolex no bolso do paletó e apertei o ombro


dele. — Cuidarei disso.

Fechei a porta e me encostei nela, preocupado. Giovanna devia estar puta se


achava que eu tinha ido para a cama com Rayka. Ou pela gravidez. Enfim, por
tudo.

Lancei um olhar para o corredor que levava ao meu quarto e caminhei


devagar. Eu era inocente, nada tinha acontecido. Fui sim até Rayka, mas para
tirar satisfações com ela. Assim que desligou o telefone na minha cara, juntei
meus seguranças e saí do escritório imediatamente. Cheguei em menos de meia
hora no apartamento dela e quando abriu a porta para mim, parecia saber que eu
iria até lá. Claro que eu iria.

— Que bom que veio, querido — disse ela, deixando-me entrar. —


Precisamos muito conversar.

Estava usando um robe de seda parcialmente fechado, porque queria que eu


notasse a calcinha exposta e um pedaço da barriga.

— Não vim perder tempo aqui, Rayka. Sabemos que esse filho, se é que está
mesmo grávida, não é meu.

— Sabemos?

Ela caminhou até a ilha da cozinha americana, onde uma garrafa de


champagne esperava mergulhada num balde de gelo, ao lado de uma taça.
Apoiei minhas mãos no mármore e tentei contar até dez antes de esganar seu
pescoço. Nunca usei de força com mulheres e não gostaria de começar agora.

— Não posso mais beber, estou de nove semanas, mas você pode. — Ela
estourou a rolha e a cascata da bebida atingiu meu relógio por inteiro. Era quase
que de estimação, um rolex que tinha sido de meu avô, que passou para meu pai
e que, um dia, eu pretendia passar para meu filho.

— Merda! — reclamei, tirando-o do pulso e o secando na calça. Coloquei-o


um pouco afastado da garrafa e me virei para a golpista. — Não é meu. Se tem
uma coisa que nunca deixo de fazer na vida, é usar camisinha e você sabe muito
bem disso. Também tenho certeza que você toma anticoncepcional. Ou tomava,
pelo menos.

— Camisinhas estouram, Pietro. — Ignorando minha negação, ela encheu a


porra da taça, que eu arranquei da mão dela e lancei no chão.

— Não é a porra do meu filho! Você sabe quantas vezes já escutei esse
mesmo discurso ridículo? Acha que está sendo original, Rayka?

A loira revirou os olhos, passou por cima dos cacos de vidro e foi até sua
bolsa sobre o sofá. Sem pressa alguma, ela puxou um envelope branco e o
deslizou pela bancada diante de mim.

— Eu realmente não tenho motivo para mentir. Tem bastante tempo que não
transo com mais ninguém além de você. Sinto muito estragar seu casamento de
ouro, mas talvez seja disso mesmo que sua família esteja precisando. Essa coisa
ridícula de tradição italiana que nunca ouvi falar, tenha dó. E daí que é algo que
seu avô honrou, seu pai também...? Eles estão mortos, Pietro. É injusto você ter
que passar por isso. Você pode aproveitar essa chance e se livrar de vez de um
casamento que não deseja.

Esperei que terminasse o discurso. Encarando o envelope, peguei meu


celular e aguardei o novo segurança me atender. Enquanto isso, puxei o papel de
dentro e o desdobrei lentamente.

— Pode vir — avisei, encerrei a ligação e guardei o aparelho. Ali diante de


mim, tinha o resultado positivo da gravidez de Rayka. Ergui o papel próximo do
rosto dela e o rasguei no meio. — A diferença entre nós dois é que eu conheço
toda a sua vida, mas você não sabe quem sou. Não sabe o que um filho fora do
casamento significaria e o que sou capaz de fazer.

Caminhei até a porta e girei a maçaneta no instante em que seis homens


invadiram o apartamento. Fechei e girei a chave, enquanto eles se espalhavam
pelo território.

— Este é o doutor Kennington — apresentei o homem baixinho e de óculos


que se aproximou dela. — O único resultado no qual acreditarei, será o dele.
Então, sente a bunda aí.

— Ficou louco, Pietro? — Ela recuou, de olhos arregalados, protegendo a


barriga quase irrelevante. Eu só notei o volume diferente porque conhecia bem
aquele corpo. — O que pensa que está fazendo? Não tem como fazer teste de
paternidade agora, ainda é muito cedo.

— Garantindo que a verdade prevaleça.

— A medicina de hoje possibilita que através do ADN fetal consigamos


confirmar a paternidade apenas com uma simples coleta de sangue — explicou o
médico, até mesmo para mim, que não sabia muito bem como funcionaria. Eu só
tinha ligado para ele no meio do caminho e explicado a situação. O doutor
Kennington informou que seria possível fazer o teste se ela tivesse passado da
oitava semana. Bingo! — Claro que não é um procedimento muito usado pelo
valor extremamente elevado. A maioria das pessoas prefere esperar para colher o
líquido amniótico ou aguardar o nascimento do bebê.

Rayka se debateu quando ele tentou segurar seu braço e eu diminuí a


distância entre nós rapidamente.

— Isso tudo porque tem medo que sua noivinha virgem descubra que vai ser
pai? — provocou, a voz aumentando o tom em alguns decibéis. — Afinal, ela
ainda é virgem? Porque eu não consigo imaginar você enrabando uma criança de
dezessete anos.

Ela sabia que a idade era o meu ponto fraco em relação à Giovanna. Sabia
como as suas palavras me afetariam. Dei mais um passo, colando meu nariz ao
dela.

— SENTA! — berrei, observando uma ou outra gota de saliva tocar seu


rosto. — Não tente medir força comigo, Rayka. Não tocarei num fio de cabelo
seu, mas ouse falar de minha esposa novamente e destruo sua vida num estalar
de dedos.

Pálida, mas com uma expressão de ódio, ela se sentou e esticou o braço para
que o doutor Kennington inserisse a agulha em sua veia. Virei-me para dois
homens que voltavam para a sala, um deles com o ponto de câmera que havia
sido instalado no quarto dela para nossas brincadeiras.

— Pegaram o HD no computador? — questionei e recebi a confirmação.

Estavam todos ali para apagar qualquer vestígio meu daquela casa. Quando
terminaram, pararam todos diante da porta e me esperaram. O médico terminava
de guardar o sangue coletado em sua valise e se levantava, quando voltei a
encará-la.

— Vou explicar como as coisas acontecerão daqui para a frente. Se esse filho
for meu, e tenho certeza de que não é, você me concederá a guarda total da
criança. Ainda serei benevolente e você receberá uma generosa pensão para se
manter em qualquer buraco desse mundo, bem longe da minha família. Não
teremos contato. Caso tente se aproximar, sofrerá as consequências. Porém, se o
filho não for meu, vou conceder quarenta e oito horas para que saia da cidade e
me esqueça.
— Quem é você, afinal?

Toquei seu rosto e segurei seu queixo entre meus dedos, observando o medo
em seus olhos.

— O prazo começa a contar desde agora, Rayka. Eu a achava uma mulher


íntegra e nunca a quis mal, mas você cometeu o pior erro de todos.

— Qual? — perguntou, com os lábios trêmulos.

— Mexeu com a minha família. — Lancei um último olhar para a barriga


quase inexistente e me afastei. — Atrapalhou bastante meu dia, pois ainda tenho
duas reuniões marcadas para hoje e vai me fazer chegar tarde em casa. Agradeça
por eu ter sido generoso. E boa sorte com a gravidez.

Passei pela porta que foi aberta para mim e entrei no elevador, olhando-me
na parede espelhada e sorrindo para o doutor Kennington atrás de mim.

— Em quanto tempo acha que consegue me entregar o resultado?

— Bem... — Ele ajeitou os óculos e se empertigou. — Precisei fazer muitos


contatos com alguns laboratórios nos quais confio e não vai sair barato, Don
Pietro. O prazo normal é de até dez dias úteis e...

— Não tenho esse tempo — eu o cortei.

— Sim, eu sei. Por isso, vai precisar molhar algumas mãos pelo caminho.
Cobraram-me vinte mil pela taxa de urgência, além dos cinco mil do exame.

— O que me interessa é o tempo, Kennington.

— Em dois dias, no máximo, eu entrego o resultado.

Dois dias. Seria aquele o tempo do meu inferno pessoal. Quando entrei no
carro para voltar ao escritório, comecei a pensar nas milhares de formas para
abordar o assunto com Giovanna. Eu sabia que ela surtaria com a possibilidade
de eu ser pai, mas tinha esperanças de que entenderia e esperaria os dois dias ao
meu lado.

Pelo visto, deu tudo errado. Tinha esquecido o relógio no apartamento de


Rayka e só me lembrei disso quando estava dentro do carro, voltando para meu
escritório. Não tinha tempo de retornar por causa das reuniões e tinha decidido
que enviaria Carlo até lá mais tarde.

Bati pela quinta vez na porta do quarto e não ouvi resposta alguma.

— Giovanna, por favor, abra — implorei mais uma vez. — Se Rayka deu a
entender que traí você, precisa acreditar em mim. Pelo menos, deixar que eu
explique tudo que aconteceu.

Nada. Silêncio total. Eu preferia mil vezes que estivesse gritando ou tentando
me bater, pois, pelo menos, estaria reagindo. Não me fazia bem saber que dentro
do quarto aquela criaturinha pequena estava sofrendo por algo que eu tenha
feito. Pior ainda por algo que não fiz.

— Bambina... — Colei minha testa na porta, suspirando. — Eu preciso de


você agora, viu? Tenho certeza que esse filho não é meu, mas mesmo assim,
estou chateado com toda a situação.

Meu coração começou a bater acelerado quando ouvi o barulho da chave e a


porta foi aberta. Giovanna estava péssima, com os olhos inchados e vermelhos e
a camisa preta de algodão toda manchada do que parecia ser coriza.

Abri a boca para falar, mas a mão dela estalou em meu rosto, deixando
minha pele ardida. Engoli em seco e recebi o tapa do outro lado. Minha pele
estava em brasas, o que indicava que a mão dela devia estar dolorida.

— Vai negar que esteve na casa da vagabunda? — Ao contrário do que


imaginei, não era raiva que estava impregnada em sua voz e sim tristeza.

— Óbvio que não. — Tentei tocar seu rosto, mas ela se afastou. — Estive lá
para tirar a história a limpo e esqueci meu relógio. Só isso.

— Por que você tirou o relógio do pulso, Pietro?

— Rayka...

— Não fale o nome dela! — gritou, estapeando-me no peito. — Se eu ouvir


esse nome de novo, faço você engolir essa aliança!
Os lábios tremeram e Giovanna caiu no choro, empurrando-me ao passar por
mim em direção à sala. Descontrolada, ela entrou na cozinha e a segui de perto,
observando enquanto abria o armário, pegava uma caixa de cereal matinal e a
colocava debaixo do braço.

— Qual é o seu vinho mais caro? — perguntou, sem esconder a irritação ao


parar diante do bar. Como não respondi, ela me lançou um olhar que por pouco
não soltava rajadas de fogo. — Qual. A. Porra. Do. Seu. Vinho. Mais. Caro.

Respirei fundo, estiquei a mão e puxei uma safra raríssima, fruto de um


leilão. Ela pegou o saca-rolhas, envolveu a garrafa com os dedos e passou por
mim, batendo firme com os pés descalços contra o piso.

— Eu estou muito puta para ouvir qualquer coisa sair da sua boca neste
momento. Nem pense em chegar perto de mim.

— Ela derramou bebida no meu rolex e eu o tirei do pulso. É um relógio


antigo, que está na minha família há décadas e eu o tratava com muito cuidado.

Minhas palavras a afetaram, porque ela chegou a parar, mesmo de costas


para mim.

— Desculpe por isso. Espero que tenha conserto — disse, virando-se para
mim com os olhos estreitos e o rosto vermelho. — O que não posso dizer da
porra do seu pau que vou cortar em mil pedaços!

Ela se virou de novo e alcançou o corredor, mas eu me apressei para ir atrás.


Não queria pressioná-la, sabia que estava magoada, podia imaginar a cena que
Rayka deve ter feito com o propósito de desestabilizá-la. Talvez eu tenha forçado
muito. A loira não fazia ideia de quem eu era e com o que lidava. Deve ter
pensado que minhas ameaças eram comuns, como a de um homem que enjoa da
amante e apenas quer que ela o deixe em paz.

Resistindo à vontade de sacudir Giovanna pelos ombros, segurei o pulso dela


e a encostei na parede. Toquei sua testa, deslizando meu polegar por uma de suas
sobrancelhas e ela abaixou o rosto.

— Nada aconteceu naquele apartamento. Vou deixar você digerir toda essa
confusão porque tem o direito de me cobrar isso, mas espero que engula o choro
em algum momento e venha conversar com seu marido. Hoje fiz uma coisa que
jurei nunca fazer, que é ameaçar uma mulher. Fiz porque não tolerei que ela
falasse de você e da nossa relação. — Toquei o queixo dela, forçando a levantar
os olhos para me encarar. — Na verdade, pensando bem, foi a segunda vez que
fiz isso. A primeira foi com sua mãe, lembra? Precisa confiar em mim, Gio...

— É bem difícil acreditar que você está sem sexo há tanto tempo —
murmurou ela, com um olhar firme direcionado a mim. — Não é só a notícia da
gravidez que me machuca.

— Infelizmente, não há nenhum documento que comprove o que estou


dizendo, apenas minha palavra. É com ela que você terá que lidar.

Giovanna pressionou os lábios e desviou os olhos para um ponto na parede


atrás de mim. Decidi soltá-la, porque não seria daquele jeito que eu a faria ceder.
Esfreguei meu rosto, sentindo o cansaço me abater e todos os acontecimentos do
dia pesaram como uma tonelada em meus ombros.

— Passarei essa noite no sofá do escritório — avisei, dando a volta por ela e
abrindo a porta. — Fique bem.

Entrei e me joguei no sofá, soltando devagar o ar de meus pulmões. Minha


cabeça estava fervilhando de possibilidades. E eu me sentia um pouco magoado.
Se Giovanna tinha o direito de se sentir traída, eu podia me chatear por não ter a
confiança dela.
GIOVANNA

Sabe aquele dia que você se sente o cocô do cavalo do bandido? Estava me
sentindo o verme que habita esse cocô. Tantas mulheres no mundo que poderiam
engravidar de Pietro e tinha que ser justamente a Rayka? Eu me achava bonita,
achava mesmo. Mas não conseguia olhar para aquela mulher e não pensar que
ela era estonteante. Não conseguia tirar da minha cabeça o fato de que o Don
esteve várias vezes na cama com ela. Se o filho fosse mesmo dele, sabia que
teria a sombra da loira eternamente ao nosso lado. Eu devia estar amaldiçoada,
não era possível.

Já era uma pressão enorme me casar com um cara como ele, tão experiente,
sabendo que quando finalmente transássemos, ele poderia me comparar com as
centenas de mulheres com quem dormiu. Também me sentia mal por não ter
consumado o casamento ainda, ciente de que pessoas normais passavam os dias
seguintes ao matrimônio transando muito. Era surreal que Pietro, que trocava de
mulher como quem trocava de roupa, estivesse tantos dias sem fazer sexo,
esperando pelo momento em que eu resolvesse abrir as pernas.

Rayka me tirou muito do sério com a simples menção do que podia ter
acontecido na casa dela. Talvez eu nem devesse aprender a atirar, porque naquele
instante eu quis matá-la. E matar Pietro também.

— Pelo menos você se tornaria uma viúva muito rica! — falei para meu
reflexo no espelho e ergui a garrafa de vinho. — Um brinde a isso!

Degustei o líquido viscoso, acetinado, digno de um rombo na carteira. O


filho da mãe sabia escolher, não dava para negar esse fato. Deixei a garrafa sobre
a bancada do banheiro e virei de frente para a parede espelhada.

Estava pelada e dei uma boa observada no meu corpo. Eu realmente era
bonita, não era? Talvez fosse o efeito de metade da bebida falando mais alto,
mas eu gostava de mim mesma. Não tinha pernas tão compridas como as da
vagabunda loira, nem tão finas. As minhas coxas eram um pouco mais
arredondadas e só não se tocavam por menos de um centímetro de espaço entre
elas.

Dei uma viradinha e olhei minha bunda, que não era a maior do mundo, mas
tinha um tamanho considerável e era empinada.

— Temos que fazer alguma coisa com... isso. — Encarei meu capô de fusca
um tiquinho volumoso e coberto com alguns pelos aparados, pois só raspava a
região da virilha. Vinha adiando a tal da depilação com cera bravamente porque
morria de medo da dor e da aparência que teria depois.

Na verdade, eu odiava aquela região do meu corpo. Os lábios tinham carne


demais e me impediam de usar leggings e roupas que dividiam a perereca no
meio. Sentia-me muito exposta e vulgar. Por causa disso, acabei adquirindo uma
mania horrorosa, de ficar observando outras mulheres na rua e invejando quando
a perseguida delas não engolia a costura da calça. Inúmeras vezes fui flagrada
fazendo isso e sentia vontade de me jogar debaixo de um caminhão. Com
certeza, achavam que eu era tarada.

Minha cintura não era aquela de violão, mas havia uma curva acentuada ali,
proporcional ao tamanho de meus quadris. E meus peitos eram legais. Pietro já
tinha demonstrado ter gostado muito deles.
Meus ombros caíram em desânimo. Ele alegava não ter dormido com ela e o
pior era que eu começava a acreditar. Minha mente estava confusa e os
sentimentos em meu peito se embaralhavam, mas não conseguia imaginar que
ele pudesse mentir tão descaradamente para mim.

Abri a porta do box com força demais e ouvi algo estalar, mas agradeci por
as dobradiças continuarem intactas. Tudo que me faltava era destruir o banheiro
de Pietro, depois de ter sido responsável por acabar com o tal rolex de família.
Ainda me sentia um pouco mal por isso.

Durante o banho, deixei as lágrimas se misturarem com a água. Queria que a


vida desse um pause por uns dias, que me deixasse respirar sem ter que pensar
em problemas. Queria voltar no tempo e decidir não descer para falar com
Rayka. Ela não teria me provocado, eu não teria sentido raiva e nem teria
brigado com Pietro. Ele, eventualmente, contaria sobre a gravidez. Ou não.

Tinha terminado de torcer o excesso de água do cabelo e saí do box, pisando


no tapete felpudo. O box de Pietro devia possuir uns quatro metros quadrados e,
por isso, a desgraça da porta era bem larga e pesada. Portanto, fiz o que fazia
sempre. Apoiei uma mão nela enquanto levantava o pé para enxugar entre os
dedos.

Naquele instante, percebi que estava mesmo muito amaldiçoada. Porque um


estalo sinistro ecoou por todo o banheiro e eu levei alguns milésimos de
segundos para entender que era o vidro se espatifando mesmo sem eu ter feito
droga nenhuma. O apoio da minha mão sumiu e me vi caindo junto com os
milhares de cacos de vidro que perfuravam minha pele.

PIETRO

Estava dando algumas ordens a Carlo, para que ele colocasse homens na cola
de Rayka e me informasse cada passo que ela desse fora de casa. A raiva que
sentia por ela era tão grande, que roguei a Deus para não colocá-la novamente
em meu caminho. Ter atacado Giovanna foi o golpe mais baixo que poderia ter
usado. E o mais idiota também, porque se antes eu ainda tinha algum mínimo
respeito por ela, agora estava muito fodida.
— Como está a senhora Greco? — perguntou ele, curioso.

— Puta da vida — respondi, esticando os braços sobre o encosto do sofá. —


Ela acha que transei com Rayka. Vamos torcer para que se acalme antes de
esvaziar minha adega.

Eu estava prestes a dispensar o homem quando um barulho enorme de vidro


se espatifando chegou até nós. Na mesma hora pensei que Giovanna estivesse
destruindo o quarto, mas então, sua voz chorosa gritou pelo meu nome e me
arrepiou dos pés à cabeça.

Empurrei Carlo e corri até ela, grato por não encontrar a porta do quarto
trancada. Assim que alcancei o banheiro, virei-me imediatamente para o
segurança, que me seguia, apontando um dedo para ele.

— Ela está nua. Saia daqui e chame o doutor Kennington agora!

— O que houve?

Meu coração disparado me impossibilitou de falar. Agarrei a cabeça e


encarei Carlo, que parecia assustado.

— Giovanna está toda cortada. Chame o médico.

Enquanto ele correu para fora do quarto sem falar mais nada, eu corri para o
banheiro. Não tinha estruturas para a cena diante de mim. A italianinha estava
caída de costas no chão e debaixo do corpo delicado havia o que antes era a
porta do box. Graças a Deus era de vidro temperado e os cacos tinham se
espatifado em pedaços minúsculos, pois caso não fosse isso, uma desgraça maior
podia ter acontecido.

— Pietro... — Chorando e sem conseguir me olhar, ela esticou a mão.

— Não se mexa.

Saí do transe em que estava e me aproximei, ouvindo o barulho de vidro


esmagado pelos meus sapatos. À minha volta, uma confusão de vidro, água e
sangue. Havia caco de vidro até no cabelo dela.

— Vou tirá-la daqui, não fique nervosa — pedi, ajoelhando-me e sentindo o


vidro rasgar o tecido da minha calça. — O mais importante é você não se mexer
para não se ferir ainda mais.

— Quero levantar...

O choro de Giovanna me deixava tão nervoso que não sabia se devia enxugar
seu rosto ou limpar seu corpo. Afastei com o máximo de delicadeza que
consegui, os caquinhos grudados na testa, ao redor do nariz e dos lábios. Ali,
pelo menos, os cortes eram superficiais.

— Calma, amore mio. — Segurei as mãos aflitas que tentavam tapar sua
intimidade e engoli em seco ao ver que até ali tinha caco de vidro. Misericórdia!
— Mantenha as pernas fechadas para não entrar vidro em você.

— Tira, tira! — choramingou, tentando levantar o rosto para olhar.

— Calma...

Ela fechou os olhos quando comecei a catar as pequenas partículas entre os


pelinhos pubianos, mas por reflexo, acabou tentando flexionar os joelhos para se
proteger do meu toque. Isso fez com que pisasse em mais vidro e gritasse de dor.

— Não, meu anjo... — Passei meu braço por trás dos seus joelho para evitar
que fizesse de novo e a olhei. — Presta atenção. Vou te levantar agora, mas
preciso colocar minha mão entre suas costas e o chão. Só que não quero que
você pressione a bunda contra o vidro, ok? Vai passar o braço pelo meu pescoço
e me puxar na sua direção. Acha que consegue fazer isso?

Ela chorava tanto que nem devia me enxergar direito. Minhas mãos tremiam
quando balançou a cabeça para confirmar ter entendido e segurou em meu
pescoço. Senti meu corpo ser puxado e coloquei impulso nas pernas para
levantar com ela. Quando grudei meu braço em suas costas, Gio chiou com a
dor, mas mordeu o lábio.

— Estamos saindo — falei, grudando minha boca em seu rosto e deixando


um beijo ali. — Está tudo bem.

Dei mais uma boa olhada pela frente do corpo, certificando-me não haver
nenhum caco de vidro ali, pois minha intenção era colocá-la de bruços na cama
até a chegada do médico. Talvez seria o caso de levar Giovanna para o hospital,
mas de qualquer forma, não tinha como manuseá-la direito com as costas
repletas de vidro.

Subi com ela pelo colchão e a deitei devagar, ajudando a virar de bunda para
cima. Ela agarrou um travesseiro e afundou a cabeça, abafando o choro,
enquanto eu descia da cama.

A primeira coisa que fiz foi parar e avaliar a situação. Giovanna estava
banhada em vidro e dezenas de cortes que deviam arder como o inferno. Um
caco maior, de uns dez centímetros, tinha se enterrado na parte de trás do
antebraço direito e aquilo precisaria de pontos. Um pouco abaixo dos furinhos
que marcavam o início da bunda havia um outro corte grande, mas não sabia se
era profundo o bastante para precisar de sutura. Graças a Deus eu não tinha
estômago fraco, porque era sangue para todos os lados.

Observei seus pés feridos e espanei os cacos com minha própria mão. Em
seguida, fui pegar um lençol bem fino para manter pelo menos a bunda dela
coberta quando Carlo voltasse com o médico. Soltei o tecido devagar sobre sua
cintura e suspirei, apavorado. Como isso foi acontecer?

— Pietro — chamou, virando o rosto vermelho e meu coração foi dilacerado.


— Quero levantar.

— Não pode, seus pés estão cortados. — Beijei sua cabeça e me curvei para
aproximar o rosto. — Vou pegar uma pinça e começar a te limpar. Por favor,
fique quietinha e não me faça sofrer um ataque cardíaco.

Sem ter certeza se ela ia me obedecer, entrei no banheiro e abri as gavetas,


procurando a pinça. Eu sabia que tinha uma em algum lugar, mas não lembrava
onde. Fui encontrá-la junto com o cortador de unha e tinha consciência de que
precisava desinfetar aquilo antes de usar em Giovanna. Puxei também uma
toalha de rosto limpa e a umedeci na pia antes de voltar para o quarto.

Corri até a despensa, peguei uma garrafa de álcool no armário e mergulhei a


pinça ali dentro por alguns segundos. Quando voltei, carregando também uma
vasilha para descartar os caquinhos, Giovanna continuava na mesma posição,
mas tentava girar a cabeça para olhar suas costas. E quando conseguiu enxergar
uma parte do estrago, caiu novamente no choro.

— Vou ficar horrível...


— Não vai não. Quem disse? — Aproximei-me, puxando comigo uma das
poltronas do quarto e a colocando junto da cama. — Só um ou dois cortes
parecem ser mais profundos, o restante é superficial.

Antes de me sentar, curvei-me sobre o corpo dela para dar uma boa olhada
no vidro cravado em seu braço. Tive medo de puxar o pedaço e não conseguir
estancar o sangramento. Desde quando tinha me tornado frouxo?

— Vai... ficar cicatriz. — Fungou. — Minha bunda era bonita...

— Por que a preocupação? Pretende mostrá-la para mais alguém, Giovanna?


— Afastei o lençol que cobria aquela coisa linda, sentei e comecei a usar a pinça
com cuidado. — Pelo que eu sei, serei o único a ver sua bunda e não estou
preocupado com cicatriz.

Tentei descontrair para fazê-la rir um pouco, mas não funcionou. Ela afundou
o rosto de novo no travesseiro e seu corpo estava tão tenso que era possível
enxergar a musculatura das suas panturrilhas.

— Vamos agradecer por não ter acontecido nada pior que alguns cortes —
falei, esticando um braço para passar a mão pelo seu cabelo. Veio caco de vidro
em meus dedos. — Podia ter sido muito pior. E eu podia não estar em casa.

Depois de liberar uma banda da bunda, pressionei a toalha úmida com


cuidado sobre as feridas e ela estremeceu.

— Don Pietro? — Puxei o lençol novamente para cima quando ouvi a voz de
Carlo e me levantei para receber o médico. Por coisas desse tipo que eu não
abria mão de ter o doutor Kennington morando no meu prédio. — Entrem!

— O que houve aqui? — Kennington perguntou, colocando sua valise aos


pés da cama e se inclinando sobre ela. — Por que não tirou aquele estilhaço do
braço da menina?

— Hm... — pigarreei. — Fiquei com medo.

— Precisou me esperar para isso? — O filho da puta puxou o caco e olhou


para minha cara como se eu fosse um idiota. — Não o reconheço, Don Pietro.

— Estamos falando da minha mulher. Tive o máximo de sangue frio que


consegui, agora, se for possível, pode examiná-la e parar de me encher a porra
do saco?

Passei pelos dois e saí do quarto. Precisava beber uma água, enfiar a cabeça
debaixo da torneira, qualquer coisa. Quem estava a ponto de passar mal era eu.

— Misericórdia, Don Pietro — falou Carlo atrás de mim na cozinha. — O


que foi aquilo?

— Ela caiu sobre a porta do box. — Puxei um pacote de ervilha congelada e


encostei na minha nuca, sentindo um alívio imediato. — Será que o doutor
Kennington acha melhor eu a levar para o hospital?

— Don Pietro, com o perdão da palavra, sente sua bunda aí na cadeira. —


Carlo apoiou a mão em meu ombro, exercendo pressão. — Quer uma água? O
senhor está pálido.

Antes que eu respondesse, um copo foi colocado diante de mim e eu o


esvaziei de uma só vez, levantando-me em seguida.

— Não quero deixá-la sozinha. Estou bem. — Encostei o pacote gelado na


testa por alguns segundos e o joguei para Carlo. — Você não vai ver a bunda da
minha mulher. Fique aqui.

Ao entrar no quarto, vi que Kennington tirava os cacos ainda grudados pelo


corpo dela e me aproximei. Sentei na beira do colchão e alisei sua testa.

— Ela precisa ir ao hospital?

— Não, vou dar os pontos aqui mesmo — avisou ele, fazendo seu trabalho
minucioso. — Depois que eu tirar todo o vidro, você a levará novamente para
debaixo do chuveiro e deixará a água correr um pouco pela pele. O que estava
fazendo é errado, usar toalha. Pode haver estilhaços que não conseguimos
enxergar e arranhá-la ainda mais.

— CARLO! — berrei, assustando os dois. — Desculpe.

— Não quero levar ponto... — Gio choramingou, fechando os olhos.

— Três cortes precisarão de pontos. E que bom que são apenas três. Quando
entrei aqui, pensei que o estrago fosse muito maior.

E ela recomeçou a chorar, graças ao linguarudo. Não o matei porque


precisaria dos seus serviços, mas deu vontade. Carlo também apareceu depois
que gritei seu nome e gesticulei para que se aproximasse.

— Por favor, pegue uma vassoura para varrer o vidro para longe, pois
precisarei levar Giovanna para o box. Depois que o doutor Kennington terminar
aqui, peça para alguém vir limpar esse banheiro.

— Sim, senhor. — O homem esticou a mão e tocou o cabelo de Giovanna.


— Espero que fique bem para colocarmos nosso plano em ação. E não nos dê
mais sustos como esse.

— Que plano? — perguntei quando ele ajeitou a postura.

— Coisa nossa, Don Pietro. — E piscou para Giovanna. Piscou.

— Você acabou de piscar para minha esposa, Carlo?

— Não sei... ai. — Ela fez um biquinho cheio de dengo. — Não sei se ele
merece o plano, Carlo...

— De que porra de plano vocês estão falando?

— Coisa nossa — respondeu ela, piscando para meu segurança. — Ai ai ai


ai...

O sorriso sumiu do rosto de Giovanna e ela afundou a cara no travesseiro


mais uma vez. O médico estava cutucando uma das feridas maiores com a ponta
de uma pinça duas vezes o tamanho da minha.

Carlo aproveitou a deixar para sair e eu comecei a catar os vidros


emaranhados pelo cabelo dela.

— Quando for suturar, darei anestesia local nas regiões, mas por enquanto,
ela pode tomar esse analgésico para que comece a fazer efeito. — Ele puxou um
frasco de vidro da valise e abriu a tampa, deixando um comprimido cair na
palma da minha mão. — É forte, vai ajudá-la a relaxar um pouco.
Ia levantar para pegar uma água, mas ela capturou o remédio antes que eu
piscasse e enfiou goela abaixo, voltando o rosto para o travesseiro.

— Posso descobrir aqui? — doutor Kennington perguntou e me olhou. Muito


a contragosto, eu acenei que sim e ele baixou o lençol que cobria aquela bunda
maravilhosa. Mesmo ensanguentada a diaba era bonita. — Certo, você já limpou
alguma coisa. — Ele pinçou cacos na outra banda e notei quando os dedos de
Giovanna agarraram a fronha. — Vou precisar examinar mais para dentro.

— Não! — Sem que esperássemos, ela se debateu e deu um safanão na mão


dele, enquanto tentava se erguer.

Toquei seu ombro, fazendo-a levantar os olhos azuis para mim e tentei
tranquilizá-la.

— Ele é meu médico há alguns anos, bambina. Deixe que a examine.

— Não! Para!

— Tudo bem, acalme-se — pedi, lançando um olhar para o doutor


Kennington, que entendeu e afastou as mãos. — Ninguém vai fazer nada que
você não queira.

Carlo voltou e entrou no banheiro para fazer o que pedi, enquanto o médico
começou a preparar os itens para dar os pontos nela após o banho. Quando o
segurança terminou, alguns minutos depois, pedi para que Kennington também
se retirasse junto com ele e nos deixasse a sós.

Giovanna tremia por inteiro enquanto observava os dois homens saírem e


fecharem a porta. Alisei sua testa, colocando todo o cabelo para trás.

— Vai me deixar levá-la para o chuveiro?

A melhor resposta que ela poderia ter me dado foi aquela, ajoelhando-se na
cama e meneando a cabeça para que eu a pegasse no colo. Dei um selinho em
sua boca antes de passar meus braços ao seu redor e a carregar para o banheiro.

GIOVANNA
Por mais que não quisesse parecer fraca e sensível demais, era difícil fingir
que cada pequeno pedaço do meu corpo não estava doendo. A região que bateu
primeiro contra o chão tinha sido meus quadris, então eu já podia imaginar que
além dos cortes, muito em breve ganharia manchas roxas espalhadas pela minha
bunda.

Não conseguia acreditar que aquela merda tinha acontecido comigo.

— Sabe que vai arder bastante quando a água tocar os ferimentos, não é? —
Pietro murmurou de forma tão mansa e doce que até parecia entoar uma cantiga
de ninar. — Se não fosse por isso, eu a colocaria na banheira, mas creio que a
ardência seria maior.

— Só o chuveiro... — pedi. — Por favor.

Sinceramente, eu não sabia como não tinha pirado ainda. Porque além de
todo o sofrimento relativo ao acidente, ser carregada no colo, pelada, pelo Don,
também tinha lá sua cota traumatizante.

Assim que caí e o grito saiu pela minha boca, assimilei os próximos
acontecimentos. Pietro entraria no banheiro e me encontraria naquela situação
constrangedora. Eu não queria que ele me visse pelada, mas não tinha opção,
tinha? Não pude prever o tamanho da desgraça, mas sabia que ele precisaria me
tirar dali e me pegar no colo. A droga toda ficou por conta dos meus pés. Não
poder andar direito e ter que depender dele para isso, minava meu restinho de
orgulho.

— Faremos o seguinte — disse, entrando comigo no box maldito. Carlo


tinha varrido tudo para um canto do banheiro, mas ainda era possível ver o
sangue que sujou o chão. — Você vai precisar ficar de pé, não tem jeito. Quando
achar que a dor está insuportável, eu te dou um descanso, tá?

Confirmei com a cabeça, pensando na dor. Ele me colocou no chão e assim


que meus pés tocaram o piso, precisei conter a vontade de sair pulando que nem
louca pela casa. Tudo ardia demais.

— Seja rápido, pelo amor de Deus — pedi, de costas para ele.

Pelo canto do olho, vi quando desenrolou a mangueira de inox do


chuveirinho e ajustou o jato d’água. Puxei meu cabelo para a frente do corpo e
baixei a cabeça, esperando a queimação me enlouquecer.

— Apoie as mãos na parede à sua frente e jogue o peso do corpo sobre elas,
vai aliviar um pouco.

Fiz como ele indicou e, então, deixei o gemido ecoar pelo banheiro conforme
a água batia contra minha pele e entrava pelas feridas. Tudo em que conseguia
pensar era em me jogar de novo de bruços na cama e dormir pela eternidade, só
acordar quando estivesse tudo cicatrizado.

— Afaste as pernas, Gio. — Estremeci com o toque dele em minha bunda,


mas não podia culpá-lo. Até estava sendo bem delicado com a mão. Precisei
morder o lábio quando senti seus dedos afastando minhas nádegas. Aquilo não
estava acontecendo. Aquilo não estava acontecendo. — Sinto muito por ter que
fazer isso, bambina... Não se chateie.

— Difícil... — murmurei, com a voz embargada pela vergonha.

— Ei... — Pietro beijou meu rosto e me fez sentir um pouquinho melhor. —


Podia ter sido pior, temos que agradecer, ok? Está certo que não era dessa forma
que eu imaginava vê-la nua pela primeira vez, mas pelo menos, matei minha
curiosidade.

Senti realmente vontade de rir, mesmo que minhas lágrimas salgadas já


tivessem molhado todo o meu rosto. Felizmente, Pietro era a pessoa mais sensata
que eu conhecia e me acariciou com a ponta do nariz ao se aproximar mais de
mim. Ele trouxe a mão com o chuveirinho para frente da minha barriga.

— Prefere se limpar na frente? — perguntou, usando o outro braço para


amparar meu corpo, pois meus joelhos já enfraqueciam. — Não que eu tenha
problemas com isso, farei o que for preciso para ajudar. Mas não quero que meu
primeiro toque seja dessa forma nada sensual. Quando fizer, quero se sinta
prazer.

Balancei a cabeça e baixei minha mão, deslizando-a por dentro das minhas
pernas e pelo meu sexo, deixando que a água escorresse. Não parecia ter nenhum
caco de vidro por ali e agradeci a Deus por isso.

— O cabelo eu acho melhor deixar secar, vai ser mais fácil tirar os cacos que
ainda restam.
Que bom que ele conseguia raciocinar, porque se fosse depender de mim,
ainda estaria na cama chorando.

Pietro desligou a água e correu para fora do box, pegando uma toalha seca e
a estendendo. Ele cobriu a frente do meu corpo toda e me pegou no colo em pé
mesmo, passando os braços por baixo da minha bunda. Daquele ângulo, pude
notar como estava todo sujo de sangue.

— Você está todo molhado... — falei o óbvio. — É melhor se secar.

— Farei isso assim que a gente terminar de brincar de médico. — Ele piscou
e deu um sorriso safado. — Fiz muito isso quando era pequeno, só não
imaginava que a brincadeira se tornaria realidade. Nem que a paciente seria tão
gostosa.

Abri a boca para responder, mas ele me colocou aos pés da cama e a dor me
atingiu novamente. Apenas me joguei de bruços sobre o colchão, percebendo
que o lençol tinha sido trocado e abracei o travesseiro. Estava com medo dos
pontos. Eu sempre odiei agulhas e qualquer coisa do tipo.

— Vou chamar o doutor Kennington. Precisa de alguma coisa antes?

— Uma calcinha...

— Então... — Ele agachou ao meu lado e esticou a mão até meu cabelo, todo
carinhoso. — Um dos lugares que precisa de pontos é bem sobre a bunda. Deixa
a calcinha para depois, tudo bem?

Eu estava mesmo no fundo do poço, sem poder usar a porra de uma calcinha.
Só me restava aceitar, por isso, assenti e deixei que ele fosse buscar o médico.
PIETRO

Minha playlist para meus momentos de relax tocava num volume baixo
enquanto eu deslizava as pontas dos dedos pelo cabelo de Giovanna. Ela dormia
tranquila de bruços, com a boca esmagada contra o travesseiro, o corpo coberto
até a cintura por um lençol.

Depois que o doutor Kennington fez as suturas e uma equipe de limpeza deu
um jeito no banheiro, voltamos a ficar a sós. Ela apagou rápido, ainda curtindo o
efeito da anestesia. Usei um tempinho para mim, tomei banho, vesti uma calça
de moletom e fui para a cozinha preparar algo para comer.

Decidi fazer uma minestrone[24], a tradicional sopa com gostinho da nossa


casa. Tinha tempo que não comia e sabia que era impossível Giovanna não
gostar. Depois que terminei de jantar, deixei um pote separado na geladeira. Não
queria acordá-la e interromper a curta paz que a italianinha estava degustando.
Assim que voltei para o quarto e me deitei ao seu lado, peguei o celular e
comecei a desmarcar meus compromissos para os próximos dias. O contrato
mais importante do mês tinha sido fechado e o restante podia muito bem esperar.

— Que horas são? — Fui surpreendido pela voz sonolenta e encarei os olhos
azuis entreabertos.

— Hora de se alimentar um pouco. — Sorri, pegando o elástico para prender


o cabelo dela, que começava a cair sobre alguns cortes cobertos por pomada. —
Acha que consegue sentar por uns minutinhos?

A simples menção do ato fez com que arregalasse os olhos e sacudisse a


cabeça com veemência. Pulei da cama, sentindo que me observava com
curiosidade.

— Não preciso comer — falou, chorosa. — Tá tudo dolorido...

— Vou esquentar a sopa e depois encontraremos uma boa posição.

Levei menos de dez minutos para voltar e encontrei a filha da mãe se


arrastando pela cama numa tentativa fracassada e hilária de se levantar. As
pernas estavam penduradas para fora, o lençol que a cobria estava no chão e a
posição em que se encontrava parecia alguém que se agachava para fazer xixi.

— Há diversas outras maneiras de me mostrar sua bunda — brinquei ao me


aproximar. — Não precisa fazer todo esse malabarismo.

Coloquei a bandeja com a sopa sobre o criado-mudo e fui até Giovanna,


passando meus braços por baixo de suas axilas e a ajudando a se levantar.

— Eu só quero uma calcinha... — reclamou.

— Deite na cama, Giovanna. Você levou quatro pontos na bunda e se


arrebentar esses pontos, chamarei o doutor Kennington para suturá-los
novamente. Sem anestesia.

Ela bufou, irritadinha, mas obedeceu. Só que quando voltou a subir no


colchão, talvez não tenha se dado conta de que eu ainda estava ali atrás e
engatinhou de joelhos, ostentando o rabo bem na minha cara. Meus olhos
imediatamente se cravaram naquele triângulo carnudo entre o vão das pernas,
que infelizmente eu não conseguia visualizar em detalhes por causa dos pelos.

Respirei fundo, controlando o instinto que fazia minha mão coçar para tocar
aquela região. Era muito errado dar um tapa gostoso naquela bunda e enfiar o
dedo na bocetinha da minha esposa acamada? Estremeci, tentando me lembrar
do tempo em que era um homem sensato e de boa moral.

— Não gosto de ficar sem calcinha, suando na cama... — murmurou aquela


que vinha tirando minha sanidade. — É meio desconfortável.

— Podemos resolver isso. Basta começar a suar em cima de mim. — Dei a


volta até a cabeceira e segurei um travesseiro. — Quer?

Meu sorriso se alargou em divertimento quando ela ficou vermelha e fez


carinha de brava. Deixei uma gargalhada sair enquanto enfiava o travesseiro
debaixo dos seios dela. Repeti o processo com mais um e, então, peguei a
bandeja com a sopa, colocando direto no colchão.

— Gosto de dormir pelado, bambina. — Beijei sua cabeça e dei a volta até
meu lugar. — É melhor aproveitar a oportunidade e ir se acostumando a ficar
assim, porque quando eu tirar seu cabaço, não vou dar nenhum sossego a você.
Nos primeiros dias, inclusive, acho que ficará sem andar.

Giovanna se engasgou com a sopa e eu sorri, esticando minhas pernas e


cruzando os pés.

— Olha como a vida é engraçada e prepara a gente para tudo, não é mesmo?
Você já está treinando em ficar de cama, com a bunda para o alto.

Ela tossiu mais um pouco e pegou o copo com água que eu tinha colocado na
bandeja. Quando se acalmou, encarou-me com o rosto ainda muito vermelho.

— Não é porque eu caí e estou dependente de você, que esqueci tudo que
aconteceu hoje, ok? Não engoli essa história de gravidez.

— Não quero que esqueça, apenas que fique ao meu lado. Isso é suficiente.
— Limpei um pouco de sopa que havia em seu queixo. — Só quero que a gente
leve a sério aquela coisa de na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença...

— Hm... — Pelo menos, ela demonstrava estar gostando da comida, pois o


prato fundo estava quase vazio. — Não me lembro de você falar essas coisas
para mim...

— Que eu ficarei ao seu lado em qualquer ocasião? Acho que somente a


convivência poderá lhe provar que sou um homem de palavra. Amo você. Não
tenho motivos nem necessidade alguma de te trair. Não penso em outra mulher
desde que fomos para a Itália e isso até me fez mal, porque eu tentei resistir a
não enxergá-la dessa forma. Ainda é bem difícil, na verdade. Meu corpo quer
uma coisa, meu cérebro, outra.

Podia estar machucada, podia estar com raiva. Mas ainda era uma diabinha
porque ela raspou o fundo do prato, levou a colher toda para dentro da boca e
terminou passando a língua bem devagar pelo talher, enquanto corria os olhos
azuis pelo meu abdômen.

— O que seu corpo quer? — Ah, Giovanna... Estava para nascer alguém que
gostasse de brincar com fogo mais do que aquela garota.

— Como está dolorida, não posso mostrar agora — respondi, enfiando a mão
por dentro da minha calça e dando uma mexidinha no meu pau, coisa que não
passou despercebida por ela. Nem tinha me dado ao trabalho de colocar uma
cueca, então deixei que o moletom moldasse bem o formato dele para que
apreciasse o material.

A italianinha tentou afastar a bandeja e eu fiz isso por ela, levantando-a e


colocando tudo sobre a cômoda do meu lado. Então, minha esposa de bunda de
fora arrastou o corpo pelo lençol, subindo um pouco mais e deitando a cabeça
em minha barriga. Ela passou um braço sobre meus quadris, descansando a mão
propositalmente em cima do meu pau, e ergueu a perna direita sobre a minha.

— Também amo você — falou baixinho. — Eu acredito no que disse, não


sou nenhuma maluca ciumenta. É só que... Fico revendo aqueles vídeos na
minha cabeça e não consigo esquecer que vocês dois pareciam se dar muito bem.

— Minha relação com ela sempre foi apenas sexual, Gio. Nunca a amei,
sequer estive apaixonado em algum momento. Sobre os vídeos, deletei todos
ontem. Não tem mais mulher nenhuma na minha vida além dessa bambina
gostosa.

Senti sua risada e seu hálito tocarem minha pele e enfiei meus dedos em seu
cabelo. Tinha levado mais de meia hora para catar todos os vestígios de vidro
que ficaram grudados nos fios, mas pelo menos ela não tinha se ferido na cabeça.

— Tem certeza que o filho que a vaca loira está esperando não é seu?

— Tenho noventa e nove por cento de certeza. Você tem noção do que eu
escuto desde que era garoto sobre meu herdeiro? Ainda era virgem quando meu
pai sentava comigo e me fazia repetir que nunca me descuidaria porque um filho
bastardo seria a ruptura da nossa família. Ele me presenteava com camisinhas de
sabores e modelos diferentes. Nunca esqueci de usar preservativo uma vez
sequer e sempre tomei muito cuidado para conferir se não havia estourado.

— Você deve ter enriquecido as empresas que fabricam camisinha.

— Espero que elas tenham aproveitado bastante. — Deslizei minha mão pela
lateral do corpo dela até a cintura, desviando de alguns pequenos cortes. —
Quero abolir essa merda da minha vida. Quero poder sentir sua lubrificação em
meu pau toda vez que a penetrar.

— Meu Deus, você não consegue colocar um filtro na sua língua...

Escorreguei meu corpo pelo lençol até deitar completamente e ter o rosto
dela próximo do meu. Coloquei-o entre minhas mãos e rocei minha boca na sua,
sem deixar de encará-la.

— Você pode até ficar envergonhada, mas não finja que não fica molhadinha
quando digo essas coisas — sussurrei e passei a ponta da minha língua pelo
canto de sua boca. — Sei que não é de ferro...

Observei seus dentes roçarem de leve o lábio inferior quando mexi minha
perna sob a dela, forçando um atrito da minha calça em sua boceta livre.

— Quem disse? — perguntou, franzindo os lábios e dando um tapa de leve


no meu peito. — Não gosto dessa sua boca suja.

— Por falar em boca, estou doido para te chupar, Giovanna. Pelo amor de
Deus. — Agarrei seu cabelo e puxei o elástico, deixando os fios caírem em
minhas mãos. — Posso até esperar dois anos para te comer, mas me deixe chupar
essa bocetinha o quanto antes. Isso é tudo que peço.
Quando o queixo dela caiu, em choque, enfiei minha língua em sua boca e
lambi os cantos de seus lábios, provocando. Ela rapidinho puxou a perna que
estava em cima da minha e grudou uma na outra.

— Você é malvada... — falei, estalando a língua e fechando os olhos


enquanto ria de desgosto, pensando em como estava sofrendo.

— Tô toda cabeluda. Você só pode ser louco! — A italianinha dura na queda


espalmou a mão pequena em meu rosto, cutucando meus olhos com os dedos. —
Eu... hm... estava pensando em fazer depilação.

— Faça. Não faça. Não me importo, só quero... — Minha boca foi tapada e
ela sorriu, revirando os olhos.

Apoiei meu cotovelo na cama, virando de lado para ela e sorrindo todo
sedutor.

— Então, podemos resolver isso?

— Quando? — perguntou, com a testa franzida.

— Agora. Hoje. Neste momento. — Pisquei.

— Óbvio que não!

Ah! Balancei a cabeça e me sentei na cama, com o coração acelerado. Uma


ínfima parcela minha achava que podia conseguir uma resposta afirmativa, mas a
quem eu queria enganar? Giovanna Greco estava me fazendo pagar por todas as
mulheres que comi antes dela, enquanto a própria preservava sua virgindade.

Tudo bem, eu adorava um desafio. Em breve, eu a veria implorar.


GIOVANNA

Minha pele pegava fogo. Podia achar que estava dentro de um incêndio,
sucumbindo pelas chamas, se não fosse o homem esculpido por Deus ali bem
diante dos meus olhos. Pelado. Com a mão naquele pênis enorme e grosso,
encarando meu corpo como se eu fosse um pedaço de filet mignon. Eu seria
qualquer coisa comestível que ele desejasse naquele momento.

— Abra a porra dessas pernas — ordenou, ajoelhando no colchão e usando


as mãos para afastar meus joelhos. — Quero ver você citar o alfabeto inteiro,
gritando muito.

Ah, meu Deus. Eu estava queimando no fogo do inferno.

— Pietro, por favor... — tentei pedir por clemência, mas ele ignorou.

— Esperei muito tempo por isso, Giovanna. Não me peça para ir devagar.
Credo, quis dar um tapa naquela cara linda e puxá-lo para cima de mim. Não
precisei me esforçar, no entanto, porque o homem guiou a anaconda até minha
vagina e tentou abrir caminho por ela.

— Ai, caramba! — gemi quando ele agarrou minhas pernas e as levantou,


entrando com mais força. — Puta que pariu, Pietro!

De repente, não soube onde a dor foi parar, tudo que sentia era uma sensação
tão boa, mas tão boa, que meu corpo não conseguia parar quieto no lençol. Rolei
de um lado para o outro e soltei um grito horripilante.

— Porra! — Sentei-me na cama, gritando de novo e caindo de bruços no


colchão. — Ai ai ai ai...

Pietro, deitado ao meu lado e com cara de quem tinha acabado de acordar,
lançou um sorriso demoníaco para mim.

— O sonho estava bom, principessa? — Bocejou, esfregando a mão no


peito, de forma muito preguiçosa. — Quase me juntei a você para deixar tudo
mais real, mas estou tão cansado...

Aquele caralho todo tinha sido um sonho? Afundei o rosto no travesseiro e


percebi que a fronha estava babada. Pior, algo entre minhas pernas não estava
certo. Digo, estava muito molhado. Eu tinha me excitado toda com a droga de
um sonho!

— Isso é culpa dos seus vídeos pornográficos que acabaram com minha
inocência — reclamei, puxando o lençol mais para cima. — Você é um
depravado!

— Você estava tendo um sonho erótico comigo e eu que sou o depravado? —


o diabo gargalhou e se alongou como se estivesse muito relaxado. Claro, não
tinha sido ele a se frustrar.

Suspirei e soltei todo o peso do corpo. Não aguentava mais ficar naquela
posição, minha coluna começava a reclamar demais e comecei a me sentir uma
velha. Estiquei-me até alcançar o corpo dele e apoiei a perna sobre as suas
novamente.

— Minhas costas estão doendo muito. Não aguento mais ficar de bruços.
Fechei os olhos quando seus dedos tocaram meu pescoço e desceram um
pouco pela minha pele. Sentia que ele não fazia um caminho reto para desviar
dos machucados e quando chegou na base da minha coluna, massageou um
pouco a região. Quase gemi de alívio, mas me controlei porque não queria dar
ideias malucas ao pervertido.

— Troque de lugar comigo, assim pode se deitar sobre o lado esquerdo e me


usar de apoio caso pegue no sono e escorregue — ele deu a ideia já se
levantando e passando por cima de mim.

Não era tão ruim, realmente. Os cortes que levaram pontos eram todos do
lado direito, então, se eu dormisse de lado como ele aconselhou, podia até raspar
alguma ferida no lençol, mas daria para sobreviver. Minhas costas festejaram
quando me virei, puxando um pouco os joelhos para cima, quase em posição
fetal. Era tão bom!

— Ficou melhor assim? — Pietro perguntou, puxando meu lençol para cima
e passando a mão pelo meu cabelo.

— Uhum.

Vi pelo canto do olho que ele tinha deitado na mesma posição e se encostasse
em mim, daria uma bela de uma encoxada. Fiquei quieta, tensa, porém, ansiando
por um contato daquele tipo.

— Durma — falou ao pé do meu ouvido, fazendo meu corpo se arrepiar. —


Não tem problema relaxar, não vou deixar que vire de costas.

Joguei meu braço para trás e procurei pelo dele, segurando sua mão e a
trazendo para a frente do meu corpo. O peso do braço masculino se fez sentir
sobre a curva do meu quadril e seus dedos se enroscaram nos meus, pousados na
altura da minha barriga.

Meu estômago foi corroído por um frio intenso quando Pietro fez meu corpo
deslizar um pouco mais para trás até ser possível sentir o calor de sua pele quase
tocando minhas costas. Ele afastou meu cabelo do pescoço, jogando os fios para
cima do travesseiro e deixei o ar escapar pelo nariz quando sua boca tocou
minha nuca.

— É só mandar, que eu paro... — sussurrou, mordiscando minha orelha e


capturando meu seio com a mão.

Como eu podia ser capaz de dizer alguma coisa, se o sonho ainda estava
presente na minha mente? Os efeitos ficaram impregnados no meu corpo.

— Acho que sou um velho babão e muito sortudo — disse ele, rindo. — Ou
então morri e estou vivendo no limbo, entre o céu e o inferno. E você é o capeta
que se disfarça de anjo de vez em quando.

— Eu sou um anjo — concordei, virando um pouco a cabeça para olhá-lo


por cima do ombro. — O diabo é você.

A mão em meu peito se afastou e foi parar na minha bunda. Observei o


caminho que fazia, notando o cuidado que tinha para não me machucar. De
repente, seus dedos apertaram minha polpa e resvalaram um pouco por dentro
dela.

— Não sei se você conseguiu notar, mas tenho paixão por bunda.

— Hm. — Meu cérebro não era mais capaz de produzir um diálogo coerente.
A tensão se fez presente em cada célula do meu organismo.

— Quase pirei no dia em que chegou aqui em casa, deu as costas para mim
com aquele vestido curto e tirou a calcinha de dentro da bunda sem a menor
classe. Ali, eu soube que não abriria mão dela de jeito nenhum.

— Ah... — Molhei meus lábios e me concentrei para dizer algo irreverente.


Como a mão dele estava parada, não apresentava nenhum perigo iminente. —
Então você se apaixonou pela minha bunda, não por mim.

— Ela foi um amor à parte. — Meu coração disparou quando ele deixou meu
traseiro em paz e segurou meu seio de novo. — Mas fiquei louco por esses
peitos também, é claro. Só que minha primeira paixão foi a sua boca.

— Nossa, queria ser que nem você, que se apaixona por compartimentos. Eu
gostei do material todo logo de uma única vez.

Vi que ele deu um sorrisinho que quase fechou os olhos, todo se sentindo.

— Lembro muito bem da senhora me secando durante o jantar. Era uma


pirralha, mas uma pirralha safada.

— Mentira. — Ri, estremecendo quando ele chupou meu pescoço e deslizou


a mão pela minha barriga.

Ai, senhor. Seus dedos rodearam meu umbigo e arrepios percorriam meu
corpo inteiro. Aquilo era normal? Eu sentia até como se meu coração batesse
bem entre minhas pernas. Uma pulsação que estava me azucrinando e me
deixando mais molhada. Eu nem sabia mais onde o lençol que me cobria tinha
ido parar.

— Sabe que é minha, só minha... — Seus lábios prenderam o lóbulo da


minha orelha enquanto sua mão tocou minha coxa esquerda, acariciando-me
devagar. — Amo cada pedacinho seu e quero que se sinta completamente
protegida comigo.

A pressão no meu peito aumentou gradativamente conforme ele explorava a


parte interna da minha coxa.

— Pietro... — Sufoquei um gemido quando seus dedos desceram até meu


joelho e ergueram minha perna, puxando-a levemente para trás e apoiando-a
sobre a perna do Don. — Ah, meu Deus...

— Quero que entenda que cada toque meu é de amor e em reverência a tudo
que você significa. — A mão maliciosa subiu até meu cabelo, massageou minha
cabeça, acariciou minha nuca e segurou meu queixo para virar meu rosto e
possibilitar que ele me beijasse. Eu não tinha certeza se estava mesmo viva. —
Minha Greco...

Pisquei e a mão sumiu, voltando a se concentrar em meu ventre. Mordi a


língua quando os dedos roçaram minha virilha e a língua dele tocou minha
orelha.

— Quer que eu pare? — sussurrou de um jeito que parecia estar fazendo


sexo com meu ouvido. Misericórdia.

— Não... sei...

— Vamos testar? Você precisa estar sentindo algo bom, não apenas medo. —
Beijou minha nuca e acho que esfregou o nariz em mim. — Prometo ser bem
delicado...

— Tá. — Tapei o rosto, com medo de ter outra reação louca como na noite
do iate, sendo que agora eu nem tinha pés saudáveis para sair correndo. — Não
sei se...

Parei de falar quando a mão inteira dele grudou em toda a minha extensão e
ficou ali, imóvel, roubando-me o ar. Era quente e pesada e o contato com minha
pele fazia a pulsação dentro de mim aumentar.

Achei que Pietro não fosse tentar mais nada além daquele movimento,
quando um dedo desbravou o caminho entre meus lábios e deslizou de um ponto
ao outro. Senti como se estivesse sofrendo espasmos cardíacos e segurei a mão
dele, impedindo que se mexesse.

— Shh... Calma, vou me afastar.

— Não precisa... — falei, horrorizada comigo mesmo. Como assim não


precisa, Giovanna?

Acho que nem Pietro acreditou, porque levantou o tronco e se apoiou nos
cotovelos para olhar minha cara. Pressionei meus lábios, sentindo-me ser
minuciosamente avaliada e larguei a mão dele.

— Tô com um pouco de vergonha.

— Por quê? — perguntou, beijando meu nariz. — Você é maravilhosa.

Então, como era Pietro e o destino dele era me horrorizar, o diabo mexeu a
mão e trouxe um dedo até a boca, chupando-o lentamente sem tirar os olhos de
mim. Não desmaiei porque já estava deitada.

— Além de tudo, é doce — disse, obrigando-me a fechar os olhos para não


ter que ver aquela expressão pervertida. — Não vou usar minha boca hoje
porque acho que você não possui estruturas para isso, mas não vai escapar por
muito tempo, Gio.

Sem esperar, Pietro levou a mão de volta à minha intimidade e soltei um


gemido, sendo surpreendida por muitos dedos em todos os cantinhos que podiam
existir ali, ocultos pelos grandes lábios. Ele castigou meu clitóris que eu nem
sabia que podia me causar tantas sensações e tudo que conseguia fazer era
controlar meus batimentos cardíacos cada vez que largava aquele ponto sensível
e deslizava os dedos pelo meu centro até a entrada da minha vagina, e cacete, o
toque naquela região era completamente enlouquecedor.

— Prevejo que terei um grande trabalho aqui... Apertadinha... — falou,


cutucando um dedo em mim e me causando um incômodo leve, porém,
arrepiante. — Deliciosa.

— Quê? — gemi, gostando da sensação e ao mesmo tempo, apavorada. —


Pietro...

A ponta do dedo ainda continuava no mesmo lugar, mas ele piorou muito a
minha situação quando usou outro para acariciar meu clitóris. Todos os músculos
que eu sabia existir em meu corpo estavam enrijecidos e, apesar dos pontos em
minha bunda estarem ardendo, não me importava com aquela dor.

O filho da mãe afastou os dedos e esfregou a palma da mão por todo meu
sexo, exercendo uma pressão alucinante. Em seguida, voltou a se concentrar
naqueles dois pontos exatos e desceu a boca até a minha. O movimento que sua
língua fazia acompanhava os gestos de seu dedo ao redor do meu clitóris.

— Goza para mim, bambina — pediu, roçando os lábios nos meus. — Dê ao


seu corpo o que ele merece. Deixe meus dedos se lambuzarem...

Ai, que droga. A boca suja causava um efeito bem diferente quando ele
estava em ação. Ao vê-lo sorrir de forma diabólica, estremeci quando puxou os
dedos de volta e os lambeu antes de voltar ao trabalho mais uma vez. A sensação
que me atingiu foi desesperadoramente boa, intensa, alucinante.

Flagrei-me movendo os quadris na mão dele conforme os espasmos


tomavam conta do meu corpo e arrancavam gemidos de minha boca. A última
coisa que vi antes de fechar os olhos e ser atingida pelo clímax do orgasmo, foi
Pietro morder o lábio como se sentisse mais prazer do que eu.

Meu corpo desfaleceu e suas mãos apoiaram minhas costas. Uma delas, a
que tinha em mim, estava melada quando tocou minha barriga e me abraçou.

— Ah, Giovanna... — Suspirou perto da minha nuca. — Sei que está


machucada, mas espero que possa sentir, pelo menos, metade da felicidade que
sinto neste momento. Olha o passo enorme que você acabou de dar, amore mio.

Não tinha condições de falar. Eram tantas sensações e sentimentos, que optei
apenas por jogar a cabeça para trás e sorrir ao encontrar os olhos dele, que
brilhavam marejados. Cada nervinho do meu corpo tremia um pouco, mas me
sentia leve.

— Te amo, gatinha.

PIETRO

Conforme os minutos passavam e Giovanna caía novamente no sono ao meu


lado, eu usava aquele tempo para digerir o que acontecera. Custei a acreditar que
ela me deixaria mesmo tocá-la daquela forma, mas ao perceber que estava bem
receptiva, não perdi tempo.

Aquilo só provava o que eu já imaginava. Que Giovanna tinha capacidade


suficiente de se superar se desse uma chance a ela mesma. Não vou mentir e
fingir que não foi tenso, que não enxerguei o medo dentro dos olhos azuis.
Porém, a italianinha me surpreendeu por baixar a guarda um pouco e ter
confiado em mim.

Não foi exatamente como eu queria. Gostaria de ter caído logo de boca e
intercalado minha língua com meus dedos. Gostaria de sentir seu cheiro quando
esfregasse minha barba na boceta meladinha.

Ah, caralho. Estava com o pau duro como uma rocha, mas não tinha coragem
de sair da cama e me afastar dela. Também não queria começar a bater uma
punheta ali e acordá-la. Sabia que precisava descansar, pois o dia seguinte seria
mais dolorido. Antes de ir embora, o doutor Kennington me entregou uma
pomada cicatrizante que deveria ser passada sobre todas as feridas duas vezes
por dia. Mas além disso, cada uma também precisava ser limpa com álcool
próprio para feridas. Não seria agradável, nem bonito de se ver ou ouvir.

Puxei o lençol para cobrir aquela bundinha linda, com a qual vinha sonhando
há um tempo. Sei que tinha muitos pecados para pagar e estava acumulando
muitos outros, mas rezava dia e noite para que minha esposa se descobrisse uma
apaixonada por sexo anal. Claro que eu tinha plena consciência de que não
rolaria tão cedo algo daquele nível, mas nunca deixaria de sonhar.

Saí do banho com a toalha enrolada na cintura e dei de cara com minha
esposa andando nas pontas dos pés, uns dos poucos lugares onde não tinha se
cortado. Estava peladinha, então ficou vermelha quando a flagrei e correu,
virando de costas e balançando a bunda enquanto se escondia dentro do closet.

Fui atrás porque precisava mesmo entrar ali e a encontrei curvada, mexendo
numa de suas malas.

— Vou pedir que arrumem suas coisas aqui no closet. É inaceitável que você
ainda esteja guardando as roupas dentro das malas.

— Eu pretendia fazer isso, mas aí acabei nadando no mar de vidro... — disse


ela, puxando um vestido que parecia ser curto demais e se virando para mim no
instante em que soltei a toalha. — Ah. Hm.

A safada apoiou as mãos no meu peito e jogou o peso para cima de mim,
mordendo o lábio de forma tão exagerada que eu não conseguia acreditar no
quanto fingia mal.

— Andar na ponta do pé cansa — falou, baixando os olhos para meu corpo.


— Oi, bom dia, tudo bem?

— Está dialogando com meu pau? — perguntei, enfiando meus dedos em seu
cabelo. — O que aconteceu? Você por acaso bateu a cabeça quando caiu?

— Não, eu só... — A diaba pegou meu cacete flácido na mão e o analisou


como se fosse objeto de estudo. — Engraçado como fica quando está relaxado...
E continua sendo bonito...

Seria impossível não começar a endurecer com os dedos finos me tocando


tão despretensiosamente. Respirei fundo e olhei para o teto, pensando em qual
pecado cometi para sofrer tanto como nos últimos dias. Acabaria com um grave
problema de bolas azuis.

Criando uma coragem que eu nem sabia que possuía, afastei sua mão com
delicadeza e recuei um pouco. Meu autocontrole não era tão grande assim. Nós
dois estávamos pelados e se começasse a rolar uns toques, não sei se conseguiria
parar antes de puxá-la para meu colo e me enfiar entre suas pernas.

— Brincadeira perigosa, bambina... — avisei, virando-me para uma


prateleira e pegando uma cueca limpa. — Agora que já pude senti-la um
pouquinho, será ainda mais difícil resistir a essas tentações.

Vesti a cueca com pressa porque puta que pariu, imagens de Giovanna
cavalgando no meu pau começaram a inundar minha mente. Quando me virei,
ela me encarava como se fosse a pessoa mais inocente do mundo e não soubesse
do que eu estava falando. Merecia sentir minha mão arder naquele traseiro
redondo.

— Sobre ontem... — falou quando a peguei no colo e saímos do closet. —


Eu... caramba. É sempre assim?

— Não. Costuma ser melhor. — Pisquei e ela revirou os olhos. — Não pude
ser eu mesmo porque você está machucadinha.

— O que significa ser você mesmo?

Mordisquei seu queixo e ela apertou meus ombros, afundando as unhas


curtas na minha pele.

— Não vai demorar muito para descobrir — respondi ao colocá-la no


banheiro. — Faça o que tiver que fazer e depois volte para a cama. Tenho que
passar os remédios em você antes de subir para malhar um pouco.

— Se dissesse que ia trabalhar eu reclamaria, mas é muito importante que


continue malhando. Bastante. — Alisou meu abdômen, correndo os olhos por
ele. — Concentre-se nessa região.

Contraí a musculatura para brincar com ela e ouvi seu suspiro, subindo os
olhos para me encarar. Fui atacado pela louca que agarrou meu pescoço e
levantou uma perna para subir em mim. Gargalhei, horrorizado com sua péssima
desenvoltura e a peguei no colo, passando aquelas coxas macias ao redor do meu
corpo.

— Você é completamente louca — falei, com a boca roçando a dela. —


Acho que é justamente por isso que estou de quatro por você.

Foi a vez de Giovanna dar um chupão forte em meu pescoço, que me fez até
estremecer. Não satisfeita, ela arranhou os dentes em minha pele e se esfregou
em mim. Estava excitadíssima.

— Faz aquilo de novo? — perguntou, sussurrando, ofegante.

— O quê? — Foi minha vez de me fingir de desentendido.

— Tocar em mim... — Suas pernas me apertaram mais enquanto ela desceu


as mãos pelas minhas costas, arrepiando-me por completo. — Foi a melhor coisa
que senti na vida.

A danada esfregou os dedos dos pés na minha bunda e eu estava chocado.


Sabia que presenteava as mulheres com orgasmos intensos, mas aquela tinha
sido a siririca mais light que já fiz na vida.

— Vou poder chupá-la? — perguntei, encostando-me na bancada do


banheiro e descendo uma mão entre nossos corpos, encontrando a boceta
meladinha.

— Ainda não... — gemeu, afundando o rosto no vão do meu pescoço. — Ah,


senhor...

— Então, nada feito. — Puxei minha mão e lambi meu dedo. — Acha que
consegue tomar banho sozinha?

Coloquei Giovanna de volta ao chão e ela piscou algumas vezes, atônita.


Pelo menos, agora, entenderia como eu fiquei todas as vezes em que me
provocou e saiu correndo.

— Aham — respondeu, virando-se de costas para entrar no box e até a


bundinha tremia. — Vou... Ok. Cretino.
— Vou preparar a pomada, principessa. — Saí do banheiro, assobiando.
GIOVANNA

Para tudo na vida havia um limite e no final daquela noite eu já me sentia de


saco cheio de minha condição enferma. Nem mesmo as tentativas de Pietro de
me mimar com comida impediram que terminasse o dia chorando. Minhas costas
ardiam muito e o analgésico não parecia ajudar.

Não podia imaginar que machucar a bunda fosse tão insuportável. Essa era a
pior parte, não conseguir me sentar direito. Quando fazia, era bem rápido até que
a dor se tornasse insuportável, pois a posição parecia que pressionava os pontos
acima da minha nádega direita e sentia umas fisgadas horrorosas.

Pietro era muito paciente, porque nem eu mesma me aguentava mais. Passei
o dia reclamando de tudo e me tornando uma manteiga derretida sempre que
esquecia e levava a mão até alguma ferida, por reflexo, para me coçar.

Quando acordei no meio da madrugada para ir ao banheiro, antes que


conseguisse colocar os pés no chão, meu Don já estava se levantando e me
pegando no colo. Para um quarto enorme como aquele, pegar uma carona era
uma dádiva. Com a visão turva, alisei seu rosto e sorri.

— Você é um príncipe. Sério.

Ele beijou minha testa e saiu, fechando a porta para me dar privacidade.
Enquanto fazia xixi sem encostar a bunda dolorida no vaso, pensava em como
estava loucamente apaixonada por ele. Por mais que sentisse vontade de esganar
aquele pescoço vez ou outra, não conseguia ficar com raiva por muito tempo.
Pietro era muito bom e me fazia sentir segura como nunca me senti desde que
perdi meus pais.

De volta à cama, apoiei minha cabeça no peito dele. O lugar vinha se


tornando o meu favorito na hora de dormir, principalmente quando o Don
começava a mexer os dedos pelo meu cabelo. Peguei no sono rapidamente,
enquanto sentia sua respiração leve sob minha cabeça

O Don fodão da Soprattuto estava à beira de um ataque de nervos naquela


manhã, pois recebera a ligação do doutor Kennington, que ficou de ir até o
apartamento me consultar e aproveitaria para levar o resultado do exame de
paternidade. Ele só chegaria de tarde, mas desde que acordamos, Pietro não
parou quieto um segundo. Por mais que ele dissesse que não era o pai do bebê,
eu sabia que estava se cagando de medo de estar errado. E eu também. Não
queria uma criança na minha vida pelos próximos dois ou três anos, quem dirá
sendo filho da vaca loira.

— Por que você não sai um pouco? — perguntei, mexendo no meu celular.
Estava mandando uma mensagem de texto para Nero. A décima quinta, na
verdade. — Não tem nenhuma reunião importante?

Eu só queria que o homem parasse de me enlouquecer. Estava tão inquieto


que tinha arrumado todas as minhas roupas no closet, trocou a roupa de cama,
dialogou sozinho sobre uma possível mudança na disposição dos móveis do
quarto e assistiu três filmes pela metade. Tudo isso antes das dez da manhã.
— Não vou deixá-la sozinha — respondeu, sentando na beira da cama. —
Pode precisar de alguma coisa e Carlo não vai ficar aqui no quarto com você.

— Eu realmente não acredito que você tem ciúme do Carlo. Ele tem idade
para ser meu pai.

— Eu também tenho — respondeu, com uma expressão indignada no rosto.


— Se eu fosse um pai muito, muito novo. Gosto de mulher, mas sei quando um
cara é boa pinta demais para ficar perto da minha esposa.

Cogitei jogar a luminária sobre o criado-mudo na cabeça dele. Mas antes,


meu celular vibrou com a chegada de uma mensagem. Meus dedos deslizaram
com agilidade pela tela e o nervosismo tomou conta de mim quando vi se tratar
de uma resposta de Nero.

“Pare de mandar mensagem. Pare de me procurar. Acha que não liguei


uma coisa a outra? Você destruiu minha vida, Giovanna. Tenha um pouco
de dignidade e esqueça que eu existo.”

Nero tinha descoberto que seu pai morreu por minha causa. Ou melhor, por
causa da minha língua grande. E o pior de tudo era a consciência que eu possuía
de que faria exatamente a mesma coisa se precisasse escolher. Quis chorar, mas
não faria isso na frente de Pietro porque ele já tinha os próprios problemas para
se preocupar. Desliguei o celular, sentindo-me a pior pessoa do mundo e abracei
o travesseiro.

— Posso chamar minha amiga Susan aqui? — perguntei, sentindo que minha
voz estava um pouco afetada. — Ela ainda nem sabe que voltei para Nova York.

Susan surtaria quando eu contasse que estava casada. Pensar nela me fez
sentir um pouquinho melhor e talvez fosse bom mesmo passar umas horas em
sua companhia. Andava precisando de uma presença feminina na minha vida
porque a senhora Greco me deixou mal-acostumada.

— Você é minha esposa, Giovanna. Esta é sua residência, óbvio que suas
amigas são bem-vindas aqui. — Ele se curvou e beijou o topo da minha cabeça
antes de se levantar. — Acho que posso puxar uma reunião que tinha adiado e
reagendar para o horário do almoço. Mas estarei de volta às três horas para
esperar pelo doutor Kennington.

Mal esperei ele sair do quarto e comecei a digitar uma mensagem de SOS
para Susan.

“Estou casada, de volta à NY e preciso de conselhos! Sua presença está


sendo requisitada urgentemente aqui em casa.”

A resposta chegou quase que imediatamente e eu gargalhei.

“Você é péssima em dar notícias, sabia? Não quer me encontrar num


café pelas redondezas?”

Susan nem imaginava como eu gostaria de aceitar a proposta e sair um pouco


de casa, mas minha realidade do momento não permitia isso.

“Não dá, tô de molho na cama. Sofri um acidente...”



“Nossa. Ok, chego aí em meia hora. Seu marido não vai se importar?”

Considerando que eu praticamente o expulsei de casa... Não, ele não ia.

“Tô sozinha! Pode vir!”


“Ok!”

Bom, por mais que eu me sentisse bem na companhia de Susan, não


pretendia recebê-la com a bunda de fora. Levantei-me e arrastei meu corpo
mazelado até o closet. Peguei uma camisa velha de Pietro e a vesti,
estremecendo quando o tecido tocou algumas feridas.

Joguei-me de volta na cama e liguei para Carlo, que estaria de tocaia no seu
lugar de sempre.

— Pois não, senhora Greco?

— Carlo, vou receber a visita de uma amiga daqui a pouco. É a Susan, você
a conheceu, minha bolsa estava na casa dela. Quando chegar, pode fazer o favor
de acompanhá-la até o quarto?

— Com certeza, senhora.

— Você podia me chamar só de Giovanna, né? Esse lance de senhora é


estranho.

— Isso não vai acontecer, senhora Greco. Faz parte do meu trabalho.

— Nossa, a chatice de Pietro o contaminou. Ok, Carlo, só traga a Susan.

— A senhora ainda pretende aprender a fazer paella? — Olha, eu até tinha


esquecido disso.

— Pietro está passando pomada na minha bunda duas vezes por dia, Carlo.
Acho que fica difícil não fazer nada no aniversário dele, né? Um agrado talvez
caia bem.

— Da próxima vez não precisa me dar tanta informação, senhora Greco.


Mas concordo que Don Pietro merece.

— Amanhã a gente tenta. Obrigada, Carlo.

— Disponha.

Revirei os olhos com aquele jeito todo polido e comecei a pensar numa
forma de encontrar alguém legal para o segurança. Talvez se estivesse
apaixonado ele até poderia relaxar um pouco mais, tornar-se menos sisudo.
Poderia criar um perfil para ele num site de relacionamentos, já que em meu
círculo social não havia muitas mulheres com idade compatível a dele.
PIETRO

Andava interessado em adquirir um cassino em Las Vegas e há uns dois


meses vinha tentando agendar uma reunião com seu CEO, que parecia mais
escorregadio do que um sabonete. Quando notei que Giovanna queria se livrar
de mim naquela manhã, usei a oportunidade para encontrar Mark Donovan
durante um almoço. Essa reunião tinha sido marcada para ontem e eu acabei
desmarcando por causa do acidente.

Escolhi um bom restaurante no centro de Manhattan e cheguei alguns


minutos antes. Estava entretido com a carta de vinhos, pensando no que o
homem gostaria de beber, quando uma ruiva estonteante caminhou na minha
direção. Não sou de ferro, dei uma breve olhada, baixando o menu. E, para
minha surpresa, ela se sentou à minha mesa.

— Olá — disse, dando um sorriso para o garçom que puxou sua cadeira e
ajeitou a bolsa ao lado.
— Não estou interessado — respondi, voltando minha atenção aos vinhos,
um tanto surpreendido. Nunca tinha sido abordado de forma tão direta em um
local de nível elevado como aquele.

— Ah, mas que ótimo. Nem eu. Sua autoestima é realmente muito elevada se
acha que estou aqui pelo seu pau.

Soltei o menu lentamente e sorri, querendo descobrir quem era ela e o que eu
faria para me livrar de sua presença insolente. À nossa volta, nenhum cliente
pareceu ouvir suas palavras vulgares, mas era de meu interesse dispensá-la antes
da chegada de meu convidado.

Observei a mulher atentamente. O cabelo cobre muito liso e de franjinha,


olhos negros e um batom vermelhos escandaloso. Ela passou a língua pelos
dentes e finalizou levando um dedo ao canto da boca para limpar uma sujeira
inexistente.

— Estou aqui para falar de negócios — avisou, cruzando os braços sobre a


mesa.

— Entendo. Veio representar Mark Donovan?

— De certa forma, sim. Ele mandou que você fosse à merda. — Sorriu. —
Isso foi depois de assinar a venda para meu chefe.

Mas que belo de um filho da puta esse Donovan! Deve ter aberto as pernas
para a primeira proposta mais generosa que a minha, bem como uma putinha
qualquer.

— Então, imagino que tenha vindo aqui para entregar algum recado de seu
chefe — solucionei a charada por ela e tamborilei os dedos na mesa. — Para
quem trabalha?

Vi pela minha visão periférica que um garçom começava a se aproximar com


a intenção de pegar nossos pedidos, mas ergui um dedo e o lancei um olhar,
deixando claro que não queria ser interrompido naquele exato momento.

— Trabalho para alguém que fará da sua vidinha americana um inferno.


Cada contrato que tentar negociar será roubado por ele. — Sorriu, maliciosa. —
Olho por olho.
Tive a certeza de saber a quem a ruiva se referia, mas queria ouvir a
confirmação com todas as palavras.

— Não sabia que tinha irritado algum empresário por aí... — Estalei a
língua, tirando mais alguns segundos para estudar a figura diante de mim.
Parecia apenas uma mensageira. Seu vestido embalado à vácuo nem possua
espaço para ocultar uma arma. — Por que não pede para seu chefe marcar uma
reunião comigo? Eu o receberei de bom grado em meu escritório.

Colocando uma expressão neutra no rosto, a mulher puxou um celular de


dentro do decote e discou, entregando-o para mim antes mesmo de saber se a
ligação seria atendida.

— Sabemos que a presença dele aqui não será possível — disse ela,
enquanto eu levava o aparelho ao ouvido.

No terceiro toque, a voz áspera atendeu.

— Don Greco — falou com um tom um tanto entediado.

— Olá, Don Negri. Ou deveria chamá-lo de sogro?

— Curtindo a companhia de Stella? Uma bela ruiva, não?

— Um pouco vulgar. — Sorri para a mulher diante de mim, que estreitou os


olhos em fúria. — Acho que faz mais o seu tipo. Garanto que preferia estar em
casa, na companhia de minha bela esposa.

Degustei dos cinco segundos exatos em que ele permaneceu em silêncio.

— Traga Giovanna de volta ou farei uma visita à sua casa. Não brinque
comigo, seu fedelho.

— Sabe o que não entendi até agora, Don Negri? — Ajeitei-me


confortavelmente na cadeira, ignorando a mulher diante de mim com cara de
quem não pretendia emprestar o celular por muito tempo. — O que quer
exatamente com Giovanna? Qual a finalidade em esperar quase dezoito anos
para atrapalhar um acordo firmado há tanto tempo?

— Podemos dizer que as coisas não saíram como o planejado, além de que
meu genro é um bom filho de uma puta.

— Quais eram os planos? Usá-la como meu ponto fraco?

— Talvez você nunca saiba, não é? — Ouvi um barulho de estalar de língua.


— Mantenha os olhos bem abertos, Don Greco. Posso não colocar meus pés em
solo americano, mas como diz o ditado: quem tem amigos, tem tudo.

Tomei a decisão de desligar na cara do infeliz e fiz o celular deslizar pela


toalha de volta para a dona.

— Avise ao seu chefe que meu tempo é precioso para jogar conversa fora. —
Levantei-me da cadeira, abotoei o paletó e sorri para a ruiva. — Pedi apenas uma
água com gás desde que cheguei. Tenho certeza que Don Negri a paga o
suficiente para acertar a conta.

O desejo de saborear a lagosta da casa sumiu com a indigestão causada pela


voz de Domenico. Voltaria para o escritório, para fazer hora e dar o tempo que
Giovanna pediu com sua amiga. Só esperava que nada mais naquele dia me
deixasse puto. Poderia matar o doutor Kennington se me trouxesse más notícias
no resultado do exame.
GIOVANNA

Susan me encarava com as mãos na cintura e os lábios franzidos, formando


um biquinho chateado. Ela tinha sido escoltada por Carlo até o quarto e ele não
demorou a nos deixar a sós.

— Você disse que estava sozinha. Esqueceu de avisar sobre o exército no


saguão e o cão de guarda aqui na porta. — Sentou-se na poltrona que puxou para
perto da cama e revirou os olhos. — Tenho até medo de perguntar quem é esse
cara com quem se casou.

— Pietro é... importante. E muito rico, então anda cercado por seguranças —
menti, mas não me senti mal por isso, pois não estava muito longe da verdade.
Ele era mesmo rico e importante. Para a máfia.

— Tudo bem, não vou julgar isso. — Sua sobrancelha se arqueou à medida
em que corria os olhos pelo meu corpo de bruços. — Mas posso muito bem
julgar sua condição um tanto inusitada. O que houve? Os vinte e um centímetros
a deixaram descadeirada?

— Misericórdia! Não! — Por que todo aquele tabu a respeito do tamanho do


pênis de um homem? — Nós não transamos ainda, estou assim porque sofri um
acidente.

E para confirmar o que dizia, levantei a camisa o máximo que consegui. Não
tinha o costume de ficar expondo minha nudez por aí, com tanta facilidade, mas
Susan já tinha me visto de calcinha e sutiã quando passei aqueles dias no
apartamento dela.

Ouvi o som alto de seu assobio carregado por descrença quando se inclinou
para me observar de perto.

— Cacete, Giovanna. O que foi isso?

— O box de vidro quebrou comigo. — Puxei a camisa de volta para o lugar e


me ajeitei melhor nos travesseiros, virando-me um pouco de lado. — Estou
literalmente de bunda para cima há uns dias e me sinto à beira de um colapso de
nervos.

— Nossa, que forma terrível de passar a lua de mel. Pelo menos, não foi
nada muito grave, né?

— Não foi, mas os primeiros dias foram difíceis — respondi. — Ainda está
sendo. Os pontos ardem e coçam, aí toda hora eu esqueço que tem ponto e meto
a mão para coçar. Fora que não consigo ficar muito tempo sentada.

Peguei o celular e fiz uma ligação rápida para Carlo, pedindo que ele pegasse
algum suco na cozinha e trouxesse aqui no quarto. Queria poder recepcionar
Susan como ela merecia, mas nem para isso eu estava prestando muito.

— Então, por mais que eu me compadeça muito por você e espero que
melhore logo, estou mais interessada em saber desse casamento. — Ela piscou
com um sorrisinho safado no rosto e cruzou as pernas na cadeira. — Não é todo
dia que a gente encontra um cara bonito, com grana e com dotes tão...
imponentes.

Ela caiu na gargalhada com suas próprias palavras e bateu palmas. Revirei
meus olhos, mas não consegui deixar de acompanhar sua risada.

— Só para esclarecer, eu também sou rica. Não tanto quanto Pietro, mas
minha família tem posses consideráveis. — Dei de ombros e me senti triste ao
lembrar que não havia mais nenhuma família. Bem, se considerasse que eu
talvez fosse filha do Don Negri, então eu era milionária. Uma vantagem nessa
desgraça toda. — Quando nos conhecemos eu não tinha grana porque estava
fugida de casa e meu tio controlava tudo.

— Sei, sei. Ainda estou mais interessada na parte física da coisa.

— Porque você é uma tarada! — Ri, puxando o travesseiro de Pietro e


jogando em cima dela. — Minha nossa, mulher. Eu sou virgem, só para constar.

Ouvimos o pigarro na porta e me contorci toda para ver Carlo ali parado,
com cara de quem ouviu o que podia muito bem morrer sem ouvir. Levantei com
um pouco de dificuldade, mas consegui me aproximar dele com um sorriso no
rosto e peguei a jarra de suco de suas mãos.

— A senhora não deveria estar em pé — falou, mas eu o ignorei e o puxei


pela mão para dentro do quarto.

— Carlo, Susan. Susan, Carlo — apresentei os dois, notando que o pescoço


do segurança ganhou uma coloração rosada.

— Nós já nos conhecíamos, senhora Greco.

— Senhora Greco! — Susan jogou a cabeça para trás enquanto esticava a


mão para ele. — Mas a mulher está mesmo muito chique! E é um prazer, Carlo.

— Igualmente, senhorita. — Ele retribuiu o cumprimento, olhando em volta,


como se procurasse qualquer outro lugar melhor para estar do que ali no quarto.
— Preciso voltar para meu posto.

Ele se curvou. Jesus Maria José, quem se curvava daquela forma? O homem
tinha saído de algum romance de época? Prendi uma risada e deixei que ele se
retirasse, colocando a jarra de suco sobre a cômoda e me jogando de volta na
cama. Olhei para Susan, que mantinha os olhos numa linha estreita na direção
para onde Carlo foi e estalei a língua.
— Solteiro, quarentão e muito, mas muito gente boa — cantarolei, encarando
minha amiga.

— Gay?

— Quê? Não que eu saiba... — respondi, pensativa.

— Qual é a pegadinha, então?

— Nenhuma, só acho que ele trabalha demais, por culpa de Pietro, claro.

— Interessante. — Ela sorriu. — Não tenho muitos quarentões no meu


currículo, mas adoraria acrescentar esse na lista.

— Não, sem brincar com os sentimentos do Carlo, ouviu bem? Ele é um


moço de família. — Da máfia, mas deixei esse detalhe oculto.

Nós duas gargalhamos e Susan se serviu de suco. Só por ela estar ali há
alguns minutos, rindo comigo e conversando sobre nada importante, já me fazia
sentir muito mais leve. Afofei um travesseiro sobre meu tronco e me virei de
lado para olhá-la.

— Preciso de conselhos — admiti, com o coração martelando no peito. —


As coisas estão esquentando entre nós e sei que não vou conseguir fugir de
Pietro por muito tempo.

— Fugir em que sentido? Você não se sente pronta para transar?

— Aquele meu tio, do qual eu fugi, abusou de mim durante anos. Durante
toda a minha adolescência, inclusive. — Não me surpreendia que os olhos dela
estivessem arregalados nem que a mão fosse até a boca. Apenas continuei. —
Nunca houve penetração, mas tudo isso me transformou num ser um pouco
avesso a questões sexuais. E por mais que eu fique com muito tesão quando
estou com Pietro, também morro de medo do ato em si. Já surtei com ele uma
vez e tenho medo de acontecer de novo.

Quando terminei de falar, surpresa comigo mesma por ter conseguido me


abrir com alguém que eu ainda não conhecia tão bem assim, o quarto caiu num
silêncio profundo por longos segundos. Os olhos de Susan estavam brilhantes
com as lágrimas que se formaram e quando ela levantou, jogou-se na cama e me
deu um abraço todo torto e sem jeito. A psicóloga, mesmo depois de só uma
consulta, aconselhou-me que eu começasse a tratar a questão como um fato
normal do meu passado. Era um teste, como se eu contasse sobre viagens que fiz
e experiências que tive. E acho que deu certo com Susan.

— Sinto muito, eu não imaginava — falou, afastando-se com um sorriso no


rosto. — Eu aqui falando um monte de besteira para você...

— Tudo bem. Não tem ninguém que fale mais pornografia que meu próprio
marido.

Ela soltou uma risadinha antes de limpar os olhos e voltar a se sentar na


poltrona. Então, esticou o corpo e tocou minha mão.

— Que bom que pude conhecê-la naquele dia. E fico muito feliz em saber
que se sente confortável comigo para desabafar algo com um peso tão grande
para você.

— Sim, eu me sinto. — Sorri, satisfeita por ter contado. Aos poucos, sentia-
me mais confiante para não precisar continuar mantendo tudo em segredo. — Só
não quero entrar em muitos detalhes sobre o que aconteceu, até porque eu me
sinto muito melhor e mais leve hoje. Acho que superei uma grande parcela dos
meus traumas. Sei lá... Eu acho. E isso tem muito a ver com a forma como o
Pietro faz eu me sentir segura.

— Claro! Eu entendo. — Ela puxou as pernas e as dobrou na poltrona,


acomodando-se e tomando mais um pouco de suco. — Então vamos mudar de
assunto e puxar outro tópico. Esse seu casamento... Que loucura foi essa?

— Isso é algo que eu ainda não posso explicar tudo, mas acho que falei antes
para você, que se tratava de uma tradição do lugar de onde venho. — Encolhi os
ombros, mas não consegui tirar o sorriso da cara. — Desde criança eu já sabia
que me casaria com Pietro. Só não esperava que fosse acontecer tão cedo.

— E nem preciso perguntar, porque está escrito na sua testa que é


apaixonada por ele.

— Sou. — Deitei novamente de bruços, agarrando o travesseiro e


balançando as pernas no ar. — E ele diz que me ama. Tipo, diz várias vezes.
— Que bicha sortuda, hein. Nunca precisou se preocupar em agarrar um
marido e, ainda por cima, descobre que o homem é bem-dotado. — Ela logo
arregalou os olhos e tapou a boca, controlando o sorriso. — Ai desculpa! Cedo
demais para essas piadinhas?

— Nãããão! Eu sou virgem, mas acho que posso dizer que não sou mais
santa. — Revirei os olhos e tapei o rosto, morta de vergonha. — Inclusive, já
provei os tais vinte e um centímetros. Provei mesmo. Você tá entendendo?

— Perfeitamente — respondeu, piscando. — Já sabemos que não é boba,


nem santa. Isso é ótimo! E... gostou?

Custei a acreditar que estávamos mesmo conversando sobre sexo oral e que,
por incrível que pareça, eu me sentia muito à vontade com o assunto. Susan não
julgava nem era daquelas pessoas que ficavam tentando envergonhar a outra por
ser mais experiente. Quando eu era bem mais nova e minhas amigas já tinham
beijado na boca várias vezes, eu sempre me sentia para trás e inferior a elas, pois
adoravam esfregar na minha cara todas as suas novas experiências. Susan, pelo
contrário, não parecia preocupada em contar sobre sua vida sexual e, sim, em
saber da minha.

— Gostei. Morri de vergonha porque quando estamos juntos sempre fico


pensando no quanto ele é tão mais vivido e experiente que eu, mas gostei muito
da sensação. E de ver que ele também estava gostando. Sabe? Ele é sempre tão
controlado e mais maduro, mas ali parecia que eu quem mandava em tudo.

— Sei muito bem. E vou contar um segredo valioso: agarre seu homem com
um boquete espetacular e ele sempre comerá na sua mão.

Ri, chocada.

— Hm... Não sei se posso dizer que fiz algo espetacular...

— São coisas que a gente aperfeiçoa com o tempo. — Ela esticou os pés
sobre o colchão e os balançou, parecendo bem empolgada com minhas pequenas
aventuras. — Agora me diga, ele devolveu o agrado? E não estou falando
daquela lambidinha tímida não. Para ficar casada tão nova, espero que esse
Pietro faça jus à beleza e tamanho dele e saiba dar uma boa chupada.

Fechei os olhos sem conseguir controlar a risada nervosa que escapou pela
minha garganta. Só em pensar no que Susan dizia eu sentia meu corpo esquentar.

— Não! Pelo amor de Deus, não! — respondi. — Ainda tenho um pouco de


vergonha.

— Mas quem melhor do que o seu marido para fazê-la perder a vergonha?
Olha, sério mesmo, um sexo oral bem feito pode ser melhor do que muita
penetração por aí. Eu mesma não consigo gozar só com penetração, sabia?
Agora, imagina eu ir para a cama com um homem que nem sabe chupar uma
xana direito e tem nojinho?

Caramba, muita informação, Susan! Gargalhei, agradecida por só estarmos


nós duas ali.

— Por que eles teriam nojo? — E, de repente, lembrei da minha situação


nada agradável lá embaixo. — Não estou depilada, mas precisei ser muito forte
para impedir que o Pietro batesse um papo com a minha... Ele literalmente
implorou para que eu o deixasse brincar no parquinho.

— E você não deixou? — A boca de Susan se abriu num formato enorme de


“o” e ela jogou a cabeça para trás. — Não acredito, Giovanna!

— Claro que não! Primeiro, porque fico insegura e, segundo, porque estou
cabeluda. Não tenho o costume de ficar depilando, a vida toda eu só raspava a
virilha mesmo. Mas aí vi uns vídeos... — Decidi deixar de fora a informação de
que eles pertenciam ao computador de Pietro. — E, bem, vi que... Acho que ele
prefere as peladas.

Susan arqueou uma sobrancelha e vi quando seus olhos correram pelo meu
corpo, curiosa.

— Olha, eu gosto de tirar tudo porque me sinto mais limpa, sabe? Mas isso é
questão de gosto, tem mulher que prefere deixar alguma coisa. E já cansei de
transar sem estar depilada, nunca foi obstáculo nenhum.

— Mas estou me achando feia... — Rayka vagabunda com certeza não devia
ter um fiapo de pentelho naquele corpo que em breve eu desmembraria.

Meu celular tocou naquele instante e atendi imediatamente porque vi o nome


de Pietro na tela. Ele ligou para perguntar se minha amiga estava lá e se eu
precisava de alguma coisa da rua. Tinha como ser mais perfeito? Conversamos
por uns cinco minutos e, quando desliguei, Susan também encerrava uma
ligação. Ela sorriu para mim, um sorriso maquiavélico.

— Vamos resolver seu problema cabeludo — falou, guardando o celular no


bolso. — Conheço uma depiladora que atende em domicílio e passei o endereço
para ela. Hoje, você será uma nova mulher.

— Você fez o quê? — Considerei a hipótese de sair correndo de casa, mas


nas condições em que me encontrava, não iria muito longe.

Que Deus misericordioso tivesse piedade de mim.

PIETRO

Quando você chega em casa cansado, com tantos problemas na cabeça e


doido para dar um beijo na sua mulher, não espera encontrar seu segurança, o
cara na linha de frente em que você mais confia, com uma expressão desgostosa
e arrependida no rosto. Imaginei que algo estivesse errado assim que pisei no
hall e Carlo me recebeu com os lábios retorcidos.

— Boa tarde, Don Pietro. Podemos conversar?

— Vamos ao escritório — respondi, abrindo a porta de casa. — Pela sua


cara, sei que vou ouvir más notícias.

— Prefiro falar aqui mesmo, Don Pietro. — Eu me virei e Carlo deu um


sorriso sem graça, enfiando as mãos nos bolsos. — Sabe que o respeito muito e
em nenhum momento quis que isso acontecesse, mas sou homem o suficiente
para esclarecer tudo e avisar que não se repetirá. Tomarei mais cuidado de hoje
em diante.

— Carlo, quer me fazer enfartar? Diga logo!

— Vi sua esposa nua. — Como se deixasse bem claro que não tinha nada a
esconder, o segurança empinou o queixo. Ou talvez o estivesse oferecendo para
levar um soco. — Foi uma confusão, ela começou a gritar, achei que as moças a
estivessem fazendo mal e...

— Pare — pedi, apoiando a mão no ombro dele e respirando fundo. Queria


mesmo matá-lo, mas sabia que Giovanna era capaz das coisas mais absurdas de
todas. — Explique melhor.

— A senhora Greco recebeu a visita de uma amiga. E logo depois, chegou


outra. Alguns minutos se passaram até que ela começou a gritar descontrolada e
eu invadi o quarto. — O pobre homem suspirou e baixou os olhos como se
aquele fosse um fardo muito grande. — Ela somente estava fazendo depilação.
Eu saí imediatamente ao compreender a cena, mas acho que a senhora Greco não
ficou muito feliz.

— Entendo. Tudo bem. — Dei um tapinha no braço dele e entrei em casa o


mais rápido possível antes que o ciúme me cegasse. Se ela estava se depilando,
Carlo deve tê-la flagrado numa posição bastante comprometedora.

Enquanto caminhava até o quarto, tirando a gravata e desabotoando a


camisa, percebi que Giovanna tinha diminuído bastante a temperatura do
apartamento. Quase me senti dentro de um iglu.

Parei, rindo sozinho. Ela parecia estar dormindo, mas de bruços, com as
pernas arreganhadas e um pedaço do lençol cobrindo apenas a bunda. Os braços
também estavam esticados para o lado e, ao me aproximar um pouco mais, ouvi
um ronco. Nada elegante, totalmente Giovanna.

Como eu era um cara muito legal com ela, mas ainda era Pietro Greco, não
resisti à curiosidade. Puxei devagar a pontinha do lençol só até descobrir um
pedaço daquele traseiro arrebitado. Agachei no colchão e precisei baixar bem a
cabeça para poder visualizar aquele pedaço lindo de carne, com a pele
avermelhada pela depilação. Estava fechadinha e recatada, mas puta que pariu,
era um hambúrguer delicioso.

Pulei da cama, apavorado. Queria comer Giovanna. Queria muito. Precisava


começar a investir nisso antes que morresse de pau duro. Mas como não
aconteceria naquele momento, decidi ir para debaixo do chuveiro e bater mais
uma porra de punheta. Estava começando a odiar minha própria mão.
GIOVANNA

Abri os olhos com vontade de voltar a fechá-los e dormir mais um


pouquinho. Meu corpo ainda reclamava de todo o sof